UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE - UNESC CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO EM DIDÁTICA E METODOLOGIA DO ENSINO SUPERIOR DIPAULA MINOTTO DA SILVA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DO PSICÓLOGO: INTERLOCUÇÕES ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA. Criciúma, Setembro de 2006 DIPAULA MINOTTO DA SILVA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DO PSICÓLOGO: INTERLOCUÇÕES ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA. Monografia apresentada à Diretoria de Pósgraduação da Universidade do Extremo Sul Catarinense - UNESC, para a obtenção do título de especialista em Didática e Metodologia do Ensino Superior. Orientador: Prof. M.sc. Edelu Kawahala Criciúma, Setembro de 2006 AGRADECIMENTO A Edelu, Mestra, orientadora, cuidadora, semeadora; Ao João, amor, companheiro, amigo e profissional; Àquelas instituições que colaboraram prontamente; Aos usuários, que foram inspiração para a pesquisa. “A mudança não é um trabalho exclusivo de alguns homens, mas dos homens que a escolhem”. Paulo Freire RESUMO A presente pesquisa teve como objetivo avaliar os cursos de psicologia do sistema ACAFE, no sentido de verificar se a formação ofertada dá subsídios para intervenção em CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Para tanto, trata-se de uma pesquisa bibliográfica documental, realizada a partir da análise de ementas, matrizes ou grades curriculares, e planos de ensino, de sete cursos de psicologia do sistema ACAFE. Das matrizes curriculares e ementas, foram selecionadas todas as disciplinas que de alguma forma vão influenciar a práxis do psicólogo que venha a ser inserido no CAPS. Estas disciplinas foram classificadas em quatro diferentes categorias, de acordo com o grau e a forma como influencia na formação, a partir dos dados obtidos pelas ementas e planos de ensino. São as categorias: disciplinas formadoras básicas (DFB), que discutem diretamente os CAPS, serviços substitutivos e intervenção psicossocial; disciplinas formadoras complementares (DFC), que discutem questões pertinentes aos temas dando subsídios a uma práxis antimanicomial; disciplinas formadoras periféricas (DFP), que discutem questões que passam de forma mais superficial aos temas e/ou possibilitam um olhar abragente do sujeito; e disciplinas formadoras do modelo médico-centrado (DFMMC), que direcionam para uma práxis institucionalizadora e exclusora. Os resultados mostram que a maior parte, seis dos sete cursos avaliados, possui expressiva ênfase no modelo médico-centrado na formação ofertada. Tal resultado dá base para a compreensão das dificuldades sentidas a respeito da necessidade de uma práxis antimanicomial que fortaleça tanto a profissão como os CAPS. Palavras-chave: Formação, psicólogo (a), CAPS, práxis antimanicomial. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 6 2. CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) – Origem e Contexto ...................... 10 2.1. Construção Social da Loucura ....................................................................... 11 2.2. Desinstitucionalização e Cidadania ............................................................... 20 2.3. Reforma Psiquiátrica e Movimento de Luta Antimanicomial....................... 23 2.4. CAPS................................................................................................................. 28 2.4.1. CAPS I............................................................................................................ 34 2.4.2. CAPS II........................................................................................................... 35 2.4.3. CAPS III.......................................................................................................... 35 2.4.4. CAPS i II......................................................................................................... 36 2.4.5. CAPS ad II ..................................................................................................... 37 3. HISTÓRIA DA PSICOLOGIA............................................................................... 39 3.1. Psicologia Social ............................................................................................. 47 3.2. Psicologia na Saúde........................................................................................ 49 3.3. Formação em Psicologia ................................................................................ 54 4. METODOLOGIA................................................................................................... 58 5. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ..................................................... 63 6. CONCLUSÃO ...................................................................................................... 69 REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 71 6 1. INTRODUÇÃO Dedica-se com esta pesquisa, problematizar a formação em psicologia no âmbito da saúde mental coletiva, mais especificamente em relação à prática do profissional da psicologia nos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial). Este ano – 2006 – o Conselho Federal de Psicologia considera como tema de foco da categoria o tema: saúde. Desta forma está concentrando suas atenções mais especificamente para o campo da saúde pública como área de discussão enquanto campo de atuação da psicologia. A psicologia historicamente ocupa os espaços: clínico (em geral consultórios particulares), escolar, organizacional, e espaços sociais – comunitários, além de outros como hospitalar, forense, do esporte, entre outras. A necessidade do profissional da psicologia na saúde pública vem se apresentando cada vez mais, ao mesmo tempo em que se questiona as competências do profissional para esta tarefa. Psicólogos, gestores, universidades e o Conselho Federal de Psicologia estão questionando e repensando a questão da formação. O Conselho Federal de Psicologia e o MEC estão propondo mudanças nas grades curriculares no sentido de adequar à formação do psicólogo para atuação no Sistema Único de Saúde. Atualmente a Coordenação de Saúde Mental da Secretaria Estadual de Saúde de Santa Catarina, no Plano Estadual de Saúde, de acordo com o Ministério da Saúde e com a lei 10.216/2001, propõem a criação gradativa de serviços substitutivos ao modelo tradicional – hospitalocêntrico. A rede deve contar com uma gama de serviços que garantam o atendimento de acordo com as necessidades dos 7 usuários do SUS, como residências terapêuticas, leitos para emergências em hospitais gerais, centros de convivência, trabalho de saúde mental junto à atenção básica, entre outros. Porém, os CAPS têm sido os serviços que mais tem ganhado atenção dos governos municipais, estaduais e federal. Em Santa Catarina são 36 CAPS, segundo o Plano Estadual de Saúde (2004) enquanto os demais serviços necessários para constituição da rede serviços substitutivos quase inexistem. Sendo ainda que os hospitais psiquiátricos continuam com um total de 1.166 leitos credenciados pelo SUS no estado. Portanto, neste processo de mudança de modelo de atenção em saúde mental, os CAPS estão recebendo maior espaço da atenção dos gestores, na substituição progressiva de leitos em hospitais psiquiátricos, principalmente pelo fato de os serviços receberem incentivos financeiros do Ministério da Saúde direto aos municípios, caracterizando-os como serviços que se auto-sustentam. E embora haja por parte do Ministério da Saúde, financiamento para outras modalidades de serviços substitutivos, muitas vezes estes são desconhecidos pelos municípios. Segundo a portaria 336/2002 (Anexo I) os CAPS devem atuar como serviços matriciais na rede de serviços, o que não vem acontecendo pela falta dos demais serviços. Os CAPS então surgiram após um posicionamento crítico de profissionais da saúde pública de hospitais psiquiátricos do Rio de Janeiro, que na década de 70, não mais podiam com a forma de atuação nesses espaços, lutando por maior respeito e dignidade aos internos e profissionais. Após tal manifestação iniciou um processo de organização de movimento social. Inicialmente como o MTSM (Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental) do qual mais tarde surgirá o MLA 8 (Movimento de Luta Antimanicomial). Com a lei 10.216/2001 o MLA conquista a possibilidade de uma política nacional que tem como objetivo a gradativa substituição do modelo hospitalocêntrico em atenção à saúde mental para um modelo de rede de serviços substitutivos ao manicômio. Os CAPS, enquanto parte da rede de serviços substitutivos, deve ter como objetivo gerar cidadania, criando espaços de desenvolvimento de autonomia àqueles que por décadas foram segregados dentro de instituições psiquiátricas e/ou evitando novas internações e re-internações, dialogando com os demais serviços. Porém, as possibilidades de reprodução de uma prática manicomial, ou seja, de uma postura institucionalizadora, excludente para com os usuários do serviço, tem sido uma das maiores barreiras concretização do o serviço enquanto realmente substitutivo ao manicômio. Neste sentido, problematizar a questão da formação profissional, para atuação nos CAPS, aparece como um dos elementos chave para transformação do paradigma de assistência em saúde mental. Nesta perspectiva, optou-se por um recorte que trouxesse psicólogo e a sua formação como foco desta pesquisa, assim enfatiza-se a relevância de verificar a partir das disciplinas e ementas dos cursos de psicologia do sistema ACAFE, se a formação oferece subsídios para que o profissional atue nos CAPS, de forma a contribuir para efetivação de seu papel enquanto serviço substitutivo. Tal objetivo parte também de inquietações referentes à minha trajetória como pesquisadora, militante do Movimento de Luta Antimanicomial e como coordenadora de CAPS, bem como a necessidade de produção teórica que fortaleça a implementação das mudanças curriculares propostas pelo Conselho Nacional de Educação e pelo CFP (Conselho Federal de Psicologia). 9 Durante a graduação em psicologia, participei durante dois anos de um projeto de capacitação em saúde mental com profissionais do ESF (Estratégia Saúde da Família) no município de Forquilhinha. Em seguida pesquisei a militância política de usuários de serviços substitutivos enquanto estratégia de reabilitação psicossocial em meu trabalho de conclusão de curso. Todas estas experiências de pesquisa, ação comunitária e militância na luta antimanicomial com a Ms. Edelu influenciaram de forma significativa em minha formação em psicologia. Posteriormente, enquanto profissional, minha inserção no CAPS iniciou como voluntária onde durante 10 meses, onde realizei um grupo semanal com os usuários, chamado grupo de Cidadania. Posteriormente atuei enquanto gerente do CAPS por um ano. Esta experiência gerou as maiores inquietações a cerca dos objetivos desta pesquisa. Diante deste quadro, a especialização em Didática e Metodologia do Ensino Superior, me proporcionou este espaço para pesquisa. A idéia de poder me dedicar à carreira docente me estimulou a direcionar meus estudos a questões que podem contribuir para a formação em psicologia. Com isso, busco contribuir para formação de novos profissionais que atuem nos serviços, que tenham como práxis pautada no respeito e dignificação dos usuários ao invés de uma postura para com os que sofrem psiquicamente, numa perspectiva de reabilitação psicossocial ao invés de ”cura de doença”. 10 2. CAPS (CENTRO DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL) – ORIGEM E CONTEXTO A “loucura” vem durante a história mudando de espaço, seja ele enquanto tema de estudos acadêmicos, ou objeto de intervenção e compreensão dos profissionais da saúde, bem como de vivência. Desta forma, começa a deixar os espaços reservados pela era clássica (asilos, sanatórios) para ocupar espaços sociais como os CAPS, as universidades, o controle social, as residências terapêuticas, as comunidades, entre outras. Após uma leitura da trajetória histórica acerca da questão será possível compreender o atual contexto da “loucura” e dos CAPS. Somente após esta leitura poderemos fazer uma avaliação da formação do psicólogo, uma vez que este profissional em geral faz parte das equipes que lidam com o sofrimento psíquico desde o inicio de sua profissionalização. Os CAPS têm sido espaços privilegiados para receber estes profissionais no campo da saúde pública, porém há questionamento entre a práxis dos (a) psicólogos (a) diante da necessidade que este novo modelo direciona. Faz-se importante neste momento contextualizar a construção social da loucura, os conceitos de institucionalização e desinstitucionalização, a Reforma Psiquiátrica e o Movimento de Luta Antimanicomial. Onde estes últimos discutem a organização de mecanismos de pressão para a criação de políticas públicas que promovam a mudança do modelo na atenção em saúde mental, onde nascem os CAPS. 11 2.1. Construção Social da Loucura Historicamente a forma como se configura o que hoje conhecemos como loucura, teve seu inicio na era clássica, após o protestantismo. Neste período, muitas eram conhecidas como formas de "inutilidade social", como os mendigos, leprosos, idosos, e entre estes, os ditos loucos. De acordo com Foucault (1961), todos eram rejeitados e condenados pela condição de ociosidade. Visto como fator de exclusão e explicado por sua percepção moral, a ociosidade era uma ofensa aos princípios da Igreja, como um grave desagrado a Deus. Sendo assim todos os que não trabalham, eram vistos como não dignos da misericórdia divina. A classe dos "loucos" bem como todas as classes consideradas inúteis ao Estado recebeu no século XVII na Europa, um local específico com o objetivo de retirá-los do convívio social. Tais espaços eram os antigos leprosários que há mais de dois séculos estavam abandonados, ganhando assim uma nova função, de receber e confinar os “loucos”. O confinamento atualmente conhecido como internação, recebeu seu lugar e função, de controle a uma ordem social desejada possuindo, "significações políticas, sociais, religiosas, econômicas e morais" (FOUCAULT, 1972, p.53). Entre as justificativas para a internação, estava a compreensão de que a "loucura", na era clássica, era percebida enquanto a ausência da razão. O “louco” era aquele sujeito desprovido da capacidade de pensar. “Não se pode supor, mesmo através de pensamento, que se é louco, pois a loucura é justamente a condição de impossibilidade do pensamento” (FOUCAULT, 1972, p.46). 12 Ainda neste período, a internação apareceu como uma prática da Igreja de assistência aos pobres e como uma preocupação burguesa de se manter uma sociedade em ordem, onde a miséria, o feio, o estranho, não deviam aparecer. A questão da moral, de que a desrazão justificava a loucura, encontrava na miséria seu sentido de valor. Por ter sido desprovido da misericórdia de Deus, o miserável recebia o castigo: (...) o Hospital Geral não tem o aspecto de um simples refugio para aqueles que a velhice, a enfermidade ou a doença impedem de trabalhar; ele não terá simplesmente o aspecto de um ateliê de trabalho forçado, mas antes o de uma instituição moral encarregada de castigar, de corrigir uma certa "falha" moral que não merece o tribunal dos homens mas que não poderia ser corrigido apenas pela severidade da penitencia. (FOUCAULT, 1972, p. 74). A “loucura” equivale, portanto, tanto à questão religiosa, do medo de rejeitar a caridade divina dos representantes de Deus, quanto, até final do século XVIII, o valor moral ligado aos desejos de uma sociedade burguesa, de controle e ordem social. A noção de “loucura” enquanto “falha” moral influência até os dias atuais a atuação de muitos profissionais – entre estes o psicólogo -, familiares e comunidades. Esta noção que nasceu com a idéia de inutilidade, de nãoprodutividade, de desordem e de periculosidade, é fortalecida com as formas que recebeu e ainda recebe – como resquício desta lógica – de “tratamento”. O “tratamento”, que historicamente foi concebido pela Igreja, pelo Estado e mais tarde pela medicina, passa mais pela vertente da punição e adequação, ao invés de significar cuidado e respeito à subjetividade. A respeito da questão da moral, ao final do século XVIII, com as idéia do iluminismo, iniciaram com crescimento gradativo as denúncias em relação à internação, entendidas como torturas disfarçadas sob forma de tratamento médico. De acordo com Resende (2000) sobre o tratamento moral: 13 (...) se as amarras que atavam fisicamente os doentes mentais foram efetivamente rompidas, outras surgiram, tanto mais perigosas, porque sutis, consentidas e sofisticadas. Em lugar das correntes, dizem <<...reconstituiuse em torno deles (os loucos) todo um encadeamento moral que transformava o asilo numa instância perpétua de julgamento; o louco tinha que ser vigiado nos seus gestos, rebaixado nas suas pretensões, ridicularizado nos seus erros...>> ou como sintetizou Amarante: <<A grosso modo o tratamento moral é a utilização conveniente da disciplina, onde todos os aspectos que compõem a instituição asilar concorrem para este fim>>. Para este segundo grupo de autores, portanto, os reformadores do século XVIII nada mais teriam promovido senão a substituição da violência franca pela violência velada da ameaça e das privações. (RESENDE, 2000, p. 26) Com o crescimento da sociedade industrial - capitalista, não produzir tinha importante peso enquanto valor moral neste período. Neste sentido, com o advento da internação, os hospitais psiquiátricos mantiveram reclusos todos os desempregados considerados improdutivos. O trabalho com isso foi levado para dentro das instituições, e os internos passaram a servir de “mão-de-obra barata nos tempos de desemprego, reabsorção dos ociosos e proteção social contra a agitação e as revoltas” (FOUCAULT, 1972, p. 67). A ociosidade foi transformada, portanto, em trabalho obrigatório dentro dos hospitais psiquiátricos, com vistas a privilegiar a instituição. As significações que a internação ganha no século XVII, são de um mito, onde: Para a Igreja Católica, bem como para os países protestantes, a internação representa, sob a forma de um modelo autoritário, o mito da felicidade social: uma polícia cuja ordem seria inteiramente transparente aos princípios da religião, e uma religião cujas exigências seriam satisfeitas, sem restrições, nas regras da polícia e nas coações com que se pode armar. Existe nestas instituições, como que uma tentativa de demonstrar que a ordem pode ser adequada a virtude. (FOUCAULT, 1972, p. 77) Estes espaços foram mais tarde denominados por Goffman (1961) de Instituições Totais, caracterizadas principalmente pela questão do fechamento, que simboliza a separação dos indivíduos institucionalizados com o mundo externo. 14 O ponto central das instituições totais é o fato de estas romperem com aspectos fundamentais da vida dos que participam dela. Ou seja, as atividades que antes eram realizadas em ambientes diferentes e sob relações de pessoas e autoridades diferentes, passam a ser realizadas sempre em um mesmo lugar, com os mesmos participantes e sob as mesmas autoridades (GOFFMAN, 1961). Regras rígidas como imposições de horários e de tarefas, autoritarismo e verticalidade nas decisões, caracterizam uma instituição total, que deixa claro quem tem o controle (poder) que rege este espaço. Os sujeitos não participam de forma voluntária neste processo como em outras instituições, como no comércio ou na família. São desta forma, "arregimentados". Na vida cotidiana das instituições totais, certas manifestações de desrespeito acabam por desenvolver alienação nos internos. A questão do trabalho também é descrita como uma das manifestações alienantes, quando da mesma forma que as outras atividades diárias foram por muito tempo um imposição institucional. Desconsiderando assim as habilidades potências de cada ser. Estimulando "o indivíduo que no mundo externo estava orientado para o trabalho tende a tornar-se desmoralizado pelo sistema do trabalho da instituição total” (GOFFMAN, 1961, p. 22). Uma instituição total, que têm ainda como características ser reguladora e dominadora, onde todo e qualquer ato do interno pode ser julgado pela equipe administradora. Este julgamento irá determinar a forma como será tratado com conseqüências que tem implicância direta na questão da sua autonomia. As regras e obrigações da instituição, não deixam escolhas aos internos, bem como a falta de comodidade que antes possuía no mundo externo, pois já não possui recursos para 15 poder exercer seu poder de escolha. É importante ressaltar, que estas características, mesmo se dando em instituições totais (manicômios) podem e são em muitos casos reproduzidos em espaço de atenção psicossociais abertos. Essa reprodução é fruto de uma lógica de conhecimento enquanto poder sobre o outro. Tais atos gerados pelo processo de institucionalização levam aos sujeitos, marcas que causam em geral sérias dificuldades de retorno ao convívio social. Evidencia-se com isso a função social da internação, de exclusão, na busca de uma sociedade visivelmente adequada aos desejos de ordem, onde o incompreensível, o diferente, os desejos e necessidades coletivas, o sofrimento real e subjetivo dos sujeitos excluídos, desconsiderados. Diante deste quadro, na Europa do século XIX, após o período do iluminismo e da Revolução Francesa, nasce à psiquiatria com a finalidade de dar a estes espaços um novo sentido, o de “tratar” os sujeitos que lá se encontravam, de acordo com os conhecimentos “científicos” desta nova profissão. Por sua vez o Estado passa a responsabilidades dos “loucos” à psiquiatria. Sobre esta questão, Ramos e Geremias, ao narrar a história do Instituto Philippe Pinel descrevem: A medicina mental tornou-se a primeira especialidade médica propriamente dita, sua primeira legislação específica (França-1838) antecedeu em meio século toda legislação referente às outras reformas sociais, e os médicos alienistas, por sua vez, constituíram o primeiro corpo de profissionais de saúde oficialmente designados e mantidos pelo Estado. Desta forma, era praticamente uma obrigação para qualquer governante "esclarecido" dedicar-se à criação de asilos para alienados e respeitar a "ciência" produzida pela nova medicina mental. (RAMOS; GEREMIAS, 2000. p.6). Dedicado ao “tratamento” da “loucura”, Phillipe Pinel é reconhecido como precursor no uso dos conhecimentos médico-psiquiátricos neste novo cenários. Traz consigo também um novo conceito para o fenômeno da loucura, passando a ser chamada de doença mental. 16 A expressão “doença mental” é característica da abordagem biologicista ou organicista, que trás consigo a noção de cura. E para tanto, as intervenções da psiquiatria e de um arsenal de novos instrumentos, ganham lugar na história e nas vidas destes sujeitos. Porém, com uma falsa idéia de que o abandono e a violência dariam lugar ao tratamento médico, quando na verdade a continuidade à opressão, a falta de espaços de expressão e de subjetividade, e a falta de cuidados com esta, eram caminhos que esta nova área de conhecimento vinha percorrer. Isto porque o contexto sócio-político do período solicitava por instrumentos mais especializados e refinados de opressão e poder. Para Baságlia, a psiquiatria: (...) nasceu como elemento de libertação do homem – devemos recordar que Pinel libertou os loucos das prisões, más, infelizmente, depois de tê-los libertado, colocou-os em outras prisão que se chama manicômio. Começa assim o calvário do louco e ao mesmo tempo a grande fortuna do psiquiatra. Depois de Pinel, se nós olharmos toda a história da psiquiatria, veremos que nela sobressaem nomes de grandes psiquiatras. No que se refere ao doente mental, só existem denominações ou rótulos, como histeria, esquizofrenia, mania, astenia, etc, etc... (...) a psiquiatria, desde seu nascimento, é em si uma técnica altamente repressiva que o Estado sempre usou para oprimir os doentes pobres, isto é, a classe operaria que não produz. (BASAGLIA, 1982, p.13) Neste processo, Pinel dá à “doença mental”, não mais o valor da desrazão da era clássica, mas de experiência humana como objeto de estudos da psiquiatria, “um transtorno das funções intelectuais, funções superiores do sistema nervoso. A loucura é uma doença que altera as funções do sistema nervoso, na ausência de febre e/ou lesões orgânicas de base” (RICCIARDI, 2002, p.1). Além disso, Pinel se dedicou ao trabalho de classificar tais fenômenos, nomeando e agrupando objetivamente conforme suas características, desconsiderando ao máximo as características subjetivas, organizando-as em categorias ou classes. O ato de classificar e nomear tais fenômenos, fora realizada em toda medicina no período, não apenas na psiquiatria. A nomenclatura medica é de uma abordagem 17 sistemática que serviu e atualmente ainda serve para a concretização e fortalecimento de uma psiquiatria positivista. Pinel descreveu três possíveis causas para a “doença mental”, que são: hereditária, física ou moral. As causas morais estão relacionadas com os estados de paixão pelos quais o sujeito tenha passado e pelos excessos da vida. Desta forma, Pinel deu significativa importância a questão moral enquanto causa da “doença mental”, propondo para tanto um “tratamento” de mesma origem. Ou seja, o chamado “tratamento moral”, com o objetivo de controle e adaptação. Neste, pela lógica, sugere que o “doente” seja mantido fora do convívio social para possível monitoramento e controle. Isto porque, se a paixão desvirtuosa é causa do seu “adoecimento”, o sujeito deve ser mantido distante do campo de ação, sensação e percepção que contribuem para tal quadro. A psiquiatria de Pinel é de significativa influência para a visão organicista e positivista que o campo da psicologia vai adquirir. O tratamento moral utilizado como terapêutica foi e é também prática da psicologia. O poder do conhecimento psíquico neste sentido teve seu valor nas instituições asilares, como descrito por Ricciardi (2002), ao descrever a história do nascimento da psiquiatria na Europa. Na analogia realizada por Thomas Szasz (1971) sobre a psiquiatria e a inquisição, um elemento em comum acontecia entre o trabalho dos "caçadores de bruxas", e o trabalho dos "caçadores de loucos", onde, mesmo que a feitiçaria fosse um problema teológico, a caça e a identificação poderiam ser realizadas por caçadores comuns. Bem como na Psiquiatria Institucional, apesar de a "doença mental" ser um trabalho de médicos, o diagnóstico pode ser realizado por 18 psicólogos. Em ambas, o sucesso e o triunfo dos identificadores, correspondem à quantidade de sujeitos identificados/diagnosticados. Esta discussão, que se dá no âmbito da compreensão da loucura, e tem relação com os mitos que perduram historicamente. Tais mitos se justificam na forma de ideologia, no intuito de explicar e justificar a internação (SZASZ, 1971). Neste caso, o mito da "loucura" subjuga os indivíduos, fazendo-os perder seus direitos de cidadão perante a sociedade. Outros pontos em comum são levantados na analogia proposta por Thomas Szasz. São estes: a) a necessidade da identificação e classificação (diagnóstico) – neste a confissão era um fator importante, tanto na feitiçaria, quanto na “insanidade” – pois a partir da confissão que o indivíduo era condenado com "justiça", e em ambos existiam métodos próprios para que esta confissão acontecesse; b) o fator econômico – na época de "caça as bruxas", os bens das condenadas eram distribuídos entre os Inquisidores e seus cúmplices, da mesma forma a Psiquiatria Institucional tem lucros com as internações; c) a dominação e a opressão exercida pela autoridade recebida do Estado – o mito da “doença mental” levou os Estados darem aos médicos a autoridade no assunto, enquanto detentores do saber sobre os indivíduos "doentes", assim como o mito da feitiçaria levava os caçadores de bruxas a receberem da Igreja e do Estado, autoridade e poder sobre as mesmas. Tanto na psiquiatria institucional quando na inquisição, "A perseguição de feiticeiras e de loucos é a expressão de intolerância social e uma busca de bodes expiatórios" (SZASZ, 1971, p.144). O poder social, de incluir ideologias, crenças e valores, refere-se ao objetivo de organizar a sociedade, principalmente no sentido moral durante alguns 19 séculos, que impunha tais valores e ideologias de forma coerciva. Seja por ameaças de que se está indo contra Deus, no caso da "feitiçaria", ou por se estar indo contra aos conhecimentos científicos da mente, no caso da "doença mental". O poder social através da Inquisição tinha a função de interrogar os sujeitos e garantir que a população acreditasse e aceitasse a opinião religiosa de acordo com os ideais morais de sua época, onde o bem o mal "significam duas classes conflitantes de seres humanos, os vencedores e as vítimas" (SZASZ, 1971, p. 152). Os hospitais psiquiátricos, sanatórios ou manicômios – com a psiquiatria institucional - materializam esta função social – da internação. Neste caso, as bases ideológicas da moral deram subsídios para condenação e marginalização de sujeitos da sociedade por seu sofrimento ou diferença. Em contraponto à psiquiatria institucional, nos anos 60, nasceu a antipsiquiatria, como parte de uma corrente de contestação cultural e política do período. Como ponto estratégico, esse movimento tinha críticas ao objeto, às teorias e aos métodos da Psiquiatria Institucional e da Psicopatologia. Os principais autores desse movimento foram Ronald Laing, David Cooper e Aaron Esterson, que insistiram na idéia de que as concepções "científicas" da loucura e seus recursos de tratamento eram demasiadamente violentas, com serviam como instrumento de alienação política, econômica e cultural da sociedade moderna. Segundo Amarante: A Antipsiquiatria busca um diálogo entre a razão e loucura, enxergando a loucura entre homens e não dentro do homem. Critica a nosografia que estipula o ser neurótico, denuncia a cronificação da instituição asilar e considera até a procura voluntária do tratamento psiquiátrico uma imposição do mercado ao indivíduo que se sente isolado da sociedade. (AMARANTE, 1995, p. 47) 20 Este diálogo entre razão e loucura proposto pela antipsiquiatria, á a base da proposta de uma nova práxis dos profissionais da saúde mental, aqui mais especificamente, dos psicólogos. Nesta, a intenção é de que uma nova forma de olhar e agir, pautadas na idéia de respeito à subjetividade, na criação de espaços de cuidados e de expressão, ou seja, de relações, de trocas afetivas possibilitando não apenas a convivência social, mas a possibilidade de trocas reais (contratualidade) com a mesma, de autonomia (PITTA, 2001). 2.2. Desinstitucionalização e Cidadania Após anos de reprodução destas formas que culturalmente perduram, de lidar com os ditos “loucos” – mais tarde denominados pela medicina de “doentes mentais” – iniciou-se discussões a cerca da forma de olhar e consequentemente de lidar a questão. A forma como atualmente se configuram nos modelos de atenção em saúde mental, decorrem principalmente da percepção de alguns profissionais, de que as formas tradicionais de “tratamento” da psiquiatria institucional não davam conta do sofrimento de pessoas, que por décadas tiveram apenas em instituições psiquiátricas totais, a única forma de atenção. A partir das experiências em Gorízia e Trieste, Baságlia (1968) realizou tentativas de transformações dentro dos espaços manicomiais, no sentido de melhorar as condições de vida das pessoas internadas diante de tal quadro. Após as tentativas de reformas e mudanças dentro das instituições, Baságlia chegou à conclusão de que o insucesso destas deveria refletir em uma nova trajetória no campo da psiquiatria. A partir de suas experiências, é que o conceito de desinstitucionalização recebeu novo sentido. 21 O conceito de desinstitucionalização recebeu novo sentido, pois passou a ser compreendido por Baságlia não apenas como o ato de desospitalização, mas nasceu a partir de uma crítica institucional, sendo que para Baságlia o processo de institucionalização é: (...) o complexo de "danos" derivados de uma longa permanência coagida no hospital psiquiátrico, quando a instituição se baseia sobre princípios de autoritarismo e coerção. Tais princípios, donde surgem as regras sob as quais o doente deve submeter-se incondicionalmente, são expressão e determinam nele uma progressiva perda de seu interesse de que, através de um processo de regressão e de restrição do Eu, o induz a um vazio emocional (BASÁGLIA, apud AMARANTE, 1996, p.84). Desinstitucionalizar neste sentido passou a ser parte de um projeto de desconstrução da práxis da instituição psiquiátrica. A função de segregação e exclusão para o controle social é justificada segundo Amarante (1996), pelas contradições desta práxis. Neste sentido Baságlia trouxe um outro conceito, que é o de "negação à instituição", caracterizada por negar a instituição psiquiátrica enquanto ideologia, a partir de suas contradições. Estas contradições, segundo Baságlia (1968), existem principalmente pelo fato de que a própria psiquiatria institucional contribui para manutenção do sistema institucional, ao negar sua prejudicial influência à vida dos sujeitos internados, enquanto um sistema de exclusão. Tal contradição mostra a necessidade da desconstrução e superação do aparato institucional - manicomial. Mas para que isso aconteça, é necessário que a própria instituição questione suas ações. Para transformar esta realidade, é necessário sair do território exclusivamente psiquiátrico e construir na sociedade as condições para que ela, enquanto espaço real da vida humana participe da solução. (AMARANTE, 1996, p.75). 22 As novas experiências devem ser realizadas não mais apenas no espaço hospitalar, ou institucional. Isto por sua vez necessita de um profissional novo, de uma nova formação. Básaglia ao descrever como se deu o processo de mudança do modelo de assistência em saúde mental italiana, do modelo hospitalar, para um modelo comunitário, relata – conceitua - vocação inautêntica e vocação terapêutica. A vocação inautêntica, é descrita como a forma mecânica de reproduzir técnicas padronizadas que desconsideram a originalidade do sujeito “desviante”, desta forma perdendo a chance de conhecê-lo, de conhecer sua loucura (BÁSAGLIA, 1991). A vocação terapêutica ao contrário, permite olhar para o social, para as relações e ver nela, junto com ela – pois não se diferencia pela “superioridade do conhecimento” – novas e diferentes possibilidades de um encontro terapêutico. De acordo com Baságlia, armadilhas como as de sedução e gratificação nestas relações, produzidas na fascinação institucional da dependência dos internos em relação à equipe, são decorrentes de uma atuação paternalista e autoritária desta equipe. Ou seja, uma práxis de vocação inautêntica. Uma relação terapêutica autêntica tem como princípios: romper com a relação de poder/saber; construindo relações de contratualidade; criando novas estratégias, que substituam as formas antigas e reprodutoras do modelo manicomial, no sentido de gerar autonomia; dar espaço para “aflorar as formas ocultas de sofrimento, submeter à análise e à crítica coletiva a organização social e as suas práticas expulsivas” (BASÁGLIA, 1991, p.39). A vocação terapêutica é em si um constante auto-questionamento, bem como um questionamento coletivo, com o coletivo, onde as relações acontecem. Deve, portanto investir no social. 23 A luta de classes é caracterizada como uma das formas de expressão de tal vocação. O ato de não se deixar “cronificar”, de propor e construir a mudança de acordo com o ideal do ser terapeuta, cuidador ao invés de “vigilante”, dominador. De ir à comunidade ao invés de marginalizá-la. Foi através desta noção que muitas mudanças e reformas aconteceram a acontecem atualmente. 2.3. Reforma Psiquiátrica e Movimento de Luta Antimanicomial Sabe-se a partir do século XIX a "loucura" foi transformada em objeto de estudo da medicina e com isso, passou a ser chamada de doença mental, e que a psiquiatria seguia da mesma forma que outras ciências, uma matiz positivista, limitando-se a classificar a partir de observações o que chamavam de distúrbios nervosos. Segundo Amarante (1996), a prática médica psiquiátrica, tinha como principais recursos a medicalização e terapeutização. O mito do "doente mental" deu uma caracterização de periculosidade aos “loucos”, reforçando a idéia de necessidade de reclusão. Com críticas a este modelo de psiquiatria de assistência em saúde mental, inicia-se a Reforma Psiquiátrica no Brasil. Porém, as primeiras reformas foram realizadas especificamentemente ao âmbito asilar segundo Amarante. Esta reforma teve como instrumento a Psicoterapia Institucional, que buscou criar ou resgatar o potencial terapêutico dos hospitais, bem como com as Comunidades Terapêuticas, que apesar de adotar novas medidas administrativas, com finalidade de serem democráticas e participativas, não se desvencilhava da problemática da exclusão gerada pela institucionalização. 24 Num segundo momento a Reforma Psiquiátrica propôs a superação desta reforma restrita ao âmbito asilar. Houve com isso a idéia de se levar à psiquiatria as comunidades, com a Psiquiatria de Setor. Esta proposta tinha como objetivo, tirar os internos dos espaços manicomiais e oferecer aos mesmos os cuidados necessários. A partir dos anos 60 a trajetória da Reforma Psiquiátrica foi marcada por uma série de rupturas, que iniciaram a partir da Antipsiquiatria e das experiências de Baságlia na Itália. Enquanto a Antipsiquiatria buscou romper com o modelo assistencial num âmbito teórico, valorizando a análise do discurso, as experiências a partir de Baságlia iniciaram o projeto de desinstitucionalização. No Brasil, a Reforma Psiquiátrica teve como ponto de partida a crise da Divisão Nacional de Saúde Mental do Rio de Janeiro (DINSAM). Esta crise se deu a partir da greve de 1987, de profissionais e estagiários das quatro unidades da DINSAM. A greve foi fruto das sérias insatisfações em relação às questões trabalhistas e das condições de "tratamentos" oferecidos. Desta greve, houve 260 demissões, que mobilizou a estruturação do Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM). Com o MTSM foram realizados discussões e encaminhamentos de propostas no sentido de transformações na atenção a saúde mental brasileira. Neste sentido, teve importante papel na organização de novas práticas em saúde mental. A trajetória da Reforma Psiquiátrica foi delineada também por uma série de eventos. No projeto de desinstitucionalização, as maiores conquistas foram marcadas pela participação de “ex-pacientes” de hospitais psiquiátricos, para formular e executar políticas de atenção à saúde mental (AMARANTE, 1996). 25 Em 1987, na I Conferência Estadual de Saúde Mental do Rio de Janeiro, usuários1 e familiares, foram eleitos como delegados para a I Conferência Nacional de Saúde Mental. Ainda no ano de 1987 aconteceu o II Congresso Nacional de Trabalhadores em Saúde Mental em Bauru. Evento que marcou o percurso histórico da Reforma Psiquiátrica brasileira, no qual o MTSM se transformou em um novo movimento social, o Movimento de Luta Antimanicomial. A partir disso, houve um posicionamento não apenas de crítica ao modelo hospitalocêntrico, mas de defesa a extinção dos manicômios entendidos em seu mais amplo sentido (LOBOSQUE, 2002). O Movimento de Luta Antimanicomial constitui-se como um movimento social de caráter político a-partidário. Neste os usuários – até então calados e oprimidos pela institucionalização - e seus familiares foram e são militantes cada vez mais numerosos e atuantes. A estruturação do Movimento se dá através de Encontros Nacionais que acontecem a cada dois anos. Estes encontros são as instâncias deliberativas máximas. Em sua organização, uma Secretaria Executiva Nacional Colegiada (uma delegação composta por militantes de um determinado estado) é eleita a cada dois anos nos encontros, que deve sediar o próximo encontro nacional. 1 Expressão utilizada pelos militantes do Movimento da Luta Antimanicomial e atualmente dentro de diversos serviços substitutivos, que designa usuário do Sistema Único de Saúde – com este novo termo contribui-se para não estigmatização. Isso porque em todos os serviços do SUS o usuário deve ser recebido e visto de acordo com seus princípios – de igualdade, equidade, universalidade, integralidade e de participação popular. 26 Constitui-se ainda de plenárias nacionais que acontecem semestralmente, para encaminhamentos necessários. Os Encontros Nacionais iniciaram em 1993. O I Encontro Nacional do Movimento de Luta Antimanicomial foi realizado em Salvador marcando a consolidação deste movimento. O II Encontro Nacional, ocorreu de 1º a 5 de novembro, em Belo Horizonte. De 6 a 9 de novembro, em Porto Alegre ocorreu o III Encontro Nacional. E de 22 a 26 de setembro de 1999 aconteceu o IV Encontro em Maceió (Al). Em 2001, foi realizado o V Encontro do Nacional do Movimento de Luta Antimanicomial em Miguel Pereira/RJ que devido a conflitos na plenária final não foi finalizado. Tais conflitos, gerados por divergências a cerca de questões relevante como estruturação e princípios do MLA, levaram a uma forte tensão entre os militantes. Com isso, foi marcada uma nova data e local para o encerramento da plenária. Em abril de 2002 foi realizado o encontro no estado de São Paulo, porém, também não houve um fechamento da plenária devido à permanência dos conflitos. Esta ruptura levou a uma divisão entre os militantes, o que dificultou a realização do VI encontro, realizado quatro anos depois, em outubro de 2005 em São Paulo/SP, com número de participantes e delegações reduzidos. Com a ruptura, foi criado um novo Movimento chamado Rede Inter Núcleos da Luta Antimanicomial. A estrutura base do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial são seus núcleos, caracterizados como formas de organizações coletivas independentes, não subordinados a Secretaria Executiva Nacional (LOBOSQUE, 2002). Toda a estrutura do Movimento se concretiza a partir de princípios de democracia e de inclusão, como base para construção da cidadania. Para tanto, se 27 dá um valor significativo à voz dos usuários, enquanto sujeitos que trazem consigo os sofrimentos reais das causas desta luta. Como frutos desta militância, surgiram no decorrer do tempo às associações e outras formas de controle social, juntamente com o nascimento do primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) em São Paulo e Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS) em Santos. A luta da classe trabalhadora, juntamente com todos os seguimentos que constituem o MNLA, é reconhecida como práxis voltada ao coletivo, à vocação terapêutica como relatou Baságlia. Entre outras conquistas do MNLA, pontuamos o Projeto de Lei 3.657/89 de Paulo Delgado, que foi constituída em abril de 2001 a Lei 10.216 que: “Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental”. Estas conquistas têm em comum a possibilidade de transformadoras intervenções das equipes, a partir de novos dispositivos que transformem as relações a cerca da loucura. Entre as estratégias estão os serviços de atenção em saúde mental, comunitários e abertos, que se fortificam, quando as equipes se posicionarem a partir de uma prática antimanicomial, ou seja, de relação com os usuários horizontal e de contratualidade. Para tanto, deve-se compreender que o sofrimento psíquico geralmente é conseqüência de uma diversidade de causas e, portanto, merece atenção de setores diversos – em muitos casos as necessidades se dão muito mais no concreto. Como exemplo, o sofrimento – a loucura – pode ser fruto da falta de alimentação, de renda, de vagas para os filhos na escola, etc. –. Neste âmbito, no caso do profissional da psicologia, uma atuação antimanicomial passa pelo ato de identificar com ele esta 28 necessidade e as possibilidades concretas de solução, a identificar o diagnóstico, classificando e estigmatizando um sujeito cujo sofrimento é resultado de condições concretas da vida. Pode-se dizer que uma atuação antimanicomial passa ainda, diretamente pelo respeito às diferenças que pela necessidade de adequar, de ajustar as pessoas aos moldes de determinada sociedade. Passa também pelo ato de discutir seus direitos de cidadãos, e estimular o controle social para garantia dos mesmos. Neste sentido, os espaços para expressão do sofrimento oculto e de construção de relações respeitosas e verdadeiras geram saúde em seu sentido mais amplo. Em resumo, a práxis necessária, não é mais aquela de modelos pautados em técnicas engessadas, de autoridade, de paternalismo ou assistencialismo, mas de relação terapêutica, de respeito e de cuidado, antes de tudo, de gente de cuida de gente. 2.4. CAPS Os CAPS nasceram como espaços criados estrategicamente, para finalidade de desconstrução do modelo institucional predominante. Trata-se de lugares de uma nova práxis de cuidados aos sujeitos com sofrimento psíquico. No Brasil, estes dispositivos foram inaugurados no estado de São Paulo. Estes primeiros serviços tiveram significativo valor diante das propostas do Movimento da Luta Antimanicomial e da Reforma Psiquiátrica, de iniciar a concretização de novas ações na desconstrução do aparato manicomial. Surgiram quando ainda não havia regulamentações específicas, constituindo-se como 29 serviços inovadores. O CAPS Luiz Cerqueira foi inaugurado em outubro de 1986 na cidade de São Paulo, nasceu a partir de uma mobilização de profissionais da área de saúde mental da região. Segundo Guljor (2003), a partir do processo de municipalização, ocorreu uma divisão por Escritórios Regionais de Saúde da Região (ERSA). Na área de cobertura do território do primeiro CAPS, foram responsáveis pela sua constituição esta ERSA 1, o Secretário Estadual de Saúde. O CAPS Luiz Cerqueira, apesar de implementado pelo poder público estadual, não se constituiu como parte de ações planejadas pelo programa de Saúde Mental na estruturação de uma política pública, mas como uma mobilização específica que, naquela conjuntura, possuía um poder de barganha suficiente para iniciar tal experiência (GULJOR, 2003, p. 48). O serviço foi construído a partir da perspectiva de transformação do modelo de atenção em saúde mental, com ênfase na estruturação de estratégias de cuidados, bem como de suporte adequado à complexidade dos aspectos que envolviam o sofrimento psíquico, de forma radicalmente oposta ao modelo predominante. Esta proposta foi, portanto, uma das estratégias pioneiras na mudança de modelo de atenção comunitária em saúde mental. Segundo Guljor, no projeto de implantação do Centro de Atenção Psicossocial Luiz Cerqueira, o serviço é concebido como: (...) uma estrutura de continência multiprofissional que busque estimular múltiplos aspectos necessários ao exercício da vida em sociedade, respeitando-se a singularidade dos sujeitos. (GULJOR apud COORDENADORIA DE SAÚDE MENTAL - CSM/SP, 2003, p. 51). Segundo Guljor (2003), entre as concepções desta proposta, estavam ainda: ser um serviço intermediário entre a comunidade e a hospitalização; enfatizar 30 o desempenho social e suporte à população excluída; utilização de outras e terminologias que não as nosográficas; introdução da noção de acolhimento; implementação de plano terapêutico conforme necessidade do usuário, de 1 a 5 dias por semana; trabalho multiprofissional e pluriinstitucional (em relação com demais setores que componham a rede a atenção ao sujeito em sofrimento); composição de profissionais da saúde e demais áreas (artísticas, laborais, sociais, etc), onde todos desempenhassem função terapêutica. Nesse mesmo período, o NAPS de Santos se constituía diante de um cenário diferente, no aspecto político no setor da saúde mental. O município foi um dos pioneiros na implantação do SUS, e teve como impulsionador o poder público do município. Neste o contexto o NAPS foi concebido como serviço substitutivo ao manicômio. Este contexto era de efervescência diante das mudanças na rede de saúde integral do município e com as primeiras denúncias de maus-tratos e mortes dentro do hospital psiquiátrico – a Casa de Saúde Anchieta (Guljor, 2003), que tiveram destaque na mídia e repercussão social levando o poder público a tomar providências para mudar tal situação. Esta intervenção iniciou-se com melhorias das condições físicas dentro do espaço interno do hospital e posteriormente com o processo de fechamento do mesmo. A partir da nomeação de um interventor e da constituição de uma equipe de trabalho composta de funcionários municipais, se iniciou um processo radical de transformação da assistência, das condições de higiene, das relações com os pacientes – enfim, uma ação de restituição dos direitos mínimos da população ali “depositada”, com o objetivo maior de criar condições para a reinserção social destas e o fechamento por completo do manicômio (GULJOR, 2003, p.56). 31 As transformações que daí se fizeram tiveram como base as experiências de Baságlia em Trieste, iniciando assim a construção do programa de saúde Mental do Município. O objetivo era criar estratégias para: (...) a partir de uma estratégia de restituição da cidadania àquela clientela, reconhecê-la enquanto sujeito, portadores de sofrimento psíquico, mas também fruto de uma sociedade que, como única solução para suas diferenças, destinou-lhes o lugar de irresponsáveis e destituídos de direitos sob a égide da garantia de proteção e assistência. Esta percepção determinou intervenções que visavam a transformar as relações e a cultura em relação à loucura no âmbito não apenas institucional mas da cidade (GULJOR apud NICÁCIO, 2003). Este primeiro NAPS – o primeiro dos cinco núcleos de Santos, constituídos entre 1989 e 1994 – teve como características, ser a base da Rede Assistência de Santos. No mesmo ano de inauguração deste primeiro NAPS, ocorreu o fechamento da Casa de Saúde Anchieta. Diante deste contexto, o período foi marcado pela construção não apenas dos primeiros NAPS, uma rede de serviços, entre eles, moradia assistida, um pronto-socorro com atendimento em emergência psiquiátrica, centro de convivência e centro de atenção a pessoas com dependência química e atendimento infantil em serviço de atenção integral às crianças. (GULJOR apud CHIORO, 2003). O NAPS integrava o módulo de saúde da região com três policlínicas e um pronto-socorro. Tinha como objetivo: "A ética enquanto buscar realizar praticamente a utopia; utopia, no conceito de Basaglia, como prática de transformar a realidade; a clareza de que a negação do manicômio como lugar de violência não se realiza no plano das idéias" (GULJOR apud SECRETARIA DE HIGIENE E SAÚDE – SEHIG, 2003, p. 60). Guljor citando SEHIG (2003) descreve que no projeto do serviço, este era caracterizado como algo complexo de ser definido, diferentemente de uma 32 instituição total. Não era considerado nem romântico nem triunfal, porém novo, belo e em movimento. São questões relevantes apontadas no projeto, destacados por Guljor (2003): superação da lógica de “tratamento”, promoção de saúde, reconstrução da vida dos sujeitos, inclusão social, investimento na desconstrução simbólica e concreta da cultura manicomial. Este investimento começou a ser concretizado a partir da criação artístico cultural com o projeto do Centro de Convivência TAM TAM, que dentre suas produções se destaca a rádio e TV TAM TAM e Grupo de Arte. Outra questão da qual o projeto apontou uma preocupação, era de evitar que se criasse um processo de constantes encaminhamentos para hospitais psiquiátricos. Neste sentido, o projeto do serviço propôs o atendimento às crises e funcionamento do serviço 24 horas, sete dias por semana, com seis leitos. Os leitos por sua vez, não tinham apenas a função de cuidar nas crises, mas de acolher os usuários em momentos significativos da vida, como abandono, medo, solidão, quando se sente ameaçado, entre outras. Dentre as estratégias de cuidados no NAPS, foram propostas grupos, medicações, o “estar junto”, reuniões de familiares, atendimentos individuais, atendimentos a familiares, assembléias, passeios, visita domiciliares e núcleos de trabalho (SEHIG in GULJOR, 2003). Em relação à equipe técnica do serviço, esta deveria assumir a responsabilidade de cuidador. As ações características da equipe do NAPS, conforme o projeto deveria atender os seguintes nortes: de decisões coletivas; de pensar e repensar a própria prática e o serviço; de confronto; de superação da idéia de soma de saberes; de desconstrutores do modelo manicomial; de horizontalidade 33 nas relações; de troca entre os profissionais; de fazer circular as informações com agilidade. Atualmente os CAPS são regulamentados pela portaria GM 336 de 2002. São característica e estruturalmente diferenciados por número de população dos municípios e por demanda de atendimento. São credenciam após aprovação de projeto pelo Ministério da Saúde, com supervisão e acompanhamentos dos Governos Estaduais. As diferenças de demanda e de estrutura (quadro profissional, recurso de implantação e para manutenção, número de vagas para atendimento, etc.) dos CAPS são denominados por modalidades de serviços, sendo eles: CAPS I, CAPS II CAPS III, CAPS i II (para atendimento infantil), e CAPS ad II (para atendimento de pessoas portadoras de dependência de álcool ou outras drogas). Todas estas modalidade de CAPS devem, segundo a sua regulamentação, atender de acordo com a necessidade da pessoa que sofre, que podem ser atendimentos diários, até 22 dias/mês (intensivo), de 4 a 12 dias/mês (semi-intensivo) ou até 4 dias por mês (não intensivo), devendo priorizar os atendimentos dos casos mais graves e persistentes em atendimento intensivo. Os CAPS I, II e III, de acordo com a portaria, devem: a) responsabilizar-se, sob coordenação do gestor local, pela organização da demanda e da rede de cuidados em saúde mental no âmbito do seu território; b) possuir capacidade técnica para desempenhar o papel de regulador da porta de entrada da rede assistencial no âmbito do seu território e/ou do módulo assistencial, definido na Norma Operacional de Assistência à Saúde (NOAS), de acordo com a determinação do gestor local; c) coordenar, por delegação do gestor local, as atividades de supervisão de unidades hospitalares psiquiátricas no âmbito do seu território; d) supervisionar e capacitar as equipes de atenção básica, serviços e programas de saúde mental no âmbito do seu território e/ou do módulo assistencial; e) realizar, e manter atualizado, o cadastramento de usuários que utilizam medicamentos essenciais para a área de saúde mental regulamentados pela Portaria/GM/MS nº 1077 de 24 de agosto de 1999 e medicamentos excepcionais, regulamentados pela Portaria/SAS/MS nº 341 de 22 de agosto de 2001, dentro de sua área assistencial (MS, 2002) 34 Além disso, as três modalidades devem oferecer igualmente: Atendimento individual (medicamentoso, psicoterápico, de orientação, entre outros); atendimento em grupos (psicoterapia, grupo operativo, atividades de suporte social, entre outras); atendimento em oficinas terapêuticas executadas por profissional de nível superior ou nível médio; visitas domiciliares; atendimento à família; atividades comunitárias enfocando a integração do usuário na comunidade e sua inserção familiar e social. (...)Os usuários assistidos em um turno (04 horas) receberão uma refeição diária, os assistidos em dois turnos (08 horas) receberão duas refeições diárias (MS, 2002). As principais características de organização dos serviços que diferenciam as modalidades descritas, regulamentadas pela portaria 336/2002 são: 2.4.1. CAPS I É em geral implantado em municípios com população entre 20.000 e 70.000 habitantes, funcionando no período de 08:00 as 18:00 horas, em 02 (dois) turnos, durante os cinco dias úteis da semana. A equipe mínima para atuação no CAPS I, deve ser composta por um médico com formação em saúde mental, um enfermeiro, três profissionais de nível superior (entre psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo outro profissional necessário ao projeto terapêutico), quatro profissionais de nível médio (entre técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional, artesão); 35 2.4.2. CAPS II O atendimento ocorre em municípios com população entre 70.000 e 200.000 habitantes. Deve funcionar das 8:00 às 18:00 horas, em 02 (dois) turnos, durante os cinco dias úteis da semana, podendo comportar um terceiro turno funcionando até às 21:00 horas. A equipe técnica mínima para atuação no CAPS II, deve ser de um médico psiquiatra, um enfermeiro com formação em saúde mental, quatro profissionais de nível superior (entre psicólogo, assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico), seis profissionais de nível médio (entre técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão). 2.4.3 CAPS III Seu atendimento deve se dar em municípios com população acima de 200.000 habitantes, com as seguintes características que as diferencia dos CAPS I e CAPS II: a - constituir-se em serviço ambulatorial de atenção contínua, durante 24 horas diariamente, incluindo feriados e finais de semana; (...) g - estar referenciado a um serviço de atendimento de urgência/emergência geral de sua região, que fará o suporte de atenção médica. (MS, 2002). A assistência prestada dentre as atividades já citadas nos CAPS I e CAPS II são de: 36 g - acolhimento noturno, nos feriados e finais de semana, com no máximo 05 (cinco) leitos, para eventual repouso e/ou observação; i - a permanência de um mesmo paciente no acolhimento noturno fica limitada a 07 (sete) dias corridos ou 10 (dez) dias intercalados em um período de 30 (trinta) dias. (MS, 2002) A equipe mínima para atuação no CAPS III, deve ser composta por dois médicos psiquiatras, um enfermeiro com formação em saúde mental, cinco profissionais de nível superior, oito profissionais de nível médio. Para o período de acolhimento noturno, em plantões corridos de 12 horas, a equipe deve ser composta por três técnicos/auxiliares de enfermagem, sob supervisão do enfermeiro do serviço, um profissional de nível médio da área de apoio. Para as 12 horas diurnas, nos sábados, domingos e feriados, a equipe deve ser composta por um profissional de nível superior (entre médico, enfermeiro, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, ou outro), três técnicos/auxiliares técnicos de enfermagem, sob supervisão do enfermeiro do serviço, um profissional de nível médio da área de apoio. 2.4.4 CAPS i II Esta modalidade de serviço deve atender crianças e adolescentes, “constituindo-se na referência para uma população de cerca de 200.000 habitantes, ou outro parâmetro populacional a ser definido pelo gestor local, atendendo a critérios epidemiológicos” (MS, 2002), com as seguintes características: O serviço se constitui de forma semelhante aos demais CAPS, salvaguardando as questões específicas da criança e da adolescência. Porém, o serviço tem forte característica de estigma de crianças e adolescentes, uma vez que 37 classifica as mesmas como “situação problema”, podendo iniciar desta forma, uma “carreira”. 2.4.5 CAPS ad II O serviço deve atender pessoas com sofrimento psíquico decorrente do uso e dependência de substâncias psicoativas, com capacidade de atendimento em municípios com população superior a 70.000, com as seguintes características que o diferencia dos demais CAPS: (...) b - sob coordenação do gestor local, responsabilizar-se pela organização da demanda e da rede de instituições de atenção a usuários de álcool e drogas, no âmbito de seu território; (...) d - coordenar, no âmbito de sua área de abrangência e por delegação do gestor local, a atividades de supervisão de serviços de atenção a usuários de drogas, em articulação com o Conselho Municipal de Entorpecentes; (...) h - manter de 02 (dois) a 04 (quatro) leitos para desintoxicação e repouso (MS, 2002). A equipe mínima para atendimento no CAPS ad deve ser composta por um médico psiquiatra, um enfermeiro com formação em saúde mental, um médico clínico, quatro profissionais de nível superior, seis profissionais de nível médio. Os CAPS em geral caracterizam-se principalmente pelo caráter serem abertos, que significa o cuidado ao sujeito que sofre, sem privação do diversos espaços sociais, como moradia, centro de convivência e cultura, controle social, escola, mercado de trabalho, praças, entre outros espaços de saúde e lazer significativos à cidadania. Apesar destes objetivos, os CAPS passam por mudança de paradigmas, que são o cerne do que induziu a mudança do modelo de atenção em saúde mental. Neste sentido, pode-se dizer que o fato de abrir os CAPS por si só não são 38 suficientes para esta mudança. Para que estas mudanças ocorrem, é necessário que exista a rede de serviços substitutivos, e a educação permanente. Este segundo porque em geral, as equipes de CAPS não têm incutida a práxis de acordo com os princípios citados. A educação permanente neste sentido deve promover uma práxis voltada a desistitucionalização, a desconstrução do modelo médico-centrado, vinculada na ainda visível psiquiatrização, medicalização e psicologização do sofrimento psíquico. Diante deste contexto, o psicólogo, é um dos profissionais que compõe equipes de praticamente todos os CAPS – se não todos – no estado de Santa Catarina. Neste momento descreverei sobre a história desta profissão que no Brasil existe como área de conhecimento há pouco mais de 40 anos. 39 3. HISTÓRIA DA PSICOLOGIA Muito antes de a psicologia ser conhecida como um campo de conhecimento ou como uma disciplina nas academias, o estudo da “alma”, ou “mente”, ou ainda da “psique”, eram teorizados por filósofos e pensadores desde a antiguidade. Seu reconhecimento enquanto ciência autônoma se deu na segunda metade do século XIX, na Europa. Muito antes, na antiguidade, os primeiros registros de especulações epistemológicas a cerca do tema foram feitos pelos Gregos. Segundo Wertheimer (1982), em 400 a.C. Demócrito afirmava que todas as coisas eram compostas de átomos materiais indivisíveis e unitários, em movimentos constantes, e que as pessoas eram constituídas por átomos de alma e átomos de corpo. Essa teoria elementista, apresentou tendência ao reducionismo e a uma divisão entre corpo e alma. Entre os anti-reducionistas da época, que sustentaram pontos de vista opostos, estavam Tales, que viveu no séc. VI a.C., anti-elementista, considerava a água como matéria prima comum a maior parte das coisas do universo. Enquanto Heráclito (540 a.C.) sustentava que tudo era constituído por fogo, sendo o fogo um agente da transformação. De acordo com seu pensamento, nada existe de imutável ou fixo. William James, seguindo o mesmo pensamento, fez afirmação de que não se pode experimentar a mesma experiência duas vezes, considerando tudo como movimento, de forma que a consciência não pode voltar a ser a mesma. Para Anaxágoras que também viveu por volta de 500 a.C., a relação era a unidade menor e irredutível de qualquer coisa, de forma que tudo passaria por mudança relacional constante. 40 As especulações a cerca de uma “alma”, “mente” ou “psique”, persistiram e foram redirecionadas com o decorrer do tempo, foram focos de estudos permanentes. Com os Sofistas, no período do século V ao II a.C. os estudos sobre o tema receberam outra direção, pois estes duvidaram de todas as afirmações feitas até então. Sua preocupação constante era a validade das afirmações. Questionavam o fato de como poderiam saber se estavam certos, e quais os critérios de validade para qualquer afirmação. Não havia ponto de referência, premissa ou certeza alguma válida. Já para Sócrates e Platão, as inquietações em relação a questão eram outras, “enquanto os sofistas duvidavam geralmente da certeza da existência de objetos do mundo exterior, Sócrates e Platão (cerca de 430 a.C.) acreditavam em um reino de idéias, permanente e perfeito.” (WERTHEIMER, 1982, p.20). Este pensamento direcionava para uma compreensão da existência de tal reino fora do homem, sendo as percepções do homem cópias imperfeitas da realidade. Para Sócrates, portanto, a experiência sensorial não poderia ser considerada fonte fidedigna de conhecimento, e o único objeto do qual se poderia conhecer com algum grau de segurança, seria a si mesmo, daí sua frase, “Conhece-te a ti mesmo”. Na tentativa de compreender e caracterizar a sociedade, Platão fez uma análise da mesma. Dividiu “o homem” em três categorias, numa, de status mais baixo encontrava-se o servo, o grupo dos que priorizavam a satisfação das necessidades corporais, depois o grupo dos homens da emoção, da coragem, e o grupo de maior status, era aquele ligado ao intelecto, às idéias e ao contemplativo. Analisou o homem como um ser social, influenciável pelos que vivem a sua volta. Além disso, compartilhando das idéias de Sócrates, de que se aprende a cerca dos objetos exteriores, porque eles emitem cópias que penetram nossos órgãos 41 receptores, fortaleceu ainda mais a idéia de uma divisão entre corpo e mente. Seguindo um estudo da história do desenvolvimento da psicologia, Aristóteles (370 a.C.), discípulo e opositor de Platão, é citado por Wertheimer como o primeiro homem a escrever tratados sistemáticos de psicologia. “Era um teórico geral da natureza, e ensinava que o comportamento está sujeito às mesmas espécies de princípios naturais que os demais fenômenos naturais” (WERTHEIMER, 1982, p.22). Para Aristóteles, ao nascer a mente humana é como uma “tabula rasa”. Era também, um teórico relativista, ou seja, considerava que todas as coisas podiam ser infinitamente redutíveis, por meio de análises sucessivas. Desta forma, deu continuidade a tendência reducionista. Mais adiante no tempo, em meio a uma crise que gerou ambigüidades e ansiedades com a decadência da civilização grega, dois movimentos filosóficos opostos tomaram força. O Epicurismo, onde seus membros eram considerados os “hippies” do seu tempo, e o Estoicismo, movimento que preconizava a preservação da ordem vigente, manifestando aceitação de seu destino. Ao mesmo tempo, surgiam as principais religiões. O cristianismo, em especial, concentrava-se em oferecer a esperança de um amanhã melhor, talvez após a morte do corpo. “Nos primeiros quinhentos anos após o nascimento de Cristo, (...) os ensinamentos religiosos tomaram o centro da cena intelectual” (WERTHEIMER, 1982, p.24). Somente após 700 d.C, os Doutores da Igreja começaram a se influenciar pelos escritos de Aristóteles, que divergiam significativamente dos ensinamentos da Igreja. Em relação ao homem, Aristóteles descrevia-o como parte do mundo natural, enquanto a Igreja o colocava como ser distinto e superior entre os outros seres vivos. Mais adiante, no período de mais ou menos 1400 a 1600, que 42 compreende ao período do Renascimento, houve forte mudança em praticamente todas as áreas da atividade humana. Na questão da atitude do homem em relação ao conhecimento às fontes de conhecimento esta atitude passa de uma forma autoritária a anti-empírica, dando lugar ao empirismo2 e anti-autoritarismo. Segundo Wertheimer, foi um período de expansão geográfica e cultural. E neste contexto a psicologia ressurgiu depois de décadas na chamada escuridão, diante de uma nova sociedade. Isso porque, foi também nesse período que ocorreu importante exploração geográfica, de mudança no sistema econômico no sentido de uma economia comercial, e de ruptura do sistema feudal, sob o qual o homem tinha sua posição particular definida para ele pelo destino, e não questionava a ordem das coisas. Ele havia previamente aceito como predestinada à própria condição social, econômica e política. As unidades políticas tornaram-se maiores e mais poderosas, e a competição – nos campos: econômico, intelectual, político, militar – tornou-se aceitável, à medida que o individualismo surgia. Desenvolveu-se gradualmente a percepção de que não se precisam aceitar as coisas fatalísticamente, mas seria possível progredir na direção de uma vida melhor e de melhor compreensão do mundo. (WERTHEIMER, 1982). É neste período que alguns conceitos psicológicos começam existir, ainda com forte base na filosofia, porem com forte tendência a originar a psicologia experimental. Neste contexto a psicologia nasceu comprometida com uma demanda social e uma determinação ideológica específicas, segundo Patto (1984), de acordo com os pressupostos das sociedades industriais capitalistas. 2 Doutrina que se baseia exclusivamente na experiência, como única fonte de conhecimento. 43 Da antiguidade com os gregos aos dias atuais, a psicologia se configurou por influências diversas, mas é no bojo da necessidade de uma ciência que pudesse instrumentalizar e com isso fortalecer a idéia de desenvolvimento industrial, que principalmente a psicologia da indústria e a psicologia escolar ganham vez. Em sua contribuição e desenvolvimento, tudo indica que a psicologia é instrumento e efeito das necessidades, geradas nessa sociedade, de selecionar, orientar, adaptar e racionalizar, visando, em última instância, a um aumento da produtividade. (PATTO, 1984, p.87) Neste contexto, caracterizado por ser um período de fortes conflitos sociais, inclusive no Brasil, foi aberto campo para psicologia se desenvolver justamente para reforçar ideológica e cientificamente a concepção de mundo dominante nas sociedades urbano-industriais capitalistas (PATTO, 1984). Dentre as influências das quais foi trazendo consigo, em seu desenvolvimento durante sua história, a psicologia se utiliza de conceitos principalmente da filosofia, da biologia, da matemática. Porém, para cumprir com sua finalidade a qual anseia as sociedades do período e com isso receber o status de ciência autônoma, utiliza-se principalmente dos conceitos vindos da biologia – de adaptação, organismo, estímulo e meio - e os da matemática – de observação e quantificação. Estes conceitos estruturam desta forma a psicologia experimental, primeira escola de psicologia, iniciada e praticada por Wundt na Alemanha. A psicologia experimental apresenta-se com uma postura positivista e dualista. Dualista, pois dá continuidade na separação entre corpo e alma, sendo que, substituindo alma por consciência. Consciência compreendida enquanto vida psíquica, vida interior, não enquanto consciência socialmente produzida. Para Patto (1984), a psicologia experimento caracteriza-se principalmente pela busca do aperfeiçoamento de seu instrumento metodológico para ser 44 promovida à categoria de ciência. Nessa busca, elabora seu instrumento de acordo com as ciências naturais, estudando o fenômeno psíquico a partir do viés da fenomenologia. Neste sentido, pode-se dizer que a psicologia experimental tem como objeto de estudo o mesmo dos filósofos da antiguidade e dos empiristas do século XVIII, a diferença que a caracteriza é a introdução do método experimental. Neste, Wundt baseou-se no método analítico-sintético, ou seja, na medição e quantificação das sensações. Portanto, a psicologia neste momento, é uma ciência com a capacidade de mensurar, de quantificar precisamente os fatos da consciência, atitudes das quais o contexto político – econômico da época necessita. Apesar de seu inicio ter-se dado na Alemanha, seu desenvolvimento correu de forma paralela na Franca, onde foi fundado o primeiro laboratório de psicologia, na Sorbonne. Em 1894 Binet assumiu a direção do laboratório até sua morte em 1911, quando H. Pierón deu continuidade aos trabalhos. O desenvolvimento da psicologia inicialmente nestes dois paises, deu-se mais tarde em vários outros, entre eles o Brasil e os Estados Unidos. Este último tomou frente à produção na área, logo em seguida, onde foi oficialmente reconhecido o primeiro laboratório, na Universidade John Hopkins, em Baltimore, por Stanley Hall, que fora discípulo e assistente de Wundt. As influências da psicologia experimental fazem sentir-se até os dias atuais. Instrumentos desenvolvidos para mensuração das “faculdades mentais”, advindos neste período como testes psicológicos de inteligência, de aptidão e de personalidade foram e são aplicados em processos seletivos, de orientação escolar e profissional, bem como para fins de diagnóstico de “transtornos mentais”. Tais instrumentos fortificam a possibilidade de cumprir com sua função inicial de 45 organizar, classificar de acordo com as necessidades da sociedade tecnocrática. De acordo com Patto (1984), a psicologia contemporânea trouxe consigo as influências da biologia, as tendências fisicalistas e a psicologia como: “ciência do sentido íntimo” nascido com Maine de Biran, entre os séculos XVIII e XIX, também ele coloca a consciência no centro da psicologia; não, porém, a consciência em estreita relação com a fisiologia, que os psicólogos experimentais fariam, mais tarde, em pedaços, e sim a consciência enquanto reflexão sobre o próprio processo de existir, o que o situa como precursor do existencialismo. (PATTO, 1984, p. 90). A psicologia experimental, descrita também por Patto como psicologia objetiva foi predominante por mais de meio século. Contudo, a psicologia subjetiva resistiu e foi desenvolvida conservando a forma original enquanto base teórica. Posteriormente o behaviorismo, substitui os conceitos de “consciência” e “fenômeno psíquico” pelo novo conceito que vai ser também o novo objeto de estudo da psicologia moderna, que é o comportamento. Substitui juntamente a separação corpo x mente pela separação organismo x meio. O que se quer salientar é esta importação do modelo das ciências biológicas não é casual ou inconseqüente; antes, instaura no miolo teóricoconceitual da psicologia uma analogia entre meio natural e meio social e abre caminho para o primado da ideologia adaptacionista como concepção que norteia a ação do psicólogo, colocando-o pari passu com a ideologia política dominante num mundo industrial oligárquico. A consideração do meio social como algo “natural”, “dado”, a que os indivíduos devem ajustarse em nome de seu bom funcionamento, constitui um artifício reificador de grande eficácia mistificadora da realidade de uma sociedade de classes, na medida que faz com que ela apareça como algo objetivo, externo e independente dos homens. (PATTO, 1984, p. 93). As questões ideológicas contidas nas mudanças ocorridas pela utilização dos conceitos da biologia tem significativo valor na forma como a psicologia moderna vai se caracterizar. De acordo com Patto: 46 Esta importação dos conceitos biológicos configura um fenômeno de rapto ide ológico: a natureza das relações entre o organismo e o meio natural são diretamente transpostas para a análise das relações entre o homem e a sociedade, mascarando, assim, a existência das classes, da ideologia e do poder e excluindo metodologicamente a dimensão histórica dos fatos 10 sociais Na verdade, os raptos ideológicos introduzem verdadeiros obstáculos epistemológicos no corpo teórico em que se insinuam. À prática que emana desta teoria - e, note-se, somente ela poderia emanar - resta prever e controlar, selecionar e orientar visando a reajustar as condutas desadaptadas ou, pelo menos, a facilitar o processo adaptativo que o psicólogo supõe caracterizar o comportamento humano no meio natural e social (Deleule, p. 74); portanto, a finalidade do trabalho do psicólogo é a "racionalização do comportamento do indivíduo no meio social", em função 1 dos" próprios imperativos sociais", valendo-se das noções de condicionamento e de aprendizagem como "mecanismos constitutivos do comportamento" (PATTO, 1984, p.92). A psicologia moderna, mesmo com sua diversidade de paradigmas – constituída por varias escolas de pensamento – apresenta um núcleo central. Este núcleo é a fato de que em todas as suas correntes, a psicologia é um “fenômeno social democrata” (PATTO, 1984). Sendo que, entende-se aqui democracia enquanto ideologia burguesa, marcada pela sede de desenvolvimento baseada na ascensão capitalista. Desta forma a produtividade, fundamental para o crescimento da sociedade capitalista, sobrepõe-se às questões coletivas. Portanto, a psicologia constitui-se para amenizar os conflitos sociais que podem ser gerados em busca de dignidade à coletividade, fortalecendo a idéia de harmonia social. Com críticas a estas questões, psicólogos deram início a produções teóricas, e constituíram outras correntes de pensamento e de atuação profissional. A psicologia social é atualmente, um campo de atuação na busca de construção de uma práxis voltada ao coletivo. 47 3.1. Psicologia Social A psicologia social nasce na década de 50, influenciada por duas tendências predominantes da época. Uma, de harmonizar os conflitos sociais existentes como escrito anteriormente, para garantir a produtividade, tendência esta vinda dos Estados Unidos, construindo uma idéia de “homens “felizes” reconstrutores de humanidade que acabava de sair da destruição de uma II Guerra Mundial” (LANE, 1984, p.10). E outra, com raízes na fenomenologia, de tradições filosóficas européias, buscando modelos científicos totalizantes, como a Teoria de Campo de Lewin. Porém, na década de 60 perdeu força, quando sua eficácia foi questionada por não intervir ou explicar comportamentos sociais. De acordo com Lane: As réplicas de pesquisadores experimentais não permitiam formular leis, onde os estudos interculturais apontavam para uma complexidade de variáveis que desafiavam os pesquisadores e estatísticos – é o retorno as análises fatoriais e novas técnicas de análise de multivariância, que afirmavam sobre relações existentes, mas nada em termos de “como” e “por quê” (LANE, 1984, p.11). Em meio a um movimento Latino Americano de reconquista de espaço e de discussão a cerca da psicologia social, propostas concretas surgem no Brasil no final de década de 70. Segundo Lane, estas propostas surgem não com base no positivismo dominante em várias áreas de conhecimento, mas sim no materialismo histórico e dialético. Materialista uma vez que as condições materiais que são disponíveis a determinado sujeito influenciam sua forma de pensar e de agir, ou seja, de ser. Histórico, por compreender que a ação concreta dos homens no decorrer dos tempos modifica as sociedades, e isso é percebido quando o homem 48 reage de formas diferentes em diferentes momentos históricos. E é dialético, por que cada pessoa é capaz de ser crítico, transformador e transformado diante de seu contexto, como uma via de mão dupla. A psicologia social caracteriza-se, neste contexto, pela mudança de olhar da psicologia em relação ao homem. O homem deixa de ser visto com um ser biológico, entendido pelo que ocorre “dentro” dele, pelo viés da “vida psiquica” condicionado pelos estímulos do meio. Passa a ser entendido como sujeito transformado pelo meio e também transformador de seu meio. De acordo com Lane: Esta consideração da psicologia em geral, do ser humano como um produto histórico-social, é que a torna, se não inócua, uma ciência que reproduziu a ideologia dominante de uma sociedade, que descreve comportamento e baseada em freqüência, tira conclusões sobre relações causais pela descrição pura e simples do comportamento ocorrendo em situações dadas. (LANE, 1984, p.12). A ideologia dominante no contexto histórico de construção de uma sociedade industrial - capitalista, de busca de uma desejada “harmonia” social, desconsiderou as questões coletivas das populações marginalizadas, questões que relevantes para estruturação da psicologia social. Em instituições e demais áreas de atuação, a psicologia vinha reproduzindo a manutenção de relações da sociedade do período, com influências visíveis na atualidade. Tal prática é de manutenção das relações de poder/saber em relação os sujeitos. Diante deste quadro, coube à psicologia social recuperar o sujeito em sua história pessoal e na história de seu contexto social, para compreensão deste enquanto produtor de sua história. Para tanto, as intervenções se direcionaram para os espaços comunitários, onde as relações se dão, onde a vida cotidiana acontece. 49 A ideologia contida nesta tarefa, diferente da psicanálise que buscava a compreensão do individuo em sua história pessoal, e da sociologia que buscava a totalidade histórica concreta de uma sociedade a partir do materialismo histórico, é de uma nova concepção de homem, capaz de produzir novas relações sociais, de superar as formas de vida materiais existentes anteriormente, transformá-la em nova sociedade (LANE, 1984). Segundo Lane: Se o homem não for visto como produto e produtor, não só de sua história pessoal, mas da história de sua sociedade, a psicologia estará apenas reproduzindo as condições necessárias para impedir a emergência das contradições e a transformação social (LANE, 1984, p.15) As contradições que superadas criam condições para as transformações sociais necessárias, acontecem na vida cotidiana de grupos diversos, família, escola, trabalho, comunidade. Todos estes são espaços onde a intervenção do psicólogo social pode ser mediadora de novos sentidos. 3.2. Psicologia na Saúde É pela vertente da clínica, segundo Spink (2003), que a psicologia começa a ser reconhecida como uma das profissões a ocupar espaço na área da saúde, enquanto campo de conhecimento e de intervenção. As intervenções nesta área iniciaram a partir do modelo biomédico, em geral subordinado à psiquiatria em hospitais psiquiátricos ou ambulatórios de saúde mental, ou ainda em clínicas privadas restritas à população com recursos suficientes para custear tal serviço. As mudanças a cerca das necessidades de inserção de psicólogos nos serviços de saúde se deram a partir das definições políticas de transformações nos 50 modelos assistenciais em saúde pública. Com uma nova proposta de desinstitucionalização de acordo com Baságlia (1968), primeiramente com políticas isoladas, e somente recentemente com uma política nacional de saúde mental, foi percebida a necessidade de uma nova práxis do profissional da psicologia (SPINK, 2003). Esta necessidade de uma nova práxis do psicólogo da qual trata Spink, vem em direção a uma série de transformações no âmbito da saúde pública do país. Tais transformações, mais especificamente no âmbito da política de saúde mental, estão buscando redirecionar o modelo assistencial em saúde mental da atenção centrada no hospital e no profissional médico, para uma rede de serviços comunitários e multiprofissional, como os CAPS. Juntamente com este movimento de transição do modelo de atenção psicossocial pelo Ministério da Saúde, com a continua consolidação da lei 10.216/2001, o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Psicologia vêm discutindo a formação e a práxis do psicólogo. Neste ano de 2006, o CFP (Conselho Federal de Psicologia) e a ABEP (Associação Brasileira de Ensino em Psicologia) promoveram Fóruns e Oficinas com intuito de discutir a melhoria da atuação dos psicólogos no SUS (Sistema Único de Saúde). Estes eventos culminaram em dois momentos maiores que foram a Oficina Nacional da ABEP, ocorrida em Brasília, em agosto, com o tema “Uma presença qualificada no SUS como um desafio para a Psicologia” – promovida pela ABEP e pelo CFP, e um outro momento que foi o I Fórum Nacional de Psicologia e Saúde Pública, promovida pelo CFP e pelos CRPs (Conselhos Regionais de Psicologia), com eventos preparatórios por todo território nacional (Jornal do Conselho Federal de Psicologia, 2006). Dentre as questões de discussão destes eventos, surgiu a “forma de dar 51 atenção à saúde pública a partir das orientações das Diretrizes Curriculares para os cursos de Psicologia”. A questão da formação do psicólogo para o SUS foi uma constante, de acordo com o Jornal do Conselho Federal de Psicologia (2006). Porém, estas discussões realizadas pelos CRPs, pelo CFP, bem como pela ABEP, foram e estão sendo realizados de forma abrangente, envolvendo o SUS, sem especificar diretamente a intervenção nos CAPS. No que diz respeito mais diretamente à intervenção do psicólogo nos CAPS, os Conselhos Regionais e o Federal, promoveram eventos mais específicos. No Fórum Social Mundial deste ano, que ocorreu em Caracas, em janeiro, realizou a Oficina “Grades não são solução para a vida; queremos outra saída”, da qual pode encabeçar a Frente Mundial contra manicômios e prisões. Este ato mostrou de forma clara o posicionamento do CFP pelo fim dos manicômios, e juntamente, lançou a campanha “O que é feito para excluir, não pode incluir – pelo fim da violência nas práticas de privação da liberdade”. Além disso, o CFP promoveu em julho, na UFMG/Belo Horizonte, o Encontro Nacional de Saúde Mental com o tema “A Reforma Psiquiátrica que queremos: Por uma Clínica Antimanicomial”. Este evento abordou de forma direta a práxis do profissional do CAPS e demais serviços substitutivos ao modelo institucional / médico centrado, como foco no conceito de clínica antimanicomial. Foram propostos como temas para no encontro a serem contemplados, “(...) práticas terapêuticas que sustentam a Clínica Antimanicomial, formação e preparo para esta clínica, política de reforma psiquiátrica antimanicomial (...)” (JORNAL DO FEDERAL, 2006, p.4). Este momento de discussão e reformulação do papel do psicólogo na saúde tem como objetivo maior oferecer atendimento de qualidade a população e fortalecer o SUS enquanto sistema público de saúde. O CFP e a ABEP entendem 52 que rever a formação é simultaneamente contribuir para o fortalecimento da Psicologia e da rede pública de saúde (JORNAL DO CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2006). Segundo Dimenstein (2001), dentre os fatores que contribui para as dificuldades da efetivação de um sistema de saúde equânime, universal e integral, se encontram: investimento insuficiente pelo poder público no setor, formação insuficiente dos profissionais da saúde, incluindo o da psicologia, falta ou inexistência de capacitação e educação continuada dos profissionais, falta de integração das instituições formadoras para com a realidade, e a falta de participação dos trabalhadores como co-responsáveis pela gestão dos serviços no SUS. Ou seja, sente a falta de um profissional comprometido com este projeto de transformação social. O ato de comprometer-se está no fato de ser capaz de pensar e agir levando-se em consideração determinado contexto. Segundo Dimenstein: Só um sujeito situado no seu tempo histórico e em relação aos determinantes culturais, políticos e econômicos que condicionam seu modo de estar no mundo poderá transformar, desejar e ousar a mudança, sair do conformismo, reverter a lógica que sustenta o imobilismo, isto é, comprometer-se, ser um ser da práxis (DIMENSTEIN, 2001, p. 59). A nova realidade solicita por profissionais que consigam se despir e reinventar as formas tradicionais apreendidas nas academias, inovando a intervenção de forma flexível, diante de uma complexidade desafiadora de subjetividades diversas no contexto coletivo. Segundo Spink (2003), esta necessidade da inserção de psicólogos e de novas formas de fazer psicologia no âmbito da saúde vem acontecendo não apenas no Brasil. Em países como Cuba e Inglaterra há uma expansão gradativa no campo de atuação destes profissionais. Esta expansão é descrita como decorrente de 53 insatisfações em relação a área médica, por esta não levar em conta as questões sócio-econômicas que envolvem o processo saúde-doença. Atualmente no Brasil, é o conceito de saúde de acordo com o Ministério de Saúde: Em seu sentido mais abrangente saúde é resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso aos serviços de saúde. É assim, antes de tudo o resultante das formas de organização social da produção, as quais podem gerar grandes desigualdades nos níveis de vida. (MS, 1987: 13). Tal compreensão do conceito de saúde leva à psicologia, mais especificamente à psicologia social ganhar espaço de intervenção e pesquisa nesta área. Spink (2003) explicita alguns problemas encontrados ao se fazer uma avaliação das bases teóricas existentes para uma práxis do profissional psicólogo: a) no nível da graduação, há forte ênfase nas teorias psicodinâmicas e uma quase inexistência de temas relacionados à saúde pública. b) Ainda no nível da graduação, o foco dado às teorias que vêem o indivíduo como “ser abstrato e a-histórico, desvinculado de seu contexto social” (SPINK, 2003, p.34). c) E por fim, a hegemonia do modelo médico, centrado na “verdade” da ciência médica, colocando o sujeito como paciente / passivo na relação, sendo tratado como rebelde ou desviante ou ignorante quando não segue as definições médicas. Neste sentido: (...) a formação recebida nos cursos de graduação e a forma de inserção do psicólogo no setor da saúde pouco contribuem para a compreensão das formas e da dinâmica e da organização dos serviços de saúde. Sem essa compreensão, será difícil situar corretamente a contribuição da psicologia na explicação e/ou intervenção no processo saúde/doença. (SPINK, 2003, p.35) Os profissionais da psicologia, em conseqüência de muitas distorções 54 teóricas, têm cometido práticas descontextualizadas, que Dimenstein conceitua como uma “psicologização dos problemas sociais”, que nada tem haver com a prática da psicologia social. Neste contexto, cabe a psicologia construir uma práxis que tenha valor diante da relevante necessidade de inserção e renovação das práticas e teorias existentes. Esta nova práxis deve levar em consideração que o processo saúde/doença acontece o tempo todo e é multicausal, e que o sofrimento psíquico é parte deste processo, nem fim, nem começo. 3.3. Formação em Psicologia O ensino da Psicologia no Brasil é feito desde os anos 30 nas escolas normais dos Institutos de Educação do país de acordo com Dimenstein (1998) e, em 1956 foi implantado o primeiro curso de formação de psicólogo, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1957 na Universidade de São Paulo, e foi somente em 1962 com a Lei Federal n° 4.119, que a Psicologia foi consolidada como profissão. A regulamentação da formação do psicólogo e do exercício profissional pelo Conselho Federal de Educação aconteceu no ano de 1964, com o Decreto n° 53.464. A regulamentação da Lei 4.119 foi: (...) o passo decisivo para a criação dos cursos de Psicologia e elaboração do currículo mínimo; para a definição do território profissional e funções privativas do psicólogo - os quais têm por função assegurar o monopólio do saber e prática profissionais - bem como para a adoção de um código de ética com a finalidade de controle da atuação profissional. Além disso, a Lei 4.119 propiciou a regulamentação de algumas categorias profissionais que já vinham exercendo atividades aí descritas, como os graduados em Pedagogia com habilitação em Psicologia, conferindo-lhes o direito de reivindicar o título profissional de psicólogo baseando-se no reconhecimento da sua experiência profissional. (DIMENSTEIN, 1998, p. 54) 55 Os psicólogos garantiram um espaço institucionalizado de trabalho, no qual segundo Dimenstein, seu inicio se deu nas áreas de orientação e seleção profissional, orientação psicopedagógica, diagnóstico psicológico e aplicação de testes psicológicos, os quais passaram a ser de uso exclusivo da categoria. Além disso, áreas tradicionalmente ocupadas por médicos, como estudo de caso, perícias e psicoterapia, também passou a ser de ocupação do profissional da psicologia. Para Dimenstein, com a regulamentação da profissão: (...) o psicólogo passou a atuar em basicamente quatro áreas: clínica, escolar, industrial e magistério, áreas que atualmente estão bastante ampliadas e que não correspondem mais ao universo de atuação do psicólogo brasileiro, ampliação ocorrida em parte devido às próprias pressões do mercado de trabalho que passou a impulsionar os profissionais para outros campos de atuação. Dentre essas novas áreas, o campo da assistência pública à saúde foi para onde convergiu uma considerável parcelados profissionais, principalmente a partir do final da década de 70, momento em que se nota um maior contingente de psicólogos nas instituições públicas no Brasil. (DIMENSTEIN, 1998, p. 55) A primeira turma de psicologia a se formar no Brasil, foi a da PUC Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1960, com formato de currículo que sofreu mudanças pelo Ministério da Educação, no período do golpe militar. Segundo Rocha Junior (1999), de forma aparentemente sutil, tais mudanças passaram a valorizar as disciplinas próprias das ciências biológicas em detrimento as disciplinas vinculadas às ciências humanas. Houve também a inclusão da disciplina de Psicologia Comunitária, esta por sua vez não com o foco nas questões coletivas, mas ao contrário: (...) seus objetivos foram manipulados pelo governo, que pretendia com isso o desenvolvimento de técnicas que possibilitassem a manipulação de massas, penetrando-se em diversos grupos da sociedade, com o intuito de convencê-los à prática do Estado. (ROCHA JR., 1999, p.4). Estas mudanças tiveram interferência direta nos primeiros cursos de 56 acordo com Rocha Jr. (1999), mas teve influência direta na organização curricular de diversos cursos de psicologia que foram criados mais tarde. Em 1969, ocorreu a Reforma Universitária no país, neste período houve um crescimento rápido do número de cursos de psicologia no Brasil, principalmente nas universidades privadas. O aumento de cursos no país não deu conta de qualificar os profissionais de acordo com as reais necessidades populacionais. Desde a oficialização do primeiro currículo de psicologia até o momento atual, as discussões são realizadas entre Ministério da Educação, Conselho Nacional de Educação, Conselho Federal e Conselhos Regionais de Psicologia, a cerca das Diretrizes Curriculares. O Conselho Nacional de Educação Câmara de Educação Superior Resolução nº 8, de 7 de maio de 2004, institui as Diretrizes Curriculares para os cursos de graduação de psicologia no país. Estas Diretrizes dão à identidade da formação em psicologia no país a partir de um núcleo comum, diferente do que se tinha anteriormente conhecido como currículo mínimo. Este núcleo comum é um conjunto de competências, habilidades e conhecimentos que a formação deve oferecer. Dentre tais, em relação a formação de psicólogos que é relevante ao tema desta pesquisa encontram-se: No art. 3º “O curso de graduação em Psicologia (...) deve assegurar uma formação baseada nos seguintes princípios e compromissos”: d) Compreensão crítica dos fenômenos sociais, econômicos, culturais e políticos do País, fundamentais ao exercício da cidadania e da profissão; e) Atuação em diferentes contextos considerando as necessidades sociais, os direitos humanos, tendo em vista a promoção da qualidade de vida dos indivíduos, grupos, organizações e comunidades; (BRASIL, 2004) 57 Em seu artigo Art. 4° “A formação em Psicologia tem por objetivos gerais dotar o profissional dos conhecimentos requeridos para o exercício das seguintes competências e habilidades gerais”: a) Atenção à saúde: os profissionais devem estar aptos a desenvolver ações de prevenção, promoção, proteção e reabilitação da saúde psicológica e psicossocial, tanto em nível individual quanto coletivo, bem como a realizar seus serviços dentro dos mais altos padrões de qualidade e dos princípios da ética/bioética; (BRASIL, 2004) Tais artigos registram de forma clara os princípios, competências e habilidades quem vem ao encontro com os propostos no perfil do profissional para atuação em CAPS. 58 4. METODOLOGIA A práxis do psicólogo não é algo estanque e claramente delineado desde sua regulamentação enquanto ciência e profissão. Isso se dá, parte por ser uma profissão com vasto campo de atuação, e parte por se tratar uma profissão que tem interferência muito significativa na história de sujeitos e sociedades, e com isso é politicamente influenciada desde seu surgimento. Atualmente a necessidade de uma práxis antimanicomial vem sendo cada vez mais citadas pelo CFP (Conselho Federal de Psicologia) e pelos CRPs (Conselhos Regionais de Psicologia) de acordo com a Política Nacional de Saúde Mental do MS (Ministério da Saúde) bem como pela ABEP (Associação Brasileira de Ensino em Psicologia). Isso se dá através da criação de políticas públicas mais sólidas e com a ampliação no campo de atuação do psicólogo em serviços públicos, comunitários como os CAPS, que tiveram um aumento de 100 para mais de 980 serviços no Brasil entre 2003 e 2006. Sabe-se que os CAPS são serviços referenciais criados de forma estratégica, como parte de uma rede de serviços substitutivos ao modelo hospitalocêntrico. O aumento de CAPS vem criando uma abertura para atuação profissional que requer uma práxis voltada ao fortalecimento deste novo paradigma desinstitucionalização em saúde mental. Porém, no cotidiano dos serviços evidenciam-se lacunas significativas entre a necessidade do serviço e a qualificação profissional para efetivação de princípios dos CAPS. Tais lacunas, percebidas na atuação profissional nos CAPS, mostram de forma clara a deficiência de grande parte dos instrumentos oferecidos pela 59 graduação. As discussões a cerca de mudanças nas matrizes ou grades curriculares dos cursos de psicologia, promovidas pelo Conselho Federal de Psicologia e pelo MEC, parecem vir neste sentido, uma vez que coloca como foco a saúde pública como questão a ser priorizada nas novas mudanças. Por saber que este não é um problema isolado, optou-se pela discussão da formação de psicólogos, a partir da análise das ementas e planos de ensino dos cursos de psicologia do sistema ACAFE (Associação Catarinense de Fundações Educacionais), tratando-se de uma pesquisa bibliográfica documental. As ementas e planos de ensino são fontes que indicam os objetivos, referencial teórico e metodológico as quais direcionam as disciplinas dos cursos, que mostram as tendências ou ênfases na formação. Houve preferência em se trabalhar com as ementas e matrizes curriculares e planos de ensino nesta pesquisa, pela questão de que a Especialização em Didática e Metodologia do Ensino Superior busca levar aos acadêmicos uma discussão a cerca da Universidade e seu contexto. Neste sentido, dentro dos recursos oferecidos pelo sistema acadêmico (Universidade), estes documentos identificam as abordagens ou tendências da graduação destas IESs. De acordo com o Conselho Nacional de Educação, a matriz curricular e as ementas dão a identidade do curso, enquanto os planos de ensino podem ser adequados a cada semestre, são mais flexíveis por sua natureza, assim são instrumentos de adequação às mudanças de cada área em seu tempo, sem perder seu foco de discussão e aprendizado especificado na ementa. Em geral, as ementas e matrizes curriculares estavam disponíveis nos sites dos cursos. Porém, apenas poucas possuíam os planos de ensino disponíveis nestes espaços virtuais, lodo se fez necessário a solicitação às IESs destes 60 documentos. Para amostra da pesquisa foram eleitos os cursos das IESs do Sistema ACAFE, por ser este composto por dezesseis IESs (Instituições de Ensino Superior), das quais doze possuem graduação em Psicologia, sendo que: a) todas as IESs estão alocadas no estado de Santa Catarina; b) é o sistema que abrange o maior número de IESs com graduação em Psicologia; c) é composto por IESs todas igualmente privadas/comunitárias. A amostra foi composta de sete cursos de psicologia que forneceram os documentos necessários para análise, apenas um ainda não formou a primeira turma, o que caracteriza em sua maioria, cursos que oferecem ao estado grande o maior número de psicólogos que atualmente atuam nos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) do território estadual. Teve-se acesso aos documentos de sete cursos, sendo que as cinco demais não responderam as solicitações dos planos de ensino, e uma delas somente permite a retirada dos planos de ensino no campus. Desta forma, se têm as matrizes curriculares, ementas e planos de ensino de sete cursos. Optou-se, neste sentido, por realizar a pesquisa com os sete cursos que forneceram toda documentação, para garantir a fidedignidade na classificação das disciplinas que entre outros critérios dependem da verificação do referencial teórico utilizado nas disciplinas. Os demais critérios na classificação das disciplinas para análise são: os temas, o conteúdo programático das ementas e os tópicos dos programas das disciplinas. Como forma de análise de dados, foi percorrido os seguintes passos: 1. Leitura e compreensão das matrizes curriculares – no sentido de identificar todas as disciplinas que de alguma forma influenciam a formação do 61 psicólogo para a práxis nos CAPS; 2. Seleção das disciplinas que abordam a práxis do psicólogo nos CAPS; 3. Solicitação dos planos de ensino das disciplinas selecionadas às universidades que não dispunham os planos de ensino nos sites – somente a partir dos planos de ensino pode se ter uma melhor visualização do nível ou tipo de influencia que essa representaria na formação e na práxis do profissional; 4. Classificação das disciplinas em quatro categorias de análise – percebeu-se que as disciplinas possuem características distintas que podem influenciar de formas igualmente distintas na práxis do psicólogo nos CAPS. As disciplinas foram então selecionadas e classificadas em quatro categorias, tendo como critérios, o grau de direcionamento que a mesma possui a cerca da formação profissional de acordo com uma práxis mais ou menos voltada à perspectiva antimanicomial, necessária a efetivação da atual política nacional de saúde mental. Fazem parte das quatro categorias, somente as disciplinas que possuem influência direta ou indiretamente ligadas à práxis numa perspectiva antimanicomial, ou para práxis numa perspectiva medico-centrado. As quatro categorias são descritas da seguinte forma: a) Disciplinas Formadoras Básicas - DFB: aquelas abordam direta e especificamente a práxis do psicólogo nos CAPS numa perspectiva antimanicomial; b) Disciplinas Formadoras Complementares – DFC: aquelas que influenciam na formação estimulando uma práxis do psicólogo nos CAPS, citando de forma indireta os princípios de efetivação da atuação numa lógica antimanicomial; c) Disciplinas Periféricas – DP: aquelas que discutem questões que se interligam à perspectiva antimanicomial de forma indireta, mas que de alguma forma influenciam na formação estimulando uma práxis antimanicomial pela compreensão 62 ampla no ser humano e conceito de saúde pautado na perspectiva do SUS; d) Disciplinas Formadoras do Modelo Médico-Centrado - DMD: todas as disciplinas que direcionam para uma práxis que venha na contra-mão do modelo antimanicomial, sugerindo intervenções do modelo médico centrado. A partir da separação das disciplinas por categoria, fora realizada uma análise minuciosa, verificando as tendências na formação em psicologia. 63 5. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS Foi possível verificar nas 08 matrizes curriculares, dos 07 cursos de graduação em psicologia do sistema ACAFE, que o total de horas para formação de psicólogo é de média de 4.500 horas/aula, que correspondem em média a 66 disciplinas entre disciplinas obrigatórias, optativas, estágios ou disciplinas voltadas à prática, bem como para realização de atividades complementares (participação em eventos científicos, culturais ou realização de atividades diversas na área da psicologia). Deste total, o cálculo de horas de disciplinas que vão interferir na atuação profissional do psicólogo nos CAPS é de 1.140 horas/aula ou 23% do total de horas de todas as disciplinas dos cursos avaliados, independente da categoria de disciplina que se encontre. Os números abaixo citados são consideradas dentro do total de horas/aula (h/a) de disciplinas selecionadas, que possuem influência na formação do psicólogo. Tais disciplinas, portanto, divididas nas quatro categorias formadoras, são apresentadas da seguinte forma: • DFB – Disciplina Formadora Básica: 60 h/a = 4% • DFC – Disciplina Formadora Complementar: 120 h/a = 20% • DFP – Disciplina Formadora Periférica: 300 h/a = 32% • DFMMC – Disciplina Formadora do Modelo Médico Centrado: 660 h/a = 44% A apresentação do panorama geral dos 07 cursos avaliados é diferentemente apresentada numa avaliação mais detalhada da de cada curso, de 64 acordo com o percentual da carga horária (c/h) das modalidades de disciplinas oferecidas por estes. Nesta verificam-se os seguintes dados conforme o quadro abaixo3: CURSOS Curso A Curso B Curso C Curso D Curso E Curso F Curso G Curso H Todos DFB 8% 3% 0% 4% 5% 8% 2% 5% 4% DFC 15% 35% 7% 40% 10% 10% 31% 11% 20% DFP 27% 49% 46% 26% 37% 30% 18% 26% 32% DFMMC 50% 13% 47% 30% 48% 52% 49% 58% 44% Os cursos em geral ofertam DFB, que respondem por uma média de 4% da c/h distribuída em cerca de 60h/a de 1140h/a. Dentre estas disciplinas se pode citar, “Psicologia Hospitalar e Ambulatorial” no curso A, “Políticas de Saúde Mental” no curso B, “Saúde Pública e Saúde Mental Coletiva” no curso E, e “Saúde Mental Coletiva” no curso H, na qual em suas ementas trabalham: Contextualização e História da Loucura (...) Processo de desospitalização e desinstitucionalização da loucura. Centros de Atenção Psicossocial – CAPS e Programas de Saúde Mental. Prevenção em saúde mental. saúde mental comunitária e seus métodos de abordagem e de intervenção (...) (DFB curso F). Conceito de Sofrimento Psíquico. Normal e Patológico. Políticas de Saúde Mental e diferentes sistemas de atenção, (DFB - curso B). A Psicologia como um saber social e de saúde. Políticas públicas em saúde. O SUS. A história da loucura e da psiquiatria. Reforma psiquiátrica. Políticas de saúde mental no Brasil. A prática do psicólogo em equipes interdisciplinares de saúde mental. (DFB - curso E). 3 Optou-se por não divulgar o nome das IESs por não haver tempo para autorização formal desta exposição. 65 Ainda no que diz respeito as DFBs, nos Planos de Ensino, foram identificados como questões que abordam a práxis do psicólogo para intervenção em CAPS, temas de discussão no conteúdo programático como: “sofrimento psíquico e cidadania” e “serviços substitutivos” (curso B); “saúde mental: da prática asilar a inclusão social” (curso H); “níveis de assistência em saúde menta” e “média complexidade (Centro de Atenção Psicossocial - CAPS)” no curso D. Como referências bibliográficas4 utilizadas nas DFBs foram encontrados os seguintes autores: DEJOURS, Christoff. Por um novo conceito de saúde. FRANCO T. B.; BUENO W. S.; MERHY, E. E. O acolhimento e os processos e trabalho em saúde: o caso de Betim, Minas Gerais, Brasil. Rio de Janeiro: Cadernos de Saúde Pública - ENSP. (1999); CAMPOS, Regina H. (org.). Psicologia Social Comunitária: da solidariedade à autonomia (1996); CAPISTRANO, D. Saúde e Cidadania (1988); GOFFMAN, E. Estigma (1994); LANCETTI, Antonio. (org.). Saúde Loucura 1 (1989); ROTELLI, Franco. Desinstitucionalização (1990); CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE MENTAL I (1987), e II (1993), Brasília. Anais. CONFERÊNCIA ESTADUAL DE SAÚDE MENTAL 1. (1999), 2. (2000), 3. (2001), Florianópolis. Anais. FAGUNDES, Sandra. Revista Saúde Mental Coletiva (1994); LOBOSQUE, Ana Marta. Princípios para uma clínica antimanicomial e outros escritos (1997); (DFB – curso F). AMARANTE, Paulo. Loucos Pela Vida: a Trajetória da Reforma Psiquiátrica no Brasil (1995); O Homem e a Serpente (1996); TUNDIS, Silvério Almeida; COSTA, Nilson do Rosário. Cidadania e Loucura: políticas de saúde mental no Brasil. (1994); FOUCALT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica, (1978); GOFFMAN, Erving. Manicômios, Prisões e Conventos (1961); LANCETTI, Antônio; et all. Saúde Loucura: Saúde Mental e Saúde da Família (2001); SZAZS, S. Thomas. A Fabricação da Loucura (1977) (DFB – curso E); Por sua vez, as DFC (Disciplinas Formadoras Complementares), encontradas em todos os cursos, correspondem a um total de 20% das disciplinas de todos os cursos, com cerca de 120 h/a. O percentual de DFC varia de 7% a 40% de acordo com cada curso. Entre estas disciplinas se encontram: “Psicologia Social 4 Para classificação das referências como antimanicomiais, utilizou-se como critério os autores que historicamente tem apresentado uma crítica ao modelo clássico de assistência a saúde mental. 66 e Comunitária” no curso G, “Políticas Públicas e Direitos Humanos” e “Técnicas de Intervenção Psicossocial” no curso D, e “Psicologia na Saúde Pública” no curso C. No que diz respeito às DFP (Disciplinas Formadoras Periféricas), estas correspondem a um total de 32% das disciplinas de todos os cursos avaliados, com cerca de 300 h/a. O percentual de DFP varia entre 18% e 49% nos cursos. Entre estas disciplinas se encontram como disciplinas comuns aos cursos como DFP “Antropologia Cultural”, “Sociologia” e “Filosofia”. Além destas, “Universidade e Sociedade” no curso F, “Políticas Públicas e Sociais” no curso B, e “Teoria Dialético Crítica” no curso C. Apesar da oferta de DFB, DFC e DFP, em sua maior parte os cursos ofertam 44% de suas disciplinas que influenciam a formação de práxis voltada ao modelo médico-centrado - DFMMC. Estas disciplinas somam cerca de 660 h/a dos cursos de graduação em psicologia das 1440 h/a nas disciplinas avaliadas. De curso para curso existe uma variação de 13% a 58% de DFMMC. Entre tais disciplinas: “Psicopatologia I” no curso G, “Avaliação Psicológica” no curso C e “Neuropsicologia” no curso E, “Psicologia Institucional” no curso F, entre outras, nas quais suas ementas trabalham: (...) História da psicopatologia e sua evolução. Principais escolas em psicopatologia. História da loucura. Nível dinâmico, descritivo e fenomenológico dos fenômenos psicopatológicos. Critérios de normalidade e anormalidade na sociedade atual. Psicopatologia da infância e adolescência. Semiologia e semiotécnica das principais funções psíquicas e suas alterações. Introdução à nosografia dos grandes manuais de classificação diagnóstica. Classificação das síndromes e seus critérios diagnósticos. (DFMMC - curso G); Psicologia dinâmica da instituição: modelos teóricos, terapêutico institucional e psico-higiene, instituição, saúde e crescimento, diagnostico, direção e intensidade de mudanças institucionais (DFMMC – curso F). Além bibliográficas: disso, as DFMMC se utilizam das seguintes referências 67 SIMS, Andrew. Sintomas da Mente. (2001); AJURIGUEIRRA, Julian de. Manual de psicopatología infantil. (1991); YORENG, Patrick. Distúrbios mentais. (1988); GRUNSPUN, Haim. Distúrbios neuróticos da criança. (1995); JASPERS, Karl. Psicopatologia geral. (1979); DSM-IV; PAIM, Isaias, Curso de psicopatologia. (1986); KAPLAN & SADOCK, Compêndio de Psiquiatria. (1999); CID-10 - Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas. (1993). (DFMMC - Curso G); Ambos, ementa e referências, propõem um olhar e uma intervenção baseados no poder/saber do profissional e de institucionalização a partir da identificação e classificação do “doente”. Este olhar é influenciado por outras disciplinas do curso A, como a “Psicopatologia II”, “Psicodiagnóstico”, “Dificuldades de Aprendizagem”, entre outras, somando 50% de h/a do curso. O curso B oferece o menor índice de DFMMC, concentrando a maior parte das disciplinas como DFP e DFC, sendo ainda a que possuem maior percentual em horas/aula de DFB. Caracterizando-se como o único curso a direcionar a formação profissional com ênfase em psicologia social e comunitária e saúde pública. A avaliação destes cursos, diante dos percentuais e dos temas levantados nos planos de ensino, levando em consideração as ementas, os conteúdos programáticos e as referências bibliográficas apresentam algumas questões relevantes. Uma destas questões é o fato de os cursos com maior percentual de DFB e DFC, estão em fase de implantação ou em fase de reestruturação das matrizes curriculares. Outra questão diz respeito ao fato de que parte disciplinas classificadas como DFMMC, são passíveis de redirecionamento da influência na formação, ou seja, as ementas dão margem a uma discussão crítica a cerca dos modelos de atenção psicossociais e de suas possibilidades de intervenção, porém, as referências bibliográficas utilizadas e o programa das disciplinas deixam claro uma manutenção e reprodução das formas 68 institucionalizadas no que tange a questão da saúde. Quando uma disciplina de psicopatologia discute apenas classificação de “doenças mentais”, citando a história da loucura, de forma a-crítica e sem pontuar novas formas de intervenção, acaba se posicionado enquanto disciplina formadora do modelo médico-centrado. Da mesma forma quando a disciplina de psicofarmacologia trata apenas de auxiliar os graduandos em identificar os efeitos e contra-indicações de psicotrópicos sem discutir a medicalização como estratégia que pode auxiliar o usuário em seu sofrimento desde que administrada de forma contextualizada, sem discutir de forma crítica o poder de institucionalização e de alienação e a má administração de psicotrópicos pode levar o usuário. Demais disciplinas como anatomias, fisiologias, e neuro-psicologias, acabam com se classificarem como DFMMC por darem subsídios para um olhar organicista do ser humano, reforçando a discussão médico-centrada na formação e na práxis do graduando. Uma questão ainda relevante na análise das disciplinas, é o fato de que uma pequena parte das disciplinas que, a princípio pelo nome e pelas temáticas, dão margem a uma discussão institucionalizadora, mas que se posicionam numa perspectiva antimanicomial diante da análise do programa e das referências. 69 6. CONCLUSÃO A análise realizada mostra que seis dos sete cursos tem sua maior parte da carga horária dos cursos de graduação em psicologia, voltadas a Disciplinas Formadoras do Modelo Médico – Centrado (DFMMC). Verifica-se com isso que os cursos de psicologia do sistema ACAFE em sua maioria, oferecem uma formação com ênfase para uma práxis nos moldes do modelo médico-centrado. Se por um lado, os setores que discutem e promovem atualmente as transformações no âmbito da saúde pública5 se posicionam de forma cada vez mais clara que a práxis do psicólogo nos CAPS deve ser embasada numa perspectiva antimanicomial, por outro lado a formação se dá na contra-mão de tal necessidade. E é importante enfatizar que os CAPS são serviços que vem se constituindo como referência na implantação de rede de serviços substitutivos no SUS. Isso mostra a incoerência entre as necessidades apresentadas pela sociedade aos profissionais da psicologia e a formação oferecida. Esta incoerência dá base para compreensão de distorções a cerca da práxis do psicólogo (a) dentro do CAPS. Estas distorções se concretizam no desconhecimento dos objetivos e origens dos CAPS, e com isso a dificuldade de intervir com finalidade de não institucionalizar o usuários ou de buscar a desinstitucionalização quando houver um histórico de institucionalização. O que se verifica atualmente é uma pratica focando no atendimento individual, de diagnóstico, e no grupismo, ou seja, distante de ser facilitador do processo de reabilitação 5 Setores: Ministério da Saúde, Conselho Nacional de Educação, ABEP, CFP, CRP, etc. 70 psicossocial, de ser parte integrante de uma equipe interdisciplinar, de inventar e reinventar práticas tradicionais e embasadas na lógica antimanicomial. Fazendo uma analogia à Paulo Freire, para que a práxis do psicólogo seja realmente libertadora – antimanicomial –, se faz necessário que o psicólogo se perceba como possível repressor na relação técnico – usuário. Caso contrário, o profissional tenderá a reproduzir formas institucionalizantes, estigmatizantes e exclusoras. A formação / graduação em psicologia dos cursos avaliados, apesar de introduzirem esta discussão, acabam por desqualificar tal discussão, uma vez que sua maior ênfase é de uma práxis voltada ao modelo médico centrado, que é um modelo que apesar de antagônico as diretrizes do SUS, possui valor de status profissional e social. Após a avaliação dos cursos de psicologia do sistema ACAFE, sente-se a necessidade de ampliar a problematização da formação do psicólogo, como forma de fortalecer as mudanças da estrutura curricular dos cursos de psicologia que vem ocorrendo. Sabe-se que estas mudanças buscam fortalecer a profissão bem como fortalecer o SUS e serviços substitutivos como os CAPS. Com isso busca-se contribuir na discussão da formação em psicologia, neste momento em que o Conselho Nacional de Educação junto com o CFP e a ABEP promovem espaço para esta discussão, no sentido de reorganizar os currículos de psicologia. Neste sentido, compreende-se que o compromisso social deve ser meta das universidades enquanto lócus de formação profissional, que interfere na vida social de sua região. Integrar a formação ao desenvolvimento é discutir criticamente a cerca dos problemas sociais e a possibilidade de intervi de forma ética, séria e comprometida. 71 REFERÊNCIAS AMARANTE, Paulo. Loucos pela Vida. 2 ed. Rio de Janeiro: Fio Cruz, 1995. p.132 BASÁGLIA, Franco. A Instituição Negada. 3 ed. Rio de Janeiro 1968:_________, p. 322. BRASIL/Ministério da Saúde. Portaria GM n336/2002. Brasília, 2002. BRASIL. Resolução nº 8, de 7 de maio de 2004. Conselho Nacional de Educação Câmara de Educação Superior: Diretrizes Curriculares para os cursos de Disponível em: graduação em Psicologia. http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rces08_04.pdf. Acesso em 06 de ago. 2006 DIMENSTEIN, Magda D. B. O psicólogo e o compromisso social no contexto da saúde coletiva. Psicologia em Estudo, Maringá, jul./dez. 2001. v.6, n.2, p. 57-63. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141373722001000200008. Acesso em 26 ago. 2006. DIMENSTEIN, Magda D. B. O psicólogo nas Unidades Básicas de Saúde Estudos de Psicologia. Estudos em Psicologia. Natal, jan./jun. 1998. v. 3, n. 1. p. 53 - 81. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413294X1998000100004&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em 25 ago. 2006. FOUCALT, Michael, A História da Loucura na Idade Clássica. 5 ed. São Paulo: Perspectiva, 1997, p.555 FOUCALT, Michael, Doença Mental e Psicologia. 2 ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984, p.99. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 32 ed. São Paulo. Paz e terra, 2002. p.184. GIOIA-MARTINS, Dinorah. ROCHA JR, Armando. Psicologia da saúde e o novo paradigma: novo paradigma?. Psicologia em Estudo, Maringá, jul./dez. 2001. v.6, n.2, p. 57-63. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722001000200008. Acesso em 22 ago. 2006. GIOIA-MARTINS, Dinorah. ROCHA JR, Armando. Psicologia da saúde e o novo paradigma: novo paradigma?. I Congresso de Psicologia Clínica. 14 a 18 de maio / 2001. São Paulo. Universidade Presbiteriana Mackenzie. Disponível em: http://www.mackenzie.com.br/universidade/psico/publicacao/vol3_n1/v3n1_art3.pdf. Acesso em 22 ago. 2006. GOFFMAN, Erving, Estigma. 4 ed. São Paulo: Guanabara Roogan, 1988, p.158 GOFFMAN, Erving, Manicômios, prisões e conventos. 5ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1996, p.312 72 GULJOR, Ana Paula Freitas. Os Centros de Atenção Psicossocial: um Estudo sobre a Transformação do Modelo Assistencial em Saúde Mental. 2003. Dissertação (Mestre em Saúde Pública) - Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz: Área de concentração: Planejamento e Gestão de Sistemas e Serviços de Saúde. Rio de Janeiro. Disponível em: http://teses.cict.fiocruz.br/pdf/guljorapfm.pdf. Acesso em 17 out. 2006. JORNAL do Conselho Regional de Psicologia – Santa Catarina - 12ª Região. Jan. / fev. / mar. de 2006. p.12. JORNAL do Conselho Regional de Psicologia – Santa Catarina - 12ª Região. Abril / maio. / jun. de 2006. p.12. JORNAL do Conselho Regional de Psicologia – Santa Catarina - 12ª Região. Jul. / ago. / set. de 2006. p.12. JORNAL do federal, Jornal do Conselho Federal de Psicologia. Ano XIX, n 84, maio/2006. p.16. LANCETTI, Antônio. Saúde Loucura: Saúde Mental e Saúde da Família. São Paulo: Hucitec. LANE, Silvia, T. M. et al. Psicologia Social o homem em movimento. São Paulo: Brasiliense, 1984. 220p LOBOSQUE, Ana Marta. A luta antimanicomial: construção de um lugar. Revista da saúde, Brasília, ano II, n.2, 2001, p.24 -25. LOBOSQUE, Ana Marta. Princípios para uma clínica antimanicomial. São Paulo: Hucitec, 1997. p.95. PATTO, Maria Helena Souza. Psicologia e Ideologia: uma introdução crítica à psicologia escolar. São Paulo: T. A. Queiroz, Ed. 1984. p. 345. PITTA, Ana. Reabilitação Psicossocial no Brasil. 2 ed. HUCCITEC, São Paulo:. 1996, p 58. RICCIARDI, Frederico A. S. O nascimento da loucura: concepções teóricas e asilos. CienteFico. Salvador, jan./jul. 2002. Ano 1, v. 1. Disponível em: http://www.cientefico.frb.br/Textos%20CienteFico%202002.1/Produ%E7%E3o%20do %20Corpo%20Docente/O%20Nascimento%20da%20Loucura.pdf. Acesso em 14 out. 2006. ROCHA JR., Armando. Das discussões em torno da formação em psicologia às diretrizes curriculares. Psicologia: Teoria e Prática, São Paulo, 1999. 1(2): 3-8. Disponível em: http://www.mackenzie.com.br/universidade/psico/publicacao/revista1.2/art01.PDF. Acesso em 24 ago. 2006. SPINK, Mary Jane P. Psicologia Social e Saúde: práticas, saberes e sentidos. Petrópolis: Vozes, 2003. p. 339. 73 SZASZ, Thomas. A fabricação da Loucura um estudo comparativo entre a inquisição e o movimento de saúde mental. 3 ed. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1984. 408 p. VIGOTSKY, Lev Semenovich. A Formação Social da Mente. Sao Paulo: 6 ed. Martins Fontes. 1984. 191 p. 191. WERTHEIMER, Michel. Pequena História da Psicologia. São Paulo: Nacional. 1982, p.20. 74 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR BOMFIM, Elizabeth de M. Históricos Cursos de Psicologia Social no Brasil. Psicologia & Sociedade. Porto Alegre, maio/ago. 2004. v. 16, n. 2. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-71822004000200005. Acesso em 26 ago. 2006. BRASIL. Lei 9396 de 20 de dezembro de 1996. Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: http://www.seed.pr.gov.br/portals/portal/institucional/dee/legislacao/lf_Lei9394.pdf. Acesso em 01 de set. 2006. BRASIL / CAPES. Critérios de avaliação da área da Psicologia. Disponível em: http://www.capes.gov.br/capes/portal/conteudo/PSICOLOGIA.pdf. Acesso em 01 de set. 2006. CAMBAÚVA, Lenita G. SILVA, Lucia C. da. FERREIRA, Walterlice. Reflexões sobre o estudo da história da Psicologia. Estudos em Psicologia: Natal, jul./dez. 1998. v. 3, n. 2. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413294X1998000200003&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em 31 de ago. 2006. FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. 27 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003. 79 p. GUARESCHI, Pedrinho. Psicologia Social Crítica: como prática de libertação. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004. 138 p. KAWAHALA, Edelu. Constituição Social de Algumas Mulheres como Dirigentes Sindicais em Sindicatos Filiados à Central Única dos trabalhadores – CUT de Florianópolis. Florianópolis: Dissertação, Mestrado em Psicologia – UFSC, 2001. p. 133. MORAES, Marcia. A psicologia como reflexão sobre as práticas humanas: da adaptação à errância. Estudos em Psicologia. Natal, set./dez. 2003. v. 8, n. 3. p. 535 – 539. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2003000300021. Acesso em 28 ago. 2006. NASCIMENTO, Maria L. do. MANZINI, Juliani M. BOCCO, Fernanda. Reinventando as práticas psi. Psicologia & Sociedade, Porto Alegre, jan. / abr. 2006. vol. 18, n. 1. p. 15 - 20. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010271822006000100003&script=sci_arttext&tlng=pt. Acesso em 05 de out. 2006. PEREIRA, Fernanda M. PEREIRA NETO, André. O psicólogo no Brasil: Notas sobre seu processo de profissionalização. Psicologia em Estudo, Maringá, jul./2003. v.8, n.2, p. 19-27. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141373722003000200003&lng=es&nrm=iso. Acesso em 22 ago. 2006. 75 SANTOS, Nelson Garçia. Do Hospício à Comunidade: Políticas Públicas de Saúde Mental. Florianopolis: Letras Contemporâneas, 1994. p.115. TENÓRIO, F. A reforma psiquiátrica brasileira, da década de 1980 aos dias atuais: história e conceito. História, Ciências, Saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, jan. / abr. 2002. vol. 9, n. 1. p. 25-59. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010459702002000100003&lng=es&nrm=iso&tlng=pt . Acesso em 05 de out. 2006. TRAVERSO-YÉPEZ, Martha. A interface psicologia social e saúde: perspectivas e desafios. Estudos em Psicologia. Maringá, jul./dez. 2001. v. 6, n. 2. p. 49 – 56. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141373722001000200007. Acesso em 28 ago. 2006. TUNDIS, Silvério A. COSTA, Nilson do R. Cidadania e Loucura: Políticas de Saúde Mental no Brasil. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2000.