Comentário ao Salmo 105:7-11; 106:6-7, 19-21, 40-45 por Virgílio Barros 20 de Setembro Deus é Fiel Passagem Bíblica: Salmo 105:7-11; 106:6-7, 19-21, 40-45 CONTEXTO DA PASSAGEM O salmo 105 faz parte daqueles salmos que Mowinckel classifica como poemas não cúlticos, cuja característica é tentar manter os velhos traços e aderir a velhas regras de composição. Diz ele que “à medida que as pessoas já não compõem para uma situação definida de culto, a preservação dos tipos específicos de composição nunca mais foi salvaguardada pelo seu “lugar na vida” como costumava ser, e os diferentes modos e motivos ficaram misturados” 1 . Nesta sua perspectiva os salmos foram compostos por “profissionais” do templo, os denominados escribas, que procuraram ensinar como Iavé agiu na história sagrada do povo, a fim de os levar a confessar o nome de Iavé. O salmo, sendo didáctico, adquire o carácter de uma teodiceia, isto é procura mostrar que Deus agiu correcta e justamente. Os primeiros 15 versículos deste salmo aparecem em 1 Crónicas 16, onde fazem uma composição com partes do salmo 96 e 106. Isto mostra que já no século IV a.C., porque Crónicas terá sido escrito por esta altura, os salmos já estavam a ser reunidos para uso no culto. O salmo 106 fecha o denominado Livro IV do saltério e por isso muitos intérpretes têm verificado que há uma inter-relação entre estes dois salmos. Como diz Anderson, “esta composição trata da história sagrada de Israel, mas a ênfase está sobre a tensão entre a desobediência da nação e a misericórdia incrível de Iavé” 2 . Enquanto o salmo 105 exalta a fidelidade, a graça, a misericórdia e o tratamento especial de Deus para com o povo de Israel, o salmo 106 descreve a infidelidade, o erro e o pecado de Israel para com Deus. O povo testemunhou os milagres realizados por Deus no Egipto, a divisão do mar Vermelho e a providência na travessia do deserto, mas depressa se esqueceu destas coisas, fabricando ídolos e praticando a idolatria. Ao entrarem na terra de Canaã adoptarem as práticas e os deuses dos povos residentes. Por isso, Deus trouxe o julgamento sobre eles deixando que os seus inimigos os derrotassem e fossem espalhados pelas nações. Ambos os salmos têm uma característica didáctica, procurando contar a história sagrada do povo de Israel a fim de providenciar “material para uma confissão de pecados e uma oração para restauração da parte da congregação” 3 . Parece que a Sitz im Leben (Situação vivencial) dos salmos foi a renovação do Pacto. Nesta cerimónia os sacerdotes contavam os actos de fidelidade de Deus e os levitas recitavam as iniquidades do povo, seguindo-se depois disso a confissão. Deus é Fiel (Salmo 105:7-11) Versículo 7 Literalmente, o versículo começa por dizer: Ele é Iavé nosso Deus. O pronome “ele” (aWh) é enfático para destacar que Aquele que deve ser invocado, louvado, 1 Sigmund Mowinckel, The Psalms in Israel’s Worship, Grand Rapids, Eerdmans, 2004 (1962), 111. A. A. Anderson, Psalms (73-150), NCBC, Grand Rapids, Eerdmans, 1981, 735. 3 Mowinckel, The Psalms in Israel’s Worship, Grand Rapids, Eerdmans, 2004 (1962), 112. 2 © 2009 – Igreja Baptista de Almada 1 Comentário ao Salmo 105:7-11; 106:6-7, 19-21, 40-45 por Virgílio Barros glorificado é o Deus pessoal conhecido no círculo de Israel como Iavé. No entanto, o salmista tem uma visão global do exercício de Deus, quando diz que “os seus juízos estão em toda a terra”. Os “juízos” (μyfiP;v]mi - mishpatiym) de Deus estão relacionados com os actos de Deus relacionados com as Suas decisões em certos casos concernentes ao Seu povo. Por todos os lugares onde o povo passou, Deus agiu julgando e tomando decisões a favor dele. Não podemos esquecer que o substantivo “juiz”, cuja raiz é a mesma, está relacionado com os juízes que Deus levantou num período da história do estabelecimento de Israel na terra prometida. Eles tinham a função de defender as pessoas dos inimigos, de os livrar dos opressores e de lhes ensinar a verdade para que continuassem no caminho direito. Num significado mais lato, poderemos dizer que o verbo “julgar” (fp"v; - shapat) é o termo geral para a administração de justiça 4 . A palavra “terra” (≈r,a, - ’erets) pelo facto de ser antecedida pelo indefinido “toda” e seguida pela palavra “juízos”, certamente refere-se à zona habitada pelos seres humanos. Local palpável para o salmista, onde vê Deus a exercer a Sua acção. “A visão do mundo israelita é a mesma defendida geralmente por todo o antigo Próximo oriente, segundo o qual a terra é um disco assente nos fundamentos ou pilares no oceano” 5 . Encontramos esta ideia nos Salmos e em Jó. Versículo 8 Alguns manuscritos preferem ler o Imperativo da segunda pessoa do plural (Wrk]zi - zikeru), como acontece no versículo 5 e em consonância com 1 Crónicas 16:15. No entanto, é possível que o salmista, nesta secção, queira descrever os actos maravilhosos que Deus tem feito no meio do Seu povo até àquele momento. Em contraste com outros deuses da antiguidade que os povos vizinhos adoravam, o Deus do salmista é um Deus que tem memória. Ele “lembra” (rk"z; zakar). São numerosas as passagens que têm Iavé ou Elohim como sujeito do verbo. A preocupação em tornar Deus um ser tão pessoal faz com que o salmista, e outros escritores do Antigo Testamento, usem um termo tão humano com Deus. Eising, reflectindo sobre isto, escreveu: “O mesmo verbo zakhar, usado para denotar a acção da mente que é tão necessária à existência humana, pode, do mesmo modo, ser usado para Deus, com uma eficácia que torna possível falar da “conduta” de Deus”6 . De facto, a forma como Deus se comporta para com o Seu povo é inigualável. Em muitas passagens, o verbo está relacionado com o motivo do “concerto” ( tyriB] - beriyth). E nos salmos este motivo aparece três vezes. Neste caso a duração do pacto baseia-se na fidelidade de Deus. Ao dizer que Iavé se lembra do pacto, o salmista mostra aos seus leitores, ou aos adoradores, que podem confiar no seu Deus porque Ele é fiel. Este Deus é o Deus da “palavra” (rb;D; - dabar). Não é um deus mudo, mas o Deus que se expressa com autoridade. O verbo “mandar” (hw;x; - tsawah) é usado no seu grau de intensidade (Piel) e aponta para a acção de um Deus que ordena, que faz da Sua palavra mandamento que dura não apenas um dia ou uma geração, mas mil gerações (r/D πl,a, - ’eleph dôr). A ordem de Deus já vem do texto de Deuteronómio 7:9. 4 Robert B. Girdlestone, Synonyms of the Old Testament, Grand Rapids, Eerdmans, 1978, 251. Ottosson, “≈r,a,”, Theological Dictionary of the Old Testament, vol. I, Grand Rapids, Eerdmans, 1974, 395. 6 Eising, “rk"z;”, Theological Dictionary of the Old Testament, vol. IV, Grand Rapids, Eerdmans, 1980, 69. 5 © 2009 – Igreja Baptista de Almada 2 Comentário ao Salmo 105:7-11; 106:6-7, 19-21, 40-45 por Virgílio Barros Versículo 9 Geralmente as versões mais antigas têm a palavra “concerto” em itálico, o que significa que a palavra foi inserida ali para melhor compreensão da frase, mas ela não consta do texto hebraico. A dedução é feita a partir do verbo tr"K; (karat) que significa “cortar”. Quando se fazia um pacto com alguém era costume sacrificar-se um animal que depois era cortado em dois para as partes intervenientes no concerto. Nos salmos este verbo aparece 14 vezes, que na sua maioria apresentam o seu significado básico denotando destruição (cf. 37:9, 34, 38; 109:15). Hasel considera que “o verbo karat tem um significado idiomático, que pode derivar do significado literal “cortar”. … O significado idiomático de karat aparece em expressões sinónimas com dabar… assim como no uso absoluto sem um complemento” 7 . É por isso que o seu sentido é “fazer um pacto”. O texto lembra o pacto que Deus fez com Abraão (Gén. 15:18). A fidelidade de Deus continua a ver-se no facto de o salmo referir em seguida o juramento feito a Isaque. O substantivo h[;Wbv] (shebu‘ah) significa “juramento” ou “maldição”. No relacionamento entre as pessoas “uma sociedade exige que os seus membros falam a verdade em situações cruciais e mantenham as suas promessas em questões de conteúdo sério” 8 . Perante este ideal, certamente o salmista está a falar da seriedade do juramento de Iavé. Aquilo que Deus falou a Isaque continua a ser verdade para o povo que agora cultua ao Senhor. A grafia qj;c]yi (yischaq), em vez do habitual qj;x]yi (yitschaq), aparece 4 vezes no Antigo Testamento (Jer. 33:26; Am. 7:9, 16). Apesar de a tradição não ser extensa no que diz respeito a Isaque, ele também faz parte da continuidade do juramento que certamente começou com Abraão (Gén. 22:16) e passou por Isaque (Gén. 26:3ss.). Versículo 10 O salmista continua a referir os patriarcas para culminar com o nome de “Israel”. Desta forma, ele lembra que o pacto de Deus vem desde os tempos antigos até à actualidade que o povo está a viver. O verbo dm"[; (‘amad) transmite a ideia de “erigir”, “fazer ficar em pé”. O facto do verbo se encontrar no Hiphil, isso significa que Deus é que faz as coisas acontecer. Neste caso certamente a palavra tem o sentido de “estabelecer”. Deus fez com que este concerto, chegado à época de Jacó, se tornasse um estatuto (qjo - choq). Certamente este termo foi usado para designar “expressões específicas da vontade de Iavé” e neste versículo em particular está associado com a promessa da terra 9 . Agora a ênfase recai sobre o termo “eterno” (μl;/[ - ‘olam). Esta palavra aponta para uma longa duração desde os tempos antigos até ao futuro. O pacto que Deus estabelece com o povo de Israel tem a mesma duração que Deus tem. Ele baseia-se na sua palavra, no juramento e no estatuto que se foram firmando através dos tempos. Versículo 11 O discurso directo torna a promessa mais vívida para os adoradores. A crítica textual mostra que os manuscritos de Qumran fizeram a mudança de “a ti” (Úl] - leka) Gerhard Franz Hasel, “ tr"K;”, Theological Dictionary of the Old Testament, vol. VII, Grand Rapids, Eerdmans, 1995, 349. 8 Marvin H. Pope, “Oaths”, The Interpreter’s Dictionary of the Bible, vol. 3, Nashville, Abingdon Press, 1962, 575. 9 Ringgren, “qq"j;”, Theological Dictionary of the Old Testament, vol. V, Grand Rapids, Eerdmans, 1986, 146-147. 7 © 2009 – Igreja Baptista de Almada 3 Comentário ao Salmo 105:7-11; 106:6-7, 19-21, 40-45 por Virgílio Barros para “a vós” (μk,l] - lekem), talvez para harmonizar com o final da frase e ao mesmo tempo realçar que o que Deus falou a Abraão na antiguidade se aplicava ao povo no momento. Aceitando o texto Massorético, Kirkpatrick sugere que “a promessa foi feita aos patriarcas individualmente… mas, neles, também aos seus descendentes” 10 . A frase é uma citação parcial de Génesis 13:15 e com o acrescento da palavra “Canaã” (ˆ["n;K] – kena‘an). Esta palavra está associada à raiz verbal que significa “ser humilde”. A princípio o termo designava a parte costeira da Fenícia, mas depois passou a designar toda a Palestina. Esta terra era apenas uma “porção” da herança do povo. A palavra “porção” (lb,j, - chebel) em alguns textos significa “linha” ou “corda”. Por isso algumas versões traduzem por “limite”. Fabry diz que “em combinação com nomes próprios (chabhlê-menashsheh, Jos. 17:5; chebhel bene yehudhaj, Jos. 19:9), chebhel chega antes a designar uma área específica atribuída (ou prometida)” 11 . E neste caso ele refere a palavra hl;j}n" (nachalah) que significa “possessão, propriedade, herança”. O salmista estava a falar do espaço que habitavam e o identificava como herança recebida de Iavé. O Povo de Deus é Esquecido (Salmo 106:6-7, 19-21) Versículo 6 Este versículo mostra a mudança de pronomes. Os versículos 4 e 5 apresentam o pronome “Eu”, mas agora temos o pronome “nós”. Aqui começa a confissão do povo que se identifica com a história passada. Para o verbo “pecar” (af;j; - chata’) temos a palavra mais comum para designar o desvio do alvo que Deus traçou. Esta confissão não é única neste texto. Na história dos espias à terra de Canaã, os murmuradores morreram de praga perante o Senhor, então o povo contristado subiu ao monte e confessou: “nós pecámos” (Núm. 14:40). O mesmo aconteceu na história das serpentes no deserto (Núm. 21:7). No tempo dos juízes e de Samuel, o povo também chegou a esta conclusão (Jz. 10:15; 1 Sm. 12:10). Mas este versículo possui as mesmas palavras que Salomão proferiu depois da dedicação do templo (1 Reis 8:47). Esta expressão realça a infidelidade de Israel através de várias gerações. Em várias situações, o povo errou o alvo de vida que Deus tinha para ele. Os verbos seguintes reforçam a ideia do pecado. “Cometer iniquidade” (hw;[; ‘awah) tem como significado primário “torcer, curvar”. O verbo apresenta-se no grau Hiphil, o qual demonstra que o próprio povo provoca a distorção, a curva para seguir o seu próprio caminho. Ele transmite a ideia de que o corpo está todo curvado ou inclinado ou prostrado não deixando ver o alvo. Quanto ao verbo [v;r; (rasha‘), estamos a falar de actos criminosos tal é a perversidade deles. Também este verbo se encontra no grau causativo (Hiphil). A consciência é a de acções realizadas, completas. Com estes dois verbos o povo confessa que o seu pecado contra Deus é hediondo. 10 A. F. Kirkpatrick, The Book of Psalms, 1902, 617, citado em A. A. Anderson, Psalms (73-150), NCBC, Grand Rapids, Eerdmans, 1981, 729. 11 H.-J. Fabry, “lbj”, Theological Dictionary of the Old Testament, vol. IV, Grand Rapids, Eerdmans, 1980, 177. © 2009 – Igreja Baptista de Almada 4 Comentário ao Salmo 105:7-11; 106:6-7, 19-21, 40-45 por Virgílio Barros Versículo 7 Pegando na história de Israel no tempo do Egipto, o povo continua a relacionarse com o passado, vendo que infelizmente praticam os mesmos actos dos seus antepassados. Parece que nada aprenderam com a história. Os antepassados deveriam ter respondido com fé a tudo o que viram Deus fazer para os livrar do Egipto. Em vez disso, não atentaram (lk"c; - sakal) para a obra de Iavé. Este verbo, no grau normal (Qal), significa “ser prudente”. Mas no grau Hiphil, como é o caso, apresenta vários significados tais como “prestar atenção”, “considerar” ou “ponderar”, “ter visão ou compreensão”. De qualquer forma parece que o povo não primou pela inteligência apesar de ter as evidências perante os seus olhos. Certamente estavam tão preocupados com a sua libertação que não prestaram atenção às maravilhas (t/al;p]ni – niphela’ôt) de Deus. Este substantivo corresponde ao particípio do verbo al;P; (pala’). Há uma preocupação em falar das acções extraordinárias que Deus fez. O importante são as acções de Deus e não as maravilhas em si.As pessoas até podem ter ficado assombradas com as maravilhas, mas não atentaram para o facto de ter sido Deus a agir. Para além de não atentarem, também esqueceram, literalmente: não lembraram (rk"z; - zakar) (cf. 105:8) a benignidade (ds,j, - chesed) de Deus. Esta palavra designa a forma como Deus trata o ser humano e também pode ser traduzida por “misericórdia”. Como diz Girdlestone, “é uma exibição prática da bondade para com o próximo, cuja reivindicação pode ser o infortúnio e a quem está em nosso poder ajudar” 12 . Neste caso, ele está a ilustrar o significado da palavra com a conduta do bom samaritano. Mas certamente a ilustração se aplica a Deus, que olhando para a situação miserável em que o seu povo se encontrava, decidiu tirá-lo da escravidão com braço forte. Apesar de saírem do Egipto em triunfo, a sua alegria se transformou rapidamente em pânico quando se depararam com o mar Vermelho. O verbo “rebelar” (hr;m; - marah) transmite a ideia de ser contencioso, refractário e rebelde. De forma geral é usada em situações em que os homens desafiam a autoridade divina (Núm. 20:10; Isa. 1:20). Ao fazerem isto, eles realmente estavam a desafiar a capacidade de Deus para os tirar dali. As Bíblias tradicionais têm a expressão “junto ao mar” enquanto outras lêem “contra o Altíssimo”. Isto deve-se ao facto de a palavra μy;Al[" (‘al-yam) poder ser considerada um erro de escriba. Os tradutores da Septuaginta, talvez não percebendo a presença da palavra “mar” (μy;) duas vezes quase seguidas, entenderam que a expressão queria dizer ajnabaivnonte" (anabaínontes), “quando chegaram”, considerando que a palavra hebraica deveria ser μyli[o (‘oliym). Entretanto, os críticos do texto em hebraico acharam que se deveria sugerir a leitura de ˆ/yl][, (‘elyôn), “Altíssimo”. Se mantivermos o texto massorético leríamos o seguinte: “e rebelaram-se junto ao mar, no mar Vermelho”. Faz mais sentido dizer que se rebelaram contra o Altíssimo junto ao mar Vermelho. Na realidade não se deveria traduzir πWsAμy; (yam-suph) por “mar Vermelho”, porque a palavra suph pode ser uma palavra tirada do egípcio que significa “papiro”. A expressão “Mar Vermelho” é a tradução literal do grego. Mas em hebraico, deveria traduzir-se por “Mar dos Juncos”. Perto da cidade de Ramsés havia duas extensões de água e uma delas chamava-se “lago papiro”, que em egípcio tem as mesmas palavras que em hebraico suph. Mihelic concluiu que “uma vista de olhos no mapa da região onde os israelitas se encontravam no momento da travessia do mar, e a localização 12 Robert B. Girdlestone, Synonyms of the Old Testament, Grand Rapids, Eerdmans, 1978, 111. © 2009 – Igreja Baptista de Almada 5 Comentário ao Salmo 105:7-11; 106:6-7, 19-21, 40-45 por Virgílio Barros geográfica da extremidade mais a norte do golfo do Suez, mostrarão imediatamente que ambas as expressões, Yam Suph e “o mar”, nas passagens acima não poderão referir-se ao Mar Vermelho nem mesmo ao Golfo do Suez. … Os israelitas, não sendo um povo marinheiro, não faziam distinção no seu vocabulário entre um lençol de água, como um lago, e o mar” 13 . Portanto seria uma área pantanosa a norte do Golfo do Suez onde cresciam juncos. De qualquer forma, dá-nos a ideia de que por menor que fosse a dificuldade, o povo logo arranjava maneira de se rebelar contra Deus. Versículo 19 Esta é uma das lembranças mais desastrosas da vida do povo israelita e que certamente se adapta ao contexto que o povo viveu em várias épocas. Apesar de Martin Noth argumentar que no antigo próximo Oriente não há conhecimento de divindade com corpo de animal e que provavelmente a expressão referia-se a pedestais dedicados a Deus que invisível se encontrava sobre eles 14 , há indicações de que tanto El como Baal eram descritos como “Touros” e, por isso, a palavra “bezerro” ( lg,[e – ‘egel) “pode ser um substituto derrogatório para ‘touro’ (sur), que pode ter sido deliberadamente apresentado de forma errada como um ídolo, embora originalmente fosse um pedestal-touro de Iavé” 15 . Não há razão para pensar que não houvesse mesmo uma imagem fabricada porque não podemos escapar ao uso da palavra hk;Sem" (massekah) que significa “metal fundido”. Horebe é a designação que aparece no Livro de Deuteronómio para o Sinai. O termo hebraico ( brejo - choreb) provavelmente significa “desperdício” ou “desolação”. É uma palavra especialmente usada pelo escritor eloísta que talvez esteja a jogar com o sentido semântico da palavra. Enquanto Moisés está no cimo do monte a receber a Lei de Deus, o povo desperdiça o tempo fabricando uma imagem para adorar. O texto usa a palavra jj"v; (shachach) que significa “dobrar-se”, “curvar-se” ou “prostrar-se”. Eles mostraram-se subservientes a uma imagem fundida. Versículo 20 É impressionante que, depois de terem recebido tantos benefícios de Iavé, tenham trocado a glória que tinham pela figura de um boi que come erva. O verbo “trocar” (rWm - mur) designa a inconstância de uma pessoa que está sempre insatisfeita. A expressão “sua glória” significa “glória deles” (μd;/bK] - kebôdam). Ainda houve quem tentasse corrigir a leitura para “glória dele” ou para “minha glória”, para darem a indicação que o pronome se refere a Deus. Mas em Jeremias 2:11 lemos: “o meu povo trocou a sua glória pelo que é de nenhum proveito”. Aqui é Deus quem fala e refere-se à glória que o povo possuía. Neste salmo temos a mesma indicação. O povo tinha uma glória extraordinária devido ao seu relacionamento com Iavé e trocaram-na por algo que não qualquer sentido. Agora tinham um boi (r/v - shor) que comia erva. A referência a erva certamente procura demonstrar a efemeridade da substância. A erva murcha e se acaba e, por isso, não se pode comparar ao Deus eterno. A glória de um e de outro não se pode igualar pois encontram-se em lados totalmente opostos. Este boi que se alimenta de coisas efémeras só poderá ter uma vida efémera. 13 J. L. Mihelic, “Red Sea”, The Interpreter’s Dictionary of the Bible, vol. 4, Nashville, Abingdon Press, 1962, 20. 14 Martin Noth, Exodus, OTL, Philadelphia, Westminster Press, 1962, 247. 15 Anderson, Psalms (73-150), 742. © 2009 – Igreja Baptista de Almada 6 Comentário ao Salmo 105:7-11; 106:6-7, 19-21, 40-45 por Virgílio Barros Muitas vezes as pessoas substituem um relacionamento eterno com Deus por coisas que nunca as poderão satisfazer. Preferem o dinheiro, a fama, o poder, a posição e muitos falsos deuses da religião. Outros ainda depositam a sua fé nos relacionamentos humanos para encontrarem significado para as suas vidas. Tais coisas ficarão muito aquém da chamada que Deus coloca diante de nós. A Bíblia ensina que só encontraremos o preenchimento supremo no propósito de Deus para a nossa vida (Mt 6:33). A alegria duradoira alcança-se quando fazemos a vontade de Deus. Versículo 21 O povo esqueceu-se de Deus, seu Salvador, que os livrou ao fim de 430 anos de escravidão no Egipto. O substantivo “Salvador” (["yvi/m – môshiy‘a) corresponde mais uma vez ao Particípio do Hiphil e indica acção. Foi um termo usado para muitos heróis de Israel que salvaram a nação na guerra. Mas uma grande parte do uso da palavra refere-se a Deus que salva o Seu povo dos males externos. Em Isaías, este termo é uma designação de Iavé (43:3, 11; 45:15, 21; 49:26). Ele fez grandes coisas no Egipto humilhando Faraó e os egípcios pelo Seu poder. O Senhor também triunfou sobre os deuses do Egipto, mostrando a sua singularidade através das pragas que os mágicos do Egipto embora conseguissem fazer algumas não conseguiam removê-las. As nações vizinhas ouviram falar da grandeza de Deus e como Ele tirou Israel do Egipto e o trouxe para Canaã. A Misericórdia de Deus é Maravilhosa (Salmo 106:40-45) Versículo 40 As expressões antropomórficas em relação a Deus são sempre motivo para grandes diálogos e comentários. A palavra hebraica para “ira” (πa" – ’aph) começa por significar “nariz” ou “narina”. Só no texto hebraico é que esta palavra aparece com o duplo significado: narina e ira. Em cerca de 170 textos, esta palavra denota a ira divina. O que é preciso ter em conta é que a ira de Deus surge por causa das acções do ser humano. “Assim, a sua ira deve ser entendida dentro da estrutura da relação pactual. Deus fez conhecido o seu desejo de salvar através das suas promessas e através da liderança histórica do seu povo, e, por isso, ele tem o direito de reivindicar a obediência e a confiança deles” 16 . No Antigo Testamento, a ira de Deus não é vista em termos negativos, mas como uma indicação da sua grandeza e soberania ilimitada. Mas fundamentalmente é uma reacção à ingratidão e à infidelidade do Seu povo. A palavra “abominar” significa “rejeitar”. A força do verbo b["T; (ta‘ab) é demonstrado no facto de o verbo se encontrar no Piel, o grau da intensidade. O pecado do povo é tão abominável que Deus só tem uma saída – abominar a sua herança. É uma questão ética da parte do povo, e as consequências que sofrem por terem rejeitado Deus só os pode levar a pensarem numa verdadeira ira de Deus, justificada pelo muito amor com que os tem amado. Versículo 41 Eis as consequências e a evidência da ira de Deus. A Bíblia mostra que Deus usou, muitas vezes, as nações vizinhas como instrumentos de julgamento contra o Seu povo, tais como os cananeus, os moabitas, os midianitas, os filisteus e os amonitas. Anderson considera que o salmista está a falar primeiramente sobre os acontecimentos E. Johnson, “πn"a;”, Theological Dictionary of the Old Testament, vol. I, Grand Rapids, Eerdmans, 1974, 357. 16 © 2009 – Igreja Baptista de Almada 7 Comentário ao Salmo 105:7-11; 106:6-7, 19-21, 40-45 por Virgílio Barros no período dos juízes, mas acaba por dizer que “também tem a intenção de relembrar o resto da história variado do seu povo até ao tempo do exílio” 17 . Estas nações certamente tinham um ódio contra o povo de Israel e desejavam explorar os recursos de Canaã. Por isso, quando se apanhavam na posição de governar sobre ele, faziam de forma cruel e dura (Am. 1:3). Versículo 42 Opressão e humilhação eram o que não faltava nas consequências que o povo sofria por terem rejeitado Deus. O verbo “oprimir” (≈j"l; - lachats) faz lembrar a história do povo no Egipto (Êx. 3:9) mas também a história do exílio (Am. 6:14). Muitas vezes o povo foi levado como escravo (2 Reis 5:2) e outros povos restringiram a sua liberdade (1 Sam. 13:19-20). Não havia maior humilhação para um povo do que estar debaixo da mão de um inimigo. Versículo 43 A história de Israel parece ser uma sequência interminável de rebelião e castigo, arrependimento e libertação. A palavra “livrar” aqui tem o sentido de “arrebatar” (lx"n; natsal), é como tirar uma presa da boca de um animal. Este verbo denota a força necessária para abrir a boca do animal e tirar a presa já cheia de ferimentos. O problema persistia. Eles continuavam a rebelar-se contra Deus. Parece que só aprendiam a lição por uns momentos, durante o tempo do julgamento. Versículo 44 As palavras “ouviu o seu clamor” faz-nos lembrar o Salmo 3:4, que descreve o clamor de David para que Deus o livre no tempo da aflição e Deus respondeu. O verbo “atentar” corresponde ao verbo “ver” (ha;r; - ra’ah). Deus vê tudo o que se passa com o Seu povo, principalmente, quando está num aperto tremendo. O termo hebraico rx; (tsar) significa “apertado”, “estreito”, a ponto de não se conseguir mexer, semelhante ao aperto de uma jibóia sobre a sua presa asfixiando-a. Quando o povo de Deus se encontra nesta situação, Deus age porque viu verdadeiramente o que se passa e ouviu o clamor. É preciso que o povo clame para que Deus responda. Versículo 45 Deus lembra-se do pacto que tinha estabelecido com Israel. É a lembrança do seu pacto que o leva a compadecer-se (μj"ni - nicham) do seu povo. Esta é a afirmação de que Deus sofre juntamente com o seu povo quando este está a carregar as consequências do seu pecado. E como não podia deixar de ser, esta compaixão está intimamente ligada à sua benignidade (ds,j, - chesed). CONCLUSÃO 1. Lembrar os exemplos da fidelidade de Deus no passado, encontramos razões para O louvar e Lhe obedecer. 2. Relembrando a história da infidelidade de Israel ajuda-nos a não nos esquecermos de Deus. 3. Precisamos de receber no nosso coração a extraordinária misericórdia de Deus e procurar viver em obediência à Sua vontade. 17 Anderson, Psalms (73-150), 747. © 2009 – Igreja Baptista de Almada 8