NO LIMIAR DA FRONTEIRA: A RELAÇÃO BENTINHO–ESCOBAR
Osmar Miranda Rehem1
Muitos poderiam advertir que não faz sentido se propor uma perscrutação acerca
do homoerotismo i em Dom Casmurro. Para aqueles que tiverem essa visão reducionista
do “bruxo do Cosme Velho”, trazemos uma reflexão do próprio escritor fluminense, na
qual ele faz questão de destacar: “Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde
ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o
encoberto [...]”.ii Logo, a nossa proposta não “fere” a imagem dele, em razão de
estarmos seguindo um preceito defendido pelo autor: devemos buscar aquilo que não
está na superfície do texto. O que se quer destacar, nesse momento, é o quanto Machado
de Assis se contrapõe ao caráter transparente do texto ficcional, defende, pelo contrário,
o preenchimento de lacunasiii, como o próprio narrador de Dom Casmurro nos incita a
fazer: “Assim preencho as lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas”.iv
Bentinho e Escobar se conhecem no seminário de S. José. No capítulo “Um
seminarista”, o segundo é descrito como sendo um habilidoso com as palavras, de jeito
fugidio, na expressão do próprio narrador. Sugere-se, ainda, que Bento ficara
deslumbrado pelas palavras de Escobar, e esse sentimento de estupefação é tão intenso
que se sente impossibilitado de controlá-lo. Em seguida, afirma que não havia nada —
“não tinham chaves nem fechaduras” — que impedisse a emersão de tal sentimento. A
afetividade se torna tão intensa que mais tarde um padre fará questão de lembrar:
Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que
não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas
notaram a nossa efusão; um padre que estava com eles não gostou.
— A modéstia, disse-nos, não consente esses gestos excessivos;
podem estimar-se com moderação. v
Licenciado em Letras Vernáculas pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus XXII,
Euclides da Cunha. Este artigo é uma versão condensada e levemente modificada de meu Trabalho de
Conclusão de Curso apresentado, em agosto de 2010, à referida instituição. Esta análise é grata ao meu
orientador, o Prof. Ms Orlando Freire Jr., aos professores Nelson N. da Silva, Rosana Carvalho da S.
Ghignatti e ao amigo Cleilton Silva. Contato: e-mail: [email protected].
1
ISBN: 978-85-7395-211-7
A repreensão do padre quanto à demonstração de afetividade entre Bentinho e
Escobar é indicativa de uma atitude que não dispensa a atenção às minúcias, aos
detalhes. Parte-se do pressuposto de que se não for capaz de eliminar um
comportamento, pelo menos que se busque adestrá-lo: educar as condutas para que não
ocorra um descontrole, um desequilíbrio vi. Como destaca o padre: pode existir a troca
mútua de atenção, desde que não se excedam os gestos.
Em fins do século XIX, apregoava-se que o bem-estar do Estado estaria
diretamente ligado ao “equilíbrio” de seus cidadãos, ao ajustamento de seus
comportamentos, ao controle de excessos, pois se acreditava que uma sexualidade
“desregrada” comprometeria as futuras gerações. Logo, ao se contrapor aos indivíduos
vistos como dissidentes, dizia-se estar em defesa do bem-estar físico, moral da
sociedade. vii
Além das questões mencionadas anteriormente, deve-se acrescer o fato de as
relações entre homens passarem a ser problematizadas, a partir de meados do século
XIX, sob um novo viés, exigindo que fossem monitoradas socialmente. Isso refletia o
temorviii que havia na existência de um contato muito íntimo, próximo entre eles, uma
vez que se pressupunha a ameaça, a desestabilização da ordem (dentre as quais a norma
heterossexual) vigente.ix Em razão disso, a sociedade busca instituir “mecanismos de
regulação e de desativação [do] potencial transgressivo [da amizade]”, com o intuito de
esta última ser “canaliza[da] em formas permitidas”.x
Esse contexto de cautela para com a proximidade entre amigos aparece de forma
sutil em Dom Casmurro: na fala de um dos personagens, Escobar, sugere-se que a
relação dele com Bentinho é alvo de observação talvez com o propósito de tirar o que
pudesse ser visto como excessivo:
— Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também; aqui no
seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração, e lá
fora, a não ser a gente da família, não tenho propriamente um amigo.
— Se eu disser a mesma cousa, retorquiu ele sorrindo, perde a graça;
parece que estou repetindo. Mas a verdade é que não tenho aqui
relações com ninguém, você é o primeiro e creio que já notaram; mas
eu não me importo com isso.xi
Ao destacar que não se incomoda com o olhar alheio, o próprio personagem
demonstra ter consciência do estado de interdiçãoxii ao qual estão submetidos “os
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comportamentos expansivos”. Uma das possíveis justificativas para essa vigilância seja
o fato de que, a partir de meados do século XIX, “as efusões sentimentais na amizade
perderam terreno em nome de um ideal virilxiii e fraternal de amizade”.xiv
Se no seminário de S. José a amizade entre Bentinho e Escobar era intensa,
depois que eles saíram de lá, “Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As
nossas visitas foram se tornando mais próximas, e as nossas conversações mais
íntimas”. xv Tamanho se torna esse relacionamento que, quando (no cap. “Um amigo por
um defunto”) o filho de Dona Glória leva o amigo para apresentá-lo aos familiares e
todos gostam dele, confessa satisfatoriamente que era como se Escobar fosse uma
invenção dele. Ainda no referido capítulo, diz o narrador, que em uma visita feita à casa
de Matacavalos Escobar estivera por cinco minutos segurando a mão de Bentinho. Mais
adiante, afirma que, quando está ao lado de Escobar, tudo se torna radiante, o céu fica
mais azul, a natureza se regozija: “A minha alegria [a de Bento] acordava a dele [a de
Escobar], e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza parecia rir também
conosco”.xvi
Embora tanto um quanto outro se esforcem para não permitir a interferência de
pressões externas na vivência dessa amizade, chega o instante em que é “necessário”
demarcar-se uma fronteira para se obstar às possíveis consequências de um contato mais
incisivo entre eles, pois, grosso modo, quando se está diante da expressão de intimidade
entre homens, “é preciso ser cauteloso e manter a camaradagem dentro de seus limites,
empregando apenas gestos e comportamentos autorizados para o ‘macho’”. xvii A
assertiva de Louro talvez dimensione o quão pode ser relevante, para Bento, o fato de
não querer pôr em dúvida a sua imagem viril, a qual é valorizada socialmente xviii.
Examinemos, então, esse momento em Dom Casmurro. Como era adepto de desafiar as
ondas do mar, Escobar diz ao amigo que é excitante enfrentar o mar bravio, e que para
isso é preciso ter pulmões e braços fortes. Daí pede ao amigo que apalpe os braços, de
Escobar, para confirmar o quanto este é robusto. Ao apalpá-los, confessa o narrador,
Bentinho teve de ímpeto as seguintes sensações:
Apalpei-lhe os braços [de Escobar], como se fossem os de Sancha.
Custa-me esta confissão, mas não posso suprimi-la; era jarretar a
verdade. Nem só os apalpei com essa idéia, mas ainda senti outra
cousa: achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja;
acresce que sabiam nadar.xix
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Qual seria o impasse dessa cena? Será que teria fundamento para esse contexto a
tese de que “[q]uando se traçam linhas divisórias e se separa o assim dividido, tudo o
que borra as linhas e atravessa as divisões solapa esse trabalho e destroça-lhe os
produtos [?]”.xx Bentinho e Escobar estavam inseridos em um contexto social que via o
homoerotismo xxi de forma bastante depreciativa – aberração, anomalia, inversão
sexualxxii. Porventura, diante dos fatores arrolados, Bentinho teria razões para não
expressar um possível desejo “sexual” para com seu amigo? Para o sociólogo Richard
Miskolcixxiii, haveria um conflito de sentimentos em Bento, de um desejo correspondido
a uma concorrência para saber quem seria mais másculo.
Apesar de se mostrar hesitante em tirar qualquer tipo de conclusão, John
Gledson sugere que, de fato, o alvo do desejo seria Sancha, com uma ressalva de haver
em Bento um misto de sensações, a saber, culpa e inveja, a menos que, ainda de acordo
com o crítico, “se defenda a existência de algum tipo de sentimento inconsciente e
reprimido em relação a seu amigo, uma culpa pelo que poderia contribuir para sua
‘descoberta’ póstuma do adultério de Escobar com Capitu”. xxiv Conquanto o analista
inglês faça essa sugestão, logo em seguida opta por “encerrar” a questão, com a
justificativa de não haver elementos consistentes para uma leitura a qual tente “ver”
uma relação homoerótica entre os personagens.
Bento, sendo um advogado e ex-seminarista, como já pontuaram alguns
estudiososxxv, tinha à disposição uma gama de recursos destinados à persuasão,
possivelmente, ao fazer referência a Sancha, queira desfazer qualquer possibilidade de
confusão, isto é, que o alvo do desejo seja Escobar. Para evitar tal borração de
fronteirasxxvi, Bentinho diz e, ao mesmo tempo, tenta minimizar as consequências do
dito, afinal, em muitas circunstâncias “[...] temos necessidade de, ao mesmo tempo,
dizer certas coisas e de poder fazer como se não as tivéssemos dito; de dizê-las, mas de
tal forma que possamos recusar a responsabilidade de tê-las dito”.xxvii Logo, diante
dessa conjuntura, não se podem minimizar as eventuais dificuldades de reconhecer para
si e para os outros um desejo que estava, grosso modo, “condenado” ao
“silenciamento”.xxviii
A “lei do silêncio”, como demonstram vários pesquisadores, é uma prática
impetuosa em se tratando do homoerotismo, visto que a homofobia, isto é, sentimento
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de aversão psicológica e/ou social para com os indivíduos que manifestam, dentre
outras coisas, um desejo e/ou mantêm relações sexuais com outros do mesmo sexo xxix,
representa uma ameaça constante, a qual se encarrega, dentre outras coisas, de manter o
não rompimento dos gestos, dos desejos socialmente esperados do masculino. xxx
No próprio romance Dom Casmurro se tem, em uma breve passagem, o quão
podem ser intensas as injunções sociais: “A vida é cheia de obrigações que a gente
cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir [...]”.xxxi Talvez Bentinho tivesse
medoxxxii de ser levado, como seu amigo o fora, pela correnteza, não do mar, mas da
incerteza de viver uma relação que não atendia às normas sociais. O próprio narrador
deixa sugerido que ultrapassar certos limites pode ser trágico: no caso de Escobar é o de
avançar para a correnteza; no Bentinho, romper com o papel socialmente exigido para
um homem pertencente à classe dominante. Observemos então, o capítulo CXXI, da
obra Dom Casmurro, cujo título, por sinal sugestivo, é “A catástrofe”: “Escobar meteuse a nadar, como usava fazer, arriscou-se um pouco mais fora que de costume, apesar do
mar bravio, foi enrolado e morreu”.xxxiii
Diante das reflexões suscitadas, pode-se dizer que o autor de Dom Casmurro
estava muito mais interessado em perscrutar as relações humanas – contradições,
ambivalências, desfaçatezesxxxiv – do que em instituir dogmatismosxxxv. Destarte, em vez
de estarmos, nesse romance, diante da uniformidade no agir, no pensar, no ser, somos
confrontados com as múltiplas faces: um personagem que ora ama incondicionalmente
Capitu, ora cobiça Sancha, mulher do amigo, ora demonstra um possível desejo por
Escobar.
O exemplo do apalpamento do bíceps de Escobar é emblemático da
complexidade de Dom Casmurro. De fato, quem seria o alvo do desejo: Sancha ou
Escobar? Levantamos algumas hipóteses, recorremos à opinião de outros estudiosos,
mas nem eles nem nós conseguimos tirar qualquer juízo incondicional. Mas, isso é
absolutamente normal, pois “[a] opção machadiana é quase sempre um pode ser. Que
excita a inteligência dos leitores. Nada de sim ou não, porém sim e não. Tudo se passa
como se em tudo houvesse, pelo menos, dois lados, duas opiniões contrárias”.xxxvi Logo,
em consonância com Rodrigues, acreditamos que a busca deve ser dirigida para o “pode
ser”, o plural, e não para o “é”, o definitivo, a uniformidade. Destarte, a nosso ver, não
estamos diante de uma incerteza localizadaxxxvii, qual seja, desejar ou não Escobar, mas
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sim como o personagem estava em busca de “si mesmo”, em todos os sentidos.
Possivelmente a dúvida quanto à natureza dos sentimentos de Bentinho por Escobar é
parte de um conjunto de incertezas, que se somam provocando uma desorientação no
personagem.
NOTAS
______________________
i
Apesar de não haver um consenso entre os estudiosos quanto à validade do conceito de
homoerotismo, adotá-lo-emos obedecendo à sugestão de Costa, 1992, p. 21-2, para
quem, o emprego do referido termo é, do ponto de vista semântico, muito menos
carregado de preconceitos do que a palavra homossexualidade, sendo que esta apresenta
uma conotação pejorativa, além de fazer alusão direta e especificamente aos atos
sexuais.
ii
Assis, 1997, p. 133.
iii
Cf. Guimarães, 2004, p. 215.
iv
Assis, 2007, p. 143.
v
Assis, 2007, p. 136-7.
vi
Assis, 2007, p. 217.
vii
Foucault, 2009b, p. 132-5.
viii
Cf. Costa, 1989, p. 240-9; Foucault, 2005, p. 301, Foucault, 2009a, p. 115-6;
Machado et al., 1978, p. 155-6.
ix
Cf. Foucault, 2004, p. 273-4.
x
Cf. Miskolci, 2009, p. 553; Ortega, 2002, p.145-8.
xi
Ortega, 1999, p. 169.
xii
Assis, 2007, p. 185.
xiii
“Para dizer ‘te amo’ a um amigo ou amiga é necessário atravessar [...] inúmeras
grades históricas, uma floresta imensa de proibições e distinções [...]” (Derrida, 1994
apud Ortega, 2002, p. 91).
xiv
Cf. Kimmel, 1998, p. 103-117; Oliveira, 2004, p. 48.
xv
Ortega, 2002, p. 148.
xvi
Assis, 2007, p. 246.
xvii
Assis, 2007, p. 214.
xviii
Louro, 2010, p. 28.
xix
Cf. Oliveira, 2004, p. 288.
xx
Assis, 2007, p. 270-1.
xxi
Bauman, 1998, p. 28.
xxii
Para uma análise acerca da “representação” do homoerotismo na literatura brasileira
do final do século XIX, consultar, dentre outros, Barcellos, 2006, p. 104-164; Fry, 1982,
p. 33-51; Howes, 2005, p. 171-190.
xxiii
Cf. Costa, 1995, p. 135-183.
xxiv
Miskolci, 2009, p. 559.
xxv
Gledson, 2006, p. 324.
xxvi
Caldwell, 2008, p. 99; Gledson, 1991, p. 19-48; Santiago, 2000, p. 27-46.
xxvii
Cf. Bauman, 1998, p. 28; Butler, 2010, p. 57.
xxviii
Ducrot, 1977, p. 13.
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xxix
Não estamos querendo dizer, em hipótese alguma, que tal hostilidade aja,
necessariamente, de forma homogênea (e com efeitos análogos) em diferentes
indivíduos. A historiografia mostra, por exemplo, que, mesmo havendo um contexto
adverso, muitos sujeitos se “entregavam”, inclusive em espaços públicos, no Rio de
Janeiro, em fins do século XIX, ao “amor que não se deixa dizer o nome”. Cf. Green,
2000, p. 51-106.
xxx
Cf. Borrillo, 2009, p. 28.
xxxi
Cf. Badinter, 1993, p. 117-121; Borrillo, 2009, p. 18-22; Bourdieu, 2002, p. 63-7;
Butler, 2010, p. 38-45; Kimmel, 1998, p. 105-6; Miskolci, 2009, p. 553; Welzer-Lang,
2001, p. 465.
xxxii
Assis, 2007, p. 161.
xxxiii
Schwarz, 1997, p. 33 defende que Bento se desestabiliza quando passa a lidar com
a propriedade, a autoridade.
xxxiv
Assis, 2007, p. 275, grifos nossos.
xxxv
Cf. Muricy, 1988, p. 13; Schwarz, 2000, p. 242.
xxxvi
Como lembra Bosi, 2007, p. 44, Machado de Assis “[...] nada afirma nem denega
com o ar peremptório dos dogmáticos [...]”
xxxvii
Rodrigues, 2001, p. 26, grifo do autor.
xxxviii
Cf. Muricy, 1988, p. 116-7; Rehem, 2010, p. 30-4.
RESUMO
O presente trabalho propõe-se a investigar a possibilidade de existência de uma relação
homoerótica entre os personagens Bentinho e Escobar do romance Dom Casmurro, de Machado
de Assis. Inicialmente, analisam-se as injunções sociais responsáveis pelo monitoramento dos
comportamentos masculinos valorizados socialmente. Posteriormente, foca-se no modo como a
sociedade brasileira em fins do século XIX concebe as relações ditas infratoras da norma
heterossexual. Em conclusão, tem-se a análise da relação Bentinho-Escobar sob a ótica do
contexto histórico-social daquele período. Não obstante, as leituras aqui propostas não visam a
dogmatismos, mas o suscitar de algumas reflexões, enfim, mais uma perspectiva para se
compreender essa obra machadiana, que, mesmo tendo sido publicada há mais de um século,
ainda gera inúmeras controvérsias.
PALAVRAS-CHAVE: Dom Casmurro. Homoerotismo. Práticas de monitoramento.
ABSTRACT
The present paper sets out to investigate a possible existence of a homoerotic relationship
between the characters Bentinho and Escobar in the novel Dom Casmurro by Machado de
Assis. Initially, it analyses the social injunctions responsible for the monitoring of socially
valued male behaviors. Then, it focuses on how Brazilian society at the end of the 19 th century
conceives the relationships considered violators of the heterosexual norms. In conclusion, we
will have an analysis of Bentinho-Escobar relationship from a sociohistorical perspective of the
context of that period. Nonetheless, the readings proposed here do not aim to impose any
dogmatism, but raise some reflections, that is, one more perspective that could enable us to
understand this Machadian novel, which even after its publication more than a century ago, still
generates plenty of controversy.
KEYWORDS: Dom Casmurro. Homoerotism. Monitoring practices.
4º Encontro Nacional de Pesquisadores de Periódicos Literários, 4., 2010, Feira de Santana. Anais. Feira de Santana: Uefs, 2013.
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i
Apesar de não haver um consenso entre os estudiosos quanto à validade do conceito de homoerotismo,
adotá-lo-emos obedecendo à sugestão de Costa, 1992, p. 21-2, para quem, o emprego do referido termo é,
do ponto de vista semântico, muito menos carregado de preconceitos do que a palavra homossexualidade,
sendo que esta apresenta uma conotação pejorativa, além de fazer alusão direta e especificamente aos atos
sexuais.
ii
Assis, 1997, p. 133.
iii
Cf. Guimarães, 2004, p. 215.
iv
Assis, 2007, p. 143.
v
Assis, 2007, p. 217.
vi
Foucault, 2009b, p. 132-5.
vii
Cf. Costa, 1989, p. 240-9; Foucault, 2005, p. 301, Foucault, 2009a, p. 115-6; Machado et al., 1978, p.
155-6.
viii
Cf. Foucault, 2004, p. 273-4.
ix
Cf. Miskolci, 2009, p. 553; Ortega, 2002, p.145-8.
x
Ortega, 1999, p. 169.
xi
Assis, 2007, p. 185.
xii
“Para dizer ‘te amo’ a um amigo ou amiga é necessário atravessar [...] inúmeras grades históricas, uma
floresta imensa de proibições e distinções [...]” (Derrida, 1994 apud Ortega, 2002, p. 91).
xiii
Cf. Kimmel, 1998, p. 103-117; Oliveira, 2004, p. 48.
xiv
Ortega, 2002, p. 148.
xv
Assis, 2007, p. 246.
xvi
Assis, 2007, p. 214.
xvii
Louro, 2010, p. 28.
xviii
Cf. Oliveira, 2004, p. 288.
xix
Assis, 2007, p. 270-1.
xx
Bauman, 1998, p. 28.
xxi
Para uma análise acerca da “representação” do homoerotismo na literatura brasileira do final do século
XIX, consultar, dentre outros, Barcellos, 2006, p. 104-164; Fry, 1982, p. 33-51; Howes, 2005, p. 171-190.
xxii
Cf. Costa, 1995, p. 135-183.
xxiii
Miskolci, 2009, p. 559.
xxiv
Gledson, 2006, p. 324.
xxv
Caldwell, 2008, p. 99; Gledson, 1991, p. 19-48; Santiago, 2000, p. 27-46.
xxvi
Cf. Bauman, 1998, p. 28; Butler, 2010, p. 57.
xxvii
Ducrot, 1977, p. 13.
xxviii
Não estamos querendo dizer, em hipótese alguma, que tal hostilidade aja, necessariamente, de forma
homogênea (e com efeitos análogos) em diferentes indivíduos. A historiografia mostra, por exemplo, que,
mesmo havendo um contexto adverso, muitos sujeitos se “entregavam”, inclusive em espaços públicos,
no Rio de Janeiro, em fins do século XIX, ao “amor que não se deixa dizer o nome”. Cf. Green, 2000, p.
51-106.
xxix
Cf. Borrillo, 2009, p. 28.
4º Encontro Nacional de Pesquisadores de Periódicos Literários, 4., 2010, Feira de Santana. Anais. Feira de Santana: Uefs, 2013.
279
xxx
Cf. Badinter, 1993, p. 117-121; Borrillo, 2009, p. 18-22; Bourdieu, 2002, p. 63-7; Butler, 2010, p. 3845; Kimmel, 1998, p. 105-6; Miskolci, 2009, p. 553; Welzer-Lang, 2001, p. 465.
xxxi
Assis, 2007, p. 161.
xxxii
Schwarz, 1997, p. 33 defende que Bento se desestabiliza quando passa a lidar com a propriedade, a
autoridade.
xxxiii
Assis, 2007, p. 275, grifos nossos.
xxxiv
Cf. Muricy, 1988, p. 13; Schwarz, 2000, p. 242.
xxxv
Como lembra Bosi, 2007, p. 44, Machado de Assis “[...] nada afirma nem denega com o ar
peremptório dos dogmáticos [...]”
xxxvi
Rodrigues, 2001, p. 26, grifo do autor.
xxxvii
Cf. Muricy, 1988, p. 116-7; Rehem, 2010, p. 30-4.
4º Encontro Nacional de Pesquisadores de Periódicos Literários, 4., 2010, Feira de Santana. Anais. Feira de Santana: Uefs, 2013.
280
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NO LIMIAR DA FRONTEIRA: A RELAÇÃO BENTINHO–ESCOBAR