Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Rua Nunes Machado 472, sl 301, cep 80.250-000 Curitiba-Pr tel 041 3232-1852 [email protected] Mensagem da presidência I ncessantemente a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP) desenvolve estudos e projetos através de seus técnicos ou de entidades com respeitabilidade no meio acadêmico e científico voltados ao interesse do produtor rural. É o caso, agora, do estudo “Aspectos Ambientais da Relação Campo & Cidade no Estado do Paraná”. Seus autores são consultores ambientais e um grupo de professores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), que realizaram um diagnóstico sobre a tolerância aos impactos causados ao meio ambiente nas cidades, contrastando ao meio rural, onde ocorre uma desproporcional regulamentação legal e ações fiscais. Ou seja, quem polui é tolerado, quem limpa é multado. Nas grandes e médias cidades brasileiras não há mais rios vivos. Recente pesquisa do IBGE mostrou a existência de quase 100 milhões de brasileiros em domicílios sem tratamento de esgoto, dado absurdo mostrando o desmanzelo dos governos com o saneamento, e por consequência com a saúde da população. Os rios nas cidades são cloacas mal cheirosas e só se recuperam, quando suas corredeiras alcançam o meio rural. Nós, do Sistema FAEP, através dos Programas Agrinho e Jovem Agricultor Aprendiz (JAA), do SENARPR, como acredito ser de seu conhecimento, oferecemos também oportunidades às crianças e aos jovens. Com o Agrinho qualificando professores em todos os municípios paranaenses, e o JAA corrigindo eventuais deficiências e ausência de oportunidades que resultam no êxodo rural. Em ambos, e na atuação dos Sindicatos Rurais, há formação, informação e conhecimentos, inclusive sobre o meio ambiente, Esse estudo poderá lhe servir também como fonte de sólidos argumentos para esclarecer àqueles que vêem o produtor como um devastador, quando é exatamente o contrário. Os rios são a prova disso. Ágide Meneguette Presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Apresentação C om certa frequência a sociedade tem entendido que os usos agrários dos solos provocam imensos, senão os maiores, danos ambientais que o Brasil tem sofrido. Desmatamentos, destruição da fauna nativa, degradação dos solos, poluição por agrotóxicos, poluição das águas e contaminação dos ares, além de violências às populações tradicionais de índios e quilombolas e exclusão de colonos agricultores. Enfim, se atribui às zonas rurais brasileiras a origem e a culpa dos maiores malefícios sociais e ambientais da Nação. Há indícios que as populações dos grandes centros urbanos, cada vez mais distantes da roça, não respeitam nem reconhecem os valores das áreas rurais, e esquecendo-se de que ali se produz o alimento que as sustentam, mostram, pelas atitudes, desconhecer a profunda dependência que as populações urbanas tem das zonas rurais. Levados por ativistas ditos ecologistas, concordam passivamente que os proprietários rurais têm o dever e a obrigação de preservar a plenitude das áreas não urbanas. Não somente boa parte da população, mas também uma parcela das autoridades e legisladores não raro se mostra insensível às necessidades que viabilizam a produção de alimentos, no volume e qualidade demandados pelo mercado interno e externo. Isso se nota pela desproporcional regulamentação legal e ações fiscais, aplicadas às zonas rurais, em comparação ao que ocorre nas áreas urbanas. Há evidente tolerância aos impactos causados ao meio ambiente e à sociedade pelas cidades. Ao mesmo tempo, se aprimoram medidas restritivas às práticas agrárias, cercadas por legislação que limita usos dos solos, das águas, de espécies de importante interesse econômico, impondo, por outra mão, aumentos da capacidade produtiva, tudo sob ameaças legais. Ironicamente, à medida que os habitantes urbanos se afastam “da roça”, também se alienam de sua responsabilidade com muitos fatores ambientais essenciais à própria qualidade da vida. Nas cidades águas são desperdiçadas sem maiores preocupações, não há efetiva preocupação com o lixo que é produzido, cada vez mais e com materiais tecnológicos de difícil degradação, menos ainda com a sua destinação; contamina-se despreocupadamente o ar e eliminam-se as possibilida des da vida silvestre que poderia haver nos rios, em suas margens e em remanescentes arbóreos urbanos. Esta é a tônica do presente estudo, realizado com foco no Estado do Paraná, contratado pela Federação da Agricultura do Paraná com a com a A.Muller Consultoria Ambiental, assessorada por um grupo de professores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. 4 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Resumo Executivo O estudo desenvolvido a seguir parte da dualidade dos aspectos ambientais que incidem sobre as áreas urbanas e áreas rurais. Parece existir, nas sociedades urbanas, uma percepção equivocada das áreas agrícolas serem a origem e, logo, a culpa de muitos malefícios sociais e ambientais, negando-se, implicitamente, tal responsabilidade às áreas urbanas. A opinião publica urbana é complacente com muitas questões ambientais relevantes: águas são desperdiçadas, não há preocupação efetiva com o volume e destinação final do lixo produzido; contamina-se o ar e eliminam-se as possibilida des da vida silvestre que poderia haver nos rios, em suas margens e em relictos florestais urbanos. Contudo, parecem concordar com idéias ambientalistas simplistas que as propriedades rurais deveriam manter toda a área para a preservação. Confirma estas observações a própria legislação, que sobrecarrega o setor produtivo rural com pesados ônus preservacionistas, poupando as cidades de responsabilidade ambiental similar. É o que trata o capítulo inicial do Estudo, onde da análise da legislação se concluiu haver três incidências legais às propriedades urbanas: as áreas de preservação permanente, raramente observadas, os preceitos das funções legais da propriedade e o IPTU - imposto territorial urbano. Em contrapartida, os imóveis rurais possuem exigências específicas quanto aos critérios e execução de desapropriações, bem estar dos trabalhadores rurais, níveis de produtividade, obrigatoriedade de manter 20% do imóvel (no Paraná), na forma de Reserva Legal e outras imposições do SISLEG, o ITR, ademais das questões em comum: áreas de preservação permanente, e funções sociais da propriedade. Após explanar sobre as bacias hidrográficas paranaenses e a relação destas com os biomas, o estudo se estende às ocupações urbano-rurais e as pressões destas ocupações sobre o meio ambiente, destacando que apenas 15,5% da população paranaense é rural, ao contrário do que ocorria a menos de quatro décadas, onde a população rural prevalecia em 64%. Constatou-se que a ocupação das 16 bacias hidrográficas do Estado não é homogênea. A mais densamente ocupada é a do rio Iguaçu, com 68,41 habitantes urbanos por quilômetro quadrado, e 12,13 hab/km2 rurais, seguida da bacia do rio Tibagi, com 52,77 hab/km2 urbanos e apenas 7,13 hab/km2 nas áreas rurais. Esta migração rural às cidades, contudo, não representou o abandono da produção agrária, onde o Paraná se destaca no panorama nacional na produção de trigo, milho, feijão, e crescente interesse na cana-de-açúcar e soja, alimentos que são também matéria prima energética. Por suas características vegetativas, todos estes cultivos possuem capacidades de retenção de volumes expressivos de Carbono atmosférico: a cada safra, um hectare de milho captura (seqüestra) 1,6ton de dióxido de Carbono, o feijão 1,3 ton/ha, a soja 1,5 ton/ha. Na equação de equilíbrio cultivo/geração energética da cana-de-açúcar o benefício pode chegar a 33,8 ton/ha. Não existem, nas cidades, fatores atenuadores dos gases de efeito estufa com importância comparada à contribuição dos setores produtivos rurais. Àqueles valores, contudo, ainda se devem adicionar as contribuições das áreas de preservação permanente e das reservas legais, comumente inobservadas nas propriedades urbanas. Analisando as águas naturais, comparativamente entre as cidades e o campo, se constatou que nos ambientes urbanos, cuja maior parte dos solos são compactados e impermeabilizados, e os rios não têm merecido os cuidados de florestas protetoras, muito pelo contrário, são depositários de toda quantidade e má qualidade de efluentes domésticos, industriais e da drenagem da malha viária, ocorrem picos de inundação e de períodos de estio, processos de assoreamento, toda sorte de poluição química, orgânica e térmica, resultando em águas não potáveis e inservíveis aos usos mais elementares, e na morte de todas as formas de vida. Estas águas seguem, naturalmente para as áreas rurais, onde os processos naturais, associados à forte redução dos fatores degradantes produzem sua recuperação progressiva. Para estas conclusões três rios foram analisados, ainda que sem aprofundamentos detalhados, mas suficientes para demonstrar a contribuição negativa das cidades e a positiva das áreas rurais. O primeiro foi o rio Tietê, avaliado como o mais impactado de todos os demais rios nacionais. Nascendo em ambiente serrano, atravessa 62 municípios paulistas até chegar ao rio Paraná, do qual é afluente. Suas águas limpas, poucos quilômetros depois das nascentes, passam pela Região Metropolitana de São Paulo onde atingem níveis máximos de degradação, ao receber cerca de 370 mil ton de resíduos, chamados poluição difuas. Se toda esta carga fosse disposta em caminhões de 8m de comprimento, formariam um comboio de 242 km. Para a biodegradação da carga orgânica desta poluição foi calculado que são necessárias 1.200 ton/dia de oxigênio das águas, que é ministrado ao logo dos próximos 250km do curso do rio, justamente em áreas rurais, muitas não adequadamente protegidas. Esforços para reduzir esses efeitos perversos conseguiram Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 5 fazer com que a mancha poluidora seja recuasse a 120km da cidade de São Paulo. Porém, é ao passar por extensas zonas rurais, ao longo dos seus 1.136km, que este rio consegue retomar níveis aceitáveis de qualidade. O segundo rio do ranking nacional dos mais poluídos é o nosso rio Iguaçu. Correndo paralelamente ao rio Tietê, cerca de 500km ao sul, nasce igualmente na Serra do Mar e desemboca no rio Paraná, depois de percorrer 1.320km. Similar ao que ocorre em São Paulo, ao passar pela Região Metropolitana de Curitiba sofre intensa degradação, que é progressivamente atenuada em setores rurais, primeiramente em suas várzeas, em Araucária, depois pelo trecho de correntezas antes de Porto Amazonas, cerca de 80km da capital paranaense, onde ainda persistem espumas de detergentes lançados às águas e mesmo sólidos transportados nas cheias, rio abaixo. Estes, contudo, já não impedem o surgimento da vida aquática, ainda que de espécies mais resistentes a certos índices de contaminação. Muitos trechos de corredeiras e saltos deste rio são aproveitados por seis usinas hidrelétricas, cujos reservatórios atuam como bacias de biodegradação. Protegidas por matas ciliares, algumas ainda em processo de regeneração, as águas do Iguaçu, ao chegarem às Cataratas, não mais apresentam os odores e os níveis de degradação que possuíam ao passar pela malha urbana curitibana. Constatou-se, assim que as zonas rurais contribuíram efetivamente para a recuperação das qualidade das águas deste rio. Analisando mais detidamente a questão urbana-rural, o estudo analisou dois rios menores, ambos situados em malhas urbanas. O primeiro foi o rio Toledo, afluente do Rio São Francisco Verdadeiro, no oeste paranaense, com 22km de extensão, dividido em três segmentos: o primeiro, rural, de suas cabeceiras , com 13,8km, o segundo urbano, com 4,5km, e o terceiro o entre a cidade e sua foz. Mesmo usado por agricultores e produtores de suínos, as águas do rio Toledo apresentam qualidade adequada para que a SANEPAR, mediante tratamento convencional, capte suas águas para ministrar à cidade de Toledo. Ao passar pela cidade, contudo, o rio atinge níveis muito altos de poluição orgânica, cujas análises constataram um número provável de 2.419 coliformes fecais em cada 100ml de águas amostradas. Esta carga de poluição dá ao rio aspecto de degradação, a ponto de moradores do trecho abaixo da cidade não se intimidarem em lançar às águas, carcaças de criações e lixo doméstico. A recuperação da qualidade destas águas se dará depois destas penetrarem no rio São Francisco Verdadeiro, que as verterá no reservatório de Itaipu, formado pelo rio Paraná. Outro rio analisado, com mesma extensão do rio Toledo, foi o rio Belém, em Curitiba, bem mais estudado, contudo muito mais deteriorado. Drenando uma área onde vivem 40% da população curitibana, em nenhum trecho de seu percurso apresenta padrões de qualidade efetivamente aceitáveis pela legislação. Das suas nascentes até o Parque São Lourenço seu Índice de Qualidade, cujo padrão varia de 0 a 100, apresentou a graduação 58, o melhor de todo o percurso, que lhe atribui conceito de águas “boas”. Logo abaixo, contudo, chegam ao índice 17, que caracteriza águas de alta degradação, tidas como “sem classificação” e “totalmente impróprias” para qualquer uso. Mesmo passa- da a região do centro de Curitiba as águas persistem em sua baixa qualidade e se lançam no rio Iguaçu contaminando intensamente este rio. Outros rios que drenam a região Metropolitana de Curitiba agravam as condições do rio Iguaçu afetadas inicialmente pelo rio Belém, cuja recuperação se dará em trechos rurais, dezenas de quilômetros águas abaixo da RMC de Curitiba. O relatório se estende comparando os aspectos dos usos dos solos na cidade e no campo, onde mais uma vez as cidades apresentam efeitos deletérios permanentes na qualidade e produtividades dos solos, com intensidades extraordinariamente elevadas quando comparado com as situações rurais. Nas cidades os solos servem unicamente como espaço para ocupação, nunca como fator produtivo, ao contrário dos setores rurais, onde seu valor é mensurado exatamente por sua capacidade de gerar alimento e riquezas agrárias. Não somente estas, mas por suas qualidades ambientais diferenciais de fortes influências sobre as águas: nas cidades os usos dos solos produzem sua compactação e impermeabilização, a destruição da camada fértil, a diminuição de recargas de aqüíferos e sua contaminação por lançamentos ou depósitos químicos e orgânicos. Ocupações indevidas de encostas provocam deslizamentos e focos de erosão. A insuficiência de bosques protetores causa agravamentos de rigores climáticos ao não conterem ventos e insolações diretas. No campo, usos indevidos dos solos podem causar sua compactação e princípios de erosão, e poderá haver perdas devidos ao sobre-uso e má conservação. A falta de matas protetoras poderá ocasionar a redução da biodiversidade. Estas questões são, no entanto, ínfimas perto do que ocorre nas cidades. Ademais, a recuperação destes fatores ambientalmente negativos no campo se processa tão logo o proprietário rural constata sua ocorrência, já que a terra, nas zonas rurais, é fator produtivo, ao contrário da percepção da população urbana. Ações do governo, de fiscalização e incentivos tem logrado recuperar extensas áreas protetoras: relatórios oficiais dão conta que foram plantados, com tais incentivos, mais de 100 milhões de mudas, envolvendo um contingente da ordem de 135 mil pessoas. Associado àquelas iniciativas, o estabelecimento e manutenção de Unidade de Conservação no Paraná alcançaram uma cifra próxima dos 3,5 milhões/km2 O estudo aborda, finalmente, as questões da qualidade do ar no Estado. Após citar as restrições legais à queima de resíduos a céu aberto, e que empreendimentos e atividades potencialmente poluidoras do ar devem adotar dispositivos para evitar tais emissões, o relatório só constatou medições de poluição atmosférica em Araucária e Curitiba, onde os resultados constataram poucas irregularidades aos padrões. 94,7% das amostragens enquadraram as condições como “boas” , 4,9% como “regular”, 1,28% como “inadequada” e 0,09% como “má”. As situações irregulares prevaleceram no inverno. Não há referências a alterações de qualidade do ar em rodovias e estabelecimentos rurais, até porque não há registros de coletas para verificação da qualidade do ar nas zonas rurais, provavelmente porque os resultados não constatariam situações que indicassem criticidades, ao contrário do que se constatou nas zonas industriais periurbanas. 6 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Sumário APRESENTAÇÃO............................................................................................................................................................................. 4 RESUMO EXECUTIVO................................................................................................................................................................... 5 SUMÁRIO.......................................................................................................................................................................................... 7 1. INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................................. 8 2. LEGISLAÇÃO AMBIENTAL APLICADA NA PROPRIEDADE URBANA E RURAL E SUAS LIMITAÇÕES............. 10 3. AS BACIAS HIDROGRÁFICAS PARANAENSES.................................................................................................................. 13 3.1. Relação das Bacias com os Biomas paranaenses.................................................................................................................... 13 3.2. A ocupação urbano-rural e as pressões sobre o meio ambiente.......................................................................................... 14 O dinamismo demográfico.............................................................................................................................................................. 15 Avanços Agrários............................................................................................................................................................................... 16 3.3. A deterioração da qualidade das águas................................................................................................................................... 21 O perfil limnológico do Tietê.......................................................................................................................................................... 25 Os Rios Paranaenses......................................................................................................................................................................... 27 Perfil Limnológico do rio Belém..................................................................................................................................................... 35 Aspectos Limnológicos do rio Iguaçu............................................................................................................................................ 38 Cidade e Campo Disputando Águas Essenciais............................................................................................................................ 41 3.4. Uso e proteção dos solos no Campo e Cidade....................................................................................................................... 50 A Proteção dos Solos (e Águas) pelos Agricultores...................................................................................................................... 45 As Matas Ciliares e as Reservas Legais........................................................................................................................................... 48 Unidades de Conservação................................................................................................................................................................ 50 4. A CONTAMINAÇÃO DO AR NA CIDADE E NO CAMPO................................................................................................ 51 4.1. Os gases de efeito estufa............................................................................................................................................................ 51 4.2. A medição da qualidade do ar no Paraná............................................................................................................................... 53 COMENTÁRIOS FINAIS................................................................................................................................................................ 55 EQUIPE E CRÉDITOS..................................................................................................................................................................... 60 Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 7 1. Introdução A o se proceder a um estudo comparativo das políticas aplicadas às questões ambientais e sociais nas zonas rurais e nas áreas urbanas há que se identificar, inicialmente, os pressupostos legais que sustentam tais políticas, para, em seguida, se determinar as características da região onde tais políticas são aplicadas. Cumpre, então, levantar o estado do conhecimento sobre os vários fatores que definem a qualidade socioambiental, e, concluindo, constatar fatos que mostram a efetividade da aplicação das políticas. Neste estudo, esta constatação não foi exaustiva, mas ilustrativa aos aspectos mais relevantes identificados (fig. 01 a 03). Assim, o documento começa com uma análise das questões legais que estabelecem as políticas de usos das áreas urbanas e rurais. Destaca as doutrinas jurídicas que tratam das funções sociais nesses dois segmentos territoriais, os institutos das Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais e suas aplicações nas cidades e no campo, estabelecidos tanto na legislação federal como na paranaense. Os dados deste estudo foram apresentados em resumos dos tópicos mais relevantes. Ao se buscar reconhecer as características regionais onde se aplicam as políticas, procedeu-se a uma breve descrição das bacias hidrográficas e os biomas por elas drenados. Isso se fez compaginado com um breve posicionamento demográfico do Paraná, com que se desenha a origem das pressões sobre os recursos naturais, com foco nas necessidades urbanas, que cresceram justamente com a migração do campo para as cidades. Fig. 01: Rios nascem cristalinos... O estado do conhecimento sobre os elementos qualitativos socioambientais se fez consecutivamente em cada tema abordado: solos, águas e ar, biodiversidade e aspectos de comportamento social, partindo-se da descrição de três rios – ou quatro – o Tietê, de São Paulo, que nasce na Serra do Mar e perde toda sua qualidade ao passar pela maior cidade brasileira; o rio Toledo, que nasce em meio a usos intensivos do solo, não obstante se lhe preservam as condições de qualidade, atendendo ao abastecimento da cidade que lhe dá o nome; e então, o Rio Belém, totalmente urbano em seus 21 quilômetros, onde nasce com águas de boa qualidade e morre – limnologicamente falando – poucos quilômetros adiante. Sua ressurreição se dá quase uma centena de quilômetros depois de se derramar no rio Iguaçu, o quarto rio descrito neste estudo. As questões ambientais referidas são enfrentadas tanto pelo Governo como pela iniciativa privada. Cabe ao Governo estabelecer as grandes linhas e o planejamento ambiental e cabe à iniciativa privada tratar de seu quinhão de responsabilidade ambiental. Ao se observar o que ocorre na zona rural os fatos são mais notórios. Por exemplo, nota-se que as medidas do governo observam razoavelmente as diretrizes de um Plano de Recursos Hídricos, e que os agricultores reagem positivamente no uso e proteção dos rios, nem sempre reconhecendo sua importância econômica e ecológica, mas certamente conduzidos para o cumprimento das imposições legais. Não se pode negar que existe uma tensão permanente, ora mais acentuada, ora mais tranqüila, nas relações entre as instituições do Governo e a iniciativa privada, na proporção em que os interesses ou objetivos são de alguma forma conflitantes. Contudo nas zonas urbanas parece que o próprio Governo, através de suas agências, é displicente nos cuidados elementares com as águas, e mais ainda a população, resultando em situações de perdas absurdas de volumes, de qualidade e Fig. 02: Ao passar pelas cidades... 8 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Fig. 03: Perecem contaminados de opções de uso deste inestimável recurso natural. O estudo feito sobre os citados rios comprova este fato. A propósito das águas, este estudo incluiu rápidas considerações sobre o que vem acontecendo em regiões do mundo onde, por escassez hídrica urbana, os agricultores se desviaram de seu objetivo primário – o cultivo da terra – para viver da venda de águas puras originadas em seus imóveis. Concluindo o estudo, procedeu-se a uma resenha comparativa entre as influências das pressões urbanas e rurais sobre as condições ambientais, bem como sobre as diferentes políticas públicas aplicadas às cidades e às zonas rurais. Fig. 04. Rio Tietê: a Natureza, nas zonas rurais se regenera das agressões urbanas Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 9 2. Legislação Ambiental Aplicada na Propriedade Urbana e Rural e suas Limitações E ste texto foi especialmente preparado pela Dra. Ana Paula Liberato, Graduada em Direito na PUC/PR e História na UFPR; Mestre em Direito Socioambiental; Doutoranda pela Universidad de la Empresa em Montevidèo/UY; Professora da graduação e pós da PUC/ PR; Coordenadora da Especialização em Direito Socioambiental da PUC/PR; Advogada e Consultora Jurídica na área ambiental. a) Características da função social imposta à propriedade rural: Toda propriedade rural está adstrita ao cumprimento da função social da propriedade disposta no Art.186 da Constituição Federal, impondo a todo e qualquer proprietário rural a obrigatoriedade de aproveitar racional e adequadamente sua área, comprovando a existência da produtividade, além de estar condicionado a prova do cumprimento das boas relações de trabalho, bem-estar dos trabalhadores e acesso adequado aos recursos naturais. Destarte propriedade rural, além de estar condicionada ao cumprimento da função social da propriedade está obrigada a cumprir com a função ambiental da propriedade. devem atender a função social da propriedade descrita nos Planos Diretores Municipais. Mencionada função social da propriedade possui como objeto a adequação e organização municipal, com vistas a implantar o progresso econômico, social e ambiental da região. Para concretizar a necessidade de expansão econômica do Município, as áreas devem ser utilizadas para o desenvolvimento das atividades listadas em cada zona, permitindo que as propriedades não fiquem dispostas à subutilização ou especulação imobiliária. d) Falta de proporção no tratamento da aplicação sancionatória imposta à propriedade rural e à propriedade urbana: A propriedade urbana que não cumprir com sua função social disposta no Plano Diretor Municipal estará sujeita a parcelamento e edificação compulsórios, IPTU progressivo no tempo e desapropriação. Percebe-se da dicção do dispositivo acima indicado que o proprietário urbano possui regulamentação mais benéfica em relação ao descumprimento da função social da propriedade, haja vista que sua propriedade somente estará sujeita a desapropriação após notificação apresentada pelo Poder Público solicitando adequação da área e aplicação por 05 anos de IPTU progressivo no tempo, desapropriando a área como última alternativa em caso de descumprimento completo de todas as orientações legais. Igual sorte não é conferida ao proprietário rural, na medida que sua propriedade está diretamente sujeita a desapropriação em caso de não cumprimento da função social da propriedade, não concedendo alternativa de adequação prévia à desapropriação, completamente em desproporção a contribuição do progresso econômico e social. b) Onerosidade imposta ao proprietário rural pelo não cumprimento da função social da propriedade: Segundo normas da Constituição Federal de 1988, não há garantia da propriedade, mas sim garantia do interesse da coletividade, haja vista a existência de um caráter limitador da propriedade, qual seja a função, que deve estar adstrita a alguns requisitos para sua ocorrência. Assim, onera excessivamente o proprietário rural, em caso de alegação de descumprimento da função social, sujeitando sua área à desapropriaçãosanção pelo não cumprimento da função social para fins de reforma agrária, impedindo seu próprio sustento e a contribuição do progresso econômico do país. e) Isenção ou redução tributária decorrente das Áreas de Preservação Permanente e Reserva Legal: A Lei 8171/91 que instituiu a Política Agrícola, estabelece em seu artigo 104 a isenção de tributação e do pagamento do ITR sobre as áreas das propriedades rurais consideradas de Reserva Legal ou de Área de Preservação Permanente (Fig 05). No entanto não basta a existência da área de Reserva Legal ou APP para que não haja tributação, a Receita Federal exige que o contribuinte, no prazo de até seis meses contados do término do período da entrega da declaração, protocole o requerimento de Ato Declaratório Ambiental (ADA) junto ao IBAMA, para que haja, assim, o reconhecimento da área. Em se tratando de Reserva Legal, além desse procedimento há a necessidade de averbação à margem da inscrição da matrícula do imóvel no registro de imóveis. c) Características da função social da propriedade imposta à propriedade urbana: O artigo 182, §2° da Constituição Federal determina que as propriedades urbanas f) Requisitos para supressão ou corte das áreas de Reserva Legal: Na área de reserva legal não é permitido o corte raso, que consiste em um “tipo de corte em que é feita a derrubada 10 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná de todas as árvores, de parte ou de todo o povoamento florestal, deixando o terreno momentaneamente livre de cobertura arbórea”, consoante Portaria P/186 – IBDF. É vedado o lançamento de defensivos agrícolas ou agrotóxicos que possuam o efeito do corte raso. É permitido o regime de manejo florestal sobre as áreas de reserva legal, consoante determinação do parágrafo 2° do Art. 16 da Lei 4771/65, mediante apresentação de laudo que comprove o preenchimento dos critérios técnicos e científicos estabelecidos no regulamento. Vale ressaltar que nem o proprietário, nem o órgão ambiental podem consentir a diminuição ou supressão da Reserva Legal, salvo se esse consentimento for dado expressamente por Lei Federal, dessa forma, atos do Poder Executivo não podem alterar os percentuais e as exigências legais. g) Averbação Reserva Legal imposta ao proprietário rural: A averbação da Reserva Legal junto ao Cartório de Registros Públicos consiste em uma obrigação de cunho real, que acompanha a coisa e se prende ao titular do direito real (proprietário ou possuidor), devendo tal obrigação ser obedecida, independentemente de existir cobertura vegetal ou não, pois se não existir, deverá ser recomposta. O proprietário, assim como o possuidor, está obrigado a cumprir e a manter a Reserva Legal, através de Termo de Ajustamento de Conduta firmado com o órgão ambiental, com força de título executivo extrajudicial, consoante determinação do art. 16, §10 do Código Florestal. Dessa forma, vale ressaltar que se trata de uma obrigação ligada à própria coisa, permanecendo aderida ao bem, constitui uma obrigação “propter rem”, aderindo à propriedade, imposta ao proprietário ou possuidor. A responsabilidade decorre da coisa, logo quem está na guarda e proteção do bem responde pelos danos causados ao meio ambiente, independentemente se haja concorrido com a conduta que gerou o prejuízo, não se exige o nexo causal, mas apenas a comprovação do dano. h) Obrigações Florestais: tratamento imposto ao proprietário rural e ao proprietário urbano: As obrigações de natureza florestal são distintamente impostas ao proprietário rural e ao proprietário urbano, na medida em que o proprietário rural está sujeito ao cumprimento da reserva legal e da área de preservação permanente enquanto obrigações autônomas e incidentes no bem, já o proprietário urbano está sujeito apenas a área de preservação permanente, percebendo um tratamento limitador mais brando em relação as áreas urbanas em detrimento as rurais. j) Adesão compulsória ao “Programa Mais Ambiente” criado pelo Decreto Federal nº 7029/09, através do Cadastro Ambiental Rural – CAR, que delimita na propriedade rural ou posse rural, por geoprocessamento, as áreas de preservação permanente, de reserva legal e remanescente de vegetação nativa para fins de controle e monitoramento. A inclusão ao Programa é mediada por um Termo de Adesão e Compromisso em que o proprietário ou posseiro formaliza sua inserção ao Programa, firmando um compromisso de recuperar, recompor ou manter as áreas de preservação permanente, bem como de averbar a reserva legal do imóvel; Não há nenhum Termo semelhante a este para os imóveis urbanos, mesmo para aqueles que deixam de observar as normas de saneamento mais elementares, contribuindo para trechos poluídos de rios urbanos, em situações ambientalmente catastróficas. k) Tratamento Florestal conferido no Estado do Paraná as propriedades rurais: No Estado do Paraná, através do Decreto Estadual 387/99 os critérios de fixação e reconhecimento das reservas legais, obrigatórias para as propriedades rurais são mais restritivos que os parâmetros estabelecidos no Código Florestal, Lei 4771/65, demonstrando claramente a imposição de um ônus ao proprietário rural dentro do Estado. Vale ressaltar que no Estado o SISLEG (Sistema de manutenção, recuperação e proteção da reserva legal e áreas de preservação permanente) aplica-se apenas aos imóveis rurais, consoante Art. 2 do Decreto Estadual 387/99, reduzindo a potencialidade de aplicação nas áreas urbanas, consoante orientação do Código Florestal (Lei 4771/65). l) Infração Administrativa imposta apenas à propriedade rural: Não bastasse todo tratamento diferenciado imposto ao proprietário rural e ao proprietário urbano, seja no âmbito federal ou no Estado do Paraná, o ônus excessivo imposto à propriedade rural é latente, sujeitando o proprietário rural, inclusive a infração administrativa decorrente na não averbação da reserva legal, consoante Art. 55 do Decreto Federal 6514/2008. Figura 05. Áreas de Preservação Permanente em Toledo, Pr Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 11 12 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná IPTU Função Social da Porpriedade Área de Preservação Permanente SISLEG Programa Mais Ambiente Bem-estar dos Trabalhadores Figura 06. Comparativo entre as imposições legais no campo e na cidade ITR Desapropriação Área de Preservação Permanente Reserva Legal Proditividade Função Social da Propriedade 3. As Bacias Hidrográficas Paranaenses E ste capítulo é destinado a reconhecer a regionalidade onde são aplicadas as leis e políticas ambientais. Começa descrevendo a geografia paranaense das bacias hidrográficas com os biomas que estão inclusos nelas, para então discutir a ocupação urbanorural destas, descobrindo focos de questões ambientais relevantes. A referência às bacias hidrográficas faz sentido tanto porque as águas são um indicador seguro do comportamento e atitudes ambientais dos habitantes que ocupam seus limites, como, porque as águas se constituem um re- 3.1. Relação das Bacias com os Biomas paranaenses E ntre as várias formas de se entender a geografia paranaense, duas características são mais relevantes ao estudo em pauta: através das bacias hidrográficas, reconhecidas como unidade territorial de planejamento, e pelos biomas. O Estado do Paraná possui dezesseis bacias hidrográficas, e cinco biomas (ou grandes ecossistemas).1 Os fatores usados para classificar os biomas são um tanto mais complexos que a divisão em bacias hidrográficas, porque levam em conta questões relacionadas ao clima e vegetação, que por sua vez, são intimamente dependentes de altitudes, topografia e composição dos solos. Note-se que, com base nesses critérios, um bioma certamente ocupará espaços em mais de uma bacia hidrográfica. Graças aos critérios para definição dos biomas, podese dizer que estes caracterizam os usos e ocupações das bacias – e de segmentos destas. Assim, reconhecendo-se os biomas podem-se vislumbrar muitas questões ambientais 1 curso natural vital para todos os seres vivos. Portanto qualquer regulamentação sobre o seu uso ou disponibilidade deve ser feita com a prudência necessária para prevenir inquietações da sociedade como um todo, e preservar as condições ecológicas essenciais. Com tal importância, envolvimento e dependências múltiplas, a gestão da água impõe um processo de ampla negociação de interesses envolvendo todos os atores concernentes, organizados ou não por grupos ou reagrupados em função de objetivos específicos ou temporais. Para que a gestão das águas se torne efetiva e produtiva é preciso buscar um estado de equilíbrio dinâmico permanente entre os vários segmentos sociais e econômicos dela dependentes. Esse equilíbrio é complexo, porque não é estático. Quem o rege é a igualdade de oportunidades permitindo o suprimento necessário, ainda quando individualidades estabeleçam as diferenças. que incidem nas bacias que os drenam A Tabela 01 descreve a distribuição espacial, nas bacias hidrográficas paranaenses, dos cinco biomas, a saber: FOM - Floresta Ombrófila Mista ou florestas com Araucárias (Figura 07), FOD – Floresta Ombrófila Densa (ou florestas da Serra do Mar), FES – Florestas Estacional Semidecidual (ou subtropical dos vales do Paraná e Paranapanema), SAV – Savanas (ou campos cerrados), e EST – Estepes (ou campos limpos). Mais precisos, os geógrafos ainda diferenciam, entre os biomas, ecos-sistemas de transição, chamados de Contato: Fig. 07: Floresta com Araucária em área agrícola VELOSO, H.P.; RANGEL-FILHO, A. L. e LIMA, J.C. Classificação da vegetação brasileira adaptada a um sistema universal. IBGE, Rio de Janeiro, 1991, 123p. Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 13 ▶ Floresta Ombrófila Densa / Floresta Ombrófila Mista; ▶ Estepe / Floresta Ombrófila Mista; (fig 08) ▶ Floresta Ombrófila Mista / Floresta Estacional Semidecidual; e ▶ Estepe / Floresta Estacional Semide-cidual. Diferenciam ainda ecossistemas situados sobre SEP Sistemas Edáficos Primários (restingas e áreas aluvionais), e Refúgios (altitudinais). Por serem áreas de características associadas ou vinculadas aos biomas, não se detalhou na citada Tabela 01 as áreas dessas subdivisões. Considerando todo o conjunto de bacias e biomas, nota-se no Estado do Paraná vulnerabilidades ambientais tanto na região Noroeste, por conta dos solos arenosos que precisam ser protegidos contra processos erosivos agudos, como na região Centro Sul, onde os outrora extensos pinheirais perderam sua expressão econômica e mesmo ecológica, pressionados pela exploração madeireira e dos so- los, e degradação generalizada dos rios paranaenses a partir dos três pólos de maior densidade urbana. Fig. 08: Campos com matas de galeria em uso agrícola Tabela 01: Área aproximada de cada Bioma nas bacias hidrográficas paranaenses. Bacia Iguaçu Ivaí Piquiri Da Bacia FOD 36.594 0 55.048 24.731 365 5.766 3810 5.025 0 5.187 Paranapanema IV 4.149 Pirapó 118 0 7677 8300 0 0 0 343 0 0 25629 6687 3354 Itararé 0 17395 1890 9.129 Vertente Atlântica SEP 0 Ribeira 8.389 EST 14086 0 Paraná III 10847 SAV 10645 24.712 9.658 27861 FES 0 Tibagi Cinzas FOM Área (Km2) 0 8735 5432 9427 0 0 0 747 260 0 0 672 7717 0 2304 1186 1697 0 0 0 4149 0 0 150 0 88 4909 0 38 0 0 0 0 0 1000 0 0 0 0 Paranapanema III 3.745 0 0 3745 0 0 0 Paraná I 1.332 0 0 1132 0 0 0 Paraná II Paranapanema I Paranapanema II Totais 2.825 1.246 695 198.231 0 0 0 7529 0 2825 0 0 68624 1246 695 99078 0 0 0 20552 0 0 0 378 0 0 0 1000 Fonte: Adaptado sobre ProAtlântica, 2000 e Veloso et al (2002) 3.2. A ocupação urbano-rural e as pressões sobre o meio ambiente O Paraná, um dos Estados da Região Sul do Brasil, possui uma área de 199.880km² dividida em 499 municí- pios, estes congregados em 18 Associações de Municípios (ou 19, se for considerado a AMUTUR, que reúne os municípios turísticos do Paraná), com características hidrológicas, econômicas e climáticas assemelhadas entre si. Nesta vastidão se encontram os biomas das terras litorâneas, campos, terras já não mais florestais e montanhas, que regem a diversidade da vegetação, e do clima, que se apresenta aqui e lá ora quente ou frio, seco ou úmido durante todo o ano, ainda que com sazonalidades bem vindas à produção agrária. Nos muitos rios que se formam, vários têm seu potencial hidrelétrico aproveitado. A história de sua ocupação inclui ciclos de exploração 14 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná O dinamismo demográfico Cerca de oitenta e dois por cento da população do Paraná, estimada, em 2009 na ordem de 10.300.000 habitantes, residem hoje em zonas urbanas e somente 17,8% em áreas rurais. Estes percentuais, na década de 70, mostravam que o Paraná era bem mais rural: 64% estavam no campo. Nestas últimas duas décadas se observou expressiva redução da população residente no campo, em movimentos migratórios para as cidades (figura 10). Fig. 10: A evasão do campo intensificou pressões urbanas, muitas vezes mal resolvidas em ocupações irregulares Pode-se até dizer que não faz muito sentido usar o índice de densidade demográfica do Estado, calculada em 51,45 hab/km², para representar o perfil de ocupação populacional, porque a distribuição está extremamente polarizada nos maiores centros urbanos, representados no eixo 17,8% 82,2% População descendente de de ouro, nos Séc. XVI e XVII, depois dos Tropeiros, que chegou até o Séc XIX. O ciclo da Erva Mate teve seu tempo entre os anos de 1830 a 1930 e o da Madeira, em especial, do Pinho, entre os anos 1890 e 1945, período em que nasce o ciclo do café, que se estima entre os anos 1930 e 1975, quando uma grande geada restringiu a força dessa cultura. Desde então, começando em 1972, a produção de grãos se implantou e permanece até o presente. Estes ciclos foram promovidos por populações coloniais que migraram em períodos de dificuldades políticas e econômicas que ocorreram no Velho Mundo, bem como atraídas por programas de Governos passados, preocupados em acelerar a ocupação das terras paranaenses. Várias etnias se desenvolveram em comunidades relativamente fechadas, mantendo muitos costumes que hoje são comemorados em festas alemãs, holandesas, portuguesas, espanholas, japonesas, polonesas, italianas e ucranianas. A figura 09 ilustra o comentado processo migratório do Estado do Paraná, destacando as predominâncias urbanas e rurais. Aos seus costumes étnicos se associaram os das populações tradicionais, caiçaras, indígenas e depois, negros, e todos estes se adaptaram à variedade de ambientes naturais deste Estado, conferindo a rica diversidade cultural e, reconheça-se, econômica do Paraná. População Urbana População Rural Eslavos Italianos Japoneses Portugueses Entre outros Figura 09: A distribuição demográfica e sua origem Curitiba – Paranaguá / Ponta Grossa, no eixo Londrina – Maringá, e no eixo Cascavel – Foz do Iguaçu, apresentado na Figura 12. A propósito do comentário da densidade demográfica, vale analisar a situação a partir de sua distribuição nas bacias hidrográficas, onde é causa de alterações nocivas às águas e ao meio ambiente. A maior bacia hidrográfica do Estado é a do rio Iguaçu, que possui 54.820,4 km2, seguida da bacia do rio Ivai, que tem 36.540,0 km2. Em seguida está o rio Tibagi, com 24.937,4, e Piquiri, que tem 24.171,7 km2, totalizando, estas quatro bacias, 71,49% do território paranaense. A densidade humana proporcional destas bacias é alta, mas não acompanha a mesma progressão relativa às áreas de cada bacia. Assim, a bacia do rio Iguaçu, que supera também neste aspecto as demais, possui uma densidade demográfica urbana de 68,41 pessoas por quilômetro quadrado, e rural de 12,13 hab/km2, a do rio Tibagi, de 52,77 hab/km2 na área urbana e 7,13 hab/km2 na área rural; a do Ivai apresenta uma densidade urbana de 25,47 hab/km2 e rural e de 8,18 hab/km2 , e finalmente, a bacia do Piquiri, de 17,30 hab/km2 na área urbana e 7,91 hab/km2 na área rural. A Tabela 02 mostra a evolução demográfica do Estado e a Tabela 03 apresenta a distribuição demográfica por bacia hidrográfica. Completando os dados relacionados à distribuição populacional, vale a pena destacar que apenas uma em 12 bacias, a do Paraná 2, que abrange a região dos municípios Altônia e Alto Paraíso, possui população urbana superior à rural. Por outro lado, percebe-se que houve um amplo reforço de atratividade da Região Metropolitana de Curitiba (RMC), cujo eixo-Leste representa uma concentração de 32% da população paranaense e de 61% da produção, medida através do Valor Adicionado Fiscal Estadual. Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 15 Tabela 02: Taxas demográficas do Paraná Decênios Taxa de Crescimento (% a.a.) Situação de domicilio Urbana Rural Total 1940/1949 5,84 5,54 5,16 1960/1969 6,73 4,10 4,97 1950/1959 1970/1979 1980/1989 1990/2000 9,31 5,97 3,01 2,59 6,33 -3,32 -3.03 -2,60 7,16 0,97 0,93 1,40 Fonte: IBGE – Censos Demográficos Já o contínuo urbano, constituído pelas centralidades conurbadas da Região Norte do Paraná engloba 16% da população estadual e 9% da produção. Os pólos regionais do Oeste Paranaense respondem, também, por 9% do VAF, contudo abrigam apenas 8% da população total do Estado. Assim, verifica-se que os municípios destes três eixos concentradores demográficos abrigam 56% da população do Paraná e 79% da produção estadual. A migração dos produtores rurais para as cidades, contudo, não representou o abandono da produção agrária. Nossa agropecuária se destaca dentre os Estados maiores produtores de grãos do País. Dados do recente Censo Rural do IBGE2 destacam que o volume de trigo produzido Paraná teve uma expressiva participação na produção nacional, bem como o de milho e feijão. Sendo elevados os percentuais relativos à produção nacional, há que se exaltar essa importância da agricultura paranaense. Outros produtos, como a cana-de-açúcar e a soja vem apresentando uma crescente tendência para seu uso como matéria prima energética, do grupo das renováveis (álcool e biodiesel). Todos estes produtos atuam positivamente na redução dos índices de Dióxido de Carbono3 gerado mais intensamente nos conglomerados urbanos. Calcula-se que um hectare de milho retenha, em uma safra (quatro meses), cerca de 1,6 ton. de dióxido de Carbono , o feijão, 1,3 ton/ ha, a soja, cerca de 1,5 ton/ha e a ca-na-de-açúcar. Segundo se mediu em pesquisas no Cerrado, 145,3 ton/ha de CO2 são seqüestradas no cultivo da cana-de-açúcar, e 111,5 ton/ ha são emitidas na cogeração de eletricidade, resultando, neste processo, um saldo favorável de 33,8 ton/ha de CO2 por ciclo de vida da cana-de-açúcar4. O Censo de 2009 do IBGE mostrou que a força agrária também se mostra na Pecuária, onde se destaca a avicul2 tura, responsável por 25,3% do total de abates do País, seguidos pela suinocultura e bovinocultura, que representam uma participação relativa, respectivamente, de 16% e 4,2% em termos de Brasil. O aproveitamento dos gases resultantes da decomposição dos excrementos dessas criações pode propiciar a geração de energia elétrica e combustível para o transporte. Projetos em Toledo, Céu Azul e outras regiões do Paraná já participam no suprimento de energia elétrica desta fonte, ao sistema COPEL. Outros setores concorrem para a riqueza do Estado, destacando-se os da Indústria e Comércio, que não são aqui referidos em vista do objetivo do trabalho. Sobre estes, recomenda-se ao leitor interessado consultar os dados do Instituto de Geografia e Estatística – IBGE em www.ibge. gov.br. Avanços Agrários A força da produção agrícola do Estado do Paraná, que tem grande expressão econômica, possui vínculos de sustentabilidade por sua importância no contexto mundial: é muito difícil imaginar, diante de suas ameaçar às mudanças climáticas, como será a economia do petróleo nos próximos 20 anos, mas é possível prever as necessidades alimentares da população humana e se preparar para ela. Fig. 11: Cana-de-açúcar, combustível gerado no campo Dados da Conferência das Nações Unidas Sobre Comércio e Desenvolvimento, citados pela “Folha de São Paulo” de 18 de outubro corrente, mencionam a expectativa de forte demanda de alimentos nos próximos anos e destacam a importância do Brasil como grande produtor de grãos, de IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Rural 2009 disponível em www.ibge.gov.br. DENICH et al, 1999 apud SAMPAIO, C.A., KATO,O.R, NASCIMENTO-E-SILVA, D., Corte e Trituração da Capoeira sem Queima Como Alternativa de Uso da Terra, Rumo à Sustentabilidade Florestal: O Caso Tipitamba em Igarapé-Açu, Pará. In IX ENGEMA - Encontro Nacional Sobre Gestão Empresarial E Meio Ambiente. Curitiba, Nov. 2007 3 CHOHF et al., 2004, apud CHAVES & FARIAS, 2008 Variabilidade Espacial do Estoque de Carbono nos Tabuleiros Costeiros da Paraíba: Solo Cultivado com Cana-de-açúcar, in AGRÁRIA, Revista Brasileira de Ciências Agrárias, Recife, PE, UFRPE v.3, n.1, p.20-25, jan.-mar., 2008 4 16 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná proteínas animais e bio-combustíveis. Se atualmente as receitas com exportações nacionais do agronegócio vem crescendo a uma média de 13% ao ano na última década, estes resultados são obtidos graças às tecnologias adotadas, mas também pelas pressões e avanços feitos sobre os remanescentes de áreas naturais brasileiras. Ou seja, trazem embutido um custo ambiental. Este é, certamente, um dos grandes desafios a ser superado pelo setor agrícola, o de produzir mais, mas sem levar o meio ambiente – que é um dos fatores produtivos – a perder sua qualidade. Já se notam pressões significantes de se- tores ambientalistas, especialmente de organizações financiadas com recursos externos, sobre os avanços agrários. Pode-se mesmo enumerar algumas pressões mais evidentes, tais como o aumento da ação fiscal sobre princípios já antiquados do Código Florestal assinado há quase meio século. Consideram-se princípios antiquados porque ainda prevêem definições empíricas dos espaços a serem definidos para as florestas ciliares e reservas legais, que são ora insuficientes, ora demasiadas, ao não levar em conta as condições do lugar onde devem ser aplicados. Tabela 03: População paranaense por Bacia Hidrográfica (2004) hidrográfica Área Urbana População Cinzas 9.612,8 213.906 79.708 Itararé 4.845,4 82.462 31.524 Iguaçu Ivai Litorânea Paraná 1 Paraná 2 Paraná 3 Paranapanema 1 Paranapanema 2 Paranapanema 3 Paranapanema 4 Piquiri Pirapó Ribeira Tibagi Total 54.820,4 36.540,0 5.630,8 1.267,1 2.256,4 7.979,4 1.231,7 663,8 3.564,3 4.134,9 24.171,7 5.098,1 9.736,0 24.937,4 196.490,1 3.750.462 930.821 238.134 25.618 15.472 551.670 60.654 12.539 84.583 58.692 418.181 447.180 126.124 1.316.021 8.333.021 Rural 655.420 298.946 44.894 7.457 16.894 91.014 9.596 4.352 25.933 252.116 191.292 38.715 106.651 177.855 1.802.367 293.614 Total 4.405.882 114.488 1.229.767 283.028 33.075 32.666 642.684 70.250 16.891 110.516 80.808 609.473 485.895 232.775 1.493.876 10.135.388 Fonte: IBGE – Censos Demográficos Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 17 18 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Fig. 12: Principais concentrações demográficas e conurbações ocorrentes nas principais bacias hidrográficas do Paraná Fonte: IPARDES Base Cartográfica: SEMA (2004) Principais cidades Bacias hidrográficas Limite de municípios Rios e represas Distribuição dos municípios segundo bacias hidrográficas ESTADO DO PARANÁ Outras questões são a pretensa ordem de desmatamento zero que se pretende implantar como resposta à ineficiência do controle ambiental estatal, e a dos perversos índices de produtividade, que podem impor ao agricultor decisões nocivas ao uso racional dos solos, para que sejam alcançadas as taxas pretendidas. Recentemente a tônica das iniciativas agrícolas é a produção de matéria prima para o setor energético. Surge, então, um questionamento muito precedente: será mais importante produzir alimento, ou produzir combustíveis? A produção norte-americana de álcool a partir do milho elevou o preço deste produto alimentar essencial. Inúmeros casos poderiam ser citados de mobilizações populares e de decisões políticas a favor de uma ou de outra produção, e os tempos futuros, em que se precisará atender simultaneamente à fome e à necessidade de biocombustíveis criará dilemas políticos delicados. Os avanços agrários das últimas décadas foram muito intensos no Paraná. Estes nem sempre foram acompanhados com as desejáveis medidas de proteção florestal, conservação dos solos e recuperação de áreas degradadas, apesar de que já se notam cenários favoráveis resultantes destes cuidados. Também não há homogeneidade nos estágios de evolução ambiental das várias regiões do Estado, motivo porque os esforços neste sentido devem continuar. Os mapas da Figura 12 ilustram o que era a ocupação vegetal primitiva do Paraná e a avaliada em 2004, permitindo-se constatar a intensidade da transformação de terras naturais em terras agrárias, ademais de urbanas e industriais. Nestes mapas se pode observar que pouco resta do bioma da Floresta Estacional Semi-decidual (do Norte, Noroeste e Oeste do Paraná), onde a área do Parque Nacional do Iguaçu se destaca. Há um pouco mais de áreas conservadas da Floresta Ombrófila Mista (do Centro e Sul do Estado, também conhecida como Floresta com Araucárias), provavelmente nas regiões de topografia acentuada, onde os solos tem vocação florestal. A formação da Floresta Ombrófila Densa, da Serra do Mar se mantém e as dos Campos e Estepes acompanham as florestas do Norte do Estado, com profundas alterações. Observe-se que mesmo as áreas das Unidades de Conservação – Parques e Reservas – com exceção do Parque Nacional do Iguaçu e APAS da Serra do Mar, têm pouca expressão neste mapa elaborado pelo Instituto Ambiental do Paraná. Por registrar a situação em 2002, não constaram ainda, na citada figura 12 os resultados das iniciativas de órgãos públicos estaduais e municipais, que, começam a lograr a restauração das matas ciliares, muitas das quais ainda com fisionomia pobre na qualidade da sua biodiversidade. Dados informados pelo Instituto Ambiental do Paraná à PUCPR em setembro de 2009, relatam que do total das autuações ambientais, 52,53% focaram questões da flora, ligadas principalmente a desmatamentos, seguidas, em 20,97% pelas autuações em empreendimentos industriais. Em torno de 2,74% das autuações incidiram sobre queimadas e apenas 0,77% das autuações focaram os recursos hídricos. Até fins de Setembro de 2009, considerando um período de 10 anos, um total de 102.067 imóveis foi cadastrado no SISLEG para averbação da Reservas Legais, somando maios de um milhão de hectares. A meta inicial do Programa de Mata Ciliar estabelecida em 2003 previu o plantio de 90 milhões de árvores em margens de rios e reservatórios, bem como em Unidades de Conservação. Dados daquele Instituto informam que aquela meta foi superada em 2009, e teria alcançado, em meados de 2009, a cifra de 99,80 milhões de mudas, para o que contou com investimentos da ordem de R$ 20 milhões, com o que reestruturou 20 viveiros regionais e outros 280 viveiros de instituições diversas. O citado Programa atua na recomposição da mata ciliar com o plantio de mudas e com o abandono de áreas para que a vegetação nativa se recomponha naturalmente. A taxa de pega mas mudas foi medida em 55%. A bacia hidrográfica em que mais se plantou foi a do Iguaçu (cerca de 26 milhões de mudas), seguida pela bacia do Ivai (17 milhões) e depois a do Piquiri, 14,7 milhões e Tibagi, com 10,4 milhões de mudas. Se considerarmos que tais dados reportam a realidade, tem-se que a situação ambiental na área rural está em franca recuperação e as condições dos solos e das águas se encontram em crescente melhoria. Este quadro é exatamente o contrário do que ocorre nas cidades, cujos rios se encontram em grave decadência ambiental. Pode-se constatar o estado crítico do ambiente urbano nos períodos de chuvas fortes, que instala o caos tanto devido aos resíduos como ao inadequado uso do solo. Inundações, deslizamentos de encostas e grandes volumes de resíduos assoreiam os rios, afetando suas condições hidráulicas e ecológicas. Ademais, causam mortes e prejuízos de toda sorte. Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 19 20 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Fig. 13: Comparativo da cobertura vegetal do Paraná, entre a situação primitiva (Sec. XVIII) e a situação contemporânea Cobertura Vegetal Nativa Fonte: MAACK (1950) IPARDES Base Cartográfica: SEMA (2004) Remanescentes da cobertura florestal original (2002) 3.3. A deterioração da qualidade das águas A s águas de um rio tendem a perder sua qualidade assim que ocorre a primeira influência antrópica. Muitos ainda entendem áreas de proteção florestal, e práticas de conservação dos solos, urbanas e rurais, como obstrução compulsória à expansão de áreas habitacionais – nas cidades – ou de espaços para os cultivos e criação de animais. sência de serviços de saneamento, conduzem às condições em que volumes orgânicos e sedimentos chegam aos reservatórios de captação. Ali, provocam a eutrofização (superabundância de nutrientes), que propicia a explosão das algas, que tanto consomem as proteínas como geram toxinas no corpo hídrico. Estas toxinas devem ser eliminadas das águas enviadas à população, por meio de tratamentos não convencionais. Caso contrário, ao serem absorvidas pelo homem, as toxinas atuam de forma cumulativa no organismo, em especial o fígado, gerando doenças que podem levar a morte. Estas toxinas também se depositam nos sedimentos do reservatório e podem se acumular nos tecidos de peixes, cuja ingestão pode provocar intoxicações em quem dele se alimentar. São dois os tipos de efluentes que geram ciclos de contaminação hídrica, no meio urbano: esgotos doméstico/ industriais e esgotos pluviais5. São consequências de inadequada gestão pública municipal, que é permissiva em questões tais como: ▶ Despejos de esgotos cloacais sem tratamento, contaminando rios urbanos que em geral possuem limitada capacidade de diluição. Tal situação se constata tanto em pequenas cidades, onde não há serviços sanitários, como em cidades de portes médio a grande, onde há investimentos insuficientes para os sistemas eficientes de esgotamento sanitário e estações de tratamento correspondentes. Fig. 14. As águas que as cidades precisam são geradas na zona rural Não percebem a necessidade daquelas para a manutenção dos recursos hídricos e para a estabilidade do sistema natural. Não compreendem o motivo pelo qual estas áreas devem existir e ser preservadas, olvidando que os rios são ambientes vivos em contínua variação, que suas margens não são fixas, muito menos sua hidrologia. Nas cidades, em especial, mas mesmo nas zonas rurais se constrói e cultiva em áreas ambientalmente vulneráveis, tanto as ciliares como nas encostas e topos de morro, onde os solos são instáveis e frágeis. É importante destacar que as águas necessárias às demandas da população urbana são sempre procuradas nas zonas rurais, já que as águas dos rios urbanos, por apresentarem altos teores de contaminantes exigiriam sofisticados tratamentos químicos das águas que seriam destinadas à população. Em Curitiba o principal reservatório de águas, o do Irai, cuja bacia hidrográfica, que fornece as águas que serão armazenadas e regularizadas para atender a Capital, está situada em cidades da sua Região Metropolitana. Nestas há grande pressão de ocupação urbana Estes municípios, em que pese os esforços de fiscalização, acabam apresentando focos de loteamentos irregulares e ocupações clandestinas. Ironicamente a legislação brasileira criada para a proteção de áreas de manancial incentivou exatamente o contrário do desejado. Ocupações ambientalmente inadequadas, “regulares” ou não, notadamente se associadas à precariedade ou au- ▶ Descargas, nos períodos de chuvas, de esgotos pluviais contendo grande diversidade e volume de materiais orgânicos e metais pesados. ▶ Contaminação progressiva de águas subterrâneas por vazamento dos sistemas de esgoto sanitário, despejos industriais e domésticos, e concentração de fossas sépticas que contaminam continuamente as águas superficiais e subterrâneas. Não se deve deixar fora dessas origens da contaminação dos aquíferos os vazamentos das redes coletoras de águas pluviais, notadamente das que carregam ligações clandestinas de efluentes domésticos. ▶ Várias formas de ocupação do solo urbano, autorizados ou irregulares, sem qualquer controle do seu impacto sobre o sistema hídrico. ▶ Depósitos de resíduos sólidos urbanos, cujo chorume, não adequadamente captado, tendem a alcançar os aqüíferos e reduzir a qualidade da sua água. Os poluentes originados nas áreas urbanas variam muito, desde compostos orgânicos a metais altamente tóxicos. Alguns poluentes são originados em diferentes atividades exercidas no ambiente urbano como papéis e resíduos orgânicos, de maior volume, até as poeiras e particulados proveniente das emissões dos automóveis e caminhões, ônibus e automóveis, que se depositam nas superfícies e são lavados pela chuva. A água, resultante desta lavagem chega aos rios con- Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 21 taminada com sedimentos, nutrientes, substâncias que consomem oxigênio, metais pesados, hidrocarbonetos de petróleo, bactérias e vírus patogênicos. A qualidade das águas que fluem na rede pluvial depende de vários fatores: da limpeza urbana e sua frequência, da intensidade da precipitação e sua distribuição temporal e espacial, da época do ano e do tipo de uso da área urbana6. Eventos críticos de cheias e estios sempre ocorram de tempos em tempos, e a falta de conhecimento, ou pior, de memória das pessoas, associado a políticas públicas condescendentes, levam a que se ocupem áreas de risco evidente. Especialistas calculam que, neste final de 2009 existem em torno de 40 milhões de brasileiros vivendo em áreas urbanas de risco7. TUCCI, Carlos E.M., Gestão de Águas Pluviais Urbanas. Brasília : Ministério das Cidades – Global Water Partnership Wolrd Bank – Unesco 2005 5 PIZZELA, D.G. & SOUZA, M.P. Impactos Ambientais do Escoamento Superficial Urbano sobre as Águas Doces Superficiais. São Carlos e Ribeirão Preto, SP : USP, 2008 6 BRASIL tem 40 milhões de moradores em áreas de risco, disponível em EcoDebate, htp:// mercadoeti co.terra.com.br / arquivo/brasil-tem-40-milhoesde-moradores-em-areas-derisco?utm_source=newslet-ter& utm_ medium=email&utm_ campaign=mercadoetico-hoje, acessado em 08.01.2010. 7 Fig. 15. Ocupações em encostas, riscos fatais 22 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 23 Retificações e mudanças da topografia do rio Desenvolvimento de patogenias de veiculação hídrica Aumento da tempertura da água Decréscimo na vazão de base Erosão das margens e do leito do rio Degradação do leito do rio Com proteção Transporte de sedimentos e assoramento sem proteção sem proteção Redução da biodiversidade sem proteção Contaminação com agrotóxicos Recuperação da qualidade das águas urbanas Figura 16. Influências antrópicas sobre as Águas, na Cidade e no Campo. Com cuidados ambientais na zona rural (conservação de solos e matas ciliares), regeneram-se as águas dos rios urbanos. Poluição industrial Ocupações irregulares das margens Poluição por esgotos e resíduos Eliminação das populações de peixes Transporte de sedimentos e assoreamento Inundações e aumento na média da vazão de pico Os problemas são intensificados pela compactação e impermeabilização dos solos, impedindo a percolação natural das águas no solo, logo, gerando grandes massas de água nos períodos de chuva, seguidas de vazões diminuídas nos períodos seguintes. Uma parcela das precipitações sobre as cidades, contudo, irá percolar pelos solos e alimentar os aquíferos subterrâneos. Estes são fonte de suprimento importante em áreas urbanas, notadamente através dos chamados sistemas de captação artesiana. As principais fontes de contaminação dos aqüíferos situados no meio urbanos são: ▶ Chorume de lixões (ou aterros sanitários mal construídos, com vazamentos pela manta que deveria ser impermeável), que contaminam as águas subterrâneas pelo processo natural de infiltração no solo. ▶ Acúmulo de sumidouros e galerias de infiltração, destino dos efluentes recebidos pelas fossas sépticas, ainda comuns em domicílios de grande parte das cidades brasileiras. Há situações em que a dissipação desses líquidos pode contaminar a parte superior do aquífero. Havendo comunicação entre diferentes camadas dos aqüíferos através de percolação e de perfuração inadequada dos poços artesianos, a citada dissipação dos efluentes das fossas poderá comprometer o desejado abastecimento de água; As redes coletoras pluviais também podem contaminar o solo quando apresentar vazamentos, ou pior, em episódios de entupimento de segmentos de dutos, que pressionariam água contaminadas para fora do sistema. Nas condições atuais de usos dos solos, melhor dizendo, das áreas críticas sem controle, a perda da qualidade será maior quanto maior for o número de pessoas que dela se acercar. É o que se constata hoje nas cidades brasileiras, sem exceção. Situação das Bacias Hidrográficas Os dados apresentados na Tabela 04 mostram que a carga poluidora que o rio Iguaçu recebe, uma das maiores do Estado, se deve justamente à grande concentração de cidades e indústrias nesta Bacia. A densidade populacional acarreta justamente a concentração de problemas ambientais, notadamente de geração de poluição hídrica e atmosférica. Neste aspecto coincide estar na bacia do Iguaçu a maior parte da Região Metropolitana de Curitiba, que concentra 32% da população paranaense e de 61% da produção, dado este propiciado pelo Valor Adicionado Fiscal Estadual. Ao dado da questão demográfica deve ser cotejada a concentração industrial: Nesta bacia estão localizadas quatro centenas de indústrias (precisamente 389 estabelecimentos em 2009), que correspondem a 31% do total dos estabelecimentos industriais do Estado. Relativamente às outras bacias, não se pode menospre- Tabela 04: Nº de Indústrias por bacia hidrográfica Bacia e sub-bacia Alto Iguaçu Baixo Ivaí Piquiri Baixo Iguaçu Pirapó Paraná 3 Alto Tibagi Baixo Tibagi Médio Iguaçu Alto Ivaí Ribeira Litorânea Cinzas Itararé Paranapanema 4 Paranapanema 3 Paranapanema 1 Paraná 1 Paranapanema 2 Número de Indústrias 231 200 122 103 99 89 86 65 55 38 36 34 27 25 18 12 11 3 1 % das Indústrias do Estado 18,41% 15,94% 9,72% 8,21% 7,89% 7,09% 6,85% 5,18% 4,38% 3,03% 2,87% 2,71% 2,15% 1,99% 1,43% 0,96% 0,88% 0,24% 0,08% zar os contingentes demográficos das regiões conurbadas do Norte do Paraná, que englobam 16% da população estadual e 9% da produção, ou dos pólos econômicos do Oeste Paranaense, que abrigam 8% da população total estadual. Os municípios que formam esses três eixos de conglomerados urbanos concentram cerca de 56% da população e 79% da produção de todo o Estado do Paraná. Vale também citar a importância relativa, no que se refere à ocupação industrial, das sub-bacias do Baixo Ivai e Piquiri. Ainda devem ser considerados outros pólos de desenvolvimento urbano, situados fora do anel rodoviário, chamado de integração, no Norte Pioneiro e no Sudoeste paranaense. Contrapõem a estes núcleos mais ricos, os situados na região central do Estado, assim como na fronteira com o Estado de São Paulo – Nordeste e Leste, caso do Vale do Ribeira – e com o Estado de Santa Catarina, ao Sul e Sudoeste, que se encontram deslocadas do processo de desenvolvimento verificado no restante do Estado, e vivem as maiores proporções de pobreza e de áreas periféricas. Em estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2005 levantou o estado dos principais rios brasileiros e concluiu que o rio Tietê, que corta a capital paulista é o mais deteriorado do Brasil (e certamente da América do Sul), no que é seguido pelo rio Iguaçu, no Paraná, cujo principal afluente urbano é o rio Belém, que nasce e atravessa inteiramente a capital dita ecológica do Brasil. 24 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná O perfil limnológico do Tietê Antes de aprofundar nos resultados observados no Paraná, procedeu-se a um vôo panorâmico sobre o rio Tietê, que corta o Estado de São Paulo. O Rio Tietê é congênere do paranaense Iguaçu. Fig. 17 Usina Ponte Nova, hidrelétrica do Alto Tietê O Tietê (rio volumoso, em tupi-guarani), nasce cristalino e frio no município de Salesópolis. SP, a 840 metros de altitude, em plena Serra do Mar. Seu destino energético foi determinado desde suas nascentes: em 1914, no topo da Cachoeira dos Freire, a maior queda d’água do Rio Tietê, com 74 metros de altura foi construída a Usina Hidrelétrica de Ponte Nova, através de uma represa com crista de 1.000m e reservatório com 12,50km de extensão e 7,5km de largura, nos seus braços mais longos. A usina foi parcialmente desativada em 1988 e reativada, com apenas uma das duas turbinas em 2007, após restauração feita por uma empresa paulista do ramo de alimentação (frigoríficos), que atualmente administra o complexo. Suas margens são protegidas, garantindo assim a qualidade das águas. As Figuras 17 e 18 mostram detalhes desta Usina, em Salesópolis. Como outros vários rios brasileiros com nascentes próximas à Serra do Mar, segue na direção Leste em sentido contrário ao Oceano, para o rio Paraná, que faz divisa entre São Paulo e Mato Grosso. Neste percurso o rio Tietê percorre 1.136 quilômetros de extensão. Drena as águas de 62 municípios paulistas e possui é dividido em seis segmentos: Alto-Tietê, Piracicaba, Sorocaba/Médio-Tietê, Tietê/Jacaré, Tietê/Batalha e Baixo-Tietê. Foi usado nas investidas dos bandeirantes para o interior, no Século XVIII, por isso o rio Tietê ocupa importante parte da história do Estado de São Paulo. Ainda que com vários trechos com cachoeiras e corredeiras, hoje utilizadas por nove grandes barragens, este rio era parcialmente navegável. Os então obstáculos naturais à navegação foram, no Século passado, vencidos pelas eclusas das hidrelétricas, que viabilizaram a navegação em longas extensões. Este rio apresenta períodos de cheias expressivas nos verões, parte destas devido às influências antrópicas de sua bacia, como a impermeabilização e ocupação de áreas vulneráveis, de vales e várzeas, somadas a costumes sanitários inadequados (ver Figuras 21 e 22). Com águas poluídas por substâncias tóxicas e contaminantes, como os vetores de enfermidades como a leischmaniosis, cólera, tifo e verminoses que geram disenterias, alcançando residências, ruas e estabelecimentos comerciais, era evidente a necessidade de obras para dar maior vazão, com dragagens, proteção das margens e desassoreamento do leito. Este trabalho teve inicio em abril de 2002, com o aprofundamento de, em média, 2,5 metros, numa extensão de 24,5km. A largura das margens foi aumentada de 26m para em torno de 45m, aumentando a capacidade de vazão de 640m³/s para 1.050m³/s. O desenvolvimento industrial paulista, significativo desde os anos 50 do século passado, associado ao crescimento urbano desordenado da capital paulista – que se estendeu a outras cidades situadas ao longo do Tietê tornaram este rio um emissário de altos volumes de esgotos domésticos e industriais. De acordo com o órgão ambiental de São Paulo, a CETESB, nos 100km em que atravessa a grande São Paulo, o rio Tietê recebe a carga de esgotos urbanos de 17,7 milhões de habitantes residentes nos 34 municípios mais populosos do Brasil. Este volume poluidor culminou na morte biológica de extenso percurso deste rio. Por conta disso este rio é considerado o símbolo da poluição e contaminação hídrica do Brasil. Em reportagem de dezembro de 2009 sobre o rio Tietê, o jornal Estado de São Paulo informou que em seu conjunto, os 70 grandes rios, córregos e galerias que deságuam no Rio Tietê, junto com as 569 galerias pluviais e de drenagem recebem em torno de 364,7 mil toneladas de areia e lixo. Como estes sólidos se constituem na chamada poluição difusa, inevitavelmente, quase toda essa sujeira e essa areia vão parar no Tietê, provocando enchentes e inundações, e contribuem para o assoreamento contínuo do principal rio da Região Metropolitana de São Paulo. Fig. 18. Águas limpas da Hidrelétrica Ponte Nova, no Alto Tietê Essa quantidade de detritos foi medida por técnicos do Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee), órgão gestor dos recursos hídricos do Estado de São Paulo, que percorreram todos os pontos de coleta pluvial, numa ex- Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 25 tensão de 24,5 km do Tietê, na capital, desde a Barragem da Penha até o Cebolão, na região de Osasco. No levantamento se constatou que o maior problema encontrado foi no Rio Tamanduateí, mas também há muita sujeira nos Córregos Guaió, Jacu e Baquirivu. Intrerpretando os números anunciados, o Estadão informou que se as 364,7 mil toneladas fossem retiradas do leito do rio e colocadas em caminhões caçambas simples, de 8 metros de comprimento, e estes fossem enfileirados em linha reta, o comboio chegaria a 242 km da capital de São Paulo. Desafiado por forte mobilização popular e observando iniciativas bem sucedidas de países europeus, o Governo de São Paulo efetuou, no inicio da década de 90, um diagnóstico da contaminação das águas na Bacia do Alto Tietê, bem como de suas fontes poluidoras. Fig. 19. Córrego Baquirivu, em Guarulhos, 60 ton diárias de poluição chegando ao Tietê Nesta ocasião estimou que os rios da bacia recebiam uma carga orgânica de 1.200ton DBO/dia e 5ton de carga inorgânica/dia, com destaque para os metais, cianeto e fluoreto, três elementos cancerígenos, estes emitidos por cerca de 1.250 empresas, responsáveis pela emissão de 80 a 90% da poluição industrial na bacia. A carga orgânica também tinha origem industrial, a qual contribuiu com um terço do volume medido, sendo o restante atribuído aos esgotos domésticos. Ao longo de mais de 250 km águas abaixo (a jusante) da capital paulista, as águas e margens mostravam os resultados dessa perniciosa poluição. Em agosto de 1995, ao final da Fase I do Programa de Despoluição do Rio Tietê, que contou com recursos do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento se conseguiu que 1168 indústrias atendessem aos padrões legais de emissão. Isso propiciou uma redução de 219 toneladas de DBO/dia, e uma redução de 3,5 toneladas por dia na carga inorgânica nas emissões das indústrias. Dados da CETESB, de 1999 informam que àquela época já se teria alcançado 99,1% das indústrias, com controle necessário de prevenção à poluição. Estas iniciativas privadas não foram acompanhadas na mesma velocidade pelas da SABESP, órgão que coleta e trata os esgotos domiciliares de São Paulo. Somente em 1992 a Companhia de Saneamento Básico do Estado Fig. 20. Em Anhumas, SP, garças convivem com lixo de São Paulo iniciou a implantação das cinco Estações de Tratamento de Esgotos – ETEs, das quais duas foram postas em operação em meados de 1998. Em 2000 se ativou outras três ETEs e há informações que entre 2002 e 2009 houve um aumento da rede de coletores e interceptores (tubulações que impedem que efluentes sejam despejados nos rios). Com isso a região metropolitana de São Paulo teria 84% do esgoto coletado e, desses, 70% são tratados. Ainda assim se calcula que o rio é castigado todos os dias com mais de 690 toneladas de esgoto e 134 toneladas de lixo inorgânico na Região Metropolitana. Por isso, não obstante os esforços e recursos aplicados, o Rio Tietê ainda agoniza aos olhos dos paulistanos. Mas já mostra indícios que, progressivamente, começa a recobrar vida nos trechos mais distantes da Capital. A mancha poluidora, que há poucos anos alcançava 250km (proximidades da cidade de Barra Bonita) vem recuando, chegando a pouco mais de 120 quilômetros da capital, segundo informa a CETESB. As evidências são o ressurgimento de espécies de peixes que haviam desaparecido há três décadas, em cidades na região de Sorocaba. Nesta região, o nível de oxigênio dobrou entre os anos de 1992 e 2008. São resultados atribuídos tanto à dragagem e aumento da caixa hidráulica do rio, como o combate à poluição, esta ainda não completada. O acompanhamento da qualidade das águas, antes de chegar a São Paulo, é feito através de medições da quantidade de oxigênio necessário para consumir a carga orgânica lançada no corpo d’água (DBO5 – Demanda Bioquímica do Oxigênio em 5 dias), associado à taxa de Oxigênio Dissolvido (OD) encontrada no meio hídrico, e à vazão no ponto. Este indicador mostra a poluição de cada trecho medido do rio. Os valores de concentração de DBO são diretamente correlacionados aos valores medidos de vazão do rio. Com a diminuição do regime de vazão ocorre uma menor profundidade média do rio, ou seja, diante de um mesmo aporte de carga poluidora, quanto menor a profundidade, maior a quantidade de massa sedimentada, e menor a quantidade de massa em suspensão, o que resulta em uma menor carga no meio líquido. Já a taxa de OD se correlaciona inversamente com a DBO. No caso do rio Tietê observou-se, em medições realizadas a montante da cidade de São Paulo, na Usina Hi- 26 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Fig. 22. Resíduos sólidos flutuando no Tietê drelétrica Ponte Nova, em Salesópolis, situada cerca de 100km do centro de São Paulo, onde nasce aquele rio, que as águas são claras, evidenciando visualmente boa qualidade. Seu padrão é de tal que se estuda usar suas águas para abastecer a Estação de Tratamento de Água (ETA) da Sabesp em Itaquaquecetuba. Percorrendo dezenas de quilômetros em traçado sinuoso, o rio Tietê se encontra com o Rio Pinheiros, que tem suas origens nos rios formadores das Usinas de Guapiranga e Billings, seguindo então para Leste. Coletas de água para análise da Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) e Oxigênio Dissolvido (OD), e medidas de vazão, foram realizadas em 14 pontos desde a captação para o abastecimento de Mogi das Cruzes, a montante da capital paulista, até Pirapora do Bom Jesus, num trecho de 155km. Observou-se que houve aumento crescente das concentrações de DBO entre Mogi das Cruzes e a ETE Barueri. A partir daí ocorreu um decréscimo na concentração des- Fig. 21. Resíduos urbanos entopem galerias e geram enchentes em São Paulo. ta variável – indicando o aporte da poluição urbana – até a jusante da Barragem de Pirapora, onde os processos de autodepuração certamente superaram a importância das cargas poluidoras. No caso, o processo de autodepuração é associado ao aumento das vazões de jusante, facilitando a diluição e biodegradação da carga poluidora, ao mesmo tempo em que as águas procedentes das zonas rurais, com boa oxigenação, contribuíram na redução significativa do estado de poluição das águas8. Estudos feitos pelo CBHBT – Comitê da Bacia Hidrográfica do Baixo Tietê concluíram que o IQA - Índice de Qualidade da Água, informou nível qualidade “ótima” no Tietê e no Reservatório de Três Irmãos. Naquele trecho do Rio Paraná, a qualidade variou entre boa e ótima. Não obstante, na aprovação do Plano da Bacia, 20082020, o Comitê estabeleceu como meta o “fim da emissão de dejetos no solo e água até 2011”, indicando que persistirem problemas para serem resolvidos, conquanto certamente inferiores aos observados no segmento deste rio na capital Paulista. Note-se que, apesar dos esforços consideráveis, persiste uma triste realidade no rio Tietê, recentemente classificado como o mais degradado do Brasil. O segundo rio do ranking, de acordo com a mesma fonte de informações, é o rio Iguaçu, em nosso Estado. Sua descrição será feita à luz da situação dos grandes rios paranaenses. Os Rios Paranaenses As águas paranaenses drenam em duas direções principais, para Leste, diretamente ao mar, em volume quase insignificante, e para o Oeste, derramando-se no rio Paraná, que é o grande receptor das águas usadas e precipitadas em todos os rios com importância urbana. O Decreto Estadual nº. 2317 de 17.07.00, em seu art. 3, incisos II, IV e V. atribuiu à Superintendência dos Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental, atualmente Instituto das Águas, o “planejamento da gestão de recursos hídricos, o monitoramento quantitativo e qualitativo dos recursos hídricos e a fiscalização do uso de recursos hídricos, inclusive da execução de obras e serviços com estes relacionados”. Consta que essa Superintendência possui uma rede de monitoramento atualmente em operação no Estado, constituída por 550 estações fluviométricas, 524 estações de qualidade da água, 104 estações sedimentométricas, 808 estações pluviométricas, 70 estações climatológicas e 40 estações de tanque evaporimétricos 9. Conquanto sejam expressivos esses números, o Plano Estadual de Recursos Hídricos, em elaboração, recomenda COELHO NETO, J.; SANTOS SILVA, S.S.; PAOLI, P.A.; KULICZ DA SILVA, G; e FLYNN, M.N., Avaliação da Qua-lidade da Água do Rio Tietê Através das Variáveis De-manda Bioquímica de Oxigênio (DBO) e Oxigênio Dis-solvido (OD) . Artigo PDF, Engenharia Ambiental. São Paulo : Faculdades Oswaldo Cruz, (SP, Capital), 2008. 8 SEMA / SUDERHSA Plano Estadual de Recursos Hídri-cos, Relatório Avaliação e Proposição da Rede de Monito-ramento Hidrometeorológica e de Qualidade de Água / Revisão Final – Volume I, Águas Superficiais, Abril 2009. 9 Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 27 Fig. 23. O monitoramento é essencial para o controle que se constitua uma rede de monitoramento, onde seriam definidos um conjunto de informações qualitativas e quantitativas das águas, de maneira tal que se possa concluir sobre a situação limnológica (vazão, característica física, química e biológica) de qualquer ponto selecionado de um corpo d’água, e sua influência na área de contribuição total Os estudos propõem a implantação de cinco grupos de monitoramento, á vista dos diferentes usos e ocupações do solo e dos usuários dos recursos hídricos, definindo-se, para cada grupo, um número mínimo de índices de qualidade de água a serem medidos. No Grupo I, aplicado a todas as estações, se mediriam as taxas de oxigênio dissolvido, pH, condutividade, temperatura, turbidez, cor e profundidade do disco de Secchi. Estes parâmetros permitem saber sobre a maior ou menor poluição das águas por conta da biodegradação da matéria orgânica, ou seja, relativa principalmente ao lançamento de efluentes de esgotos urbanos e rurais. O Grupo II trataria das águas de mananciais, com maior preocupação às cargas orgânicas e toxinas em regiões com taxas altas de nutrientes, ou com problemas de drenagem urbana e poluição difusa. O Grupo III monitorará corpos de água de áreas industriais ou de forte ocupação e conurbação urbana, enquanto o Grupo IV se destinaria a áreas de mineração e indústrias associadas. O Grupo V colherá informações da qualidade das águas de áreas agrícolas, mais voltado aos defensivos e agrotóxicos presentes nas águas dos rios das zonas rurais. Matéria publicada em Gazeta do Povo de 18.08.09 ratifica o estudo do IBGE, com base em análises feitas o rio Iguaçu, deste rio estar entre os mais poluídos do Brasil, notadamente na Bacia do Alto Iguaçu, ao longo da região metropolitana de Curitiba. Ali estão os rios Belém, Barigui e Atuba. Contrastando, os rios mais limpos foram encontrados na Serra do Mar, em áreas de proteção ambiental (Figura 24). Este monitoramento qualitativo, entretanto, não resolve o problema, porque não se notam ações preventivas e de despoluição, sob argumento – citado na referida matéria de A Gazeta do Povo - que o Estado aguarda recursos para recuperar os rios comprometidos, que serão gerados ao se começar a cobrança de uma taxa dos grandes usuários pelo uso da água. As medições dos parâmetros de qualidade das águas propostos pelo Plano Estadual de Recursos Hídricos criam uma nova forma de estabelecer o IQA – índice de qualidade de água, usados por inúmeros laboratórios brasileiros. A estruturação do Índice de Qualidade das Águas foi desenvolvido pela National Sanitation Foundation dos EUA, na década de 70, que quando empregado na forma original, no Brasil, é citada a sigla “IQAnsf ”. Bollmann & Edwiges, 2008, comentam sobre o IQA, que “conceitualmente, é um número resultante de uma síntese de valores e pesos atribuídos à vários parâmetros físicos, químicos e bacteriológicos, e fornece uma indicação relativa da qualidade da água em diferentes pontos no espaço ou tempo”. 10 Dizem ainda aqueles autores, que dos 35 parâmetros indicadores propostos, somente nove foram selecionados, a saber: temperatura, potencial hidrogeniônico (pH), demanda bioquímica de oxigênio (DBO), nitrogênio total, oxigênio dissolvido, sólidos totais, fósforo total, turbidez, coliformes fecais (termotolerantes). O IQAnsf é calculado pelo produto ponderado de valores de qualidade correspondentes aos parâmetros considerados. Estes parâmetros são úteis para avaliar tanto a potabilidade como a balneabilidade das águas, logo, são reconhecidos como suficientemente amplos para permitir as conclusões para dois dos usos das águas. Fig. 24. Mananciais da Serra, onde o Rio Iguaçu percorre limpo. Os valores medidos devem ser comparados aos dos padrões estabelecidos pela Resolução CONAMA nº 357, de 17 de março de 2005, que além de definir a padronização das águas doces, salobras e marinhas, definiu também os padrões de enquadramento das águas superficiais, doces, salobras e salgadas do Brasil. Este enquadramento tem caráter político-administrativo, ou seja, não enquadra o estado em que as águas se encontram, mas norteia o padrão que deveria apresentar. ISAM, 1999 apud Bollmann & Edwiges, 2008. Avaliação da qualidade das águas do Rio Belém, Curitiba-PR, com o emprego de indicadores quantitativos e perceptivos. In Revista Engenharia Sanitária e Ambiental, Vol.13 - Nº 4 - out/dez 2008, p. 443-452 10 28 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Assim, o padrão de qualidade que um rio, ou parte deste, deverá apresentar são definidos por ato normativo: resolução, portaria ou decreto . Na ausência desta normalização, as águas naturais do Paraná devem se enquadrar automaticamente na Classe 2 da citada Resolução CONAMA (por força do seu artigo 42). Em trabalhos expeditos de campo usam-se critérios mais simples de descrição da qualidade das águas e do am- biente em que estas estão. Um destes é o Índice de Influência Antrópica - IIA, um indicador perceptivo usado principalmente para determinar em que grau o recurso hídrico é afetado por ações humanas. Neste método são analisados parâmetros como a quantidade de lixo visualizada, mudanças no leito original do rio, evidências ou não de esgotos sanitários e tipo de vegetação ciliar, cujos parâmetros são valorados entre 01 e 24. Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 29 30 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Rio Irco (Guarapuava) 16 01 BAIXA 02 03 04 06 07 08 09 10 11 12 14 10 Influência Humana 13 Rio Cotegipe Rio Igapó 11 15 16 MARGINAL 17 06 18 19 Rio Belém 20 21 22 POBRE Rio Água Verde 05 Fig. 25. Tabela usada para aplicação dos índices de percepção ambiental aos rios paranaenses (ilustrada com casos). 05 SUB-OTIMO Rio Jaguariaíva 15 IIA - Índice de Influência Antrópica Mananciais 20 ÓTIMO IVH: Índice de Valor de Habitat 23 01 24 ALTA Os índices inferiores indicam cursos hídricos com baixa influência humana, e os valores acima de 17 atestam alta influência humana. Outro índice empregado é o IVH, Índice de Valores de Habitat, também perceptivo, destinado a apontar a potencialidade do recurso hídrico para abrigar e manter uma boa qualidade de vida, independentemente da sua situação atual. São analisados vários aspectos tais como a caracterização do substrato, o regime de escoamento, estado de alteração do canal, etc, totalizando 10 parâmetros. gislação ambiental que visa proteger minimamente as margens contra as influências antrópicas. Além da inexistência ou precariedade das matas ciliares urbanas, registraram-se lançamentos de emissários de esgotos domiciliares diretos ou através da rede pluvial, e lançamento de diversos resíduos sólidos, constatados tanto nas margens como na ramagem da parca vegetação ripária. Ainda, carreamento de resíduos difusos não varridos nas ruas e recolhidos pela rede pluvial, assoreamento e focos de erosão. Os atuais esforços para 14% marginal 57% Alta influência rios rurais 43% Moderada influência 66% Baixa influência rios urbanos 33% Baixa a Moderada influência 72% pobre 14% subótimo rios urbanos 17% ótimo rios rurais 66% subótimo 17% marginal Fig. 26. Percentuais dos valores de Índice de Influência Antrópica em trechos urbanos e rurais de rios avaliados Fig. 27. Percentuais dos valores de Índice de de Valor de Habitat em trechos urbanos e rurais de rios avaliados No IVH a faixa de valoração varia de 01 até 20. O valor 01 se aplica a um baixo índice de valor de habitat, ou seja, baixa capacidade biológica do corpo d’água, enquanto o valor 20 representa um curso hídrico com excelentes condições ambientais. A figura 25 apresenta a graduação destas avaliações perceptivas. As Figuras 26 e 27 apresentam os resultados de avaliações desenvolvidas segundo este método nos rios urbanos das cidades de Londrina, Maringá e Cascavel, Guarapuava, Toledo e Francisco Beltrão entre os dias 19 a 21 de setembro de 2009. As avaliações feitas naquelas datas ocorreram em períodos de chuvas intensas antecedendo às verificações, o que certamente atenuou a gravidade das conclusões expostas. Como se poderá observar nas figuras citadas, a qualidade das águas é visualmente afetada pela concentração urbana, onde em nenhum caso, se constatou o cumprimento da le- o controle desta poluição e contaminação das águas, de responsabilidade dos serviços públicos municipais e estadual são evidentemente insuficientes. Posteriormente novos estudos foram realizados, atendo-se a dois casos: o rio Belém, tributário do Iguaçu, e o rio Toledo, que é uma das nascentes do rio São Francisco, tributário do Reservatório de Itaipu, no Oeste do Paraná. Apesar de ambos rios possuírem uma extensão calculada em 20 km, há diferenças notáveis entre estes dois rios, por exemplo, a escala das pressões urbanas que ambos sofrem, outra, o fato que um dos rios é inteiramente urbano, incluindo seus contribuintes, enquanto outro tem suas nascentes em região agropecuária, e voltam a ela, depois de passar por um núcleo urbano típico. Estas situações serão tratadas com mais detalhes a seguir. Também, o rio Toledo é apropriado e usado para o abastecimento urbano, o que não ocorre com o Belém. Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 31 Fig. 28. Resíduos na vegetação ciliar em Porto Amazonas Ambos, mais que laboratórios excelentes para pesquisas ambientais, denotam a necessidade de cuidados para recuperar sua qualidade. Os resultados são tão dispares que, para uma melhor avaliação – quiçá uma tênue comparação com o que ocorre no já comentado rio Tietê, os efeitos deletérios do rio Iguaçu foram avaliados no próprio rio Iguaçu, já em Porto Amazonas, a mais de 70 km da foz do Belém (Figura 28). Complementando, coletou-se uma amostra das águas deste rio, tal como se estudou no Tietê, em seu trecho final, depois da intensa oxigenação proporcionada pelas Cataratas do Iguaçu, que certamente beneficia substancialmente a qualidade daquelas águas Perfil Limnológico do rio Toledo Setenta por cento das águas consumidas pelos 110 mil habitantes de Toledo, um jovem município do Oeste Paranaense, procedem do rio Toledo. Esse rio nasce em um eucaliptal, nas proximidades da vila de S. Luiz do Oeste, e tem sua foz no rio São Francisco, nas proximidades da rodovia PR 317, que liga Toledo a Ouro Verde do Oeste. O rio São Francisco é tributário do Rio Paraná, já no reservatório de Itaipu. O rio Toledo tem cerca de 22km de extensão, dos quais 4,5km, pouco mais que 20% percorrem área urbana, 13,8km na área acima da cidade e 3,7km no segmento entre a cidade e sua foz no rio S. Francisco. A figura 30 apresenta um perfil deste rio. Nos 63% do trecho superior do rio Toledo, das cabeceiras até a ponte da BR 467 aquele rio banha pequenos e médios produtores rurais, que, em todos os casos, usam as áreas mais próximas ao rio para suas residências e criações de suínos, aves e produtores de leite, todas estas produções geradoras de resíduos orgânicos. Até não muito tempo atrás os resíduos da suinocultura eram lançados no próprio rio, mas agora são curtidos em esterqueiras e aproveitados para adubar as culturas. Estas, na maioria dos imóveis deste segmento do rio possuem Áreas de Preservação Permanente preservada ou recuperada (Fig. 29), e foram preservadas extensões importantes de várzeas, incluindo na área urbana. Mais que isso, observouse que toda a bacia está protegida através da execução de projetos de manejo integrado das águas e solos, com leiras, ou murunduns, como são chamados localmente os terraços feitos ao longo das linhas curvas de nível. Estes se estendem também às estradas rurais, que foram readequadas para prevenir e reduzir os problemas de erosão. Acompanhando estas medidas, são usados abastecedores comunitários para fornecer água para pulverizadores, evitando-se assim a poluição química de rios e córregos com os defensivos agrícolas. Essas medidas previnem, mas não suficientes para evitar que, nas chuvas mais fortes, as águas se tornem turvas. Nas proximidades da ponte da PR 467 uma pequena represa foi construída pela SANEPAR para a captação de água destinada à cidade. Da represa as águas escoam por gravidade até uma estação elevatória situada no Parque dos Pioneiros, onde também há uma captação adicional, de águas artesianas. Estas são tratadas por sistema convencional antes de distribuí-la à população. Entrando na área urbana, assim considerada a situada à Oeste da BR 467, rio Toledo progressivamente perde as matas ciliares e vegetação natural das várzeas, em vários locais substituídas por pastagem abandonada. As águas tornam-se cada vez mais turvas, alimentadas pelo sistema de águas pluviais, que nas épocas de chuvas carreiam expressiva poluição decorrente de resíduos de varrição, acumulação de águas retidas no sistema de coleta e algumas ligações de esgoto clandestinas. No trecho do rio, nos fundos do Jardim Europa já se nota a deposição e carreamento de lixo doméstico. São evidências negativas da ocupação e influência urbana. Passando a ponte da av. Portugal está a estação elevatória da SANEPAR. Ali começa o Parque dos Pioneiros (onde teriam acampado famílias dos primeiros colonizadores). Neste Parque estão sendo realizadas obras de retificação e dragagem, retirando, volumes de lixo lançados durante vários anos. Com isso, neste espaço de várzea foi melhorando o escoamento, para prevenir enchentes desta área baixa da cidade, apesar de alterar a natureza do meio, mas se suprimiu a vegetação primitiva das margens. Também próximo ao Parque se notam tubulações da rede pluvial, que levam, com as águas das chuvas, contaminantes difusos, não colhidos em varrições. O rio Toledo, no trecho urbano ainda possui vários locais com matas nativas, o que não impede que suas águas deixem de receber galerias pluviais e lixo. Ao passar a ponte da Rua Paulista há o lançamento dos esgotos tratados pela SANEPAR, por processo de gradação e decomposição anaeróbica. Menos de 300m depois, junto à ponte da rua Senador Atílio Santana, encontra-se a escada emissária dos efluentes de grande indústria de alimentos, que mesmo tratado por lagoas de decantação vertem significativa poluição às águas do rio Toledo (Figura 31), gerando ao se misturar às águas da SANEPAR, odores típicos de poluição orgânica. Ali se constatou elevado número de coliformes fecais: 2.419,6 nmp/100ml, mesmo com águas colhidas em período chuvoso, que favorecem a diluição e biodegradação da matéria orgânica. A várzea que se segue foi alterada por pequenas ocupações agrícolas e pastos, voltando a ser, gradativamente 32 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná área rural. Suas características, entretanto, são bem distintas das que o rio possuía antes de entrar na área urbana. Há registros de moradores que, ao ver o estado precário da qualidade das águas, usam este rio para se livrar de carcaças de criações e mesmo de lixo, o que não só continua como agrava a contaminação das águas. É esta a situação deste rio quando cruza com a Av. Egydio Gerônymo Munaretto seguindo até sua foz no rio São Francisco, nas proximidades da Pedreira Municipal onde também está o Recanto Municipal, do outro lado do rio S. Francisco, junto à BR 317. Fig. 29 Área de Preservação Permanente, na nascente do rio Toledo: conservação de solos e estradas Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 33 RT05 Ótimo Sub-ótimo Marginal Pobre Figura 30. Croquis do rio Toledo Valor de habitat RT04 Rio S. Francisco, a Jusante do rio Toledo Após ponte da Av. Egidio Munaretto Av. Sen. Attilio Santana Av. Maripá Av. Egydio G. Munaretto RT03 RT01 a RT05: Pontos de coleta de amostras de água para análise de qualidade (tab. 03) BR 467 Próximo à captação da SANEPAR Local do lançamento de efluente industrial RT02 34 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Bomba de recalque no Parque dos Pioneiros Rio Toledo na zona rural Nascentes do rio Toledo RT01 Ao se encontrar com as águas do rio S. Francisco, a mistura das águas e a oxigenação melhoram significativamente a qualidade das águas, que então atravessam longo percurso de zona rural até atingir o reservatório da Itaipu Binacional, na região de Entre Rios e Pato Bragado. A tabela abaixo apresenta os resultados da qualidade das águas medidas em outubro de 2009, desde a nascente do rio Toledo até este ser diluído nas águas do rio S. Francisco. É evidente a influência da zona urbana sobre as águas. Mesmo contando com uma significativa proteção ciliar, as águas do rio Toledo assumem uma característica muito diferente daquela que apresentava antes quando escoava pela área rural. Tabela 05. Índices de qualidade das águas do rio Toledo Localização IQA Rio Toledo na BR 467, captação da SANEPAR 55,44 Nascentes do rio Toledo 62,62 Rio Toledo na ponte da Av. Senador Atílio Fontana 50,29 Rio São Francisco na ponte da PR 317 58,14 Rio Toledo na Av Egydio Gerônymo Munaretto 49,84 Perfil Limnológico do rio Belém Fig. 31. Emissário industrial diretamente no rio Toledo À turbidez, resultado de drenagem em alguns locais com erosão ativa, provavelmente em caminhos rurais, são agregados às águas volumes de efluentes contaminados com esgotos não suficientemente tratados – provavelmente contando que o corpo receptor teria condições de metabolizar a carga efluente – e resíduos diversos colhidos pelos sistemas de águas pluviais – que apresentam também evidencias de coleta de esgotos domiciliares. Um fato surpreendente foi a constatação que a população que vive próximo ao rio depois deste passar pela cidade, parece se sentir à vontade para lançar neste corpo d’água as carcaças de animais e outros resíduos igualmente inadequados, conspurcando as águas que iniciam o processo de restauração de sua qualidade. Não se poderia afirmar que é somente por essa razão, mas se constatou que o IQA medido logo depois deste trecho de rio (na ponte da Av Egydio Gerônymo Munaretto) apresentou os piores resultados de qualidade das águas de todo rio Toledo (menor IQA). Esta situação melhora um pouco depois dessas águas ingressarem no rio S. Francisco, quando os problemas de qualidade assumiram outra face, a da turbidez, causada por focos de erosão ativos ao longo desse rio. 11 O rio Belém é inteiramente curitibano. Seu curso principal segue a direção norte-sul, cuja bacia inclui os principais referenciais culturais da capital paranaense. Esta possui 84km², o que representa cerca de 20% da área do Município onde vive cerca de 40% de sua população. No entanto este rio, desde suas nascentes não possui segmento inteiramente de acordo com a legislação ambiental. Suas margens estão ocupadas por residências e até prédios, e as ruas laterais ao leito do rio estão pavimentadas. Raras são as matas ciliares, e comuns os acessos das redes coletoras de águas pluviais que conduzem ao rio o lixo difuso não varrido nas ruas. Parte desta rede ainda recebe ligações clandestinas de esgotos, que se comprova pelo forte odor nauseabundo deste rio. Em sua nascente foi criada uma área protegida, o Parque Municipal das Nascentes do Belém, onde se nota, em sua encosta direita, o Cemitério-parque de Cachoeira. Aliás, a maioria dos Cemitérios de Curitiba situa-se nas cabeceiras dos tributários desse rio. Por outro lado, muitos Parques Municipais também estão situados Ao longo deste rio: Parque São Lourenço, Parque Pedreira Paulo Lemiski, Bosque do Papa, Passeio Público, Parque Zaninelli (da Universidade Livre), Bosque Alemão e, no Boqueirão, o Parque Reinhard Maack. (Figura 32) Já em 2002 o Prof. Fendrich11 detectou a extrema gravidade ambiental do rio Belém, quando verificou que a qualidade de suas águas estava além dos índices qua consideram alta degradação (“sem classificação” e “totalmente imprópria” a qualquer uso), motivos pelos quais discute a validade do titulo de “Capital Ecológica” dado a esta cidade. Estudos posteriores feitos por uma equipe coordenada pelo Prof Bolmann da PUCPR, com recursos do CNPQ 12 instalaram 10 locais de coletas de amostras de água no rio Belém, denominadas, no projeto, de RB1 a RB11, mostradas na Figura 33. Nas cabeceiras do Belém, até as proximidades do Parque São Lourenço, onde fo- FENDRICH, Roberto. Diagnóstico dos recursos Hí-dricos da Bacia Hidrográfica do Rio Belém, Curitiba : Assembléia Legislativa do Paraná, 2002. BOLLMANN, H.A & EDWIGES, T. Qualidade das águas do Rio Belém, Curitiba – PR, in Revista Engenharia Sanitária e Ambiental, Vol 13, n°4, 2008, pg 443-452. 12 Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 35 ram instalados os pontos RB1, RB3, RB4, RB5 e RB6, o rio percorre sobre seu leito natural, com relativa diversidade de ambientes – o que justificou maior número de unidades amostrais, metade do total – e remanescentes ainda significativos de vegetação ciliar, ainda que alterada, há muitos anos, pelas pressões urbanas. O ponto RB1 foi onde se encontrou o melhor IQA, calculado em 58, que caracteriza aquelas águas como “boas”, o que indica que poderiam atender à população depois de passar por tratamento convencional. Nos pontos RB3 e RB4 o padrão decaiu para, respectivamente 40 e 41, refletindo a pressão antrópica, contudo mantendo uma qualidade “aceitável” para o tratamento convencional com vistas a um uso domiciliar. Os pontos RB5 e RB6 as águas perderam aquele estado de qualidade e passaram a ser “imprópria para os tratamentos convencionais”, com IQAs respectivamente 35 e 34. Os pesquisadores da PUCPR registraram neste trecho do rio situações contrastantes, por um lado ocupações irregulares das margens com famílias de baixa renda, por outro, muitos imóveis de alto padrão, notadamente nas proximidades do Parque São Lourenço. Todas os imóveis têm, nesta região da bacia, rede coletora de esgotos. Na região central da bacia, entre o Parque São Lourenço e a Estação Rodoferroviária foram distribuídos os pontos RB7, RB8 e RB9. O primeiro foi localizado na saída do lago do Parque São Lourenço, onde o rio Belém inicia seu percurso canalizado e o último ponto, cerca de 2 km após, foi situado em local após o rio sair do trecho subterrâneo, sob a rua Mariano Torres (o ponto RB8 se localiza a jusante do Bosque do Papa e Palácio Iguaçu, à entrada do canal fechado, na rua Barão do Cerro Azul). Neste segmento central de Curitiba é intensa a atividade residencial e comercial, principalmente de restaurantes e de serviços. No ponto RB7 o IQA medido foi 31, persistindo na situação “imprópria para tratamentos convencionais” Porém no ponto RB8, provavelmente por influência das áreas verdes por onde passou, o IQA elevou-se para 47, voltando a ser “aceitável”, para depois cair, no ponto RB9 para 18, classificado como de qualidade “imprópria”. Mesmo saindo do canal fechado, o rio percorre uma calha relativamente contida, em um canal semi-retificado até o ponto RB10, posicionado dentro do Campus Curitiba da PUCPR, onde o rio percorre um quilômetro. No trecho dentro do Campus a mata ciliar foi conservada e adensada. Não obstante, esta pouco pode contribuir para a qualidade das águas, em vista do volume de resíduos sólidos que é lançado pela população de coletores que habita nessas proximidades. 36 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 37 A montante do Campus, bem como da contribuição de três rios urbanos muito contaminados: os rios Ivo, Juvevê e Água Verde, que drenam as regiões mais densamente habitadas de Curitiba, e cujas águas apresentaram as mais baixas taxas de IQA de toda a bacia estudada. Fig. 33 Aterros destinam resíduos mas geram chorume. Deste local até sua foz no rio Iguaçu, em cujas proximidades encontra-se o ponto RB11 onde o rio verte por longo trecho, retificado para minimizar os problemas de alagamentos provocados pelas cheias do rio e permitir maior ocupação do solo urbano na região. Neste trecho estão os bairros de Vila Hauer, Boqueirão e Uberaba e ali a classificação “imprópria” persistiu até o final do rio, onde os IQAs foram 17 (RB10) e 19 (RB11). Nestas condições o rio Belém adentra ao rio Iguaçu, levando este estado de degradação por muitos quilômetros águas abaixo. Aspectos Limnológicos do rio Iguaçu É justo que se comente que a contaminação que sofre o Alto Iguaçu não se deve somente ao rio Belém, mas também aos rios Atuba, a montante do Belém, e ao Barigui, a jusante do Belém. De outro lado, outros rios formadores do Iguaçu são utilizados para abastecimento público da Região Metropolitana de Curitiba: rios Pequeno, Piraquara, Tumiri, Cachoeira, Curralinho, Cangüiri e Iraizinho. O rio Iguaçu, de acordo com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente tem 1.320 km, e é formado pelo encontro dos rios Atuba e Irai, na parte leste do município de Curitiba, na divisa com o município de Pinhais. Neste ponto denomina-se à bacia como a do Alto Iguaçu. Assim, sob denominação de Iraizinho, nasce ao pé da Serra do Mar, e escoa em direção Oeste, desembocando no rio Paraná, no município que homenageia seu trecho final: Foz do Iguaçu. Neste final do rio, trecho chamado Baixo Iguaçu, encontram-se as Cataratas do Iguaçu, formado por cerca de 270 saltos com desnível de 72 metros e volume médio de 1.551 m3/s, na divisa com a Argentina. A bacia do rio Iguaçu é a maior do Estado do Paraná e contém, em sua bacia as cidades de Curitiba, São José dos Pinhais, Araucária, Cascavel, Guarapuava e Francisco Beltrão, entre outras. A vazão do Iguaçu em sua foz é da ordem de 1.551 m³/s. Esta bacia abrange os Estados do Paraná (57.329 km²) e de Santa Catarina (13.470 km²), além de pequena área da Província de Misiones, na Argentina (1.837,5 km²), totalizando 72.637,5 km². É, assim, uma bacia inicialmente estadual, depois interestadual e, ao final, internacional, com importancia especial porque neste trecho comparte com a Argentina, as Cataratas. Antes de chegar às cataratas e à sua foz, o Iguaçu tem outra fama, a de ser o 2º rio mais poluído do Brasil, segundo o relatório de Indicadores de Desenvolvimento Sustentável 2008 (IDS) do IBGE, que se baseou em dados de 2004. Quando se considera sua extensão total, a informação não parece correta. Mas quando se percorre o trecho do rio que cruza Curitiba, restam poucas dúvidas: esta fama lhe foi atribuída por conta da elevada poluição de seu grande contribuinte o Belém, que ingressa no Iguaçu cerca de 3.700m depois que este recebe este nome. Se o rio Irai apresenta menor carga poluidora, o Atuba, a quem se junta para formar o Iguaçu, se apresenta bem alterado, tanto que esses dois rios correm paralelos até a captação da SANEPAR. Ao receber o Belém as águas estão conspurcadas, estado que piora à quantidade de moradores que residem em sua bacia, o que, associado à baixa vazão, lhe agravam o quadro de poluição. O que polui o rio Iguaçu em Curitiba e RMC são principalmente os esgotos domiciliares, ainda que o mais visível seja o lixo sólido, lançado diretamente no rio ou para lá levado nas grandes chuvas, e que, ao final, fica retido nas margens. É muito comum perceber, na vegetação das margens, vários tipos de materiais, alguns de grande porte, outros mais resistentes à biodegradação, como plásticos e metais (figura 32). Somente muitos quilômetros abaixo de Curitiba este rio pode voltar a ser utilizado para o abastecimento. A SANEPAR, Companhia de Saneamento do Paraná, utiliza os mananciais da Bacia do Iguaçu a montante da Capital, e depois, a captação só é realizada no município de União da Vitória (PR). No entanto a mesma empresa de saneamento usa este rio para despejo dos efluentes dos esgotos, tratados Fig. 34 O tratamento do chorume se completa pela reci-clagem natural, diluindo o efluente final em rios 38 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná até atingirem padrões ambientais. Segundo a SANEPAR, o porcentual de coleta em Curitiba é de 85%. Parte dos 15% restantes são destinados diretamente (ou por redes pluviais) aos cursos de água dos tributários urbanos do Iguaçu, dentre os quais se destaca o Belém. O odor forte de esgotos deste rio, testemunha esta realidade. Este problema é reconhecido pela SANEPAR, que o atribui às ligações irregulares, mas não só a estas, mas também a problemas de drenagem, falta adequada coleta de lixo, manejo das águas da chuva, carreamento de terra e material orgânico que assoreia o rio, etc.. Tem importância, neste contexto, o lançamento dos 20 milhões de litros mensais de chorume em vários níveis de biodegradação do Aterro do Caximba, que se mantém com alta carga orgânica mesmo depois de passar por lagoa facultativa, lagoa anaeróbica e lodo ativado e chegar às cavas e destas para o rio Iguaçu. politana de Curitiba, chegando até Balsa Nova, onde o solo argiloso é contaminado pelo esgoto e pelo lixo, que danifica a vegetação das margens. Fig. 36 Margens protegidas do Iguaçu em Pto Amazonas Fig. 35 O trecho final do Iguaçu apresenta águas boas Nota-se que as águas dessas cavas possuem forte odor e coloração escura, resultado da decomposição das mais de 24 ton. de resíduos sólidos ao dia que chegam ao Aterro do Cachimba, dos quais 60% são orgânicos. Não é tido, contudo, por irregular o lançamento destes líquidos nos rios naturais. A Resolução CONAMA nº 357 autoriza o uso do poder diluidor e biodegradador dos corpos d’água naturais, desde que os efluentes estejam dentro de limites estabelecidos e considerando a capacidade do corpo receptor, medida em termos de vazão e qualidade de água. No caso do Iguaçu, tais efluentes provavelmente não aumentarão o já combalido estado de qualidade das águas, ainda que certamente contribuam para aumentar a demanda de oxigênio – a DBO – necessária para a biodegradação dessa carga. Essa tem sido uma questão de controvérsias entre a Prefeitura de Curitiba e o órgão ambiental estadual. Ao não poluir ainda mais o rio, o dano maior acaba ficando na região das cavas e várzeas do Iguaçu que recebem aquele efluente antes que chegue ao rio Iguaçu, estas sim, impactadas de forma letal. As várzeas, lembre-se, são berçários de várias formas de vida tanto aquática como terrestre. Um estudo concluído como tese de doutorado por Gustavo Cúrcio, identificou três segmentos característicos no rio Iguaçu: o primeiro nas proximidades da Região Metro- Antes disso, após percorrer cerca de 20km do local onde recebeu o nome, o Iguaçu recebe o rio Barigui, já em Araucária. Cúrcio informa que neste trecho são comuns resíduos de grandes volumes – de carcaças de automóveis, lavadoras de roupas e sofás até ilhas flutuantes de sacos plásticos – que fazem pressão nos barrancos, se sedimentam e interferem na vegetação ciliar, além de alterar hábitos da fauna das margens, que passa a se abrigar e alimentar destes resíduos. Não obstante o serpentear desse rio nas várzeas de Araucária auxilia a retenção de grande volume dos resíduos nele lançados. O segundo trecho identificado vai de Engenheiro Bley a Porto Vitória. Nesta região o rio Iguaçu passa a drenar o bioma dos campos, e foi caracterizado por Cúrcio, pelo afloramento rochoso e falhas geológicas, que formam cachoeiras e corredeiras. Por conta disso, segundo o estudo, o rio começa a receber mais oxigênio, torna-se mais largo e com margens mais altas. Quase chegando em Porto Amazonas, tendo percorrido cerca de 70km, o rio Iguaçu passa sob a Ponte dos Arcos, uma obra ferroviária que merece ser destacada. O solo menos encharcado favorece o crescimento de uma quantidade maior árvores. A partir de Porto Vitória, mais nove quilômetros abaixo, surge o terceiro trecho, onde o solo é argiloso e a mata ciliar ganha novas variedades e se assemelha em quantidade às do segundo trecho. Desde sua origem, no encontro dos rios Atuba e Irai, o Rio Iguaçu em Curitiba tem uma profundidade de pouco mais de meio metro, com 10 a 15 metros de largura. Antes de receber o Belém é comum ver, nas margens, algumas aves, pequenas garças, e capivaras, fauna pouco exigente que suporta as condições insalubres do rio. Neste percurso ainda se pode notar alguns peixes, como os pequenos barrigudinhos e cascudos, ambos resistentes às condições precárias de qualidade das águas. Às margens, as matas são formadas predominantemente por branquilho (Sebastiania commersoniana), da família das euforbiáceas, cuja madeira era usada como Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 39 combustível nos vapores que percorriam o rio Iguaçu a partir de Porto Amazonas. São comuns também árvores mais velhas abrigando em seus ramos uma epífita lhe dá aparência de estar com barbas (Fig 35). Uma expedição promovida pelo jornal A Gazeta do Povo, em fins de 2008 descreveu que a paisagem do Iguaçu muda após a entrada das águas do Belém, com suas águas visivelmente poluídas, de coloração acinzentada e com muito lixo sólido, nas águas e margens. O mau cheiro piora consideravelmente e o cenário é desolador, com urubus devorando animais mortos ali lançados. Nos períodos de cheias, o lixo formado por muito plástico, fraldas e uma infinidade de materiais, de todos os tipos e tamanhos, é transportado águas abaixo, mas uma parte fica retido na ramagem da parca vegetação ciliar. Na medida em que se acompanha o rio, ao chegar ao distrito de Guajuvira, em Araucária, o rio passa a receber novos contribuintes que diluem progressivamente a carga poluidora. Em Balsa Nova já se pode navegar com barco a motor, já que o rio apresenta maior profundidade, em torno de dois metros e 25m de largura. Reduz-se a taxa de odor e os resíduos são notados em menor volume nas águas, embora estes sejam vistos nas margens, depositados nas cheias. As águas começam a assumir tons esverdeados, o que indica acentuado processo de metabolismo das algas, consumindo a matéria orgânica. Os peixes, que desapareceram na entrada dos rios Belém e Barigui ainda não são notados. dições permitem a vida de peixes, como lambaris e cascudos, que são atração da pesca em Porto Amazonas (Fig 39). No entanto o rio ainda transporta os resíduos persistentes, em especial plásticos e garrafas pet, depositando-os nas margens ou levando-os às águas abaixo. O volume deste material é elevado: a Prefeitura recebe de um único voluntário que se dispõe ao recolhimento deste resíduo um volume correspondente a 50 kg. mensalmente. Deste ponto em diante o rio assume características de navegabilidade, usadas por vapores até meados do século passado, fazendo a conexão com União da Vitória. Hoje existe um barco, o Novo Horizonte, com capacidade para 35 passageiros, que faz este trajeto com objetivos turísticos, em passeios que duram cerca de 10 horas para fazer 155 quilômetros, até São Mateus do Sul. Este uso comprova que a qualidade das águas neste trecho do rio, em termos de odores e resíduos flutuantes, já não são mais notáveis. No trecho entre São Mateus e União da Vitória o rio fica cada vez mais largo, em alguns locais ultrapassando os 200m, com profundidades superiores a 15m. As margens, que podem ser inundadas em períodos de cheias, a variedade de espécies de árvores aumenta, estimando-se ser superior a 30, contra as 15 encontradas na região de Curitiba. A partir do município de Porto Vitória, cerca de 240 km de Curitiba, tem inicio uma nova série de cachoeiras, das quais se destacavam cinco entre Porto Amazonas e Capitão Leônidas Marques, já na divisa do Parque Nacional do Iguaçu, todas aproveitadas para a geração hidrelétrica. Essas hidrelétricas, Foz do Areia, Segredo e Salto Caxias da COPEL e Salto Santiago (Figura 40) e Salto Osório, da Tractebel Energia, geram 6.644 megawatts, que atendem 6,54% da produção de energia elétrica do país. Uma sexta (UHE Baixo Iguaçu) está em execução nos municípios de Capitão Leônidas Marques, Nova Prata, Planalto e Realeza. Ainda que o rio Iguaçu apresente melhorias em sua qualidade à medida que avança pelas áreas rurais à sua foz, cada afluente que recebe aporta nova carga de poluição. A figura 39 retrata o rio Irco, que nasce no Parque Municipal das Araucárias, onde está o Museu Entomológico Hipólito Schneider, e atravessa a cidade de Guarapuava, onde a influência urbana o degrada profundamente. Medições feitas neste Projeto constatarem que a taxa de Oxigênio Dissolvido nas cabeceiras do rio eram excelen- Fig. 37 Espumas industriais remanescentes, próximo a Porto Amazonas, a 70 km de Curitiba A partir de Balsa Nova se constatou que o Iguaçu assume um aspecto bem melhor. A água se apresenta mais limpa, apesar de apresentar ainda, nas corredeiras e cachoeiras de Porto Amazonas, bastante espuma dos detergentes não biologicamente metabolizados (Fig 38), e a mata ciliar se apresentar mais bem preservada. O rio tem trechos com uma profundidade superior a 5 metros e a largura do rio já chega aos 80 metros. Não há mais o odor forte e as corredeiras ajudam a melhorar as condições de oxigenação das águas, o que favorece a biodegradação da matéria orgânica. Entre as corredeiras ocorre a extração de areia, do leito ou das margens. As con- Fig. 38. Rio Iguaçu em Porto Amazonas: ponto de pesca 40 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná tes, da ordem de 7,13 mg/L, qualidade esta perdida poucos quilômetros abaixo: em frente ao emissário da SANEPAR a taxa de OD era de 4,85 mg/L, inferior, portanto, ao valor mínimo estabelecida no legislação, que é de 5,0 mg/L. A baixa quantidade de OD indica, em geral, elevada Demanda Bioquímica de Oxigênio, que é um indicador de elevada poluição orgânica, logo, baixa qualidade das águas. preendem especiações, a saber, são espécies próprias de cada trecho e há evidências de que nunca houve migrações significativas ao longo do rio. As figuras 41 e 42 apresentam os resultados de medições feitas em Cascavel e Maringá, em rios urbanos, comprovando que as áreas urbanas contribuem inequivocamente para a degradação dos rios paranaenses. entrada saída cidade Rio Irco (Guarapuava) Nascente Rio Irco (Guarapuava) Após passagem pela cidade od = 7,13 mg/l od = 4,85 mg/l Fig. 39. Comparação entre dois pontos das águas do rio Irco, em Guarapuava, avaliados pelo Oxigênio Dissolvido Estes afluentes encontram o rio Iguaçu represado, no sistema de escadas que se estende por mais de metade do percurso do rio. Das Usinas Hidrelétricas antes citadas, a primeira, de Foz do Areia, é a que recebe os impactos das cheias que ocorrem das nascentes do Iguaçu até União da Vitória. Essa usina, então, assume um papel de regulador da vazão do Iguaçu a partir desta barragem. A qualidade das águas, neste ponto, já está regularizada e será a mesma até a foz, no rio Paraná, variando somente em termos de temperatura e taxas de oxigenação, em função da operação dos reservatórios e corredeiras remanescentes entre as represas. Em termos ecológicos o rio Iguaçu é classificado como rio oligotrófico, ou seja, tem características naturais de baixa carga proteica, que o tornam pobre em variedade e quantidades de peixes, tanto pelo tipo de leito do rio, como pelos obstáculos naturais que impediram, desde as Cataratas, a subida dos peixes, mesmo para a reprodução. Assim, em cada reservatório e trecho de rio ainda existente, as espécies de peixes ocorrentes com- Cidade e Campo Disputando Águas Essenciais Não se poderia encerrar estas considerações sem inserir um pequeno comentário sobre o que está ocorrendo em muitos lugares do mundo, onde a escassez da água, seja por estios, seja pela contaminação, está criando situações absurdas. É o que relata o cientista ambiental Lester Brown, no recém lançado livro Plano B 4.0, quando relata que “além de sofrer com diminuição do suprimento de água, fazendeiros em todo o mundo estão recebendo uma parcela cada vez menor desse insumo declinante. Ao mesmo tempo em que a tensão entre países pela água tem grande probabilidade de chegar às manchetes dos jornais, a disputa interna pelo recurso entre as cidades e o campo é o que mais preocupa os líderes políticos”. Brown continua citando que diante das necessidades de grandes volumes de água para a produção agrí- Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 41 Fig. 40. Usina Hidrelétrica de Salto Santiago cola, as pressões econômicas pelo uso da água não favorecem os fazendeiros. Exemplificando, ele cita que enquanto são necessárias 14 toneladas de água para produzir uma tonelada de aço, que vale US$ 850, se necessita de 1.000 toneladas de água para produzir uma tonelada de trigo, valendo US$ 200. Nos países onde ocorre a expansão da economia e criação de novos empregos, o setor da agricultura se torna um competidor mais fraco. Lester Brown continua, afirmando que “muitas das grandes cidades do mundo, como Los Angeles, Cairo e Nova Deli, só poderão aumentar seu consumo de água se a desviarem da agricultura. Essa competição urbano-rural pela água subterrânea está se intensificando em toda a Índia”. Citando o que ocorre na cidade de Chennai (antiga Madras), onde vivem mais de sete milhões de habitantes, dada à incapacidade do governo em fornecer água para a população, uma próspera indústria de caminhõespipa surgiu para comprar água dos fazendeiros e transportá-la até os sedentos moradores urbanos.13 Ironicamente, os fazendeiros que possuem águas notaram que o preço de venda desta compensa mais do que o valor das safras. Assim, 13.000 caminhões carregam as águas para Chennai, drenando preciosos reservatórios de água subterrânea, baixando uns e secando outros, pondo em ameaça alimentos e subsistência. das comunidades Lester também relata que fazendeiros chineses das margens do Rio Juma, descobriram em 2004 que o rio parou de correr de repente, por causa de uma barragem que desviou a água para a Petroquímica Yansham, uma indústria estatal. Mesmo protestando energicamente perderam a batalha e para os 120.000 agricultores que vivem rio abaixo, a perda 13 da água pode ter significado o fim de sua possibilidade de ganhar a vida na agricultura. Nas Grandes Planícies americanas mais águas são desviadas da agricultura, para as crescente necessidade das cidades. A revista The Water Strategist da Califórnia dedica diversas páginas sobre vendas de água realizadas no oeste dos Estados Unidos. O Estado do Cobrado é o que tem um dos mercados de água mais ativos do mundo. Para atender seu alto fluxo imigratório, com cidades e vilas em crescimento rápido, agricultores e pecuaristas passaram a vender direitos de água. Na bacia do alto Rio Arkansas, já foram vendidos os direitos de água de um terço de todas as terras agrícolas locais. Mas de todos os casos, chama mais a atenção a aquisição feita por San Diego, Califórnia: em 2003 foram comprados os direitos anuais de 247 milhões de toneladas (247 mil metros cúbicos) de água no vizinho Vale Imperial - a maior transferência de água da agricultura para uma cidade na história dos Estados Unidos, num acordo válido por 75 anos. Aqueles agricultores estão perdendo a guerra da água. Por expropriação pelo governo, pela atratividade dos altos preços, ou porque, economicamente mais poderosas, as cidades perfuram poços mais profundos, as áreas rurais de vastas regiões do mundo vem sendo privadas deste fator essencial à produção agrária. Note-se, por outro lado, que há maneiras de exportar água sem que seja da forma explicita: como são necessários em torno de 1.000 toneladas de água para produzir uma tonelada de grãos, ao importar grãos a nação compradora indiretamente está importar água, o que vem sendo percebido, a ponto de alguns países usarem o comércio internacional de grãos para equilibrar seus recursos hídricos. Brown, com grande percepção, prevê “de modo similar, o mercado futuro de grãos já representa um mercado futuro de água”. Está sendo cada vez mais frequente ouvir que as futuras guerras eclodirão por causa da água, cuja competição surda já parece ter começado nos mercados mundiais de grãos. Vencerão os países com produção sustentável de grãos, ao atender países com boa situação financeira. Assim, identificar os países com atual déficit hídrico, pode ser uma informação privilegiada para se preparar o mercado visando ao suprimento futuro de alimentos. Será esse o caso da China e Índia, cada um com mais de um bilhão de habitantes e crescente déficit hídrico? Em que momento a escassez de água se transformará, lá, em escassez de alimentos? Corresponde, para tanto, proteger muito bem nossos rios e mananciais. BROWN, L. Plano B 4.0 Mobilização Para Salvar a Civilização. Revisto e Ampliado. São Paulo : New Content Ed & Prod. Ltda. 2009. 423p. 42 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Situação ambiental da águas e local od................... 6,75 pH................... 4,9 Temp............... 21,3º C IVH.................. 9,46 IIA................... 4 Figura 41: Arroio em Cascavel, Águas aparentemente limpas,mas com poluição fecal Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 43 Situação ambiental da águas e local od................... 6,20 pH................... 6,5 Temp............... 20,5º C IVH.................. 8,15 IIA................... 23 Figura 42: Arroio em Maringá, ainda na cidade as águas apresentam evidencias de poluição industrial 44 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná 3.4. Uso e proteção dos solos no Campo e Cidade A Proteção dos Solos (e Águas) pelos Agricultores As técnicas culturais usadas na agricultura possuem objetivos muito claros: eliminação da vegetação e insetos concorrentes à produção, e obtenção de condições favoráveis para a germinação, crescimento e produção de grãos, tudo isso preservando a capacidade produtiva do solo. A disseminação das técnicas de cultivos evoluíram rapidamente no Paraná, ainda que persistam rincões resistentes, na maioria das vezes por lhes faltar conhecimento e condições econômicas para aplicar as novas tecnologias. As técnicas mais avançadas indicam para a maior produtividade e uso intensivo do solo, preservando-lhe sempre, suas condições produtivas. Procedimentos tradicionais de preparo do solo com arado e grade niveladora foram substituídos pelas técnicas de plantio direto; na preparação dos solos já é comum, no Paraná, o terraceamento que reduz a erosão superficial. Este trabalho é executado juntamente com a adequação das estradas rurais e se observa nas extensas regiões com maior eficiência agrária, técnicas de cobertura do solo e rotação de culturas, parte do método de plantio direto na palha. Disseminam-se também os abastecedores comunitários, que facilitam o suprimento de água aos implementos agrícolas sem que ocorra a poluição das águas dos córregos e aqüíferos subterrâneos. O resultado disso, aliado à grande produtividade, é a preservação das condições produtivas e ambientais salutares: solos produtivos e águas em boas condições, ainda quando a extensão das matas ciliares não observa a largura empiricamente definida pela legislação. Não que esta deva ser negligenciada. As matas ciliares cumprem importante papel na preservação de outros benefícios ambientais, como os de regular o ciclo das águas (preservando as nascentes) e manter sua qualidade (matas ciliares impedem, inclusive, que ao se aplicarem os defensivos agrícolas estes alcancem diretamente as águas), abrigar a diversidade faunística (parte da qual contribui no combate às pragas agrícolas), bem como atenuação de rigores climáticos e seus efeitos (secas e cheias). Reações contrárias às matas ciliares decorrem da falta de percepção de alguns agricultores sobre esses valores ambientais. Diferenciam-se, no Paraná, três principais tipos de solos, aos quais as práticas agrícolas devem se ajustar: os solos de origem basáltica e os de origem sedimentar, destacando-se o do Arenito Caiuá. Nos solos de origem basáltica, argilosos que apresentam boa profundidade, boa fertilidade natural, fácil mecanização e relevo plano ou ondulado (1 a 20% de declividade), por serem intensamente cultivados, as atenções conservacionistas precisam focadas nas questões de compactação, problemas de erosão, perda de fertilidade e, conseqüentemente, diminuição da produtividade, da qualidade da produção e renda. Os solos do Arenito de Caiuá, que se estendem por 107 municípios paranaenses, que somam 3,2 milhões de hectares, a saber, 16% da área total do Estado, possuem alta susceptibilidade à erosão, baixa retenção de água e deficiências de fertilidade. Sua textura arenosa, associada à ocorrência de altas temperaturas, leva à excessiva e rápida mineralização da matéria orgânica. O terceiro grupo dos solos, também de origem sedimentar, sem as características criticas dos do Arenito de Caiuá, não são muito profundos, apresentam dificuldades na infiltração de água, têm baixa fertilidade natural e, em certas áreas a mecanização é difícil, por conta de relevos mais acentuados (com declividades médias de 10 a 30%). O uso e o manejo inadequado desses solos os tornam compactados, com problemas de erosão e de perda de fertilidade o que afeta sua produtividade e possibilidades de renda. Note-se que para cada característica de solo, que está freqüentemente associado a uma tipologia climática, existem diferentes técnicas agrárias e de intensidade do uso do solo. Ademais, há associado aos tipos de solos há vocações do seu uso, ditadas, preliminarmente pela orografia: terras planas, agricultura, as onduladas para pecuária, e acentuadas para florestas, todas entremeadas com vegetação protetora, seja de margens de cursos de água ou de topos de morros. Muitas cidades do Paraná ainda sofrem problemas de razoável severidade devido aos descuidos na aplicação de medidas adequadas de conservação dos solos nas obras urbanas. Ainda se pode observar o solapamento do pavimento de ruas e calçadas pela erosão sublaminar, ou sulcos persistentes decorrentes de obras de arte de estradas rurais e mesmo ocorrência de vossorocas que causam sérios problemas em ruas e espaços urbanos. Estes problemas já foram mais sérios, contudo ainda persistem em muitas localidades. Outros usos inadequados, dos solos urbanos e conseqüências destes, são mostrados na fig. 43. Ganhos na Fixação do Carbono O cultivo adequado desses solos preserva um potencial inimaginável para a fixação de Carbono atmosférico, que é o principal gás de efeito estufa. Em matéria da “Folha de São Paulo” se divulgou o parecer do pesquisador indiano Rattan Lal, especialista da Universidade Estadual de Ohio, EUA, em questões de mudanças climáticas, reconhecido pelas suas pesquisas que demonstraram uma forte relação entre solos degradados e emissão de gases do efeito estufa para a atmosfera. Ali se destacou que “a agricultura brasileira tem um grande potencial para sequestrar carbono no Cerrado e na região Sul do Brasil. Em um ano, é possível retirar da atmosfera 110 milhões de toneladas do principal gás responsável pelo efeito estufa, sendo 50 milhões de toneladas retidas no solo e 60 milhões de toneladas com o controle da erosão”. Aquele pesquisador afirmou também que “as atividades agrícolas representam hoje 25% das emissões globais de carbono”, mas que ao se aplicar técnicas como a do plantio direto na palha, ocorre o “aumento da matéria orgânica melhora a qualidade do solo, reduz o risco de Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 45 contaminação da água e diminui a emissão de gases para a atmosfera”, fenômeno que, segundo o indiano, dependem de se melhorar a metodologia de medição deste ganho, para que o Brasil possa entrar no mercado internacional de venda de carbono desta origem. Na entrevista ao jornal, Laj afirma que “o seqüestro terrestre de carbono é o que traz mais retorno com menos investimento” e que no Banco Mundial existe um fundo de US$ 100 milhões, independente do Protocolo de Kyoto, para financiar projetos de até US$ 2 milhões A esse potencial se deve agregar a capacidade das florestas em reduzir o efeito de albedo (refletância das ondas térmicas e luminosas do sol), porque, possuindo folhas escuras, absorvem essas ondas, diferentemente de alguns cultivos que possuem folhas claras, mesmo que em parte de seu desenvolvimento, que contribuem no aumento do efeito albedo. Ao absorver via fotossíntese, as ondas termais e luminosas, vegetação retira da atmosfera o Carbono, usado na elaboração da biomassa, percebida nos tecidos vegetais e sementes, contribuindo assim para a redução do fator que intensifica as indesejáveis mudanças climáticas. Já nas áreas urbanas e industriais esse fenômeno de absorção das ondas termais e luminosas, e do Carbono, são reduzidos ao mínimo, o que potencializa as conseqüências percebidas nas mudanças climáticas. Outros detalhes sobre os efeitos das mudanças climáticas serão tratados no Capítulo das emissões atmosféricas. 46 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 47 Contaminação por lixões Impermiabilização e recobrimento Ocupação de encostas e áreas vulneráveis Geração e acúmulo de resíduos difusos Redução das recargas dos aquiferos Perda da camada orgânica sem proteção Redução da biodiversidade (flora e fauna) Erosão sem proteção Perdas por sobre-uso e má conservação sem proteção sem proteção Compactação dos solos Figura 43: Comparativo dos impactos sobre os Solos na Cidade e no Campo. Os impactos no campo podem ser previnidos, ao contrário de muitos dos das cidades Redes viárias ambientalmente inadequadas Focos de erosão Influência de matas protetoras Compagtação dos solos As Matas Ciliares e as Reservas Legais Já se comentou o que a legislação estabelece sobre as matas ciliares e reservas legais, em termos de dimensões e localização, ditadas empiricamente para todas as zonas rurais de todo o território nacional, as primeiras baseadas na largura dos rios e lagoas, as segundas em função de sua geografia. A legislação prevê que nas zonas urbanas os critérios seriam os mesmo aplicados ás zonas rurais, o que na prática não ocorre. As matas ciliares urbanas se confundem com as áreas não edificantes e raramente estão revestidas com vegetação protetora. Fig. 44. Reservas Legais isoladas trazem pequeno ganho ecológico Nestas, são inúmeros os casos de ocupações, que ademais de irregulares, geram riscos aos seus habitantes, tanto os de saúde, pela insalubridade do local, como de sofrer nos episódios das cheias. Além destes riscos às pessoas, as habitações também causam ameaças à luz do curso d’água, cujo estrangulamento é causa de agravamentos de inundações nas grandes chuvas. A legislação ambiental européia não prevê a existência das reservas legais e florestas de preservação permanente. Não obstante, rios são mantidos impressionantemente limpos, os cultivos agrícolas são executados a centenas de anos e há fauna nativa em volumes significativos. A legislação brasileira, os resultados comprovam, não basta para se obter os resultados que se esperavam. Falta incorporar, com esta, a compreensão dos valores implícitos nesta para a sustentabilidade econômica e ambiental nos meios rurais e urbanos. Como se viu, não se prevê para os imóveis urbanos a designação de parcelas dos imóveis como Reserva Legal. Nos imóveis que as mantiveram é comum observar-se capões isolados sem conexões com outras formações protetoras, logo, não cumprindo nenhuma função ambiental expressiva, porque plantas e animais que ali ficaram isolados poderão estar em processos naturais de erosão genética, por cruzamentos consangüíneos (Fig. 45 e 46). Não obstante, esses capões estabelecem restrições aos demais usos dos solos. A legislação permite que as reservas legais venham a serem constituídas em outros imóveis do mesmo bioma. Assim, estas áreas deveriam ser objeto de estudo e incentivo para que venham a cumprir a plenitude dos objetivos a que se destinaram, seja através do estabelecimento de conexões com as matas ciliares contínuas, ou, depois de um adequado resgate de seus valores biológicos, sua supressão, designando-se outra área em condições ambientalmente melhores, nos termos da legislação paranaense. Às matas ciliares cabem estudos de verificação de sua adequada extensão. Esta adequação não deveria ser empírica, como determina a legislação em função da largura do curso d’água, mas deveria ser definida em função da orografia e tipologia de solos, fatores que determinam uma maior ou menor vulnerabilidade à erosão e à necessidade de se preservar áreas de feições primitivas. Ainda que essa classificação possa parecer inviável, graças às diferentes situações nacionais, algo parecido ao que já é observado no enquadramento das águas nacionais segundo sua qualidade: todos os rios, na medida em que a qualidade das águas é conhecida são enquadrados. Enquanto não for definido seu enquadramento, um dado rio pertence automaticamente à Classe 2 da Resolução CONAMA. Informações divulgadas na imprensa dão conta que os critérios para o estabelecimento e manutenção das florestas protetoras cobrados de particulares são timidamente aplicados pelo próprio governo, em seus projetos de reforma agrária. Para se adequar ao que determinam as leis ambientais, os 285 assentamentos localizados no Estado, que ocupam 358 mil hectares, terão de cuidar de 71 mil hectares de matas nativas. Dessas o INCRA conseguiu identificar 64 mil hectares que podem ser destinados à reserva legal e ainda faltam 7 mil hectares para cumprir o que a lei exige. Fig. 45. Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente continuas exercem plenas funções ecológicas Uma situação constatada em Laranjeiras do Sul merece ser acompanhada: quando as 74 famílias de pequenos agricultores estabeleceram, através do INCRA, o Assentamento 8 de Junho, em 2001, as áreas destinadas às matas ciliares tinham sido demarcadas. Agora aqueles assentados reclamam do governo uma compensação pela parte de seus lotes que devem ceder para a formação da reserva legal. Este benefício, se estendido àqueles agricultores, não deveria, por princípio 48 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Fig. 46 Ação fiscal do Estado em cortes de Araucárias de isonomia, se estender a todos os proprietários rurais do Estado? Não deveria, pelo mesmo princípio, constitui-se em uma forma de indenização aos que a preservaram? Desde sua criação o INCRA considerou as áreas florestais nativas dos imóveis como improdutivas, logo aptas para os interesses da reforma agrária. Com isso, as terras definidas para os assentamentos que apresentassem remanescentes florestais tinham que ser inteiramente desmatadas para que passasse a entendê-las como produtivas. Esta mentalidade perdurou até 2003, quando o Ministério do Desenvolvimento Agrário implantou, nos novos projetos, uma dimensão ambiental, onde as florestas de preservação permanente e de reserva legal passaram a ser previstas, e se anunciou que não mais desapropriaria imóveis com parcelas da Mata Atlântica. Questiona-se: se isso fosse cumprido à risca, este preceito legal não impediria o INCRA a desapropriar mais nenhuma área no Estado, porque, com exceção das áreas de campos nativos, todas as demais estão enquadradas no Decreto 750/93, como Mata Atlântica? Não somente isso, mas o INCRA teria passado a exigir na desapropriação ou na compra, que o imóvel em negociação não tenha passivos ambientais e que já tivesse averbada a reserva legal. Existem poucos incentivos legais para que as matas ciliares sejam implantadas, se não existirem, e preservadas. Um desses incentivos foi estabelecido pela Lei paranaense nº 9.491/90, que destinou recursos para Prefeituras em cujo município existem mananciais usados para o abastecimento público, bem como se implantou e vem sendo preservadas Unidades de Conservação. Na prática esta Lei aumenta a participação do município no volume dos recursos do ICMS Ecológico na medida em que se observarem melhorias ambientais. Também prevê a possibilidade de que recursos recebidos em virtude da existência de Reservas Particulares do Patrimônio Natural – RPPNs, cheguem em parte, aos proprietários dessas Unidades de Conservação. Estes incentivos se baseiam na definição do valor do imposto a ser disponibilizado ao município, baseado nos dois critérios citados: áreas protegidas e mananciais de abastecimento, possuindo cada um 2,5%, que inteiram 5% do critério ecológico previsto em lei. No Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação realizado em Curitiba, em 2009, o Instituto Ambiental do Paraná informou que já foram repassados R$ 487 milhões para 133 municípios paranaenses em reconhecimento pela atuação na proteção de mananciais. Tais recursos, não obstante, não carreiam a obrigação de serem aplicados no aumento das áreas protegidas. Há divulgação desta iniciativa paranaense, de incentivo através do ICMS Ecológico, que já foi implantada em 18 estados brasileiros. Associado a esse programa, um projeto do atual governo do Paraná, chamado Programa Mata Ciliar foi implantado em 2003, com recursos para reestruturar 300 viveiros florestais do IAP, Prefeituras e outras instituições, para produzir e disseminar mudas destinadas a matas ciliares. Em trabalho com EMATER e IAP, apoiados por corporação policial, a chamada Força Verde, os agricultores foram chamados a recompor, com plantio florestal ou pelo menos abandono do uso agrário, a área destinada à mata ciliar. Relatórios do governo informam que já se conseguiu o abandono para a regeneração natural de cerca de 18 mil hectares em corredores de 30m de cada lado dos rios. A Tabela 04 reproduz os dados informados pelo governo, de outubro de 2009 Tabela 06: Efeitos do Programa Mata Ciliar Atividade Resultados Semeadura no Campo 30.122,67 ha Plantio de Mudas. Construção de Cercas Em regeneração natural Beneficiados 100 527.048 4.982,91 Km 17.488,44 ha 132.649 pessoas Fonte: IAP PR Outra informação dada pelo IAP destaca que a Bacia do Iguaçu foi a que mais recebeu mudas destinadas às matas ciliares, num total, até outubro de 2009, de 26.061 mil espécimes, seguido pela bacia do Ivaí, com cerca de 17.500 mil mudas.A mesma fonte informa uma taxa de perdas da ordem de 45%, obtidas por vistorias em 58 áreas plantadas. Considerando que a bacia tem 72.637,5km2, estariam crescendo cerca de 200 mudas por quilometro quadrado, indicando que ainda há um longo trabalho a ser feito nesta bacia. Complementando as informações do governo do Estado, o total de mudas que teria sido plantado permitirá, em 20 anos, a fixação de um volume da ordem de 1,5 milhões de toneladas de CO2. Para forçar os proprietários rurais a manter as formações ciliares e a preservar espécies nativas, uma das providencias administrativas do governo estadual foi tomada através de Decreto Estadual nº. 4.426 de 17 de março de 2009, onde estabeleceu que as “infrações administrativas contra as espécies da flora ameaçadas de extinção e, constantes da lista oficial do Governo Federal, serão autuadas mediante a lavratura de auto de infração com critérios de valoração das multas” determinando que o valor da “multa terá por base o ano (idade) da espécime ou o seu diâmetro (DAP), sendo de R$ 10.000,00 (dez mil reais) por ano (idade) e o mesmo valor por cada 10 cm de DAP”. Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 49 Unidades de Conservação Para se preservar áreas naturais contra qualquer tipo de intervenção humana, ou outras com intervenções humanas restritas a atividades que não descaracterizam o patrimônio natural contido em determinado território, a legislação brasileira – à semelhança da legislação de todos os países, com ajustes nacionais – criou a figura de Unidades de Conservação - UCs. Por força conceitual, todos os ecossistemas de um país deveriam possuir amostras de seu estado primitivo, guardadas em Unidades de Conservação. Convenções Internacionais induziram as nações tanto à criação como à preservação destas Unidades, destacando seu valor na conservação de paisagens únicas, como as Cataratas do Iguaçu, como o de guardar para o futuro, o patrimônio genético dos ecossistemas originais. Tabela 07: UCs do Paraná Tipo Nº. de UCs Área total (ha) Jurisdição Estadual 43 291.921,10 RPPNs Federais 09 7.755,45 UC de Proteção Integral Jurisdição Federal RPPNs Estaduais 05 203 total 260 UC de Uso Sustentável 337.191,40 42.237,00 679.194,95 Jurisdição Municipal 110 287,652,20 Jurisdição Federal 06 2.301.948,78 Jurisdição Estadual Totais 23 total 139 399 906.672,61 3.208.621,39 3.887.816,33 Fontes: IAP e IBAMA Assim, chamam-se Unidades de Conservação - UC às áreas especialmente protegidas, devidamente designadas por ato do Poder Público. As Unidades de Conservação devem ser reconhecidas no Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC. Esse Sistema as identifica em dois grupos principais: as UC de Proteção Integral, onde não são admitidos quaisquer usos privados, em especial os de exploração econômica. Sua expressão máxima, no Paraná, é o Parque Nacional do Iguaçu, de jurisdição federal, administrado através do Instituto Chico Mendes. Neste grupo estão outros tipos de UC, tais como as Reservas e Estações Ecológicas, os Monumentos Naturais, outros Parques Nacionais e Estaduais e Refúgios de Vida Silvestre, estes não criados, ainda, no Paraná. No segundo grupo estão as Unidades de Uso Sustentado, onde se admite a presença antrópica, com restrições que visam a perpetuar seus recursos naturais. Destaca-se, no Paraná, como a de maior extensão, a Área de Proteção Ambiental – APA Estadual da Escarpa Devoniana, nos Campos Gerais, que envolve 392.363,38 hectares. Este grupo compreende as demais APAs, as Florestas Nacionais e Estaduais, as Áreas de Relevante Interesse Ecológico, todas da esfera governamental, e as Reservas Particulares do Patrimônio Natural - RPPN, de caráter privado. A legislação admite ainda neste grupo, outros tipos de Unidades de Conservação não criadas no Paraná, as Reservas Extrativistas, Reservas de Fauna e Reservas de Desenvolvimento Sustentável. Ainda que não previstas na legislação federal, no Paraná se incluíram neste grupo as AEIT - Áreas de Especial Interesse Turístico, as Reservas Florestais e Hortos Florestais, segundo constam nas listas divulgadas pelo IAP. Deveriam ser incluídos, por conceito, no grupo das UC de Proteção Integral, os Parques Municipais. Como, porém, não se reconhece nenhum que esteja dedicado à proteção integral dos recursos naturais, mas se caracterizem como grandes áreas de lazer públicas, não raro situados em áreas recuperadas ou urbanizadas, estes devem ser considerados no grupo do Uso Sustentável. Atualmente existem 399 Unidades de Conservação no Estado do Paraná, totalizando 3.887.816,33 ha de áreas protegidas. São administradas sob jurisdição Federal, Estadual e Municipal e reconhecidas no Sistema Nacional de Unidades de Conservação. A Tabela 05 relaciona essas UC de acordo com sua tipologia, número de Unidades e jurisdição. Determina a legislação que as Unidades de Conservação exceto Áreas de Proteção Ambiental e Reservas Particulares do Patrimônio Natural, devem possuir uma zona de amortecimento e, quando conveniente, corredores ecológicos. Este postulado legal implica em que os proprietários rurais devem considerar, em um raio de 10km do entorno das UC, que á área se encontra em zona de amortecimento, e que seus projetos que possam gerar impactos ambientais serão mais cuidadosamente analisados nas solicitações de licenciamento. Finalmente, a existência de Unidades de Conservação é necessária e conveniente à proteção do patrimônio natural e não substitui os esforços privados complementares, em sua escala de participação. Figura 47. Parque Nacional do Iguaçu: Rio Iguaçu despoluído pela Natureza 50 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná 4. A Contaminação do Ar na Cidade e no Campo 4.1. Os gases de efeito estufa C hamase de efeito estufa aos resultados da absorção, pela na camada atmosfera, da irradiação térmica e luminosa refletida da superfície da terra. Esses resultados se manifestam na forma de mudança climática, logo, tem alta importância à produção agrária, que tanto pode ser beneficiada como prejudicada pelas novas condições ambientais. A absorção citada ocorre normalmente e garante as condições essências da vida no Planeta. Não obstante o aumento dos volume de gases que provocam esse efeito tende a gerar condições climáticas imprevisíveis, logo potencialmente negativas. Devem, assim, ter sua emissão prevenida, e depois de emitidos, devem ser capturados. Os principais gases estufa são o gás carbônico (CO2), metano (CH4), clorofluorcarbonos (CFCs), óxido nitroso (NO2) e ozônio (O3). Já se comentou anteriormente que a agricultura paranaense reduz o efeito estufa pela simples razão de existir, ou seja, o crescimento natural das plantas e contínuo processar a fotossíntese retira da atmosfera o dióxido de carbono, retém o Carbono e devolve o Oxigênio à atmosfera. Isso atenua o volume de CO2 de forma mais intensa do que ocorreria se, em lugar da plantas em crescimento, houvesse uma floresta estabilizada. Dados do DENATRAN do Paraná informam que em 2008 circularam no Estado 4.171.615 veículos, que em Setembro corrente (2009) já alcançaram a cifra dos 4.450.000. Daqueles, 2.663.252 eram a gasolina, e/ou a álcool (automóveis), que são os grandes vilões por conta das emissões de CO2 (46% e 12%, respectivamente) e 606.258 a diesel (caminhões, ônibus e tratores), que geram 23% de CO2. Os demais 902.105 são motocicletas (gasolina), responsáveis por emitir 15% de CO2, e os restantes, motores estacionários. Será certamente interessante, a partir desses dados, calcularse em seu conjunto, o que estes veículos geram de emissões equivalentes de dióxido de Carbono por ano, que é dispersa na atmosfera e contribui para as mudanças climáticas. Outro índice é a produção individual das pessoas, em suas atividades rotineiras, deste gás de efeito estufa. A soma destes dados já daria para, acrescendo o volume de emissões industriais, mais fácil de determinar por conta dos cadastros dos órgãos concedentes, se avaliar o volume de emissões de dióxido de carbono é emitido nas zonas urbanas e periferias industriais do Estado. Não se pode olvidar as emissões de metano, que é 21 vezes mais importante que o dióxido de Carbono na formação do efeito estufa – produzidos nas indústrias e modais de transporte, cujos montantes não seria prudente estimar sem se fazer estudos mais aprofundados. Estes demandariam trabalhos não previsto neste estudo. Porém não é somente na área urbana, ou por influência antrópica direta, que surgem – ou sobram – gases de efeito estufa. Determinadas práticas agrícolas e animais, em especial o gado vacuno, são responsáveis por parcela importante de gases de efeito estufa, bem como as queimadas e os movimentos de preparação agrícola do solo, são responsáveis por emissões de gases de efeito estufa, no caso, de metano. Estudos realizados por Santi et al, 2007, da EMBRAPA Trigo14, constataram que as mudanças climáticas decorrem da incapacidade dos ecossistemas naturais absorverem todo gás carbônico e outros, gerados pelas interferências antrópicas. As ações do homem sobre o ambiente são apontadas como a principal causa do desequilíbrio provocado nos fluxos de matéria e de energia ocorrentes no planeta. Dentre as ações, o tipo de manejo dispensado ao solo e às culturas pode representar a diferença entre contribuir ou não para a elevação do efeito estufa no planeta. Assim, o emprego de sistemas de manejo de solo no âmbito do plantio direto, tem se destacado entre outros benefícios pelo potencial de seqüestro de carbono no próprio solo. Notase, então, que o papel do solo à retenção ou fixação do Carbono é muito importante. O solo é mesmo considerado o principal reservatório temporário de Carbono no ecossistema15. Ele contém 4,5 vezes mais carbono, em média, do que a biota, e 3,3 vezes mais do que a atmosfera16. SANTI, A. DALMAGO, G.A. & DENARDIN, J.E., Po-tencial de Seqüestro de Carbono pela Agricultura Brasileira e a Mitigação do Efeito Estufa. Brasília ; Embrapa Doc OnLine 78, ISSN 1518-6512, dez 2007. 14 Bruce et al., 1999 apud SANTI, A. DALMAGO, G.A. & DENARDIN, J.E., Potencial de Seqüestro de Carbono pela Agricultura Brasileira e a Mitigação do Efeito Estufa. Brasília ; Embrapa Doc OnLine 78, ISSN 1518-6512, dez 2007., 15 Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 51 Ora, com tais valores de estoque de Carbono tornase evidente que a preservação desse reservatório é muito importante no equilíbrio da concentração do CO2 atmosférico. Por outro lado, a pesquisa mostrou que a manutenção do estoque de Carbono no solo cultivado depende do tipo de manejo do solo e das culturas. Este afeta a qualidade dos recursos hídricos da bacia hidrográfica do ecossistema envolvido. Aquele autor citou que a transformação de ecossistemas naturais em áreas agrícolas implica em perdas superiores a 60% dos estoques de matéria orgânica em solos temperados, ou superar 75% dos estoques primitivos em solos tropicais, o que implica na emissão de significativo volume de gás carbônico para a atmosfera17. São escassas as pesquisas brasileiras sobre a contribuição da agricultura na emissão ou retenção de gás carbônico. Estimativas demonstram uma emissão líquida anual de 46,4 milhões de toneladas no período de 19751995, e uma mitigação, por adoção de plantio direto alcançou 33 milhões ton. de gás carbônico/ano, no período18. Os estudos, feitos por regiões brasileiras, concluíram que no Sul e Sudeste do País, onde há cultivos utilizando sistemas de plantio direto, houve seqüestro líquido de 6,5 milhões de ton/ano de gás carbônico. Nas regiões Norte, Nordeste e CentroOeste, ao contrário emitiram, por decorrência das práticas agrárias tradicionais, mais que 52 milhões ton/ano no mesmo período19. O estudo prossegue recomendando atenções à riqueza orgânica do solo, que não somente redunda em maior produtividade, mas também contribui para a melhoria das condições atmosféricas globais. Aquele autor argumentou ainda que os ganhos de sequestro de Carbono seriam incrementados se os cultivos também se destinassem à produção de biocombustíveis. A par de sistemas que capturam e retém os gases de efeito estufa, há culturas emissoras desses gases, como é o caso da pecuária. Em criações a campo esses gases são atenuados pela diluição atmosférica. Em sistemas confinados, os gases da decomposição do esterco podem e tem sido retidos e aproveitados para vários fins energéticos, inclusive percebendo recursos da linha dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo MDL. Consta que só no Paraná existam 350 mil pequenos e médios estabelecimentos dedicados à suinocultura, que podem agregar renda com esse potencial energético. Na busca de volume de produção, começam a ser testados os condomínios de produtores de energia a partir do biogás. Uma das idéias é construir gasodutos de pequeno porte para fazer a interligação entre as propriedades, até uma única unidade geradora de energia elétrica. De acordo com o recente relatório da Comissão Inter- ministerial de Mudança Global do Clima do Brasil, a captura do metano em atividades de suinocultura já representa 15% do número de projetos brasileiros de MDL, à frente dos aterros sanitários, que somam 9%. Já em fazendas de gado, como a StarMilch, de Céu Azul, que captura o metano produzido por 80 toneladas diárias de estrume, das 400 vacas em lactação da propriedade, o projeto não pode ser ainda enquadrado para venda de créditos de carbono como MDL, porque não há metodologia validada para determinação da emissão de Carbono prevenido, tal como ocorre para usinas de canadeaçúcar e granjas de suínos. Na citada fazenda o destino dos dejetos é a compostagem, empregada para adubar as plantações próprias de milho e soja. Parte desse material orgânico derivava para os rios da Bacia Paraná 3, que contribuem para o reservatório da Central Hidrelétrica da Itaipu Binacional. Devidamente autorizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), outras propriedades rurais além da StarMilk, foram contratadas pela SANEPAR e pela Cooperativa Lar, de Medianeira, como fornecedores de 524kW de energia até 2012. Outros projetos de geração de energia aprovados pela ANEEL correspondem à cogeração com biomassa, em volume equivalente a quase um terço da capacidade instalada de 3,5 mil MW em todo o Brasil. Este volume está próximo ao da energia gerada por hidrelétricas (36%), e é ainda pequeno diante do potencial existente com o uso do biogás para gerar energia. O gás metano (ou natural) extraído das câmaras de biogás propicia a autogeração elétrica da fazenda, e o excedente é entregue para a COPEL. Assim, o que já vinha acontecendo nas granjas de suínos, passou também a ser feito em uma fazenda de produção de leite. Observase que o gás retido foi apenas o gerado pela condução do estrume colhido na leiteria. Muito maior volume certamente ficou nos 900 hectares de pasto, onde o gado permanece durante o dia. Essa contribuição ao efeito estufa teria que ser neutralizada com sistemas de sequestro, por exemplo, através do plantio de florestas, que retém no lenho, durante os períodos de crescimento, grandes volumes de Carbono. Pesquisadores concluíram, a partir de sistemas de produção animal em estábulos, como o da Fazenda StarMilch de Céu Azul, que o Brasil poderia dispor de 12 bilhões de kWh/ ano gerados a partir do biogás, o que bastaria para abastecer uma cidade com 4,5 milhões de habitantes. Isso representa, em percentuais, o equivalente a 2,4% da oferta de energia no Brasil. Ao contrário do que acontece com a construção da barragem, pesquisadores argumentaram que o processo do Lal, 2004 apud SANTI, A. DALMAGO, G.A. & DE-NARDIN, J.E., Potencial de Seqüestro de Carbono pela Agricultura Brasileira e a Mitigação do Efeito Estufa. Brasília ; Embrapa Doc OnLine 78, ISSN 1518-6512, dez 2007. 16 17 Lal, 2004 op. cit. . Cerri et al, 2004 apud SANTI, A. DALMAGO, G.A. & DENARDIN, J.E., Potencial de Seqüestro de Carbono pela Agricultura Brasileira e a Mitigação do Efeito Estufa. Brasília ; Embrapa Doc OnLine 78, ISSN 1518-6512, dez 2007. 18 Bernoux et al., 2001, apud SANTI, A. DALMAGO, G.A. & DENARDIN, J.E., Potencial de Seqüestro de Carbo-no pela Agricultura Brasileira e a Mitigação do Efeito Estufa. Brasília ; Embrapa Doc OnLine 78, ISSN 1518-6512, dez 2007. 19 52 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná biogás tanto mitigaria impactos ambientais como seqüestraria 71,3 milhões de toneladas de CO2 por ano. A produção de biogás também pode ocorrer em aterros sanitários urbanos. Estes são freqüentemente subaproveitados, em termos do Protocolo de Quioto, que lhes autoriza ao sequestro de metano e respectiva emissão de créditos de Carbono. Há informações de cerca de mais de uma centena de aterros sanitários que poderiam se candidatar aos recursos de Kioto, mas menos de um terço investiu na opção, e destes uma minoria prevê utilizar o metano para gerar energia. São dados do Panorama dos Resíduos Sólidos do Brasil, edição 2008, elaborado pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE), que também informa que o volume de resíduos sólidos despejados nos aterros sanitários subiu de 38%, em 2007, para 54,9% em 2008, mesmo tendo se reduzido o número de municípios brasileiros com programas ativos de coleta seletiva, de 3.593 para 3.109. A segregação (ou coleta seletiva) beneficia o melhor aproveitamento dos resíduos urbanos, destinandoos para usinas de reciclagem e reaproveitamento, e atenuando os volumes de material orgânico enviado aos Aterros. A minguada ocupação florestal residual do Estado, antes descrita, se constitui um problema e uma oportunidade. Sua ausência em vastas localidades deixa de proporcionar os benefícios ou serviços ambientais que poderiam ser obtidos pelas matas. Quando se implantam novas árvores, seu crescimento demanda o Carbono para a constituição dos tecidos lenhosos, fator quer se reduz à medida que as árvores deixam de crescer. O carbono retido na massa arbórea pode ser medido (ou pesado) e com isso, se avalia quantas toneladas foram retiradas (seqüestradas) da atmosfera. Em troca, as árvores devolvem à atmosfera oxigênio limpo e puro. O volume de Carbono que as árvores retiram da atmosfera varia conforme a espécie e com o estágio de desenvolvimento do povoamento florestal. Watzlawick et al (2004) afirma, baseado em observações laboratoriais, que os teores de Carbono variam tanto de uma espécie para outra, como entre espécimes, entre uma região e outra, e mesmo em partes de uma mesma árvore. Em termos médios, os volumes de captura de Carbono pelas árvores são da ordem de 50% de Carbono, 44% de Oxigênio e 6% de Hidrogênio, além de pequenos teores de Nitrogênio e minerais (Ca, K e Mg) coletados nas cinzas, com volumes proporcionalmente insignificantes20. Tendo em conta tais valores, procedese à pesagem da biomassa e se multiplica o resultado por 0,5, para determinar o estoque de Carbono ali presente. O cálculo da retenção anual de Carbono deverá ser feito com auxílio de curvas de crescimento do povoamento florestal, através do incremento adicionado ao seu peso, num dado período. A absorção do dióxido de Carbono pela vegetação contribui para baixar o volume deste gás na atmosfera, porém o equilíbrio entre as emissões e o volume suportá- vel deste gás pelo Planeta depende da redução tanto dos volumes como da velocidade das emissões deste e de outros gases nocivos à atmosfera planetária. 4.2. A medição da qualidade do ar no Paraná A responsabilidade institucional da medição das taxas de poluição atmosférica é do Instituto Ambiental do Paraná, de acordo com a Lei Estadual nº 13.806/02, que define a política sobre a questão. Aquela legislação também atribui responsabilidades nas soluções, às fontes emissoras de gases e partículas à atmosfera, quando prevê que: “Fica estabelecido como princípio que os empreendimentos e atividades potencialmente poluidoras do ar devem adotar prioritariamente o uso de tecnologias, insumos e fontes de energia que evitem a geração de poluentes atmosféricos e, na impossibilidade prática desta condição, minimizem as emissões quando comparadas com as decorrentes de processos convencionais. Fica proibida a queima a céu aberto de resíduos sólidos, líquidos ou de outros materiais combustíveis, exceto mediante autorização prévia de órgão estadual de meio ambiente, ou em situações de emergência sanitária assim definidas pela Secretaria de Estado da Saúde ou pela Secretaria de Estado da Agricultura.” (artigos 2º, 3º e 4º). Como se observa, a lei tem aplicações urbanas e rurais afetando, nestas, especialmente as práticas agrárias que envolvem queimadas ou aplicações de defensivos agrícolas, cuja intensidade, caracterizando como poluição, nos termos da lei, poderá impor medidas de controle e monitoramento pelo órgão ambiental estadual. Na prática as medições das emissões, não são feitas nas áreas rurais, provavelmente porque, como as fumaças e pulverizações não são contínuas e são voláteis, os efeitos desaparecem antes que fiscais possam comprovar as irregularidades. Mesmo em zonas industriais de áreas urbanas tais medições são raras. Não se tem notícias que o monitoramento de parâmetros de qualidade do ar sejam feitos rotineiramente em mais que quatro municípios da Região Metropolitana de Curitiba: Araucária, Colombo, Curitiba e Almirante Tamandaré, ainda que relatórios induzam que todos os municípios da RMC estariam sendo vistoriados em sua qualidade atmosférica. Há que se mencionar a Resolução 054/06 da SEMA – Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Paraná, que WATZLAWICK, L.F., BALBINOT, R., SANQUETA, C.R., CALDEIRA, M.V.W. Teores de Carbono em Espécies da Floresta Ombrófila Mista, in Fixação de Carbono: Atualidades, Projetos e Pesquisas. Curitiba; Ed. Sanqueta, Balbinot & Zillotto, 2004. 20 Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 53 definiu critérios para o Controle da Qualidade do Ar “como um dos instrumentos básicos da gestão ambiental para proteção da saúde e bem estar da população e melhoria da qualidade de vida, com o objetivo de permitir o desenvolvimento econômico e social do Estado de forma ambientalmente segura”. Essa Resolução criou padrões de aceitabilidade de emissões de particulados, e gasosas e os métodos a serem usados para determinação de emissões, focando “fontes industriais, comerciais e de serviços”, o que vale dizer, excluídas as fontes difusas, entre as quais as emissões e retenções de contaminantes atmosféricos das áreas rurais. Ainda, essa resolução determina que as empresas cujo processo industrial gera emissões atmosféricas devem fazer um automonitoramento, apresentandoo periodicamente ao órgão ambiental. Com tais informações o IAP avalia a necessidade de alguma intervenção e, quando o faz, celebra com a indústria que viola os padrões aceitáveis, um Termo de Ajuste de Conduta, concedendo prazos para a resolução do problema. Nas referidas localidades em que o IAP faz o monitoramento direto, os dados são analisados e as conclusões apresentadas em relatórios anuais. As do último relatório disponibilizado informam que em 2008 o monitoramento foi feito em onze estações, onde seis contam com dispositivo contínuo e automático e cinco dependem de observações manuais. Apesar de seu pequeno número, o relatório informou que as estações automáticas instaladas na Cidade Industrial de Curitiba – CIC, e no Boqueirão, tiveram sua operação suspensa depois de sofrerem ações de vandalismo. No período relatado (2008), se concluiu que a qualidade do ar na Região Metropolitana, especificamente nos municípios de Araucária e Curitiba, que apresentam maior taxa de alteração atmosférica por conta do setor industrial ali instalado, é boa na maior parte do tempo para todos os parâmetros monitorados. Não obstante, há momentos em que essa avaliação indica o estado Regular, com violações pontuais aos limites estabelecidos pela Resolução CONAMA 03/90. Explicando isso com mais precisão, o conjunto de parâmetros medidos foram os teores de Fumaças, Partículas Totais em Suspensão – PTS, Partículas Inaláveis PI, Dióxido de Enxofre SO2, Monóxido de Carbono – CO, Ozônio O3 e Dióxido de Nitrogênio NO2. Em 2008, em Araucária, as emissões de fumaça, foram as que apresentaram maior alteração. No total de medições, em 94,7% das amostragens sua situação foi classificada como “boa”; em 4,9% das amostragens foi “regular”, em 1,28% das situações foi considerada “inadequada” e em 0,09% das amostragens foi classificada “má”. Nenhum outro parâmetro dos sete 21 medidos para compor a classificação apresentou caso de situação “má”, mas em cinco outros: as Partículas Totais em Suspensão – PTS e as Partículas Inaláveis – PI; ao taxa de Ozônio – O3 e os Dióxidos Nitrosos – DN, apresentaram teores “inadequados”. Um relatório do IAP21 informou que em vista da “variação da qualidade do ar ao longo dos últimos trinta anos, para os locais e parâmetros avaliados, apesar da industrialização e do aumento significativo na frota de veículos observamos que a qualidade do ar na RMC melhorou significativamente nesta década (20002008) em relação aos anos anteriores”. Esta melhora é atribuída às melhorias da qualidade dos motores dos novos veículos, à retomada do uso do álcool combustível, e à redução dos níveis de poluentes do diesel e gasolina, tudo associado à modernização no tratamento e controle da emissão de poluentes atmosféricos por fontes fixas. Este relatório faz menção das amostragens feitas em Colombo, aonde indústrias de fabricação de cal vêm lançando grandes volumes de particulados na atmosfera. A estação de monitoramento instalada naquele município foi a que apresentou maior número de violações dos padrões em toda a rede – 67% do total de violações observadas em 2008. Constatouse também que o período do ano em que ocorre o maior número de violações dos padrões é o de inverno, entre maio e setembro, quando “as condições de dispersão são desfavoráveis e costumam coincidir com a redução de chuvas”. O relatório contém informações a mais, relativas a cada um dos parâmetros medidos, que não vem ao caso explicitar. Não se localizou, naquele Instituto, relatórios de monitoramento da qualidade do ar em outras regiões do Estado, mesmo naquelas em que o número de estabelecimentos industriais (mostrados na Tabela 02) evidenciou grande concentração de estabelecimentos potencialmente poluidores. Há que se destacar que não se encontra no citado Relatório, qualquer referência às alterações atmosféricas causadas pelas emissões difusas que ocorreriam ao longo das rodovias e em estabelecimentos rurais. Esta lacuna de informações pode ser atribuída ao fato que, mesmo se reconhecendo que existam emissões, os teores de dióxido de carbono são neutralizados pela cobertura vegetal. Assim, haveria sentido em se investir em campanhas de monitoramento atmosférico sem se perceber evidências de contaminações significativas que as justificassem. Mas consta no Relatório a boa experiência da captura do metano em empreendimentos pecuários e seu aproveitamento energético, que inclui a comercialização de eletricidade com a empresa estatal de energia elétrica, sob concessão da Agencia Nacional de Energia Elétrica – ANEEL. IAP – Instituto Ambiental do Paraná. Relatório Quali-dade do Ar na Região Metropolitana de Curitiba, Ano 2008. Curitiba : IAP. 55p. 54 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Comentários finais E m termos comparativos, as zonas urbanas são fontes de degradação ambiental muito mais evidentes e graves que as zonas rurais. A Tabela 8, que encerra este estudo, demonstra este fato, que é agravado por vários fatores institucionais e legais, que contribuem para construir uma tendência cultural que desfavorece o Campo a favor da Cidade. A nocividade ambiental nas cidades se constata facilmente ao se observar os rios, que são os indicadores de qualidade ambiental primários: os rios urbanos paranaenses – e praticamente todos os rios urbanos brasileiros – apresentam evidências de grave deterioração ambiental, tantos são os efluentes líquidos e resíduos sólidos que recebem. Isso decorre de práticas e de usos do solo e das águas nas áreas urbanas, formando nítido contraste com as situações rurais. Há certamente bons usos dos solos tanto em ambientes urbanos como nos rurais. Mas a intensidade de usos faz com que nas áreas urbanas ocorram problemas com muito maior freqüência. Nos imóveis e na obras urbanas se despreza a camada orgânica que é retirada, compactada ou simplesmente recoberta com pavimentos e edificações. Não somente esta, mas se desconsideram suas demais características estruturais, como as de drenabilidade e permeabilidade que lhe permitiam absorver as águas das chuvas e conduzi-las aos aqüíferos, purificando, neste percurso, impurezas adquiridas. O resultado desta ação ambientalmente negligenciada são as “cabeças d’água”, assim chamadas as típicas cheias urbanas decorrentes do rápido escoamento das precipitações pelo sistema pluvial, levando à sobrecarga os rios urbanos. Com estes grandes volumes de água são conduzidos os resíduos difusos encontrados nas vias públicas, e também os resíduos propositalmente lançados em valas e redes coletoras. Em matéria recente da imprensa se conheceu que em apenas um quilômetro de via pública urbana, em São Paulo, o volume destes resíduos difusos chega a 1,5 ton, o que é altamente significativo. Não havendo varrição adequada, ou ocorrendo uma forte chuva antes que esta possa ser feita, todo este material será carreado para a rede coletora e causará profundos danos aos cursos de água urbanos. Ademais, os solos urbanos ainda são seccionados para arruamentos, construção de grandes edificações e, ao longo de todas as vias, para a instalação de sistemas de comunicações, energia e saneamento, cujas obras deixam de observar, muitas vezes, cuidados com a conservação dos solos, gerando focos de erosão, ou tornando os solos vulneráveis a deslizamentos e soterramentos de estruturas e residências. Tudo isso, ainda sem fazer menção às ocupações irregulares que dão origem e sofrem as piores conseqüências das negligencias com os solos urbanos. Outra grande diferença decorre da não aplicação dos ditames legais relacionados com a proteção dos rios e cursos d’água, bem exigidos nas áreas rurais e, apesar de serem ainda mais prementes nas áreas urbanas, são nestas completamente vilipendiados: são muito raros os segmentos hídricos urbanos em que se observou o respeito às áreas de preservação permanente, e muito menos, as encostas e topos de morros que a lei impõe que sejam preservados, não importa se em áreas rurais ou urbanas. Note-se que esta questão tem a ver com as ocupações irregulares, mas muito mais com tipos de uso do solo formalmente autorizados para edificações, sistemas de tráfego e diversas redes de serviços urbanos. São regularizados, mas de forma ambientalmente inconseqüente, logo gerando situações de risco e vulnerabilidades de alta importância econômica e social. Não agir para prevenilas, ou pior, autorizá-las, deveria ser considerado crime de responsabilidade pública. Outro aspecto importante nessas considerações cidadecampo é a questão das águas e sua qualidade. Já se comentou as conseqüências da não permeabilidade dos solos, imposta pela intensa ocupação – o que poderia ser parcialmente solucionado por medidas de engenharia, bem como por técnicas de reuso das águas – que gera as “cabeças d’água”. Vale agora comentar a qualidade das dessas águas, no início das cheias. Para qualquer observador, é notória a coloração fortemente escura das águas, decorrente da lavagem dos dutos das redes coletoras – que em geral contém e acumulam volumes de efluentes de ligações clandestinas de esgotos – bem como particulados de ruas, telhados, calçadas e estacionamentos, que foram depositados nos períodos secos. Dentre estes contaminantes se encontram resíduos orgânicos e inorgânicos, substâncias que provocarão elevada demanda de oxigênio para sua biodegradação, bem como viroses, bactérias e outros patógenos relacionados com a água; substâncias derivadas de petróleo, poeiras de amianto residual de sistemas de frenagem, resíduos dos rodados de veículos, metais pesados diversos e substâncias orgânicas sintéticas, como restos de medicamentos, detergentes e biocidas. Em áreas rurais jamais ocorre um acúmulo de tal magnitude, cuja consequência, nos rios urbanos, é a extinção de todas as formas de vida aquática. Note-se que esta calda de contaminantes, apresenta, na maioria das vezes alterações térmicas importantes, e atinge as pessoas que residem em ocupações irregulares de beira de rios nos períodos críticos das cheias. Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 55 Não somente isso, mas também os materiais sólidos que acompanham estes efluentes geram a sedimentação da caixa hidráulica, tornando mais agudos os eventos de cheias, fator que contribui para a degradação do leito do rio e de seus habitat, bem, como propicia a erosão ativa das margens e o decréscimo na vazão de base. Longos trechos de rios urbanos são canalizados, eliminando-se, assim, características que lhe permitem restabelecer condições de aeração, logo, acentuando as más condições à biodiversidade aquática. Finalmente, a mudança da topografia do rio degrada, em geral a paisagem urbana, e cria setores depreciados na malha urbana. Se nas chuvas ocorrem tais situações negativas, outra variedade de problemas surge nos períodos de estio. A não acumulação das águas nos aqüíferos faz com que os rios urbanos apresentem vazões ínfimas nos períodos entre chuvas, cujas águas se apresentam, então, fétidas, por conta de vazões de águas servidas por residências, indústrias e serviços públicos, que as tornam sem condições para qualquer tipo de uso. Os estios nas áreas rurais podem se gerar situações críticas para as necessidades pecuárias e do agricultor, e mesmo que sua escassez gere situações de acúmulos de resíduos orgânicos do gado que para beber a água adentra aos rios e açudes, jamais produz qualquer efeito parecido com o causado pelos estios dos rios urbanos. Ademais, o volume e o tipo de efluentes líquidos e resíduos sólidos não devidamente tratados, constatados nas zonas rurais são ínfimos, quando comparados aos das zonas urbanas. Não que nas zonas rurais não se produzam efluentes e contaminantes líquidos: nestas suas características e possibilidades de neutralização, via tratamento e/ou diluição no meio permitem uma resolução muito mais simples do que os procedimentos individuais possíveis nas zonas urbanas. Nas áreas urbanas tal neutralização e diluição não são viáveis, e dependem de serviços públicos para sua solução. Ademais, nas cidades é normal que a compartimentação do uso do solo por edifícios, habitações e ruas que urbanizam cada centímetro, leve à desconsideração das demandas pela circulação do ar e mesmo a luminosidade solar. A questão da luminosidade solar, necessária à saúde ambiental, em especial no controle de patógenos micóticos, o simples bom senso deveria nortear as distancias entre as edificações, e destas com as estruturas urbanas, para se garantir um mínimo de qualidade de vida aos seus ocupantes. Não obstante, não é raro perceber-se tentativas insistentes de se desacatar as posturas municipais mínimas consoantes à matéria. Nas áreas rurais a luminosidade solar é fator produtivo reconhecido e estimado. Ainda, a ausência de áreas verdes leva ao aumento do albedo, à elevação da temperatura e à redução da umidade atmosférica. Bem assim, são os ruídos e as emissões gasosas, cujos volumes nas concentrações urbanas são destacadamente diferenciadores das áreas rurais. A diluição das emissões atmosféricas urbanas e industriais ocorre na atmosfera, sobre as áreas rurais. Esta recebe as fuligens e partículas emanadas, e os imóveis mais próximos às cidades e suas zonas industriais podem ser afetados por chuvas ácidas decorrentes das reações de certos gases industriais ricos em enxofre que reagem com a umidade atmosférica e se precipitam, causando progressiva contaminação dos solos. As queimadas, incluindo as que reduzem volumes de matéria orgânica – da poda de vegetação, por exemplo – tem que ser proibidas nas cidades, sendo inofensivas nas áreas rurais. Nas cidades, causam mal estar e efeitos deletérios sobre a saúde das pessoas. No campo, nada mais que eventual odor característico, rapidamente diluído na ampla atmosfera, e em seguida absorvido – seu carbono – pela vegetação. Há odores resultantes da produção pecuária, e emissões de pólen em certos períodos do ano, porém os efeitos à saúde destes são ínfimos à luz das emissões potenciais das cidades. Poderse-ia citar também outras questões em que as zonas rurais se sobressaem, como a preservação da biodiversidade. Assim, o fator predominante das diferenças entre as zonas rurais e urbanas – guardadas as proporções das enormes possibilidades consumistas existentes nas urbes – é a concentração demográfica das cidades. Nelas, muitos costumes ambientais ainda inadequados das famílias se agravam pela sinergia urbana. Nas décadas recentes, contribuíram para o agravamento da qualidade urbana as levas de migrantes, induzidas por oportunidades de alguns segmentos econômicos, ou à procura do suprimento às necessidades que políticas públicas insuficientes deixaram de proporcionar às comunidades rurais. Submetidas a tais pressões e necessidades, seria de se esperar que os novos fatores de risco à qualidade urbana norteassem regulamentos objetivos e estas rigidamente aplicadas, já que são determinantes à qualidade de vida das pessoas. No entanto, nota-se parece que as posturas municipais certamente existentes não impedem que famílias residam sob pontes e viadutos, ou em encostas e às margens de rios, que formem favelas e comunidades em áreas de risco social, ou se estabeleçam loteamentos com condições ambientalmente inaceitáveis. Por outro lado, constatou-se que é grande o sortimento de preceitos legais incidentes sobre a área rural, que tem gerado resultados progressivos graças à força fiscal aplicada. Os estudos realizados mostram que não está na área rural a principal origem da atual crise ambiental. Sabe-se que algumas destas leis deveriam revistas, tanto pela antiguidade de sua edição, como pela sua aplicação genérica, que as tornam fora da realidade, culminando por possuir conteúdo deficiente à sustentabilidade social, econômica e ambiental das diferentes tipologias e cultivos rurais. A dependência dos produtores rurais à fertilidade dos solos, à regularidade das chuvas e dos fluxos dos rios certamente os tornam mais sensíveis às perturbações ambientais do que à dos cidadãos urbanos, acomodados às múltiplas artificialidades e facilidades da vida nas cidades, em sua maioria ainda com preocupações alheias ao que acontece com o meio que o cerca. Certamente há que se melhorar e manter a qualidade da vida na zona rural, o que já se vem obtendo através de programas de educação ambiental, de incentivos à sustentabilidade da produção rural e mesmo à atuação dos órgãos ambientais. Contudo, passa a ser cada vez mais importante atacar o foco 56 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná preciso das grandes perturbações ambientais – que derivam para a zona rural – situado nas concentrações urbanas. Esta atuação é urgente na medida em que se percebe que as cidades estão crescendo e gerando setores conurbados, onde as pessoas parecem não se preocupar efetivamente com sua responsabilidade ambiental, e à vontade para continuar degradando impunemente as águas e o ar, e agindo sem critérios mínimos na geração e destinação de seus resíduos. Cabem ações políticas de estabelecimento de uma nova regulamentação ambiental urbana, bem como de estudos regionalizados com o aprofundamento e foco necessários para a formulação de medidas adequadas às várias situações, de maneira a prevenir, corrigir e manter a sustentabilidade ambiental das cidades. Com isso, se reconhece também que já é hora de redirecionar o foco das atuações dos órgãos de defesa ambiental, seja qual for a instância que couber, para ações orientadoras coercitivas apropriadas, prevenindo e promovendo um meio produtivo ambientalmente sustentável à economia e ao meio ambiente. Tabela 08: Comparações entre algumas questões na Cidade e no Campo Fator comparativo Legislação sobre áreas de preservação permanente - APP Cidade Não há diferença legal nas características conformadoras (localização e larguras) de APP urbana e rural, mas nas cidades é raramente aplicada. Legislação sobre Reserva Legal Não há Reserva Legal urbana Legislação sobre produtividade Não há Legislação sobre uso do solo As propriedades urbanas devem atender a função social da propriedade descrita nos Planos Diretores Municipais. Legislação sobre função social da propriedade Atender a função social da propriedade descrita nos Planos Diretores Municipais Onerosidade imposta ao proprietário Adequação e organização municipal, sobre o cumprimento da função social com vistas a implantar o progresso econômico, social e ambiental da região. As áreas devem ser utilizadas para o desenvolvimento das atividades listadas em cada zona. Evitar que as propriedades fiquem dispostas à subutilização ou especulação imobiliária. Proporção das sanções aplicadas Se não cumprir com sua função social disposta no Plano Diretor Municipal a propriedade estará sujeita a parcelamento e edificação compulsórios, IPTU progressivo no tempo e desapropriação Campo Não há diferença nas características conformadoras de APPs urbana e rural, mas no campo a lei é rigidamente aplicada. Reserva Legal mínima de 20%da área do imóvel rural. Se tiver sido averbada poderá ter isenção de tributação e do pagamento do ITR Todo proprietário rural deve comprovar a existência da produtividade do imóvel Todo e qualquer proprietário rural é obrigado a aproveitar racional e adequadamente sua área sob pena de desapropriação. Todo proprietário rural deve comprovar cumprimento das boas relações de trabalho, bem-estar dos trabalhadores e acesso adequado aos recursos naturais Não há garantia da propriedade, mas sim garantia do interesse da coletividade, haja visto o caráter limitador da propriedade. Risco de desapropriação-sanção pelo não cumprimento da função social para fins de reforma agrária. Ameaça ao sustento do proprietário rural e à contribuição do progresso econômico do país A propriedade está diretamente sujeita a desapropriação em caso de não cumprimento da função social da propriedade, não concedendo alternativa de adequação prévia à desapropriação, em franca desproporção a contribuição do progresso econômico e social Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 57 Fator comparativo Cidade Supressão de árvores na Reserva Legal Não há Reserva Legal nos imóveis urbanos Imposição legal de Averbação de Reserva Legal Não há Reserva Legal nos imóveis urbanos Adesão compulsória ao “Programa Mais Ambiente Não há nenhum Termo semelhante a este para os imóveis urbanos, mesmo para aqueles que deixam de observar as normas de saneamento mais elementares, contribuindo para trechos poluídos de rios urbanos, em situações ambientalmente catastróficas Tratamento Florestal conferido no Estado do Paraná as propriedades rurais o SISLEG (Sistema de manutenção, recuperação e proteção da reserva legal e áreas de preservação permanente) aplica-se apenas aos imóveis rurais, reduzindo a potencialidade de aplicação nas áreas urbanas, consoante previu o Código Florestal Infração Administrativa Não há Reserva Legal nas Cidades Demografia paranaense 1970 36% nas Cidades Demografia paranaense 2009 Captação da água das chuvas 82,2% nas Cidades Pavimento e solos compactados impedem penetração das águas nos solos. Os rios urbanos tem períodos de cheias repentivas e há reduzida retenção de água no solo Campo Na área de reserva legal não é permitido o corte raso. O regime de manejo florestal em áreas de reserva legal depende de apresentação de laudo que comprove o preenchimento dos critérios técnicos e científicos estabelecidos no regulamento A Averbação da Reserva Legal é obrigação a ser obedecida, independentemente de existir cobertura vegetal. Se não existir, deverá ser recomposta A inclusão ao Programa é mediada por um Termo de Adesão e Compromisso, em que o proprietário ou posseiro formaliza sua inserção ao Programa, firmando um compromisso de recuperar, recompor ou manter as áreas de preservação permanente, bem como de averbar a reserva legal do imóvel Os critérios de fixação e reconhecimento das reservas legais, obrigatórias para as propriedades rurais são mais restritivos que os parâmetros estabelecidos no Código Florestal, impondo um ônus ao proprietário rural dentro do Estado o ônus imposto à propriedade rural, sujeitando o proprietário rural à infração administrativa decorrente na não averbação da reserva legal, 64% no Campo 17,8% no Campo Solos agrícolas e florestais recebem as precipitações, que são em parte absorvidas e parte infiltram nos aqüíferos, alimentando os mananciais Escorrimento superficial das chuvas Carreamento superficial de águas com resíduos e contaminantes lançados ao piso Processos de erosão Processos de erosão são freqüentes Cultivos adequados rompem a em áreas desprotegidas, ou podem ser cinética das precipitações fazendo contidos por estruturas físicas com que estas não causem maiores danos às estruturas dos solos Qualidade das águas Em geral comprometida pelo lançamento de efluentes e resíduos domiciliares, urbanos e industriais nos rios urbanos, com grande diversidade e volume de materiais orgânicos e metais pesados. Despejos de altas cargas orgânicas sem tratamento em corpos d’água urbanos com limitada capacidade de diluição e biodegradação 58 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Em casos de usos inadequados, associados a precipitações fortes podem ocorrer escorrimentos superficiais e rolamento até os cursos dágua Normalmente de boa qualidade, ou ótima, quando for boa a proteção das margens e mananciais, mas pode ser afetada por usos inadequados das áreas drenadas, ou lançamento de resíduos. As águas dos rios sempre são recuperadas das nocividades urbanas nas áreas rurais situadas águas abaixo. Fator comparativo Cidade Águas retidas ou estagnadas Deposições de águas poluídas em redes pluviais, gerando mau cheiro Propagação de doenças de veiculação hídrica Águas estagnadas em lixões geram foco de disseminação de endemias Efeitos benéficos das áreas verdes Inexistência de áreas verdes competentes para atenuação climática e filtragem das precipitações Influência da contaminação atmosférica nas chuvas Chuvas tornam-se ácidas em decorrência de reações atmosféricas com emissões sulfurosas. Situação das margens dos rios Uso das margens dos rios com estruturas habitacionais Alteração das características hidrológicas Estreitamento de cursos d’água por estruturas urbanas – pontes e galerias, que podem provocar cheias urbanas Curso natural dos rios Retificação do curso dos rios por conveniências urbanísticas levam os rios a perder suas funções ecológicas e saneadoras Volumes de águas dos rios Aumento da vazão por não infiltração no solo. Picos repentinos de cheias com lixívia tóxica ao carrear restos de esgotos e águas estagnadas em galerias pluviais Usos dos solos marginais Invasões de favelas em áreas críticas das margens dos rios, gerando riscos sociais Proteção de encostas Cortes em taludes para sistemas viários. Redes viárias em locais inadequados. Ocupação de encostas com habitações precárias Integridade das águas Aumento da temperatura das águas dos rios, pelas influências urbanas Vida de peixes e outros seres aquáticos Elevada poluição orgânica corrente gera a eutrofização fatal aos seres aquáticos. Os picos de cheias com águas tóxicas afetam a vida aquática Campo O armazenamento temporário de águas de precipitações em depressões no terreno não é nocivo às águas e aos solos, já que estas tendem à penetração nos solos antes que possam abrigar vetores de endemias rurais Estruturas rurais podem conter reservatórios propícios à disseminação de insetos, mas em número muito inferior ao que ocorre nas cidades Áreas verdes, mesmo pastagens e cultivos agrícolas são eficientes para a atenuação dos rigores climáticos: reflexão solar e corredores de ventos. As áreas rurais recebem as chuvas ácidas originadas nas zonas industriais e urbanas, e por processos naturais, conseguem superar na maioria das vezes, os efeitos nocivos. Embora muitas propriedades rurais ainda utilizem as áreas ribeirinhas contrariando a legislação, o dano causado é incomparável ao efeito perverso destas ocupações nas áreas urbanas. Raramente há necessidade de se implantar estruturas que descaracterizam os cursos d’água no Campo. Os rios, ao correr seu curso natural, causam problemas mínimos, comparados ao que ocorre nas cidades. Toda a ecologia ribeirinha e lacustre é preservada e garante a estabilidade geológica dos cursos d’água naturais nas áreas rurais, ao contrário dos rios urbanos retificados Atenuação dos picos de cheias e redução do volume de escorrimento, pela absorção pelo solo e lenta devolução aos mananciais Áreas protegidas pela APP, ou eventualmente cultivadas em áreas vulneráveis, raramente em situação de risco social. Usos precavidos de encostas e áreas que podem oferecer riscos de deslizamentos. Não são raras estradas abertas sem cuidados com a estabildade dos solos. A proteção das margens e os usos adequados dos solos preservam as condições naturais das águas A proteção das margens e a vazão estabilizada preserva a vida aquática, possibilitando inclusive uma economia rural. Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 59 Fator comparativo Poluentes e contaminantes no solo Cidade Variam desde compostos orgânicos a metais altamente tóxicos. Sedimentos, nutrientes, substâncias que consomem oxigênio, metais pesados, hidrocarbonetos de petróleo, bactérias e vírus patogênicos. Esgotos domésticos e despejos. (águas Contaminação progressiva de negras e cinzas) águas subterrâneas por vazamento dos sistemas de esgoto sanitário, despejos industriais e domésticos, e concentração de fossas sépticas que contaminam continuamente as águas superficiais e subterrâneas. Campo Possível contaminação com compostos orgânicos biodegradáveis. Riscos de poluição com restos de agrotóxicos Conteúdo de esgotos sanitários domiciliares rurais têm pequeno volume e são neutralizados nos solos, sem gerar problemas às águas superficiais e aqüíferos. Aterros sanitários e lixões Depósitos de resíduos sólidos urbanos, cujo chorume, não adequadamente captado tende a alcançar os aqüíferos e reduzir a qualidade da sua água Rio Tietê, 1.136 km Passando por São Paulo, transformase em esgoto urbano e industrial a céu aberto, numa extensão superior a 150km Rio Toledo, 20 km Passando em Toledo, recebe carga de poluição de agroindústria e do esgoto tratado da cidade, perdendo suas características de qualidade. Rio Belém, 20 km Nasce em parque urbano (das Rio totalmente urbano Nascentes) e em seguida recebe descargas de águas pluviais e esgotos (águas cinzas). Ao atravessar o Parque de São Lourenço ainda permite vida e alimento para aves aquáticas e peixes. Seu trecho mais degradado se localiza na área central, em que é canalizado sob algumas ruas, onde há ausência de luz e a entrada de novas galerias pluviais (e de esgoto). Ao sair do segmento canalizado o rio recebe resíduos de carrinheiros da Vila das Torres. Seu canal retificado, a céu aberto desde a Rodoferroviária até a ETE Belém mantém as más condições de qualidade; Rio Iguaçu, 1.320 km Assume sua denominação “Iguaçu” no encontro das águas dos rios Atuba e Irai, onde as águas já apresentam baixo índice de qualidade. Recebe as águas poluídas dos rios Belém e Barigui, e de outros cursos menores, que o tornam contaminado até cerca de 80km águas abaixo. 60 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná Eventuais acúmulos de matéria orgânica a céu aberto (estrume de animais), até que sejam empregados em cultivos. Apesar do risco de contaminação, seu volume é desprezível perto doa contaminação de qualquer lixão urbano Nasce na Serra do Mar e é represado para geração hidrelétrica. Usos recreativos de pesca e lazer. Retoma condições de qualidade próximo a 250km de São Paulo, devido á biodegradação em reservatórios, cachoeiras e adição de novos rios. Nasce a 15 km da cidade e, apesar de suas águas apresentarem pequena taxa de comtaminação orgânica de criações situadas nas cabeceiras, são usadas para o abastecimento de Toledo. Depois de passar pela cidade, continua a sofrer contaminações de moradores rurais que consideram sua poluição irreversível. Nasce nos Mananciais da Serra, que ainda atende ao suprimento de água de Piraquara. Recebe as águas do rio Irai, parte das quais abastecerá a Capital. Deixando a área urbana, suas águas são biodegradadas e assumem progressiva qualidade, chegando às Cataratas sem evidencias da poluição que existe em suas cabeceiras. Fator comparativo Emissões de gases de efeito estufa – GEEs Cidade Nas áreas urbanas e industriais o balanço das emissões de GEEs versus absorções é francamente desfavorável ao meio ambiente. A absorção das ondas termais e luminosas, e do Carbono, são reduzidas ao mínimo, potencializando as conseqüências das mudanças climáticas. Disputas por águas urbanas e rurais Aumenta demanda de água nas cidades, que precisam pagar cada vez mais por águas de boa qualidade, usadas no campo para os cultivos. Percepção da opinião pública sobre questões ambientais São comuns e naturais problemas ambientais tais como fumaças, resíduos e a poluição dos rios. Percepção da opinião pública sobre questões sociais Nas cidades existem favelas onde moram assaltantes e os carrinheiros. Percepção da opinião pública sobre valores da cidade e do campo Cidade é lugar em que se vive. Percepção sobre obrigações ambientais Deve-se colocar o lixo na cesta certa e não maltratar os animais Percepção sobre custo dos alimentos É normal que custe mais caro já que estão embalados e à venda no mercado. Não se pode influir no preço: Se pude, compre. Se não, deixe de comprar. Campo A agricultura tem grande potencial para seqüestrar carbono. Em um ano, é possível retirar 110 milhões de toneladas de C02 , sendo 50 milhões de toneladas retidas no solo e 60 milhões de toneladas com o controle da erosão. Proprietários rurais deixam de cultivar (com irrigação) para vender sua “produção” de água para os centros urbanos. Torna-se menos oneroso importar grãos do que produzi-los à custa do líquido precioso para as cidades. O Estado do Colorado, EUA, é o que tem um dos mercados de água mais ativos do mundo. Para atender a demanda de cidades e vilas em crescimento rápido, agricultores e pecuaristas passaram a vender direitos de água. Aos fazendeiros se atribui a maioria dos problemas de destruição do meio ambiente: erosão, agrotóxicos, queimadas, extermínio de animais e poluição das águas. Fazendeiros são inimigos dos pobres sem-terra, eliminam as condições de vida dos índios e isolam os negros dos quilombos. Campo é bom para passear. Só vive na roça quem ainda não conseguiu vir para a cidade. Os proprietários rurais têm o dever e a obrigação de replantar as florestas que havia no passado O produto da roça não devia custar tanto, já que não está com embalagem industrial. Afinal, é só colher do chão (ou da árvore)... Todo produto da roça é sempre saudável. Equipe e créditos Coordenação Prof. Dr. Arnaldo Carlos Muller Equipe Técnica Profª. Drª Ana Paula Liberato Profº. Dr. Edilberto Moura Eng. Ambiental Carlos Sallati Eng. Ambiental Kathleen Gomes da Silva Estagiários de Engenharia Ambiental: Larissa C. F. Santos Juliana Moraes Ferreira Henrique Preuss Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná | 61 Créditos das fotos Página Figura Local Autor 8 2 Rio Água Verde, Prado Velho C.A. Salatti 8 3 Rio Belém, Boqueirão C.A. Salatti 9 4 Mun de Anhumas, Rio Tietê, São Paulo E. Rodrigues - AE 11 5 Toledo, Rio Toledo A.C. Muller 12 6 Londrina, Centro, e Cascavel, Zona Rural A.C. Muller 13 7 Reserva Indígena de Mangueirinha A.C. Muller 15 8 Porto Amazonas, Ponte Ferroviária A.C. Muller 15 10 São Paulo, rio Tietê E. Rodrigues - AE 16 11 Noroeste do Paraná A.C.Muller 21 14 Telêmaco Borba A.C. Muller 22 15 São Paulo, área urbana (Av Sumaré) A. Lessa – Ag. Estadão 23 16 Guarapuava rio Irco, e rio Piraquara, Mananciais C.A. Salatti 25 17 Salesópolis, UHE Nova Ponte, São Paulo HB Furtado - Google 25 18 Salesópolis, UHE Nova Ponte, São Paulo L. Grégio - Google 26 19 Guarulhos, São Paulo E. Rodrigues – AE 26 20 Anhumas, São Paulo E. Rodrigues – AE 27 21 São Paulo, Centro da cidade A. Lessa – AE 27 22 Anhumas, São Paulo, rio Tietê E. Rodrigues – AE 28 23 Toledo, rio Toledo A.C. Muller 28 24 Piraquara, rio Piraquara, Mananciais da Serra C.A. Salatti 30 25 Piraquara, rio Piraquara,/ Jaguariaíva, rio Jaguariaíva / Francisco Beltrão, rio Cotegipe / Curitiba, rio Água Verde / Guarapuava, rio Irco / Londrina, rio Igapó / Curitiba, rio Belém. C.A.Salatti e A..C. Muller 32 28 Porto Amazonas, rio Iguaçu A..C. Muller 33 29 Toledo, rio Toledo A..C. Muller 34 30 Toledo: Rio São Francisco em Toledo / rio Toledo a montante da captação da SANEPAR / rio Toledo na zona rural / rio Toledo na nascente / rio Toledo na Av E. Munaretto / rio Toledo na Av. Sem Attilio Santana / rio Toledo na bomba de recalque da SANEPAR A..C. Muller 35 31 Toledo, PR, Rio Toledo, Av Sem Attilio Fontana A..C. Muller 37 32 Rio Belém: entrada do Parque S. Lourenço / à margem da rua Hassan Mohamed Raad / Parque Nascentes / Boqueirão / Campus PUCPR / rua Iapó / Av Candido Lopes / rua Cnso Raul Viana C.A. Salatti 38 33 Aterro Sanitário Municipal de Curitiba (Caximba) C.A. Salatti 38 34 Aterro Sanitário Municipal de Curitiba (Caximba) C.A. Salatti 38 35 Leônidas Marques, rio Iguaçu A..C. Muller 39 36 Porto Amazonas, rio Iguaçu A..C. Muller 40 37 Porto Amazonas, rio Iguaçu A..C. Muller 40 38 Porto Amazonas, rio Iguaçu A..C. Muller 41 39 Rio Irco, Guarapuava C.A. Salatti 42 40 Usina Hidrelétrica Salto Santiago A.C.Muller 43 41 Arroio peri-urbano em Cascavel Google & A.C.Muller 44 42 Arroio urbano em Maringá Google & A.C.Muller 47 43 São Paulo, Capital, e Campo Mourão, área rural A.Lessa -AE / ACMuller 48 44 Corbélia, área rural A..C. Muller 48 45 Corbélia, área rural A..C. Muller 49 46 Palmas, Pr SEMA-PR / IAP 50 47 Cataratas do Parque Nacional do Iguaçu A.C. Muller 8 1 Piraquara, Mananciais da Serra 62 | Aspectos Ambientais da relação Campo & Cidade no Estado do Paraná C.A. Salatti