A primeira metade do século XIX O processo da economia portuguesa no primeiro quartel do século XIX é marcado pela repercussão interna de acontecimentos político‐militares (invasões e ocupação estrangeira), de alterações da estrutura político‐colonial (ascensão do Brasil à independência) e pela contracção da produção industrial e modificação da produção agrícola (aparecimento da batata) contribuindo de forma decisiva para a eclosão de profunda crise comercial e financeira. O avanço dos exércitos franceses empurrarão a coroa para o Brasil o que contribuiu decisivamente para a aceleração do processo de independência brasileira. O auxílio político‐militar inglês, agora na luta contra os franceses, terá mais uma vez elevados custos económicos. Dará lugar a uma nova série de concessões e tratados que tiveram graves efeitos bloqueadores do desenvolvimento do sector manufactureiro nacional. Assim, a Carta Régia de 1808 que abre os portos do Brasil ao comércio de todas as nações amigas (isto é ao comércio inglês) marca a extinção da articulação do sistema colonial‐ português (África ‐ Brasil ‐ Metrópole) ainda antes da independência do Brasil. O tratado comercial de 1810, integrado tal como a Carta Régia de 1808 no quadro de expansionismo inglês, em busca de fontes de matérias‐primas e mercados para o escoamento dos seus produtos, abre o mercado nacional aos produtos ingleses. O impacto dos produtos resultantes das transformações técnicas de finais do século XVIII sobre a estrutura produtiva interna (manufacturas e oficinas) foi enorme. A estrutura económica do País foi desarticulada e aumentou de forma considerável a necessidade de recorrer às importações e de obter meios de pagamento ao exterior. Também as invasões Francesas contribuíram para a desarticulação da estrutura produtiva interna, quer pelos enormes movimentas populacionais (e abandono das actividades produtivas) a que deram lugar quer pelas destruições feitas (manufacturas e agricultura). O surto de prosperidade vivido nos finais do século XVIII gerou um importante núcleo burguês cujas aspirações, cerceadas pelas estruturas jurídico‐políticas do antigo regime e pelos acontecimentos de 1808‐20 criaram condições favoráveis ao eclodir do movimento liberal. De resto o movimento liberal português emerge numa conjuntura internacional propícia ‐ ascensão e triunfo das ideias liberais no estrangeiro (independência da América, Revolução Francesa, Revolução Espanhola) e sua divulgação interna pelos refugiados políticos e pelos próprios exércitos franceses) e beneficia do clima social criado pelas movimentações populares resultantes das invasões francesas e da reacção ao governo militar inglês do marechal Beresford. A revolução liberal de 1820 eclode no Porto. A região do Porto é o mais forte núcleo produtor do país, e a sua prosperidade ligada ao comércio de importação e reexportação de produtos brasileiros para a Inglaterra, à exportação de produtos nacionais (das regiões do Minho e Douro) e ao comércio de importação de artigos manufacturados é seriamente afectada pelos tratados com a Inglaterra. Por outro lado a burguesia do Porto apesar da sua importância económica, aparece politicamente subordinada à Praça de Lisboa. A revolução cujo carácter burguês transparece na composição social dos órgãos dela saídos ‐ Junta Provisional e assembleia de Representantes ‐ trás já em si os genes das fracturas (burguesia comercial, agrária e mesmo industrial) que permitirão a recuperação dos absolutistas e mergulharão o país numa longa guerra civil. Os liberais preocupar‐se‐ão com a criação de uma ordem jurídica que garanta a liberdade de comércio e o domínio e direcção dos negócios públicos. Tentarão abolir os obstáculos à livre circulação de mercadorias no mercado nacional (alfândegas internas, portagens, impostos) e criar condições para a integração dos vários mercados regionais no mercado único nacional, melhorando as redes de transporte. Procurarão também abolir os entraves à transferência da terra e fomentar o desenvolvimento das actividades manufactureiras acabando com os privilégios das fábricas nacionais e passando‐as às mãos dos particulares. No entanto as contradições entre os representantes da burguesia agrária e comercial na Assembleia limitarão o alcance das reformas. Com efeito o conjunto de medidas tomadas – estabelecimento de um regime protector para os produtos agrícolas, abolição das banalidades e outros direitos feudais, inclusão no tesouro público dos bens nacionais, apropriação dos terrenos comuns dos municípios, supressão das regalias concedidas aos ingleses pelo tratado de 1810 ‐ é incapaz de garantir a coesão do bloco social de apoio ao Movimento Liberal. Por um lado as camadas cujos interesses aparecem ligados à agricultura são desiludidas pela insuficiente reforma dos forais, pela brandura das medidas tomadas que não atacam os privilegies da antiga nobreza mas as exclui do acesso à compra dos bens nacionais, pela apropriação dos terrenos municipais. O movimento liberal enfrentará ainda o antagonismo da burguesia anglo‐portuguesa do Brasil prejudicada pele regresso da corte a Lisboa e pela recolocação do Brasil na situação de colónia, para lá evidentemente da reacção das classes não interessadas na revolução (clero e aristocracia) e das demais monarquias absolutas. Em 1822 o Brasil proclama a sua independência. Em 1823 a reacção absolutista consegue, com a Vilafrancada, extinguir as cortes e a Constituição liberal de 1822. Em 1826 a Constituição foi substituída por uma Carta Constitucional outorgada por D. Pedro IV e em 1828, um golpe absolutista triunfante coloca no trono de Portugal de novo um rei Absoluto. Até 1832 os absolutistas conseguirão manter‐se no poder. No entanto, esse mesmo será o ano de entrada dos exércitos liberais na Metrópole. A guerra civil prosseguirá até 1834, terminando com a expatriação de D. Miguel e a instauração de um regime liberal. Ainda no exílio Mouzinho da Silveira será nomeado (1832) ministro da Fazenda e Justiça. A sua acção legisladora encaminhar‐se‐à no sentido da desamortização da terra e ocupação das parcelas úteis (abolição dos pequenos morgadios, extinção, da dízimo e da sisa, abolição dos foros, censos e rações) e da reorganização financeira e administrativa do país. Por volta deste período há um retomar das actividades industriais. A partir de 1835 aumenta o número de máquinas a vapor instaladas (de 1835 a 1845, 25 na metrópole e ilhas) e também e ritmo de implantação dos estabelecimentos industriais: passa‐se de 19 estabelecimentos/ano no período de 1826 a 1834 para 46 estabelecimentos/ano no período de 1835 a 1845. A vitória liberal permitirá o acesso ao poder da burguesia financeira que operará em seu benefício a transferência da propriedade até aí nas mãos do clero ou da aristocracia tradicional. Detentora de títulos de dívida dos governas liberais, ainda no período de exílio e combate contra os absolutistas será com eles que comprará os bens nacionais (a que se juntaram os bens das ordens religiosas extintas em 1834) postos em hasta pública a partir desse mesmo ano. A posição de dependência do nosso país face à Inglaterra vai no entanto continuar, em consequência do apoio político‐económico que esta dera aos liberais no exílio e do seu domínio sobre o comércio de importação e exportação e dos transportes. Assim, em 1835 o tratado de 1810 seria renovado por um prazo de 10 anos. O regime liberal não seria capaz de manter o apoio social da pequena e média burguesia interessadas na criação do mercado nacional (desenvolvimento dos transportes, integração dos territórios coloniais), e da burguesia industrial, cujos interesses se orientam no sentido do proteccionismo ameaçado pela renovação do tratado de 1810. A revolução de Setembro de 1836 surge num período de crise cíclica. Lisboa é já o mais importante núcleo produtivo do país, aí se concentrando o grosso dos assalariados. As suas origens podem encontrar‐se, segundo uns, na reacção popular contra a concorrência inglesa (num período depressivo) ‐ revolta dos artífices nas docas de Lisboa, segundo outros na reacção do antigo regime e dos elementos pré‐capitalistas contra o avanço liberal (más colheitas, alta de preços). De qualquer forma ao período do Setembrista parece corresponder a aliança da burguesia industrial e agrária. Assim, serão seus objectivos: a protecção das actividades produtivas (pauta aduaneira de 1837), a redução da dívida pública, a defesa do trabalho nacional, e finalmente, a defesa dos territórios coloniais ameaçadas por ingleses e belgas, e necessários como mercados para a nossa agricultura e indústria. A pauta proteccionista de 1837 protege sobretudo a grande agricultura cerealífera (burguesia territorializada com a compra dos bens nacionais), fazendo subir o preço dos cereais o que agudiza as condições de vida das populações e agrava o clima de agitação social. A burguesia industrial estava interessada na obtenção de uma situação proteccionista mas que garantisse baixos salários, para o que necessitava, obviamente de recorrer a cereais importados, mais baratos do que os de produção nacional. As dificuldades financeiras do estado colocam este na dependência da burguesia financeira, cujos representantes ascenderão ao governo em 1840. De 1840 a 1850, sob a hégide da burguesia financeira procurar‐se‐à realizar a unificação de interesses das várias facções da burguesia. O governo Setembrista dará forte impulso ao desenvolvimento do capitalismo. A sua política fiscal (agravamento dos impostos, tentativa de os fazer incidir sobre uma base real e a imposição da obrigatoriedade de pagamento em dinheiro dos impostos) contribui de forma decisiva para o aumento da especialização regional o alargamento do mercado interno. A sua acção legislativa procurará libertar a terra dos liames feudais (proibição de formação de novos vínculos e de enriquecimento dos já existentes, possibilidade de hipoteca desvincular). Os últimos 10 anos da primeira metade dó século XIX serão anos de relativo desenvolvimento industrial. Este surto industrial, localizado fundamentalmente na região de Lisboa, abrangerá os sectores dos bens de consumo. Aparecem novos sectores produtivos – fósforos, produtos químicos, sabão, tabacos ‐ e intensifica‐se o uso de energia a vapor (de 1845 a 1852 instalam‐se 5 novas máquinas a vapor). Segundo o Inquérito Industrial de 1852, existiriam no país, nesta data, 562 estabelecimentos industriais com mais de 10 operários, sendo o sector mais importante quanto ao número de estabelecimentos recenseados e de operários ocupados o da fiacção e tecidos (189 estebelecimentos 8.748 operário, ou seja, 46,5 operários por estabelecimento) e quanto à concentração operária por estabelecimento, os da tinturaria e estamparia (72,8 operários/estabelecimento), fundição e metais (61,8 operários/estabelecimento) e louça e vidros (56,6 operários/estabelecimento). A especulação financeira, envolvendo o próprio governo, e o agravamento da situação financeira deste, marcam o início de um período de crise financeira e económica e de agudos conflitos, evidenciando a incapacidade do governo em realizar a unificação de interesses das várias facções da classe dominante e reflectindo a reacção dos camponeses ao avanço do capitalismo nos campos. Doravante os interesses desenvolvimentistas do país já não são compatíveis com os interesses da aristocracia financeira, base de apoio dos governes Cabralistas. O movimenta Regenerador (1851) surge como uma tentativa de unificação de interesses da burguesia agrária, comercial e determinados sectores da burguesia industrial, no quadro de uma política livre‐cambista. 1.2‐ O Modelo de crescimento económico da segunda metade do século XIX. O desenvolvimento da agricultura dirigida para a exportação conjugado com forte importação de produtos industriais, nas novas condições de concorrência internacional, quebra a desenvolvimento sincrónico dos dois principais sectores produtivos prejudicando ambos. De resto, Portugal ao especializar‐se nos ramos menos dinâmicos coloca‐se automaticamente numa posição subalterna na hierarquia mundial. Poderemos mesmo dizer que a subalternidade (e dependência) do desenvolvimento económico português é característica estrutural da nossa economiza cuja génese se poderá encontrar no conjunto de tratados que, no século XVII, colocam o comércio longínquo nas mãos dos ingleses, no século XVIII e início do século XIX garantem um relativo escoamento para determinados produtos agrícolas contra a entrega do mercado interno aos ingleses e, na segunda metade do século XIX, ratificando (nas condições de concorrência internacional então existentes) uma política livre‐cambista, aniquilam as possibilidades de desenvolvimento no nosso país dos sectores industrializantes. O projecto Regenerador, de cariz liberal, dará um forte impulso no sentido da libertação da iniciativa privada da direcção estatal, realizando também o saneamento financeiro, impulsionando o programa de construção de infra‐estruturas necessárias à formação do mercado interno e tentando, pelo alargamento da base social de apoio, a estabilidade governativa imprescindível ao desenvolvimento e consolidação do capitalismo. Regeneração, nome português do capitalismo 1.2.1 ‐ O alargamento do mercado interno O alargamento da rede de transportes, realizado pelos governos regeneradores, possibilitará a progressiva integração dos mercados regionais no mercado nacional. Recorrendo à dívida pública interna e externa constroem‐se estradas e caminhos‐de‐ferro e melhora‐se o sistema de comunicações. O aumento da população e o crescimento do movimento de urbanização serão actores importantes no alargamento do mercado. De resto há que não esquecer também os efeitos da destruição das estruturas feudais sobre a especialização regional e a divisão do trabalho, enquanto factores de aumento da dimensão do mercado interno. A subordinação crescente dos produtores ao mercado e o incremento das formas de assalariamento são factores de criação de maiores rendimentos monetários (como aliás as próprias obras públicas) e, portando, de crescimento do mercado interne 1.2.2. ‐ Desenvolvimento e crise da agricultura. Durante o 3º quartel do século XIX assiste‐se ao desenvolvimento de um sector agrícola comercializado, muito dinâmico, reagindo quer ao estímulo da procura externa (vinho, seda, frutas, gado bovino) quer da procura interna (produtos hortícolas, madeiras). Aumenta a área cultivada, alteram‐se as técnicas de cultivo, intensifica‐se a especialização regional. A extensão da área cultivada acompanhará os movimentos da população e vai na direcção da progressiva diminuição dos direitos comunitários (ocupação e cultivo de baldios, soutos) e do arroteamento de novas terras. Paralelamente assistiremos à especialização regional do país no que respeita à produção de cereal (o milho cultiva‐se na região litoral, do Minho a Leiria, em pequenas explorações. São regiões de povoamento disperso e grande densidade populacional. O centeio é cereal da região interior, de Bragança ao Tejo, das terras montanhosas, pouco férteis, de baixa densidade populacional. O trigo confina‐se às regiões do Alentejo e Algarve, cultivado em grandes e médias explorações. A produção de cereais irá desenvolver‐se numa primeira fase depois ceder o passo face à existência de mercados para outros produtos e ao afluxo de cereais estrangeiros a preços mais baixos. Assim a norte do Tejo, a regressão da cultura de cereais aparece ligada à existência de um mercado externo estável para o gado bovino e para o vinho, assistindo‐se ao desenvolvimento de formas de rotação milho/prado e da cultura da vinha (Estremadura e Ribatejo). Ao sul do Tejo, o aparecimento de um mercado para a cortiça e madeira (necessidade de embalagem dos produtos de exportação, urbanização e as obras de construção do caminho de ferro), as dificuldades de mão‐de‐obra (atraída pelos níveis de remuneração do sector da construção e obras públicas), leva à substituição do trigo por explorações florestais (azinheiras, sobreiros) e de gado porcino (nas regiões mais pobres) e bovino (nas terras mais ricas, de pastagens). Passamos a ter nesta região uma agricultura extensiva, de criação de gado e explorações florestais ao mesmo tempo que se intensifica o arroteamento de pequenas parcelas pelos trabalhadores agrícolas. Este tipo de arroteamento apresenta grandes vantagens para as grandes explorações. Fixando junto destes trabalhadores assalariados que também são cultivadores (em geral para auto‐
consumo, comercializando apenas os excedentes) permite a manutenção de mais baixos salários, corta os conflitos sociais (porque é uma forma de compensar desemprego ou subemprego) e permite a extensão das áreas cultivadas das grandes explorações a baixo custo. Estes arroteamentos aparecem dessincronizados com os das grandes propriedades que, necessitando de um bom preço para o trigo e de formas de escoamento da produção, terão lugar no fim do século os aumentos do preço, possibilitados pelo regime alfandegário proteccionista (1889), e a baixa do preço dos adubos, tornarem interessante o cultivo do trigo. Intensifica‐se o uso de adubos, ligado primeiro à cultura da vinha e depois à cultura de cereais; defende‐se a mecanização, sobretudo nas zonas da grande agricultura cerealífera, como forma de a tornar independente das movimentações da mão‐de‐obra; vulgarizam‐se os regimes de rotação campo‐prado e novas formas de criação de gado (forragens, aumento da estabulação). Determinados sectores agrícolas irão desenvolver‐se rapidamente, conhecendo contudo, rápido retrocesso quando os mercados externos desapareceram. A agricultura vitícola (vinhos do Douro e comuns) é um desses sectores. Desde meados do século XVII que os agricultores do Douro beneficiavam do acesso a mercados externos (Brasil e Inglaterra). Trata‐se já na altura de um sector agrícola muito especializado, sendo a cultura das vinhas feita em regime de grandes propriedades e recurso a mão‐de‐obra assalariada. No terceiro quartel do século XIX primeiro a doença das vinhas, depois a abertura do mercado inglês aos vinhos franceses, provoca uma crise no sector que permitirá a compra das vinhas pelos comerciantes ligados à exportação do vinho do Douro. A produção dos vinhos comuns expandir‐se‐á rapidamente no Ribatejo e na Estremadura, beneficiando da baixa do preço do cereal (desincentivadora do cultivo de cereais) e da doença das vinhas em França (abertura temporária do mercado externo) dando origem a um sector de agricultura comercializada voltado para a exportação cujo progresso será rapidamente freado pelo aparecimento de novos concorrentes no mercado francês (Espanha, Argélia), pela epidemia e ataca entretanto as vinhas racionais e pelo retomar do interesse pelo cultivo do trigo, quando a pauta proteccionista de 1889 toma possível o aumenta do preço interno do cereal. Outro sector que conhece um desenvolvimento rápido e efémero é o da silvicultura, beneficiando de um mercado de ocasião (ligado à doença do bicho‐da‐seda em França e Itália) desenvolve‐se ligado ao comércio de exportação, espalhando‐se mesmo pelo interior do país. O sector da pomicultura e horticultura desenvolve‐se na região da Estremadura, em função do importante mercado urbano de Lisboa e também do mercado externo. Todos estes sectores conhecerão um rápido declínio dos seus rendimentos, no quarto quartel do século XIX quando os países mediterrânicos aparecem no mercado mundial a concorrer com os nossos produtos e quando o desenvolvimento dos transportes permite a produção de novos territórios adquira condições de concorrência no mercado mundial (gado da Argentina, seda do Oriente). Por outro lado a existência de mercados externos ficou por vezes a dever‐se a circunstâncias transitórias que, uma vez ultrapassadas, vieram retirar capacidade de concorrência aos sectores nacionais (doença da vinha em França, por ex.). O desenvolvimento de um sector de agricultura comercializada, com a crescente especialização regional, recurso a mão‐de‐obra assalariada, aumento da mecanização contribui para o avanço das relações capitalistas na agricultura, reduzindo o peso do auto‐
consumo e submetendo os produtores ao mercado. O desenvolvimento agrícola assente nos mercados externos teve como contrapartida uma política externa livre‐cambista, favorável à expansão do mercado das manufacturas inglesas, que beneficiaram largamente da criação do rendimento interno possibilitado pelo desenvolvimento do sector exportador. 1.2.5 ‐ A dinâmica industrial. Ao longo de todo o século XIX o sector industrial aparece num lugar secundário na nossa economia, ultrapassado pelos efeitos de políticas que protegem ora os interesses da burguesia financeira, ora os da burguesia agrária, em aliança, uma e outra, à burguesia comercial ligada ao comércio com a Inglaterra. De resto é precisamente a forma revestida pelas relações económicas com a Inglaterra que explica o carácter secundário e a subalternidade do desenvolvimento industrial. Apesar do grande salto se ter dado nos finais do século XIX (1889/90), o certo é que o sector industrial revela um relativo desenvolvimento no sentido da sua modernização, na segunda metade do século XIX. O inquérito industrial de 1881 recenseava já 1.245 estabelecimentos com mais de 10 operários e cerca de 90.000 trabalhadores distribuindo‐se por fábricas e oficinas. Há também um avanço da vulgarização do uso de maquinaria. Predominam os sectores de bens de consumo havendo uma quase total ausência dos sectores de indústria pesada. Os sectores mais importantes na estrutura industrial são o dos tabacos, da têxtil algodoeira, do linho e da lã e o dos produtos alimentares. Nestes sectores é já possível detectar uma relativa concentração da produção, utilização de maquinaria moderna e uma importante concentração operária. O desenvolvimento da grande indústria é acompanhado pela liquidação da pequena indústria e pelo desaparecimento da produção autónoma ao domicílio (cuja destruição teve papel importante na degradação das condições de vida dos pequenos lavradores do Norte). 1.5 ‐ A crise dos finais do século XIX l.5.1.‐As principais causas da crise. Aos últimos 10 ou 15 anos do século passado correspondeu uma situação de profunda e complexa crise, cujas principais causas podem ser sistematizadas em internas e externas. As primeiras prendem‐se à própria lógica da dinâmica económica característica de toda a segunda metade do século XIX, nomeadamente quanto à perda dos mercadas externos dos produtos agrícolas, documentada no ponto anterior, e ao consequente agravamento do nosso deficit comercial externo, não foi possível responder com um mercado interno suficientemente desenvolvido e dinâmico. A não existência de um mercado interna suficientemente desenvolvido é por sua vez, determinada pelo lento ritmo de industrialização induzido ou implicado pela vigência do "livre‐cambismo" nas trocas internacionais. Este conjunto de circunstâncias faz com que o aumento populacional não seja absorvido pela criação de novos postos de trabalho, o que vai implicar um importante acréscimo no fluxo emigratório. É na base da emigração, que aliás se transforma numa característica estrutural do capitalismo português, que se originam importantes volumes de "remessas dos emigrantes", sucedâneos do papel outrora desempenhado pelas especiarias do Oriente, pelo açúcar brasileiro no século XVIII e pelo ouro também brasileiro no século seguinte, e que ao financiarem o deficit comercial externo, vão alimentar a procura externa em vez de servirem como dinamizador do processo produtivo interno. As causas externas da crise devem ser procuradas na agitada conjuntura internacional a que corresponde numa fase de reordenação à escala planetária e que tem a sua mais importante materialização na Conferência de Berlim de 1885. Uma das principais conclusões dessa Conferência é a chamada "doutrina da ocupação efectiva" que traduz a disputa dos territórios africanos entre os principais países europeus que já neste momento estão numa fase em que procuram novos mercados para colocação de capitais, enquanto Portugal, com um capitalismo numa fase mais atrasada procura nesses territórios mercados para produtos. O quadro doutrinal que emerge deste contexto ao determinar, nomeadamente, a necessidade de um povoamento, domínio e colonização efectivos das vastas áreas africanas como única forma de garantir a continuação da soberania portuguesa sobre esses territórios, contendia, naturalmente, com as limitadas possibilidades de colonização de Portugal. O ultimatum Britânico de 1890 é a concretização ou materialização das teses da Conferência de Berlim e alguns autores chegam mesmo a dizer que, se a bandeira portuguesa continuou a flutuar em África, isso se ficou a dever ao facto de corresponder aos interesses ingleses que, dada a posição de domínio que tinham sobre a Metrópole, assim puderam retirar esses territórios da cobiça dos seus concorrentes europeus, reservando‐os para si numa posição privilegiada Ainda dentro do que estamos a chamar causas externas da crise, assume importância a Argentina, que contribui para a crise financeira através da falência de uma casa bancária que funcionava como banqueiro do Estado português e, principalmente, a crise Brasileira que, documentada na abolição da escravatura em 1888 e na proclamação da república em 1889, veio provocar uma profunda e abrupta diminuição das remessas dos emigrantes. Sintetizando, podemos dizer que a perda dos mercados externos dos produtos primários conjugada com a diminuição das remessas dos emigrantes vai levar aos deficits da Balança de Pagamentos que pela sua importância acaba por nos conduzir à inconvertibilidade da moeda ‐ bancarrota ‐ manifestação financeira de uma crise que sendo também económica e social , era cada vez mais política. A crise era nuclearmente financeira traduzindo‐se pelo abandono da convertibilidade da moeda como última manifestação de um desequilíbrio cambial profundo. A crise era económica pois tratava‐se de uma crise tipicamente capitalista com os clássicos excedentes de produção, em relação às possibilidades de escoamento do mercado interno, o que, naturalmente, sugeria a necessidade de realização de amplas reformas económicas. O aspecto social da crise é particularmente caracterizável no processo de proletarização e/ou emigração (que vai crescer sempre, com as diminuições de ritmo eventualmente impostas pela conjuntura internacional, como por exemplo durante as guerras) e na alteração que se vai verificando sob o ponto de vista de alianças sociais. De facto, à aliança entre a burguesia agrária e burguesia comercial, substrato social da dinâmica económica da segunda metade do século XIX, vai crescentemente suceder‐se uma aliança entre a burguesia comercial e a burguesia industrial nascente. A crise ganha uma forte componente política uma vez que a este período vai corresponder uma fase de grande difusão e implantação dos ideais republicanos, com o respectivo partido a saber fazer, naturalmente o aproveitamento de toda e qualquer manifestação da crise geral, para demonstrar a falência da instituição monárquica. 1.5«2 ‐ As hipóteses de saída da crise e a conjuntura internacional São como é óbvio, os próprios parâmetros da crise que vão condicionar, quiçá determinar, as suas hipóteses de resolução e de saída. Assim, as dificuldades cambiais vão funcionar como o melhor dos proteccionismos que, conjugadas com a pauta de 1892, inflexão proteccionista no capítulo aduaneiro, criam as condições rara um significativo do surto industrial, que a generalidade dos autores localizam neste período e que parece ser confirmado pelo facto de nos seis anos que vão de 1892 a 1898 se terem importado 9000 contos de maquinismo;, o que, ao documentar o surto industrial, nos diz, por outro lados, da dependência do país face ao exterior, no próprio arranque de industrializarão. Este "surto industrial" que, sinteticamente, consubstanciou na expansão do sector algodoeiro, no aparecimento da produção de cimentos, no incremento da construção civil, na indústria de alfaias agrícolas (Duarte Ferreira), tintas e vernizes, de extracção de óleos industriais e de superfusfatos vai confirmar, definitivamente e irreversivelmente, a ultrapassagem do Porto por Lisboa em termos de importância industrial e são, precisamente, algumas destas indústrias que irão estar na base dos grupos industriais que virão a dominar a economia portuguesa anos mais tarde. Apesar deste "surto industrial" é curioso notar que, no entanto, mesmo em 1911, a população fabril não absorveria senão 20% dos trabalhadores industriais, o que dá uma ideia do peso do artesanato, da produção ao domicílio e do trabalho em pequenas oficinas. Conjugada com o "salto industrializante" está a mudança de atitude do capital Bancário. Até 1364 está‐se na primeira fase, na época do aparecimento e consolidação de estabelecimentos bancários. Depois, o sistema creditício vai estendendo a sua acção sobre os vários sectores da economia, alargando a sua influência à medida que o sistema económico se desenvolve. 
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A primeira metade do século XIX O processo da economia