1 Especial: Educação Escolar Indígena: uma história de conquistas 19 Outubro 2 Educação Escolar Indígena: uma história de conquistas Luís Donisete Benzi Grupioni1 Apresentação O programa “Educação Escolar Indígena: uma história de conquistas” tem um duplo propósito. De um lado, pretende-se traçar um panorama de como o ensino escolar entre os povos indígenas no Brasil se desenvolveu ao longo da história. Nossa intenção é mostrar a transformação que ocorreu com a instituição escolar em meio indígena, evidenciando, de um lado, seu papel integrador e assimilacionista, como parte do projeto colonial e depois nacional, quando os índios e os territórios por eles ocupados precisavam ser incorporados à nação e, de outro lado, a situação atual, quando a educação passa a ser apropriada pelos povos indígenas, que nela vislumbram a possibilidade de construir novas formas de relacionamento com a sociedade envolvente. Esse programa pretende, ainda, propiciar uma reflexão sobre as idéias e práticas que têm norteado a proposta de uma escola indígena específica e diferenciada, tendo à frente professores indígenas formados para uma prática pedagógica ancorada no bilingüismo e na interculturalidade. Trata-se, aqui, de apontar potencialidades, mas também reconhecer pontos de estrangulamento, dificuldades e desafios do presente. Com esse duplo propósito, esperamos incentivar uma reflexão não só por parte daqueles que atuam diretamente no contexto da educação escolar entre os povos indígenas, mas entre todos os professores e profissionais da educação, no sentido de descobrir e construir pontos em comum com a proposta de uma educação que se quer comunitária, porque atende às demandas postas pela comunidade e se alinha aos seus projetos de futuro. Esse é, enfim, o convite que esse programa, dividido em quatro blocos, quer fazer aos educadores brasileiros. 1 Antropólogo, doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, pesquisador associado ao Núcleo de História Indígena e do Indigenismo /USP e ao Iepé – Instituto de Pesquisa e Formação em Educação Indígena. É consultor do PNUD junto ao Ministério da Educação para ações na área de educação escolar indígena. Consultor deste programa especial. E-mail: [email protected]. 3 1. Os povos indígenas no Brasil Embora haja avanços inegáveis na quantidade e na qualidade das informações disponíveis hoje sobre os povos indígenas, seja em termos do conhecimento acadêmico, tanto com profundidade histórica quanto com densidade etnográfica, seja em termos de sua difusão pelos meios de comunicação, nas diferentes esferas de Governo, na escola e nos livros didáticos, o quadro de desconhecimento e preconceito em relação aos povos indígenas permanece com amplas ramificações pela sociedade. Sabe-se pouco e conhece-se mal a história e os modos de vida dos povos indígenas que vivem no Brasil. As figuras antagônicas e reducionistas do bom e mau selvagem continuam a balizar o olhar de parcela considerável da sociedade a respeito destes povos, ancoradas em idéias como a de que os índios são todos parecidos, vivem da caça e da pesca, andam nus na mata, adorando Tupã e falando Tupi, ou que já perderam suas línguas e culturas, estão aculturados, romperam a harmonia com a natureza e, portanto, já não são mais puros, como foram idealizados na literatura romântica. Informações equivocadas continuam sendo produzidas, alimentando representações desse tipo sobre os índios. Nos últimos anos, registramos uma preocupação em reformular o modo como os povos indígenas são tratados nos livros didáticos e, portanto, são apreendidos no ambiente escolar. É grande a distorção com que a história e a realidade atual dos povos indígenas são apresentadas nesses materiais. O lugar secundário e circunscrito a eventos pontuais de nosso passado, sua caracterização pela negação de traços culturais significativos (sem lei, sem rei, sem escrita e sem metais) e a generalização de práticas que encobrem uma expressiva diversidade cultural continuam a emoldurar o modo como professores e alunos debatem a temática indígena nas salas de aula do país. Os próprios índios se dão conta do quadro de desinformação que os cerca, como podemos aferir em alguns dos depoimentos que seguem: “Tem muita gente aí que diz que aqui no Nordeste não tem mais aldeia, não tem mais índio. Mas nós fomos os primeiros” (Quitéria Maria de Jesus, Pankararu/ PE). “O índio não existe. O índio é no passado. Índio é aquele outro” (Joaquim Maná Kaxinawá/ AC). 4 “O preconceito é muito grande. A grande maioria da população não gosta de índio. Vê o índio como uma coisa pejorativa, como um atraso, como um atrapalho” (Azilene Inácio Kaingang/ SC). “Porque muita gente chega e fala isso pra mim: – para que o índio quer terra? Eu sei para que o índio quer terra, mas também eu sei porque o branco não quer que a terra fique para os índios” (Daniel Kaiowa/ MT). “Ainda há pessoas, que não são poucas, que quando você fala em índio, acha que índios é um só: é a mesma língua, vive tudo do mesmo jeito, tem a mesma tradição (...) a mídia ainda não avançou o bastante para poder mostrar que cada povo tem o seu modo de viver, tem as suas crenças, a sua religiosidade, as sua cerimônias” (Félix Rondon Bororo/ MT). “Os povos indígenas do Brasil são tratados de uma forma equivocada, achando que todos os índios são iguais perante o costume, a língua (...) na verdade cada povo tem a sua identidade, tem a sua língua, tem a sua cultura e, finalmente, tem o seu modo de conhecimento e de transmitir o seu conhecimento para o seu povo. Somos diferentes em vários aspectos, em várias culturas, línguas, tradições” (Joaquim Paulo de Lima Kaxinawá/ AC). É certo que a disseminação de noções mais refinadas de cultura, mudança cultural, diversidade, direitos humanos, pluralidade e identidade contribuiriam para uma mudança de visão e de postura a respeito do lugar dos povos indígenas no Brasil e no mundo contemporâneo, abandonando a chave de que a aculturação é seu caminho sem volta e de que o futuro não lhes reserva um lugar. Ao longo da história, foram muitos os modos de ver e de interpretar os índios, bem como de pensar que tipo de papel eles poderiam desempenhar na sociedade brasileira, predominando a visão de que eram entraves ao progresso, de que não tinham futuro enquanto coletividades diferenciadas, que ensejaram políticas contrárias à sua sobrevivência cultural. De 1500 aos dias atuais, a questão indígena nunca foi uma questão de consenso, uma questão sobre a qual se pudesse chegar a um denominador comum, a contentar diferentes interesses, grupos e setores da sociedade brasileira. Ao contrário, sempre pairaram dúvidas sobre os melhores métodos, políticas, empreendimentos direcionados a esses povos. E felizmente as coisas se deram dessa forma, pois se olharmos para a história do Brasil, para a história de relacionamento com esses povos, essa foi uma história em que predominou a visão de que eles eram seres efêmeros e em constante transição: transição para a cristandade, transição para a civilização, transição para a 5 assimilação, transição para o desaparecimento, como nos mostra Carneiro da Cunha (1992), num livro que se tornou clássico sobre a história dos índios no Brasil. A escola ocupou um papel de destaque nessa história. Impondo-se por meio de diferentes modelos, ancorados em concepções diversas sobre o destino dos índios no Brasil, ela esteve presente desde os primeiros momentos da colonização. Catequizar, civilizar e integrar foram movimentos que definiram modelos de escolas impostos aos povos indígenas, promovendo submissão, imposição da língua nacional, abandono de práticas culturais. A escola missionária, na qual as crianças indígenas eram afastadas do convívio comunitário para viverem em internatos, e a escola civilizadora, destinada ao aprendizado da língua nacional e de ofícios de trabalho, foram dois modelos de escola amplamente praticados no Brasil. A memória das práticas instituídas por estes tipos de escola ainda se faz presente entre professores e lideranças indígenas: “Foram oito anos de internato, passava 45 dias por ano em casa. A gente era obrigado a falar português, deixar de lado a cultura, deixar de lado a língua materna” (Pedro Garcia/ Tariano/AM). “Eu estudei até a quarta série, depois fui estudar de 5ª a 8ª num internato de padres. Lá nesse internato nós praticamente não preservamos a cultura, não era valorizada a cultura dentro do internato. Você tinha que ter compromisso da evangelização, então isso era a principal idéia daquele internato. Você ser um catequista voltado à comunidade, trabalhar o evangelho, esse era o principal” (Fausto da Silva Macuxi/ RR). “Quem fosse pego falando a língua original pegaria algum castigo, ficaria sem merenda, pegava algum castigo dessa natureza” (Brás Oliveira Baré/ AM). “Eu me lembro de algumas coisas da escola do SPI, por exemplo, a repressão à língua, a proibição de falar. Porque no SPI, os militares colocavam pra gente que falar kaingang era uma coisa feia, falar o português era uma coisa bonita. Falar o português, você se torna um ser superior, falar o kaingang, você é uma pessoa menos importante” (Azilene Kaingang/ PR). “O governo implantava escola em comunidades indígenas com a idéia de integrar os índios na comunhão nacional, na sociedade nacional” (Félix Rondon Bororo/ MT). O processo de escolarização formal imposto aos povos indígenas, visto sob o ângulo do tempo, se revela como uma história de longa duração, na qual os povos indígenas sempre foram vistos como um problema e a única resposta que se conseguiu 6 construir foi a formulação de políticas para que eles deixassem de ser o que eram. A escola foi um dos principais instrumentos para promover essa mudança. Mas como a história, tal como nos ensina o dito popular, também se escreve por linhas tortas, foi-se com o tempo firmando a constatação de que, apesar das políticas contrárias, o sentimento de pertencimento étnico, alicerçado em formas particulares de ser, estar e se expressar no mundo, não se esvaía tão facilmente e vários povos que conseguiram sobreviver às políticas claramente genocidas e integradoras empregadas primeiro pelo Estado português, e depois pelo Estado brasileiro, insistiam em manter suas identidades, que se materializavam em uma persistente distância de outros grupos indígenas e dos demais segmentos que compõem a sociedade brasileira. Apesar das políticas deliberadas de integração dos índios praticadas pelo Governo brasileiro durante décadas, o que vimos acontecer foi que pequenas populações reencontraram o eixo de seu crescimento demográfico e re-elaboraram seus modos particulares de estar no mundo, firmaram-se enquanto coletividades diferenciadas e se organizaram de modo a exigir um novo tratamento deste Estado em relação a elas. É verdade que esse atual protagonismo indígena deva ser entendido dentro de um processo histórico em que a grande maioria dos povos indígenas simplesmente deixou de existir, foi extinta, sucumbiu frente à determinação dos colonizadores ou daqueles que disputaram com eles a posse de seus territórios. Dos 6 milhões de indivíduos estimados para a época da conquista, sobrevive hoje no Brasil uma população em torno de 500 mil índios, e as mais de 1.200 línguas indígenas que eram faladas, quando da chegada dos primeiros portugueses, reduzem-se à cerca de 180 línguas. Os povos que sobreviveram são poucos, constituem uma minoria, que ainda assim insistem em manter alguma forma de autonomia em relação ao restante da sociedade brasileira. O saldo, praticamente sempre negativo ao longo da história, dá sinais de que pode ser diferente, na atualidade. 2. Novos tempos, novos direitos A afirmação de que os povos indígenas têm direito a manterem suas culturas, suas línguas, seus modos de vida, suas visões de mundo parece encontrar cada vez mais ressonância na sociedade brasileira. Ampliam-se os espaços de aceitação da diferença num mundo cada vez mais interligado, com um grande fluxo de informações e circulação 7 de bens e pessoas, onde os povos indígenas precisam encontrar um espaço, não só para sobreviver, mas para viver dignamente, de acordo com suas concepções. A seu favor, eles contam hoje com um novo paradigma, em que seu desaparecimento não é mais dado como certo, e em que o Estado brasileiro reconhece seus direitos enquanto coletividades diferenciadas e passa, em anos recentes, a formular políticas específicas para sua proteção. A Constituição brasileira é um divisor de águas nessa história, e teve impacto marcante na reformulação da legislação subseqüente, re-orientando as políticas públicas até então dirigidas aos povos indígenas. Ela assegurou aos índios no Brasil o direito de permanecerem índios, isto é, de permanecerem eles mesmos, com suas línguas, culturas e tradições. Ao reconhecer que os índios poderiam utilizar suas línguas maternas e seus processos de aprendizagem na educação escolar, instituiu-se a possibilidade de a escola indígena contribuir para o processo de afirmação étnica e cultural desses povos, deixando de ser um dos principais veículos de assimilação e integração. Desde então, as leis subseqüentes à Constituição que tratam da educação, como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e o Plano Nacional de Educação, têm abordado o direito dos povos indígenas a uma educação diferenciada, pautada pelo uso das línguas indígenas, pela valorização dos conhecimentos e saberes milenares desses povos e pela formação dos próprios índios para atuarem como docentes em suas comunidades. Comparativamente a algumas décadas atrás, trata-se de uma verdadeira transformação em curso, que tem gerado novas práticas a partir do desenho de uma nova função social para a escola em terras indígenas. Esse novo ordenamento jurídico tem ensejado a construção de uma nova política pública voltada para o atendimento das necessidades educativas dos povos indígenas, pautada por novos princípios, que abandonam definitivamente o paradigma da integração que marcou a atuação das agências indigenistas do Estado brasileiro, o Serviço de Proteção aos Índios – SPI e a Fundação Nacional do Índio – Funai. Se, no plano legislativo, a Constituição é o marco da mudança, no plano administrativo, do Poder Executivo, foi a promulgação do Decreto n. 26/91, que transferiu a responsabilidade pela coordenação das ações de educação escolar indígena no país da Funai para o Ministério da Educação, que permitiu a construção de uma política pública especificamente voltada para este segmento da população. Tal política foi construída pelo 8 MEC, em parceria com os sistemas de ensino, organizações da sociedade civil e organizações indígenas, e se ergueu a partir da formulação de que a educação a ser oferecida aos povos indígenas no país deveria se assentar nos princípios da interculturalidade, da especificidade, da diferença, do bilingüismo, reforçando os laços comunitários, o sentimento de pertencimento étnico e a valorização dos saberes e práticas tradicionais desses povos. As mudanças propostas em 1991, com a formulação dessa nova política, foram paulatinamente sendo incorporadas pelos sistemas de ensino, a partir da estruturação de instâncias administrativas e da elaboração de diretrizes e orientações curriculares específicas para essa modalidade de ensino. Assim, no âmbito do Ministério da Educação, foi criada uma assessoria, depois transformada em coordenação geral de educação indígena, dentro da estrutura da Secretaria de Educação Fundamental (SEF). Como instância consultiva e de orientação aos trabalhos do Ministério, foi constituído o Comitê Nacional de Educação Escolar Indígena, reunindo representantes governamentais e não-governamentais atuantes nesse campo. Hoje, essa coordenação encontra-se lotada na Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD) e esse comitê foi transformado na Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena, integrada por professores e lideranças indígenas. Essa organização no nível federal incentivou a constituição de instâncias específicas nos sistemas de ensino estaduais, com a criação de setores próprios para o gerenciamento da educação indígena. Alguns estados da federação contam com tais estruturas. Outros constituíram Conselhos Estaduais de Educação Escolar Indígena, com o intuito de assessorar e subsidiar não só as secretarias estaduais, como também os Conselhos Estaduais de Educação, como foi o caso de Mato Grosso e Amazonas. Outros estados, porém, não criaram instância alguma, nem contam com pessoal especializado ou recursos específicos para atender à demanda da educação indígena. O quadro administrativo atual é, assim, bastante diversificado e tem crescido, nos últimos anos, a insatisfação dos índios com o sistema como um todo, na medida em que suas demandas não são contempladas por essas instâncias de Governo. A conhecida e persistente distância entre o que diz a lei e o que ocorre na prática incomoda cada vez mais representantes indígenas empenhados em construir alternativas que viabilizem uma escola indígena mais afinada aos seus projetos de futuro. Mobilizados 9 em associações e organizações, eles têm lutado em diferentes frentes para serem reconhecidos e para fazer valer seus direitos, como podemos perceber pelos depoimentos a seguir: “O índio não está acabando, pelo contrário, a população indígena tem aumentado significativamente. As retomadas de nossas áreas, elas se dão porque a população está aumentando. O índio não está fadado ao extermínio, com certeza. Esse é um pensamento já ultrapassado, já superado de que o índio é um ser em extinção. (...) Com certeza nós nunca vamos deixar de ser índios” (Azilene Inácio Kaigang/ SC). “Hoje está demarcando, já pensou se nós não tivéssemos brigando aí, não sei onde é que a nação indígena se encontraria hoje. Nós sabemos que é um direito, que até a própria Constituição está rezando isso” (José Lopes Kaingang/ RS). “Eu vejo mudança desde a Constituição de 1988, porque depois de assegurados os nossos direitos na Constituição eu vejo que vem melhorando bastante. Então, com relação à educação, por exemplo, tem assegurado na LDB, no Plano Nacional de Educação e outras leis educacionais que vêm saindo. A gente tem conseguido assegurar os nossos direitos. Então tem avançado muito em termos da lei” (Theodora). Foi com a publicação das “Diretrizes para a política nacional de educação escolar indígena”, em 1993, que o Ministério da Educação iniciou o processo de estruturação de uma política específica para essa modalidade de ensino. Esse documento teve um grande impacto no contexto das escolas indígenas do país, não só por estabelecer os princípios que deveriam reger essa nova educação indígena, pautada, como dito acima, pelas práticas do ensino intercultural e bilíngüe, mas por colocar o MEC como o definidor dessa nova política. Nos anos seguintes, outros documentos orientadores, normatizadores e indutores de novas práticas foram lançados pelo MEC: em 1998, foi lançado o Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas e em 2002, o Referencial para formação de professores indígenas. Paralelamente à preparação e à difusão destes documentos junto aos sistemas de ensino, o Ministério da Educação submeteu consulta ao Conselho Nacional de Educação, que resultou na aprovação da Resolução n. 03/99 e do Parecer n. 14/99, que instituíram as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena e a criação da categoria escola indígena junto aos sistemas de ensino, com normas e ordenamentos jurídicos próprios. A criação desta categoria foi fundamental para a regularização das escolas localizadas nas terras indígenas do país, que até então não eram reconhecidas e funcionavam como salas anexas de escolas rurais, pautando seu trabalho por 10 calendários, materiais didáticos e metodologias inapropriadas ao contexto indígena. Deste modo, pode-se afirmar que é recente o impacto das mudanças legais e administrativas, bem como a própria constituição da educação indígena como uma modalidade de ensino, que merece um tratamento próprio e diferenciado dentro do sistema de ensino do país. Os desafios são inúmeros e os próprios professores indígenas estão conscientes das dificuldades. Nas falas transcritas a seguir, podemos acompanhar algumas de suas reflexões: “Ter uma terra demarcada, ter uma escola na aldeia, ter um agente de saúde, e ter agentes florestais que estão se formando. Não é só isso que resolve o nosso problema. A gente vai ter que conquistar mais direitos, como direitos da cidadania. Tem vários direitos conquistados mas precisamos conquistar muito mais ainda” (Joaquim Maná Kaxinawá/ AC). “Comecei a estudar com uma professora branca. Passou seis meses. Nunca a gente entendeu o que ela falava” (Creuza Krahô/ MA) “Nós temos que dizer que nós somos diferentes e temos que ser respeitados conforme a nossa maneira de viver, nossa maneira de aprender também” (Bonifácio José Baniwa/ AM) “O que a gente pretende é formar alunos lá dentro mesmo (da aldeia). Nós somos capazes de fazer isso” (Francisca Oliveira Lima Arara/ AC). Em termos numéricos, trata-se de um universo ainda pouco conhecido. Em 1999, o Ministério da Educação realizou o primeiro censo escolar indígena, quando se evidenciou a existência de 1.392 escolas em terras indígenas no país. Estavam em atuação, nessas escolas, 3.998 professores, sendo 3.059 eram indígenas. Estes lecionavam para 93.037 estudantes indígenas, dos quais 80,6% estavam no Ensino Fundamental, com uma grande concentração na primeira série, o que evidenciava a falta de estruturação das escolas indígenas em todo o país. A partir deste levantamento, o INEP/MEC incluiu questões nos censos escolares dos anos seguintes, que permitiram acompanhar a evolução dessas escolas no sistema de ensino. É assim, por exemplo, que em 2005, em dados ainda preliminares, foram identificadas 2.324 escolas, onde estudam 164.018 alunos. Uma das explicações para esse vertiginoso aumento de escolas e estudantes é o reconhecimento de escolas como indígenas, quando antes muitas delas não gozavam dessa prerrogativa. 11 3. Escola Indígena, específica e diferenciada Esse novo modelo de escola indígena, que se ancora na proposta de que a educação a ser desenvolvida nas terras indígenas deva se estruturar a partir dos princípios da especificidade, da diferença, de ser comunitária, bilíngüe e intercultural, foi sendo pensado, testado, melhorado em várias comunidades indígenas, principalmente aquelas localizadas na Amazônia, como forma de resistência à escola integradora implementada, primeiramente, pelo SPI e, depois, pela Funai. Se a marca da escola integradora era a imposição da língua portuguesa e de valores e práticas não indígenas, a marca dessa nova escola, proposta e pleiteada por comunidades indígenas, é a valorização das línguas nativas, das culturas e dos conhecimentos indígenas. Tais práticas alternativas surgiram a partir de pequenos projetos e iniciativas conduzidos por organizações não-governamentais de apoio aos índios em parceria com comunidades indígenas interessadas em dar um novo sentido para a instituição escolar. A alfabetização na língua indígena falada pelas crianças, também utilizada como língua de instrução, a participação da comunidade nas decisões sobre os objetivos e rumos da escola, a valorização e sistematização de conhecimentos tradicionais em sala de aula, juntamente com o aprendizado do conhecimento ocidental, em que os professores indígenas, membros de suas respectivas comunidades, preparavam seus próprios materiais didáticos, acabaram por constituir um conjunto de práticas que deu origem a um novo modelo de educação escolar. Na medida em que iam angariando resultados exitosos, essas experiências foram sendo sistematizadas, difundidas e passaram a ser reconhecidas oficialmente. Nesse processo, elas passaram a servir de referência para se pensar um novo papel para a instituição escolar em terras indígenas, influenciando a legislação e as políticas públicas do setor. Esse conjunto de idéias e práticas, ainda que ancorado em proposições simples, se efetiva a partir de complexas implicações práticas. Vem daí as dificuldades para que elas se generalizem, modificando o jeito da escola em terras indígenas. Nos últimos anos, ampliou-se o consenso a respeito dessas premissas, que cada vez mais são compartilhadas por professores, comunidades indígenas, especialistas e técnicos governamentais. 12 Seguindo o que foi apresentando no documento Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas, que marca a institucionalização dessa proposta da escola diferenciada como política pública do Estado brasileiro, resumem-se, a seguir, as principais idéias que dão sustentação a esse novo modelo de escola. A escola indígena deve ser, antes de tudo, uma escola comunitária, porque, como afirmado no documento do MEC, “conduzida pela comunidade indígena, de acordo com seus projetos, suas concepções e seus princípios. Isto se refere tanto ao currículo quanto aos modos de administrá-la. Inclui liberdade de decisão quanto ao calendário escolar, à pedagogia, aos objetivos, aos conteúdos, aos espaços e momentos utilizados para a educação escolarizada" (MEC, 1998, p. 24). Isso só se tornará uma realidade se à frente da escola indígena, como professores e como gestores, estiverem índios das respectivas comunidades. Promover o intercâmbio e a troca de conhecimentos é outra característica que baliza essa proposta de uma nova escola indígena. Um espaço para o exercício da interculturalidade, que possa propiciar o contato com diferentes concepções culturais, promovendo sínteses e alimentando o respeito pela diferença. Citando novamente o Referencial do MEC, a escola indígena é intercultural: "Porque deve promover e manter a diversidade cultural e lingüística; promover uma situação de comunicação entre experiências socioculturais, lingüísticas e históricas diferentes, não considerando uma cultura superior à outra; estimular o entendimento e o respeito entre seres humanos de identidades étnicas diferentes, ainda que se reconheça que tais relações vêm ocorrendo historicamente em contextos de desigualdade social e política" (MEC, 1988, p. 24). A interculturalidade também se realiza na valorização das línguas nativas maternas faladas pelas comunidades indígenas. Por essa razão, afirma-se que a escola indígena deva ser bilíngüe e, em alguns contextos, multilingüe: "Porque as tradições culturais, os conhecimentos acumulados, a educação das gerações mais novas, as crenças, o pensamento e a prática religiosos, as representações simbólicas, a organização política, os projetos de futuro, enfim, a reprodução sociocultural das sociedades indígenas são, na maioria dos casos, manifestações através do uso de mais de uma língua. Mesmo os povos indígenas que são hoje monolíngües em língua portuguesa continuam a usar a língua de seus ancestrais como um símbolo poderoso de onde confluem muitos de seus traços identificatórios, constituindo, assim, um quadro de bilingüismo simbólico 13 importante" (MEC, 1998, p. 25). A valorização da língua materna falada pelas crianças, possibilitando a escrita dessas línguas e criando novos contextos de uso, ocorre ao lado do aprendizado do português, como língua nacional. Ao se propor como comunitária, intercultural, bilíngüe/multilíngüe, essa nova escola indígena precisa ser específica e diferenciada, “(...)Porque concebida e planejada como reflexo das aspirações particulares de cada povo indígena e com autonomia em relação a determinados aspectos que regem o funcionamento e orientação da escola não-indígena” (MEC, 1998, p. 25). Assim, essas escolas exercitam e experimentam características que as distinguem das demais escolas públicas do país, ao mesmo tempo em que são distintas e próprias a cada povo indígena. O sentido de uma educação diferenciada pode ser compreendido por meio da reflexão de alguns professores indígenas: “O sentido da escola para os povos indígenas é porque a educação foi uma arma que serviu de desestruturação, levando nossa cultura, levando nossa economia. (...) A educação que nos impuseram foi a educação nacional, ou seja, a educação européia, a educação do não índio. E educação indígena é toda a nossa vida. E a nossa vida não é retratada dentro dos padrões dessa outra educação que nós tínhamos” (Iolanda Potiguara/ PB). “A escola indígena deve ser diferenciada, porque os seus clientes são diferentes. É diferente tanto de um povo para outro” (Félix Rondon Bororo/ MT). “Queremos atingir essa falada educação diferenciada, que é o respeito à cultura indígena, o respeito à realidade dos povos indígenas, que essa escola venha contemplar os valores da cultura, como um todo, de um povo e que essa escola sirva realmente como um mecanismo de melhoria de vida dos povos indígenas” (Jecinaldo Barbosa Sateré-Maué/ AM). “A nossa cultura não era vista e hoje ela está vindo à tona. As crianças não têm mais vergonha de dizer que são índios, não têm mais vergonha de se sentir, não têm mais vergonha de buscar o seu verdadeiro eu. E é isso é que faz o sentido da verdadeira escola indígena” (Iolanda Potiguara/ PB). “O povo Pataxó, não tem professor melhor para trabalhar com ele do que o próprio Pataxó, porque aquele Pataxó que conhece a realidade de seu povo, aquele Pataxó que vai respeitar o que o seu povo é. Respeitar as diferenças que tem dentro do seu povo” (Manguadá Pataxó/ MG). “É porque ela é coletiva, ela é societária e ela constrói junto com todo povo daquela aldeia. Nas discussões vai se observando a demanda e em cima daquela demanda vai se buscando o objetivo e como a gente vai encontrar, ou seja, a metodologia de trabalho para se fazer, por isso que nós chamamos de projeto societário, porque é 14 todo povo construindo, buscando, dialogando, interpretando e se conscientizando também” (Iolanda Potiguara / PB). “É preciso fazer discussão com a comunidade, reuniões não com as crianças, mas com os pais. Envolver realmente a sociedade indígena de um determinado povo como um todo, porque só assim que nós realmente vamos estar repassando para as crianças e para o povo, de uma forma geral, essa educação” (Jecinaldo Barbosa Sataré-Maué/ AM). Para que a escola indígena possa cumprir o papel que dela esperam os povos indígenas, ela não pode ser organizada ou pensada a partir de um único modelo de escola, mas deve se concretizar em tantas escolas quanto são os povos em que ela está presente. Para tanto, ela precisa, em primeiro lugar, contar com professores índios, membros de suas respectivas comunidades formados para o magistério intercultural por meio de programas específicos de formação de professores. Precisa também ser organizada a partir de calendários próprios que incorporem as atividades cotidianas e cerimoniais dos povos indígenas. E deve contar com recursos pedagógicos e materiais didáticos específicos que valorizem e tragam, para dentro da sala de aula, os conhecimentos e os saberes tradicionais daqueles povos, escritos em língua indígena e em língua nacional. Currículos próprios, elaborados pelos professores indígenas, vinculando propostas pedagógicas ao cotidiano da comunidade em que a escola está inserida, complementam os requisitos para dar efetividade à proposta da escola indígena diferenciada, moldada a cada povo indígena, respondendo às suas demandas e formando crianças e jovens de acordo com os seus ideais e padrões culturais. Nas transcrições a seguir, pode-se verificar como essas idéias estão sendo postas em prática por professores indígenas engajados em construir uma nova escola indígena: “Durante o magistério, nós construímos um currículo escolar onde inserimos (...) calendários diferenciados” (Korotawi Ikpeng/ MT). “Nós conseguimos botar no nosso currículo. Respeitar a parte da cultura, respeitar os dias que para nós são sagrados, as festas. Então, tudo isso a gente coloca de uma forma que pode ser trabalhada dentro da sala de aula (...) Isso que a gente fala que é o nosso currículo diferenciado” (M.). “A nossa escola é voltada ao currículo nosso, nós mesmos o elaboramos. Isso como? Buscando conhecimento. Por exemplo, na geografia, por exemplo, buscamos onde os mais velhos andavam, o seu território. São os rios que lhes pertenciam no passado, que hoje não estão, estão dentro das fazendas. Então, o nosso currículo integra os mais velhos E na nossa sociedade quem faz a escola não é só professor, não é só aluno: é o aluno, professor e a comunidade em geral (Maria Ilda Irantxe/ MT). 15 “A maior enciclopédia que nós temos na comunidade são os velhos, as pessoas que sabem rezar, é o cacique, são as lideranças, e a gente espera que, no futuro, as nossas crianças respeitem a nós como nós respeitamos os nossos pais, os nossos avós e todos e todos da aldeia. Nós também temos que anotar, gravar para poder guardar e a nossa criança também, às vezes o velho morre, perde uma história, ninguém vai conhecer mais” (Manguadá Pataxó/ MG). “Eu sempre trago uma pessoa que conhece sobre a história. Levo para minha sala de aula. Aí quando tem alguma exposição das crianças, eu convido esse pessoal da comunidade para vir e assistir à exposição” (Maria Terezinha Ataíde Ticuna/ AM). “Nós temos da alfabetização ao 2º ano do Ensino Médio, sendo que de 1ª a 4ª série nós temos um único professor. Então, lá nós trabalhamos na língua materna, as aulas são ministradas na língua materna” (Magno Amaldo Bakairi/ MT). “Nós, os professores indígenas do Acre, elaboramos uma cartilha “História do povo indígena” em quatro períodos: tempo da maloca, tempo da correria, tempo do cativeiro, tempo dos direitos” (Jaime Lulhu Manchineri/ AC). “Nesses materiais estão contidas as lendas, estão contidos os seres vivos da nossa floresta, estão contidas as árvores que compõem a nossa área indígena. Então, são materiais onde estão escritos a cultura, os rituais, para criança saber, para ela sentir que ela tem uma riqueza muito grande” (Jecinandldo Barbosa Sataré Maué/ AM). “Não basta ter os direitos garantidos em leis, é preciso que alguém escute e implemente então essas políticas, esses direitos. E isso é possível a partir do momento que tem alguém lá da base indígena que consiga realmente fazer esse trabalho, colocar em prática aquilo que está em lei” (Theodora) 4. Professores Indígenas A proposta de formar alguns membros da própria comunidade indígena como professores, para atuarem nas escolas das aldeias, surgiu a partir da experiência de trabalho de alguns índios como monitores bilíngües. Estes foram treinados para atuarem como tradutores de professores não-índios nas atividades de alfabetização de crianças e jovens monolíngües, em suas línguas maternas. O trabalho de professores não-índios, sem treinamento específico, vivendo em áreas distantes da cidade, longe de seus familiares, foi um modelo de ação que não deu certo na maioria das aldeias do país. Com a saída desses professores não-índios das escolas, os professores indígenas passaram a assumir as salas de aula e a exercer a docência. A aposta nesses novos professores se justificava pelo fato de já viverem na comunidade, compartilharem a língua e o modo de 16 vida do grupo, e atenderem à demanda de várias comunidades por formação de seus membros. Projetos pioneiros de formação de professores indígenas tiveram origem na atuação de organizações não-governamentais de apoio aos índios, trabalhando em determinadas comunidades indígenas. Surgiram como uma alternativa para responder à demanda por formação dessas comunidades e, na medida em que obtiveram reconhecimento oficial, estabeleceram-se como paradigma para a ação governamental. Tais projetos, em sua maioria, promoveram a escolarização dos professores indígenas, ao mesmo tempo em que estes eram formados para atuarem nas escolas das aldeias. A estratégia foi ensinar Português, ao mesmo tempo em que se ensinava como ensinar Português, ou seja, a escolarização se dava concomitantemente ao processo de formação desses indivíduos como professores de suas escolas. A grande maioria deles, inclusive, estava em sala de aula. Vem daí a proposta de que a formação de professores indígenas deva se dar em serviço. Isso permite que o professor vivencie sua formação com um duplo viés: ele é discente no curso, mas é docente na escola. Essa dupla condição ancora as propostas de formação diferenciada, em que este professor em formação é a todo momento chamado a refletir sobre suas práticas e atitudes frente a um novo conteúdo ou procedimento trabalhado. Nesses cursos, os professores indígenas são incentivados a refletirem também sobre o seu papel dentro da comunidade. Abaixo, podemos acompanhar algumas reflexões de professores em formação: “Ser professor é, no meu entender, ser um mediador, articulador” (Lucas Ruriõ, Xavante/ MT). “Ser professor é você ter muita responsabilidade, porque o professor, dentro da comunidade indígena, é visto como alguém que sabe um pouco mais das coisas. E eles esperam muito do professor, eles vêm o professor como um líder também da comunidade, alguém que vai ajudá-los nesse processo de buscar soluções, de apresentação de propostas dos problemas da aldeia” (Theodora). “Então, hoje na escola são todos professores índios e nela funciona o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, com todos os professores, diretores, secretário, coordenador, merendeira, faxineira, todos são índios e funciona lá na própria aldeia” (Magno Amaldo Bakairi / MT). “E hoje, a gente, como professor, a gente está falando do nosso próprio conhecimento, do nosso próprio povo. Isso significa que todos os professores indígenas vão ter que se obrigar a fazer o seu projeto político-pedagógico tratando de 17 todos os conceitos em sala de aula, para estar ensinando os nossos jovens. Senão daqui mais uns anos a gente vai estar igualzinho aos brancos, falando da nossa identidade, e se a gente quer falar da identidade, você tem que ter um conhecimento bem amplo e colocar isso em prática para que os jovens desenvolvam esse conhecimento” (Joaquim Maná Kaxinawá/ AC). “A educação dentro das comunidades indígenas não tem conseguido formar o sujeito indígena para uma profissão e também não tem conseguido formar o indígena para poder sobreviver na sua própria terra” (Theodora). “A gente tem tentado fazer isso através da escola. Porque toda a população indígena atualmente está passando pela escola. A escola tem sido um instrumento fundamental para a reconstrução de uma sociedade indígena, de um povo indígena, que se identifica como povo (Fausto Silva, Macuxi/ RR). “Porque antes a gente foi um povo muito massacrado, a gente ficou perto dos patrões, dos seringueiros, e eles obrigavam a gente a não falar a língua indígena, achavam que a gente poderia falar a língua portuguesa igualmente a eles. A primeira vez que eu participei do curso, eu não sabia falar muito bem a minha língua e hoje eu já consigo. A gente resgatou história, pinturas, festa, mitos e a gente está aí avançando mais na nossa cultura. Como nós somos várias etnias aqui, a gente se sente assim muito feliz, de ver os outros professores falando seu próprio idioma, falando dos alimentos, falando da cultura deles. O que a gente pretende, quando chega na aldeia, é pesquisar com os velhos. Que a gente possa trazer aqui aquilo que é a nossa origem, aquilo que é a nossa identidade” (Francisca Oliveira Lima, Arara/ AC). “Eu acho que a escola é um ponto de referência para você ter vários contatos: da língua portuguesa, de outra cultura, da sua própria cultura, da sua língua escrita” (Joaquim Maná Kaxinawá/ AC). Variam os formatos dos cursos de formação de professores indígenas: alguns são dirigidos a um único povo, outros aos moradores de uma mesma terra indígena, assumindo um caráter pluriétnico, e outros aos professores de um determinado estado da Federação. Todos eles, porém, organizam suas atividades em função de etapas presenciais, em que os professores contam com docentes especialistas, realizadas normalmente duas vezes ao ano, e etapas a distância, em que trabalham sobre os conteúdos vistos na etapa presencial, realizam pesquisas, preparam materiais, contando, às vezes, com assessoria pedagógica. Nessa formação, trabalham com conhecimentos e saberes escolares e também com pesquisas sobre os saberes e conhecimentos de sua comunidade, elaborando materiais didáticos específicos, em língua indígena, em Português, bem como material bilíngüe, para serem usados com seus alunos. 18 Hoje, essa formação já se estendeu até o 3º. Grau, e as primeiras experiências de uma formação diferenciada em licenciaturas interculturais vão ganhando forma. Em 2006, acontece a formatura da primeira turma de professores indígenas do Projeto 3º. Grau Indígena, da Unemat, com 200 professores formados. Também em Roraima e em São Paulo, prosseguem as aulas de cursos de licenciaturas voltadas à formação de professores indígenas. Outras iniciativas estão em curso em outros estados e universidades no país. O ineditismo da proposta desenvolvida na Unemat pode ser verificado no entusiasmo com que dois professores indígenas, participantes do projeto na condição de “acadêmicos”, falam sobre o curso: “O 3º grau indígena foi o resultado da reivindicação dos professores indígenas na ocasião da Conferência Ameríndia, que foi realizada em Cuiabá, em Mato Grosso, em 1997. Então foi uma articulação, um movimento em nível do Brasil, e por isso o nosso governo acatou essa reivindicação. Por isso que várias etnias fizeram parte desse programa, quer dizer a proposta dele visa à diversidade” (Lucas Ruriõ Xavante/ MT). “Por exemplo, esse contato é uma experiência muito inédita para qualquer um dos acadêmicos que tem aqui. Cada povo tem a sua diferença e aqui, nesse encontro, eu vejo muito isso” (Joaquim Maná Kaxinawá/ AC). Na medida em que avançam as iniciativas de formação diferenciada de professores indígenas, aumentam as possibilidades de que as escolas localizadas nas terras indígenas ganhem, gradativamente, condições de atender aos projetos de futuro de cada uma dessas comunidades indígenas. Inúmeros desafios estão postos para que, de fato, as escolas se voltem para a realidade dessas comunidades. Se os povos indígenas contam com uma legislação favorável, o mesmo não se pode dizer das práticas dos sistemas de ensino, que permanecem impermeáveis a essas mudanças na legislação e as reivindicações indígenas por uma escola mais afinada com o contexto em que ela está localizada. Ao serem inseridas nos sistemas de ensino, como uma categoria própria, as escolas indígenas passaram a contar com novos recursos e a se beneficiar dos programas governamentais de melhoria de ensino a elas dirigidas. A questão agora é saber se esse sistema poderá se abrir para respeitar a individualidade de cada uma dessas escolas, de modo que elas, aos poucos, se diferenciem das demais escolas do 19 sistema, das demais escolas indígenas, para ganhar feições próprias que as vinculem a cada uma das comunidades indígenas e às demandas por elas apresentadas. Se foi um avanço a criação da categoria escola indígena, como uma categoria “com normas e ordenamentos jurídicos próprios” dentro do sistema de ensino, então é preciso dar mais um passo no sentido de reconhecer, dentro dos mesmos sistemas de ensino, a diversidade dessa categoria, para que se possa sair da genérica escola indígena e aportar na escola Pataxó, na escola Suruí, na escola Karipuna, na escola Guarani, e assim sucessivamente. Esse é sem dúvida o novo desafio que se vislumbra no horizonte, sob o risco de se continuar tratando genericamente o que tem força no particular, no específico, no étnico. As escolas em terras indígenas só vão responder verdadeiramente aos anseios dos povos indígenas na medida em que estiverem plenamente conectadas aos seus projetos de futuro. É ainda recente a proposta de que os índios devem ser os protagonistas das políticas públicas a eles dirigidas, mas cada vez mais este preceito, com amplo amparo legal, passa a ser uma reivindicação apresentada em diferentes contextos. Os índios hoje são interlocutores necessários em quaisquer instâncias em que se discute políticas voltadas para o seu bem-estar, e eles devem estar presentes não só na execução das políticas, mas também na formulação, avaliação e no seu controle social. Essa participação deve ser buscada de forma inovadora pelos sistemas de ensino, aproximando os representantes das comunidades indígenas do sistema, no intuito de torná-los parceiros. É importante sair de propostas imediatistas ou rapidamente construídas (sem reflexão) e criar mecanismos efetivos de envolvimento da comunidade com a proposta da escola, promovendo, inclusive, a colaboração de especialistas e pesquisadores. É preciso enfrentar o desafio da diversidade representada por esses povos, construindo políticas públicas não homogeneizadoras. Por fim, é preciso ampliar o reconhecimento de que a escola indígena e todas as suas necessidades, entre as quais está, obviamente, a de ter professores bem formados, é um direito e não uma concessão. A escola indígena, de um modo geral, não tem sido trabalhada como um direito dos índios, cabendo ao Estado propiciar os meios necessários para que ela se realize, mas como uma concessão que se faz a uma população marginalizada. Sob essa égide da concessão, avança-se pouco. A concessão se verifica ou se expressa numa diferenciação genérica: para índios, quando deveria estar voltada 20 para cada particularidade. É em contexto étnico preciso, particular, que o direito se realiza. Ele se realiza no concreto das relações e não no abstrato, na generalidade. Por isso, a escola terá que ser construída localmente, a partir das premissas sociais e culturais próprias e específicas de cada povo indígena em particular. O diferenciador, como sabemos, não pode ser o genérico, o indígena, mas sim o étnico, o específico, o Kaingang, o Krenak, o Kampa, o Kambiowá, aquilo que dá sentido e embasamento para o sentimento de pertencimento a uma coletividade particular. Hoje, alguns professores indígenas estão preocupados em “pacificar a escola”, invertendo o curso do processo histórico, em que a escola pacificou os índios, naturalizando-se como instituição na vida comunitária, com ritmo e vida próprios, ao invés de estar a serviço da comunidade, de seus projetos de futuro. Para tanto, ela precisa se tornar um espaço para a reflexão e para o exercício do direito à diferença. Esse é o grande desafio. 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