1 IBPEX – INSTITUTO BRASILEIRO DE PÓS-GRADUAÇÃO E EXTENSÃO GIZELLE PERIN ELAINE CRISTINA TONDA DO TEMPO BIBLICO AO SÉCULO XXI: O QUE HÁ EM COMUM? Lepra ... Hanseníase Cuiabá, MT - Brasil 2006 2 GIZELLE PERIN ELAINE CRISTINA TONDA DO TEMPO BIBLICO AO SÉCULO XXI: O QUE HÁ EM COMUM? Lepra ... Hanseníase Monografia apresentada ao Curso de PósGraduação (Lato-Sensu), promovido pelo IBPEX, em parceria com a Faculdade Internacional de Curitiba para obtenção do título de Especialista em Saúde Pública. Orientadora: Profª Msc. Rose Marie Siqueira Villar Cuiabá, MT - Brasil 2006 3 GIZELLE PERIN ELAINE CRISTINA TONDA DO TEMPO BIBLICO AO SÉCULO XXI: O QUE HÁ EM COMUM? Lepra ... Hanseníase Trabalho apresentado para obtenção do título de Especialista em Saúde Pública, realizado pelo IBEPEX – Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão. Aprovado em ___/___/___. Professor corretor – Cuiabá, MT - Brasil 2006 4 DEDICATÓRIA Dedicamos este trabalho aos pacientes hansênicos e a todos aqueles que, de alguma forma, contribuíram para a construção deste estudo. 5 AGRADECIMENTOS Agradecemos a Deus por ter chegado ao fim de mais uma etapa em nossas vidas; e a todos de que, de alguma maneira, contribuíram para estarmos aqui hoje. 6 LEPROSO: UMA IDENTIDADE PERVERSA Francisco Augusto Vieira Nunes (Bacurau) Rio Branco, Acre, 30 de abril de 1993. Trabalho apresentado no Congresso Internacional de Hanseníase Flórida – EUA. Nós, pessoas humanas, somos o que de mais valioso e perfeito existe na terra e, até mesmo, em todo o universo que conhecemos. Nós somos capazes de andar, de falar, de cantar, de pensar, de amar... e tantas outras coisas maravilhosas, sem que seja preciso usar pilhas ou computador. E todos esses predicados são encontrados tanto no rico quanto no pobre; no milionário, quanto no mendigo; no nosso filho e no menino que vive na rua. Nada se compara em valor, em beleza, em complexidade, em perfeição com o bêbado que dorme debaixo de jornais nos bancos da praça. Nem o nosso carro, nem a nossa casa, nem a nossa obra de arte, nem a nossa conta bancária... a não ser nós mesmos. Por outro lado, nós, pessoas humanas, somos ao mesmo tempo, um ser físico, um ser social, um ser psicológico, um ser cultural. Cada uma dessas dimensões, são complementares da outra, e a “vida” de cada uma é “alimentada” pelas demais. O que atinge uma, afeta a todas. Perder uma perna, por exemplo, não afeta apenas a dimensão física. Na “cultura” do perfeito, seguindo padrões estabelecidos, a vida social de uma pessoa de uma perna só, tem barreiras que são quase intransponíveis: na dança, no esporte, no simples caminhar no parque. O impacto psicológico, então, é ainda mais difícil de ser absorvido. Culturalmente, a pessoa passa a ser vista e tratada de forma diferente e até ganha um novo nome: “perneta...”. nosso referencial passa a ser a nossa deficiência física: “...aquele doutor que tem só uma perna...”, por exemplo. Dependendo da situação, ora somos tratados com preconceito, ora com piedade; outras vezes com a constante exigência de auto-superação para ser aceito como normal, etc... Um outro aspecto é que, podemos perder um dedo, um braço, uma mão, um pé, de várias formas: acidentes, guerras, brigas corporais, doenças, etc... Curioso é que essas causas de danos físicos podem ser mais ou menos danosas às outras “partes”: perder um dedo da mão numa guerra, por exemplo, pode até trazer orgulho; mas se for por causa de 7 hanseníase, marginaliza-se. Apertar a mão que perdeu o dedo numa guerra é uma coisa; apertar a mão de que perdeu um dedo por causa de uma doença contagiosa é outra. A mão de um “guerreiro” é diferente da mão de um “leproso”, mesmo que o trauma físico seja igual. Algumas dessas agressões físicas atingem tanto as outras dimensões que, em alguns casos, causam mais danos a estas. Assim sendo, contrair a hanseníase, por exemplo, não é apenas, mesmo que afirmemos o contrário, contrair uma doença que agride os nossos nervos periféricos; mas, “contraímos” também uma nova identidade que, não raro, é muito pior do que a doença em si; até porque, identidade não tem cura. Ser tuberculoso, ser hanseniano ou leproso, ser aidético é, com certeza, muito pior do que estar com tuberculose, com hanseníase ou com AIDS, até mesmo porque quando se diz: “fulano é leproso”, está se atribuindo a ele um estado permanente ele é; não se compara com: “fulano está com hanseníase”, que atribui um estado passageiro ele está. Essas identidades, cujos cartórios de registro são, muitas vezes, o próprio consultório médico ou os eventos de saúde, não atingem apenas a nossa parte física, claro, mas a totalidade do nosso ser; Diante do que agora expomos, temos que concluir que, o tratamento de uma pessoa que ESTÁ COM HANSENÍASE, não ser resumido numa simples caça ao bacilo de Hansen. Nunca podemos esquecer, mesmo que seja pelos mais honrados motivos que, o bacilo de Hansen, não é mais importante que o seu habitat. Mesmo que não possamos colher rosas sem, de alguma forma, mutilar a roseira, não é inteligente matar uma mosca pousada em alguém com um tiro de revólver. Passei 21 anos de minha vida, internado em três hospitais-colônias, em pontos diversos do Brasil: Rondônia, Acre, São Paulo. Conheci e conheço dezenas de técnicos de saúde. Com raras e ricas exceções, fiquei com a impressão de esses profissionais, há alguns anos atrás, dividiam o paciente de hanseníase em 03 partes: bacilos, bacilos e bacilo, Era muito difícil sermos procurados, se não fossem para pesquisarem se ainda tínhamos o “precioso bichinho”, como se fossemos apenas o “ viveiro” de alguma coisa mais importante do que nós. Para eles, não tínhamos olhos, nem ouvidos, nem cérebro, nem coração...(Quantas coisas ouvi e compreendi, mesmo que eles achassem que eu não era capaz disso!). Mas eles, graças a Deus, evoluíram: com o tempo passaram a nos dividir em: bacilo, pés, mãos e olhos.(UFA! Chegam nos olhos). Até hoje, não evoluíram mais...Nas áreas psicossociais, tenho que reverenciar algumas pessoas pela sua luta, pelo seu sonho, pelo seu “querer fazer alguma coisa” mesmo “remando contra a maré”. Cada um de nós, com certeza, tem algo de que gosta muito: um móvel antigo, um livro, um quadro (não importa de qual o autor), etc... Vamos supor que a nossa “paixão” seja um quadro. Um dia nós olhamos para o quadro e vemos que ele está sendo atacado por cupins. Já tem até uma parte estragada. O que fazemos? Simplesmente jogamos inseticida para matar os cupins? Ficaremos apenas festejando a sua morte? Vamos achar que já cumprimos o nosso dever? Claro que não. Nós vamos matar os cupins, sim, mas de uma forma que não danifique ainda mais o quadro. E depois? Depois, com certeza, vamos fazer 8 todo o esforço para achar alguém que recupere a obra. Técnico competente, e, naturalmente, que goste e que conheça o valor de seu trabalho e o valor da obra. Ora, nós, como enfatizamos, somos infinitamente mais valiosos do qualquer obra de arte. E mais complexos, como também já falamos. Por isso, achamos que, qualquer programa de combate à hanseníase que seja implantado que não busque a cura do doente como um todo, será apenas uma “detetização”. O combate à hanseníase tem que ser acompanhado pela cura do doente, pela restauração completa da obra. É admirável como as pessoas que nos atendem menosprezam o nosso cérebro. Sempre confundem falta de escolaridade com a “burrice”. Por falar nisso, acho que o paciente tem que participar de forma ativa do seu tratamento. Ele deve fazer parte de forma consciente da equipe que o trata. Seu cérebro tem que ser usado! Afina, ao paciente cabe as tarefas mais importantes em sua cura. Vejamos: tomar o remédio; se ela não tomar, não importa se o medicamento e o resto da equipe sejam os melhores do mundo, ele não vai ficar curado; ou observar e cuidar do próprio corpo, evitando o processo de mutilação; lutar para não perder ou reaver o seu espaço na sociedade; acreditar, pois, sem acreditar não conseguimos nada, e tantas outras tarefas importantes. Como membro da equipe que o trata tem os mesmos diretos que os outros: a confiança, ao respeito e, se possível, a amizade. A hanseníase é uma doença que ataca pessoas humanas que, se sentirão muito felizes em poder contribuir para eliminar da Terra essa grande mancha. Mas não acredito na eliminação desta mancha, se o doente não for conscientizado de que ao tomar um comprimido para matar o bacilo de Hansen, ele não está apenas procurando eliminar algo que está agredindo o seu corpo, mas, sim, também uma doença que mata, que mutila, que marginaliza e envergonha a sociedade há milênios. Nós vivemos o século das grandes vitórias da medicina sobre várias doenças que acompanham a humanidade há vários séculos. A tuberculose, as doenças venéreas, a hanseníase, são exemplos. Porém, a descoberta da cura destas doenças, não significou a eliminação das mesmas; pelo contrário: elas recrudescem, proliferam e continuam tripudiando sobre todos nós, principalmente nos mais pobres. Onde tem miséria, tem hanseníase e tuberculose em abundância, como se fossem irmãs gêmeas. Se olharmos para a trajetória da hanseníase no mundo, temos a impressão de que ela tem pavor de riqueza. Parece que o fato mais eficaz é desfrutar de uma vida digna. Por outro lado, a grande maioria dos doentes de hanseníase não têm acesso ao tratamento, mesmo porque não foram diagnosticados. Existe uma grande massa de doentes ocultos, imersos na multidão que vêm à tona quase que por acaso. Não é à toa que a grande maioria dos doentes conhecidos só foram diagnosticados com a doença já polarizada. O que significa que estavam doentes há vários anos. E o mais grave é que deixaram para trás uma multidão contaminada, alimentando assim a endemia. Nada ou pouco se faz para provocar a demanda espontânea, o diagnóstico precoce, sem o que não chegaremos nunca à eliminação da doença. Do jeito que está, estamos apenas podando, aparando seus galhos, deixando o tronco gerador, que são os doentes na diagnosticados e não tratados, ocultos na multidão. O que fazer para arrancar esse “tronco” que gera vida tão danosa? Temos que seguir o óbvio: em primeiro lugar, temos que admitir que quem pega a hanseníase são pessoas humanas iguaizinhas a nós. Se nós, um dia, descobrimos que estamos com uma mancha dormente, nós vamos pensar em 9 hanseníase e buscar tratamento. Por quê? Porque nós conhecemos os primeiros sinais clínicos da doença. Por que então, não fazemos com que todas as pessoas, de países endêmicos, conheçam também esses sinais? Por que não temos a humildade e sabedoria de admitirmos o óbvio? A campanha de informação de massa sobre a hanseníase nos países endêmicos é tão imprescindível para a eliminação da doença quanto a própria poliquimioterapia. As duas se completam. Qualquer programa de combate à hanseníase que não inclua campanha informativa à população é paliativa e incompleta, é ineficaz. A não ser que a gente queira viver de hanseníase. Já que a “mercadoria lepra” é altamente vendável e lucrativa. Aí, não seria mesmo inteligente “arrancar” o tronco que gera lucro. Seria o mesmo que matar a galinha de ovos de ouro. Mas, eu me recuso a acreditar nesta perversidade. Acredito, porém, que a arrogância nos deixa tão míopes que não somos capazes de ver o óbvio. A HANSENÍASE TEM CURA!!! Esta é uma das mais importantes e espetaculares manchetes do século XX. É uma pena que tão poucas pessoas saibam disso. Inclusive a maioria dos doentes, porque nem sabem que estão doentes. Eu sei que é muito difícil eliminar a hanseníase, mas temos que sonhar (só os seres humanos sonham!) Até porque, se fosse fácil, outros já teriam conseguido. Temos, porém, que sonhar, que acreditar, porque tudo o que existe de concreto feito pela humanidade, nasceu do sonho de alguém e, com certeza, esse sonho já foi sonhado por milhões de pessoas... Nós, da nossa geração, temos o dever de realizar esse sonho, porque temos a felicidade de contarmos com os meios necessários. Se a gente não fizer isto, tenho a impressão que seremos culpados diante da história. Nós não podemos deixar para as gerações futuras, essa herança tão vergonhosa e tão cruel. A hanseníase tem cura, mas os medicamentos não curam sozinhos. Se não adicionarmos a cada comprimido uma dosezinha da nossa vontade, do nosso compromisso, do nosso amor, eles são inócuos ou venenosos. Aliás, o amor continua sendo o melhor remédio para todos os males do mundo desde que seja traduzido em trabalho, em humildade, em ética, em compromisso, em justiça... A hanseníase também se cura com amor. Com muito, muito amor. 10 RESUMO Desde o início do século XXI, nos deparamos com diversas doenças, e cada vez mais são descobertas patologias dos mais variados tipos. Todavia, ainda existem algumas relacionadas ao tempo bíblico, que não foram extintas e com prevalência significativa em nosso país, como o caso da hanseníase, mais conhecida como lepra. Considerando que a hanseníase é uma doença que afeta as pessoas desde a antiguidade pretendíamos, neste trabalho, ter ciência do que a literatura traz sobre os aspectos que contribuíram para a diminuição do preconceito dos hansênicos através dos tempos e as perspectivas para reduzir ainda mais. Assim, esta investigação teve por escopo conhecer os diferentes aspectos sóciohistóricos que interferem no processo de estigma e discriminação do hanseniano. Quanto à metodologia lançamos mão da pesquisa bibliográfica. Este estudo foi elorado por intermédio de livros, periódicos, monografias de pós-graduação, teses e dissertações; utilizamos, do mesmo modo, bibliografias computadorizadas. Constatamos que, apesar dos esforços realizados durante o século XX e preâmbulo do século XXI com o propósito de reduzir a conotação estigmatizante e preconceituosa da hanseníase, existe na sociedade atual um conjunto de imagens e conceitos frívolos a respeito da doença, fazendo com que os hansenianos, na sua maioria, ocultem a sua enfermidade a fim de não serem discriminados. Pode-se afirmar que, ao longo dos séculos, o estigma e o preconceito em torno desta patologia estão reduzindo gradativamente, em razão da cura através da terapêutica com medicamentos eficientes, de profissionais de saúde comprometidos cada vez mais com a patologia e, principalmente, com o portador do bacilo de Hansen, e com o apoio dos familiares. Finalizando, para extinguir a hanseníase é cogente que os profissionais na área de saúde entendam que esta doença pode acometer ambos os sexos e envolve aspectos culturais, sociais e econômicos, além de representações peculiares de cada gênero. É iminente que esta patologia seja laborada com realce, abarcando as concepções de saúde-doença, não puramente biológicas, mas também culturais, sociais, econômicos, psicológicos e políticos, as condições impostas ou auto-impostas a estas pessoas. PALAVRA CHAVE: hanseníase, estigma, preconceito. 11 ABSTRACT From Biblical time to XXI century: What exist in common? Leprosy….hansen´s disease Since the beginning of XXI century, we come across with severals illnesses, and each time more pathology are discovered of the most varied types. However, some still related to the Biblical time, that had not been extinct and with significant prevalence in our country, as the case of Hansen´s Disease, more known as leprosy. Considering that Hansen´s Disease is an illness that affects the people since the antiquity , in this work, we intended to have science of that literature brings on the aspects that had contributed for the reduction of the preconcept of the suferers do Hansen´s disease through the times and the perspectives to reduce still more. Thus, this inquiry had for target to know the different aspects socials e historical that interfere on the process of stigma and discrimination of the suferers of Hansen´s Disease. Regarding to the methodology we adopted the bibliography research. This study it was elaborated through the books, periodics, thesis and dissertation; we use, in a similar way eletronic bibliography. We ascertained that, despite the efforts carried through during XX century and preamble of XXI century with the intention to reduce the preconcept of hanse´s disease, a set of images and concepts existent in the current society triflers regarding the illness, making with that the suffers of hansen´s disease, in its majority, occult its disease in order not to be discriminated. It can be affirmed that, to the long one of the centuries, the stigma and the preconcept around this pathology are reducing gradual, in reason of the cure through the therapeutical with efficient medicines, of engagement professionals of health each time more with the pathology and, mainly, the carrier of the bacillus of Hansen, and with the support of the family. Finishing, to extinguish hansen´s disease is necessary that the professionals in the health area understand that this illness can manisfest on both genders and involves cultural aspects, social and economic, beyond peculiar representations of each sort. It is imminent that this pathology is worked with distinction, involving the conceptions of health-illness, not purely biological, but cultural, social, economic, also psychological and politicians, the conditions imposed or auto-imposed these people. KEYWORDS: hansen´s disease, stigma, preconception. 12 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ....................................................................................... 1 1.1 JUSTIFICATIVA............................................................................. 4 1.2 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA................................................... 6 1.3 OBJETIVOS .................................................................................. 6 1.4. PRESSUPOSTO TEÓRICO.......................................................... 7 2 PERCURSO METODOLÓGICO.......................................................... 8 2.1 DIRETRIZES GERAIS ................................................................... 9 2.2 O MÉTODO UTILIZADO ................................................................ 9 3 HANSENÍASE ................................................................................... 11 3.1 ASPECTOS HISTÓRICOS: DA LEPRA A HANSENÍASE...................... 12 3.1.1 A história da hanseníase no Brasil ........................................ 16 3.2 ASPECTOS CLÍNICOS................................................................ 23 3.2.1 Classificação da hanseníase ................................................. 26 3.2.2 Reações hansênicas ou estados reacionais .......................... 28 3.2.3 A terapêutica aplicada em hanseníase .................................. 31 3.2.4 Incapacidades... marcas físicas deixadas pela doença ......... 35 3.3 ESTIGMA E PRECONCEITO X HANSENÍASE E ATUALIDADE ... 36 3.3.1 Família e sexualidade x estigma e preconceito ..................... 39 REFLEXÕES FINAIS ........................................................................... 45 13 REFERÊNCIAS.................................................................................... 49 ANEXOS .............................................................................................. 55 ANEXO A .......................................................................................... 56 ANEXO B .......................................................................................... 58 INTRODUÇÃO “A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original...” (Albert Einstein). 2 Desde o início do século XXI, nos deparamos com diversas doenças, e cada vez mais são descobertas patologias dos mais variados tipos. Todavia, ainda existem algumas relacionadas ao tempo bíblico, que não foram extintas e com prevalência significativa em nosso país, como o caso da hanseníase, mais conhecida como lepra. A hanseníase é citada na Bíblia, no Antigo Testamento, capítulos 13 e 14 do livro Levítico, como condição de impureza, e conseqüentemente de abominação. Trazendo para a atualidade uma carga de preconceitos já que a conotação repugnante e terrível da lepra nos acompanha muito tempo antes do nascimento de Cristo. Para uma melhor compreensão da hanseníase será importante um resgate histórico sobre a mesma. De acordo com Queiroz; Puntel (1997), na Idade Média, mais precisamente no ano de 585, o Concílio de Lyon instituiu o isolamento do hansênico da população sadia, devido à alta prevalência desta doença na Europa e no Oriente Médio. Esta ação se refletiu muitos séculos seguintes, tendo seu declínio e, posteriormente, sua suposta extinção, principalmente no Brasil, somente no século XX. A partir do século XVII houve uma diminuição gradual da hanseníase na Europa, tendo praticamente desaparecido em quase todos os países desse continente por volta de 1870. Este marco se deve, provavelmente, à melhoria das condições socioeconômicas (QUEIROZ; PUNTEL, 1997). Tratando deste tema Kawamoto cita ...que a entrada da hanseníase no Brasil aconteceu com a colonização portuguesa; desde então a doença faz parte do quadro nosológico do país, porém, somente a partir dos anos 20 [do século XX] é que o Estado a incluiu no elenco de agravos à saúde pública (1995, p.155). 3 No Brasil, em 1600, conforme Queiroz; Puntel (1997), foram notificados os primeiros casos de hanseníase, na cidade do Rio de Janeiro. Somente dois séculos depois é que o Governo Colonial, por ordem de D. João V, tomou as primeiras iniciativas, com a regulamentação do combate à doença. As ações realizadas restringiram-se à construção de leprosários e a uma assistência precária aos doentes. Somente ao final do século XIX e começo do século XX, é que foi dada mais atenção a esta patologia. Foram realizados, nesta época, vários ensaios de tratamento da doença, principalmente no âmbito hospitalar, com uma população de incapacitados e pobres. Diante do estigma deixado pela sua história, com a evolução da ciência e das pesquisas, a hanseníase é conceituada hoje, como relata Bernardi; Machado (2004), uma doença infecto-contagiosa, de evolução crônica granulomatosa, causada pelo agente etiológico Mycobacterium leprae1, chamado bacilo de Hansen. Esta denominação se deve ao pesquisador Gerhard Armauer Hansen (1841-1912), médico norueguês, que descobriu a bactéria em 1873. O Brasil tem o segundo maior número de casos de hanseníase no mundo, ficando atrás somente da Índia. Em 2001, a prevalência era de 77.676 casos, destes, 41.070 eram novos, com um coeficiente de prevalência de 4,68/10.000 habitantes, considerado um nível médio de endemicidade segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS (BRASIL, 1997. BERNARDI; MACHADO, 2004. MOREIRA, 2002). Dessa forma, Lira et al (2006) cita que, devido aos dados epidemiológicos da doença no Brasil, o Ministério da saúde, tendo em vista a III Conferência Mundial de Eliminação da Hanseníase, realizada em Myanmar, em 1999, determinou como meta prioritária a eliminação da hanseníase como problema de saúde pública no país até o ano de 2005, objetivando alcançar seu desígnio de um caso em cada 10.000 habitantes. Conforme o Ministério da Saúde (BRASIL, 2006), a prevalência de casos de hanseníase no Brasil no ano de 2004 foi de 2,76 casos para cada 10.000 habitantes. 1 Mycobacterium leprae: “É um parasita intracelular obrigatório que apresenta afinidades por celulas cutâneas e por células dos nervos periféricos” (BRASIL, 2005a, p.364). 4 Encontramo-nos no ano de 2006 e a meta priorizada pelo Ministério da Saúde até agora não foi atingida. Ainda é uma doença endêmica nos dias atuais, não obstante, o número de pacientes com hanseníase vem reduzindo lentamente. Para Bakirtzief (1996), o controle da endemia da hanseníase está fortemente ligado à dificuldade de adesão ao tratamento, uma vez que a pessoa infectada pelo bacilo de Hansen, contagiante, representa a fonte de transmissão do bacilo que é agente etiológico da patologia. Considerando a hanseníase como uma patologia histórica, milenar, com importante repercussão social e preconceitos envolvendo o paciente hansênico, pretende-se, neste trabalho, realizar uma análise da literatura sobre hanseníase, os aspectos que contribuíram para a diminuição do preconceito através dos tempos e as perspectivas para reduzi-la mais. Este tema é importante porque através da compreensão da história e do estigma que a hanseníase traz consigo, o profissional da saúde poderá desenvolver um trabalho mais direcionado ao cuidado deste indivíduo como um todo e não voltado exclusivamente à patologia. Não é somente a cura física que importa, mas a mente e a alma também devem ser curadas dos efeitos que o estigma desta doença provoca na vida de uma pessoa e das seqüelas deixada pela mesma. Assim, percebe-se que este entendimento dar-se-á a partir de estudos sobre a história da hanseníase. 1.1 JUSTIFICATIVA A escolha pelo tema está relacionada à disciplina História Social da Saúde Pública no Brasil, do curso de pós-graduação em Saúde pública – IBEPEX, na qual 5 foi discorrido sobre a história da hanseníase no País, despertando em nós o interesse de aprofundar o conhecimento histórico desta moléstia, bem como os aspectos relacionados com o estigma e discriminação dos portadores. Temos ainda interesse em compreender as concepções de saúde-doença, não meramente biológicas, mas também sociais e as condições impostas ou auto-impostas a estes doentes. O escrito elaborado por Queiroz; Puntel (1997), diz que a hanseníase é prevalente no Brasil, constituindo um sério problema de saúde pública. Esta doença atinge o sistema tegumentar e, principalmente, o sistema nervoso periférico. Pode acometer os vasos sanguíneos e linfáticos, glândulas, órgãos internos, aparelho locomotor, cavidade oral, olhos, nariz, entre outros. A transmissão do bacilo de Hansen é dada de pessoa a pessoa, através do contato íntimo e prolongado com doentes virchovianos ou dimorfes, os bacilos penetram na pele ou mucosa através de escoriações que provocam solução de continuidade. Os principais reservatórios de bactérias são as mucosas das vias aéreas superiores, os hansenomas ulcerados, o leite materno, a urina e as fezes. Como esta patologia atinge diversas partes do corpo humano, deixando cicatrizes desde leves às mais graves, causando deformações no corpo físico, compreende-se que por este motivo o doente se afasta da comunidade, bem como as demais pessoas evitam proximidade com o mesmo devido ao medo de contágio, e isto se reforça pelo estigma existente em torno da doença. Mencionam que mesmo a hanseníase tratada, mostrando possibilidades de cura e não apresentando riscos de contágio, persiste uma situação moderada de estigma com relação à patologia, em função de preconceitos profundamente arraigados. Acredita-se que este trabalho contribuirá na qualidade da assistência dispensada aos hansenianos pelos diversos profissionais da área da saúde, uma vez que ao compreender melhor a realidade dos pacientes, o estigma que acompanha a hanseníase desde os tempos bíblicos, possa diminuir. Esta concepção encontra bases no escrito redigido por Rocha (2004), o qual cita que a marca do preconceito trazida pela hanseníase desde os tempos bíblicos é inadequado para o período em que vivemos, onde esta doença é perfeitamente 6 curável. Para um cuidado mais efetivo e qualificado, far-se-á necessário a sensibilização e capacitação de todos os envolvidos no processo de saúde, desde a recepcionista ao médico, ampliações das especialidades médicas para tratar a doença, atendimento descentralizado e multidisciplinar e informação a população. 1.2 FORMULAÇÃO DO PROBLEMA Frente ao exposto, este trabalho tem como problema de pesquisa: O que a literatura traz sobre os aspectos que contribuíram para a diminuição do preconceito dos hansênicos através dos tempos e as perspectivas para reduzir ainda mais? 1.3 OBJETIVOS 1.3.1 Objetivo Geral - Conhecer os diferentes aspectos sócio-históricos que interferem no processo de estigma e discriminação do hanseniano. 7 1.4. PRESSUPOSTO TEÓRICO A história da hanseníase, o estigma em torno da doença faz com que as pessoas, mesmo não manifestando fisicamente a doença, se excluem da sociedade, escondendo seu diagnóstico, afirmando ser simplesmente um problema de pele. Acredita-se que o conhecimento histórico contribua na reflexão sobre a vida dos indivíduos com hanseníase bem como na melhoria das condições de atendimento pelos profissionais. 8 2 PERCURSO METODOLÓGICO “Metodologia – o caminho do pensamento e a prática exercida na abordagem da realidade” (Michaliszyn; Tomasini, 2004, p.40) 9 2.1 DIRETRIZES GERAIS Inicialmente, conceitua-se pesquisa, como uma atividade importante no campo das ciências, que busca indagar e construir a realidade. É através dela que o ensino é alimentado e que acontece a atualização frente à realidade do mundo (MINAYO, 2002). A pesquisa em enfermagem é importante porque “fornece uma base de conhecimento científico especializado que fortalece a profissão de enfermagem por antecipar e atender esses desafios que mudam constantemente e manter nossa relevância social” (WOOD; HABER, 2001, p.4). Já a metodologia, de acordo com Michaliszyn; Tomasini (2004, p.39), “... é o ramo da lógica que se ocupa dos métodos utilizados nas diferentes ciências. [...] Tais métodos caracterizam-se como o corpo de regras e diligências estabelecidas para realizar uma pesquisa”. E prosseguem enunciando que a metodologia engloba um conjunto de técnicas que possibilitam a construção da realidade e instigam a criatividade do pesquisador. 2.2 O MÉTODO UTILIZADO A presente pesquisa é de caráter bibliográfico que, segundo Fachin (2001, p.125), refere-se a um “conjunto de conhecimentos humanos reunidos nas obras”. Nesta perspectiva Cervo (1996, p.48) acrescenta que, a pesquisa bibliográfica busca elucidar um problema a partir de referências teóricas anunciadas em documentos e procura, também, “conhecer e analisar as contribuições culturais ou científicas do 10 passado existentes sobre um determinado assunto, tema ou problema” (Ibidem, p.48). Fachin ressalta que “pesquisa bibliográfica compreende a consultar de livros e periódicos. Os periódicos servem como meio de atualização, uma vez que são publicados mais rapidamente que os livros” (2001, p.126). Utilizando a idéia do autor supracitado, este trabalho foi elaborado por intermédio de livros, periódicos, monografias de pós-graduação, dissertações; utilizamos, do mesmo modo, bibliografias computadorizadas. teses e 11 3 HANSENÍASE “Não é possível existir naquilo que não fomos, naquilo que não vivemos. Mas é possível crescer através daquilo que tentamos, daquilo que buscamos, daquilo que sentimos” (autor desconhecido). 12 3.1 ASPECTOS HISTÓRICOS: da lepra a hanseníase As palavras lepra e leproso estão associadas a idéias de impureza, vício, podridão, nojeira, corrupção e repugnância, é anticientífico, irracional e desumano considerá-las como sinônimos de hanseníase e de portador de hanseníase (Morhan). Dos tempos bíblicos à era moderna, a hanseníase foi descrita como uma enfermidade que ocasionava horror, em razão da aparência física do hanseniano, causada por deformidades nas extremidades e lesões ulcerativas na pele, associada ao estigma existente. Ela trouxe consigo o labéu da doença através dos sinais e sintomas, caracterizando o leproso, o que o deixou muitos anos a margem da sociedade. Pode-se observar a seguir que durante anos significou exclusão social em razão, principalmente, da forma de tratamento – o isolamento nos leprosários. A hanseníase é considerada uma das patologias mais antigas historicamente, sendo conhecida como lepra. Informações significativas são encontradas no livro Bíblico Levítico, capítulo 13, que aborda sobre a Lei acerca da lepra e da tinha e A lepra nas vestes, logo o capítulo 14 menciona a Purificação dos leprosos e A lepra nas casas. Em ambos os capítulos observa-se que muitas doenças de pele tem conotações com a lepra. Nesta época quem detía o poder de diagnosticar a doença era os sacerdotes, assim, em consenso com Galvan (2003), identifica-se a efígie da hanseníase ao credo popular e religioso, bem como os castigos divinos, fortalecendo com isso os preconceitos psicológicos e sociais. O Concílio realizado pela Igreja Católica em Lyon, em 583 como informa Galvan (2003), ou em 585 como diverge Queiroz; Puntel (1997), instituiu normas com objetivos de prevenir a então conhecida lepra. Estas normas, no entendimento de Galvan (2003), foram fundamentadas nos capítulos do livro Bíblico Levítico; aplicadas de modo rigoroso, principalmente na França; e uma das regras impostas aos leprosos era que os mesmos deviam vestir-se de maneira a ser identificados 13 pelos não-doentes, evitando assim a aproximação e, conseqüentemente, o suposto contágio. Com idéias semelhantes Queiroz; Puntel (1997) mencionam que em algumas localidades as medidas impostas pelo Concílio de Lyon, foram severas. ... incluíam a realização de um ofício religioso em intenção do doente, semelhante ao ofício dos mortos, após o qual ele era excluído da comunidade, passando a residir em locais especialmente reservados para esse fim. O doente era ainda obrigado a usar vestimentas características que o identificavam como tal e fazer soar uma sineta ou matraca para avisar os sadios de sua aproximação (Ibidem, p.31). Sob o ponto de vista de Galvan (2003) a dificuldade para diagnosticar os casos de hanseníase, criava nos indivíduos o temor de perder o controle sobre as circunstâncias da patologia, pois não lhes era plausível enquadrá-las em espaços nos quais mantivessem algum tipo de controle. “Observa-se que o único controle possível era a segregação social e o isolamento físico e geográfico dos doentes” (ibidem, p.19). Na Idade Média, a partir do século XII, segundo Galvan (2003) e Queiroz; Puntel (1997), surgiram as primeiras ordens religiosas destinadas a dispensar cuidados aos hansênicos, através da criação de asilos denominados leprosários. Estes chegaram a dezenove mil na Europa. No entanto, somente no século XIX, como define Maciel (2004), o isolamento dos doentes como forma de cuidado eficaz ganhou sustentação científica. Em 1897, na Primeira Conferência Internacional de Leprologia, realizada em Berlim, o médico norueguês Gerard Amauer Hansen propôs o isolamento como medida fundamental, uma vez que não se sabia com certeza como se dava a transmissão da doença. Aplicado com rigor na Noruega por Hansen, desde meados do século XIX, o isolamento foi medida profilática mais eficaz naquele país [...] (MACIEL, 2004, p.110). 14 O isolamento foi uma iniciativa que não se revelou adequado ao controle da endemia e favoreceu para aumentar o medo e o estigma agregados à doença. O indivíduo era afastado de seu meio familiar, levado a uma colônia conhecida como leprosário e, como narram Queiroz; Puntel (1997), era submetido a um tratamento clínico doloroso e inútil, proibido de desenvolver qualquer contato fora da colônia e nas visitas não havia qualquer contato físico, a aproximação do visitante o obrigava a um processo fumigação2 esterilizante. Os filhos dos enclausurados eram retirados do convívio com os pais e internados em orfanatos especiais No século XVII, a hanseníase declinou gradativamente, sendo que por volta de 1870, a doença estava em franco desaparecimento em quase todos os países europeus. Esta modificação no conjunto epidemiológico de saúde da população se dá pelas melhores condições sócio-econômicas desenvolvidas nestes países (QUEIROZ; PUNTEL, 1997). Ainda na Idade Média, no parecer de Galvan (2003) e Queiroz; Puntel (1997), nos continentes Asiático e Africano, perdurava a endemia, tendo sido disseminada na América Latina através das conquistas espanholas e portuguesas e com a escravatura. Os autores citam que os primeiros registros sobre hanseníase no Brasil foram em 1600, na cidade do Rio de Janeiro. Não obstante, Queiroz; Puntel (1997), aludem que o Governo Colonial tomou as primeiras medidas somente dois séculos depois, com a regulamentação do combate à hanseníase, por ordem de D. João V, estas ações de controle restringiram-se à edificação de hospitais-colônias ou leprosários e a uma assistência deficitária aos enfermos. Referem que a hanseníase serviu como um dos mais importantes pontos de referência para a grande polêmica sobre a unicausalidade ou multicausalidade. A cura passou a ser uma questão de encontrar uma substância que pudesse matar o bacilo. Uma dessas tentativas foi à inoculação com o bacilo de outras doenças, como a erisipela e mordida de cobras venenosas. 2 Fumigação: Expor a fumaça, vapores ou gases; defumar. Desinfetar (um local) por meio de fumo ou fumaça (FERREIRA, 1999). 15 Para os autores o tratamento consistia em uso interno ou externo, provocando reações fortes nos pacientes, tais como gastralgias3, vômitos e diarréia. Apesar de ter sido universalmente aceito como benefício ao tratamento, não há nenhum indício de que realmente ele possa ter sido eficaz. Outra forma de tratamento era a eletrocauterização das lesões cutâneas. A terapêutica empregada nesta época era verdadeira tortura aos pacientes. Em meados do século XIX dois médicos noruegueses, Daniel Cornélius Danielsen e Gerhardt Armanuer Hansen tiveram importante papel na história da hanseníase. Esta concepção encontra afinidade com as proposições de Galvan (2003) e Maciel (2004), as quais discorrem que, em 1871, Danielsen descreveu os aspectos evolutivos da doença, então conhecida lepra, e as suas manifestações viscerais, o que permitiu que o mesmo fosse considerado o fundador da hansenologia científica. Logo, Hansen pesquisou o que seria futuramente denominado o bacilo Mycobacterium leprae ou bacilo de Hansen. Ao examinar as células leprosas encontradas nos nódulos formados na pele de um doente, Hansen percebeu a presença de pequeninos bastonetes [...]. Como tinha fortes suspeitas desde o início de sua pesquisa que a doença era transmitida por um agente infeccioso, Hansen apresentou um relatório de atividade em 1874 à Sociedade Médica de Christiania, ratificando que ela não possuía vínculo com as teorias hereditárias ou miasmáticas, ainda que muito se tenha discutido sobre a questão da hereditariedade até pelo menos a década de 1920 (MACIEL, 2004, p.110). Quando Hansen descobre o bacilo tem-se o primeiro dado científico que caracteriza a doença como infecto-contagiosa. Galvan (2003) refere que a partir deste período as teorias vigentes, como causas hereditárias, congênitas, entre outras, passaram a ser questionadas. No Terceiro Congresso Internacional de Leprologia, na França, em 1923, o isolamento dos hansenianos começou a ser questionado de forma tímida, visto que os números de casos não diminuíam. “O paciente era isolado socialmente para livrar 3 Gastralgia: “dor no estômago” (DEOCLECIANO TORRIERI GUIMARÃES, 2002, p.229). 16 do contágio os que com ele conviviam, já que as formas exatas de transmissão eram desconhecidas” (MACIEL, 2004, p.110). Em 1958, no Sétimo Congresso Internacional de Leprologia, realizado em Tóquio, ficou ratificado que o contágio não era hereditário e havia possibilidade de cura com os antibióticos e sulfas. Dessa forma, o isolamento dos doentes [...] não deveria ser mais recomendado como elemento fundamental de tratamento para a doença. [...] os medicamentos químicos dariam ao paciente o bem estar necessário e fora dos muros de leprosário era possível ter um tratamento eficaz (Maciel, 2004, p.112). Cabe ressaltar que o tratamento atual de poliquimioterapia (PQT) para os doentes hansênicos, segundo Feliciano; Kovacs (1996) surgiu pela primeira vez por um grupo de estudos sobre a quimioterapia da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1981. Esta foi recebida por todos os países endêmicos, por organizações internacionais e não-governamentais (ONGs), entre outras. As pessoas em tratamento com PQT aceitaram e toleraram os medicamentos, sendo, ao mesmo tempo, efetivo, curando-as e interrompendo o ciclo de transmissão da doença. A poliquimioterapia consiste no acréscimo de dois antibióticos, inseridas na terapêutica em função da resistência do agente etiológico a sulfona. 3.1.1 A história da hanseníase no Brasil Como foi explanada no estudo, a hanseníase foi difundida na América Latina e, principalmente no Brasil, através da colonização portuguesa e espanhola e do 17 tráfico de escravos. Sendo os primeiros dados epidemiológicos do ano de 1600, no Rio de Janeiro, porém as primeiras ações em saúde voltadas para o controle da doença ocorreram no Império de D. João V, dois séculos depois. O VI Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, realizado em 1907, na cidade de São Paulo, ratificou “a necessidade de desinfecção domiciliar das cidades na luta contra as doenças infecciosas, numa suposição de que haveria um vetor intermediário no processo de contaminação” (QUEIROZ; PUNTEL, 1997, p.33). Também visou em desacreditar os que defendiam a idéia que a hanseníase era de caráter hereditário e não contagioso, alegando que o doente era a única fonte de propagação da doença, e para a profilaxia da mesma, passou a ser necessário o controle do hanseniano. Segundo os autores estas medidas tinham como suporte a opinião de que o confinamento das pessoas portadoras de doenças infecciosas traria a erradicação da doença. Após 300 anos de descobrimento do primeiro caso de hanseníase no país, Emílio Ribas, Oswaldo Cruz e Alfredo da Matta, em 1912, denunciam o descaso do combate à endemia pelas autoridades sanitárias. Trouxeram o reconhecimento do problema e medidas legais para programar o isolamento compulsório dos hansenianos. Assim, as ações realizadas foram construções de leprosários em todos os Estados endêmicos, o censo e o tratamento pelo óleo de chaulmoogra (QUEIROZ; PUNTEL, 1997. GALVAN, 2003). Nas décadas de 1920 a 1940, o leprologista e criador do Laboratório de Leprologia do Instituto Oswaldo Cruz, Heraclides César de Souza e Araújo, fazia pesquisa básica e atendimento aos doentes do Hospital de Manguinhos. Este sugeria e empregava terapêutica com injeções de chaulmoogra e produtos químicos diversos (MACIEL, 2004). De acordo com a autora supracitada, a forma menos agressiva de tratamento e que apresentou menores complicações aos pacientes foi o óleo de chaulmoogra, em injeções, cápsulas ou aplicado sobre a pele. Todavia, nenhum dos tratamentos utilizados agia diretamente sobre o bacilo e sim sobre os efeitos da moléstia já instalada nos doentes. 18 Conforme Queiroz; Puntel (1997), no ano de 1920, foi criado o Departamento Nacional de Saúde Pública, pelo Decreto nº 14, sendo instituída a Inspetoria de Profilaxia da Lepra e Doenças Venéreas. As medidas implementadas pela lei foram: - notificação compulsória e levantamento do censo de leprosos; - fundação de asilos-colônias, nos quais seriam confinados os leprosos pobres; - isolamento domiciliar aos que se sujeitassem à vigilância médica e tivessem os recursos suficientes para a eficaz aplicação dos preceitos de higiene; - vigilância sanitária dos comunicantes e suspeitos de lepra; - isolamento pronto dos recém-nascidos, filhos de leprosos, para local convenientemente adaptado e onde seriam criados livres das fontes de contágio; - proibição da importação de casos de lepra do estrangeiro; - notificação de mudanças de residência de leprosos e de sua família; - desinfecção pessoal dos doentes, dos seus cômodos, roupas e de todos os objetos de uso; as suas excreções deveriam ser recebidas em vasos cobertos contendo uma solução desinfetante e levadas ao esgoto; - rigoroso asseio das casas ocupadas por doentes e de suas dependências; - proibição ao doente de lepra de exercer profissões ou atividades que pudessem ser perigosas à coletividades ou exercer qualquer profissão que o colocasse em contato direto com pessoas; como também ser ama-de-leite, freqüentar igrejas, teatros e casas de divertimentos ou lugares públicos como jardins e viajar em veículos sem o prévio consentimento da autoridades competente (Ibidem, p.35). Essas diretrizes foram aplicadas sistematicamente pelos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, tendo um número significativo de colônias e de hansenianos confinados. Houve dificuldades de implementação do referido Decreto no país, tendo em vista a limitação de recursos e as características próprias da patologia, uma vez que os sintomas podem se camuflados com facilidade durante um longo período da manifestação da doença. Os pacientes resistiam ao máximo ao tratamento, e 19 somente aqueles em que os sinais da doença eram evidentes submetiam-se às propostas médicas (QUEIROZ; PUNTEL, 1997). Ainda na década de 20, a Academia Brasileira de Medicina, divergia as opiniões sobre o controle da hanseníase. A proposta feita por Eduardo Rabello, em 1926, conforme Queiroz; Puntel (1997) foi vitoriosa, sendo assim o controle da doença seria de isolamento domiciliar. Esta proposição foi aceita devido as dificuldades de implementar um confinamento absoluto e a diminuição considerável do impacto da idéia do contágio e desenvolvimento da doença. O isolamento, como prática profilática, passou a ser contestado após as décadas de 1940 e 1950, com o avanço dos medicamentos quimioterápicos e a descoberta de que seu uso não diminuía o número de casos (MACIEL, 2004). Destarte, o isolamento em leprosários no Brasil, foi considerado extinto em sete de maio de 1962, com a aprovação e publicação do Decreto nº 968 (QUEIROZ; PUNTEL, 1997). Contudo, ainda manteve-se pacientes em isolamento nos leprosários por longos anos. O isolamento dos pacientes foi uma iniciativa que não se revelou capaz de controlar a endemia e contribuiu muito para aumentar o medo e o estigma associados à doença. Falsos conceitos sobre a sua transmissibilidade ainda hoje promovem rejeição pela sociedade e até mesmo por profissionais da saúde. Promovendo o medo e mesmo o pânico, estimulando indivíduos a fugirem antes ou depois de serem denunciados à polícia sanitária, a busca ativa de casos revelou-se uma política pública que não trouxe resultados positivos (Ibidem p.35). No escopo de adotar medidas profiláticas e disseminar o ensino, a pesquisa, a propaganda e educação sanitária e a ação social em todo o território brasileiro, em 11 de fevereiro de 1959 foi editada a Lei 3.542 (BRASIL, 1959), que instituiu a Campanha Nacional contra a Lepra sob a direção do Serviço Nacional de Lepra do Departamento Nacional de Saúde, do Ministério da Saúde. 20 Com o intuito de diminuir o preconceito social e o estigma em torno da doença e do termo lepra e respectivos derivados, o Brasil aprovou no dia 14 de maio de 1976 o Decreto nº 165 (QUEIROZ; PUNTEL, 1997), alterando oficialmente a denominação de lepra para hanseníase. Foi o primeiro país a substituir oficialmente o nome desta patologia. Esta iniciativa foi com o objetivo de reduzir o estigma associado a esta doença, cujo propósito era minimizar a seriedade do problema. A mudança de nomenclatura fez com que a hanseníase passasse a ser considerada, na visão da sociedade, “outra doença”, reduzindo com isso a conotação estigmatizante da lepra. Dentro de uma visão mais ampla, foi editada em março de 1995 a Lei nº 9.010 (BRASIL, 1995), que proibiu a utilização do termo lepra e seus derivados em documentos oficiais da administração centralizada e descentralizada da União e dos Estados-membros, além de substituir toda a terminologia relacionada à lepra, citando as terminologias oficiais e substituídas. Foi criado, em1981, o Movimento de Reintegração dos hansenianos – Morhan, visando assegurar seus direitos e atentando para seu papel como cidadão. Para Souza apud Souza; Therrien; Moreira (2006) este movimento emergiu com o propósito de contribuir para a erradicação da doença, extinguir com o preconceito em torno da mesma, auxiliar na cura e na reabilitação dos hansenianos, reintegrando-os na sociedade, impedir que estes padeçam de restrições em seu convívio social. Outra finalidade era colaborar para que as pessoas com hanseníase conquistassem o pleno exercício da cidadania e lutassem para que os leprosários fossem modificados em prol do interesse coletivo; garantir, ainda, moradia e atendimento aos indivíduos confinados nas colônias, que desejassem permanecer nestes locais. Por conseguinte, a política de saúde, na década de 80, direcionou-se a desativação dos asilos e promoção da reinserção social e familiar do paciente, porém houve uma reação inesperada, a resistência dos mesmos em deixar os asilos. Pois, após longos anos de confinamento, muitos deles encontravam-se totalmente desadaptados ao convívio social e familiar, tendo que continuar nos 21 leprosários, em processo de desativação gradativa (MACIEL, 2004. QUEIROZ; PUNTEL, 1997). Conforme Queiroz; Puntel (1997), somente em 1985, o Ministério da Saúde adotou algumas ações no sentido de adequar o programa da hanseníase ao que recomenda a Organização Mundial de Saúde. Deste modo, houve reestruturamento dos hospitais-colônias e introdução da poliquimioterapia no tratamento aos hansênicos. Com a PQT, a lógica classificatória da doença e as formas de tratamento mudaram completamente. A questão de saber se a forma da doença era tuberculóide ou virchoviana passou a ser irrelevante [...]. As unidades especializadas em hanseníase transformaram-se em sobrevivências anacrônicas, tendo em vista que qualquer unidade e qualquer médico deveria ter condições de lidar com a hanseníase. Este ponto, embora amplamente reconhecido pelos sanitaristas, ainda permanece por se fazer, uma vez que o tratamento da hanseníase ainda se encontra confinado em unidades especializadas (Ibidem, 1997, p.37). Com a introdução da poliquimioterapia no tratamento das pessoas com hanseníase, reduziu-se consideravelmente a prevalência da patologia no país, porém são identificados outros problemas para a eliminação da moléstia. Moreira (2002), narra que a baixa cobertura dos serviços de saúde com ações programáticas implantadas, a alta prevalência de casos ocultos, a manutenção de hansênicos em condições de alta no registro ativo e a baixa qualidade do sistema de informações constituíam entraves para a redução da enfermidade. Corroborando Queiroz; Puntel (1997) discursam que a falta de capacitações e preparo dos médicos em diagnosticar e tratar esta doença era o principal empecilho que impedia a descentralização do tratamento da hanseníase pela rede publica de serviço de saúde. Em 1986, o Ministério da Saúde promoveu a VIII Conferência Nacional de Saúde, recuperando os direitos dos cidadãos e discutindo a desativação dos leprosários no Brasil. Esta conferência discutiu sobre os principais problemas de 22 gerenciamento, controle e administração de saúde da população. As diretrizes emanadas desta conferência serviram como referência base para o decreto presidencial que criou o Sistema Unificado e Descentralizado de Saúde (SUDS), em junho de 1987 (MACIEL, 2004. QUEIROZ; PUNTEL, 1997). O SUDS promoveu um efetivo processo de transferência de recursos materiais, humanos e financeiros para os Estados, e através deste, para os municípios, intensificando a política iniciada com as Ações Integradas de Saúde (AIS), em vigor desde 1983. Com a transmissão de um considerável grau de responsabilidade para o poder local, pretendeu-se promover um contato do sistema pela população. Além disso, com o processo de descentralização tornou-se possível uma melhor adequação do sistema a cada uma dos muitas realidades regionais do país (QUEIROZ; PUNTEL, 1997). Esse processo resultou com a promulgação da nova Constituição Brasileira em 1988, em que fica explícita a obrigação do município, em providenciar serviços de atendimentos à saúde de toda a população por intermédio de um Sistema Único de Saúde – SUS. No momento atual, a hanseníase é uma doença de notificação compulsória em todo o território nacional, realizado no nível municipal pela vigilância epidemiológica, e o seu controle é feito pela ficha de notificação do Sistema Nacional de Agravos Notificáveis - SINAN, que subsidia a construção de importantes indicadores, como os epidemiológicos4 e operacionais5 recomendados pelo Ministério da Saúde. Moreira (2002) relata que o SINAN é a única forma oficial de dados para avaliação e acompanhamento das intervenções do Programa de Controle da Hanseníase no Brasil, onde é enfatizado a efetividade da terapêutica e o monitoramento da prevalência da enfermidade. Porém, o sistema de informação não permite até então avaliar a propensão secular da endemia e o seu impacto, ou a eficiência do programa. 4 Indicadores epidemiológicos: “medem a magnitude ou a transcendência do problema de saúde pública” (BRASIL, 2002, p.64). 5 Indicadores operacionais: “medem o trabalho realizado, seja em função da qualidade, seja em função da quantidade” (BRASIL, 2002, p.64). 23 Para o Ministério da Saúde a vigilância epidemiológica realizada em âmbito nacional consiste em um conjunto de atividades que geram dados sobre a hanseníase e sobre o seu comportamento epidemiológico, com o intento de recomendar, executar e avaliar as atividades de controle da doença (BRASIL, 2002). Quando é diagnosticado um indivíduo com hanseníase faz-se de imediato a investigação epidemiológica, que tem por finalidade romper com a cadeia epidemiológica da patologia. Esta ação consiste na procura da identificação da fonte de contágio, na busca ativa de novos casos intradomiciliares6 e na prevenção da infecção de outras pessoas pelo bacilo de Hansen (BRASIL, 2002). O Programa de Controle da Hanseníase visa reduzir a morbidade no país, detectar precocemente os casos, diminuindo a transmissão da doença, as incapacidades físicas e os danos psicossociais causados por ela. As mudanças que ocorreram na história desta doença secular, como modificações na nomenclatura, fechamento dos leprosários, alterações legislativas, entre outras, contribuíram para a diminuição do estigma social que o paciente hansênico enfrentava na sociedade e a inserção do mesmo no meio social. Não obstante, ainda hoje este estigma está presente, mais atenuado, em virtude de uma compreensão melhor desta patologia, das formas de contágio e de seu tratamento. 3.2 ASPECTOS CLÍNICOS “A hanseníase será apenas uma página virada na vida do indivíduo” (OMS, 2000). Contato intradomiciliar: toda e qualquer pessoa que resida ou tenha residido com o hanseniano nos últimos cinco anos (BRASIL, 2002). 6 24 A hanseníase é uma enfermidade de notificação obrigatória em todo o Brasil, sendo objeto de ação na saúde pública em razão da sua amplitude e potencial incapacitante e, ainda, por acometer pessoas economicamente ativa. É uma enfermidade infecto-contagiosa, de evolução lenta, que tem como principais manifestações lesões na pele e nos nervos periféricos, principalmente olhos, mãos e pés. É uma moléstia curável e quanto mais precocemente diagnosticada e tratada mais rapidamente o paciente é curado. O agente causador desta doença é o Mycobacterium leprae ou bacilo de hansen, que se instala no organismo da pessoa infectada e pode se multiplicar. De acordo com o Ministério da Saúde (BRASIL, 2002), o tempo de multiplicação deste agente é lento, podendo durar, em média, de 11 a 16 dias, no entanto tem alta infectividade e baixa patogenicidade, ou seja, infecta muitas pessoas, mas poucas adoecem. Segundo o Ministério da Saúde (BRASIL, 2005a) e Maciel (2004), o período de incubação do bacilo é de dois a sete anos, entretanto existem referências de períodos mais curtos, como sete meses, como também de mais de dez anos; sua taxa de morbidade no Brasil é de 4,5 casos, em média, dependendo do Estado da Federação, podendo chegar até 20 casos, como nos Estados do Mato Grosso, Rondônia e Amazonas. A fonte de infecção da hanseníase é o homem; e seu contágio se dá por meio de um indivíduo enfermo, portador do bacilo de Hansen, não tratado, que elimina para o meio exterior, contaminando pessoas susceptíveis. Esta suscetibilidade pode ser avaliada por intermédio da intradermo-reação de Mitsuda7, que é uma prova biológica de leitura tardia do estado imunológico do indivíduo. O trato respiratório é considerado a principal via de eliminação do bacilo de Hansen pelo indivíduo doente e a porta de entrada mais provável no organismo passível de ser infectado (BRASIL, 2005a). Corroborando a autora Kawamoto afirma que 7 Reação de Mitsuda: é importante para avaliar a resistência das pessoas à infestação pelo M. leprae. É realizada injetando-se, por via intradérmica, uma suspensão de bacilos de Hansen mortos. É considerado negativo quando não ocorrer reação no local da aplicação; duvidosa quando houver pequeno tubérculo, menor que 5mm de diâmetro; e positivo quando o tubérculo apresentar mais de 5mm de diâmetro ou ulceração (BERNARDI; MACHADO, 2004). 25 [...] a resistência das pessoas é aferida pelo teste de Mitsuda. Acredita-se que, em áreas endêmicas, 85 a 90% dos indivíduos são Mitsuda-positivos. São aqueles que apresentam resposta celular específica ao bacilo, e, se vierem a apresentar a doença, apresentarão uma forma não-contagiante. Os Mitsuda-negativos são as pessoas que não têm resposta celular específica ao bacilo, e se vierem a apresentar a doença, apresentarão suas formas contagiantes (1995, p.155-156). Deste modo, os sujeitos que apresentarem reação de Mitsuda negativa tem maior probabilidade de adquirirem hanseníase nas suas formas mais graves e contagiantes, sendo estas dimorfa, virchowiana ou indeterminada com reação de Mitsuda negativa. Os indivíduos com reação de Mitsuda positivo, a possibilidade de adoecerem é menor, todavia se vierem a se infectar desenvolverão a doença nas formas não contagiantes, como a hanseníase tuberculóide ou indeterminada com reação de Mitsuda positiva. Segundo Matos et al. (1999), em um estudo em coorte de contatos intradomiciliares no Rio de Janeiro, os comunicantes de hansenianos que não foram vacinados com a BCG, os que apresentaram um resultado inicial negativo para o teste de Mitsuda e os que possuem um caso multibacilar na família estão no grupo de contatos com o maior risco de contrair a doença. As manifestações clínicas que caracterizam o aparecimento da doença no indivíduo infectado, dependem entre outros fatores, da relação parasita/hospedeiro, que pode ocorrer em um espaço de tempo de dois a sete anos. Acomete ambos os sexos de diferentes idades, sendo que o risco de adoecer é influenciado, além das condições individuais, pelos níveis de endemia e condições socioeconômicas desfavoráveis, bem como qualidade de vida e de saúde precária e o alto número de sujeitos convivendo em um mesmo ambiente (BRASIL, 2002). 26 3.2.1 Classificação da hanseníase O Ministério da Saúde enfatiza que hanseníase divide-se pelo seu poder de infecção, como as de baixa carga bacilar, que abrigam um pequeno número de bacilos no organismo das pessoas que adoecem chamadas de Paucibacilar (PB), e as Multibacilares (MB) que tem alto poder de infecção, multiplica-se no organismo do doente passando a ser eliminado para o meio exterior, podendo infectar outras pessoas. Nesta última o indivíduo doente é considerado fonte de infecção e manutenção da cadeia epidemiológica da doença (BRASIL, 2002). Outra abordagem sobre está questão vem de Bernardi; Machado (2004), os quais mencionam que a hanseníase deve ser classificada em dois grupos, em nível de saúde pública. Estes englobam todas as formas clínicas descritas nas classificações mais antigas, sendo: - hanseníase paucibacilar (PB), que tem como característica menos de cinco lesões de pele e/ou apenas um tronco nervoso acometido; divide-se em indeterminada e tuberculóide; - hanseníase muitibacilar (MB), que se divide em indeterminada com reação de Mitsuda negativa, dimorfa e virchowiana. A Hanseníase Indeterminada (HI) com reação de Mitsuda positiva é considerada a fase inicial da patologia. Possui baciloscopia8 negativa, apresenta, em geral, áreas de hipo ou anestesia, parestesias9, manchas hipocrômicas10 e/ou eritemato-hipocrômicas, com ou sem diminuição da sudorese e rarefação de pêlos. As manchas possuem dimensões e números variáveis, comumente até cinco manchas, suas bordas podem ser irregulares, no entanto costumam ser bem 8 Baciloscopia: é o exame baciloscópico que “pode ser utilizado como exame complementar para a classificação dos casos em MB e PB. Baciloscopia positiva indica hanseníase multibacilar, independentemente de número de lesões” (BRASIL, 2005a, p.365). 9 Parestesia: “toda sensação anormal de picadas, formigamentos etc., ou ainda o distúrbio da sensibilidade que pode ser detectada pelo exame físico e que difere de uma hipo ou de uma hiperestesia, como por exemplo um erro na localização do estímulo ou um retardo na percepção do mesmo” (SILVA; SILVA, 2004, p.457). 10 Hipocrômia: “diminuição da cor” (SILVA; SILVA, 2004, p.316). 27 delimitadas em relação à pele normal que a envolve (BERNARDI; MACHADO, 2004). Na Hanseníase Tuberculóide (HT) a reação de Mitsuda é positiva. Apresenta baciloscopia negativa, placas eritematosas, com infiltração de pequemos tubérculos, eritemato-hipocrômicas bem-delimitadas, hipo ou anestésicas e comprometimento de nervos. Manifesta-se por no máximo cinco lesões, seu centro tem aspecto de pele normal ou hipocrômico (Ibidem). Bernardi; Machado (2004), descrevem que a Hanseníase Indeterminada (HI) com reação de Mitsuda negativa é análogo a Hanseníase Indeterminada com reação de Mitsuda positiva. Neste tipo de hanseníase os indivíduos são anérgicos, isto é, não resistem à invasão e multiplicação do bacilo. Esta classificação se não tratada pode evoluir para as formas granulomatosas virchowiana ou dimorfa. As manchas hipocrômicas variam em quantidade e dimensões; podem estar presentes anestesia11, anidrose12 e alopecia13. A Hanseníase Dimorfa (HD) é considerada a forma instável da doença, situada entre a tuberculóide e virchowiana. As pessoas que apresentam este tipo de hanseníase podem apresentar reação de Mitsuda negativa, duvidosa ou fracamente positiva. Sua baciloscopia pode ser positiva (bacilos e globias ou com raros bacilos) ou negativa. Histologicamente14 exibe infiltrado virchowiano com áreas que esboçam granulomas tuberculóides. Manifesta lesões pré-foveolares (eritematosas planas com o centro claro), lesões foveolares (eritematopigmentares de tonalidade ferruginosa ou pardacenta), apresenta, com o passar do tempo, alterações de sensibilidade (Ibidem). Já a Hanseníase Virchowiana (HV) é a forma clínica mais freqüente no Brasil. Sua evolução é lenta, atingindo, às vezes, estados mutilantes e altamente contagiosos, podendo acometer vísceras. O teste de Mitsuda é negativo e sua baciloscopia positiva (bacilos abundantes e globias). As lesões iniciais não 11 Anestesia: “ausência de sensação dolorosa” (DEOCLECIANO TORRIERI GUIMARÃES, 2002, p.45). 12 Anidrose: “deficiência da perspiração” (Ibidem, p.48). 13 Alopecia: “perda de cabelos e outros pêlos ocasionada por diversas doenças” (Ibidem, p.37). 14 Exame histopatológico: “indicado como suporte na elucidação diagnóstica e em pesquisas” (BRASIL, 2005a, p.365). 28 apresentam modificações na sensibilidade, favorecendo para que as mesmas passem despercebidas pelos doentes. Estas aumentam de tamanho com os meses, formando placas eritematosas infiltradas e de bordas mal definidas. A doença evolui manifestando hansenomas tuberosos15 e nódulares, que incidem no tronco, nas superfícies de extensão dos membros e no rosto, o que caracteriza a face leonina. O septo nasal pode perfurar-se e ocasionar desabamento do nariz, conhecido como nariz em sela. Apresenta madarose16 e lesões das mucosas, com alteração da sensibilidade. Tardiamente, aparecem úlceras crônicas nos locais de atrito repetido, como regiões palmares e plantares, com destruição e reabsorção óssea nessas áreas, levando o doente a grande incapacitação e mutilação envolve (BERNARDI; MACHADO, 2004). Uma referência importante que os autores supramencionados expressam é que são comuns manifestações neurológicas em todas as formas de hanseníase. Contudo, na hanseníase indeterminada não há comprometimento de troncos nervosos, não ocorrendo, por isso, problemas motores. E na hanseníase tuberculóide o comprometimento de nervos é mais precoce e mais intenso. 3.2.2 Reações hansênicas ou estados reacionais As reações hansênicas são consideradas reações do sistema imunológico do enfermo ao bacilo Mycobacterium leprae, manifestados através de episódios inflamatórios agudos e subagudos (BRASIL, 2005a). 15 Tubérculo: em anatomia “diz-se de um pequeno nódulo arredondado e saliente que se focaliza na superfície de um osso; em anatomia patológica, significa pequeno agrupamento nodular que se constitui no seio de um tecido por aglomeração de células de diversos tipos, segundo a afecção responsável, e mais particularmente, o nódulo tuberculoso” (SILVA; SILVA, 2004, p.626). 16 Madarose: “ausência completa de cílios” (SILVA; SILVA, 2004, p.374). 29 O processo inflamatório é resposta do organismo à infecção, caracterizada por edema local, calor, rubor, dor e perda da função. Na hanseníase os bacilos afetam a pele e os nervos, as reações hansênicas cursam com inflamação nestes lugares, podendo também afetar outros órgãos, tais como gânglios, causando aumento dos mesmos (ínguas ou linfadenomegalias). A inflamação em uma lesão de pele pode ser incômoda, mas raramente é grave. Por outro lado, a inflamação em um nervo pode causar graves danos, como a perda da função (sensitiva e motora) devido ao edema e à pressão exercida no nervo (BRASIL, 2005b, p.15). Na mesma esteira, o Ministério da Saúde enfatiza que os “estados reacionais são a principal causa de lesões dos nervos e de incapacidades provocadas pela hanseníase” (BRASIL, 2005a, p.377). Logo, é cogente que o diagnóstico desta doença seja realizado o mais precocemente possível, para iniciar o tratamento, objetivando prevenir tais incapacidades. Aproximadamente 25 a 30% dos hansenianos desenvolvem reações ou dano neural em algum momento, sendo o risco maior para os pacientes que possuem várias lesões de pele e espessamento neural (BRASIL, 2005b). É de parecer do Ministério da Saúde que os estados reacionais acontecem durante os primeiros meses de tratamento com poliquimioterápicos, contudo podem sobrevir antes da terapêutica e induzir ao diagnóstico da patologia. Os fatores potencialmente desencadeantes dos eventos reacionais são a gestação, infecções concorrentes e estresse físico ou psicológico (BRASIL, 2005a). O escrito elaborado pelo autor supracitado informa ainda que o diagnóstico médico das reações hansênicas dá-se por meio do exame físico e dermatoneurológico do doente. O tratamento da hanseníase não necessita ser interrompido com o diagnóstico das reações, caso estas forem observadas após a terapêutica não é preciso reiniciá-la. 30 Uma observação importante ressaltada pelo Ministério da Saúde é com as reações hansênicas pós-alta, para que estas não sejam confundidas com os casos de recidiva da doença. Isto é comum nos esquemas de tratamento de curta duração (BRASIL, 2005a). Os sinais e sintomas das reações hansênicas na pele são lesões inflamadas; nos nervos pode haver dor ou hipersensibilidade, perda de sensibilidade recente e/ou fraqueza muscular recente; nos olhos pode haver dor e hiperemia, diminuição recente da acuidade visual, fraqueza muscular recente no fechamento das pálpebras e diminuição recente da sensibilidade corneana; e nas mãos e pés pode haver edema súbito. Em pacientes com hanseníase multibacilar as manifestações iniciais podem ser, algumas vezes, febre, artralgia e aumento dos gânglios inguinais, cervicais e axilares. O aumento de volume e dor nos testículos devem ser investigados nos casos de reações, pois, geralmente, o paciente não informa o fato durante a consulta (BRASIL, 2005b). Os estados reacionais são classificados em dois tipos: reação tipo 1 ou reação reversa e reação tipo 2. A reação tipo 1 ou reação reversa caracteriza-se por lesões dermatológicas (manchas ou placas), infiltração, alterações de cor (violáceas) e edema nas lesões antigas, bem como dor ou espessamento dos nervos (neurites), pode surgir malestar, febre e comprometimento do estado geral (BERNARDI; MACHADO, 2004. BRASIL, 2005a; 2005b). Na reação tipo 2 o quadro clínico é manifestado por Eritema Nodoso Hansênico (ENH), os quais tendem a se tornar crônicos, é caracterizado por nódulos vermelhos e dolorosos, febre, dores articulares, dor e espessamento nos nervos e mal-estar generalizado. Pode ocorrer também irite17, com dor, vermelhidão, estreitamento e irregularidade da pupila e fotofobia18. Geralmente, as lesões antigas permanecem sem alterações (BERNARDI; MACHADO, 2004. BRASIL, 2005a; 2005b). 17 18 Irite: inflamação da íris (BRASIL, 2005b). Fotofobia: dor nos olhos quando exposto à luz (Ibidem). 31 O Eritema Nodoso hansênico (ENH) é uma doença crônica, podendo persistir por diversos anos. A pessoa pode vir a falecer por complicações caso não receba o tratamento (BRASIL, 2005a). O tratamento para as reações hansênicas dar-se-á na Rede Básica de Saúde, contudo há a possibilidade de encaminhar pacientes críticos para centros de referência. Dentro da concepção do Ministério da Saúde (BRASIL, 2005b) os fatores que auxiliarão o local em que será realizado o tratamento são a gravidade da reação, o estado reacional que pode não responder ao tratamento satisfatoriamente num período de 30 dias, a existência de complicações ou contra-indicação que afete o tratamento, medicamentos disponíveis, conhecimento e habilidade dos profissionais, e exames clínicos e laboratoriais disponíveis na unidade de saúde. As reações necessitam de tratamento urgente, pois podem levar a deformidades irreversíveis. Para reduzir as dores e febre pode fornecer paracetamol ou aspirina. A medicação de primeira escolha utilizada como terapêutica dos estados reacionais consiste em prednisona – corticóide, seguido da talidomida (OMS, 2000). 3.2.3 A terapêutica aplicada em hanseníase Com tudo o que foi enfatizado, pode-se afirmar que a hanseníase consiste numa patologia sistêmica, que atinge diversos órgãos como pele, nervos, entre outros. Necessitando, desse modo, de diferentes especialidades médicas para a realização do seu tratamento e carecendo de persistência por parte do paciente, uma vez que a terapêutica é complexa em virtude do tempo de terapia empregada, e ainda há os efeitos colaterais que os medicamentos produzem e que nem sempre são bem tolerados pelo hansênico. 32 O Ministério da Saúde discorre que ao iniciar o tratamento com quimioterápicos, o doente deixa de transmitir a doença, isto se deve, pois as primeiras doses da medicação que matam os bacilos, tornando-os incapazes de infectar outras pessoas, rompendo assim a cadeia epidemiológica. “O diagnóstico precoce da hanseníase e o seu tratamento adequado evitam a evolução da doença, conseqüentemente a instalação das incapacidades físicas por ela provocadas” (BRASIL, 2002 p.13). Deste modo, o tratamento da hanseníase é importantíssimo para o seu controle; através da terapêutica empregada interrompe a transmissão da doença, curando o indivíduo doente e, procurando, restituir à normalidade do convívio social e/ou de atividades profissionais e familiares. Uma conquista importante é que a hanseníase está sendo tratada nas Unidades Básicas de saúde dos municípios, sendo assim problema de saúde pública. Esta ótica encontra afinidade com as proposições de Helene; Rocha (1998), os quais aludem que o tratamento da hanseníase, tanto na forma paucibacilar como na multibacilar, está sendo efetuado em regime ambulatorial, nas Unidades Básicas de Saúde. A terapêutica realizada é denominada de poliquimioterapia (PQT), sendo constituída por dois esquemas diferenciados para a forma paucibacilar e para a multibacilar. Queiroz; Puntel (1997) referem que, embora o tratamento com PQT seja eficaz, o mesmo altera o sistema imunológico do indivíduo, podendo provocar vários problemas colaterais, como por exemplo, o escurecimento da pele, que propicia para aumentar a depressão e reduzir a auto-estima. A duração do tratamento é fundamentada no diagnóstico dos doentes, que podem ser paucibacilares ou multibacilares. Destarte, considera-se uma pessoa com alta por cura, aquela que completa o esquema de tratamento PQT nos seguintes prazos: - esquema paucibacilar (PB): seis doses mensais supervisionadas de rifampicina, em até nove meses, mais dapsona auto administrada; - esquema multibacilar (MB): doze doses mensais supervisionadas de rifampicina, em até dezoito meses, mais a dapsona auto administrada e a clofazimina auto administrada e supervisionada (BRASIL, 2005a). 33 Casos multibacilares que iniciam o tratamento, com numerosas lesões e/ou extensas áreas de infiltração cutânea, poderão apresentar regressão mais lenta das lesões de pele. A maioria desses doentes continuará melhorando após a conclusão do tratamento com 12 doses. É possível, no entanto, que alguns demonstrem pouca melhora e, por isso, poderão necessitar de até 12 doses adicionais de PQT (BRASIL, 2005a, p.368). A hanseníase, doença milenar, resiste à modernização da medicina em razão das suas peculiaridades. Visto que o paciente e sua família devem ser acompanhados durante um tempo prolongado, formando, assim, um vínculo entre o serviço de saúde, o médico, o paciente e sua família. Com reflexões semelhantes, Saho; Santana (2001) referem que esta doença é de curso prolongado, necessitando um esquema de tratamento que torna indispensável à participação ativa do paciente e seus familiares. Todavia, há algumas dificuldades no tratamento da hanseníase, como aborda Queiroz; Puntel Na maioria das vezes, o paciente de hanseníase é um migrante pobre com pouca inserção social e com baixo nível educacional. O tratamento da doença exige uma disciplina que ele não está preparado para suportar, principalmente levando-se em conta que a doença não produz grandes problemas físicos no início de sua manifestação, enquanto a medicação geralmente produz mal-estar. [...] tudo isso vai ao encontro de uma situação não propícia a cura (1997, p.61). Diante disto, é preciso identificar a pessoa com hanseníase precocemente, bem como acompanhar o seu tratamento e o término deste, observando e tratando as possíveis intercorrências e complicações da doença, os efeitos colaterais da PQT, os estados reacionais e as, supostas, recidivas. 34 Queiroz; Puntel (1997) trazem à baila que a hanseníase necessita um contato prolongado entre a equipe de profissionais da saúde e o hanseniano, com um tratamento não meramente biológico e sim envolvendo as condições socioeconômico e cultural deste paciente. Fatores estes que influenciam na terapêutica e na cura, como questão de pobreza, carência cultural, desagregação familiar, subemprego, além de problemas psicológicos específicos da enfermidade relativos à rejeição e a baixa auto-estima. Na mesma esfera a Organização Mundial de Saúde (2000), explana que a PQT pode apresentar como efeitos colaterais urina avermelhada por causa da rifampicina; escurecimento da pele pelo uso da clofazimina, este efeito colateral desaparecerá após o tratamento; e alergia que pode ser provocada por qualquer um dos medicamentos da PQT. Retomando a questão sobre a hanseníase ser um problema de saúde pública, o Ministério da saúde enfatiza que o controle desta patologia dar-se-á em todas as Unidades Básicas de Saúde, na qual toda a população tem acesso. O tratamento aos hansênicos sucede-se nos três níveis de atenção à saúde: primário, secundário e terciário (BRASIL, 2001). O nível primário, de acordo com Cecílio (2000), visa proporcionar atenção integral à saúde dos indivíduos, dentro das prerrogativas instituídas neste nível de atenção, na perspectiva da construção de uma verdadeira “porta de entrada” para os demais níveis superiores de maior complexidade tecnológica do sistema de saúde. O nível secundário consiste nos serviços ambulatoriais com suas especialidades clínicas e cirúrgicas, no conjunto de serviços de apoio diagnóstico e terapêutico, em determinados serviços de atendimento de urgência e emergência e em hospitais gerais. Já o último nível ou atenção terciária consta em serviços hospitalares de alta complexidade, tendo no seu cimo os hospitais terciários e quartenários, de caráter regional, estadual ou nacional. Portanto, a atenção de saúde aos usuários fundamenta-se na forma de pirâmide, representando a possibilidade de uma racionalização do atendimento, de tal maneira que haja um fluxo ordenado de pacientes de baixo para cima e viceversa, efetivado por meio de mecanismo de referência e contra-referência, de forma 35 que as necessidades de assistência das pessoas sejam trabalhadas nos espaços tecnológicos adequados. 3.2.4 Incapacidades... marcas físicas deixadas pela doença Como foi destacada anteriormente a detecção precoce de indivíduos com hanseníase, bem como o tratamento da enfermidade e dos estados reacionais, é importante, principalmente, para prevenir incapacidades. O Ministério da Saúde pondera sobre as incapacidades. Sendo a incapacidade primária o dano neural inicial, a qual possui como características fraqueza muscular e/ou perda sensitiva, varia na gravidade, de insignificante até completamente incapacitante. Pode ocorrer perda da sudorese, deixando a pele mais vulnerável a ferimentos. A incapacidade primária pode evoluir para secundária, que abrange feridas, úlceras, osteomielite, perda de tecidos (dedos), contraturas e deformidades fixas nas mãos e pés, lesão de córnea e cegueira (BRASIL, 2005b). O grande problema da hanseníase são as incapacidades, sendo responsáveis pela exclusão do mercado de trabalho de uma parcela significativa de pessoas que se encontram em plena capacidade laboral e do convívio social. Estas incapacidades são consideradas uma das causas que sustenta o ciclo de medo e fuga do diagnóstico da doença na sua fase inicial e do tratamento. Isto oculta muitos casos de hanseníase na sociedade, nutrindo a cadeia de transmissão da patologia (ANDRADE, 2006). Pode-se prevenir incapacidades adicionais, por exemplo, evitando ferimentos nas mãos e nos pés, colocando o membro afetado em repouso, assim que perceber qualquer ferimento, e protegendo os olhos com óculos de sol. 36 Como prioridade aspira-se impedir dano neural permante, ou seja, que a incapacidade primária evolua para secundária. Para isso é preciso que o paciente tenha conhecimento do seu quadro clínico, das incapacidades e como prevenir danos maiores. Ademais os profissionais de saúde devem ser agentes ativos junto ao paciente, orientando, auxiliando e encorajando o mesmo e seus familiares. 3.3 ESTIGMA e PRECONCEITO x HANSENÍASE e ATUALIDADE "O amor ainda é o melhor remédio para todos os males do mundo desde que seja traduzido em trabalho, em humildade, em ética, em compromisso, em justiça" (Secretário Nacional do Morhan). Analisando a narrativa da hanseníase, compreende-se que a segregação do meio social e, principalmente, da família, o castigo divino, os rituais utilizados durante a história para identificação dos “leprosos”, construíram no conceito popular preconceitos arraigados, que mesmo com um melhor conhecimento científico em relação à doença e com tratamento eficaz, interfere no processo de socialização do doente. Embora haja tratamento e cura, o risco de contágio seja restrito e as deformidades evitáveis se a enfermidade for diagnosticada precocemente. No conceito de Mendes (2004), o medo causado pela hanseníase durante séculos, o número incalculável de pessoas que padeceram desta enfermidade no decurso dos tempos, e sendo considerada desde a antigüidade uma moléstia contagiosa, mutilante e incurável, contribuíram para uma intensa reação da comunidade, provocando temor em relação aos indivíduos acometidos pela hanseníase. 37 Para Maciel (2004, p.113) a experiência de adoecer e o estigma social “pode trazer lesões de qualquer tipo, temporárias ou permanentes, e interfere no processo de socialização”. A descoberta de que se é portador do bacilo de Hansen provoca mudanças de comportamento no indivíduo por causa do estigma, uma vez que no contexto da hanseníase estigma “refere-se ao descrédito, à desqualificação e à marginalização social em conseqüência das deformidades físicas” (QUEIROZ; PUNTEL, 1997, p.101). Simões; Delello (2005, p.14), enunciam que há alterações no comportamento dos hansenianos, “fazendo com que eles se isolem e tenham hábitos que mostram sua baixa estima não apenas diante da família, mas com os amigos e colegas de trabalho”. Conforme Souza; Therrien; Moreira (2006) ainda existe denominações atribuídas às pessoas com hanseníase, que provocam sofrimento, dor e discriminação aos mesmos, como lepra, elefantíase ou Mal de Hansen, camunhengue, garro, lázaro, lazarado, lazarento, leproso, macutena, maldelazento, morfético e nojento. O preconceito e o estigma são evidentes nestas atribuições. Uma vez que um indivíduo é estereotipado com tal rótulo social, que significa a imposição de uma marca que, de um certo modo, o reduz a uma condição inferior ao padrão mínimo atribuído à condição humana, restaria a ele duas possibilidades: ou se adequar ao papel marginal a ele designado ou tenta “encobrir” as marcas que caracterizam o estereótipo estigmatizante (QUEIROZ; PUNTEL, 1997, p.101). Formiga (2006) discorre que a tenacidade da hanseníase está agregada ao leproestigma, intervindo na manutenção da moléstia por trazer obstáculos para o seu tratamento. “O preconceito começa na linguagem, transfere-se para a atitude e aparecem os níveis de afastamento. Surge o ato de evitar; a discriminação e a segregação” (Ibidem, 2006, p.s/n). Tem se uma noção de como o estigma e o preconceito interfere na vida de um indivíduo ao compreender melhor a palavra preconceito que, de acordo com o 38 Dicionário Aurélio, consiste em um conceito formado antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos, uma idéia preconcebida. Pode ser um julgamento ou opinião formada sem se levar em conta o fato que os conteste. Há ainda outras denominações como: superstição e crendice (FERREIRA, 1999). O indivíduo com hanseníase, na percepção de Figueiredo (org.) 2005), opta em não contar aos familiares, amigos e colegas de trabalho sobre sua enfermidade, por medo de ser discriminado. Tal atitude reforça o preconceito e a desinformação acerca da doença. Na mesma esteira Simões; Delello (2005) descrevem que a pessoa com diagnóstico de hanseníase se atemoriza ao receber a notícia, acaba internalizando a necessidade de ocultar o fato para os demais e passa a sentir o peso do estigma, mesmo tendo conhecimento que se trata de uma doença curável e não transmissível nos dias atuais. Diante disto, o profissional de saúde tem um árduo trabalho de disseminar na população e com os doentes informações sobre a hanseníase, com a finalidade de diminuir o estigma, o preconceito e conhecimentos incorretos a respeito da enfermidade. A dimensão sociocultural desta patologia é um desafio para nós profissionais e também para a sociedade. Pois, mesmo com a evolução da medicina, da terapêutica empregada, com a alteração na terminologia da doença, para atenuar o estigma, não se conseguiu dissuadir os conceitos mais obsoletos sobre a hanseníase, sejam na sociedade ou no próprio doente. Corroborando Pinto (2006), frisa que a hanseníase enquanto questão de saúde pública pode ser deliberada com medicamentos, todavia o estigma associado à patologia somente será resolvida com a evolução da nossa cultura. Atualmente a anátema não está mais no hanseniano e sim na mente arcaica de quem a desconhece, de quem a censura. A incompreensão da doença e sua herança cultural-religiosa deixaram seqüelas mais profundas e dolorosas nos portadores de hanseníase do que as deformidades aparentes. Para agravar este quadro, os meios de comunicação contribuem com a propagação 39 irresponsável de conceitos primitivos e preconceituosos. Os efeitos são devastadores e configuram-se em obstáculos incontestes para os esforços de desestigmatização (PINTO, 2006, p. s/n). Não se pode negar que a mídia possui um poder construtivista tanto quanto destrutivista, podendo interferir fortemente na vida pessoal e social de uma pessoa. Os meios de comunicação são formadores de opiniões! Em conformidade Formiga (2006), cita que o advento de uma notícia imprópria na televisão ou rádio, pode aniquilar com um trabalho de longos anos de investimentos e esforços dirigidos à educação e a ciência. 3.3.1 Família e sexualidade x estigma e preconceito Entende-se que para que o paciente tenha um suporte psicológico adequado para agüentar o peso do estigma e um tratamento efetivo em relação a esta patologia é preciso o apoio familiar. Para Queiroz; Puntel (1997), o diagnóstico de hanseníase assusta o sujeito, não obstante o fato de ter conhecimento que esta doença é curável e não é transmissível, incorpora a necessidade de ocultar a verdade para os demais e passa a sentir o peso do estigma. Neste processo a aliança com a família é imprescindível. Os autores discursam que o cuidado que o hanseniano tem em expor a sua doença ou a atitude de ocultá-la para os vizinhos, colegas de trabalho e para o seu meio social é consideravelmente maior que para os familiares. Pois estudos revelam que as pessoas com hanseníase que não tiveram a precaução em resguardar sua imagem social sofreram ardentemente o preconceito, um processo de degradação ou mesmo de exclusão, como, por exemplo, demissão no trabalho. 40 A reação da pessoa e de seus familiares ao descobrir a doença pode ser variada. Estes podem “reagir ao diagnóstico de hanseníase como uma catástrofe terrível, com indiferença ou com alívio. As razões para essas discrepâncias repousam [...] no nível de educação e de renda a que pertence o doente” (QUEIROZ; PUNTEL, 1997, p.105). Em um estudo realizado por Queiroz; Puntel (1997) percebe-se que as famílias de classe média reagiram ao diagnóstico como algo muito negativo, mesmo a forma da doença ser a menos grave; nas famílias de classe baixa a proporção dos que receberam o diagnóstico com indiferença ou com alívio foi notavelmente maior, posto que as formas da hanseníase apresentadas nesta classe social sejam as mais graves. A justificativa para este fato se deve que o diagnóstico de hanseníase, para as famílias de classe social baixa, não denota um estigma tão forte quanto nas famílias de nível educacional e renda mais altos. Para as famílias de classe social mais elevadas o diagnóstico representa uma ameaça direta à imagem pública e ao sentimento de identidade que elas tentam projetar para o mundo social e para si mesmas. Não deixa de constituir um paradoxo o fato de famílias com melhor nível de informação serem mais propensas a nutrir um preconceito desta natureza (QUEIROZ; PUNTEL, 1997, p.105). Nesta mesma pesquisa desenvolvida pelos autores acima mencionados identificou-se que a percepção de que a terapêutica empregada na hanseníase pode levar a cura está mais prejudicada nas famílias de classe social mais baixa, pelo fato de identificarem a saúde com a capacidade de trabalho e bem-estar. Já as famílias de classe social mais favorecida mostram menos dúvidas quanto à cura. Desta forma, as famílias de classe social baixa estão mais propensas a abandonar o tratamento do que as famílias de nível educacional e renda mais altos. Ratificando Claro (1995), constatou que nas pessoas com hanseníase, que possuem uma melhor condição socioeconômica, o impacto provocado pela moléstia 41 foi mais intenso, isto se deve, principalmente, ao fato de conhecerem a relação da hanseníase com lepra. Com base nas palavras dos pesquisadores estudados, afirma-se que o estigma e o preconceito existem dentro das famílias, sem divisão de classes, porém, em muitos casos são velados. Se nas suas famílias os hansenianos são discriminados imagine na sociedade! São segregados do meio social. Apesar do que foi discorrido até o momento, a família constitui o alicerce da pessoa com hanseníase. Neste sentido encontramos base nas palavras de Oliveira; Romanelli (1998, p.57), os quais citam que “Em face da instabilidade emocional provocada pela hanseníase, o apoio do cônjuge (marido ou esposa), dos filhos, pais e irmãos é importante no enfrentamento da doença e no sofrimento pela enfermidade”. Além do apoio psicológico, a participação familiar no tratamento da hanseníase é imprescindível, visto que a terapêutica empregada é de vários meses, contribuindo para a irregularidade e abandono do mesmo. Oliveira; Romanelli (1998) e Mendes (2004) salientam que é preciso apoio e incentivo familiar; estes devem ser envolvidos, pelos profissionais de saúde, no controle e tratamento dos doentes, despertando-lhes o senso de responsabilidade, de autocuidado e manutenção da saúde. É no âmbito familiar que acontecem os cuidados básicos do indivíduo, ocupando portanto, papel central da formação e preservação biológica do ser humano, é também onde se transmitem os ensinamentos mais fundamentais para o convívio social, é um lugar privilegiado de vivência do afeto, da intimidade. Tem um papel fundamental na formação da identidade do indivíduo e na construção da noção de cidadania na sociedade. É na estrutura familiar que encontramos o apoio e solidariedade que necessitamos no cotidiano, é a unidade potencialmente produtora de pessoas saudáveis, emocionalmente estáveis, felizes e equilibradas, ou como núcleo gerador de inseguranças, desequilíbrios e toda sorte de desvios de comportamento (VASCONCELOS apud MENDES, 2004, p.23). 42 A relação familiar pode ficar prejudicada com a elucidação da enfermidade, uma vez que é notório que há diferenças entre os sexos, como cada um reage à descoberta da doença, como cada indivíduo trabalha com ela e, também, como esta família está estruturada. A diferença de gênero é acentuada nesta patologia, de acordo com Oliveira; Romanelli (1998, p.52) [...] as mulheres e os homens apresentam diferenças significativas entre si não só em termos de necessidades específicas, mas também de acesso à proteção à saúde. Sabe-se que a doença pode ser um fator de desencadeamento de mudanças na estrutura da família, colocando a mulher, acometida pela hanseníase, em desvantagem pela duplicidade da discriminação que ela sofre, ou seja, ela é discriminada em função do gênero a que pertence e pelo fato de estar doente. No que se refere à vida conjugal de um indivíduo com hanseníase Minzoni; Vietta (1997) afirmam que a mesma contribui para o evento de separação em algumas famílias, especialmente, naquelas onde o relacionamento conjugal já apresentava indicativo de desavenças e o diagnóstico da doença acentuou o problema, resultando no rompimento do relacionamento. Para Oliveira; Romanelli (1998), a instabilidade emocional vivida pelos hansenianos irrompendo em um estado de crise, provoca tensões, modificações físicas, psicológicas e sociais, originando a desestabilização do relacionamento familiar e social. O bacilo de Hansen produz alterações fisiológicas no homem, podendo levar à diminuição da atividade sexual e redução da fertilidade. Estas alterações são palpáveis, como dor ou edema na região testicular, diferentemente do que ocorre com as mulheres. Como o sexo masculino é conhecido como sujeito ativo no ato sexual, a ausência de ereção induz a sérios problemas. O reflexo da disfunção sexual é percebido quando o homem culpa a medicação e a idade, e/ou ainda transfere a culpa para a cônjuge. A desestrutura familiar acontece com o surgimento de infidelidade, desconfiança e ameaça o espaço social por causa da ausência do cumprimento do ato sexual pelo homem com hanseníase (OLIVEIRA; ROMANELLI, 1998. OLIVEIRA; GOMES; OLIVEIRA, 1999). 43 Já para o sexo feminino a hanseníase age como obstáculo para receber demonstração de afeto, como beijos e carícias, porém o cônjuge não vê a doença como empecilho para o coito (OLIVEIRA; ROMANELLI, 1998). Como a principal via de transmissão da hanseníase é através das vias áreas pela eliminação do bacilo de Hansen pelo indivíduo doente, no beijo, em conformidade com Oliveira; Gomes; Oliveira (1999) há mistura de saliva e por isso existe o medo de contrair a moléstia; no caso da relação sexual, sai de dentro do homem o sêmen que penetra na mulher infectada. A hanseníase pode dificultar a disponibilidade, a motivação das mulheres, ou por falta de interesse delas mesmas ou por autorejeição, mas não impede de continuar a ser fonte de prazer sexual masculino, cumprindo o papel que as representações sobre a sexualidade do gênero feminino lhes atribui. A recusa eventual das mulheres no cumprimento do seu papel sexual, em decorrência da exaustão física pelo excesso de trabalho, aliado ao desgaste ocasionado pela doença, pode levar os homens a satisfazerem suas necessidades fora de casa, acentuando o sentimento de rejeição, a queda da auto-estima e o medo de serem abandonadas [...] (OLIVEIRA; ROMANELLI, 1998, p.56). Para Oliveira; Gomes; Oliveira (1999), algumas mulheres preocupam-se em serem abandonadas pelos esposos, sendo acentuado quando há filhos neste relacionamento. Percebe-se que a hanseníase provoca conseqüências diferentes na vida social e psicológica do homem e da mulher e a sexualidade é um dos fatores desencadeantes de modificações no cotidiano das pessoas com hanseníase. Assim sendo, os profissionais de saúde devem procurar fomentar uma assistência as pessoas com hanseníase descentralizada do que estabelece as normas do programa elaborado pelo Ministério da Saúde. Devem promover atividades e orientações ao paciente, ao cônjuge e a sua família quanto à prevenção, a reabilitação do hanseniano, os estados reacionais, os efeitos colaterais 44 da PQT, as incapacidades e, principalmente, as dificuldades que são encontradas no âmbito familiar, entre os casais, as alterações sexuais. Oliveira; Gomes; Oliveira (1999) salientam que os serviços de saúde desenvolvem intervenções assistenciais além do que prioriza o programa de controle e tratamento da hanseníase, contudo ficam centralizadas nas normas estabelecidas pelo mesmo. Para os autores a abordagem dos problemas sócio-psicológicos advindos dos efeitos da patologia é insuficiente, visto que a atuação é voltada para a prevenção, reabilitação e reações colaterais da PQT. Em relação à sexualidade na hanseníase, os autores informam que este assunto deve fazer parte da formação e/ou atualização dos profissionais da área de saúde, para prestar uma orientação e um cuidado mais amplo aos doentes, uma vez que, na atualidade, é afetada e pouco valorizada pela equipe de saúde que presta assistência ao hanseniano e sua família. Isto se deve talvez pelo desconhecimento ou por dificuldade em discorrer sobre esta temática tão polêmica, que é a sexualidade. 45 REFLEXÕES FINAIS Todos os dias, damos um passo à frente. Todos os dias, caminhamos um pouco mais na direção do nosso eldorado de sucesso. Todos os dias, passo a passo, construímos um mundo novo. Se olharmos para trás, veremos que deixamos marcas profundas nesta linda caminhada em busca da felicidade. Estas marcas são na verdade uma conquista após a outra, que juntas, se agregam na idéia de que, para superarmos os obstáculos da vida, precisamos colocar na nossa mente um ponto de chegada. Devemos seguir em frente sempre, sem termos medo do futuro que nos espera de braços abertos e com um largo sorriso, destinado às pessoas que acreditam que vencer nesta vida é muito mais que um sonho, é um Ideal. (autor desconhecido). 46 A história da lepra evoluiu... ocorreram mudanças significativas no seu curso. Pois a ciência buscou maneiras de dominar a patologia, através da identificação de seu bacilo, das formas de transmissão, do tratamento eficaz; e os gestores procuraram amenizar o estigma, através de mudanças nas leis, como, por exemplo, alteração na nomenclatura de lepra para hanseníase. Contudo, as condições socioculturais em torno da lepra... ...hanseníase são muito profundas, a mudança nesta área é morosa, muito mais complexa, depende sobretudo da sociedade. Destarte, apesar dos esforços realizados durante o século XX e preâmbulo do século XXI com o propósito de reduzir a conotação estigmatizante e preconceituosa da hanseníase, existe na sociedade atual um conjunto de imagens e conceitos frívolos a respeito da doença, fazendo com que os hansenianos, na sua maioria, ocultem a sua enfermidade a fim de não serem discriminados. Pode-se afirmar que, ao longo dos séculos, o estigma e o preconceito em torno desta patologia estão reduzindo gradativamente, em razão da cura através da terapêutica com medicamentos eficientes, de profissionais de saúde comprometidos cada vez mais com a patologia e, principalmente, com o portador do bacilo de Hansen, e com o apoio dos familiares. O indivíduo com diagnóstico de hanseníase, estigmatizado, incessantemente busca e procura a afirmação da identidade enquanto sujeito, procura a aceitação. “O modelo de aceitação social almejado e o fato de ser reconhecido como diferente mas não discriminado, portanto inserido socialmente, é a grande questão” (MACIEL, 2004, p.114). Apesar da eficácia do tratamento poliquimioterápico, o Brasil, em pleno século XXI, está no topo da lista, sendo um dos lideres mundiais com maior índice de pacientes hansênicos. E como pode, ainda, a hanseníase afetar tantos brasileiros assim, sendo os sinais e sintomas tão visíveis? Desinformação?! Talvez. Porém, nós, profissionais de saúde, temos laborado assiduamente na busca de novos casos para tratamento precoce, objetivando, restringir a transmissão desta patologia e, consequentemente, eliminar a hanseníase. 47 No entanto, para extinguir a hanseníase é cogente que os profissionais na área de saúde entendam que esta doença pode acometer ambos os sexos e envolve aspectos culturais, sociais e econômicos, além de representações peculiares de cada gênero. É iminente que esta patologia seja laborada com realce, abarcando as concepções de saúde-doença, não puramente biológicas, mas também culturais, sociais, econômicos, psicológicos e políticos, as condições impostas ou auto-impostas a estas pessoas. Chegamos ao término do estudo, muitas reflexões foram realizadas. Mesmo assim, ainda têm muito para discorrer acerca desta temática tão polêmica, a hanseníase, uma vez que este assunto é amplo, sendo mister prosseguir pesquisando sobre o mesmo, devido a sua relevância social, especialmente para os hansenianos e para os profissionais da saúde, que prestam atendimento constantemente a estes pacientes, quer seja na rede ambulatorial de saúde, no centro de referência e/ou no âmbito hospitalar. Pensamos ter alcançado o intento delineado, pois esta pesquisa teve como objetivo conhecer os diferentes aspectos sócio-históricos que interferem no processo de estigma e discriminação do hanseniano. Para a coleta das informações, lançamos mão de livros, periódicos, monografias de pós-graduação, teses e dissertações, bem como bibliografias computadorizadas. Diante do contexto apresentado, é possível assegurar que o pressuposto teórico foi confirmado, isto é, a história “perversa”, o estigma e o preconceito à volta da hanseníase, fazem com que os hansenianos, mesmo não manifestando fisicamente a doença, se excluem da sociedade, escondendo seu diagnóstico, afirmando ser simplesmente um problema de pele, são segregados socialmente. O conhecimento histórico contribui na reflexão sobre a vida dos sujeitos com hanseníase, bem como na melhoria das condições de atendimento pelos profissionais de saúde. Findamos este trabalho, acreditando que, para a extinção do estigma e preconceito em relação às pessoas com diagnóstico de hanseníase e para que os mesmos sintam-se inseridos na sociedade e não discriminados, é preciso à intervenção de profissionais de saúde capacitados para assisti-los de forma 48 qualificada, além do amparo dos familiares e amigos. Também, é necessário que o hanseniano compreenda a doença e as repercussões durante a história, e possa lidar com tal situação e a continuar a dar conta de seu cotidiano. Esperamos que este trabalho sirva de embasamento científico aos profissionais enfermeiros e de saúde, para desenvolverem uma assistência qualificada aos indivíduos com hanseníase e almejamos que contribua, especialmente, aos hansênicos a procurarem ajuda profissional, a realizarem o tratamento visando à cura e a enfrentarem o estigma e o preconceito velado em torno da moléstia. 49 REFERÊNCIAS “Se apenas ouço, esqueço”, Se apenas vejo, relembro, Mas se faço, aprendo” (autor desconhecido) . 50 ANDRADE, V. Acessibilidade ao diagnostico, tratamento e reabilitação física da hanseníase: uma responsabilidade de todos. Disponível em: http://www.morhan.org.br/htm.Visitada em: 12/09/2006. BAKIRTZIEF, Z. Identificando barreiras para aderência ao tratamento de hanseníase. Cadernos de Saúde Pública. 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FONTES : ATDS/CGDEN/DEVEP/SVS/MS; SES; IBGE Site: www.portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/hansen_taxas_anuais.pdf Acesso em: 01/10/2006 Situação da prevalência da hanseníase no Brasil no período de 1985 a 2003* 20 15 Coeficiente/10.000 habitantes 10 5 0 85 86 87 88 89 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 00 01 02 03 Prevalência 16,4 17,1 17 18 18,1 18,5 17,1 15,4 13 10,5 8,8 6,7 5,5 4,8 5,07 4,68 4,28 4,42 3,8 0 0 0 6 6 * Dados preliminares, 68.286 casos, Posição 31/03/2004. FONTES : ATDS/CGDEN/DEVEP/SVS/MS; SES; IBGE Site: www.portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/hansen_taxas_anuais.pdf Acesso em: 01/10/2006 57 Distribuição das UFs segundo níveis endêmicos Brasil 2003 Amapá Roraima Ceará Amazonas Pará Maranhão Piauí Acre Tocantins Rondônia Mato Grosso Bahia Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco Alagoas Sergipe Distrito Federal Goiás Minas Gerais Mato Grosso do Sul SãoPaulo Hiperendêmico - ≥ 20 casos/10.000 hab. Muito Alto - 10 |— 20 casos/10.000 hab. Espírito Santo Rio de Janeiro Paraná Santa Catarina Rio Grande do Sul Alto - 5 |— 10 casos/10.000 hab. Médio - 1 |— 5 casos/10.000 hab. Baixo - < 1 casos/10.000 hab. FONTES : ATDS/CGDEN/DEVEP/SVS/MS; SES; IBGE Site: www.portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/hansen_taxas_anuais.pdf Acesso em: 01/10/2006 Prevalência e detecção detecção da hanseníase 2005, por região. Região Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-oeste Brasil Prevalência 4,02 2,14 0,60 0,53 3,30 1,48 Parâmetro Médio Médio Baixo Baixo Médio Médio Detecção 5,63 3,07 0,88 0,69 4,41 2,09 FONTE: SINAN/DATASUS/MS. Plano Nacional da Eliminação da Hanseníase em nível municipal 2006-2010. Site: www.portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/hanseniase_plano.pdf Acesso em: 01/10/2006 Parâmetro Hiperendêmico Muito alto Médio Médio Hiperendêmico Muito alto 58 ANEXO B Episódios reacionais, estados reacionais ou reações hansênicas Episódios reacionais Formas clínicas Início Tipo 1 – Reação reversa Tipo 2 – Eritema nodoso hansênico (ENH) Paucibacilar Multibacilar Antes do tratamento PQT ou nos Pode ser a primeira manifestação primeiros seis meses do da doença. Pode ocorrer durante tratamento. Pode ser a primeira ou após o tratamento com PQT. manifestação da doença. Causa Processo de hiper-reatividade Processo de hiper-reatividade imunológica, em resposta ao imunológica, em resposta ao antígeno (bacilo ou fragmento antígeno (bacilo ou fragmento bacilar) bacilar) Manifestações Aparecimento de novas lesões As lesões preexistentes clínicas que podem ser eritemato- permanecem inalteradas. infiltradas (aspecto erisipelóide). Há aparecimento brusco de Reagudização de lesões antigas. nódulos eritematosos, dolorosos à Dor espontânea nos nervos palpação ou até mesmo periféricos. espontaneamente, que podem Aumento ou aparecimento de evoluir para vesículas, pústulas, áreas hipo ou anestésicas. bolhas ou úlceras. Comprometimento Não freqüente. É freqüente. sistêmico Apresenta febre, astenia, mialgias, náuseas (estado toxêmico) e dor articular. Fatores Edema de mãos e pés. Edema de extremidades. associados Aparecimento brusco de mão em Irite, epistaxes, orquite, linfadenite, garra e pé caído. neurite. Comprometimento gradual dos troncos nervosos. Hematologia Pode haver leucocitose. Leucovitose, com desvia à esquerda, e aumento de imunoglobulinas. Anemia. Evolução Lenta. Rápida. Podem ocorrer seqüelas O aspecto necrótico pode ser neurológicas e complicações, contínuo, durar meses e como abcesso de nervo. apresentar complicações graves. FONTE: BRASIL/ Ministério da Saúde/ Secretaria de Vigilância em Saúde/ Departamento de Vigilância Epidemiológica. Guia de vigilância epidemiológica. 6 ed. Brasília, DF, 2005, p.378.