ESTAÇÃO ECOLÓGICA DA UFMG: ESPAÇO DE CONHECIMENTO,
PRÁTICA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSERVAÇÃO DA NATUREZA
Gizelle Barbosa Telésforo/Universidade Federal de Minas Gerais
[email protected]
INTRODUÇÃO
As práticas de Educação Ambiental (EA) vêm destacando-se na atualidade como
uma possibilidade de transformação do mundo e de mentalidades que já não são
compatíveis com a conservação ambiental. O momento atual é bastante propício para
esse tipo de educação porque busca uma nova concepção de mundo. Sabe-se que o
modelo de acumulação capitalista, embora tenha prometido muitas coisas não foi capaz
de proporcionar benefícios para a maioria das pessoas. Por ser baseado na exploração
ilimitada dos recursos naturais vem gerando cada vez mais a destruição dos ambientes.
Assim, uma pequena parcela da população pôde se beneficiar desse modelo, enquanto a
grande maioria tem sofrido com a divisão desigual dos problemas ambientais e sociais,
sem contar as populações tradicionais que devido à adoção de um modelo de criação de
unidades de conservação alheio a realidade brasileira são expulsas de suas terras em
prol dos anseios de qualidade de vida das grandes cidades.
Tendo em vista o grande potencial da EA como prática educativa capaz de
produzir mudanças, buscou-se fazer uma reflexão sobre esse tipo de educação quando
realizada em áreas de conservação da natureza e especificamente na Estação Ecológica
da UFMG (E. Eco/UFMG.). Inicialmente cabe pensar que embora nos sistemas de
ensino o conhecimento tenha sofrido ramificações, ele deve se apresentar para a vida do
aluno como único. Paulo Freire (1981) coloca que a aprendizagem muda o sujeito e seu
campo de ação, ao conferir-lhe a possibilidade de novas leituras do mundo e de si
mesmo. Dessa forma, o educador deve possibilitar ao educando a compreensão da
realidade em que vive para nela intervir, fazendo o conhecimento sentido para a vida do
educando.
O conhecimento ambiental apresenta-se capaz de relacionar diversas ciências,
agregando ainda os conhecimentos tradicionais que não foram elaborados a partir da
lógica cientifica. Na escola organizada de maneira a separar os diversos campos do
conhecimento em disciplinas, o resultado acaba sendo a pouca relação entre os saberes.
Por exemplo, cabe ao professor de Geografia explicar a formação do relevo, ou de um
solo, porém ele acaba por não tocar nos fatores biológicos de formação de ambos,
delegando essa função ao professor de Biologia, ou um historiador que pode não
considerar fatores geográficos na compreensão do declínio de uma civilização
(CARVALHO, 2008). Assim, enquanto a lógica educacional fundamentada na lógica da
ciência é de dividir, criar fronteiras muitas vezes intransponíveis o conhecimento
ambiental, tendo em vista a sua complexidade, precisa ultrapassar barreiras.
Localização e Caracterização da Área
A Estação Ecológica da Universidade Federal de Minas Gerais é uma área de
conservação da natureza que está localizada em Belo Horizonte, Minas Gerais, nas
latitudes S 19º 52’ e W 43º 58’, posicionando-se ao norte da capital mineira. A área que
faz parte do campus universitário da UFMG é entrecortada pela Avenida Presidente
Carlos Luz, formando duas subáreas conhecidas como quarteirão 14 e 15 (FIGURA 1)
com uma extensão total de 114,3 hectares. Na área do quarteirão 14 são desenvolvidas
as atividades de extensão em educação ambiental, a área possui uma infra-estrutura
mais adequada para receber os visitantes que o quarteirão 15, além de uma grande
variedade de biótopos em uma extensão de 79,3 hectares.
A Estação Ecológica está inserida no domínio morfológico conhecido como
Depressão de Belo Horizonte que tem seu relevo esculpido sobre as rochas gnáissicosmigmaticas do embasamento cristalino, sendo a paisagem caracterizada por colinas com
topos abaulados com vertentes e vales côncavos, geralmente entulhados de sedimentos
arenosos e argilosos. A classe de solos mais freqüente na área pertence aos Cambissolos,
como foi verificado por NEVES (2002), sendo que, se apresentam rasos, em relevo
pouco movimentado, e em alguns casos nas matas semidecíduais, com horizonte A rico
em matéria orgânica. Foram encontrados também Latossolo Vermelho e Gleissolo,
sendo o último encontrado na Estação Ecológica próximo às áreas brejosas e à lagoa
assoreada.
Com altitudes que variam entre 800 e 880 metros, a área está situada no médio
curso do Córrego do Mergulhão, um dos afluentes da Lagoa da Pampulha e principal
curso d’água que corta a Estação. Na área foram construídos uma lagoa e um vertedouro
que recebem as águas desse córrego. O vertedouro localiza-se no ponto mais baixo da
área, com altitude de 813 metros, sendo que recebe material advindo das vertentes
formando um eixo de drenagem e escoamento de água. Já o ponto mais alto situa-se ao
sul da Estação, com altitude de 870,8 metros.
A vegetação original é característica da transição entre Floresta Atlântica, a
Leste do Estado e o Cerrado (Rizzini, 1997), apesar de apresentar espécies exóticas,
como o eucalipto, a área ainda apresenta duas características fisionômicas vegetais
típicas da região, as matas mesófilas semidecíduas e o cerrado. A Estação é uma das
principais áreas verdes protegidas da região Norte de Belo Horizonte. Apresenta uma
grande diversidade de fauna e flora como foi verificado por Neves (2002), a partir do
zoneamento ambiental que identificou em uma área de 79,3 hectares treze biótopos. A
característica de transição florística vem sendo bem aproveitada nas atividades de
educação ambiental desenvolvidas na área, pois possibilita que os visitantes entrem em
contato com uma grande diversidade de ambientes, além de visualizar o que ocorre em
maior escala na porção centro oriental do Brasil.
Historicamente a Estação Ecológica encontra-se localizada no terreno da antiga
Fazenda Dalva que foi desapropriada em 1944, pelo então prefeito de Belo Horizonte
Juscelino Kubistchek e doada ao Orfanato Lar dos Meninos Dom Orione. Durante o
período foram construídos galpões onde funcionavam alojamentos, oficinas de
marcenaria, serralheria, entre outras, além de um posto de saúde e uma olaria. Alguns
dos resquícios dessa época são hoje utilizados nas atividades de extensão como
elementos do patrimônio histórico da área. Em 1954, a área foi novamente
desapropriada pela União para mais tarde se tornar cidade universitária (NEVES, 1996).
Após a saída do Orfanato da área e início da construção dos prédios dentro do
campus começou-se a utiliza-la para fins de pesquisa. Inicialmente a área foi escolhida
para a instalação de uma Estação Experimental com criadouros, viveiros e uma pequena
represa no córrego Mergulhão para manejo e reintrodução de animais silvestres da
região e ficou conhecida como Grupo Ecológico. A origem da criação da Estação
Ecológica da UFMG é de meados da década de sessenta, quando as discussões sobre a
questão ambiental ainda fragmentadas, não institucionais e pouco consistentes têm
inicio nos âmbitos da universidade. No período de 1981 a 1987 a área ficou abandonada
e passou a ser utilizada como depósito de lixo e entulhos. Ocorriam freqüentes cortes de
árvores para retirada de lenha, invasões de sem-casas e queimadas.
Em 1988 foi
proposta por docentes e discentes uma nova tentativa de utilização da área, sendo que
em 29 de junho deste ano foi instituída através da portaria 0866, uma comissão
executiva composta de representantes de três unidades da UFMG: o Instituto de
Ciências Biológicas, o Instituto de Geociências e a Escola de Arquitetura que passou a
ser responsável por gerir as atividades e responder pela área.
Com a implantação da Estação Ecológica, as primeiras preocupações e esforços
foram dirigidos à limpeza, recuperação da área e de algumas construções, sendo que
essas iniciativas não visavam apenas o seu uso imediato, mas também garantir que o
local fosse utilizado para os fins e objetivos propostos: a conservação e uso racional e
harmonioso da área. A partir de então a Estação passou a receber vários projetos de
pesquisa e ensino incluindo o curso de mestrado em Ecologia, Conservação e Manejo
da Vida Silvestre do departamento de Biologia Geral do ICB, e o Projeto Caminhadas
Ecológicas voltado para a educação ambiental, o qual contribui decisivamente para o
tombamento da área junto ao Conselho de Patrimônio Cultural de Belo Horizonte.
FIGURA 1: Localização da Estação Ecológica
O Programa Estação Ecológica
O Programa Estação Ecológica (PROECO) foi elaborado em 2000, pelos
professores e membros da comissão executiva da Estação Ecológica Celso D’Amato
Baeta Neves e Bernardo Machado Gontijo. Sendo que, tem como objetivo expandir as
atividades interdisciplinares e as articulações interinstitucionais anteriormente
realizadas pelo Projeto Caminhas Ecológicas (PCE). Esse último vem sendo
desenvolvido na Estação Ecológica desde 1995, com apoio da Pró-reitoria de Extensão
da UFMG, junto aos estudantes de ensino infantil, fundamental, médio e superior. Entre
os objetivos do PROECO estão: desenvolver atividades de extensão junto a escolas,
entidades e associações visitantes; favorecer a articulação interinstitucional e
interdepartamental; interagir com a comunidade visando a melhoria da qualidade
ambiental do município; implantar projetos de educação ambiental junto à comunidade;
oferecer condições de atendimento junto aos visitantes com necessidades especiais;
promover a qualificação ambiental de professores e alunos.
O PROECO está estruturado em subprogramas, de extensão, de apoio ao ensino
e à pesquisa. O PCE faz parte dos subprogramas de extensão, sendo que já se encontra
implantado e consolidado junto à comunidade. O projeto busca aproveitar o espaço
privilegiado da Estação Ecológica para promover a Educação Ambiental através de
atividades ecológicas, promovendo o intercâmbio com as comunidades interna e externa
da universidade. Além disso, procura divulgar trabalhos de pesquisa realizados no local
enfatizando a importância da mesma na proteção dos ecossistemas naturais. Através de
atividades lúdicas e da interpretação ambiental busca evidenciar a correlação
multidisciplinar na análise do equilíbrio ecológico incentivando o enriquecimento
teórico dos visitantes. Desenvolve ainda a criatividade dos participantes estimulando a
formação de uma consciência ecológica através da sensibilização.
As caminhadas ecológicas são realizadas em todos os programas de visitação
oferecidos pela Estação Ecológica da UFMG, sendo considerada a atividade de maior
relevância por apresentar aos alunos uma área de conservação urbana e às diversas
peculiaridades que a compõem. Nesse sentido, o monitor ambiental assume importante
papel, pois embora alguns visitantes já possuam conhecimento sobre áreas de
conservação e preservação da natureza a grande maioria ainda se apresenta alheia ao
tema. O próprio fato de a área estar inserida em um ambiente urbano causa
estranhamento nos visitantes, pois a maioria possui uma ideia errônea sobre as unidades
e áreas de conservação, acreditando que as mesmas devem existir somente no meio rural
ou áreas de matas intocadas pelo ser humano. Assim, cabe ao monitor inserir os
visitantes na área de maneira consciente, alertando e propondo uma reflexão sobre a
necessidade de existência das áreas de conservação também nos grandes centros
urbanos.
Dinâmica do Programa de Extensão
Os visitantes recebidos pela EEco. /UFMG são alunos de instituições de ensino,
públicas e particulares de Belo Horizonte e cidades do entorno, além de alguns
municípios de Minas Gerais, sendo que os níveis de ensino vão desde a pré-escola até o
ensino superior. Outros grupos também são atendidos, como funcionários de empresas
ou de órgãos públicos, crianças em colônia de férias, grupos formados por Organizações
não Governamentais (ONGs), portadores de necessidades especiais etc. Dessa maneira,
nota-se que o público atendido pela EEco. /UFMG é bastante diversificado tornando-se
um desafio para o trabalho de educação ambiental que a mesma se propõe fazer, pois
requer adequação da linguagem de acordo com as faixas etárias, formas diferenciadas
de abordar os temas durante caminhada, posturas do monitor, entre outras. A área tem
recebido desde a implantação do PCE um número crescente de visitantes como pode ser
visualizado na figura 02. Entre os visitantes estão ainda pesquisadores e professores da
UFMG que utilizam a área para aulas de campo e pesquisas.
Visitantes da Estação Ecológica após implantação do Projeto
Caminhadas Ecológicas
25000
Nº de visitantes
20000
15000
10000
5000
0
1998
1999
2000
2001
2002
2003
Ano
2004
2005
2006
2007
2008
Fonte: Estação Ecológica da UFMG, 2008
Gráfico 01: Visitantes na Estação Ecológica da UFMG
Os visitantes são acompanhados dentro da área por monitores universitários e de
nível técnico. A procura pelo programa é grande e o atendimento ocorre de terça a sextafeira e em caráter especial aos sábados, mediante agendamento prévio. Embora, ofereça
programas de visitação variados, a caminhada interpretativa pela mata segue uma
metodologia similar, além de estar presente em todos os programas. Os visitantes são
divididos em grupos de 15 pessoas que recebem o acompanhamento de no mínimo um
monitor. No início da caminhada eles recebem orientações diversas relativas à postura
na mata como: fazer silêncio, não coletar nada da natureza, não jogar lixo, apreciar o
ambiente no qual estão inseridos etc. A caminhada possui um roteiro pré-estabelecido
que, todavia não impede adaptações tanto de temas a serem abordados quanto de trajeto,
segundo expectativa dos grupos. Ao longo das trilhas existem placas indicativas que
auxiliam o trabalho de interpretação do monitor (FIGURA 03).
Foto: Gizelle Barbosa Telésforo
Figura 02: Ponto de parada da Copaíba
Os monitores são de cursos diversos, da UFMG e de outras instituições de
ensino superior e técnico de Belo Horizonte. São graduandos de Geografia, Ciências
Biológicas, Turismo, Educação Física, Pedagogia, Ciências Sociais e alunos do curso
técnico em Meio Ambiente, entre outros. A formação de uma equipe de monitores tão
diversa segundo os campos do conhecimento proporciona grande aprendizado, pois
torna possível o diálogo multidisciplinar frente à temática ambiental. Fator que
contribui para uma formação acadêmica mais rica, sendo ainda essencial no
desenvolvimento do trabalho de educação ambiental. O diálogo multidisciplinar é
bastante nítido nas reuniões de planejamento que ocorrem semanalmente e ainda nas
apresentações de seminários dos monitores, mediadas pelo coordenador do projeto.
Durante a reunião de planejamento são levantadas questões de rotina, mas também
discussões acerca de conceitos utilizados durante a caminhada ou mesmo sobre a
metodologia mais adequada ao desenvolvimento de determinada oficina, por exemplo.
A caminhada é realizada em trilhas interpretativas que buscam aproximar os
visitantes ao ambiente natural, assim a partir do roteiro pré-estabelecido assuntos
pertinentes à temática ambiental e a área são colocados. No ponto da copaíba, por
exemplo, o monitor utiliza como tema central a espécie em questão, para abordar
assuntos como os biomas brasileiros e a degradação ambiental, organismos naturais e
funções ecológicas, usos medicinais da flora pelas populações tradicionais, biopirataria
entre outros. A proximidade do objeto de estudo contribui consideravelmente para o
processo de aprendizagem dos visitantes, sendo, todavia o monitor o elo entre o
conhecimento do meio natural da área e os conhecimentos prévios dos visitantes. Dessa
maneira, como coloca o Manual de Introdução à Interpretação Ambiental (2002) cabe
ao monitor “traduzir” as informações técnico-científicas, para uma linguagem
compreensível pelo publico, facilitando o entendimento dos processos, que envolvem os
recursos interpretados.
Dentro dos programas de visitação são realizadas ainda oficinas temáticas de
educação ambiental. As oficinas versam sobre temas como a conservação de energia,
utilização da água pelos seres vivos, leis ambientais, uso e ocupação do solo etc. Em
todas as oficinas o monitor procura enfatizar os efeitos da ação humana sobre os
ambientes. Os visitantes são convidados a refletir sobre os problemas ambientais,
propondo conjuntamente com o monitor, formas de ação menos danosas ao meio
ambiente, que podem ser efetuadas tanto na esfera de cada cidadão quanto na esfera
governamental e das empresas.
Na oficina da Água utilizamos o livro A Água Nossa de Cada Dia de Ziraldo. A
partir do livro, o monitor levanta questões relativas às formas de uso desse recurso, leis
que protegem os cursos d’água como das Áreas de Proteção Permanentes (APPs), a
atitude de cada aluno com relação ao uso da água, além dos problemas urbanos gerados
pela ocupação indevida de margens de rios e encostas. Após o levantamento dessas
questões e conseqüente sensibilização dos visitantes acerca do tema, é proposta a
produção de uma pintura em grupo. A turma é então dividida em dois grupos e cada
grupo em dois subgrupos, dentro do grupo uma parte dos visitantes fica encarregada de
pintar um rio limpo com todas as características que lhes vem à mente (mata ciliar,
peixes, população ribeirinha etc.) e a outra parte de pintar um rio poluído, como aqueles
que são vistos na maioria das cidades (canalizado, cheio de lixo etc.). A expectativa é
que os visitantes a partir da pintura concebam o rio como parte de uma bacia
hidrográfica, assim compreendendo que os impactos ambientais gerados em parte da
bacia podem afetar outras áreas não poluidoras.
Metodologia
Como meio de avaliar as atividades do Programa Caminhadas Ecológicas foram
analisados 100 questionários de avaliação relativos aos meses de setembro, outubro,
novembro e dezembro de 2008. Os mesmos foram respondidos por pessoas que
participaram da caminhada interpretativa e oficina ambiental ou em uma dessas
atividades. Os questionários de avaliação fazem parte de uma estratégia encontrada pela
equipe da EEco. /UFMG para obter um retorno por parte dos visitantes, em relação ao
trabalho ali desenvolvido. O questionário é de fácil preenchimento, sendo pedido ao
visitante que marque uma ou mais alternativas conceituando as respostas em ótimo,
bom, regular e ruim. No questionário há também um campo para respostas abertas, em
que os visitantes podem fazer comentários, criticas e sugestões. As perguntas versam
sobre a preferência por assuntos abordados durante as atividades, características da
trilha interpretativa, atuação do monitor, oficina e resultados. Os questionários são
analisados semanalmente pela equipe de monitores e coordenador do programa, sendo
propostas alternativas e adaptações, colocadas em prática sempre que possível. Os
questionários são de grande relevância para as atividades desenvolvidas na área, pois na
maioria das vezes os grupos fazem uma visita anual, não havendo contato posterior à
visita e conseqüente discussão sobre a efetividade do trabalho.
Resultados
Entre os visitantes pôde-se levantar que 79% dos que responderam o
questionário eram provenientes de escola públicas, enquanto 14% eram de escolas
particulares e 7% de outras instituições como Prefeitura de Belo Horizonte, Secretaria
Municipal de Esportes, além de projetos de inclusão social. Esses números evidenciam
um público alvo bastante expressivo: os alunos das escolas públicas. Sabe-se que
embora não sejam todas, muitas escolas públicas apresentam problemas sérios advindos
da falta de recursos e capacitação dos professores por essa razão receber esse perfil de
alunos é para a equipe um privilégio, mas também um desafio que ultrapassa muitas
vezes suas possibilidades. Os monitores precisam em muitos casos superar o descaso de
alguns professores para com a atividade ou mesmo defasagem no conhecimento dos
alunos. Além disso, é comum que as classes menos privilegiadas com relação ao acesso
a bens materiais e culturais sejam provenientes dessas escolas. Dessa maneira, cabe ao
monitor muitas vezes identificar a visão de mundo desse público para nela interferir
positivamente, mudando a maneira de agir, mas também de ver o mundo que os cerca.
Para averiguar se as pessoas já conheciam a Estação Ecológica e as atividades de
educação ambiental foram analisadas duas questões: a primeira pergunta se o visitante
já conhecia a EEco. /UFMG., a segunda refere-se ao meio pelo qual o visitante tomou
conhecimento da área e do programa de educação ambiental. Entre as respostas para a
primeira pergunta, 70% responderam que não conheciam a Estação e 30% que já
conheciam a área. Esse desconhecimento das pessoas em relação à área é o que vem se
buscando superar a cada ano, através das atividades de extensão, organização de fóruns
e eventos. Entretanto, são inúmeras as dificuldades encontradas, entre elas a falta de
recursos para maior divulgação da área e das atividades. Quanto ao meio pelo quais os
visitantes tomaram conhecimento da EEco. /UFMG a maioria, 65% afirmaram ficar
sabendo da área e atividades através de indicações, outros meios apontados foram
internet com 11% e folders com 7%. A alternativa outros foi marcada por 27% dos
visitantes, entre os meios estão aulas durante o curso de graduação, jornal, TV,
coordenação da escola, visitas anteriores, entre outros. Esses números mostram que o
trabalho vem sendo conhecido principalmente pela indicação de pessoas que já tiveram
ou ainda têm contato com a área. A mala direta embora não tenha aparecido nas
respostas é enviada no início do ano para escolas da rede pública e privada de Belo
Horizonte e sua Região Metropolitana. É provável que os visitantes que afirmaram
terem tomado conhecimento da Estação Ecológica através da coordenação da escola
tenham como fonte inicial a mala direta.
Também foram analisados outros três campos do questionário relativos à
caminhada, ao monitor e resultados da atividade. No campo que avalia a caminhada,
67% dos visitantes apontaram o conteúdo como sendo ótimo e 28% como bom, não
houve marcação para os itens regular e ruim entre os questionários analisados. Quanto à
extensão da trilha 60% marcou ótimo, 29% marcou bom e 6% regular. Alguns fatores
podem ter contribuído para essa percentagem de bom e regular, entre eles as diferenças
sócio-culturais dos públicos atendidos. Algumas pessoas ao final da trilha ficam tão
encantadas que afirmam querer voltar com amigos e família, outras realmente sugerem
que o percurso seja diminuído. É possível que a falta de preparo físico, a inexistência do
hábito de visitar áreas naturais, o pouco estimulo em conhecer novas paisagens
interfiram na avaliação desse item, sendo que para a maioria das pessoas a caminhada se
apresenta como atividade bastante agradável. Questionadas sobre a linguagem adequada
à faixa etária conceituaram como ótimo 68%, como bom 24% e como regular 3%. Em
relação ao conteúdo e sua aplicabilidade 69% achou ótimo e 23% bom. Quanto à
capacidade de sensibilização para as questões ambientais 73% marcou ótimo e 20%
marcou bom, apenas 1% conceituou como regular.
Na avaliação do monitor 74% dos visitantes conceituaram a capacidade de
sensibilização como ótima e 21% como sendo boa. Em relação à clareza 74% achou
ótimo e bom 24%. No item conhecimento dos conteúdos 73% achou ótimo, bom 23% e
2% regular. Quanto ao domínio do grupo 70% achou ótimo, bom 24% e 2% regular, na
interação com os visitantes acharam ótimo 72%, bom 21% e 2% regular. Quanto à
objetividade 68% achou ótimo, bom 27% e 1% regular e receptividade 74% conceituou
como ótimo, como bom 22% e 1% como regular. Esses números, de fato mostram que o
treinamento dos monitores tem sido bastante eficiente, atendendo as expectativas dos
visitantes.
Por fim, foi analisado o campo resultados o qual busca apreender do visitante o
quanto à atividade de educação ambiental foi relevante para a sua postura enquanto
cidadão e formação. A primeira questão diz respeito à relevância dos temas abordados,
no qual 75% marcaram ótimo e bom 19%. Quanto à capacidade de motivação e
repensar/mudar os próprios atos os visitantes marcaram 68% ótimo e 26% bom. A
respeito da motivação para realizar novas atividades na Estação Ecológica 71% marcou
ótimo e 23% marcou bom, uma das respostas foi ruim seguida, na frente do item do
questionamento quais, sendo possível que o visitante não tenha procurado se informar
na secretaria sobre outras atividades. Em relação à capacidade de motivação para
conscientizar outras pessoas 72% marcou ótimo e 22% marcou bom. Por fim, o campo
destinado a comentários, críticas e sugestões foi analisado destacando-se as seguintes
observações dos visitantes:
-
Os alunos tiveram a oportunidade de interagir com o meio e desfrutar de locais
que não têm costume.
-
A Estação deveria enviar uma carta convite com os temas da caminhada, pois
assim os alunos teriam maior sensibilidade para o tema.
-
A Estação deve insentar ou diminuir o valor da taxa de entrada das escolas
públicas.
-
Produzir um folheto explicativo.
Embora as pesquisas quantitativas como as que foram analisadas possam conter
alguma margem de erro devido condições emocionais entre outros fatores, acredita-se
que as mesmas são um instrumento importante para o aprimoramento de posturas e
métodos de trabalho. Assim como o conhecimento não é algo pronto e acabado, mas em
contínuo processo de mudança, também o trabalho de Educação Ambiental deve ser
constantemente pensado para ser efetivo. Em relação às sugestões e críticas, nota-se que
uma das dificuldades encontrada, não somente pela EEco. /UFMG, mas por outras áreas
de conservação da natureza, é a falta de recursos financeiros. Tanto a produção de
folhetos, quanto de vídeo explicativo são possibilidades que vêm sendo pensadas pela
equipe, mas que encontram grandes dificuldades práticas. O mesmo acontece com
relação à taxa de visitação necessária para a compra de materiais diversos utilizados nas
oficinas de Educação Ambiental.
Discussão
A EEco. /UFMG apresenta grande potencial educativo para a prática da EA por
levar os visitantes a pensar de maneira integrada os diversos campos do conhecimento,
percebendo assim que o conhecimento ambiental relaciona diversos saberes que muitas
vezes ultrapassam as fronteiras das disciplinas escolares e campos de conhecimento da
ciência. Sendo assim, uma das vantagens da EA não formal se realizar fora do ambiente
escolar está em propiciar uma abertura maior dos visitantes para outra lógica de
pensamento: a lógica não compartimentada do conhecimento. Dessa forma, busca-se
enfatizar durante as atividades que como destaca Carvalho (2008), para interferir nos
riscos ambientais ou para gerir o ambiente, de modo que tais riscos sejam evitados, é
preciso compreender processos biológicos, geográficos, históricos, econômicos e sociais
geradores desses problemas.
A caminhada realizada com os visitantes pelas trilhas da EEco. /UFMG, busca
revelar aos visitantes um ambiente muitas vezes diferente do que estão acostumados. Os
visitantes são na maioria moradores de cidades que tomam contato com as áreas
naturais em eventuais atividades de lazer. Entretanto, percebe-se que alguns dos
visitantes têm esse contato pela primeira vez na Estação. O caminhar pelas trilhas deve
ter então a função de proporcionar ao visitante uma visão diferente daquela que os olhos
normalmente distraídos não conseguem enxergar, revelando novos significados e
estabelecendo um novo olhar (PDM, 2002). Muitos dos visitantes se mostram abertos
ao exercício de um novo olhar, porém outros questionam sobre a opção de caminhar ao
invés da trilha ser realizada veículo motorizado e chegam a reclamar do cansaço físico
que terão ao final da caminhada. Cabe aqui ressaltar a peculiaridade desse público que,
na maioria das vezes, é de escolas e visitam a EEco. /UFMG em excussões por elas
organizadas. Dessa maneira, acontece de alguns alunos nem mesmo saberem o que
exatamente vão visitar. Por isso, quando esse tipo de comentário ocorre tentamos
destacar os pontos positivos da caminhada, mostrando a necessidade de interagirmos
com o ambiente para assim tentar entender a sua dinâmica.
O monitor torna-se agente fundamental capaz de possibilitar a mudança de
atitude dos visitantes, sendo que ele deve ganhar a admiração dos visitantes como forma
de ter em cada visitante um aliado no trabalho de conservação (PDM, 2002). A tentativa
de manter um posicionamento que leve a resultados como os citados, fica evidente nas
discussões da equipe do programa sobre problemas de indisciplina entre alguns
visitantes. Na busca de uma interação com os mesmo acontece algumas vezes do
monitor ser mal interpretado e ter problemas, como de agressividade entre os visitantes
ou mesmo de algum desentendimento entre esses e o monitor. Alguns do monitores
respondiam à indisciplina aumentando o rigor ao impor regras de conduta mais rígidas,
no entanto voltávamos sempre a questão da percepção dos visitantes com relação ao
ambiente. Acreditávamos que o rigor exacerbado poderia gerar uma reação negativa do
visitante com relação às áreas de conservação da natureza, assim como em relação à
temática ambiental.
“Ele (o intérprete) precisa estar sempre atento para envolver o visitante, estimulando-o a
observar, sentir, experimentar e refletir a respeito do tema interpretativo, que está sendo
apresentado”. (PDM, 2002).
Em relação às características das trilhas algumas informações básicas devem ser
fornecidas aos visitantes como: extensão, tempo de percurso e grau de dificuldade. Cabe
no início da caminhada apresentar um croqui da trilhas, com a localização de alguns dos
elementos que mais chama a atenção. No caso da EEco. /UFMG ainda não existe uma
placa indicativa com o mapa ou croqui das trilhas disponível para os visitantes, são os
monitores que apresentam essa e outras informações aos visitantes, assim ressalta-se a
importância de uma placa com essa informação. Embora os resultados observados pelos
monitores após as atividades, sejam em geral bastante positivos, existe a necessidade de
uma reflexão conjunta dos visitantes com o monitor no momento pós-trilha. É preciso
que exista uma discussão em torno do tema interpretativo da trilha que é a conservação
de áreas protegidas. Essa poderá ser relevante até mesmo para que os monitores tenham
um retorno do trabalho que ali foi realizado. Assim torna-se interessante que o monitor
questione os visitantes sobre a compreensão que os mesmo tiveram com relação à trilha,
se ela é compatível com o objetivo do trabalho. O espaço para essa discussão poderá ser
criado durante as oficinas ambientais ou mesmo em um trabalho pós-visita realizado em
sala de aula pelos professores, no caso de alunos.
Carvalho (2008) alerta ainda para o risco de reduzir o ato educativo praticado
nas trilhas de interpretação ambiental, a um repasse de informações provenientes das
ciências naturais, sem correlacionar esse conhecimento com a complexidade das
questões sociais e ambientais que o circundam e constituem. Como esclarece essa
autora as trilhas interpretativas têm a sua origem na educação conservacionista,
particularmente presente nos planos de manejo de parques e unidades de conservação.
Entretanto, em termos de orientação pedagógica, as trilhas de interpretação têm cada
vez mais incorporado questões socioambientais, demonstrando atualmente uma abertura
para a superação da ênfase exclusivamente conservacionista e explicativa que marca a
origem da técnica (CARVALHO, 2008). Por essa razão, as trilhas interpretativas da
EEco. /UFMG versam sobre diversos saberes relativos a temática ambiental. Assim, em
um mesmo ponto de parada o monitor aborda questões como características das espécies
do Cerrado, problemas causados pelas monoculturas, usos medicinais da flora desse
bioma, distribuição espacial entre outros.
A EA é uma ferramenta essencial às unidades de conservação da natureza porque
como foi ressaltado busca orientar os sujeitos para novas concepções, incentivando mais
do que nunca a ação. Para tanto, Carvalho (2008) chama a atenção para o fato de que
uma visão ingênua pode sugerir que a boa intenção de respeitar a natureza seria
premissa suficiente para fundamentar nova orientação educativa, apta a intervir na atual
crise ecológica – que implica o questionamento e a disputa por territórios do
conhecimento – e social – relativa ao rumo das relações entre sociedade e natureza e
suas conseqüências para nossos projetos e condições de existência no mundo. Sabe-se
que mais do que incentivar o respeito à natureza é preciso levar as pessoas a
compreenderem a realidade social e de que forma elas podem agir para mudar aquilo
que está posto. Dessa maneira, incentivar atitudes de reciclagem, economia de água,
consumo consciente é um dos objetivos da EA, entretanto a ela cabe também incentivar
a luta política por mudanças, que vão desde a implementação de leis ambientais até
tratamento justo dos recursos retirados da natureza.
Conclusão
A EEco. /UFMG ao longo dos anos de implementação do PROECO e PCE tem
consolidando um trabalho relevante de EA junto à população de Belo Horizonte e seu
entorno. Tendo em vista, o fato de ser uma área de conservação urbana, ela vem
apresentado-se como um espaço de fácil acesso, tanto para as escolas públicas e
particulares da cidade. É essa uma grande contribuição, pois para muitas escolas visitar
áreas de conservação fora da cidade pode ser muito difícil tanto por questões financeiras
quanto burocráticas. Além disso, a existência dessa área dentro de uma universidade
federal não somente proporciona aos alunos um amplo laboratório para pesquisa e
atividades educativas como também chama a atenção para a necessidade de existência
de áreas de conservação dentro dos grandes centros urbanos. E isso não somente porque
traz benefícios para a cidade, mas também porque as cidades precisam assumir seu
papel na conservação dos ambientes naturais. Há ainda muita coisa a se fazer, não
somente no que concerne o trabalho de EA que a EEco. /UFMG vem desenvolvendo,
mas também em relação ao saber ambiental. Entretanto, as grandes mudanças não
acontecem da noite para o dia, mas sim através da luta, principalmente quando envolve
a disputa de poder. A concepção de dominação da natureza pelos indivíduos precisa ser
superada, por isso o aparente trabalho de formiga da EA é tão importante.
A Geografia é o campo do conhecimento que se apresenta aberto à
interdisciplinaridade, provavelmente porque durante toda a sua existência vem buscando
relacionar às diversas variáveis que compõem o espaço, sejam elas sociais ou naturais.
Assim, nota-se que enquanto alguns profissionais ainda colocam-se arredios à troca de
conhecimento e a transposição das fronteiras impostas pela ciência, a Geografia parece
já ter percebido essa necessidade colocando em prática outra lógica. Por essa razão,
provável que caiba a Geografia mediar o diálogo entre as demais ciências no que
concerne à temática ambiental, pelo menos num primeiro momento. Tendo em vista sua
amplitude no tratamento das questões sócio-ambientais, a geografia contribui de
maneira significativa não somente com relação aos conceitos explicativos do ambiente
natural e transformado, mas também na análise crítica e ampla que se propõe fazer
frente à realidade social.
Referências Bibliográficas
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antrópico na Bacia do Córrego do Mergulhão – Pampulha, BH. In: Simpósio
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ESTAÇÃO ECOLÓGICA DA UFMG: ESPAÇO DE CONHECIMENTO