SILVA, Paulo Brito da (2012). “Significado na fotografia de arquitectura”. Revista
Arquitectura Lusíada, N. 4 (1.º semestre 2012): p. 37-43. ISSN 1647-9009.
Spiral ramp at Convair Aeronatics – photo Julius Shulman, arch Pereira Luckman
SIGNIFICADO NA FOTOGRAFIA DE ARQUITETURA
Paulo Brito da Silva1
Resumo
Na difusão intermediada da arquitetura a fotografia ainda é o principal meio de
comunicação, prevalecendo sobre outro tipo de imagens como os desenhos, as perspetivas
ou as simulações digitais. A precisão e consciência desta comunicação depende do domínio
de três estratos, um pré-iconográfico geralmente associado à forma, um iconográfico que
compreende a associação com outras imagens e o iconológico, que envolve a tentativa da
compreensão da memória coletiva de uma comunidade numa era. A fotografia de arquitetura,
que pretende, ou deve, ser um instrumento de comunicação entre um autor e um público, tem
o significado nos edifícios, nas ideias e no arquiteto, pelo que os conteúdos acrescentados
pelos fotógrafos são predominantemente de carácter iconológico.
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Professor Auxiliar Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa. [email protected]
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Paulo Brito da SIlva
Este conteúdo iconológico, relacionado com a memória coletiva num tempo, tem
variado durante a ainda recente (comparativamente) história da fotografia da arquitetura,
acompanhando os modos de pensar e refletindo um aspeto de uma questão central neste
media – a relação entre verdade e arte.
Palavras-chave
Arquitectura, meta-arquitectura, fotografia, imagens, comunicação.
Abstract
On the intermediated architectural diffusion photography remains the most important
communication´s mode, prevailing over others images types, as the drawings, perspectives
or digital simulations. The communication´s accuracy and awareness depends on the control
of three levels, a pre-iconographic usually associated with form, an iconographic about the
association with other images and an iconological, involving the attempt of understanding a
community´s collective memory in an era. The architectural photography, which is intended to,
or should, be a communication´s instrument between an author and his public, has its meaning
in the buildings, in ideas and in the architect, turning the contents added by the photographers
predominantly with an iconological character.
This iconological content, related to a collective memory in a time, has changed during the
recent (comparatively) history of architectural photography, following the ways of thinking and
reflecting an aspect with central issue´s in this media – the relationship between truth and art.
Key-words
Architecture, meta-architecture, photography, images, communication.
1. A fotografia de arquitectura como intermediação/comunicação
Num anterior artigo intitulado “Notas sobre a Meta-arquitetura, a cultura das imagens de
arquitetura” foi defendido que a nossa experiência não é, maioritariamente, uma experiência
arquitetónica (no sentido de experimentar edifícios), mas é uma experiência intermediada
sobre imagens desses edifícios. Esta experiência é duplamente intermediada, primeiro
pelos que produzem as ideias ou as imagens sobre os edifícios (os fotógrafos e os críticos
especializados), e, em segundo, pelos que exercem ou procuram exercer controlo sobre esse
meio de difusão.
Este fenómeno, denominado meta-arquitetura, não é uma experiência sobre edifícios,
ou uma experiência arquitetónica. É outro tipo de experiência, relacionada com edifícios, mas
não sobre edifícios - é sobre as suas imagens. A meta-arquitetura é algo que se autonomizou
como cultura sobre as imagens de coisas arquitetónicas, embora mantendo contato como
“cultura paralela” da arquitetura, com uma enorme influência no fazer arquitetónico, porque se
constitui numa sua inspiração ou num seu imaginário. Nesta cultura autonomizada, apenas
é necessário nunca esquecer, ou não confundir, a diferença com a arquitetura, mantendo
sempre a consciência do que se está a fazer ou experimentar, edifícios ou imagens.
Na difusão intermediada da arquitetura, a fotografia ainda é uma ligação entre um mundo
autónomo de ideias e imagens sobre arquitetura e a disciplina original. De certo modo, a
ilusão que se continua a tratar de arquitetura. Na nossa cultura, algo só existe se e para
ser fotografado (SONTAG, 1979, p5). A existência pela aparência de veracidade tornou este
tipo de imagens no principal meio de difusão intermediada da arquitetura, prevalecendo
sobre outro tipo de imagens como os desenhos, as perspetivas ou as simulações digitais.
Não será porque permita uma apreensão mais completa do objeto arquitetónico, até porque
são, normalmente imagens resultantes de um posicionamento parcial, com uma perspetiva
fragmentária da coisa apresentada. Outros tipos de imagens, como secções, perspetivas e
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Significado na fotografia de arquitectura
diagramas, conseguem apresentar uma visão mais completa, ou mais sintética, dos edifícios
a representar. O principal motivo desta prevalência ou preferência da fotografia parece ser
o de manter o contacto com o objeto que apresenta. A fotografia mantém a prova, ou é, aos
nossos olhos, a prova que o objeto arquitetónico existe. Uma fotografia dá-nos, pelo menos na
consciência, a sensação ou a evidência que a coisa ou ação fotografada existe ou aconteceu.
Tratando-se de imagens sobre arquitetura, é, supostamente, uma prova de uma experiência
“real”, no sentido de ser física e com o corpo, sobre algo que foi construído, e que de ideia se
tornou em arquitetura.
A presunção da veracidade que confere a uma fotografia parte do seu interesse e
autoridade, não impede que, de facto, a imagem fotográfica não possa ser tão tratada ou
manipulada como os outros tipos de imagens. O trabalho dos fotógrafos não é uma exceção
genérica ao comércio, normalmente escuro, entre arte e verdade (SONTAG,1979, p5). As
fotografias com que recolhemos e retalhamos o mundo são também retalhadas, fragmentadas,
reduzidas, retocadas e aldrabadas.
A fotografia de arquitetura (que convêm distinguir da arquitetura na fotografia) é
fundamentalmente um instrumento de comunicação entre o arquiteto e o seu público – um
público, normalmente especializado, com a capacidade e o desejo de compreender e apreciar,
mas sem a oportunidade dessa experiência (Stoller in OLIVARES, 2009, p36). Quando se
aceita esta limitação da irrepetiblidade da experiência da arquitetura, que é específica, única
e individual, a fotografia é o meio privilegiado (tem predominado) para mostrar o que é, em
grande parte, uma experiência visual (Stoller in OLIVARES, 2009, p36).
2. Significado na fotografia de arquitetura - Iconologia / iconografia
2.1 - As fotografias são objetos que proporcionam uma experiência, transmitindo também
um conteúdo entre quem a faz e quem a aprecia. A fotografia é, sob este aspeto, um objeto
que proporciona comunicação entre um emissor e um recetor. Tratando-se de fotografia de
arquitetura, que pretende, ou deve, ser um instrumento de comunicação entre um autor e um
público, o significado está nos edifícios, nas ideias e no arquiteto. A câmara, idealmente, deve
ser um veículo anónimo para este percurso (Stoller in OLIVARES, 2009, p36), ou para esta
intermediação. Mas, como qualquer imagem, as fotografias também são mais são mais que
isso. Também são um modo de ver, um olhar, um modo de mostrar de quem a faz. Em cada
fotografia está registada uma visão, uma impressão da pessoa que a tirou e do contexto de
memória colectiva em que a fez. Numa fotografia, como em qualquer imagem, pode estar
aquilo que se quer por, aquilo que se quer mostrar, aquilo que se quer fazer ver, mas também
está aquilo que é contextualmente adquirido como memória coletiva pelo autor (que até pode
ser contraditório com o conteúdo que pretendia expressar, mostrar ou fazer ver).
2.2 - O conteúdo comunicativo pode (e geralmente é) ser complexo, dependendo a
transmissão do significado tanto de quem emite como de quem o recebe. Se a perceção
do conteúdo está muito dependente da subjetividade comunicacional (GUATTARI, 1984,
p1), relacionada com a memória e a experiência de quem recebe - no caso da fotografia
de arquitetura mais controlável, porque feita para um publico especializado - o significado
enunciado pelo autor costuma ser mais intencional, pretendendo transmitir ou mostrar algo.
Conferimos às coisas um conteúdo e uma forma, inseparavelmente ligados. A forma, como
descreve Hjemslev (HJELMSLEV, 1969), tem conteúdo em si - já é conteúdo - como o conteúdo
tem forma. A forma é contextual e pertencente a uma determinada comunidade, em que tudo
o que não é diferente ou raro remete para o senso-comum (GUATTARI, 1984, p1). Existe pois
um significado na forma e no conteúdo das imagens fotográficas.
O significado do conteúdo das imagens é analisado por Panofsky (PANOFSKY, 1989, p31),
que apresenta um modo de interpretação das imagens, separando a iconologia, como ramo
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da história da arte, em oposição à sua forma e decompondo entre o assunto e a iconografia
como significado da forma. Para este autor (PANOFSKY, 1989, p32) é possível distinguir no
assunto ou significado três estratos:
- Descrição pré-iconográfica da imagem, que trata do significado primário ou natural,
ou conteúdo da forma, subdividido em factual ou expressional, e que resulta do
reconhecimento das figuras (configurações, massas, linhas, cores, objetos …) ou das
expressões (gestos, expressões faciais, posições …).
- Iconografia da imagem, ou significado secundário ou convencional, que resulta do
reconhecimento nas figuras ou nos seus detalhes de outras imagens, ou imagens de
imagens, provenientes de uma determinada memória coletiva. Trata-se da identificação
dos assuntos enquanto opostos à forma, dos temas que só estão lá por associação
com outras imagens, histórias ou alegorias, mas que não podem ser atribuídos como
qualidades diretas das expressões e das figuras representadas. Estas associações entre
as figuras e o significado convencional ou secundário são atribuídas conscientemente
pelos autores.
- Iconologia ou significado intrínseco da forma do conteúdo da imagem, que resulta da
compreensão dos conteúdos subjacentes reveladores da atitude básica de uma nação,
período, classe, religião ou filosofia, sintetizados por um autor numa imagem. Estes
princípios são manifestados nos aspetos formais do conteúdo, como a composição,
e também nos aspetos iconográficos da imagem, pelo que também os ajudam a
compreender. No entanto o conteúdo iconológico das imagens é um indício de algo
exterior, de um mundo de que o autor faz parte, e que se expressa por indícios,
formais e iconográficos, que podem ser estudados como manifestação desse mundo. A
iconologia, por oposição à iconografia, é a pesquisa e interpretação desses significados
contidos nos indícios que nos trazem a evidência desse mundo, em que um determinado
grupo ou era se manifestam pelo artista e pela sua obra. Estes significados podem
até ser relativamente inconscientes ou desconhecidos do autor ou até diferir do que
conscientemente tinha a intenção de mostrar ou comunicar.
A iconologia é um método que deriva mais da síntese do que da análise (PANOFSKY,
1989, p34), sendo necessária para uma mais acertada interpretação dos conteúdos
iconográficos, tal como a interpretação iconográfica (e pré-iconográfica) é essencial para a
correta interpretação iconológica (com exceção dos casos em que o autor pretende prescindir
de uma comunicação com significação iconográfica, fazendo uma ligação muito direta entre
o motivo e o conteúdo).
A precisão e consciência da comunicação contida nas imagens dependem do domínio
destes três estratos, dos quais o primeiro é geralmente associado à forma, o segundo
compreende a associação com outras imagens e o terceiro envolve a tentativa da compreensão
do mundo envolvente que constitui a nossa experiência.
2.3 - Na fotografia de arquitetura, os conteúdos a transmitir podem ser éticos ou estéticos,
porque estão relacionados com os conteúdos dos objetos arquitetónicos que pretendem
apresentar ou transmitir. O conteúdo ético e estético das fotografias é frágil (SONTAG,
1979, p21), devido a uma conjunção da facilidade e profusão do fazer da fotografia com
a abundância, proliferação ou saturação dessa mensagens. E é uma consciência ética e
estética que determina a possibilidade de as pessoas poderem ser afetadas pela fotografia, o
que impele os autores a terem de apresentar algo que ainda as consiga cativar, por não estar
tão saturado.
A questão principal do conteúdo da fotografia de arquitetura está relacionada com a sua
finalidade, a de captar um conteúdo arquitetónico posto num objeto e o colocar numa imagem,
para poder ser transmitido, como representação da experiência, a um público. As diferenças
fundamentais estão no modo como os fotógrafos entendem fazer estas imagens, de um modo
que implique a prévia compreensão do objeto arquitetónico e do que o arquiteto pretendia
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Significado na fotografia de arquitectura
proporcionar com a sua obra, para o transmitir, ou de um modo que procure comunicar a
experiência da construção e da habitação desses edifício, como um encontro com essa coisa.
Estas duas perspetivas sobre como fazer fotografia de arquitetura refletem um pensamento
do autor integrado no contexto da sua cultura e do seu tempo, sendo um significado de caráter
predominantemente iconológico.
A noção de autor em fotografia já envolve uma relação equivoca com a finalidade deste
tipo de imagens, mas segundo Susan Sontag, quanto maior e mais variado é o trabalho
realizado por um fotógrafo com talento, mais parece adquirir uma autoria coletiva em vez de
individual, sendo necessário um conhecimento aprofundado para conseguir distinguir o seu
trabalho. Muitas das fotografias publicadas dos autores mais conhecidos poderiam ter sido
realizadas por fotógrafos do mesmo período (SONTAG, 1979, p134). Existe, pois, um espírito
de uma cultura que é comum nas gerações, apesar da considerável subjetividade de cada
fotógrafo, no que é essencial para a relação da arquitetura com as pessoas, com a memória,
com outros edifícios, relações ou outras eras (OLIVARES, 2009, p8). Este espírito de uma
cultura de uma comunidade numa época determina que a relação de um fotógrafo com um
objeto arquitetónico, com um arquiteto e com uma arquitetura não seja indiferente. O fotógrafo,
para além de apresentar o edifício em imagens, confere-lhe ou traduz, uma identificação
com esse modo contextual de ver o mundo. A fotografia de arquitetura começa por ser uma
intermediação entre o conteúdo colocado num edifício por um arquiteto, mas nunca o faz de
modo neutro. Por mais que o fotógrafo se pretenda concentrar numa apresentação próxima
da verdade, estará sempre a colocar (mesmo que de modo inconsciente) um conteúdo – que
podemos apelidar de iconológico – que traduz a memória coletiva de uma comunidade numa
era. E por a intermediação pela imagem fotográfica nunca ser neutra, a relação ou a escolha
do fotógrafo também não o é – porque também é uma opção por um conteúdo iconológico.
Não é por acaso que alguns dos arquitetos mais famosos aparecem associados ao nome de
fotógrafos reconhecidos (GALLIANO, 1990, p5). Quando um arquiteto escolhe um fotógrafo
elege um sócio, como fizeram Le Corbusier com Lucien Hervé, ou os arquitetos americanos
que escolhiam ser fotografados por Ezra Stoller ou Julius Schulman (GALLIANO, 1990, p5). E
alguns arquitetos entraram na história por se fazerem fotografar por fotógrafos míticos.
2.4 - De um modo genérico, pode-se afirmar que os fotógrafos mais relacionados
com o período moderno estão mais vocacionados para a função de transmitir a ideia que
o arquiteto pretendeu proporcionar na sua obra, aparentemente desaparecendo mais, e
atribuindo à fotografia a utilidade de fazer comunicar o arquiteto com o publico. Nestes casos,
a preocupação dos fotógrafos está mais próxima da questão, central nesta arte, da verdade,
ou da transmissão fidedigna do que é o edifício e da ideia arquitetónica. Este conceito não
pode deixar de ser associado aos valores então predominantes como a verdade ou a função,
assim como com uma menor valorização da linguagem. Um dos mais consagrados fotógrafos
de arquitetura desta época, Julius Shulman comentou que, desde o início, a sua fotografia
persistiu na identificação dos elementos da arquitetura, tendo o fotógrafo a responsabilidade
de identificar os componentes de design da estrutura, reconhecendo o seu propósito e o seu
design com o arquiteto. Nos anos mais tardios, este fotógrafo também passou a preocuparse com os elementos da arte fotográfica, que podia servir para conhecer, desde que não
menorizasse o sentido e a representação da filosofia do design do arquiteto. Para Shulman,
o fundamental no seu trabalho consistia na sua capacidade para transmitir o verdadeiro
significado do design arquitetónico (Shulman in OLIVARES, 2009, p146). Com este conceito,
Julius Shulman conseguiu fazer fotografias que revelam a essência da visão dos arquitetos
e o espírito dessa era, produzindo algumas das imagens mais icónicas do modernismo e do
modo como o público o percebeu.
Esta ideia também é exposta, de um modo ainda mais claro, por outro autor famoso, Ezra
Stoller (Stoller in OLIVARES, 2009, p38), que afirmou ser obrigação do fotógrafo comunicar
o que, mais que um edifício, é a ideia que está nesse edifício, e que resultou do trabalho do
arquiteto ao resolver o seu problema (fazer o edifício), dentro de um enquadramento filosófico e
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estético. Era esta ideia que interessava ao público, pelo que era importante envolver o arquiteto
na fotografia do seu trabalho, porque como trabalhador criativo, a difusão, compreensão e
aceitação do seu trabalho era importante. Para Ezra Stoller era necessário compreender
previamente a arquitetura, o testemunho que representa e a ideia a ser comunicada.
2.5 - Os fotógrafos mais contemporâneos, geralmente, procuram captar e transmitir a
experiência do edifício (ou até da sua construção), ou um modo de o ver, uma visão de um
instante, como um encontro com o objeto arquitetónico. Um conceito de fazer fotografia que pode
ser associado às ideias arquitetónicas que sucederam ao modernismo, com maior preocupação
com a comunicação ou com a experiência na arquitetura. Estes autores acrescentam um seu
conteúdo, de carácter iconográfico, ao significado do edifício que apresentam, deixando de
conceptualizar a fotografia como uma tentativa neutra de intermediação entre um arquiteto
e o seu público. No entanto, esta atitude também tem um significado iconológico, por estar
relacionado com o modo de pensar do seu tempo.
A reputada fotografa Helène Binet, que trabalha, entre outros, com John Hedjuk, Daniel
Libeskind, Peter Zunthor e Zaha Hadid, explica que usa a fotografia para mostrar o que são os
edifícios. Mantendo uma componente de investigação que tenta compreender e não apenas
representar, explica que as fotografias servem para conseguir articular a experiência de estar
no edifício, embora considere que a experiência arquitetónica é demasiado complexa para
poder ser representada por uma imagem (Binet in OLIVARES, 2009, p58).
Outro destes fotógrafos mais reconhecidos, Iwan Baan (Baan in OLIVARES, 2009, p52)
escreve que o seu trabalho é sobre capturar e contar histórias, podendo ser definido como
fotografia documental que usa frequentemente a arquitetura como cenário. Tem um interesse
particular no espaço público, como cenário e gerador da vida quotidiana e está sempre à
procura de tensões contrastantes no contexto urbano. As histórias que decorrem no ambiente
construído como cenário acabam por validar a arquitetura, por ser capaz de as proporcionar.
Iwan Baan também se refere a uma perspetiva social da fotografia que lhe permite mostrar
como a arquitetura e os espaços públicos podem fazer diferença na vida das pessoas.
3. Conclusões
Na difusão intermediada da arquitetura, a fotografia ainda é o principal (atualmente o
cinema conhece um grande desenvolvimento) meio de comunicação, prevalecendo sobre
outro tipo de imagens como os desenhos, as perspetivas ou as simulações digitais.
As fotografias são objetos que proporcionam uma experiência, transmitindo também
um conteúdo entre quem a faz e quem a aprecia, proporcionando comunicação entre um
emissor e um recetor. A precisão e consciência desta comunicação depende do domínio
de três estratos, um pré-iconográfico geralmente associado à forma, um iconográfico que
compreende a associação com outras imagens e o iconológico que envolve a tentativa da
compreensão da memória coletiva de uma comunidade numa era. A fotografia de arquitetura,
que pretende, ou deve, ser um instrumento de comunicação entre um autor e um público, tem
o significado nos edifícios, nas ideias e no arquiteto, pelo que os conteúdos acrescentados
pelos fotógrafos tendem a ser predominantemente de carácter iconológico.
Na ainda recente (comparativamente) história da fotografia de arquitetura, pode-se
conjeturar, genericamente, que os fotógrafos mais relacionados com o período moderno se
concentram na função de transmitir a ideia que o arquiteto pretendeu proporcionar na sua
obra, de um modo neutro, e atribuindo à fotografia a utilidade da transmissão fidedigna do
que é o edifício e da ideia arquitetónica. Este conceito não pode deixar de ser associado aos
valores então predominantes no modernismo.
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Os fotógrafos mais contemporâneos, procuram, mais frequentemente, captar e transmitir
a experiência do edifício (ou até da sua construção), ou um modo de o ver, uma visão de um
instante, como um encontro com o objeto arquitetónico. A fotografia deixa de ser conceptualizada
como uma simples e neutra intermediação entre um arquiteto e o seu público. Neste conceito
de fotografia acrescentam um seu conteúdo, de carácter iconográfico, o que não pode deixar
de estar relacionado com modos de pensar que sucederam ao modernismo, valorizando a
comunicação ou a experiência na arquitetura.
Bibliografia
GALLIANO, 1990, p5).
GUATTARI, Félix (1984), Substituer l´enonciation à l´expression, les séminaires de Félix
Guattari.
HJELMSLEV,Louis (1969), Prolegomena to a theory of language, London.
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SONTAG, Susan (1979), On photography, London, Penguin.
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RATTENBURY, Kester (Edit.)(2002), This is not architecture, London, New York.
Paulo Brito da Silva
Doutor em Arquitectura e Mestre em Teoria da Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura
e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa. Licenciado em Arquitectura pela Faculdade
de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. Professor Auxiliar, desde 2010, na
Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa, onde leccionou
como assistente desde 1990. Subdirector do Fórum UNESCO Portugal, Universidade e
Património, entre 1998 e 2003. Subdirector do Centro Lusíada de Estudos Tecnológicos
entre 1998 e 2002. Subdirector do Fórum UNESCO “Universidade e Património” em
Portugal entre 1998 e 2002. Foi assessor do Ministro das Obras Públicas, Transportes e
Comunicações entre 1989 e 1990 e assessor do Secretário de Estado dos Transportes
entre 2003 e 2004. Foi membro da Equipe de Missão do Metro do Sul do Tejo, em
representação do MOPTH, entre 2004 e 2006. Participou em comissões de apreciação
de Parcerias Público-Privadas na área dos transportes e obras públicas. É funcionário do
Metropolitano de Lisboa, EPE desde 1991, onde colaborou no planeamento e projecto
do desenvolvimento da rede e assessorou o CG. Foi membro da Direcção e secretário
da Assembleia Geral da ADFER – Associação para o Desenvolvimento Ferroviário.
Participou em várias conferências e seminários e é autor de diversos artigos em revistas.
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