A Utilização de Argamassas Leves na Minimização da Transmissão de
Ruídos de Impacto em Pavimentos
Fernando G. Branco
CICC, Dep. Eng. Civil,
Univ. Coimbra
Portugal
[email protected]
Luís Godinho
CICC, Dep. Eng. Civil,
Univ. Coimbra
Portugal
[email protected]
Joana Tavares
Dep. Eng. Civil, Univ.
Coimbra
Portugal
Resumo: Os regulamentos e normas europeias mais recentes no âmbito da acústica
estabelecem valores máximos aceitáveis para o nível de ruído de impacto máximo que é
admissível que atravesse as lajes de pavimento. A imposição destes requisitos técnicos
implica a adopção de soluções técnicas adequadas, tais como a utilização de pavimentos
flutuantes, com a introdução de uma camada resiliente sob a camada de acabamento do
pavimento. O desempenho acústico destas soluções construtivas foi avaliado através de
ensaios em laboratório, utilizando uma câmara acústica de pequenas dimensões, que
permite comparar diferentes soluções, em idênticas condições, de maneira expedita.
Palavras–chave: argamassa, percussão, impacto, som.
1. INTRODUÇÃO
Os requisitos actuais de conforto acústico em edifícios conduzem a uma crescente
exigência de utilização de soluções técnicas que permitam obter o desempenho desejado
em termos de isolamento acústico, tanto no que respeita a sons aéreos como a sons de
impacto.
Em toda a Europa, a legislação tem vindo, progressivamente, a ter em conta estas
exigências, através da emissão de regulamentos cada vez mais exigentes, que impõem
limites nos valores máximos admissíveis para os índices de isolamento acústico na
maioria dos tipos de edifícios.
A um nível técnico, a procura de níveis de conforto acústico mais elevados conduz a uma
progressiva evolução das técnicas construtivas. Uma das soluções técnicas mais utilizadas
para garantir um bom desempenho acústico de pavimentos consiste na aplicação de
pavimentos flutuantes. Neste tipo de solução, o pavimento é constituído por um conjunto
de camadas de diferentes materiais. A camada visível, o revestimento do piso, encontra-se
colocada sobre outras camadas não-estruturais, algumas delas construídas com recurso a
materiais resilientes, que permitem dissipar as vibrações devidas a impactos sobre a
superfície. Em Portugal, utilizam-se essencialmente dois tipos de pavimentos flutuantes:
- Laje flutuante: nesta solução, o revestimento de superfície é colocado sobre uma laje de
betão construída sobre uma camada resiliente, constituída, por exemplo, por espumas
sintéticas ou fibras naturais. Este sistema é muito versátil, visto que permite a utilização
de camadas finais constituídas por materiais rígidos, como por exemplo mosaicos
cerâmicos, assegurando simultaneamente que as vibrações produzidas na sua superfície
superior não sejam transmitidas aos elementos estruturais. O comportamento desta
solução é muito influenciado por eventuais erros durante a construção (é necessário
assegurar uma separação efectiva entre os elementos estruturais e a laje flutuante,
eliminando todas as ligações rígidas), bem como pelo tipo de material resiliente utilizado.
- Elementos de revestimento flutuantes: Este sistema consiste na aplicação da camada de
revestimento, geralmente um pavimento em madeira, sobre finas camadas de espuma
sintética. Apesar de permitir resultados aceitáveis, este tipo de solução apresenta algumas
limitações quando comparada com a anterior.
O desempenho acústico de um pavimento flutuante pode ser melhorado através da
introdução de camadas de enchimento produzidas com elementos leves e de baixa rigidez
sobre a laje de betão estrutural. A energia dissipada no interior desta camada contribuirá
para uma redução significativa da transmissão de sons de percussão à estrutura [ver, por
exemplo, Ferreira et al. [1]). No entanto, não foi possível identificar trabalhos de
referência que estudem este fenómeno, e que quantifiquem a eficiência real desta solução
complementar.
A análise do desempenho de soluções construtivas na redução da transmissão de sons de
percussão requer a aplicação dos métodos de ensaio definidos nas normas EN ISO 140-8
[2] e ISO 717-2 [3]. De acordo com estas normas, e também com a norma ISO 140-1 [4],
que estabelece os requisitos a serem observados pelo laboratório, os ensaios devem ser
realizados sobre uma laje de betão armado com 140mm de espessura (-40mm, +20mm),
com uma dimensão mínima em planta de 10m2. O provete de ensaio é submetido a
sequências de impactos, aplicados em diferentes localizações, sendo registado o nível
sonoro na câmara receptora, localizada sob o provete. A redução do som de percussão
proporcionada por uma determinada solução construtiva é quantificada como a diferença
entre os níveis sonoros registados para duas condições de ensaio: teste realizado sobre a
laje de referência sem aplicação de qualquer revestimento e ensaio da solução técnica que
se pretende caracterizar. A análise é efectuada em bandas de oitava ou 1/3 de oitava. O
procedimento normalizado exige a utilização de câmaras de ensaio de grande volume,
bem como provetes de ensaio de dimensão considerável. Assim, os custos associados ao
ensaio podem tornar-se significativos, e apenas um número limitado de laboratórios
possui capacidade técnica para os realizar. Quando se pretende realizar uma análise rápida
para uma caracterização rápida de uma determinada solução técnica, ou para comparar o
desempenho de duas soluções alternativas, o recurso a este exigente método de ensaio
pode não se justificar. Em alternativa, é possível realizar ensaios em provetes de
dimensões reduzidas, utilizando procedimentos simplificados, como o desenvolvido por
Masgalos [5]. O método de ensaio de Masgalos utiliza uma câmara reverberante de
pequenas dimensões, na qual se podem realizar ensaios de percussão sobre provetes de
dimensões reduzidas. Este método permite comparar directamente o desempenho de
soluções técnicas alternativas, testadas em condições semelhantes. Mesmo sendo um
método simplificado, verificou-se que os valores de redução sonora a sons de impacto,
determinados de acordo com a norma ISO 717-2, eram suficientemente próximos dos
obtidos em câmaras de maiores dimensões para poderem ser aceites como parâmetros de
referência no desenvolvimento de materiais e soluções construtivas.
O presente trabalho tem como objectivo avaliar a melhoria na redução da transmissão de
sons de impacto proporcionados por diferentes tipos de argamassas leves. Produziram-se
argamassas com recurso a diferentes tipos de agregados leves (poliestireno expandido,
argila expandida e granulado de cortiça expandida), tendo sido avaliado o seu
desempenho na redução dos níveis sonoros provocados por impacto. Os testes realizados
envolveram ainda diferentes tipos de revestimentos de pavimento (pavimento em madeira
aplicada directamente sobre a argamassa, ou com interposição de uma película resiliente e
mosaicos cerâmicos). Os ensaios laboratoriais foram realizados de acordo com o método
desenvolvido por Masgalos [5].
O presente documento contém uma breve descrição do método de ensaio e das soluções
construtivas testadas. Em seguida, apresentam-se e comentam-se os resultados obtidos nos
ensaios das diferentes soluções construtivas, de modo a identificar as possibilidades de
utilização prática destas soluções.
2. DEFINIÇÃO DO ESQUEMA DE ENSAIO
O equipamento laboratorial é constituído por uma câmara acústica reverberante com
dimensões internas 1.4x1.3x1.5 m3, construída em betão armado e possuindo parede com
uma espessura de 0.1 m. A laje utilizada como referência é também em betão armado,
possuindo dimensões em planta de 1.5x1.6 m2 e 0.06 m de espessura. Numa das paredes
laterais, a câmara possui uma pequena abertura (0.5x0.5 m2), que permite o acesso ao seu
interior. A abertura encontra-se fechada com uma solução “sandwich” constituída por
duas camadas de gesso e uma membrana asfáltica com 4 mm de espessura. Para a
separação entre o pavimento da câmara e o pavimento do laboratório, foi utilizada uma
membrana de aglomerado de borracha.
A face superior das paredes encontra-se separada da laje através de uma camada de
aglomerado de cortiça com 5mm de espessura, de modo a reduzir as conexões rígidas
entre os dois elementos, reduzindo assim a possibilidade de ocorrência de transmissões
sonoras. A Figura 1 ilustra o equipamento utilizado. Uma descrição mais detalhada deste
equipamento poderá ser encontrada em Masgalos [5].
Figura 1. Equipamento de ensaio: câmara acústica, fonte de ruídos de impacto e
microfone.
De acordo com a norma ISO 140-8 2, em testes laboratoriais, a melhoria de redução
sonora ∆Lw proporcionada por uma solução construtiva, é determinada tendo em conta o
resultado de ensaios efectuados sobre uma laje de betão armado de referência, com uma
espessura de 14 cm. Este cálculo é efectuado segundo a Eq. (1)
∆Lw = Ln, r , w,0 − Ln, r , w
(1)
onde Ln,r,w,0 é o nível sonoro normalizado face a sons de impacto para uma laje de
referência sem revestimento, enquanto Ln,r,w é o nível sonoro normalizado obtido quando a
laje de referência se encontra revestida com a solução construtiva em análise.
Tendo em conta o âmbito e os objectivos do presente trabalho, não foi calculado o
isolamento normalizado ∆Lw, mas apenas a redução de nível sonoro ∆L. Este parâmetro
pode ser obtido através da Eq. (2)
∆L = Ln ,0 − Ln
(2)
onde Ln,0 é o nível sonoro normalizado proveniente de ruídos de impacto na laje da
câmara de pequenas dimensões, testado sem material de revestimento, e Ln é o nível
sonoro normalizado proveniente de ruídos de impacto sobre a laje revestida com o
material a ser ensaiado.
De modo a obter as curvas de nível sonoro para ambas as condições de ensaio, o teste foi
levado a cabo após uma escolha criteriosa para a localização da fonte normalizada de
ruídos de percussão e do microfone. O diagrama de nível sonoro final é calculado a partir
da média de cinco medições, realizadas em sequência, com um tempo de aquisição
individual de 6 s. Entre cada duas medições consecutivas, a fonte de ruído de impacto era
desligada.
3. SOLUÇÕES CONSTRUTIVAS TESTADAS
O conjunto de ensaios realizados pretendia comparar o desempenho, em termos de
redução sonora de ruídos de impacto, de diferentes tipos de argamassas leves, testadas em
idênticas condições. Desenvolveram-se quatro tipos de argamassa, produzidos a partir de
diferentes tipos de agregados leves: granulados de argila expandida (ALF) com dimensões
2/4 e massa volúmica 760kg/m3; granulados de argila expandida (ALG) com dimensões
3/8 e massa volúmica de 530kg/m3; granulados de cortiça expandida (AC) com dimensões
3/10 e massa volúmica de 66kg/m3 e granulados de poliestireno expandido (APE), com
massa volúmica de 20kg/m3. Os resultados obtidos nos ensaios realizados sobre as
argamassas leves foram comparados com os obtidos sobre uma lajeta de betão corrente
(BET).
Todas as argamassas foram produzidas mantendo uma relação água/cimento (W/C) de
0.5, e um traço volumétrico cimento:agregado de 1:6. Uma descrição mais detalhada
sobre a definição das argamassas estudadas, bem como as suas características físicas e
mecânicas, pode ser consultada em Carvalho [6].
As lajetas de argamassa utilizadas na maior parte dos ensaios realizados possuíam
dimensões em planta de 50x50 cm2, e uma espessura de 40mm. Alguns testes preliminares
realizados para avaliar a influência da dimensão dos provetes nos resultados do ensaio
foram efectuados sobre lajetas com dimensões em planta de 70x70cm2 e 90x90cm2,
mantendo a espessura de 40mm. A influência da espessura da lajeta foi estudada
comparando em provetes das séries ALF, ALG e AC, tendo sido comparados resultados
obtidos sobre lajetas com espessuras de 4 cm e 6 cm. Para cada condição de ensaio, foram
testados dois provetes.
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Diversos tipos de lajetas de argamassa, representando substratos com diferentes
características resiliência, foram produzidos e testados em condições semelhantes,
utilizando uma câmara reverberantes de dimensões reduzidas. Antes de dar início aos
ensaios, avaliou-se a influência da dimensão do provete de ensaio e da posição da fonte
sonora no resultado dos ensaios. Em seguida, colocaram-se sobre as lajetas de argamassa
diversos tipos de revestimentos de pavimento, tendo sido igualmente ensaiados o conjunto
argamass/revestimento. Os resultados obtidos nos ensaios são apresentados e comentados
nesta secção.
4.1 Análise do efeito da dimensão e posição do provete
Antes de proceder aos ensaios comparativos sobre os diferentes tipos de provetes, torna-se
importante quantificar a possível influência da dimensão do provete e posição da fonte
nos resultados.
Utilizando a argamassa ALF, produziram-se provetes com espessura 4cm e dimensões em
planta 50x50 cm2, 70x70 cm2 e 90x90 cm2, tendo sido avaliada a redução sonora
proporcionada por estes. A Figura 2 apresenta os resultados obtidos.
40.0
35.0
30.0
25.0
20.0
50x50
70x70
90x90
15.0
10.0
5.0
0.0
-5.0
80
0
10
00
12
50
16
00
20
00
25
00
31
50
0
0
63
5
0
50
40
31
0
0
5
0
25
20
16
10
0
-10.0
12
Redução Sonora - Som de Impacto (dB)
Os diagramas obtidos para as três condições de ensaio revelam semelhanças na variação
ao longo do domínio da frequência em análise para todos os provetes testados. Podem
observar-se algumas discrepâncias entre os valores obtidos para os provetes de maior e
menor dimensão, em especial para frequências baixas. Estas diferenças eram expectáveis,
uma vez que a massa do provete varia. Deste modo, é importante referir que os resultados
apresentados no presente trabalho são apenas válidos na medida em que representam
comparação directa entre diferentes soluções construtivas com as mesmas dimensões. Não
devem ser extrapolados ou tomados como resultados finais de caracterização para as
soluções construtivas analisadas. Tendo esta limitação em mente, tomou-se o provete com
dimensão 50x50 cm2 como solução de referência, e os resultados descritos nas secções
seguintes foram obtidos sobre provetes com esta dimensão.
Frequência (Hz)
Figura 2. Influência da dimensão do provete.
Antes de iniciar a análise comparativa entre diferentes soluções construtivas, foi
necessário quantificar a possível influência da posição do conjunto fonte/provete nos
resultados. Realizaram-se ensaios sobre o mesmo provete (50x50x4 cm3, argamassa
ALF), para diferentes posições da fonte sonora (ver Figura 3a), e o nível sonoro dentro da
câmara acústica foi quantificado. A Figura 3b ilustra os resultados obtidos. A análise dos
resultados permite verificar que, apesar de o comportamento dinâmico do sistema
depender ligeiramente da posição da fonte, especialmente para frequências baixas, esta
dependência não conduz a variações significativas nos resultados, mesmo quando se
consideram posições extremas. Deste modo, pode concluir-se que pequenas alterações na
posição do provete de ensaio, não deverão conduzir a variações significativas nos
resultados, especialmente para frequências mais elevadas. Esta conclusão é consistente
com os resultados obtidos por Masgalos [5]. Os ensaios descritos nas secções seguintes,
para comparar diferentes soluções construtivas, foram realizados com a fonte posicionada
na posição AA (ver Figura 3a).
120
Nível Sonoro (dB)
100
M
W
N
Y
AA
BB
P
CC
Q
80
60
40
20
Frequência (Hz)
0
0
31
5
0
0
25
0
20
0
0
16
0
12
5
0
0
0
10
0
80
63
0
5
0
0
50
40
31
0
0
0
a)
25
20
16
12
10
5
0
b)
Figura 3. Influência da posição da fonte: a) diferentes localizações para a fonte de impacto
e provete de ensaio; b) nível sonoro originado por ruído de impacto para diferentes
posições da fonte.
4.2 Análise comparativa de soluções construtivas
O presente trabalho pretende analisar a melhoria na redução do nível sonoro originado por
ruído de impacto devido à presença de camadas resilientes com diferentes espessuras,
produzidas com argamassas leves feitas utilizando diferentes tipos de agregados. Esta
secção apresenta os resultados obtidos.
4.2.1 Influência do tipo de agregado leve
Tal como referido atrás, testaram-se cinco tipos de argamassas (ALG, ALF, APE, AC e
BET), que podem ser utilizadas como camada de regularização. Estas argamassas foram
comparadas tendo em conta o seu desempenho na redução do ruído de percussão. A
Figura 4 apresenta as curvas de redução sonora obtidas quando testados estes 5 materiais.
Pode observar-se que os diferentes tipos de argamassa apresentam comportamentos
bastante distintos. A contribuição da argamassa BET para a redução do nível sonoro é
muito pequena. Este resultado era esperado, tendo em conta a elevada rigidez do material,
que resulta numa baixa capacidade de dissipação de energia. No entanto, nas elevadas
frequências, esta solução apresenta uma pequena melhoria de desempenho. As argamassas
de argila expandida (ALF e ALG) também apresentam uma influência muito baixa na
redução do nível sonoro. Tal como acontece para a argamassa BET, este fraco
desempenho pode ser explicado devido à elevada rigidez dos granulados de argila
expandida. No entanto, verifica-se que a argamassa contendo granulados de menor
dimensão (ALF), apesar de apresentar uma densidade mais elevada, exibe um melhor
comportamento do que as anteriores, nas frequências baixas. As argamassas contendo
grânulos de cortiça expandida (AC) e poliestireno (APE) mostram um bom desempenho,
especialmente nas altas-frequências (acima de 315 Hz). Este bom comportamento é
especialmente visível na argamassa AC, para a qual se registaram reduções de nível
sonoro atingindo quase 40 dB, para a frequência de 3150 Hz.
35.0
30.0
25.0
ALF
ALG
APE
AC
BET
20.0
15.0
10.0
5.0
0.0
-5.0
0
80
0
10
00
12
50
16
00
20
00
25
00
31
50
63
0
5
0
0
0
50
40
31
25
20
5
0
16
10
0
-10.0
12
Redução Sonora - Som de Impacto (dB)
40.0
Frequência (Hz)
Figura 4. Redução de som de impacto para diferentes tipos de argamassa, com 4 cm de
espessura.
A elevada flexibilidade e resiliência dos granulados de poliestireno e cortiça pode explicar
a elevada capacidade de dissipação de energia demonstrada por estes dois materiais. No
entanto, é importante observar que os valores apresentados foram obtidos através de
ensaios nos quais a fonte sonora aplicava o impacto directamente sobre a argamassa, sem
qualquer revestimento. Deste modo, os resultados poderão ser influenciados pela baixa
rigidez dos agregados presentes perto da superfície.
4.2.2 Influência da espessura da camada de argamassa
A espessura dos elementos construtivos representa uma variável importante, uma vez que
pode influenciar significativamente o desempenho acústico do referido elemento. Sabe-se
que o índice de nível sonoro normalizado a sons de impacto de uma laje de betão armado
diminui com o aumento da espessura da laje, mostrando que lajes mais espessas, e
portanto com maior massa, irão ter um melhor desempenho acústico. Efectuaram-se
ensaios para verificar se esta condição era igualmente válida para camadas de argamassas
de regularização.
Testaram-se provetes produzidos com argamassas ALF, ALG e AC, com espessuras de 4
cm e 6 cm, tendo sido determinado o parâmetro ∆L. A Figura 5 mostra os resultados
obtidos.
45.0
35.0
ALG-4cm
ALG-6cm
25.0
15.0
5.0
0
0
80
0
10
00
12
50
16
00
20
00
25
00
31
50
63
0
Frequência (Hz)
a)
55.0
45.0
35.0
ALF-4cm
ALF-6cm
25.0
15.0
5.0
-5.0
10
0
12
5
16
0
20
0
25
0
31
5
40
0
50
0
63
0
80
0
10
00
12
50
16
00
20
00
25
00
31
50
Redução Sonora - Som de Impacto (dB)
50
5
40
0
31
0
25
0
20
5
12
10
0
-5.0
16
Redução Sonora - Som de Impacto (dB)
55.0
b)
55.0
45.0
35.0
AC-4cm
AC-6cm
25.0
15.0
5.0
0
80
0
10
00
12
50
16
00
20
00
25
00
31
50
63
0
0
50
40
0
5
31
25
0
20
0
16
12
10
5
-5.0
0
Redução Sonora - Som de Impacto (dB)
Frequência (Hz)
Frequência (Hz)
c)
Figura 5. Redução do ruído de impacto originado por camadas de argamassa com
diferentes espessuras e materiais: a) ALG; b) ALF; c) AC.
Os resultados mostram que, em geral, as argamassas com espessura mais elevada
apresentam um melhor desempenho acústico, principalmente para frequências mais
elevadas. Esta melhoria de desempenho foi especialmente visível nos provetes de AC,
para os quais se registaram reduções sonoras de 55 dB nas frequências mais altas. No
entanto, verifica-se que, no domínio das baixas frequências, a melhoria de ∆L foi
negligenciável.
4.2.3 Influência do tipo de revestimento
As lajes em edifícios podem apresentar diferentes níveis de desempenho ao nível do
isolamento face a sons de impacto. Este desempenho depende de um número de
parâmetros, incluindo os materiais que constituem a laje, as suas condições de suporte, e a
qualidade dos procedimentos seguidos na fase de construção.
As argamassas leves testadas podem ser utilizadas como material resiliente, colocadas sob
o revestimento final do pavimento. De modo a determinar a influência do tipo de
revestimento usado sobre a argamassa no comportamento acústico, realizaram-se testes
sobre lajes de argamassa que foram previamente revestidas com diferentes tipos de
revestimentos. Três tipos de revestimentos foram considerados: um pavimento flutuante
em madeira com 12 mm de espessura; um pavimento semelhante, também com 12 mm de
espessura, colado sobre um filme de cortiça e mosaicos cerâmicos. Os mosaicos
cerâmicos foram fixos à base de argamassa através de um cimento-cola. Os revestimentos
foram colocados sobre provetes de argamassa com 40 mm de espessura, tendo sido
ensaiados todos os cinco tipos de argamassa descritos atrás. A Figura 6 ilustra os
resultados obtidos para os três tipos de revestimentos ensaiados.
Pode observar-se que, quando um pavimento flutuante em madeira é colocado sobre uma
camada de argamassa, com ou sem filme de cortiça, a correspondente absorção sonora a
sons de impacto é, em geral, mais elevada do que quando o revestimento é feito em
mosaico cerâmico. Este comportamento deve-se à mais elevada rigidez do material
cerâmico, que se encontra colado à camada de argamassa. Também se verifica que, para
todos os tipos de revestimento, a redução sonora a sons de impacto aumenta com a
frequência do som.
Quando um pavimento flutuante em madeira é colocado sobre uma camada de argamassa,
o tipo de argamassa irá ter uma considerável influência na redução sonora a sons de
impacto resultante no sistema. Verifica-se que, quando se utiliza uma argamassa
produzida com granulados de cortiça, a redução sonora é significantemente mais elevada
do que para os restantes tipos de argamassa, especialmente acima dos 500 Hz. Soluções
construtivas utilizando outros tipos de argamassas (argila expandida e EPS) exibem
comportamentos similares entre si. Um pormenor interessante é a pequena diminuição da
redução sonora apresentada pela argamassa APE nas proximidades dos 2000 Hz, que se
encontra patente em todas as soluções testadas. O desempenho menos interessante é o
apresentado pela base de betão de peso corrente, BET. Este resultado era de esperar,
devido à mais elevada rigidez da argamassa corrente, que conduz a uma reduzida absorção
do som proveniente de impacto.
Quando a face inferior do pavimento de madeira flutuante é revestida com um filme de
cortiça, o desempenho acústico da solução construtiva melhora, especialmente acima dos
500 Hz. Nesta solução, a influência do tipo de argamassa não é tão óbvia. A argamassa de
cortiça continua a exibir uma redução sonora mais elevada do que as soluções alternativas,
mas a diferença é muito menor do que na situação anterior.
35.0
30.0
25.0
ALF
ALG
APE
AC
BET
20.0
15.0
10.0
5.0
0.0
-5.0
2.
5k
3.
15
k
6k
2k
1.
1k
5k
1.
2
63
0
80
0
50
0
20
0
25
0
31
5
40
0
16
0
12
5
-10.0
10
0
Redução Sonora - Som de Impacto (dB)
40.0
a)
40.0
35.0
30.0
25.0
ALF
ALG
APE
AC
BET
20.0
15.0
10.0
5.0
0.0
-5.0
2.
5k
3.
15
k
2k
6k
1.
1k
5k
1.
2
63
0
80
0
50
0
20
0
25
0
31
5
40
0
16
0
12
5
-10.0
10
0
Redução Sonora - Som de Impacto (dB)
Frequência (Hz)
b)
40.0
35.0
30.0
25.0
ALF
ALG
APE
AC
BET
20.0
15.0
10.0
5.0
0.0
-5.0
2.
5k
3.
15
k
2k
6k
1.
5k
1k
Frequência (Hz)
1.
2
63
0
80
0
50
0
20
0
25
0
31
5
40
0
16
0
12
5
-10.0
10
0
Redução Sonora - Som de Impacto (dB)
Frequência (Hz)
c)
Figura 6. Redução do ruído de percussão obtido por diferentes tipos de revestimento,
colocados sobre camadas de argamassa (4cm de espessura) de diferentes tipos: a)
Pavimento de madeira flutuante; b) Pavimento de madeira flutuante sobre filme de
cortiça; c) Mosaicos cerâmicos.
Quando o revestimento do piso é constituído por mosaicos cerâmicos, o sistema torna-se
mais rígido. O tipo de argamassa da base assume, nesta solução, uma maior importância.
Uma vez mais, é visível que a argamassa contendo cortiça proporciona uma maior
absorção a ruídos de impacto que as outras soluções. O melhor desempenho da argamassa
de cortiça em relação às outras é mais visível à medida que a frequência aumenta. A
argamassa APE apresenta o segundo melhor comportamento, com uma redução inferior
em 5 dB, para altas-frequências, em relação à argamassa com cortiça. Todos os tipos de
argamassa apresentam um mau comportamento na vizinhança de 400 Hz, provavelmente
devido à proximidade com uma frequência de ressonância do sistema.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho comparou a redução sonora a sons de impacto proporcionada por
diferentes soluções de pavimento. Vários tipos de argamassas de enchimento produzidas
com agregados leves e diferentes materiais de pavimentação foram analisados. Os ensaios
laboratoriais foram realizados numa câmara acústica de pequenas dimensões.
Para todos os provetes, sem revestimento final, verificou-se uma sensível redução sonora
a ruídos de impacto, em particular para as frequências mais elevadas. O uso de granulados
de cortiça demonstrou proporcionar um melhor desempenho, devido principalmente à alta
flexibilidade e resiliência do material. Os ensaios realizados sobre provetes com
revestimento em madeira ou mosaicos cerâmicos seguiram a mesma tendência. No
entanto, é importante referir que quando se utilizou uma camada resiliente (lâmina de
cortiça) sob o pavimento final, atenuaram-se as diferenças no comportamento entre os
diferentes tipos de argamassas. Este comportamento indica que a presença de uma camada
resiliente tem uma influência dominante no desempenho global do sistema.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1] Ferreira, A.; Brito, J.; Branco, F. Desempenho Relativo das Argamassas de Argila
Expandida na Execução de Camadas de Forma. 2º Congresso Nacional de Argamassas de
Construção, Lisboa, 22 e 23 de Novembro de 2007 (em CD-Rom).
[2] ISO 140-8: 1997 – Acoustics. Measurement of sound insulation in buildings and of
building elements – Part 8: Laboratory measurements of the reduction of transmitted
impact noise by floor coverings on a heavyweight standard floor, 1997.
[3] EN ISO 717-2: 1996 – Acoustics. Rating of Sound Insulation in Buildings and of
Building Elements – Part 2: Impact Sound Insulation, 1996.
[4] ISO 140-1:1997 – Acoustics. Measurement of sound insulation in buildings and of
building elements – Part 1: Requirements for laboratory test facilities with suppressed
flanking transmission, 1997.
[5] Masgalos, R. Análise de um Sistema de Dimensões Reduzidas para Ensaio de
Isolamento a Sons de Percussão. Dissertação apresentada para a obtenção do grau de
Mestre em Engenharia Civil na Especialidade de Construções, Mestrado Integrado em
Engenharia Civil, FCTUC, Coimbra, 2008.
[6] Carvalho, A.C. Avaliação do processo de secagem em argamassas leves. Dissertação
apresentada para a obtenção do grau de Mestre em Engenharia Civil na Especialidade de
Construções, Mestrado Integrado em Engenharia Civil, FCTUC, Coimbra, 2008.
Download

Comunicação