ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 DANÇA E FORMAÇÃO DE CORPOS DE MULTIDÃO NO CONTEXTO ESCOLAR Graziela Silva Ferreira (UFBA) Graziela Silva Ferreira, Possui graduação em Licenciatura em Educação Física pela Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS. Especialização em Exercício Físico Aplicado à Reabilitação Cardíaca e a Grupos Especiais pela Universidade Gama Filho - UGF. Atualmente é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Dança pela Universidade Federal da Bahia- UFBA sob orientação da Prof. Drª Isabelle Cordeiro. Pesquisa sobre a educação do corpo no ensino médio profissionalizante e, nesse contexto os (des)encontros entre Dança e Cultura Corporal. Integra, também, o Grupo de Pesquisa LIDA (Laboratório Indisciplinar de Pesquisa em Dança) sob a coordenação da Prof. Drª Isabelle Cordeiro. É professora da disciplina Educação Física no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia- IFBA do Campus Simões Filho. Resumo A proposta deste estudo é discutir sobre as contribuições da Dança, enquanto área de conhecimento específico, para a formação de corpos de multidão no contexto escolar. O corpo de multidão caracteriza-se por ser político, autônomo e crítico. A Dança, por sua vez, possibilita na educação formal, o desenvolvimento humano por meio do movimento corporal, propondo-nos situações de ensino e aprendizagem que podem ser percebidas como propositoras de uma concepção de educação que parte da compreensão da complexidade humana para um educar politizado. Assim sendo, um corpo que dança tem todas as capacidades de se formar um corpo de multidão na medida em que sua singularidade/individualidade é considerada na construção do conhecimento, ao mesmo tempo em que o indivíduo passa a ser elemento central no processo educativo da instituição escola. Palavras-chave: Escola, Dança, Corpo de multidão. DANCING AND MULTITUDE BODIES FORMATION AT THE SCHOLASTIC CONTEXT Abstract This study has the purpose to discuss about the Dancing contributions, while field of specific knowledge, for multitude bodies formation at the scholastic context. A multitude body is understood as a political, autonomous, critical being. Dancing, on the other hand, makes possible the human development through bodily movement in the formal education, suggesting teaching- learning situations which can be perceived as meanings of an educational conception that comes from the understanding of the human complexity for a politicized educating. Thus, a body that dances has all abilities to form itself a multitude body in so far as its singularity/ individuality is considered in the knowledge building, meanwhile the person becomes the central point in the educational process of the school. Keywords: School, Dancing, Multitude body. http://portalanda.org.br/index.php/anais 1 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 Notas Introdutórias A educação constitui-se num fenômeno multifacetado que faz parte das experiências humanas onde quer que elas ocorram. Porém, dentre os múltiplos espaços sociais nos quais a mesma se manifesta, percebemos que a escola detém uma função significativa. Destarte, essa reflexão tem como ponto de partida a discussão sobre a formação de corpos de multidão no contexto escolar e o olhar direciona-se para a Dança enquanto conhecimento específico. Assim questionamos: como a Dança pode contribuir para a formação de corpos de multidão na escola? Que possibilidades pedagógicas para o ensino da dança podem ser apontadas considerando que essa instituição é parte da realidade social? O conceito Multidão aqui apresentado é proposto por Hardt e Negri (2005) e caracteriza-se como um conjunto de singularidades cujas diferenças não podem se reduzidas a uma uniformidade. O corpo de multidão, por sua vez, revela-se político, autônomo e crítico. Por outro lado, a Dança propõe-nos situações de ensino e aprendizagem que podem ser percebidas como propositoras de uma concepção de educação que parte da compreensão da complexidade humana para um educar politizado. O Lugar do Corpo na Educação Há diversos caminhos teóricos para a construção do conceito de corpo e a reflexão sobre este impulsiona o desenvolvimento de novas formas de vê-lo e entendêlo. Nesse contexto, o corpo é compreendido a partir do conceito de corpomídia proposto por Greiner (2005), onde o corpo não é um recipiente (lugar aonde as informações vêm do mundo e são processadas para serem depois devolvidas ao mundo), mas sim aquilo que se apronta num processo co-evolutivo de trocas com o ambiente. Assim, a mídia à qual o corpomídia se refere diz respeito ao processo evolutivo de selecionar informações que vão constituindo corpo. Tem-se, portanto que: As experiências são fruto de nossos corpos (aparato motor e perceptual, capacidades mentais, fluxo emocional, etc), de nossas interações com nosso ambiente através das ações de se mover, manipular objetos, comer, e de nossas interações com outras pessoas dentro de nossa cultura (em termos sociais, políticos, econômicos e religiosos) e fora dela. (GREINER, 2005, p. 132) http://portalanda.org.br/index.php/anais 2 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 Katz e Greiner (2005) concordam que o corpo não é um meio por onde a informação simplesmente passa, pois toda informação que chega entra em negociação com as que já estão. O corpo é o resultado desses cruzamentos, e não um lugar onde as informações são apenas abrigadas. Observamos o corpo como um lugar da construção de sentidos, espaço de investigação e criação de novas realidades, em conexão com diferentes meios e que se apresenta como produtor de linguagem. Uma feira monumental de significados e um complexo de símbolos que vai além de si. Um espaço privilegiado de características ímpares que expressam, entre outros, valores amorosos, estéticos e sexuais. O corpo é o lugar de todos os sentidos, das idéias, da emoção, da razão. É no corpo que interagimos com o mundo a nossa volta em uma relação conformada pelo espaço/tempo presente, reconfigurando nosso modo de ser, de se relacionar com o outro; enfim, o modo se estar no mundo. Para Morin (2006) o ser humano é uma unidade complexa e multidimensional: dessa forma, é ao mesmo tempo biológico, psíquico, social, afetivo e racional. Quando perguntamos sobre o lugar do corpo na educação, indagamos sobre o modo pelo qual o mesmo é compreendido nos currículos escolares, sobretudo na relação com a construção e apropriação dos saberes na cultura escolar. A educação tradicional não tem o perfil de promover ou incentivar a criticidade no indivíduo, proporcionando que se desenvolva e utilize sua capacidade comunicativa, cognitiva. Para Morin (2006), a supremacia do conhecimento fragmentado de acordo com as disciplinas impede frequentemente de operar o vínculo entre as partes e a totalidade, e deve ser substituída por um modo de conhecimento capaz de apreender os objetos em seu contexto, sua complexidade, seu conjunto. Quando Edgar Morin (2006) se refere ao contexto situa que tudo deve estar relacionado para que haja sentido no processo de educação. Assim tem-se que: O conhecimento das informações ou dos dados isolados é insuficiente. É preciso situar as informações e os dados em seu contexto para que adquiram sentido. Para ter sentido, a palavra necessita do texto, que é o próprio contexto, e o texto necessita do contexto no qual se enuncia. (MORIN, 2006, p. 36) Assim, pensar a educação dos corpos no espaço escolar pressupõe entender que o corpo não é apenas um dado material resultante da ação da natureza, o mesmo jamais poderá ser uma coisa entre as coisas. Por essa razão é possível afirmar que o http://portalanda.org.br/index.php/anais 3 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 corpo é construído no contexto cultural e social onde vive, sendo produzido nas relações que ali se estabelecem na medida em que os significados culturais que cada grupo social determina para si. Assim, os corpos que transitam na escola estão sujeitos às relações de poder como aponta Foucault (2000). Estas relações hierarquizantes buscam, a partir da forma estabelecida de ensino-aprendizagem e de construção de conhecimento, tornar estes corpos obedientes, disciplinados e reprodutores dos valores da sociedade da qual fazem parte. Esse estudo compactua com as idéias de Daolio (1995) quando afirma que atuar no corpo implica atuar na sociedade na qual esse corpo está inserido e que todas as práticas institucionais que envolvem o corpo sejam educativas, recreativas, expressivas, devem ser pensadas nesse contexto para que não se conceba sua realização de forma reducionista. A educação é um ato de conhecimento e de conscientização que para Freire (2007) deve ser libertadora e transformadora, um ato político no qual a ação e a reflexão são constituintes inseparáveis da prática representando uma maneira de existir dos seres humanos. Essa maneira de pensar a educação possibilita a formação do corpo autônomo (RANCIÈRE, 2005) e crítico. Ao longo da história da educação é possível identificar os diversos olhares e concepções de corpo e corporeidade e suas possíveis e importantes relações de comunicação e de diálogos sobre o fazer. Partindo dessa premissa, é que defendo que o educar (na instituição formal) não deve alijar-se do desenvolvimento de um processo que torne o sujeito conhecedor de si próprio enquanto corpo que se reinventa a cada troca com o meio. Um Palco para Dançar: A Escola Podemos considerar que a dança na escola é uma possibilidade criadora de ensino-aprendizagem que utiliza o movimento intencional e acontece a partir do conhecimento já construído pelo corpo na relação com o mundo. Assim é a dança: uma produção social efêmera, um patrimônio cultural imaterial. Está presente nas mais variadas sociedades, em diferentes formas e expressões. A dança é uma manifestação artística, criação de indivíduos, representação de um povo. Dança é arte, e como toda forma http://portalanda.org.br/index.php/anais 4 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 de arte, parte da expressão individual e gera a memória coletiva de um povo. (STRAZZACAA, 2007, p. 16) Para Cazé (2008), ensinar e aprender a dança na escola significa criar, vivenciar, experienciar, transformar, compreender novas possibilidades de pensamentos/movimentos. É expressar-se sem a necessidade de palavras, utilizando uma gramaticalidade presente no corpo, é perceber que não existe apenas um caminho, mas múltiplas possibilidades de construção de novos conhecimentos. A escolha da maneira de aprender vai depender dos recursos neurais individuais associados ás experiências de vida, fato estes que tornam os indivíduos singulares, únicos em sua forma de ser. A prática da dança na escola possibilita a aprendizagem pela interação que acontece entre os educandos, o educador e o ambiente. Esta transmissão social acontece em um meio de construção do conhecimento no/pelo corpo e do compartilhamento de idéias de movimentos/pensamentos em um ambiente coletivo. Christine Greiner (2005) entende que o movimento humano é biológico e também cultural, sendo a expressão de uma cultura viva que se transforma continuamente com as trocas com o ambiente em uma rede de relações sociais. Ainda Greiner (2005, p. 42), afirma que “não cabe mais distinguir como instâncias separadas e independentes um corpo biológico e um corpo cultural. O corpo anatômico e o corpo vivo atuando no mundo tornam-se inseparáveis”. Essas relações possibilitam entender como nós, seres humanos, nos constituímos nas trocas de informações entre corpo e ambiente. Para que ocorra movimento intencional o indivíduo utiliza processos cognitivos. Neste contexto, os movimentos são atos sensório-motores complexos, diferentes, variados, criativos; e a cada momento que acontece é sempre um evento único. Assim sendo: A dança nasce quando no corpo se desenha um determinado tipo de circuitação neuronial/muscular. Este mapa, exclusivamente ele, tem o caráter de um pensamento. Quando ele se dá a ver no corpo, o corpo dança. Esse momento parece inaugural. No entanto, o apresentar-se da dança no corpo já representa o fim de um caminho. Quando lá se instala, a dança inaugura uma outra cadeia de circuitações para o corpo. (KATZ, 2005, p. 52) http://portalanda.org.br/index.php/anais 5 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 Segundo Katz (2005) pensamento é ação, é um ato sensório-motor. Nesse sentido, o final de um movimento é sempre o princípio de outro movimento; eles ocorrem em um encadeamento e de maneira ininterrupta. Dessa forma, a escola é um campo de possibilidades para descobertas. Na instituição escolar é possível desenvolver habilidades de interação social, a construção da autonomia, da consciência crítica, da liberdade criadora envolvendo o educando, a sua maneira de pensar, fazer e fruir dança como uma forma de conhecimento, que no ato da criação, entrelaça a arte à ciência como parte da existência humana. Dança e formação de corpos de multidão na escola O desejo de um mundo onde prevaleçam a igualdade e a liberdade, aspectos norteadores de uma democracia global que favoreça a construção de uma vida em comum e que hoje parece possível de ser concretizado, aparece como a base daquilo que Michael Hardt e Antonio Negri (2005) chamam de "projeto da multidão". Para entender o conceito de “multidão” em sua forma mais geral e abstrata, Hardt e Negri (2005) fazem uma comparação com o de “povo” (grifo nosso). Nessa discussão abordam que o “povo” é uno. Discorrem que a população é composta de numerosos indivíduos e classes diferentes, mas o “povo” sintetiza ou reduz essas diferenças sociais a uma identidade. A “multidão”, em contraste, não é unificada, mantendo-se plural e múltipla, é composta de singularidades, ou seja, composta de um sujeito social cuja diferença não pode ser reduzida à uniformidade, uma diferença que se mantém diferente. A multidão também pode ser vista como uma rede aberta e em expansão na qual todas as diferenças podem ser expressas livre e igualitariamente. Esta rede proporciona os meios de convergência para que possamos trabalhar e viver em comum. A multidão é múltipla, é composta de inúmeras diferenças internas que nunca poderão ser reduzidas a uma unidade ou identidade única. Multidão é uma multiplicidade de todas as diferenças singulares (culturas, raças, etnias, gêneros, e outros). Na multidão as diferenças sociais permanecem diferentes, o desafio é fazer com que uma multiplicidade social seja capaz de se comunicar e agir em comum, ao mesmo tempo em que se mantém internamente diferente. A multidão também é um conceito aberto e abrangente que tenta apreender a importância das recorrentes mudanças na economia global. A multidão se compõe de todas as diferentes http://portalanda.org.br/index.php/anais 6 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 configurações da produção social. A multidão, embora se mantenha múltipla, não é fragmentada, anárquica ou incoerente (HARDT; NEGRI, 2005). Hardt e Negri (2005) falam da democracia. Consideram que a idéia de democracia é um dos princípios de organização dos movimentos sociais, sendo possível pensá-la como aspiração universal da multidão. O projeto da multidão não só expressa o desejo de um mundo de igualdade e liberdade, não apenas exige uma sociedade global democrática que seja aberta e inclusiva, como proporciona os meios para alcançá-la. (HARDT; NEGRI, 2005, p. 9) A multidão é encarada como uma multiplicidade irredutível, baseada nas condições de possibilidade, dos que podem tornar-se multidão, levando em conta que tipos de trabalho, formas de vida e localização geográfica não impedem a comunicação e a colaboração num projeto político comum. Segundo Freire (2007) há uma pluralidade na própria singularidade nas relações que o homem estabelece com o mundo. Hardt e Negri apontam que: A multidão designa um sujeito social ativo, que age com base naquilo que as singularidades têm em comum. A multidão é um sujeito social internamente diferente e múltiplo cuja constituição e ação não se baseiam na identidade ou na unidade (nem muito menos na indiferença), mas naquilo que tem em comum. (HARDT; NEGRI, 2005, p. 140) Morin (2006) sugere que tanto no ser humano, quanto nos outros seres vivos, existe a presença do todo no interior das partes: cada célula contém a totalidade do patrimônio genético de um organismo multicelular. A sociedade, como um todo, está presente em cada indivíduo, na sua linguagem, em seu saber, em suas obrigações e em suas normas. A produção de subjetividade e a produção do comum podem formar juntas, uma relação simbiótica em forma de espiral. Essa subjetividade nasce da cooperação e da comunicação, para, a partir disso, vir a produzir novas formas de cooperação e comunicação, que por sua vez produzem nova subjetividade, e assim sucessivamente. É neste processo de metamorfose e constituição que se dá a formação do corpo da multidão, um corpo comum, democrático, novo. Essa "multidão de multidões" é capaz de agir em comum como um corpo único, ou seja, mesmo que a multidão forme um http://portalanda.org.br/index.php/anais 7 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 corpo continuará sendo uma composição plural e nunca se tornará um todo unitário dividido por órgãos hierárquicos (HARDT; NEGRI. 2005). Segundo Nogueira (2008) os corpos de multidão não participam dos processos disciplinatórios e buscam escapar à engrenagem da globalização porque ela favorece interesses econômicos de poucos em detrimento de muitos. Os corpos de multidão revelam posturas críticas e politizadas sem omissão ou apatia diante das injustiças presentes nas sociedades humanas. O corpo é sujeito e objeto das forças políticas de multidão, é uma membrana poética, sensível, porosa, quase submersa (mas não submissa) em espaços e dimensões híbridas, que parecem diferenciadas, mas que, de fato, são dimensões de realidade conjugadas entre si. (NOGUEIRA, 2008, p. 77) Partindo do princípio que a educação formal tem uma parcela importante de responsabilidade no processo de formação dos indivíduos sociais, esse estudo parte do princípio de que a formação de corpos de multidão, nesse contexto, se configura como uma possibilidade. E que cabe a escola, enquanto instrumento social, se dispor a produzir conhecimento como princípio norteador de práticas que alimentem a criticidade dos seus alunos. Segundo Freire (2007) o dilema que se apresenta hoje para a educação é que a mesma seja desvestida da roupagem alienada e alienante e passe a ser uma força de mudança e libertação. E, nesse contexto, o autor apresenta duas opções: a opção entre uma educação para a domesticação/ alienação e uma educação para a liberdade. Educação para o homem-objeto ou educação para o homem-sujeito. Tem-se, portanto, que toda vez que a liberdade é suprimida fica o homem um ser minimizado e cerceado. E, acomodado a ajustamentos que lhe sejam impostos, sem o direito de discuti-los, o mesmo tende a sacrificar a sua capacidade criadora (Freire, 2007). Nesse sentido, Freire (2007) propõe que a educação possibilite ao homem a discussão corajosa de suas problemáticas, que coloque em diálogo com o outro, que predispunha a constantes revisões e que se faça a análise crítica de seus “achados”. O mesmo denuncia que uma das grandes características da nossa educação é a de enfatizar posições ingênuas, sobrepujando a possíveis posições indagadoras, mais inquietas, mais criadoras. Levando-nos assim, à passividade e ao conhecimento http://portalanda.org.br/index.php/anais 8 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 memorizado, que não exige elaboração ou reelaboração, nos deixando em posição do que ele chamou de inautêntica sabedoria. Ditamos idéias. Não trocamos idéias. Discursamos aulas. Não debatemos ou discutimos temas. Trabalhamos sobre o educando. Não trabalhamos com ele. Impomos-lhe uma ordem a que ele não adere, mas se acomoda. Não lhe propiciamos meios para o pensar autêntico, porque recebendo as fórmulas que lhe damos, simplesmente as guarda. Não as incorpora porque a incorporação é o resultado de busca de algo que exige, de quem o tenta, esforço de recriação e de procura. Exige reinvenção. (FREIRE, 2007, p. 104-105) A importância da educação escolar exige que se possa refletir sobre sua relação com a sociedade, uma vez que ambas não podem ser pensadas como instâncias independentes. Segundo Luckesi (1994) a escola como instituição social cumpre determinadas funções que podem ser consideradas pertencentes ou não à ordem social vigente nos momentos históricos determinados. Significa dizer que, na nossa sociedade capitalista essa relação dá-se de tal forma que as relações de poder que perpassam a vida social se fazem presentes no cotidiano escolar. Luckesi (1994) acredita que a educação pode ser entendida por intermédio de três formas: como redenção, como reprodução ou como transformação de uma sociedade, sendo que cada uma compreende a sociedade e a educação de diferentes maneiras. A tendência redentora compreende a sociedade harmonicamente determinada por uma estabilidade natural, com alguns desvios de grupos e indivíduos, importando conservar esta ordem estável e reintegrar esses indivíduos que estão à margem do processo. A função da educação, nesse contexto, é recuperar e adaptar o indivíduo à sociedade, reintegrando-o, no sentido de manutenção da ordem. Na tendência reprodutora a compreensão que se tem de educação e de escola é de que são meros instrumentos, aparelhos ideológicos do Estado, ou seja, estão a serviço dos interesses da classe dominante e do sistema produtivo capitalista. De acordo com essa tendência, a educação é responsável pela formação de indivíduos qualificados para o trabalho e que se submetam e se adequem às regras dessa sociedade. E, por fim, a tendência transformadora compreende a educação dentro da sociedade, com os seus determinantes e condicionantes, na perspectiva de trabalhar pela democratização. http://portalanda.org.br/index.php/anais 9 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 Portanto, a educação tanto pode ser um meio de perpetuação do atual projeto de sociedade como pode e deve servir como instrumento de transformação desta, a serviço da grande maioria oprimida e marginalizada. Pode ser um ponto de partida para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária (LUCKESI, 1994). Para Hardt e Negri (2005, p. 139) “ação política voltada para a transformação e a libertação só pode ser conduzida hoje com base na multidão”. Este escrito concorda com Morin (2006) quando discorre que nossa educação nos ensinou a separar, compartimentar, isolar e, não, a unir os conhecimentos e que o conjunto deles constitui um quebra-cabeça. Este autor sugere que, para a educação do futuro, será preciso conhecer o humano e, antes de mais nada, situá-lo no universo, e não separá-lo dele e que todo conhecimento deverá contextualizar seu objeto para ser pertinente. Com a possibilidade de compreender o mundo de uma forma diferenciada, a dança no contexto escolar abre caminho para que o aluno crie e recrie seu mundo, e dessa forma, interagir criticamente com a sociedade vigente. O ensino de Dança na escola exige posturas de apropriação, comprometimento, criticidade, reflexão, rigorosidade metodológica, responsabilidade, pesquisa, respeito aos valores, a autonomia, aos saberes e aos fazeres dos educandos. Este processo envolve os riscos, a aceitação do novo e a consciência das mudanças como aponta Paulo Freire (1996) ao falar da educação como prática construtora da autonomia. Marques (2007) sugere que pensar a Dança no contexto educacional deve partir da realidade e do contexto no qual o educando está inserido para então transformar-se em uma ação consciente e problematizadora do conteúdo a ser ensinado que possibilita a construção de conhecimento. Inserida na escola, a Dança deve ser desenvolvida de forma que os movimentos/pensamentos possuam contextos e conteúdos próprios e que haja interações entre o sentir o pensar e o agir. A autora discorre ainda que quando pensamos em dança na escola, devemos fomentar perspectivas pedagógicas não restritas às práticas pedagógicas mentalizadas, à mera transmissão de conhecimentos, mas às experiências que permitem ao aluno problematizar sua própria existência, para que possa agir de forma criativa e crítica no contexto social. O corpo de multidão é político, autônomo, crítico. Não é apático às circunstâncias e situações sociais. Nogueira (2008) sugere que os corpos de multidão http://portalanda.org.br/index.php/anais 10 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 são corpomídia de pensamentos de dança e que são indisciplinares, são sujeitos de direito, agentes, interlocutores, tradutores. Compreender a idéia do pensamento se organizar no corpo que dança implica entender que o corpo constrói hipóteses de movimento e seleciona aqueles que melhor se adéqüem ao contexto momentâneo. A literatura sobre Dança em diversos momentos da história da humanidade teve como finalidade situá-la no contexto escolar e entender como sua ação permeia os atos co-evolutivos que promovem a construção do conhecimento se faz necessária. Esta visão auxilia na compreensão da relevância da Dança o campo educacional como uma ação que possibilita ao corpo a assimilação do mundo, sua participação no processo ensino-aprendizagem e na construção do conhecimento a partir do corpo que se move, além da inserção dos educandos em um mundo cultural globalizado. Dessa forma, a Dança permite o diálogo com o mundo pelo movimento e a criação de novas maneiras de compreender a realidade, visto que na dança, assim como na vida, os resultados são provisórios, ações são processos que estão em contínua mudança. Katz (2005, p.7) ratifica essa idéia ao afirmar que: “Estamos inscritos num fluxo de transformações que altera o mundo e a nós mesmos. Somos corpos que se deslocam num Cosmos que não estaciona”. Destarte, a educação formal, representada pela instituição escolar, deve possibilitar ao corpo que dança um campo aberto de vivências e experimentações do movimento humano e, ao mesmo tempo, um ambiente cultural, artístico, histórico, social e político de desenvolvimento de suas potencialidades humanas de inter-relação na sociedade contemporânea. Segundo Cazé (2008) a Dança como área de conhecimento exige a transdisciplinaridade, a busca de outros saberes, a revisão de conceitos e mudança de paradigmas que possibilitem uma prática coerente e adequada à transformações que tem permeado entendimento de Dança e de Educação. Considerando que a dança acontece no corpo e que integra um campo de possibilidades que amplia os processos de aprendizagem e formação humana, a mesma possibilita a formação de um corpo de multidão, na medida em que se revela como uma vivência estética e desvelamento da plasticidade corpórea, ao mesmo tempo em que nos propõe situações de ensino e aprendizagem que podem ser percebidas como descortinadoras de uma concepção de educação mais humana. http://portalanda.org.br/index.php/anais 11 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 Entendemos aqui essa concepção como sendo aquela que não se realiza a partir da negação da complexa condição humana, concordando com os escritos de Morin (2006), mas que descorre da compreensão dessa complexidade para um educar politizado. A Título de Considerações Finais Este estudo pretendeu discutir sobre as possibilidades de contribuição da Dança, enquanto área de conhecimento específico, para a formação de corpos de multidão na educação formal, representada pela escola. E, nesse processo, promover uma aproximação entre a área da Dança e o conceito de Multidão proposto por Hardt e Negri (2005). A dança caracteriza-se como uma ação do/no corpo, um pensamento/movimento parafraseando Katz (2005) que promove, a todo instante, a renovação. Nesse sentido, é plausível admitir que esta arte possibilita vivências e experimentações de movimento, e ao mesmo tempo, um ambiente cultural, artístico, histórico, social e político de desenvolvimento das potencialidades humanas de interrelações na sociedade contemporânea. O corpo de multidão, por sua vez, identifica-se como sendo um corpo político, crítico e autônomo. Um corpo capaz de questionar a realidade social vigente e, ao mesmo tempo, intervir no seu processo de ensino-aprendizagem através das trocas com o ambiente e com o outro. Assim sendo, um corpo que dança tem todas as capacidades de se formar um corpo de multidão na medida em que sua singularidade/individualidade é considerada na construção do conhecimento, ao mesmo tempo em que o indivíduo passa a ser elemento central no processo educativo da instituição escola. Referências CAZÉ, C. M. de J. O. Corpos que dançam aprendem: análise do espaço da dança na rede pública estadual de Salvador: UFBA, 2008. Dissertação (Mestrado em Dança). Escola de Dança, Universidade Federal da Bahia, 2008. DAOLIO, J. Da cultura do corpo. Campinas, SP: Papirus, 1995. http://portalanda.org.br/index.php/anais 12 ANAIS DO II CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA – ANDA Comitê Dança em Mediações Educacionais – Julho/2012 FREIRE, P. Pedagogia da autonomia - Saberes necessários à prática educativa. 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