UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE - UNESC CURSO DE PSICOLOGIA RENATA ALEXANDRE SEVERINO A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE DA CRIANÇA NEGRA NO CONTEXTO ESCOLAR CRICIÚMA, JUNHO DE 2010 RENATA ALEXANDRE SEVERINO A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE DA CRIANÇA NEGRA NO CONTEXTO ESCOLAR Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado para obtenção do grau de Psicólogo no curso de Psicologia da Universidade do Extremo Sul Catarinense, UNESC. Orientador (a): Prof.(ª) Eliene Benta de Campos Ferreira CRICIÚMA, JUNHO DE 2010 2 RENATA ALEXANDRE SEVERINO A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE DA CRIANÇA NEGRA NO CONTEXTO ESCOLAR Trabalho de Conclusão de Curso aprovado pela Banca Examinadora para obtenção do Grau de Psicólogo, no Curso de Psicologia da Universidade do Extremo Sul Catarinense, UNESC, com Linha de Pesquisa em Psicologia Escolar. Criciúma, 28 de Junho de 2010. BANCA EXAMINADORA __________________________________________ Prof. Eliene Benta de Campos Ferreira – Mestre (UNESC) - Orientador __________________________________________ Prof. Elenice de Freitas Sais - Especialista (UNESC) __________________________________________ Prof. Iolanda Romeli Lima Manoel – Especialista (Pref. Municipal de Criciúma) 3 Aos meus pais Soraia e Arcângelo e aos meus irmãos Renan e Ranieli. 4 AGRADECIMENTOS A minha Orientadora Eliene Benta de Campos Ferreira, pela dedicação, comprometimento e pelo incentivo quando parecia que não iria conseguir; me dando força e acreditando em meu potencial. A minha mãe que no meu desespero me dava força e coragem para lutar. Ao meu pai que torcia por mim. Ao meu irmão, pois no momento em que mais precisei estendeu sua mão para me ajudar. A minha irmã Ranieli que nos momentos em que me sentia triste me fez sorrir. As minhas amigas Andréia e Gislaine que me proporcionaram no decorrer da graduação momentos de alegrias e tristezas que passamos juntas, e pela ajuda que me prestaram. E a Deus pelo dom da vida. 5 “Não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite.” Nelson Rodrigues 6 RESUMO O presente trabalho tem como objetivo refletir acerca da identidade da criança negra no contexto escolar. Neste processo o trabalho discute as concepções de identidade vinculadas à psicologia do desenvolvimento; os manejos pedagógicos desenvolvidos no contexto escolar relacionados a esta formação; a importância da escola na construção da identidade da criança negra, e a criação da lei 10.639/03. É refletido também o papel da psicologia em colocar no seu conjunto de discussão as temáticas referentes ao negro e as suas problematizações sociais, discutindo o papel do psicólogo escolar como agente promovedor de mudanças. Os procedimentos metodológicos adotados, consistiram em realizar por meio de uma amostra, um levantamento das publicações de 2004 a 2009 na área de psicologia, através de palavras-chaves para visualizar a quantidade de publicações relativas à temática do trabalho. Este estudo aponta o distanciamento que a psicologia estabelece com o processo de identidade da criança negra e sugere o desenvolvimento de projetos no espaço escolar que contribuam para desconstrução de preconceitos raciais envolvendo a formação da identidade da criança negra. Palavras chave: Criança Negra, Identidade, Preconceitos Raciais, Psicólogo Escolar. 7 ABSTRACT The present work had as objective to reflect concerning the identity of the black child in the pertaining to school context. In this process work one argues the entailed conceptions of identity the pedagogical psychology of the development, manages developed in the pertaining to school context related to this formation and the importance of the school in the construction of the identity of the black child, and the creation of law 10,639/03 as well as, the paper of psychology in placing in its thematic set of quarrel referring to the black and its social problematizations, questioning the paper of the pertaining to school psychologist as promoted agent of changes. The adopted methodologists procedures had consisted of carrying through through a sample, a survey of 2004 publications the 2009 in the area of psychology through word-keys to visualize the relative amount of publications to the thematic one of the work. This study it points the detachment that psychology establishes with the process of identity of the black child and suggests development of projects in the pertaining to school space that they contribute for deconstruction of racial preconceptions involving the formation of the identity of the black child Key Words: Black Child, Identity, Racial Preconceptions, Pertaining to school Psychologist. 8 LISTA DE TABELAS E GRÁFICO Tabela 1 - Periódicos Publicados no ano de 2004 .............................................. 36 Tabela 2 - Periódicos Publicados no ano de 2005................................................ 37 Tabela 3 - Periódicos Publicados no ano de 2006 .............................................. 37 Tabela 4 - Periódicos Publicados no ano de 2007................................................ 38 Tabela 5 - Periódicos Publicados no ano de 2008 .............................................. 38 Tabela 6 - Periódicos Publicados no ano de 2009................................................ 39 Tabela 7 -Total de Periódicos Publicados entre os anos de 2004 a 2009.......... 39 Gráfico 1 - Palavras chaves dos artigos com relação a temática ....................... 40 9 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS LDB – Leis Diretrizes e Bases SEPPIR – Secretaria Especial de Políticas e Promoção da Igualdade Racial CNE – Conselho Nacional de Educação ONGS – Organizações Não-Governamentais MEC – Ministério da Educação IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística 10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 11 2 A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE .......................................................................... 14 3 A ESCOLA E A FORMAÇÃO DE IDENTIDADE DA CRIANÇA NEGRA.............. 18 3.1 Historicidade do Processo Educacional do Negro no Brasil ........................ 18 3.2 Leis e Diretrizes Educacionais ......................................................................... 24 4 AS CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA .............................................................. 29 4.1 O papel da Psicologia Escolar na Sociedade Atual ....................................... 29 4.2 O Psicológo Escolar e as temáticas voltadas para o Negro.......................... 33 5 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS ................................................. 36 6 CONCLUSÃO ........................................................................................................ 42 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 45 11 1 INTRODUÇÃO O interesse por este tema surgiu da motivação em entender como a psicologia escolar trata a questão do preconceito, e também buscar um maior entendimento sobre a posição a ser tomada pelos agentes escolares, tais como professores, psicólogos escolares, orientadores e demais profissionais que fazem parte do corpo docente de uma escola diante deste assunto, pois durante a graduação da autora percebeu-se que havia poucas abordagens discutindo o tema em questão. O objetivo maior deste estudo é identificar os aspetos envolvidos na formação da identidade da criança negra no contexto escolar, entendendo que é neste espaço que a criança negra começa a buscar suas primeiras referências, como as demais crianças de outra raça, para um reconhecimento de si mesmo dentro da sociedade problematizando-se desta forma, qual a influência que a escola exerce na formação da identidade da criança negra. Entendendo nesta pesquisa que o termo raça embora atualmente seja postulado de outra forma, não definindo as diferenças entre as pessoas, usando-se para isso a concepção de etnias, essa terminologia ainda encontra-se presente em algumas literaturas. A reflexão acerca do tema se dará através de estudos bibliográficos visando especificamente: identificar os elementos didático-pedagógicos que se relacionam com o processo de formação da identidade da criança negra; compreender como é o processo da construção da identidade da criança negra no contexto escolar; discutir a formação da identidade no ser humano; analisar como ocorrem as relações raciais da criança negra no ambiente escolar e ainda refletir as implicações da lei 10.639/03 e no sistema educacional. Conseqüência direta de um período escravista no Brasil e que ainda resulta de ações preconceituosas, o racismo se faz cada vez mais freqüente em nossa sociedade. De uma etapa de “libertação” através da lei áurea até os dias atuais, ainda escondemos o racismo dentro de leis, cotas e tratamentos diferenciados para aqueles que deveriam ser tratados de forma constitucional com direitos e deveres por iguais. 12 O ato de discriminar e pré-conceituar aquele que é deixado de lado pela dita maioria da sociedade traz à tona, a discussão sobre o ato de inferiorizar alguém pela sua cor, sua cultura, pelas suas características físicas e pelo seu passado histórico. Isto não leva em conta o respeito pelo diferente e também a miscigenação que houve ao longo do tempo em nossa sociedade. Segundo Munanga (2005), é preciso insistir sempre que a sociedade brasileira é preconceituosa e discriminadora em relação à sua população. Desta forma, o modelo de educação acaba não sendo inclusivo, mesmo permitindo a entrada de todos na escola. Todos entram, ou uma maioria entra. Mas nem todos saem devidamente escolarizados. Muitos não saem aptos a enfrentarem a vida como verdadeiros cidadãos. O que se pode perceber ao longo destes séculos de racismos e préjulgamentos são as dificuldades que a raça negra possui, com relação aos pontos positivos na sua inserção no meio escolar, social, trazendo com isso a falta de confiança e autoestima necessárias para um bom desenvolvimento. Quando a criança sai do âmbito familiar e vai para seu primeiro contato fora deste grupo, a escola é sua primeira referência, surge um mundo novo de diferentes indivíduos, onde a criança busca se identificar e conhecer diferentes historicidades para assim construir a sua própria identidade, em se tratando das relações da criança no contexto escolar destacamos os autores: Balbino(2008), Costa(2006) e Erikson(1999). Por isso, não basta apenas nortear o tratamento do racismo somente na esfera escolar. Nem tão pouco criar leis e diretrizes para que uma dita minoria seja aceita pelo restante da sociedade, há que se procurar entendimento dentro da formação da identidade da criança negra, buscar a relação dentro do seu contexto escolar e de que forma ou até que ponto nessa relação de constituição da identidade, a escola tem contribuído e participado efetivamente. De acordo com Munanga (2005), os negros, ao longo da história do Brasil, têm sido, juntamente com os índios, os mais discriminados. Na escola essa questão deve ser abordada, incluindo objetivamente no currículo, de tal forma que o aluno possa refletir os casos e combater o preconceito, fazendo com que todos sejam e se sintam cidadãos em igualdade de condições. Nessas relações entre a criança negra e o seu ambiente escolar surge então a figura do Psicólogo, que através de seus estudos proporcionam projetos 13 sociais juntamente a outros profissionais, ações afirmativas buscando concretizar no espaço educacional um combate á discriminação e aos preconceitos, participando ativamente deste processo de inserção e respeito ao semelhante. Ressaltar-se que a formação da identidade da criança negra é diluída entre seus pais, familiares, sociedade, e também está ligada a escola e aos profissionais que fazem parte dela. No entanto teóricos da Psicologia Social expõem temas específicos sobre a identidade vinculada diretamente no contexto social, dentre eles Hall (2001), Silva (2005), Sawaia e Lane (1995), que apresentam o processo de como saber lidar com os diferentes sentimentos destas crianças e suas perspectivas, quanto ao preconceito e racismo vivido através da discriminação e de seus estereótipos sociais. Através desta reflexão, espera-se contribuir com a construção de uma psicologia que atenda as demandas sociais, que se posicione diante de comportamentos e atitudes de desqualificação do ser humano, e atue de forma crítica no contexto no qual está inserida. 14 2 A FORMAÇÃO DA IDENTIDADE Uma das temáticas mais discutidas na psicologia é acerca do processo de formação da identidade no ser humano. Segundo Erickson (1999), a formação da identidade acontece quando os pais começam a definir o nome, projetar o sexo, definir profissão e muitas das escolhas do futuro indivíduo. Sendo assim, a identidade não se inicia nem termina na infância ou adolescência, mas é um constante processo de formação. De acordo com Erickson (1999), a compreensão da identidade parte do pressuposto de que o indivíduo vê a si próprio separado e distinto, tendo a necessidade de autoconsistência e de um sentimento de completude. Erickson (1999) fala da importância da integridade do eu (self), para que se possa ter clara, a separação dos outros quanto à unidade do eu. O indivíduo traz consigo aspectos já vivenciados ao longo da infância e aquilo que pretende se tornar no futuro, ou seja, é a soma de vários elementos. Sendo assim, um componente importante de uma identidade não é apenas o individual ou o interno, e sim como o indivíduo percebe como os outros o vêem, o coletivo, o externo então a identidade não é apenas pessoal, mas também social. Sawaia (2006) coloca que a identidade nada mais é do que a construção do eu sujeito único e igual a si mesmo, e que essa construção gera liberdade, cidadania, felicidade, contribuindo para as relações interpessoais e grupais. O conceito de identidade está sendo revisado: As velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, sendo visto como um sujeito unificado. Desta forma pode-se ver um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e muitas vezes abalam alguns quadros de referência que davam aos indivíduos um porto seguro e estável no mundo social. (HALL, 2001, p.7) Por isso, para o autor, tentar mapear a história da noção de sujeito moderno através da sua identidade, é um exercício extremamente difícil. A idéia de que as identidades eram plenamente unificadas e coerentes e que agora se tornaram totalmente deslocadas é uma forma altamente simplista de contar a história do sujeito moderno. 15 Hall (2001) afirma que algumas mudanças sublinham a afirmação básica de que os conceitos dos sujeitos mudam e, portanto, têm uma história. Uma vez que o sujeito moderno emergiu num momento particular (seu “nascimento”) e tem uma história, segue-se que ele também pode mudar e, de fato, algumas das vezes por certas circunstâncias, podemos mesmo contemplar sua “morte de identidade”. É comum dizer que a época moderna fez surgir uma forma nova e decisiva de individualismo, no centro da qual se emergiu uma nova concepção do sujeito individual e sua identidade. Isto não significa dizer que nos tempos pré-modernos as pessoas não eram indivíduos, mas que a individualidade era tanto “vivida” quanto “conceitualizada” de forma diferente. Emergiu então, uma concepção mais social do sujeito, ou seja, indivíduo passou a ser visto como mais localizado e “definido” no interior dessas grandes estruturas e formações sustentadoras da sociedade moderna. (HALL, 2001, p.30) Essa concepção social traz consigo a integração do indivíduo na sociedade, mas em contrapartida surge a preocupação do “eu” deste sujeito estar sendo apresentado em diferentes situações sociais, e com isso acabe gerando conflitos entre vários papéis sociais que o indivíduo tem dentro desta rede social. Por isso, Hall (2001) pontua que surge uma tendência em construir um problema com essa relação do “eu” e a “sociedade” já estruturada por este mesmo “eu”, uma relação de duas entidades conectadas, mas separadas, neste caso: o “indivíduo e a sociedade”. Ainda de acordo com Hall (2001), essa tendência que surge é uma reciprocidade entre o “eu” (interior) e o exterior (sociedade), quando se busca o desejo de ter uma identidade organizada através da interação com a sociedade (exterior),e não se reconhecendo neste processo isso vai gerando conflitos para o indivíduo, em seu interior buscando um conceito de identidade que englobe essas duas relações sem aspectos contrativas. Essas interações entre essas duas categorias são marcadas pelas diferenças e não se tem como evitar conflitos. Muitas vezes, essas diferenças são vistas apenas como problemas e são apresentadas e explicadas ao indivíduo que está buscando formar sua identidade, porém quando há distanciamento entre o eu e os modelos sociais essas diferenças, muitas vezes são sustentadas pela exclusão, conforme Silva (2000). Mas para o autor são nessas diferenças que se encontram a formação da identidade do indivíduo e sua adaptação e correlação entre o seu “eu” (interior) e a sociedade (exterior) que a singularidade de cada um se manifesta. Assim a 16 construção da identidade passa por aspectos sociais e econômicos, políticos etc, por exemplo, de acordo com o contexto histórico em que o indivíduo vai estar inserido, sendo mutável ao longo dos anos em que o mesmo vive. Silva (2000) destaca que a identidade se torna mutável a partir do momento em que o indivíduo começa a construir sua história de vida, todas as experiências do indivíduo. Ou seja, o passado e o presente exercem um importante papel nesses eventos de mutação da identidade. A contestação, muitas vezes no presente, busca justificação no passado para a criação de novas e futuras identidades deste indivíduo. Hall (2001), afirma que a identidade do indivíduo não está “resolvida”, unificada, essa identidade é um processo de construção em diferentes partes: A identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Assim existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre “em processo”, sempre “sendo formada”. Não devemos falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento. (HALL, 2001, p.38) Neste sentindo a identidade é apontada como uma relação intrínseca do ser humano de aspectos internos e externos, originados da nossa relação com a sociedade, bem como, da representação que construímos resultante desta relação. O sujeito não tem apenas uma identidade unificada, mas várias, que se apresentam contraditórias, na compreensão de Hall: A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia. Ao invés disso, na medida em que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cabível de muitas identidades, com cada uma das quais poderíamos nos identificar ao menos temporariamente ou enquanto nos for útil e convier; ou seja, nossa identidade é diluída em diferentes papeis que executamos em diferentes momentos da nossa vida. (HALL, 2001, p.12) Sendo assim, a vivência de uma identidade única e permanente é algo ilusório e idealizado, em cada fase de nossas vidas nos expressamos dentro de um conjunto de papéis que são nossas representações sociais, bem como, vamos deixando para trás aqueles aspectos que não se vinculam aos espaços os quais circulamos. Estamos sempre em busca de uma nova identidade através de novas articulações que vivenciamos em nosso dia a dia, através de novos sujeitos e situações, a qual ele chama de “recomposição da estrutura”. (HALL, 2001). 17 O verdadeiro equilíbrio se encontra na articulação entre o que somos e o reconhecimento disso pelos grupos sociais nos quais estamos inseridos, possibilitando a cada um experimentar um sentimento de inclusão, reconhecimento, inserção, integração elementos extremamente importantes para nossa estrutura emocional. 18 3 A ESCOLA E A FORMAÇÃO DE IDENTIDADE DA CRIANÇA NEGRA 3.1 Historicidades do Processo Educacional do Negro no Brasil Segundo Gonçalves (2000), quando se reporta ao assunto da educação, pode-se fazer um parâmetro da diferença dos negros mais jovens entre 20 e 40 anos e de negros mais idosos de 60 e 80 anos, pertencentes ao século XX, nota-se que há um índice muito grande de analfabestimo. Pesquisas realizadas apontam que se houver uma população de 3 milhões de afrodescendentes, 70% é analfabeto de modo geral, e para as mulheres negras esse índice é maior que 90%. O autor aponta que a situação educacional do negro é precária, pois as inversões das expectativas geracionais apontam que quanto menor a idade, o grau de escolarização é maior. Os níveis de escolarização entre os negros brasileiros pertencentes a diferentes gerações - filhos, pais e avós - é absolutamente diferente um do outro. Então, é possível observar que avôs analfabetos pouco estimularam a escolarização de seus filhos, mas os filhos com grau de estudos menor estimulam suas gerações futuras a terem êxito na escola. Para Gonçalves (2000), a família tem um papel importante no desempenho escolar das crianças e jovens, mas se pode destacar as significativas mudanças que ocorreram para as faixas etárias, em 1990, entre os 20 e 40 anos. Os indivíduos que nasceram nesse período presenciavam expansão das políticas públicas educacionais. A importância das famílias estimulando-os é de fundamental importância, mas é preciso destacar também, o Estado, que trouxe expansão com a escola pública universal e gratuita. Gonçalves (2000) traz uma retrospectiva para encontrar resposta a estas questões relacionadas ao abandono que os negros foram relegados; quem teria ocupado o lugar do negro na educação no período colonial ou até mesmo após a Abolição da Escravatura? Se tratando ainda do século XIX, houve iniciativas voltadas à educação para adultos, criando cursos noturnos, segundo a Lei 7.031 de 6 de setembro de 1878. No ano seguinte ocorreu a mudança na Reforma do Ensino Primário e Secundário proposto por Leôncio Carvalho com o projeto educacional do império, na qual era obrigatório o ensino dos 7 aos 14 anos, e eliminava a proibição de escravos 19 freqüentarem as escolas públicas. Essa lei para algumas províncias de escravos deram certo, pois há registros de que de fato os mesmos freqüentavam a escola. Mas, apesar dessas iniciativas criadas pelos poderes públicos ou particulares, tendo a inclusão dos escravos e dos negros livres em cursos de instrução primária e profissional não foi uma experiência universal. O autor destaca que em uma determinada província existiam certas escolas que não admitiam matricular escravos e nem aceitavam os negros livres e libertos. Os cursos que tinham algum registro de presença dos negros eram aqueles encabeçados por “abolicionistas”, republicanos ou críticos da igreja católica e defensores de instrução para o povo. Vale ressaltar que esses registros sobre a participação do negro não traziam dados concretos para a veracidade das informações quanto a quem era negro ou não. (GONÇALVES, 2000, p.369). Muitos desses cursos continuaram; no entanto, após a abolição, era de se esperar que as barreiras acontecessem por indivíduos com mentalidade escravista, dificultando a frequência de negros nas aulas noturnas, fazendo com que diminuíssem ou desaparecessem. A República não contribuiu para o desenvolvimento e o acesso de todos à educação durante muitas décadas, e após a Lei Áurea agravou a situação, pois os negros foram lançados a própria sorte. Compreende Gonçalves (2000) que a educação não se restringe apenas à escrita ou outras questões escolares, mas também a cidadania, visto que foi através da cidadania que os negros aprenderam a lutar contra o preconceito e a discriminação, reivindicando os seus direitos, visando oportunidades iguais de educação e trabalho. Com a democratização do ensino e tantas mudanças do sistema educacional brasileiro, para Moura apud Munanga (2005), deve-se repensar na atualidade o papel da escola como auxiliador de identidades, pois é um desafio desenvolver na escola novos espaços pedagógicos que visem à valorização das diversas identidades integrantes do povo brasileiro, por meio de métodos pedagógicos que levem o aluno a conhecer sua origem e a reconhecer-se como brasileiro. Muitos brasileiros negam sua identidade, pois a escola não os permitiu conhecer sua história e saberem quem são. Dados do último censo, realizado pelo IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apud Munanga (2005), apontam que 45% da nossa população é mestiça e estão na classe dos menos favorecidos, tendo a escola um papel fundamental em mudar esse mapeamento brasileiro e ser uma referência no crescimento do poder aquisitivo do negro. 20 Uma reflexão feita por Moura (apud MUNANGA, 2005) com base nos materiais recolhidos em algumas comunidades rurais brasileiras como Maranhão; Minas Gerais e Rio Grande do Sul, onde o costume e a cultura afro-brasileira estão sendo utilizadas através da dinâmica de recreação e criação, refletindo as contribuições das festas e comemorações culturais como elo para formação das identidades de cada participante. Nessas comunidades, a experiência da identidade e a cultura são trabalhadas através do contraste. Com o estudo se buscou compreender como as festas dos quilombos contribuem para a formação e a recriação da identidade, como suporte para a transmissão e internalização dos valores, possibilitando observar as diferenças, e a inserção das comunidades rurais negras na sociedade de modo geral. Observou-se que as crianças estão engajadas em todas as tarefas comunitárias, juntamente com os adultos, participando na preparação da festas dos quilombos. Durante este período observam o que é feito ou ajudam efetivamente, para que esse engajamento se torne uma construção do saber da sua identidade cultural, e assimilem as mudanças que as comunidades rurais negras sofrem para se adaptarem ao contexto da sociedade atual. A escola tem como função oportunizar a criança à expansão de suas experiências, proporcionando ao aluno aprofundar o seu processo de aquisição de conhecimentos, não esquecendo, do respeito às questões culturais que cada um traz, a partir da qual se constrói a identidade dos alunos, tendo a atenção necessária no resgate de suas origens e história, respeitando os direitos humanos,e promovendo a convivência com o diferente. Para Munanga (2005) no Brasil a identidade do negro nunca está concluída, pois o mesmo não conhece a formação real de sua história, e com isso não consegue ter elementos suficientes e condições de identificar-se consigo mesmo. O sistema de ensino muitas vezes, não prioriza ao estudante o conhecimento da história real trazendo apenas versões unilaterais abordando a história sob o ponto de vista dos colonizadores e das classes econômicas; Os livros didáticos usados em salas de aula nos dão a percepção que não há um relato quanto aos fatos históricos relevantes do desenvolvimento histórico-cultural do negro. (MUNANGA, 2005, p.23) 21 Ocorre que, mesmo quando um livro apresenta algum tema relacionado a uma passagem que insira algum personagem negro, este mesmo tema aparece de forma sucinta e sem muita explicação, por vezes, trazendo algumas informações não verdadeiras, carregador de esteriótipos e discriminação. Sendo assim, se não houver materiais pedagógicos de qualidade, exemplificando com maior riqueza de detalhes, a história destes personagens, os livros didáticos podem acabar acarretando na criança negra, por exemplo, uma imagem negativa e de inferioridade sobre sua história e de si mesmo refletindo na rejeição em se dizer negro, ou pertencer a este grupo, bem como, uma baixa autoestima. É importante destacar o papel do professor neste processo, que segundo Moura apud Munanga (2005), por muitas vezes, sem se dar conta, o educador acaba por trazer para a sala de aula estereótipos já estabelecidos e convencionados da sociedade. Pois, pelo processo que se tem apresentado nos meios educacionais, não há estratégias adequadas para que o negro possa se aceitar, e isto pode gerar em alguns momentos, uma autorejeição e a rejeição ao outro de sua raça, apontados pela sociedade como “racismo do negro”. Os estereótipos já preestabelecidos, da realidade de uma sociedade repleta de miscigenação, podem conduzir para uma auto-rejeição ou gera a construção de uma baixa autoestima e rejeição ao semelhante da mesma raça. Bem como, podem levar ao indivíduo buscar novos valores tidos como universais, na ilusão de substituir sua imagem por outra válida socialmente. Tentando desta forma, libertar-se da dominação e inferiorização que traz consigo, gerando muitas vezes crise de identidade. Outro aspecto a destacar conforme Munanga apud Moura (2005) e que se pode observar em livros, é que a historicidade do negro relatada apenas o contexto do negro escravo, não resgatando de forma positiva a luta do negro para sua libertação. Desta forma, a didática poderia ser mais enfatizada trazendo para a atualidade, personagens marcantes negros, citando como exemplo Zumbi dos Palmares, os Quilombos, para que as crianças negras conheçam a ação dos negros e onde ela se iniciou, passando hoje pelos diversos movimentos e organizações presentes. 22 Assim, um trabalho didático voltado para a temática do negro poderá diminuir essa invisibilidade e a reduzida apresentação do negro no livro didático, ou ainda desmistificar a construção da ilusão de não existência ou de condição de minoria na sociedade - do negro, mesmo em regiões onde essa raça se constitui maioria. [..]nas muitas ilustrações de grupos e multidões o elemento negro é tratado como minoritário. Por isso, é importante e vale a pena ressaltar que o professor pode estabelecer a comparação entre a ilustração e a realidade do aluno, solicitando que este redesenhe, por exemplo, a ilustração em um livro ou apostila de acordo com a realidade da sala de aula, do pátio da escola, do bairro, da cidade, da rua onde mora, etc.(MOURA, apud MUNANGA,2005, p.79) Identificar e corrigir a ideologia pregada ao longo do tempo é ensinar que a diferença pode ser bela, que a diversidade é enriquecedora e não é sinônimo de desigualdade, é um dos passos para a reconstrução da autoestima, do autoconceito, da cidadania e da abertura para o acolhimento dos valores das diversas culturas presentes na sociedade. A desconstrução da ideologia abre a possibilidade do reconhecimento e aceitação dos valores culturais próprios, bem como a sua aceitação por indivíduos e grupos sociais que pertencem a outras raças/etnias, de forma a facilitar as trocas interculturais na escola e na sociedade. Assim, começa-se a imaginar que desconstruir este estigma da desigualdade atribuído às diferenças se constitui em tarefa de todos e já são numerosos os que contribuem para atingir esse objetivo, como a presença de Movimentos Negros e ONGs, por exemplo. Por isso, a estes pontos históricos e ideológicos é que se tem hoje e ao longo do tempo em nossa sociedade, o expressar a repulsa ao outro que não seja da mesma cor que uma dita maioria da sociedade, por exemplo, e o denominamos de racismo. Isto afeta emocionalmente o discriminado que não pode mudar suas características raciais que a natureza lhe deu, para ser aceito em uma sociedade que tem padrões diferentes da sua imagem exterior, sendo assim: O racismo, não nasceu de uma hora para outra. Ele é fruto de um longo processo de amadurecimento, que objetivou a mão-de-obra barata através da exploração dos povos colonizados. Exploração que gerava riqueza e poder, sem nenhum custo-extra para o branco colonizador e opressor. Aos poucos o racismo foi surgindo e se consolidando, assim como toda cultura popular, por exemplo, sobrevive aos tempos porque ela é transmitida através de gerações, aconteceu e acontece também com o racismo muitas 23 vezes. E sendo o racismo um fenômeno ideológico, ele se consolida através dos preconceitos, discriminações e estereótipos. Desta base ideológica de sobrevivência é que podemos perceber que o racismo tem sobrevivido e foi se fortalecendo através das épocas, alcançando, comunidades, escolas, salas de aula e tantos outros lugares. (MUNANGA, 2005, p.42). Pode-se entender que o racismo é uma estrutura mantida por diferentes sistemas dentro da nossa sociedade, explicitamente ou sutilmente, as mensagens recebidas diariamente são agregadas da desvalorização do negro e de seu papel na sociedade brasileira. Quando ampliamos essas mensagens para o contexto de escola, nos deparamos com uma realidade ainda mais problemática, visto que considera–se também função da escola o estímulo à expressão e ao respeito à diversidade cultural e racial. Bem como, não se pode esquecer do racismo refletido através de ações públicas ou do meio privado e que afetam negativamente o negro, impondo padrões para que o mesmo seja aceito em uma sociedade. O racismo ao negro está intimamente relacionado à sua cor de pele e a seu passado histórico escravista, que passa a mensagem para uma sociedade de ser uma raça inferior ou não apta a certos trabalhos, funções etc. Dentro da contextualização apresentada, essa ideologia presente, é existente por que se pratica no âmbito escolar uma ideologia de inferiorização do negro e que é fortalecida na escola através do livro didático e, muitas vezes, por professores e pela direção escolar, sob a forma de estereótipos e preconceitos. Mesmo que isso ocorra de forma consciente e inconsciente, essa inferiorização se faz presente. Constatar então, que o professor e todo o corpo escolar são figuras importantes na educação do aluno não seria nenhum exagero, mas alguns profissionais da educação ainda não se atentaram a este detalhe, bem como ao importante papel que exercem como grandes mediadores no processo ideológico, reforçando a transmissão destes estereótipos e preconceitos. Existe a necessidade imperativa (se assim podemos chamar) de tornar a escola mais próxima da realidade sócio-cultural e histórica de seus alunos, levando em conta os valores culturais locais numa perspectiva universal; se for realmente o desejo de formar cidadãos capazes de construir a sua própria história, num Brasil plural e verdadeiramente democrático. 24 3.2 Leis e Diretrizes Educacionais No Brasil, está começando um momento histórico, em que as reivindicações voltadas para a questão do negro e seu processo de exclusão na sociedade brasileira, passam a ser pensados também pelo Estado em ações no Sistema Educacional: O Ministério da Educação, comprometido com a pauta de políticas afirmativas do governo federal, vem ao longo do tempo instituindo um conjunto de medidas e ações com o objetivo de corrigir injustiças, eliminar discriminações e promover a inclusão social e a cidadania para todos no sistema educacional brasileiro. (HADDAD, 2005, p.5). O que se pode perceber é que ao longo da história, o Brasil estabeleceu um modelo de desenvolvimento excludente, impedindo que milhões de brasileiros tivessem acesso à escola ou nela permanecessem. (HADDAD, 2005). De acordo com Ribeiro (2005), o que se busca relatar com essa exclusão aberta e tão perceptível aos nossos olhos, é que o Brasil, desde os tempos de Colônia, passando pelo período de Império e hoje República, teve historicamente, no aspecto legal, uma postura ativa e permissiva diante da discriminação e do racismo que atinge a população afrodescendente brasileira até hoje. Ao longo desses processos de transformações do país, muitos decretos foram criados, e para Ribeiro (2005) serviram para uma busca em entender, analisar e apontar as desigualdades na educação entre brancos e negros, constatando que há sim, a necessidade de políticas especificas que revertam o quadro atual, como no documento a seguir: “o Decreto nº 1.331, de 17 de Fevereiro de 1854, estabelecia que nas escolas públicas do país não fossem admitidos escravos, e a previsão de instrução para adultos negros dependia da disponibilidade de professores”. (RIBEIRO, 2005, p.7) Historicamente identificamos estratégias que inviabilizaram a escolarização do negro no Brasil, atualmente o Estado se redime criando medidas que ajudam nesta inserção. Nesse contexto de desigualdade, é sancionada pelo governo federal em Março de 2003, a lei nº 10.639/03, que altera a LDB (Lei Diretrizes e Bases) e estabelece as Diretrizes Curriculares para implementação da mesma. Assim para Ribeiro (2005), o preconceito, a exclusão e a diferença no 25 tratamento aos afrodescendentes começam a ganhar os bancos escolares e também os livros, com objetivo de desconstruir a imagem que se tem do negro. Essa lei de nº 10.639 institui a obrigatoriedade do ensino da História da África e dos africanos no currículo escolar de ensino fundamental e médio. Ribeiro (2005) diz que essa decisão resgata historicamente a contribuição dos negros na construção e formação da sociedade brasileira, o que lhe dá uma valoração diferente da que possui atualmente.. Mesmo com a criação dessa lei, dando a diretriz por onde se deveria caminhar para a diminuição da falta de informação, bem como, a exclusão do negro em nossa sociedade, foi criada em 21 de Março de 2003, a Seppir (Secretária Especial de Políticas e Promoção da Igualdade Racial), que de acordo com Ribeiro (2005), instituiu a Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Para Ribeiro (2005), desta forma, recoloca-se a questão racial na agenda nacional, ressaltando a importância de serem adotadas políticas públicas afirmativas de forma democrática, descentralizada e transversal. Tendo como principal objetivo promover alteração positiva na realidade vivenciada pela população negra e trilhar rumo a uma sociedade democrática, justa e igualitária. Tentando reverter os perversos efeitos de séculos de preconceito, discriminação e racismo. Todos esses dispositivos legais; bem como, reivindicações e propostas do Movimento Negro ao longo do século XX, segundo CNE (Conselho Nacional de Educação), apontam para a necessidade de diretrizes que orientem a formulação de projetos empenhados na valorização da história e cultura dos afro-brasileiros e dos africanos, assim como comprometidos com a educação de relações étnico-raciais positivas, e que tais conteúdos devem conduzir políticas e ações afirmativas, tais como: A CNE (2005) (Conselho Nacional de Educação), o que se deve salientar é que tais políticas têm como meta o direito dos negros se reconhecerem na cultura nacional, expressarem visões de mundo próprias a sua realidade e seu passado. Manifestando com autonomia, individual e coletiva, seus pensamentos. Que tais políticas têm como meta o direito dos negros, assim como de todos os cidadãos brasileiros, cursarem cada um dos níveis de ensino, em escolas devidamente instaladas e equipadas, orientados por professores qualificados para o ensino das diferentes áreas de conhecimento. (DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO, 2005, p.10) Pensando na capacitação de profissionais para que cada vez mais qualificados para efetivamente terem ações pedagógicas coerentes com o 26 compromisso de resgate da subjetividade do ser humano, o conselho nacional de educação aponta: Segundo a CNE (2005), teremos profissionais com formação para lidar com as tensas relações produzidas pelo racismo e discriminações, sensíveis e capazes de conduzir a reeducação das relações entre diferentes grupos étnico-raciais, ou seja, entre descendentes de africanos, europeus, asiáticos e povos indígenas. Essas condições materiais das escolas e de formação dos professores se tornam indispensáveis para que haja uma educação de qualidade, para todos, assim como o reconhecimento e valorização da história, cultura e identidade dos descendentes africanos. (DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO, 2005, p.13). O principal instrumento para isso é o encaminhamento de diretrizes que nortearão a implementação de ações afirmativas no âmbito da administração pública federal. Desta forma, segundo Ribeiro (2005), é necessário buscar articulações com estados, municípios, ONGS (Organizações Não-Governamentais) e iniciativa privada, para que haja da sociedade num todo em conflitos. Ribeiro (2005) ainda ressalta que a Seppir (Secretária Especial de Políticas e Promoção da Igualdade Racial) no cumprimento de sua missão, tem parceria com o MEC (Ministério da Educação) por meio das suas secretarias e órgãos que estão imbuídos do mesmo espírito, ou seja, construir as condições reais para as mudanças necessárias do sistema educacional. Assim, essas parcerias se tornam parte de um desafio, para que de uma vez por todo o combate ao racismo e a promoção da igualdade, de oportunidades entre os diferentes grupos étnicos que compõem a rica nação brasileira, possam se consolidar. A mudança de concepção do negro na sociedade brasileira é um resultante, processual de vários mecanismos, tais como: agentes, instituições, mídia, para que se possa realmente inverter os discursos e tratar com igualdade o diferente. Resgatar a identidade através de ações educativas dirigidas, como por exemplo, um trabalho com áreas específicas do conhecimento: “... o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, evitando-se distorções, envolverá articulação entre passado, presente e futuro no âmbito de experiência, construções e pensamentos produzidos em diferentes circunstâncias realidades do povo negro. É um meio privilegiado para a educação das relações étnico-raciais e tem por objetivos o reconhecimento e valorização da identidade, história e cultura afro-brasileiras, garantia de seus direitos de cidadãos, reconhecimento e igual valorização das raízes africanas da nação brasileira, ao lado das indígenas, européias e asiáticas. Ainda assim, ações educativas de combate ao racismo e as discriminações, passam também por alguns pontos e princípios, que serve de conexão para objetivos e estratégias traçadas para melhor compreensão e inserção do negro em nossa sociedade de forma igualitária (DIRETRIZES NACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO, 2005, p. 20). 27 Ribeiro (2005, p.27) indica alguns pontos para a elaboração de novas didáticas para a sala de aula: a) A conexão dos objetivos, estratégias de ensino e atividades com a experiência de vida dos alunos e professores, valorizando aprendizagens vinculadas às suas relações com pessoas negras, brancas, mestiças, assim como as vinculadas às relações entre negros, indígenas e brancas no conjunto da sociedade; b) Valorização da oralidade, da corporeidade e da arte, por exemplo, como a dança, marcas da cultura de raiz africana, ao lado da escrita e da leitura; c) O cuidado para que se dê um sentido construtivo à participação dos diferentes grupos sociais, étnico-raciais na construção da nação brasileira, aos elos culturais e históricos entre diferentes grupos étnico-raciais, às alianças sociais e, d) a participação de grupos do Movimento Negro, e de grupos culturais negros, bem como da comunidade em que se insere a escola, sob a coordenação dos professores, na elaboração de projetos político-pedagógicos que contemplem a diversidade étnico-racial. Este desenvolvimento pode e deve se estender até bairros, localidades, municípios, regiões (exemplos: associações negras recreativas, culturais, educativas, artísticas, de assistência, de pesquisa, irmandades religiosas, grupos do Movimento Negro). Assim, será dado melhor destaque aos acontecimentos e realizações próprias de cada região e localidade. (CNE, 2004, p. 21). Ainda de acordo com o Conselho Nacional de Educação (CNE, 2004), datas significativas para cada região e localidade serão devidamente assinaladas. O dia 13 de maio, Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo, será um dia também para se refletir sobre a historicidade do negro e os momentos de lutas. Trabalhar numa perspectiva de recolocação do negro na cultura brasileira implica na potencialização de lutas específicas dos movimentos que levantam essas “bandeiras”, o dia 20 de Novembro, segundo o CNE (2004), será celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra e ainda, a aprovação do dia 21 de março, Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação. Para as datas significativas, ainda vale ressaltar entre outras datas de significado histórico e político, ainda neste âmbito de ensino da cultura afrobrasileira, conciliando passado, presente e futuro. 28 Estas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, estão ligadas com a Seppir (2003) (Secretária Especial de Políticas e Promoção da Igualdade Racial), que pertence ao Ministério da Educação e tem como função promover a alteração positiva na realidade vivenciada pela população negra e trilhar rumo a uma sociedade democrática, justa e igualitária, revertendo os perversos efeitos de séculos de preconceito, discriminação e racismo. Os órgãos normativos como a Seppir, CNE e a Lei de Diretrizes Curriculares têm a tarefa de adequar o proposto nos pareceres à realidade dos sistemas de ensino, e a partir das competências dos órgãos executores, administrações de cada ensino das escolas, definirem estratégias que, quando postas em ação, viabilizarão o cumprimento efetivo da Lei de Diretrizes e Bases que estabelece a formação básica comum, como: O respeito aos valores culturais, como princípios constitucionais da educação tanto quanto da dignidade da pessoa humana (inciso III do art.1º), garantindo-se a promoção do bem de todos, sem preconceitos (inciso IV do art.3º), a prevalência dos direitos humanos (inciso II do art.4º) e repúdio ao racismo (inciso VIII do art.4º).Cumprir a lei é, pois responsabilidade de todos e não apenas do professor em sala de aula ou de parte da sociedade. Exige-se, assim, um comprometimento solidário dos vários elos do sistema de ensino brasileiro, tendo-se como ponto de partida o presente parecer, que junto com outras diretrizes e pareceres e resoluções, possuem o papel articulador e coordenador da organização da educação nacional. (DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO, 2005, p. 26). Pressupõe-se que as medidas e políticas afirmativas quando estruturadas e definidas como lei, possuem uma “garantia” ainda que pequena de aplicabilidade no contexto escolar. Essas medidas legislativas aparecem com certo avanço no sistema educacional, em pensar na temática do Negro, bem como, indica uma nova relação com a sociedade do negro, através da intervenção do Estado. 29 4 AS CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA A psicologia contemporânea tem-se caracterizado com um enfoque mais voltado para as demandas sociais, e de acordo com Balbino (2008) a atuação competente e tendências inovadoras têm surgido em todas as áreas da psicologia. Segundo o autor, dados obtidos em pesquisas, conferências e congressos do Conselho Federal de Psicologia apontam para essa necessidade, havendo inclusive certa homogeneidade de propostas entre os profissionais das diferentes áreas. Isto se traduz em formação básica generalista sólida, além da formação tecnicista tão vigente ainda hoje nos cursos, e da ética comprometida com os problemas sociais. Verifica-se uma grande quantidade de trabalhos e pesquisas que se propõem a compreender, enumerar e discutir os problemas da psicologia e da formação dos psicólogos. Com base nessas pesquisas as análises e discussões sobre a psicologia, vislumbram mudanças concretas de ação, que constituem um passo além das críticas e denúncias, na busca de um novo fazer. 4.1 O papel da Psicologia Escolar na Sociedade Atual Para Balbino (2008), o conhecimento produzido na psicologia freqüentemente é centrado muito no aspecto individual, excluindo uma análise mais aprofundada dos aspectos socioeconômicos e políticos, e contribuindo para a falta de contextualização do saber psicológico aos longos dos anos. Esse mesmo tipo de orientação e análise também era adotado nas orientações teórico-práticas na área de psicologia escolar. Por isso, segundo Balbino (2008), contribuir para um ajustamento global da criança, procurando encontrar soluções adequadas para as diversas situações ou dificuldades apresentadas pelos alunos através do diagnóstico, orientação e encaminhamento dos casos, além do estudo sistemático de todos os alunos do primeiro e últimos anos escolares. De acordo com o autor o psicólogo escolar não deve se acomodar ao “psicologismo”, tentando lidar com o aluno apenas na dinâmica intrapsíquica, mas considerando a sua realidade histórica e social. Por isso, para superar a atuação 30 individualista, principalmente no que diz respeito à solução de casos de “alunos problemas”, o autor sugere um trabalho preventivo com pais e professores. Ao analisar as relações entre sociedade, educação e psicologia escolar, é interessante criar a possibilidade de aprofundar a leitura crítica em relação aos conhecimentos, repassados nesta área, e ao papel assumido pelo psicólogo escolar na sociedade. Avaliando principalmente a formação dos psicólogos, privilegiando a formação em psicologia clínica em seu sentido mais restrito em detrimento, muitas vezes, as outras áreas. Balbino (2008) O autor ressalta as práticas voltadas para o diagnóstico e o tratamento de distúrbios da personalidade; bem como, salienta que os cursos não têm dedicado a devida atenção à formação do psicólogo de modo a motivá-lo e prepará-lo para o exercício de uma função profilática e libertadora, juntos as camadas oprimidas da população, na qual posso fazer psicologia sem psicologizar e fazer ciência sem cientificar. No entanto, apesar de tentar redefinir seu papel social e priorizar a psicologia escolar nos cursos, percebe-se, ainda hoje, que o “clinicismo” é destaque na formação e na prática psicológica em vários cursos. Muitas vezes na ação escolar, segundo afirma Almeida (2006), a psicologia reforça a culpabilização que recai sobre o aluno e isenta os fatores intraescolares e as questões sociais da promoção do fracasso escolar, através da psicologia escolar. Essas críticas revelam-se muito pertinentes para a prática do psicólogo escolar, pois tendo sua atuação diretamente voltada para a escola esse profissional exerce grande influência nas concepções dos profissionais da Educação. A Psicologia aplicada à educação é propulsora de grandes mudanças na escola, segundo Almeida (2006), no entanto alvo de poucos investimentos nos cursos de formação de psicólogo. A disciplina Psicologia Escolar e Problemas de Aprendizagem, em muitos centros de formação é o único contato com essa área que o estudante tem, Almeida (2006) afirma que: “... o curso deve preparar o profissional dando-lhe instrumentos para resolvê-los, mas com concepções que excluem a idéia de que é na interação com o meio e na apropriação dos símbolos e instrumentos já desenvolvidos que se constrói o ser humano”. (ALMEIDA, 2006, p.26). 31 Ainda assim, o modelo de atuação pautado em diagnóstico, vem recebendo muitas críticas. Sobretudo por aqueles que afirmam ser esse tipo de atendimento uma transposição acrítica dos modelos da Psicologia Clínica para a Educação, porém, os profissionais querendo superar o modelo clínico, se distanciam de uma atitude clínica, o que, sem dúvida contribuiu para o agravamento da crise de identidade do psicólogo escolar. Para Almeida (1999), os posicionamentos críticos parecem não ter oferecido modelos teóricos, que pudessem subsidiar outras práticas profissionais dos psicólogos na escola, e as análises psicológicas passaram a ser vistas como reacionárias. Nesta nova configuração do papel do psicólogo escolar, uma nova identidade busca ser delineada, uma ação que resgate o cuidado singular do indivíduo na escola; porém, que seja ampliado para contextualizações dos temas sociais que permeiam este ambiente, transitar entre ações que se apóiam na perspectiva clínica e inserir na escola análise das produções da psicologia social, talvez isso se apresente como o maior desafio do psicólogo escolar, discutir a formação do homem seu psiquismo e sua relação e inserção no meio social Segundo Lane e Sawaia (1995), entender o porquê deste processo sóciohistórico é um desafio das ciências do homem. Sendo assim, a Psicologia Social, traz uma grande contribuição nas suas produções, compreendendo por que o homem, que é um ser de relações, que sabe que sem o outro não há humanidade, e mesmo assim vive em constante conflito interpessoal Lane e Sawaia (1995) argumentam que são inúmeros os estudos que apontam para a natureza social do homem, devendo ser dividido com o meio o processo de construção de cada um, correspondentes a elementos particularizados e coletivizados. Desvelar os vários níveis de opressão e exclusão seja em que âmbito for (escolar, família, em sociedade), no qual o indivíduo está sujeito, e como ele resiste e agüenta submeter-se ás certas condições humilhantes. é preciso pesquisar, para conhecer a maneira como esse processo se objetiva no cotidiano deste indivíduo e como ele vivencia este momento de sua vida, buscando onde a motivação, emoção, pensamento, sonho, desejo, fantasia, representações nestes diferentes agentes sociais.(LANE E SAWAIA, 1995,p.165). Mas, para que todo esses aspectos intrínseco a formação do indivíduo e presente também na escola possam ser reconhecidos de forma coerente o Psicólogo Escolar deve assumir um papel estratégico, percebendo todas as nuances 32 que permeiam as relações, os discursos, as práticas na escola, bem como, contribuir com sua atuação para a eficiência deste processo. Utilizando-se dos conhecimentos da Psicologia do Desenvolvimento, Psicologia da Aprendizagem, Psicologia da Educação e da Psicologia Escolar. Nos estudos para a elaboração dos conteúdos básicos de cada série...(COSTA, 2006, p. 23). Para o autor essa atuação pode estar presente também nos currículos escolares, no planejamento e execução das Semanas de Planejamento, Cursos de Aperfeiçoamento e Atualização dos Profissionais. Em reuniões deve participar com propostas concretas e bem elaboradas para que toda a equipe técnico-pedagógica atinja seus objetivos específicos e gerais. Segundo Costa (2006, p. 36) diretamente: para uma atuação direta deve planejar ações que objetivem assessorar o corpo docente, auxiliando-o na resolução de problemas pedagógicos, principalmente naquilo que interfere ou prejudica o processo de transmissão e assimilação do conhecimento. Já de uma forma indireta, lembra que: Para uma atuação indireta deve inteirar-se do planejamento elaborado pelo Supervisor Escolar no que diz respeito às ações que este profissional desenvolve juntos aos professores e, procurando perceber como os diversos setores da escola concebem o docente, ou seja, que importância lhe é atribuída. (COSTA, 2006, p.38). O autor ressalta como meta do ensino a transformação global do educando para que este atinja o desenvolvimento satisfatório das suas potencialidades. Torna-se então, imprescindível que o Psicólogo Escolar possua um profundo conhecimento da vida escolar, do processo educativo e das dificuldades que os agentes, principalmente o professor enfrenta, fornecendo subsidio teórico e vivencial para esta superação. Todo elemento, em uma comunidade humana, tem uma responsabilidade em educação e por isso cabe ao Psicólogo Escolar a ação de mediador, bem como, promovedor de esclarecimento e reflexão acerca do papel de cada um no grupo educacional. O campo de intervenção do psicólogo escolar é bastante amplo e complexo. Balbino (2008) entende que é necessário repensar o “mito” da psicologia clínica nas escolas, muitas vezes ainda vista como “solucionadora” de problemas. Essa prática, além de apresentar-se como reducionista e paliativa, de certa forma impede também, o florescimento de intervenções mais maduras e profundas. 33 Ressalta-se a importância do compromisso de um “conhecimento” e “fazer” psicológicos na escola, atrelados à transformação social da sociedade brasileira. Para Balbino (2008, p.27), o psicólogo é visto como: “Agente social ativo, discutindo e redefinindo seu papel profissional na busca de uma maior contribuição na solução dos inúmeros problemas da educação no Brasil.” Esses problemas citados pelo autor são: alto índice de analfabetismo, evasão e reprovação, inadequação do ensino, desqualificação do professor, violência nas escolas, drogas, prostituição infantil, gravidez precoce, prevenção e DSTs, etc. 4.2 O Psicólogo Escolar e as Temáticas Voltadas para o Negro Dentro do conjunto temático apresentados pela psicologia, verifica-se através das problematizações que a Psicologia Brasileira tem conferido pouca atenção sobre a questão da diversidade étnica, destacamos aqui o trabalho de Ferreira (2004) que faz um levantamento com quase 5 mil artigos, de periódicos e teses da Psicologia brasileira; ainda assim há somente 11 que tratam de alguma forma de preconceito racial e de elementos vinculados à questão étnica afrobrasileira. Segundo Ferreira (2004), a Psicologia não vem tratando do tema, pois se percebe que dos três eixos raciais principais que formaram a nação brasileira, o indígena e o africano permanecem intactos de serem objetos de investigação e exploração por parte dos psicólogos. Esconder o tema racismo e não reconhecê-lo, faz parte de um contexto para manutenção da discriminação racial brasileira. Na realidade no Brasil, o racismo se estrutura a partir do não conhecimento do problema. Assim, dizem que o racismo brasileiro é o que denota uma perversidade maior, pois temos o fruto de uma ideologia social, no mito de uma democracia racial. Desta forma, pode-se inferir que a Psicologia brasileira de certa forma, se revela cúmplice deste mito. Para Vinicius (2002), essa omissão traz consigo prejuízos para os indivíduos, que sofrem a discriminação social, e para a própria Psicologia. A primeira questão a ser levantada é que a Psicologia não reconhecendo o problema da discriminação racial, deixa de cooperar para esclarecer uma experiência social extremamente relevante, que é a desqualificação que o indivíduo recebe socialmente. 34 Essa relação gera uma série de questões de identidade nas quais esse indivíduo não pode, com conforto e com tranqüilidade, reconhecer a si próprio, ou ele se reconhece como algo negativo e desvalorizado. Outro aspecto é que além deste fato de reconhecimento negativista, a Psicologia não tem contribuído para conhecer mais a própria construção subjetiva da negritude e deixa de contribuir para evitar, ou para diminuir, os efeitos devastadores da discriminação (VINICIUS, 2002). Na verdade, o que se percebe segundo Crochík (1997), nessa construção e mudança diária social, é o preconceito de marca, que é o preconceito em relação à aparência. Por meio deste preconceito, é muito difícil as pessoas enxergarem o negro de outra forma. Ele é sempre visto de forma inferiorizada, se comparado ao branco. Foi a partir dos anos 20 que o preconceito passou a ser estudado e trabalhado como “atitude psicológica”. Até então, era compreendido como uma teoria. Um exemplo disto, é que os negros eram tidos como inferiores aos brancos, e os teóricos buscavam justificar e entender esse fato. No entanto, com o avanço dos movimentos raciais e das lutas por direitos civis nos EUA, esse direcionamento foi mudando e os estudiosos então, mudaram o enfoque para tentar explicar “o que leva algumas pessoas a supor que são superiores as outras”. Isto talvez sirva para justificar a desigualdade racial existente ou a pretensão de amenizá-la de alguma forma, pois a discriminação claramente está inserida no preconceito. Quando a discriminação não ocorre, o preconceito pode estar embutido, por exemplo, sobre alguém, através de sua aparência, aí se tem de lidar com ele antes que se torne declarado e manifestado. Ao se tratar apenas da discriminação e não o preconceito deixa-se de lado uma tendência que pode explodir em outro momento. Segundo Silveira (2007), é de fundamental importância o conhecimento e compreensão sobre os Direitos Humanos nas Políticas Públicas, pois é através destes reflexos que são descritas ações e estratégias para conquistas desses direitos, para combater qualquer tipo de desigualdade e garantir às pessoas uma sociedade, na qual todos tenham uma vida digna. Sendo assim, existem dois elementos que fundamentais dos Direitos Humanos: Igualdade: os direitos humanos são intitulados por todos os indivíduos pelo mero fato de serem Seres Humanos; e Dignidade esta concepção permite que junto ao conceito de igualdade haja o reconhecimento da diferença, tais como aquelas relacionadas ao gênero, á raça, á idade, etc., mas a 35 igualdade de dignidade concede a qualquer ser humano o caráter de fim em si mesmo e não de mero meio para outros fins. (SILVEIRA, 2007, p.29). Os Direitos Humanos são valores construídos pela humanidade, e visam ser trabalhados constantemente na cultura e nos costumes das diversas sociedades que compõem o nosso planeta. Cabe, então à Psicologia enquanto ciência e profissão se comprometer com essa construção, pois qualquer tipo de prática que não discuta a dignidade e ética do ser humano deve ser repudiada e desconstruída. A Psicologia tem grandes contribuições e um papel primordial de ajuda aos indivíduos e aos grupos sociais na superação e construção das relações humanas. Silveira (2007) cita outro conceito para ser discutido pela Psicologia que é o de exclusão e inclusão, agregando a partir destes elementos, outros temas como: opressão, dominação, exploração, subordinação, A inclusão vem sendo utilizada no processo pelo qual as pessoas que necessitam de condições especiais, possam gozar de direitos iguais aos demais cidadãos ou exercerem a sua cidadania. No vasto campo teórico da Psicologia, cabe a ela diagnosticar e tratar à diversidade, construindo meios de exercício à cidadania, juntamente com as Políticas Públicas, utilizando de mecanismos de prevenção, reabilitação, equiparação de oportunidades para a promoção do respeito e convivência à diversidade independente de qual seja a característica do indivíduo, seja ela de ordem física, racial, cognitiva ou cultural, (SILVEIRA, 2007). 36 5 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS Durante levantamento de dados relacionados com a temática do trabalho, selecionou-se para este estudo um grupo de periódicos publicados na área de Psicologia. Foram pesquisados 11 periódicos para cada ano, que compuseram o total de 169 obras analisadas, desde 2004. Com este levantamento, no ano de 2004 (tabela 1) das 32 consultas, encontrou-se apenas 1 artigo relacionado ao tema e que corresponde aproximadamente a 9,10% das publicações referentes àquele ano, e nos anos de 2008 e 2009 obteve-se o mesmo resultado (9,10%) dos 11 periódicos consultados respectivamente para cada ano. No ano de 2005 (tabela 2) a porcentagem para os 11 periódicos consultados, ficou em 18,20% ou seja, apenas 2 artigos traziam relação com a temática, isto se faz repetir em 2007 (tabela 4). Já em 2006 (tabela 3), 3 artigos dos 11 periódicos apresentavam alguma menção ao tema, que corresponde a 27,30%, sendo o ano com maior índice de artigos relacionados à pesquisa. As tabelas e o gráfico abaixo mostram como foram distribuídas as quantidades e as porcentagens dos 11 periódicos consultados para cada ano. Tabela 1 – Publicações de Periódicos na Psicologia no ano de 2004 ANO (2004) A B C D E F G H I J L TOTAL QUANTIDADE DE REVISTAS PESQUISADAS TRIMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL QUADRIMESTRAL QUADRIMESTRAL SEMESTRAL QUADRIMESTRAL QUADRIMESTRAL SEMESTRAL 11 REVISTAS QUANTIDADE DE ARTIGO NA TEMÁTICA 1 1 37 Tabela 2 – Publicações de Periódicos na Psicologia no ano de 2005 ANO (2005) A B C D E F G H I J L TOTAL QUANTIDADE DE REVISTAS PESQUISADAS TRIMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL QUADRIMESTRAL QUADRIMESTRAL SEMESTRAL QUADRIMESTRAL QUADRIMESTRAL SEMESTRAL 11 REVISTAS QUANTIDADE DE ARTIGO NA TEMÁTICA 1 1 2 Tabela 3 – Publicações de Periódicos na Psicologia no ano de 2006 ANO (2006) A B C D E F G H I J L TOTAL QUANTIDADE DE REVISTAS PESQUISADAS TRIMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL QUADRIMESTRAL QUADRIMESTRAL SEMESTRAL QUADRIMESTRAL QUADRIMESTRAL SEMESTRAL 11 REVISTAS QUANTIDADE DE ARTIGO NA TEMÁTICA 1 1 1 3 38 Tabela 4 – Publicações de Periódicos na Psicologia no ano de 2007 ANO (2007) A B C D E F G H I J L TOTAL QUANTIDADE DE REVISTAS PESQUISADAS TRIMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL QUADRIMESTRAL QUADRIMESTRAL SEMESTRAL QUADRIMESTRAL QUADRIMESTRAL SEMESTRAL 11 REVISTAS QUANTIDADE DE ARTIGO NA TEMÁTICA 1 1 2 Tabela 5 – Publicações de Periódicos na Psicologia no ano de 2008 ANO (2008) A B C D E F G H I J L TOTAL QUANTIDADE DE REVISTAS PESQUISADAS TRIMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL QUADRIMESTRAL QUADRIMESTRAL SEMESTRAL QUADRIMESTRAL QUADRIMESTRAL SEMESTRAL 11 REVISTAS QUANTIDADE DE ARTIGO NA TEMÁTICA 1 1 39 Tabela 6 – Publicações de Periódicos na Psicologia no ano de 2009 ANO (2009) A B C D E F G H I J L TOTAL QUANTIDADE DE REVISTAS PESQUISADAS TRIMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL SEMESTRAL QUADRIMESTRAL QUADRIMESTRAL SEMESTRAL QUADRIMESTRAL QUADRIMESTRAL SEMESTRAL 11 REVISTAS QUANTIDADE DE ARTIGO NA TEMÁTICA 1 1 Tabela 7 – Total de Periódicos Publicados entre os anos de 2004 a 2009 REVISTAS A B C D E F G H I J L TOTAL QUANTIDADE DE EXEMPALRES DE 2004 A 2009 24 12 5 17 9 20 11 20 18 21 12 169 QUANTIDADE DE ARTIGO NA TEMÁTICA 1 1 1 2 2 3 10 40 No Gráfico 1 apresentado abaixo se demonstra a evolução dos 11 periódicos consultados para cada ano conforme as palavras chaves pesquisadas: Identidade, Preconceito, Racismo, Subjetividade, Branqueamento. 30,00% 25,00% 20,00% 15,00% 10,00% 5,00% 0,00% 2004 2005 2006 2007 2008 2009 Gráfico 1 – Evolução dos 11 periódicos consultados para cada ano. Através destes dados, considera-se a baixa produtividade no campo da Psicologia, referente às questões que envolvem o desenvolvimento da identidade da criança negra na sociedade brasileira. O que por sua vez, indica um espaço a ser preenchido pela psicologia em questões sociais que envolvam desconstruir estereótipos que produzem exclusão social. Embora se identifique atualmente na sociedade uma gama infinita de temas sociais, nos quais a psicologia pode adentrar, contribuindo na promoção de alguma espécie de mudança de comportamento e atitude, enfatizamos aqui, referente à realidade pesquisada a urgência pelo menos no âmbito escolar, do psicólogo situar-se com relação à discriminação produzida na escola que afeta diretamente a representação da imagem da criança negra sobre si mesma. Identifica-se também através destas problemáticas que a Psicologia Brasileira tem conferido pouca atenção sobre a temática da diversidade étnica, que 41 segundo Ferreira (2004), a pesquisa e reflexão acerca da temática do negro é irrelevante em comparação com as inúmeras produções na área. Conforme Vinicius (2002) o distanciamento apresentado pela psicologia em discutir as temáticas raciais, gera um duplo prejuízo, para os indivíduos que sofrem a discriminação social e estão sujeitos a um sofrimento psíquico na sua formação de eu; e para a própria Psicologia, que fica alheia ao cotidiano social, não cumprindo com seu papel formativo e transformador. Reconfigurar as relações sociais, capacitar os professores, implantar programas que estimulem a valorização da criança negra, fortalecendo seu sentimento de identidade enquanto pessoa, se apresentam como pontos de pauta de uma psicologia inovadora e contemporânea. De acordo com Balbino (2008), verifica-se atualmente uma quantidade crescente de trabalhos e pesquisas que se propõem a compreender, enumerar e discutir os problemas da psicologia e da formação dos psicólogos. Com base nessas pesquisas as análises e discussões sobre a psicologia, vislumbram mudanças concretas de ação que constituem um passo além das críticas e denúncias, na busca de um novo fazer, visualiza-se uma psicologia mais voltada para questões sociais com estratégias concretas de atuação. 42 6 CONCLUSÃO Durante a realização deste trabalho percebeu-se que as produções temáticas na área de Psicologia quase não abordam sobre a formação da identidade da criança negra, nem mesmo dando ênfase a temas relacionados, tais como a discriminação racial ou o preconceito dentro do âmbito escolar. Outro aspecto relevante observado durante a construção desse trabalho foi à ausência de livros e a falta de autores da área da Psicologia na discussão sobre a temática do negro. No entanto, apesar da falta de autores referentes à temática, destaca-se o trabalho do Psicólogo Ricardo Franklin Ferreira, que em seu livro (Afro descendente – Identidade em Construção), onde este destaca o papel defasado do Psicólogo na questão da problemática do afro-descendente em sua afirmação da identidade de forma positiva. A discussão sobre o racismo, preconceito e inserção da criança negra, começa a acontecer de forma mais sistemáticas através das políticas de leis aprovadas nos últimos anos, como a lei 10.639/03 que começa a inserir livros didáticos capazes de ressaltar a história do negro brasileiro, bem como, sugere trabalhos voltados a todos os alunos para o conhecimento desta etnia. Tais práticas possibilitam, ao contingente de crianças negras que se sentem desqualificadas diante da experiência de um sistema educacional que lhes apresenta uma imagem distorcida sobre si mesmo, através das ações afirmativas, vivenciar uma nova perspectiva da diferença racial, e conquistar seu espaço social, condição esta de todo e qualquer ser humano. Um dos aspectos mais importantes da interferência da escola na formação da identidade da criança negra é a figura do professor, este é elemento chave para que muitos avanços possam ocorrer. Apesar disto, se pode ressaltar a pouca capacitação do meio docente quanto ao tema, bem como a limitação das escolas, que não utilizam novas didáticas para trabalhar a inclusão da cultura afrodescendente e valorização das origens e diferenças. Desta forma, a escola ainda é um espaço no qual existem muitas defasagens, que a impedem de fornecer à criança negra, elementos saudáveis na formação de sua identidade. O psicólogo escolar ainda possui precariedades na execução de suas funções nesta perspectiva, sua ação na escola muitas vezes é diluída em diferentes 43 pontos de atuação, não sendo nem sequer mencionado um trabalho de cunho social que se caracterize pela desconstrução dos estigmas que o negro recebe na escola. Embora com uma ação limitada em vários contextos, a psicologia contemporânea busca cada vez mais estar inserida nos diversos espaços que atua, na garantia e defesa dos direitos do ser humano. Historicamente muitos avanços podem ser apontados como positivos e de crescimento acelerado dentro da sociedade como um todo, o papel e a função do psicólogo sofreu visível mudanças. Embora se discuta o papel da psicologia no tema, corrigir este estigma da desigualdade atribuído às diferenças raciais se constitui em tarefa de todos, e já são numerosos os que contribuem para atingir esse objetivo, como a presença de Movimentos Negros e ONGs, por exemplo. Nesta pesquisa constatou-se que a identidade é uma construção social, estabelecida através da representação social que o meio atribui ao indivíduo,desta forma, quando a criança negra se depara com uma imagem negativa do negro, apresentada pela sociedade em geral e reforçada na mídia e na escola, isso inevitavelmente irá atuar no seu psiquismo, gerando um sentimento de inferioridade e baixa autoestima. A escola por ser um espaço de convívio e aprendizado social deveria estar habilitada e estruturada para receber crianças das mais diversas culturas, constituição física, valores religiosos, etc., e acolhê-las, desenvolvendo em cada competência interpessoal, fundamental para que o indivíduo possa desenvolver-se saudavelmente no meio que está inserido. A conclusão deste trabalho está baseada no sentido de que não somente as políticas sociais, econômicas e de inclusão do negro em alguns processos da iniciativa privada ou pública vão solucionar o problema do racismo. Mas, há que se buscar uma interação do saber científico, visando entender as raízes profundas que levam as pessoas a diferenciarem outras pelo seu tom de pele ou por seu passado histórico de marginalização. A realização de pesquisas apontando a realidade do negro em diversos contextos; bem como, problematizando-a de diferentes formas, gera cada vez mais elementos que desmistificam e desmascaram o preconceito racial, além de fornecer dados para planejamentos estratégicos e desenvolvimento de programas. 44 Este estudo conclui a urgência da vinculação dos trabalhos e das reflexões desenvolvidos na psicologia escolar e social, com o intuito de fortalecer aprofundamentos em ações eficazes na desconstrução dos preconceitos a que está submetida à criança negra na escola. 45 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Sandra Francesca Conte de. Psicologia escolar: ética e competência na formação e atuação profissional. Campinas, SP: Alínea, 2003. 194 p. BALBINO, Vivina do Carmo Rios. . 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