Anais do XX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do V Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 22 e 23 de setembro de 2015 CONTINUIDADE OU MUDANÇA A DISTRIBUIÇÃO SETORIAL E OCUPACIONAL DA MULHER NO MERCADO DE TRABALHO BRASILEIRO Marcela Zuchetto Massinatore Faculdade de Ciências Econômicas Centro de Economia e Administração [email protected] Resumo: Nesta pesquisa de IC foi estudada a distribuição setorial e ocupacional da mulher no mercado de trabalho brasileiro. Com a revisão da literatura e a análise de microdados dos Censos Demográficos de 2000 e 2010, foi possível perceber que houve avanços na participação feminina: houve melhora na ocupação feminina, na segregação ocupacional e setorial, além de menores diferenças nas remunerações quando comparado os sexos. Esses resultados foram obtidos através da análise dos três estados brasileiros que possuíam as maiores taxas de ocupação feminina no ano de 2010: Goiás, São Paulo e Santa Catarina. As variáveis descritivas estudadas apontaram que os três estados possuem mais semelhanças do que diferenças, aproximando as características econômicas da região centro-sul do país. Palavras-chave: Mercado de trabalho, discriminação de gênero, educação. Área do Conhecimento: Ciências sociais aplicadas – Ciências econômicas – CNPq. 1. INTRODUÇÃO Essa pesquisa de iniciação cientifica teve como objetivo geral estudar o papel da mulher no mercado de trabalho, através da revisão da literatura sobre o tema e análise estatística dos microdados do Censo Demográfico de 2000 e 2010 para avaliar, especialmente, as mudanças da participação da mulher trabalhadora em termos de segregação ocupacional e setorial. Após ter continuado a revisão da literatura, foram pesquisados os dados do INEP para poder acompanhar a evolução da formação escolar, o ensino médio em particular, dos jovens brasileiros e poder inferir algo sobre a futura inserção no mercado de trabalho. Enfim, usando os microdados do Censo Demográfico de 2000 e 2010 foi possível acompanhar a evolução do mercado de trabalho e do índice de dissimilaridade de Duncan. Bruna A. Branchi Desigualdades socioeconômicas e políticas públicas Centro de Economia e Administração [email protected] 2. REVISÃO DA LITERATURA Em pleno século XXI, homens e mulheres ainda se encontram em patamares diferentes quando se trata do mercado de trabalho. A concentração de trabalhadores em determinados setores ou ocupações evidencia a permanente desigualdade entre os sexos em determinadas áreas de trabalho. A frente das mudanças que as mulheres trabalhadoras mostram, em termos de perfil de idade, escolaridade, taxa de atividade, há ainda evidência da segmentação do mercado de trabalho, com uma divisão em mercado de trabalho primário e secundário ou, setores “tipicamente” masculinos e “tipicamente” femininos,respectivamente. As ocupações do mercado de trabalho “primário” são as que apresentam período integral da jornada de trabalho, estabilidade no emprego, alto nível de remuneração e qualificação [1]. Encontram-se aqui as ocupações nas áreas de gerência, supervisão administrativa, engenharia e planejamento financeiro de grandes empresas, ou seja, ocupações reconhecidas como “tipicamente” masculinas, onde as mulheres têm maior dificuldade de se inserir. Essa situação é representada pela metáfora conhecida como “glass ceiling” que fala sobre as barreiras invisíveis existentes, para as mulheres, que dificultam seus “avanços” na carreira em setores mais prestigiados, no qual os homens tendem a ocupar posições com maior status, responsabilidade e melhores remunerações. Contudo, também existem as ocupações menos prestigiadas no mercado de trabalho e que, infelizmente, é onde se concentram a maior parte das trabalhadoras, ou seja, o setor secundário é representado por ocupações “tipicamente” femininas. Nesse caso, encontram-se as menores remunerações, os empregos mais instáveis, alta rotatividade e baixa qualificação [2]. Em geral quando se fala de segmentação do mercado de trabalho são considerado dois tipos de segregação: setorial ou ocupacional. A primeira se refere aos setores de atividade propriamente ditos, onde é Anais do XX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do V Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 22 e 23 de setembro de 2015 possível observar uma tendência das mulheres se concentrarem em setores específicos – como o de educação e saúde - que, devido a isso, são conhecidos como “tipicamente” femininos. Já a segregação ocupacional faz referência aos cargos, ou seja, as posições ocupadas pelos trabalhadores, onde as mulheres ainda são minoria em posições consideradas prestigiadas, mesmo quando possuem o nível de escolaridade igual ao dos homens [3]. 3. METODOLOGIA Utilizando os dados do Censo Demográfico de 2000 e 2010 do IBGE, foi estudado o mercado de trabalho brasileiro em geral e a segregação setorial e ocupacional em particular. Como indicador de segregação foi usado o Índice de Dissimilaridade de Duncan e Duncan. Para a análise final da pesquisa, foram selecionados três estados brasileiros: Goiás, Santa Catarina e São Paulo. 4. O MERCADO DE TRABALHO NA REGIÃO CENTRO-SUL Na década de 2000 a economia brasileira cresceu a uma taxa média anual de 4,3%. O estado de Goiás registrou um crescimento do PIB acima da média (6% ao ano), o estado de São Paulo registrou taxa próxima da média nacional (4,1% ao ano) enquanto Santa Catarina cresceu em média 3,7% ao ano. O mercado de trabalho do estado de Goiás registrou avanços interessantes na ocupação feminina na primeira década de 2000, com um crescimento da taxa de ocupação feminina que alcançou 85,6% em 2010 e um aumento de 10 p.p. na proporção da remuneração feminina com relação à masculina, alcançando 70,2% em 2010. O mercado de trabalho do Estado de São Paulo também foi caracterizado pelo aumento da taxa de ocupação, com a feminina aumentando de 11,5 p.p. na primeira década, alcançado 87% em 2010 e com um aumento relativo da remuneração feminina maior que a masculina permitindo reduzir a distância em 5 p.p., com as mulheres recebendo em média 70% da remuneração masculina em 2010. Entre os três estados aqui analisados, Santa Catarina é aquele que registrou o maior aumento relativo na taxa de ocupação feminina, aumento de 15,5 p.p. ao longo da década que permitiram chegar a 88,7% em 2010. Acompanhando a tendência dos outros estados, aqui também foi possível observar uma redução de quase 7 p.p. no hiato de remuneração en- tre homens e mulheres. Estas últimas recebiam 67,8% da remuneração masculina em 2010. Em relação à segmentação, um dos indicadores mais usados é Índice de Dissimilaridade de Duncan e Duncan [4], o qual compara a proporção de homens e mulheres nos diferentes setores de atividade, ou nas diferentes posições na ocupação, com a proporção entre os dois sexos na força de trabalho. Ele varia entre zero, quando não existe diferença entre a proporção de homens e mulheres nas ocupações, e um quando há segregação total, ou seja, há ocupações só femininas e só masculinas. O seu valor informa a proporção de mulheres que devem mudar de setor, ou de ocupação, para eliminar a diferença em relação à proporção na força de trabalho. Os cálculos feitos para o Brasil mostraram que o mercado de trabalho brasileiro é segmentado. O resultado positivo é que a segregação, tanto setorial quanto ocupacional, diminuiu na primeira década de 2000. No caso das ocupações, concluiu-se que 58,4% e 53,8% das mulheres - nos anos 2000 e 2010, respectivamente - teriam que trocar de posição na ocupação para que a proporção homens/mulheres fosse igual na força de trabalho. Já no caso dos setores de atividade, para que o país tivesse uma igualdade entre os sexos nas diversas áreas de trabalho, trabalhadoras teriam que mudar de seus setores em 51% no ano 2000 e em 46,6% no ano 2010 (Tabelas 4 e 5). Tabela 4: Índice de Dissimilaridade de Duncan e Duncan para ocupação, 2000 e 2010. Estado São Paulo Santa Catarina Goiás Brasil Índice D 2000 0,57 0,59 0,64 0,58 % 57,18 58,62 63,74 58,45 Índice D 2010 0,52 0,50 0,56 0,53 % 52,43 49,99 56,46 52,83 Fonte: IBGE, Censo Demográfico de 2000 e 2010. Elaboração Própria. Tabela 5: Índice de Dissimilaridade de Duncan e Duncan para os setores de atividades, 2000 e 2010. Estado Índice D 2000 São Paulo 0,47 Santa Catarina 0,50 Goiás 0,58 Brasil 0,51 % Índice D 2010 46,77 0,44 50,15 0,43 57,54 0,51 51,35 0,47 % 44,45 42,97 50,62 46,62 Fonte: IBGE, Censo Demográfico de 2000 e 2010. Elaboração Própria. 4. CONCLUSÕES Como conclusão desta pesquisa de IC pode-se afirmar que nos primeiros dez anos do século XXI, década que foi caracterizada por uma evolução do mercado de trabalho brasileiro particularmente favorável ao tra- Anais do XX Encontro de Iniciação Científica – ISSN 1982-0178 Anais do V Encontro de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação – ISSN 2237-0420 22 e 23 de setembro de 2015 balhador, houve uma significativa melhora na ocupação feminina, na segregação ocupacional e setorial, além da redução do hiato de remuneração. Aprofundando a análise a nível estadual e selecionando três UFs – selecionados os três estados com maiores taxas de ocupação feminina - que mostraram diferenças em termos de índice de dissimilaridade, temos que: o estado de São Paulo se destacou tanto pelos menores valores em 2000 quanto pela menor redução dessa taxa; o estado de Santa Catarina passou a ter a menor segregação, setorial e ocupacional, em 2010 graças as maiores reduções registradas na década; e, enfim, o estado de Goiás que partindo com os piores índices de segregação continuou, também, no final da década sem o registro de boas reduções. Cruzando estes resultados com a análise de alguns indicadores de mercado de trabalho, podemos concluir que o Estado de Santa Catarina conseguiu aproveitar melhor das mudanças ocorridas nesta década. Este é o estado com a maior taxa de ocupação feminina e o maior avanço da mesma na década. Em termos de distribuição setorial dos ocupados é a UF com o perfil mais próximo entre homens e mulheres. Além disso, é o estado onde se registra a menor proporção de mulheres ocupadas nos serviços domésticos. O único elemento negativo deste quadro é a remuneração relativa: nesta UF encontramos mulheres que não chegam a receber 68% da remuneração masculina. O estado de São Paulo que, mesmo tendo registrados os menores avanços em termos de redução da segregação setorial e ocupacional, continua com valores próximos ou inferiores aos da média nacional, tendo um aumento médio na taxa de ocupação e nas remunerações relativas. E, finalizando, o estado de Goiás foi aquele que registrou o maior aumento da remuneração relativa das mulheres, que superou 70% da remuneração masculina. Porém, nesta UF, temos a menor taxa de participação feminina. Essa unidade federativa, tanto nos setores de atividade como na ocupação, em ambos os anos, está, no mínimo, 3 pontos percentuais acima do resultado médio do país. Isso nos mostra que, dos estados estudados, esse seria o que teria que fazer a maior mudança, setorial e ocupacional, entre seus trabalhadores para que fosse viável chegar a uma possível igualdade de gêneros no mercado de trabalho e que algumas mudanças interessantes já começaram acontecer. REFERÊNCIAS [1] CACCIAMALI, M. C. C. de. O Mercado de Trabalho: abordagens duais. RAE-Revista de Administração de Empresas, v. 18, n. 1, jan-mar, 1978 [2] BRUSCHINI, M.C.A.; LOMBARDI, M.R. Trabalhadoras brasileiras dos anos 90: mais numerosas, mais velhas e mais instruídas. Mulher e Trabalho, Porto Alegre, v. 2, p. 95-105, 2002. [3] OIT – ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO Global Employment Trends for Women 2012. Geneva: ILO, vol. 1, 2012. [4] DUNCAN, O.D.; DUNCAN, B. A Methodological Analysis of Segregation Index. American Sociological Review, vol. 20, N. 2, 1955.