Departamento de Física Relatório final de Iniciação Científica Estudo da Radiação Natural em Parques do Grande ABCD e Mauá Orientadora: Professora Dra. Marcilei A. Guazzelli da Silveira1 1 Centro Universitário da FEI, São Bernardo do Campo. Aluno: Bruno Silva Bellini Nº de matrícula: 111.07.243-5 Agosto de 2010 SUMÁRIO RESUMO................................................................ 1. OBJETIVO......................................................... 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA.......................... 2.1 A vida e a radiação natural....................... 2.2 Radiações terrestres................................... 3 4 4 4 4 2.2.1 Exposição externa............................ 5 2.3 Formas de interação da radiação com a matéria..................................................................... 2.3.1 Efeito Foto-elétrico.......................... 2.3.2 Efeito Compton................................ 2.3.3 Produção de Pares elétronpósitron.................................................................... 7 7 8 9 2.4 Riscos da radiação gama............................ 10 2.4.1 Danos nas moléculas de DNA......... 11 2.4.1.1 Mutações gênicas................. 11 2.4.1.2 Quebras de moléculas de DNA......................................................................... 12 2.4.1.3 Câncer radioinduzido......... 13 2.4.2 Efeitos da radio exposição de um ser humano.............................................................. 13 2.5 Detectores de Radiação.............................. 14 2.5.1 Detectores Cintiladores................... 14 2.5.2 Resolução em energia...................... 2.5.3 Tempo de coleta............................... 2.5.4 Detectores Semicondutores x Cintiladores............................................................. 3. PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL........... 3.1Coletas de amostras.................................... 3.1.1 Locais de coleta................................ 3.1.1.1 Santo André......................... 3.1.1.2 São Caetano do Sul.............. 3.1.1.3 Diadema................................ 16 16 17 19 19 19 20 21 22 3.1.1.4 Mauá..................................... 23 3.2 Secagem..................................................... 24 3.3 Homogeneização....................................... 3.4 Pesagem..................................................... 3.5 Armazenamento........................................ 3.6 Aquisições de dados.................................. 3.6.1 Sistema de detecção do LAFIR.... 3.7 Energias provenientes dos decaimentos radioativos............................................................... 24 25 25 26 26 27 3.8 Calibração................................................. 27 3.9 Radiações de fundo................................... 28 3.10 Atividades................................................ 28 3.11 Amostras padrão.................................... 28 3.11.1 Cálculo da atividade das amostras padrão..................................................... 30 3.11.2 Áreas das amostras padrão....... 31 3.11.3 Cálculos das atividades das amostras.................................................................. 32 3.12 Cálculo da dose absorvida..................... 32 3.13 Cálculo da dose efetiva........................... 33 3.14 Cálculo da dose biológica equivalente.. 33 3.15 Cálculo das concentrações de radionuclideos......................................................... 34 3.15.1 Cálculo das concentrações utilizando o método matricial............................... 34 4. RESULTADOS................................................... 35 4.1 Atividades.................................................. 35 4.2 Doses absorvidas...................................... 36 4.3 Doses efetivas............................................ 4.4 Concentrações........................................... 5. CONCLUSÕES.................................................. 6. ETAPA FUTURA............................................... BIBLIOGRAFIA.................................................... ANEXO A – Análise granulométrica.................... ANEXO B – Cálculo das concentrações utilizando o método matricial................................ 38 39 41 41 42 43 47 RESUMO Todos os seres vivos do planeta estão expostos diariamente às radiações ionizantes presentes no meio ambiente. Um dos tipos de radiação ionizante é a radiação gama, ou seja, trata-se de uma radiação que tem energia suficiente para ionizar átomos e moléculas. As radiações ionizantes estão presentes no planeta terra desde a sua formação, portanto trata-se de um fenômeno natural. Elementos radioativos podem ser encontrados em tudo o que nos cerca, em gases, na água dos oceanos, em seres vivos, plantas, rochas e solos, e é interessante conhecer sua concentração a fim de detectar possíveis locais onde a atividade seja elevada e talvez prejudicial à saúde da população residente [4]. Este projeto visa o estudo da distribuição dos radionuclídeos 232 40 K, 238 Ue Th em solos de parques e praças na região do Grande ABCD e Mauá, utilizando a técnica de espectroscopia de raios gama. Para este estudo foi utilizado um detector cintilador de NaI(Tl), localizado no Laboratório de Física das Radiações, no Centro Universitário de FEI. 1. OBJETIVO Este projeto visa o estudo da taxa de distribuição da atividade de radiação gama natural proveniente de radionuclídeos presentes nos solos de parques da região metropolitana do Grande ABCD e Mauá, a fim de quantificar a dose efetiva de radiação gama a que a população está sujeita diariamente. Foram estudadas as doses efetivas produzidas particularmente pelo isótopo 238 40 K e pelos elementos das séries do 232 Th e U. Os valores encontrados foram comparados com o valor médio internacional de dose efetiva devido à exposição externa aos raios gama, 0,48 mSv/ano, provenientes dos elementos naturais terrestres [1]. 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA 2.1 A vida e a radiação natural Em todo o planeta, estamos diariamente expostos às radiações ionizantes. Os dois principais contribuintes para esta exposição são: partículas de raios cósmicos de alta energia incidentes na atmosfera terrestre e núcleos radioativos originários da crosta terrestre. A concentração de radionuclídeos1 varia de acordo com a região e com a formação rochosa da mesma. A interferência humana contribui de forma relevante para essa diferença de concentração através de processos minerais e suas utilizações, como por exemplo, a produção de fertilizantes com fosfato e a queima de combustíveis fósseis [1]. Estudos na área de espectrometria de raios gama, especificamente a radiação gama natural, tem como objetivo mapear a concentração de radionuclideos, determinar suas respectivas atividades e as doses absorvidas e efetivas a que a população local fica exposta diariamente. 2.2 Radiações terrestres As principais fontes de radiação terrestre são as radiações gama emitidas pelos núcleos das séries de decaimento do 238 U e do 232Th e do 40K, isso porque a vida média desses elementos é da ordem da idade do planeta Terra. Existem vários outros radionuclideos em nosso planeta, mas suas concentrações são muito baixas, por isso não causam efeitos significantes em nossa existência, alguns exemplos de outros 1 Radionuclideos: Átomos com núcleos instáveis, que emitem radiação. radionuclideos são: 235 87 Rb, 138 La, 147 Sm, 176 Lu e os núcleos da série de decaimento do U [1]. 2.2.1 Exposição externa Neste projeto são estudados solos de parques e praças na região do Grande ABCD e Mauá, e para isso é necessário entender como funciona a exposição externa devido a radiações gama. Os grandes níveis de radiação gama são associados à presença de rochas ígneas, como o granito, e níveis baixos são relacionados a rochas sedimentares [1]. Porém, existem algumas exceções, como alguns xistos e rochas de fosfato, que tem uma concentração relativamente alta de radionuclideos [1]. Para os radionuclideos das cadeias de decaimento do urânio e do tório, não podemos assumir que eles estejam em equilíbrio radioativo2. Os isótopos 238 Ue 234 U estão num equilíbrio próximo, à medida que estão separados apenas por dois radionuclideos de meia-vidas curtas, o 234Th e 234Pa [1]. O processo de decaimento por si só, pode permitir algumas dissociações dos radionuclideos do decaimento provenientes do material da fonte, facilitando por sua vez a transferência para o meio ambiente. Por isso, o 234 U pode existir em menor quantidade no solo, e em maior quantidade em rios, mares e oceanos. O 226 Ra nesta série de decaimento pode ter uma concentração ligeiramente diferente da concentração do 232U, pois a separação pode ocorrer entre seu pai 230Th e o urânio, além do fato de que rádio tem uma grande mobilidade no meio ambiente [1]. Entre os produtos do decaimento do 226 Ra está o gás radônio, que se difunde no solo, reduzindo a taxa de exposição da série do 238U. Nesta série, o radônio presente é o 222 Rn, que tem uma vida média de somente alguns dias, mas que tem dois produtos de decaimento com tempos de meia vida muito elevados, o 210 Pb e o 210 Po, os quais são importantes na avaliação de doses. Na figura 1 podemos visualizar a série de decaimento do 238U [1]. 2 Equilíbrio radioativo: Equilíbrio que se estabelece entre diversos membros de uma família radioativa, no qual cada um deles depende da existência do membro anterior [1]. (α) – Decaimento alfa (β) – Decaimento beta *Todos os tempos indicados são tempos de meia-vida dos átomos. Figura 1 – Esquema representativo da série de decaimento do 238U. Fonte: Autor Para a série de decaimento do radionuclideo 228 232 Th podemos fazer considerações similares, o Ra possui uma meia vida longa o suficiente para permitir alguma separação de seu pai 232 Th. O elemento gasoso da cadeia, o 220 Rn, tem uma meia vida muito curta, assim como seus produtos [1]. A concentração de atividade do 238 Ueo estável 232 40 40 K tem uma ordem de magnitude maior do que o Th. Este elemento por sua vez, decai principalmente por β- para o núcleo Ca, mas também pode decair por captura eletrônica e emissão gama para o núcleo estável 40Ar, sendo muito encontrado em solos e minerais, isso se deve ao fato de sua meia-vida ser da ordem de 109 anos (vide figura 2). (EC) – Captura eletrônica (β-) – Decaimento beta negativo *Todos os tempos indicados são tempos de meia-vida dos átomos. Figura 2 – Esquema representativo do decaimento radioativo do 40K. Fonte: Autor 2.3 Formas de interação da radiação com a matéria Para entender o efeito da radiação gama no nosso dia-a-dia, é preciso primeiro compreender de que forma a radiação interage com a matéria. A radiação gama é dita radiação ionizante, pois tem energia suficiente para retirar um elétron da superfície, transformando o átomo momentaneamente em um íon positivo. Por sua vez, o elétron (íon negativo), impulsionado pela energia cinética adquirida, desloca-se pelo meio. Esta energia é dissipada pela interação do elétron com elétrons e núcleos de outros átomos. O processo é interrompido somente quando o elétron (e suas cargas negativas) acaba sendo capturado por moléculas do meio [2]. A interação entre a radiação eletromagnética e a matéria, portanto da radiação gama, acontece principalmente através de três processos: o efeito foto-elétrico, o efeito Compton e a produção de pares elétron-pósitron [2]. 2.3.1 Efeito Foto-elétrico Um dos três tipos de interação da radiação eletromagnética com a matéria, o efeito foto-elétrico, pode ser descrito da seguinte maneira. Quando um fóton incide na superfície de um material, sua energia é absorvida por um elétron que, por sua vez, é ejetado da superfície com uma energia cinética E. Essa energia é dada pela equação (1). onde h é a constante de Planck, ν é a freqüência do fóton incidente e W é a função trabalho do material. A função trabalho nada mais é a energia que o elétron precisa absorver antes de ser ejetado da superfície do material, caso a energia total do fóton incidente (hν), seja menor do que a função trabalho, o efeito foto-elétrico não ocorre. A figura 3 descreve de forma ilustrativa o efeito foto-elétrico no átomo [2]. Elétron ejetado Fóton incidente (λ) Figura 3 - Efeito foto-elétrico no átomo Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File: Photoelectric_Effect_Schematic-de.svg 2.3.2 Efeito Compton No efeito Compton, a radiação eletromagnética incidente se comporta como uma partícula. O efeito é como uma colisão elástica, onde o fóton se choca com o elétron da superfície e sai numa trajetória diferente, mas com conservação de energia e momentum. A figura 4 ilustra o efeito [2]. Elétron ejetado Fóton incidente (λ) Fóton (λ’) Figura 4 - Espalhamento Compton Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File: Compton_Effect_Schematic-de.svg A energia do fóton após o espalhamento pode ser descrita pela expressão abaixo [2] onde: ν0 é a freqüência do fóton antes do espalhamento, α = hν0/ mec2 e φ é o ângulo de espalhamento. De forma que, a energia do elétron é simplesmente: 3 A equação pode ser simplificada para: Desta forma, quando o ângulo de espalhamento (φ) for de 180°, a energia do fóton é totalmente absorvida pelo elétron, logo, a energia cinética do elétron é máxima. Por sua vez, quando o φ ~ 0°, o fóton praticamente não perde energia, e o elétron é ejetado com velocidade praticamente nula na direção perpendicular à do fóton incidente [2]. 2.3.3 Produção de Pares elétron-pósitron O terceiro modo de interação entre a radiação eletromagnética e a matéria é a produção de pares elétron-pósitron. Esse processo consiste na transformação de um fóton em um elétron e uma nova partícula positiva, ou seja, é a materialização da energia. Como a energia de repouso do elétron é de 0,51 MeV [3], para que haja a produção de pares, o fóton deve ter ao menos energia suficiente para se converter nas massas de dois elétrons, ou seja, 1,02 MeV. Um fóton nunca pode se transformar em um único elétron ou pósitron, pois isso violaria a lei da conservação eletrônica [3]. A produção de pares só ocorre na presença de um campo magnético muito intenso, ou seja, ocorre nas proximidades do núcleo. Devido a este fato, o pósitron criado é repelido com uma energia bem maior do que o elétron atraído. Quando um pósitron encontra um elétron, eles se aniquilam, transformando-se em um fóton com a energia mínima de 1,02 MeV. Na figura 5 podemos visualizar como ocorre a formação de um par elétronpósitron. Figura 5 – Formação de um par elétron-pósitron. Fonte: http://www.cultura.com.br/radiologia/trabalho/noseasiv/noseaiv.htm 2.4 Riscos da radiação gama Quando a radiação gama interage com a matéria (das formas descritas acima), arrancando aleatoriamente um elétron de um átomo do meio, ela rompe, mesmo que momentaneamente, o equilíbrio entre as cargas positivas e negativas do átomo. Para que o equilíbrio seja atingido novamente, é preciso que haja um rearranjo dos elétrons dos outros átomos e moléculas do meio [4]. As propriedades químicas dos elementos vêm da sua configuração eletrônica, quando um átomo perde um elétron, toda sua estrutura pode ser comprometida pelo rearranjo de elétrons, na busca por uma configuração mais estável. Esta busca pode acarretar em uma perda de identidade química da molécula envolvida. Por exemplo, suponhamos uma proteína, que tem uma função específica no corpo humano, se por acaso, essa molécula tiver sua identidade química comprometida pela radiação ionizante, ela pode não ser capaz de realizar sua função [4]. O corpo humano é basicamente formado por átomos de oxigênio, carbono, hidrogênio e nitrogênio, logo, se elétrons forem arrancados da superfície de um átomo no corpo humano, será provavelmente de um desses quatro elementos [4]. Para entender o efeito da perda de identidade química de um átomo ou molécula, é preciso seu papel biológico desempenhado. “Enquanto um organismo dispuser de fontes de água, alimentos diversos, oxigênio e do conjunto de enzimas envolvido com todo o metabolismo celular, qualquer molécula biológica, característica de um determinado organismo, poderá, por ele, ser sintetizada e /ou substituída. O que inclui moléculas orgânicas lesadas por ação das radiações ionizantes” [4]. 2.4.1 Danos nas moléculas de DNA A molécula de DNA é responsável pela codificação da estrutura molecular de todas as enzimas de uma célula do corpo humano, portanto, ela é a molécula chave no diagnóstico de danos biológicos. Quando sofre ação direta ou indireta da radiação ionizante a molécula de DNA pode sofrer dois tipos de danos: mutações gênicas ou quebras [4], como ilustrado na figura 6. Figura 6 - Ação das radiações ionizantes numa molécula de DNA Fonte: NOUAILHETAS, YANNICK, Apostila Educativa – Radiações Ionizantes e a Vida A mutação gênica ocorre quando alterações são introduzidas na molécula de DNA, o que pode resultar em perda ou transformação de informações codificadas na forma de genes, já a quebra da molécula, resulta em perda da integridade física do material genético. A mensagem codificada no DNA pode sofrer, ou não, alterações pela interação com radiações ionizantes [4], como ilustrado na figura 7. Figura 7 - Tipos de danos causados pelas radiações ionizantes numa molécula de DNA Fonte: NOUAILHETAS, YANNICK, Apostila Educativa – Radiações Ionizantes e a Vida 2.4.1.1 Mutações Gênicas Apenas uma parcela das moléculas de DNA codifica genes ativos em um tipo particular de célula, isso devido ao processo de diferenciação celular [4]. Logo, a probabilidade de que a exposição de um humano a radiações ionizantes resulte em alteração na estrutura dos genes funcionais é relativamente pequena. As células que sofrem mutações em genes funcionais apresentam alterações de maior ou menor importância, dependendo principalmente do estágio de desenvolvimento que se encontram no momento da exposição. Por conseqüência, a exposição à radiação ionizante em doses excessivas é mais perigosa para recém-nascidos ou mesmo para gestantes [4]. 2.4.1.2 Quebras de moléculas de DNA Num processo de divisão celular, a célula mãe duplica o material genético e o distribui entre as células filhas, de modo que cada uma delas receba integralmente o código genético contido na célula mãe. Caso haja o comprometimento da célula mãe, pela exposição a radiações ionizantes, ela não consegue completar o processo de divisão, tendo sua morte como conseqüência, no caso de células que não sofrem processo de divisão, elas podem conter inúmeras quebras de moléculas de DNA sem que suas funções sejam prejudicadas [4], como ilustrado na figura 8. Figura 8 – Resumo das conseqüências da ionização de moléculas de DNA Fonte: NOUAILHETAS, YANNICK, Apostila Educativa – Radiações Ionizantes e a Vida 2.4.1.3 Câncer radioinduzido As mutações podem ser consideradas os primeiros passos para o processo de cancerização3 de uma célula, porém mutações radioinduzidas não evoluem obrigatoriamente para o câncer. Entre o momento da mutação e a manifestação de um câncer pode haver um período de tempo grande, como anos ou mesmo décadas. Quanto maior a dose absorvida, maior a probabilidade de desenvolver a doença [4]. 2.4.2 Efeitos da radio exposição de um ser humano Para analisar o efeito da radiação ionizante em um indivíduo é preciso levar em conta a forma de exposição (localizada ou corpo inteiro), a taxa de exposição (crônica ou aguda) e a dose absorvida (alta ou baixa). Qualquer dose absorvida pose levar ao câncer ou matar células do corpo humano, o processo depende da probabilidade de dano, probabilidade de mutações precursoras de câncer e número de células mortas. Quanto maior a taxa de exposição e maior a dose absorvida, maior a probabilidade de ocorrência de problemas [4]. Na tabela 1 podem ser vistos os diversos tipos de efeitos de acordo com as respectivas doses absorvidas. Tabela 1 – Efeitos de uma radioexposição aguda em adulto. FORMA DOSE ABSORVIDA Infra-clínica Inferior a 1 Gy Reações gerais leves 1-2 Gy Hematopoiética leve 2-4 Gy Hematopoiética grave DL50 4-6 Gy 4-4,5 Gy Gastro-intestinal 6-7 Gy Pulmonar 8-9 Gy Cerebral superior a 10 Gy SINTOMATOLOGIA Ausência de sintomatologia na maioria dos indivíduos. Astenia, náuseas, vômitos (3 a 6 hs após a exposição; sedação em 24 hs.) Função medular atingida: linfopenia, leucopenia trombopenia, anemia; recuperação em 6 meses. Função medular gravemente atingida. Morte de 50% dos indivíduos irradiados. Diarréia, vômitos, hemorragias, morte 5 ou 6 dias. Insuficiência respiratória aguda, coma e morte entre 14 e 36 h. Morte em poucas horas por colapso Fonte: NOUAILHETAS, YANNICK, Apostila Educativa – Radiações Ionizantes e a Vida 3 Degenerescência cancerosa. 2.5 Detectores de Radiação Para a coleta de dados de radiação gama emitida foi utilizado o sistema de espectrometria gama do Laboratório de Física das Radiações (LAFIR), no Centro Universitário da FEI, que consiste num detector cintilador de NaI(Tl). Para Efeito de comparação, uma amostra foi analisada utilizando-se o sistema de detecção do Instituto de Física da USP, composto por um detector semicondutor de germânio hiperpuro (HPGe). O detector de HPGe apresenta uma resolução em energia da ordem de 2.5 keV, enquanto que o detector cintilador de NaI(Tl) apresenta uma resolução em energia da ordem de 70 keV para o pico de raios gama emitido no decaimento do isótopo 40K. 2.5.1 Detectores Cintiladores Os detectores cintiladores são geralmente empregados em sistemas de detecção e medidas da energia de radiação, especialmente para raios gama. O processo de detecção nesse tipo de detectores envolve uma série de etapas sucessivas até a obtenção final de um pulso de carga, proporcional à energia depositada pela radiação no detector: a radiação interage com o material, produzindo excitações e ionizações no mesmo que, ao decair, produzem radiação na faixa de freqüências da luz visível. Por sua vez essa radiação é absorvida no foto-cátodo de uma fotomultiplicadora por efeito fotoelétrico, os elétrons livres produzidos são multiplicados na fotomultiplicadora até o momento em que tenham intensidade suficiente para produzir um pulso de centenas de mV de altura [5]. Uma das características mais importantes dos materiais cintiladores é o tempo de decaimento dos estados excitados que produzem a radiação na faixa de freqüências da luz visível, em geral, os materiais inorgânicos usuais, (tabela 2) têm constantes de tempo de decaimento elevadas, de centenas de nano segundos, isso faz com que esse tipo de material não seja aplicado quando é necessária a determinação do instante de detecção da radiação (“timming”). Outra característica importante é a fração de energia depositada no detector que é efetivamente transformada em luz. Os cristais de iodeto de sódio dopados com tálio (NaTl) podem ser facilmente crescidos e usinados em diferentes formas, e tem uma excelente propagação de luz, sua grande desvantagem é que esse material é higroscópico (que tem tendência de absorver água), o que obriga a sua manipulação em locais com atmosfera controlada e utilização de recipientes sempre selados [5]. Tabela 2 – Propriedades de alguns cintiladores inorgânicos (cristais) Material Densidad λ max. Índice Tempo de Tempo de Luminosidade Altura relativa e (g/cm3) (nm) refr. decaim. (μs) subida (μs) (fótons/MeV) NaI(Tl) 3,67 415 1,85 0,23 0,5 38000 1,00 CsI(Tl) 4,51 540 1,80 1,00 4,0 52000 0,49 CsI(Na) 4,51 420 1,84 0,63 4,0 39000 1,11 BGO 7,13 505 2,15 0,30 0,8 8200 0,13 BaF2 lento 4,89 310 1,49 0,62 3,0 10000 0,13 BaF2 rápido 4,89 220 - 0,6 ns - - 0,03 do Pulso Fonte: Zamboni, C. B.: Fundamentos da Física dos Nêutrons, pág. 43 A estrutura básica da fotomultiplicadora, ou no caso, eletromultiplicadora, está ilustrada na figura 9. Os fótons produzidos no cintilador são absorvidos pelo foto-cátodo em geral metálico e extremamente fino. A espessura é determinada pelo compromisso entre a eficiência para absorção dos fótons de luz (espessura maior) e a probabilidade dos elétrons produzidos atravessarem a espessura do material, atingindo a superfície mais interna com energia suficiente para vencer a função de trabalho e escapar [5]. A eficiência do foto-cátodo é definida pelo número de elétrons emitidos por fóton incidente, e é tipicamente 10-20%. Os número de elétrons emergentes do foto-cátodo é tipicamente de alguns milhares, para uma radiação incidente de 1 MeV de energia [5]. Este número não é suficiente para uma utilização direta, isso justifica o uso da fotomultiplicadora. Esse processo consiste em acelerar os elétrons em direção a eletrodos da fotomultiplicadora chamados dínodos, a diferença de potencial criada entre cada par de dínodos é da ordem de uma centena de volts. Quando os elétrons atingem os eletrodos, eles transferem sua energia para os elétrons do metal, que, eventualmente, adquirem energia suficiente para vencer a função trabalho. Em condições usuais nas fotomultiplicadoras, cada elétron incidente faz com que 4-6 elétrons sejam ejetados, e por sua vez, os elétrons ejetados, são acelerados em direção ao eletrodo consecutivo, e assim sucessivamente [5]. A energia com que os elétrons são ejetados do dínodo é muito baixa (1-2 eV), com a aceleração de uma DDP de cerca de 100 V, eles sempre atingem o eletrodo consecutivo com energia de aproximadamente 100 eV, e o fator de multiplicação entre cada dínodo é praticamente constante [5]. Fotomultiplicadoras usuais têm cerca de 10 estágios de multiplicação e, portanto, o ganho total é de cerca de 510 = 107 [5]. Figura 9 – Fotomultiplicadora Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File: Photomultiplier_schema_de.png 2.5.2 Resolução em energia “A resolução em energia dos detectores é convencionalmente definida pela largura total a meia altura (FWHM) da distribuição de valores de carga coletada correspondente à detecção de eventos idênticos” [5]. A resolução em energia é uma conseqüência da flutuação estatística dos eventos envolvidos na produção de portadores de carga, este processo tem muitas etapas envolvidas (ionizações, excitações, etc.) e a probabilidade que eles ocorram é pequena, logo a flutuação na quantidade de carga produzida Q é dada pela distribuição de Poisson (proporcional a √Q). Quando esse valor é observado experimentalmente, nota-se que a flutuação é muito menor que a prevista pela aproximação estatística, isso indica que as etapas de produção de cada portador de carga individual não são estatisticamente independentes. A razão entre as flutuações experimentais e previstas pela distribuição de Poisson é conhecida como fator de Fano. O fator de Fano é sempre menor que 1, e quanto menor o fator, melhor a resolução em energia desses detectores [5]. 2.5.3 Tempo de Coleta O tempo de coleta de carga nos detectores é um fator muito importante. A dependência da corrente produzida em função do tempo em um detector ideal pode ser vista na figura 10. A utilização dessa informação envolve um tratamento eletrônico complexo, no qual a conversão é feita por um pré-amplificador, caracterizado por sua resistência e capacitância equivalente. Em geral, a constante de tempo dada pelo produto RC é maior que o tempo de coleta de carga (tc), de modo que o pulso típico gerado é como o da figura 11 [5]. Figura 10 - Variação temporal da corrente em Figura 11 - Tensão versus tempo, V(t) (curva um detector ideal. A integral sobre a curva pontilhada), na saída de um pré-amplificador sensível à corresponde à carga total gerada pela partícula carga. O pulso de corrente, i(t) (curva cheia), também é detectada. mostrado. Fonte: Zamboni, C. B.: Fundamentos da Física dos Nêutrons, pág. 35 2.5.4 Detectores Semicondutores x Cintiladores A introdução de detectores semicondutores começa na década de 60, o aparecimento desta inovação tecnológica trouxe uma melhoria significativa na resolução em energia desses dispositivos, muito superior à dos detectores cintiladores ou a gás. No caso de detectores de raios gama, por exemplo, obtém-se uma resolução da ordem de 0,1%, comparados com 6-8% dos cintiladores. O início da utilização de detectores de germânio é considerado a inauguração de uma nova era na espectroscopia nuclear. Nos detectores de germânio hiper-puro empregados na espectroscopia de raios gama, o germânio utilizado tem um alto grau de pureza, a concentração de contaminantes é de cerca de 1 parte em 1012, com certeza o material mais puro já obtido em grande escala [5]. A energia necessária para a radiação ionizante produzir um par elétron-buraco, é de cerca de 3 eV no Si ou Ge. Já nos detectores cintiladores é necessária uma carga de 100 eV [5], por isso, a resolução dos semicondutores é elevada. As figuras 12 e 13 representam os espectros de um mesmo parque da cidade de Diadema, utilizando paralelamente detectores cintilador de NaI(Tl) e semicondutor de HPGe. Figura 12 – Espectro da amostra parque Takebe Figura 13 – Espectro da amostra parque Takebe 001 obtido com detector de NaI(Tl). 002 obtido com detector de HPGe. Fonte: Autor Fonte: Autor Podemos observas nos gráficos que o espectro obtido com o detector de HPGe apresenta uma resolução melhor, o que facilita a análise dos picos estudados. 3. PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL 3.1 Coletas de amostras Foram realizadas coletas de amostras de solo para o estudo da radiação gama natural em parques e praças das cidades de: Santo André, São Caetano do Sul, Diadema e Mauá. Para a coleta das amostras foi utilizado uma escavadeira mecânica cilíndrica (75 x 35 mm), com aproximadamente 1 m de altura, feita de aço (vide figura 14). As amostras foram coletadas a uma profundidade mínima de 30 cm, e em cada local foram anotadas as coordenadas geográficas e a altitude. O material coletado foi inicialmente armazenado em sacos plásticos higienizados. Figura 14 – Escavadeira manual utilizada na coleta de amostras Fonte: Autor 3.1.1 Locais de Coleta Em cada uma das quatro cidades (Santo André, São Caetano do Sul, Diadema e Mauá), foram coletados materiais em cada parque ou praça. Ao todo foram analisados cinco parques em cada cidade, sendo coletadas duas amostras por parque, totalizando 40 amostras analisadas. Os locais de coleta de material em cada uma das quatro cidades foram escolhidos devido ao grande fluxo de pessoas que freqüentam o local e também de forma que fossem estudados parques em regiões distintas. A seguir estão indicados os locais de onde foram retirados materiais para o preparo das amostras, e também a massa final da amostra seca e homogeneizada. 3.1.1.1 Santo André Parque Regional da Criança Crianças001: elevação: 2641 ft S: 23° 38.892’ WO: 46° 31.153’ m: 214.528 g Crianças002: elevação: 2559 ft S: 23° 38.885’ WO: 46° 31.153’ m: 184.395 g Parque Celso Daniel Daniel001: elevação: 2241 ft S: 23° 38.847’ WO: 46° 32.184’ m: 185.352 g Daniel002: elevação: 2557 ft S: 23° 38.884’ WO: 46° 32.184’ m: 193.240 g Praça Antônio Fláquer (Ipiranguinha) Ipiran001: elevação: 2566 ft S: 23° 40.122’ WO: 46° 31.308’ m: 188.197 g Ipiran002: elevação: 2573 ft S: 23° 40.131’ WO: 46° 31.315’ m: 195.495 g Parque Central Central001: elevação: 2449 ft S: 23° 40.361’ WO: 46° 31.858’ m: 205.155 g Central002: elevação: 2527 ft S: 23° 40.334’ WO: 46° 31.811’ m: 210.488 g Cemitério Jardim Santo André André001: elevação: 2737 ft S: 23° 40.845’ WO: 46° 30.164’ m: 202.889 g André002: elevação: 2635 ft S: 23° 40.880’ WO: 46° 30.142’ m: 218.632 g 3.1.1.2 São Caetano do Sul Praça Mauá Mauá001: elevação: 2433 ft S: 23° 38.837’ WO: 46° 34.550’ m: 210.084 g Mauá002: elevação: 2451 ft S: 23° 38.850’ WO: 46° 34.554’ m: 206.338 g Espaço Verde Chico Mendes Chico001: elevação: 2353 ft S: 23° 37.914’ WO: 46° 34.321’ m: 178.539 g Chico002: elevação: 2468 ft S: 23° 37.901’ WO: 46° 34.355’ m: 197.081 g Escola de Ecologia Jânio Quadros Ecolo001: elevação: 2563 ft S: 23° 38.485’ WO: 46° 34.425’ m: 224.118 g Ecolo002: elevação: 2483 ft S: 23° 38.491’ WO: 46° 34.424’ m: 211.656 g Bosque do Povo Povo001: elevação: 2527 ft S: 23° 38.062’ WO: 46° 34.798’ m: 183.982 g Povo002: elevação: 2472 ft S: 23° 38.063’ WO: 46° 34.790’ m: 187.744 g Parque Santa Maria Maria001: elevação: 2526 ft S: 23° 37.938’ WO: 46° 33.340’ m: 206.997 g Maria002: elevação: 2551 ft S: 23° 37.943’ WO: 46° 33.324’ m: 178.468 g 3.1.1.3 Diadema Praça da Moça Moça001: elevação: 2640 ft S: 23° 41.367’ WO: 46° 37.522’ m: 199.552 g Moça002: elevação: 2556 ft S: 23° 41.376’ WO: 46° 37.502’ m: 187.533 g Parque do Paço Paço001: elevação: 2573 ft S: 23° 41.128’ WO: 46° 36.630’ m: 174.476 g Paço002: elevação: 2609 ft S: 23° 41.131’ WO: 46° 36.634’ m: 174.173 g Parque Takebe Takebe001: elevação: 2568 ft S: 23° 40.255’ WO: 46° 36.144’ m: 204.666 g Takebe002: elevação: 2552 ft S: 23° 40.262’ WO: 46° 36.142’ m: 198.772 g Parque Pousada dos Jesuítas Jesu001: elevação: 2656 ft S: 23° 41.216’ WO: 46° 37.109’ m: 180.427 g Jesu002: elevação: 2670 ft S: 23° 41.091’ WO: 46° 37.156’ m: 188.115 g Centro Cultural Vila Nogueira Nog001: elevação: 2520 ft S: 23° 41.158’ WO: 46° 35.738’ m: 184.691 g Nog002: elevação: 2573 ft S: 23° 41.156’ WO: 46° 35.743’ m: 255.932 g 3.1.1.4 Mauá Parque Ecológico do Guapituba Guapi001: elevação: 2636 ft S: 23° 41.638’ WO: 46° 26.881’ m: 208.150 g Guapi002: elevação: 2602 ft S: 23° 41.649’ WO: 46° 26.871’ m: 213.320 g Praça da Bíblia Bíblia001: elevação: 2535 ft S: 23° 39.962’ WO: 46° 27.220’ m: 204.518 g Bíblia002: elevação: 2612 ft S: 23° 39.965’ WO: 46° 27.218’ m: 191.206 g Praça Orsélio de Godoy Godoy001: elevação: 2525 ft S: 23° 39.992’ WO: 46° 26.392’ m: 207.759 g Godoy002: elevação: 2550 ft S: 23° 39.976’ WO: 46° 26.382’ m: 181.867 g Parque Ecológico Santa Luzia Luzia001: elevação: 2736 ft S: 23° 40.563’ WO: 46° 24.654’ m: 211.887 g Luzia002: elevação: 2754 ft S: 23° 40.565’ WO: 46° 24.673’ m: 195.721 g Praça João Leite de Morais JLM001: elevação: 2546 ft S: 23° 39.549’ WO: 46° 26.334’ m: 216.275 g JLM002: elevação: 2568 ft S: 23° 39.237’ WO: 46° 26.166’ m: 211.632 g 3.2 Secagem O material coletado, referente a cada ponto a ser analisado, foi colocado em um recipiente de vidro temperado e em seguida submetido a um processo de secagem durante aproximadamente 24 horas, a uma temperatura de 100 °C. Para que a secagem fosse realizada com eficiência máxima, foram realizadas pesagens periódicas até que a massa de material fosse constante. Para o procedimento foram utilizadas estufas e balanças analíticas do Centro de Laboratórios Químicos da FEI (CLQ-FEI) (vide figura 15). Figura 15 – Balança analítica e estufas do CLQ - FEI Fonte: Autor 3.3 Homogeneização Após as 24 horas de secagem o material retirado da estufa foi encaminhado ao Laboratório de Física das Radiações (LAFIR), localizado no Centro Universitário da FEI. Já no laboratório, o material coletado passou por processos de moagem a seco e em seguida peneiramento, visando a uniformização dos tamanhos dos grãos de solo. Posteriormente foi realizada a determinação do tamanho médio das partículas presentes numa amostra de solo através da técnica de análise granulométrica (vida ANEXO A), e o diâmetro médio das partículas calculado foi de 0,120 (17) mm. Para a realização dos processos de moagem a seco e peneiramento, foram utilizados um almofariz, um pistilo e uma peneira de uso doméstico (figura 16). Figura 16 – Almofariz, pistilo e peneira doméstica Fonte: Autor. 3.4 Pesagem Após a homogeneização completa do material e uniformidade dos tamanhos de grão, elas foram inseridas em recipientes plásticos previamente pesados numa balança analítica. As massas finais das amostras homogeneizadas e secas foram obtidas aplicando uma nova pesagem, e em seguida subtraindo a massa do pote. Para o procedimento foi utilizada a mesma balança analítica da etapa 3.2. (vide figura 16). 3.5 Armazenamento Por fim, todas as amostras foram vedadas utilizando fita isolante e rotuladas, com o nome específico, a massa final de solo e o dia em que foi armazenada (vide figura 17). Antes das amostras serem ensaiadas para obter as medidas de radiação gama, elas permaneceram em repouso durante um período de 28 dias, período suficiente para que houvesse o equilíbrio secular do radônio presente [8]. Figura 17 – Recipiente plástico utilizado para armazenamento e análise das amostras Fonte: Autor 3.6 Aquisições de dados Para a aquisição de dados de radiação gama emitida foi utilizado o sistema de espectrometria gama do Laboratório de Física de Radiações (LAFIR) (figura 18), localizado no Centro Universitário da FEI. Cada amostra permaneceu em detecção durante 8 horas. 3.6.1 Sistema de detecção do LAFIR O sistema de detecção do LAFIR consiste num detector cintilador de NaI(Tl), associado a uma placa ADC (Analogic Digital Conversor), uma fotomultiplicadora (PMT), uma fonte de alta tensão, um amplificador e uma conexão USB ao software utilizado na aquisição (GENIE 2000) [6]. O detector de NaI(Tl), juntamente com a amostra em análise e a fotomultiplicadora estão isoladas na blindagem de chumbo para evitar contribuições externas de radiação. A fonte de alta tensão é alimentada através do cabo USB, e faz com que o sistema todo funcione. Após o processo de foto multiplicação descrito no item 2.5.1., o amplificador associado transforma a corrente gerada na fotomultiplicadora em um pulso, e na placa ADC os pulsos são atribuídos a canais específicos, ou seja, todo pulso que chegar com a mesma energia será atribuído ao mesmo canal e a cada pulso torna-se uma “contagem”. Através da relação canal x contagens os espectros de raios gama são gerados pelo programa de aquisição GENIE 2000. Figura 18 – Sistema de Detecção do Laboratório de Física das Radiações Fonte: Autor 3.7 Energias provenientes dos decaimentos radioativos Para a atividade do radionuclídeo 40 K levamos em conta raios gama com a 40 intensidade de 1460 keV do K. Para determinar a atividade dos radionuclídeos 232 238 Ue Th, levamos em conta raios gama com a intensidade de 1764 keV , emitidos no decaimento do fato de que o 214 214 decaimento do Bi, e 2614 keV, referente ao decaimento do Bi pertence a série de decaimento do 232 238 208 Tl. Isso se deve ao U e o 208Tl pertence a série de Th, e também pelo fato de terem picos com energias maiores, portando, tratam-se de picos mais resolvidos no espectro de radiação gama, evitando auto absorção pela amostra [7]. 3.8 Calibração Para a análise dos espectros de radiação gama obtidos no detector de NaI(Tl), é necessário que se faça a calibração do mesmo. Para isso foi utilizada uma amostra de 60 Co com as mesmas dimensões das amostras padrão e das amostras preparadas no laboratório. O 60 Co é utilizado pelo fato de que ele possui dois picos muito bem definidos, com energias conhecidas [7]. Através desses dois pontos é obtida uma equação de primeira ordem: onde y é a energia do raio gama incidente em keV e x, o canal. Na figura 19 podemos visualizar um espectro da fonte de calibração de 60Co, obtido com o detector de NaI(Tl). Figura 19 – Espectro da fonte de 60Co utilizada na calibração do equipamento. Fonte: Autor 3.9 Radiações de fundo Como vimos durante o desenvolvimento deste estudo, a radiação gama está presente em todos os lugares do nosso planeta, inclusive em nosso laboratório. Por isso, para estudarmos somente a radiação gama proveniente das amostras de solo, é necessário levar em conta a radiação de fundo, presente na sala onde o detector se encontra. Para isso, realizamos um ensaio com o detector vazio (sem amostra), e o espectro obtido é subtraído dos espectros de cada amostra, antes dos cálculos serem realizados. Como existem mudanças continuas no arranjo dos móveis, ou mesmo adição ou retirada de objetos na sala do detector, é necessário que espectros de radiação de fundo sejam obtidos regularmente. A figura 20 mostra um espectro de fundo obtido no dia 25/02/10. Figura 20 – Espectro da radiação de fundo, obtido no dia 25/02/10. Fonte: Autor 3.10 Atividades As atividades de cada amostra ensaiada no detector de radiação gama foram calculadas através de uma comparação com amostras padrão dos três radionuclideos estudados (40K, 238U e 232Th). 3.11 Amostras padrão Para o cálculo das atividades das amostras de solo, é utilizado o método de comparação com amostras padrão (com concentrações e atividades conhecidas). As amostras padrão utilizadas para os radionuclideos 40K, 328 U e 232Th são regulamentadas pelo International Atomic Energy Institute (IAEA) [9]. Cada amostra foi ensaiada duas vezes no detector, durante um período de 8 horas cada uma, as figuras 21, 22 e 23 mostram os espectros obtidos. Figura 21 – Espectros obtidos para a amostra padrão de keV é o pico relativo ao isótopo 40K. Fonte: Autor Figura 22 – Espectros obtidos para a amostra padrão de destaque, é o pico referente ao isótopo 238U. Fonte: Autor 40 K (IAEA-RGK-1), o pico de energia 1460,8 238 U (RGU-1), o pico de energia 1764 keV, em Figura 23 – Espectros obtidos para a amostra padrão de keV, em destaque, é o pico referente ao isótopo 232Th. Fonte: Autor 232 Th (IAEA-RGTh-1), o pico de energia 2614 3.11.1 Cálculo da atividade das amostras padrão Suponhamos que em um tempo t um número N(t) de núcleos de uma amostra ainda não decaíram, então, o número (-dN) de núcleos que decaem durante um intervalo de tempo entre t e t+dt é linearmente proporcional a N e também a dt, de modo que temos: ou ⁄ Integrando a expressão num intervalo entre 0 e t, obtemos: onde Logo, todos os processos de decaimento dependem única e exclusivamente da constante de decaimento (λ), constante essa que varia de acordo com as propriedades do núcleo radioativo. O tempo de meia-vida é definido como o tempo durante o qual uma amostra do material radioativo é reduzida a metade do seu valor inicial, logo, quando N(t) = 0,5 N0, t = t1/2. A partir dessa informação podemos obter a relação entre a constante de decaimento (λ) e o tempo de meia vida (t1/2): ⁄ logo, A atividade (A) de uma amostra radioativa pode ser obtida pela expressão (3.1): portanto onde N é o número de núcleos radioativos em uma amostra e t1/2 é o tempo de meia vida da mesma. Na tabela 3 podemos ver as características das amostras padrão. Tabela 3 – Descrição das amostras padrão. Radionuclideo principal Amostra Padrão Massa t1/2 Concentração [8] N K2SO4 (IAEA-RGK-1) (200,6 ± 6,4) g 40 4,03.1016s (44,8 ± 0,3) %K 8,3027x1019 átomos U-ore (RGU-1) (170,4 ± 5,5) g 238 U 1,41.1017s 1,723.1020 átomos 232 Th 4,43.1017s (400 ± 2) μg U/g (800 ± 16) μg Th/g Th-ore (IAEA-RGTh-1) (189,6 ± 6,0) g K 3,936x1020 átomos Fonte: Autor Utilizando a expressão (3.7) podemos obter os seguintes valores de atividade (vide tabela 4). Tabela 4 – Atividade das amostras padrão. Amostra Padrão Atividade (Bq) K2SO4 (IAEA-RGK-1) U-ore (RGU-1) Th-ore (IAEA-RGTh-1) 1428 (4) 847 (4) 614 (12) Fonte: Autor 3.11.2 Áreas das amostras padrão A tabela 5 contém os valores das áreas das amostras padrão, cada uma permaneceu no detector durante um período de 8 horas, sendo que foram obtidos dois espectros por amostra (vide parte 3.10). Tabela 5 – Área das amostras padrão utilizadas. 40 238 232 Amostras Padrões 28800 (s) K U Th Incerteza Incerteza Incerteza K2SO4 (IAEA-RGK-1) 2,19E+05 5,55E+02 4,68E+02 8,96E+01 2,25E+03 7,67E+01 K2SO4 (IAEA-RGK-1) 2,23E+05 5,54E+02 5,34E+02 9,29E+01 2,37E+03 7,41E+01 U-ore (RGU-1) 1,11E+05 5,80E+02 3,82E+02 9,38E+01 U-ore (RGU-1) 1,12E+05 5,75E+02 1,53E+02 9,56E+01 Th-ore (IAEA-RGTh-1) 6,19E+04 7,70E+01 Th-ore (IAEA-RGTh-1) 6,21E+04 1,89E+02 Fonte: Autor 3.11.3 Cálculo da atividade das amostras Pará o cálculo da atividade de uma amostra qualquer utilizamos a seguinte expressão: [ ⁄ ] 3.12 Cálculo da dose absorvida A dose absorvida de uma amostra é obtida através da atividade da amostra e um coeficiente de conversão de [Bq/kg] para [nGy/h], sendo que 1 Bq é igual a 1 desintegração por segundo e 1 Gy é igual a 1 Joule por segundo. Esse coeficiente varia de acordo com as propriedades do radionuclideo, e cada coeficiente é calculado utilizando-se o método de Monte Carlo4. Os coeficientes dos três radioisótopos estudados neste trabalho estão na tabela 6. Tabela 6 – Coeficientes de conversão para o cálculo das doses absorvidas. Radionuclideo 40 K 238 U 232 Th Coeficiente de conversão[nGy/h] / [Bq/kg] 0,0417 0,462 0,604 Fonte: UNSCEAR.: Sources and Effects of Ionizing Radiation. ANNEX B, Exposures from natural radiation sources. Logo, para o cálculo da dose absorvida de uma amostra, utilizamos a seguinte expressão: 4 Método de Monte Carlo: Método estatístico utilizado em simulações estocásticas. [ ] [ ] [ ] [ ] Lembrando que a dose absorvida deve ser calculada para cada radionuclideo separadamente, isso devido à diferença entre os coeficientes de conversão. A dose absorvida total (proveniente dos três radionuclideos estudados) é calculada através da seguinte expressão: [ ] 3.13 Cálculo da dose efetiva A dose efetiva de uma amostra é obtida através do fator de conversão para radiação gama externa terrestre, que é igual a 0,7 Sv/Gy [1], este valor também é calculado utilizando-se o método de Monte Carlo. Para que possamos comparar com a média anual internacional de dose efetiva per capita de radiação, que é 2,4 mSv/ano, é necessário corrigir a expressão de dose absorvida que é dada em horas para anos. Para este cálculo utilizamos a seguinte expressão: [ ] [ ] [ ] [ ] [ ] 3.14 Cálculo da dose biológica equivalente Do ponto de vista de danos biológicos, as radiações devem ser medidas por unidades de dose equivalente, a dose absorvida não é adequada, pois energias iguais de fontes radioativas diferentes produzem efeitos biológicos distintos. Essas variações podem ser normalizadas por um fator de conversão chamado de fator peso, este fator leva em conta riscos a longo prazo devido a exposições crônicas de baixa intensidade, tais como o aparecimento de câncer e leucemia. O fator peso vai de um mínimo de 1, para radiações que depositam relativamente pouca energia por unidade de comprimento, até um máximo de 20, para radiações que depositam mais energia por unidade de tempo [2]. A tabela 7 indica os valores do fator peso para os principais tipos de radiações. Tabela 7 – Fator peso para as principais radiações. Tipo de radiação Raios X e raios-gama (todas as energias) Elétrons e múons (todas as energias) Neutrons < 10 keV 10 - 100 keV > 100 keV a 2 MeV 2 - 20 MeV > 20 MeV Prótons (outros que não os de recuo) > 2 MeV Alfas, fragmentos de fissão e núcleos pesados Fator Peso 1 1 5 10 20 10 5 5 20 Fonte: K.C.Chung.: Introdução à Física Nuclear , pg. 170 Para o cálculo da dose biológica equivalente, utilizamos a seguinte expressão: [ ] [ ] No caso particular do nosso estudo, que leva em conta a radiação gama, o fator peso é igual a 1, logo, os valores de dose absorvida calculados já são os valores de dose biológica equivalente. 3.15 Cálculo das concentrações de radionuclideos Um importante parâmetro a ser analisado nesse estudo é a concentração dos radionuclídeos em cada uma das 40 amostras coletadas nos parques e praças do grande ABCD e Mauá. Esse parâmetro pode indicar localidades onde haja altas concentrações ou mesmo nenhuma presença de um determinado radionuclideo. Para isso é realizada uma simples comparação com as amostras padrão, utilizando a seguinte expressão: 3.15.1 Cálculo das concentrações utilizando o método matricial Paralelamente ao método descrito acima, foi realizado o cálculo das concentrações das amostras levando em conta a interferência entre os picos analisados, mas os resultados obtidos foram muito semelhantes aos valores antes da correção, isso prova que a correção devido à interferência não é necessária nesse estudo. Todo o método segue descrito no ANEXO B. 4. RESULTADOS Foram analisadas as amostras referentes à cidade de Santo André, São Caetano do Sul, Diadema e Mauá. Sendo calculadas a atividade de cada um dos três radionuclideos, as doses absorvidas e doses efetivas para cada parque. 4.1 Atividades As figuras 24, 25, 26 e 27 mostram a relação entre as atividades das 40 amostras de solo. Atividades das amostras de Santo André em Bq/kg 300,00 250,00 200,00 150,00 100,00 50,00 0,00 40K 238U 232Th Figura 24 – Gráfico de colunas com as atividades apresentadas pelas amostras de solo da cidade de Santo André, devido aos radionuclideos 40K, 238U e 232Th. Fonte: Autor Atividades das amostras de São Caetano do Sul em Bq/kg 300,00 250,00 200,00 150,00 100,00 50,00 0,00 40K 238U 232Th Figura 25 – Gráfico de colunas com as atividades apresentadas pelas amostras de solo da cidade de São Caetano do Sul, devido aos radionuclideos 40K, 238U e 232Th. Fonte: Autor Atividades das amostras de Diadema em Bq/kg 300,00 250,00 200,00 150,00 40K 100,00 50,00 238U 0,00 232Th Figura 26 – Gráfico de colunas com as atividades apresentadas pelas amostras de solo da cidade de Diadema, devido aos radionuclideos 40K, 238U e 232Th.. Fonte: Autor Atividades das amostras de Mauá em Bq/kg 300,00 250,00 200,00 150,00 100,00 50,00 0,00 40K 238U 232Th Figura 27 – Gráfico de colunas com as atividades apresentadas pelas amostras de solo da cidade de Mauá, devido aos radionuclideos 40K, 238U e 232Th. Fonte: Autor 4.2 Doses absorvidas As doses absorvidas de cada amostra foram calculadas segundo a expressão (3.10). A tabela 8 mostra os resultados obtidos. Tabela 8 – Doses absorvidas nas amostras das 4 cidades. Dose absorvida Amostra BRcentral001 BRcentral002 BRstoandré001 BRstoandré0002 BRcrianças001 BRcrianças002 BRipira001 BRipira002novo BRcelso001 BRcelso002 BRchico001 BRchico002 BReco001 BReco002 BRpovo001 BRpovo002 BRmaria001 BRmaria002 BRmaua001 BRmaua002 BRmoca001 BRmoca002 BRpaco001 BRpaco002 BRtakebe001 BRtakebe002 BRjesu001 BRjesu002 BRnog001 BRnog002 BRbiblia001 BRbiblia002 BRgodoy001 BRgodoy002 BRguapituba001 BRguapituba002 BRjlm001 BRjlm002 BRluzia001 BRluzia002 Fonte: Autor 40 K [nGy/h] 4,31 (55) 6,45 (57) 1,39 (40) 6,63 (59) 1,91 (60) 0,04 (37) 0,08 (43) 2,12 (70) 0 0,55 (40) 0,86 (50) 2,71 (49) 7,62 (56) 5,53 (51) 0,02 (45) 0 1,71 (45) 1,92 (53) 2,63 (46) 2,37 (45) 0,07 (65) 4,51 (47) 11,22 (85) 4,25 (68) 0,95 (64) 0,83 (68) 4,77 (77) 9,19 (74) 11,48 (81) 5,19 (48) 2,85 (48) 0,35 (49) 0 3,82 (56) 2,54 (47) 1,76 (44) 1,71 (44) 2,51 (47) 0,67 (45) 0,34 (56) 238 U [nGy/h] 5,7 (3,9) 8,1 (3,6) 5,0 (3,6) 10,8 (3,9) 9,7 (3,8) 10,6 (4,7) 12,2 (4,6) 10,1 (4,3) 10,6 (4,7) 13,0 (4,7) 12,3 (4,0) 8,4 (3,7) 14,0 (3,4) 7,5 (3,5) 7,4 (3,3) 11,8 (4,1) 10,1 (3,6) 15,4 (4,1) 11,6 (3,5) 10,9 (3,2) 22,5 (4,4) 8,5 (4,1) 10,8 (4,3) 13,1 (4,6) 7,2 (4,2) 6,6 (3,9) 17,0 (5,0) 19,1 (4,4) 14,5 (4,6) 1,8 (3,1) 17,4 (3,7) 17,9 (4,1) 10,9 (3,2) 30,1 (4,5) 16,8 (3,7) 21,5 (3,6) 14,6 (3,5) 31,2 (4,0) 24,2 (3,8) 22,7 (4,8) 232 Th [nGy/h] 46,3 (5,8) 27,6 (5,1) 61,8 (6,5) 46,0 (5,6) 52,7 (5,8) 64,7 (6,9) 73,2 (7,2) 69,9 (6,9) 85,1 (7,8) 78,4 (7,3) 72,0 (6,9) 70,3 (6,5) 56,8 (5,5) 53,1 (5,6) 63,1 (6,9) 87,3 (7,3) 71,7 (6,3) 72,7 (7,2) 54,4 (5,6) 15,0 (4,7) 57,6 (6,2) 63,3 (6,7) 53,8 (6,8) 54,1 (6,6) 62,5 (6,4) 69,4 (7,4) 60,9 (6,9) 50,8 (6,3) 47,4 (6,3) 22,0 (4,1) 51,6 (5,7) 106 (8) 29,9 (4,9) 70,7 (6,8) 61,8 (5,9) 61,7 (5,8) 41,1 (5,0) 44,3 (5,3) 53,4 (5,6) 59,7 (6,6) Parque Central 001 Parque Central 002 Jardim Santo André 001 Jardim Santo André 002 Parque das Crianças 001 Parque das Crianças 002 Ipiranguinha 001 Ipiranguinha 002 Parque Celso Daniel 001 Parque Celso Daniel 002 Parque Chico Mendes 001 Parque Chico Mendes 002 Parque ecológico 001 Parque ecológico 002 Parque do Povo 001 Parque do Povo 002 Parque Santa Maria 001 Parque Santa Maria 002 Praça Mauá 001 Praça Mauá 002 Praça da Moça 001 Praça da Moça 002 Parque do Paço 001 Parque do Paço 002 Parque Takebe 001 Parque Takebe 002 Parque Pousada dos Jesuitas 001 Parque Pousada dos Jesuitas 002 Centro Cultural Vila Nogueira 001 Centro Cultural Vila Nogueira 002 Praça da Bíblia 001 Praça da Bíblia 002 Praça Orsélio de Godoy 001 Praça Orsélio de Godoy 002 Parque do Guapituba 001 Parque do Guapituba 002 Praça João Leite de Moraes 001 Praça João Leite de Moraes 002 Parque Santa Luzia 001 Parque Santa Luzia 002 4.3 Doses efetivas A partir das doses absorvidas, foram calculadas as doses efetivas de cada amostra utilizando a expressão (3.11), e uma média foi calculada para cada parque analisado. A tabela 9 mostra os resultados obtidos. Tabela 9 – Doses efetivas calculadas para todos os parques. Doses Efetivas Local Parque Central Jardim Santo André Parque das Crianças Ipiranguinha Parque Celso Daniel Parque Chico Mendes Parque Ecológico Parque do Povo Parque Santa Maria Praça Mauá Praça da Moça Parque do Paço Parque Takebe Parque Pousada dos Jesuitas Centro Cultural Vila Nogueira Praça da Bíblia Praça Orsélio de Godoy Parque do Guapituba Praça João Leite de Moraes Parque Santa Luzia Dose Efetiva [mSv/ano] 0,302 (58) 0,404 (62) 0,428 (67) 0,514 (73) 0,573 (77) 0,511 (67) 0,443 (57) 0,520 (70) 0,533 (68) 0,297 (54) 0,480 (67) 0,452 (70) 0,453 (70) 0,496 (71) 0,314 (58) 0,603 (70) 0,446 (62) 0,509 (60) 0,415 (55) 0,493 (65) Fonte: Autor Os valores de doses efetivas calculados foram comparados com o valor médio internacional de 0,48 mSv/ano, notou-se que 9 parques apresentaram valores de dose efetiva levemente acima do o valor médio indicado pela agência internacional, porém, dentro da incerteza a ser considerada, os valores estão de acordo com os valor médio (vide tabela 10). Tabela 10 – Doses efetivas acima da média internacional. Doses Efetivas Local Ipiranguinha Parque Celso Daniel Parque Chico Mendes Parque do Povo Parque Santa Maria Parque Pousada dos Jesuitas Praça da Bíblia Parque do Guapituba Parque Santa Luzia Dose Efetiva [mSv/ano] 0,514 (73) 0,573 (77) 0,511 (67) 0,520 (70) 0,533 (68) 0,496 (71) 0,603 (70) 0,509 (60) 0,493 (65) Fonte: Autor. Com os valores de dose efetiva obtidos, foi calculada uma dose efetiva média para cada uma das 4 cidades analisadas (vide tabela 11). Tabela 11 – Doses efetivas médias das cidades analisadas. Doses Efetivas Cidade Santo André São Caetano do Sul Diadema Mauá Dose Efetiva [mSv/ano] 0,44 (15) 0,44 (15) 0,46 (14) 0,49 (14) Fonte: Autor. 4.4 Concentrações Através da equação 3.13 as concentrações de cada um dos três radionuclideos foram determinadas para as 40 amostras analisadas, esses valores são apresentados na tabela 12. Tabela 12 – Concentrações. Concentrações Amostra BRcentral001 BRcentral002 BRstoandré001 BRstoandré0002 BRcrianças001 BRcrianças002 BRipira001 BRipira002novo BRcelso001 BRcelso002 BRchico001 BRchico002 BReco001 BReco002 BRpovo001 BRpovo002 BRmaria001 BRmaria002 BRmaua001 BRmaua002 BRmoca001 BRmoca002 BRpaco001 BRpaco002 BRtakebe001 BRtakebe002 BRjesu001 BRjesu002 BRnog001 BRnog002 BRbiblia001 BRbiblia002 BRgodoy001 BRgodoy002 BRguapituba001 BRguapituba002 BRjlm001 BRjlm002 BRluzia001 BRluzia002 C40K (%) 0,65 (11) 0,97 (10) 0,21 (08) 1,00 (11) 0,29 (13) 0,01 (08) 0,01 (09) 0,32 (15) ALD 0,08 (09) 0,13 (11) 0,41 (10) 1,15 (09) 0,83 (10) 0,01 (10) ALD 0,26 (10) 0,29 (11) 0,40 (09) 0,36 (09) 0,01 (14) 0,68 (09) 1,69 (14) 0,64 (14) 0,14 (14) 0,12 (14) 0,72 (16) 1,39 (13) 1,73 (13) 0,78 (09) 0,43 (10) 0,05 (10) ALD 0,58 (11) 0,38 (10) 0,27 (09) 0,26 (09) 0,38 (10) 0,10 (09) 0,05 (12) C238U (ppm) 1,00 (97) 1,41 (88) 0,87 (88) 1,89 (95) 1,69 (94) 1,8 (11) 2,1 (11) 1,7 (10) 1,8 (11) 2,3 (11) 2,14 (98) 1,46 (92) 2,44 (82) 1,31 (85) 1,29 (81) 2,06 (99) 1,77 (88) 2,7 (10) 2,02 (86) 1,91 (78) 3,9 (10) 1,5 (10) 1,9 (11) 2,3 (12) 1,3 (10) 1,15 (98) 2,9 (12) 3,3 (11) 2,5 (11) 0,31 (17) 3,03 (98) 3,12 (99) 1,90 (78) 5,2 (11) 2,92 (90) 3,74 (85) 2,54 (85) 5,43 (91) 4,20 (90) 3,9 (11) C232Th (ppm) 18,9 (30) 11,3 (28) 25,3 (33) 18,8 (29) 21,6 (30) 26,5 (34) 30,0 (35) 28,6 (33) 34,8 (37) 32,1 (35) 29,4 (33) 28,7 (30) 23,2 (27) 21,7 (28) 25,8 (34) 35,7 (32) 29,3 (29) 29,8 (33) 22,3 (28) 6,12 (271) 23,6 (31) 25,9 (33) 22,0 (36) 22,1 (35) 25,6 (32) 28,4 (37) 24,9 (35) 20,8 (33) 19,4 (33) 9,0 (23) 21,1 (29) 43,6 (33) 12,2 (27) 28,9 (33) 25,3 (29) 25,2 (28) 16,8 (26) 18,1 (27) 21,8 (28) 24,4 (33) Parque Central 001 Parque Central 002 Jardim Santo André 001 Jardim Santo André 002 Parque das Crianças 001 Parque das Crianças 002 Ipiranguinha 001 Ipiranguinha 002 Parque Celso Daniel 001 Parque Celso Daniel 002 Parque Chico Mendes 001 Parque Chico Mendes 002 Parque ecológico 001 Parque ecológico 002 Parque do Povo 001 Parque do Povo 002 Parque Santa Maria 001 Parque Santa Maria 002 Praça Mauá 001 Praça Mauá 002 Praça da Moça 001 Praça da Moça 002 Parque do Paço 001 Parque do Paço 002 Parque Takebe 001 Parque Takebe 002 Parque Pousada dos Jesuitas 001 Parque Pousada dos Jesuitas 002 Centro Cultural Vila Nogueira 001 Centro Cultural Vila Nogueira 002 Praça da Bíblia 001 Praça da Bíblia 002 Praça Orsélio de Godoy 001 Praça Orsélio de Godoy 002 Parque do Guapituba 001 Parque do Guapituba 002 Praça João Leite de Moraes 001 Praça João Leite de Moraes 002 Parque Santa Luzia 001 Parque Santa Luzia 002 ALD: Abaixo do limite de detecção. Fonte: Autor. 5. CONCLUSÕES Todas as 40 amostras de solo foram coletadas em cinco parques de cada uma das quatro cidades a serem analisadas. Todas as amostras foram preparadas e devidamente armazenadas. O detector foi calibrado utilizando a fonte de 60 Co, foram obtidos dois espectros de cada uma das três amostras padrão e as 40 amostras analisadas foram ensaiadas no detector e seus espectros devidamente armazenados no computador. Na cidade de Santo André, apenas os parques Ipiranguinha e Celso Daniel apresentaram doses efetivas acima da média internacional de 0,48 mSv/ano, com valores de 0,514 (73) mSv/ano e 0,573 (77) mSv/ano, respectivamente. Em São Caetano do Sul, os parques Chico Mendes, do Povo e Santa Maria apresentaram doses efetivas acima da média internacional, com valores de 0,511 (67) mSv/ano, 0,520 (70) mSv/ano e 0,533 (68) mSv/ano, respectivamente. Os parques analisados na cidade de Diadema apresentaram doses efetivas abaixo do valor médio internacional, exceto o Parque Pousada dos Jesuitas, que apresentou uma dose efetiva de 0,496 (71) mSv/ano, porém, o valor médio esta dentro da incerteza. Entre os locais analisados na cidade de Mauá, a Praça da Bíblia e os Parques do Guapituba e Santa Luzia apresentaram doses efetivas acima da média internacional, com valores de 0,603 (70) mSv/ano, 0,509 (60) mSv/ano e 0,493 (65) mSv/ano, respectivamente. Foi notado também que a Praça da bíblia apresentou um valor de dose efetiva muito próxima do limite superior internacional (entre 0,3 e 0,6 mSv/ano), apresentando um valor de 0,603 (70). Decorrente disso, a dose efetiva média da cidade de Mauá é a maior entre as cidades analisadas, com o valor de 0,49 (14) mSv/ano. Desta forma, é possível concluir que as regiões analisadas apresentam valores de dose efetiva para radiação natural, devido aos radioisótopos 40 K, 238 Ue 232 Th, dentro dos valores médios estabelecidos internacionalmente. 6. ETAPA FUTURA Como etapa futura, pode ser realizada uma correlação entre as formações rochosas dos locais analisados e a distribuição dos radionuclideos estudados. BIBLIOGRAFIA [1] UNSCEAR.: Sources and Effects of Ionizing Radiation. Exposures from natural radiation sources, New York, 2000. [2] K.C.Chung.: Introdução à Física Nuclear , Rio de Janeiro, 2001. [3] Wher, M. Russel.: Física do átomo, Rio de Janeiro, 1965. [4] Yannick Nouailhetas.: Radiações Ionizantes e a vida. [5] Zamboni, C. B.: Fundamentos da Física dos Nêutrons, 34-46, São Paulo, 2007. [6] <www.canberra.com>. Último acesso em: 21 de agosto de 2009. [7] P.R. Pascholati.: A Gamma-ray Background Survey Between 100 keV and 2800 keV. São Paulo. [8] <www.iaea.org>. Ultimo acesso em: 18 de Março de 2010. [9] IAEA.: Preparation of Gamma-ray Spectrometry Reference Materials, Viena, 1987. [10] R. Gomide.: Operações Unitárias – 1º volume: operações com sistemas sólidos granulares, São Paulo, 1983. ANEXO A – Análise granulométrica A análise granulométrica de partículas sólidas compreende na determinação do tamanho dessas partículas e da freqüência com que ocorrem em uma determinada classe ou faixa de tamanho [10]. Para isso o ensaio é realizado com peneiras padronizadas quanto às aberturas das malhas e à espessura dos fios utilizados. Neste trabalho, utilizou-se a Série Tyler (série de peneiras com base em uma peneira padrão contendo 200 malhas/in, em ordem crescente de malhas). Existem diversas técnicas de análise granulométrica que se aplicam a faixas granulométricas bem definidas. A escolha da técnica adequada para se efetuar a análise granulométrica de um determinado material vai depender do tamanho das partículas ali presentes. As partículas podem ter várias formas, que influenciam determinadas propriedades como fluidez, empacotamento, interação com fluidos e poder de cobertura de pigmentos. Logo, a medição de tamanho de uma mesma partícula por diferentes técnicas pode dar valores diferentes, na medida em que a forma dessa partícula se distancia de uma esfera, daí a razão de se aplicarem fatores de correção para transformar as medidas obtidas de uma técnica para outra e vice-versa [10]. A.1 Procedimento Experimental Para este ensaio foi utilizado o equipamento de análise granulométrica do CLQFEI (vide figura A1), que consiste em uma série de peneiras com diferentes com aberturas de diversos tamanhos e um sistema de agitação eletrônico para homogeneização do sistema. Figura A1 – Equipamento utilizado na análise granulométrioca. Fonte: Autor. Primeiramente algumas amostras de terra utilizadas no trabalho foram selecionadas para serem submetidas a uma análise granulométrica. Durante o ensaio, o material contido nas amostras, uma por vez, foram inseridos no topo da pilha de peneiras e essas foram homogeneizadas durante 20 minutos para que houvesse maior precisão no ensaio. Após isso, foram coletados os valores das massas de terra relativas a cada uma das peneiras utilizadas (vide tabela A1), com esses valores foram calculadas as frações mássicas de cada peneira, a fração mássica acumulada e consequentemente a média superficial dos diâmetros. Abaixo seguem as fórmulas utilizadas nesse ensaio. Fração mássica de partículas retidas na peneira i qualquer da pilha (xi); ∑ Sendo: mi massa retida na peneira i; m massa total de partículas alimentadas no sistema. Fração mássica acumulada na peneira i (Xi); ∑ Diâmetro médio das partículas retidas na peneira i ( ̅̅̅̅̅ ); ̅̅̅̅̅ Sendo: Dp abertura da peneira. Média superficial dos diâmetros (Ds) ∑ ̅̅̅̅̅ A.2 Cálculos e Resultados Após a realização do ensaio, obtiveram-se as massas retidas nas diferentes peneiras, os valores estão apresentados na tabela A1. Tabela A1 – Massas retidas nas peneiras. Peneira Abertura (mm) 16 35 65 100 115 150 250 Panela 1,00E+00 4,25E-01 2,12E-01 1,50E-01 1,25E-01 1,06E-01 6,30E-02 0 Massa Retida(g) Parque do Paço 1 Parque Central 2 Vila Nogueira 1 0 0,06 0,11 32,32 42,5 32,37 54,15 58,97 45,11 27,52 40,09 29,37 8,26 8,06 8,24 18,67 16,34 14,25 14,13 18,39 19,94 17,55 25,29 30,92 Fonte: Autor. Com esses valores, foi possível calcular xi e Xi. Também foi necessário calcular o diâmetro médio das partículas retidas em cada peneira (̅̅̅̅̅̅. Os valores são apresentados na tabela A2. Tabela A2 – Frações mássicas e frações mássicas acumuladas. Peneira 16 35 65 100 115 150 250 Panela Abertura (mm) 1,00E+00 4,25E-01 2,12E-01 1,50E-01 1,25E-01 1,06E-01 6,30E-02 0 Dpi 0,7125 0,3185 0,181 0,1375 0,1155 0,0845 0,0315 Parque do Paço 1 xi Xi 0 0 0,18725 0,18725 0,31373 0,50098 0,15944 0,66043 0,04786 0,70829 0,10817 0,81645 0,08187 0,89832 0,10168 1 Parque Central 2 xi Xi 0,00029 0,00029 0,20267 0,20296 0,28121 0,48417 0,19118 0,67535 0,03844 0,71378 0,07792 0,79170 0,08770 0,87940 0,12060 1 Vila Nogueira 1 xi Xi 0,00061 0,00061 0,17952 0,18013 0,25018 0,43031 0,16289 0,59320 0,04570 0,63890 0,07903 0,71793 0,11059 0,82852 0,17148 1 Fonte: Autor. Com as frações molares de cada uma das peneiras, foi obtida a distribuição granulométrica de cada uma das amostras, estas estão ilustradas na figura A2. Gráfico diferencial em linha 0,3500 0,3000 0,2500 0,2000 xi Parque do Paço 1 0,1500 Parque Central 2 0,1000 Vila Nogueira 1 0,0500 0,0000 0 0,2 0,4 0,6 0,8 Dpi médio Figura A2 – Gráfico diferencial em linha das distribuições granulométricas. Fonte: Autor. Utilizando a equação A.4, foram calculadas médias superficiais dos diâmetros, após isso foi calculada uma média entre os três valores obtidos. A valor médio final encontrado foi de 0,120 (17) mm. ANEXO B – Cálculos das concentrações utilizando o método matricial Para o calculo das concentrações dos radionuclideos utilizando o método matricial, primeiramente é necessário a determinação dos coeficientes de interferência, e esses coeficientes são utilizados na determinação das concentrações. O número de contagens por segundo de uma determinada amostra (Ni) pode ser relacionado com as massas de radionuclideos (mi) e os coeficientes de interferência (Sij) através do seguinte sistema: Como o número de contagens por segundo e as concentrações das amostras padrão são conhecidas, através da resolução do sistema foi possível determinar os coeficientes de interferência. Os valores utilizados na resolução do sistema estão apresentados na tabela B1, e os coeficientes de interferência calculados são apresentados na tabela B2. Tabela B1 – Números de contagens por segundo e massas dos radionuclideos nos padrões. Padrão K-ORE U-ORE Th-ORE Número de contagens / s massa (g) [8] NK NU NTh mK mu mTh 7,420486 -0,003368 -0,001736 8,99E+01 2,01E-07 2,01E-06 -0,183681 3,834549 -0,066597 3,41E-03 6,81E-02 1,70E-04 -0,183681 -0,019618 2,069444 3,79E-02 1,19E-03 1,52E-01 Fonte: Autor. Tabela B2 – Coeficientes de interferência. Coeficientes de interferência (Sij) Padrão K-ORE U-ORE Th-ORE Skk / Sku / Skth Suk / Suu / Suth Sthk / Sthu / Sthth 0,08334071 -0,032652826 0,002324293 -0,003964067 56,53728899 -0,528669656 -0,007790402 -0,527474854 13,66430694 Fonte: Autor. Com os coeficientes de interferência conhecidos, através dos números de contagens por segundo de cada uma das amostras obtidas durante o estudo, as massas dos radionuclideos nas amostras foram determinadas utilizando novamente o sistema B.1. As concentrações foram obtidas dividindo as massas obtidas pela massa total de cada amostra. Como dito no item 3.15.1, os valores obtidos com esse método são muito semelhantes aos obtidos com o método de comparação com os padrões.