UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS AMANDA DA SILVA MARTINS UM PASSADO PARA MINAS GERAIS: OS PROFESSORES DA ESCOLA NORMAL DE OURO PRETO E A CONSTRUÇÃO DO TEMPO (1870-1889) Mariana, 2010. 1 AMANDA DA SILVA MARTINS UM PASSADO PARA MINAS GERAIS: OS PROFESSORES DA ESCOLA NORMAL DE OURO PRETO E A CONSTRUÇÃO DO TEMPO (1870-1889) Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto como requisito para a obtenção do grau de Mestre em História. Linha de pesquisa: Estado, Identidade e Região. Orientadora: Prof. Dra. Helena Miranda Mollo MARIANA INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS 2010 2 Amanda da Silva Martins Um passado para Minas Gerais: os professores da Escola Normal de Ouro Preto e a construção do tempo (1870-1889). Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da UFOP como requisito para a obtenção do grau de Mestre em História. Aprovada pela comissão examinadora abaixo assinada. Dra. Helena Miranda Mollo (Orientadora) Depto. de História , UFOP Dr. Temístocles Américo Cezar (Membro da banca) Depto. de História, UFRGS Dra. Thaís Nívia de Lima e Fonseca (Membro da banca) Depto. de Educação, UFMG Dr. Valdei Lopes de Araujo (Membro da banca) Depto. de História, UFOP 3 Agradecimentos Pedro Rache dizia em sua Memória que “os professores eram verdadeiros semi-deuses, de exigência satânica, sem consideração alguma por pobres ignorantes como nós”. Creio que não seja necessário colocar a referência nos Agradecimentos. Afinal, esse talvez seja o único espaço nessa dissertação que é “todo meu”. De qualquer maneira, essa frase cairia como uma luva (“peça que reveste as mãos”) sobre o processo de escrita deste trabalho. Obviamente me refiro à exigência satânica da professora Helena Mollo, que exauriu todas as minhas forças para que chegássemos ao fim desta dissertação. Gostaria de agradecer imensamente a ela pela exigência, paciência, confiança, orientação, impressionante competência, amizade, carinho, e também por permitir que eu bebesse um chopp durante nossas reuniões na cafeteria que, certamente, deixarão MUITAS saudades. Espero que o trabalho tenha ficado à altura do que planejamos, embora eu tenha consciência (Helena Mollo possivelmente tem mais consciência que eu) de que poderíamos ter feito mais. Acho que a “exigência satânica” é contagiosa! Gostaria de agradecer também aos membros da banca por terem aceitado gentilmente compô-la e, assim, contribuir para este trabalho e para minha formação. Helena Mollo, Temístocles Cezar, Thaís Nívia de Lima e Fonseca e Valdei Lopes de Araujo: é uma verdadeira honra ter uma banca tão preparada como esta – o que assusta e, ao mesmo tempo, incentiva de forma inexplicavelmente forte. A cada um destes professores, verdadeiros doutores em suas respectivas áreas, admiro de uma forma diversa e agradeço especialmente. Agradeço especificamente ao professor Sérgio da Mata, pelos tempos de iniciação científica e por estar sempre disponível para discutir meus projetos. Obrigada também aos professores Marco Antônio Silveira, Fernando Nicolazzi e Antônio Carlos Jucá por estarem sempre dispostos a ajudar, pelas sugestões e disponibilidade de suas bibliotecas pessoais. Muito obrigada ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Ouro Preto por ter possibilitado esta pesquisa; ao programa REUNI pelo imprescindível financiamento, sem o qual seria impossível tê-la concluído com êxito. À professora Andréa Lisly, pelo esforço enorme e excelente trabalho feito com vistas a conquistar mais bolsas para a Pós-graduação. Este trabalho importantíssimo tem sido reconhecido por todos os pares. 4 Gostaria de agradecer também a todos os que, de alguma forma, contribuíram para que esta pesquisa pudesse ser concluída. Aos meus familiares queridos, que sempre compreenderam as minhas ausências e apoiaram meu trabalho. Aos meus colegas da graduação e da pós, com quem passei excelentes momentos. Aos meus amigos muito amados: Marcus Mitre, Eder Melo, Paloma Moratto, Flávia Machado, Ana Paula Beligoli, Clarissa Rocha, Monalisa Pavonne, Isabel Leite, Fernando Bolchevick, Valessa Costa e Camila Bussard. Quantas vezes aceitaram discutir comigo sobre os regimes de historicidade em “espaços de sociabilidade inadequados”! A todos vocês, muito obrigada! 5 Resumo Esta dissertação se destina a analisar de que forma a história se tornou um instrumento fundamental para a interpretação do presente e para a defesa da modernização no Brasil entre 1870 e 1889. Centramos nossa análise na atuação pública dos professores da Escola Normal de Ouro Preto neste período em que se empreendia um amplo movimento de contestação ao regime imperial. Através de memórias, jornais, exames, atas e livros de história relacionados à Escola, procuramos superar uma abordagem institucional, situando a ação dos lentes em um contexto em que ressalta-se sua interação em relação à opinião pública. Buscamos reconstituir o contexto em que as redes de sociabilidade, a imprensa e a Escola puderam ser vistas como instâncias que se entrelaçavam; investigamos as interpretações da história ocidental, nacional e regional nestes espaços públicos; as funções atribuídas à história; a relação entre a memória e a identidade; a constituição de uma nova imagem dos professores como intelectuais; suas relações com o movimento abolicionista local; a figura autoral do historiador; as relações entre a história e as maneiras de se experienciar o tempo. Palavras-chave: Escola Normal de Ouro Preto; história; imprensa; modernidade; tempo. 6 Abstract The modernity implied the construction of a historic and universal narrative of civilization; which brings a specific conception of time as an agent of transformation. Through this article, we analyzed the experience of time in the Brazilian republican campaign (1870-1889). Thus, we evaluated the performance of professors in the secondary institutes of education in Minas Gerais. We tried to comprehend how they understood the macro modern history and the Brazilian history within. To do this, we analyzed documents that relate to the Normal School - such as records, exams, manuals and newspapers. Based on the universalistic point of view, the professors expressed themselves in chronological terms to classify Brazil and construct a negative national identity that they portrayed as "a delayed country". The present was interpreted as out of step and anachronistic because it still had many elements from the past that they believed were important to break in order to achieve the same progress as the European nations. Keywords: Normal School of Ouro Preto; history; press; modernity; time. 7 Sumário Lista de abreviaturas e siglas Lista de gráficos e tabelas Introdução ............................................................................................................ 11 Capítulo 1 - Nação e modernidade: uma nova geografia do espaço público ...... 19 1.2 - As fraturas do tempo: professores, espaço público e imprensa mineira ..............................................................................................................20 1.2.1 – Tempo, progresso e modernidade: nação e história na imprensa mineira ..............................................................................................................31 1.2.2 – História, tempo e atraso: o elemento português ................................... 48 Capítulo 2 – Conhecimento e ação: a concretização do novo tempo ................... 60 2.1 – Mestres e alunos: a sensibilização da Opinião Pública em Minas .......... 62 2.2 – Repensando a História: a adoção de novos manuais e livros de leitura.. 77 Capítulo 3 – A História na Escola Normal de Ouro Preto.....................................87 3.1 – Eduardo Machado de Castro: o ofício do historiador ........................... ...87 3.2 – Eduardo Machado de Castro: a construção da identidade regional ....... 107 Conclusões .......................................................................................................... 135 Referências Bibliográficas ............................................................................... .140 Fontes Manuscritas ....................................................................................... 140 Fontes Impressas – Livros, Artigos, Memórias .......................................... 141 Dicionários ..................................................................................................... 141 Jornais Mineiros............................................................................................ 142 Bibliografia ......................................................................................................... 145 8 Lista de abreviaturas e siglas APM – Arquivo Público Mineiro EFOP – Escola de Farmácia de Ouro Preto. EMOP – Escola de Minas de Ouro Preto. ENOP – Escola normal de Ouro Preto. IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. IP – Instrução Pública. 9 Lista de gráficos Gráfico 01 – Jornais Mineiros (1860-1869) ........................................................ 26 Gráfico 02 – Jornais Mineiros (1870-1979) .........................................................27 Gráfico 03 – Jornais Mineiros (1880-1889) .........................................................30 10 Introdução “Ao elucidar a gênese, significado e limitações das idéias em sua época, poderemos entender melhor as implicações e significação das nossas atuais afinidades com elas”. Carl Schorske. Viena fin-de-siècle, São Paulo, Cia. das Letras, 1988. Como caracterizar a modernidade? Quais seus marcos principais? Seria apropriado falar em modernidade, no singular? Importa, ainda, discutir este tema? Por um lado, esta palavra tem designado uma concreta organização social, econômica, política, cultural e geográfica. Por outro, a construção e a defesa deste conceito como projeto se retroalimentou subjetivamente por uma narrativa histórica, filosófica e científica da civilização cuja epistemologia tendeu a naturalizá-la como processo universal até meados do século XX. A generalização é característica central da macro-história moderna. Contudo, a construção de uma linearidade que percorre um espaço temporal e espacial tão amplo pressupõe a seleção de eventos e temas que marcam a ruptura com o antigo e a continuidade do novo, entendida como progresso. O choque entre esta história ideal e o mundo real, dinâmico e descontínuo, tem dado mostras dos limites da noção de universalismo. Segundo Hans Gumbrecht, durante a Idade Média a auto-imagem predominante do homem o teria apresentado como parte de uma criação divina, cuja verdade ou estava além do entendimento humano ou era dada a conhecer pela revelação divina. Mais do que produzir um conhecimento novo, a tarefa da sabedoria humana era proteger do esquecimento o saber revelado e tornar presente esta verdade através da repetição e da celebração dos sacramentos. A imagem do homem não envolvia sua separação do mundo.1 O tempo tendia a ser experienciado de forma lenta, seguindo o ritmo cíclico da natureza e da colheita, apontando para um futuro semelhante ao passado e ao presente. O que diferenciaria o homem na Idade Média e no sécuo XIX? Para Hegel a modernidade histórica tem três momentos de fundação: o 1 GUMBRECHT, 1998, p. 12. 11 Renascimento, a Reforma e a chegada dos europeus ao Novo Mundo.2 O Renascimento proporcionou um reencontro com a cultura clássica e a expansão da astronomia, da anatomia e da física, descortinando um universo novo que caberia ao homem desvendar; as escavações arqueológicas sugeriam a existência de um passado imemorial, alargando a noção de tempo. O contato com o Novo Mundo, por sua vez, teria ampliado de forma definitiva a imagem que se tinha do mundo, até então restrito à Europa, África e Oriente. Estes eventos coincidem com o que Gumbrecht denomina primeira cascata de modernidade (XVI-XVIII), quando se constiui uma nova autoimagem do homem em que ele passa a ver a si ocupando a posição de sujeito na produção do saber. Sendo o único animal capaz de compreender e dominar a natureza, o ser humano teria passado a se considerar estranho ao mundo, isto é: surge uma distância entre ele e as coisas.3 É com este olhar marcado pelo desconhecimento das fronteiras entre interpretação e verdade que o europeu procuraria conhecer os habitantes da América e refletir sobre seu lugar (primitivo) na história do desenvolvimento da humanidade. Esta auto-imagem do homem permite a conclusão de que a humanidade é capaz de “fazer” sua própria história. A superação do conhecimento se tornava a essência da própria ciência, atribuindo-se à inovação caráter de lei. Na medida em que a ciência e a tecnologia se desenvolviam, cresciam as expectativas com relação a este futuro inédito, diferente do passado. Sob esta lógica o tempo se tornava personagem histórico: as transformações não ocorriam apenas no tempo, mas também por causa dele. A história do gênero humano na Terra passaria a ser interpretada como um processo universal cujo sentido é o progresso infinito. Logo, a modernidade é concebida como um tempo novo, na medida em que as expectativas sobre o futuro passam a distanciar-se cada vez mais das experiências realizadas até então, sendo o presente entendido como um período de transição e ruptura.4 Para Walter Mignolo à modernidade histórica se sobrepõe uma modernidade filosófica, configurada a partir da Reforma, da Ilustração e da Revolução Francesa. A Reforma converteu o mundo exterior (relíquias, 2 Apud MIGNOLO, 2010, p. 53. GUMBRECHT, 1998, p. 12. 4 KOSELLECK, 1993, p. 294. 3 12 ritos) na reclusão da subjetividade individual, afirmando a autoridade do sujeito a partir de sua consciência interna.5 A Ilustração constituiu um espaço público definido a partir de práticas solitárias de leitura. Na perspectiva de Kant, o Iluminismo é mais um processo que se concluiria quando cada um pudesse atuar produzindo textos como sábio e recebendo outros como leitor: “A vocação que todo home tem [é] a de pensar por si mesmo”6. A Ilustração e a Revolução Francesa afirmam a emancipação intelectual do homem comum que, esclarecido, torna-se apto a exercer a cidadania. Após a Revolução a nação instalava-se como conjunto dos cidadãos, como povo, , em lugar e em nome do rei que antes a personificava: surgiriam novos problemas relacionados à interpretação e à representação, decorrentes dessa violenta substituição de um absoluto pelo outro.7 Como não considerar a diferença entre uma nação de vassalos e uma de cidadãos? Ou entre a exaltação da fidelidade e da igualdade? Ou entre uma comunidade coletivamente imaginada como corpo político e outra pensada como sociedade?8 Parece evidente que o projeto moderno da Ilustração pretendeu adotar valores mais democráticos e entendeu a missão do homem enquanto um caminhar universal rumo à emancipação, à conquista da cidadania, da justiça e da igualdade. Uma vez que estes projetos apontavam para um caminho único a ser percorrido se tornou possível hierarquizar as diferentes nações em termos de sua posição nesta corrida. O universalismo deste projeto encontrou obstáculos nas identidades nacionais construídas sob a égide da alteridade e da singularidade. A constante eclosão de guerras tem demonstrado a fragilidade deste tipo de conciliação entre o universal e o particular. Contrastando com a celebração do progresso como tal, têm-se enfatizado os paradoxos entre o que a modernidade preconiza ser e o que, concretamente, ela engendrou para além da Europa. Walter Mignolo entende a história da modernidade, tal como descrita até aqui, como uma retórica. Ao contrário do que ocorre com as leis universais da física, a retórica 5 MIGNOLO, 2010, p. 53. “La vocación que todo hombre tiene [é] la de piensar por si mismo”. (Tradução livre). KANT, 1958, p. 57-58. 7 HARTOG, 2003, p. 24. 8 GUERRA, 2003, p. 35. 6 13 é uma lógica complexa que, para além da razão, envolve valores.9 Assim, um dos objetivos de Mignolo é desconstruir categorias epistemológicas (como a de raça) adotadas por vastos segmentos da filosofia moderna, cuja consequência teria sido cristalizar preconceitos sob uma linguagem científica. Gumbrecht apontou que uma das dificuldades implícitas nesta reflexão se deve ao fato de que a noção de modernidade deter uma historicidade própria que surge como “cascatas”, recebendo a interferência de diferentes conceitos com o passar do tempo. Segundo o autor, sendo a “modernidade” uma noção histórica, e não um conceito sistemático, os problemas inerentes à sua reflexão não podem ser resolvidos via definições transparentes ou mesmo consensuais. Em vez de obter clareza por meio de definições, o historiador estaria obrigado à tarefa de desenvolver descrições cada vez mais complexas e sofisticadas dos momentos e das situações do passado.10 Sendo a modernidade um fenômeno europeu que adquiriu contornos universais, cabe-nos questionar sobre as especificidades dos projetos modernos nas demais partes do globo. A imersão da América Latina neste movimento “natural” do ocidente não foi feita sem contrastes. Parece inegável que a ambição e o fascínio em “ser moderno” transformou o termo em uma espécie de oásis, único horizonte aceitável para as nações, justificando toda sorte de projetos políticos. Visando contribuir para uma genealogia da experiência do tempo e da modernidade no Brasil, propomos como objeto de estudo a análise dos discursos elaborados pelos professores ligados à Escola Normal de Ouro Preto (ENOP) e ao jornalismo em Minas Gerais durante a campanha republicana ocorrida entre 1870 e 1889. Este é um momento privilegiado em que amplos setores da sociedade brasileira questionam as bases da organização política, econômica e social do Império objetivando instaurar o regime republicano, identificado como o único capaz de trazer o progresso e modernizar o país.11 Para compreender a atuação dos professores neste movimento pareceu-nos necessário superar os limites da instituição e ampliar o foco quanto à sua ação na A retórica é definida como uma “teoria geral do discurso persuasivo intelectual e emotivo que visa ganhar adesão de um auditório. Desde que uma comunicação tenda a influenciar uma ou várias pessoas, a orientar seus pensamentos, a excitar ou apaziguar suas emoções, a dirigir uma ação,ela é do domínio da retórica”. PERELMAN, 1993, p. 173. 10 GUMBRECHT, 1998, p. 10-11 11 ALONSO, 2002. 9 14 esfera pública provincial. A história do ensino escolar é um campo crescente no âmbito da história da educação, incorporando as reflexões realizadas pelas tendências historiográficas contemporâneas, alargando as fontes e lançando novos olhares para os mesmos objetos, e, em alguns casos, para as mesmas fontes. Entretanto, o mesmo não se pode afirmar, integralmente, para a história do ensino de história.12 De acordo com Thaís Fonseca as reflexões propostas por Pierre Nora, François Furet, Jacques Ozouf e Mona Ozouf têm sido fundamentais para a compreensão da consolidação da história como disciplina escolar e de seu ensino como questão política relevante para a historiografia. O “caso francês” tornou-se exemplar ao deixar claras as vinculações entre o fortalecimento do Estado, a construção e consolidação de uma identidade nacional coletiva, a afirmação perante outras nações, a legitimação de poderes constituídos e a história enquanto conhecimento social e culturalmente produzido e seu ensino nas escolas. As funções do ensino de história, as possibilidades de acentuação de funções morais e políticas, as disputas pela memória nacional, associadas à história da nação, foram alguns dos aspectos analisados por estudos desta natureza.13 Contudo, Thaís Fonseca salientou que as relações entre o ensino de história e outras dimensões, para além das questões historiográficas e metodológicas, não tem recebido tanta atenção dos pesquisadores. Segundo a autora, muito pouco tem sido feito quando se trata de refletir sobre a circulação e as apropriações do conhecimento histórico nas escolas primária e secundária, atentando-se para as práticas cotidianas relativas ao ensino, inclusive suas manifestações fora do espaço escolar propriamente dito. Sendo a história do ensino de história um campo complexo que, como ressalta Thaís Fonseca, “contém caminhos que se entrecortam, que se bifurcam, estando longe de se circunscrever à formalidade dos programas curriculares e dos livros escolares”, procuramos avaliar suas múltiplas relações com algumas das várias dimensões da sociedade, sua posição como instrumento científico, político, cultural, para diferentes grupos.14 Neste sentido, buscamos analisar o conceito de história e as interpretações da história nacional mobilizadas pelos lentes da Escola Normal de Ouro Preto. 12 FONSECA, 2003. Ibidem, p. 26. 14 Ibidem, p. 28. 13 15 Esta percepção se deu situando-os em um contexto mais amplo, no qual as redes de sociabilidade, a imprensa e a escola como instituição autorizada de construção e disseminação de conhecimento foram tratadas como instâncias que se entrelaçavam. No último terço do século XIX a imprensa se tornava o pilar privilegiado de uma sociabilidade política, colocando em debate os acontecimentos recentes, as reformas do Estado ou os conceitos fundamentais da filosofia política, e os intelectuais ligados à Escola Normal eram um segmento privilegiado no contexto da província mineira. Procuramos aliar a definição de opinião pública em duas instâncias que se entrecruzam. Por um lado, ela compreende a construção de lugares de sociabilidade em que as trocas de experiências se concretizam: a escola, as associações abolicionistas, as redações dos jornais; por outro, torna-se necessário também o entendimento de “opinião pública” como um lugar abstrato ao qual o autor deve se dirigir quando escreve um texto, isto é, o espaço da circulação do escrito entre as pessoas que, ao ler em sua esfera privada, comunicam-se entre si por meio da circulação do impresso. Como sugeriu Roger Chartier, o estudo destas duas realidades devem se vincular e não se opor.15 Desta forma o desafio consistiu em superar a oposição entre os historiadores interessados na circulação de idéias e aqueles que investigam conceitos e liguagens políticas. No Capítulo 1 analisamos os jornais mineiros publicados entre 1870 e 1889 que constam no Arquivo Público Mineiro. Através deste conjunto procuramos avaliar conceitos que se relacionam com a modernidade. Buscamos identificar as relações entre espaço de experiência e horizonte de expectativa, a compreensão do tempo como agente de mudanças e de progresso, bem como as relações entre os conceitos de nação e o povo. Esta operação visou caracterizar o contexto da discussão no qual estavam inseridos os professores e avaliar de que formas eles trouxeram elementos que inovaram o campo de debate. Percebemos que a história havia se constituído como conceito fundamental da linguagem social e política, através do qual os lentes compreendiam o país enquanto imerso em um movimento ocidental de aperfeiçoamento contínuo. Verificamos que eles possuíam aguda consciência de viverem em um processo de transição em que o tempo era visto como agente natural de mudanças. 15 CHARTIER, 2001 16 No Capítulo 2 procuramos reconstituir as redes de sociabilidade intelectual em que os professores ocupavam posições de referência juntamente a mestres das demais instituições de ensino da capital. Os lentes atribuiam a um recente segmento intelectual, do qual faziam parte, a tarefa de guiar o processo de transição entre o arcaísmo do passado, que ameaçava inundar o presente, e um futuro moderno potencialmente superior. A constituição deste futuro, carregado de expectativas positivas, deveria ser efetuada através de ações precisas no presente. Esta ação pôde ser visualizada a partir de dois caminhos interligados: de um lado, as sociabilidades entre os mestres e alunos se concretizaram na criação de associações abolicionistas e na fundação de periódicos, extrapolando os muros da ENOP; por outro, no interior da instituição, os professores reelaboraram os conteúdos curriculares, adotando novos compêndios de história. Por último, no Capítulo 3, analisamos como o projeto moderno sustentado pelos professores implicou um processo de releitura do passado brasileiro e, sobretudo, da história regional – entendida como parcela essencial na construção da identidade nacional. Para tanto, utilizamos como fonte principal o livro Epanáphora histórica de Minas Geraes, publicado às expensas da Inspetoria Geral da Instrução Pública pelo professor Eduardo Machado de Castro em 1884. Se, no tópico anterior, priorizamos a avaliação de artigos de cunho histórico, no Capítulo 3 visamos analisar a constituição de um discurso propriamente historiográfico. Conectado a um projeto moderno de nação, Eduardo Machado de Castro entedia o presente como resultado de um processo histórico marcado pelo despotismo dos governantes portugueses e pelo arcaísmo da organização política, econômica e social da Colônia e do Império que se contrapunha a essência do povo mineiro, naturalmente democrático. Esta perspectiva foi sintetizada no século XX como “nativismo 16 “É impossível lembrar-se de tudo, é impossível narrar tudo”17: toda narrativa comporta uma dimensão seletiva. Pode-se sempre narrar de outro modo, suprimindo, desfocando ênfases, refigurando diferentemente os protagonistas da ação assim como os contornos dela. Configurando e regifurando a narrativa da 16 17 SILVA, 1997. RICOUER, 2007, p. 455. 17 história de Minas Gerais, Machado de Castro constituiu sua identidade pessoal e buscou construir uma identidade coletiva para a província. Durante este processo a dificuldade maior seria a reelaboração da história autorizada, imposta, celebrada, isto é: da história oficial escrita pelos membros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Neste sentido a memória regional dos acontecimentos do tornou-se fundamental para que o professor compusesse uma identidade coletiva regional que se ligava a um processo mais amplo de dominação entre a colônia e a metrópole, os governantes e os governados. Esta identidade não estava ligada à defesa do separatismo, mas à incorporação das perspectivas regionais à história nacional, tornando-a mais complexa ao criar espaço para eventos e abordagens que operavam com a idéia intrínseca de conflito. 18 1 – Nação e modernidade: uma nova geografia do espaço público “Seria uma felicidade para nosso país se os fazendeiros deixassem para trás seu egoísmo anacrônico”. A Vela do Jangadeiro. Edição 18, 31/12/1884 Neste capítulo analisamos a reorganização do espaço público em Minas Gerais e buscamos situar a ação dos lentes da Escola Normal de Ouro Preto neste contexto. A partir da avalição do acervo de jornais constatamos um movimento crescente de ampliação e diversificação na imprensa mineira, cujo elemento diferencial, em nosso entender, é o esforço em identificar-se como veículo imparcial de discussão que se coloca acima de interesses político-partidários. A fundação de três instituições de ensino na capital mineira na década de 1870 – a Escola Normal de Ouro Preto, a Escola de Minas e o Liceu Mineiro – favoreceu a dinamização do espaço público ouro-pretano. Surgiram novas redes de sociabilidade compostas por professores e alunos. Principalmente a partir da década de 1880 estes grupos passaram se organizar para defesa das causas abolicionista e republicana. Assim, eles criaram associações abolicionistas, organizaram meetings e fundaram jornais, criando um novo espaço para expressar suas insatisfações com relação ao governo imperial. Na primeira parte do capítulo avaliamos as relações entre a atuação dos professores e as transformações no espaço público na capital mineira. Na segunda parte relacionamos os debates de cunho histórico empreendidos nos jornais ditos imparciais Enfatizamos os artigos redigidos pelos professores Afonso de Britto e Samuel Brandão, lentes da Escola Normal, nos periódicos Mosaico Ouro Pretano e A Vela do Jangadeiro. Por outro lado, avaliamos os exames formulados pelos professores desta instituição cujos conteúdos remetem à história. Embora estes exames fossem realizados pelos alunos da ENOP, o ensino neste período era caracterizado pela repetição e memorização. De fato, muitas destas provas eram idênticas – a despeito de terem sido realizadas por estudantes diferentes. Diante disso, é possível supor que sejam cópias de resenhas escritas e disponibilizadas pelos próprios lentes. Assim, a análise destes exames não se limita à recuperação do quadro curricular das escolas (que poderia ser analisado através dos compêndios adotados), mas às formas 19 como estes conteúdos eram apropriados pelos professores. Escrever estas resenhas e definir os pontos cobrados nas provas implicava, por si só, uma seleção temática e teórica. Esta metodologia permitiu conhecer como os lentes/redatores elaboravam a narrativa da história do homem, tanto na Escola Normal quanto no espaço público. Por último, centramo-nos nas interpretações que relacionam a história do Brasil à herança portuguesa. Verificamos que, nos jornais e exames, empreendia-se uma reformulação do passado e da memória, nos quais transparece uma experiência de tempo. 1.2 – As fraturas do tempo: professores, espaço público e imprensa mineira Diversos autores ressaltam que as novas práticas de leitura na Europa do fim do século XVIII foram uma condição para a construção da imagem de uma nação moderna, na qual a constituição de um espaço público de discussão e de uma opinião pública teve papel essencial. Questionam-se, neste sentido, as condições que tornaram possível a ruptura com a antiga ordem, isto é, o Antigo Regime. Assim, torna-se importante pensar sobre como as transformações na cultura escrita constituíram um legado para o século XIX. Os movimentos revolucionários procuraram se identificar como a inauguração de uma nova Era. No caso francês isto se ilustra com a constituição de um novo calendário, significando uma ruptura com o passado.18 No Brasil esta idéia se fez presente durante a Independência e, sobretudo, no decurso da campanha republicana do último terço do Oitocentos. Roger Chartier salientou que a “revolução da leitura” foi fundamental para a constituição de um espaço público de debate e para o desencadeamento das revoluções. Diversas fontes – os relatos de viagem, assim como a descrição de costumes – insistem sobre a nova universalidade da leitura presente nos meios sociais no século XVIII. Este movimento não implicaria somente o aumento do público leitor, mas também o surgimento de uma nova forma de ler, na qual a leitura “extensiva” tendeu a se sobrepor a uma leitura “intensiva”. Segundo esta dicotomia, o leitor “intensivo” era confrontado a um corpus limitado e fechado de textos lidos e relidos, memorizados e recitados, compreendidos e conhecidos de cor, transmitidos de geração em geração. Essa maneira de ler era fortemente marcada pela sacralidade, submetendo o leitor à 18 CHARTIER, 2001, p. 117-118. 20 autoridade do texto. O leitor “extensivo”, por outro lado, consumia em profusão os impressos novos, efêmeros. “Ele os lê com rapidez e avidez, e os aproxima com um olhar distanciado e crítico”.19 Esta “revolução da leitura” se relaciona a diversas transformações vividas no século XVIII. A primeira diz respeito ao crescimento e à diversificação da produção impressa. Segundo Roger Chartier, por toda a parte a oferta de livros proliferava. Aumentada intensamente a produção de livros, ela foi igual e profundamente transformada. O livro religioso, que dominava a produção no século XVII e no começo do XVIII, recuou diante das belas-letras ou diante das ciências e artes. Para o autor, a mais espetacular das transformações que afetaram a produção impressa foi o aumento da produção e a mudança dos jornais. A imprensa no Antigo Regime buscava servir de ligação e difusão da vida política da Coroa para um setor mais amplo da sociedade. Essa é uma dimensão coerente com a esfera pública de tipo absolutista, na qual apenas os membros do Estado (em suas diversas instâncias: Coroa, Igreja, tribunais, Corte etc.) tinham legitimidade para atuar em nome do que se definia como interesse comum, o que não eliminava conflitos. Ainda não se consolidara, nessa época, uma esfera cultural que fosse desvinculada do Estado, embora as tensões neste sentido já se fizessem sentir de maneira nítida.20 Os jornais históricos e políticos, após 1770, por outro lado, propunham à opinião pública esclarecida discutir os negócios do Estado. Marco Morel compreendeu a opinião pública como um “operação simbólica que transforma opiniões individuais ou setoriais em opinião geral”.21 Ela se assemelha a uma “opinião com peso para influir nos negócios públicos, ultrapassando os limites do julgamento privado”.22 Morel situa a consolidação desta noção nos quadros do fim Contra esta tipologia, organizada numa cronologia que distingue um “antes” e “depois” da leitura as críticas foram muitas. De fato, os letrados humanistas, por exemplo, designam uma prática que acumula as leituras, pelo procedimento de trechos, compilações, confrontações, etc. Neste caso, já se usa uma forma de exercício de crítica filológica. Por outro lado, o romance do século XIX é lido e relido, decorado, citado, recitado. Seu leitor é invadido por um texto que o habita; ele se identifica com os heróis da história; decifra sua própria vida por meio da ficção e da intriga. Nessa leitura “intensiva” de um novo modelo é a sensibilidade inteira que se encontra empenhada. Essas constatações colocam em dúvida a validade de uma oposição dividida entre dois estilos de leitura considerados irredutíveis e consecutivos. Para Chartier, no entanto, esta crítica não deve implicar o abandono da própria idéia de uma “revolução da leitura” no século XVIII, uma vez que se deve levar em conta as mutações objetivas que transformaram a relação com a escrita em toda a Europa ocidental. CHARTIER, 2009, p. 95-96. 19 20 MOREL, 2005. Ibidem,, p. 100. 22 Ibidem, p. 101. 21 21 do Antigo Regime francês. Segundo o autor, a opinião pública se politiza diante da crise da monarquia francesa e passa a se identificar com a formação de um espírito nacional: “a legitimidade desloca-se do poder do rei, proclamado como absolutista, para um “tribunal” acima dos poderes, o Tribunal da Opinião Pública”.23 Para além dos livros filosóficos que circulavam durante o Setecentos, também as obras pornográficas, antigas ou novas, e toda a produção de libelos, panfletos e crônicas escandalosas, atacavam e denunciavam a aristocracia, a corte, a rainha e, finalmente, o rei, em princípio sob dois expedientes: a corrupção despótica da monarquia e os desvios dos meios aristocráticos ou cortesãos.24 Assim, a imprensa se tornava o pilar privilegiado de uma sociabilidade política, colocando em debate os acontecimentos recentes, as reformas do Estado ou os conceitos fundamentais da filosofia política.25 A constituição de uma esfera pública de debate define um espaço público novo nos Estados da América Latina no século XIX. Este espaço se fundamenta em novas formas de sociabilidade, no encontro entre pessoas privadas que discutem e criticam os assuntos de Estado nos cafés, clubes, salões, sociedades literárias etc. Estas são formas de sociabilidade em que os sujeitos fazem exercício público de sua razão, de sua razão crítica da autoridade, seja da Igreja ou do Estado. A construção deste espaço público geralmente encontra resistências por parte das autoridades. 26 A invenção de Gutenberg era considerada um momento chave na história dos progressos da humanidade pois ela permitiria, no futuro, a realização do projeto Iluminista, isto é: que cada um pudesse atuar como crítico graças ao intercâmbio do escrito. A partir da alfabetização se chega, ao longo dos séculos XIX e XX, à definição da leitura como acesso à cultura, a um mundo de obras que devem permear a mente e a ética. Isto inclui o jornal não como um lugar propriamente dito, mas como um elemento proporciona uma forma de comunicação diversos ambientes. Se o processo de invenção da privacidade é condição de uma nova definição do público, ao mesmo tempo ela define uma rede de intercâmbio de idéias, juízos e críticas que 23 MOREL, 2005, p. 102. 24 DARNTON, 1986, p. 277-322.; Idem, 1998. CHARTIER, 2009, p. 96. 26 Idem, 2001, p. 64-65. 25 22 compõem um contexto discursivo.27 A imprensa se relacionou também ao fortalecimento da consciência nacional. Embora a leitura do jornal seja uma operação individual, durante o próprio ato, o leitor se conscientiza de que a mesma informação está sendo compartilhada por outros, embora nem sempre possua idéia de suas identidades. 28 Assim, os periódicos acabaram por constituir uma identificação entre os povos que compartilhavam um mesmo governo, uma mesma língua e as mesmas notícias. Ao noticiar, o jornal criava uma “comunidade imaginada” entre os leitores, à qual pertenciam navios, noivas, bispos e preços, e à qual pertence também o leitor: é ele que justapõe estas notícias e relaciona uns eventos a outros, criando um sentido para o conjunto e uma imagem de si inserido neste conjunto. No Brasil oitocentista a ordem escravocrata e os restritos segmentos alfabetizados eram empecilhos para que a atividade jornalística fosse ampla e lucrativa. Entretanto, a liberdade de imprensa tendeu a ser entendida como essencial à formação de um espírito público.29 Graças à postura do imperador D. Pedro II, obstinado defensor destes valores, a imprensa no Segundo Reinado gozou de pluralidade e autonomia. Assim, quem se debruça sobre a imprensa ilustrada do período se depara com inúmeras caricaturas do imperador, imagens que contribuíram para criar entre ele e seus súditos uma ponte, tornando familiares sua aparência e vestimentas, como o manto e a coroa. Isto não significa que houvesse consenso acerca dos excessos praticados por alguns articulistas e, às vezes, Interpretar o pensamento dos escritores políticos a partir de seu “contexto lingüístico” é uma idéia cara a John Pocock. A tarefa de reconstituição de um contexto lingüístico é complexa, pois não envolve somente delimitar a época e o lugar em que supostamente operou, mas também estudar tanto os grandes autores (cânones), quanto autores menos conhecidos. A leitura dos textos concretos, dos problemas e das polêmicas que os autores travaram entre si permitem estabelecer uma hipótese sobre a gramática das linguagens políticas empregadas, à qual fornece um substrato para as intervenções dos autores. A definição de um contexto discursivo pressuporia, assim, o esforço em decifrar a gramática mais profunda que se supões estar nos textos estudados: seus termos básicos, as ocasiões típicas em que são empregados, o modo pelo qual se complementam e se opõem etc. POCOCK, 2003. 28 ANDERSON, 1989, p. 35. 29 Em 1821 D. João VI decretou a abolição da censura prévia e regulou a liberdade de imprensa. Sabe-se que o decreto não terminou com a censura, mas alterou a maneira de exercê-la, sendo aplicada nas provas impressas, e não sobre os originais manuscritos. Por ironia, o próprio imperador cometeu o primeiro ato de censura, que consistiu na apreensão de uma publicação anônima em defesa dos ideais libertários intitulada Heroicidade Brasileira. As sucessivas crises políticas favoreceram o aparecimento dos pasquins, que se distinguiam pela violência da linguagem, calúnia e difamação de terceiros. CARVALHO, 1996. A memória do assassinato de Libero Badaró, redator d’ O observador Constitucional (1829), possivelmente causava desconforto aos redatores mais radicais. Os excessos praticados nesses jornais eram freqüentes, resultando no surgimento da figura do testa-de-ferro ou homem de palha, cuja função era esconder a identidade dos responsáveis pelas agressões explícitas nos jornais. 27 23 represálias.30 Em Minas Gerais, excetuando-se algumas vozes dissonantes, a imprensa conjugava-se explicitamente a serviço dos partidos Liberal e Conservador, atrelados a grupos familiares condicionados a interesses econômicos específicos e afinidades intelectuais. A grande maioria dos periódicos, portanto, identificavam-se às claras como órgãos destes partidos, servindo como porta vozes de suas opiniões e ações políticas. Esta relação entre a imprensa e a o dualismo político oficial era comum também nas demais províncias e mesmo na Corte. Tal quadro se mostrou relativamente estável, como fora aparentemente estável o Segundo Reinado, em que os conservadores dominaram o executivo por 26 anos e, excluídos aqueles em que a Liga Progressista (1862-66) assumiu o gabinete, seu domínio foi ininterrupto entre 1848 e 1878. A Liga Progressista consistiu em uma divisão interna entre estes partidos. Persuadidos pela necessidade de mudanças e desacreditados da vontade saquarema em realizá-las, personalidades como Nabuco de Araújo, Zacarias de Góes, Sinimbu, Saraiva e Paranaguá se uniram à ala mais moderada dos liberais para formar a Liga. Enfrentando objeções da oposição, agora formada por parte de ambos os partidos, e lidando com acontecimentos extraordinários como a Guerra do Paraguai, este grupo perdeu força e finalmente se desfez entre 1866 e 1868. Os conservadores retomaram os principais ministérios.31 30 Na segunda metade do século ocorreu um novo surto de pasquins; durante a Guerra do Paraguai (1860-1868) o jornalista Apulco de Castro chegou às últimas conseqüências em seu pasquim O Corsário e terminou assassinado por militares ofendidos com suas maledicências. MARTINS, 2008, p. 61-63. Por estas razões, a censura prévia passou a ser defendida por alguns. Entretanto, ela poderia ser realizada de forma mais sutil. Em 1871, o jornal republicano O Jequitinhonha, de Diamantina, encerrou suas atividades após sofrer pressões de membros do Partido Conservador. A notícia foi anunciada com escárnio e ironia n’ O Noticiador de Minas: “vai uma importante e estrondosa notícia política. O que será? Pergunta o leitor aterrado, proclamou-se a república Diamantinense, temos o comunismo? Nada, não senhor, é cousa mais modesta. Finou-se o periódico republicano desta cidade – O Jequitinhonha. [...] o meu ânimo se inclina a seguir aqueles que dão a morte como efeito de um inesperado e violento ataque homorroidal. Outros, porém, atribuem o fato como consequência de uma indigestão de republicanismo, alimento pouco substancial ultimamente descoberto e preparado na corte em uma hospedaria, em cuja tabuleta se lê – Club republicano. A ser verdade a última versão, sirva de exemplo o triste caso do Jequitinhonha. Se não fosse a conhecida sofreguidão do pobre finado em ingerir todas as substancias preparadas no hotel do Club e da Reforma, ainda o teríamos vivo e brilhante de mocidade, prestando serviços ao país”. Segundo o redator, “assim como Júpiter, do alto do Olimpo, serena as tempestades e aplaca os ventos que cavam o oceano, com um só sorriso, assim também a celeuma se acalmou com um só olhar imponente do chefe, que a seu bel prazer distribuiu o lugar e ordenou a cerimônia”. Noticiador de Minas. Ouro Preto, edição 272, 04 de fevereiro de 1871. APM. (Grifos do redator). 31 ALONSO, 2002, p. 72-73. 24 Ainda na década de 1850, criou-se a profissão de jornalista e firmou-se a de tipógrafo.32 Ao lado dos avanços técnicos que baratearam os custos da tipografia, a constituição de ferrovias e o telégrafo aceleraram a circulação dos impressos.33 Neste contexto a ascensão da Liga, primeira dissidência favorável a reformas mais profundas e estruturais, motivou a criação de novos periódicos que extrapolavam a tradicional polaridade entre Conservadores e Liberais. A postura reformista da Liga motivou a expressão de manifestações claramente ruptivas em relação à organização política e social monárquica. Amplamente divulgadas através da imprensa, as críticas evidenciavam o crescente dissenso sobre os rumos da nação. Os liberais se dividiram, formando o Partido Liberal Radical em 1868 e o novo Partido Liberal, dos moderados, em 1869. A ala moderada passava a reunir diversos colaboradores da Liga Progressista. O manifesto do novo Partido Liberal defendia a necessidade de fazer as reformas para impedir uma revolução. A ala liberal radical ressuscitava o programa do liberalismo regencial, fundando em 1870 o Partido Republicano. Entre outras coisas, propunham um regime federativo e a abolição da escravidão.34 Estas discussões não passavam ao largo da província mineira: entre 1870 e 1889 mais de 60 títulos de periódicos circularam em Minas Gerais. A heterogeneidade de seus conteúdos, tipografias, periodicidade, redatores e duração – alguns chegavam apenas à terceira edição, enquanto outros ultrapassavam as centenas – aponta para três novas situações: por um lado, a imprensa possivelmente se tornou um canal de expressão acessível a um número maior de pessoas; por outro, indica também um desejo maior, por parte da população civil, de participar do debate público. Por último, o crescimento desta imprensa remete a uma ampliação do público leitor. Neste processo de instituição da imprensa como veículo público, leitor e autor exerciam papéis diferentes: enquanto o primeiro se reconhece como parte de um todo mais amplo, o redator é o responsável pela criação/descrição deste mundo, 32 MARTINS, 2008, p. 52. Na década de 1870 alargou-se o espectro de grupos com recursos técnicos e financeiros para montar jornais e tipografias. No auge da mobilização dos liberais radicais, entre 1870-1872, surgiram dezenas de pequenos jornais de cunho republicano, especialmente na Corte. Em 1874 a instituição de um cabo telegráfico submarino permitiu uma conexão mais rápida entre o Brasil, a Europa e a América, e mesmo das capitais das províncias entre si. ALONSO, 2002., p. 277-278. 34 Aprofundando-se na análise sobre o movimento republicano brasileiro no último quartel do século XIX, José Murilo de Carvalho considera que havia diferentes projetos republicanos no período. CARVALHO, 1998, p. 155-188. 33 25 desempenhando papel mais ativo. De certa forma, a imprensa narra a vida social, mas, ao mesmo tempo, a organização da sociedade na qual ela se insere condiciona o caráter que esta imprensa pode ter. No último quartel doséculo XIX a imprensa brasileira se ampliava, ganhava vozes dissonantes em relação aos partidos políticos. O levantamento dos jornais mineiros revelou que Ouro Preto era o núcleo do espaço público provincial. Esta centralidade possivelmente se relaciona a seu status de capital: como sede das decisões políticas regionais, a cidade era um local propício a calorosas discussões e intrigas partidárias – debates que, muitas vezes, se tornavam públicos através dos jornais. O caráter de capital propiciou um processo de urbanização específico, relacionado à burocracia regional. Ainda no século XVIII, abrigava grupos letrados que davam vida a academias literárias e mesmo a uma restrita imprensa local. Este contexto contribuiu para a formação de um pequeno espaço público, parte de um projeto iluminista de ilustrar, esclarecer ou levar as luzes à população. Entre os mais de 60 títulos de periódicos contabilizados na província entre 1870 e 1889, pelo menos 29 deles estavam localizados em Ouro Preto – quase 50% do total:35 Durante a década de 1860 o jornalismo provincial ainda estava fortemente ligado às tradições partidárias, identificando-se em geral como Liberais (5 títulos) e Conservadores (3 títulos): Gráfico 1 - Jornais Mineiros 1860-1869 Conservadores Liberais Outros Na década de 1870 circularam 15 títulos de periódicos na província e esta dinâmica se manteve. Havia 5 jornais conservadores (O conservador de Minas; O 35 Este levantamento de jornais mineiros teve como base o acervo do Arquivo Público Mineiro. Os acervos da Biblioteca Nacional e da Hemeroteca Pública do Estado de Minas Gerais não foram contemplados. Temos motivos para acreditar que o número de jornais fundados neste período foi ainda maior. A lista completa dos periódicos contemplados nesta pesquisa está descrita na bibliografia. 26 Sete de Abril; O puritano; O constitucional; A província de Minas) e 3 periódicos liberais (A actualidade; Theóphilo Ottoni; Echo do sertão). Porém, paralelamente, surgiram mais impressos situados à margem do dualismo político oficial, como jornais republicanos (Colombo, O Jequitinhonha, O Phrarol), religiosos (O bom ladrão), escolásticos (O Patusco) e imparciais (Mosaico Ouro Pretano). Gráfico 2 - Jornais Mineiros 1870-1879 Conservadores Liberais Republicanos Imparciais Outros Na década de 1880, período marcado por vigorosa expansão dos impressos, os jornais mineiros, em sua maioria, passaram a refletir uma demanda geral por imparcialidade na opinião pública. Solidificava-se uma ética segundo a qual acima dos oportunismos particulares e partidários, a imprensa deveria defender os interesses gerais do povo e da nação – sintetizados sob o conceito de progresso. Segundo uma de nossas hipóteses a fundação de instituições de ensino em Ouro Preto foi um elemento relevante nesta transformação qualitativa e quantitativa da imprensa. No prédio que comportava a Escola de Farmácia de Ouro Preto foram instauradas duas escolas em 1871: o Liceu Mineiro, destinado ao ensino secundário, e a Escola Normal de Ouro Preto, destinada à formação de professores para o ensino primário. Em 1876 a Escola de Minas de Ouro Preto foi criada pelo imperador e, em 1884, os engenheiros abolicionistas Chockatt de Sá e Archias Medrado estabeleceram o Liceu de Artes e Ofícios. Boa parte do corpo docente destas escolas era composto por indivíduos que estudaram na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco ou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Não fosse a criação das instituições de ensino na capital mineira estes letrados teriam um campo de trabalho mais restrito, como negócios de família, empresas de mineração, cargos na burocracia, política ou a advocacia. Nestas situações estariam lidando com indivíduos já radicados na província, inseridos em redes de sociabilidade estabelecidas e limitadoras. Contudo, 27 as escolas criaram um espaço de atuação novo e relativamente autônomo na capital. Este espaço pode ser considerado novo porque os professores lidariam com alunos provenientes de diversas regiões da província e do Brasil. Não eram raros os casos de jovens que migravam para Ouro Preto a fim de terminar os estudos no Liceu Mineiro, considerada uma instituição preparatória para ingressar na Escola de Minas. O quadro docente do Liceu, por sua vez, era o mesmo da Escola Normal e seus quadros curriculares, muito semelhantes. Distanciados das sociabilidades estabelecidas na capital, estes alunos se sentiam, em alguma medida, como estrangeiros na cidade e, portanto, mais livres para se contrapor à realidade local.36 Por outro lado, este espaço era também relativamente autônomo pois havia certo consenso de que a educação deveria estar acima de interesses partidários. Esta perspectiva pôde ser recuperada através de um debate que ocupou várias páginas não apenas nos jornais mineiros, mas até mesmo no periódico O Globo, do Rio de Janeiro, quando Eduardo Machado de Castro foi contratado como lente de história e geografia da ENOP e do Liceu Mineiro em 1876.37 A concentração de mestres e alunos na capital mineira, portanto, constituiu novos grupos em um ambiente marcado por maior liberdade intelectual justamente no momento em que o republicanismo se fortalecia entre os setores progressistas no Segundo Reinado. Isso explicaria, em parte, a ampliação do número de títulos criados na década de 1880 e a continuidade da centralização da imprensa em Ouro Preto. Para se ter uma idéia deste dinamismo basta lembrar que, dos 65 títulos de periódicos publicados em Minas entre 1870 e 1889, 50 foram criados a partir de 1880 – a grande maioria na capital. Podemos estabelecer uma relação entre o discurso dos mestres e a demanda pela constituição de uma opinião pública apartidária e imparcial que representasse 36 PIRES, 1939. Estas cadeiras eram ocupadas, até então, pelo bacharel Manoel Joaquim de Lemos, advogado conhecido em Minas por defender a causa abolicionista, representar escravos judicialmente e ser membro afamado do Partido Liberal. O Globo se manifestou sobre a demissão afirmando que "o partido liberal, em seus hábitos de converter tudo em armas da oposição", associou a demissão de Lemos à perseguição política. Entretanto, "a demissão do Sr. Lemos foi um ato de justiça [...] pois ele poucas vezes aparecia e ao final dizia geralmente que não tinha alunos". Assim, como prova de que “o Sr. Exm. Barão da Vila da Barra não desvia liberais do funcionalismo com vistas de dar ganho de eleição a conservadores”, o jornal acentua que seu substituto “ é um liberal, pessoa habilitada e de índole mais adaptada ao magisterio público, o Sr. Eduardo Machado de Castro”. 37 De fato, ao analisar a documentação referente ao ponto dos professores da ENOP e do Liceu, constatamos que Manoel Joaquim de Lemos era um dos lentes mais faltosos destas instituições. Na mesma perspectiva, Machado de Castro era mais que um liberal: era republicano. O Globo. Rio de Janeiro, edição 274, 10 de outubro de 1876. Biblioteca Nacional. 37 28 os interesses do povo e fosse um canal respeitado de diálogo entre a população civil e o governo. A construção desta esfera era vista como essencial para a constituição de uma nação moderna. Segundo nosso levantamento o primeiro periódico a defender abertamente a imparcialidade em sua epígrafe foi o Mosaico Ouro Pretano, fundado em 1877 e publicado duas vezes por semana. A relação entre as instituições de ensino e a transformação do espaço público da capital começa a se definir. Um dos mais atuantes colaboradores deste veículo era Afonso de Britto – latinista e lente do Liceu Mineiro e da Escola Normal. O discurso do professor era abertamente desfavorável ao Partido Conservador, mas, no entanto, também não se mostrava plenamente satisfeito com os liberais: Hoje e sempre só a democracia é que não vacila em sacrificar aos interesses da pátria os interesses individuais. Atravessamos felizmente uma época em que o povo não se deixa seduzir por quimeras [...]. Os males sociais estão incontestavelmente patentes, denunciados por conservadores e liberais.38 Esta citação exprimia a proposta da redação: as idéias ali defendidas deveriam almejar somente o bem comum da nação, posicionando-se acima dos dissensos políticos e dos interesses particulares. Entretanto, o jornal publicou uma série de artigos intitulados “catecismo do bom republicano” em que a República surgia como alternativa ao dualismo partidário oficial.39 As críticas se destinavam aos costumes políticos nacionais os quais eram identificados com a manutenção do Antigo Regime no Brasil e apontavam para a necessidade de mudanças urgentes que modernizassem a nação. Esta tendência seria seguida por grande dos jornais mineiros na década de 1880. O debate se popularizava. Ao lado das já conhecidas epígrafes “Órgão do Partido Liberal” ou “Órgão do Partido Conservador”, que cada vez mais se escasseavam, a temática dos novos jornais variavam entre veículos “literários”, “noticiosos”, “abolicionistas”, “industriais”, “populares” ou “que defendem os interesses do povo”, “defensores da lavoura, comércio e instrução pública”, “comerciais”, “defensores das idéias adiantadas”, “de cunho social, democrático e crítico” e, por fim, ao menos sete deles se identificavam como “imparciais”, “de 38 39 Mosaico Ouro Pretano. Ouro Preto, edição 118, 09 de março de 1878, p. 01. APM. Mosaico Ouro Pretano. Ouro Preto, edição 176, 01 de março de 1878, p.02-03. APM. 29 completa neutralidade política” ou simplesmente se comprometiam a “dizer a verdade”. Muitas vezes estes predicados se sobrepunham, mas é interessante notar que, geralmente, a característica “imparcial” estava ligada à “popular” ou aos “interesses do povo”. Gráfico 3 - Jornais Mineiros 1880-1889 Conservadores Liberais Republicanos Imparciais Monarquistas Outros A constituição de novas temáticas e os sentidos modernos atribuídos a palavras antigas indicam que os leitores deste recém constituído círculo de opinião estava cada vez mais inclinado a concordar com a necessidade da modernização do país – entendida, entre outros tópicos, como: a ampliação do trabalho livre; a moralização e racionalização das ações políticas; a modernização econômica, à qual se agregava a criação de novas técnicas agrícolas, a indústria, as estradas de ferro, a energia elétrica, a emancipação dos escravos, a imigração, o equilíbrio entre a grande e a pequena propriedade, a ampliação da educação etc. Neste movimento os professores exerciam papel mais ativo, seguido por um séquito de alunos. Expressando-se através dos jornais e atuando nas instituições de ensino, inseriram argumentos que remetiam à noção de modernidade e disponibilizaram um novo norte para ampla porção da opinião pública regional.40 40 Era bastante comum a permuta de periódicos entre o interior e a capital mineira, potencializando a circulação das idéias e transformando os escritórios das redações um pequeno espaço de leitura e sociabilidade, conforme demonstra o trecho, largamente encontrado nos mais diferentes periódicos: “os nossos assinantes encontrarão no nosso escritório à disposição os periódicos que se dignam a permutar conosco e que, nesta quinzena, foram: O Itajubá, Monitor Sul-Mineiro, La voce del Popolo, Pharol, Aguas Virtuosas, Monitor Uberabense, Liberal Mineiro, a Lucta, o Wagon, o Baependyano, Gazeta de Barbacena, Correio do Norte, Le messager du Bresil, Municipio Itapecericano, Volitivo, Gazeta Mineira, Lincoln, Luzeiro, Voz do Povo, a Verdade, a Casa- Branquense, a Província de Minas, a Bagagem, e o Oeste de S. Paulo”. A Vela do Jangadeiro. Edição 11, 07 de setembro de 1884. APM. 30 1.2.1 – Tempo, progresso e modernidade: nação e história na imprensa mineira A definição de esfera pública adotada pelos lentes exprime uma concepção moderna e democrática de nação que se espelha no Iluminismo francês. A transformação deste conceito se vincula às mudanças que gradualmente modificaram a fisionomia política das monarquias espanhola e portuguesa, cujo desfecho foi a emergência de novas unidades políticas no Novo Mundo concebidas como nações.41 No caso de Portugal, o vocábulo nação era pouco utilizado no século XVIII pois as elites preferiam os termos reino ou monarquia, às vezes empregados como sinônimo de Estado, abarcando a metrópole e seus territórios ultramarinos. A Coroa portuguesa, diferentemente da espanhola, não parecia admitir em seu seio comunidades que se consideravam nacionais, possivelmente devido à sua trajetória como reino único por séculos. No dicionário elaborado por Raphael Bluteau na primeira metade do século XVIII nação significava: “Nome coletivo, que se diz da Gente que vive em alguma grande região, ou Reino, debaixo do mesmo Senhorio”.42 A sobrevivência da nação portuguesa, para muitos teóricos, procedia da manutenção da monarquia. Um dos mais prestigiosos autores que sustentavam este princípio era Pascoal do Melo Freire, autor de Instituições de Direito Civil Português (1788). Outros estudiosos, como Antonio Ribeiro dos Santos, distinguiam os direitos de El Rei dos da nação, invocando a existência de leis fundamentais proclamadas nas Cortes de Lamego.43 Todavia, a novidade da linguagem política que se impôs a partir da Revolução Francesa, amplamente divulgada através de distintos veículos e gêneros disrcursivos, exerceu profunda influência na Península Ibérica e em seus reinos.44 No fim do século XVIII diversos enciclopedistas franceses relacionavam a soberania política à vontade da maioria da população, direcionando críticas incisivas aos privilégios da nobreza e do clero. Os discursos de Diderot WASSERMAN. “El concepto de nación y las transformaciones políticas en Iberoamérica (1750-1850)”. Disponível em <foroiberoideas.cervantesvirtual.com/foro/data/adm31884.doc.> Acesso em (23/07/2010). 42 BLUTEAU, 1712-1728, p. 658. 43 WASSERMAN. Op. Cit. 44 GUERRA, 2003, p. 33. 41 31 exemplificam estas novas conexões: La couronne, le gouvernement, l‟autorité publique sont des biens dont le corps de la nation est propriétaire, et dont les princes sont les usufruitiers, les ministres es les dépositaires [...]. Partout la nation est em droit de maintenir, envers et contre tous le contrat qu‟elle a fait; aucune puissance ne peut le changer et, quand il n‟a plus lieu, elle rentre dans le droit et dans la pleine liberté d‟en passer um nouveau avec qui et comme il lui plât. 45 Em 1807 a Corte portuguesa abandonou Lisboa diante o avanço das tropas francesas e se transferiu para a colônia luso-americana que, em 1815, teve seu status elevado sob o título Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.46 Em 1820 a cidade do Porto iniciou um movimento que, entre outras demandas, reivindicava o retorno imediato da família real para Portugal. Ao longo dos violentos debates promovidos neste contexto se observa a evocação de distintos referenciais sobre a nação e os vínculos entre suas partes. Esta querela adquiriu maior intensidade no período conhecido como vintismo (1820-1823). Em 1822, José Bonifácio entendia que “é incontestável que ela [a nação portuguesa] é sempre a mesma; que os mesmos sentimentos a animam, quer habite 45 “A coroa, o governo, são bens de que a nação é proprietária e dos quais os príncipes são usufrutuários, os ministros os depositários [...]. Em todas as situações, a nação tem o direito de manter para com – e contra – todos o contrato que ela fez; nenhum poder pode mudá-lo e, quando ele não mais existe, ela recupera o direito e a plena liberdade de fazer um novo com quem ela quiser e como é de seu agrado”. VENTURI, 2003, p. 149. A tradução e publicação da obra do britânico Shaftesbury, Principies de la philosophie morela eu essai de M. S. Shaftesbury sur le mérite et la vertu, feita por Diderot em 1745, teria estabelecido uma das pontes mais sólidas e duradouras entre o livre-pensamento britânico e o enciclopedismo francês. Ainda na primeira metade do Setecentos Shaftesbury opunha uma ética constituída por uma sociedade toda mundana, dirigida à realização da felicidade entre os homens na Terra no lugar das formas tradicionais de religião baseadas na revelação. Estas concepções teriam levado o britânico a constituir um sentido original das noções de nação e patriotismo. Cosmopolita, o novo patriotismo estaria indissoluvelmente ligado à liberdade, sendo inconcebível ou absurdo fora dela, e só poderia ser experimentado por “aqueles que realmente possuem um país e pertencem àqueles que podem ser chamados povo, desfrutando a felicidade de uma constituição e cidadania verdadeiras, por meio das quais são livres e independentes. O poder absoluto anula o público, e onde não há o público, ou uma constituição, não há na verdade uma terra mãe ou uma nação […]. Uma multidão unida pela força, ainda que sob uma mesma cabeça, não está verdadeiramente unida e não constitui um povo. É o vinculo social, a confederação e o consentimento mútuo, fundados em algum bem ou interesse comum que une os membros de uma comunidade e a transforma em um povo”. Ibidem, p. 142. Esta nova noção de patriotismo se apresenta de tal forma que todos os homens podem e devem entendê-lo. Ele é universalmente humano e cosmopolita, carregando um conteúdo moral e político moderno. Por outro lado, Rousseau tenderia a identificar o que considerava a imoralidade dos governantes do Antigo Regime a um defeito do próprio sistema monárquico com o qual era necessário romper. 46 WASSERMAN. “El concepto de nación y las transformaciones políticas en Iberoamérica (17501850)”. Disponível em <foroiberoideas.cervantesvirtual.com/foro/data/adm31884.doc.> Acesso em (23/07/2010). 32 um, ou outro hemisfério”.47 Entretanto, não havia consenso acerca disso. Durante os debates nas Cortes Constituintes o padre Diogo Antônio Feijó representava uma postura mais radical: Um homem não pode impor leis a outro homem; um povo não tem direito algum a obrigar outro povo a sujeitar-se às suas instituições sociais. O despotismo tem podido atropelar estas verdades, mas o sentimento delas ainda não pode ser de uma vez sufocado no coração dos homens [...]. Soberano Congresso, o Brasil já sabe que a Constituição é o estabelecimento da ordem [...]. É portanto de necessidade que ou se assinais às nossas requisições, ou que rejeitais a nossa associação. Nós ainda não somos deputados da nação, a qual deixou de existir desde o momento que rompeu o antigo pacto social.48 As cortes expressaram a fragilidade dos laços entre as províncias lusoamericanas e a vinculação mais firme que tinham algumas delas com Portugal. Esta situação foi se transformando paulatinamente a partir de 1822, quando se aprofundaria o decurso de separação que culminou com a criação do Império do Brasil consagrado na Constituição de 1824. Os sentidos implícitos no conceito de nação brasileira foram ampliados em relação à definição de reino. A legitimidade do novo país teve como base a continuidade dinástica, considerada a expressão de uma nação preexistente que compartilhava uma cultura, uma língua, uma religião, um território e um passado histórico comum. O processo de construção de uma identidade nacional brasileira após a Independência foi longo e marcado por contradições, principalmente no que diz respeito à escrita da história. O passado colonial tenderia a ser interpretado como uma longa história de opressão e desperdício. Esta concepção calhava: o despotismo metropolitano em relação à colônia era um argumento central pois ao mesmo tempo que justificava a emancipação do Brasil, responsabilizava o absolutismo português por todas as mazelas da sociedade no presente. O rompimento deste fluxo instaurava um recomeço, a possibilidade de um novo futuro, contudo a manutenção de um 47 José Bonifácio argumentou que era uma pretensão descabida que Portugal, uma “mínima parte do território português” e “sua povoação estacionária e acanhada” quisesse ser “o centro político e comercial da nação inteira”. No decorrer do ano de 1822 Bonifácio tenderia a entender as cortes portuguesas como uma ameaça à unidade do Império, acusando os liberais do Porto de empreender uma tentativa de “retrogração colonizadora”, retirando ao Brasil direitos adquiridos – apropriandose do discurso político de alguns setores da elite luso-americana que procuravam identificar as Cortes como projeto recolonizador e com o absolutismo. Bonifácio acabaria por apoiar o processo de Independência. Representações e Ofícios (1822). In.: ARAUJO, 2008a, p. 60-65. 48 Diário das Cortes Constituintes, sessão de 25 de abril de 1822. In.: BERBEL, 1999, p. 155. (Grifos nossos). 33 monarca luso poderia ser um indício dos limtes desta ruptura. Durante a criação do IHGB, em 1838, esta percepção sobre o passado colonial era preponderante, como revela o discurso feito por Januário da Cunha Barbosa quando procurou definir quais os objetivos do Instituto Histórico: O intolerante monopólio, mola principal da administração portuguesa nos tempos do absolutismo, estendia-se também à publicação dos escritos dos nossos literatos, e por isso ou morriam nos gabinetes particulares sem verem a luz da estampa, ou então eram mutilados, para que se acomodassem ao sistema de seu monopólio, como a água tomando a forma do vaso que a enche”.49 Aliado ao projeto de escrever uma história geral do Brasil, o IHGB objetivava levantar e organizar um grande volume de documentos, os quais eram entendidos como indispensáveis para a escrita de uma história verdadeira. Entretanto, a partir de 1840 a leitura do passado colonial como despotismo se enfraqueceu e foi gradualmente substituída pela associação entre a o processo de colonização e a difusão da civilização. Sob a direção de Aureliano de Sousa e Oliveira Coutinho o Instituto recebeu o patrocínio direto do imperador D. Pedro II, tornando-se um lugar oficial e autorizado de escrita da história.50 Segundo o ministro Aureliano Coutinho esta chancela seguia uma longa e antiga tradição portuguesa em que os monarcas ilustrados apoiavam academias; esta operação afastava as opiniões correntes de que Portugal sempre fora retrógrado. Destacava-se a continuidade do progresso da nação – e não do atraso –, que estaria segura caso o imperador mativesse a trilha de seus antepassados.51 Este horizonte forneceria a linha mestra para a escrita do livro História Geral do Brasil, publicado em 1854 por Francisco Adolfo Varnhagen, em que se atribuiu conotação profundamente positiva ao processo de colonização portuguesa. Apesar da proeminência da obra de Varnhagen a percepção de que havia algo problemático em relação ao legado colonial esteve presente durante todo o século XIX na mente de pensadores de várias vertentes políticas. Embora a memória 49 BARBOSA, 1839, p.11. (Grifos nossos). 50 Aureliano de Sousa e Oliveira Coutinho (1800-1855) era um dos principais articuladores do golpe da maioridade, e foi sagrado ministro dos negócios do primeiro gabinete do Segundo Reinado. Sua ascensão à presidência do Instituto coincidiria com a primeira sessão que o Imperador honraria com a presença, caracterizando-se por uma “confraternização ente aliados, amigos, e de legitimação mútua”. ARAUJO, 2008a, p. 158. 51 Ibidem. 34 coletiva sobre as diversas sedições regionais fosse pouco explorada no interior do IHGB elas se mantinham vivas em nível regional, transmitidas oralmente de geração em geração. Assim, muitos grupos não se identificavam com versão da história nacional narrada pelos autores do Instituto. A indisposição dos segmentos mais progressistas ligados ao Partido Liberal após a destituição da Liga Progressista desencadeou um processo de disputa pela memória nacional e outras versões da história começaram a ser elaboradas a partir da década de 1860. Sob esta perspectiva se salientava a necessidade de ruptura com a tradição portuguesa, abrindo espaço para temas que operavam com a idéia de conflito ao mesmo tempo em que despontava o interesse pelas lutas de Independência nas províncias. Desligados das esferas oficiais de escrita da história, muitos destes letrados se voltaram para a imprensa para dar voz às suas opiniões, voltando a identificar os males do Brasil ao passado colonial.52 Os jornais mineiros indicam um movimento semelhante. No último terço do Oitocentos diversos textos e artigos de cunho histórico foram amplamente disseminados em Minas através de espaços não oficiais ou oficiosos, isto é: não sustentados pela administração monárquica, como os jornais, ou indiretamente financiados, como a Escola Normal – custeada pelos cofres provinciais. Buscamos recuperar estes debates propondo a relação entre duas atuações: a imprensa e a Escola Normal. Esta abordagem permite conhecer como os lentes/redatores interpretavam a macro-história da humanidade desde os primórdios até os dias atuais. Esta, muitas vezes, confundia-se com a história da natureza e, em outras, com a história bíblica. Em 1886 o articulista do jornal Minas Altiva informava que enormes têm sido as transformações por que tem passado a terra, numa imensidade de épocas que os fósseis característicos dividem, mas em que a noção da medida do tempo se perde na caligem dos séculos. As forças orogênicas atuando desigualmente nas diversas partes do globo produziram caprichosos relevos e depois os agentes atmosféricos nivelaram grande porção da terra, destruindo os picos elevados e enchendo as depressões.53 A perspectiva do articulista se situa em uma tradição que vinha se firmando 52 COSTA, 2005, p.60-62. 53 Minas Altiva. Ouro Preto, 25 de março de 1886, p. 01. APM. (Grifos nossos). 35 desde o século XVIII, quando a história natural passaria a ter um sentido semelhante à narração, preparando o campo para as teorias da evolução desenvolvidas no decorrer do Oitocentos: “Todo el reino de los seres visibles, desde la piedra hasta el hombre, aparece como un todo conexo [...] como resultado de un proceso paulatino de devenir y acontecer”. Esta é uma concepção basilar que caracteriza o processo de constituição do conceito moderno de história.54 O amálgama entre geografia e história era comum na tradição portuguesa: a mescla entre a genealogia do meio ambiente e dos homens que o habitam não se encontra presente só na obra histórica de Varnhagen; ela se estende ao seu próprio autor, cujo papel encarna o já estabelecido pela Academia Real de História Portuguesa no século XVIII. A produção de uma narrativa geográfica, que inaugura as páginas da História Geral, traduzse em perspectiva tradicional e serve como introdução à história, que virá a seguir. Varnhagen, assim, promove uma síntese da história que tem como discurso prévio a geografia: a localização do território, a dimensão, para que, então, se elabore o discurso da passagem do passado imemorial para a história, com a transformação do espaço em território.55 Sob este ponto de vista o meio ambiente e o homem se transformaram com o passar do tempo. A especificidade dos seres humanos no interior da natureza era, segundo o lente Camillo de Britto, sua capacidade racional56: “É a cabeça admirável cidadela do nosso corpo; na cabeça nos entesourou a natureza as faculdades com que dominamos todas as outras criaturas, abrangemos os tempos, calculamos, influímos o futuro e nos mostramos imagens do criador”.57 Porém, não estava claro 54 “Todo o reino dos seres visíveis, desde a pedra até o homem, aparecem como um todo conectado, resultado de um processo paulatino de devir e acontecer”. KOSELLECK, 2004, p. 89. Este entendimento tendia a ser compartilhado tanto pela história natural, quanto pela Igreja – evidentemente, por motivos diferentes. Segundo a Gênesis, do Antigo Testamento, Deus havia criado a terra, os mares, o céu, as árvores, os animais e, somente no sexto dia, o homem. Bíblia Sagrada, 1998, p. 02. 55 MOLLO, 2007, p. 107-108. 56 Camillo Augusto Maria Britto foi político, promotor, magistrado e professor; natural de Ouro Preto, fez os estudos de humanidades no Seminário de Mariana e no Colégio do Caraça, formandose em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1865. Após adquirir o diploma de bacharel, retornou a Minas para exercer promotoria publica no município de Bonfim. Em 1868, atuou em Ponte Nova como juiz municipal. Elegeu-se deputado para a 17ª legislatura (1868-1869), pelo partido liberal. A partir de 1873, retorna a Ouro preto onde passou a advogar, trabalhar como funcionário da Assembléia Provincial e como professor de português, instrução religiosa e moral e Legislação do Império na Escola Normal e no Liceu Mineiro, tendo iniciado a carreira nestas instituições em substituição a Bernardo Guimarães. Como advogado, era conhecido por sua postura combativa em favor dos escravos. Em 1893 se tornou senador da República, defendendo ao lado de Costa Senna, Diogo Pereira de Vasconcellos e Evaristo da Veiga a continuidade da capital em Ouro Preto. MONTEIRO, 1994, p. 115. 57 Exame de ortografia. Escola Normal de Ouro Preto, 1887. IP 3/3, caixa 14, pasta 39. APM. (Grifos nossos). 36 no século XIX se o raciocínio era uma faculdade inerente aos humanos (dada por Deus ou pela natureza) ou se esta habilidade foi desenvolvida através de um processo evolutivo. Na década de 1870 o conceito de evolução imlpicava um desenvolvimento histórico, social e político: Evolução. § (fig.) Desenvolvimento de uma idéia, de um sistema, de uma ciência, de uma arte, etc. § (tir. fisiol.) O desenvolvimento de um órgão até a sua completa formação. [...] Evolução Histórica, ou simplesmente evolução, desenvolvimento e aperfeiçoamento progressivo das sociedades e sua civilização numa ordem determinada. § Evolução orgânica [...]. § Evolução política; - social; desenvolvimento progressivo no espírito público de idéias políticas, ou sociais, de modo a conseguir-se o seu triunfo sem a violência das revoluções.58 A contradição entre as características inatas do homem e o processo evolutivo poderia ser, em parte, resolvida através da idéia de progresso contínuo e cumulativo do saber. Desta forma, as conquistas humanas – calcular, influir o futuro, dominar a natureza – só teriam podido se realizar com o passar de um tempo tão longo que se torna imemorial, através de um processo evolutivo tão extenso que se liga ao próprio desenvolvimento da natureza. Em um exame de Noções de economia política datado de 1884 se deduz que os humanos aprimoraram sua eficiência em dominar a natureza desde os tempos primitivos: Nos tempos primitivos os homens viviam da caça e da pesca, vestiam com a pele dos animais que matavam para alimentar-se; de noite recolhiam-se à sua cabana, feita das árvores que cortavam; à medida que a civilização desenvolve-se, que alargase a indústria, para que o trabalho seja produtivo aparece a sua divisão. Cada homem tem necessidade de entregar-se a uma só profissão; um cultiva a terra, outro lavra etc.59 Aos olhos do professor as sociedades se tornaram mais complexas com o decorrer do tempo através de um processo de desenvolvimento da civilização. O que diferencia o homem primitivo e o moderno é, em sua concepção, o processo histórico, compreendido como a união entre tempo e ação. A evolução do homem no mundo foi interpretada pelos lentes como um processo longo através do qual, de geração em geração, acumula-se conhecimento e se aperfeiçoa a capacidade inata 58 ARAUJO, 2008a, p. 184. Exame de Noções de economia política. Escola Normal de Ouro Preto, 1884. IP 1/3 – caixa 20 – Pasta 16. APM. (Grifos nossos). 59 37 de raciocinar. Esta concepção evolutiva, contudo, não dá respostas acerca da gênese do universo. Em um exame de Instrução cívica a evolução e o criacionismo se mesclam em um só discurso sem que isso se torne paradoxal: Para conhecermos a existência desses direitos [natuarais] basta considerarmos a natureza humana. A sociedade é o seu estado natural, as suas atividades, os seus sentimentos, as suas tendências, as suas paixões, tudo isso mostra que o homem é por essência social. A natureza de tudo reagiu contra o isolamento no paraíso, o impeliu à sociedade.60 De acordo com este exame o homem possui uma natureza singular que lhe foi dada por Deus ainda no paraíso. A primeira essência humana seria ser social: a sociedade é entendida como algo inato. A segunda característica seria a razão (na cabeça nos entesourou a natureza as faculdades com que dominamos os outros seres). Esta é a ponte que propicia a fusão entre o criacionismo e a evolução. O homem e a mulher teriam sido criados por Deus e, desde sempre, possuem o germe da razão que lhes foi dado pelo Criador. Racionais por natureza, isto é, porque o próprio criador lhes dotou com este dom, não poderiam ter deixado de “comer o fruto proibido”: o impulso natural para a sociedade e a curiosidade os moveram, eles foram feitos para o questionamento; enfim, a natureza humana agiu. Sendo Deus entendido como o criador de tudo, esta atitude humana, embora o tivesse irritado, não poderia ter lhe surpreendido: eles executam, portanto, um “plano secreto da natureza” – e, ao realizá-lo, encontram seu papel de sujeitos no mundo.61 Este plano secreto pode ser entendido como um caminhar rumo à 60 Exame de Instrução cívica. Escola Normal de Ouro Preto, 1883. IP 1/3, caixa 21. APM (Grifos nossos). 61 KOSELLECK, 2004, p. 57. Segundo a Gênesis, do Antigo Testamento, Deus havia criado o homem e a mulher e os colocado no jardim do Éden, o paraíso: “deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão uma só carne. E ambos estavam nus, o homem e sua mulher; e não se envergonhavam”. Segundo a narrativa, o homem não conhecia a dor ou o mal, era ele inocente. “Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais. [...] Disse a serpente à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que comerdes desse fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal. Então, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e a árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, comeu, e deu a seu marido, e ele também comeu. [...] Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; pelo que coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais”. Quando Deus retornou ao Éden, Adão se escondeu e Ele lhe perguntou por que o homem se escondia: “Respondeu-lhe o homem: Ouvi a tua voz no jardim e tive medo, porque estava nu; e escondi-me. Deus perguntou-lhe mais: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses?”. Assim, somente a partir deste “pecado original” o homem teria iniciado sua caminhada de desvelamento do mundo; somente este questionamento lhe possibilitaria assemelhar-se a Deus. Bíblia Sagrada, 1998, p. 01-02. (Grifos nossos). 38 perfeição, em suma, tornar-se a imagem e semelhança do criador, desvelar o oculto, desvendar a natureza. Em um exame de Metodologia ressaltava-se que todo o universo tem um sentido; este fim particular estaria ligado a um processo através do qual paulatinamente o homem se assemelharia a Deus. Neste caminhar a razão e a revelação não parecem se contrapor necessariamente: assim como todas as coisas tem um fim particular, as atividades, as emoções sensíveis do homem também tem seus fins particulares, porém todos subordinados a um único fim – ao destino, à felicidade, ao bem e à perfeição. Este fim está em Deus. Não há moral sem religião. O homem, para chegar aos fins particulares, tem diversas aptidões. Para chegar a Deus, por exemplo, dispõe da inspiração da razão e da revelação.62 Aos olhos do lente a razão e a revelação são dois caminhos que, embora distintos, almejam o mesmo fim: aproximar-se de Deus. A revelação permitiria acessar os desígnios divinos através da própria palavra do Criador. A razão, por sua vez, possibilitaria ao humano desvendar a natureza, descobrir as leis através das quais Ele se expressa e compreendê-lo. Esta relação entre a ciência o a descoberta do sentido do universo remonta à Renascença, contudo, esta concepção traz uma série de ambiguidades. Afinal, as descobertas científicas poderiam entrar em contradição com o conhecimento revelado.63 Durante o processo de constituição do conceito moderno de história na Europa setecentista a interpretação teológica foi perdendo força. A história sagrada tenderia a ser narrada dentro de uma história geral dos homens, e não o contrário. Assim, “La primera experiencia del tiempo imanentemente histórica, la del progreso, historizaba consecuentemene también los dogmas que hasta entonces se 62 Exame de Metodologia. Escola Normal de Ouro Preto, 1886. IP 1/3, caixa 21. APM. (Grifos nossos). 63 Na Renascença Leonardo da Vince tendeu a ver a ciência como o caminho para a verdadeira arte e para a verdadeira natureza. A ascensão das ciências exatas teria sido o momento de maior expectativa em relação às ciências, quando elas passam a ser entendidas como uma forma de desvendar a criação divina: “Se lembrarmos a afirmação de Swammerdam, ‘trago-vos a prova da providência de Deus na anatomia de um camundongo’, veremos o que o trabalhador científico, influenciado (indiretamente) pelo protestantismo e pelo puritanismo, considerava como sua tarefa: mostrar o caminho para Deus [...]. Esperavam encontrar traços do que Ele planejara para o mundo. E hoje? Quem ainda acredita que as descobertas da Astronomia, Biologia, Física ou Química nos poderá ensinar qualquer coisa sobre o significado do mundo? Se as ciências naturais levam a qualquer coisa neste sentido, levarão ao desaparecimento da crença de que existe algo como o ‘significado’ do universo. E finalmente, a ciência como caminho para Deus? A ciência, esta força especificamente irreligiosa?”. WEBER, 1963, p. 168-169. 39 habían tenido por inalterables”.64 A historicização da religião é bastante visível através de um artigo publicado pelos professores Afonso de Britto e Samuel Brandão no jornal A Vela do Jangadeiro: Disseste-me que Deus permitiu a escravidão; nego. Primeiramente convém notar que, no tempo em que Moisés escrevia a história hebraica, a escravidão era permitida por direito de conquista, o que veio a desaparecer com o aperfeiçoamento moral e intelectual devido ao cristianismo. Demais, Moisés é mais um legislador que um historiador. Sabido é, bom amigo, que jamais os sábios legislaram sob sua responsabilidade, mas sob indicação direta da divindade; assim Licurgo, depois de organizar seu código em Minos, volta à pátria, entrega-se ao povo, dizendo que o recebera de Júpiter pelo oráculo; Solon tem idêntico proceder; Numa até conferencia com Egeria, que lhe indicava o que fazer. E Moisés? Com a sublimidade de sua imaginação sobre o Sinai e durante forte tempestade recebe o Decálogo, escrito pelo próprio punho de Jeová! A infalibilidade de Moisés nasce de Jeová, como a de Numa de Egeria: tão democrata era Deus naquelas épocas mitológicas!! Portanto, rejeito a infalibilidade de todos os legisladores de então, como a de Moisés.65 Entre o conhecimento revelado e as conclusões a que se pode chegar através da razão, da observação e da experiência, certamente o redator prefere o segundo. O tom jocoso manifesta em alguma medida a dessacralização da história religiosa, historicizando-se o Antigo Testamento – cujas verdades poderiam ser relativizadas se considerado o contexto histórico em que foram escritas. Nesta perspectiva, a escravidão é apenas uma característica cultural que poderia e deveria mudar, pois a evolução é um imperativo. O conhecimento revelado por Moisés é atribuído a uma época antiga e, portanto, ultrapassada. A manutenção da escravatura no presente seria considerada um anacronismo. Há aí uma experiência que relaciona tempo e ação, que historiciza as épocas e lhes atribui um caráter especificamente histórico. Embora o cristianismo se baseie igualmente na revelação ele foi associado pelo articulista ao desenvolvimento moral da humanidade. O sentido geral de seu artigo aponta para um presente no qual não parecia mais ser possível aos homens do século XIX se pautar em revelações divinas para organizar a sociedade: o homem atual tende a ser entendido como responsável por seu próprio governo e leis; ele é 64 “A primeira experiência de tempo imanentemente histórica, a do progresso, historicizava os dogmas que até então eram tidos como inalteráveis”. KOSELLECK, 2004, p. 92. 65 A Vela do Jangadeiro. Ouro Preto, edição 11, 07 de setembro de 1884, p. 03. APM. (Grifos nossos). 40 o sujeito de sua história. O conjunto das fontes apresentadas até aqui permite afirmar que, nos quadros da Escola Normal, a história era um conceito fundamental da linguagem social e política, atuando em todas as áreas da vida como ciência central.66 Em uma prova de Instrução Pública o professor diferencia dois tipos de sociedade – uma delas, a primitiva e natural; a outra, a sociedade moderna, cuja característica fundamental é ser constituída e organizada pelos homens: Há uma sociedade natural em que os direitos naturais não tem outro limite que o direito e as faculdades dos outros, onde a lei não tem outra coação, outra sanção que princípios da justiça eterna e justiça de Deus. Esta sociedade é primitiva. [...] [Por outro lado] existe a sociedade civil, onde os homens reunem-se em sociedade, criam um poder e uma autoridade para a defesa de seus direitos. O maior de todos os direitos é a liberdade. O homem na sociedade tem diversos direitos, sendo o principal o de manifestar livremente os seus pensamentos. [Este direito] acha-se consagrado ao art. 173, £ 3 da Constituição. Assim a comunicação do pensamento faz-se no nosso como em todos juízes cultos por meio da imprensa e do correio. A imprensa é completamente livre e seus excessos são punidos pelos juízes e nos casos definidos pelo Código. Temos ainda o direito de reunião onde a liberdade de pensamento pode circular livremente, uma vez que os bons costumes e ordens não sejam punidas. A liberdade de pensamento foi uma conquista da civilização moderna.67 Aos olhos do lente o tempo tornou as sociedades mais complexas de modo que os homens passaram a constituir leis que regulassem seu funcionamento, assegurando direitos individuais e coletivos. Neste caminho que leva ao desenvolvimento das sociedades, uma importante fissura que romperia o limite entre a sociedade antiga e a moderna teria se dado com os direitos conquistados pelo homem de manifestar livremente os pensamentos e escolher suas autoridades. Em um artigo publicado n’A Vela do Jangadeiro entende-se que as conquistas da civilização moderna são fruto de um processo lento e tortuoso de evolução e 66 Para Koselleck, três processos constituíram o conceito moderno de História. 1- A Historicização da História natural e sua fusão com a história dos homens; 2- A fusão e absorção da história sacra dentro da história geral: 3- A conceituação da história mundial como ciência diretriz que transformava a antiga história universal, constituindo um novo campo semântico: renunciando a transcendência, falava pela primeira vez do gênero humano como sujeito de sua própria história no mundo. Para o autor, no fim do XVIII, era certa unanimidade que esta história do mundo era uma das ciências diretrizes, mas ainda estava por ser escrita. KOSELLECK, 2004, p. 82-106. 67 Exame de Instrução Pública. Escola Normal de Ouro Preto, 1883. IP 1/3, caixa 21. APM. (Grifos nossos). 41 aprimoramento do homem através do tempo: A evolução científica, baseada na experiência e imposta pela ação contínua e irresistível do progresso tem um caráter análogo ao da natureza; o germe do desenvolvimento indefinido, modificado incessantemente, tende sempre ao aperfeiçoamento. É à evolução que se devem todos os melhoramentos na ordem civil e política, toda a organização social. Mas esse caminhar é lento, cheio de lutas e trabalhos, que cada dia nos aproximam mais do alvo a que aspiramos. Como o Galileu, lançado nas negras trevas de um cárcere, a evolução repete sempre; a vitória sobre os prejuízos, sobre o interesse, se não é fácil é, entretanto, certa, infalível, desde que se conserva ininterruptamente o combate contra a ignorância, que é preciso dissipar-se, o combate contra a indiferença, que é preciso sacudir-se.68 Neste trecho, Afonso de Britto refletiu sobre a ação humana no interior das sociedades para transformar o presente visando melhorar a existência terrena.69 O professor atribui à evolução caráter de lei segundo a qual o progresso é entendido como infalível: para que ele ocorra a ação humana, conectada ao tempo, é fator fundamental. A história, entendida com um processo cumulativo de experiências e conhecimento, dava ao professor a certeza de que o tempo era um agente inexorável de mudanças, um aperfeiçoamento contínuo. Os conteúdos propostos pelos professores estão permeados por uma experiência de tempo semelhante ao que Koselleck definiu como “cronótopo tempo histórico”. Segundo o filósofo, esta é a base para a constituição do conceito de “progresso”, o primeiro genuinamente histórico, que une a diferença temporal entre experiência e expectativa em um conceito único.70 68 A Vela do Jangadeiro. Ouro Preto, edição 11, 07 de setembro de 1884, p. 01. APM. Terminologicamente, o profectus religioso foi paulatinamente substituído por um progressus mundano na época moderna. A determinação de uma possível perfeição, que antigamente só se podia alcançar mais além, serviu desde então para melhorar a existência terrena. KOSELLECK, 1993, p. 345. 70 A experiência é a recordação de um passado que pode ser mobilizado no presente. Para o autor, na própria experiência de cada um, transmitida por gerações ou instituições, sempre está contida e conservada a experiência alheia. O que caracteriza a experiência é que é elaborada a partir de acontecimentos passados, que pode trazê-los presentes, que está saturada de realidade, vinculando a seu próprio comportamento as possibilidades cumpridas ou erradas. Também a expectativa se efetua no hoje, é um futuro feito presente. Todavia, aponta ao não experimentado, ao que só se pode descobrir. Esperança e temor, desejo e vontade, a inquietude, mas também a análise racional, a visão receptiva ou a curiosidade formam parte da expectativa e a constituem. Para Koselleck, o passado e o futuro não chegam a coincidir nunca no presente; a presença do passado é algo distinto da presença do futuro. O autor ressalta que experiência e expectativa não se tratam de simples conceitos contrários, mas modos de ser desiguais de cuja tensão se pode deduzir algo assim como o tempo histórico. Koselleck acrescenta que, embora os acontecimentos do passado não possam ser modificados, o mesmo não se pode dizer das experiências em relação a eles. “Os acontecimentos de 69 42 Por outro lado a macro história universal narrada pelo professor se baseia e se limita à trajetória européia, revelando profunda aquiescência (e dependência) em relação às tradições historiográficas e filosóficas oriundas, sobretudo, da França e da Inglaterra. De acordo com o professor o século XVI seria o momento em que a ciência moderna se funda; a partir da vitória de Galileu o homem teria sido capaz não apenas de questionar a revelação, mas de constituir um novo conhecimento baseado na razão, observação e comprovação. Uma prova de Cosmografia relata o avanço dos conhecimentos conquistados através da descoberta das leis da física e da astronomia no decorrer do séculos XVII e XVIII na Europa, entendidos como continuidade do projeto de Galileu: A força de atração e repulsão, descobertas pelo jovem e sábio Newton, harmonizadas constituem a música das esferas boiando no seio do éter incoercível. As leis que regem os movimentos dos planetas em torno dos seus focos foram descobertas por Kepler. No centro do universo deve existir necessariamente a força motriz da qual todos os fenômenos que observamos em cada um dos planetas e no universo não são mais do que átomos por assim dizer desse ser incognoscível. Se por acaso Deus permitisse que a luz do sol se apagasse, a Terra e os planetas seus irmãos, cobertos de trevas e gelo, iriam rolar no seio do infinito, dissolvendo nossa família solar. Mas em nada alteraria o universo; como a gota d’água extraída do oceano, o universo voltaria a marchar em cumprimento dos destinos que Deus para ele ideara.71 O movimento dos astros, a dependência do sol, enfim, o universo parece ser entendido pelo professor como um todo conectado que funciona simultaneamente e de forma harmônica para cumprir os destinos idealizados por Deus. A expectativa em relação à física e à astronomia tinha caráter filosófico ou existencial no sentido de possibilitar ao homem um conhecimento mais amplo sobre o universo, sobre o papel do planeta Terra e do homem imersos neste ser incognoscível. A “revolução científica” parece, portanto, ser elemento fundamental da evolução do homem em seu processo de desenvolvimento. Uma segunda revolução 1933 sucederam definitivamente, mas as experiências que se baseiam neles podem se modificar com o passar do tempo”. As experiências se sobrepõem, se impregnam umas de outras. A ruptura do horizonte de expectativas funda, pois, uma nova experiência. A tensão entre experiência e expectativa é o que provoca de maneira cada vez diferente novas soluções. KOSELLECK, 1993, p. 338-341. 71 Exame de Cosmografia. Escola Normal de Ouro Preto, 1885. IP 1/3, caixa 20, pasta 16. APM. (Grifos nossos). 43 seria o desenvolvimento das sociedades, isto é, a conquista do direito do homem de escolher seus próprios líderes e poder manifestar livremente seus pensamentos. Em um artigo publicado pelo jornal A verdade o redator identificava a Revolução Francesa como o momento de ruptura política e social com o Antigo Regime e a consolidação da civilização moderna: Antes da Revolução Francesa, foi despoticamente reprimida a manifestação do cidadão, quer escrita, quer falada, acerca dos negócios públicos e políticos de sua pátria. É coisa notável, ao passo que Cícero dizia que cada romano devia trazer escrita na fronte a sua opinião a respeito do Estado […] A crítica é a arte de discernir o verdadeiro do falso, para colocar o bem e o mal em seus próprios lugares […] deve ser justa, sensata, criteriosa, a fim de que os seus juízos sejam irrecusáveis e proveitosos.72 O articulista certamente poderia se apropriar da frase de Gonçalves de Magalhães, segundo a qual a Revolução Francesa “balançou todos os tronos da Europa e repartiu com os homens a púrpura e os cetros dos reis”.73 Uma importante qualidade desta nova sociedade, que a faria superior à organização social do Antigo Regime, seria a transformação dos súditos em cidadãos que poderiam, doravante, opinar a respeito dos assuntos de interesse político e geral. A visão do articulista sobre o papel da Revolução parece semelhante ao descrito por Roger Chartier, no qual a formação de uma opinião pública livre teria sido fundamental. Como vimos anteriormente, o conceito de nação sofreu transformações no século XVIII no sentido de cada vez mais se identificar com o conjunto dos cidadãos, retirando a ênfase sobre a figura do monarca. Acreditamos que este conceito tenha agregado outros significados ainda mais democráticos no decorrer do século XIX pois, em 1890, o dicionário de Antonio de Moraes Silva conceituaria nação da seguinte forma: O conjunto dos cidadãos, e também o território ou circunscrição política que constitui um Estado independente; regido por leis próprias por um governo absolutamente autônomo [...].§ A pátria, o país natal: a minha nação tem uma história gloriosa.. § O povo em geral: a nação pegou em armas para repelir a invasão estrangeira; a nação protesta nas urnas contra o despotismo do governo.[...] § Direito das nações; direito das gentes; ou direito internacional. [...] § (Nação, Povo. Sin.) No sentido literal e primitivo, a palavra nação indica uma relação 72 A Verdade. Itajubá, 04 de março de 1886. APM. Domingos José Gonçalves de Magalhães. “Ensaio sobre a história da literatura do Brasil”. Nitheroy, revista brasiliense. Ciências, letras e artes, n° 1, p. 149. In.: ARAUJO, 2008a, p. 127. 73 44 comum de nascimento, de origem; e povo uma relação de número e de reunião. A nação é uma dilatada família; o povo é uma grande reunião de seres da mesma espécie. Em outra acepção, a palavra nação compreende os naturais do país; e o povo, todos os habitantes. A nação está intimamente unida ao país pela cultura, ela o possui; o povo está no país, ele o habita. A nação é o corpo dos cidadãos; o povo é a reunião dos reinícolas. Uma nação divide-se em muitas classes; o povo é uma delas: é a parte mais numerosa de que a nação é o todo.74 No último quartel do século XIX, no qual o Brasil parecia caminhar para a República, a atuação do povo contra o que muitos entendiam como despotismo do governo passaria a ter maior destaque. Por outro lado a história da nação, inserida em uma história geral da civilização ocidental (européia), seria um ponto importante visto que a nacionalidade desde a primeira metade do Oitocentos passou a se relacionar com uma identidade coletiva de caráter político e cultural.75 Concepções semelhantes de nação foram vastamente disseminadas por historiadores franceses, como demonstram os estudos de Anthony D. Smith, Claudine Haroche e tantos outros. Ao marcar posição sobre a opinião de Mommsen sobre a questão da Alsáscia, Ernest Renan conceituaria a nação da seguinte forma em 1870: A nação é uma alma, um princípio espiritual. [...] Uma nação é uma grande solidariedade, criada pelo sentimento dos sacrifícios que foram feitos e daqueles que se está disposto a fazer no futuro. Ela pressupõe um passado; mas resume-se, no presente, num fato tangível: no consentimento, no desejo claramente expresso de continuar a viver em comum. A existência de uma nação é um plebiscito realizado a cada dia, assim como a existência do indivíduo é uma perpétua afirmação da vida. [...] Já no século X os habitantes da França eram franceses. A idéia de uma diferença entre as raças na França desapareceu por completo. [...] A distinção entre o nobre e o servo é altamente enfatizada, mas essa distinção não é étnica, de modo algum.76 74 SILVA, 1890, p. 392-393. Uma análise da evolução do conceito de nação através dos dicionários pode ser encontrada também em PAMPLONA, 2009, p. 161-180. 75 WASSERMAN. “El concepto de nación y las transformaciones políticas en Iberoamérica (1750-1850)”. Disponível em <foroiberoideas.cervantesvirtual.com/foro/data/adm31884.doc.> Acesso em (23/07/2010). 76 Ernest Renan. “Qu‟est-ce qu‟une nation?”. Paris: 1882. In.: SMITH, 2000, p. 188. De forma semelhante, afirmava Fustel de Coulanges à mesma época, ainda em relação à querela sobre a Alsásia: “O que distingue as nações não é nem a raça, nem a língua. Os homens sentem no coração que são um só povo quando tem uma comunidade de idéias, de interesses, de afetividades, de lembranças e esperanças. Eis o que faz a pátria. [...] A pátria é aquilo que amamos. Pode ser que a Alsácia seja alemã pela raça e pela língua. Mas pela nacionalidade e pelo sentimento de pátria ela é francesa”. Fustel de Coulanges. “L‟Alsace est-elle allemande ou française? Réponse à Monsieur Mommsen, professeur à Berlin, 1870”. In.: HAROCHE, 2002, p. 86. 45 O discurso de Ernest Renan foi publicado, na íntegra, pelo jornal conservador ouro-pretano Vinte de Agosto em 1885.77 Entendia-se que, após a Revolução, a nação, gradualmente, em lugar e em nome do rei – que a personificava – instalava-se como conjunto dos cidadãos, como povo. Em um exame de Ortografia o regime republicano se assemelhava ao funcionamento orgânico do universo: Uma república ou uma comunidade, para ser bem governada, há de ter propriedade que possui um relógio. As rodas de um relógio de tal maneira estão temperadas e postas em sua proporção que fazem os círculos muito iguais; e movida uma roda, movem-se as outras; e quieta, quietam-se as outras; e assim, sendo muitas em número, na conformidade e consonância não é mais do que uma. Assim também numa república cristã todos devem ter a mesma vontade, de modo que sendo muitos num só corpo, sejam um só no parecer e conformidade.78 A república foi representada neste exame como um todo harmônico. A nação moderna tenderia a ser identificada com a república pela imprensa imparcial ouro-pretana e por muitos lentes da Escola Normal. O termo moderno se transformou no decorrer do século XIX, relacionando-se com um tempo próprio, a época moderna. Na edição de 1712-1728 do dicionário de Raphael Bluteau, moderno significava “Coisa desta Era, destes últimos anos, de pouco tempo a esta parte, respectivamente ao tempo antigo. Qualquer coisa novamente inventada, introduzida, posta em uso”.79 O dicionário de Antonio de Moraes Silva, publicado em 1832, não trazia alterações substanciais a este conceito. No entanto, a edição de 1890 agregaria ao termo novos significados que o ligariam à noção de tempo, época e história: Moderno. Da época mais próxima a nós; de pouco tempo; recente; § História moderna; divisão da história que compreende o período que vai da tomada de Constantinopla, ou da descoberta da América, até a revolução francesa, ou até o presente. § Os modernos; s.m. pl. os que vivem no tempo atual. § il. (fig.) Os que não seguem o antigo uso, estilo, doutrina; modernistas.80 77 Vinte de Agosto. Ouro Preto, edição 01, 14 de setembro de 1885. APM. Renan publicava periodicamente na Revue des deux mondes, assinada pela Escola Normal. Este poderia ser outro veículo de aproximação entre os professores e suas idéias. 78 Exame de Ortografia. Escola Normal de Ouro Preto, 1884. IP 1/3 – caixa 20 – Pasta 16. APM. (Grifos nossos). 79 BLUTEAU, 1712-1728, vol. 5, p. 529. 80 SILVA, 1890, v. 2, p. 362-363. 46 Surgem também termos derivados deste conceito, como modernista: “s.f. Amor e adesão a tudo o que é novo, moderno. § s. 2 g. Pessoa que é apaixonada de coisas modernas. § Pessoa que aprecia os tempos modernos acima da antiguidade”.81 Estes sentidos contemporâneos relacionam o moderno a uma nova época, um novo tempo diferente do passado, entendida por alguns como superior ao antigo, mas que significava, simultaneamente, o tempo atual. Embora o termo modernidade não apareça nestes dicionários, os jornais expressavam a consciência de que havia continuidade entre alguns princípios do Ranascimento e o último quartel do Oitocentos, como se os homens do presente vivessem em um período inaugurado desde a queda de Constantinopla, seguindo-se pelas conquistas empreendidas pelas navegações, pela ciência e pela Revolução Francesa. Outro conceito central para esta nova organização social, percebida como moderna, é o termo patriota, que não existia nos dicionários de Bluteau e Moraes pelo menos até 1813. Na edição de 1890 do dicionário de Moraes, no entanto, surgiria a figura do patriota, aquele que é dotado de patriotismo: Patriota: s. 2 g. Pessoa dotada de alto patriotismo; pessoa que dominada pelo sublime ideal das grandes virtudes cívicas ama desinteressadamente a sua pátria e, desejando servi-la, trabalha pelo seu progresso dedicando-se até ao sacrifício desejoso de concorrer para a sua grandeza, para a sua glória. Patriotismo: Amor e zelo pelo bem comum da pátria e dos seus naturais e patrícios: amor do bem, da honra da pátria: ação de patriota. § Patriota, patriótico e patriotismo são vocábulos modernos deriv. do Fr. Patriote etc., ou ing. Patriot, etc.82 A imagem do patriota parece se fundir com a do cidadão moderno, isto é, aquele que atua política e socialmente em favor da pátria. Um importante espaço para a atuação do patriota seria, possivelmente, a imprensa – através da qual os cidadãos poderiam dar voz às suas demandas.83 81 SILVA, 1890-1891, v. 2, p. 362-363. Ibidem, p. 496. O sufixo “ismo” converte antigos termos em conceitos de movimento. A palavra se converte em telos e se temporaliza, distinguindo-se da antiga tipologia por sua finalidade e função: em vez de analisar uma possibilidade limitada de experiências, torna-se um conceito de construção que teria a função de “ajudar a criar novas situações”. KOSELLECK, 1993, p. 355-356. Trata-se de agir com patriotismo visando construir um novo mundo. 83 A disputa entre políticos e intelectuais pela liderança da opinião pública foi uma característica importante da França pré-revolucionária. Ao se perguntar sobre quem poderia guiar o país e conduzir a opinião pública no caminho para a República o marquês d’Argenson indicou o potencial de duas forças paralelas: os parlamentos e os filósofos. Com efeito, nas décadas seguintes os corpos políticos 82 47 Se a imagem de uma sociedade moderna era exaltada pelos professores, por outro lado, tenderiam a construir um quadro do Brasil monárquico como a antípoda da modernidade. A esperança de um novo tempo parecia encontrar resistência em uma rotina política fragmentada pela ambição pessoal dos que deveriam zelar pelo bem público. As expectativas em relação às promessas de um futuro melhor aumentavam a urgência de transformações no país. Os lentos avanços técnicos e científicos verificados no Brasil tenderiam a ser atribuídos à ausência de uma ruptura essencial com o Antigo Regime, cuja continuidade era simbolizada pelas figuras do imperador e, muitas vezes, dos conservadores. Entre 1870 e 1889, este seria o debate central da imprensa mineira e dos mestres da Escola Normal que nela se inseriam. Tratava-se de entender porque o Brasil não compartilhava o mesmo progresso experimentado pela Europa e pelos Estados Unidos. A explicação para o presente do Brasil se encontrava no passado, no processo de formação da sociedade, nas relações entre o povo e o governo, a metrópole e a colônia, Portugal e a Europa. Os lentes e jornalistas procuravam identificar que características negativas deste passado que ainda se arrastavam no presente para superá-las. 1.2.2 – História, tempo e atraso: o elemento português Em suas análises sobre a organização dos discursos políticos John Pocock procurou situar seu trabalho em dois níveis: o da língua, que é o contexto lingüístico, e o da fala, que é o modo pelo qual o sujeito (autor) se apropria da linguagem, seja para afirmá-la, seja para inová-la profundamente. A interpretação de um texto político, portanto, não poderia se limitar a uma leitura “vertical” da obra, como se seu autor constituísse um depósito fechado de todos os seus sentidos. O leitor deve situá-los (o texto e a obra) dentro de um conjunto mais amplo de convenções ou modos de enfrentar estas questões comuns a vários autores mais ou menos contemporâneos – uma comunidade de indivíduos que se expressam por meio de uma linguagem política e que a atualiza através de suas intervenções e as novas forças da intelligentsia disputaram o comando da oposição: os políticos, de dentro da própria estrutura monárquica; os segundos, de fora, em oposição cada vez mais aberta e buscando justificar intensamente a necessidade de se adotar as “novas idéias". Journal et mémoires du marquis d’Argenson. Paris, 1868. In.: VENTURI, 2003, p. 148. 48 particulares. As interações entre um e outro, por sua vez, acabam por modificar a própria linguagem. O intuito de desvendar as linguagens políticas operantes no século XVIII levou Pocock a investigar não os autores, mas termos-chave cujo relacionamento recíproco, em complementaridade ou oposição, constituiria o cerne de uma determinada linguagem comum de autores – tanto aliados quanto adversários – que intervieram no período.84 Os trabalhos de Quentin Skinner caminham em sentido semelhante. O autor ressaltou a distinção entre o nível locutivo de um determinado enunciado e sua força elocutiva, isto é, entre o que se disse e o que se fez ao dizêlo. Segundo esta perspectiva, para compreender historicamente um ato de fala não bastaria entender o que se disse (seu poder locutivo); é necessário situar seu conteúdo proposicional na trama das relações linguísticas em que ele se insere a fim de descobrir, atrás dos tais atos de fala, a intencionalidade (consciente ou não) do agente (sua força elocutiva), isto é, o que fazia este ao afirmar o que afirmou no contexto em que o fez. Por último, o ato de fala compreenderia também uma força perlocutiva, ou seja, o efeito que o ato exerce sobre quem o ouve ou lê naquele contexto. Assim, para descobrir a racionalidade específica de um texto deve-se superar sua instância meramente “textual” e compreender a trama de relações e intencionalidades pelos quais os ditos textos se constituem.85 Seguindo este arcabouço teórico, neste subcapítulo ampliamos nosso conjunto de fontes e avaliamos também artigos publicados pela imprensa mineira que se intitulou imparcial no período. Verificamos que, assim como nos jornais publicados pelos professores, este segmento “imparcial” também fazia uso de categorias cronológicas para classificar a posição do Brasil no cenário mundial – restrito, entretando, à Europa. Sabemos, entretanto, que havia outros parcelas da opinião pública que não se identificavam com esta posição, como os periódicos conservadores e religiosos. Em 1884 os lentes Samuel Brandão e Afonso de Britto eram alguns dos líderes do movimento abolicionista ouro-pretano. Em 1884 os lentes fundaram o jornal abolicionista A Vela do Jangadeiro, no qual publicaram a carta de “um amigo” que dizia: 84 85 POCOCK, 2003. PALTI, 1998, p. 25-34. 49 Apesar dos meus ardentes desejos de ver a rápida transição do trabalho servil para o trabalho livre, vejo que infelizmente pouco poderei fazer nesta terra onde só encontro corações duros e revezados como a raiz deste cafeeiro [...]. Miserável egoísmo, que tanto podes! [...].Sim, desta pátria que jamais suportará essa mentira, essa infâmia que a tem atrofiado por espaço de três séculos, alimentando uma aristocracia de Lord Landes aqui, nesta América que Deus fadou para ser a mais democrata de quantas nações há no mundo! [...] [Estas considerações] são filhas da indignação ao ver homens que, levados por interesse sórdido, pretendendo esmagar a religião da qual se dizem adeptos, a moral universal, a pátria e tudo que há de mais sagrado, contanto que das douradas janelas de seus palacetes possam contemplar, com o sorriso nos lábios, o glorioso espetáculo de dezenas de entes humanos que eles reduziram à escravidão.86 Aristocracia de Lordes e palacetes cobertos de ouro: a escolha destas palavras para retratar uma situação do presente remete a uma experiência de tempo coletiva; a intenção deste ato de fala é provocar a indignação do leitor diante do distanciamento cronológico entre Brasil e Europa. Estas palavras possivelmente soavam tão anacrônicas, àquela época, quanto ao luxo ostentado pelos fazendeiros, que se chocava de forma áspera com a miséria da escravidão. Elas remetem à reprodução do Antigo Regime no Brasil em um momento em que se entendia que o mundo ocidental já tinha conquistado a liberdade. Imersos em seu mundo dourado, estes homens eram incapazes de perceber a miséria que os circundava e o infortúnio que causavam.87 Ao contrário: a consciência de seu poder sobre a vida de dezenas de pessoas acentuava seu orgulho e vaidade. Ao mobilizar palavras que se referem ao Antigo Regime, epíteto ao qual a sociedade brasileira e a monarquia constitucional certamente não queriam se identificar, o autor remete aquele Brasil a outro contexto: o vivido pelos enciclopedistas à época da Revolução Francesa – quando uma aristocracia, corrompida pela vaidade e ostentação, atraiu para si o ódio e o ressentimento da população e foi punida com a guilhotina. É este rancor que o jornal fundado por 86 A Vela do Jangadeiro. Ouro Preto, edição 18, 31 de dezembro de 1884. APM. (Grifos nossos). Analisando o Pensées d’um républicain sur les moeurs de ce sciècle, de Deleyre, FrancoVenturi concluiu que este manifesto “revelava que seu protesto social estava estritamente ligado ao moral [...]. Os ricos acabariam por esmagar os pobres. As revoltas contra os tiranos antigos e novos era mais que legítima. Lembranças clássicas povoavam sua memória, de Porsena a Brutus. Eram os reis que levavam os povos às guerras e aos desastres. Por que não deveriam eles responder pessoalmente pelas conseqüências?” Cada vez mais repugnava-lhe o luxo, não apenas como injustiça, mas como ameaça cada vez mais grave à liberdade. Entre os votos que condenaram à morte Luís XVI estava também o de Deleyre. VENTURI, 2003, p. 157-158. 87 50 nossos personagens parece querer provocar. A escolha destas palavras para descrever e classificar a situação atual visava incomodar o leitor e incitá-lo a modificar o presente. A mobilização destes jogos de linguagem e sua intencionalidade não passavam despercebidas pelos conservadores. No jornal A nação, em 1880, o redator desqualificava o trabalho de autores como Sílvio Romero, com os quais nossos personagens possivelmente se identificavam, afirmando que sua única intenção era “tocar rebate chamando a postos seus soldados”.88 Ao mesmo tempo, esta estratégia só pôde funcionar porque o conjunto de leitores estava apto a reconhecê-la, isto é: porque a experiência do tempo como um processo de aperfeiçoamento contínuo se tornou coletiva no último quartel do XIX; caso contrário, essa espécie de desequilíbrio não poderia incomodar o leitor. Nesse momento os professores e a imprensa imparcial mobilizaram a linguagem do contexto da Revolução para relacionar a facção conservadora a uma aristocracia do Antigo Regime. Ao fazê-lo, criavam a sensação de que o Brasil vivia em um passado com o qual era preciso romper para que a nação seguisse em seu caminho de aperfeiçoamento contínuo. É neste sentido que entendemos o extenso uso de termos como “cetro”, “púrpura”, “realeza”, “trono”, “majestade”, “palácios dourados”, “salões dos Neros”, “lordes”, entre outros, para caracterizar a monarquia, os conservadores e os espaços por eles frequentados. Já os jornalistas e a mocidade eram identificados com os termos “facho de luz”, “povo”, “liberdade”. A mobilização de tais palavras pode ser encontrada tanto nos jornais quanto nos manuais didáticos e nos livros de história. Aos poucos, esta linguagem tomaria conta da imprensa “imparcial” mineira como um todo. Para o jornal Theóphilo Ottoni os conservadores eram “a oligarquia que tudo absorveu”.89 Segundo o Mosaico Ouro Pretano, uma “pústula hedionda que estava corrompendo o país”90; O Pharol os identificava como uma “seita de bajuladores”91; citações como estas são inúmeras. Aos olhos destes homens O redator se indignava com o fato de Romero “insultar nossa raça e de nossos patrícios, enxovalhar e matraquear [...]. Da nossa raça diz que o ramo latino é beatamente infecundo, beatamente atrasado! [...] Calunia Alencar até chamá-lo de ignorante, um repetidor de idéias já gastas! Macedo foi apontado como um velho burguês literário, que tem escrito romances de balaio para costureiras pouco lidas!”. A nação. Ouro Preto, edição 14, 24 de maio de 1880, p. 01. APM. 89 Theóphilo Ottoni. Paraíso, edição 33, 11 de agosto de 1878, p. 01. APM. 90 Mosaico Ouro Pretano. Ouro Preto, edição 188, 09 de março de 1878, p. 01. APM. (Grifos nossos). 91 O Pharol. Juiz de Fora, edição 26, 09 de abril de 1870, p. 01. APM. 88 51 monarquia e corrupção eram sinônimas: “e a sociedade que sofra os efeitos perniciosos dessas escandalosas proteções, origem do atraso que vemos em nossas povoações”.92 Deste ponto de vista a desconexão entre o governo conservador e o povo impossibilitava a constituição de uma nação moderna, entendida como comunidade e unida segundo um interesse comum, como alertava o redator do jornal Minas Altiva: “o cínico rebaixamento moral já enfraquece e muito as forças da nação”. O articulista denunciava a decadência moral desta “orgia deprimente, degradante e prejudicial”: O rebaixamento de quem vê, pratica, conhece, sente, censura na intimidade, mas bate palmas em público, porque gritar contra o governo é ficar proscrito, perdido mesmo no conceito de seus amigos. Passa por idiota que não pode fazer carreira.93 Esta interpretação fora defendida pelo latinista Afonso de Britto, ainda em 1878 no Mosaico Ouro Pretano. O professor alertava para o fato de que a “facção conservadora” não poderia “eximir-se da culpa imensa de ter tão fundo cavado este abismo”.94 Ele sugeria que o dinheiro desperdiçado com tamanhos esbanjamentos, que visavam somente o enriquecimento de alguns, poderia ser melhor empregado para a dinamização da economia do país e seu progresso. Este tipo de política era responsável pelo distanciamento cronológico entre o Brasil e a Europa: São grandes e pequenos os esbanjamentos e ilegalidades que, conseguindo ser desconhecidos em sua origem, faziam-se pesadamente sentir nos seus efeitos o mal estar do país. Desde o empréstimo a particulares, a afilhados dos grandes, das rendas do Estado [...], quer as gratificações ilegais, os empregos inúteis e contratos leoninos: é assim que um presidente de província não se pejou de contratar um quilo de torcidas de algodão a 30$, quando no mercado se vende a 1$280! Com que clarão lúgubre tão caras torcidas não iluminariam a mesquinha pátria, impelida por uma situação egoísta ao abismo de Curcio!95 Os esbanjamentos e empréstimos a particulares, afilhados dos grandes eram maneiras encontradas por grupos privados de se utilizar do poder do Estado para fins particulares. Alguns redatores, no entanto, entendiam que esta postura não 92 O volitivo. Uberaba, edição 08, 21 de setembro de 1884. APM. (Grifos nossos). Minas Altiva. Ouro Preto, edição 03, 08 de abril de 1886, p. 01. APM. 94 Mosaico Ouro Pretano. Ouro Preto, edição 188, 09 de março de 1878, p. 01. APM. 95 Mosaico Ouro Pretano. Ouro Preto, edição 188, 09 de março de 1878, p. 01. APM. 93 52 poderia ser atribuída somente aos conservadores, mas aos políticos como um todo: Isso de soberania nacional é coisa bonita, sonante como o ouro e por isso mesmo traz muita gente boa presa pelo beiço; mas também entende que o povo não é soberano em coisa alguma; é mero instrumento de ambições. [O povo] é explorado por todos os meios, sendo os mais conhecidos o medo, a fraqueza, a ambição. [...] Oferecem dinheiro para votar ou ficar em casa [...] pede a um amigo da vítima recomendações; mandam pagar dívidas; ameaçam com a demissão; com citações; furtam diplomas; resumindo, na política todos cabalam, só divergindo o modus faciendi.96 O segmento conservador parecia se tornar cada vez mais desmoralizado pela “imprensa imparcial”. De acordo com este segmento os setores da sociedade não acertavam seus ponteiros: os governantes queriam viver cronologicamente no Antigo Regime, defendendo seus privilégios aristocráticos. O povo – ou ao menos o segmento instruído que tinha consciência do progresso no Velho Mundo – desejava acelerar o ritmo e viver no tempo moderno da Europa. Instituía-se em Minas no último terço do Oitocentos um conflito entre o governo conservador (arcaico, egoísta e anacrônico) e os intelectuais (modernos, adiantados, os verdadeiros patriotas). Os jornais procuravam compreender esta situação recuperando o processo histórico brasileiro. O professor Afonso de Britto concluía que as mazelas do presente se deviam à “longa opressão de 300 anos, às pesadas cadeias da escravidão, batidas pela força brutal, que é servida ignorância, pela indiferença, e que ainda resistem aos embates da humanidade e da ciência!”.97 Assim, retomava-se no fim do século XIX perspectiva semelhante àquela hegemônica no IHGB antes de ser presidido por Aureliano Coutinho. O passado colonial foi interpretado pelos lentes e pela imprensa “imparcial” como uma história do despotismo, da violência e da ignorância. O principal problema é que esta opressão ainda resiste, arrastando o passado sobre o presente e encarcerando o futuro. Estes problemas não estão no passado, mas no presente. Sob esta ótica a Independência não significou uma ruptura profunda nem fundou uma nova nação. Alguns articulistas iam mais além e atribuíam o atraso 96 O diabinho. Ouro Preto, edição 03, 23 de janeiro de 1885, p. 01. APM. 97 A Vela do Jangadeiro. Edição 11, 07 de setembro de 1884, p. 04. APM. Na edição nº 18 da Vela um articulista indicaria também essa “mentira, essa infâmia que a tem atrofiado [à pátria] por espaço de três séculos”. A Vela do Jangadeiro. Ouro Preto, edição 18, 31 de dezembro de 1884. APM. (Grifos nossos). 53 brasileiro não apenas a governantes despóticos coloniais, mas ao próprio caráter do colonizador português que não apenas tudo teria feito para impedir o progresso da Colônia. Aos olhos do redator de O patusco os interesses da Coroa portuguesa desde sempre tinham sido opostos ao dos povos do Brasil: As ciências e as letras – eis o princípio fundamental que todo homem deve ter em vista para alcançar seu fim principal. Bem vedes que a civilização não pode manifestar-se espontaneamente; é necessário que quem descubra este país vá desenvolvendo-a pouco a pouco na senda do progresso. Contase que o número de professores nos Estados Unidos é maior do que o de estudantes no Brasil; mas isso também é devido ao fato dos Estados Unidos terem sido descobertos por um povo amante das letras. Porém, bem deveis saber que quem descobriu o Brasil, os portugueses, não consentiu que aí constituíssem casas de educação ou qualquer outra coisa bem seu, e quem quisesse aprender alguma coisa tinha que ir a Portugal. Assim, bem se vê que a pouco tempo se principiou na estrada do progresso.98 O artigo atribui à ignorância dos portugueses o fato da nação não poder ter como presente o presente da Europa. Incitado mais tarde ao movimento, a colonização portuguesa teria atrasado o Brasil em uma marcha rumo à modernidade. Paralelamente à história do despotismo português caminhava a memória do empenho de um grupo ilustrado – os inconfidentes – em libertar a província das amarras da opressão metropolitana ainda no Setecentos. Apesar das tentativas de matizar a ação e os personagens da Inconfidência Mineira no Segundo Reinados, há fortes indícios de que essa tradição nunca foi abandonada pelos mineiros. 99 A Inconfidência foi entendida como um forte indício de que a insatisfação com o governo português era antiga. A morte de Tiradentes continuou presente na memória regional, causando ressentimento das populações de Ouro Preto com relação à opressão metropolitana. A severa pena aplicada aos conjurados foi vista como uma prova de que havia um abismo entre os interesses da metrópole e os 98 O Patusco. Ouro Preto, edição 04, 31 de agosto de 1879, p. 01-02. APM. O IHGB evitou tratar de assuntos polêmicos, como as rebeliões provinciais, durante a primeira metade do século XIX. José Rezende Costa, testemunha ocular da Inconfidência, tentou trazer à baila o tema por vias indiretas. Traduziu, em 1839, o capítulo do livro História do Brasil, de Robert Southey, dedicado ao episódio e o ofereceu ao Instituto. O texto ficou engavetado por sete anos. Apesar de reconhecer a relevância do trabalho e a fidedignidade das fontes utilizadas, confirmadas inclusive pelo antigo conjurado, recusou-se a acreditar no fato de que o enforcamento de Tiradentes ocorrera em meio a uma autêntica festa popular promovida pelas autoridades coloniais. Diante disso, Rezende Costa não tocou mais no assunto. GUIMARÃES, 1995, p. 515 99 54 interesses dos povos de Minas; tal dissonância ainda existia no presente. 100 A Conjuração era também forma de ligar o passado mineiro à Revolução Francesa. Este evento passou a ser mobilizado pela imprensa como o momento pioneiro em que o povo mineiro, dirigido por uma elite ilustrada, lutou por uma nação livre e democrática contra uma monarquia absolutista e despótica; era uma tentativa frustrada de harmonizar-se com o tempo ocidental. Além de compreendidas como legítimas, as reivindicações dos inconfidentes eram cronologicamente compatíveis às demandas da época na Europa. O caráter revolucionário de Gonzaga e sua linguagem se relacionavam a uma questão moral 100 Devido à magnitude dos acontecimentos que envolveram a Inconfidência Mineira havia uma forte memória local sobre este evento em Minas Gerais entre os séculos XVIII e XIX. Há relatos sobre o grande abalo causado entre a população do Rio de Janeiro devido ao processo dos réus e, particularmente, pela execução de Tiradentes. O autor anônimo de Memória do êxito que teve a conjuração de Minas, testemunha ocular da execução do alferes, refere-se constantemente à grande consternação. Segundo o anônimo a capital colonial nunca vira execução mais medonha e de mais feia ostentação. A notícia da execução de 11 réus teria abalado a cidade que, “sem discrepar de seus deveres políticos, não pôde esconder de todo a opressão que sentia”. Muitas famílias teriam se retirado para o campo, as ruas ficaram desertas, e “a consternação parece que se pintava em todos os objetos”. Encheram-se as ruas, povoaram-se as janelas, “muitos e muitos não sustinham as lágrimas”. Memória do êxito que teve a conjuração de Minas. RIHGB, 1881, p. 140-160. In.: CARVALHO, 1990, p. 58. Há também registros de que Joaquim Silvério dos Reis não pôde viver em paz no Rio de Janeiro, para onde se mudou, devido à rejeição. A animosidade da população era tão grande que ele teria alterado o nome, acrescentando-lhe “Montenegro”, e foi morar o Maranhão. As pessoas não lhe falavam; quando o faziam era para o insultar. A se acreditar nele, houve até mesmo um atentado a tiros contra sua vida e um incêndio em sua casa. Ibidem, 1990, p. 59. A rejeição atravessou gerações. Em jornal publicado em 1871, J. F. de Paula Castro retrucava uma correspondência nos seguintes termos: “Preferia antes ser descendente de um africano, mas que fosse honrado, do que descender de denunciantes – falo do que denunciou os inconfidentes, de estelionatários, ladrões e bancarroteiros”. Noticiador de Minas. Ouro Preto, edição 294, 30 de março de 1871, p. 04. APM. Quanto a Minas Gerais, é razoável supor que a prisão de pessoas tão importantes, a devassa, a exposição da cabeça de Tiradentes na praça de Vila Rica, tenha causado profunda e duradoura impressão nas pessoas. O retorno de vários conjurados do exílio possivelmente trouxe a tona o assunto. José Rezende Costa e o Padre Manoel Rodrigues da Costa participaram da Constituinte de 1823; o último fez um apelo ao governo central em favor dos revoltosos de 1842. Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a musa de Gonzaga, faleceu em Ouro Preto apenas em 1853. Ao visitar a província, na segunda metade do século XIX Richard Burton anotou que se mantinha viva a memória dos acontecimentos e era corrente entre a população a opinião de que a pena imposta aos inconfidentes fora excessiva e injusta: “perto de onde estávamos fica a pequena casa de três janelas onde morou o infortunado alferes da cavalaria Joaquim José da Silva Xavier [...]. Aquela casa nos traz à lembrança o tempo de um movimento popular do qual esta grande e heróica província tem razão se sentir orgulhosa por ser ele ligado diretamente à Independência do Brasil. É evidente o caráter democrático da insurreição que o governo chamou de Conjuração e que hoje é conhecido popularmente como Inconfidência e tornou-se tão sagrado como nossa Grande Rebelião”. Quanto ao julgamento dos inconfidentes, Burton afirma que “diz-se, porém, que as provas [contra eles] eram legalmente fracas e, consequentemente, que a sentença foi iníqua”. BURTON, 1976, p. 291-292. Na década de 1840 as Liras de Gonzaga foram publicadas; em 1848, o romance Gonzaga ou a conjuração de Tiradentes, de autoria de Antônio Ferreira de Souza, saía do prelo. Bernardo Guimarães, que inclusive foi lente da Escola Normal e do Liceu Mineiro, publicou o conto A cabeça de Tiradentes em 1867. Como caracterizou Pierre Nora, “a memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos”; ela é um “fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente”, porque é “afetiva, mágica, não se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas [...]. Se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto”. NORA, 1993, p. 09. 55 que remetia à má ação dos governantes – contexto muito semelhante ao que nossos personagens entendiam viver. Os ideais defendidos pelos inconfidentes provavelmente foram as principais referências na construção de uma (auto) imagem regional em Minas no Oitocentos. No último quartel do XIX figuras como Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antonio Gonzaga e Tiradentes retornaram à cena nos principais veículos de informação e opinião provinciais. Desde 1870, os clubes republicanos do Rio de Janeiro e de Minas Gerais vinham tentando resgatar a memória de Tiradentes e da Inconfidência.101 O passado de revoltas contra a opressão constituía expressiva parte da identidade regional segundo a qual os mineiros tinham um caráter peculiar cuja característica principal era o amor à liberdade herdado pelos antepassados. Esta identidade criava uma expectativa de ação no presente. Em 1886 dizia o redator do jornal imparcial Minas Altiva: Ouro Preto está edificada sobre a nudez de um terreno prisco, sobre montanhas metamórficas e azóicas, onde a beleza, a força, a liberdade, foram aliadas pela providência para ali nascer e desenvolver-se um povo que tem de honrar a civilização, um povo independente, justo, bom e livre. Ao longe, a 1725 metros acima do nível do mar, um gigantesco dedo de quartzito, chamado Itacolomi, aponta para o infinito como que, indicando ao futuro que aqui está o berço da liberdade, aqui onde ecoou um primeiro vagido [sic], que foi abafado com o sangue de um herói. E assim como as serras são alcantiladas, fragosas e selvagens nos caprichos admiráveis, assim o caráter dos mineiros é leal, franco, singelo, mas altivo sempre em seu louvável orgulho e nobreza [...]. Não há interesses que façam arquear a espinha dorsal dos verdadeiros mineiros. Nasceram para a independência, e tem os germens dela dentro da alma.102 Os “montanheses eram habituados a resolver por si as necessidades que a cada passo encontravam em sua árdua fauna”; portanto, “era natural que nada esperassem da ação do centro administrativo”103. Ao mesmo tempo em que se rompia com um passado monárquico, caracterizado como absolutista, atrasado e 101 Em 1866 o então presidente da província, Saldanha Marinho, ergueu um monumento a Tiradentes em Ouro Preto. Em 1881 houve a primeira celebração do 21 de abril. Nos jornais mineiros os folhetins eram espaços ocupados pelos escritores mineiros e traziam temas e cenários igualmente locais e regionais, como o folhetim escrito por Henrique R. de Genettes cujo título é O Inconfidente, e que era publicado pelo jornal Echo do sertão, de Uberaba. Em 1888 foi criado um jornal em Campanha chamado A conjuração. No ano seguinte, na mesma cidade, publicava-se o periódico A Revolução, cuja epígrafe era “Em um regime de compressão e de violência, conspirar seria o nosso direito”. APM. 102 Minas Altiva. Ouro Preto, 25 de março de 1886, p. 01. APM. (Grifos nossos). 103 PIRES, 1939, p. 87. 56 despótico, trazia-se para perto um outro passado, iluminista, com o qual se esperava estabelecer uma continuidade no presente. O símbolo deste passado, verdadeiro elo perdido que poderia ter construído um laço cronológico entre o Brasil e a Europa, era o mártir Tiradentes.104 Em uma resenha de História do movimento político de 1842, escrita por José Antônio Marinho, o redator de O Pharol afirma que ao “compulsar as negras páginas” escritas por Marinho, salta aos olhos “esse padrão de vergonha e opróbrio do reinado do Sr. Pedro II”. De seu ponto de vista o movimento de 1842 seria uma “memória indelével, levantada das ruínas de nossas liberdades para mostrar aos futuros séculos o amor que nossos reis consagram às seitas dos bajuladores, que humildes e submissos rojam-se pelos tapetes dos dourados salões dos Neros”.105 Os destroços do passado eram simbolizados por eventos como a Inconfidência, o Regresso, a rebelião de 1842: em todas estas situações, a vontade provincial, entendida como o interesse local, fora violentamente reprimida pelo absolutismo a despeito do desejo do povo.106 Cabia aos mineiros romper com estas amarras do passado que se arrastavam sobre o presente e, para tanto, era necessária a ação dos homens através da imprensa: Esta província que tanto tem sofrido; que tem vergado silenciosa pelo anátema lançado sobre seus filhos; que tem tragado muitas e muitas vezes a amarga realidade de ser administrada por homens alheios aos seus interesses e desenvolvimento; que tem recebido submissa os frutos da perniciosa centralização do governo geral, solta agora pela imprensa um gemido, uma 104 O significado da figura do herói remete também ao iluminismo. Para Shaftesbury, o heroísmo configura a imediata identificação entre o indivíduo e a comunidade, e cada vez tenderia a coincidir com a filantropia. No perigo e na guerra a amizade se torna sacrifício em uma operação que resume um entusiasmo único pela virtude, que não esconde um conteúdo moral e político moderno. VENTURI, 2003, p. 143-144. José Murilo de Carvalho ressalta também que “o herói deve ter, de algum modo, a cara da nação. Tem que responder a alguma necessidade ou aspiração coletiva, refletir algum tipo de personalidade ou comportamento que corresponda a um modelo coletivamente valorizado. Na ausência de tal sintonia, o esforço de mitificação de figuras políticas resultará em vão”. CARVALHO, 1990, p. 55-56. 105 O Pharol. Juiz de Fora, edição 26, 09 de abril de 1870, p. 01. APM. (Grifos nossos). 106 Em 1871, o deputado liberal Teixeira da Motta foi amplamente apoiado em um discurso em que relacionava o despotismo à centralização monárquico-conservadora e o interesse do povo aos interesses locais; “Tão graves tem sido as provas que o presidente tem dado do pouco apreço em que tem a província, na pessoa de seus representantes, que esta questão não é de pura etiqueta. Isto é a continuação de um sistema meditado e seguido com uma perseverança verdadeiramente maquiavélica. Querem acabar com o elemento provincial; querem desprestigiar completamente as assembléias provinciais, não temos senão o governo dos delegados do poder executivo. Diga-se a verdade, diga-se que o ato adicional é letra morta, que a opinião pública nada vale. As provas nós as temos: eis mais uma. Poderei estar em engano: convençam-me do contrário. O silêncio desta casa, quando profiro estas verdades tão sérias, é mais significativo; nem uma voz se ergue!”. Noticiador de Minas. Ouro Preto, edição 300, 15 de maio de 1871, p. 03. APM. (Grifos nossos). 57 reclamação, trazidos às colunas da grande válvula de Gutenberg e por onde se escapam os gritos de angústia e de guerra dos povos oprimidos e insultados.107 A 15 de novembro de 1888 reuniu-se em Ouro Preto um Congresso Republicano cujas decisões tiveram profunda repercussão em toda a província mineira. A propósito deste encontro, Antonio Olyntho dos Santos Pires, que viria a ser o primeiro governador de Minas sob a República, redigiu um trabalho chamado A idéia republicana em Minas. Em sua exposição, Antônio Pires cita o trecho de um artigo publicado no jornal Colombo por Lúcio de Mendonça, em 1879, no qual as metáforas traduzem a sensação de anacronismo: Está por todo lado ameaçado o monumento constitucional, o monstruoso casarão construído há uns cinqüenta anos pelos dez arquitetos do Sr. D. Pedro II. Bem se via que a tal edificação aparatosa não era coisa sólida, não era sequer decente [...]. Não resistiria à crítica, nem resistiria ao tempo: tinha materiais podres, carcomidos de séculos e, sobretudo, não tinha unidade de estilo; era autocrática, era jesuítica, era democrática; tinha coisas de antes do dilúvio e coisas de depois da revolução; depositaram-lhe debaixo da pedra fundamental um cajado de patriarca, uma das botas de Luis XIV, um sambenito e uma carapuça de “sansculotte” – uma página da Bíblia, outra das Ordenações do Reino e um pedaço roto da Declaração dos Direitos do Homem [...]. Há de ruir por terra, inevitavelmente, a Bastilha sinistra em que a nossa covardia deixou encarcerar-se o futuro da pátria brasileira. Mas como? Por uma comoção do solo, por uma revolução do povo.108 O redator concluiu que enquanto o povo brasileiro não se libertar de sua própria Bastilha, a nação estará encarcerada em um tempo sem futuro. Contudo, segundo afirma Lúcio de Mendonça, a ruptura entre o passado e o presente ocorrerá inevitavelmente. Esta afirmação só é possível devido a uma compreensão tempo como agente inexorável de mudanças. A libertação, no entanto, não se tratava de uma simples rebelião, mas da construção de um mundo novo. Se, por um lado, os governantes vinham sendo desmoralizados pela imprensa, identificados com o antigo, o arcaico e o retrógrado, por outro, surgia um segmento intelectual que, devido aos seus conhecimentos, pertencia de algum modo ao tempo europeu. Identificados com as novas idéias, com o moderno e com o futuro, nada mais natural que estivessem à frente deste movimento. Como educadores, sua função era 107 Minas Altiva. Ouro Preto, 25 de março de 1886, p. 01. APM. (Grifos nossos). 108 PIRES, 1939, p. 87. 58 qualificar o brasileiro como cidadão de um país civilizado. A educação do povo vinha sendo ressaltada como o caminho para o futuro: Devemos estudar, pois assim como não há campo que, bem cultivado, não produza frutos, também não há inteligência que não se desenvolva, que não se esclareça por meio da cultura. Uma casa onde não se fala em ciência, nem em literatura e nem em belas artes é um túmulo. Nós não podemos gozar de todas as maravilhas da Europa, é verdade; mas, graças à divina invenção de Gutenberg temos o que ela tem de mais precioso: os livros.109 Os lentes da Escola Normal estavam em posição privilegiada neste processo de transformação do Brasil, compondo um grupo central na formação da opinião pública mineira através de suas ações nos jornais e no interior da Escola. 109 O volitivo. Uberaba, edição 8, 21 de setembro de 1884, p. 03. APM. 59 2 – Conhecimento e ação: a concretização do novo tempo A jangada há de navegar neste mar bravio e, se ainda não pode de todo arrostrar a onda que lhe açoita a proa, é talvez por falta de suficiente lastro. Marinheiro de primeira viagem em mar tempestuoso custa a suportar o balanço; mas, afinal, vence, sobe ao topo da verga, desfralda a vela – e ei-lo pronto para a grande navegação! A Vela do Jangadeiro. Edição 18, 31 de dez. de 1884. A sensação de anacronismo foi uma temática muito explorada durante a campanha republicana em Minas Gerais. A interpretação de que o Brasil estava atrasado em relação à uma marcha universal rumo ao futuro moderno se disseminou através da impresa. Para explicar o presente os professores retornaram à uma narrativa histórica muito divulgada durante o processo de Independência, o Primeiro Reinado e as Regências, segundo a qual o processo de colonização foi marcado pela opressão e pelo despotismo metropolitano. Tendo a Europa como horizonte e baseados em um arcabouço teórico universalista a proposta para a resolução deste problema era a ação cotidiana visando acelerar o progresso para que o país se igualasse cronologicamente ao Ocidente. Assim, arricamos afirmar que houve uma experiência de tempo hiperacelerada. Uma das reivindicações feitas pelo movimento da Inconfidência era a fundação de uma universidade em Minas. Durante a primeira metade do Oitocentos os investimentos na educação foram amplamente discutidos pelo governo provincial.110 Concretizar projetos desta monta parecia inadiável. É neste sentido que entendemos a criação da Escola Normal de Ouro Preto (1871), do Liceu Mineiro (1871) e da Escola de Minas de Ouro Preto (1876). Os professores ligados a estas instituições agiram através de diferentes estratégias 110 JINZENJI, 2002. Estes debates foram bastante difundidos pelos jornais O’Universal, O Novo Argos e pelo O Jornal da Sociedade Promotora da Instrução Pública, na primeira metade do século XIX. SALES, 2005. Segundo Maria de Lourdes Mariotto Haidar havia uma desconexão entre as demandas provinciais e seus presidentes, indicados pelo governo central, devido tanto à instabilidade dos últimos quanto à desconexão entre os interesses locais e os funcionários da coroa - norteados mais pela preocupação política que pela intenção de bem servir ao interesse das províncias. Esta situação impunha obstáculos consideráveis aos progressos da instrução pública provincial. HAIDAR, 2008, p. 31; ABUD, 1997. 60 visando acelerar o progresso. Os mestres, em sua maioria, procuraram ampliar suas redes de sociabilidade e sensibilizar os estudantes acerca dos problemas nacionais, sobretudo, no que diz respeito à emancipação dos escravizados e à república. Estas ações ultrapassavam os muros das instituições. Entretanto, no interior das escolas, os lentes buscaram revisar os conteúdos curriculares, avaliando os compêndios adotados e escrevendo manuais por iniciativa própria. Na primeira parte deste sub-capítulo visamos demonstrar que o prédio onde se localizavam a Escola Normal e o Liceu Mineiro se tornou lugar central para a sociabilidade entre alunos e professores. A ação pioneira dos mestres Afonso de Britto, Samuel Brandão, Alcides Catão de Rocha Medrado e Eduardo Machado de Castro na defesa da abolicção permitiu uma ponte precisa entre este segmento e os estudantes, cujos laços se concretizaram através da fundação de associações, na organização de eventos e passeatas, na publicação de jornais etc. Procuramos descrever e analisar estas relações que acabariam por impressionar os moradores de Ouro preto e, sempre que possível, apontar, através da análise da linguagem, termos e argumentos que relacionam o passado mineiro à noção de modernidade e o presente à noção de atraso. Para tanto, utilizamos como fontes os jornais mineiros, a memória Homens de Ouro Preto, publicada em 1954 pelo engenheiro Pedro Rache, e a memória Homens e factos de meu tempo, escrita em 1939 pelo farmacêutico Aurélio Egydio dos Santos Pires. Ambos estudaram em Ouro Preto na década de 1880. Na segunda parte defendemos que a Inspetoria da Instrução Pública e os mestres ora aludidos compartilhavam um projeto de reforma dos conteúdos de história a serem disseminados através da Escola – em suma, estavam conectados a um projeto modernizador que se passava em três tempos: o passado como herança, o presente como pedagogia unida à ação e o futuro como progresso. Como mostraram os jornais mineiros avaliados no item anterior, o processo histórico brasileiro vinha sendo entendido através de uma perspectiva dualista: da oposição entre o velho e o novo, o antigo e o moderno, o despotismo e a democracia, o despotismo português e o povo. Buscamos avaliar como esta nova interpretação do passado se refletiu na escolha de novos livros de história para uso na Escola Normal. Para tanto, utilizamos como fontes as Atas e pareceres da Congregação de Lentes da Escola Normal de Ouro Preto, nas quais os professores avaliaram compêndios e livros de 61 História que poderiam ser adotados pela instituição. 2.1 – Mestres e alunos: a sensibilização da opinião pública em Minas Os professores do ensino secundário ocuparam papel de destaque no último terço do século XIX, quando o conhecimento foi profundamente associado ao progresso sociopolítico e técnico-científico das nações. A concretização desta nova Era encontrava em Ouro Preto um cenário privilegiado em que mestres e alunos viviam um cotidiano povoado pela lembrança dos árcades, de Gonzaga a Cláudio Manoel, experimentando a sensação de reproduzir no presente uma experiência do passado idílico. “Palco da derrota” do progresso; “investida pela imaginação de uma aura simbólica”; experimentação de uma “experiência que foi vivida por outros, mas que se materializa no presente” e “tradução nostálgica” de um futuro perdido: a topografia e a arquitetura da capital mineira detinham diversos elementos do que Pierre Nora chamou “lugar de memória”.111 A presença do passado, de um mundo de possibilidades perdidas, poderia ser retomado no presente. O cenário frio, a sofisticação dos cafés, as serenatas, os estudantes pensativos: no último terço do Oitocentos a capital mineira parecia, de certo modo, querer recriar o ambiente europeu não efetivado em 1789. Pedro Rache, então um recém chegado estudante rio-grandense, descreve as impressões que teve da cidade em 1880: 111 A presença do passado, de um mundo de possibilidades perdidas, poderia ser retomado no presente. O cenário frio, a sofisticação dos cafés, as serenatas, os estudantes pensativos: no último quartel do século XIX a capital mineira parecia, de certo modo, querer recriar o Em sentido mais amplo, Pierre Nora entende que um lugar de memória tem três características principais: é material, simbólico e funcional. Para o autor, a materialidade de um lugar de lemória remete a uma unidade temporal, à imaginação, investindo-o de uma aura simbólica, transmitindo de forma abstrata uma experiência sensível do realizado por outros atores. Ele funcionaria como “uma chamada concentrada de lembrança”. Para experienciá-lo, todavia, o autor ressalta que é preciso ter vontade de memória. Por outro lado, um lugar de memória deve remeter, simultaneamente, à consciência da mudança, isto é: “sua derrota em se tornar aquilo que quiseram seus fundadores. Estivéssemos hoje vivendo sob seu ritmo, ele teria se nos tornado familiar. Mas sua derrota não é total. Se é verdade que a razão de ser de um lugar de memória é parar o tempo, é bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estado de coisas, imortalizar a morte, materializar o imaterial para prender o máximo de sentido num mínimo de sinais, é claro, e é isso que os torna apaixonantes: que os lugares de memória só vivem de sua aptidão para a metamorfose, no incessante ressaltar de seus significados e no silvado imprevisível de suas ramificações”. Assim, “tudo o que vem do culto dos mortos, tudo que sobressai do patrimônio, tudo o que administra a presença do passado no presente” pode ser, portanto, um lugar de memória. NORA, 1993, p. 21-23. 62 Que magnífico espetáculo! Cafés! Esplêndidos cafés! Lojas de fazendas, armazéns de especialidades, gente de bom aspecto passando pelas ruas! Ficamos bestializados diante de tão inesperado espetáculo! Então isso não era tão atrasado como supúnhamos! Mas meu espanto excedeu todos os limites quando o nosso cicerone pediu ao empregado do café uma garrafa de cerveja Marca Pá, que lhe foi imediatamente servida. Estava verdadeiramente maravilhado! Uma cidade onde se bebia comumente uma cerveja alemã!112 Dos cafés à cerveja alemã: a cidade procurava se conectar ao tempo europeu, se aproximar de seu cotidiano, cultivar seus hábitos, disponibilizar seus produtos. O memorialista ressaltava que Ouro Preto era “na realidade uma grande cidade, capital de um importante Estado do Brasil” e “habitada por gente de esmerada educação, famílias da mais alta estirpe, ruas principais de grande movimento”, “cafés, bares, hotéis, livrarias”, enfim, “cidade igual às melhores, embora edificada sobre ásperas serras que obrigavam a ruas muito inclinadas”.113 Aurélio Pires, estudante do Liceu Mineiro e da Escola de Farmácia, descreveu a capital de forma semelhante em sua memória, publicada em 1939: Cidade escola! Nada mais expressivo, nada mais acertado. A Ouro Preto de há cinqüenta anos era um antigo burgo escolástico, de recolhimento pensativo e paz estudiosa, [...] parecida também com uma daquelas velhas cidades universitárias alemãs em que se encontravam a vaguear, pelas ruas silenciosas, sábios pensativos e estudantes sonhadores, isto é, poderia dizer-se que era uma cidade de pensamento: havia idéias pelo ar em um comércio silencioso e indefinível. Em cidades assim é que, na quietação da natureza e dos homens, o pensamento se cristaliza, as criações da mente tomam corpo, vivem, substituindo a realidade.114 O memorialista acrescenta que a cidade, nessa época, se assemelhava a “uma edição brasileira da velha Coimbra em que os estudantes de então, idealistas e sonhadores, enchiam a velha capital de rumor e alegria”.115 A fundação das instituições de ensino na década de 1870 contribuiraam para este cenário. Os professores formavam um novo segmento de profissionais liberais e os estudantes, vindos de todo o Brasil, conformavam também um novo grupo de consumidores, dinamizando o cotidiano e a economia locais. 112 RACHE, 1954, p. 30. Ibidem, p. 30. 114 PIRES, 1939, p. 53-54. (Grifos nossos). 115 Ibidem, p. 64. 113 63 Em março de 1871 os deputados liberais estavam indispostos com a morosidade do governo conservador. Em seu discurso, Joaquim Bento desabafava: “o dever me impede de ficar calado [...]. Ao início do ano todos esperavam por profundas reformas nas estradas e na instrução pública, mas pouco se fez e falou sobre o assunto”.116 A reivindicação obteve apoio quase absoluto. Pressionado, o presidente da província, Antônio Luiz Afonso de Carvalho, concordou que “a instrução é um dos mais graves assuntos da administração, que exige ativa e contínua atenção”.117 Dias depois apresentou um projeto de fundação da Escola Normal e do Liceu Mineiro: A criação de escolas normais é de urgente necessidade: os professores se formam por despachos de nomeação, nem se habilitam por ligeiros exames em lugares remotos. E não compreendo como se pretenda ter bons professores, sem darlhes escolas normais, em que previamente estudem com perfeição as matérias que tem que ensinar. Ensina-se nas nossas escolas, com pequena diferença, como há trinta ou quarenta anos passados ensinavam os mestres no antigo regime. [A Câmara vota a favor do projeto n. 22, em que o governo ficava autorizado] §1º A criar um liceu, ou externato nesta capital no qual se lecionarão os preparatórios necessários para a imissão nas faculdades e cursos superiores do Império, e mais desenho, e musica. §2º - A criar uma escola normal, na qual se ensinarão em um curso de três anos as matérias necessárias para habilitação dos aspirantes ao professorado da instrução primária. §3º - A criar mais uma cadeira de física e mineralogia no curso de Farmácia, que fica elevado a três anos.118 A Escola Normal de Ouro Preto, fundada em 1871, destinava-se à Formação de professores para a instrução primária.119 O curso da Escola Normal 116 As acusações de Joaquim Bento surtiram grande efeito sobre os presentes na reunião. Ele seguia acusando o presidente provincial: “Vós fostes negligentes no cumprimento do vosso dever, porque deixastes passar despercebidos os dois ramos mais importantes do serviço – a instrução pública e os melhoramentos materiais”. Noticiador de Minas. Ouro Preto, edição 288, 16 de março de 1871, p. 01-02. APM. 117 Noticiador de Minas. Ouro Preto, edição 291, 23 de março de 1871, p. 01. APM. 118 Podemos notar que a comparação com o Antigo Regime é entendida de forma depreciativa: ele representa uma imagem com a qual o conservador não quer ser identificado. Noticiador de Minas. Ouro Preto, edição 291, 23 de março de 1871, p. 01. 119 Segundo Ronaldo Vainfas, as primeiras Escolas Normais brasileiras surgiram a partir de 1835, criadas pelas assembléias do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e São Paulo, sendo a primeira delas fundada em Niterói. As escolas normais tinham por principal finalidade “ensinar como se ensina” e destinavam-se a preparar candidatos ao magistério público. Inspiradas no modelo da Escola Normal francesa, existente desde o século XVIII, propunham um curso pautado em torno das disciplinas necessárias ao ensino primário. Proclamadas como solução para os problemas da instrução pública, elas teriam pretendido assumir o papel de “templos do saber”. VAINFAS, 2002, p. 236-237. 64 compreenderia as seguintes matérias: caligrafia, leitura de prosa e verso, sistema métrico decimal, religião, gramática nacional com exercício de redação, desenho linear, aritmética, pedagogia, principalmente a parte relativa aos métodos, noções gerais de física e química mais aplicáveis aos usos da vida, conhecimentos elementares de agricultura, geografia, história do Brasil e finalmente a legislação a respeito do ensino.120 O liceu e a ENOP seriam sediadas no mesmo prédio e compartilhariam também o quadro docente. Em 1876 o governo imperial fundaria na capital mineira a Escola de Minas de Ouro Preto, que seria dirigida pelo engenheiro francês Henri Gorceix, e, em 1884, os engenheiros Chockatt de Sá e Archias Medrado criariam o Liceu de Artes e Ofícios. A criação de três instituições de ensino em apenas uma década, sendo uma delas dirigida por um cientista francês, era motivo de comemoração e expectativa. Os periódicos noticiavam que a província seria “uma nova fênix que vai renascer de suas cinzas”.121 Embora o presente tendesse a ser entendido como potencialmente superior ao passado, alguns deputados acreditavam que os mineiros já tinham vivido dias melhores. Recuperar um passado em parte superior ao presente, no entanto, era um recomeço: “os nobres deputados demonstraram que a província de Minas será a mesma de outrora, sendo ainda mais brilhante em seu futuro”.122 Gradualmente, os lentes se tornaram muito respeitados na capital. Em um quadro composto por poucas perspectivas profissionais, formavam um grupo seleto de profissionais que se sustentava somente através do talento e conhecimento.123 Em geral, os mestres são descritos como severos, rigorosos nos exames, confiantes de seu saber, eloqüentes, éticos e extremamente coerentes com seus ideais. Em sua memória, Pedro Rache se referia a Leônidas Damásio, Archias Medrado e Eduardo Machado de Castro como “verdadeiros semi-deuses, de exigência satânica. Uma grandiosa plêiade de sábios, sem consideração alguma por ignorantes como 120 Noticiador de Minas. Ouro Preto, edição 295, 01 de abril de 1871, p. 01. APM. 121 Noticiador de Minas. Ouro Preto, edição 296, 04 de maio de 1871. APM. 122 Discurso do Sr. M. Caldeira. Noticiador de Minas. Ouro Preto, edição 296, 04 de abril de 1871. APM. 123 Joaquim Nabuco descreveu o quadro desanimador da oferta de trabalho de sua geração: a política se tornara “triste e degradante luta por ordenados”. NABUCO, 1883, p. 138. Segundo o autor, “Neste regime, tudo se espera do Estado, a única associação ativa [...]. Muitas avenidas que poderiam oferecer um meio de vida a homens de talento, mas sem qualidades mercantis, como a literatura, a ciência, a imprensa, o magistério, não passam ainda de vielas”. Ibidem, p. 131. 65 nós!”.124 Aurélio Pires lembra que Afonso de Britto era um “feroz latinista, reputado, então, um segundo Átila, açoite de Deus”.125 Segundo o memorialista sua conduta moral era severa: Inteiramente inacessível a empenhos, de uma impassibilidade olímpica perante o pálido terror dos estreantes – era notória a sua inflexível justiça [...]. Nunca se desviou um só ápice do aprumo em que mantinha sua estatura moral. Não cedia um só passo, uma só linha, daquilo que reputava ser e que considerava o seu dever e, dentro da couraça dessa coerência consigo mesmo atravessou a vida.126 A preocupação com a imagem refinada, a polidez e o cosmopolitismo se aliavam à detenção do conhecimento e à moralidade: este conjunto de atributos que compunham a figura dos mestres inspirava o respeito e conquistava a admiração dos estudantes, bem como a confiança de que poderiam guiar o país em direção ao aperfeiçoamento que o Ocidente já experimentava. 127 Os valores que os professores defendiam e vivenciavam eram exemplos para os estudantes, que se identificavam RACHE, 1954, p. 34. Archias Eurípedes da Rocha “era homem de grande eloquência, dono de fraseado encantador e, apesar da voz gutural que não lhe era favorável, facilmente desmontava os contraditores, sem se preocupar com os termos ofensivos de que estes se serviam. Era como se todo o mundo fosse constituído por discípulos seus, aos quais falava sempre paternalmente”. Ibidem, p. 81. O memorialista lembra, ainda, que Medrado era “grande patriota, republicano convicto, tinha o culto extremado da liberdade e suas atitudes correspondiam sempre às idéias por ele defendidas”. Ibidem, p. 78. 125 PIRES, 1939, p. 59. 126 De modo geral, os memorialistas Aurélio Pires e Pedro Rache tinham imagens semelhantes a respeito dos mestres. O respeito e a admiração são sempre lembrados. Alguns relatos revelam o grau do comprometimento dos professores com seu ofício. Aurélio Pires conta que em 1897 Afonso de Britto estava muito doente; de fato, ele viria a falecer dias depois: “Encontrei-o febril e abatidíssimo; a mão escaldava-lhe e a respiração era ofegante. Entretanto, reconheceu-me, para recair logo no subdelírio em que se debatia. Proferiu algumas palavras, em voz mal audível, das quais percebi que se referia ao Ginásio, que era sua preocupação dominante”. O comentário de Pires sobre a morte do latinista é significativo: “Morreu sem haver tido tempo de ter medo da morte”. Ibidem, p. 62-62. Profundamente comprometido com o projeto moderno, entendendo que contribuir com o crescimento brasileiro era o seu dever como patriota, o latinista parecia experienciar o tempo de forma que o presente se tornava um instante brevíssimo, sempre em movimento rumo ao futuro. O Manifesto do Partido Republicano de Ouro Preto, fundado em 4 de junho de 1888 – do qual Eduardo Machado de Castro, Leônidas Damásio, Archias Medrado e Antônio Felício dos Santos foram signatários, entre muitos outros – é também elucidativo sobre a experiência do tempo como aceleração: seu lema era “agir, sempre agir, nunca parar é a nossa missão, será a de amanhã, a de todos os dias, até que sejamos vencedores”. Ibidem, p. 119. 127 Segundo Arthur Herman a modernização pode ser vista também como um processo de racionalismo gradual, acompanhado de um refinamento dos costumes, da polidez e do cosmopolitismo; “o refinamento dos costumes traz consigo a tolerância pelas diferentes opiniões políticas e religiosas [...]. Os homens buscam a compreensão racional, em vez de mítica, para a ação da natureza. Tratar os outros com respeito, civilidade: a polidez é mais que uma questão de boas maneiras – ela torna patente nossa verdadeira natureza enquanto seres racionais, sociais, morais”. HERMAN, 2001, p. 31. AZEVEDO, 1998. 124 66 com esta nova ética.128 As relações entre os mestres e os estudantes ultrapassaram os muros das instituições de ensino. Como sugeriu Gustavo Cota, “nos corredores ou salas de aula poderiam circular mais que palavras em latim e cálculos matemáticos”.129 Fora das paredes das escolas os jovens entraram em contato com saberes, temas ou práticas que excediam os manuais de ensino. Certamente, vários de seus lentes já as tinham abandonado, construindo e ministrando um novo conjunto de conteúdos. Nos cafés, livrarias, bares, adros das igrejas, nas redações dos jornais e nas repúblicas estudantis, professores e alunos estendiam suas sociabilidades. Aurélio Pires se recorda destes momentos de confraternização. Um dos que mais fascinavam os alunos era o professor de história e geografia Eduardo Machado de Castro: Tão grande e tão profundo era seu amor [pela mocidade] que, não fora a corpulência com que a natureza o dotara, dificilmente se diferenciaria o mestre dos discípulos por ocasião daquelas formidáveis patuscadas [...]. De dia, lecionava com proficiência e paciência a alunos que, atentos e respeitosos, ouviam seu ensinamento [...]. À noite, porém, à hora propícia às serenatas e às ceias aquecedoras, era de ver-se o sentimento poético com que o mestre, cercado de discípulos sentados nos degraus musgosos das igrejas anciãs, ou nos bancos de pedra das pontes seculares da velha capital, ao som das flautas modulas e dos violões gementes, recitava poesias de Fagundes Varella e Castro Alves, atirando para as alturas os longos braços de bíceps rijos [...]. É a essa época, provavelmente, que se referem aqueles 128 A ascensão social através do mérito individual era um importante valor para estes mestres, segundo os memorialistas Pedro Rache e Aurélio Pires, e isto inspirava profundo respeito dos estudantes. Rache se recorda de que Archias Medrado “tinha o hábito de entreter longas conversações com os alunos de todas as classes, aproveitando a oportunidade para doutrinar educativamente. Formava-se grande roda e sobre qualquer assunto ele discorria longamente, encantando os ouvintes. Quase sempre o tema era de fundo educativo e, não raro, ouvíamos a história dos grandes vultos da matemática. Lembro-me do caso de Poinsot. Empregado do comércio, homem feito, sem recursos que lhe permitissem dedicar-se ao estudo, aproveitava escasso tempo, antes de dormir, para preparar-se, visando o concurso de admissão à Escola Superior da França, concurso concorridíssimo”. Poinsot fora aprovado, mas sua classificação não lhe permitiria ingresso. Diante disso, “com a inspiração dos gênios”, voltou-se para a Banca examinadora e falou: “Senhores, devo esclarecer-lhes que o exame que presenciaram foi realizado com o aproveitamento de escasso tempo disponível, depois do trabalho diário, pouco antes de dormir. A minha situação econômica e a situação de caixeiro do comércio não permitiram dispor de outras oportunidades para o estudo. O esforço que fiz para conseguir isto não pode ser imaginado. Posso afirmar que será impossível repetilo”. Em seguida, o memorialista lembra que Poinsot teria pedido à banca que lhes expusesse outras questões. A comissão se impressionou e concordou, aprovando-o. “Neste ponto Medrado exclamava entusiasmado: ‘Poinsot foi o maior matemático do seu século!’”. RACHE, 1954, p. 105. A anedota mobilizava também uma questão ética: criar oportunidade para que os pobres expressassem seus talentos era essencial para o aperfeiçoamento da sociedade; a política do apadrinhamento, na qual só os “afilhados dos grandes” tinham chance, desperdiçava talentos e favorecia o torpor intelectual, atrasando o desenvolvimento. 129 COTA, 2007, p. 56. 67 formosos versos de Lúcio de Mendonça: Minas é a terra das manhãs brumosas, das longas noites de ideal poesia/ Como a Alemanha legendária e fria, Minas é a terra das canções saudosas.130 Pedro Rache também se referiu a essa “prática de serenatas barulhentas para os lados do Antônio Dias, lá onde Gonzaga poetizou maravilhosamente os encantos de sua Marília”.131 Segundo ele, “os estudantes também frequentavam esta zona lírica”.132 O cenário antigo, frio e romântico remetia a lembranças nostálgicas de um passado imaginado em que homens ilustrados sonharam superar o mundo sombrio em que viviam no período colonial. O “lugar de memória” arrastava sobre o presente um passado idealizado. A figura dos lentes possivelmente os investia de uma aura simbólica, associada à imagem dos árcades da Inconfidência. Assim como Tomás Gonzaga, Machado de Castro não era “algum vaqueiro” que tivesse de “guardar alheio gado, de pouco trato, de expressões grosseiras”.133 Por outro lado, no presente, alunos e professores poderiam resgatar o projeto da Inconfidência e acertar os ponteiros com a Europa. Na campanha pela emancipação dos escravos, iniciada na capital por nossos personagens, mestres e alunos aprofundariam suas sociabilidades. O prédio onde se localizavam a Escola Normal, o Liceu Mineiro e a Escola de Farmácia se tornaria o principal ponto de encontro do movimento abolicionista ouro-pretano. Através desta campanha os professores conquistariam definitivamente o respeito da imprensa da capital e de importantes segmentos da opinião pública.134 130 PIRES, 1939, p. 64. (Grifos nossos). RACHE, 1954., p. 78. 132 RACHE, Op. Cit., p. 78. 133 GONZAGA, 1884, p. 03. 134 O reconhecimento social destes intelectuais não se restringia à capital mineira. Em 1884 a redação do Litteropera, órgão da sociedade litteropera da Academia de S. Paulo, em seu primeiro número honrava Afonso de Britto e Samuel Brandão com as seguintes expressões: “À Vela do Jangadeiro. A velha Vila Rica, terra da liberdade pelas suas tradições, não podia deixar de ser iluminada pelos raios da grande idéia, que hoje ocupa a atenção de todo brasileiro – a extinção da escravidão. É assim que ela conta em seu seio um periódico que, simples e modesto como a própria idéia que defende, procura arredar do trilho da locomotiva da civilização o empecilho que a pode descarrilar; advoga a causa dos escravos. À frente da sua redação estão dois moços adiantados, que adotam uma idéia depois de verdadeiro estudo. São Paulo, 15 de agosto de 1884. A. de M.”. A Vela do Jangadeiro. Ouro preto, edição 11, 07 de setembro de 1884, p. 04. APM. (Grifos nossos). Pedro Rache recordava também que na década de 1890, quando das discussões sobre a possível transferência da capital, “o povo de Ouro Preto se fez representar na Constituinte por alguns dos mais graduados de seus filhos”. Entre eles, encontravam-se diversos lentes das instituições de ensino da capital, como Rocha Lagoa (Escola de Minas) e Camilo de Brito (Escola Normal e Liceu Mineiro). Apesar de derrotados, o memorialista lembrava que “Isso não impediu que o povo de Ouro Preto ficasse imensamente agradecido a seus defensores e lhes preparasse estrondosa recepção por ocasião de seu regresso da campanha perdida. O entusiasmo era indescritível! Verdadeiro desabafo e protesto! O povo vibrou 131 68 De acordo com Aurélio Pires os abolicionistas da capital inflavam suas fileiras a cada dia. O farmacêutico se lembrava daqueles que seriam os principais líderes da campanha emancipatória na capital: Em torno de Archias Medrado, que empunhava o lábaro da nova crença, grupavam-se legionários da cruzada bendita, tais como Leônidas Damásio, Manoel Joaquim de Lemos, Antonio Olyntho, Eduardo Machado de Castro, Afonso de Britto, Samuel Brandão, Joaquim Francisco de Paula, Josephino Pires, Tibério Mineiro e tantos outros que constituíam a guarda avançada desse luzido exército que se abatia denotadamente pela causa nobilíssima da abolição.135 A luta cotidiana de alguns mestres por mudanças estruturais e modernizantes encontrava grande aceitação entre os estudantes. Por outro lado, a expectativa que os professores depositavam na ação dos jovens, considerada um elemento de transformação do mundo antigo para o moderno foi abordada no poema Onde está a felicidade, publicado no primeiro jornal imparcial da cidade, Mosaico Ouro Pretano: Onde está a Felicidade? Uma idéia repugna a realeza/ É um facho de luz - a mocidade/ É ela que traduz a liberdade/ É a sublime epopéia marselhesa/ Oh tu, Brasil, país ainda tão novo!/ Gigante poderoso e surpreendente/ República, proclama o seu povo [...]./ Aí então pensará a felicidade/ À sombra desse destino iminente/ Liberdade, Igualdade e Fraternidade.136 A mocidade como um facho de luz que luta contra a realeza: tal contraste entre palavras modernas (luz) e antigas (realeza) traduz a imagem tanto dos professores, em regra chegando à idade adulta e ao mercado de trabalho ao longo dos anos 1870 e início dos anos 1880, quanto de seus alunos; eles se situavam como representantes de um novo mundo que estava sendo criado em oposição a um mundo antigo, associado com o Antigo Regime. O projeto da Revolução Francesa compunha a imagem do que deveria ser realizado no presente. Pelas frias ruas de Ouro Preto, professores e alunos se uniam para celebrar o mundo com o qual sonhavam. Informa Aurélio Pires que “a patuscada era mesmo idealista”. O autor mal se recorda “quantas vezes fechávamos, repentinamente e de e o imenso cortejo de manifestantes deslocou-se da estação para o centro da cidade entre estrondosas aclamações”. Segundo o memorialista os intelectuais eram “os grandes heróis do dia”. RACHE, 1954., p. 32. 135 PIRES, 1939, p. 61. 136 Mosaico Ouro Pretano. Ouro Preto, 1879, p. 03. APM. (Grifos nossos). 69 estalo nossos livros e íamos atroar as pacatas ruas ladeirantes e frígidas da cidade anciã” com “nossos berros abolicionistas e de republicanos imberbes, tanto mais sinceros quanto mais inofensivos, com os quais supúnhamos mudar o mundo!”.137 Em fevereiro de 1881 uma nota publicada no jornal A província de Minas informava sobre a solenidade de fundação da Sociedade Abolicionista Ouropretana.138 Ao lado dos professores e alunos, tendo como líder o professor Archias Medrado, estavam indivíduos como Alcides Catão da Rocha Medrado, lente da Escola Normal e do Liceu Mineiro e que, em 1886, dirigiria a ambas as instituições.139 No mesmo ano o jornal A actualidade mencionaria uma festividade, da qual Alcides Medrado participara como orador da entidade, e que fora promovida por “alguns moços de talento e elevados sentimentos”, cuja intenção era celebrar a Lei do Ventre Livre.140 A festa, realizada com pompa e circunstância, tinha caráter político e literário. Ao lado de encenações teatrais, da declamação de poemas e da execução de um hino composto por Bernardo Guimarães, conhecido poeta e romancista da capital, figuravam também versos de um poeta mais modesto: Thomaz Brandão, advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo e professor da Escola Normal. Sua poesia, da qual transcrevemos alguns trechos, foi declamada pelo “Sr. Santos”: Que martírio é ser escravo no século que esposa a luz! [...] Ver o sol da liberdade dirigir a humanidade à terra da promissão. E no mundo errar – maldito [...]. Não!... Quem tornou-me cativo não foste vós [Deus], eu bem sei. [...] Eu nasci tão livre como o infrene vendaval! A mão que empunha o cetro também era minha igual. Mas o fero despotismo lançou-me em fundo abismo […] Eis a cena vil, medonha, que só não causa vergonha às mais selvagens nações! Não! Contra a vossa maldade uma hoste se vê surgir. É a pujante mocidade à quem pertence o 137 PIRES, Op. Cit., p. 68. “Sociedade Emancipadora. – No domingo último realizou-se no teatro desta cidade uma numerosa reunião para o fim de ser instalada nesta capital uma associação destinada a promover meios para a libertação dos escravos. A generosa e filantrópica idéia partiu de moços inteligentes, dignos professores e alunos da Escola de Minas. Nesta reunião foi eleita a diretoria interina da Sociedade que ficou assim organizada: presidente, o Sr. Dr. Archias Medrado; vice-presidente, o Sr. Te. Cel. Hermógenes Rosa; secretários: os Srs Alcides Medrado e A. Olintho dos Santos Pires; tesoureiro, o Sr. José Rodrigues Gomes Junior. [...] O espetáculo realizou-se na noite de 15 do corrente, com avultada concorrência pública e extraordinários aplausos dos espectadores”. A província de Minas. Ouro Preto, 19 de fevereiro de 1881. APM. (Grifos nossos). 139 Nascido em Lençóis, na Bahia, em 27 de setembro de 1857, foi efetivado diretor do Liceu e da Escola Normal em 1886 e trabalhou com bibliotecário da Escola de Minas a partir de dezembro de 1890. Integrou diversas comissões do governo republicano, nos ministérios do Interior, Viação e Agricultura. 140 A Actualidade. Ouro preto, edição 112, 04 de outubro de 1881, p. 02. APM. 138 70 porvir! Tem por couraça a nobreza. A imprensa por fortaleza, e um jornal por pavilhão. Serve a pena de espingarda, a palavra de bombada e a eloquência de canhão! Se os mortos cheios de glória, ressuscitando na história mesmo aos fracos dão poder. Pra quebrar duras algemas, tronos, cetros, diademas, basta um povo só querer!141 Em seu significativo poema o mestre expôs como interpretava sua própria época e agregava a ela significado: o tempo é, ou deveria ser, por si só agente de mudanças positivas. Este caminhar natural e linear da humanidade tinha uma direção e um sentido. Ele era guiado pelo sol da liberdade e tinha como fim a terra da promissão. O dicionário de Luiz Maria da Silva Pinto (1832) assim explica esta expressão: “Promissão. S.f. Na jurisprudência, o mesmo que promessa. Terra da promissão: a terra prometida por Deus aos israelitas”.142 A idealização desta imagem de futuro é tão abstrata que talvez seja mais sentida que imaginada em sua concretude. Como propôs Valdei Araujo, um aspecto da consciência moderna é a sensação de que “viviam em um mundo provisório e de que algo começava a ser construído”; ao mesmo tempo havia uma impressão de que não se tinha “consciência do ponto de chegada possível da transição em aberto”.143 O futuro do Brasil moderno se confunde com imagens de um paraíso prometido por Deus. Para alcançá-lo, Thomaz Brandão conclama os sujeitos, sobretudo a mocidade, a escolher as ações que, no presente, possibilitem construir um futuro de sua preferência. Esta ligação entre tempo e ação compõe, subjetivamente, uma autoimagem deste grupo que se compreende como os pioneiros de um novo tempo. A figura da nação como povo surge também em sua poesia. Em seu entender todos os homens nascem todos livres e iguais. A uma igualdade natural, Thomaz Brandão opõe as hierarquias do Antigo Regime que continuam a atuar no presente – mas que, sem dúvida, devem ser superadas. Para tanto, ele conclama a mocidade, 141 A Actualidade. Edição 112, Ouro Preto, 04 de outubro de 1881, p. 02-03. APM (Grifos nossos). A manutenção da escravidão era talvez o principal símbolo do anacronismo em que a nação brasileira vivia em relação ao tempo europeu. Este distanciamento cronológico foi abordado em uma outro poema, “Imprecação do escravo”, escrito por K. G. H, de Ubá, e publicado pelos lentes Afonso de Britto e Samuel Brandão na Vela: “Sofrendo do cativeiro cruel ofensa/ Nas garras dum monstro – um tirano/ Que minhas nádegas dilacera, desumano/ Mil vezes renegando a sua crença:/ Em meu trabalho vendo fortuna imensa/ Esse duro abutre vil – insano/ Que a vida aniquila em cada ano/ Com férreo castigo e fome – intensa:/ Tu – alma de lodo – feroz egoísta/ Que não conheces do tempo a evolução/ E retrogradando és escravagista/ Verás o sol da redenção/ E teu nome escrito em negra lista/ No dia em que morrer a escravidão”. A Vela do Jangadeiro. Ouro preto, edição 18, 31 de dezembro de 1884, p. 03. APM. (Grifos nossos). Os vocábulos do tacitismo, iluminismo e cientificismo se completam no discurso: “tirano”, “desumano”, “egoísta”, “tempo”, “evolução”, “retrogradar”. O poeta lembra também que a história julgará a ação dos homens do presente. 142 PINTO, 1832, p. 105-106. 143 ARAUJO, 2008b, p. 53. 71 a quem pertence o porvir, a lutar por meio da imprensa, da pena, da palavra. A crença moderna na inter-relação entre tempo e ação dá a Thomaz Brandão a certeza de que a humanidade é capaz de fazer sua história. Ainda que estas expectativas exigissem mudanças estruturais extremamente complexas e profundas na sociedade brasileira – transformações que se chocavam com interesses de grupos dotados de alto poder econômico e político – o lente acreditava que, para realizar o futuro prometido, basta um povo só querer. Era este tipo de discurso, considerado pelo redator do jornal liberal A actualidade como “inspirado no mais puro patriotismo”, que importantes famílias mineiras ouviram e aplaudiram no festejo organizado em 1881: Há muitos anos não assiste a sociedade a uma reunião tão esplêndida, da qual fazia parte grande número de famílias; o luxo, o prazer e o entusiasmo de todos os que aceitaram o convite dos nossos distintos patrícios condiziam com as galas, flores e tapetes que revestiam o recinto. [...] Admira-se o entusiasmo, o gênio e a felicidade com que mereceram as ovações do público. Por nossa vez, felicitamos a este grupo generoso e simpático . 144 Em novembro de 1883, lentes das instituições de ensino da capital fundaram uma nova associação abolicionista, a Sociedade Libertadora Mineira. A posse da diretoria se deu no Paço da Assembléia Provincial. Entre seus fundadores figuram três lentes da Escola Normal e do Liceu Mineiro: Eduardo Machado de Castro, Afonso de Britto e Samuel Brandão. Os dois últimos fundariam o jornal abolicionista A Vela do Jangadeiro em abril do mesmo ano. A cerimônia contou com discursos, distribuição de duas cartas de alforria e concertos musicais.145 Alguns dias depois, em nota assinada pelo estudante da Escola de Minas Luiz Caetano Ferraz, informava-se que havia sido constituída uma comissão entre seus membros com o fim de organizar e recolher prendas para um bazar em prol dos fundos da entidade. Os donativos poderiam ser entregues também na casa do professor Medrado.146 144 A Actualidade. Ouro Preto, edição 112, 04 de outubro de 1881, p. 02. APM. A província de Minas, 15 de novembro de 1883. APM. 146 Archias Medrado fundaria, ainda, outra associação, o Clube Abolicionista Mineiro Visconde do Rio Branco foi fundado quase na mesma época em que a Libertadora Mineira. Suas reuniões ocorriam no Teatro Municipal. Tinha como presidentes o engenheiro Chrockatt de Sá Pereira de Castro e o professor Archias Medrado167. O Clube organizou um bazar amplamente divulgado pela imprensa no dia 31 de dezembro de 1883, igualmente no Paço da Assembléia Provincial. Os bilhetes para a festa foram vendidos na casa de alguns membros da associação. A província de Minas. Ouro 145 72 Os membros da Libertadora Mineira também organizaram um concerto musical visando angariar fundos para a entidade: “Esteve magnífico o que se realizou à 27 deste mês nesta cidade em benefício da Libertadora Mineira. O programa [...] agradou muitíssimo ao numeroso e seleto auditório reunido no paço da Assembléia Provincial”.147 Frequentemente as entidades promoviam seus eventos e reuniões nos mesmos locais. O prédio que abrigava o Liceu Mineiro e a Escola Normal de Ouro Preto se tornou o principal ponto de encontro dos membros das associações abolicionistas. O secretário da Libertadora Mineira, Luiz Ferraz, convocava os sócios a uma sessão da entidade a ser realizada no dia 17 de novembro às seis da tarde no prédio do Liceu.148 Outro anúncio foi publicado convocando os membros para tratarem de “assuntos urgentes” em uma reunião no mesmo prédio.149 Em 24 do mesmo mês, realizava-se uma reunião às 19h em uma das salas do prédio que abrigava o Liceu e a Escola Normal. O objetivo era encontrar meios de libertar um escravo.150 No dia 27 de janeiro de 1884 os membros do Clube Visconde do Rio Branco também foram convocados para uma reunião urgente nas dependências destas instituições.151 Até mesmo a prestação de contas dos responsáveis pela venda de ingressos para um festival realizado no dia 02 de fevereiro de 1884, assim como as eleições para a diretoria do mês de março, foram realizadas no prédio.152 A Escola Normal e o Liceu constituiram-se como um espaço de sociabilidade importante, dividido por diversos grupos, mas nem sempre ligados às escolas por laços institucionais. No dia 15 de março os lentes Afonso de Britto e Samuel Brandão publicaram um anúncio no jornal Liberal Mineiro intitulado A Vela do Jangadeiro, em que convidavam a população da capital e, especialmente as sociedades abolicionistas, a organizarem um festejo em comemoração ao fim da escravidão no Ceará – e que seria celebrado no dia 24 de março de 1884 em todo o Império: Ouro Preto, a antiga Vila Rica, onde se aninharam os primeiros brasileiros que projetaram a liberdade do país, não pode ficar indiferente a tão notável acontecimento. Portanto, os abaixo Preto, 20 de setembro de 1883. APM. 147 A província de Minas. Ouro Preto, edição 194, 31 de janeiro de 1884, p. 03. APM. 148 Liberal Mineiro. Ouro Preto, 15 de novembro de 1883. APM. 149 Liberal Mineiro. Ouro Preto, 10 de janeiro de 1884. APM. 150 Liberal Mineiro. 24 de janeiro de 1884. APM. 151 Liberal Mineiro. Ouro Preto, 29 de janeiro de 1884. APM. 152 Liberal Mineiro. Ouro Preto 07 de fevereiro e 11 de março de 1884. APM. 73 assinados, reconhecendo os nobres sentimentos dos generosos filhos da terra de Tiradentes, que ainda hoje aspiram as auras suaves da liberdade que se conservam intactas pela cordilheira de montanhas que nos cercam, ousam antecipar os votos [...] convidando-os a uma reunião no dia 16 do corrente, às 12 horas da manhã, em uma das salas da municipalidade, a fim de deliberar-se a maneira por que havemos de manifestar nosso regozijo pela emancipação espontânea do Ceará. O nosso pedido é especialmente dirigido às sociedades emancipadoras da capital. Os cidadãos, Samuel Brandão e Afonso Britto.153 Os colegas abolicionistas se apresentaram à reunião e compuseram uma comissão executiva para organização das festas, tendo à frente as sociedades abolicionistas Visconde do Rio Branco e Libertadora Mineira. Talvez esta tenha sido a primeira vez que a ação conjunta dos mestres e alunos extrapolava os muros das instituições de ensino e atingia a comunidade ouro-pretana. Os festejos se iniciaram às cinco horas da manhã, quando uma “chuva de bombões despertou Ouro Preto nos anunciando nova era na história pátria” ao mesmo tempo em que a banda de música percorria as ruas da capital. Segundo o redator de A província de Minas, “o ceará quebrava, aos últimos escravos que possuía, as algemas que os tempos coloniais nos legaram”. 154 Às 15h uma procissão cívica saiu do Paço da Assembléia para percorrer as principais ruas da cidade, para a qual estavam convidados todos os cidadãos que se identificavam com a causa abolicionista. Após o desfile o préstito retornaria ao Paço onde ocorreria uma sessão solene. Precedidos pela banda de música do corpo policial e pelos diretores das sociedades, Archias Medrado e Chrockat de Sá, a massa carregava os dois estandartes das sociedades. A bandeira criada pela sociedade Libertadora Mineira sintetizou o ideal de modernidade a que aspiravam para o presente e para o futuro da nação: A Libertadora Mineira ostenta seu estandarte de grenat bordado a ouro, uma mulher, a imagem do progresso; empunha um facho com a mão direita, e a esquerda apontando para o horizonte, como quem convida o povo a segui-la na peregrinação luminosa.155 Nesta pintura o progresso e as luzes se misturam na imagem de uma mulher 153 Liberal Mineiro. Ouro Preto, 15 de março de 1884. APM. (Grifos nossos). A província de Minas. Ouro Preto, 27 de março de 1884. APM. (Grifos nossos). 155 A província de Minas. Ouro Preto, edição 199, 27 de março de 1884, p. 03-04. APM. A imagem do estandarte lembra a pintura de Eugène Delacroix, “A liberdade guiando o povo”, feita em comemoração à Revolução de Julho de 1830 na França, quando da queda de Carlos X. 154 74 que sabe o caminho a percorrer e que guiará o país em direção ao futuro. Ao apontar para o horizonte desconhecido, a ser permanentemente desvendado, o presente só faz sentido enquanto entendido como um eterno caminhar. A mulher simboliza um projeto e um sentido; simultaneamente, ela convida o povo a segui-la. Já o estandarte do Clube Visconde do Rio Branco trazia o losango com os dizeres positivistas Ordem e Progresso, palavras que, segundo o redator do jornal, “significam muito, e em si só resumem a síntese do desenvolvimento sociológico”.156 Segundo o periódico A província de Minas as senhoras, das janelas, atiraram sobre as bandeiras punhados de flores. O povo, “apinhado em burburinho confuso percorria as estreitas ruas do pequeno jardim. Fora, a praça regurgitava de gente”. No centro, ao lado da coluna erguida em memória de Tiradentes, “o protótipo de nossa liberdade”, instalaram um coreto que representava a jangada com que Francisco do Nascimento teria fechado o porto do Ceará ao tráfego dos escravos.157 A união dos monumentos era simbólica: de certa forma, as sociedades abolicionistas sugeriam que, cem anos depois, Nascimento dera um passo para a concretização do projeto moderno pelo qual o mártir teria se sacrificado. O redator de A província de Minas dava mais detalhes sobre a festa: a música tomou posse do coreto […]. Tudo era alegria, tudo era festa. Era imponente o aspecto da assembléia provincial: de um lado, as Exmas. Senhoras, de outro, a massa confusa de todos os cidadãos, desde o presidente da província até o pobre operário.158 A festividade extrapolava, enfim, sociabilidade que, até então, centravamse nas relações entre professores e alunos. As senhoras, os cidadãos, o presidente da província, os operários, os alunos, os professores, enfim, ainda que por um momento, diferentes extratos da sociedade civil e militares se confundiam. Através dos impressos e das sociedades abolicionistas os professores da capital dinamizaram a cidade, movimentaram idéias e mobilizaram os moradores. A apropriação da memória local dos inconfidentes modificou o espaço e deu-lhe significado: as montanhas, as ladeiras, as igrejas, o frio, os árcades, enfim, espaço 156 A província de Minas. Ouro Preto, edição 199, 27 de março de 1884, p. 03. APM. A província de Minas. Ouro Preto, edição 199, 27 de março de 1884, p. 03. APM. 158 A província de Minas. Ouro Preto, edição 199, 27 de março de 1884, p.04. APM. 157 75 e passado se mesclavam na constituição de uma identidade regional. A sensação de uma “revolução inconclusa” se disseminava e os mestres se consolidavam como um grupo apto a dar continuidade a este projeto. Atribuindo a si a tarefa de agir no presente para a construção do futuro aspirado os mestres compunham um novo segmento que cada vez mais adquiria reconhecimento social. Inicialmente, conquistaram a admiração e adesão dos estudantes; gradualmente, em ação conjunta com a juventude, inundaram a capital mineira; suas ações passaram a ser noticiadas e elogiadas por jornais liberais (A actualidade) e conservadores (Noticiador de Minas).159. Aos poucos, os mestres 159 Os elogios publicados no jornal conservador à ação das associações abolicionistas, em nosso entender, não devem ser tomados como uma adesão completa ao projeto modernizador defendido por nossos personagens. Ao perceber que a campanha abolicionista ganhava adeptos com rapidez, os conservadores procuraram meios de desvincular-se da imagem de “escravocratas”. O discurso do conservador Diogo de Vasconcellos na Assembléia mineira que votaria o projeto de emancipação proposto pelo ministro Dantas em 1884 é revelador; o deputado atacou de forma virulenta o projeto, defendendo o processo de emancipação gradual. Ao ser chamado de escravocrata por um colega do 2º distrito (não identificado), Vasconcellos defendeu-se dizendo ter-lhe pesado amargamente tal qualificação e que não havia pensador ou amante do país que deixasse "sem protesto passar por si o epíteto de escravocrata". Contudo, o conservador afirmou que os abolicionistas haviam desvirtuado o sentido da palavra, aplicando-a "a todo aquele que deseja demorar e graduar a extinção do elemento servil". O título de escravocrata teria lhe sido dado porque ele não se lançava "no caminho aberto de todas as imprudências e aventuras". Por outro lado, afirmava que "se escravocratas são aqueles que desejam a transformação mais lenta do regime do trabalho e que defendem, ao lado da idéia emancipadora, os direitos fundados da propriedade; se escravocratas são aqueles que desejam conciliar os interesses do passado e os do futuro da nossa pátria; então, digo sem medo - eu sou escravocrata" (Muito bem). Liberal Mineiro. Ouro Preto, 09 de setembro de 1884. APM. (Grifos nossos). A derrota do projeto Dantas em Minas foi duramente criticada por Afonso de Britto e Samuel Brandão na Vela. O artigo se iniciava com uma frase do Exm. Dr. Antônio Gonçalves Chaves: “A questão social de transformação do trabalho coloca-se diante em seu caminho e diz-lhe como a esfinge grega – resolve ou morre”. Os lentes seguiam dizendo que “Ainda assim, ou antes por isso mesmo, a Assembléia Mineira em sua quase unanimidade, preferiu deixar-se apanhar na armadilha que habilmente lhe armou o partido conservador, votando uma indicação inoportuna contra o projeto do elemento servil do ministério Dantas. Sim, em vez de resolver, a Assembléia Mineira prefere morrer. Entretanto, a nossa história política o diz, o partido conservador avançaria, e vós recuais, não vendo que, após todos os obstáculos, precipita-se a onda abolicionista; ela aproxima-se e vós hesitais”. Segundo nossos personagens, “O escravismo revestiu, entre nós, exterioridades insidiosas, que o tornam mais perigoso do que a franca apologia do cativeiro: declarou-se emancipador. Estas desafiam o sentimento público, que aquelas artificiosamente iludem [...]. É preciso combater a hipocrisia, que finge acatar o movimento para melhor poder opor-se”. A Vela do Jangadeiro. Ouro Preto, edição 11, 07 de setembro de 1884, p. 01. APM. (Grifos nossos). Percebendo que a campanha abolicionista ganhava a Opinião Pública, os conservadores acabaram por se inserir no movimento. Portanto, as notícias e elogios à festa organizada pelas sociedades abolicionistas, publicadas pelo jornal conservador Noticiador de Minas, não devem ser vistas, em nosso entender, como uma adesão ao projeto modernizador defendido por nossos personagens. A posição pragmática dos conservadores e de seu periódico, todavia, não diminui nosso argumento; pelo contrário: a gradual inserção dos conservadores no movimento abolicionista mostra que a campanha empreendida pelos professores na capital ganhava a opinião pública. É neste sentido que, em 1886, um grupo extremamente heterogêneo criou a Sociedade Libertadora Ouro Pretana visando emancipar os escravos da capital antes da inauguração do ramal ferroviário que já se aproximava. Como informou Gustavo Cota, “a idéia era que a modernidade e o progresso que a locomotiva vinha trazendo fossem recebidos com um ato que lhes fosse digno”. COTA, 2007, p. 100. A sociedade mesclava segmentos cujas posições com relação à política e ao abolicionismo eram quase irreconciliáveis: por um lado, o líder liberal, ex-presidente da província e vigário da capital, 76 cativaram grande parte da opinião pública da capital para a causa abolicionista e para o projeto modernizador, associdado à República. Para tanto, mobilizaram personagens e símbolos do passado com os quais parte da população, e eles próprios, mantinha profunda ligação afetiva. No processo de busca por outros símbolos que representassem a nova imagem que constituíam para o Brasil do futuro, desenterravam-se eventos e indivíduos que, embora desprezados pela história oficial, persistiam vivos e ativos na memória regional. As serenatas, os poemas, a boemia, o culto aos livros e à zona lírica de Gonzaga eram formas de chamar esta memória e experimentá-la. Esta mobilização simbólica não deve ser entendida, a nosso ver, como uma mera manipulação do passado visando atingir fins políticos específicos. A história havia se tornado um conceito de reflexão central para a interpretação do mundo, explicando, fundamentando e legitimando – enfim, tornando-se mediadora entre o futuro e o passado. Agindo no presente para (re) estabelecer o elo cronológico entre o Brasil e o Ocidente, mestres e alunos entendiam estar inserindo a nação em um processo de aperfeiçoamento natural da humanidade.160 Descobertas as leis que regem o mundo, quais sejam, o progresso e a evolução, era preciso reavaliar o processo histórico brasileiro sob esta ótica: era necessário unir reflexão à ação. Neste item, defendemos que a constituição de associações abolicionistas, o doutrinamento dos estudantes e a sensibilização da opinião pública eram formas de ação empreendidas pelos lentes que transbordavam os muros da Escola. A seguir priorizamos a análise de suas ações no interior da Escola Normal em que buscaram alterar os conteúdos curriculares adotando novos compêndios de história. 2.2 – Repensando a história: a adoção de novos manuais e livros de leitura Nesta parte analisamos um conjunto de pareceres elaborados pelos professores da Congregação de Lentes da Escola Normal de Ouro Preto em que Cônego Joaquim José de Sant'Anna; por outro, os conservadores Diogo de Vasconcellos e Xavier da Veiga, figuras demasiadamente prudentes em relação ao processo de emancipação; por último, republicanos e abolicionistas radicais, diretamente ligados a nossos personagens – Samuel Brandão, Leônidas Damásio e Archias Medrado. Liberal Mineiro. Ouro Preto, 12 de maio de 1885. A questão da emancipação, identificada como necessária para modernizar o país, ao menos em teoria passava a se colocar acima dos dissensos partidários 160 As significativas palavras com que Joaquim Nabuco descreveu sua ação talvez exprimam esta auto-imagem: “Enfim... creio que podemos esperar tranqüilos o juízo de Deus; porque havemos cumprido sua grande lei, trabalhando pelo progresso da humanidade”. NABUCO, 2004, p. 150. 77 discutiam sobre os livros de leitura e compêndios de história a serem adotados pela instituição. As fontes utilizadas foram as Atas e pareceres da Congregação de Lentes da Escola Normal de Ouro Preto disponíveis no Arquivo Público Mineiro. A adoção de novos compêndios, entendidos como “mais atuais”, recebeu atenção especial dos professores. No fim da década de 1870 a Reforma Rio Branco possibilitou maior liberdade quanto ao conteúdo das disciplinas, delegando às Inspetorias Gerais da Instrução Pública maior autonomia no que diz respeito à organização curricular. Thaís Nívia Fonseca define como disciplina escolar “o conjunto de conhecimentos identificados por um título ou rubrica e dotado de organização própria para o estudo escolar”.161 Uma vez que a Escola Normal visava a formação de professores primários para a província, a Reforma Rio Branco significou uma conquista: a possibilidade de empreender transformações em escala considerável através da educação. A vitória, porém, não foi completa, pois os conteúdos deveriam ser aprovados pelo presidente da província que, por sua vez, era indicado pelo governo central. Entre as competências da Inspetoria Geral da Instrução Pública, cabia: § 4º Rever os compêndios adotados nas escolas e aulas públicas, corrigi-los, ou substituí-los, quando julgar conveniente [...]. §16 Expedir instruções para os exames dos professores públicos e organizar os regimentos internos das escolas, aulas, externatos e internatos públicos, escolas normais e escola de farmácia, submetendo-os a aprovação do presidente da província.162 As fontes preservadas dizem muito pouco sobre a Escola Normal na década de 1870.163 O Regulamento de 1879, no entanto, salientava a importância dos ensinos de história e geografia, esclarecendo que a fiscalização e os compêndios utilizados deveriam ser escolhidos pelo Inspetor Geral, mas sob observância do 161 FONSECA, 2003, p. 15. 162 Noticiador de Minas. Ouro Preto, edição 308, 05 de maio de 1871, p. 01. APM. Ao Regulamento de 1871 se seguiu um outro, em 1872, no qual estipulou-se que em cada freguesia da província deveria haver, pelo menos, uma escola pública primária para cada um dos sexos. Segundo o Artigo 38, o ensino primário das escolas públicas deve conter: 1ª parte - Instrução Moral e Religiosa; Leitura e escrita; Noções práticas de gramática portuguesa; Principais elementos de aritmética; Noções práticas de sistema métrico. Na 2ª parte - Elementos da História e Geografia do Brasil, principalmente da Província de Minas; Desenvolvimento de Aritmética e aplicações; Estudo mais desenvolvido de sistema métrico; Leitura dos evangelhos e notícia da História Sagrada; Leitura da Constituição Política do Império; Noções de Geometria; Desenho Linear e noções de música. O Artigo 39 indicava que em todas as escolas públicas, quer urbanas quer rurais, “é obrigatório somente o ensino da primeira parte, mas de 3ª instância o é também o dos números 7 e 8. Em todas elas, porém, o professor poderá ensinar as matérias da 2ª parte”. IP 3/5, caixa, 04 documento 05. APM. 163 78 Conselho Diretor.164 As fontes relativas à composição deste Conselho, no entanto, remetem somente a 1884. Neste ano o Conselho Diretor da Congregação de Lentes da Escola Normal se compunha da associação entre os próprios professores e o Diretor Geral da Instrução Pública que, a essa época, era João Nepomuceno Kubtschek.165 Sua indicação para dirigir a Instrução Pública da província remete a uma vitória do projeto modernizador na capital; afinal, Kubtscheck era um dos redatores do jornal de cunho republicano O Jequitinhonha, de Diamantina, e amigo próximo de Joaquim Felício dos Santos, um dos principais paladinos da República desde a década de 1860. Entre 1884 e 1885, os lentes avaliaram três livros relativos à história que poderiam ser publicados às expensas da província mineira.166 A adoção de novos compêndios de História, em nosso entender, significou uma ruptura com a tradição historiográfica do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e com os conteúdos sugeridos pelo governo imperial através do Colégio Pedro II. Fundado em 1838, o Colégio se dedicava aos ensinos primário e secundário e objetivava servir como modelo ao ensino público. Seus professores eram considerados os mais qualificados do país – posição esta que facilitava seu contato com o mercado editorial em crescente ascensão.167 A profunda continuidade entre o IHGB e o ensino de história no Colégio Pedro II tem sido bastante estudada.168 Salienta-se, sobretudo, a proximidade entre 164 DURÃES, 2002, p. 150. Segundo Norma Monteiro, João Nepomuceno Kubtscheck nasceu em 1843; era professor, poeta e jornalista natural da cidade do Serro. Estudou no Ateneu São Vicente de Paulo, em Diamantina, e na Faculdade de Direito de São Paulo, mas não chegou a concluir o curso superior. Exerceu, contudo, a advocacia ao mesmo tempo em que lecionou Inglês, no externato de Diamantina, e Pedagogia, História Sagrada e Catecismo na Escola Normal, estabelecimento de que foi o primeiro diretor; contudo, Norma Monteiro não especifica em que Escola Normal Kubtscheck lecionou; não encontramos referências a ele como diretor da instituição de Ouro Preto em sua fundação. Segundo a autora, entre 1883 e 1885 desempenhou as funções de Diretor da Instrução Pública em Minas. Em setembro de 1888, teria organizado o Clube Republicano de Diamantina, a que presidiu, e dirigiu o órgão republicano O tambor, onde publicou após 15 de novembro a série de artigos Bases para a reorganização do ensino público particular no Estado de Minas Gerais. As idéias defendidas nestes estudos, que advogavam uma educação mais objetiva, foram em boa parte incorporadas na Lei n° 41 de 31 de agosto de 1892, que reformou o sistema mineiro de ensino. João Nepomuceno Kubtscheck foi ainda senador da Constituinte Estadual por duas legislaturas, vice-presidente de Minas Gerais (1894-1898) e diretor da Imprensa Oficial. MONTEIRO, 1994, p. 325. 166 Os pareceres tratam de três obras: Epítome da História do Brasil, de Alfredo Moreira Pinto; a Epanáphora histórica de Minas Geraes, escrita pelo professor Eduardo Machado de Castro; e também a trilogia de livros composta por Hilário Ribeiro: Cartilha Nacional – Ensino simultâneo de leitura e caligrafia; Seminário Infantil; Na terra, no mar e no espaço. 167 SILVA, 2008. 168 Segundo Thaís Fonseca, recentemente têm surgido análises interessadas na vinculação entre o ensino de História e a produção historiográfica. FONSECA, 2001. Neste sentido, sobressaem os trabalhos que abordam as relações entre a produção do IHGB e o ensino secundário. No que diz respeito aos estudos sobre esta ligação, adquiriu centralidade a análise do compêndio Lições de História do Brasil para uso dos alunos do Imperial Colégio Pedro II (1861), escrito por Joaquim 165 79 o livro História Geral do Brasil, de Francisco Adolfo de Varnhagen, e o compêndio de história utilizado no Colégio: Lições de História do Brasil para uso dos alunos do Imperial Colégio Pedro II, de autoria de Joaquim Manoel de Macedo, também membro do Instituto Histórico. Afora alguns desvios, o manual era uma espécie de resumo de História Geral do Brasil, como o próprio Macedo reconhecera sem constrangimento. Em seu processo de escrita o autor não construía um novo conhecimento, no sentido estrito do termo, uma vez que “repetimos o que lemos nos livros dos mestres, e seguimos quase sempre [...] o senhor Varnhagen”.169 Desde a década de 1860 estas duas obras haviam se transformado em monumentos, referências obrigatórias para os contemporâneos.170 Entretanto, a experiência da modernidade constituía, para nossos mestres, a certeza de que nenhum tipo de conhecimento poderia, doravante, ser considerado um monumento. O entendimento do mundo enquanto regido por um processo contínuo de aperfeiçoamento significava historicizar o conhecimento e admitir que o saber “avança”.171 Possivelmente esta era uma boa justificativa para romper com Manoel de Macedo. MATTOS, 2000.; MELO, 2008. 169 No prefácio de Passeios..., Macedo explica mais sobre sua escrita: “Que fiz eu? Procurei minimizar a história, escrevendo-a com esse tom brincalhão e às vezes epigramático que, segundo dizem, não lhe assenta bem, mas de que o povo gosta; ajuntei à história verdadeira os tais ligeiros romances, tradições inaceitáveis e lendas inventadas para falar à imaginação, e excitar a curiosidade do povo que lê, e que eu desejo que leia [...]; mas nem uma só vez deixei de declarar muito positivamente qual o ponto onde a invenção se mistura com a verdade”. MACEDO, 1942, p. XVI. Curiosamente, Ciro Bandeira de Melo aponta que o único desvio significante entre Varnhagen e Macedo está relacionado justamente à Inconfidência Mineira, quando “Macedo se deixa tomar pelo entusiasmo romântico com o qual envolve Tiradentes. Ele está certo do ato de heroísmo do inconfidente”. MELO, Op. Cit., p. 58. 170 O caráter monumental de Lições se deveu a diversos motivos. Primeiramente, ao fato de ser adotado na mais conceituada instituição de ensino do Império, o Colégio Pedro II. Além disso, os exames de história para inserção das faculdades imperiais tinham como base as diretrizes curriculares deste Colégio. Indiretamente, o ensino secundário no Brasil acabava por adotar o compêndio sofrendo, portanto, de uma “pseudo-descentralização”. GASPARELLO, 2004.; HAIDAR, 2008. O manual de Macedo chegou a impressionantes 11 edições, publicando-se em média seis mil exemplares cada uma delas. Provavelmente foi o livro de história mais lido do século XIX. MELO, Op. Cit., p. 103. Em carta a Rio Branco datada de 17 de abril de 1890, Capistrano de Abreu dá uma idéia do valor e peso dos “monumentos” de Varnhagen e Macedo: “Dou-lhe uma grande notícia (para mim): estou resolvido a escrever a história do Brasil. [...] Escrevo-a porque posso reunir muita coisa que está esparsa, e espero encadear melhor certos fatos, e chamar atenção para certos aspectos até agora menos prezados. Parece-me que poderei dizer algumas coisas novas e pelo menos quebrar os quadros de ferro de Varnhagen que, introduzidos por Macedo no Colégio Pedro II, ainda hoje são a base de nosso ensino. As bandeiras, as minas, as entradas, a criação de gado pode dizer-se que ainda são desconhecidas, como aliás quase todo o século XVII, tirando-se as guerras espanholas e holandesas”. ABREU, 1976, p. XI. (Grifos nossos). 171 Como informou Gumbrecht, a modernidade assistiu ao surgimento do observador de segunda ordem, que observa a si mesmo enquanto observa o mundo: observa a evolução da complexidade do que apreende no decorrer das gerações e o acúmulo de conhecimento. Isto significa historicizar o próprio saber. GUMBRECHT, 1998, p. 13 80 a tradição historiográfica imperial e seus compêndios de História – com cujo conteúdo nossos personagens certamente não se identificavam. Como procuramos salientar através da análise dos jornais, os lentes da Escola Normal entendiam a história do Brasil como um processo contínuo de luta entre os interesses do povo e da metrópole portuguesa e a colonização tendeu a ser compreendida como um entrave para a modernização da nação. Tal interpretação era, talvez, irreconciliável com as narrativas de Varnhagen e Macedo que, de modo geral, atribuíam à colonização portuguesa conotação fortemente positiva identificada com a disseminação da civilização. Além disso, os episódios de resistência regional ao domínio colonial eram abordados muito a contragosto e, sem dúvida, sem o destaque esperado pelos professores, cuja identidade regional havia sido marcada pela memória da Inconfidência Mineira. Por um lado, os lentes sugeriram que a união entre o IHGB, o Colégio Pedro II e o Paço impossibilitava a escrita imparcial da história do Brasil. Por outro, nenhum conhecimento estava livre de ser questionado, pois esta era a essência da ciência. Estes dois argumentos possibilitavam a adoção de novos manuais que estivessem afinados com a narrativa da luta do povo contra o despotismo português de modo que tal atitude fosse entendida como um avanço do conhecimento – e não apenas enquanto uma disputa política ou uma competição pela memória. Os novos compêndios revelavam uma outra história porque eram “mais atualizados”. Como sugeriu Temístocles Cezar, o IHGB constituiu uma ética do historiador, na qual a imparcialidade era princípio teórico vital: “ainda que engajados politicamente, não queriam instrumentalizar, conscientemente ao menos, a história”.172 A primeira obra analisada pelo Conselho Diretor foi um livro de história regional escrito pelo lente da Escola Normal Eduardo Machado de Castro, chamado Epanáphora Histórica de Minas Geraes.173 O parecerista era Samuel Brandão, redator da Vela do Jangadeiro e paladino da modernização do país: A Congregação, tendo examinado detidamente esse trabalho, refuta-o [sic] de grande mérito. [...]. Assim, pois, é de opinião que seja adotado como livro de leitura nas escolas primárias a Epanáphora Histórica de Minas Geraes.174 172 CEZAR, 2004, p. 65. Atas das sessões da Congregação da escola Normal de Ouro Preto (1883-1903). Escola Normal de Ouro Preto, 29 de março de 1884. IP – 138, p. 4. APM. 174 Atas das sessões da Congregação da escola Normal de Ouro Preto (1883-1903). Escola Normal de Ouro Preto, 01 de maio de 1884. IP – 138, p. 4. APM. 173 81 Algumas características desta obra dizem respeito à organização dos eventos e à preocupação metodológica, distinguindo-o do formato de Lições de História do Brasil, de Macedo. Machado de Castro parecia preocupado em fundamentar sua narrativa analisando fontes primárias, livros, memórias e artigos que trataram da história da província. Em suas palavras, “os documentos revelam” uma outra história sobre a trajetória dos mineiros desprezada pela historiografia até então. O parecer mais extenso se refere a uma trilogia composta por Hilário Ribeiro e revela a preocupação com o avanço da ciência. Escrito por Eduardo Machado de Castro e Samuel Brandão, inicia com um profundo elogio: Como disse o próprio autor, livros escolares não podem suportar uma longa existência; eles têm uma duração limitada pela ciência pedagógica, que todos os dias progride e apodera-se de novos processos. Com sua adoção conseguir-se-á reformar naturalmente até a educação do magistério, enquanto eles apresentarem as últimas conquistas da pedagogia moderna. [...] a linguagem simples e castigada, a gradação natural na exposição, variedade na forma, ora prosa, ora poesia, as palavras são aplicadas e provocam a educação do raciocínio.175 Assim, de acordo com os pareceristas, todo conhecimento é provisório e pode ser desenvolvido. A adoção de livros que não se baseasem apenas na memorização, mas que pudessem educar o raciocínio, liga-se a um movimento mais profundo de caracterização da figura do cientista e do leitor moderno, um leitor “extensivo”, capaz de avaliar os textos que lê com olhar distanciado e crítico.176 Em um exame de datado de 1884 o professor Camillo de Britto ressaltava que a ciência é um saber que deve ser continuamente desenvolvido: Dizem os filósofos que a admiração é filha da ignorância e mãe da ciência. Filha da ignorância porque ninguém se admira senão das coisas que ignora, principalmente se são grandes; e mãe da ciência porque, admirados os homens das coisas que ignoram, inquirem e investigam as causas delas até as alcançar; e isto é o que se chama ciência.177 Entendia-se, assim, que o que move o progresso não é decorar um saber 175 Parecer do Conselho Diretor. Sala de reuniões do Conselho Diretor da Escola Normal de Ouro Preto, 15 de abril de 1885. IP 3/5, caixa 01 – documento 01. APM. (Grifos nossos). 176 CHARTIER, 2009, p. 95. 177 Exame de Ortografia. Escola Normal de Ouro Preto, 1884. IP 1/3, caixa 20, Pasta 16. APM. (Grifos nossos). 82 estabelecido, mas sim o contínuo questionamento deste saber. Ao mesmo tempo que era preciso ensinar aos alunos as descobertas já realizadas pelos cientistas europeus, mostrava-se necessário também valorizar o raciocínio para que os brasileiros pudessem fazer suas próprias descobertas e se guiar com autonomia. A ausência de pesquisa empírica e a ênfase na repetição como método de ensino vinha sendo avaliada como danosa para a constituição da ciência no país e isso se refletiu na própria figura do professor.178 Henri Gorceix vinha afirmando que o método oral, baseado na repetição, dirigia-se “unicamente à memória, paralisa o desenvolvimento da inteligência; ensina-se o aluno a discorrer com acerto, mas não lhe ensina a pensar e refletir”; tal ensino é “nulo e desastroso para o país”.179 Em seu parecer sobre a necessidade de reformas no ensino, escrito em 1882, Rui Barbosa apontava para uma solução: a 178 Sobre o ensino baseado na repetição, nem mesmo Macedo escapava às críticas. Vieira Fazenda lembra-se de suas aulas de História no Colégio Pedro II: “Macedo conservava sempre na aula ar austero [...]. Nunca pude compreender como, sendo Macedo homem ilustrado, não permitisse a seus alunos apreciar a nossa História com um pouco mais de filosofia. Era repetir o que estava no compêndio e nada mais. Se Nabuco estivesse vivo não me deixaria mentir. Muitas vezes fui chamado à ordem quando pretendia fazer considerações sobre a Guerra Holandesa, a Inconfidência Mineira, Pedro I, a dissolução da constituinte etc”. MELO, 2008, p. 68. Este tipo de postura não era mais suficiente para os alunos da geração que se seguia à de Macedo, à qual pertenciam os lentes da Escola Normal e também Vieira Fazenda, Joaquim Nabuco e Capistrano de Abreu. Nabuco era um ano mais novo que Eduardo Machado de Castro. A reorganização da figura do professor parece ter chegado até mesmo ao Colégio Pedro II. Em1883, Capistrano de Abreu prestava um concurso para professor de História nesta instituição. Acerca do texto que elaborou, José Veríssimo, membro da banca julgadora, afirmaria que optara por aprová-lo: “Li todas estas teses. Com exceção do Sr. Capistrano de Abreu, eram bons resumos do que estava em Varnhagen e em outras obras vulgares, sem nenhuma novidade, nem de investigação, nem de pensamento. Ao contrário dessas, onde os estudos próprios e a originalidade primam geralmente pela ausência, a do Sr. Abreu se distinguia por duas raras qualidades: [...] mostrava claramente ser ele um professor capaz de fazer ele mesmo a sua ciência e de transmitir a seus discípulos o gosto e a capacidade de a fazer”. Nota editorial. In.: ABREU, 1998, p. 10. O questionamento do saber estabelecido era a característica que mais encantava os alunos das instituições de ensino da capital mineira. Segundo Aurélio Pires, Machado de Castro era dotado de “grande originalidade especulativa, que sugestiona os espíritos e bruscamente ilumina horizontes novos da ciência; da crítica iniciadora, que resulta de uma sistematização pessoal de doutrinas; da eloqüência, que é a espontânea identificação da palavra com a idéia. Enfim, abraçando e dominando tudo, um profundo e vasto amor da mocidade. Porque se as relações entre „professor‟ e „aluno‟ se interrompem, a dos „mestres‟ e „discípulos‟ são incessantes e supõem uma afinidade intelectual que a natureza humana dificilmente comporta sem uma larga base afetiva”. PIRES, 1939, p. 63. Em sua memória, Pedro Rache lembra-se com admiração que seu professor da Escola de Minas, Archias Medrado, “era dotado de poder lógico extraordinário, mas, se em qualquer debate, reconhecia estar pisando em terreno falso, confessava-o com todo o desembaraço”. O autor conta que, em certa aula, Medrado demonstrava um “cálculo dificílimo”; passada meia hora de explanação, percebeu que o resultado estava errado. Após assumir o erro, ainda que os alunos não o tivessem identificado, Medrado não quis apagar a lousa e recomeçar a questão. Ao invés disso, propôs: “Vamos aproveitar o incidente para um exercício instrutivo. Vamos inverter o problema, tomar o resultado como hipótese, retornar em sentido contrário. E assim Medrado fez. Após uma hora de exposição, trilhou o caminho inverso. Incontido movimento de entusiasmo agitou a estudantada e uma salva de palmas reboou o recinto”. RACHE, 1954, p. 98-99 179 Relatório do presidente da província de Minas Gerais, 1879, p. 39. In.: CARVALHO, 2002, p. 62. 83 reforma deveria ter como princípio vital “a introdução da ciência no âmago da instrução popular”.180 Assim pensavam também os lentes da Escola Normal. Ao analisar o terceiro livro da trilogia, Na terra, no mar e no espaço, os mestres ressaltavam a necessidade de um método de ensino diferente da simples memorização: O terceiro livro é uma viagem geográfica e histórica em que se explicam os fenômenos naturais, indicam-se fatos históricos, obrigando o professor a explicá-los, dão-se noções elementares de física, explica-se o uso do dicionário, aumentam-se as noções de história natural e de fisiologia, dá-se noções sobre o governo.181 Não basta apenas decorar os fatos históricos em uma cronologia: é preciso explicá-los e, em relação à história natural, dar-lhes um sentido mesclando o processo histórico dos homens ao processo evolutivo da natureza. Havia, contudo, uma crítica à obra de Hilário Ribeiro: “É a falta absoluta de noções geográficas e históricas sobre a América e o Brasil, quando o autor deveria começar por elas antes de tratar das dos outros países”.182 Na ausência desta história os lentes resolveram por adotar o compêndio Epítome da História do Brasil, escrito pelo Bacharel Alfredo Moreira Pinto. O nome do autor diz muito: Moreira Pinto foi um dos signatários do Manifesto Republicano de 1870. O Manifesto Republicano, escrito por Quintino Bocaiúva (1836-1912) e Salvador de Mendonça (1841-1913), recorria a uma reconstrução da história política brasileira para a explicação do presente. Em resumo, a decadência nacional era vista como um desdobramento do despotismo colonial e as instituições políticas, uma herança portuguesa. A Independência não teria alterado o status quo: a ausência de participação popular na fundação do Primeiro Reinado e a Constituição outorgada seriam provas de que a monarquia teria sido uma imposição, não uma escolha pela via da soberania nacional. Esta interpretação certamente estava conectada à imagem com que os lentes constituíam a história da nação. Em um exame de Instrução Cívica Camillo de Britto chegava a conclusões muito semelhantes: 180 Anais do Congresso Nacional. Câmara dos Deputados, v. III, p. 09. In.: CARVALHO, Op. Cit., p. 59. 181 Parecer do Conselho Diretor. Sala de reuniões do Conselho Diretor da Escola Normal de Ouro Preto, 15 de abril de 1885. IP 3/5, caixa 01 – documento 01. APM. (Grifos nossos). 182 Parecer do Conselho Diretor. Sala de reuniões do Conselho Diretor da Escola Normal de Ouro Preto, 15 de abril de 1885. IP 3/5, caixa 01 – documento 01. APM. 84 A constituição é uma lei que fixa as regras a seguir-se no estabelecimento das outras leis, que regulam os diversos poderes do Estado. [...] A lei deve ser a expressão da vontade nacional, isto é, deve ser votada ou pelo povo ou pelos representantes destes. A constituição de nosso país não é de origem legítima, porém, tornou-se legítima pelo juramento das municipalidades. Dom Pedro I, temendo uma revolta, estabeleceu uma constituição e a outorgou a nosso país: foi esta a sua origem.183 Seguindo o curso da história da nação no Manifesto Republicano a Regência é descrita como regime que sagrava a elevação do pensamento democrático. Uma tradição alternativa aos saquaremas foi construída através do resgate dos conflitos soterrados da história nacional: a Inconfidência Mineira, a Confederação do Equador, o Ato Adicional, a Regência e suas revoltas. Já o Segundo Reinado era visto como produto de uma conspiração. Invertia-se a oposição construída pelos saquaremas entre o despotismo do Primeiro Reinado, o caos da Regência e a estabilidade civilizada do Segundo Reinado. Ao equiparar os dois reinados, o Manifesto apontava como cerne do problema a forma de governo. O “absolutismo”, a preponderância do “poder pessoal”, não eram mais reportados ao exclusivismo de um partido, mas a um “defeito do sistema”, à própria forma monárquica.184 A obra de Moreira Pinto possivelmente estava ligada a esta compreensão do processo histórico brasileiro. Alcides Catão da Rocha Medrado e Eduardo Machado de Castro resolvem pela adoção do manual ressaltando que o livro era de grande valor, “pois revela nele o ilustre autor erudição e critério histórico na sumarização dos fatos capitais de nossa história”.185 Além de adotar outros compêndios de história os conteúdos lecionados nesta disciplina na Escola Normal ultrapassam os tópicos propostos por Joaquim Manoel de Macedo, que se iniciam durante as navegações e terminam na Independência.186 A grade da Escola Normal proposta pelo lente Eduardo Machado de Castro continha a seguinte cronologia: Descobrimento do Brasil; Indígenas; Capitanias Hereditárias; Governadores Gerais e Vice Reis; Os franceses no Rio de Janeiro; Os holandeses no Brasil; Efeitos do reinado de D. José no Brasil; Visconde de Exame de Instrução Cívica. IP 1/3 – caixa 20 – Pasta 16. Ouro Preto, 29 de julho de 1884. APM. (Grifos nossos). 184 ALONSO, 2002, p. 182-186. 185 Parecer do Conselho Diretor. Sala das Sessões, 16 de abril de 1885. IP 3/5 – caixa 01-doc. 1. APM. (Grifos nossos). 186 MATTOS, 2000, p. 119. 183 85 Barbacena e a Conjuração Mineira; Dom João VI no Brasil; História Sumária da Independência; O reinado de D. Pedro I; A revolução de 7 de Abril de 1831; O período das regências e a maioridade de D. Pedro II; A Revolução de 1842 em São Paulo e Minas; Fatos principais das guerras do Uruguai e Paraguai; Atos legislativos mais importantes do 2º Reinado.187 Os pareceres revelam que, ainda durante o Segundo Reinado, a Escola Normal rompia com o conteúdo dos manuais didáticos de história propostos no Colégio Pedro II. Os livros aprovados pela Congregação de Lentes certamente propunham outra interpretação da história do Brasil para o ensino das crianças sob o regime republicano que se anunciava. Aliado a isso, constituía-se uma figura do aluno que se caracterizava porr uma postura ativa diante do conhecimento. Neste sentido, os mestres procuravam atuar como cientistas: questionavam o saber, pesquisavam e publicavam também seus próprios livros, como é o caso da Epanáphora Histórica de Minas Geraes. 187 Programa das disciplinas da ENOP. Inspetoria Geral de Instrução Pública, Ouro Preto, 07 de maio de 1884. IP 3/5, caixa 4. APM. 86 3 – A História na Escola Normal de Ouro Preto “Cada geração reinventa o legado que deseja assumir como seu legado presente, e essa tarefa cria a necessidade de repensar a história, especialmente para aqueles que a tomaram como exercício de um ofício, de uma profissão, de um magistério. Nesse mesmo movimento, repensam as regras de seu ofício, redefinem as práticas que viabilizam o conhecimento do passado, reinventando a operação histórica num cenário de tensões e conflitos, a partir do qual a disputa pelo passado remete às disputas pela significação do próprio presente”. Manoel Salgado Guimarães. In. HARTOG, 2003, p.09. Neste capítulo a escrita da história de Minas empreendida pelo lente Eduardo Machado de Castro. A história era compreendida como instrumento para compreender o presente e fortalecer os laços entre a população e a herança cultural do passado. Na primeira parte, priorizamos a análise da operação histórica empreendida pelo lente através do livro de leitura que escreveu em 1884 intitulado Epanáphora histórica de Minas Geraes. Na segunda parte nos concentramos na análise em sua interpretação sobre o processo histórico brasileiro propriamente dito, enfatizando sua versão da história regional. Para tanto, utilizamos a Epanáphora. e exames de história formulados pelo professor na Escola Normal. Neste sentido, pudemos perceber que a metodologia e a crença de que o mundo era regido por uma tendência ao desenvolvimento contínuo, tendo a experiência européia como parâmetro, uniamse em uma narrativa que buscava se apresentar como imparcial; ao mesmo tempo, salientavam-se os conflitos entre a Coroa e o povo em Minas, responsabilizando a colonização portuguesa por grande parte das mazelas da província. Sua perspectiva sobre a história regional se integrava à nacional propondo uma forma singular de identidade em que a região e a nação se completavam. 3.1 – Eduardo Machado de Castro: o ofício do historiador Embora a obra Epanáphora histórica de Minas Geraes tenha sido escrita com objetivo de servir como “livro de leitura” para as crianças, sendo publicada às expensas dos cofres da Instrução Pública Mineira, procuramos não tratá-la somente 87 como um compêndio ou manual. No prefácio, o professor Eduardo Machado de Castro explicitava suas intenções ao escrever a obra: Dos estudos que temos feito sobre a história da província tiramos esta resenha para uso das escolas, imitando assim o que temos visto de bom nos sistemas de ensino popular da Alemanha, Suíça e União Americana. Naqueles países dá-se muita importância à instrução cívica, ensinando-se a história do país e principalmente a de cada Estado. Entre nós poucas são as pessoas que conhecem a história pátria, ignorando completamente os fatos principais da história de suas respectivas províncias.188 Na edição de 1813 do dicionário de Antonio de Moraes Silva o termo “epanáphora” significa “s.t. O mesmo que relação; § Figura de retórica, tanto significa como repetição”.189 Fazer uma resenha, repetir o que apreendeu através dos estudos realizados para ministrar a cadeira de história na Escola Normal: ao ler esta definição poder-se-ia cair na tentação de concordar com Selma de Mattos; segundo a autora, a publicação do compêndio Lições de história do Brasil, escrito por Joaquim Manoel de Macedo em 1861, marcaria o momento em que “tornavase nítida a diferença entre escrever e difundir a história do Brasil”.190 A escrita, assim, poderia ser identificada à pesquisa e à construção de conhecimento em um lugar autorizado – no caso de Macedo, o IHGB; já a vulgarização da história era vista como uma prática na qual predominava a repetição de um conhecimento construído em um lócus específico que não a escola. A Epanáphora, no entanto, estava longe de se basear em um cânone, como o compêndio de Macedo, ou de se limitar a uma resenha. Ao escrever seu livro de leitura, Eduardo Machado de Castro empreendeu uma complexa operação histórica na qual o lido com documentos, memórias, estudos sobre a temática e relatos orais compunham uma metodologia de trabalho que, a nossos olhos, se consolidou através da prática historiográfica do IHGB. Ainda que a proposta do professor fosse 188 CASTRO, 1884, p. III. 189 SILVA, 1813, vol. 1, p. 726. MATTOS, 2000, p. 99. No discurso de fundação do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, de 1839, Januário da Cunha Barbosa salientava que, para além da pesquisa histórica, a divulgação mais ampla deste conhecimento através da educação era um segundo objetivo do IHGB: “os sócios deste instituto não só meditam organizar um monumento de glória nacional, aproveitando muitos rasgos históricos que dispersos escapam à voragem dos tempos, mas ainda pretendem abrir um curso de história e geografia do Brasil para que o conhecimento das coisas da pátria mais facilmente chegue à inteligência de todos os brasileiros”. BARBOSA, 1839, p. 15. (Grifos nossos). No entanto, este objetivo só seria alcançado parcialmente, principalmente através da fundação do Colégio Pedro II e da publicação de compêndios de história. 190 88 somente divulgar a história regional, esta tarefa, em seu contexto, pressuporia a pesquisa e a escrita desta história. Afinal, os estudos realizados sobre o passado mineiro disponíveis no Instituto Histórico não eram compatíveis com a interpretação que Machado de Castro tinha sobre o processo histórico de sua província. A ênfase na história geral do Brasil e a opção por uma abordagem que tendia a atribuir à colonização portuguesa uma conotação fortemente positiva tinham consequências para a escrita da história no IHGB. Os autores ligados ao Instituto, em geral, tendiam a desfocar e mesmo combater episódios de resistência ao domínio colonial, “negando formas alternativas de identidade política coletiva, fossem elas raciais ou regionais”191. Entretanto, no último terço do Oitocentos diversos letrados defendiam a necessidade de revisão desta história oficial; tal demanda implicava, simultaneamente, pesquisar mais a fundo a história, reconhecendo a importância dos eventos locais e regionais. Este movimento de releitura do passado e de reelaboração da memória não é uma especificidade do contexto brasileiro. O primeiro impulso crítico às historiografias tradicionais e nacionalistas do século XIX na América Latina provinha justamente da proliferação das perspectivas regionais, que serviam para revelar um panorama mais completo e heterogêneo do que ofereciam as chamadas “histórias oficiais”, destacando projetos alternativos aos que terminaram se impondo. Este movimento esteve ligado à decepção de certos setores intelectuais em relação às administrações dos governos que se instituíram após as independências latino-americanas, expressando-se através do desejo de romper com as tradições que contribuíam para legitimar estes regimes. A Escola Normal exerceu, regionalmente, o papel de instância autorizada de produção e disseminação de um conhecimento histórico que rompia com a interpretação da tradição historiográfica imperial; neste sentido, a escrita da história e sua difusão tornavam-se operações muito próximas e complementares. A Epanáphora histórica de Minas Geraes foi tratada, neste trabalho, como obra simultaneamente historiográfica e pedagógica. Em nosso entender a abordagem do lente reconhece a importância das experiências e memórias regionais na composição da identidade nacional. Ainda que a nação fosse entendida como uma unidade e que suas partes devessem ser 191 COSTA. 2005, p. 59. 89 politicamente equivalentes, para Machado de Castro, elas não eram culturalmente idênticas. Ressaltar as diferenças regionais não significava, a seus olhos, uma defesa dos separatismos. Ser mineiro, paulista ou pernambucano eram formas singulares de pertencimento à nação e de sentir-se parte dela. Por outro lado, ainda que sua abordagem acerca da história de Minas em muito se diferenciasse das interpretações dos autores ligados ao IHGB, os requisitos básicos que compunham a prática da escrita da história, solidificados pelo Instituto, estão presentes também na narrativa do lente. Rodrigo Turin identificou três características que estavam presentes nas obras publicadas pelo IHGB: a sinceridade (patriotismo), a cientificidade e a utilidade.192 Estas elementos constituíam uma organização formal para a confecção de uma história verdadeira e útil. Em nosso entender Machado de Castro proporia uma nova versão da História mineira, mas não perderia de vista os tópicos que definiam o ofício do historiador. Em seu discurso proclamado no IHGB (1839), Januário da Cunha Barbosa explicitou o que a pátria esperava do Instituto: Não se compadecia já com o gênio brasileiro, sempre zeloso da glória da pátria, deixar ainda por mais tempo em esquecimento os fatos notáveis da sua história. [A fundação do IHGB] foi coroada do mais feliz sucesso e de uma geral aprovação, como se esperava do patriotismo e amor das letras que animam os beneméritos membros da Sociedade Auxiliadora.193 A criação do Instituto havia sido, portanto, motivada pelo amor que seus fundadores e a Sociedade Auxiliadora sentiam pela nação. A relação de afetividade entre estes homens e a pátria seria uma prova de que agiam com a melhor das intenções e esperavam não ser mal interpretados pelos leitores: o que os motivava era o zelo da glória da pátria, o amor das letras e o patriotismo. Entretanto, este zelo poderia se confundir com a censura. A criação da arca do sigilo, proposta por Francisco Freire Allemão, tinha como objetivo dificultar o acesso a documentos que se referiam a um passado próximo ou que pudessem causar polêmica ao serem abordados no presente. De acordo com Temístocles Cezar a arca era, ao mesmo tempo, “luz e censura”. Ao tentar disciplinar o uso das fontes, inibia também a investigação sobre o presente: “em outro sentido, ela marca 192 193 TURIN, 2009, p. 12. BARBOSA, 1839, p. 09. (Grifos nossos). 90 também a oposição entre o sigilo ou segredo e a opinião pública”.194 A disseminação de discursos de cunho histórico através da imprensa não era vista com simpatia pelos membros do IHGB pois, a seus olhos, incentivava a polêmica e dificultava a governabilidade.195 No mesmo discurso, Januário da Cunha Barbosa identificava quais eram os objetivos da historiografia no Instituto: A história (escreve aquele filósofo romano) é a testemunha dos tempos, a luz da verdade e a escola da vida. Por esta judiciosa doutrina facilmente se conhece quão profícua deve ser nossa associação, encarregada, como em outras nações, de eternizar pela história os fatos memoráveis da pátria, salvando-os da voragem dos tempos [...]. O coração do verdadeiro patriota brasileiro aperta-se dentro do peito quando vê relatados desfiguradamente até mesmo os modernos fatos da nossa gloriosa independência [...] Muitos vão já se obliterando na memória daqueles a quem mais interessam, só porque tem sido escritos sem a imparcialidade e necessário critério, que devem sempre formar o caráter verídico do historiador [...] Nós vamos salvar da indigna obscuridade muitas memórias da pátria e os nomes de seus melhores filhos.196 A história deveria eternizar o que era digno de ser lembrado; ela se assemelhava a um tribunal em que se avaliavam as ações dos homens do passado, julgando se mereciam ou não ser imortalizados pelo panteão da história. A narração dos grandes feitos deveria inspirar os leitores a realizar obras notáveis no presente e, para exercer esta função pedagógica, o historiador deveria estar atento à forma e ao método. Ao mesmo tempo em que o escritor tem a tarefa de salvar da obscuridade os nomes dos melhores filhos da pátria, esta empreitada só pode ser realizada por meio da imparcialidade e critério. Somente através da combinação entre a erudição documental e o desinteresse pessoal seria possível fazer um retrato justo e verdadeiro dos homens do passado. 194 CEZAR, 2004, p. 61. (Grifos do autor). Segundo Temístocles Cezar, a comissão do IHGB, em 1850, entendia que a imprensa não satisfazia ao historiador, pois escrevia, nas palavras da comissão, “com muita paixão”, uma vez que as facções rivais disputam entre si e cada uma sustenta a sua versão. Assim, de acordo com a congregação, “todos os fatos são desconfigurados”. Ibidem, p. 59. O trabalho de von Martius explicita bem os motivos que levavam a esta decisão: “O Brasil está affecto [sic] em muitos membros de sua população de idéias políticas imaturas. Ali vemos Republicanos de toda as cores, Ideólogos de todas as qualidades. É justamente entre estes que se acharão muitas pessoas que estudaram com interesse uma história de seu país natal; para eles, pois, deverá ser calculado o livro, para convencêlos por uma maneira destra da inexiquibilidade de seus projetos utópicos, da inconveniência de discussões silenciosas dos negócios públicos por uma imprensa desenfreada, e da necessidade de uma Monarquia em um país onde há um tão grande número de escravos”. MARTIUS, 1844, p. 401402. 196 BARBOSA, 1839, p. 09-10. (Grifos nossos). 195 91 Em seu texto sobre o modo como se deve escrever a história do Brasil, Karl Friedrich von Martius ressaltava que uma obra histórica sobre o Brasil deveria “ter igualmente a tendência de despertar e reanimar em seus leitores brasileiros amor da pátria, coragem, constância, indústria, fidelidade, prudência, em uma palavra, todas as virtudes cívicas”.197 Para despertar estes sentimentos o historiador não poderia se esquecer de que seu instrumento é a escrita e, portanto, deveria prezar pela forma de sua narrativa, não a tornando monótona nem excessiva. Por outro lado, ao reivindicar o patronato do imperador, o Instituto preparava sua incorporação ao Estado imperial. Numa monarquia constitucional, possivelmente sabiam que a fidelidade ao monarca “já não poderia ser apenas a entrega pessoal, mas o comprometimento com um modelo de Estado, de pátria e de nação”.198 Em seu texto, von Martius ressaltaria este entrelaçamento entre as esferas do Estado e dos segmentos intelectuais: “nunca se esqueça, pois, o historiador do Brasil, que para prestar um verdadeiro serviço à sua pátria deverá escrever como autor monárquico constitucional”.199 A escrita da história era, então, compreendida como uma tarefa oficial e necessária à nação. A relação entre o lugar de produção de conhecimento histórico e o Paço apontava a direção que seria, não sem contradições, seguida pelo Instituto. Afinal, como superar a ambigüidade da função do historiador? Ele é um cronista a serviço do rei ou um historiador imparcial a serviço da razão? Ao se deparar com esta questão, Machado de Castro optaria pela segunda opção; os autores ligados ao IHGB, contudo, procurariam conciliar o patronato ao método e à imparcialidade. No século XIX as demandas por uma verdade histórica já não podiam se desvencilhar das práticas da erudição e do lido documental. Essa operação permitia aliar fidelidade ao patriotismo e, neste sentido, a obra de Varnhagen, História geral do Brasil, é um bom exemplo; seu livro é dedicado ao imperador e escrito em seu nome. É uma verdadeira prestação de serviços, deixando clara a ligação entre historiador e a nação, inserida em um amplo processo de centralização política e administrativa. 197 MARTIUS, 1884, p. 401. Pode-se notar a consonância entre as preocupações poéticas de von Martius e Januário da Cunha Barbosa; segundo o Cônego, “o talento dos historiadores e do geógrafos é só quem pode oferecer-nos esta galeria de fatos, que, sendo bem ordenados por suas relações de tempo e lugar, levam-nos a conhecer na antiguidade a fonte de grandes acontecimentos”. BARBOSA, 1839, p.12. (Grifos nossos). 198 ARAUJO, 2008a, p. 151. 199 MARTIUS, Op. Cit., p. 402. 92 Todavia, a idéia de que os fatos por ele narrados foram coligidos em arquivos de diversas partes do mundo foi essencial para legitimar a veracidade de sua história. Segundo Rodrigo Turin, o método histórico é o corte que garante a suspensão do sujeito e a neutralidade do enunciado, isto é, a cientificidade do relato.200 Através da análise exaustiva de documentos, Varnhagen pôde legitimar o caráter moral dos heróis e suas virtudes/qualidades nobres.201 A fidelidade ao monarca e a suspensão de si, possibilitada pelo método, eram o que garantia, paradoxalmente, que a escrita da história se tornasse verdadeiramente patriótica. O rigor da investigação, legado pela tradição antiquária, funde-se aqui com as funções pragmáticas da retórica e estético-afetivas da poesia, constituindo a figura autoral do historiador oitocentista202 - legitimada por um conjunto de práticas difundidas, aliadas ora a uma cultura letrada mais ampla, ora aos mecanismos restritos de legitimação conferidos pelas agremiações ilustradas.203 A sinceridade e a cientificidade necessárias à escrita da história nacional garantiam sua utilidade, isto é, seu caráter pedagógico. “Só desta arte a história nos pode oferecer importantíssimas lições”, afirmava Januário da Cunha Barbosa.204 “A história é uma mestra, não somente do futuro, mas também do presente”, salientaria von Martius, resgatando o topos da história magistra vitae.205 Uma das preocupações do Instituto consistia em constituir um saber histórico útil.206 200 TURIN, 2009, p. 17. Varnhagen ressaltaria que “O historiógrafo [...] cumpre com o seu dever quando, com critério e boa fé e imparcialidade, dá, como em um jurado, mui conscienciosamente o seu veredicto, cotejando os documentos e as informações orais apuradas com o maior escrúpulo que, à custa do seu ardor em investigar a verdade, conseguiu ajuntar”. VARNHAGEN, 1973. p. 27-28. Apud TURIN, Op. Cit., p. 18. (Grifos nossos). 202 Segundo Reinhart Koselleck, a reflexão estética, o diálogo entre história e poesia e a possibilidade de orientar-se para o futuro foram essenciais na formação do conceito moderno de História. O autor informa que na França, Diderot (1762) usava as categorias aristotélicas do verdadeiro, do provável e do possível para comparar história e poesia. Em lugar de narrar séries cronológicas, reclamava-se mais arte expositiva, mais vida, averiguando-se os motivos ocultos e extraindo uma ordem interior dos acontecimentos. A fundação de uma unidade teleológica seria, desta forma, menos uma tarefa estética que moral. Para Humboldt (1821), seria necessário aliar a investigação histórico filológica à subjetividade que une o historiador ao poeta. À esta reflexão se seguia um processo de moralização das histórias, isto é: a discussão sobre introduzir juízos de valor ou deixar os fatos falarem por si mesmos. Iniciam-se polêmicas sobre a objetividade, a imparcialidade do historiador e idéia de verdade da história. A formação de hipóteses, visando superar a interpretação teológica da história com o recurso a uma história “natural”, também seria um elemento fundamental na formação do conceito moderno de História. KOSELLECK, 2004, p. 52-73. 203 SILVA, 2006, p. 114-136. 204 BARBOSA, 1839, p. 13. (Grifos nossos). 205 MARTIUS, 1844, p. 401 206 “A prossecução do meu discurso me faz chegar a um ponto em que, designando bem claramente a utilidade que se pode colher dos estudos históricos e geográficos, marca por isso mesmo uma época gloriosa em nossa pátria”. BARBOSA, Op. Cit., p. 13. (Grifos meus). Igualmente, para Varnhagen, o historiador não deveria perder de vista a dimensão pragmática de sua narrativa: “A importância do 201 93 No interior do IHGB entendia-se que as utilidades da história eram muitas; de um lado, ela fornecia ao homem no presente uma ligação afetiva com a herança do passado; de outro, incitava o nacionalismo e instrumentalizava a arte de governar.207 Estes tópicos se estendem por diversos autores oitocentistas, como José Bonifácio, Raimundo da Cunha Mattos, José Feliciano Fernandes Pinheiro, Pereira da Silva, Joaquim Norberto de Souza e Silva e toda uma geração de letrados que atuou sob os auspícios do IHGB e do monarca no Segundo Reinado. Entretanto, as versões do processo de formação da nação brasileira constituídas no seio do Instituto perdiam gradualmente sua hegemonia no último terço do Oitocentos. Neste momento letrados distantes deste lugar autorizado de construção de conhecimento procuraram elaborar outras pesquisas e interpretações do processo histórico de forma independente em relação ao IHGB. Neste sentido, um dos principais requisitos a servir de legitimação de novas autoridades seria justamente a autonomia em relação ao poder instituído. Este movimento se revela através dos jornais mineiros, dos pareceres da Escola Normal e também, de forma mais profunda, através das próprias transformações ocorridas no conceito de “história” entre os séculos XVIII e XIX. No dicionário de Raphael Bluteau, de 1712-1728, o autor assim definia a história: História é a narração de coisas memoráveis que tem acontecido em algum lugar, em certo tempo, com certas pessoas ou nações. [...] Chama Cícero à História Memória pública […] porque na História perseveram memórias do passado [...]. De todas as Histórias, a mais certa é a da Sagrada Bíblia; como ditada pelo espírito divino, deve ser preferida a todas [...]. A História é a testemunha do tempo, a luz da verdade, a vida da memória, a mestra da vida & a mensageira da Antiguidade.208 Na primeira metade do século XVIII, portanto, a história se relacionava precisamente à narração de eventos memoráveis que pudessem servir como exemplos para as ações no presente. Ela não havia se constituído como um saber estudo da história da nação, tanto para contribuir ao maior esplendor dela entre os estranhos, como para ministrar dados aproveitáveis na administração do Estado, e também para fortificar os vínculos da unidade nacional, e aviventar e exaltar o patriotismo, e enobrecer o espírito público aumentando a fé no futuro e na glória das letras”. VARNHAGEN, s/d, p. V. In.: TURIN, 2009, p. 19. 207 Esta concepção está clara também para Januário da Cunha Barbosa: “Na vida dos grandes homens aprende-se a conhecer as aplicações da honra, a apreciar a glória e a afrontar os perigos [...]. O livro de Plutarco é uma excelente escola do homem”. BARBOSA, 1839, p. 14. (Grifos nossos). 208 BLUTEAU, 1712-1728, vol. 4, p. 39-41. 94 dotado de método e tampouco parecia ser entendida como um processo. A autoridade da história revelada se impunha ao conhecimento profano; talvez devido à ausência de um método, o autor entendia não haver uma diferenciação significativa entre o ofício do historiador e do cronista: “Historiador: o escritor de alguma história; Historiógrafo: Cronista ou cronógrafo. Aquele que escreve as histórias de uma província, de um Reino”.209 Ainda em 1813, o conceito de história não compreenderia um desenvolvimento muito diferente. No dicionário de Antônio de Moraes Silva, História significa a “narração de sucessos civis, militares ou políticos. História Natural: exposição dos objetos e produtos da natureza por meio de suas propriedades e caracteres, dispostos em certas Classes, Ordens, Gêneros, etc. segundo o Sistema do que a descreve.210 Ainda que Moraes não diferencie a história revelada e a profana, referindose apenas à segunda, as figuras do historiador, do cronista e do historiógrafo não se separam completamente: “historiador: escritor de História; historiógrafo: cronista, cronógrafo”.211 Já na edição de 1890-1891 do dicionário de Antônio de Moraes Silva, história e historiador são termos que remetem a um método específico para o qual são necessários a imparcialidade e o distanciamento com relação à esfera governamental: s.f. (do Lat.) Narração escrita dos sucessos civis, militares, literários, eclesiásticos ou políticos, etc. “ser – à gente” a fábula, conversação da gente. § História Natural; exposição dos objetos da natureza por meio de suas propriedades e caracteres, dispostos em certas classes, ordens, gêneros, etc., segundo o sistema que a escreve. § História universal; história de todos os povos e nações conhecidas, considerada em todas as suas idades, dividida em épocas, apresentada em um só quadro [...]. § História geral; é a de um só povo, ou nação, mas incluindo todas as suas idades e todos os ramos da sua administração, e por isso compreende a historia política, religiosa, literária, militar, etc. [...] Historiografia: a arte de se escrever a história.212 Em 1890 a história era um conceito chave para a compreensão do processo de formação de diversos segmentos da sociedade, através do qual se revelam suas continuidades e rupturas. O historiador foi descrito como “s. Escritor de história. § O que conta ou narra qualquer sucesso. § Usa-se também adj. § V. historiógrafo, 209 BLUTEAU, 1712-1728, vol. 4, p. 41. SILVA, 1813, vol. 2, p. 116. 211 Ibidem, p. 116. 210 212 SILVA, 1890-1891, vol. 2, p. 132-133. 95 sin.”239. Ainda que historiador, historiógrafo e cronista pudessem ser entendidos como sinônimos, Moraes ressaltava que havia diferenças entre esses diferentes ofícios: Historiógrafo (Idem. pág. 133. 21 linhas): (do lat. Historia, e do Gr. Grapho, eu escrevo). Cronista, cronógrafo, historiador. (Historiógrafo, historiador. Sin.). Ambos estes literatos escrevem a história, mas de diferente modo, e com diversas circunstâncias. O primeiro é um literato pensionado do Estado, ou de um príncipe para escrever a sua história, e corresponde quase sempre ao que se chamava cronista. O segundo é um literato que compõe uma história sem ser pensionado, e quase sempre não contemporânea. O historiógrafo é um simples analista, que refere acontecimentos; o historiador escolhe-os, põe-nos em ordem, examina os fatos, julga os homens e as coisas: costuma este ser menos adulador e mais imparcial que o historiógrafo240. A opção de significativa parte dos membros do IHGB por evitar escrever a história do tempo presente era um elemento tradicional na composição da prática historiográfica. O IHGB discutiu amplamente sobre as possibilidades de se escrever uma história presentista, tendendo-se a defender a ênfase na história colonial e mesmo a criar, como citamos anteriormente, a arca do sigilo. Para o autor, não fazer uma história contemporânea era uma escolha política e epistemológica: Esta escolha não visava somente proteger os políticos do IHGB de descobertas desconfortáveis que a pesquisa da atualidade poderia revelar. De modo mais profundo, ela é a expressão de uma tendência teórico-metodológica, segundo a qual não é desejável se fazer a história do imediato, pois ela é perigosa para a objetividade do historiador, logo, para a melhor maneira de se escrever a história.213 Por outro lado, chama atenção nesta edição do dicionário de Moraes o fato de que o historiador, para exercer seu ofício, deveria preferivelmente se distanciar do poder instituído, pois a união entre a esfera intelectual e governamental dificultava a imparcialidade, transformando o literato em um adulador. O ofício do historiador se desdobraria em um processo de escolha de fatos, exame e julgamento sobre os homens e as coisas e, para tanto, seria fundamental a autonomia intelectual. Neste sentido, a aproximação entre o IHGB e o governo imperial foi um elemento que enfraqueceu a autoridade do Instituto no fim do século XIX; empreendia-se um movimento contrário, no qual esta ligação, em parte, poderia 213 CEZAR, 2004, p. 55-56. 96 deslegitimá-lo enquanto lugar de produção de conhecimento válido, verdadeiro e imparcial. Para muitos aspirantes a historiadores brasileiros e, particularmente para Eduardo Machado de Castro, este deslocamento de olhar exerceria papel fundamental: o autor propunha tanto uma reelaboração da figura autoral do historiador, quanto uma outra interpretação da história de Minas. Através da análise da operação histórica realizada pelo lente da Escola Normal, percebemos que sua narrativa não era escrita em nome de instituições imperiais ou da Coroa. Machado de Castro procurava se apresentar como um intelectual autônomo, que se dirigiria especialmente a outra entidade: ao povo ou à opinião pública ilustrada. No prefácio de Epanáphora, Machado de Castro ressaltava os motivos que o levaram a escrever a obra, no qual sobressaía a sinceridade: “levamos à estampa este pequeno livro movido somente pelo amor da terra de nosso berço”.214 Eis o primeiro requisito para a escrita da história: o amor à terra, a ligação afetiva entre o autor e a pátria, consolidada com a prática historiográfica do IHGB. Machado de Castro, assim como Varnhagen, acreditava estar prestando um serviço à nação ao escrever sua história, ou parte dela. Entretanto, se para o segundo esta prestação de serviços implicava evitar a polêmica e os conflitos, para o lente da Escola Normal seu sentido é oposto: ele esperava denunciar a má atuação dos governos colonial e imperial e, simultaneamente, indicar o que entendia como abusos empreendidos pelos autores ligados ao IHGB, aos quais faltava a imparcialidade necessária para a escrita de uma história verdadeira: Este fidalgo [Visconde de Valadares], empavesado e orgulhoso pelos brasões de seu solar, governou despoticamente a capitania, em contraposição aos encômios feitos ao conde pelo historiador imperial, o Sr. Visconde de Porto Seguro, apresentando-o como modelo dos governadores!!215 A identificação de Varnhagen como historiador imperial explicita a desconfiança de Machado de Castro com relação à própria historiografia do Instituto. Ao elogiar o caráter do conde, Porto Seguro parecia acreditar que o despotismo constituía-se em um bom modo de governar. Ressaltando que Valadares agia de acordo com seu orgulho e os brasões de seu solar, o lente deslegitimava o 214 CASTRO, 1884, p. III. (Grifos nossos). 215 Ibidem, p. 60. 97 trabalho de Varnhagen tanto por este ser um historiador vinculado aos interesses da metrópole portuguesa, quanto por defender um modo de governo aristocrático que, como vimos, tendia a ser associado às práticas do Antigo Regime. Sebastião da Rocha Pitta também receberia críticas de Machado de Castro. O professor lembrava que o governador do Rio de Janeiro e São Paulo, Arthur de Sá e Menezes, procurava se beneficiar das riquezas das minas de ouro: Movido pela sede de aventuras, veio às ocultas ao teatro em ação! Rocha Pitta, querendo inocentá-lo, afirma que veio apenas estudar por si mesmo as riquezas daquelas regiões para melhor informar à coroa. Depois da longa demora nas minas, voltou ao Rio de Janeiro levando consigo amostras de ouro e pedras preciosas, que podiam enriquecê-lo. As crônicas não rezam se as amostras chegaram a Portugal, pois apenas o governador geral teve conhecimento dos descobrimentos por cartas.216 A escrita da história empreendida por Machado de Castro foi marcada pelo tópico da crítica ao que considerava serem erros cometidos por historiadores associados ao Estado. Quais as motivações destas falhas? Elas foram casuais ou intencionais, visando legitimar e manter a ordem imperial? Expressando suas críticas o autor hierarquizava, deslegitimava e legitimava modos de operar no campo intelectual.217 Diferentemente do que ocorria com os historiadores ligados ao IHGB, a ligação afetiva entre Machado de Castro e a nação/povo se caracterizava por uma dupla autonomia: por um lado, ele procurava se inserir no modelo de cientista, em que o sujeito fala como investigador livre, cujo único guia é a razão imparcial e que se dirige somente à humanidade, submetendo seus trabalhos à crítica de uma 216 CASTRO, 1884, p. 30. Machado de Castro atribui a Guerra dos Emboabas à união entre os “forasteiros” e “os frades” contra os “paulistas”. Descrevendo o caráter de Manoel Nunes Viana, importante liderança dos primeiros, o professor informa que ele era “ambicioso por natureza” e que por temer a rejeição dos paulistas, “houve-se de certa aparência de justiça e retidão, recebendo a uns com agasalhos e ajudando a outros; assim reza a crônica em contraposição às considerações do historiador Rocha Pitta”. Ibidem, p. 37. O lente, no entanto, não informa que crônica é esta, referindo-se a elas como “uma crônica do século passado”. 217 Esta deslegitimação tenderia a se expressar de forma mais significativa em seu artigo A Inconfidência Mineira – Narrativa popular, publicado na Revista do Arquivo Público Mineiro em 1896. Neste texto, Machado de Castro salientava: “escrevemos esta monografia com os mesmos documentos de que se serviu o Sr. Joaquim Norberto para construir sua famosa história da Conjuração Mineira”. Estas fontes eram: “depoimentos e escritos do Conselheiro Rezende Costa, Cônego Manoel Rodrigues da Costa, Padre Martinho de Freitas Guimarães, o Vigário do Sumidouro, memórias históricas do Cônego João Soares d‟Araújo”. CASTRO, 1901, p. 1067. A despeito da narrativa se constituir a partir dos mesmos documentos, Machado de Castro não poupava críticas ao trabalho de Joaquim Norberto, afirmando que a inexatidão do historiador se devia ao fato de ter escrito uma história “sob encomenda imperial”. Ibidem, p. 1080. 98 opinião ilustrada – como é o caso da Congregação de Lentes da Escola Normal de Ouro Preto; por outro, ele só poderia ser um intelectual livre porque estava à margem do poder instituído. Para alem do tópico da imparcialidade, a cientificidade da Epanaphora era atribuída ao rigor metodológico e ao uso de fontes históricas. Neste sentido, o autor não rompia completamente com a noção de cientificidade proposta pela tradição historiográfica imperial. A imagem que Machado de Castro tinha do ofício do historiador pode ser avaliada a partir de um trecho escrito no prefácio da Epanáphora: Entre nós poucas são as pessoas que conhecem a história pátria, ignorando completamente os fatos principais da história de suas respectivas províncias [1]. Por isso escrevemos a história elementar da província e a sua geografia, mas como um mineiro despresumido de si, que antes propõe como quem duvida, do que assevera como quem sabe [2]. A alma do filho desta terra cobrese de luto quando sacode o pó dos documentos em perscrutação das coisas do passado!!! Nestes velhos pergaminhos amarelecidos pelo correr das idades vê-se a todas as luzes da história, sublime trabalho, a ferrugenta cadeia que o pobre mineiro arrastou por estas terras altamente generosas!!! [3]. Aqui [em 1844] paramos [nossa narrativa] para não levar à escola questões de política hodierna, que irão empanar-lhes a atmosfera pura e santa. À escola devemos verdade e respeito [4].218 Assim como os letrados ligados ao IHGB, o lente entendia que uma história do tempo presente não deveria ser um objetivo do historiador. A política e a história não deveriam se misturar. Para o autor, a escrita da história deveria se iniciar com um questionamento; como leitor “extensivo” que desejava ser, Machado de Castro procurava analisar os textos que lia, questioná-los, duvidar deles e procurar, através dos documentos, a verdade. A escrita da Epanáphora foi apresentada como o resultado de uma ampla pesquisa documental, realizada metodicamente de acordo com uma seqüência de passos. Tal qual um cientista ele assumia que, inicialmente, não detinha a verdade. A ignorância era o ponto de partida que o levaria à pesquisa empírica, a sacudir o pó dos documentos. Ao preferir a eterna dúvida do que asseverar como quem sabe, Machado de Castro parecia não apenas estar consciente de que sua obra poderia ser superada no futuro: ele provavelmente esperava que ela o fosse, pois a ciência não 218 CASTRO, 1884. [1]: p. IV; [2]: p. VIII; [3]: p. 96; [4]: p. 33. 99 era entendida com algo acabado, mas como um tipo de conhecimento cuja característica fundamental centrava-se justamente em estar em constante aperfeiçoamento: em suas palavras, “a ciência rasga cotidianamente indefinidos horizontes”.219 Entretanto a luta do povo contra um governo opressivo tendia a ser entendida, naquele momento, como parte de um processo de desenvolvimento natural das nações rumo ao progresso. A relação entre o professor e a ciência talvez possa ser melhor entendida através de uma rápida biografia. Nascido em 1848, Eduardo Machado de Castro passou pelos estudos primários no Seminário de Mariana, em 1862.220 Formou-se na escola de Farmácia de Ouro Preto em 1873. Em 1876 ele se tornou lente de história e geografia da Escola Normal de Ouro Preto e do Liceu Mineiro. Em 1884, a Congregação de Lentes da Escola Normal criou uma cadeira de Ciências Naturais. Interessado na temática, o farmacêutico se ofereceu para organizar o programa da disciplina.221 Machado de Castro também não ficaria indiferente à criação do curso de Bacharelado em Ciências Naturais e Farmacêuticas, anexo à Escola de Farmácia de Ouro Preto pelo decreto n. 600, de 02 de janeiro de 1893. Perante a Congregação da Escola o professor defendeu uma monografia sobre os venenos ofídicos que lhe valeu o título de bacharel e a cadeira de professor do curso recentemente criado.222 De seu ponto de vista a história era uma ciência dotada de método específico através do qual poder-se-ia recuperar o passado e entender a configuração do presente. Em vários momentos ele se refere a este ofício como “ciência histórica”.223 Por outro lado, embora no prefácio da Epanáphora haja citações de 219 CASTRO, 1884, p. VI. “O senhor Eduardo Machado e Castro, filho do Senhor Capitão Vicente Machado e Castro, entrou no Seminário dia 1º de outubro de 1862, tendo a idade de 15 annos. Morador de Ouro Preto. Matrícula: 1862 (out., nov., dez.); 1863 (jan., fev., mar.); (abr., mai., jun.); (out., nov., dez.)”. Livro de Matrícula dos seminaristas (estudantes) do Seminário Episcopal de Marianna (1859-1867), p. 127. Arquivo da Cúria, Mariana, MG. 221 “O professor Eduardo Machado de Castro se ofereceu para organizar o programa para candidatos à cadeira de Ciências Naturais, foi aceito. Escola Normal de Ouro Preto, 24 de novembro de 1884. Primeira Sessão”. IP 138 – Atas das sessões da Congregação da Escola Normal de Ouro Preto (1883-1903). APM. 222 Aurélio Pires afirma que Machado de Castro, ao defender a monografia, já havia “entrado em idade, pois tinha bem mais de quarenta anos, sendo há muito, farmacêutico”. PIRES, 1939, p. 66. Além disso, um anúncio no jornal conservador A nação sugere que parte de sua família se dedicava ao ramo: “ANÚNCIO: Francisco de Paula Machado de Castro, farmacêutico, estabelecido à Rua do Tiradentes – defronte da Tesouraria geral – que tem sempre um completo sortimento de todos os medicamentos indispensáveis nos usos e aplicações médicas”. A nação. Ouro Preto, edição 14, 24 de maio de 1880, p. 04. APM. 223 CASTRO, Op. Cit., p. IV. 220 100 autores como Henry Buckle e Herbert Spencer, sua prática historiográfica em si não se assemelha aos trabalhos destes autores. Ainda que o autor sugerisse que existia uma continuidade entre passado e presente, seu objetivo centrava-se mais na denúncia da falsificação histórica e nas deficiências da colonização, que na busca por uma história filosófica. Seu pendor para as ciências naturais não se expressou através de uma abordagem sociológica da história, através da qual buscavam-se identificar generalizações e, em alguns casos, determinismos. A linguagem mobilizada pelo lente poderia levar o leitor a constituir, ele próprio, uma ponte explicativa entre passado e presente. Enfatizando o despotismo e a violência da colonização, o professor possivelmente esperava que o leitor reconhecesse traços de continuidade entre a Colônia e o Segundo Reinado, sobressaindo-se a sensação de que a Independência fora uma revolução inconclusa. A cientificidade da história relacionava-se a seu caráter empírico e imparcial. Para alcançar a verdade sobre o passado o autor enfatizava ser fundamental perscrutar os documentos e conhecer a produção dos historiadores que se detiveram ao tema. Ao lado de cânones portugueses e autoridades do IHGB, que raramente escapam às suas críticas, como o Padre Antônio Vieira, Sebastião da Rocha Pitta, José Joaquim da Rocha, João Manoel Pereira da Silva e Varnhagen, Machado de Castro recorria a uma gama de autores menos citados, às vezes até mesmo mal vistos, como José João Teixeira Coelho, Cláudio Manoel da Costa, José Rezende Costa e Joaquim Felício dos Santos, bem como a cartas, documentos e relatos orais. Neste sentido, ele não apenas procurava ler os trabalhos destes autores, mas questioná-los, cruzá-los com as fontes e buscar documentos inéditos que permitissem revelar o desconhecido. Em outro trecho do livro surgem pistas sobre o imaginário que permeava sua concepção de historiador e cientista; ao discorrer sobre a fundação do seminário episcopal ele ressaltava que suas afirmações se baseavam nas “crônicas que temos sobre a mesa do nosso trabalho”.224 Dotada de um método próprio, baseada na análise profunda e racional dos documentos, a escrita da história era compreendida como um ofício. Sua auto-imagem como historiador se aproximava à figura de um investigador incansável atrás de uma mesa repleta de escritos antigos, buscando 224 CASTRO, 1884, p. 57. 101 sempre desvelar o passado. A história era, em suas palavras, um sublime trabalho, através do qual o cientista pôde esclarecer o enigma do passado mineiro e conhecer a verdade. Porém, ao perscrutar as coisas do passado, o professor afirmava que a alma do filho desta terra cobre-se de luto, pois, em seu entendimento, os documentos revelavam e comprovavam que, ao contrário do que supunha uma historiografia conciliadora, o passado era repleto de lutas e tristezas: o pobre mineiro teria vivido uma vida de sofrimentos e privações, ainda que suas terras fossem altamente generosas! Machado de Castro constatava uma aparente contradição: se as terras eram tão generosas, porque a história de Minas se confunde com uma história de sofrimento? Quais as conseqüências disso para a formação deste povo e, em que medida havia continuidades entre este passado e o presente? Neste contexto sobressai uma das utilidades de seu trabalho historiográfico: a análise do passado mineiro poderia revelar um outro processo histórico através do qual o presente, entendido como período de decadência e imoralidade, poderia ser explicado. Isto possibilitaria ao autor e ao leitor avaliar com que elementos do passado era necessário romper. Chegava-se, assim, a uma segunda utilidade para a história: a composição de uma identidade nacional que se ligava à especificidade regional, possibilitando ao cidadão contemporâneo sentir-se parte ativa da nação e elemento fundamental em seu processo de formação. A história poderia ser útil ao ressaltar o compartilhamento de tradições e vivências comuns dos brasileiros/ mineiros no passado, em um momento em que estava em jogo a defesa de um novo regime que não tardaria a se instituir, a República. Logo, parecia essencial fortalecer o sentimento de nacionalidade: A lição da história nos leva a concluir que os povos, quando esquecem seu passado, perdem sensivelmente sua nacionalidade; e quando se sustentam fortes e ativos, devem seu vigor e fecundidade ao regime científico! [...] Os povos que não conhecem sua história não podem tirar dela lições para guiar seus destinos no futuro; é um povo de meninos, porque a ciência histórica é a luz da verdade e a mestra da vida. [...] A evocação de seu passado glorioso retemperará as forças do espírito provincial, porque conserva ela, como a vestal antiga, na pira o fogo imperecível do amor da pátria.225 225 CASTRO, 1884, p. IV. 102 A memória está em constante metamorfose, suscetível a esquecimentos e revitalizações.226 Na Epanaphora Machado de Castro esperava reavivar a memória dos mineiros, lembrá-los de que seu passado era glorioso – pois a luta contra o despotismo poderia ser entendida naquele contexto como um motivo de orgulho, e também como prova de que a região se identificava a valores modernos desde os tempos coloniais. Esta relação entre memória e glória era bastante clara também para alguns autores do IHGB. Ao analisar o relatório de 1850 escrito por Joaquim Manoel de Macedo, Temístocles Cezar constatou que ressuscitar o passado poderia ser um exercício temerário e pleno de sofrimentos: “não obstante, quando a memória é organizada, depurada por uma associação literária como o IHGB, ela se torna positiva [...]. O principal é que a conversão de uma memória ou de um passado qualquer se torne uma lembrança de glória”.227 De forma semelhante, Machado de Castro estava certo de que a história de Minas era gloriosa. A luta política comum dos mineiros contra a metrópole teria se dado muito cedo, quando ainda se identificavam como paulistas. Aos olhos do lente, estas batalhas cotidianas entre a vida e a morte, próprias do processo de conquista dos sertões, teriam dado origem a grupos com lembranças conjuntas, modificando o “caráter” dos mineiros: A ambição de enriquecer aventurosamente sempre constituiu uma das faces do caráter do povo latino. Os paulistas, descendentes dos portugueses invasores na América, exacerbaram essas virtudes hereditárias.228 Assim, através de um processo histórico compartilhado, o caráter do povo mineiro teria sido constituído; todavia, aparentemente, os mineiros vinham se esquecendo dele. O autor acreditava que a essência desta comunhão de lembranças estava viva e latente no espírito dos mineiros, impossibilitando que eles se identificassem com a história imperial. O resgate da história regional constituiria elemento decisivo para a formulação da identidade, permitindo ao mineiro/ brasileiro lembrar quem ele era e incitando-o à ação no presente. Através do estudo do passado, sobressai na Epanáphora outra utilidade da 226 227 NORA, 1993. CEZAR, 2004, p. 57. 228 CASTRO, 1884, p. 29. (Grifos nossos). 103 história: a pedagogia, bastante explorada por muitos autores ligados ao IHGB: O Visconde de Barbacena desenvolveu sobre as vítimas uma bárbara e feroz perseguição. Este governador imortalizou-se por esse acontecimento, embora condenado ao inferno eterno da história. Trouxe consigo duas paulistas como amantes, que encheram o palácio de escândalos e intrigas. Homem incontinente, enchia de terror as famílias honestas, pois referem as crônicas que muitas retiraram-se da Vila, temerosas do desregramento dos costumes de tal governador [1]. Manoel Sabino dos Santos, queimado pelo fogo do patriotismo, trabalhou, roubando do trabalho da sua oficina de ourives de onde tirava seu sustento para a família, longos meses na construção de um prelo e na fundição de typos, com o fim de levantar um periódico para fustigar os desmandos da política imperial: este periódico intitulava-se o Echo do Serro; - e na mesma forma, no arraial do Itambé, Geraldo Pacheco de Mello conseguiu publicar o – Liberal do Serro! Entretanto dormem esquecidas as cinzas destes dois ilustres iniciadores do jornalismo provincial, quando mereceram a glorificação da historia!![2]229 Ao imortalizar, condenar, resgatar sagas que antes dormiam esquecidas e premiar os grandes feitos através da glorificação da história, o autor julgava as ações do passado; como em um juízo final, classificam-se e separam-se as boas ações (dignas de inspirar atos no presente), em um pólo, e as más (dignas de serem lembradas para não serem repetidas), em outro. Através da história poder-se-ia julgar as virtudes e os defeitos morais dos personagens: o Visconde de Barbacena era um homem bárbaro e feroz; Manoel Sabino dos Santos, por sua vez, era um grande patriota que se sacrificou para lutar pela justiça. Enquanto um era entendido como um homem fútil, dado aos prazeres e desregramentos de costume, obcecado em perseguir, o outro sacrificaca seus interesses particulares para reclamar a liberdade. Ao narrar a virtude e o caráter dos homens do passado – ao contar o que fizeram, o que pensaram e porque sofreram – o autor não deixava de conquistar a simpatia do leitor para um novo elenco de heróis regionais que poderia servir de exemplo para toda a nação. Esta história parecia continuar no presente; ela não deixava se assemelhar à própria história de Machado de Castro e da Geração de 1870 que, assim como seus antepassados, apesar das dificuldades lutava, se sacrificava e levantava periódicos para fustigar os desmandos da política imperial. Muitos historiadores do século XIX tenderam a ressaltar as dificuldades 229 [1]: CASTRO, 1884, p. 83; [2]: Ibidem, p. 65. 104 compartilhadas pelo povo no passado. Ernest Renan sugeriu que “o sofrimento em comum une mais que a alegria. Como lembranças nacionais, os lutos valem mais do que os triunfos, pois impõem deveres”.230 Assim, a partir da escrita e do ensino da História, Machado de Castro esperava tanto explicar o processo de formação da província, quanto definir o caráter do povo mineiro, fortalecendo o nacionalismo. Para tanto, o autor deveria prezar pela forma de sua narrativa. Em seu texto, percebe-se uma contradição entre a necessidade de construir um conhecimento concreto, sólido, e escrever de forma imaginativa e poética. Este paradoxo é, em parte, resolvido através da noção de “poesia científica”: O ensino da história é de palpitante necessidade na vida prática para descurar-se dele na escola primária [...]. Mas o nó górdio da questão está no que convém ensinar à criança nos tempos modernos [...]. É necessário nutrir e fortificar a evolução da inteligência infantil na esfera das necessidades da vida moderna. Nos tempos antigos, nutria-se a inteligência que se formava de fábulas e contos maravilhosos de sorte que, dilatando-a sem termos em sonhos impossíveis, sobre falso terreno erguiam-se as construções mentais dos homens daquela época. Desse estado de coisas saíram os espíritos fracos e irresolutos, prontos à credulidade, inclinados aos perigos do misticismo. Tal é a magnitude dessa questão, primeira das que interessam a economia social, pois da sua solução depende a grandeza ou a decadência da pátria. Nada de abstrato nos primeiros livros da infância: tudo deve ser positivo e palpável. Mas, dirão os espíritos superficiais, que os pensadores modernos só fortificam a razão que se forma! Onde ficam as sublimes criações do ideal e da imaginação, na poesia e na literatura, quando ambas vivem do maravilhoso? A imaginação não falece, porque é um modo de ser da inteligência, e não uma faculdade singular [...]. A verdadeira poesia e literatura tem como base a ciência positiva, que rasga cotidianamente indefinidos horizontes aos vôos da imaginação, mas seguros e por saudáveis regiões, sem jamais temer as quedas dos artistas e poetas icários. [...] A montanha, com sua coroa de vulcões, a névoa, a flor, o rio, o raio e o mar elevam-nos mais o espírito salutarmente que os rasgos nebulosos da literatura lamartiniana [...]. Abri os livros de d‟Andubon e Michelet que encontrareis mais poesia científica do que essa nova geração de poetas.231 Para Machado de Castro a razão não se opunha à imaginação, pois a última era compreendida como um elemento da inteligência, isto é, da própria razão. Em nosso entender, o autor sugere que quanto maior o conhecimento sobre o mundo 230 231 Ernest Renan. “Qu‟est-ce qu‟une nation?”. Paris: 1882. In.: HAROCHE, 2002, p. 88. CASTRO, 1884, p. VII-VIII. 105 um indivíduo pudesse assimilar, maior seria seu repertório intelectual – e, consequentemente, mais complexo se tornaria seu pensamento e mais sofisticada seria sua imaginação. Desta maneira, a ciência e a razão poderiam ampliar os horizontes da imaginação, educá-la ou lapidá-la. Além do deleite estético, a poesia, a literatura e mesmo a história deveriam constituir algum aprendizado sobre o mundo que cerca o leitor. Ao se remeter a d’Andubon e Michelet, parecia por na mesma balança o trabalho do naturalista e do historiador, pois ambos se baseavam na ciência, na observação, e se vinculavam às necessidades da vida moderna. Por outro lado, Machado de Castro deixava mais clara a imagem que tinha da nação moderna. A nação deveria ter consciência de que vivia em um tempo moderno, cujo diferencial era o saber positivo e palpável. Como ativista dedicado do movimento intelectual da geração de 1870, o lente projetava para um futuro próximo a consolidação de uma nova Era, em que o país subiria um degrau decisivo rumo ao progresso e à modernidade. Neste contexto, seria um dever do patriota preparar o povo para as necessidades da vida moderna. O caráter dos homens nos tempos antigos, espíritos fracos e irresolutos, era visto como uma conseqüência do tipo de formação intelectual que lhes fora proporcionada, baseada em fábulas e contos maravilhosos. Rever os rumos da educação seria, portanto, um dever. A seus olhos, o Brasil do futuro deveria se diferenciar dos tempos antigos. Para ser resoluto e forte, o cidadão não poderia se basear em observações abstratas, mas na crítica empreendida pela razão, pela ciência e pela experiência empírica. Escrevendo a Epanáphora o autor esperava fazer a sua parte, realizando duas tarefas: operar uma releitura da história regional, nos termos da Geração de 1870, e divulgá-la através da Escola Normal – daí o caráter duplo de seu livro de leitura, que preenche os requisitos de uma obra historiográfica e de um manual. Produzindo uma história ligada à necessidade de se construir uma nova identidade, uma nova auto-imagem, que se adequasse ao espírito da nação que surgia, Machado de Castro acreditava prestar um importante serviço à pátria. A Epanáphora histórica de Minas Geraes foi escrita a partir de uma ética historiográfica que, embora solidificada através do IHGB, procurava se diferenciar do Instituto tanto em nível formal quanto interpretativo. Em sua operação histórica, Machado de Castro reelaborou os três elementos característicos da prática historiográfica composta pelo instituto – a sinceridade, a cientificidade e a utilidade. 106 O topos da sinceridade se manteve, ressaltando-se a relação afetiva entre o autor e a nação; todavia, esta afetividade não mais se baseava na ligação entre autor e imperador, mas na relação entre historiador e povo. A noção de cientificidade também se modificou, de modo que a imparcialidade, entendida como o distanciamento entre as esferas política e intelectual, adquiriu caráter central juntamente ao método e à crítica documental. Por outro lado, uma vez que a utilidade da história era algo necessariamente ligado às necessidades do presente, ela também se transformou, identificando-se com a denúncia do que se entendia como uma falsificação histórica. A reelaboração da figura autoral do historiador implicava, portanto, a escrita de uma nova história, possibilitando, neste sentido, uma ruptura profunda entre a interpretação histórica de Machado de Castro e a tradição historiográfica imperial. 3.2 – Eduardo Machado de Castro: a construção da identidade regional Nesta parte, procuramos descrever a interpretação da história do Brasil elaborada por Eduardo Machado de Castro. Inicialmente, centramo-nos nos exames de História formulados pelo lente na década de 1880 e aplicados aos alunos da Escola Normal. Estes exames possibilitam reconstituir, em parte, seu entendimento acerca de Portugal, das navegações e da descoberta da América. Todavia, devido ao próprio universo de fontes disponíveis no Arquivo Público Mineiro, concentramo-nos em sua interpretação sobre a história regional a partir do livro Epanáphora histórica de Minas Geraes, publicado em 1884. Esta obra dedica-se inteiramente à narração da história de Minas e ao processo de povoamento da região, iniciado desde as primeiras bandeiras empreendidas pelos paulistas ainda no século XVI. Em um exame de história aplicado por Machado de Castro em 1886, o ente informava que Portugal possuía uma antiga e importante tradição marítima: No século XIV Portugal maravilhou o mundo com as conquistas que seus navegantes empreenderam e levaram a efeito. Dom João I, que fora mestre de Aviz, em 1380 subira ao trono e recebera o sobrenome de Grande pela grandeza dos feitos que em seu reinado se realizaram e que, em máxima parte, foram devidos a um de seus filhos, o infante D. Henrique. Este príncipe, dotado de grande inteligência e rara ilustração, sendo muito versado na geografia e astronomia, e tendo um pendor 107 natural para a navegação – fez construir um estabelecimento naval na praia de Sagres, perto do Cabo de São Vicente. Rodeando-se de pilotos adestrados, empreendeu expedições marítimas numerosas e sucessivas, que começaram a dar aos portugueses o império dos mares. Até então os navegantes não ousavam dobrar o Cabo de Não [sic] que está na África, na extrema ocidental do Atlas. [...] D. Henrique, desprezando o adágio assustador, fez em 1412 dobrar o cabo africano, e depois em 1417 e 1418, a inspiração de seu gênio e a força de sua vontade fez avançar mar em fora pilotos animosos, que descobriram muitas ilhas e toda cosa africana até quase a Serra Leoa.232 Estas maravilhosas conquistas empreendidas pelas navegações remetiamse, segundo o autor, à união entre os grandes feitos de um monarca à ilustração de seu filho, o infante D. Henrique, ainda no século XIV. O domínio dos mares e a expansão da Coroa são descritos como façanhas dignas de uma epopéia; neste momento, a monarquia lusa e seus súditos pareciam unidos em torno de um projeto comum, arriscado e inovador: o infante e os marinheiros, juntos, aventuraram-se a conquistar o império dos mares e a ampliar o conhecimento do homem sobre o território da Terra. Desprezando adágios assustadores, os portugueses teriam ousado vivenciar uma experiência nova; em outro exame de História, também datado de 1886, Machado de Castro explicava sobre os motivos que levaram os europeus a estas empresas, através das quais descobriram a América: A Europa acostumou-se com as especiarias e artefatos das Índias e o comércio desenvolvido pelas repúblicas de Veneza e Gênova tirava lucros fabulosos dessas permutas, de modo que, tornandose impossível as transações mercantis das Índias pelo Mediterrâneo, vários nautas começaram a pensar um novo caminho para a Ásia a fim de libertar os mercadores cristãos das vexações dos Turcos. O filho de D. João I, da dinastia de Aviz, o infante D. Henrique foi o primeiro que tentou uma escola Náutica em Sagres, cidade de Portugal. Empregou todos os seus recursos com animar viagens marítimas e explorações. Foi assim que os portugueses e espanhóis descobriram as Ilhas Canárias da Madeira, Açores e cabo verde, e depois da morte do Príncipe descobriram a Guiné, Ilhas do Príncipe, S. Thomé, Fernando e Ano Bom; chegando mesmo até as fronteiras do reino do Congo, assim floresceram as viagens feitas durante os reinados de D. Affonso V e D. João II, o príncipe perfeito. Foi no reinado de D. João II que teve lugar o descobrimento da América em 1492, feito por Cristóvão Colombo.233 232 233 Exame de História. Escola Normal de Ouro Preto, 1886. IP 3/3, caixa 14, pasta 26. APM. Exame de História. Escola Normal de Ouro Preto, 1886. IP 1/3, caixa 21. APM. (Grifos nossos). 108 Segundo o autor, as explorações tinham como finalidade principal a expansão econômica e o comércio com as Índias. A dinastia de Aviz é entendida como um momento ímpar na história portuguesa – relacionada a uma época de realizações grandes e verdadeiramente revolucionárias. As navegações eram compreendidas como uma conquista do homem europeu, enfatizando-se as ações dos portugueses e espanhóis – que passariam a investir na exploração e na colonização de regiões remotas, iniciando um novo processo de domínio sobre uma natureza até então desconhecida. Assim, a América seria um lugar onde uma experiência nova se daria. Esta experiência, no entanto, poderia acabar por constituir um distanciamento entre o Novo Mundo e o processo linear da civilização ocidental européia, uma vez que os colonos, de certa forma, empreenderiam a conquista de territórios geograficamente distantes da Europa, entendida como centro. Enquanto a Europa dava continuidade aos progressos científicos, o Brasil iniciava um processo novo que, embora ligado ao ocidental, enfrentava um contexto específico e diferente do europeu – a luta pela sobrevivência em uma natureza selvagem e desconhecida. Em um exame de História proposto em 1889, Machado de Castro falava sobre este novo ambiente já habitado por seres humanos que, embora já fossem bastante civilizados eram ainda homens primitivos: Diversas são as opiniões dos antropologistas sobre as povoações primitivas das Américas; uns sustentando que os primeiros povos que vieram às Américas foram de origem mongólica (chinês, japonês) etc., baseando sobre os artefatos de sua civilização que d‟outrora florescia no México e no Peru; porém, essa é a opinião que seguimos. Há outros antropologistas que afirmam que o selvagem americano é produto do próprio solo, que em conseqüência de evoluções complexas chegou ao período da pedra polida e da língua aglutinativa. Quando Cabral com sua esquadra descobriu o Brasil, encontrou indígenas já bastante civilizados, pois que tinham usos, costumes, instituições religiosas, casamento, família e breves noções sobre direito de propriedades. É o que podemos apreender de elementar na história do homem primitivo nas Américas.234 Aparentemente, não havia um consenso sobre o surgimento das civilizações indígenas na América; Machado de Castro explicitava que esta questão não possuía ainda uma resposta definitiva. Não se sabia ao certo se a origem do indígena estava 234 Exame de História. Escola Normal de Ouro Preto, 1889. IP 3/3, caixa 16, pasta 40. APM. (Grifos nossos). 109 ligada às populações antigas do oriente; no contexto do século XIX, a origem dos orientais poderia ser entendida como a mesma dos europeus. Considerando-se a interpretação bíblica sobre o surgimento do homem no mundo, os orientais poderiam ser compreendidos como civilizações herdeiras de Adão e Eva que, posteriormente, migraram para o oriente e, talvez, para a América; em um ambiente distante, tais populações teriam se constituído através de um processo evolutivo paralelo e autônomo em relação ao ocidental. Todavia, o professor ressalta que alguns antropologistas aventam a hipótese de que os indígenas se constituíram na América, isto é, sempre estiveram ali. Caso a segunda opção fosse verdade, isto significaria romper com a linearidade bíblica, ou seja, com a idéia profundamente arraigada de que o homem foi criado por Deus, expulso do Éden e, a partir de então, se disseminou pelo mundo. Acreditar que o indígena surgiu do solo implicaria a dúvida sobre o surgimento do próprio homem ocidental e, em última instância, significaria o rompimento completo com um dogma.235 Se tanto o indígena quanto o europeu são, em última instância, seres humanos – seria razoável supor que tivessem se constituído da mesma forma, isto é, que tivessem tido um mesmo início, porém, uma outra história. Estas ambigüidades já vinham povoando a mente de Machado de Castro desde 1884. O autor inicia a Epanáphora histórica de Minas Geraes através da descrição da composição geológica do território mineiro, ressaltando primeiramente, suas riquezas naturais: O território de Minas Gerais compõe-se, geologicamente considerado, de duas regiões distintas: a primeira, a das formações primitivas ou plutônicas; a segunda, a das formações de transição [...]. São as formações metamórficas interessantes por serem o principal depósito de toda a espécie de minerais, sobretudo do ouro e das pedras preciosas, cuja extração fundou a riqueza da maior parte do centro de Minas Gerais. A província acha-se colocada sobre as mais altas terras do império, acontecendo, por esta circunstância, descerem delas os maiores rios do Brasil. Os picos das montanhas têm aí a sua maior culminação.236 235 É difícil identificar a idéia implícita na referência à origem do indígena como produto do próprio solo. Por um lado, esta teoria poderia se relacionar à própria idéia de que o homem não surgiu do Éden, mas de processos evolutivos complexos e extremamente longos que teriam gerado diversas espécies de animais e, entre elas, o homem. Por outro, a referência pode estar também ligada à interpretação bíblica sobre a criação do homem. A Gênesis, do Antigo Testamento, informa que “formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou -lhe nas narinas o fôlego da vida; e o homem tornou-se alma vivente”. Bíblia Sagrada, 1998, p. 02. 236 CASTRO, 1884, p. 11. 110 Este território, especificamente marcado pelas riquezas minerais, poderia ter duas histórias paralelas que se mesclariam no fim do século XVII: a primeira delas se refere ao surgimento do homem primitivo na América e é marcada pela antiguidade; a segunda se dá com a chegada dos aventureiros paulistas que visavam explorar o território em consonância com o projeto da Coroa portuguesa. Machado de Castro ressalta que “a história do aparecimento do homem na América começa agora a ser estudada”: Em vários pontos do território brasileiro tem se recolhido ossos fósseis e artefatos próprios daquelas idades. O Museu Nacional [...] se enriquece cotidianamente com antiqualhas do homem primitivo. [Segundo Dr. Lund] a América já era habitada em tempos em que os primeiros raios da história ainda não tinham apontado no horizonte do Velho Mundo e que os povos que habitavam nela naquela época eram da mesma raça que os que no tempo do descobrimento habitavam. O indígena da região de Lagoa Santa pode ser considerado o ancião dos aborígenes [...] A América é de grande antiguidade, desfazendo a opinião daqueles que sustentam sua modernidade baseados unicamente nas considerações históricas.237 Ao contrário do exame aplicado no ano de 1889, o professor não discute aqui de onde veio este homem primitivo, isto é, se surgiu do solo ou se migrou do oriente para a América. Ao que indica Dr. Lund, os índios americanos são uma civilização mais antiga que a européia. Não fica claro se o professor mudou de idéia em 1889, ou se seu trabalho de pesquisa histórica se diferenciava dos conteúdos ministrados na Escola Normal; pode-se supor, ainda, que a dúvida do autor em relação aos primórdios do homem se refletisse em textos contraditórios, nos quais sua incerteza com relação a este assunto se tornava evidente. De qualquer forma, a antiguidade do homem americano não significava uma superioridade em relação ao europeu, como se poderia supor uma vez que o tempo e o desenvolvimento eram esferas entrelaçadas; apesar de sua antiguidade, os indígenas são designados em diversos trechos da Epanáphora como “selvagens”. Esta conclusão serviria de base para a crítica que Machado de Castro empreenderia em relação à atuação das elites dirigentes mineiras, não implicando necessariamente em uma tentativa de situar os fenômenos do passado em um 237 CASTRO, 1884, p. 13. 111 cenário mais amplo e complexo. O autor minimizaria o caráter revolucionário do processo de ruptura com a metrópole, destacando a continuidade, por trás da Independência, das estruturas sociais e econômicas herdadas da colônia; esta visão convergia para a sensação de revolução inconclusa. Em muitos pontos, entendia-se que o potencial democrático e revolucionário da independência havia sido diluído pela manutenção da monarquia, permanecendo como promessa incumprida a espera de uma redenção futura. Neste sentido, sua obra tem muitos pontos em comum com este processo de revisão histórica que ocorreu na América Latina desde os fins do Oitocentos. Concentrando-se no caso brasileiro, Rogério Forastieri da Silva informa que no fim do século XIX iniciou-se um processo de revisão da chamada “história oficial”. De forma semelhante ao que ocorreu na América Latina, proliferaram histórias regionais cujo caráter acentuado era o “nativismo”. O autor enumera três importantes características desta expressão historiográfica que podem ser encontradas na obra de Machado de Castro: em primeiro lugar, o nativismo suporia movimentos populares e regionais como precursores da emancipação política e a consciência da relação de dominação entre metrópole e colônia; esta expressão, por vezes, relacionava-se também com um contexto de lusofobia, no qual os problemas da nação se ligam especialmente ao elemento português; neste sentido, não está implicada uma negação específica com a situação de colônia, mas, sobretudo, à disputa de papéis, recompensas e prestígio social que percorre toda a história do Brasil e não apenas o período colonial; os movimentos de revolta tenderiam a surgir de forma linear e acentuada. Por último, o nativismo pôde ainda se relacionar a contextos de uma história das reivindicações populares, isto é, não diz respeito a conflitos entre senhores e escravos necessariamente, mas a setores urbanos que sofreram crises decorrentes do monopólio, do aumento excessivo de impostos etc., “constituindo-se como sintomas de que algo não corre bem”.238 As interpretações nativistas, sejam elas de cunho nacional ou regional, tenderiam a compor uma visão de conjunto dos movimentos políticos que antecedem as emancipações, compreendendo-os como partes de um sistema mais amplo de organização político-econômica: o sistema colonial, caracterizado pelo 238 SILVA, 1997, p. 64-68. 112 monopólio, pela subordinação da colônia à metrópole e pelos impostos, que reservam à última os melhores frutos da exploração colonial. Segundo Rogério Forastieri da Silva o primeiro trabalho que usa o termo “nativismo” é o livro de João Ribeiro publicado em 1900, cujo título é História do Brasil – curso superior.239 Embora não utilize o termo, muitas das características apontadas por Forastieri podem ser percebidas na obra Epanáphora histórica de Minas Gerais. Neste sentido, o fio linear que liga as diferentes províncias brasileiras durante e após o período colonial seriam as lutas empreendidas pelo povo contra o sistema de exploração da metrópole identificada genericamente sob a palavra despotismo. Segundo Eduardo Machado de Castro os exploradores teriam chegado ao Brasil no século XVI com o fito de “conquistar mais terras para a coroa”240 e, assim, iniciaram o processo de povoamento do Novo Mundo – entendido, neste momento, como um movimento de expansão da nação portuguesa para além da Península Ibérica. dessa maneira, o lente se aproxima do conceito clássico de “colônia” para explicar a colonização, isto é, a expansão dos princípios fundamentais da cidadeestado original para outros territórios. Para Machado de Castro a Coroa e os exploradores estavam, neste período, unidos em torno de um projeto comum: A corte portuguesa, ao saber das viagens dos paulistas pelas terras interiores, começou a animá-las por cartas em que também pediam informações sobre a riqueza destas paragens. As cartas régias excitaram os ânimos dos exploradores, tanto que Manoel Pires Lima, por uma delas, trocou a caça dos selvagens pela descoberta das minas.241 Para a realização deste plano, o professor entendia que a ambição de enriquecer aventurosamente – que, segundo ele, era uma das faces do caráter latino – teria sido fundamental. O lente não parece atribuir o descobrimento da América ou das minas de ouro e pedras preciosas aos portugueses, como um todo, mas a uma parcela deles que se caracterizava pelo caráter aventureiro; junto à Coroa, estes indivíduos lançaram-se ao mar e, posteriormente, aos sertões. Para Machado de Castro, os exploradores – ousados, intrépidos e destemidos – eram os antepassados 239 Uma análise profunda sobre a construção histórica de João Ribeiro pode ser encontrada em MELO, 2008, no qual o autor compara a obra de Ribeiro à de Joaquim Manoel de Macedo, Lições de história do Brasil. 240 241 CASTRO, 1884, p. 17 Ibidem, p. 22. 113 dos paulistas que, por sua vez, teriam dado origem aos mineiros. Desta forma, a descoberta e o povoamento da região das minas poderia ser entendida como um desdobramento dos projetos de D. João e do infante D. Henrique. Segundo o lente, “os paulistas, descendentes dos portugueses que invadiram a América, exacerbaram as virtudes hereditárias”.242 Para o autor, os paulistas do século XVII possivelmente já se diferenciavam dos luso-europeus devido à especificidade de sua história.243 As características deste segmento singular são transferidas para compor uma identidade para os primeiros povoadores da região das minas. Não está claro na interpretação do professor como estas virtudes são transmitidas de geração para geração: se através do processo de singularização cultural, eminentemente histórico, ou se através da biologia ou de uma mescla de ambos.244 Machado de Castro informa que, após lutar contra os franceses no Rio de Janeiro, Mem de Sá , em 1560, teria posto em prática a ordem da Rainha D. Catarina, mandando a Piratininga uma expedição em busca de minas; segundo o autor, “as narrações de Brás Cubas, feitas em 5 de abril de1562, dão conta destas aventuras”.245 Iniciava-se, assim, o processo de povoamento da região; os paulistas iam avançando e fundando vilas; a narrativa das expedições destes “intrépidos chefes”246 liga-se intimamente a uma resignificação do território e da natureza indomada dos sertões. Em seu movimento rumo ao interior, os próprios bandeirantes davam nomes a regiões e vilas, relacionando-os às suas experiências. O autor explica as origens do nome da capital mineira que, em seu entender, assim foi chamado devido “à cor escura das rochas e do ouro que delas [das minas da serra 242 CASTRO, 1884, p. 29. Idem, p. 17. A especificidade dos processos de formação entre os portugueses da América e os portugueses da Europa se tornaria muito claro nos debates da Cortes entre 1821-1822, como mostramos anteriormente. István Jancsó sublinha esta situação; segundo o autor, a instauração do estado brasileiro se deu em meio à coexistência, no interior e fora da América portuguesa, de múltiplas identidades políticas, cada qual expressando trajetórias coletivas que se reconheciam como particulares. Os portugueses, tanto os peninsulares como os do Novo Mundo, tinham ciência das profundas diferenças que existiam entre suas experiências, mas se tendiam ainda a se entender como parte de um só todo composto de partes diferentes que compunham um mosaico racionalmente ordenado visando o bem comum, traduzido na grandeza da monarquia tida como expressão da unidade. JANCSÓ, 2000. Machado de Castro, por sua vez, salientaria as diferenças irremediáveis entre os povos brasileiros e os portugueses desde o século XVII, afirmando que ambos tinham interesses irreconciliáveis. 244 PALTI. “Filosofía romántica y ciencias naturales: límites difusos y problemas terminológicos. A propósito de Self-Generation. Biology, Philosophy, and Literature Around 1800, de Helmut Müller-Sievers”. Disponível em <http://foroiberoideas.cervantesvirtual.com/resenias/data/42.pdf>. Acesso em 23/07/2010. 245 CASTRO, Op. Cit., p. 18. 246 Ibidem, p. 24. 243 114 de Ouro Preto] tiravam”.247 Já as regiões atualmente chamadas de “Camargos”, “Antônio Dias” e “Padre Faria”, teriam estes nomes devido ao fato de que “Thomaz Lopes de Camargo, Antônio Dias e o padre João Faria estabeleceram-se nos córregos e morros [...] onde levantaram pequenas ermidas como centro de povoações de faiscadores”.248 Quanto ao “Rio das Mortes”, Machado de Castro informa que “o rio tomou o nome de rio das Mortes pelas encarniçadas lutas que os paulistas sustentaram contra os indígenas do local”.249 Através da narrativa da história de Minas, o passado gradualmente muda de lugar e forma; a natureza, a paisagem e o território se transformam, compondo, ao fim da narrativa, uma forma moderna de estar no mundo. Neste caminho, diversas expedições teriam sido malogradas devido a ataques indígenas, mas continuavam em seu esforço. Aos olhos do professor a exploração do território brasileiro era, inicialmente, um projeto comum entre a Coroa e os “aventureiros”, que não mediram esforços para bem servi-la: O gênio empreendedor e ousado dos povos da capitania de São Vicente deu à coroa portuguesa vários territórios e riquezas fabulosas. Os paulistas Pascoal, Paes d‟Araújo, Antonio Pires de Camargo e Bartolomeu Bueno internaram-se pelos sertões até o rio Tocantins e seus afluentes em 1673. As explorações destes chegaram até os limites do Peru [...].250 Ressaltando as dificuldades encontradas pelos paulistas no percurso, o lente conta que através da exploração dos sertões estes pioneiros enriqueciam o Império. Em seguida, Machado de Castro afirmaria que os paulistas honravam seu pacto com a Coroa – primeira a saber do descobrimento de pequenas quantidades de ouro e pedras preciosas. A partir das descobertas de metais preciosos, os “povos de Portugal e do litoral do Brasil”251 teriam ficado excitados com as descobertas. Segundo o professor, a relação entre a Coroa e os descobridores se tornariam progressivamente delicadas a partir do fim da União Ibérica, ainda em 1640. Necessitando de meios para consolidar-se no poder, El Rei teria passado a enfatizar a cobrança de impostos sobre o ouro descoberto nas minas. As relações entre a 247 CASTRO, 1884, p. 25. Ibidem, p. 25. 249 Ibidem, p. 30. 250 Ibidem, p. 22. 251 Ibidem, p. 19. 248 115 Coroa e os paulistas, antes baseadas numa política de apoio mútuo, se alteravam. A partir deste momento Machado de Castro enfatiza um sentido moderno para o termo “colônia”, que passa a ser entendido como sinônimo de dependência econômica e política da metrópole. Desde então, os interesses entre os portugueses de ambos os lados do Atlântico já não poderiam mais se confundir. Por um lado, o professor acreditava que os colonos esperavam o reconhecimento por seus esforços e o apoio mútuo entre exploradores e monarca; por outro, a Coroa passaria a priorizar a arrecadação de impostos, considerados pelos paulistas como abusivos. Assim começam os conflitos entre o governo metropolitano e os bandeirantes ainda no século XVII: aos olhos do lente, uma vez que os paulistas encontram as sonhadas minas, a Coroa deixa de ser um apoio e passa a usurpar o fruto das conquistas dos paulistas. O primeiro ato neste sentido teria sido o envio de um administrador “arrogante” que teria procurado “obrigar Borba Gato a revelar o segredo do chão aurífero”.252 Segundo Machado de Castro, a Coroa muda sua política e procura se impor através da violência, deixando claro o abismo entre seus interesses e os dos paulistas. A história de Minas é vista como um longo processo de lutas entre os interesses do “povo mineiro” e da “Coroa portuguesa”, simbolizada na figura dos governadores enviados pela monarquia. Embora o último evento narrado através da Epanáphora seja a Revolução de 1842, Machado de Castro deixa implícito que estas lutas continuam no presente. A narrativa é organizada cronologicamente, tendo como fios condutores a sucessão de governadores e as lutas geradas pelo despotismo destes. Segundo a Epanáphora em 1700 o governador Arthur de Sá de Menezes teria criado a primeira legislação para minas visando cobrar o quinto do ouro para o erário régio: Seu objetivo era empobrecer o mineiro e opulentar o erário real e a fidalguia portuguesa. Este sistema produziu desde 1700 até 1713 de tributo para a fazenda real 46:975 oitavas, sendo o ouro retirado das minas 56:655 oitavas! Terrível fisco e sombria vassalagem!253 Aos olhos do lente as riquezas naturais da região teriam sido determinantes 252 253 CASTRO, 1884, p. 23. (Grifos nossos). Ibidem, p. 33. (Grifos nossos). 116 tanto para o povoamento da futura província quanto para a formatação da sociedade que se instalaria ali, contribuindo para a consolidação de um governo violento. O tipo de economia favorecia a ação impetuosa dos governadores devido à grande concentração de riquezas. Além disso, o ouro era tanto que os faiscadores se esqueciam das plantações, de forma que os alimentos se escassearam e tornaram-se caros; por outro lado, os povos do litoral e de Portugal passaram a migrar para esta região “abandonando os trabalhos agrícolas” e procurando “a vida efêmera das indústrias da mineração”.254 A necessidade de braços para a exploração, por sua vez, teria motivado a escravidão africana para a região, e a abundância de ouro possibilitou a compra de escravos em larga escala. Estas circunstâncias teriam conformado a especificidade da região: as crônicas são um rendilhado de assassinatos e roubos que se deram em meio a uma anarquia terrível [...]. Quantas vidas e infortúnios essas ambições não trouxeram à diminuta população da colônia? [...] Como é cheia de lágrimas! Como punge o coração a história da caçada desses filhos da ardente África, em suas florestas livres como os selvagens da terra Americana!255 Machado de castro informa que, inicialmente, os povos de Minas eram compostos principalmente pelos paulistas que iam avançando pelos sertões e fundando vilas e capelas. A descoberta do ouro teria modificado este quadro e gerado desavenças: Duas eram as bases do povo mineiro: os paulistas com todas as energias de seu caráter americano, tendo descoberto as minas julgavam-se os senhores absolutos delas; e os portugueses recém chegados e os colonos do litoral com as arrogâncias de seus direitos de raça pura e nobre sob o influxo do elemento oficial [...]. Para eles vinham todos os postos na hierarquia da administração nascente. Das vexações impostas pelos segundos nasceram dois partidos: o dos emboabas e o dos forasteiros.256 Direitos de raça pura e nobre contrapõem-se ao mérito individual: a Epanáphora. é repleta de termos que explicitam a dicotomia entre o Antigo Regime e um regime democrático moderno, no qual a igualdade de direitos e a justiça prevaleciam. Ainda que o professor afirmasse que o povo mineiro tivesse duas bases, está implícito que, em sua opinião, os paulistas tinham mais direitos às minas 254 CASTRO, 1884, P. 29. Ibidem, p. 32. (Grifos nossos). 256 Ibidem, p. 34. (Grifos nossos). 255 117 que os demais; para o autor, os forasteiros tentavam usurpar os louros dos conquistadores e, a despeito de em nada terem contribuído para aquelas conquistas, contavam com o apoio do elemento oficial, arrematando os principais postos na administração. Aos olhos do lente, esta situação era injusta, era uma vexação. Por outro lado, a ação da Coroa fomentava o desacordo entre estes povos, pois reconhecia antes os direitos de raça pura que o esforço dos paulistas. Surge uma abordagem que, como explicitou Rogério Forastieri Silva, aproxima-se do nativismo: não se nega especificamente a situação de colônia, mas questiona-se a disputa de papéis, de recompensas e de prestígio social. Os movimentos de revolta tenderiam a surgir de forma linear e acentuada.257 Machado de Castro narra, em seguida, o início de uma luta entre os paulistas e os forasteiros que ficou conhecida como Guerra dos Emboabas. Suas conseqüências teriam sido a prisão de Domingos da Silva e Bartolomeu Feijó que, no entender do professor, foram “presos porque eram homens resolutos e capazes de se colocarem à frente dos paulistas”.258 O lente informa que “em uma crônica do século passado” afirma-se que dois frades organizaram “um pequeno exército sob o comando de Bento Amaral Coutinho, homem de costumes depravados, e fizeram o povo nomear por governador Manoel Nunes Viana”.259 O real interesse dos frades, todavia, era “manter seu monopólio de talho de carne verde e outros gêneros” ao qual os paulistas se opunham.260 Machado de Castro afirma que, procurando conciliar os povos, Nunes Viana teria decretado o fim da cobrança de impostos por dez anos; o governador “conquistava a admiração e o amor dos mineiros pela afabilidade e cuidado que desenvolvia na administração”.261 Dessa forma, os interesses dos portugueses e dos paulistas passavam a se harmonizar relativamente enquanto interesses de um povo. Esta situação, contudo, teria sido rompida pela Coroa, deixando claro que a relação vertical entre governo e súditos se definia como a exploração dos segundos pela monarquia. Assim, a Coroa teria enviado tropas para instituir um novo governador, que “trouxe ordens de El Rei para sufocar energicamente a revolução nas minas”.262 257 SILVA, 1997. 258 CASTRO, 1884, p. 36. (Grifos nossos). Ibidem, p. 36-37. 260 Ibidem, p. 37. 261 Ibidem, p. 39. 262 Ibidem, p. 36. 259 118 Para Machado de Castro, a Coroa sempre vencia os confrontos, pois, além de possuir mais recursos, habilmente preparava armadilhas tendo como base a mentira e a traição: Nas crônicas de [Rodrigo] Valério encontramos que D. João V, desejando conhecer um homem tal como Manoel Nunes Viana, que da classe vulgar elevou-se ao ponto de governador, foi com este pretexto preso à traição e conduzido à prisão da Bahia onde morreu de miséria à espera de ser enviado a Lisboa.263 Assim, a Coroa sufocava habilmente a rebelião. Os paulistas, derrotados e expulsos do Rio das Mortes, teriam se recolhido para São Paulo, onde foram mal recebidos por seus familiares: “segundo o historiador Rocha Pitta, foram recusados em seus próprios lares, [onde só seriam recebidos] depois de uma vingança digna da vergonha que sofreram”.264 Porém, acabaram perdendo as lutas. Para o autor, devido a estes fatos o governador das Minas e São Paulo pôde estabelecer o aparato da administração régia na região, criando vilas, comarcas e tomando medidas que pudessem aumentar as arrecadações para a Coroa. Algumas destas providências teriam sido a expulsão dos frades e a proibição da construção de engenhos de açúcar e outras indústrias agrícolas. A partir deste momento as relações entre os mineiros e os governadores teriam se tornado irremediavelmente delicadas e belicosas, caracterizando-se por embates, lutas, ódios, vexações e sempre reprimidas com violência: “com as vexações que sofriam os povos de Pitangui levantaram o pendor da revolta, recusando-se a pagar os excessivos impostos que El Rei, por contínuos alvarás, extorquia o povo mineiro”.265 Diante de tal levante o administrador real “tirou uma inquisitorial devassa, mandando enforcar em efígie a Domingos do Prado como chefe do movimento sedicioso”.266 Segundo o professor, o povo sofria com os desmandos governamentais: O povo mineiro, no meio de contínuas vexações do fisco que lhe roubara o ouro, fruto de custoso trabalho, mergulhado em profunda tristeza, achava como único asilo para seus espíritos sobressaltados a Igreja; por isso o erguer templos majestosos às centenas se tornou o seu único aspirar.267 263 CASTRO, 1884, p. 40. Ibidem, p. 40. 265 Ibidem, p. 44. 266 Ibidem, p. 44. 267 Ibidem, p. 45. (Grifos nossos). 264 119 A ação da Coroa é entendida por Machado de Castro como uma usurpação, um verdadeiro roubo. As medidas tomadas pelos governadores teriam impedido o desenvolvimento da região; impedidos de fundar engenhos e indústrias, impossibilitados de solidificar a economia local, só restava aos mineiros construir templos. Por outro lado, o autor lembra que, desde aqueles tempos, as câmaras locais lutavam contra os governadores; as câmaras eram identificadas, assim, com os interesses locais; todavia, como ele informa, não tinham força o suficiente para fazer frente ao governo metropolitano: As câmaras das vilas foram naqueles tempos de tristezas baluartes fortes das poucas regalias populares, lutando energicamente contra a infrene exorbitação das severas leis do fisco e contra os bandos dos governadores que, ao som rouquenho das caixas de guerra, anunciavam sempre novas imposições ao povo imensamente tributado.268 Segundo a Epanáphora, a chegada do Conde de Assumar a Ouro Preto, em 1717, “encheu de profundos desgostos os povos de Minas”.269 As ações do Conde são entendidas como arbitrárias, rigorosas e mesmo irracionais. Machado de Castro mostra-se desesperançoso com este modo de governo: [O Conde] ordenou que os moradores de Vila Rica aboletassem em suas casas os soldados de bigodes da companhia enquanto as câmaras não enviassem os fundos necessários para a construção de um quartel. A história dessas imposições do Conde em casas de família é por demais cheia de crimes e de ataques à santidade do lar, porém nada nos deve causar admiração, desde que sabemos que ocupava o trono português D. João V, rei beato e sensual como Luiz XV em seu palácio Parc-aux-Cerfs.270 As críticas do lente passam, então, a ser dirigidas à própria monarquia como forma de governo. A concentração de poder nas mãos de um monarca acabava por proporcionar uma situação na qual as políticas obedeciam principalmente aos caprichos e interesses pessoais do rei e dos governadores em detrimento das necessidades do povo. Continuando sua narrativa, Machado de Castro informa que, em 1720, Assumar teria convocado as principais pessoas da comarca para discutir sobre o novo sistema de impostos e a construção das casas de fundição; todavia, o debate 268 CASTRO, 1884, p. 45. Ibidem, p. 45. 270 Ibidem, p. 46. (Grifos nossos). 269 120 teria se dado “sob o peso de feras ameaças”.271 Diante disso a junta teria ameaçado o governador português e iniciado uma sedição. Segundo o professor, o Conde teria fingido acatar as demandas das câmaras para acalmar os ânimos: “convinha dissimular para melhor aniquilar os chefes da sedição, assim referem os analistas. Amedrontados os homens do governo, tudo cederam aos populares!”.272 Dias depois, “o Conde mandou fazer uma devassa sob o maior sigilo possível”.273 Machado de Castro descreve o resultado deste desentendimento: A lei, em sua linguagem bárbara, dizia „que se ainda alguém estivesse minerando nesses terrenos, devia sair rapidamente, porque primeiro que tudo estavam os interesses de El Rei, nosso Senhor‟. O regimento formulado pelo governador foi obra prima de requintado despotismo, pois tinha por base a captação, imposto máxime odiado pelos mineiros e, para mais vexar os povos daquela circunscrição, El Rei julgou-o brando e ineficaz.274 O resultado da ação do governador teria sido a criação do monopólio da extração dos diamantes “sob as mais severas e bárbaras ordenações”.275 A história deste governo é descrita pelo lente como arbitrária, abusiva e imoral; D. Lourenço teria proibido aos pardos e seus descendentes servir em cargos públicos. Além disso, teria sido descoberta uma falsa casa de fundição, cujo sócio era parente próximo a D. João V; no entanto, “a culpa recaiu somente em alguns ourives que foram barbaramente castigados como únicos criminosos”;276 Machado de Castro sugeria, assim, que a política da “proteção”, denunciada pelos jornais mineiros autointitulados como imparciais no último quartel do Oitocentos, era uma prática antiga do governo português que permanecia no presente. Segundo o professor, os governos seguintes teriam somente aprofundando um sistema despótico próprio ao regime, cujo maior interesse era enriquecer a Coroa. Sobre as medidas vexatórias do governo do Conde de Galveas, Castro ressaltava que Como prova eloqüente do despotismo do conde de Galveas transcrevemos o tópico de um dos seus bandos, em que dizia: “que o escravo que denunciasse o seu senhor e por virtude da 271 CASTRO, 1884, p. 46. Ibidem, p. 47. (Grifos nossos). 273 Ibidem, p. 47. 274 Ibidem, p. 53. (Grifos nossos). 275 Ibidem, p. 54. (Grifos nossos). 276 Ibidem, p. 54. (Grifos nossos). 272 121 denúncia tivesse ele seus bens confiscados, teria ele a terça parte e a carta de alforria em nome de sua majestade”!! É o requinte do sistema inquisitorial! [...] Pela barbaridade sangrenta que desenvolveu no governo de Minas foi nomeado pela corte vicerei do Brasil.277 Machado de Castro estava consciente de que os acontecimentos que ocorriam em Portugal se faziam sentir no Brasil, geralmente para piorar as coisas. O terremoto de Lisboa, por exemplo, teria gerado um aumento ainda maior de impostos. Por outro lado a ascensão de Pombal teria trazido mudanças positivas, mas sem continuidade: [Pombal] mandava preferir para os empregos públicos os portugueses que casassem com índias e seus descendentes, proibindo igualmente que qualquer indivíduo chamasse a outro por desprezo – caboclo.278 Aos olhos do lente, estas ordens eram interpretadas como tentativas de valorizar os mineiros; todavia, elas teriam sido interrompidas por D. José Luiz de Menezes, o Conde de Valadares, caracterizado por seu caráter belicoso. As lutas levadas a cabo por este governador foram entendidas pelo professor como estéreis, e suas vitórias como “casualidades” ou “fatalidades”: O governador triunfante e cheio de glórias militares, dizem as crônicas, recolheu-se à Vila Rica tendo gasto quase dois anos nessas lutas estéreis. Ao belicoso governador D. Rodrigo sucedeu Luiz da Cunha de Menezes, governador orgulhoso, que não consentia a menor observação a seus bandos feitos ditatorialmente. Afirmam várias crônicas que ele protegia escandalosamente a João Carneiro da Silva, que de concerto com João Rodrigues exercia o comércio do contrabando. [...] Tolo e fútil, foi este governador ridicularizado nas Cartas Chilenas com o nome de Fanfarrão Minésio. Denunciaram-lhe os promotores uma grande revolução, que estava por momentos de arrebentar, porém, ocupado em seus escândalos, não prestou atenção.279 De modo geral, as elites políticas portuguesas eram descritas desta maneira: incapazes, tolas e fúteis. Para o autor, todas as sedições coloniais tinham caráter regional e se deviam principalmente às medidas dos governadores, consideradas abusivas, violentas e despóticas, visando somente interesses metropolitanos ou 277 CASTRO, 1884, p. 55. (Grifos nossos). Ibidem, p. 59. 279 Ibidem, p. 64. (Grifos nossos). 278 122 questões pessoais. A única exceção é a Inconfidência Mineira. Machado de Castro sugere que, a partir do fim do século XVIII, as críticas passam a se concentrar no próprio regime monárquico enquanto instituição. Segundo o lente, a Conjuração estava relacionada a um movimento amplo de desenvolvimento moral e social que vinha ocorrendo no ocidente: A emancipação dos Estados Unidos da mãe pátria e as idéias que desde o século passado os iniciadores do espírito de reforma espalharam no Velho Mundo, abrindo-lhe novos e vastos horizontes, tiveram também a sua repercussão sobre a colônia brasileira por via da maçonaria.280 Machado de Castro informa que a história teria se desdobrado quando Tiradentes viajou para o Rio de Janeiro “desiludido com a carreira que abraçara” e econtrou o Dr. Maciel, que “chegara da Europa no verdor dos anos”:281 nasceu a idéia da emancipação política da capitania de Minas, talvez do Brasil inteiro. Em Vila Rica ambos continuavam em seus pensares patrióticos aliciando companheiros para tal cometimento. Treze foram os iniciadores do movimento no espírito do povo, porém só coube a glória de morrer por essa idéia a Joaquim José da Silva Xavier.282 Ao contrário das sedições anteriores, a Inconfidência teria sido um movimento que estava em consonância com idéias oriundas de um espírito de reforma mais amplo que surgia na Europa e nos Estados Unidos; esta reforma se baseava também na insatisfação dos povos e seu contexto era muito semelhante ao que se desenhava nas Minas. A ação dos inconfidentes é compreendida como patriótica, pois almejava a libertação da região, talvez mesmo no Brasil inteiro, do julgo que a oprimia; neste sentido, o sacrifício de Tiradentes era entendido como um símbolo profundo da glória do passado mineiro. Todavia, Machado de Castro informa que, mais uma vez, a Coroa sufocaria violentamente o movimento: “o Visconde de Barbacena desenvolveu sobre as vítimas uma bárbara e feroz perseguição e, assim, os sonhadores da independência da Pátria foram severamente castigados”.283 Finda a Conjuração, o novo governador, Bernardo José de Lorena, teria dado continuidade ao que o lente 280 CASTRO, 1884, p. 65. (Grifos nossos). Ibidem, p. 64. 282 Ibidem, p. 65. (Grifos nossos). 283 Ibidem, p. 64-65. (Grifos nossos). 281 123 entendia como despotismo: Transferido de São Paulo para Minas, trouxe consigo duas paulistas como amantes que encheram o palácio de escândalos e intrigas. Essas duas mulheres eram as diretoras da vontade do governador. Homem incontinente que enchia de terror as famílias honestas, pois referem as crônicas que muitas retiraram-se da Vila temerosas do desregramento dos costumes de tal governador.284 Assim, Lorena teria sido mais um representante do governo arbitrário. Segundo o lente da Escola Normal o governador teria tramado na Corte a ruína de um intendente “somente porque este contrariava-lhe a vontade”.285 Além disso, nesta época teria vindo a Minas o Dr. José Vieira Couto, “médico e naturalista ilustre” que visava estudar as jazidas diamantinas; embora tivesse uma carta régia, o governador o teria expulsado da região, impossibilitando o desenvolvimento das ciências. A chegada da Corte no Rio de Janeiro, em 1808, e suas implicações são também objeto de atenção de Machado de Castro: “durante o governo de Pedro Xavier de Ataíde Melo, D. João VI veio para o Brasil fugindo das tropas de Junot; por este fato o governador fez brilhantes festas em Vila Rica”.286 Esta interpretação da transferência da Corte como uma fuga se difere da visão publicada no jornal O Patriota, de 1813. Segundo Manoel salgado Guimarães, Domingos Borges de Barros teria entendido o fato como uma odisséia moderna; os feitos da monarquia bragantina são lidos através da chave do elogio, que faz da partida de Portugal um ato grandioso, um prenúncio de um novo império a ser erguido em terras americanas preservadas da devastação napoleônicas; muito distante da imagem de um monarca obrigado a deixar a capital do Império.287 Esta abordagem era bastante difundida pelos autores ligados ao IHGB, e diferencia-se de forma significativa da versão de Machado de Castro. Para o último, a chegada da Corte é um momento de certo desenvolvimento, pois o monarca “ordenou aos governadores e capitães generais que trabalhassem ativamente com 284 285 286 287 CASTRO, 1884, p. 66. (Grifos nossos). Ibidem, p. 66. (Grifos nossos). Ibidem, p. 66. (Grifos nossos). GUIMARÃES, 2006, P. 76. 124 aberturas de estradas, animando a agricultura e as indústrias”. 288 Em outro trecho da Epanáphora, o lente parece sugerir que na primeira metade do século XIX havia certa distância cronológica entre a Península Ibérica e as demais nações européias: As idéias de monarquia temperada abalaram o mundo europeu depois de 1815 pelos escritos ecléticos de que era sumo pontífice Royer-Collard. A Espanha tarde sentiu a repercussão dessa nova ordem de coisas, bem como o velho Portugal. Os clubs da cidade do Porto espalharam aquelas idéias por todo o reino e colônias.289 Todavia, através de um exame de História aplicado pelo professor em 1885 na Escola Normal, podemos perceber que estas expectativas positivas foram frustradas. Ao narrar a Revolução Pernambucana de 1817, Machado de Castro salientaria que as cortes portuguesas procuravam manter o monopólio e a exploração da colônia, mesmo depois de 1808. D. João VI, ainda afinado com os princípios do Antigo Regime, teria mandado sufocar violentamente a revolução: Alguns patriotas pernambucanos sonharam com a independência da pátria se D. João 6º não voltasse para Portugal. As lutas que necessariamente haviam entre os brasileiros e os portugueses aumentavam de dia para dia. O Padre Roma, Alencar, Ricardo Lima, cognomissado Leão Coroado, e outros, agitaram o povo de tal forma que o governador foi expulso e instituíram um governo provisório, proclamando-se a República. D. João 6º, sabendo dessa revolução, mandou que contra os insurgentes fosse empregada grande energia. Sufocada que foi essa revolução, um tribunal militar foi instalado no Recife, tão desumano que em poucos dias mandou fuzilar 36 dos principais conjurados. A causa dessa revolução é a mais nobre que relembra a História, porque os patriotas pernambucanos temiam que as cortes, obrigando D. João 6º a voltar para Portugal, quisessem recolonizar o Brasil, tornando seus filhos ao antigo estado de escravos.290 Assim, o lente entendia que as lutas entre os povos do Brasil contra os portugueses e a monarquia não eram uma especificidade de Minas: elas vinham acontecendo em vasta porção do território brasileiro. Segundo ele, em fevereiro de 1821 a Bahia se movia no sentido de adotar a constituição que fizessem as Cortes em Portugal; a capitania de Minas teria sido a segunda a se mobilizar. O autor 288 CASTRO, 1884, p. 66. Ibidem, p. 67-68. (Grifos nossos). 290 Exame de História. Escola Normal de Ouro Preto, 1885. IP 1/3, caixa 20, pasta 16. Arquivo Público Mineiro. (Grifos nossos). 289 125 informa que “o rei mostrou-se magoado com este novo modo de pensar dos povos do mundo, que ia abalando a mentalidade dos populares sujeitos a seu governo”.291 A notícia da retirada de D. João VI para Portugal “foi tristemente recebida pelos povos da capitania”.292 Aos olhos de Machado de Castro, o período compreendido entre 1820 e 1822, caracterizado pela definição dos deputados provinciais que defenderiam os interesses regionais/nacionais nas Cortes portuguesas, teriam gerado uma nova série de conflitos devido à multiplicidade de interesses em jogo. O lente informa que o governador de Minas, “profundamente absolutista, tudo fazia para retardar os trabalhos das comissões das câmaras e comarcas com o fim de embaraçar a marcha dos acontecimentos, desobedecendo as ordens de Pedro I”.293 Diante disso, os juízes de fora da vila e demais autoridades teriam convidado os “povos” para eleger os deputados que representariam a província nas Cortes de Lisboa: Este foi o primeiro ato de constitucionalismo no Brasil [...]. Nem uma nódoa de sangue manchou a nave dos nossos primitivos templos, verdadeiras catacumbas dos novos cristãos da moderna vida política, filha genuína das doutrinas do Contrato Social do filósofo de Genebra!294 Segundo o professor, por um lado, os brasileiros procuravam fundar uma monarquia constitucional, romper com o Antigo Regime e instaurar uma nação moderna. Por outro, o governador de Minas e a Igreja procuravam tornar esta transição morosa: “o bispo de Mariana e seu clero eram aferrados ao absolutismo”; o governador, “fidalgo pertinaz e enérgico”, evitava reconhecer os deputados eleitos, mas, temendo a sanha popular, teria convidado as autoridades para em junta elegerem o governo provisório.295 Porém, ressalta o autor, “esta era composta de pessoas absolutistas [...]. Triste época, sombria escravidão!”.296 Em nosso entender, Machado de Castro sugere que este contexto é próprio a esta triste época, isto é, ao passado. A escravidão a que ele se refere é relacionada ao povo, de modo geral, privado de sua liberdade. Em outro trecho da Epanáphora, o lente caracteriza aquele contexto em que entendia estar em jogo os interesses de 291 CASTRO, 1884, p. 68. (Grifos nossos). Ibidem, p. 68. 293 Ibidem, p. 68-69. 292 294 Ibidem, p. 69. (Grifos nossos). Ibidem, p. 70. (Grifos nossos). 296 Ibidem, p. 71. (Grifos nossos) 295 126 múltiplos personagens e facções, como D. João VI, as Cortes portuguesas, D. Pedro I, o governador da província e as câmaras locais, identificadas com os interesses do povo: Em meio à infrene compressão foram eleitos deputados eleitos pelo governador para formar o primeiro governo provisório! [...] Enquanto isso, a população percorria as ruas parodiando o hino constitucional. Um terrorismo incrível pesava sobre Vila Rica, onde os eleitores estavam sob ameaças [...]. As Cortes portuguesas eram hostis aos interesses do Brasil, querendo recolonizá-lo. Tristeza profunda envolvia a alma nacional diante de tanta protérvia.297 A Independência do Brasil teria se dado, portanto, em meio à disputa entre diversos interesses que se chocavam; ainda após este evento, acontecido após a decisão do príncipe de permanecer no Brasil, Machado de Castro afirma que o governador mineiro teria se mantido fiel ao projeto de recolonização da nação, isto é, às Cortes lusas, colocando-se contra o desejo dos populares. Assim, o governador teria nas trevas tramado uma revolução [...] que não tinha cor definida: era paga e sustentada pelos portugueses que queriam unir Minas a Portugal. A República era ostensiva, apenas para o engodo dos populares [...]. O príncipe, julgando que com sua presença apagaria a rebelião resolveu partir para Minas [...]. A sua entrada em Minas foi um triunfo [...]. Os ânimos em várias províncias exacerbaram-se de indignação ao saber que em Lisboa preparavam-se tropas e esquadra para invadir o Brasil; esta notícia converteu o Brasil em um só povo unido pela independência da pátria; as mães alistavam seus filhos, as esposas os maridos e até os próprios velhos, trêmulos pelo correr dos ânimos, tomaram as armas querendo sacrificar-se sob o altar pátrio!298 A chegada triunfal do monarca à província indicava que, a seus olhos, o povo de modo geral decididamente apoiava a Independência, entendida como um movimento também de origem popular. As expectativas a respeito de um governo constitucional eram grandes. O lente informava que a Constituinte foi instalada em 1823 “no meio de vivas e alegrias de todas as províncias [...]. O coração dos patriotas plenaram-se de entusiasmos diante da definitiva consolidação da independência da pátria”.299 297 CASTRO, 1884, p. 71. (Grifos nossos) Ibidem, p. 74. (Grifos nossos). 299 Ibidem, p. 77. (Grifos nossos). 298 127 Porém, a despeito das esperanças que este evento havia gerado, o professor afirma que rapidamente o povo mostrou-se desiludido com as medidas comedidas empreendidas por D. Pedro I, que não rompiam substancialmente com a ordem anterior. A Independência, desta forma, não é entendida como a construção de uma nova Era para a nação brasileira. Segundo Machado de Castro, o gabinete organizado pelo monarca “desagradou aos liberais por sua política”.300 A partir de então, o lente informa que cada vez mais o povo teria passado a desconfiar dos interesses do monarca, de modo que a assembléia mineira e a imprensa procuravam embaraçar o governo. Para o autor, a dissolução da Constituinte e a outorga da Constituição teriam sido provas das reais intenções de D. Pedro I. Colocando-se, mais uma vez, contra os interesses do povo, a Coroa receberia rapidamente uma resposta da província mineira: Minas revolucionou-se indignada em alguns dos seus pontos por influência da imprensa, afiando mesmo suas espadas nos rochedos da serra central e assim em outras províncias! [...] O país inteiro, por meio da sua imprensa e dos clubs preparava-se para uma grande revolução [...]. O partido republicano ousadamente exalta a sua bandeira do federalismo como única medida capaz de deter o despotismo do tempo!301 Machado de Castro atribui à imprensa e ao conselho provincial ações fundamentais no sentido de lutar pelos interesses populares. Segundo o mestre “o governo de D. Pedro era dirigido por uma camarilha secreta de vistas sinistras à liberdade do Brasil”.302 Porém, “a imprensa na província de Minas pregava as idéias da federação produzindo um movimento crescente na opinião pública contra a política imperial”.303 Para Machado de Castro, o “centro propulsor de seu exaltamento político era o conselho provincial”,304 mas a imprensa teria tido um papel importante ao lutar pelos direitos da população, disseminando idéias e chamando o povo à ação: A imprensa em Minas sempre conservou-se na altura de sua missão quando as demais do império nada faziam que transmitir ao público falsidades e calúnias [...]. [Em 1825] instalou-se o conselho provincial, com que tanto se desenvolveu o espírito público. O descontentamento crescia no povo brasileiro contra 300 CASTRO, 1884, p. 77. Ibidem, p. 79. (Grifos nossos). 302 Ibidem, p. 81. 303 Ibidem, p. 81. 304 Ibidem, p. 81. 301 128 D. Pedro I pela marcha tortuosa que o gabinete imperial dava aos negócios públicos; tanto que pelos ataques que fazia o Dr. Badaró no periódico intitulado O Observador à política imperial foi barbaramente assassinado! A morte do infeliz publicista abalou dolorosamente o espírito nacional. [...] A imprensa mineira pregava o banimento do imperador como inimigo das instituições juradas; pois nomeava o governo imperial presidentes com instruções secretas; governadores de armas que professavam princípios retrógrados com o fim sinistro de exercer compressão sobre o povo.305 Apesar de ter conquistado a liberdade em relação à metrópole, a monarquia continuava a professar princípios retrógrados próprios ao Antigo Regime. Para o lente da Escola Normal, a imprensa teria sido fundamental no sentido de desenvolver um espírito público nacional em um momento em que não mais se poderiam confundir os negócios públicos com os interesses particulares da monarquia. O autor trabalhava, portanto, com um conceito moderno de nação ao qual a Coroa, em seu entender, procurava se opor. Segundo o professor, em 1830 o governo imperial tinha se tornado impopular e a província de Minas “tornou-se o foco das hostilidades contra os imperialistas”:306 A imprensa em Minas teve seu começo em 1828, gozando de grande influência sobre o espírito do povo. O governo arbitrário do imperador jamais exacerbou o gênio de dois mineiros ilustres, sem jamais dobrar-lhe as energias de suas vontades!307 Querendo pacificar os ânimos, Machado de Castro informa que o imperador teria feito uma visita à província “sonhando ainda com a brilhante recepção que teve em 1821. Os tempos eram outros!”.308 O monarca teria sido recebido “com profunda tristeza, tocando os sinos nas igrejas para convidar os patriotas aos ofícios fúnebres celebrados por alma do Dr. Badaró!!”.309 A rejeição do povo brasileiro a D. Pedro I teria culminado com sua abdicação. Segundo o autor, a renúncia ao trono teria deixado o país dividido: Uns queriam tirar as últimas conseqüências da revolução; outros esforçavam-se por guiar o país pelos caminhos seguros da prudência e da moderação; à frente destes estava Evaristo da Veiga com a Aurora fluminense, que valia bem um exército! Os 305 CASTRO, 1884, p. 82. Ibidem, p. 82. (Grifos nossos). 307 Ibidem, p. 83. (Grifos nossos). 308 Ibidem, p. 83. 309 Ibidem, p. 84. 306 129 exaltados revolucionaram Minas pela tribuna e pela imprensa; porém, o Barão de Pontal amordaçou a imprensa republicana em nome das idéias do partido moderado.310 Machado de Castro deu atenção especial à imprensa na formação do Brasil imperial; ela era entendida como um veículo através do qual a população poderia dar voz às suas demandas e incentivar os leitores à ação conjunta. O período regencial, por sua vez, é dividido pelo professor em duas partes: a primeira, entre 1833 e 1837, teria sido influenciada pelas idéias liberais; a segunda, entre 1837 e 1840, teria sido “influenciada por Bernardo Pereira de Vasconcelos com a política do justo meio, criando o partido conservador porque via ameaçada a integridade do império e o desprestígio da autoridade”.311 Todavia, “o partido restaurador revolucionava o país secretamente”.312 Segundo o lente, A câmara estava dividida em várias parcialidades; uns queriam reformas completas; outros não queriam reformas e finalmente os últimos as queriam tão completas que convertessem a monarquia num simples simulacro. A província de Minas recrudescia com sua imprensa independente, embora o governo empregasse forças para abafá-la [...]. O projeto de reformas apresentado à câmara foi uma grandiosa obra que imortalizou seus autores: pois concretizava as idéias capitais dominantes na opinião pública.313 Para Machado de Castro, estas idéias capitais consistiam em “converter o Brasil em uma monarquia federativa com três poderes somente: o legislativo, o executivo e o judiciário; assim, ficavam suprimidos o poder moderador e o conselho de estado”.314 O Ato adicional teria sido uma medida de descentralização mais administrativa que política. Aos olhos do professor, inicialmente, o Partido Conservador havia sido criado com a intenção de manter a integridade do Império; todavia, uma vez no poder, seus membros teriam passado a adotar princípios retrógrados. Segundo o lente, Diogo de Vasconcelos “desfraldou a bandeira do regresso, chamando para rodearem-na os absolutistas e os liberais descontentes. Esta nova política era a negação dos princípios consagrados no Ato Adicional”.315 Estas teriam sido as razões que motivaram a Revolução de 1842 em São 310 CASTRO, 1884, p. 85. (Grifos nossos). Ibidem, p. 85. 312 Ibidem, p.87. 313 Ibidem, p. 88-89. (Grifos nossos). 314 Ibidem, p. 88. 315 Ibidem, p. 89. 311 130 Paulo e em Minas. A monarquia votaria à cena através da maioridade de D. Pedro II, enquanto o Partido Conservador “dirigia os destinos do país”. Diante da ameaça do retorno do que entendiam como “absolutismo” as províncias de São Paulo e Minas, segundo o lente, se “revolucionam” em 1842: As imprensas de Minas e de São Paulo hostilizavam fortemente o ministério convidando todos para as armas! [...] Os chefes paulistas logo depois do primeiro revés procuraram meios de depor armas, enquanto os chefes mineiros, pelo contrário, confiando na bravura de seus soldados atiraram-se à luta com esperanças de vitória [...] chamando às armas até as crianças de 14 anos de idade. Ouro Preto era uma praça de armas. A dor, a tristeza e o luto envolviam a alma da heróica província de Minas porque via o facho da guerra civil destruir muitos de seus filhos, gloriosas esperanças de futuro.316 O professor atribui a derrota nas lutas de Santa Luzia à covardia do Presidente José Feliciano, que se retirou do combate: “os rebeldes perderam a batalha porque não tiveram chefe!”.317 A derrota é descrita com tristeza: O general em chefe prendeu todos os agitadores da revolução para, com eles acorrentados, cobertos de andrajos e feridos, ornar sua entrada triunfal em Ouro Preto. [...] Foi como a entrada dos triunfadores em Roma, disse um legalista ainda vivo. Os chefes da revolução, carregados de correntes, banhados em lágrimas, tendo as carnes mal ocultas nos andrajos, entraram no meio de flores, de hinos, fogos e música, quando tinham ainda viva no fundo da alma a imagem da pátria, por quem caíram. Foram estes José Feliciano, Galvão, Alvarenga, João Gualberto, Teófilo Ottoni, José Pedro, Joaquim Antão, Mello Franco, Tristão Andrade e outros. Gemeram na cadeia de Ouro Preto até ascensão do gabinete Liberal.318 A atitude dos vencedores – a Coroa e o Partido Conservador – ao expor humilhantemente os vencidos, em seu entender, denunciava a continuidade de princípios arcaicos e anacrônicos no Segundo Reinado. A exposição dos prisioneiros poderia ser relacionada às violências sofridas por Felipe dos Santos e Tiradentes que, assim como os revoltosos de 1842, teriam sido despoticamente reprimidos por lutar pela liberdade; para o lente, a intenção desta exposição dos revolucionários cobertos de andrajos era servir de exemplo para que as províncias não tentassem empreender novas rebeliões. As bases sobre as quais se solidificou o 316 CASTRO, 1884, p. 93-94. (Grifos nossos). Ibidem, p. 94. 318 Ibidem, p. 94-95. (Grifos nossos). 317 131 Segundo Reinado é entendida, assim, como uma imposição violenta que se fez a despeito dos desejos do povo. Machado de Castro invertia a oposição construída no IHGB entre o despotismo do Primeiro Reinado, o caos da Regência e a estabilidade do Segundo Reinado. A Revolução de 1842 é o último evento narrado pelo professor na Epanáphora histórica de Minas Geraes. A anistia dos rebeldes em 1844 é vista com simpatia pelo autor e, segundo ele, pelo povo da província: “no dia em que as portas do cárcere foram abertas aos heróicos mineiros houve esplêndidas festas em Ouro preto”.319 As províncias de São Paulo e Minas teriam se aquietado; porém, “a heróica província do Rio Grande do Sul continuava revolucionada desde 1835”.320 Pode-se verificar, desta forma, que a interpretação histórica composta por Eduardo Machado de Castro se distancia bastante da abordagem empreendida por autores ligados ao IHGB. Em nosso entender, tal ruptura se dá em dois sentidos: primeiramente, através da ênfase interpretativa, que ressaltava os conflitos entre os interesses da monarquia e do povo, privilegiando-se uma versão em que se salientava o despotismo da Coroa; em segundo lugar, através da importância atribuída às histórias regionais na composição da identidade nacional. A historiografia relacionada ao IHGB, de modo geral, tendia a atribuir à colonização portuguesa caráter fortemente positivo no sentido de disseminar a civilização pelo Novo Mundo. Os conflitos entre os interesses locais e o centro eram muitas vezes relegados ao esquecimento ou tinham sua dimensão matizada, salientando-se a conciliação. Inversamente, a abordagem de Eduardo Machado de Castro enfatizava definitivamente a agitação, a desordem, a violência e o conflito intrínsecos ao processo de constituição da nação, criticando duramente a administração portuguesa na Colônia e no Império. Não há dúvidas de que, nesta operação, o lente eleva o povo, de modo geral, ao posto de principal personagem da história, elemento insubstituível no processo de descoberta e povoamento da região e, certamente, segmento central enquanto construtor de uma cultura específica que, embora regional, não deixa de ser também nacional. Em sua narrativa, o processo histórico de Minas Gerais caminha de forma integrada a uma marcha do povo rumo à constituição da nação moderna, situada como uma organização social superior ao Antigo Regime. Esta linearidade se 319 320 CASTRO, 1884, p. 94. Ibidem, p. 95 132 conecta a uma perspectiva em que o tempo é entendido como um processo de desenvolvimento das sociedades rumo à modernidade, compreendida, de forma geral, como a descentralização política, a democracia, a cidadania, o sentimento de comunidade, a igualdade, a justiça, o mérito individual ou coletivo, o direito garantido por lei, o desenvolvimento científico etc. Em um pólo oposto à imagem da nação moderna, cronologicamente ajustada ao tempo europeu, Machado de Castro situa a figura do Antigo Regime, caracterizado pelo arcaísmo, despotismo, violência arbitrariedade, imposição, interesse pessoal, protecionismo, incapacidade governativa, ausência de ilustração, usurpação, imoralidade etc. Enfatizando os movimentos consecutivos de sedição que ocorreram em nível regional durante a Colônia e mesmo o Império, o professor parecia vislumbrar o passado como um movimento linear e contínuo de conflitos em que um povo oprimido lutava por se libertar das amarras do Antigo Regime e marchar rumo ao caminho natural de desenvolvimento empreendido pelas sociedades através do tempo. Por outro lado, os governantes e a monarquia tenderam a ser entendidos como elementos retrógrados, que caminhavam numa espécie de contramarcha da história e do progresso, procurando manter seus privilégios de forma anacrônica nos séculos XVIII e XIX – momento em que a Europa já adentrava uma nova Era. Além de não incentivar o desenvolvimento da nação, Machado de Castro acreditava que a Coroa tudo tinha feito para impedi-lo, visando manter o monopólio e a exploração da colônia. Em seu julgamento, a monarquia portuguesa era, em grande parte, a responsável pelo sofrimento dos mineiros no passado. As críticas do professor percorrem praticamente todo o período colonial e perpassam o Primeiro e o Segundo reinados; embora sua narração chegue ao fim em 1844, possivelmente o lente poderia estender suas críticas ao presente. Neste sentido, a construção da Epanáphora histórica de Minas Geraes é permeada por uma abordagem que Rogério Forastieri caracterizou como “nativismo”. O autor compreende os movimentos populares regionais como precursores da emancipação política, mostrando-se consciente da relação de dominação entre metrópole e colônia. Neste caso, em nosso entender, esta expressão relacionava-se a um sentimento de lusofobia, no qual os problemas locais se ligam especialmente ao elemento português. Possivelmente, Machado de Castro tendia a identificar Portugal ao Antigo Regime e às demais conseqüências que advinham desta forma de organização social. 133 A disputa de papéis, recompensas e prestígio social percorrem toda a história do Brasil e não apenas o período colonial, incitando movimentos de revolta que tenderiam a surgir de forma linear e acentuada. As sedições dizem respeito a setores sociais que sofreram crises decorrentes do monopólio, do aumento excessivo de impostos e da impossibilidade de constituir uma economia local. O autor comporia uma visão de conjunto dos movimentos políticos que antecedem a Independência, compreendendo-os como partes de um sistema mais amplo de organização políticoeconômica: o sistema colonial, caracterizado pelo monopólio, pela subordinação da colônia à metrópole e pelos impostos, que reservam à última os melhores frutos da exploração colonial. Ao contrário da tradição historiográfica imperial que, independentemente das amplas discussões sobre como incorporar as histórias regionais, tendeu a enfatizar a escrita de uma História Geral, Machado de Castro centrou-se especialmente na história de Minas Gerais. Comparando os grandes feitos dos mineiros às ações de outras províncias, ressaltando o pioneirismo da imprensa provincial, a atitude impetuosa dos desbravadores e o caráter democrático inerente ao caráter dos mineiros, o autor não deixa de estar legitimando e hierarquizando, enfim, destacando a importância de sua região no seio da nação. Esta especificidade regional, em seu entender, havia sido constituída através do processo histórico desde os inícios do povoamento, entrelaçando-se à singularidade do território, à topografia irregular e de difícil acesso, à riqueza do solo, à luta contra os nativos, à relação conflituosa de subordinação à Coroa, etc. A singularidade da história de Minas Gerais dotava os mineiros de uma forma especial de ser brasileiros. 134 Conclusões Uma das principais preocupações deste trabalho foi demonstrar que no último quartel do século XIX uma nova experiência de tempo se consolidou. A partir do desenvolvimento pleno do conceito de evolução foi possível à geração a que pertenciam os lentes da Escola Normal empreender uma descontinuidade plena com as imagens cíclicas do tempo, substituindo-as por uma compreensão cumulativa e linear da história das civilizações. Como demonstra a edição da década de 1870 do dicionário de Moraes, este conceito agregava diversas noções que se complementavam, aumentando as expectativas em relação ao futuro: a evolução consistia numa tendência de desenvolvimento e aperfeiçoamento crescente das sociedades, da natureza e do homem; em termos políticos e sociais, ela era entendida como desenvolvimento progressivo no espírito público de idéias políticas ou sociais, de modo a conseguir seu triunfo sem a violência das revoluções. A partir deste ponto de vista, os professores da Escola Normal conclamavam o povo a lutar pela evolução e pelo progresso da sociedade através da pena, da palavra, da supressão da ignorância e da imprensa. Parafraseando Herder, Machado de Castro dizia: “a guerra é um ofício de bárbaros e jamais legitima uma ação heróica, porque custa uma gota de sangue”.321 A evolução das idéias permitiria a transformação natural da sociedade. Neste contexto interpretativo, a constituição de um espaço público de discussão tornava-se essencial e se atrelava tanto à expansão dos títulos de jornais quanto à ampliação do público leitor. É neste sentido que procuramos compreender as ações e autoconsciência dos lentes; como intelectuais, acreditavam ser sua responsabilidade disseminar tais idéias, opiniões e imagens – e eles o fariam através de diferentes canais de expressão. A escola e a imprensa se tornariam veículos privilegiados na transformação da sociedade segundo nossos personagens; estas concepções surgem até mesmo nas provas de pedagogia: “Houve em cada idade um facho de luz espancando as negras trevas da ignorância. Esse facho é, em nossos dias, a escola primária, com cuja supressão desaparecia também a imprensa – a grande alavanca 321 CASTRO, 1884, p. 96. 135 do progresso”.322 O conceito de evolução reunia, em um só termo, tempo, ação e progresso, dando-lhes um caráter de lei. A evolução implicava o entendimento do presente como o resultado de um processo eminentemente histórico, linear e progressivo; a história natural e a sacra foram historicizadas, inseridas neste amplo processo evolutivo e histórico. Através desta chave de leitura foi possível conectar imagens das sociedades ao tempo, atribuindo a cada época uma especificidade compatível com seu estágio de desenvolvimento. Em última instância, ordenar e classificar a natureza, as sociedades e as nações não deixava de ser uma tentativa de organizar o mundo e lhe atribuir um sentido. Sob o ponto de vista deste segmento o mais avançado destes estágios era, sem dúvida, a nação moderna nos moldes europeus. Procuramos argumentar que, tendo a organização social destes países como parâmetro e a noção de evolução histórica como chave interpretativa, os lentes da Escola Normal construíam uma imagem do Brasil enquanto uma nação desorganizada que, paradoxalmente, continha elementos de diferentes épocas em um mesmo tempo, o presente. Uma vez que a evolução implicava um eterno desenvolvimento, passado e presente eram entendidos como partes de um processo que se concretizaria no futuro – para o qual se reservavam as grandes expectativas dos homens. A continuidade de elementos que caracterizavam a organização social do Antigo Regime no século XIX brasileiro era lida por nossos personagens como a permanência indevida do passado no presente. Estas ambigüidades foram entendidas como um distanciamento cronológico entre Brasil e Europa ao qual era necessário superar. Tendo o Ocidente como horizonte, os lentes da Escola Normal experimentavam o tempo enquanto um instante brevíssimo; a necessidade especialmente moderna de agir, construir, transformar, inovar e superar constituía uma experiência acelerada do tempo. A nossos olhos, a sensação de aceleração foi experimentada de forma peculiar no Brasil devido à idéia, profundamente arraigada, de que esta nação estava atrasada em relação a um processo que já se concretizava na Europa. Neste sentido, a História tornou-se um instrumento fundamental para a “Para ela tem voltado os olhos a família, a sociedade, a pátria. A família esperando corações generosos; a sociedade – membros que nela preencham seu verdadeiro fim; enfim, a Pátria espera da escola homens que a façam erguer altiva a cabeça perante às outras nações, suas irmãs”. Exame de Pedagogia. Escola Normal de Ouro Preto, 1886. IP 3/3, caixa 15, documento 08. 322 136 compreensão e organização do presente brasileiro. Cabia procurar, no passado, os elementos que impossibilitaram que o Brasil tivesse a mesma história que a Europa e, a partir de então, compreender porque estas nações se configuravam de forma tão diferente no presente. O conceito de evolução modificou os usos da História e, consequentemente, a interpretação sobre o passado nacional, possibilitando a ruptura com a tradição historiográfica imperial. Valdei Lopes de Araujo apontou que, embora possuíssem uma série de instrumentos conceituais para lidar com fenômenos históricos, os letrados do IHGB estavam distantes desse entendimento orgânico, acumulativo e progressivo do desenvolvimento das sociedades humanas – tornando a escrita da história uma operação ambígua e complexa. No último quartel do século XIX, todavia, a história finalmente tenderia a se constituir como um processo linear e sem ruptura, a partir do qual juntavam-se passado, presente e futuro. Entendendo o processo histórico como uma tendência do progresso, tratavase de buscar, no passado, indícios deste movimento. Este nos parece ser o sentido da releitura da História do Brasil e de Minas empreendida pelos lentes da Escola Normal através da imprensa, da adoção de novos compêndios de História e da escrita do livro Epanáphora histórica de Minas Geraes. Em sua nova interpretação do processo histórico os professores organizavam a narrativa de modo linear, através da qual sobressaía o paulatino desenvolvimento da sociedade apesar de seus entraves – identificados com o elemento português e a monarquia. Procuramos argumentar que este movimento se expressou de forma clara nos exames da Escola e nos jornais. A evolução do homem era entendida como um desenvolvimento de sua capacidade racional, através do qual ele se distanciava da natureza no sentido de dominá-la. Através do tempo e dos paulatinos progressos que seu transcorrer acarretava, entendia-se que o homem poderia enfim encontrar seu papel de sujeito no mundo, qual seja, o de se tornar a imagem e semelhança de Deus. Constatamos que a defesa da modernidade e a apropriação plena do conceito de evolução não implicaram um processo completo de secularização no Brasil oitocentista. Tanto a ciência, quanto a revelação, puderam ser entendidas como esferas entrelaçadas que tinham a mesma finalidade; diferentemente do que ocorria na Europa, nossos personagens pareciam acreditar que o desenvolvimento da ciência possibilitaria descobrir como seu deu a genealogia do universo e desvendar, 137 ou confirmar, qual o sentido da vida. O otimismo, a ampla expectativa em relação à ciência e à modernidade, a defesa profunda do progresso e o entendimento do futuro como a concretização de um mundo ideal ao qual o homem estava destinado eram idéias caras aos lentes da Escola Normal no último quartel do século XIX. A partir destas bases, sua interpretação da historia do Brasil identificava nos movimentos sediciosos os conflitos que necessariamente existiam no passado colonial e mesmo durante o Império, visto que uma organização social imperfeita gerava naturalmente a desarmonia, as lutas e os sofrimentos. Os conflitos são as pontas visíveis da insatisfação social – da demanda por transformações e por desenvolvimento: em suma, os movimentos sediciosos expressam, para os lentes, um profundo apelo ao progresso desde os tempos coloniais. O novo olhar sobre o passado possibilitava experimentá-lo como o caminhar em uma direção à qual o indivíduo estava destinado; permitia, ainda, visualizar um projeto futuro cujos germens se faziam notar desde os primórdios através dos conflitos, das tentativas de sedição e, principalmente, da Inconfidência Mineira. Este último evento foi interpretado por nossos personagens como uma tentativa madura de transformação social. Esperamos ter demonstrado que a consolidação do conceito de evolução acarretou conseqüências na interpretação da história do Brasil e do mundo no fim do século XIX. A função pedagógica da história, no entanto, é uma das principais continuidades entre a geração a que pertenciam os lentes da Escola Normal e a tradição imperial. Os jornais, os livros de história e os exames da Escola demonstram tal continuidade: Os fatos históricos, os contos, as biografias fornecem um bom meio para o ensino da moral. Porém é preciso que o professor esteja habituado com os fatos históricos, fazendo sobressair a moral desses fatos de um modo material e como que acidentalmente, porque do contrário nunca chegará a um resultado apreciável. É preciso então que o professor faça como o romancista que envolve sua tese com os fatos de um modo mais ou menos enredado.323 A história, neste momento, revela um sentido ou uma tendência, tornando perceptível o desenvolvimento processual do progresso através do encadeamento de eventos conflituosos. Ao mesmo tempo, ao destrinchar estes embates, avaliar 323 Exame de Pedagogia. Escola Normal de Ouro Preto, 1886. IP 1/3, caixa 21. 138 suas razões e visualizar suas causas, os professores julgavam a ação dos homens do passado tendo como parâmetro sua aproximação ou distanciamento em relação às tendências progressistas européias. A manutenção deste elemento da historia magistra vitae implicou na constituição de um novo elenco de heróis nacionais ou regionais, cujas ações serviam de exemplo de virtude e inspiração aos homens no presente. Devido à compreensão do processo histórico enquanto dotado de um sentido, o passado de Minas, repleto de conflitos, pôde tornar-se motivo de orgulho e glória, constituindo uma identidade profundamente positiva; esta leitura de seu passado possibilitou a composição de uma nova auto-imagem do mineiro e da província diante das demais regiões do Brasil. Minas Gerais tornava-se, assim, o “berço da liberdade”; a Inconfidência passava a ser vista como a tentativa frustrada do progresso, cabendo ao presente retomar este projeto; por fim, Tiradentes tornarse-ia o principal herói nacional. 139 Referências bibliográficas Fontes manuscritas - Atas das sessões da Congregação da escola Normal de Ouro Preto (1883-1903). Escola Normal de Ouro Preto, 29 de março de 1884. IP– 138, p. 4. 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