Histórias sobre Ética
Este livro apresenta os mesmos textos ficcionais das edições
anteriores.
PARA GOSTAR DE LER 27
Histórias sobre Ética
LA FONTAINE, MACHADO DE ASSIS, MOACYR SCLIAR
LYGIA FAGUNDES TELLES, VOLTAIRE, GUIDO FIDELIS
KATHERINE MANSFIELD, LIMA BARRETO
LOURENÇO DIAFÉRIA, ARTUR AZEVEDO
ÁLVARO CARDOSO GOMES
Coordenação geral e seleção de textos Marisa Lajolo
Quinta edição
1a impressão
cclílo
Diretor editorial adjunto: Fernando Paixão
Editora adjunta: Cartnen Lúcia Campos
Revisão: Ivany Picasso Batista (coord)
Lucy Caetano de Oliveira
Editora de arte Suzana Laub
Editor de arte assistente Antônio Paulos
Ilustrações Júlio Mmervmo
Colaboração na redação de textos Maht Rangel
Criação do projeto original da coleção Jiro Takahashi
Suplemento de leitura Veio Libn
Editoração eletrônica: Studio
Desenvolvimento Editorial: Eduardo Rodrigues
Edição eletrônica de imagens Cesai Wolf
IMPRESSÃO E ACABAMENTO Corrrmt Gráfica e Editora Ltda
ISBN 85 08 08579 6
2003
Todos os direitos reservados pela Editora Ática Rua Barão de
Iguape, 110 - CEP 01507-900 Caixa Postal 2937 - CEP
01065-970 - São Paulo - SP Tel O—11 3346-3000-Fax
0—113277-4146 Internet http //www.atica.com.br e-mail
editonalfe’[email protected]
Digitalização: Vítor Chaves
Correção: Marcilene Aparecida Alberton Ghisi Chaves
Sumário
Entre o bem e o mal 7
La Fontaine
O lobo e o cordeiro 13
Machado de Assis 19
Conto de escola 21
Moacyr Scliar 33
O dia em que matamos James Cagney 35
Lygia Fagundes Telles 41
Antes do baile verde 43
Voltaire 55
A dança 57
Guido Fidelis 65
Conversa de comadres à espera da morte 67
Katherine Mansfield 75
A casa de bonecas 77
Lima Barreto 89
A nova Califórnia 91
Lourenço Diaféria 103
Os gatos pardos da noite 107
Artur Azevedo 113
O custodinho 115
Álvaro Cardoso Gomes 123
Paloma 125
Referências bibliográficas 135
Entre o bem e o mal
Marisa Lajolo
Todos nós, mulheres e homens, adultos e jovens, passamos boa
parte da vida tendo de optar entre o certo e o errado, entre o bem
e o mal. Na realidade entre o que consideramos Bem e o que
consideramos Mal. Mas, apesar da longa permanência e
universalidade da questão, o que se considera certo e o que se
considera errado muda ao longo da história e ao redor do globo
terrestre.
Ainda hoje, em certos lugares, a pena de morte autoriza o Estado
a matar em nome da justiça. Em outras sociedades, o direito à
vida é inviolável e nem o Estado nem ninguém tem direito de tirar
a vida alheia. Tempos atrás era tido como legítimo
espancarem-se crianças, escravizarem-se povos, mutilarem-se
mulheres. Nesta virada de século, embora ainda se saiba de
casos de espancamento de crianças, de trabalho escravo e de
violência contra mulheres, todos estes comportamentos são
publicamente condenados na maior parte do mundo.
Mas a opção entre o certo e o errado não se coloca apenas na
esfera de temas polêmicos que atraem os holofotes da mídia.
Muitas e muitas vezes é na solidão da consciência de cada um de
7
nós, homens e mulheres, pequenos e grandes, que certo e errado
se enfrentam.
E a ética é o domínio deste enfrentamento.
Nem sempre, no entanto, as decisões entre certo e errado, bem e
mal dizem respeito a fazer ou não fazer determinada coisa,
praticar ou não praticar determinado ato. Nossas decisões éticas
ficam, muitas vezes, afetas apenas a juízos e opiniões. Ou seja,
agimos e pensamos segundo nosso senso ético. Mas ninguém
nasce com senso ético. Ética se aprende: aprende-se em casa,
na escola e na rua.
Ao longo de toda a vida, a partir das diferentes experiências que
vivemos, vamos reforçando ou alterando nosso senso ético, ou
seja, os valores que norteiam nosso comportamento e nosso
modo de pensar. Entre as experiências que influenciam nosso
senso ético destacam-se as culturais e artísticas. Dentre as artes,
sobretudo a literatura: em seu compromisso com a vida humana
em suas diferentes manifestações históricas, ela tematiza
conflitos éticos, representando o ser humano em situações-limite.
Ao flagrar personagens vivendo momentos nos quais bem e mal
se entrelaçam intimamente, a literatura tanto registra a vocação
ética do ser humano quanto testemunha as dificuldades e os
embaraços da
8
realização desta vocação. De forma implícita ou explícita.
O dilema ético é escancarado, por exemplo, em Hamlet, de
Shakespeare, onde o protagonista se debate entre o respeito
devido ao tio que se casara com sua mãe viúva, e a suspeita de
que este tio era responsável pelo assassinato de seu pai. Já no
romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, o dilema ético fica
implícito na escrita em que Paulo Honório resgata as origens de
seu ciúme doentio e homicida pela mulher Madalena.
Os contos aqui reunidos ilustram como escritoras e escritores, em
diferentes tempos e lugares, fixaram, por meio da escrita, homens
e mulheres às voltas com valores e condutas. Assim, na história
do lobo e do cordeiro, de La Fontaine, em ”Os gatos pardos na
noite”, de Lourenço Diaféria, e ”O dia em que matamos James
Cagney”, de Moacyr Scliar, o direito da força entra em choque
com a força do direito. As histórias criadas por Voltaire, Artur
Azevedo e Álvaro Cardoso Gomes fazem o leitor testemunhar
conflitos entre condutas pessoais e o bem público, entre opiniões
e vantagens pessoais. E é o difícil equilíbrio entre interesses
individuais e valores socialmente aceitos, entre essência e
aparência, que encontramos nos contos de Guido Fidelis, Lima
Barreto e Machado de Assis.
9
Em ”A casa de bonecas” e ”Antes do baile verde”, Katherine
Mansfield e Lygia Fagundes Telles trazem para o mundo
doméstico — feminino e infantil — o peso das decisões radicais
entre preconceito, egoísmo e generosidade.
Em resumo, todas as histórias constróem um universo que,
embora de papel e tinta, é como o nosso, onde as pessoas têm
constantemente de optar entre diferentes valores e condutas
diferentes. E nós leitores, testemunhas desta opção, quem sabe,
podemos sair da leitura mais sensíveis e mais preparados para
nossas próprias opções éticas?
10
La Fontaine
O lobo e o cordeiro
La Fontaine
A razão do mais forte vai sempre vencer é o que adiante vocês
hão de ver. Num límpido regato um dia um cordeiro, sereno,
bebia. Eis que surge um lobo faminto:
— Como ousas sujar minha água? Diz o lobo com fingida mágoa:
— Logo vais receber o castigo por assim desafiar o perigo.
— Senhor — o cordeiro responde —, Não te zangues: não vês
que me encontro vinte passos abaixo de ti, e, portanto, seria
impossível macular tua água daqui?
— Tu a sujas — diz o bicho feroz. — Além disso estou informado
que falaste de mim ano passado.
— Como poderia te ter ofendido se não era nascido então, e o
leite materno inda bebo?
— Ora, ora, se não foste tu, com certeza foi teu irmão.
— Não o tenho.
— Então foi algum dos teus: pois que nunca me deixam em paz.
Tu, teus pastores e cães; necessária a vingança se faz.
13
E no fundo da floresta com toda tranqüilidade O lobo devora o
cordeiro Sem outra formalidade.
Tradução de Luciano Vieira Machado
14
La Fontaine
O mestre da fábula
O escritor francês Jean de La Fontaine nasceu em 1621, na
província de Chatêau-Thierry, Champagne, na França central, e
morreu em 1695, na cidade de Paris. No tempo em que viveu, ele
era considerado uma pessoa que não queria saber de nada além
de festas, amores e diversão.
Hoje, é considerado um dos maiores escritores da literatura
universal.
Entre 1668 e 1694, Fontaine publicou os livros de fábulas que até
hoje correm o mundo em diferentes versões. Muito embora La
Fontaine seja a pessoa quem escreveu e publicou as fábulas, ele
não as inventou: foi buscar na obra de Esopo, um professor
grego, os enredos que, reescritos em verso, garantiram sua
imortalidade literária.
Membro da Academia Francesa de Letras, La Fontaine escreveu,
além de fábulas, textos para o teatro, contos e poemas. Gênero
por definição didático e moralista, a fábula apresenta uma história
exemplar, tendo geralmente animais e objetos como
personagens. Em sua leitura se aprendem valores e atitudes —
certos ou errados, bons e maus — a serem seguidos ou
repudiados.
La Fontaine foi um dos responsáveis pela perpetuação das
fábulas de Esopo
16
A atualidade de ”O lobo e o cordeiro” se deve ao fato do conteúdo
do texto ser uma apresentação bem verossímil das relações
humanas, principalmente no mundo contemporâneo. Mundo esse
tantas vezes definido como um lugar onde o homem é lobo do
homem, como já dizia o filósofo Hobbes.
17
Machado de Assis
Conto de escola
Machado de Assis
A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O
ano era de 1840. Naquele dia — uma segunda-feira, do mês de
maio — deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a
ver onde iria brincar a manhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo
e o campo de Santana, que não era então esse parque atual,
construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos
infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou
campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o
melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão.
Na semana anterior tinha feito dois suetos, e, descoberto o caso,
recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova
de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito
tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e
intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial, e
tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e
contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de
capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança
do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio.
Não era um menino de virtudes.
Subi a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e
cheguei a tempo; ele entrou na sala três ou quatro minutos
depois. Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de
cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça
branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se
21
Policarpo e tinha perto de cinqüenta anos ou mais. Uma vez
sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rape e o lenço vermelho,
pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os
meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele,
tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; começaram os
trabalhos.
— Seu Pilar, eu preciso falar com você, disse-me baixinho o filho
do mestre.
Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado,
inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo
que a outros levava apenas trinta ou cinqüenta minutos; vencia
com o tempo o que não podia fazer logo com o cérebro. Reunia a
isso um grande medo ao pai. Era uma criança fina, pálida, cara
doente; raramente estava alegre. Entrava na escola depois do pai
e retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do que
conosco.
— O que é que você quer?
— Logo, respondeu ele com voz trêmula.
Começou a lição de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais
adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos
mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de
excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção.
Note-se que não era pálido nem mofino: tinha boas cores e
músculos de ferro. Na lição de escrita, por exemplo, acabava
sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes
no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem
espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Naquele dia foi a
mesma coisa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o
nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das
quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a
cogitativa. Não lhes punha esses nomes, pobre estudante de
primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava-lhes essas
expressões. Os outros foram acabando; não tive remédio senão
acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.
22
com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava
preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro,
pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o
Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano.
Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no
claro azul do céu, por cima do Morro do Livramento, um papagaio
de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no
ar, uma coisa soberba. E eu na escola, sentado, pernas unidas,
com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.
— Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.
— Não diga isso, murmurou ele.
Olhei para ele; estava mais pálido. Então lembrou-me outra vez
que queria pedir-me alguma coisa, e perguntei-lhe o que era.
Raimundo estremeceu de novo, e, rápido, disse-me que
esperasse um pouco; era uma coisa particular.
— Seu Pilar... murmurou ele daí a alguns minutos.
— Que é?
— Você...
— Você quê?
Ele deitou os olhos ao pai, e depois a alguns outros meninos. Um
destes, o Curvelo, olhava para ele, desconfiado, e o Raimundo,
notando-me essa circunstância, pediu alguns minutos mais de
espera. Confesso que começava a arder de curiosidade. Olhei
para o Curvelo, e vi que parecia atento; podia ser uma simples
curiosidade vaga, natural indiscrição; mas podia ser também
alguma coisa entre eles. Esse Curvelo era um pouco levado do
diabo. Tinha onze anos, era mais velho que nós.
Que me quereria o Raimundo? Continuei inquieto, remexendo-me
muito, falando-lhe baixo, com instância, que me dissesse o que
era, que ninguém cuidava dele nem de mim. Ou então, de tarde...
— De tarde, não, interrompeu-me ele; não pode ser de tarde.
— Então agora...
23
— Papai está olhando.
Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o
filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para trazelo mais
aperreado. Mas nós também éramos finos; metemos o nariz no
livro, e continuamos a ler. Afinal cansou e tomou as folhas do dia,
três ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as idéias e as
paixões. Não esqueçam que estávamos então no fim da
Regência1, e que era grande a agitação pública. Policarpo tinha
decerto algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O
pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá
estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus
cinco olhos do diabo. Era só levantar a mão, despéndurá-la e
brandi-la, com a força do costume, que não era pouca. E daí,
pode ser que alguma vez as paixões políticas dominassem nele a
ponto de poupar-nos uma ou outra correção. Naquele dia, ao
menos, pareceu-me que lia as folhas com muito interesse;
levantava os olhos de quando em quando, ou tomava uma pitada,
mas tomava logo aos jornais, e lia a valer.
No fim de algum tempo — dez ou doze minutos — Raimundo
meteu a mão no bolso das calças e olhou para mim.
— Sabe o que tenho aqui?
— Não.
— Uma pratinha que mamãe me deu
— Hoje?
— Não, no outro dia, quando fiz anos...
— Pratinha de verdade?
— De verdade.
Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era uma moeda
do tempo do rei, cuido que doze vinténs ou dois tostões, não me
lembra; mas era uma moeda, e tal moeda que me
1 Regência O período da Regência situa-se entre a renúncia de D
Pedro I em 1831 e o golpe conservador que proclamou a
maiondade de D Pedro II em 1845, alguns anos antes do tempo
Foi dos períodos mais agitados e complexos na História do Brasil.
Houve inúmeras revoltas localistas por todo o país, o poder
central estava consideravelmente enfraquecido e os ventos
sopravam na direção de um maior liberalismo político. Daí a ironia
de tudo isso aparecer em função de um velho e rabugento
professor. (N E.)
24
fez pular o sangue no coração. Raimundo revolveu em mim o
olhar pálido; depois perguntou-me se a queria para mim.
Respondi-lhe que estava caçoando, mas ele jurou que não.
— Mas então você fica sem ela?
— Mamãe depois me arranja outra. Ela tem muitas que vovô lhe
deixou, numa caixinha; algumas são de ouro. Você quer esta?
Minha resposta foi estender-lhe a mão disfarçadamente, depois
de olhar para a mesa do mestre. Raimundo recuou a mão dele e
deu à boca um gesto amarelo, que queria sorrir. Em seguida
propôs-me um negócio, uma troca de serviços; ele me daria a
moeda, eu lhe explicaria um ponto da lição de sintaxe. Não
conseguira reter nada do livro, e estava com medo do pai. E
concluía a proposta esfregando a pratinha nos joelhos...
Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude
uma idéia antes própria de homem; não é também que não fosse
fácil em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos
ambos enganar ao mestre. A novidade estava nos termos da
proposta, na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva,
toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação. Fiquei a olhar para
ele, à toa, sem poder dizer nada.
Compreende-se que o ponto da lição era difícil, e que o
Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe
pareceu útil para escapar ao castigo do pai. Se me tem pedido a
coisa por favor, alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras
vezes; mas parece que a lembrança das outras vezes, o medo de
achar a minha vontade frouxa ou cansada, e não aprender como
queria, — e pode ser mesmo que em alguma ocasião lhe tivesse
ensinado mal, — parece que tal foi a causa da proposta. O
pobre-diabo contava com o favor, — mas queria assegurar-lhe a
eficácia, e daí recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que ele
guardava como relíquia ou brinquedo; pegou dela e veio
esfregá-la nos joelhos, à minha vista, como uma tentação...
Realmente, era bonita, fina, branca, muito branca; e para mim,
que só trazia cobre no bolso, quando trazia alguma coisa, um
cobre feio, grosso, azinhavrado...
26
Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei para o
mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o
rape do nariz. — Ande, tome, dizia-me baixinho o filho. E a
pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora diamante... Em
verdade, se o mestre não visse nada, que mal havia? E ele não
podia ver nada, estava agarrado aos jornais, lendo com fogo, com
indignação...
— Tome, tome...
Relanceei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós;
disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos
observava, então dissimulei; mas daí a pouco, deitei-lhe outra vez
o olho, e — tanto se ilude a vontade! — não lhe vi mais nada.
Então cobrei ânimo.
— Dê cá...
Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na
algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir. Cá
estava ela comigo, pegadinha à perna. Restava prestar o serviço,
ensinar a lição, e não me demorei em fazê-lo, nem o fiz mal, ao
menos conscientemente; passava-lhe a explicação em um retalho
de papel que ele recebeu com cautela e cheio de atenção.
Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior
para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao
castigo, tudo iria bem.
De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em
nós, com um riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas daí a
pouco, voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo,
com o mesmo ar, acrescendo que entrava a remexer-se no
banco, impaciente. Sorri para ele e ele não sorriu; ao contrário,
franziu a testa, o que lhe deu um aspecto ameaçador. O coração
bateu-me muito.
— Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.
— Diga-me isto só, murmurou ele.
Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda, cá no
bolso, lembrava-me o contrato feito. Ensinei-lhe o que era,
disfarçando muito; depois, tornei a olhar para o Curvelo, que me
pareceu ainda mais inquieto, e o riso, dantes mau,
27
estava agora pior. Não é preciso dizer que também eu ficara em
brasas, ansioso que a aula acabasse; mas nem o relógio andava
como das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola; este
lia os jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamações,
com gestos de ombros, com uma ou duas pancadinhas na mesa.
E lá fora, no céu azul, por cima do morro, o mesmo eterno
papagaio, guinando a um lado e outro, como se me chamasse a ir
ter com ele. Imaginei-me ali, com os livros e a pedra embaixo da
mangueira, e a pratinha no bolso das calças, que eu não daria a
ninguém, nem que me serrassem; guardá-la-ia em casa, dizendo
à mamãe que a tinha achado na rua. Para que me não fugisse,
ia-a apalpando, roçando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo
pelo tato a inscrição, com uma grande vontade de espiá-la.
— Oh! seu Pilar!, bradou o mestre com voz de trovão. Estremeci
como se acordasse de um sonho, e levantei-me às pressas. Dei
com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos,
e ao pé da mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.
— Venha cá!, bradou o mestre.
Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro
um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola
tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento.
Eu, conquanto não tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a
curiosidade e o pavor de todos.
— Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos
outros?, disse-me o Policarpo.
— Eu...
— Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu!, clamou. Não
obedeci logo, mas não pude negar nada. Continuei a tremer
muito. Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu
não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e
entreguei-lha. Ele examinou-a de um e outro lado, bufando de
raiva; depois estendeu o braço e atirou-a à rua. E então disse-nos
uma porção de coisas duras, que tanto o filho como eu
acabávamos de praticar uma ação feia, indigna,
28
baixa, uma vilania, e para emenda e exemplo íamos ser
castigados. Aqui pegou da palmatória.
— Perdão, seu mestre... solucei eu.
— Não há perdão! Dê cá a mão! dê cá! vamos! sem-vergonha! dê
cá a mão!
— Mas, seu mestre...
— Olhe que é pior!
Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os
bolos uns por cima dos outros, até completar doze, que me
deixaram as palmas vermelhas e inchadas. Chegou a vez do
filho, e foi a mesma coisa; não lhe poupou nada, dois, quatro,
oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos
sem-vergonhas, desaforados, e jurou que, se repetíssemos o
negócio, apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para
todo o sempre. E exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!
Eu, por mim, tinha a cara no chão. Não ousava fitar ninguém,
sentia todos os olhos em nós. Recolhi-me ao banco, soluçando,
fustigado pelos impropérios do mestre. Na sala arquejava o terror;
posso dizer que naquele dia ninguém faria igual negócio. Creio
que o próprio Curvelo enfiara de medo. Não olhei logo para ele,
cá dentro de mim jurava quebrar-lhe a cara, na rua, logo que
saíssemos, tão certo como três e dois serem cinco.
Daí a algum tempo olhei para ele; ele também olhava para mim,
mas desviou a cara, e penso que empalideceu. compôs-se e
entrou a ler em voz alta; estava com medo. Começou a variar de
atitude, agitando-se à toa, tocando os joelhos, o nariz. Pode ser
até que se arrependesse de nos ter denunciado; e na verdade,
por que denunciar-nos? Em que é que lhe tirávamos alguma
coisa?
”Tu me pagas! tão duro como osso!”, dizia eu comigo.
Veio a hora de sair, e saímos; ele foi adiante, apressado, e eu
não queria brigar ali mesmo, na Rua do Costa, perto do colégio;
havia de ser na rua larga de S. Joaquim. Quando, porém, cheguei
à esquina, já o não vi; provavelmente escondera-se em algum
corredor ou loja; entrei numa botica, espiei em outras
29
casas, perguntei por ele a algumas pessoas, ninguém me deu
notícia. De tarde faltou à escola.
Em casa não contei nada, é claro; mas para explicar as mãos
inchadas, menti a minha mãe, disse-lhe que não tinha sabido a
lição. Dormi nessa noite mandando ao diabo os dois meninos,
tanto o da denúncia como o da moeda. E sonhei com a moeda;
sonhei que, ao tornar à escola, no dia seguinte, dera com ela na
rua, e a apanhara, sem medo nem escrúpulos...
De manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a moeda fez-me
vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol
magnífico, ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe
me deu, por sinal que eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha...
Saí de casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalém. Piquei
o passo para que ninguém chegasse antes de mim à escola;
ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças.
Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao
lixo da rua...
Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros,
tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados
vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do
rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma
comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o
dia estava lindo, e depois o tambor... Olhei para um e outro lado;
afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som do rufo,
creio que cantarolando alguma coisa: Rato na casaca... Não fui à
escola, acompanhei os fuzileiros, e depois enfiei pela Saúde, e
acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as
calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento
na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo
e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da
corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor...
30
Machado de Assis
Desvendando a alma humana
O olhar impiedoso e irônico de Machado de Assis captou a alma
humana em toda sua complexidade.
Considerado um dos maiores escritores brasileiros de todos os
tempos, o carioca Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em
1839 e morreu em
1908 na cidade do Rio de Janeiro.
Mulato franzino e doente, de origem social muito humilde, vivendo
na sociedade preconceituosa ainda com pensamentos e atitudes
escravocratas, Machado de Assis fez da vida literária passaporte
para a posteridade, tornando-se célebre pelos contos e romances
que escreveu. Para isso, teve que estudar muito, e por conta
própria, na maior parte das vezes, já que, quando jovem, precisou
abrir mão dos estudos para ajudar no sustento da casa.
Modelo de linguagem e de estilo, Machado renovou a literatura
brasileira. Sua obra traça um painel bastante realista da
sociedade brasileira de seu tempo, de onde extrai elementos para
retratar o ser humano, sempre pelo olhar impiedoso e irônico do
escritor. Dotado de um humor fino e de uma ironia disfarçada,
mas cruel, livros como Memórias póstumas de Brás Cubas (1881)
e Dom Casmurro (1899) não apenas se tornaram clássicos da
literatura brasileira e universal,
31
como também traçaram um verdadeiro estudo sobre a própria
condição humana, com todas as suas imperfeições.
Nada escapa ao realismo desencantado de Machado, nem a
infância, como se vê em seu antológico ”Conto de escola”, em
que um garoto aprende na própria pele conceitos como corrupção
e delação.
32
Moacyr Scliar
O dia em que matamos James Cagney
Moacyr Scliar
Uma vez fomos ao Cinema Apoio.
Sendo matinê de domingo, esperávamos um bom filme de
mocinho. Comíamos bala café-com-leite e batíamos na cabeça
dos outros com nossos gibis. Quando as luzes se apagaram,
aplaudimos e assobiamos; mas depois que o filme começou,
fomos ficando apreensivos...
O mocinho, que se chamava James Cagney, era baixinho e não
dava em ninguém. Ao contrário: cada vez que encontrava o
bandido — um sujeito alto e bigodudo chamado Sam — levava
uma surra de quebrar os ossos. Era murro, e tabefe, e
chave-inglesa, e até pontapé na barriga. James Cagney
apanhava, sangrava, ficava de olho inchado — e não reagia.
A princípio estávamos murmurando, e logo batendo os pés. Não
tínhamos nenhum respeito, nenhuma estima por aquele fracalhão
repelente.
James Cagney levou uma vida atribulada. Muito cedo teve de
trabalhar para se sustentar. Vendia jornais na esquina. Os
moleques tentavam roubar-lhe o dinheiro. Ele sempre se
defendera valorosamente. E agora sua carreira promissora
terminava daquele jeito! Nós vaiávamos, sim, nós não
poupávamos os palavrões.
James Cagney já andava com medo de nós. Deslizava encostado
às paredes. Olhava-nos de soslaio. O cão covarde, o patife, o
traidor.
35
Três meses depois do início do filme ele leva uma surra
formidável de Sam e fica estirado no chão, sangrando como um
porco. Nós nem nos importávamos mais. Francamente, nosso
desgosto era tanto, que por nós ele podia morrer de uma vez — a
tal ponto chegava nossa revolta.
Mas aí um de nós notou um leve crispar de dedos na mão
esquerda, um discreto ricto de lábios.
Num homem caído. Aquilo podia ser considerado um sinal
animador.
Achamos que, apesar de tudo, valia a pena trabalhar James
Cagney. Iniciamos um aplauso moderado, mas firme.
James Cagney levantou-se. Aumentamos um pouco as palmas —
não muito, o suficiente para que ele ficasse de pé. Fizemos com
que andasse alguns passos. Que chegasse a um espelho, que se
olhasse, era o que desejávamos no momento.
James Cagney olhou-se ao espelho. Ficamos em silêncio, vendo
a vergonha surgir na cara partida de socos.
— Te vinga! — berrou alguém. Era desnecessário: para bom
entendedor nosso silêncio bastaria, e James Cagney já aprendera
o suficiente conosco naquele domingo à tarde no Cinema Apoio.
Vagarosamente ele abriu a gaveta da cômoda e pegou o velho
revólver do pai. Examinou-o: era um quarenta-e-cinco! Nós
assobiávamos e batíamos palmas. James Cagney botou o
chapéu e correu para o carro. Suas mãos seguravam o volante
com firmeza; lia-se determinação em seu rosto. Tínhamos feito de
James Cagney um novo homem. Correspondíamos
aprovadoramente ao seu olhar confiante.
Descobriu Sam num hotel de terceira. Subiu a escada
lentamente. Nós marcávamos o ritmo de seus passos com nossas
próprias botinas. Quando ele abriu a porta do quarto, a gritaria foi
ensurdecedora.
Sam estava sentado na cama. Pôs-se de pé. Era um gigante.
James Cagney olhou para o bandido, olhou para nós. Fomos
forçados a reconhecer: estava com medo. Todo o nosso trabalho,
todo aquele esforço de semanas fora inútil. James
37
Cagney continuava James Cagney. O bandido tirou-lhe o
quarenta-e-cinco, baleou-o no meio da testa: ele caiu sem um
gemido.
— Bem feito — resmungou Pedro, quando as luzes se;
acenderam. — Ele merecia.
Foi o nosso primeiro crime. Cometemos muitos outros, depois.
Moacyr Scliar
Realidade com muita fantasia
Nos textos de Moacyr Scliar, a mistura de fantasia e realidade cria
desfechos surpreendentes.
Nascido em 1937 na cidade de Porto Alegre, o gaúcho Moacyr
Scliar é um homem versátil: médico e escritor, é igualmente
atuante nas duas áreas. Há pouco tempo, mesmo escrevendo
seus contos e crônicas, Scliar não abria mão de suas tardes no
consultório médico.
Dono de uma obra literária extensa, é ainda um biógrafo de mão
cheia e colaborador assíduo de diversos jornais brasileiros. Seus
livros para jovens e adultos são sucesso de público e de crítica e
alguns já foram publicados no exterior. Em seus textos,
misturam-se sérias críticas sociais, magia e fantasia que Scliar
herdou de algumas influências literárias (tais como Jorge Luís
Borges e Gabriel Garcia Márquez), além de tradições judaicas e
lembranças da infância, que fizeram parte da sua história.
Muito atento às situações-limite que degradam a vida humana,
Scliar combina em seus textos indícios de uma realidade bastante
concreta com cenas absolutamente fantásticas. A convivência
entre realismo e fantasia é harmoniosa e dela nascem os
desfechos surpreendentes presentes em seus textos.
39
Em sua obra são freqüentes questões de identidade judaica, do
cotidiano da Medicina e do mundo da mídia, como por exemplo
acontece no conto ”O dia em que matamos James Cagney”,
presente nesta antologia.
40
Lygia Fagundes Telles
Antes do baile verde
Lygia Fagundes Telles
O rancho azul e branco desfilava com seus passistas vestidos à
Luís XV e sua porta-estandarte de peruca prateada em forma de
pirâmide, os cachos desabados na testa, a cauda do vestido de
cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro do bumbo
fez uma profunda reverência diante das duas mulheres
debruçadas na janela e prosseguiu com seu chapéu de três bicos,
fazendo rodar a capa encharcada de suor.
— Ele gostou de você — disse a jovem, voltando-se para a
mulher que ainda aplaudia. — O cumprimento foi na sua direção,
viu que chique?
A preta deu uma risadinha.
— Meu homem é mil vezes mais bonito, pelo menos na minha
opinião. E já deve estar chegando, ficou de me pegar às dez na
esquina. Se me atraso, ele começa a encher a caveira e pronto,
não sai mais nada.
A jovem tomou-a pelo braço e arrastou-a até a
mesa-de-cabeceira. O quarto estava revolvido como se um ladrão
tivesse passado por ali e despejado caixas e gavetas.
— Estou atrasadíssima, Lu! Essa fantasia é fogo... Tenha
paciência, mas você vai me ajudar um pouquinho.
— Mas você ainda não acabou?
Sentando-se na cama, a jovem abriu sobre os joelhos o saiote
verde. Usava biquíni e meias rendadas também verdes.
— Acabei o quê! falta pregar tudo isso ainda, olha aí... Fui
inventar um raio de pierrete dificílima!
43
A preta aproximou-se, alisando com as mãos o quimono de seda
brilhante. Espetado na carapinha trazia um crisântemo de
papel-crepom vermelho. Sentou-se ao lado da moça.
— O Raimundo já deve estar chegando, ele fica uma onça se me
atraso. A gente vai ver os ranchos, hoje quero ver todos.
— Tem tempo, sossega — atalhou a jovem. Afastou os cabelos
que lhe caíam nos olhos. Levantou o abajur que tombou na
mesinha. — Não sei como fui me atrasar desse jeito.
— Mas não posso perder o desfile, viu, Tatisa? Tudo, menos
perder o desfile!
— E quem está dizendo que você vai perder?
A mulher enfiou o dedo no pote de cola e baixou-o de leve nas
lantejoulas do pires. Em seguida, levou o dedo até o saiote e ali
deixou as lantejoulas formando uma constelação desordenada.
Colheu uma lantejoula que escapara e delicadamente tocou com
ela na cola. Depositou-a no saiote, fixando-a com pequenos
movimentos circulares.
— Mas se tiver que pregar as lantejoulas em todo o saiote...
—Já começou a queixação? Achei que dava tempo e agora não
posso largar a coisa pela metade, vê se entende! Você ajudando
vai num instante, já me pintei, olha aí, que tal minha cara? Você
nem disse nada, sua bruxa! Hein?... Que tal?
— Ficou bonito, Tatisa. com o cabelo assim verde, você está
parecendo uma alcachofra, tão gozado. Não gosto é desse verde
na unha, fica esquisito.
Num movimento brusco, a jovem levantou a cabeça para respirar
melhor. Passou o dorso da mão na face afogueada.
— Mas as unhas é que dão a nota, sua tonta. É um baile verde,
as fantasias têm que ser verdes, tudo verde. Mas não precisa
ficar me olhando, vamos, não pare, pode falar, mas vá
trabalhando. Falta mais da metade, Lu!
— Estou sem óculos, não enxergo direito sem os óculos.
— Não faz mal — disse a jovem, limpando no lençol o excesso de
cola que lhe escorreu pelo dedo. — Vá grudando de qualquer
jeito que lá dentro ninguém vai reparar, vai ter gente à beça. O
que está me endoidando é este calor, não agüento
44
mais, tenho a impressão de que estou me derretendo, você não
sente? Calor bárbaro!
A mulher tentou prender o crisântemo que resvalara para o
pescoço. Franziu a testa e baixou o tom de voz.
— Estive lá.
— E daí?
— Ele está morrendo.
Um carro passou na rua, buzinando freneticamente. Alguns
meninos puseram-se a cantar aos gritos, o compasso marcado
pelas batidas numa frigideira: A coroa do rei não é de ouro nem
de prata...
— Parece que estou num forno — gemeu a jovem, dilatando as
narinas porejadas de suor. — Se soubesse, teria inventado uma
fantasia mais leve.
— Mais leve do que isso? Você está quase nua, Tatisa. Eu ia com
a minha havaiana, mas só porque aparece um pedaço da coxa o
Raimundo implica. Imagine você então...
com a ponta da unha, Tatisa colheu uma lantejoula que se
enredara na renda da meia. Deixou-a cair na pequena
constelação que ia armando na barra do saiote e ficou raspando
pensativamente um pingo ressequido de cola que lhe caíra no
joelho. Vagava o olhar pelos objetos, sem fixar-se em nenhum.
Falou num tom sombrio:
— Você acha, Lu?
— Acha o quê?
— Que ele está morrendo?
— Ah, está sim. Conheço bem isso, já vi um monte de gente
morrer, agora já sei como é. Ele não passa desta noite.
— Mas você já se enganou uma vez, lembra? Disse que ele ia
morrer, que estava nas últimas... E no dia seguinte ele já pedia
leite, radiante.
— Radiante? — espantou-se a empregada. Fechou num muxoxo
os lábios pintados de vermelho violeta. — E, depois, eu não disse
não senhora que ele ia morrer, eu disse que ele estava ruim, foi o
que eu disse. Mas hoje é diferente, Tatisa. Espiei da porta, nem
precisei entrar para ver que ele está morrendo.
45
— Mas quando fui lá ele estava dormindo tão calmo, Lu.
— Aquilo não é sono. É outra coisa.
Afastando bruscamente o saiote aberto nos joelhos, a jovem
levantou-se. Foi até a mesa, pegou a garrafa de uísque e
procurou um copo em meio da desordem dos frascos e caixas.
Achou-o debaixo da esponja de arminho. Soprou o fundo cheio de
pó-de-arroz e bebeu em largos goles, apertando os maxilares.
Respirou de boca aberta. Dirigiu-se à preta.
— Quer?
— Tomei muita cerveja, se misturo dá ânsia. A jovem despejou
mais uísque no copo.
— Minha pintura não está derretendo? Veja se o verde dos olhos
não borrou... Nunca transpirei tanto, sinto o sangue ferver.
— Você está bebendo demais. E nessa correria... Também não
sei por que essa invenção de saiote bordado, as lantejoulas vão
se desgrudar todas no aperto. E pior é que não posso caprichar,
com o pensamento no Raimundo lá na esquina...
— Você é chata, não, Lu? Mil vezes fica repetindo a mesma
coisa, taque-taque-taque-taque! Esse cara não pode esperar um
pouco?
A mulher não respondeu. Ouvia com expressão deliciada a
música de um bloco que passava já longínquo. Cantarolou em
falsete: Acabou chorando... acabou chorando...
— No outro Carnaval entrei num bloco de sujos e me diverti à
grande. Meu sapato até desmanchou de tanto que dancei.
— E eu na cama, podre de gripe, lembra? Neste quero me
esbaldar.
— E seu pai?
Lentamente a jovem foi limpando no lenço as pontas dos dedos
esbranquiçados de cola. Tomou um gole de uísque. Voltou a
afundar o dedo no pote.
— Você quer que eu fique aqui chorando, não é isso que você
quer? Quer que eu cubra a cabeça com cinza e fique de joelhos
rezando, não é isso que você está querendo? — Ficou
46
olhando para a ponta do dedo coberto de lantejoulas. Foi
deixando no saiote o dedal cintilante. — Que é que eu posso
fazer? Não sou Deus, sou? Então? Se ele está pior, que culpa
tenho eu?
— Não estou dizendo que você é culpada, Tatisa. Não tenho
nada com isso, ele é seu pai, não meu. Faça o que bem entender.
— Mas você começa a dizer que ele está morrendo!
— Pois está mesmo.
— Está nada! Também espiei, ele está dormindo, ninguém morre
dormindo daquele jeito.
— Então não está.
A jovem foi até a janela e ofereceu a face ao céu roxo. Na
calçada, um bando de meninos brincava com bisnagas de
plástico em formato de banana, esguichando água um na cara do
outro. Interromperam a brincadeira para vaiar um homem que
passou vestido de mulher, pisando para fora nos sapatos de
saltos altíssimos. ”Minha lindura, vem comigo, minha lindura!” —
gritou o moleque maior, correndo atrás do homem. Ela assistia à
cena com indiferença. Puxou com força as meias presas aos
elásticos do biquíni.
— Estou transpirando feito um cavalo. Juro que se não tivesse me
pintado, me metia agora num chuveiro, besteira a gente se pintar
antes.
— E eu não agüento mais de sede — resmungou a empregada,
arregaçando as mangas do quimono. — Ai! uma cerveja bem
geladinha. Gosto mesmo é de cerveja, mas o Raimundo prefere
cachaça. No ano passado, ele ficou de porre os três dias, fui
sozinha no desfile. Tinha um carro que foi o mais bonito de todos,
representava um mar. Você precisava ver aquele monte de
sereias enroladas em pérolas. Tinha pescador, tinha pirata, tinha
polvo, tinha tudo! Bem lá em cima, dentro de uma concha abrindo
e fechando, a rainha do mar coberta de jóias...
— Você já se enganou uma vez — atalhou a jovem. — Ele não
pode estar morrendo, não pode. Também estive lá antes de você,
ele estava dormindo tão sossegado. E hoje cedo
48
até me reconheceu, ficou me olhando, me olhando e depois
sorriu. Você está bem papai?, perguntei e ele não respondeu,
mas vi que entendeu perfeitamente o que eu disse.
— Ele se fez de forte, coitado.
— De forte, como?
— Sabe que você tem o seu baile, não quer atrapalhar.
— Ih, como é difícil conversar com gente ignorante — explodiu a
jovem, atirando no chão as roupas amontoadas na cama.
Revistou os bolsos de uma calça comprida. — Você pegou meu
cigarro.
— Tenho minha marca, não preciso dos seus.
— Escuta, Luzinha, escuta — começou ela, ajeitando a flor na
carapinha da mulher. — Eu não estou inventando, tenho certeza
de que ainda hoje cedo ele me reconheceu. Acho que nessa hora
sentiu alguma dor porque uma lágrima foi escorrendo daquele
lado paralisado. Nunca vi ele chorar daquele lado, nunca. Chorou
só daquele lado, uma lágrima tão escura...
— Ele estava se despedindo.
— Lá vem você de novo, merda! Pare de bancar o corvo, até
parece que você quer que seja hoje. Por que tem que repetir isso,
por quê?
— Você mesmo pergunta e não quer que eu responda. Não vou
mentir, Tatisa.
A jovem espiou debaixo da cama. Puxou um pé de sapato.
Agachou-se mais, roçando os cabelos verdes no chão.
Levantou-se, olhou em redor. E foi-se ajoelhando devagarinho
diante da preta. Apanhou o pote de cola.
— E se você desse um pulo lá só para ver?
— Mas você quer ou não que eu acabe isto? — a mulher gemeu
exasperada, abrindo e fechando os dedos ressequidos de cola. —
O Raimundo tem ódio de esperar, hoje ainda apanho!
A jovem levantou-se. Fungou, andando rápido num andar de
bicho na jaula. Chutou o sapato que encontrou no caminho.
— Aquele médico miserável. Tudo culpa daquela bicha. Eu bem
disse que não podia ficar com ele aqui em casa, eu disse
49
que não sei tratar de doente, não tenho jeito, não posso! Se você
fosse boazinha, você me ajudava, mas você não passa de uma
egoísta, uma chata que não quer saber de nada. Sua egoísta!
— Mas Tatisa, ele não é meu pai, não tenho nada com isso, até
que ajudo muito sim senhora, como não? Todos esses meses
quem é que tem agüentado o tranco? Não me queixo porque ele
é muito bom, coitado. Mas tenha a santa paciência, hoje não! Já
estou fazendo demais aqui plantada quando devia estar na rua.
com um gesto fatigado, a jovem abriu a porta do armário.
Olhou-se no espelho. Beliscou a cintura.
— Engordei, Lu.
— Você, gorda? Mas você é só osso, menina. Seu namorado não
tem onde pegar. Ou tem?
Ela ensaiou com os quadris um movimento lascivo. Riu. Os olhos
animaram-se:
— Lu, Lu, pelo amor de Deus, acabe logo que à meianoite ele
vem me buscar. Mandou fazer um pierrô verde.
— Também já me fantasiei de pierrô. Mas faz tempo.
— Vem num Tufão, viu que chique?
— Que é isso?
— É um carro muito bacana, vermelho. Mas não fique aí me
olhando, depressa, Lu, você não vê que... — Passou
ansiosamente a mão no pescoço. — Lu, Lu, por que ele não ficou
no hospital?! Estava tão bem no hospital...
— Hospital de graça é assim mesmo, Tatisa. Eles não podem
ficar a vida inteira com um doente que não resolve, tem doente
esperando até na calçada.
— Há meses que venho pensando nesse baile. Ele viveu
sessenta e seis anos. Não podia viver mais um dia?
A preta sacudiu o saiote e examinou-o a uma certa distância.
Abriu-o de novo no colo e inclinou-se para o pires de lantejoulas.
— Falta só um pedaço.
— Um dia mais...
só
— Vem me ajudar, Tatisa, nós duas pregando vai num instante.
Agora ambas trabalhavam num ritmo acelerado, as mãos indo e
vindo do pote de cola ao pires e do pires ao saiote, curvo como
uma asa verde, pesada de lantejoulas.
— Hoje o Raimundo me mata — recomeçou a mulher, grudando
as lantejoulas meio ao acaso. Passou o dorso da mão na testa
molhada. Ficou com a mão parada no ar. — Você não ouviu?
A jovem demorou para responder.
— O quê?
— Parece que ouvi um gemido. Ela baixou o olhar.
— Foi na rua.
Inclinaram as cabeças irmanadas sob a luz amarela do abajur.
— Escuta, Lu, se você pudesse ficar hoje, só hoje — começou ela
num tom manso. Apressou-se: — Eu te daria meu vestido branco,
aquele meu branco, sabe qual é? E também os sapatos, estão
novos ainda, você sabe que eles estão novos. Você pode sair
amanhã, você pode sair todos os dias, mas pelo amor de Deus,
Lu, fica hoje!
A empregada empertigou-se, triunfante.
— Custou, Tatisa, custou. Desde o começo eu já estava
esperando. Ah, mas hoje nem que me matasse eu ficava, hoje
não. — O crisântemo caiu enquanto ela sacudia a cabeça.
Prendeu-o com um grampo que abriu entre os dentes. — Perder
esse desfile? Nunca! Já fiz muito — acrescentou, sacudindo o
saiote. — Pronto, pode vestir. Está um serviço porco, mas
ninguém vai reparar.
— Eu podia te dar o casaco azul — murmurou a jovem, limpando
os dedos no lençol.
— Nem que fosse para ficar com meu pai eu ficava, ouviu isso,
Tatisa? Nem com meu pai, hoje não.
Levantando-se de um salto, a moça foi até a garrafa e bebeu de
olhos fechados mais alguns goles. Vestiu o saiote.
51
— Brrrr! Esse uísque é uma bomba — resmungou,
aproximando-se do espelho. — Anda, venha aqui me abotoar,
não precisa ficar aí com essa cara. Sua chata.
A mulher tateou os dedos por entre o tule.
— Não acho os colchetes.
A jovem ficou diante do espelho, as pernas abertas, a cabeça
levantada. Olhou para a mulher, através do espelho:
— Morrendo coisa nenhuma, Lu. Você estava sem os óculos
quando entrou no quarto, não estava? Então não viu direito, ele
estava dormindo.
— Pode ser que me enganasse mesmo.
— Claro que se enganou. Ele estava dormindo. A mulher franziu
a testa, enxugando na manga do quimono o suor do queixo.
Repetiu como um eco:
— Estava dormindo, sim.
— Depressa, Lu, faz uma hora que está com esses colchetes!
— Pronto — disse a outra, baixinho, enquanto recuava até a
porta. — Não precisa mais de mim, não é?
— Espera! — ordenou a moça, perfumando-se rapidamente.
Retocou os lábios, atirou o pincel ao lado do vidro destapado.
—Já estou pronta, vamos descer juntas.
— Tenho que ir, Tatisa!
— Espera, já disse que estou pronta — repetiu, baixando a voz.
— Só vou pegar a bolsa...
— Você vai deixar a luz acesa?
— Melhor, não? A casa fica mais alegre assim.
No topo da escada ficaram mais juntas. Olharam na mesma
direção: a porta estava fechada. Imóveis como se tivessem sido
petrificadas na fuga, as duas mulheres ficaram ouvindo o relógio
da sala. Foi a preta quem primeiro se moveu. A voz era um sopro:
— Quer ir dar uma espiada, Tatisa?
— Vá você, Lu...
Trocaram um rápido olhar. Bagas de suor escorriam pelas
têmporas verdes da jovem, um suor turvo como o sumo de uma
casca de limão. O som prolongado de uma buzina foi-se
52
fragmentando lá fora. Subiu poderoso o som do relógio.
Brandamente a empregada desprendeu-se da mão da jovem. Foi
descendo a escada na ponta dos pés. Abriu a porta da rua.
— Lu! Lu! — a jovem chamou num sobressalto. Continha-se para
não gritar. — Espera aí, já vou indo!
E apoiando-se ao corrimão, colada a ele, desceu
precipitadamente. Quando bateu a porta atrás de si, rolaram pela
escada algumas lantejoulas verdes na mesma direção, como se
quisessem alcançá-la.
53
O comum e o avesso da vida
Sensível e profunda, a obra de Lygia Fagundes Telles mostra
várias facetas do ser humano
A escritora Lygia Fagundes Telles nasceu na cidade de São
Paulo, onde mora até hoje.
Porém, quando era criança, — Lygia passou por várias cidades
do interior paulista, acompanhando o pai, promotor público. E a
menina não se importava tanto, desde que sempre tivesse quem
lhe contasse histórias novas e compartilhasse as que ela mesma
inventava.
Lygia começou a escrever seus primeiros textos ainda
adolescente, mas desde menina já tinha uma imaginação
privilegiada.
Foi premiada ao publicar seu segundo livro pela Academia
Brasileira de Letras, sendo uma das primeiras mulheres a fazer
parte de tal instituição.
Sua obra extensa de prosadora é profundamente sensível ao
registro da vida cotidiana e suas personagens femininas são
muito marcantes. Tanto que, dentre seus romances, Ciranda de
Pedra (1954) e As Meninas (1973) trazem protagonistas fortes e
inesquecíveis.
Retalhos de vida, frustrações e desejos são a matériaprima com a
qual Lygia registra e questiona, em romances e contos, não
apenas o mundo feminino, mas também a condição humana.
54
Voltaire
A dança
Voltaire
Sétoc precisava fazer uma viagem de negócios à ilha de
Serendib; mas, estando no primeiro mês de seu casamento, que,
como se sabe, é a lua-de-mel, não podia deixar sua mulher, nem
sequer pensar que pudesse fazê-lo um dia: ele pediu a seu amigo
Zadig que fizesse a viagem em seu lugar.
— Pobre de mim! — lamentava-se Zadig. — Será preciso que eu
aumente ainda mais a distância que há entre mim e minha bela
Astartéia? Mas eu tenho de servir aos meus benfeitores.
Disse, chorou e partiu.
Não precisou passar muito tempo em Serendib para ser visto
como um homem extraordinário. Tornou-se o árbitro de todas as
disputas entre os negociantes, o amigo dos sábios, o conselheiro
daquele pequeno número de pessoas que querem conselhos. O
rei quis vê-lo e ouvi-lo. Percebeu logo todo o valor de Zadig;
confiou em sua sabedoria e fê-lo seu amigo. A familiaridade e a
estima do rei assustaram Zadig. Dia e noite ele pensava nos
infortúnios que lhe tinham causado as atenções que recebera de
Moabdar. ”O rei gosta de mim”, pensava ele. ”Não estarei
perdido?” Contudo, não se podia furtar às amabilidades de Sua
Majestade: porque, verdade seja dita, Nabussan, rei de Serendib,
filho de Nussanab, filho de Nabassun, filho de Sanbusná, era um
dos melhores príncipes da Ásia e, quando se falava com ele, era
difícil não amá-lo.
Esse bom príncipe era sempre louvado, enganado e roubado; era
como se houvesse uma disputa para ver quem mais
57
lhe pilhava os tesouros. O recebedor-geral da ilha de Serendib
era o primeiro a fazer isso, sendo fielmente seguido pelos outros.
O rei sabia disso: várias vezes já mudara o recebedor; mas não
pudera mudar o modo já estabelecido de dividir as rendas do rei
em duas partes desiguais, ficando sempre a menor para Sua
Majestade e a maior para seus administradores.
O rei Nabussan confiou seu problema ao sábio Zadig.
— Vós, que conheceis tantas e tão belas coisas, por acaso não
saberíeis me dizer como encontrar um tesoureiro que não me
roube? — perguntou ele.
— Certamente. Conheço uma forma infalível de encontrar um
homem que tenha as mãos limpas — respondeu Zadig.
O rei, encantado, abraçando-o, perguntou-lhe o que devia fazer
para conseguir isso.
— Basta — disse Zadig — mandar que dancem todos aqueles
que se candidatarem ao cargo de tesoureiro. Aquele que dançar
com mais leveza será com toda certeza o homem mais honesto.
— Estais a zombar de mim — disse o rei. — Eis uma maneira
muito estranha de escolher alguém para cuidar de minha fortuna.
Ora! Quereis dizer que quem fizer o melhor entrechat será o
tesoureiro mais íntegro e mais capaz? — perguntou o rei.
— Eu não vos disse que será o mais capaz — retorquiu Zadig. —
Mas vos asseguro que, sem sombra de dúvida, será o homem
mais honesto.
Zadig falava com tanta segurança que o rei supôs que ele tivesse
algum dom sobrenatural para conhecer administradores de
finanças.
— Não gosto de coisas sobrenaturais — disse Zadig. — Sempre
me desagradaram pessoas e livros ligados a milagres e prodígios;
se Vossa Majestade permitir que eu faça a prova que proponho,
haverá de se convencer de que meu segredo é a coisa mais
simples e sem mistérios.
Nabussan, rei de Serendib, espantou-se muito mais em ouvir que
o segredo era simples do que se lho tivessem apresentado como
um milagre.
58
— Pois bem — disse ele. — Podeis fazer como vos aprouver.
— Deixai que o faça — disse Zadig. — Vossa Majestade haverá
de ganhar muito mais do que imagina.
No mesmo dia, Zadig fez publicar, em nome do rei, que todos os
que aspirassem ao cargo de recebedor-geral de Sua Graciosa
Majestade Nabussan, filho de Nussanab, fossem, em trajes de
seda leve, na primeira noite da lua do crocodilo, à antecâmara do
rei. Lá compareceram sessenta e quatro pessoas. Trouxeram-se
violinos para a sala contígua; estava tudo pronto para o baile;
mas a porta do salão estava fechada e, para entrar lá, era preciso
passar por uma pequena galeria, bastante escura. Um porteiro
ficou encarregado de acompanhar cada candidato a essa
passagem, onde eram deixados alguns instantes a sós. O rei, que
já estava bem avisado, expusera todos os seus tesouros na
galeria. Quando todos os candidatos haviam chegado ao salão,
Sua Majestade ordenou que dançassem. Jamais se dançou de
forma tão pesada e tão desajeitada. Todos mantinham a cabeça
baixa, as costas curvadas, as mãos coladas ao corpo.
— Que gatunos! — dizia baixinho Zadig. Apenas um entre eles
dançava com leveza, a cabeça levantada, o olhar seguro, os
braços estendidos, o corpo ereto, os jarretes firmes. — Ah, que
homem honesto! Que homem bom! — dizia Zadig.
O rei abraçou aquele bom dançarino, nomeou-o tesoureiro e
todos os outros foram acusados e punidos com toda justiça:
porque todos eles, no momento em que se encontravam sozinhos
no corredor, haviam enchido os bolsos e mal conseguiam andar.
O rei se tomou de desgosto pela natureza humana, pelo fato de
haver sessenta e três gatunos entre os sessenta e quatro
dançarinos. A galeria escura foi chamada Corredor da Tentação.
Se o caso se tivesse dado na Pérsia, esses sessenta e três
senhores teriam sido empalados; em outros países, eles seriam
submetidos a um processo cujo custo se elevaria ao triplo do
valor roubado, que não haveria de voltar aos cofres do soberano;
em um outro reino, eles teriam provado sua completa inocência,
fazendo com que o dançarino mais lépido
59
caísse em desgraça; em Serendib, foram condenados apenas a
aumentar o tesouro público, porque Nabussan era muito
complacente.
Era também muito reconhecido; ele deu a Zadig uma soma em
dinheiro muito maior do que jamais um tesoureiro foi capaz de
roubar ao rei, seu senhor. Zadig a usou para enviar mensageiros
à Babilônia, que deviam se informar sobre o destino de Astartéia.
A voz lhe tremeu ao dar essa ordem, o sangue refluiu ao coração,
os olhos se turvaram, sua alma por pouco não o abandonou. O
mensageiro partiu, Zadig viu-o embarcar; ele voltou para o palácio
do rei sem enxergar ninguém, como se estivesse em seu quarto,
pronunciando a palavra ”amor”.
— Ah! O amor — disse o rei. — É justamente disso que se trata.
Vós adivinhais o meu tormento. Sois um grande homem! Espero
que me ensineis a conhecer uma mulher de suma virtude, como
me fizestes encontrar um tesoureiro desinteressado.
Zadig, caindo em si, prometeu ajudá-lo no amor como o fizera nas
finanças, embora isso lhe parecesse uma coisa ainda mais difícil.
Tradução de Luciano Vieira Machado
61
Voltaire
A sátira como tempero da história
Voltaire é pseudônimo literário de François-Marie Arouet, escritor
francês que nasceu em
1694 e morreu em 1778.
De família rica, Voltaire começou a freqüentar a corte ainda
bastante jovem, onde logo se destacou pela inteligência e pelo
comportamento irreverente que o levou, inclusive, à prisão e ao
exílio.
Na verdade, Voltaire tinha idéias muito avançadas para aquele
tempo. Em pleno Absolutismo, em que tudo era controlado pelo
poder real, inclusive a religião e as idéias divulgadas pelas
pessoas, Voltaire pregava liberdade de expressão (dizia que
”liberdade de pensamento é a vida da alma”) e dizia que sua
religiosidade não passava pela igreja (sendo que o clero também
era muito poderoso na época).
A força crítica de seus escritos teria contribuído para a Revolução
Francesa, em 1789, marco da chamada Idade Moderna.
O texto ”A dança” foi extraído do livro Zadig que, com o título de
Memnon, histoire orientais, foi publicado pela primeira vez em
1747. Neste livro, é narrada uma série de aventuras
Por suas idéias avançadas, Voltaire chegou a ser preso e exilado
62
vividas por um sábio da Babilônia durante sua viagem pelo
Oriente, onde ele vive experiências ricas para aprender mais
sobre o caráter humano.
Este texto é uma oportunidade única de se entrar em contato com
a marca registrada de Voltaire: a denúncia irônica dos desmandos
sociais e a representação impiedosamente ridícula dos
poderosos, temas sempre atuais.
63
Conversa de comadres a espera da morte
Guido Fidelis
- Dona Encarnação melhorou?
— Na mesma.
— Coitada!
— É a vontade de Deus!
— O padre... Já veio?
— Sim. Disse que está encomendada, orações foram feitas, é
esperar os desígnios do Senhor para a consumação.
Barulho de xícaras, Dona Conceição, mulher robusta, espécie de
líder religiosa, aparece, carrega enorme bandeja de plástico,
serve café e torradas, as mulheres se animam, umas dez ou
doze, comadres e vizinhas, conversam, fazem indagações,
mistérios que precisam ser resolvidos.
— Será que ela passa de hoje?
— Não sei... Já é tempo, muita agonia, merece descansar.
— Vamos rezar um terço, pedir para que sua alma ganhe
liberdade...
— Sei de um remédio infalível.
— Pra quê?
— Pra morte, ora.
— Acha que ela pode melhorar?
— Não, não é isso.
— O que, então?
— Para puxar a morte, chamar a morte, abreviar, sabe como é.
67
— Sei não.
— Minha mãe sempre contava. Pessoas que estão na pior,
querem a morte, que ela apresse o trabalho para acabar logo a
agonia. Melhor que ficar na dor...
— Credo!
— Deus me livre!
— Virgem Maria!
— Como é?
— Fácil.
— Conta.
— Velhos escravos usavam o método, infalível, minha querida.
— Pecado mortal.
— Bruxaria.
— Crime.
— A gente pode acabar na cadeia.
— Não é crime.
— Vai dar veneno?
— Cuidado, ela guarda um revólver na gaveta, preto, feio, já vi.
— Nada disso.
— O que é, então?
— Apenas abrir as portas para a morte. Ela entra devagar, suave,
termina e vai embora, como passarinho.
— De que jeito?
— Silêncio que eu conto tudinho.
As mulheres se aquietam. Dona Carola abre a janela, espreita,
não quer nenhum espião rondando, grita com o menino que urina
na parede:
— Caia fora, seu peste!
O menino ri, faz careta, mostra a língua, balança o pau e o
ombro, permanece.
Dona Carola fecha a janela, está sem jeito, senta-se para ouvir a
explicação de Dona Terezinha, mulher prática, que já participou
de mais de uma centena de velórios, lavou e trocou cadáveres,
não se impressiona mais com o hálito da morte.
68
— A gente dá um banho em Dona Encarnação, que fica
preparada para o grande encontro. Bota uma roupa branca,
lembrança dos tempos de virgindade, que é pureza de alma...
— Mas ela nunca foi tão pura...
— Verdade?
— Lógico, comadre, você nunca soube?
— Não. Conte!
— Depois, deixe Dona Terezinha explicar...
— Não, não, fale primeiro.
— Será?
— Conte, vá!
— Não seja chata.
— Aguça a curiosidade da gente...
— Bem...
Dona Frutuosa sorri, deixa em destaque a boca, grande, tinta de
batom, arranha a garganta com o pigarro, acende o cigarro sem
filtro, encara as amigas, segreda:
— Juro, juro por esses olhos...
— Não precisa, vamos, conte.
— Isso mesmo, fale logo.
— Não agüento esperar.
— Sabe... fraquezas... todas nós temos nossos momentos, foi há
muito tempo, ela era casada, antes de enviuvar-se, o marido saía
para trabalhar, como todos os maridos que se prezam e que se
levantam cedo, ela ficava sozinha, solitária, sem filhos, sabe, é
duro ficar olhando as paredes limpas, vinha o entregador de jornal
e entrava, ficava umas duas horas e se mandava, sabe lá Deus o
que aprontavam na cama, ouvi dizer que o rapaz era fogo,
também, em plena juventude...
— Não pode ser.
— Incrível.
— Mas é a verdade. E tem mais. Deu também uns pulos com o
sonso do seu Joaquim, aquela cara de desentendido, sempre a
errar nas contas, a seu favor, lógico, que não é besta de voltar
troco a mais.
— Quem diria!
69
— Aquela expressão de santa nunca me enganou.
— Deixa pra lá, é perigoso cuspir pra cima, muitas outras
mulheres do bairro também tiveram suas aventuras. Sei de
muitas, tantas...
Tosses, barulho de xícaras, inquietação, clima tenso, volta o
silêncio, as mulheres acham que é melhor que Dona Terezinha
conclua sua explicação a respeito do método infalível, descoberta
de velhos escravos, para invocar a morte na agonia, acabar com
o sofrimento. Dona Terezinha sente súbito alívio, como se
colocasse o rosto úmido de suor debaixo da torneira e sentisse a
água fria refrescar o calor da pele.
— Certo, certo. Como dizia, a gente ajeita Dona Encarnação, que
fica à espera do abraço da morte, em nome de Deus
todo-poderoso e da Santíssima Virgem Maria.
— Será que não vamos ter remorsos depois?
— Não. Já ajudei muitas pessoas. É ato piedoso.
— Está bem, então conte logo.
— Ela fica estendida na cama, lamparina de óleo acesa no
oratório para iluminar o caminho, azeite bento, basta quebrar três
ovos, retirar as claras e passar na fronte, é um remédio santo, o
caminho lubrificado se abre, florida avenida, a morte penetra leve,
no silêncio, e a alma se liberta da prisão, transforma-se em luz.
— Oh!
— Belo, muito belo!
— Pai nosso.
— Piedade, Deus!
As mulheres trocam olhares, há clima de angústia, decisão difícil,
escolha do método, mais difícil que a escolha do caixão, a
funerária apresenta várias sugestões, modelos de luxo, de
primeira, de segunda...
Uma delas levanta questão de vital importância:
— Dona Encarnação é uma pessoa solitária, não teve filhos, o
marido morreu, não tem parente, ao que consta. Bem... recebe
pensão... possui outros bens... E... isso... nós teremos de arcar
com as despesas do enterro.
70
— É mesmo.
— Puxa!
— Não tinha pensado.
— Diabo.
— Custa caro?
— Tenho solução... vocês vão achar justo...
— Qual é?
— Que tal se fizéssemos uma distribuição, entre nós, dos objetos
de Dona Encarnação? Penso que ela ficaria feliz, nós, suas
amigas, guardando as melhores recordações...
— Apoiado.
— Aprovado.
— Não há mal nenhum.
— Será que não dá galho?
— Que nada.
— Melhor nós que o governo, que fica com tudo.
— Então...
— Apenas os bens e o dinheiro que está na caixinha.
— Que caixinha?
— Uma de madeira que ela guarda na gaveta do guarda-roupa,
sabe, fui pegar uma muda de roupa e achei, deve ter uns
quarenta mil, a gente retira mil para o enterro e pronto...
— Muito justo.
— Em parcelas iguais.
— Os bens, de acordo com a predileção, sei que comadre Carola
sempre cobiçou as sapatas de prata...
— Não é bem assim, apenas gosto delas, são lindas!
— Dona Terezinha fica com os castiçais de estanho...
— Obrigada.
— Para Dona Conceição, que gosta de cozinha, o faqueiro e o
jogo de chá.
— Perfeito.
— O rádio, o liqüidificador, o anel de pedra preta...
Os bens, inventariados, foram distribuídos e repartidos em
igualdade fraterna, perfeito socialismo entre as mulheres, todas
pertencentes à Irmandade de Santo Antônio, benemérita
72
medida, afinal, sendo só, melhor que os haveres fiquem com elas,
a casa será fechada mesmo.
Decidido o destino de todas as posses as mulheres resolveram
anuir, preparam-se para abrir o caminho para a morte.
Barulho no quarto. Sobressaltam-se, pode ser ladrão, o diabo, o
padre, alguém pode ter ouvido a conversa.
Dona Encarnação aparece, como se tivesse regressado do
inferno, olhos parados, fixos:
— Fora, fora suas vagabundas, ainda vou enterrar muitas de
vocês...
73
Guido Fidelis
Histórias ásperas do dia-a-dia
Guido Fidelis é paulista de Altinópolis, onde nasceu em
1939. Jornalista atuante, com passagem pelo famoso jornal
Última Hora, Fidelis é também advogado e, claro, escritor. Autor
de diversos livros de ficção, entre contos e romances, ele define
seus textos como ”pedaços ásperos do dia-a-dia, a miséria
humana em preto-ebranco, a dança de prantos dos
desesperados”. Colaborou com diversos jornais do país como
cronista.
Sua linguagem é tão cortante como as histórias que conta. A
ironia com que revela o que se esconde por trás de cenas do
cotidiano torna seu texto um retrato sem retoques do ser humano.
O texto que você acabou de ler é fiel a essa proposta de
literatura-denúncia. Em ”Conversa de comadres à espera da
morte”, o leitor se envolve em uma trama de interesses
mesquinhos, hipocrisia e maledicência, num cenário interiorano
que poderia localizar-se em qualquer canto do mundo. Uma
revelação ao mesmo tempo perspicaz e incômoda sobre a vida
de todos nós.
Os textos de Guido Fidelis mostram as mazelas do ser humano,
sem retoques
74
Katherine Mansfield
Casa de Bonecas
Katherine Mansfield
Quando a querida sra. Hay voltou para a cidade após ter passado
uns dias com os Burnell, ela mandou para as crianças uma casa
de bonecas. Era tão grande que o entregador e Pat
carregaram-na para o quintal, e lá ela ficou, escorada em duas
caixas de madeira ao lado da porta do celeiro. Ela não poderia se
estragar: era verão. E, além disso, talvez o cheiro de tinta tivesse
desaparecido quando fosse a hora de levá-la para dentro. Pois,
realmente, o cheiro de tinta que vinha daquela casa de bonecas
(”Que encantadora a velha sra. Hay! Tão encantadora e
generosa!”)... mas o cheiro de tinta era forte o bastante para
deixar qualquer um seriamente doente, na opinião da tia Beryl.
Mesmo antes de se retirar a embalagem. E quando foi retirada...
Lá estava a casa de bonecas, de um verde escuro, oleoso,
espinafre, realçado com amarelo brilhante. Suas duas sólidas
chaminezinhas, coladas no telhado, pintadas de vermelho e
branco, e a porta, reluzente de verniz amarelo, era como uma
pequena barra de caramelo. Quatro janelas, janelas de verdade,
eram divididas em painéis por uma grossa risca verde. Havia de
fato uma pequena varanda, com grandes gomos de tinta
coagulada pendendo ao longo do beiral.
Que casinha mais perfeita! Quem iria se importar com o cheiro?
Era parte da alegria, parte da novidade.
— Alguém abra isso logo!
O gancho lateral estava preso com firmeza. Pat o fez saltar com
seu canivete e toda a frente da casa deslizou para trás
77
e... lá estavam todos, abarcando num só olhar a sala de estar e a
sala de jantar, a cozinha e os dois quartos. Esse é o jeito de uma
casa se abrir! Por que todas as casas não se abrem assim? É
muito mais excitante do que espiar pela fenda de uma porta para
ver um reles vestíbulo com um porta-chapéus e duas sombrinhas!
É isso o que se deseja saber de uma casa quando se põe a mão
na maçaneta, não é? Talvez seja desse modo que Deus abre
casas altas horas quando está dando um passeio calmo com um
anjo...
— O-oh!
As filhas dos Burnell exclamaram como se estivessem
desesperadas. Era incrivelmente maravilhoso. Era demais para
elas. Nunca tinham visto nada parecido em suas vidas. Todos os
cômodos tinham papel de parede. Havia quadros nas paredes,
pintados sobre o papel, com molduras douradas e tudo. Todo o
piso, com exceção da cozinha, era coberto de carpete vermelho.
Cadeiras de pelúcia vermelha na sala de estar, verde na sala de
jantar. Mesas, camas com lençóis de verdade, um berço, um
fogão, um aparador com minúsculos pratos e uma grande jarra.
Mas aquilo de que Kezia gostou mais, aquilo de que gostou
mesmo, foi o lampião. Ele estava no centro da mesa de jantar, um
delicado lampiãozinho de âmbar com um globo branco. Estava
inclusive cheio, prontinho para ser aceso, embora, é claro, não
fosse conveniente acendê-lo. Mas havia algo dentro dele que
parecia querosene e que se mexia quando era sacudido.
O boneco-pai e a boneca-mãe, estatelados e rijos como se
tivessem desmaiado na sala de estar, e seus dois filhinhos,
adormecidos no primeiro andar, eram na verdade grandes demais
para a casa de bonecas. Pareciam destoar ali. Mas o lampião era
perfeito. Ele parecia sorrir para Kezia, dizendolhe: ”Eu moro aqui”.
O lampião era de verdade.
As filhas dos Burnell não sabiam como ir mais depressa rumo à
escola na manhã seguinte. Ardiam por contar a todo mundo, por
descrever, por... bem... por se gabar da casa de bonecas antes
que a sineta tocasse.
78
— Eu é que vou contar — disse Isabel —, porque sou a mais
velha. Vocês duas podem falar depois. Mas eu conto primeiro.
Não havia o que contestar. Isabel era mandona, mas sempre
tinha razão, e Lottie e Kezia conheciam bem demais os poderes
que cabiam à mais velha. Passaram rapidamente pelos espessos
ranúnculos à beira da estrada sem nada dizer.
— E sou eu que vou escolher quem vai lá em casa para ver
primeiro. Mamãe disse que eu podia.
Afinal, tinha sido combinado que, enquanto a casa de bonecas
permanecesse no quintal, elas poderiam convidar as meninas da
escola, duas por vez, para vir e olhar. Não para ficar para o chá, é
claro, ou para sair fuçando pela casa. Mas só para ficarem
quietas de pé no quintal, enquanto Isabel apontava as belezas —
Lottie e Kezia pareceram satisfeitas.
Mas, apesar de toda a rapidez, no momento em que alcançaram
a cerca coberta de alcatrão do pátio dos meninos, a sineta
começou a trinar. Tiveram tempo apenas de arrancar os chapéus
e entrar na fila antes de ser feita a chamada. Não importa. Isabel
tentou compensar aquilo assumindo um ar muito importante e
misterioso e cochichando com a mão na boca para as meninas
perto de si:
— Tenho uma coisa para lhes contar no recreio. Chegou o recreio
e Isabel foi cercada. As meninas de sua classe quase brigaram
para colocar os braços em torno dela, para puxá-la de lado, para
bajulá-la com sorrisos, para ser sua melhor amiga. Uma
verdadeira corte se formara à sua volta sob os enormes pinheiros
ao lado do pátio. Acotovelando-se, dando risinhos juntas, as
meninas se apinharam perto dela. E as duas únicas que ficaram
fora do círculo foram as duas que estavam sempre de fora, as
pequenas Kelvey. Elas sabiam que era melhor não se aproximar
das Burnell.
O fato é que a escola que as filhas dos Burnell freqüentavam
estava longe de ser o tipo de lugar que seus pais teriam escolhido
se tivesse havido escolha. Mas não houve. Era a única escola
num raio de quilômetros. E a conseqüência era que
79
todas as crianças das redondezas — as filhas do juiz, as do
médico, os filhos do dono do armazém e do leiteiro — eram
forçadas a se misturar. Sem falar que também havia um número
igual de garotos rudes e grosseiros. Mas a linha divisória tinha de
ser traçada em algum lugar. E foi traçada nas Kelvey. Muitas das
crianças, incluindo as Burnell, não tinham permissão sequer de
falar com elas. Passavam pelas Kelvey com o nariz empinado, e
como elas ditavam moda em tudo o que dizia respeito a
comportamento, todo mundo evitava as Kelvey. Até mesmo a
professora tinha um tom de voz especial para elas, e um sorriso
especial para as outras crianças quando Lil Kelvey se aproximava
de sua mesa com um ramo de flores horrivelmente vulgares.
Eram filhas de uma lavadeirinha lépida e trabalhadeira, que
passava o dia todo indo de uma casa para outra. Aquilo era
terrível o bastante. Mas onde estava o sr. Kelvey? Ninguém sabia
ao certo. Mas todos diziam que estava na cadeia. Então eram
filhas de uma lavadeira e de um preso. Excelente companhia para
os filhos dos outros! E elas não negavam a raça. Era difícil
entender por que a sra. Kelvey deixava aquilo tão evidente. A
verdade é que ela as vestia com ”retalhos” dados pelas pessoas
para quem trabalhava. Lil, por exemplo, que era uma menina
corpulenta e sem graça, com grandes sardas, ia à escola com um
vestido feito de uma toalha de mesa de sarja verde dos Burnell,
com mangas de pelúcia vermelha das cortinas dos Logan. Seu
chapéu, pendurado no topo de sua testa alta, era um chapéu de
mulher adulta, antiga propriedade da srta. Lecky, funcionária do
Correio. Tinha a parte de trás virada para cima, enfeitada com
uma grande pluma escarlate. Como ela parecia um garotinho! Era
impossível não rir. E sua irmãzinha, nossa Else, usava um longo
vestido branco, que mais parecia uma camisola, e um par de
botas de menino. Mas qualquer coisa que vestisse faria nossa
Else parecer estranha. Era um gravetinho de gente, com cabelo
cortado rente e enormes olhos solenes — uma corujinha branca.
Ninguém jamais a vira sorrir, e quase nunca falava. Levava a vida
agarrada
80
à irmã, com um pedaço da saia de Lil preso à sua mão. Aonde Lil
fosse, nossa Else a seguia. No pátio, na estrada indo à escola e
voltando, lá estava Lil marchando à frente e nossa Else agarrada
atrás. Apenas quando queria alguma coisa, ou quando ficava sem
fôlego, é que nossa Else dava um puxão em Lil, e Lil parava e se
voltava. As Kelvey nunca deixavam de se entender.
Agora elas rondavam por perto; era impossível impedilas de ouvir.
Quando as meninas se voltaram e a olharam com desdém, Lil,
como de hábito, abriu seu sorriso tolo e acanhado, mas nossa
Else apenas olhou.
E a voz de Isabel, tão cheia de orgulho, continuou a contar. O
carpete causou grande sensação, mas também as camas com
lençóis de verdade e o fogão com o forno que se abria.
Quando ela terminou, Kezia interveio:
— Você esqueceu o lampião, Isabel.
— Oh, sim — disse Isabel. — E tem também um lampiãozinho,
todo feito de vidro amarelo, com um globo branco, em cima da
mesa de jantar. Dá para a gente jurar que é de verdade.
— O lampião é o melhor de tudo — gritou Kezia. Ela achava que
Isabel não estava dando ao lampiãozinho todo o crédito que ele
merecia. Mas ninguém prestou atenção. Isabel estava escolhendo
as duas que voltariam com elas à tarde para ver. Escolheu Emmie
Cole e Lena Logan. Mas quando as demais souberam que todas
teriam sua vez não sabiam o que fazer para agradar Isabel. Uma
a uma, puseram o braço em torno da cintura de Isabel e a
puxaram para o canto. Tinham algo a cochichar, um segredo:
— Isabel é minha amiga.
Só as Kelvey se afastaram, esquecidas. Para elas não havia mais
nada o que ouvir.
Os dias se passaram, e à medida que mais crianças a viam, a
fama da casa de bonecas se espalhava. Tornou-se o único
assunto, a coqueluche. A única pergunta era: ”Você viu a casa de
bonecas das Burnell? Oh, não é uma graça?” ”Você não viu? Oh,
que pena!”
81
Nem mesmo na hora de comer elas desistiam de falar daquilo. As
meninas se sentavam sob os pinheiros comendo seus fartos
sanduíches de carneiro e grandes broas de milho besuntadas de
manteiga. Enquanto isso, as Kelvey, como sempre, se sentavam
tão perto quanto podiam, nossa Else agarrada a Lil, ambas
mascando seus sanduíches de geléia, envoltos em papel-jornal
manchado com grandes borrões vermelhos...
— Mamãe — dizia Kezia —, posso convidar as Kelvey só uma
vez?
— É claro que não, Kezia.
— Mas por que não?
— Deixe disso, Kezia, você sabe muito bem por quê.
Por fim, todo mundo tinha visto a casa de bonecas, menos elas.
Por isso, naquele dia o assunto já tinha murchado. Era a hora do
lanche. As meninas estavam juntas sob os pinheiros quando, de
repente, ao olharem para as Kelvey comendo em seu
papel-jornal, sempre sozinhas, sempre ouvindo, tiveram vontade
de maltratá-las. Emmie Cole começou o fuxico:
— Lil Kelvey vai ser empregada doméstica quando crescer.
— O-oh, que horror! — disse Isabel Burnell, lançando um olhar
cúmplice para Emmie.
Emmie engoliu de um modo muito significativo e balançou a
cabeça para Isabel, como vira sua mãe fazer em tais ocasiões.
— É verdade... é verdade... é verdade — dizia ela. Então os
olhinhos de Lena Logan piscaram depressa.
— E se eu perguntar a ela? — cochichou.
— Aposto que não tem coragem — disse Jessie May.
— Ora, se não tenho — disse Lena. Subitamente, deu um gritinho
e começou a dançar diante das outras meninas. — Olhem! Olhem
para mim! Olhem só para mim! — disse Lena. E deslizando,
saltitando, arrastando um pé, rindo furtivamente, Lena chegou até
as Kelvey.
Lil desviou o olhar de seu lanche. Embrulhou o resto depressa.
Nossa Else parou de mastigar. O que ia acontecer agora?
83
— É verdade que você vai ser empregada doméstica quando
crescer, Lil Kelvey? — disse Lena com voz estridente.
Silêncio mortal. Mas, em vez de responder, Lil abriu apenas seu
sorriso tolo e acanhado. Não parecia importar-se em nada com a
pergunta. Que decepção para Lena! As meninas começaram a
abafar risinhos.
Lena não pôde agüentar aquilo. Pôs as mãos na cintura e
disparou:
— Seu pai está na cadeia, não é? — sibilou, com desprezo. Era
algo tão maravilhoso ter dito aquilo que as meninas saíram todas
em disparada, muito, muito excitadas, loucas de alegria. Alguém
achou uma corda comprida, e começaram a pular. E nunca
pularam tão alto, correndo para dentro e para fora tão rápidas,
nunca fizeram coisas tão ousadas como naquela manhã.
À tarde, Pat veio buscar as Burnell de charrete, e todos foram
para casa. Havia visitas. Isabel e Lottie, que gostavam de visitas,
subiram as escadas para trocar seus aventais. Mas Kezia
escapuliu pelos fundos. Não havia ninguém por ali. Ela começou
a balançar nos grandes portões brancos do quintal. Dentro em
pouco, olhando para a estrada, viu dois pequenos pontos. Eles
foram crescendo, vindo na direção dela. Agora ela podia ver que
um estava na frente e o outro, logo atrás. Agora podia ver que
eram as Kelvey. Kezia parou de balançar. Escorregou pelo portão
como se estivesse prestes a sair correndo. Então hesitou. As
Kelvey se aproximaram mais, e atrás delas vinham suas sombras,
muito compridas, esticando-se retas pela estrada com as cabeças
nos ranúnculos. Kezia voltou a trepar no portão; tinha tomado
uma decisão; escorregou para fora.
— Olá — disse para as Kelvey que passavam.
Elas ficaram tão atônitas que pararam. Lil abriu seu sorrisinho
tolo. Nossa Else ficou olhando fixamente.
— Vocês podem entrar e ver nossa casa de bonecas se quiserem
— disse Kezia, esfregando um dedão do pé na terra. Mas diante
daquilo Lil corou e balançou a cabeça vigorosamente.
— Por que não? — perguntou Kezia.
84
Lil respirou ofegante, depois disse:
— Sua mãe disse à nossa mãe que você não podia falar com a
gente.
— Ah, sei — disse Kezia. Ela não sabia o que responder. — Não
importa. Vocês podem entrar e ver nossa casa de bonecas do
mesmo jeito. Venham. Ninguém está vendo.
Mas Lil sacudiu a cabeça com mais força ainda.
— Você não quer? — perguntou Kezia.
De repente, houve um puxão na saia de Lil. Ela se voltou. Nossa
Else olhava para ela com grandes olhos suplicantes; franzia o
cenho; queria ir. Por um momento Lil olhou cheia de dúvida para
nossa Else. Mas então nossa Else puxou-lhe novamente a saia.
Lil deu um passo adiante. Kezia mostrou o caminho. Como dois
gatinhos perdidos, elas a seguiram pelo quintal onde estava a
casa de bonecas.
— Aí está — disse Kezia.
Houve uma pausa. Lil respirava pesadamente, quase bufando.
Nossa Else estava quieta como uma pedra.
— Vou abrir para vocês — disse Kezia, gentil. Soltou o gancho e
elas olharam para dentro.
— Aqui é a sala de estar e a sala de jantar, e ali é...
— Kezia!
Oh, que pulo elas deram!
— Kezia!
Era a voz da tia Beryl. Elas se voltaram. Na porta dos fundos
estava a tia Beryl, de olhos arregalados como se não conseguisse
acreditar no que via.
— Como se atreve a trazer as Kelvey para o quintal? — disse a
voz fria e irada. — Você sabe tanto quanto eu que não tem
permissão de falar com elas. Vão embora, meninas, vão embora
já. E não voltem mais — disse a tia Beryl. Ela então marchou para
o quintal e enxotou-as para fora como se fossem galinhas.
— Fora daqui imediatamente! — gritou, fria e orgulhosa. Não foi
preciso mandar duas vezes. Ardendo de vergonha, encolhidas
uma na outra, Lil precipitou-se para fora
85
como sua mãe fazia, enquanto nossa Else parecia atordoada.
Atravessaram como puderam o grande quintal e se espremeram
pelo portão branco.
— Menina má, desobediente! — disse amargamente a tia Beryl
para Kezia, batendo a porta da casa de bonecas.
A tarde tinha sido horrível. Chegara uma carta de Willie Brent,
uma carta terrível, ameaçadora, dizendo que se ela não fosse
encontrá-lo aquela noite em Pulman’s Bush ele viria na porta da
frente perguntar por quê! Mas agora que ela tinha espantado
aquelas ratinhas das Kelvey e dado uma boa bronca em Kezia,
seu coração parecia mais leve. Aquela pressão assustadora tinha
passado. Voltou para dentro de casa cantarolando.
Quando a casa dos Burnell ficou fora de suas vistas, as Kelvey se
sentaram para descansar sobre um grande cano vermelho na
beira da estrada. O rosto de Lil ainda ardia. Tirou o chapéu com a
pluma e o pousou no joelho. com olhar sonhador, contemplaram
por cima dos pastos de feno, na outra margem do riacho, a cerca
do curral, onde as vacas dos Logan ficavam esperando para
serem ordenhadas. Em que estavam pensando?
De repente, nossa Else cutucou de leve a irmã. Já tinha
esquecido a mulher zangada. Esticou um dedo e buliu na pluma
do chapéu de Lil. Sorriu seu raro sorriso.
— Eu vi o lampiãozinho — disse ela, devagar. Em seguida, as
duas se calaram novamente.
86
Katherine Mansfield
Uma intérprete sensível do mundo feminino
Nascida na Nova Zelândia em 1888, Katherine Mansfield
acompanhou a família em mudança para a Inglaterra, passando a
viver em Londres. Rompeu com as estreitezas de horizontes que
sua época reservava às mulheres e foi além da obrigação de
casamento e filhos: ao invés disso, Katherine freqüentou as rodas
literárias de seu tempo, convivendo com escritores como D.H.
Lawrence e Virginia Woolf. Teve uma carreira literária meteórica:
aos 23 anos lançou seu primeiro livro e aos 25, vítima de uma
tuberculose, acabou falecendo.
Katherine é considerada figura ímpar da literatura de língua
inglesa, principalmente no gênero do conto. Costuma focalizar em
sua obra episódios corriqueiros e personagens comuns,
retratando-os com extrema sensibilidade. Em seus contos nota-se
a influência de Anton Tchekhov, escritor russo (1860-1904), já
que, assim como ele, Katherine também detém-se nos pequenos
detalhes que compõem o ser humano. É o universo feminino,
sobretudo, que ganha realcê
Katherine Mansfield rompeu os padrões de sua época ao
freqüentar salões literários.
87
em seus livros, fazendo o leitor contemplar aspectos incomuns do
ser humano.
Nos textos de Katherine Mansfield diferentes desejos e sonhos
entram em conflito, numa espécie de revelação súbita e
surpreendente do mistério da vida, como você pôde verificar em
”A casa de bonecas”.
88
Lima Barreto
A nova Califórnia
Lima Barreto
Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio
pudera apenas informar que acudia ao nome de Raimundo
Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia.
E era grande. Quase diariamente, o carteiro lá ia a um dos
extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando
um maço alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas
revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...
Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do
novo habitante, todos na venda perguntaram-lhe que trabalho lhe
tinha sido determinado.
— Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga ao saber
de tão extravagante construção: um forno na sala de jantar! E,
pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de
vidros, facas sem corte, copos como os da farmácia — um rol de
coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como
utensílios de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo
cozinhasse.
O alarme se fez na vila. Para uns, os mais adiantados, era um
fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um
tipo que tinha parte com o tinhoso.
Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do
homem misterioso, ao lado do carro a chiar, e olhava a chaminé
da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar
um ”credo” em voz baixa; e, não fora a intervenção
91
do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa
daquele indivíduo suspeito, que inquietava a imaginação de toda
uma população.
Tomando em consideração as informações de Fabrício, o
boticário Bastos concluíra que o desconhecido devia ser um
sábio, um grande químico, refugiado ali para mais
sossegadamente levar avante os seus trabalhos científicos.
Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico
também, porque o doutor Jerônimo não gostava de receitar e se
fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de
Bastos levou tranqüilidade a todas as consciências e fez com que
a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do
grande químico que viera habitar a cidade.
De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga,
sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente as águas claras do
riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo,
todos se descobriam e não era raro que às ”boas noites”
acrescentassem ”doutor”. E tocava muito o coração daquela
gente a profunda simpatia com que ele tratava as crianças, a
maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que
elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a
bondade de Messias com que ele afagava aquelas crianças
pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no
seu cativeiro moral, e também as brancas, de pele baça, gretada
e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos
trópicos.
Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter
Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua ternura com Paulo e
Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam...
Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o
era unicamente porque havia alguém que não tinha em grande
conta os méritos do novo habitante.
Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de
Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista,
embirrava com o sábio. ”Vocês hão de ver, dizia ele, quem é esse
92
tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do
Rio.”
A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu
oculto despeito vendo na terra um rival para a fama de sábio de
que gozava. Não que Felino fosse químico, longe disso; mas era
sábio, era gramático. Ninguém escrevia em Tubiacanga que não
levasse bordoada do Capitão Felino, e mesmo quando se falava
em algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer:
”Não há dúvida. O homem tem talento, mas escreve: ’um outro’,
’de resto’...” E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma
coisa amarga.
Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene
Felino, que corrigia e emendava as maiores glórias nacionais. Um
sábio...
Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Cândido de
Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter passado mais uma vez a
tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente
de casa, muito abotoado no seu paletó de brim mineiro, e
encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dois dedos de
prosa. Conversar é um modo de dizer, porque era Felino avaro de
palavras, limitando-se tão-somente a ouvir. Quando, porém, dos
lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem,
intervinha e emendava. ”Eu asseguro, dizia o agente do Correio,
que...” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude
evangélica: ”Não diga ’asseguro’, Senhor Bernardes; em
português é ’garanto’”.
E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo
interrompida por uma outra. Por essas e outras, houve muitos
palestradores que se afastaram, mas Felino, indiferente, seguro
dos seus deveres, continuava o seu apostolado de vernaculismo.
A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo
o seu esforço voltava-se agora para combater aquele rival, que
surgia tão inopinadamente.
Foram vãs as suas palavras e a sua eloqüência: não só
Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas, como era
generoso — pai da pobreza —, e o farmacêutico vira numa revista
de específicos seu nome citado como químico de valor.
93
— Uma descoberta... Mas não me convém, por ora, comunicar ao
mundo sábio, compreende?
— Perfeitamente.
— Por isso precisava de três pessoas conceituadas que fossem
testemunhas de uma experiência dela e me dessem um atestado
em firma, para resguardar a prioridade da minha invenção... O
senhor sabe: há acontecimentos imprevistos e...
— Certamente! Não há dúvida!
— Imagine o senhor que se trata de fazer ouro...
— Como? O quê?, fez Bastos, arregalando os olhos.
— Sim! Ouro!, disse, com firmeza, Flamel.
— Como?
— O senhor saberá, disse o químico secamente. A questão do
momento são as pessoas que devem assistir à experiência, não
acha?
— com certeza, é preciso que os seus direitos fiquem
resguardados, porquanto...
— Uma delas, interrompeu o sábio, é o senhor; as outras duas, o
Senhor Bastos fará o favor de indicar-me.
O boticário esteve um instante a pensar, passando em revista os
seus conhecimentos e, ao fim de uns três minutos, perguntou:
— O Coronel Bentes lhe serve? Conhece?
— Não. O senhor sabe que não me dou com ninguém aqui.
— Posso garantir-lhe que é homem sério, rico e muito discreto.
— É religioso? Faço-lhe esta pergunta, acrescentou Flamel logo,
porque temos que lidar com ossos de defunto e só estes
servem...
— Qual! É quase ateu...
— Bem! Aceito. E o outro?
Bastos voltou a pensar e dessa vez demorou-se um pouco mais
consultando a sua memória... Por fim, falou:
— Será o Tenente Carvalhais, o coletor, conhece?
94
II
Havia já anos que o químico vivia em Tubiacanga quando, uma
bela manhã, Bastos o viu entrar pela botica adentro. O prazer do
farmacêutico foi imenso. O sábio não se dignara até aí visitar
fosse quem fosse e, certo dia, quando o sacristão Orestes ousou
penetrar em sua casa, pedindo-lhe uma esmola para a futura
festa de Nossa Senhora da Conceição, foi com visível enfado que
ele o recebeu e atendeu.
Vendo-o, Bastos saiu de detrás do balcão, correu a recebê-lo com
a mais perfeita demonstração de quem sabia com quem tratava e
foi quase em uma exclamação que disse:
— Doutor, seja bem-vindo.
O sábio pareceu não se surpreender nem com a demonstração
de respeito do farmacêutico, nem com o tratamento universitário.
Docemente, olhou um instante a armação cheia de medicamentos
e respondeu:
— Desejava falar-lhe em particular, Senhor Bastos.
O espanto do farmacêutico foi grande. Em que poderia ele ser útil
ao homem, cujo nome corria mundo e de quem os jornais falavam
com tão acendrado respeito? Seria dinheiro? Talvez... Um atraso
no pagamento das rendas, quem sabe? E foi conduzindo o
químico para o interior da casa, sob o olhar espantado do
aprendiz que, por um momento, deixou a ”mão” descansar no
gral, onde macerava uma tisana qualquer.
Por fim, achou ao fundo, bem no fundo, o quartinho que lhe servia
para exames médicos mais detidos ou para as pequenas
operações, porque Bastos também operava. Sentaram-se e
Flamel não tardou a expor:
— Como o senhor deve saber, dedico-me à química, tenho
mesmo um nome respeitado no mundo sábio...
— Sei perfeitamente, doutor, mesmo tenho disso informado, aqui,
aos meus amigos.
— Obrigado. Pois bem: fiz uma grande descoberta,
extraordinária...
Envergonhado com o seu entusiasmo, o sábio fez uma pausa e
depois continuou:
95
— Como já lhe disse...
— É verdade. É homem de confiança, sério, mas...
— Que é que tem?
— É maçom.
— Melhor.
— E quando é?
— Domingo. Domingo, os três irão lá em casa assistir à
experiência e espero que não me recusarão as suas firmas para
autenticar a minha descoberta.
— Está tratado.
Domingo, conforme prometeram, as três pessoas respeitáveis de
Tubiacanga foram à casa de Flamel, e, dias depois,
misteriosamente, ele desaparecia sem deixar vestígios ou
explicação para o seu desaparecimento.
in
Tubiacanga era uma pequena cidade de três ou quatro mil
habitantes, muito pacífica, em cuja estação, de onde em onde, os
expressos davam a honra de parar. Havia cinco anos não se
registrava nela um furto ou roubo. As portas e janelas só eram
usadas... porque o Rio as usava.
O único crime notado em seu pobre cadastro fora um assassinato
por ocasião das eleições municipais; mas, atendendo que o
assassino era do partido do governo, e a vítima da oposição, o
acontecimento em nada alterou os hábitos da cidade,
continuando ela a exportar o seu café e a mirar as suas casas
baixas e acanhadas nas escassas águas do pequeno rio que a
batizara.
Mas qual não foi a surpresa dos seus habitantes quando se veio a
verificar nela um dos repugnantes crimes de que se tem memória!
Não se tratava de um esquartejamento ou parricídio; não era o
assassinato de uma família inteira ou um assalto à coletoria; era
coisa pior, sacrílega aos olhos de todas
96
as religiões e consciências: violavam-se as sepulturas do
”Sossego”, do seu cemitério, do seu campo-santo.
Em começo, o coveiro julgou que fossem cães, mas, revistando
bem o muro, não encontrou senão pequenos buracos. Fechou-os;
foi inútil. No dia seguinte, um jazigo perpétuo arrombado e os
ossos saqueados; no outro, um carneiro e uma sepultura rasa.
Era gente ou demônio. O coveiro não quis mais continuar as
pesquisas por sua conta, foi ao subdelegado e a notícia
espalhou-se pela cidade.
A indignação na cidade tomou todas as feições e todas as
vontades. A religião da morte precede todas e certamente será a
última a morrer nas consciências. Contra a profanação, clamaram
os seis presbiterianos do lugar — os bíblicos, como lhes chama o
povo; clamava o Agrimensor Nicolau, antigo cadete, e positivista
do rito Teixeira Mendes; clamava o Major Camanho, presidente
da Loja Nova Esperança; clamavam o turco Miguel Abudala,
negociante de armarinho, e o cético Belmiro, antigo estudante,
que vivia ao deus-dará, bebericando parati nas tavernas. A
própria filha do engenheiro residente da estrada de ferro, que
vivia desdenhando aquele lugarejo, sem notar sequer os suspiros
dos apaixonados locais, sempre esperando que o expresso
trouxesse um príncipe a desposá-la — a linda e desdenhosa Cora
não pôde deixar de compartilhar da indignação e do horror que tal
ato provocara em todos do lugarejo. Que tinha ela com o túmulo
de antigos escravos e humildes roceiros? Em que podia
interessar aos seus lindos olhos pardos o destino de tão humildes
ossos? Porventura o furto deles perturbaria o seu sonho de fazer
radiar a beleza de sua boca, dos seus olhos e do seu busto nas
calçadas do Rio?
Decerto, não; mas era a Morte, a Morte implacável e onipotente,
de que ela também se sentia escrava, e que não deixaria um dia
de levar a sua linda caveirinha para a paz eterna do cemitério. Aí
Cora queria os seus ossos sossegados, quietos e comodamente
descansando num caixão bem-feito e num
97
túmulo seguro, depois de ter sido a sua carne encanto e prazer
dos vermes...
O mais indignado, porém, era Felino. O professor deitara artigo de
fundo, imprecando, bramindo, gritando: ”Na história do crime,
dizia ele, já bastante rica de fatos repugnantes, como sejam: o
esquartejamento de Maria de Macedo, o estrangulamento dos
irmãos Fuoco, não se registra um que o seja tanto como o saque
às sepulturas do ’Sossego’”.
E a vila vivia em sobressalto. Nas faces não se lia mais paz; os
negócios estavam paralisados; os namoros suspensos. Dias e
dias por sobre as casas pairavam nuvens negras e, à noite, todos
ouviam ruídos, gemidos, barulhos sobrenaturais... Parecia que os
mortos pediam vingança...
O saque, porém, continuava. Toda noite eram duas, três
sepulturas abertas e esvaziadas de seu fúnebre conteúdo. Toda a
população resolveu ir em massa guardar os ossos dos seus
maiores. Foram cedo, mas, em breve, cedendo à fadiga e ao
sono, retirou-se um, depois outro e, pela madrugada, já não havia
nenhum vigilante. Ainda nesse dia o coveiro verificou que duas
sepulturas tinham sido abertas e os ossos levados para destino
misterioso.
Organizaram então uma guarda. Dez homens decididos juraram
perante o subdelegado vigiar durante a noite a mansão dos
mortos.
Nada houve de anormal na primeira noite, na segunda e na
terceira; mas, na quarta, quando os vigias já se dispunham a
cochilar, um deles julgou lobrigar um vulto esgueirando-se por
entre a quadra dos carneiros. Correram e conseguiram apanhar
dois dos vampiros. A raiva e a indignação, até aí sopitadas no
ânimo deles, não se contiveram mais e deram tanta bordoada nos
macabros ladrões, que os deixaram estendidos como mortos.
A notícia correu logo de casa em casa e, quando, de manhã, se
tratou de estabelecer a identidade dos dois malfeitores, foi diante
da população inteira que foram neles reconhecidos o Coletor
Carvalhais e o Coronel Bentes, rico fazendeiro e presidente
98
da Câmara. Este último ainda vivia e, a perguntas repetidas que
lhe fizeram, pôde dizer que juntava os ossos para fazer ouro e o
companheiro que fugira era o farmacêutico.
Houve espanto e houve esperanças. Como fazer ouro com
ossos? Seria possível? Mas aquele homem rico, respeitado, como
desceria ao papel de ladrão de mortos se a coisa não fosse
verdade!
Se fosse possível fazer, se daqueles míseros despojos fúnebres
se pudesse fazer alguns contos de réis, como não seria bom para
todos eles!
O carteiro, cujo velho sonho era a formatura do filho, viu logo ali
meios de consegui-la. Castrioto, o escrivão do juiz de paz, que no
ano passado conseguiu comprar uma casa, mas ainda não a
pudera cercar, pensou no muro, que lhe devia proteger a horta e
a criação. Pelos olhos do sitiante Marques, que andava desde
anos atrapalhado para arranjar um pasto, pensou logo no prado
verde do Costa, onde os seus bois engordariam e ganhariam
forças...
Às necessidades de cada um, aqueles ossos que eram ouro
viriam atender, satisfazer e felicitá-los; e aqueles dois ou três
milhares de pessoas, homens, crianças, mulheres, moços e
velhos, como se fossem uma só pessoa, correram à casa do
farmacêutico.
A custo, o subdelegado pôde impedir que varejassem a botica e
conseguir que ficassem na praça, à espera do homem que tinha o
segredo de toda uma Potosí1. Ele não tardou a aparecer.
Trepado a uma cadeira, tendo na mão uma pequena barra de
ouro que reluzia ao forte sol da manhã, Bastos pediu graça,
prometendo que ensinaria o segredo, se lhe poupassem a vida.
”Queremos já sabê-lo”, gritaram. Ele então explicou que era
preciso redigir a receita, indicar a marcha do processo, os reativos
— trabalho longo que só poderia ser entregue impresso
1 Potosí, no sul da Bolívia, outrora era considerada a cidade mais
rica da América por extrair grande quantidade de prata de suas
minas. (N.E.)
100
no dia seguinte. Houve um murmúrio, alguns chegaram a gritar,
mas o subdelegado falou e responsabilizou-se pelo resultado.
Docemente, com aquela doçura particular às multidões furiosas,
cada qual se encaminhou para casa, tendo na cabeça um único
pensamento: arranjar imediatamente a maior porção de ossos de
defunto que pudesse.
O sucesso chegou à casa do engenheiro residente da estrada de
ferro. Ao jantar, não se falou em outra coisa. O doutor concatenou
o que ainda sabia do seu curso e afirmou que era impossível. Isto
era alquimia, coisa morta: ouro é ouro, corpo simples, e osso é
osso, um composto, fosfato de cal. Pensar que se podia fazer de
uma coisa outra era ”besteira”. Cora aproveitou o caso para rir-se
petropolimente da crueldade daqueles botocudos; mas sua mãe,
Dona Emília, tinha fé que a coisa era possível.
À noite, porém, o doutor, percebendo que a mulher dormia, saltou
a janela e correu em direitura do cemitério; Cora, de pés nus, com
as chinelas nas mãos, procurou a criada para irem juntas à
colheita de ossos. Não a encontrou, foi sozinha; e Dona Emília,
vendo-se só, adivinhou o passeio e lá foi também. E assim
aconteceu na cidade inteira. O pai, sem dizer nada ao filho, saía;
a mulher, julgando enganar o marido, saía; os filhos, as filhas, os
criados — toda a população, sob a luz das estrelas assombradas,
correu ao satânico rendezvous no ”Sossego”. E ninguém faltou. O
mais rico e o mais pobre lá estavam. Era o turco Miguel, era o
professor Pelino, o doutor Jerônimo, o Major Camanho, Cora, a
linda e deslumbrante Cora, com os seus lindos dedos de
alabastro, revolvia a sânie das sepulturas, arrancava as carnes,
ainda podres, agarradas tenazmente aos ossos e deles enchia o
seu regaço até ali inútil. Era o dote que colhia e as suas narinas,
que se abriam em asas rosadas e quase transparentes, não
sentiam o fétido dos tecidos apodrecidos em lama fedorenta...
A desinteligência não tardou a surgir; os mortos eram poucos e
não bastavam para satisfazer a fome dos vivos. Houve
101
facadas, tiros, cachações. Felino esfaqueou o turco por causa de
um fêmur e mesmo entre as famílias questões surgiram.
Unicamente o carteiro e o filho não brigaram. Andaram juntos e
de acordo e houve uma vez que o pequeno, uma esperta criança
de onze anos, até aconselhou ao pai: ”Papai, vamos aonde está
mamãe; ela era tão gorda...”
De manhã, o cemitério tinha mais mortos do que aqueles que
recebera em trinta anos de existência. Uma única pessoa lá não
estivera, não matara nem profanara sepulturas: fora o bêbado
Belmiro.
Entrando numa venda, meio aberta, e nela não encontrando
ninguém, enchera uma garrafa de parati e se deixara ficar a beber
sentado na margem do Tubiacanga, vendo escorrer mansamente
as suas águas sobre o áspero leito de granito — ambos, ele e o
rio, indiferentes ao que já viram, mesmo à fuga do farmacêutico,
com a sua Potosí e o seu segredo, sob o dossel eterno das
estrelas.
10-11-1910
102
Lima Barreto
A voz e a vez da periferia
Afonso Henrique de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro em
1881 e lá faleceu em
1922. Mulato, pobre e com graves problemas de saúde, sofreu na
sociedade ainda preconceituosa e com resquícios
Homens escravocratas do começo do século XX.
Não obstante seu afastamento das rodas literárias daquele
tempo, em que os autores se encontravam em cafés e
confeitarias para discutir literatura (tudo muito distante do
universo periférico de Lima Barreto, que ainda trabalhava como
funcionário público para sustentar a família), ele escreveu uma
obra extensa e variada, sendo hoje considerado um dos
escritores mais importantes da língua portuguesa. Não foi, claro,
quase reconhecido na época. Na verdade, seus textos cheios de
veracidade e críticas sociais eram antes vistos como incômodos
por muita gente.
com sua literatura tornou-se um renovador da nossa prosa, para a
qual trouxe um tom coloquial e despretensioso, além de atuar
como porta-voz de uma camada da população
Lima Barreto fez uma literatura critica, expondo os contrastes da
sociedade
103
até então ausente da literatura: os pobres, os oprimidos, os
discriminados.
O conto ”A Nova Califórnia” mergulha o leitor na vida de uma
cidadezinha do interior brasileiro, onde valores éticos são postos
à prova a partir da chegada de uma misteriosa personagem e a
promessa de riqueza fácil. Como sempre uma visão irônica e
mordaz do comportamento humano.
Lima Barreto faleceu no Rio de Janeiro em 1922, vítima de um
colapso cardíaco.
104
Lourenço Diaféria
Os gatos pardos da noite
Lourenço Diaféria
A batida policial para agarrar o ladrão aconteceu logo no começo
da madrugada. As informações diziam que o homem se escondia
ali no barraco de tábuas, onde dormia com os olhos abertos, os
bolsos recheados de munição e dois revólveres de prontidão.
Àquela hora ainda estava muito escuro, porque na pirambeira não
havia luz de mercúrio nas ruas, nem nada. O céu também não
tinha a mínima lua.
Cautelosamente os tiras saltaram da viatura com as armas
embaladas e bateram na porta do barraco suspeito.
— Abram, é a polícia.
Dentro do barraco, Maria do Rosário, dezenove anos, acordou
assustada e se pôs a tremer como uma bobinha. Não podia
imaginar o que a autoridade queria com eles assim tão tarde.
Chamou o marido.
Estremunhando, ele demorou a entender o que a mulher falava e
o que os homens gritavam lá fora. Sentou na cama, esfregou os
olhos. Acordava muito cedo, mas o corpo moído de cansaço
sabia que ainda não era a hora de levantar.
Estavam agora batendo perto da janela. E nos fundos da casa.
Parecia que o barraco estava cercado. O marido não podia
acreditar que fosse a polícia. Por isso não ia abrir porta nenhuma,
não era louco, tinha mulher em casa, e filho.
107
Devia ser o mesmo bando de arruaceiros que ficava enchendo a
cara na biboca e viera ali querendo puxar briga. Mas ele não ia
dar corda. Além disso, estava em desvantagem.
A violência das pancadas aumentou. Alguém chutava a porta do
barraco.
O marido de Maria do Rosário costumava dormir com um calção
folgado amarrado na cintura por um cordão de tecido. O marido
suspendeu e ajustou o calção, tratando de tatear um pedaço de
pau qualquer para escorar os trancos na porta. Não teve tempo
de se levantar. A folha de madeira cedeu, deixando entrar no
cômodo abafado um pouco de luz amarela. O homem se abaixou
instintivamente, como um bicho. Os pêlos de seus braços
estavam molhados de medo. Cachorros vira-latas faziam bulha ao
longe, mas ele somente percebeu os latidos quando um silêncio
estranho tomou conta de tudo. Sentia-se a respiração que vinha
de fora.
O rosto do homem fixava o quadro da porta, onde a qualquer
momento ia aparecer um lobisomem. Maria do Rosário levou a
mão direita ao rosto, sem saber se tapava a boca ou os olhos. Na
cama, a criança iniciou o berreiro.
De repente a luz amarela se apagou. Os tiras se jogaram para
dentro do barraco, despejando fogo. Não houve reação, a não ser
gritos e mais choro.
Nesse exato momento uma pequena bala de chumbo, entre
outras, era expulsa do tambor e começava a movimentar-se no
túnel raiado do cano de um revólver oxidado. Como se tivesse
asas, a bala saltou na escuridão e voou imperceptivelmente como
o zumbido inocente de uma mosca. O vôo foi tão rápido e seco
que cortou um gemido ao meio.
Depois disso a viatura dos investigadores encostou no barraco
com os faróis ligados. Maria do Rosário apertou o botão da pêra e
acendeu a lâmpada de quarenta velas.
O esparramo não tinha respeitado nem o penico.
O homem de calção estava coberto por uma curiosa cor
levemente esverdeada. Suas mãos estavam presas por algemas.
Apontou com o dedo a carteira de trabalho no fundo da gaveta da
cômoda.
108
Não era o ladrão, embora tivesse a cara assustada de um vulgar
ladrão.
Um dos policiais pensou em pedir desculpas pelo engano.
Maria do Rosário se aproximou do berço.
com um pequeno furo na cabeça, onde se alojara a bala, seu filho
Claudemir, de dezoito meses, acabava de morrer. Um fio de
sangue escorria; a chupeta caíra da boca no chão de terra batida.
Nenhum deles se sentia exatamente o culpado de nada, porque a
bala não tinha dono único. O dedo no gatilho fora uma operação
de rotina, como uma cirurgia de ablação. Às vezes até os
doutores cortam a perna errada. Tecnicamente, não passara de
um trabalho de equipe concluído bisonhamente. Lamentável,
porém compreensível.
Mais tarde, o policial tomaria café com sua esposa e os filhos e
explicaria: foi um acidente.
E completaria: à noite todos os gatos são pardos.
Dormiria algumas horas, faria a barba, tomaria banho. Deixaria a
água escorrer pelo corpo, lavaria os cabelos com xampu contra
caspa.
Diante do espelho levaria um susto: começava a ficar careca.
Era o fim.
Sua mulher trouxe o jornal:
— Você viu o que estão falando?
Seu coração disparou. Procurou entre as notícias qualquer coisa
que o arrancasse daquela ansiedade. Não ia agüentar muito
tempo a estúpida tensão. Mas o anúncio lá estava, no alto da
página, limpando a barra:
”O professor Norman Orentreich, da Universidade de Nova York,
anunciou publicamente que no máximo dentro de dois anos será
descoberto o remédio para a cura da calvície, graças às recentes
pesquisas sobre o androgênio, hormônio feminino que atua no
crescimento dos cabelos”.
Sorriu tranqüilo. E perguntou à mulher o que tinha para o almoço.
110
Lourenço Diaféria
Histórias da cidade grande
Nascido em 1933, no bairro paulistano do Brás, Lourenço Diaféria
confessa ser irremediavelmente apaixonado por sua cidade. Da
infância rigorosamente urbana guarda imagens de sua
convivência com os ferroviários da antiga Central do Brasil, cujos
trilhos corriam vizinhos ao seu quintal.
As levas de migrantes que desembarcavam na Estação do Norte
e passavam diante de sua casa, assim como os costumes
peculiares que assinalavam as festas do bairro, acabaram por
imprimir e misturar tons de melancolia e humor em suas
narrativas paulistanas. Jornalista de longa data, Diaféria capta
cenas curiosas, singelas e dramáticas em meio ao cotidiano
contraditório de São Paulo.
Lourenço Diaféria costuma contar que em suas caminhadas pela
cidade aproveita para observar os desvãos da cidade e seus
habitantes anônimos, que são, certamente, seus temas
preferidos.
A maior inspiração de Lourenço Diaféria para escrever seus
textos é a cidade de São Paulo.
111
O texto de Diaféria constrói uma realidade feita de concreto,
poluição, violência e um ritmo vertiginoso de acontecimentos e de
emoções, comum à vida nas grandes cidades. E essa radiografia
paulistana é a marca de suas crônicas tanto para jornais e rádio
quanto para os livros que escreve. Em todas elas, Lourenço
evidencia o tom emotivo com que descreve os detalhes das
cenas cotidianas.
112
Artur Azevedo
O Custodinho
Artur Azevedo
Quando rebentou a revolta de 6 de setembro de 1831, o Sr.
Menezes, empregado público, mostrou-se na sua repartição de
uma reserva prudente, mas em casa, no seio da família, era de
um custodio feroz.
— Oh! o Custódio!... Aquele é o meu homem!...
Em 9 de setembro o entusiasmo do Sr. Menezes esfriou
consideravelmente: havia já dois dias que contava com o seu
homem no palácio de Itamaraty; mas no dia 13, depois do famoso
bombardeio que pôs a população em sobressalto, voltaram-lhe os
ímpetos do primeiro dia.
Na madrugada de 14 ele saiu de casa expressamente para
escrever a carvão no muro branco de uma chácara próxima: ”O
Custódio na ponta!”
”De uma baioneta!” — acrescentou no dia seguinte, também a
carvão, um florianista igualmente anônimo; e a pilhéria de tal
forma exacerbou o Sr. Menezes, que dona Augusta, sua
desvelada esposa, teve um susto ao vê-lo entrar em casa
desfigurado e apoplético.
1 Nesta data teve início o episódio nacional conhecido como a
Revolta da Armada Liderado pelo almirante Custódio José de
Melo (1840-1902), o movimento visava derrubar o então
presidente Floriano Peixoto (1839-1895), que acabou vencendo
os conspiradores. O fato de Floriano governar com austeridade,
mais a situação tensa que vivia o Brasil com a iniciante Republica
levaram ao fanatismo político tanto os seguidores de Floriano
quanto seus adversários (N E )
115
Daí em diante começou para o Sr. Menezes uma existência de
oscilação política.
Quando pela primeira vez o Aquidaban saiu barra fora, o nosso
homem quase endoideceu de alegria; levou o entusiasmo ao
ponto de esvaziar, à sobremesa, em família, uma velhíssima
garrafa de vinho do Porto, que havia muitos anos esperava um
momento de grande júbilo para ser desarrolhada.
Entretanto, qualquer contratempo que sofressem os revoltosos
acabrunhava-o profundamente. As explosões do Mocanguê e da
ilha do Governador puseram-no de cama; o sossobro do Javary
fê-lo ficar taciturno e sorumbático durante oito dias; o combate da
Armação tirou-lhe completamente o apetite.
Por esse tempo já o almirante Custódio José de Melo deixara de
ser o ídolo do Sr. Menezes, que lhe não perdoava o ter partido
para o Sul, deixando a ”esquadra libertadora” tão mal defendida
no porto do Rio de Janeiro.
Num dia em que dona Augusta — que nada entendia de política e
era custodista apenas em virtude do preceito divino que manda a
mulher acompanhar o marido — num dia em que dona Augusta,
dizíamos, se referiu à ”esquadra de papelão, que não entrava
nem nada”, o Sr. Menezes atalhou furioso:
— Qual papelão! Isso é uma história! De papelão sou eu, que
tomei o Custódio a sério!
Depois dessa frase, desse grito do coração, que causou grande
pasmo à família do Sr. Menezes, ninguém mais em casa o ouviu
em assuntos políticos. Eram uns restos de pudor, porque na
repartição — onde até então recusara manifestar-se — ele já se
mostrava partidário decidido do governo, e muitos colegas o
consideravam jacobino.
116
A pobre senhora estava para cada hora. O marido, nos momentos
em que qualquer sucesso das armas revoltosas o punha de bom
humor, dava-lhe no ventre umas pancadinhas de afeto, e dizia:
— Há de ser um custodista enragél
Quando dona Augusta deu à luz um rapagão que parecia ter já
um mês de nascido, o Sr. Menezes convidou imediatamente para
padrinho da criança o comendador Baltazar, que também
manifestava grande simpatia pela revolta, dizendo sempre que
era estrangeiro e nada tinha com isso.
— Comendador, disse-lhe o Sr. Menezes, compete-lhe, como
padrinho, escolher o nome que o pequeno há de receber na pia
batismal; permita, entretanto, que lhe lembre um...
— Qual?
— Custódio.
— Bravo!, aprovou o padrinho; não é um bonito nome, mas é
nome de um grande homem, de um brasileiro ilustre, de um
valente marinheiro!
— Então está dito? Custódio?
— Custódio.
No dia seguinte o comendador Baltazar, com medo de que
alguma bala lhe desse cabo do canastro, tomou o trem para
Minas.
— Só estarei de volta depois de terminado este lamentável
estado de coisas. Quando eu regressar, batizaremos o
Custodinho.
117
O Custodinho ia se desenvolvendo ao troar da artilharia fratricida,
e dona Augusta mostrava-se bastante contrariada pela demora do
batizado. O comendador Baltazar continuava em Minas.
— Meu Deus! quando se batizará ao Custodinho?, perguntava ela
de instante a instante.
Todas as vezes que ouvia esse nome, o Sr. Menezes tinha um
olhar oblíquo, inexprimível; mas calava-se, para não dar o braço a
torcer, para que em casa não dissessem que ele pensava hoje
uma coisa e amanhã outra.
Chegou, afinal, o memorável dia 13 de março, e o Sr. Menezes,
certo que ia haver no porto do Rio de Janeiro um combate
sanguinolento e horroroso, meteu-se com a família num dos
hospitaleiros galpões que a Intendência Municipal mandou
construir nos subúrbios para abrigo da população.
Como tantos outros, o pai do Custodinho imaginou que o barulho
produzido pela pólvora seca da vitória fosse um tiroteio medonho,
e, enquanto ouviu tiros ao longe, guardou um silêncio profundo,
mostrando-se apreensivo e inquieto.
Caiu-lhe a alma aos pés (se é que ele a tinha) quando no dia
seguinte se convenceu de que os revoltosos haviam se refugiado
a bordo do Mindello.
Ainda assim, não se manifestou diante de dona Augusta,
testemunha implacável do seu custodismo intransigente. O Sr.
Menezes receava que a família fizesse um juízo desfavorável ao
seu caráter.
Poucos dias depois, o comendador Baltazar voltava de Minas, e
ia ter com o pai da criança.
119
— Aqui estou de torna-viagem, meu caro compadre; quando
quiser, batizemos o Custodinho.
Enquanto pôde, o Sr. Menezes protelou o batizado, mas dona
Augusta, impaciente de ver o pimpolho livre do pecado original,
exigiu formalmente que a cerimônia se realizasse o mais
depressa possível.
Assim foi. Marcou-se, afinal, o dia do batizado, e esse dia chegou.
No momento em que os padrinhos e a família entravam nos
carros que os deviam levar à igreja, o Sr. Menezes recebeu, por
um vizinho, a notícia de que o almirante Custódio abandonara
também o Rio Grande. Coitado! Metia dó!
Na igreja. Estão todos em volta da pia batismal. Aparece o vigário
e dá começo à cerimônia. No momento oportuno volta-se para o
padrinho e pergunta:
— O nome da criança?
— Custódio, responde o comendador Baltazar.
— Perdão!, exclama o Sr. Menezes com um esforço supremo, o
pequeno chama-se Floriano.
120
Artur Azevedo
Um retrato bem-humorado do nosso país
Irmão do também escritor Aluísio Azevedo, Artur Azevedo nasceu
em 1855 em São Luís do Maranhão, mas viveu durante anos no
Rio de Janeiro. Lá, escreveu quase duzentas peças de teatro que
divertiam as platéias da então capital do país. Juntamente com
Machado de Assis, ele foi um dos fundadores da Academia
Brasileira de Letras, em 1896.
Inspirada no dia-a-dia de gente comum e na vida política
brasileira, a obra de Artur Azevedo é marcada quase sempre pela
bem-humorada crítica de costumes. Além de peças teatrais,
escreveu pequenos textos humorísticos, como o que você leu
aqui.
Ao representar saborosamente a oscilação das opções políticas
do protagonista de ”Custodinho”, Artur Azevedo o torna exemplo
de uma incrível (e atual) inconstância ideológica. Faleceu em
1906, no Rio de Janeiro, deixando uma obra importante para o
teatro nacional.
Os textos bem-humorados de Azevedo estão cheios de críticas à
sociedade.
121
Paloma
Álvaro Cardoso Gomes
Bauru, 20 de Fevereiro de 1975 querida mamãe:
E
Espero que esta vá encontrá-la gozando saúde como é o meu
maior desejo. Estou cheio de saudades da senhora, e a todo
momento rezo a Deus para que me perdoe do grande desgosto
que lhe dou. Mas, apesar de tudo, sou ainda o filho que muito lhe
quer e que só a fatalidade empurrou para o abismo. Reze por
mim, mamãe, pois sofro muito e pago as penas de outros, neste
grande mundo de sofrimento, dor e injustiças. A finalidade desta é
pedir-lhe ajuda, bem como esclarecer o meu triste caso que os
jornais insistiram, na sede de sangue, em transformar em
escabrosidade. Da última vez que nos vimos, senti-me
embargado pela emoção (Lembra-se de como choramos um nos
braços do outro?) e incapaz de contar-lhe um pouquinho que
fosse de meu caso. Mas hoje boto os pingos nos is e tenho
certeza de que compreenderá o seu infausto filho, vendo que me
portei à altura dos acontecimentos. Afinal, o Dr. Naércio teve o
que merecia. Sempre me perseguiu, sem levar em conta minhas
qualidades profissionais. Um dia, lá mesmo, no ”Rodrigues Alves”,
me disse que eu podia ter mais tempo de casa, mas que as aulas
da noite eram da Neuza que só tem diploma primário. O Dr.
Naércio era useiro e vezeiro em proteger seus apaniguados.
Dava-me as piores classes; lembra-se quando lhe falei daquele
cafajeste,
125
o Luís Américo, filho do Prefeito? Pois bem, me desfeiteou na
frente dele. Onde teria eu autoridade para controlar a 3a B?
Depois ainda do caso com Paloma... e a coisa ficou horrível.
Embora me proibisse, mamãe, que tocasse no nome dela, minha
honra de homem e a vontade que tenho de esclarecer as coisas
me impedem que o faça. Mas deixo isto para depois, o importante
é que a senhora fale com o Tio Mazinho. Ele tem grande
influência política e pode me ajudar. Quando falaram que eu
vinha para cá, pensei até que fosse bom, mas a Colônia Penal é
igual a qualquer inferno por aí. O caso é que não me deixam em
paz. Quem manda aqui é um preso chamado João Pirata que
cobra proteção e sei lá mais o quê. Estou completamente ao
deus-dará, nas mãos do diabo. O João Pirata diz que um dia me
estripa todo. Aí lhe disse que já tinha matado um e que não
hesitaria em matar outro. Mas não sabia que o João Pirata era
protegido: guardas carcereiros, todo mundo é corrompido. O
Diretor me mudou de ala, mas recebo ameaças dia e noite.
Maldito o dia em que entrei nesta vida. Aviso-lhe, no entanto,
mamãe, que Paloma não tem culpa, que ela é vítima também da
situação e da educação que recebeu. Faz tempo recebi uma carta
dela em que me pede perdão por ter-me levado para a desgraça.
Olhe este trecho e veja se ela não é uma mulher de coração:
”Tenha a certeza que lhe amo muito apesar de tudo. Se não
tivesse esta desgraça, seríamos felizes, como deve estar
sofrendo o coitadinho”. Ela não tem culpa, mamãe. Agora lhe
conto tudo — eu que sempre fui rebelde — porque me abro com
a sra. como se a sra. fosse um padre. As penas do sofrimento
deixam a gente como se estivesse no Inferno e precisasse do
auxílio de quem nos criou e nos deu o primeiro amor que houve
na face da Terra. Paloma me contou que muitas vezes passou
diante de casa e que queria entrar e chorar com a sra., mas que
sentia vergonha, mulher desgraçada que é, com medo que a sra.
a escorraçasse. Mas a sra. não faria isto, não é? Conto-lhe tudo,
mamãe: conheci Paloma em lugar mal-afamado, na Vila
Teresinha. Me contou
126
toda a desgraça de sua vida: que só tinha mãe; o padrasto
abusou dela ainda menina. Me contou com lágrimas nos olhos.
Ela disse que fez tudo para regenerar-se, costurava, cozinhava,
aprendeu a ler e datilografia, mas a cidade grande engole todo
mundo. Ainda por cima, tinha de aparecer o Dr. Naércio no nosso
caminho. Cafajeste de marca maior, sempre com aqueles
salamaleques. O que sofri nas mãos dele não foi brinquedo. A
justiça que fiz com as próprias mãos foi pouco; é certo, a sra.
deve chorar quando ler estas linhas. Deve ser-lhe muito duro
dizer ASSASSINO lá no fundo de si, compreendendo que o filho
que saiu de suas entranhas escolheu o caminho do mal, que os
seus conselhos, o seu carinho e seu sacrifício de nada
adiantaram... Mas o seu coração de mãe sempre foi grande e
sabe que, mau filho, apesar de tudo, nunca deixei de amá-la e
que a tenho dentro de mim a noite inteira, quando sozinho faço
minhas orações. Bem, voltando ao assunto, penso que poderia
falar com o Tio Mazinho: quem sabe ele conseguiria minha
transferência da Colônia. Os presos daqui, não sei como,
arranjam facas e matam-se uns aos outros. Outro dia mesmo o
João Pirata espetou o Bertolli, um coitado, pai de cinco filhos, e
ninguém teve coragem de dizer nada. Tudo ficou em brancas
nuvens. Ai de quem abrir a boca, eles perseguem e aí matam que
nem cão danado. Como eu dizia, o Tio Mazinho pode bem me
ajudar e não custava nada com as ligações políticas que ele tem.
Eu sei que também a fatalidade fez que ele ficasse brigado com a
gente e que a senhora fez muito bem em respeitar a imagem de
papai. É claro, não podia casar-se com o tio só porque era irmão
de papai sem mais nem essa. A sra. podia escrever uma carta
com jeitinho para ele explicando tudo; o tio não é mau, e com o
respeito que tem pela sra., irá ouvi-la com certeza. Vai custar-lhe
muito, ainda mais que a sra. falava que não queria mais ver a
cara dele pela frente e que lhe dissera poucas e boas, mas é a
única saída. Conte-lhe tudo, mamãe, explique-lhe que o meu
caso com Paloma — que ele tanto criticou (Lembra-se que,
inclusive
127
me disse que se fosse meu pai me punha nos eixos? Coitado; do
seu ponto de vista, tinha alguma razão) — foi uma coisa muito
honesta e que o passado dela não deveria nunca enodoar o
presente. Males às vezes vêm para bem: minha vida boêmia,
bebida, mulheres, não impediu que eu retirasse a flor do lodo, o
joio do trigo. Paloma me redimiu para a vida, posto que fosse o
estopim de minha perdição. Também o Dr. Naércio não tinha o
direito de me espezinhar, ele que fez da minha vida um calvário.
Só agora lhe conto, mas tenho isto atravessado na minha
garganta há muito tempo: lembra-se do meu caso com a
Neuzinha que a sra. encorajava, dizendo que a moça era
prendada e tudo, etc.? Pois bem, foi o Dr. Naércio quem a tirou
de mim: não ponho a mão no fogo, mas falava-se na escola que
os dois tinham encontros. O Dr. Naércio, apesar de casado, não
passava de um sem-vergonha. Coitada de D. Nininha, tão boa,
esposa daquele canalha. Sinto muito que tenha feito ela sofrer
tanto, com seus filhos e com as más-línguas. Um dia estive na
casa dela — mal começara no ”Rodrigues Alves” e nem conhecia
direito o Dr. Naércio —, queixou-se do marido e só hoje entendo o
porquê. Lembro-me, como se fosse hoje, de suas palavras,
quando lhe perguntei se o Dr. Naércio ainda demorava (tinha ido
lá de noite). Ela me respondeu: ”Sabe, seu João... é este seu
nome, não?” Confirmei, mas disse que podia me chamar de
Almeidinha, mesmo. Afinal, o sobrenome é que nos liga à família,
sem o que nada somos, não é, mamãe? ”Pois bem, seu
Almeidinha, para lhe ser franca, nem eu mesma sei... O Naércio
não me dá muitas satisfações a este respeito...” Sei que também
passei a freqüentar a vida noturna de Andradina, mas pior era ele
que era diretor de escola. Não foi à toa que a Neuzinha ganhou
minhas aulas. Me disse que gostava de mim, mas que a mãe, a
D. Candoca, não queria o noivado, que o meu nome não era de
boa fama na cidade. Na última hora dizer isto? Me envenenar
assim? Já tinha comprado os móveis, lenços, camisas e a sra.
tinha muita razão quando disse
128
que os Natalli eram gentinha, que tinham vindo da Itália, comendo
pão com cebola, em navio de terceira classe. Falei pra ele isto
mesmo e fiz insinuações do caso dela com o Dr. Naércio. Foi isso
que me perdeu. Desse dia em diante, o homem não me largou
mais: um tal de plantão na escola sem motivo aparente,
desrespeito na frente dos alunos. Está certo que eu não era
professor concursado. (Quando há concurso neste país? O de 60
foi aquela vergonha que a senhora sabe; até o filho do Dr.
Maurício que é burro e que só colava na escola passou. Foi o
maior escândalo e teve gente que ia impetrar mandado de
segurança. Pena que não tenha ido para a frente e que o
Secretário da Educação só levasse o caso para um canal superior
se a gente desse uma bolada para ele.) Infelizmente este mundo
é dos medíocres e dos incapacitados e a bebida foi um derivativo
para quem é revoltado e vê os medíocres vencerem sem mérito
algum, dependendo da ajuda de pistolões. Mas voltando ao que
dizia: eu não era concursado, mas sempre cumpri com o meu
dever. Nem a vida boêmia me fez esquecer as tarefas que devia
cumprir. E o Dr. Naércio ainda tinha a coragem de me condenar,
dizendo que eu tinha uma vida devassa: o roto rindo do
esfarrapado. Quantas vezes não o encontrei lá na Vila Teresinha?
Sabe com quem? Logo com a Luzia, aquela que tem marido aí na
rua e que todo mundo fala, uma que não respeita família, lar, nem
nada. Pois bem, o tipo fez que não me conheceu e, no outro dia,
na escola, estava com uma cara de santo, falando que, se eu
chegasse atrasado, nem devia entrar na aula e perguntando se
eu não tinha responsabilidade. A sra. se lembra que naquele dia
estive com uma maldita cólica e que a sra. passou a noite em
claro fazendo chazinhos? Esse homem tornou minha vida um
inferno e foi por isso que a Neuzinha mudou tanto. Devolveu-me a
aliança de noivado com um bilhetinho malcriado. Acho que foi D.
Candoca quem escreveu, instigada pelo Dr. Naércio. Aquela letra
nunca foi da Neuzinha. E depois vem o Tio Mazinho dizendo que
eu fui malcriado com ela...
129
No fundo, mamãe, ele tem um pouco de razão; afinal a Neuzinha
é afilhada dele. A sra. não deve levá-lo tanto a mal: na verdade,
creio, fui eu quem o desrespeitou e a sra. tomou minhas dores
como mãe que era. Falando nele, o secretário aqui da Colônia
disse que estava doido para ser transferido para outra prisão e
que só o Tio Mazinho — influente como é — é que podia ajudá-lo.
Falou-me que, se eu arranjasse as coisas para ele, não teria
dúvida nenhuma em arrumar minha vida. Da vez em que esteve
aqui, a sra. nem quis ouvir o nome do Tio Mazinho, mas, mamãe,
agora é tudo ou nada. A sra. sabe quanto ele a aprecia. Eu, nem
adianta pedir; fui muito malcriado com ele no caso da Neuzinha.
Também estava transtornado e acabei descarregando em cima
de quem não merecia. Explica pra ele que foi um destempero
meu; afinal, é irmão de papai e não se negaria a cooperar num
caso desses. Ah! que martírio, que inferno! No almoço, o João
Pirata me empurrou no refeitório. Perdi a comida e ainda um
guarda me ameaçou de me mandar para a solitária. O João Pirata
é o rei aqui dentro e não tem medo nem do diretor. Se a sra.
soubesse o que tenho sofrido... Paloma me disse que chora noite
e dia e que lê minhas cartas sem parar. A sra. a julgou mal,
quando disse que eu andava em companhia de gente ordinária: a
vida é que fez mal a ela. Um pouco antes de me perder, prometia
me regenerar e ela me disse que me acompanharia até o fim do
mundo. Foi tudo obra do Dr. Naércio que não só me perseguia na
escola, como também onde me encontrava. O que os jornais
contam, falando de covarde assassínio, não passa de mentira.
Matei-o numa crise de nervos. Ele insistiu em me desfeitear na
frente de Paloma e na cara de homem não se joga insulto. Não
contente com isso, insistiu em levar Paloma com ele, mostrando o
dinheiro que tinha no bolso. Não vi mais nada na frente, senão
uma mancha vermelha. Nem sei direito como acabei com aquele
diabo. Perdoe-me, mamãe, mesmo quando lhe falo nestas coisas,
perco a cabeça, fico doido da vida. Quando a sra. me disse que
foi
130
o mau exemplo de papai que me pôs a perder, talvez tenha um
pouco de razão: onde se viu deixá-la sozinha e, de bar em bar,
sumir pelo mundo? Quem diria que em meu sangue estava um
pouco do aventureiro dele e o destino de uma porta de bar? Se a
sra. não tivesse impedido minha ida para São Paulo, teria melhor
colocação e hoje estaria amparando sua velhice. Lá estaria longe
dos mesquinhos e dos apaniguados, dependendo só de minhas
forças para vencer na vida. Mas não adianta lamentar-me; o que
foi traçado está traçado, não há remédio. Agora só a mão de
Deus é que me pode amparar. Ah!, quase me esquecia de dizer:
Paloma me falou que viu a sra. outro dia na igreja e que chorou
muito só de vê-la rezar. Disse também que rezou três ave-marias
em sua intenção. Pobrezinha! Agora, sem ter quem a sustente,
não pode largar da vida que leva: a mãe está entrevada no
interior. Ela disse também que já está cansada de esperar (menti
para ela; falei que o Tio Mazinho, logo, logo, acertaria as coisas
para o meu lado) e que não agüenta as provocações dos outros.
Quando ela me disse estas coisas, fiquei que nem louco. Ela
disse que não adiantava ficar bravo e que eu tratasse de arrumar
as coisas. Mas que posso fazer de mãos atadas? Não custava
nada ao Tio Mazinho usar de sua influência. O secretário da
prisão me disse, inclusive, que o cargo do tio é muito forte e ele
pode até conseguir liberdade condicional dentro de alguns anos.
Nem quero isto; já me bastava ir embora deste inferno. Mudando
um pouco de assunto, como vai o Duque? A sra. tem dado
comida pra ele? Não vá deixar o pobrezinho morrer de fome. A
sra. se lembra que ele abanava o rabinho mal me via chegar da
rua? Bem, acho que é só, preciso aproveitar o correio que sai
ainda agora de tarde. Neste momento, penso na sra. mais que
tudo no mundo e gostaria de tê-la perto de mim. Reze muito por
mim, mamãe, que eu sou um desgraçado. A sra. é tudo que tenho
no mundo, mais Paloma que eu não poderia jamais esquecer. Do
filho, que muito lhe quer, pedindo a Deus que a conserve em
franca saúde:
132
João Almeida
RS. Agradeça a Tia Inezita por ter-me enviado os doces.
Infelizmente, nem pude experimentá-los. Os amigos de João
Pirata me roubaram o pacote ontem à noite. O mesmo aconteceu
com as cuecas e meias que a sra. mandou. Não tenho mais nada
de meu. Isto aqui é um inferno! Um beijo do
Mesmo
133
Álvaro Cardoso Gomes
A receita da boa literatura
Natural de Americana, no interior de São Paulo, Álvaro Cardoso
Gomes navega com igual talento tanto pela literatura portuguesa,
matéria da qual foi professor na Universidade de São Paulo,
quanto pelas venturas e desventuras das personagens que cria
em seus romances e contos.
Suas histórias são, muitas vezes, protagonizadas por jovens.
Nelas, o mundo contemporâneo explode ora em imagens
fantásticas, ora em flashes do cotidiano. Autor de livros de
sucesso, Álvaro vem se destacando como uma das revelações da
literatura brasileira para o público juvenil.
Em ”Paloma”, a forma epistolar, ao mesmo tempo que sugere
violência, ciúme e corrupção, deixa à fantasia do leitor imaginar o
antes e o depois da história de João Almeida.
Os personagens jovens são constantes na obra de Álvaro
Cardoso Gomes.
134
Referências bibliográficas
La Fontaine - ”Lê loup et 1’agneau.” In: Oeuvres completes. Paris,
Aux Éditions du Seuil, 1965. p. 78.
Machado de Assis- ”Conto de escola.” In: Contos. 22. ed. São
Paulo, Ática, 1977. p. 31-37.
Moacyr Scliar - ”O dia em que matamos James Cagney”. In: Os
melhores contos de Moacyr Scliar. Seleção de Regina
Zilbermann. São Paulo, Global, 1986. p. 85-87.
Voltaire - ”Zadig ou Ia destinée.” In: Romans et contes. Paris,
Garnier/Flammarion, 1986. p. 86-88.
Guido Fidelis - ”Conversa de comadres à espera da morte.” In: É
um assalto! São Paulo, Ática, 1980. p. 26-31.
Lygia Fagundes Telles - ”Antes do baile verde.” In: Antes do baile
verde. Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 1999.
Katherine Mansfield - ”A casa de bonecas.” In: The dove’s nest
and other storíes. Hophart Press, 1923.
135
Lima Barreto - ”A Nova Califórnia.” In: Contos. São Paulo,
Brasiliense, 1979. p. 73-83.
Lourenço Diaféria - ”Os gatos pardos da noite.” In: Um gato na
terra do tamborim. 4. ed. São Paulo, Ática, 1982. p. 13-15.
Artur Azevedo - ”O Custodinho.” In: Contos efêmeros. 4. ed. Rio
de Janeiro, Garnier, s.d. p. 87-93.
Álvaro Cardoso Gomes - ”Paloma.” In: A teia de aranha. São
Paulo, Ática, 1978. p. 108-113.
136
Download

Histórias sobre ética literatura