UNIVERSIDADE PAULISTA VANESSA CARVALHO ELIAS NÃO SOU CHICO: histórias de médiuns anônimos SÃO PAULO 2012 UNIVERSIDADE PAULISTA Curso de Comunicação Social Habilitação Jornalismo Projeto de Pesquisa NÃO SOU CHICO: história de médiuns anônimos Projeto de Pesquisa do Projeto Experimental apresentado como exigência para a obtenção parcial do título de Bacharel em Jornalismo do Curso de Comunicação Paulista. São Paulo Junho 2012 Social da Universidade “...uma sociedade não é constituída simplesmente pela massa dos indivíduos que a compõem, pelo solo que ocupam, pelas coisas que utilizam, pelos movimentos que realizam, mas, antes de tudo, pela idéia(sic) que ela faz de si mesma.” (Émile Durkheim) SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 4 2 PROBLEMA ............................................................................................................ 5 3 HIPÓTESE .............................................................................................................. 6 4 OBJETIVOS ............................................................................................................ 7 4.1 Objetivos Gerais........................................................................................... 7 4.2 Objetivos Específicos ................................................................................... 8 5 JUSTIFICATIVA ...................................................................................................... 9 6 REVISÃO DE LITERATURA................................................................................. 11 6.1 Livro-reportagem ........................................................................................ 15 7 METODOLOGIA ................................................................................................... 17 7.1 Estudo Teórico ........................................................................................... 17 7.2 Trabalho de Campo .................................................................................... 17 7.3 Instrumentos para coleta de dados ............................................................ 18 8 CRONOGRAMA ................................................................................................... 19 8.1 Cronograma do pré-projeto – 1º semestre de 2012 ................................... 19 8.2 Cronograma mensal previsto para o projeto – 2º semestre de 2012 ......... 20 4 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho abordará a relação entre religião e sociedade com foco na importância do exercício da caridade atribuída pelos adeptos do espiritismo kardecista e ainda, como os preceitos da doutrina influenciam o comportamento de seus fiéis dentro do ambiente sócio-coletivo. Na atual sociedade de informação, assuntos referentes ao pensamento teológico são reprimidos ou ignorados pela mídia por seu receio de ser acusada de tendenciosa ou até preconceituosa. Contudo, esta proteção em volta da pauta religiosa, criada pelos veículos, fez com que um assunto inerente à formação do ser humano como cidadão fosse excluído da esfera pública, o que vai contra os princípios do jornalismo profissional, adotados desde o século XIX. A escolha pela visão dos “ensinamentos” de Alan Kardec é baseada no crescimento desta religião no País. Hoje, o Brasil é considerado a pátria do espiritismo, com mais de dois milhões de adeptos de acordo com último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado sobre o assunto até o fechamento desta pesquisa. No Estado de São Paulo, existem mais de 1500 sociedades espíritas e só no município de Guarulhos, segunda maior cidade do Estado, há trinta e cinco centros que seguem a doutrina. Reconhece-se que lidar com crenças no divino e fé é delicado e exige uma observação apurada e livre de preconceitos. Portanto, a partir da delimitação do tema, esta pesquisa apresentará a perspectiva kardecista sobre o ato da caridade com o quanto possível de distanciamento e isenção, evidenciando sua contribuição para uma sociedade laica. É importante ressaltar que o interesse no resgate do aspecto social das religiões, no presente caso, do espiritismo, é puramente jornalístico e pretende trazer de volta ao ambiente acadêmico e à comunidade um debate ignorado pela ciência social da comunicação. 5 2 PROBLEMA O problema social e comunicacional identificado por este trabalho é a falta de produtos jornalísticos que abordem a influência religiosa sobre seus adeptos e por sua vez, o comportamento desses em sociedade. Ainda mais quando a pauta é sobre a doutrina espírita, a qual os veículos tendem a limitar à discussão ciência versus religião, sem considerar que o aspecto social é tão ou mais afetado pelos princípios pregados por ela do que o pensamento científico. Visto que a identidade adotada pelos jornalistas profissionais é a de refletir a realidade de forma imparcial e fiel aos fatos que afetam o desenvolvimento do ambiente onde os cidadãos vivem, a presente pesquisa pretende preencher esta lacuna deixada pelos demais veículos de comunicação. 6 3 HIPÓTESE Através da elaboração de um livro-reportagem, no qual serão narradas histórias de solidariedade e trabalho de médiuns espíritas kardecistas, a presente pesquisa pretende preencher o espaço vazio deixado pelos veículos de comunicação, citado no tópico anterior. Tendo em vista o alcance do maior número de leitores possível, à parte do principal público-alvo – os próprios adeptos da doutrina – será utilizada a linguagem literária no produto jornalístico em questão para que todos aqueles que se interessarem pelo conteúdo, possam compreender sua intenção comunicacional e social. Deste modo, se evitará a aparência de parcialidade e profissão religiosa não aspiradas por este trabalho. 7 4 OBJETIVOS Ciente do compromisso de levar ao público informações relevantes e determinantes à vida social e principalmente da função, como comunicadores, de dar voz aos cidadãos, o objetivo deste projeto acadêmico comunicacional, firmado em seu compromisso ético com a verdade dos fatos e suas influências, é mostrar com clareza os aspectos do tema escolhido para abordagem – “Não sou Chico: histórias de médiuns anônimos” – com a imparcialidade possível. 4.1 Objetivos Gerais • Elaborar um livro-reportagem, cujos objetivos específicos se enquadrem nos conceitos de captação e produção jornalística explanados, apreendidos e pesquisados durante o curso de comunicação social com bacharelado em jornalismo. • Expor com o máximo possível de isenção o tema selecionado para a construção do produto comunicacional através da observação, entrevistas e a posterior narração das histórias de médiuns kardecistas desconhecidos pela sociedade e grande mídia. • Trazer à tona informações relevantes para a sociedade e o convívio de seus cidadãos, ato político indispensável para o desenvolvimento da cidadania, tendo em foco o público-alvo: espíritas kardecistas e simpatizantes da doutrina, com faixa etária a partir dos 20 anos de idade, adaptável a vários níveis de escolaridade e classes sociais. • Preencher uma lacuna deixada pelos demais veículos de comunicação, visando agregar materiais informativos necessários para a bibliografia jornalística. 8 4.2 Objetivos Específicos • Escrever um livro-reportagem com linguagem literária, baseada no estilo do new journalism, procurando facilitar a interpretação do texto pelo público-alvo, independente da classe social e nível de escolaridade dos leitores, já que um assunto que envolve fé abrange um amplo grupo social. • Apresentar como a prática da caridade, com base na crença da religião espírita kardecista, pode influenciar o convívio em sociedade de quem é adepto ou simpatiza com a doutrina, por meio das histórias dos personagens selecionados. • Mostrar, por meio das experiências de vida dos médiuns kardecistas, como são aplicados os princípios espíritas de caridade, sem entrar em discussões sobre a veracidade de suas manifestações, tratamentos espirituais, curas, comunicação com seres desencarnados e a própria existência do mundo espiritual. Contudo, sem afirmar sua realidade; • Destacar o aspecto social do pensamento teológico, neste caso, do espiritismo, saindo da velha pauta “ciência versus religião” que os meios de comunicação insistem em abordar. • Quebrar a corrente do medo de não ser compreendido pelo público, presente nos diversos meios de comunicação, ao ter como pauta um tema relacionado à fé, o qual, muitas vezes, é excluído do debate na esfera pública. 9 5 JUSTIFICATIVA Valores oriundos do sagrado – e, mais precisamente, da visão religiosa ainda determinam o comportamento ético de bilhões de pessoas espalhadas pelo mundo, conduzindo-os a atitudes de benevolência e equilíbrio ou extremistas radicais. Fator que tanto o meio acadêmico como a imprensa, setor responsável por circular as verdades que influenciam a realidade, muitas vezes, ignoram por medo de serem tendenciosos, receio de ofenderem o público, apreensão de serem sacrificados simbolicamente por cobrirem um assunto ligado mais ao ser do que à rede. A sociedade como é percebida pelo atual paradigma tecnológico e após centenas de anos de relevantes evoluções científica e informacional, atribui valores existenciais apenas aos indivíduos que interagem com o globo através da rede de comunicação construída pela internet. Neste novo espaço, só são considerados sujeitos contemporâneos os seres humanos produtores de conteúdo do ciberespaço. Segundo Castells1, o real é percebido por representações simbólicas e desta forma, só sobrevivem neste sistema quem está online. As questões que o novo modo de conviver em sociedade nos leva é: o que é mais importante, ser ou parecer? O ser humano ou o parecer máquina? São inegáveis os benefícios da tecnologia e a presente pesquisa não irá criticá-la, mas sim evidenciar que o pensamento teológico também faz parte da construção do homem como ser e sempre o fará já que é algo inerente a sua formação, assim como o pensamento filosófico e empírico. Quando se fala na doutrina espírita kardecista, o aspecto social é ainda menos abordado pela mídia, cedendo lugar para o velho debate entre ciência e religião. Atualmente, há cerca de 30 milhões de espíritas kardecistas no mundo, quantidade que equivale a mais de 900 vezes o número de habitantes de Mônaco, o menor país do mundo. Ou seja, há milhares de pessoas cujos modos de conviver em sociedade são influenciados por essa corrente do espiritismo. De acordo com o documento Orientação ao Centro Espírita do Conselho Federativo Nacional (CFN), órgão da Federação Espírita Brasileira (FEB), todo 1 (CASTELLS, 2001 apud ZANIRATTO, no prelo, p. 3) 10 centro espírita deve ter postos de atendimento fraternal e espiritual, que ofereçam ajuda a todos que busquem orientação, esclarecimento e consolo. Além disso, a realização de atividades de serviço de assistência e promoção social também está prescrita no texto. Atender as necessidades imediatas, promover cursos de capacitação profissional como corte e costura e evangelizar pessoas carentes de apoio material e moral são outras exigências do CFN. É por isso que o foco desta pesquisa é o ato de caridade praticado pelos principais trabalhadores das casas espíritas, os médiuns, responsáveis por apaziguar a dor de adeptos, simpatizantes e até descrentes da doutrina. Através de suas histórias de vida, as quais serão narradas de forma isenta, laica e o mais imparcial possível, o presente trabalho pretende desmitificar e desmistificar a figura do médium para fazer entender que eles não estão blindados por um manto divino de problemas e nem passíveis de erros como qualquer ser humano. Entretanto, ainda são voluntários de um trabalho que exige dedicação ao tratar das angústias, preocupações e incertezas alheias sem nenhum fim palpável e nenhuma perspectiva de reconhecimento nacional, ou fama, como aconteceu com o médium psicógrafo Francisco Cândido Xavier, o único personagem das matérias jornalísticas que saem um pouco da linha ciência versus religião. Trabalho que, ao divulgar os preceitos espíritas, influencia o ato cidadão de convivência com o coletivo, estimulando a solidariedade. Para tratar do assunto, será produzido um livro-reportagem com características compatíveis ao principal público-alvo do veículo, os simpatizantes do kardecismo – é inegável que o livro chamará mais a atenção de pessoas que aceitam a doutrina como verdade. Portanto, a narrativa romanceada, presente no new journalism, se apresenta como a mais adequada para a compreensão inclusive dos que nunca conheceram o espiritismo a fundo. A bem-sucedida biografia de Chico Xavier, As vidas de Chico Xavier, escrita pelo jornalista Marcel Souto Maior é a maior prova que tal tipo linguagem é apropriada quando o assunto é religião e exercício medianímico. A utilização do suporte livro-reportagem também será vantajoso por proporcionar espaço suficiente de profundidade, o que é de extrema importância para um assunto que assume seu potencial em gerar controvérsias. Vale ressaltar que a Orientação ao Centro Espírita exige que haja uma livraria em cada casa kardecista, independente de sua localização e a situação 11 socioeconômica de seus frequentadores. 6 REVISÃO DE LITERATURA A doutrina espírita kardecista, importada da França para a sociedade brasileira pelos médiuns Bento Mure e João Vicente Martins, no século XIX (LANG, 2008, p. 175), desembarcou no país com a promessa de explicar os fenômenos sobrenaturais conhecidos como mesas girantes e falantes, os mesmos que chamaram a atenção do francês Allan Kardec (autor responsável pela compilação e organização dos principais livros da doutrina1), em 1854. Por décadas, foi desta forma – e ainda é para algumas pessoas – que o espiritismo e os seus adeptos se distinguiram das outras religiões fortemente presentes na cultura nacional, como o catolicismo: aqueles que se comunicam com os “mortos” e respondem as questões além da compreensão científica. Somente nos anos de 1960, com o médium psicógrafo Francisco Cândido Xavier, outra atividade espírita saltou aos olhos dos brasileiros, o exercício da caridade (SOUTO MAIOR, 2003, p. 164-165). A primeira obra kardecista lançada com o nome de Le Livre Des Esprits (O Livro dos Espíritos, em português) já trazia em suas páginas os artigos do que foi chamada de lei da justiça, regra universal de boa conduta na perspectiva espírita: “Agir para com os outros como queríamos que os outros agissem para conosco” (p. 22). Para isso, Kardec ofereceu dois caminhos aos seguidores da doutrina, o amor e a caridade. Baseada nos princípios eleitos como verdades do espiritismo – a existência de Deus, dos Espíritos, a imortalidade da alma, a reencarnação, a pluralidade dos mundos habitados, o livre arbítrio e o intercâmbio espiritual (GONÇALVES, 2010, p. 59) – a solidariedade se tornou sinônimo de aprimoramento moral e espiritual, uma espécie de passaporte para um maior grau de evolução merecedor até de um “mundo mais inteligente”2. 1 O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno, A Gênese, O que é o Espiritismo e Obras Póstumas são as obras publicadas sob o pseudônimo Allan Kardec. Todos e em especial os três primeiros títulos são considerados leituras fundamentais para o entendimento da doutrina espírita. 2 “(...) o homem da Terra está longe de ser, como crê, o primeiro em inteligência, em bondade e perfeição. Todavia, há homens que (…) Julgam que Deus criou o Universo só para eles” (KARDEC, 1994, p. 60). 12 O ato de ser caridoso, seguindo essa linha de raciocínio, praticado por todos aqueles que acreditam nos princípios acima é como um carimbo oficial que legitima a doutrina e seus preceitos. Ao ajudar o próximo, ou nas palavras das informações compiladas por Kardec, ao levar ao efeito a “Benevolência para com todos, indulgência para com as imperfeições alheias, perdão das ofensas” (1994, p. 341), o espírito encarnado tem a chance de redimir os erros de “vidas passadas” com o intuito de progredir na atual encarnação e, por consequência, conquistar, quem sabe, o direito de uma melhor “qualidade de vida” em uma próxima existência. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, o título do capítulo quinze deixa clara a razão pela qual tais atos são tão relevantes para o espírita. “FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO” (p. 197). Kardec, ao interpretar a Bíblia3, diz que a “condição absoluta da felicidade futura” nada mais é do que a caridade (p. 199) e ainda a eleva a patamares acima da de outros conceitos tão dignos de tamanho crédito quanto. Jesus não fez, pois, da caridade, somente uma das condições de salvação, mas a única condição; se houvesse outras a serem preenchidas, ele as teria mencionado. Se coloca a caridade no primeiro plano das virtudes, é porque ela encerra, implicitamente, todas as outras: a humildade, a doçura, a benevolência, a indulgência, a justiça, etc... (KARDEC, 1998, p. 200) Personificação desta máxima do espiritismo são os médiuns, pessoas que fazem a ponte entre o plano terreno e os que vivem sem o corpo carnal, os espíritos. É importante ressaltar que, de acordo com Kardec, esta representação só é válida para aqueles considerados bons médiuns, classificados em quatro tipos: os sérios, modestos, devotados e seguros (1992, p. 219). Todos abrangem características criteriosas de humildade e bom caráter, os diferenciando dos imperfeitos4. Seus trabalhos, também qualificados em mais de vinte e cinco grupos entre gêneros e aptidões (Ibidem, p. 181 – 217), têm como finalidade “dar o conhecimento da verdade aos homens e promover a melhoria espiritual do próprio médium” (ESTUDOS sobre mediunidade, 1994, p. 86). Os espíritas acreditam que, por meio da mediunidade desenvolvida5 e bem orientada, é possível exercer a compaixão e a 3 Evangelho de São Lucas, cap. X, v. De 25 a 37. 4 Para mais explicações, ver cap. XXI d'O Evangelho Segundo o Espiritismo, “Haverá falsos Cristos e falsos profetas”, p. 258. 5 Segundo a doutrina, todas as pessoas do mundo são mais ou menos médiuns (KARDEC, 1992, p. 181). 13 estimular em outros. É por isso que este trabalho não hesita em abordar as histórias dos mediadores do mundo invisível como fator determinante para a formação dos indivíduos adeptos à doutrina, ou não – quando estes fazem parte do ciclo de benevolência – e do seu convívio em sociedade. Mario Sergio Cortella e Renato Janine Ribeiro, filósofos formados pela Universidade de São Paulo (USP), em seu debate sobre política, afirmam que é difícil alcançar as noções de direito, justiça e liberdade na prática sem que apreendamos “certo sentido de dever” (CORTELLA e JANINE RIBEIRO, 2011, p. 14). Ambos defendem a ideia na qual o cidadão é autônomo – indivíduo cuja vida em meio a outras pessoas se orienta por limites – e não soberano. O ser humano não está acima nem se subordina ao seu semelhante. A vida humana chamada de “condomínio” pelos autores pode ser sintetizada à frase título do segundo capítulo do livro Política Para Não Ser Idiota6, Conviver: O mais político dos atos. Ou seja, quando se fala em respeitar o outro como alguém que possui sentimentos, necessidades e prioridades e prestar auxílio àqueles que buscam equilibrar esses três pontos em sua vida, não há palavra mais adequada para nomear tal ato político do que caridade. Desta forma, ao reler político no sentido de cidadania, é possível perceber que os trabalhadores espíritas, no caso da presente pesquisa, os médiuns, são personagens indiscutivelmente relevantes na construção de cidadãos, independentemente da verdade ou mentira absoluta de suas manifestações. De acordo com reportagem veiculada pelo Globo Repórter, em 12 de maio de 2006, o espiritismo já contabilizava mais de 30 milhões de simpatizantes no mundo. Este número equivale a pouco menos da metade da população da França e a mais de 925 vezes o número de habitantes do Principado de Mônaco (um dos menores países do mundo). Outro assunto que influencia o homem como ser político e social é a procura de significados existenciais. Cortella, em entrevista publicada no site Planeta Sustentável, do Grupo Abril, deixa claro o poder da religiosidade nesta inquietação filosófica. Ele diz que o sentimento de se conectar com o mistério “se manifesta como convivência, fraternidade7, partilha, agradecimento...”. Ainda segundo o filósofo, “isso não significa viver sem dificuldades, problemas, atribulações”, 6 Do grego Idiótes, significa “aquele que só vive a vida privada”. 7 Grifo Nosso 14 obstáculos postos a frente de qualquer ser humano, seja este médium ou não. Exemplo de dedicação, sofrimento e desapego foi o fenômeno espírita Chico Xavier. Até a data de seu falecimento, em 2002, o médium escrevente havia psicografado cerca de 400 livros, entre eles, o polêmico Parnáso de Além-Túmulo e o famoso Nosso Lar, recorde de bilheteria quando chegou aos cinemas, com mais de um milhão de telespectadores. Sua biografia também já foi transformada em dois longas-metragens, Chico Xavier e As mães de Chico Xavier, ambos inspirados nos livros-reportagem do jornalista Marcel Souto Maior. Contudo, a vida de Francisco nem sempre foi flores. Segundo biografia (SOUTO MAIOR, 2003), o psicógrafo quase reviveu as perseguições de bruxos e, paradoxalmente, também de santos. De um lado, críticas eram atiradas com a força de uma pedrada, de outro, sofredores se jogavam aos pés do mineiro de Pedro Leopoldo8. Mistificações a parte, é inegável que Chico foi um marco da doutrina kardecista no Brasil. Além de polêmicas, ele trouxe à luz o grande mandamento espírita através de suas famosas cartas e obras literárias. Ele convenceu muita gente da necessidade de trabalhar, e muito, em favor dos necessitados. Quem se dedicasse à caridade evoluiria mais depressa. Quem ajudasse o outro se ajudaria. A generosidade poderia soar, às vezes, como egoísmo. Mas o discurso deu bons resultados, estimulou o auxílio aos pobres. (Ibidem, p. 84) Émile Durkheim, que estudou a religião como um fenômeno social e não oriundo do divino, em As Formas Elementares da Vida Religiosa9, reforça o foco desta pesquisa de que a doutrina religiosa influencia a faculdade mediúnica e, por sua vez, esta influencia as pessoas para as quais se presta o trabalho. Vale considerar ainda que a principal missão espírita, documentada como missão pela Federação Espírita Brasileira (FEB), é: “Promover o estudo, a prática do Espiritismo, com base nas obras da Codificação de Allan Kardec e no Evangelho de Jesus; a prática da caridade espiritual, moral e material, dentro dos princípios espíritas...”. Deste modo, Durkheim explica que: ...se a vida coletiva, quando atinge um certo grau de intensidade, desperta o pensamento religioso, é porque determina um estado de efervescência que muda as condições da atividade psíquica (...) O homem não se reconhece; sente-se como que transformado e, em conseqüência (sic), transforma o 8 9 Cidade natal de Chico Xavier. Fica a aproximadamente 41 km de Belo Horizonte. Durkheim afirma que sua pesquisa pode ser estendida a todas as religiões (2000, p. 458). 15 meio que o cerca. (2000, p. 466). Para reiterar o raciocínio da presente revisão de literatura sobre a importância da crença religiosa no desenvolvimento de indivíduos de uma sociedade, o que também justifica a abordagem do tema escolhido para o PREX (Projeto Experimental) de Comunicação Social – Jornalismo, Iracilda Gonçalves faz interessante interpretação em sua tese de mestrado para a Universidade Federal da Paraíba sobre como compreender uma religião. No trecho a seguir, é evidenciado o possível alcance deste trabalho em termos de relevância social e acadêmica, entretanto, sem a pretensão de comproválo: “...uma das questões básicas (...) é supor que ela [a religião] produza e faça circular sentidos que sedimentam a sua existência para os ‘grupos culturais e para a humanidade em geral10’” (2010, p. 53 – 54). 6.1 Livro-reportagem Realizar uma reportagem com profundidade e compreensível a diversos públicos é uma tarefa complexa dentro do jornalismo cotidiano, com suas amarras espaciais, temporais e linguagem presa ao conceito de pirâmide invertida na construção do texto. É por isso que o livro-reportagem é uma alternativa de gênero jornalístico adequado a abordar temas pouco convencionais da grande mídia, que não correspondem necessariamente a um acontecimento central, caso deste projeto (PEREIRA LIMA, 2004, p. 27). Oferecer ao leitor um “quadro de contemporaneidade” capaz de lhe mostrar múltiplas realidades com liberdade de angulação, eixo de abordagem, extensão da pauta e espaço a vozes anônimas são qualidades imprescindíveis deste produto comunicacional. ...espaço nobre, (…) o livro [é] um espaço de relativa independência em relação à estrutura empresarial, jornalística, e também um espaço de certa perenidade, porque combina as possibilidades de aprofundamento da grande-reportagem. (Ibidem, p. 33) 10 Grifo Nosso 16 Deste modo, não há dúvidas de que o livro-reportagem seja a melhor opção para o desenvolvimento do presente trabalho, cujo tema e circunstâncias de captação de dados exige o envolvimento total da jornalista com o ambiente de seus personagens, característica de um dos estilos de se escrever um livro, o New Journalism. Além disso, o resgate de testemunhos anônimos, assim como registrado na obra de Edivaldo Pereira Lima (p. 91), é um fator diferencial do gênero, o que será amplamente explorado pelo livro-reportagem “Não sou Chico: histórias de médiuns anônimos”. 17 7 METODOLOGIA Em consonância com a hipótese e os objetivos listados neste trabalho, a metologia escolhida para o desenvolvimento do projeto abrange um estudo teórico do tema e instrumentos de coleta de dados para a elaboração do livro-reportagem, objetivo último da presente pesquisa. 7.1 Estudo Teórico Como acompanhado nos tópicos anteriores, os princípios da crença dos personagens foco do livro-reportagem, os médiuns kardecistas, foram pesquisados e estudados para a prévia compreensão do modo de vida dos adeptos e trabalhadores da doutrina espírita. A influência religiosa no ato cidadão de convivência, do ponto de vista sociológico, também foi estudada como forma de isentar a pesquisa de suspeitas de parcialidade e profissão de fé. 7.2 Trabalho de Campo Foram selecionados três centros espíritas para o acompanhamento dos trabalhos mediúnicos no município de Guarulhos: Centro Espírita Lar dos Idosos e Núcleo de Estudos Dr. Bezerra de Menezes no bairro Haroldo Veloso, periferia da cidade; Centro Espírita Dr. Bezerra de Menezes na Vila Barros, bairro periférico em desenvolvimento; Casa II – Unidade de Longa Permanência, parte do Centro Espírita Nosso Lar e Casas André Luiz, localizada no bairro Picanço, centro. Com exceção do último, os locais escolhidos são compostos pelas classes sociais C e D para cumprir o objetivo do projeto de apresentar as histórias de médiuns anônimos, pessoas que também vivem nesses bairros e não almejam a fama como reconhecimento de seus trabalhos voluntários, dentro e fora dos centros espíritas citados acima. 18 O motivo pela escolha da Casa II é o seu trabalho mediúnico exclusivo para indivíduos que possuem deficiência psiquiátrica. 7.3 Instrumentos para coleta de dados a) Observação Participante: De acordo aos moldes do New Journalism, os trabalhos espirituais serão acompanhados com o envolvimento da própria jornalista, “tentando viver, na pele, as circunstâncias e o clima inerente ao ambiente de seus personagens”11. Serão registrados detalhes dos ambientes e diálogos completos para propiciar ao leitor um mergulho profundo e envolvente na história. A imersão nos tratamentos é inevitável à elaboração do livro-reportagem também por conta das exigências dos personagens e instituições, caso contrário, não seriam permitidas as entradas naqueles. b) Entrevistas: Os trabalhadores das casas espíritas serão entrevistados com questionários pré-preparados e através de conversas informais (bate-papos) o que proporciona uma maior aproximação entre jornalista e personagens e consequentemente, registros fiéis do comportamento destes. c) Visitas: a Casa II não permite a participação direta nos trabalhos mediúnicos por causa da natureza dos problemas de seus pacientes. Desta forma, só serão realizadas visitas neste local. 11 (PEREIRA LIMA, 2004, p. 122 – 123) 19 20 8 CRONOGRAMA 8.1 Cronograma do pré-projeto – 1º semestre de 2012 Datas Descrição das atividades 01/02 a 11/03 Definição do tema e início da pesquisa. 12/03 a 10/04 Levantamento bibliográfico: livros, teses, reportagens e documentos. 12/03 a 26/04 Definição das fontes primárias trabalhos que serão acompanhados. 28/03 a 09/05 Início da observação participante dos trabalhos selecionados. 02/04 a 30/04 Elaboração do pré-projeto. 09/04 Início da revisão do pré-projeto pelo professor orientador. 02/05 Início das entrevistas. 10/05 Conclusão do pré-projeto e revisão do professor orientador. 12/05 Início da elaboração do livro-reportagem. 05/06 Entrega do pré-projeto. e última 21 8.2 Cronograma mensal previsto para o projeto – 2º semestre de 2012 Meses Descrição das atividades Julho Elaboração do projeto. Agosto Entrega de 70% do livro-reportagem. Setembro Conclusão do livro-reportagem. Início de Outubro Revisão da estudante e professor orientador. Outubro Diagramação do livro-reportagem. Novembro Apresentação à banca do PREX. 22 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARANTES, José Tadeu. Mario Sergio Cortella: não adie seu encontro com a espiritualidade. Dez. 2009. Disponível em: <http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/atitude/mario-sergio-cortella-nao-adieseu-encontro-espiritualidade-521429.shtml?func=1&pag=0&fnt=9pt>. Acesso em: 8 abr. 2012. CORTELLA, Mario Sergio; JANINE RIBEIRO, Renato. Política: para não ser idiota. Campinas: Papirus 7 mares, 2010, 112 p. DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. Tradução Paulo neves. São Paulo: Martins Fontes, 1996, 623 p. ESPECIAL 100 ANOS DE CHICO XAVIER. Produção de Fulano de Tal. Rio de Janeiro: Globo Produções, 2010. Programa televisivo. ESTUDOS sobre mediunidade. Capivari: EME Editora, 1994. FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Orientação ao Centro Espírita. São Paulo, 2006. 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