Estudo comparativo da distribuição de precipitação no Estado do Amapá para o ano de 2009: dados de pluviômetros versus estimativas por satélites Leandro Rodrigues de Souza1, Nilzele de Vilhena Gomes2, Naurinete de Jesus Barreto3, Magaly de Fátima Correia4 1 Departamento de Ciências Atmosféricas da Univ. Federal de Campina Grande, Campina Grande – PB. [email protected]. 2Departamento de Ciências Atmosféricas da Univ. Federal de Campina Grande, Campina Grande – PB. [email protected] Federal do Rio Grande do Norte, Natal – RN. [email protected]. 4 Departamento de Ciências Atmosféricas da Univ. Federal de Campina Grande, Campina Grande – PB. [email protected] ABSTRACT: This study aims to analyze the spatial-temporal distribution of rainfall in the State of Amapá, via satellite estimates of rainfall and rainfall data from gauges in surface and assess the performance of the algorithm to estimate rainfall 3B43 for this region for the year 2009. The application of this algorithm results from a combination of estimates in multisatellite channel microwave and infrared measurements with rain gauges at stations from conventional surface. Comparative analysis of precipitation in the State showed that the precipitation estimated by the 3B43 algorithm for precipitation measured by rain gauges showed differences mainly in the coastal region of the state. However, in a more objective analysis results indicate that o 3B43 algorithm is similar the precipitation measured at the surface at a station located in the town of Laranjal do Jari for the year 2009. Palavras Chave: Precipitação, 3B43, Amapá. 1 - INTRODUÇÃO A região Amazônica caracteriza-se por não possuir homogeneidade espacial e temporal em seu regime pluviométrico. É a região brasileira com o maior total pluviométrico anual observado, apresentando grande concentração de umidade, principalmente na parte Norte, sendo notável no litoral amapaense, na foz do Rio Amazonas e no setor ocidental da Região, onde a precipitação excede 3000 mm/ano (NIMER, 1989). A melhor compreensão da variabilidade da precipitação auxilia no planejamento da ação de combate à degradação do meio ambiente, fornecendo elementos para a preservação e desenvolvimento sustentável de uma região de modo a lidar com episódios adversos. Entretanto, a baixa densidade da rede de pluviômetros e o difícil acesso em certos lugares não permitem que haja uma melhor descrição da distribuição pluviométrica espacial e temporal na América do Sul, por isso são utilizadas alternativamente, estimativas de precipitação por satélites (NEGRI & ADLER, 2002; MOTA, 2003). Estudos preliminares para o Estado do Amapá utilizando uma média de 11 anos de dados de precipitação mostraram que os dados estimados através de satélite obtiveram um bom desempenho em relação aos dados obtidos através de pluviômetros (AMANAJÁS et al., 2009). Neste contexto o estudo tem como objetivo analisar a distribuição espacial e temporal da precipitação no Estado do Amapá através de estimativas por satélite e dados de pluviômetros para o ano de 2009 e verificar se os resultados obtidos concordarão com os resultados prévios. 2 - MATERIAIS E MÉTODOS O estudo presente utiliza a estimativa de precipitação 3B43. Este algoritmo é proveniente de uma combinação entre estimativas multi-satélites no canal de microondas, canal infravermelho e as análises de pluviômetros do Global Precipitation Climatology Centre (GPCC) baseados em medições de pluviômetros em superfície, maiores detalhes do algoritmo descritos em Huffman et al., (2007). O 3B43 tem como resolução temporal, acumulados mensais de precipitação (mm) e estão organizados espacialmente em ponto de grade com resolução de 0,25º × 0,25º de latitude e longitude. Os dados de pluviômetros utilizados neste trabalho são provenientes de estações meteorológicas, hidrológicas e agrometeorológicas, pertencentes à rede híbrida de coletas de dados, admistradas pelos seguintes orgãos: Instituto Nacional de Meteorologia, Agencia Nacioanal de Águas, Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos e do Núcleo de Hidrometeorologia do Amapá presente na Tabela 1. Tabela 1 – Estações Meteorológicas distribuídas no estado do Amapá. ESTAÇÃO LATITUDE LONGITUDE Estirão Cricou 3,72 -51,92 Macapa 0,05 -51,50 Ret. Santa Isabel 3,05 -51,37 São Francisco 0,58 -52,61 Tartarugal Grande 1,39 -51,06 Iratapuru 0,40 -51,75 Pacui 0,96 -50,86 Santana 0,04 -51,20 Oiapoque 3,81 -51,86 Tartarugalzinho 0,70 -51,42 Porto Grande 1,46 -50,91 Macapa -0,05 -51,12 Porto de Moz -1,73 -52,25 Serra do Navio 0,90 -52,00 O estudo comparativo foi feito em duas etapas: 1) Análise espaço-temporal da precipitação para Estado do Amapá: comparação entre a precipitação mensal do ano de 2009 através dos dados observados convencionalmente em superfície (PLUV) e os dados do algoritmo 3B43 de 14 estações distribuídos nos municípios amapaenses indicados na Figura 1. 2) Análise da precipitação ponto à pixel: comparação entre os valores de quatro pontos de grades da estimativa 3B43 com os dados medidos convencionalmente nos pluviômetros em superfície de quatro municípios Oiapoque, Laranjal do Jarí, Tartarugalzinho e Macapá utilizando os totais mensais do período de janeiro a dezembro de 2009. A comparação entre os valores da precipitação estimada e PLUV foi feita com base no coeficiente de correlação linear calculado pela Equação 1. r= N N N i =1 i =1 i =1 N ∑ PMi PEi − (∑ PMi )(∑ PEi ) (1) N N N ⎡ N 2 2 2⎤ ⎡ 2⎤ N PM ( PE ) N PM ( ⋅ − − ⎢ ∑ i ∑ i ⎥ ⎢ ∑ i ∑ PEi ) ⎥ i =1 i =1 ⎦ ⎦ ⎣ i=1 ⎣ i=1 Em que N é igual a 12 (meses), PM é a precipitação medida em superfície através dos pluviômetros e PE é a precipitação estimada através do algoritmo 3B43. 3 - RESULTADOS De forma geral, o estado do Amapá possui alta pluviosidade distribuída diferentemente ao longo do ano e de seu território. De acordo com Nimer (1989), no Estado do Amapá, o período seco corresponde ao trimestre setembro –outubro-novembro (SON) e que o período chuvoso no trimestre de março-abril-maio (MAM), sendo que os trimestres de dezembro-janeiro-fevereiro (DJF) e junho-julho-agosto (JJA) representam o período de transição entre um período e outro. Esta marcha anual da precipitação e influenciada principalmente pelo deslocamento norte e sul da Zona de Convergência Intertropical (RAO E HADA, 1990), além disso, os maiores totais pluviométricos na região costeira do Amapá estão associados com a formação das Linhas de Instabilidade que podem ou não se propagar em direção ao interior do Estado (COHEN, 1995). Na análise comparativa para o ano de 2009 durante o trimestre DJF os maiores acumulados de precipitação estão confinados na parte oriental do Estado tanto nos dados observados em pluviômetros (Figura 2a) quanto nos dados do algoritmo 3B43 (Figura 2b). Entretanto nota-se que existem certas discrepâncias quanto aos valores especialmente no mês de fevereiro onde o 3B43 mostra uma superestimação nos valores de precipitação na região central do Estado em relação ao observado em superfície. (a) (c) (b) (d) Figura 1. Precipitação mensal total do ano de 2009 no Estado do Amapá medida através de pluviômetro para os meses: (a) de dezembro-janeiro-fevereiro, (b) de março-abril-maio; e estimada pelo algoritmo 3B43 para os meses: (c) de dezembro-janeiro-fevereiro, (d) de março-abril-maio. (a) (c) (b) (d) Figura 2. Precipitação mensal total do ano de 2009 no Estado do Amapá medida através de pluviômetro para os meses: (a) de junho-julho-agosto, (b) de setembro-outubro-novembro; e estimada pelo algoritmo 3B43 para os meses: (c) de junho-julho-agosto, (d) de setembrooutubro-novembro. No trimestre MAM de 2009 mostrou diferenças importantes entre a proveniente de pluviômetros o algoritmo o 3B43 sendo que este último superestima, de forma geral, a preciipitação naa faixa litorrânea e nãão representta de form ma clara a variabilidad de espaciall existtente nessa região, r ou seja, s o forte gradiente observado o n nessa faixa nna figura 2cc apresenta-se fraaco na mesm ma região na n figura 2dd. As Figuraas 3a e 3b reepresentam a precipitaçção medidaa atravvés de pluvviômetros e estimada por satélittes, respecttivamente ddurante o período dee transsição do anoo de 2009 (trimestre ( J JJA). Em to odos os messes deste peeríodo o 3B B43 (Figuraa 3d) não n represenntou de form ma satisfatóória a precip pitação em relação r a PL LUV (Figurra 3c), com m exceção a partee ocidental do Estado a qual apreesenta uma certa similaridade en ntre as duass fontees de dados para este ano. a Durantte o trimestrre seco (SO ON) o algorritmo 3B43 permanecee mosttrando disccrepâncias entre e as duuas diferen ntes fontes de dados, entretanto o mês dee noveembro apressenta sua distribuição espacial e de precipitaçãoo qualitativvamente sim milar entre o PLU UV e o 3B433, com exceção do oestte do Amapá que apresenta a preciipitação sup perestimadaa do 3B B43 em relaação a do PL LUV. Em um ma análise pontual, p a Figura F 3 mo ostra a precipitação tottal mensal medida m noss pluviiômetros e estimada pelo p 3B43 para os qu uatro municípios analissados nestee estudo noo estaddo do Amappá para o anno de 2009. Verifica-sse que na média m o algooritmo 3B43 apresentaa discrrepâncias em m relação aos dados medidos pontualment p te nos munnicípios de Oiapoque,, Tartaarugalzinhoo e Macapáá, entretantoo para o município m dee Laranjal do Jarí a precipitação p o estim mada estevee de formaa relativam mente similaar a precippitação meedida no plluviômetro.. Sugeere-se que issto ocorra devido d a preecipitação está e mais hoomogeneam mente distrib buída nessaa regiãão, e dessa forma f a preccipitação naa estação é representati r iva a precippitação estim mada para o pontoo de grade no n qual o município m está inserido. Figuura 1. Precippitação totaal mensal medido m nos pluviômetro p os (barras veerdes) e estiimada pelo 3B43 (barras marroons) para os municípioss Amapaensses durante o ano de 20 009. Tabela 2 - Coeficiente C de correlaçção entre a precipitação p o média meddida nas PC CDs e a p precipitação o média estiimada pelo algoritmo 3B43 3 para os o municípioos pernambucanos (janeeiro/2003 a maio/2009) m ) Municcípio Co oeficiente de d correlaçãão(r) Oiapooque 0,743 Laranjal do Jarí 0,960 Tartaruggalzinho 0,851 Macapá 0,838 A Tabeela 2 mostraa o coeficieente de corrrelação lineaar (r) obtidoos entre a precipitação p o estim mada pelo 3B B43 e a preecipitação medida m atrav vés de pluviiômetros paara os nove municípioss analiisados. O município m q obteve a melhor correlação que c e entre as duaas fontes de d dados dee preciipitação foi Laranjal doo Jari, com o valor de 0,96, 0 e os demais d muniicípios tiverram valoress menores que 0,9 e Oiapoque foi o município que apresentou o menor r, demonstrando neste a a marcha anual de 2009 apresentou uma fraca correlação entre as duas fontes de dados analisadas neste trabalho. 4 - CONCLUSÕES A comparação entre a precipitação estimada através do algoritmo 3B43 e a PLUV distribuição espaço-temporal de precipitação com discrepâncias, hora subestimando, hora superestimando a precipitação no Estado do Amapá. Qualitativamente a distribuição apresentou certa similaridade, porém quantitativamente o algoritmo 3B43 não representou com fidelidade a distribuição de chuvas ao longo do ano de 2009, o principalmente na região costeira do Estado, não corroborando com os resultados obtidos por Amanajás et al (2009). Em uma analise mais objetiva dos quatro municípios escolhidos o qual obteve o melhor resultado foi Laranjal do Jarí localizado a sudoeste do Amapá. Esse resultado pode está ligado a homogeneidade da distribuição espacial da precipitação na região, no qual o valor pontual medido através do pluviômetro é representativo a grade utilizada na estimativa do algoritmo 3B43. Sugere-se que os desvios entre o valor da precipitação média estimada e PLUV estejam associados: com a metodologia empregada, que compare os dados pontuais dos pluviômetros com uma média numa área de ¼ de grau de latitude e longitude; a possível ocorrência de diferentes padrões de precipitação em diferentes pontos intragrade; e a diferença na natureza de sistemas precipitantes formados sob as distintas superfícies e épocas do ano. Sugere-se que estudos adicionais sejam realizados para avaliar melhor a aplicabilidade do algoritmo. AGRADECIMENTOS: Os autores agradecem a CAPES e ao Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá/Núcleo de Hidrometeorologia e Energias Renováveis pela disponibilização dos dados para a realização deste estudo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMANAJÁS, J. C., M. D. L.; GOMES, N. V.; BRAGA, C. C.; CUNHA, A. C. Avaliação da Previsão de precipitação do Modelo Eta no leste do Nordeste do Brasil para o período chuvoso de 2006. In : III Simpósio Internacional de Climatologia, 2009, Canela – RS. COHEN, J. C. P.; SILVA DIAS, M. A. F; NOBRE C. A. Environmental conditions associated with Amazonian squall lines: A case study. Monthy Weather Review, Boston, v. 123, n.11, p. 3163-3174, Nov. 1995. GOMES, N. V.; MOTA G. V.; OLIVEIRA, R. A. J. Estudo comparativo da distribuição espaço-temporal da precipitação na Amazônia oriental. In: XV Congresso Brasileiro de Meteorologia, 2008, São Paulo. Anais do XV Congresso Brasileiro de Meteorologia, 2008. HUFFMAN, G. J; ADLER, R. 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