6 CARACTERIZAÇÃO E DINÂMICA DOS MECANISMOS DE INCENTIVO AO DESENVOLVIMENTO DO POLO PORTO DIGITAL DE PERNAMBUCO Marcílio Garcia Case* Henrique Tomé da Costa Mata** Resumo O objetivo da pesquisa consistiu em verificar as características que possibilitaram a formação do Polo de Informática de Pernambuco e analisar os mecanismos de incentivo e financiamento a seu desenvolvimento. Com esse suporte, pretendeu-se fazer um estudo sobre as vantagens competitivas, tomando como base os elementos relativos à produção, mão de obra e estrutura institucional dos incentivos. Nesse sentido, a caracterização geral foi realizada com base na literatura apropriada e, sobretudo, com as informações institucionais coletadas junto aos principais agentes integrantes públicos e privados. Com base no trabalho de campo, observaram-se as peculiaridades do funcionamento das empresas, perfis internos e a relação de parcerias entre instituições no âmbito da tecnologia da informação no estado de Pernambuco. Os resultados do questionário aplicado junto às unidades de produção do arranjo produtivo permitiram avaliar as vantagens competitivas do polo, os principais entraves e a dinâmica de funcionamento, bem como os impactos sociais e econômicos mais relevantes. Dessa maneira, pôde-se inferir sobre a sustentabilidade do setor de informática no estado e possibilidades de expansão futura do Polo de Informática de Recife. Palavras-chave: Polo de informática. Pernambuco. Perfil produtivo. Perfil de mão de obra. Abstract The main objective of this work is to check the characteristics that enabled the creation of the Brazilian State of Pernambuco Computer Technology Center and to analyze incentives and financial measures for the institution. With this support, this work aims at to carry out a study on competitive *1Graduado em Economia pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFBA. [email protected] **2Professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFBA. [email protected] Revista Desenbahia nº 13 / set. 2010 | 163 advantages, based on relative elements of labor, production, and institutional structures of incentives. In this sense, the general characterization was traced according to the existing literature and, specially, by institutional information from the main private and public agents. Based on field work, it was noted particularities of the enterprises, internal profiles and the partnerships with computer technology institutions in the State of Pernambuco. Outputs from the application of questionnaires enabled the evaluation of competitive advantages of the Center, the main barriers and its functioning dynamics, as well as more relevant social and economical impacts. Therefore, it is possible to infer about sustainability towards the computer technology sector and future expansion of the Recife Technology Center. Keywords: Information Technology. State of Pernambuco, Brazil. Productive profile. Labor profile. 164 | Caracterização e dinâmica dos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento do polo porto digital de Pernambuco Introdução A Tecnologia da Informação (TI) é uma ferramenta cada vez mais presente na realidade das pessoas, empresas e governos. Ela é entendida como a sistematização, organização e difusão de informação por meio da computação. O segmento de informática tornou-se, portanto, indispensável para a estrutura competitiva da economia global (ALECRIM, 2008). No Brasil, uma maneira de estimular o desenvolvimento de setores de Tecnologia da Informação deu-se por meio de reservas de mercado em informática e, posteriormente, com a criação da legislação específica, a Lei de Informática, de 1991, que tinha como elemento diferencial a busca de sustentabilidade do setor, sobretudo por meio de iniciativas de Pesquisa e Desenvolvimento (GARCIA; ROSELINO, 2004). Em Pernambuco, além das políticas nacionais, as próprias características da indústria local dotaram o estado de um potencial nas áreas tecnológicas. Dias (1996) ressalta que a formação industrial de Pernambuco seguiu os mesmos ditames da industrialização do Nordeste. Todavia, diferente do que ocorreu em outros estados da região, os pernambucanos obtiveram êxito em setores de mecânica e eletrônica, sendo essa a particularidade industrial do estado, capaz de propiciar uma base satisfatória para o desenvolvimento de atividades tecnológicas. A consolidação desse potencial ocorreu com a formação do polo de informática do Recife. Criado em 2000, o Porto Digital é consequência de ações do setor público ligadas a um projeto de revitalização da região central da cidade. Atualmente, o polo concentra mais de 100 unidades empresariais e gera pouco mais de 3.000 empregos diretos, demonstrando nítida articulação com a dinâmica local e, ao mesmo tempo, com os mercados internacionais, principalmente pelo destaque de empresas orientadas para a programação de softwares (LIMA; SICSÚ; PADILHA, 2007). O presente trabalho tem como objetivo identificar os mecanismos dinâmicos da funcionalidade do polo de informática pernambucano e as peculiaridades do programa de incentivo que lhe foram inerentes. Informações institucionais, dados secundários e a realização de uma pesquisa de campo junto às empresas do Porto Digital possibilitarão compreender e descrever a formatação de produtos oferecidos, as características de mão de obra e a rede de articulação dos agentes produtivos com o mercado e a economia do estado. Com base nisso, verificam-se os aspectos satisfatórios e as vantagens competitivas, além da identificação dos principais entraves e perspectivas futuras para a expansão do Porto Digital. Revista Desenbahia nº 13 / set. 2010 | 165 O artigo concentra-se na seguinte sequência de exposição: na primeira seção, faz-se uma exposição da metodologia adotada no desenvolvimento da análise; são apresentados na segunda seção os referenciais temáticos, dispondo de informações sobre as bases para a concepção do polo na região; na terceira seção, faz-se uma discussão sobre o arranjo institucional e programas de incentivos fiscais para o Porto Digital, com base nas informações e dados secundários, mostrando os principais órgãos e arranjos institucionais associados à dinâmica de gestão; na última seção, são analisados os dados primários obtidos na pesquisa realizada com base em uma amostra de unidades empresariais do Porto Digital. Aspectos metodológicos O ponto central para a elaboração deste artigo reside na avaliação das características institucionais e produtivas do polo de informática de Pernambuco. Para isso, além da análise teórica e institucional, realizou-se uma pesquisa de campo, buscando verificar a perspectiva das empresas integrantes. Este levantamento foi operacionalizado com a aplicação de um questionário aberto junto às empresas. O questionário foi atendido via e-mail, com a intermediação do Núcleo de Gestão do Porto Digital (NGPD) e compôs-se de questões relativas à produção, arranjo institucional, programas de incentivos fiscais, características de produtos e serviços, perfil de emprego, qualificação e remuneração, aspectos estruturais do mercado e da região, relação entre fornecedores e clientes, entre outros. O tratamento e a análise de dados primários foram realizados com os recursos do programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 10,0. Aspectos econômicos e industriais do estado de Pernambuco e região Nordeste Nesta seção será abordado o processo de formação econômica e política da região Nordeste e do estado de Pernambuco, tanto nos aspectos em comum como em suas particularidades. No caso pernambucano, ganham destaque os fatores ligados à produção tecnológica. Industrialização do Nordeste A concepção da indústria no Nordeste brasileiro envolveu basicamente a ideia da vinculação entre o processo endógeno e a dinâmica industrial da região Sudeste. O ponto chave dessa concepção consiste na especialização regional 166 | Caracterização e dinâmica dos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento do polo porto digital de Pernambuco na produção de bens intermediários a serem incorporados à produção de bens finais concentrados no Sudeste e Sul do Brasil. Essa especialização é viabilizada por certos elementos, dentre eles os incentivos fiscais demonstrados por Furtado (1989). Com relação à formação histórica da economia nordestina, é imprescindível mencionar a produção açucareira, atividade característica da região ao longo dos séculos. Esta característica peculiar reside no fato de que, durante esse longo período, a comercialização do açúcar estava restrita ao monopólio da Coroa portuguesa. Em função disso, o excedente regional era, em sua maior parte, remetido a Portugal. Por outro lado, o que sobrava deste excedente não era investido em atividades produtivas (mecanização da produção), mas em construções de igrejas e outras obras, cuja dinâmica estava orientada para a manutenção da estrutura social e domínio lusitano. Mais tarde, com a chegada dos holandeses, teve início a concepção de um projeto de desenvolvimento produtivo para o Nordeste, que acabou camuflado pelo controle português. Uma auspiciosa saída da tutela do improdutivo Portugal foi experimentada por uma fração do Nordeste, no século XVII, com a chegada dos holandeses, dispostos a sanear não só a cidade que escolheram para instalar o poder colonial, como também as finanças da então já combalida atividade açucareira. Vencida a resistência inicial, puseram-se a desenvolver seu projeto. Não chegaram a auferir o benefício do retorno dos empréstimos. Sentiram os líderes locais de então, o chamado a cumprir o dever de retornar ao jugo português. Os holandeses foram brilhantemente derrotados e como de resto na colônia, voltou-se à efetiva restrição ao desenvolvimento de atividades manufatureiras. (DIAS, 1996, p. 78). No que tange ao processo de industrialização, alguns pontos mostraram-se fundamentais para a formação e consolidação do Nordeste. De acordo com Wanderley (1996), o processo econômico do Nordeste consistia de três fases, que refletiam entre si a dinâmica produtiva baseada em bens intermediários. A primeira fase, denominada isolamento, atrelava-se à produção primária. A região era dotada de características econômicas semelhantes às do país, tendo na produção agrária açucareira a força regional central, com foco no mercado externo. A segunda fase, designada de fase de articulação, coincidia com o surgimento de um mercado interno no país. Esta fase acentua-se no período da crise cafeeira, quando a região Nordeste passa a ter duas facetas comerciais distintas: uma orientada para o fornecimento de certos bens para o Sudeste e outra para suprir a demanda local. Nesse período faltou maior vínculo entre o Nordeste e o resto do Brasil e, em razão da concentração da Revista Desenbahia nº 13 / set. 2010 | 167 maior parte de geração dos excedentes na região Sudeste, o polo industrial do país potencializou-se no estado de São Paulo (DIAS, 1996). A terceira fase da formação econômica é a que abrange a industrialização regional propriamente dita, chamada de fase de consolidação. Esse estágio engloba a integração produtiva, pautada nos incentivos fiscais e financeiros e na descentralização espacial da indústria, além do Sudeste, a partir da década de 1960, por causa da recessão que atingira aquele parque industrial. Na década de 1970, passa-se a admitir a integração nordestina no parque industrial brasileiro, devido, em parte, ao insucesso do modelo de substituição das importações no Nordeste. As políticas de Estado não foram os únicos fatores de estímulo à integração produtiva. Diversos aspectos sociais, principalmente por manifestações populares, acabaram tendo papel importante no processo de construção da indústria nordestina (GUIMARÃES NETO, 1997). Além disso, fatores estruturais também foram relevantes para a redistribuição espacial da indústria. [...] a economia regional passou a acompanhar de perto o crescimento da economia brasileira (período 1960-75) e até a superá-lo (1975-80). Houve diversificação industrial, por meio da qual a estrutura do setor público se voltava cada vez mais para a produção de bens intermediários, em detrimento da indústria de bens de consumo não-duráveis (alimentos, têxteis, calçados, vestuário) que constituía o segmento principal da fase anterior. Alguns espaços agrícolas se modernizaram, sobretudo com a irrigação, e os serviços modernos, em particular nas capitais dos estados e regiões metropolitanas, passaram a marcar presença na vida urbana, simultaneamente ao surgimento de uma economia informal que invadiu as ruas centrais das grandes cidades, mostrando as contradições dos processos ocorridos. (GUIMARÃES NETO, 1997, p. 47). O Nordeste passa então a obter taxas de crescimento próximas às nacionais, superando-as no final da década de 1970. É exatamente neste período que ocorre a mudança estrutural da atividade econômica nordestina, na qual os bens intermediários foram substituindo os bens de consumo não-duráveis, sobretudo os de gênero alimentício. Conforme Guimarães Neto (1997) e Wanderley (1996), na década de 1980, a região manteve o ritmo de crescimento, porém sob taxas decrescentes e por causa de problemas de integração produtiva. Embora essa integração produtiva tenha introduzido avanços nas técnicas de produção e nas relações de trabalho, propiciando um aumento de produtividade, não solucionou a problemática do desemprego, pois a industrialização desarticulada intrarregionalmente 168 | Caracterização e dinâmica dos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento do polo porto digital de Pernambuco refletiu-se em uma heterogeneidade no mercado de trabalho (WANDERLEY, 1996). Para Guimarães Neto (1997), as transformações ocorridas na região acabaram sendo pilares para a diversificação produtiva e consolidação de áreas dinâmicas no final do século XX. As características heterogêneas da economia regional no processo de integração culminaram na possibilidade de formação de polos e complexos industriais e agroindustriais locais, o que, de certa forma, propiciou o desenvolvimento de áreas industriais tecnológicas, objeto de análise no presente artigo. Bases para o segmento tecnológico na região Consolidada a indústria nordestina por meio do processo de integração produtiva, cabe verificar a capacidade da região para o desenvolvimento de atividades de base tecnológica. Dias (1996) apresenta um raciocínio importante para essa análise. O fator apontado pelo autor reside na excelência em pesquisa, através da qual a região pôde refletir seu potencial na produção acadêmica e nas áreas científicas e tecnológicas. Aliada a isso, a distribuição espacial da produção industrial no Nordeste ganhou dinamismo, implicando na divisão regional da expansão industrial. Essa distribuição tem como característica principal a concentração de firmas nas três grandes regiões metropolitanas regionais. Em Salvador, por exemplo, consolida-se, a partir da década de 1970, o centro de produção química e metalúrgica; no Recife, o ramo metal-mecânico e eletro-eletrônico; em Fortaleza, destaca-se a produção têxtil. Relativamente à abordagem técnico-científica, vale ressaltar que sua dinâmica estava associada à realização de investimentos públicos de elo acadêmico-governo-mercado, tornando visíveis as ações no campo de Ciência e Tecnologia (C&T). Essa dinâmica, descrita em Dias (1996), traz intrinsecamente a ideia da regionalização da atividade produtiva. Um problema que não pode ser ignorado é a disparidade entre esses centros de excelência no nordeste e a força acadêmica consolidada nas regiões Sul e Sudeste. A capacitação humana mediante a formação universitária é o elemento principal em C&T. Apesar de tudo, a região Nordeste ainda não tem capital humano como outras regiões brasileiras, a exemplo da Região Sul. Sicsú e Lima (2003) mostram que, em 1998, 74% das instituições e alunos matriculados no ensino superior brasileiro estavam concentrados nas regiões Sul e Sudeste. O mesmo ocorreu com os centros de pesquisa não-universitários. Com base em dados do Ministério da Educação, os autores mostram que, em 1998, aproximadamente 80% dos doutores empregados nos centros deste Revista Desenbahia nº 13 / set. 2010 | 169 tipo estavam nas regiões Sul e Sudeste. O maior destaque do Nordeste, porém, é a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que, neste mesmo ano, foi a única instituição acadêmica da região a figurar entre as dez principais no Brasil, em relação ao número de pesquisadores e doutores. Percebe-se, porém, uma tendência a modificar esses paradigmas. Se o potencial de desenvolvimento científico e tecnológico está atrelado à capacidade de desenvolvimento de recursos humanos por meio de cursos de pós-graduação, seria positivo o aumento na oferta de cursos de doutorado verificado, sobretudo, em Pernambuco e no Rio Grande do Norte (SICSÚ; LIMA, 2003). Registra-se também a existência de outras instituições ligadas à questão da inovação e Ciência e Tecnologia. Muitas atuam em suporte e prestação de serviços às indústrias, a exemplo das universidades, dos Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefet) e dos centros de pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), quase todos orientados para a pesquisa sobre técnicas de produção. Para Sicsú e Lima (2003), o Cefet paraibano possui um relevante trabalho de pesquisa em tecnologia, direcionada primordialmente para a área de telecomunicações. Também vale destacar o trabalho da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife, que, a despeito do foco mais direcionado às pesquisas em ciências políticas e sociais, dispõe de grande volume de pesquisas ativas, dirigidas ao campo da economia de Pernambuco e da região Nordeste. Para o desenvolvimento de um polo tecnológico na região Nordeste é fundamental o domínio dos multiplicadores econômicos e sociais de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e sua aplicação em setores econômicos tradicionais. A modernização tecnológica na atividade canavieira-sucro-alcooleira, por seu turno, envolve não só mudanças nos atuais processos de cultivo e de transformação industrial, com diversificação de insumos no segmento industrial, mas também a utilização da cana-de-açúcar para a obtenção de novos produtos. Parte destas mudanças pode envolver grandes unidades de produção e para esta parte há segmentos empresarialmente dinâmicos capazes de se articularem com o Estado, em suas diversas instâncias, para gerar e participar de programas que envolvam a utilização de métodos produtivos de alta tecnologia. (DIAS, 1996, p. 121). O desenvolvimento tecnológico de uma região depende, fundamentalmente, do fortalecimento de setores de pesquisa, um enfoque que carece de base infraestrutural e locacional e, principalmente, de programas adequados de incentivos e financiamento. Um bom sistema de transportes e logística de fornecimento de energia elétrica, por exemplo, são essenciais para a execução das atividades de P&D e para a geração de atrativos às novas empresas. 170 | Caracterização e dinâmica dos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento do polo porto digital de Pernambuco Dias (1996) destaca o papel das três regiões metropolitanas mais importantes do Nordeste. As regiões de Fortaleza, Recife e Salvador, que possuem importantes centros de referência em pesquisa, além dos já mencionados. O Departamento de Física da UFPE, por exemplo, possui um conceituado programa de doutorado que tem sido fundamental para experiências pernambucanas na interligação entre a indústria microeletrônica e trabalhos orientados para o setor de informática, concretamente na execução das primeiras linhas de produção de hardware e software (ANJOS JÚNIOR, 1991). Verifica-se também a importância de outras duas regiões metropolitanas no suporte às atividades dirigidas para o ramo industrial. A região metropolitana de Fortaleza (CE), a despeito da tipologia industrial centrada no setor têxtil e consolidada com a integração produtiva regional, detém reconhecido trabalho realizado pelo Departamento de Química da Universidade Federal do Ceará (UFC). O mesmo ocorre na área de Química na região de Salvador (BA), que atende a uma demanda industrial de grande porte, concentrada no polo petroquímico de Camaçari. No médio prazo, todos esses elementos foram fundamentais para o desenvolvimento sustentável e produtivo de tecnologias na região Nordeste. Não obstante, Dias (1996) considera que os atrativos à obtenção de um bom know-how na região devem ser oferecidos de forma responsável, pois o excesso de incentivos fiscais pode resultar em riscos à tecnologia nacional, em razão da competição entre o conhecimento local produzido e o obtido do exterior. A ideia fundamental reside na formação das bases para os setores tecnológicos na região em consonância com a dinâmica e necessidades locais. Aspectos gerais da economia pernambucana Os principais elementos do desempenho econômico no estado de Pernambuco estão ligados à ideia da industrialização via integração produtiva, na qual o estado se inseriu pela produção de bens intermediários. Neste sentido, merecem destaque o ramo da microeletrônica e as experiências no setor de informática. As peculiaridades da Região Metropolitana do Recife (RMR) conferiram as bases para o novo perfil da economia pernambucana, especialmente no financiamento e desenvolvimento de novos projetos no setor de microeletrônica e informática. O estado de Pernambuco vem apresentando crescimento econômico anual satisfatório nos últimos anos, como se pode observar nos Gráficos 1 e 2. Revista Desenbahia nº 13 / set. 2010 | 171 Gráfico 1 Taxa de crescimento do PIB – Pernambuco e Brasil – 2003-2006 Fonte: Pernambuco (2006, p. 1). A atração de investimentos desde finais dos anos 1990 começou a apresentar os primeiros resultados na economia do estado. É com base neste novo dinamismo econômico que se destaca o papel do complexo industrial e portuário de Suape, importante nicho industrial e comercial moderno. O complexo dispõe de um dos maiores portos do país, estaleiro, refinaria de petróleo, unidades produtoras de poliéster, entre outros. Faz parte deste esforço de gestão do complexo o desenvolvimento de medidas infraestruturais para a potencialização do crescimento econômico sustentável. Gráfico 2 Participação do PIB do estado de Pernambuco na região Nordeste – 2006 Fonte: Pernambuco (2006, p. 2). Para a concretização dessa dinâmica, o setor público deve fortalecer as bases da estrutura produtiva, capacitação de mão de obra e expansão de programas direcionados à infraestrutura, o que se faz por meio de políticas 172 | Caracterização e dinâmica dos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento do polo porto digital de Pernambuco e programas de financiamento em áreas promissoras e dinâmicas da economia, a exemplo do polo de informática local, do Polo Farmacêutico da região de Goiana e do Polo Médico do Recife. Tudo isso mostra que, além dos objetivos estritos de transferências de poupanças com vistas às modalidades de financiamento setoriais, fatores políticos, econômicos e sociais, são muitas vezes fundamentais. Experiência local no desenvolvimento da microeletrônica e informática Como descrito, tanto o Nordeste quanto Pernambuco dispunha historicamente de certa base de know-how para o desenvolvimento de atividades de alta tecnologia. No caso de Pernambuco, os centros de pesquisa da UFPE estavam dotados de excelência em estudos orientados para alta tecnologia. O dinamismo da indústria microeletrônica em Pernambuco pode ser compreendido em Dias (1996) como um sucesso em meio às dificuldades econômicas enfrentadas pelo estado. Vale destacar o papel dos produtos de engenharia reversa,1 vinculados à produção de microcomputadores e periféricos, placas lógicas, circuitos impressos e outros elementos na área de hardware. Para viabilizar esse nicho tecnológico de negócios, Pernambuco apresentou importante perfil diferencial, no que se refere à integração de empresários, acadêmicos e pesquisadores na busca de novas oportunidades e soluções em eletrônica e informática, como se pode destacar pelo papel desempenhado pelo Departamento de Física da UFPE. O desenvolvimento de um grupo de pesquisa experimental de alto nível, atuando na área de física do estado sólido, gerou uma demanda interna de serviços de alto cunho tecnológico representado pelos necessários controles e automação dos experimentos. (ANJOS JÚNIOR, 1991, p.105). Até certo ponto, o alcance das pesquisas extrapolou os limites da academia e transformou-se em empreendimento propriamente dito. A formação de um grupo de empresas funcionalmente relacionadas, localizadas na Região Metropolitana de Recife, embora não em vizinhança, em grupo de empresas relacionadas à microeletrônica, foi em grande parte resultado de um estímulo inicial gerado por uma política acadêmica de condução de pesquisa, relativa aos seus instrumentos de trabalho. (DIAS, 1996, p. 104). 1 A engenharia reversa constitui-se na verificação de conceitos e soluções consolidadas para, com base neles, construir um novo sistema ou equipamento capaz de desempenhar as mesmas funções, porém com diferenças de concepção, não sendo exatamente uma cópia do original consolidado. Revista Desenbahia nº 13 / set. 2010 | 173 No âmbito desse dinamismo, foi criado um conglomerado de empresas produtoras de materiais elétricos, que fabricavam desde transformadores de voltagem a circuitos, com o gradual fornecimento dos principais insumos para a solidificação da indústria microeletrônica, a exemplo dos insumos elétricos e eletrônicos. A unidade empresarial Elógica, fundada no início dos anos 1980, teve por foco a produção de computadores e, em parceria com a UFPE, priorizando a estratégia de diferenciação de produto por meio de projetos conjuntos. Foi este o ponto fundamental da estratégia de integração empresas-academia. Essa articulação, delineada já em meados dos anos 1980, estimulou a produção local de componentes eletrônicos e deu suporte real ao setor de informática, além de dinamizar a formação de aglomerados de pequenas empresas nos diversos tipos de circuitos. Além desse encadeamento produtivo, devem ser ressaltados os aspectos regionais que permearam o pensamento acadêmico e empresarial nas décadas de 1970 e 1980. Tanto as pesquisas desenvolvidas no âmbito acadêmico quanto as inovações empresariais estavam ligadas à demanda de novos meios para o desenvolvimento regional. Concluindo este breve histórico da constituição da indústria de informática em Pernambuco, queremos apenas chamar a atenção para o aspecto que a singulariza perante as demais experiências semelhantes, qual seja o seu caráter regionalista. A concepção da instalação de uma indústria de alta tecnologia em Pernambuco nasceu sob a perspectiva de desenvolver a própria produção local. Buscou-se criar núcleos dinâmicos que demandassem vários componentes a empresas com origem no Estado, as quais se veriam estimuladas a produzi-los e, assim, integrarem-se entre si. Este projeto “familiar” de criar um “vale de areia”, em Pernambuco, é fundamental para compreender a trajetória dessas empresas e as possibilidades que se abrem para a manutenção e expansão no futuro. (ANJOS JÚNIOR, 1991, p. 108). Concepção desenvolvimentista e institucional dos incentivos ao Porto Digital Nesta seção são mostrados os elementos que possibilitaram a criação e a consolidação do polo de informática do Recife, além de alguns detalhes sobre iniciativas institucionais. Os incentivos fiscais representaram a principal fonte de financiamento em quase todos os âmbitos da realização do projeto de desenvolvimento do polo e recentes intercâmbios entre a universidade e o setor privado em matéria de tecnologia de informação (TI). As vantagens competitivas da localização do Porto Digital e o arranjo estrutural entre empresas concentradas evidenciam as características específicas desse arranjo tecnológico. 174 | Caracterização e dinâmica dos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento do polo porto digital de Pernambuco O Porto Digital foi criado em julho de 2000 e se consolidou como parque tecnológico de atividades de inovação em TI, desenvolvidas entre empresas privadas, universidades e órgãos governamentais (LIMA; SICSÚ; PADILHA, 2007). Os investimentos iniciais foram estimados em aproximadamente R$ 33 milhões, tendo como principal fonte de financiamento o governo estadual. Definido como cluster de informática com ênfase no desenvolvimento de softwares, o polo do Recife compõe-se de 120 diferentes instituições, dentre empresas privadas, agências de fomento, órgãos de governo, incubadoras, instituições de ensino e pesquisa, atuando em parceria e cooperação, conforme a própria definição de Arranjo Produtivo Local (APL). Até 2008, o Porto já havia gerado cerca de 4.000 empregos na região central da cidade, a maioria em pequenas e médias empresas. Lima, Sicsú e Padilha (2007) mostram que o polo destaca-se no cenário mundial de TI em razão da produção tecnológica de alto valor agregado. As atividades desenvolvidas no Porto já correspondem a 3,63% do PIB do estado de Pernambuco, segundo dados de 2005 da Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco (Condepe). (PORTO DIGITAL, [ca. 2009]). Quanto à governança, logo após a concepção do polo, criou-se o Núcleo de Gestão do Porto Digital (NGPD), organização sem fins lucrativos, com o objetivo de orientar e monitorar o andamento das atividades e a interação entre diversas empresas e instituições integrantes do APL. Dos R$33 milhões disponibilizados como investimento inicial, aproximadamente R$14,0 milhões continuam ainda sendo geridos pelo NGPD, e os recursos restantes, fragmentados entre outras instituições, como a Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), a Secretaria de Tecnologia, Ciência e Meio Ambiente de Pernambuco (SECTMA) e a Agência de Desenvolvimento AD-Diper. Coube também ao NGPD a análise das condições urbanas e estruturais da região e a captação de recursos destinados às novas instalações, revitalização do Bairro do Recife e reestruturação dos prédios antigos inseridos dentro do arranjo. Uma consequência dessa participação ativa do NGPD foi a criação do Centro Apolo, uma incubadora que integra hoje cerca de dez unidades empresariais, com o foco principal no desenvolvimento de softwares de jogos. Outra função inerente ao Núcleo de Gestão prende-se ao desenvolvimento de um ambiente de negócios com base nas transferências tecnológicas realizadas em acordos técnicos para viabilizar a cooperação entre as unidades. Em outras palavras, coube ao NGPD o papel central na Revista Desenbahia nº 13 / set. 2010 | 175 gestão do polo, regulando e garantindo as condições necessárias para que o APL tecnológico pudesse desenvolver-se. A SECTMA, por ser o órgão governamental de maior participação na criação do APL, detém grande destaque. Ela praticamente definiu as bases programáticas e de financiamento de um polo de alta tecnologia na capital pernambucana, fato importante que coincidiu com a instalação dessa secretaria no centro do Recife, praticamente dentro do cluster, atuando como mecanismo de integração no setor. Também merecem destaque as parcerias principais, como o Centro de Tecnologia de Software para Exportação (SOFTEX), instituição sem fins lucrativos atuante em diversas cidades brasileiras no âmbito de projetos de desenvolvimento de softwares para exportação. A incubadora Cais do Porto é outro órgão atuante no plano do empreendedorismo no mercado nacional e internacional. Outras instituições também se mostram importantes para a operacionalidade e integração produtiva local, a exemplo do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR) e do Instituto Nokia. De forma geral, os principais clientes distribuem-se em áreas de comunicação, entretenimento, tecnologia, saúde, indústria, órgãos públicos, muitos deles empresas atuantes no Brasil e no exterior. De posse destas características fundamentais faz-se a seguir a descrição dos mecanismos de captação de investimentos produtivos em TI, quais sejam os incentivos fiscais e outras modalidades de apoio público concedidas na perspectiva de atrair empresas externas e estimular o empresariado local a atuar no setor. Mecanismos institucionais de financiamento: incentivos fiscais, científicos e tecnológicos No processo de implantação do polo de informática do Recife estava intrínseco o plano de revitalização da antiga região portuária da cidade. Por conseguinte era necessária a adoção de mecanismos capazes de atrair investimentos produtivos para a região, visando esta dupla finalidade: de crescimento econômico da região por um lado, e de incremento do polo por outro. A forma de estimular a atração de firmas especializadas em TI no centro da cidade ocorreu por meio de incentivos fiscais, com a maior contribuição no âmbito estadual, além de colaborações federais e municipais. Para isso, pode-se destacar a Lei da Informática, que ofereceu reduções de IPI para investimentos em P&D; a Lei da Inovação, que visou estimular a participação de instituições de ciência e tecnologia no processo de inovação 176 | Caracterização e dinâmica dos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento do polo porto digital de Pernambuco tecnológica, oferecendo reduções de Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ), nos setores de informática. A Lei da Inovação tem por objetivo fazer com que o setor produtivo proceda à melhor alocação de recursos com fins de inovação. São concedidos às empresas recursos humanos, materiais, financeiros e infraestrutura para a realização de atividades de P&D. Quanto à renúncia fiscal, o governo federal oferece reduções em até 75% no IRPJ para empresas que se enquadrem em alguma atividade inovativa prioritária, a exemplo do setor de informática. O benefício tem se destinado às empresas que operam no campo de influência da antiga Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) e Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). A maior relevância das políticas de financiamento repousa nos incentivos estaduais para a formação de polos de tecnologia, especificamente na ideia de dinamizar a produção de softwares, articulados aos objetivos de revitalização urbana. A Lei Estadual n°. 12.234, de 26 de junho de 2002, em vigor desde 1 de julho de 2002, determina que as saídas internas e interestaduais com programa de computador (software) não personalizado têm tratamento tributário diferenciado, sendo contempladas com alguns benefícios fiscais (NGPD, 2006, p. 7). A Lei 12.234 define o tamanho do crédito em torno de 16% do imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) para a circulação interna e 11% na saída interestadual, válido apenas para softwares e prestação de serviços de informática (NGPD, 2006). A Figura 1 ilustra o esquema de aplicação do crédito deduzido do imposto estadual em Pernambuco. Observa-se que as maiores isenções destinam-se às empresas que atuam no desenvolvimento de softwares e prestação de serviços e a menor incidência de crédito para os estabelecimentos comerciais. Isso mostra que, de fato, o projeto do Porto Digital concebeu a ideia de estimular a linha de programação e não a de montagem, como ocorre em outros polos de TI no Brasil. Revista Desenbahia nº 13 / set. 2010 | 177 Figura 1 Resumo das operações de concessão de crédito presumido – ICMS Fonte: NGPD (2008, p. 10). Na Figura 1, o crédito presumido (CP) de 11% sobre o valor da operação (VO), aplica-se quando o produto/serviço destina-se a outros estados, independente da natureza do estabelecimento. Como a alíquota interestadual é de 12% do VO, a carga tributária do contribuinte fica em torno de 1% ao operar com outra unidade federativa. No município, a Prefeitura do Recife criou, em 2006, um programa de incentivo específico para o Porto Digital. Nesse programa, as empresas privadas localizadas no Bairro do Recife poderiam obter reduções de até 60% no ISS, desde que desenvolvessem atividades informáticas ou similares, não tivessem débitos tributários municipais e divulgassem seus demonstrativos contábeis (NGPD, 2006). Os incentivos municipais são também presentes no Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU). Neste caso, o benefício é concedido às empresas que realizarem intervenções de recuperação nos imóveis (geralmente de prédios antigos), de modo que tal redução do IPTU pode ser parcial ou total, a depender da natureza da intervenção. 178 | Caracterização e dinâmica dos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento do polo porto digital de Pernambuco O Programa Juro Zero também é outro incentivo adotado em âmbito federal com o objetivo de financiar os investimentos tecnológicos e inovativos a taxas de juros mais baixas que as do mercado. A correção anual do financiamento ocorre pelo IPCA ou por um spread anual de 10%, que poderá ser totalmente eliminado se a empresa honrar o pagamento de seus encargos. Como descrito anteriormente, desde a década de 1980 que a UFPE participa de atividades de alta base tecnológica no estado de Pernambuco. Exemplos dessa participação são as pesquisas do Departamento de Física (ANJOS JÚNIOR, 1991). No final dos anos 1990, quando da concepção do projeto do polo, a UFPE assumiu papel-chave, criando o Centro de Informática (Cin), que acabou se tornando o maior elo entre o APL de TI e o meio científico. A urgência na sua definição, implementação [de um centro de informática] e no estabelecimento de uma clara liderança pela UFPE na área, é motivada pela fase extraordinariamente rica em mudanças pelo qual todo o mundo e o país passam no momento e, consequentemente, pelas oportunidades geradas por tais descontinuidades. A desregulamentação do setor de telecomunicações, por exemplo, está sendo feita quase que simultaneamente em todos os continentes, simultaneamente com um avanço inaudito das tecnologias de computação. (CIN, 1999, p. 9). Atualmente, o Cin-UFPE é responsável pelos cursos de graduação e pós-graduação na área de computação, além de possuir treinamentos específicos no campo de programação, que resumem parte especial dos incentivos. Análise da estrutura econômica e tecnológica do polo de informática do Recife Procede-se, nesta seção, à análise das características do polo de informática do Recife e à identificação das vantagens e desvantagens em relação ao mercado de tecnologia de informação no Brasil. Os dados foram obtidos mediante a aplicação de um questionário aberto junto às empresas do Porto Digital. Com base nas respostas dos gestores sobre a dinâmica do mercado de informática, foi possível analisar as vantagens competitivas, sobretudo no campo de programação. Além disso, foram feitas correlações entre perfil do emprego – qualificação e remuneração – e natureza produtiva de cada integrante. A aplicação do questionário tornou-se possível após a realização de uma visita à área administrativa do polo, quando se estabeleceram os primeiros contatos com Revista Desenbahia nº 13 / set. 2010 | 179 representantes do NGPD. Posteriormente, foram enviados os questionários por meio do NGPD aos gestores das empresas, através de mailling interno do Porto Digital, obtendo-se uma amostra constituída de 15 empresas, que responderam na data-limite de 30 de outubro de 2009. De posse desta amostra, a quantificação das variáveis foi tabulada com o uso de SPSS, aplicando-se o método crosstabulation, que permite o cruzamento de diferentes variáveis. Além disso, foram utilizadas apenas variáveis do tipo string (alfanuméricas), uma vez que as questões do formulário eram de cunho subjetivo. Os resultados constantes da Tabela 1 mostram a estrutura de produção (produtos e serviços) predominante no polo. Tabela 1 Principais produtos/serviços oferecidos pelas empresas – Recife (PE) – 2009 As três empresas que declararam produzir programas de uso geral oferecem softwares diversificados, orientados para diversos tipos de clientes e funções. Esses programas não são muito específicos e podem atender a demanda de diversos nichos empresariais, tais como sistemas de transporte e logística, sistemas elétricos e de saneamento, entre outros. As empresas de suporte em internet têm como foco a oferta de soluções em conexões internas e externas para outras empresas, inclusive dentro do Porto Digital. Nesta categoria incluem-se empresas especializadas em sites de internet. Uma melhor descrição da Tabela 1 pode ser analisada no Gráfico 3. 180 | Caracterização e dinâmica dos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento do polo porto digital de Pernambuco Gráfico 3 Principais produtos/serviços ofertados pelas empresas do Porto Digital – Recife (PE) – 2009 Com relação aos clientes, todos os gestores apresentaram uma lista nominal de diversas empresas públicas e privadas, de pequenas empresas locais até unidades estrangeiras de grande porte nas áreas elétricas e de saneamento, soluções em automação bancária, internet, serviços de automação médica etc. A prestação de serviços ocorre em quase todo o território nacional. As empresas especializadas no desenvolvimento de games, por exemplo, destinam seus produtos para clientes exclusivamente do exterior. Suas demandas são compostas de empresas estrangeiras distribuidoras de consoles e games nos Estados Unidos e Europa. As empresas orientadas para softwares de uso geral são as únicas que possuem clientes em todas as regiões brasileiras. Em geral, o valor adicionado da produção de programas de computador está mais relacionado ao direito sobre a informação e a propriedade intelectual, o que se confirma, em Varian e Shapiro (1999), como vantagens competitivas de unidades produtoras de softwares. Todas as empresas entrevistadas afirmaram que o principal fator de produção necessário à realização de suas atividades é o capital humano. A totalidade dos entrevistados (100%) atribuiu sua capacidade produtiva às bases científica e intelectual. A necessidade de bons computadores e de conexões de internet de alta velocidade, além da inteligência humana, foi citada por 20% dos respondentes da pesquisa. A fonte básica de recursos humanos são as universidades, sendo a UFPE particularmente mencionada, além de referências aos cursos técnicos de outros centros de pesquisa. Revista Desenbahia nº 13 / set. 2010 | 181 Finalmente, entre outros aspectos, a análise da estrutura produtiva do polo refere-se à determinação dos preços de oferta. Nesse aspecto, três tendências foram observadas, conforme a Tabela 2. Tabela 2 Determinantes de formação de preços de oferta no polo – Recife (PE) – 2009 A variável Horas/Homem é a base de negociação dos salários entre trabalhadores e empresas produtoras de softwares. O tempo gasto por projeto define o valor do trabalho a ser pago. Uma margem de lucro é acrescida a esse valor e, assim, é estabelecido o preço por unidade de softwares. O fator custo x preço de mercado incorpora todo o tipo de gastos operacionais, custos fixos e variáveis, durante os projetos. Além dos salários, a administração das empresas considera também as despesas com estrutura física, conexões, computadores e redes, para efeitos de comparação média entre outras empresas de mesma natureza no mercado. Estrutura do mercado de trabalho Foram observadas as características de mão de obra, no que se refere à qualificação e salários. Os resultados obtidos são apresentados no Gráfico 4. Grande parte das empresas são de pequeno porte e ocupam pequenos espaços – uma ou duas salas – possuindo entre 10 e 20 funcionários. Pôde-se observar, em 20% de casos, a existência de empresas com mais de 100 funcionários. Duas empresas desse tipo são especializadas em softwares de uso geral e uma no ramo de automação médica. 182 | Caracterização e dinâmica dos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento do polo porto digital de Pernambuco Gráfico 4 Principais produtos/serviços ofertados pelas empresas do Porto Digital – Recife (PE) – 2009 Quanto à função exercida nos empregos, 66,7% da amostra considerou que a maior parte da força de trabalho é composta de programadores que têm a função de definir os códigos para o desenvolvimento de softwares; 20% tem a mão de obra formada por engenheiros de software;2 e 13,3% têm a maior parte do quadro funcional formada de técnicos em hardware e suporte de redes. O cruzamento de dados referentes à formação profissional com informações sobre produtos e serviços ofertados permitiu verificar o perfil das empresas detentoras de 66,7% de programadores e em que nicho de mercado são atuantes. Os técnicos em hardware e redes estão empregados, em sua maioria, nas empresas de suporte em internet e redes. Das 66,7% de empresas com predomínio de programadores (10 casos), a maior parte da força de trabalho opera nas que oferecem soluções em automação bancária e financeira, um nicho que é seguido por unidades especializadas em software. A média salarial de todas as unidades da amostra variou de acordo com o perfil profissional e os tipos de produtos ofertados. Em 40% dos casos, as empresas apresentam salários entre R$ 2.000,00 e R$ 2.500,00 (inclusive). Em seguida, com 26,7% aparece a média de R$ 2.500,00 a 3.000,00, incluindo este teto. Três outras empresas da amostra praticam uma média entre R$ 1.000,00 e R$ 1.500,00, o que corresponde a 20%. As outras médias salariais são exercidas por 6,7% das empresas, respectivamente. 2 Diferente da função dos programadores, que trabalham com a concepção dos softwares, os Engenheiros de software, além de desenvolverem programas, usam técnicas de gerência para verificar a qualidade, a organização e a produtividade do que é feito. Inclui-se a idéia da manutenção dos programas desenvolvidos e sua eficácia. Revista Desenbahia nº 13 / set. 2010 | 183 O padrão de salários pagos nas empresas de suporte em redes e internet pressupõe que os técnicos em hardware e redes são profissionais de salários mais baixos na dinâmica salarial do polo, uma vez que representam o perfil predominante de emprego nas empresas com classes de salários entre R$1.000,00 e R$1.500,00. A empresa especializada em automação médica tem sua força de trabalho formada por engenheiros em software de melhor remuneração salarial média – acima de R$3.000,00/mês. O setor de automação bancária apresentou médias salariais entre R$2.500,00 e R$3.000,00, enquanto o ramo de gestão empresarial, com capital humano formado em sua maioria por programadores e engenheiros de software, tem médias de R$2.000,00 a R$2.500,00. Todos os entrevistados afirmaram que Recife é a principal fonte de recursos para as empresas. Essa informação presta-se aos objetivos da sustentabilidade do polo, uma vez que a quase totalidade de mão de obra é proveniente da própria região. Isso mostra os efeitos positivos da indústria de informática na dinâmica econômica da cidade, pelo potencial de atração de novas empresas que exerce. Existem programas coletivos de treinamentos e muitas empresas acreditam que participação em eventos científicos são formas importantes de capacitação permanente para a dinâmica e a sustentabilidade competitiva do polo. Análise das vantagens competitivas Do ponto de vista da estrutura de produção, constatou-se que o polo detém vantagens satisfatórias por se tratar de um Arranjo Produtivo Local com foco essencial no desenvolvimento de softwares. Esse tipo de atividade destaca-se em função do tipo de capital que demanda – capital humano especializado (GARCIA; ROSELINO, 2004). O impacto imediato disso é a interação entre os agentes produtivos e a mão de obra local para viabilizar o desenvolvimento da atividade. Com isso, um ciclo virtuoso entre empresas, universidade e mão de obra surge como força potencial de competitividade do polo, aliada às contribuições do setor público. Com base em Porter (1998), essa interação entre agentes é o principal fator de equilíbrio competitivo e cooperativo no âmbito do APL. O compartilhamento de informações, técnicas e outras rotinas são exemplos de vantagens endógenas. A remuneração da mão de obra também se apresenta como elemento satisfatório. Por exemplo, no polo de informática de Ilhéus, que tem o 184 | Caracterização e dinâmica dos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento do polo porto digital de Pernambuco foco na montagem de equipamentos e componentes, verificam-se médias salariais na maioria das empresas na faixa de um salário mínimo e diante de uma mão de obra com baixo padrão de qualificação. A questão de fonte e localização da mão de obra foi anotada como uma das características primordiais do perfil de emprego do polo baiano, conforme Casé e Mata (2008). Outra parte do questionário esteve voltada para questões estruturais e de interação entre os agentes. Todos identificaram os incentivos fiscais como principal força motivadora para a expansão das atividades do polo pernambucano. Além dos incentivos fiscais, 46,7% fizeram menção à disponibilidade de mão de obra adequada e 26,7% identificaram diversas modalidades de parcerias, referindo-se às parcerias entre empresas do setor privado e organizações de cunho institucional, acadêmico e científico. Essas respostas potencializam o sentido das vantagens competitivas do APL informático do Recife. Quanto às dificuldades observadas, alguns aspectos mostraram-se importantes, devendo-se destacar a estrutura tecnológica da cidade, com referência às conexões de internet, servidores e suporte em hardware e a atuação do setor público. A atuação inadequada do setor público, segundo os entrevistados, está relacionada à falta de diálogo constante com as empresas sobre a evolução da indústria tecnológica na região, no que concerne às condições necessárias e estratégicas para seu fortalecimento. O debate sobre os incentivos fiscais de cunho estadual e municipal também faz parte desse conjunto de estrangulamentos. O problema da violência urbana foi igualmente apontado como uma barreira à atuação das firmas, reivindicação associada à falta de segurança na área do Porto Digital, principalmente no período noturno. A relação entre as empresas e as políticas estadual e municipal para o setor de Tecnologia da Informação foi qualificada como boa, excelente ou satisfatória, justificando-se o lado positivo do relacionamento entre as diversas instituições componentes do setor de TI em Pernambuco. A perspectiva futura para a maioria dos respondentes do questionário é de uma expansão da demanda de seus produtos em torno de 15%/ano e possibilidades de internacionalização das empresas como forma de enfrentar a concorrência externa no desenvolvimento de novas soluções mais eficazes em matéria de TI. Foram questionadas as ações sociais e de revitalização urbana desenvolvidas pelas empresas do Porto Digital. Verificou-se uma tendência em tentar desvincular os trabalhos sociais do nome da empresa. Algumas desenvolvem, Revista Desenbahia nº 13 / set. 2010 | 185 em caráter individual, visitas às comunidades mais pobres da cidade e organizam programas de capacitação em informática básica para crianças e adolescentes. Exemplos são as oficinas de treinamento em Windows, Office e internet, visando à inclusão social em bairros como Cordeiro e Ibura. Outras praticam oficinas de informática básica nas dependências da própria empresa, porém grande parte informa não desenvolver nenhum trabalho nesse âmbito. Trabalhos de revitalização foram mencionados por apenas três empresas, o que leva a crer que, na totalidade do polo, poucas parecem participar diretamente dessas iniciativas de oferta de recursos para recuperação de alguns imóveis antigos da cidade. Finalmente, uma preocupação recorrente entre empresas reside na manutenção e extensão dos incentivos fiscais. Esse elemento parecer ser de extrema importância para atração de novas unidades na região. A permanência e a expansão do aglomerado dependem das ações do setor público em manter a atratividade da região, não apenas pelos benefícios fiscais e estratégias de financiamento do desenvolvimento local, mas também pela necessidade de corrigir as distorções sociais e econômicas mediante os efeitos multiplicadores da expansão dos negócios. As ações do NGPD serão decisivas para coordenar a integração das empresas na dinâmica industrial do estado de Pernambuco. Como núcleo administrativo, ao NGPD cabe sistematizar o fomento e a intermediação de parcerias entre os agentes públicos e privados. Considerações finais Com a elaboração desta pesquisa, buscou-se identificar os mecanismos de funcionamento do polo de informática de Pernambuco. Tendo por base a descrição de seu perfil interno foi possível analisar as principais vantagens competitivas e os entraves existentes. Verificou-se que o desenvolvimento de alguns softwares específicos, como de automação bancária e gestão empresarial, estão entre as linhas principais de produção do polo. Com relação à mão de obra, o estudo mostrou que grande parte das empresas empregam trabalhadores com nível superior completo e médias salariais na faixa de R$2.000,00 a R$2.500,00. Grande parte do emprego é especializado no desenvolvimento de programas informáticos. 186 | Caracterização e dinâmica dos mecanismos de incentivo ao desenvolvimento do polo porto digital de Pernambuco Os benefícios fiscais representaram e foram apontados como a principal fonte de financiamento do setor. A restrição setorial básica reside nas ações do setor público quanto à organização estratégica das atividades de Tecnologia da Informação, nomeadamente no que diz respeito às incertezas em relação ao regime dos incentivos. Constatação importante consistiu de limitações identificadas no âmbito da implementação de projetos sociais. Não existem parcerias reveladas entre os diferentes agentes integrantes do polo com relação a esse importante objetivo e nem no tocante aos projetos de revitalização da região – Bairro do Recife. Por fim, a integração de diferentes atributos discutidos permitiu definir que as vantagens competitivas do polo estão relacionadas à produção e à capacitação da massa de trabalho empregada, à articulação de parcerias e atividades entre agentes, no comando do NGPD, atendendo aos princípios básicos da diferenciação endógena do produto no APL. A dinâmica da expansão do Porto Digital dependerá basicamente da capacidade do setor público em garantir condições favoráveis de incentivos e financiamento para a infraestrutura tecnológica, humana, urbana e de segurança. Referências ALECRIM, Emerson. O que é Tecnologia da Informação? Infowester. 27 ago. 2008. Disponível em <http://www.infowester.com/col150804.php>. Acesso em: 15 jul. 2008. ANJOS JÚNIOR, Moacir dos. 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