Ajude sempre Agenda Cristã – Francisco C. Xavier/André Luiz – Cap. 12 Diante da noite, não acuse as trevas. Aprenda a fazer lume. Em vão condenará você o pântano. Ajude-o a purificar-se. No caminho pedregoso, não atire calhaus nos outros. Transforme os calhaus em obras úteis. Não amaldiçoe o vozerio alheio. Ensine alguma lição proveitosa, com o silêncio. Não adote a incerteza, perante as situações difíceis. Enfrente-as com a consciência limpa. Debalde censurará você o espinheiro. Remova-o com bondade. Não critique o terreno sáfaro. Ao invés disso, dê-lhe adubo. Não pronuncie más palavras contra o decerto. Auxilie a cavar um poço sob a areia escaldante. Não é vantagem desaprovar onde todos desaprovaram. Ampare o seu irmão com a boa palavra. É sempre fácil observar o mal e identificá-lo. Entretanto, o que Cristo espera de nós outros é a descoberta e o cultivo do bem para que o Divino Amor seja glorificado. EDITORIAL 150 anos Em 18 de abril de 1857 surgiu em Paris, França, O Livro dos Espíritos em sua primeira edição, e com ele surgiu a Doutrina Espírita, abrindo uma nova era para a regeneração da humanidade. No ano seguinte, em 1858, já no dia 1º de janeiro, Kardec iniciava o trabalho de divulgação da Doutrina Espírita, lançando a Revista Espírita (Revue Spirite), periódico mensal de difusão doutrinária. No mesmo ano de 1858, no dia 1º de abril, Kardec inaugurava a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que lhe serviu também de apoio para a elaboração da codificação da Doutrina Espírita. Neste ano de 2008 estamos, portanto, comemorando 150 anos de constante trabalho relacionado com o estudo, a difusão e a prática do Espiritismo, trabalho este fundamental para a construção de um Mundo Novo que será regido pelos ensinos do Evangelho de Jesus. A Revista Espírita, fundada por Allan Kardec, continuou a ser editada mesmo depois da desencarnação do Codificador, em março de 1869. Passou por uma série de dificuldades atendendo, sempre, ao propósito de difusão dos ensinos espíritas. Na segunda metade do século XX, depois de um período de grandes dificuldades, os companheiros espíritas da França conseguiram resgatar a Revista para o Movimento Espírita, por meio do trabalho da União Espírita Francesa e Francofônica. Alguns anos após a fundação do Conselho Espírita Internacional, em 1992, a União Espírita Francesa e Francofônica, entidade que fundou e integra o Conselho, buscou o apoio do CEI para levar adiante a nobre tarefa de manter constante a edição da Revue Spirite, fundada por Kardec. Com essa feliz união das duas instituições, a Revue Spirite, em edição francesa, continuou a ser editada e propiciou, ao Conselho Espírita Internacional, a oportunidade de editar essa Revista também em outros idiomas, tais como o espanhol, o inglês, o esperanto e o russo, esta última editada virtualmente. No momento em que estamos comemorando os 150 anos do surgimento da Revista Espírita, o Conselho Espírita Internacional lança, também, esta Revista em língua portuguesa como uma forma de homenagear o Codificador, continuando a colocar a sua revista a serviço da difusão da Doutrina, tal como nasceu, ao alcance de todos os povos e em todas as línguas. “O campo é o Mundo”, afirma Jesus (Mat. 13:38) e é nesse Mundo, em todas as suas partes, que a boa semente do Consolador Prometido continuará a ser espalhada pela Revista Espírita, ajudando a construir um mundo melhor. revista espírita 3 Edição em língua portuguesa comemorativa dos 150 anos da Revista Espírita DIRETOR-Geral de publicações Nestor João Masotti, Secretário Geral do CEI DIRETOR-GERAL De EDIções Roger Perez DIRETOR-geral ADMINISTRATIVO Antonio Cesar Perri de Carvalho EDITOR Da EDIção em português Evandro Noleto Bezerra COLABORADORES Divaldo Pereira Franco Luis Hu Rivas Fernando Quaglia Victor Hugo Silva Santos design GRÁFICO e direção de arte Luciano Carneiro Holanda endereço Conselho Espírita Internacional Secretaria-Geral SGAN - Q.603 - Conj. F 70830-030 - Brasília - Brasil [email protected] comissão executiva do cei Nestor Masotti - Secretário-Geral (Brasil) Charles Kempf - 1º Secretário (França) Elsa Rossi - 2º Secretário (Reino Unido) Antonio Cesar Perri de Carvalho - 1º Tesoureiro (Brasil) Vanderlei Marques - 2º Tesoureiro (Estados Unidos) Edwin Bravo (Guatemala) Fábio Villarraga (Colombia) Jean Paul Evrard (Bélgica) Olof Bergman (Suécia) Ricardo Lequerica (Colombia) Salvador Martin (Espanha) Vitor Mora Feria (Portugual) Revista Espírita Nº 1 Outubro - Dezembro de 2008 SUMÁRIO Fundada em 1º de janeiro de 1858 por Allan Kardec Órgão Oficial do Conselho Espírita Internacional e da União Espírita Francesa e Francofônica 24 06 ENTREVISTA A Revista Espírita e a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas na visão de Divaldo Franco REVISTA ESPÍRITA 26 EDICEI 150 anos esclarecendo e orientando! O desafio de editar livros espíritas para o mundo 28 HISTÓRIA Da primeira Sociedade Espírita aos nossos dias 30 TVCEI O Espiritismo na era digital 09 ESPECIAL - 150 ANOS DA REVISTA ESPÍRITA Introdução à Revista Espírita Carta de Benjamin Franklin à Sra. Jone Mecone sobre a Preexistência 32 NOTÍCIAS Discurso de Victor Hugo junto ao Túmulo de uma Jovem Exame das Comunicações Mediúnicas que nos são Enviadas A Biblioteca de Nova York O Espiritismo é uma religião? > comentários e sugestoes: 36 MEMBROS DO CEI [email protected] Revista Espírita 150 anos esclarecendo e orientando! > Evandro Noleto Bezerra O êxito suscitado pela divulgação das idéias espíritas, por ocasião do lançamento de O Livro dos Espíritos, em 1857, provocou uma avalanche de cartas dirigidas a Kardec, a maioria interrogando o Codificador sobre este ou aquele ponto de doutrina, embora algumas lhe relatassem os insólitos fenômenos espíritas que despontavam em toda parte, exigindo a sua explicação. E, como se não bastasse, o fluxo crescente de visitantes que acorriam à sua casa, inclusive da nobreza local e estrangeira, ansiando por esclarecimentos mais substanciais. 6 revista espírita Naquela época, a Europa só dispunha de um único jornal dedicado à divulgação do Espiritismo, e mesmo assim em Genebra, longe da efervescência de Paris e praticamente fora do alcance dos leitores da cidade-luz, contrariamente ao que ocorria nos Estados Unidos, favorecidos com dezessete jornais consagrados ao espiritualismo. Foi quando Allan Kardec se deu conta da imperiosa necessidade de criar uma folha que periodicamente pusesse os estudiosos dos fenômenos espíritas a par do que se passava no mundo e os instruísse de modo ordenado sobre as mais variadas questões doutrinárias, embora lhe faltasse o tempo necessário para semelhante empreendimento, considerando-se os seus múltiplos afazeres. A tarefa não era fácil e implicava gastos de certa gravidade. Mesmo não encontrando quem lhe patrocinasse a obra, Kardec apressou-se a redigir o primeiro número, fazendo-o circular a 1º de janeiro de 1858, por sua própria conta e risco, sem dispor de assinantes e sem contar com fornecedores de fundos. O êxito da Revista foi tão grande que, a partir daquela data, os números se sucederam mensalmente, sem interrupção, tornando-se o jornal poderoso auxiliar de seus trabalhos posteriores. Do ponto de vista da apresentação, a Revista Espírita manteve as características das publicações científicas. Impressa em papel-jornal, contava com 32 páginas de 23,5 x 15 cm; sua apresentação era rústica, com capas de papel. No final de cada ano os fascículos correspondentes eram reunidos, formando uma coleção de exemplares encadernados, com capa especial e índice alfabético. É da responsabilidade direta de Allan Kardec a publicação www.sxc.hu / Ramona D’souza dos fascículos que circularam entre 1º de janeiro de 1858 e 1o de abril de 1869, o que não significa que a tenha redigido sozinho, visto ter contado com a colaboração de centenas de participantes, encarnados e desencarnados, dentre os quais cientistas, literatos, filósofos, religiosos e homens do povo, cada qual colaborando com o Mestre na sua respectiva esfera de ação. Quando lançou a Revista Espírita, em 1858, Allan Kardec ainda tinha pela frente a publicação de quase todas as suas obras, básicas e complementares. Era todo um campo a pesquisar, idéias a desenvolver e a amadurecer, conceitos a serem validados pelo critério infalível da concordância e da universalidade do ensino dos Espíritos, antes de serem incorporados ao patrimônio da Doutrina Espírita. Havia, pois, necessidade de um tubo de ensaio, de um laboratório experimental, onde tudo isto pudesse ser testado com segurança, sem açodamento. Ora, a Revista Espírita foi esse laboratório inestimável, espécie de tribuna livre, utilizada por Allan Kardec para sondar a reação dos homens e a impressão dos Espíritos acerca de determinados assuntos, ainda hipotéticos ou mal compreendidos, enquanto lhes aguardava a confirmação. Como a Revista Espírita é uma obra subsidiária, complementar da Doutrina Espírita, deve ser lida com espírito crítico, especialmente no que diz respeito a certas teorias científicas e a algumas opiniões isoladas, de caráter filosófico. Sua moral, contudo, por ser baseada na do Cristo, é inatacável e não suscita dupla interpretação, de modo que todos a compreendem, seja qual for a classe social a que pertençam. O estilo da Revista Espírita é leve e agradável, vazado em linguagem simples e acessível aos não iniciados, apresentando as matérias de forma clara e objetiva. É aquele mesmo estilo que tanto apreciamos nas obras básicas da Codificação Espírita, capaz de agradar desde a gente simples que trabalhava nas oficinas suburbanas, até os intelectuais mais exigentes da aristocracia parisiense. Embora não dispondo de um padrão editorial claramente definido, suas seções eram muito variadas e por vezes sofriam solução de continuidade. Entretanto, não é difícil perceber certa uniformidade na temática abordada nos diferentes fascículos, sobretudo os relacionados com os ditados mediúnicos, as conversas familiares de além-túmulo, as dissertações espíritas, as evocações particulares, as poesias e as revista espírita 7 notas bibliográficas, praticamente comuns a todos eles. Por se tratar de um periódico mensal, muitas vezes Allan Kardec transcrevia artigos e notícias de jornais sobre os mais variados assuntos, desenvolvendo-os e correlacionando-os com os postulados espíritas. Isto emprestava à Revista um caráter de perene atualidade, identificando-a com os problemas e as preocupações da Paris de Napoleão III. Suicídio, epidemias, pena de morte, duelos, assassinatos, nada escapou à argúcia do Codificador, que deles se aproveitava para edificar os leitores, por meio de comentários judiciosos e oportunos. Quantos Espíritos desencarnados foram evocados a partir de referências extraídas dos jornais, e que brindaram os leitores da Revista Espírita com o testemunho póstumo da sua própria experiência! Só muito raramente Allan Kardec se servia da Revista Espírita para responder aos ataques pessoais de que era alvo. Não polemizava; preferia o silêncio como resposta às diatribes de seus detratores, mas era cioso e bastante exigente na defesa dos princípios espíritas que professava, fazendo-o com elegância e sem dispensar a moderação e a conveniência, que era a sua linha de conduta. Fiel a esse princípio, utilizou a Revista inúmeras vezes para refutar as aleivosias assacadas contra o Espiritismo. A Revista Espírita é patrimônio dos espíritas do mundo inteiro, o mais antigo periódico espírita em circulação, aparecendo de forma quase ininterrupta até hoje, salvo por ocasião das duas grandes Guerras Mundiais, e durante curto período na década de 70, também no século passado. Hoje, ela é o órgão oficial do Conselho Espírita Internacional, sendo editada em francês, inglês e espanhol. É a principal fonte de dados autobiográficos do Codificador. Quem quiser conhecêlo não pode deixar de compulsar suas páginas, visto que elas no-lo revelam tal qual ele se mostrava em sua vida privada, real, autêntica, sem laivos de santidade e sem se afastar do comum dos mortais. No ano do sesquicentenário de seu lançamento, nada mais justo, portanto, do que conhecer a alma de Allan Kardec, gozar de sua intimidade, acompanhar passo a passo a marcha do Espiritismo nascente, as dificuldades para a sua implantação, as lutas que teve de vencer para fincar as balizas de uma Nova Era para a regeneração da Humanidade. Enfim, conhecer a vida daquele que foi escolhido para materializar, na Terra, a promessa feita por Jesus na Palestina distante, de permanecer eternamente conosco. 8 revista espírita > Evandro Noleto Bezerra, assessor da FEB e tradutor da Revista Espírita do francês ao português. Especial 150 anos da Revista EspÍrita revista espírita 9 especial Introdução à 150 anos da Revista Espírita Revista Espírita > Allan Kardec A 10 revista espírita rapidez com que se propagaram, em todas as partes do mundo, os estranhos fenômenos das manifestações espíritas é uma prova evidente do interesse que despertam. A princípio simples objeto de curiosidade, não tardaram a chamar a atenção de homens sérios que neles vislumbraram, desde o início, a influência inevitável que viriam a ter sobre o estado moral da sociedade. As novas idéias que surgem desses fenômenos popularizam-se cada dia mais, e nada lhes pode deter o progresso, pela simples razão de que estão ao alcance de todos, ou de quase todos, e nenhum poder humano lhes impedirá que se manifestem. Se os abafam aqui, reaparecem em cem outros pontos. Aqueles, pois, que neles vissem um inconveniente qualquer, seriam constrangidos, pela própria força dos fatos, a sofrer-lhes as conseqüências, como sói acontecer às indústrias novas que, em sua origem, ferem interesses particulares, logo absorvidos, pois não poderia ser de outro modo. O que já não se fez e disse contra o magnetismo! Entretanto, todos os raios lançados contra ele, todas as armas com que foi ferido, mesmo o ridículo, esboroaram-se ante a realidade e apenas serviram para colocá-lo ainda mais em evidência. É que o magnetismo é uma força natural e, perante as forças da Natureza, o homem é um pigmeu, semelhante a cachorrinhos que ladram inutilmente contra tudo que os possa amedrontar. Dá-se com as manifestações espíritas a mesma coisa que se dá com o sonambulismo: se não se produzirem à luz do dia e publicamente, ninguém impedirá que ocorram na intimidade, pois cada família pode descobrir um médium entre seus membros, das crianças aos velhos, assim como pode encontrar um sonâmbulo. Quem, pois, poderá impedir que a primeira pessoa que encontremos seja médium e sonâmbula? Sem dúvida, os que o combatem não refletiram nisto. Insistimos: quando uma força está na Natureza, pode-se Arquivo / Feb detê-la por um instante, porém, jamais aniquilá-la! Seu curso apenas poderá ser desviado. Ora, a força que se revela no fenômeno das manifestações, seja qual for a sua causa, está na Natureza, da mesma forma que o magnetismo, e não poderá ser exterminada, como a força elétrica também não o será. O que importa é que seja observada e estudada em todas as suas fases, a fim de se deduzirem as leis que a regem. Se for um erro, uma ilusão, o tempo fará justiça; se, porém, for verdadeira, a verdade é como o vapor: quanto mais se o comprime, tanto maior será a sua força de expansão. Causa justa admiração que, enquanto na América, somente os Estados Unidos possuem dezessete jornais consagrados a esse assunto, sem contar um sem-número de escritos não periódicos, a França, o país da Europa onde tais idéias mais rapidamente se aclimataram, não possui nenhum. Não se pode contestar a utilidade de um órgão especial, que ponha o público a par do progresso desta nova Ciência e o previna contra os excessos da credulidade, bem como do cepticismo. É essa lacuna que nos propomos preencher com a publicação desta Revista, visando a oferecer um meio de comunicação a todos quantos se interessam por estas questões, ligando, através de um laço comum, os que compreendem a Doutrina Espírita sob o seu verdadeiro ponto de vista moral: a prática do bem e a caridade evangélica para com todos. Se não se tratasse senão de uma coleta de fatos, a tarefa seria fácil; eles se multiplicam em toda parte com tal rapidez que não faltaria matéria; mas os fatos, por si mesmos, tornam-se monótonos pela repetição e, sobretudo, pela similitude. O que é necessário ao homem racional é algo que lhe fale à inteligência. Poucos anos se passaram desde o surgimento dos primeiros fenômenos, e já estamos longe da época das mesas girantes e falantes, que foram suas manifestações iniciais. Hoje, é uma ciência que revela todo um mundo de mistérios, tornando patentes as verdades eternas que apenas pelo nosso espírito eram pressentidas; é uma doutrina sublime, que mostra ao homem o caminho do dever, abrindo o mais vasto campo até então jamais apresentado à observação filosófica. Nossa obra seria, pois, incompleta e estéril se nos mantivéssemos nos estreitos limites de uma revista anedótica, cujo interesse rapidamente se esgotasse. Talvez nos contestem a qualificação de ciência, que damos ao Espiritismo. Certamente não teria ele, em nenhum caso, as características de uma ciência exata, e é precisamente aí que reside o erro dos que o pretendem julgar e experimentar como uma análise química ou um problema matemático; já é bastante que seja uma ciência filosófica. Toda ciência deve basear-se em fatos, mas os fatos, por si sós, não constituem a ciência; ela nasce da coordenação e da dedução lógica dos fatos: é o conjunto de leis que os regem. Chegou o Espiritismo ao estado de ciência? Se por isto se entende uma ciência acabada, seria sem dúvida prematuro responder afirmativamente; entretanto, as observações já são hoje bastante numerosas para nos permitirem deduzir, pelo menos, os princípios gerais, onde começa a ciência. O exame raciocinado dos fatos e das conseqüências que deles decorrem é, pois, um complemento sem revista espírita 11 revista espírita Arquivo / Feb especial 150 anos da Revista Espírita 12 o qual nossa publicação seria de medíocre utilidade, não oferecendo senão um interesse muito secundário para quem quer que reflita e queira inteirar-se daquilo que vê. Todavia, como nosso fim é chegar à verdade, acolheremos todas as observações que nos forem dirigidas e tentaremos, tanto quanto no-lo permita o estado dos conhecimentos adquiridos, dirimir as dúvidas e esclarecer os pontos ainda obscuros. Nossa Revista será, assim, uma tribuna livre, em que a discussão jamais se afastará das normas da mais estrita conveniência. Numa palavra: discutiremos, mas não disputaremos. As inconveniências de linguagem nunca foram boas razões aos olhos de pessoas sensatas; é a arma dos que não possuem algo melhor, voltando-se contra aqueles que dela se servem. Embora os fenômenos de que nos ocupamos se tenham produzido, nos últimos tempos, de maneira mais geral, tudo prova que têm ocorrido desde as eras mais recuadas. Não há fenômenos naturais nas invenções que acompanham o progresso do espírito humano; desde que estejam na ordem das coisas, sua causa é tão velha quanto o mundo e os seus efeitos devem ter-se produzido em todas as épocas. O que testemunhamos, hoje, portanto, não é uma descoberta moderna: é o despertar da Antigüidade, desembaraçada do envoltório místico que engendrou as superstições; da Antigüidade esclarecida pela civilização e pelo progresso nas coisas positivas. A conseqüência capital que ressalta desses fenômenos é a comunicação que os homens podem estabelecer com os seres do mundo incorpóreo e, dentro de certos limites, o conhecimento que podem adquirir sobre o seu estado futuro. O fato das comunicações com o mundo invisível encontra-se, em termos inequívocos, nos livros bíblicos; mas, de um lado, para certos céticos, a Bíblia não tem autoridade suficiente; por outro lado, para os crentes, são fatos sobrenaturais, suscitados por um favor especial da Divindade. Não haveria aí, para todo o mundo, uma prova da generalidade dessas manifestações, se não as encontrássemos em milhares de outras fontes diferentes. A existência dos Espíritos, e sua intervenção no mundo corpóreo, está atestada e demonstrada não mais como um fato excepcional, mas como um princípio geral, em Santo Agostinho, São Jerônimo, São João Crisóstomo, São Gregório Nazianzeno e tantos outros Pais da Igreja. Essa crença forma, além disso, a base de todos os sistemas religiosos. Admitiram-na os mais sábios filósofos da Antigüidade: Platão, Zoroastro, Confúcio, Apuleio, Pitágoras, Apolônio de Tiana e tantos outros. Nós a encontramos nos mistérios e nos oráculos, entre os gregos, os egípcios, os hindus, os caldeus, os romanos, os persas, os chineses. Vemo-la sobreviver a todas as vicissitudes dos povos, a todas as perseguições e desafiar todas as revoluções físicas e morais da Humanidade. Mais tarde a encontramos entre os adivinhos e feiticeiros da Idade Média, nos Willis e nas Walkírias dos escandinavos, nos Elfos dos teutões, nos Leschios e nos Domeschnios Doughi dos eslavos, nos Ourisks e nos Brownies da Escócia, nos Poulpicans e nos Tensarpoulicts dos bretões, nos Cemis dos caraíbas, numa palavra, em toda a falange de ninfas, de gênios bons e maus, nos silfos, gnomos, fadas e duendes, com os quais todas as nações povoaram o espaço. Encontramos a prática das evocações entre os povos da Sibéria, no Kamtchatka, na Islândia, entre os indígenas da América do Norte e os aborígenes do México e do Peru, na Polinésia e até entre os estúpidos selvagens da Nova Holanda. Sejam quais forem os absurdos que cercam essa crença e a desfiguram segundo os tempos e os lugares, não se pode discordar de que ela parte de um mesmo princípio, mais ou menos deturpado. Ora, uma doutrina não se torna universal, não sobrevive a milhares de gerações, não se implanta de um pólo a outro, entre os povos mais diversificados, pertencentes a todos os graus da escala social, se não estiver fundada em algo de positivo. O que será esse algo? É o que nos demonstram as recentes manifestações. Procurar as relações que possam existir entre tais manifestações e todas essas crenças, é buscar a verdade. A história da Doutrina Espírita, de certo modo, é a história do espírito humano; teremos que estudá-la em todas as fontes, que nos fornecerão uma mina inesgotável de observações tão instrutivas quão interessantes, sobre fatos geralmente pouco conhecidos. Essa parte nos dará oportunidade de explicar a origem de uma porção de lendas e de crenças populares, delas destacando o que toca a verdade, a alegoria e a superstição. No que concerne às manifestações atuais, daremos explicação de todos os fenômenos patentes que testemunharmos ou que chegarem ao nosso conhecimento, quando nos parecerem merecer a atenção de nossos leitores. De igual modo o faremos em relação aos efeitos espontâneos que por vezes se produzem entre pessoas alheias às práticas espíritas e que revelam, seja a ação de um poder oculto, seja a emancipação da alma; tais são as visões, as aparições, a dupla vista, os pressentimentos, os avisos íntimos, as vozes secretas, etc. À narração dos fatos acrescentaremos a explicação, tal como ressalta do conjunto dos princípios. A respeito faremos notar que esses princípios decorrem do próprio ensinamento dado pelos Espíritos, fazendo sempre abstração de nossas próprias idéias. Não será, pois, uma teoria pessoal que exporemos, mas a que nos tiver sido comunicada e da qual não seremos senão meros intérpretes. Um grande espaço será igualmente reservado às comunicações escritas ou verbais dos Espíritos, sempre que tiverem um fim útil, assim como às evocações de personagens antigas ou modernas, conhecidas ou obscuras, sem negligenciar as evocações íntimas que, muitas vezes, não são menos instrutivas; numa palavra: abarcaremos todas as fases das manifestações materiais e inteligentes do mundo incorpóreo. A Doutrina Espírita nos oferece, enfim, a única solução possível e racional de uma multidão de fenômenos morais e antropológicos, dos quais somos testemunhas diariamente e para os quais se procuraria, inutilmente, a explicação em todas as doutrinas conhecidas. Nesta categoria classificaremos, por exemplo, a simultaneidade de pensamentos, a anomalia de certos caracteres, as simpatias e antipatias, os conhecimentos intuitivos, as aptidões, as propensões, os destinos que parecem marcados pela fatalidade e, num quadro mais geral, o caráter distintivo dos povos, seu progresso ou sua degenerescência, etc. À citação dos fatos acrescentaremos a pesquisa das causas que os poderiam ter produzido. Da apreciação desses fatos ressaltarão, naturalmente, ensinamentos úteis quanto à linha de conduta mais conforme à sã moral. Em suas instruções, os Espíritos Superiores têm sempre por objetivo despertar nos homens o amor do bem, através dos preceitos evangélicos; por isso mesmo eles nos traçam o pensamento que deve presidir à redação dessa coletânea. Nosso quadro, como se vê, compreende tudo quanto se liga ao conhecimento da parte metafísica do homem; estudá-la-emos em seu estado presente e no futuro, porquanto estudar a natureza dos Espíritos é estudar o homem, tendo em vista que ele deverá fazer parte, um dia, do mundo dos Espíritos. Eis por que acrescentamos, ao nosso título principal, o de jornal de estudos psicológicos, a fim de fazer compreender toda a sua importância. Nota: Por mais abundantes sejam nossas observações pessoais e as fontes onde as recolhemos, não dissimulamos as dificuldades da tarefa, nem a nossa insuficiência. Para suplementá-la, contamos com o concurso benevolente de todos quantos se interessam por essas questões; seremos, pois, bastante reconhecidos pelas comunicações que houverem por bem transmitir-nos acerca dos diversos assuntos de nossos estudos; a esse respeito chamamos a atenção para os seguintes pontos, sobre os quais poderão fornecer documentos: 1o Manifestações materiais ou inteligentes obtidas nas reuniões às quais assistirem; 2o Fatos de lucidez sonambúlica e de êxtase; 3o Fatos de segunda vista, previsões, pressentimentos, etc; 4o Fatos relativos ao poder oculto, atribuídos com ou sem razão a certos indivíduos; 5o Lendas e crenças populares; 6o Fatos de visões e aparições; 7o Fenômenos psicológicos particulares, que por vezes ocorrem no instante da morte; 8o Problemas morais e psicológicos a resolver; 9o Fatos morais, atos notáveis de devotamento e abnegação, dos quais possa ser útil propagar o exemplo; 10o Indicação de obras antigas ou modernas, francesas ou estrangeiras, onde se encontrem fatos relativos à manifestação de inteligências ocultas, com a designação e, se possível, a citação das passagens. Do mesmo modo, no que diz respeito à opinião emitida sobre a existência dos Espíritos e suas relações com os homens, por autores antigos ou modernos, cujo nome e saber possam lhes dar autoridade. Não daremos a conhecer o nome das pessoas que nos enviarem as comunicações, a não ser que, para isto, sejamos formalmente autorizados. > (Texto de Allan Kardec, transcrito de Revue Spirite, janeiro de 1858)(Revue Spirite) revista espírita 13 especial 150 anos da Revista Espírita Carta de Benjamin Franklin à Sra. Jone Mecone sobre a Preexistência Dezembro, 1770. E m minha primeira estada em Londres, há cerca de quarenta e cinco anos, conheci uma pessoa que tinha uma opinião quase semelhante à de vosso autor. Seu nome era Hive; era viúva de um impressor. Morreu pouco depois de minha partida. Por seu testamento, obrigou o filho a ler publicamente, em Salter’s-Hall, um discurso solene, cujo objetivo era provar que esta Terra é o verdadeiro inferno, o lugar de punição para os Espíritos que tinham pecado num mundo melhor. Em expiação de suas faltas, são enviados para cá, 14 revista espírita sob formas de toda espécie. Há muito tempo vi esse discurso, que foi impresso. Creio lembrar-me de que as citações da Escritura ali não faltavam; ali se supunha que, conquanto hoje não guardássemos nenhuma lembrança de nossa preexistência, dela tomaríamos conhecimento após a nossa morte e nos recordaríamos dos castigos sofridos, de modo a serem corrigidos. Quanto aos que ainda não tivessem pecado, a vista dos nossos sofrimentos devia servirlhes de advertência. De fato, aqui vemos que cada animal tem o seu inimigo, e esse inimigo tem instintos, faculdades, a rmas para o aterrar, ferir, destruir. Quanto ao h omem, que está no primeiro grau da escala, é um demônio para o seu semelhante. Na doutrina recebida da bondade e da justiça do grande Criador, parece que é preciso uma hipótese como a da senhora Hive, para conciliar com a honra da divindade esse estado aparente de mal geral e sistemático. Mas, em falta de história e de fatos, nossa razão não pode ir longe quando queremos descobrir o que fomos antes de nossa existência terrestre, ou o que seremos mais tarde. (Magasin pittoresque, outubro de 1867, pág. 340). Na Revista de agosto de 1865 demos o epitáfio de Franklin, escrito por ele próprio e que é assim concebido: “Aqui repousa, entregue aos vermes, o corpo de Benjamin Franklin, impressor, como a capa de um velho livro cuja s folhas foram arrancadas, e cujo título e douração se apagaram. Mas nem por isto a obra ficará perdida, pois, como acredito, reaparecerá em nova e melhor edição, revista e corrigida pelo autor.” Ainda uma das grandes doutrinas do Espiritismo, a pluralidade das existências, professada, há mais de um século, por um homem considerado com toda a razão como uma das luzes da Humanidade. Aliás, esta idéia é tão lógica, tão evidente pelos fatos que diariamente temos aos nossos olhos, que está no estado de intuição numa multidão de criaturas. De fato, hoje é admitida por inteligências de escol, como princípio filosófico, fora do Espiritismo. O Espiritismo não a inventou, mas a demonstrou e provou; e, do estado de simples teoria, a fez passar ao de fato positivo. É uma das numerosas portas abertas às idéias espíritas, porque, conforme explicamos em outra circunstância, admitido esse ponto de partida, de dedução em dedução chega-se forçosamente a tudo o que ensina o Espiritismo. > (Transcrição de Revue Spirite, dezembro de 1867). Arquivo / Feb Discurso de Victor Hugo junto ao Túmulo de uma Jovem > Allan Kardec E mbora esta tocante oração fúnebre tenha sido publicada por diversos jornais, encontra lugar igualmente nesta Revista, em razão da natureza dos pensamentos que encerra, cujo alcance todos poderão compreender. O jornal do qual a tomamos dá conta da cerimônia fúnebre nos seguintes termos: “Uma triste cerimônia reunia, quinta-feira última, uma multidão dolorosamente comovida no cemitério dos independentes, em Guernesey. Inumavam uma jovem, que a morte viera surpreender em meio às alegrias da família, e cuja irmã se casara dias antes. Era uma moçoila feliz, a quem um dos filhos do grande poeta, Sr. François Hugo, havia dedicado o décimo quarto volume de sua tradução de Shakespeare; ela morreu na véspera do lançamento desse volume. “Como acabamos de dizer, a assistência era numerosa nesses funerais, numerosa e simpática, e é com viva emoção, com lágrimas que a amizade derramava, que ela ouviu as palavras de adeus, pronunciadas sobre esse túmulo tão prematuramente aberto, pelo ilustre exilado de Guernesey, pelo próprio Victor Hugo. “Eis o discurso pronunciado pelo poeta: “Em algumas semanas ocupamo-nos de duas irmãs: casamos uma e sepultamos a outra. Eis o perpétuo tremor da vida. Inclinemo-nos, meus irmãos, ante o severo destino. “Inclinemo-nos com esperança. Nossos olhos não foram feitos para chorar, mas para ver; nosso coração não foi feito para sofrer, mas para crer. A fé numa outra existência nasce da faculdade de amar. Não o esqueçamos: nesta vida inquieta e apaziguada pelo amor, é o coração quem crê. O filho conta encontrar a seu pai; a mãe não consente em perder para sempre o filho. Esta recusa do nada é a grandeza do homem. “O coração não pode errar. A carne é um sonho; ela se dissipa. Se esse desaparecimento fosse o fim do revista espírita 15 especial 150 anos da Revista Espírita 16 revista espírita homem, tiraria à nossa existência toda sanção. Não nos contentamos com esta fumaça que é a matéria; precisamos de uma certeza. Quem quer que ame, sabe e sente que nenhum dos pontos de apoio do homem está na Terra. Amar é viver além da vida. Sem esta fé, nenhum dom perfeito do coração seria possível; amar, que é o objetivo do homem, seria o seu suplício. O paraíso seria o inferno. Não! digamos bem alto, a criatura amante exige a criatura imortal. O coração necessita da alma. “Há um coração neste féretro, e esse coração está vivo. Neste momento ele escuta minhas palavras. “Emily de Putron era o doce orgulho de uma família respeitável e patriarcal. Seus amigos e parentes tinham por deleite sua graça e por festa seu sorriso. Ela era como uma flor de alegria a desabrochar na casa. Desde o berço era cercada de todas as ternuras; cresceu feliz e, recebendo felicidade, dava felicidade; amada, amava. Ela acaba de partir. “Para onde foi? Para a sombra? Não. “Nós é que estamos na sombra. Ela está na aurora. “Ela está na glória, na verdade, na realidade, na recompensa. Essas jovens mortas, que não fizeram nenhum mal na vida, são bem-vindas do túmulo, e sua cabeça se ergue suavemente fora da sepultura, para uma coroa misteriosa. Emily de Putron foi buscar no céu a serenidade suprema, complemento das existências inocentes. Ela se foi: juventude, para a eternidade; beleza, para o ideal; esperança, para a certeza; amor, para o infinito; pérola, para o oceano; Espírito, para Deus. “Vai, alma! “O prodígio desta grande partida celeste, que chamam morte, é que os que partem não se afastam. Estão num mundo de claridade, mas assistem, como testemunhas enternecidas, ao nosso mundo de trevas. Estão no alto, e muito perto. Ó, quem quer que sejais, que vistes desaparecer na tumba um ente querido, não vos julgueis abandonados por ele. Está sempre lá. Está ao vosso lado mais que nunca. A beleza da morte é a presença. Presença inexprimível das almas amadas, sorrindo aos nossos olhos em lágrimas. O ser chorado desapareceu, mas não partiu. Não mais percebemos o seu rosto suave... Os mortos são os invisíveis, mas não estão ausentes. “Rendamos justiça à morte. Não sejamos ingratos para com ela. Ela não é, como se diz, um aniquilamento, uma cilada. É um erro acreditar que tudo se perde na obscuridade desta fossa aberta. Aqui tudo reaparece. O túmulo é um lugar de restituição. Aqui a alma retoma o infinito; aqui ela readquire a sua plenitude; aqui entra na posse de sua misteriosa natureza; liberta-se do corpo, liberta-se da necessidade, liberta-se do fardo, liberta-se da fatalidade. A morte é a maior das liberdades. É, também, o maior dos progressos. A morte é a ascensão de tudo o que viveu em grau supremo. Ascensão fascinante e sagrada. Cada um recebe o seu aumento. Tudo se transfigura na luz e pela luz. Aquele que na Terra só foi honesto torna-se belo; o que foi apenas belo torna-se sublime; o que só foi sublime torna-se bom. “E agora, eu que falo, por que estou aqui? o que é que trago a esta fossa? com que direito venho dirigir a palavra à morte? Quem sou eu? Nada. Engano-me, sou alguma coisa. Sou um proscrito. Exilado pela força ontem, exilado voluntário hoje. Um proscrito é um vencido, um caluniado, um perseguido, um ferido do destino, um deserdado da pátria. Um proscrito é um inocente sob o peso de uma maldição. Sua bênção deve ser boa. Eu abençôo este túmulo. “Abençôo o ser nobre e gracioso que está nesta fossa. No deserto encontram-se oásis; no exílio encontram-se almas. Emily de Putron foi uma dessas encantadoras almas encontradas. Venho pagar-lhe a dívida do exílio consolado. Eu a abençôo na profundeza da sombra. Em nome das aflições sobre as quais ela resplandeceu docemente, em nome das provações do destino, para ela acabadas, para nós continuadas; em nome de tudo o que ela esperou outrora e de tudo o que obtém hoje, em nome de tudo o que ela amou, abençôo esta morte, abençôo-a na sua grandeza, na sua juventude, na sua ternura, na sua vida e na sua morte; abençôoa na sua branca túnica sepulcral, na sua missão que deixa desolada, no seu caixão, que sua mãe encheu de flores e que Deus vai encher de estrelas!” > (Transcrição parcial de notícia inserida por Allan Kardec em Revue Spirite, fevereiro de 1865). > Allan Kardec M uitas comunicações nos foram enviadas por diferentes grupos, quer nos pedindo conselho e julgamento de suas tendências, quer, da parte de alguns, na esperança de as verem publicadas na Revista. Todas nos foram entregues com a faculdade de delas dispor como melhor entendêssemos para o bem da causa. Fizemos o seu exame e classificação e esperamos que ninguém haja de se surpreender ante a impossibilidade de inseri-las todas, considerando-se que, além das já publicadas, há mais de três mil e seiscentas que, sozinhas, teriam absorvido cinco anos completos da Revista, sem contar um certo número de manuscritos mais ou menos volumosos, dos quais falaremos adiante. A apreciação crítica deste exame nos fornecerá matéria para algumas reflexões, que cada um poderá tirar proveito. Em grande número encontramo-las notoriamente más, no fundo e na forma, evidente produto de Espíritos ignorantes, obsessores ou mistificadores e que juram pelos nomes mais ou menos pomposos com que se revestem. Publicá-las teria sido dar armas à crítica. Circunstância digna de nota é que a quase totalidade das comunicações dessa categoria emana de indivíduos isolados, e não de grupos. Só a fascinação os poderia levar a tomá-las a sério e impedir que vissem o lado ridículo. Como se sabe, o isolamento favorece a fascinação, ao passo que as reuniões encontram controle na pluralidade das opiniões. Todavia, reconhecemos com prazer que as comunicações dessa natureza formam, na massa, uma pequena minoria. A maioria das outras encerra bons pensamentos e excelentes conselhos, sem significar que todas devam ser publicadas, e isto pelos motivos que vamos expor. Os bons Espíritos ensinam mais ou menos a mesma coisa em toda parte, porque em toda parte há os mesmos vícios a reformar e as mesmas virtudes a pregar. Eis um dos caracteres distintivos do Espiritismo; muitas vezes a diferença está apenas na correção e elegância do estilo. Para apreciar as comunicações, tendo em conta a publicidade, não se deve considerá-las de seu ponto de vista, mas do do público. Compreendemos a satisfação que se experimenta ao obter algo de bom, sobretudo quando se começa, mas além do fato de que certas pessoas podem ter ilusão sobre o mérito intrínseco, não se pensa que em cem outros lugares se obtêm coisas semelhantes, e o que é de poderoso interesse individual pode ser banalidade para a massa. Além disso, é preciso considerar que, de algum tempo para cá as comunicações adquiriram, em todos os aspectos, proporções e qualidades que deixam muito para trás as que eram obtidas há alguns anos. Aquilo que então era admirado parece pálido e mesquinho junto ao que se obtém hoje. Na maioria dos centros realmente sérios, o ensino dos Espíritos cresceu com a compreensão do Espiritismo. Desde que por toda parte são recebidas instruções mais ou menos idênticas, sua publicação poderá interessar apenas sob a condição de apresentar qualidades adicionais, como forma ou como alcance instrutivo. Seria, pois, ilusão crer que toda mensagem deve encontrar leitores numerosos e entusiastas. Outrora, a menor conversa espírita era uma novidade que atraía a atenção; hoje, que os espíritas e os médiuns não se contam mais, o que era uma raridade é um fato quase banal e habitual, e que foi distanciado pela vastidão e pelo alcance das comunicações atuais, assim como os deveres do escolar o são pelo trabalho do adulto. Temos à vista a coleção de um jornal publicado no princípio das manifestações sob o título de A Mesa Falante, característico da época. Diz-se que o jornal tinha de 1.500 a 1.800 assinantes, cifra enorme para a época. Continha uma porção de pequenas conversas familiares e fatos mediúnicos que, então, atraíam profundamente a curiosidade. Aí procuramos em vão www.sxc.hu / Oliver Gruener Exame das Comunicações Mediúnicas que nos são Enviadas revista espírita 17 especial 150 anos da Revista Espírita 18 revista espírita alguma coisa para reproduzir em nossa Revista; tudo quanto tivéssemos colhido seria hoje pueril e sem interesse. Se o jornal não tivesse desaparecido, por circunstâncias que não vêm ao caso, só poderia ter vivido com a condição de acompanhar o progresso da ciência e, se reaparecesse agora nas mesmas condições, não teria cinqüenta assinantes. Os espíritas são imensamente mais numerosos do que então, é verdade; mas são mais esclarecidos e querem um ensinamento mais substancial. Se as comunicações não emanassem senão de um único centro, sem dúvida os leitores se multiplicariam em razão do número de adeptos. Mas não se deve perder de vista que os focos que as produzem se contam aos milhares e que por toda parte onde são obtidas coisas superiores não pode haver interesse pelo que é fraco ou medíocre. Não falamos assim para desencorajar as publicações; longe disso. Mas para mostrar a necessidade de uma escolha rigorosa, condição sine qua non do sucesso. Aprofundando os seus ensinamentos, os Espíritos nos tornaram mais difíceis e mesmo exigentes. As publicações locais podem ter imensa utilidade, sob duplo aspecto: espalhar nas massas o ensino dado na intimidade e mostrar a concordância que existe nesse ensino sobre diversos pontos. Aplaudiremos isto sempre e os encorajaremos toda vez que forem feitas em boas condições. Antes de mais, convém dela afastar tudo quanto, sendo de interesse privado, só interessa àquele que lhe concerne; depois, tudo quanto é vulgar no estilo e nas idéias, ou pueril pelo assunto. Uma coisa pode ser excelente em si mesma, muito boa para servir de instrução pessoal, mas o que deve ser entregue ao público exige condições especiais. Infelizmente o homem é propenso a imaginar que tudo o que lhe agrada deve agradar aos outros. O mais hábil pode enganar-se; o importante é enganar-se o menos possível. Há Espíritos que se comprazem em fomentar essa ilusão em certos médiuns; por isso nunca seria demais recomendar a estes últimos que não confiassem em seu próprio julgamento. É nisto que os grupos são úteis: pela multiplicidade de opiniões que eles permitem colher. Aquele que, neste caso, recusasse a opinião da maioria, julgando-se mais iluminado que todos, provaria sobejamente a má influência sob a qual se acha. Aplicando esses princípios de ecletismo às comunicações que nos são enviadas, diremos que em 3.600 há mais de 3.000 que são de moralidade irreprochável, e excelentes como fundo; mas que desse número nem 300 merecem publicidade e apenas 100 têm mérito fora do comum. Como essas comunicações vieram de muitos pontos diferentes, inferimos que a proporção deve ser mais ou menos geral. Por aí pode julgar-se da necessidade de não publicar inconsideradamente tudo quanto vem dos Espíritos, se quisermos atingir o objetivo a que nos propomos, tanto do ponto de vista material quanto do efeito moral e da opinião que os indiferentes possam fazer do Espiritismo. Resta-nos dizer algumas palavras sobre manuscritos ou trabalhos de fôlego que nos remeteram, entre os quais não encontramos, em trinta, mais que cinco ou seis de real valor. No mundo invisível, como na Terra, não faltam escritores, mas os bons são raros. Tal Espírito é apto a ditar uma boa comunicação isolada, a dar excelente conselho particular, mas incapaz de produzir um trabalho de conjunto completo, passível de suportar um exame, sejam quais forem suas pretensões e o nome com que se disfarce como garantia. Quanto mais alto o nome, maior o cuidado. Ora, é mais fácil tomar um nome que justificá-lo; eis por que, ao lado de alguns bons pensamentos, encontram-se, muitas vezes, idéias excêntricas e traços inequívocos da mais profunda ignorância. É nessas modalidades de trabalhos mediúnicos que temos notado mais sinais de obsessão, dos quais um dos mais freqüentes é a injunção por parte do Espírito de os mandar imprimir; e alguns pensam erradamente que tal recomendação é suficiente para encontrar um editor atencioso que se encarregue da tarefa. É principalmente em semelhante caso que um exame escrupuloso é necessário, se não nos quisermos expor a fazer discípulos à nossa custa. É, ainda, o melhor meio de afastar os Espíritos presunçosos e pseudo-sábios, que se retiram inevitavelmente quando não encontram instrumentos dóceis a quem façam aceitar suas palavras como artigos de fé. A intromissão desses Espíritos nas comunicações é, fato conhecido, o maior escolho do Espiritismo. Toda precaução é pouca para evitar as publicações lamentáveis. Em tais casos, mais vale pecar por excesso de prudência, no interesse da causa. Em suma, publicando comunicações dignas de interesse, faz-se uma coisa útil. Publicando as que são fracas, insignificantes ou más, faz-se mais mal do que bem. Uma consideração não menos importante é a da oportunidade. Algumas há cuja publicação seria intempestiva e, por isso mesmo, prejudicial. Cada coisa deve vir a seu tempo. Várias das que nos são dirigidas estão neste caso e, conquanto muito boas, devem ser adiadas. Quanto às outras, acharão seu lugar conforme as circunstâncias e o seu objetivo. > (Texto de Allan Kardec, transcrito de Revue Spirite, maio de 1863). A Biblioteca de Nova York > Allan Kardec Lê-se no Courrier des États-Unis: U m jornal de Nova York publica um fato bastante curioso, do qual certo número de pessoas já tinha conhecimento, e sobre o qual, desde alguns dias, eram feitos comentários assaz divertidos. Os espiritualistas vêem nele um exemplo a mais das manifestações do outro mundo. As pessoas sensatas não vão procurar tão longe a explicação, reconhecendo claramente os sintomas característicos de uma alucinação. É também a opinião do próprio Dr. Cogswell, o herói da aventura. O Dr. Cogswell é o bibliotecário chefe da Astor Library. O devotamento que se permite ao acabamento de um catálogo completo da biblioteca, muitas vezes o leva a consagrar a esse trabalho as horas que deveria destinar ao sono. É assim que tem oportunidade de visitar sozinho, à noite, as salas onde tantos volumes se acham arrumados nas estantes. Há cerca de quinze dias, pelas onze horas da noite, ele passava, com o castiçal na mão, diante de um dos recantos cheios de livros, quando, para sua grande surpresa, percebeu um homem bem-posto, que parecia examinar com cuidado os títulos dos vo- lumes. A princípio, imaginando que se tratasse de um ladrão, recuou e observou atentamente o desconhecido. Sua surpresa tornou-se ainda mais viva quando reconheceu, no visitante noturno, o doutor ***, que tinha vivido na vizinhança de Lafayette-Place, mas que estava morto e enterrado havia seis meses. O Dr. Cogswell não acredita muito em aparições e as teme menos ainda. Não obstante, resolveu tratar o fantasma com atenção e, levantando a voz, disse-lhe: Doutor, como se explica que em vida provavelmente jamais tenhais vindo a esta biblioteca, e agora a visitais depois de morto? Perturbado em sua contemplação, o fantasma olhou o bibliotecário ternamente e desapareceu sem responder. – Singular alucinação, disse o Sr. Cogswell de si para si. Sem dúvida terei comido algo indigesto ao jantar. Retornou ao trabalho; depois foi deitar-se e dormiu tranqüilamente. No dia seguinte, à mesma hora, teve vontade de visitar a biblioteca. No mesmo local da véspera encontrou o mesmo fantasma, dirigiu-lhe as mesmas palavras e obteve o mesmo resultado. Eis uma coisa curiosa, pensou ele; é preciso que eu volte amanhã. Antes de voltar, porém, o Dr. Cogswell examinou as estantes que pareciam interessar vivamente ao fantasma e, por uma singular coincidência, reconheceu que estavam repletas de obras antigas e modernas de necromancia. No dia seguinte, ao encontrar pela terceira vez o doutor morto, variou a pergunta e lhe disse: revista espírita 19 Especial 150 anos da Revista Espírita 20 revista espírita “É a terceira vez que vos encontro, doutor. Dizei-me se algum desses livros perturba vosso repouso, a fim de que eu o mande retirar da coleção.” O fantasma não respondeu desta, como das outras vezes, mas desapareceu definitivamente, e o perseverante bibliotecário pôde voltar à mesma hora e ao mesmo lugar, noites seguidas, sem o encontrar. Entretanto, aconselhado por amigos, aos quais havia contado a história, e pelos médicos a quem consultou, decidiu repousar um pouco e fazer uma viagem de algumas semanas até Charlestown, antes de retomar a tarefa longa e paciente que se havia imposto, e cuja fadiga, sem dúvida, havia causado a alucinação que acabamos de narrar. Observação – Sobre o artigo, faremos uma primeira observação: é a falta de cerimônia com que os negadores dos Espíritos se atribuem o monopólio do bom-senso. “Os espiritualistas – diz o autor – vêem no fato um exemplo a mais das manifestações do outro mundo; as pessoas sensatas não vão procurar tão longe a explicação, reconhecendo claramente os sintomas de uma alucinação.” Assim, de acordo com esse autor, somente são sensatas as pessoas que pensam como ele; as demais não têm senso comum, mesmo que fossem doutores, e o Espiritismo os conta aos milhares. Estranha modéstia, na verdade, a que tem por máxima: Ninguém tem razão, exceto nós e nossos amigos! Ainda estamos para ter uma definição clara e precisa, uma explicação fisiológica da alucinação. Mas, em falta de explicação, há um sentido ligado a esta palavra; no pensamento dos que a empregam, significa ilusão. Ora, quem diz ilusão diz ausência de realidade; segundo eles, é uma imagem puramente fantástica, produzida pela imaginação, sob o império de uma superexcitação cerebral. Não negamos que assim possa ser em certos casos; a questão é saber se todos os fatos do mesmo gênero estão em condições idênticas. Examinando o que foi relatado acima, parece que o Dr. Cogswell estava perfeitamente calmo, como ele próprio declara, e que nenhuma causa fisiológica ou moral teria vindo perturbar-lhe o cérebro. Por outro lado, mesmo admitindo nele uma ilusão momentânea, restaria ainda explicar como essa ilusão se produziu vários dias seguidos, à mesma hora, e com as mesmas circunstâncias; isso não é o caráter da alucinação propriamente dita. Se uma causa material desconhecida impressionou seu cérebro no primeiro dia, é evidente que essa causa cessou ao cabo de alguns instantes, quando o fantasma desapareceu. Como, então, ela se reproduziu identicamente três dias seguidos, com vinte e quatro horas de intervalo? É lamentável que o autor do artigo tenha negligenciado de o fazer, porquanto deve, sem dúvida, ter excelentes razões, visto pertencer ao grupo das pessoas sensatas. Contudo, reconhecemos que, no fato acima mencionado, não há nenhuma prova positiva da realidade e que, a rigor, poder-se-ia admitir que a mesma aberração dos sentidos tenha podido repetirse. Mas dar-se-á o mesmo quando as aparições são acompanhadas de circunstâncias, de certo modo, materiais? Por exemplo, quando pessoas, não em sonho, mas perfeitamente despertas, vêem parentes ou amigos ausentes, nos quais absolutamente não pensavam, aparecer-lhes no momento da morte, que vêm anunciar, pode-se dizer que seja um efeito da imaginação? Se o fato da morte não fosse real, haveria incontestavelmente ilusão; mas quando o acontecimento vem confirmar a previsão – e o caso é muito freqüente – como não admitir outra coisa, senão simples fantasmagoria? Ainda que o fato fosse único, ou mesmo raro, poder-se-ia crer num jogo do acaso; mas, como dissemos, os exemplos são inumeráveis e perfeitamente provados. Que os alucinacionistas se disponham a nos dar uma explicação categórica e, então, veremos se suas razões são mais probantes que as nossas. Gostaríamos, sobretudo, que nos provassem a impossibilidade material que a alma – principalmente eles, que se julgam sensatos por excelência, e admitem que temos uma alma que sobrevive ao corpo – que nos provassem, dizíamos, que essa alma, que deve estar em toda parte, não possa estar à nossa volta, ver-nos, ouvir-nos e, desde então, comunicar-se conosco. > (Texto de Allan Kardec, transcrito de Revue Spirite, maio de 1860). O Espiritismo é uma www.sxc.hu / Constantin Jurcut religião? > Allan Kardec “[...] Todas as reuniões religiosas, seja qual for o culto a que pertençam, são fundadas na comunhão de pensamentos; com efeito, é aí que podem e devem exercer a sua força, porque o objetivo deve ser a libertação do pensamento das amarras da matéria. Infelizmente, a maioria se afasta deste princípio à medida que a religião se torna uma questão de forma. Disto resulta que cada um, fazendo seu dever consistir na realização da forma, se julga quites com Deus e com os homens, desde que praticou uma fórmula. Resulta ainda que cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, por sua própria conta e, na maioria das vezes, sem nenhum sentimento de confraternidade em relação aos outros assistentes; fica isolado em meio à multidão e só pensa no céu para si mesmo. Por certo não era assim que o entendia Jesus, ao dizer: “Quando duas ou mais pessoas estiverem reunidas em meu nome, aí estarei entre elas.” Reunidos em meu nome, isto é, com um pensamento comum; mas não se pode estar reunido em nome de Jesus sem assimilar os seus princípios, sua doutrina. Ora, qual é o princípio fundamental da doutrina de Jesus? A caridade em pensamentos, palavras e ações. Mentem os egoístas e os orgulhosos, quando se dizem reunidos em nome de Jesus, porque Jesus não os conhece por seus discípulos. [...} Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembléias religiosas deve ser a comunhão de pensamentos; é que, com efeito, a palavra religião quer dizer laço. Uma religião, em sua acepção larga e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunhão de sentimentos, de princípios e de crenças; consecutivamente, esse nome foi dado a esses mesmos princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé. É nesse sentido que se diz: a religião política; entretanto, mesmo nesta acepção, a palavra religião não é sinônima de opinião; implica uma idéia particular: a de fé conscienciosa; eis por que se diz também: a fé política. Ora, os homens podem filiar-se, por interesse, a um partido, sem ter fé nesse partido, e a prova é que o deixam sem escrúpulo, quando encontram seu interesse alhures, ao passo que aquele que o abraça por convicção é inabalável; persiste à custa dos maiores sacrifícios, e é a abnegação dos interesses pessoais a verdadeira pedra-de-toque da fé sincera. Todavia, se a renúncia a uma opinião, motivada pelo interesse, é um ato de desprezível covardia, é, não obstante, respeitável, quando fruto do reconhecimento do erro em que se estava; é, então, um ato de abnegação e de razão. Há mais coragem e grandeza em reconhecer abertamente que se enganou, do que persistir, por amor-próprio, no que se sabe ser falso, e para não se dar um desmentido a si próprio, o que acusa mais obstinação do que firmeza, mais orgulho do que razão, e mais fraqueza do que força. É mais ainda: é hipocrisia, porque se quer parecer o que não se é; além disso é uma ação má, porque é encorajar o erro por seu próprio exemplo. O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como conseqüência da comunhão de vistas e revista espírita 21 Especial 150 anos da Revista Espírita 22 revista espírita de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família. Se é assim, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores! No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza. Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Em razão de não haver senão uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; porque desperta exclusivamente uma idéia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí mais que uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião se levantou. Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral. As reuniões espíritas podem, pois, ser feitas religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza grave dos assuntos de que se ocupa; pode-se mesmo, na ocasião, aí fazer preces que, em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que, por isto, sejam tomadas por assembléias religiosas. Não se pense que isto seja um jogo de palavras; a nuança é perfeitamente clara, e a aparente confusão não provém senão da falta de uma palavra para cada idéia. Qual é, pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual se deve confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade para com todos ou, em outras palavras: o amor do próximo, que compreende os vivos e os mortos, pois sabemos que os mortos sempre fazem parte da Humanidade. A caridade é a alma do Espiritismo; ela resume todos os deveres do homem para consigo mesmo e para com os seus semelhantes, razão por que se pode dizer que não há verdadeiro espírita sem caridade. Mas a caridade é ainda uma dessas palavras de sentido múltiplo, cujo inteiro alcance deve ser bem compreendido; e se os Espíritos não cessam de pregála e defini-la, é que, provavelmente, reconhecem que isto ainda é necessário. O campo da caridade é muito vasto; compreende duas grandes divisões que, em falta de termos especiais, podem designar-se pelas expressões Caridade beneficente e caridade benevolente. Compreende-se facilmente a primeira, que é naturalmente proporcional aos recursos materiais de que se dispõe; mas a segunda está ao alcance de todos, do mais pobre como do mais rico. Se a beneficência é forçosamente limitada, nada além da vontade poderia estabelecer limites à benevolência. O que é preciso, então, para praticar a caridade benevolente? Amar ao próximo como a si mesmo. Ora, se se amar ao próximo tanto quanto a si, amar-se-o-á muito; agir-se-á para com outrem como se quereria que os outros agissem para conosco; não se quererá nem se fará mal a ninguém, porque não quereríamos que no-lo fizessem. Amar ao próximo é, pois, abjurar todo sentimento de ódio, de animosidade, de rancor, de inveja, de ciúme, de vingança, numa palavra, todo desejo e todo pensamento de prejudicar; é perdoar aos inimigos e retribuir o mal com o bem; é ser indulgente para as imperfeições de seus semelhantes e não procurar o argueiro no olho do vizinho, quando não se vê a trave no seu; é esconder ou desculpar as faltas alheias, em vez de se comprazer em as pôr em relevo, por espírito de maledicência; é ainda não se fazer valer à custa dos outros; não procurar esmagar ninguém sob o peso de sua superioridade; não desprezar ninguém pelo orgulho. Eis a verdadeira caridade benevolente, a caridade prática, sem a qual a caridade é palavra vã; é a caridade do verdadeiro espírita, como do verdadeiro cristão; aquela sem a qual aquele que diz: Fora da caridade não há salvação, pronuncia sua própria condenação, tanto neste quanto no outro mundo. [...] Crer num Deus Todo-Poderoso, soberanamente justo e bom; crer na alma e em sua imortalidade; na preexistência da alma como única justificação do presente; na pluralidade das existências como meio de expiação, de reparação e de adiantamento intelectual e moral; na perfectibilidade dos seres mais imperfeitos; na felicidade crescente com a perfeição; na eqüitativa remuneração do bem e do mal, segundo o princípio: a cada um segundo as suas obras; na igualdade da justiça para todos, sem exceções, favores nem privilégios para nenhuma criatura; na duração da expiação limitada à da imperfeição; no livre-arbítrio do homem, que lhe deixa sempre a escolha entre o bem e o mal; crer na continuidade das relações entre o mundo visível e o mundo invisível; na solidariedade que religa todos os seres passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados; considerar a vida terrestre como transitória e uma das fases da vida do Espírito, que é eterno; aceitar corajosamente as provações, em vista de um futuro mais invejável que o presente; praticar a caridade em pensamentos, em palavras e obras na mais larga acepção do termo; esforçar-se cada dia para ser melhor que na véspera, extirpando toda imperfeição de sua alma; submeter todas as crenças ao controle do livre-exame e da razão, e nada aceitar pela fé cega; respeitar todas as crenças sinceras, por mais irracionais que nos pareçam, e não violentar a consciência de ninguém; ver, enfim, nas descobertas da Ciência, a revelação das leis da Natureza, que são as leis de Deus: eis o Credo, a religião do Espiritismo, religião que pode conciliar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar a Deus. É o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, esperando que ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal. Com a fraternidade, filha da caridade, os homens viverão em paz e se pouparão males inumeráveis, que nascem da discórdia, por sua vez filha do orgulho, do egoísmo, da ambição, da inveja e de todas as imperfeições da Humanidade. O Espiritismo dá aos homens tudo o que é preciso para a sua felicidade aqui na Terra, porque lhes ensina a se contentarem com o que têm. Que os espíritas sejam, pois, os primeiros a aproveitar os benefícios que ele traz, e que inaugurem entre si o reino da harmonia, que resplandecerá nas gerações futuras. [...] > (Texto de Allan Kardec lido na Sessão Anual Comemorativa dos Mortos, no dia 1º. de novembro de 1868. Transcrição parcial, Revue Spirite, dezembro de 1868). International Spiritist Council revista 23 Av. L2 Norte - Quadra 603 - Conj. F - Asa Norte - 70830-030 espírita Brasilia - DF - Brazil - Tel: 00 55 (0) 61 3321-1767 www.spiritist.org.br - [email protected] Entrevista exclusiva ENTREVISTA A Revista Espírita e a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas na visão de Divaldo Franco. > Entrevista concedida a Luis Hu Rivas 1 – Qual é a importância da Revista Espírita? 24 revista espírita Em face da publicação de O Livro dos Espíritos, em Paris, no dia 18 de abril de 1857, Allan Kardec passou a receber volumosa correspondência. De toda parte, onde chegava a novel doutrina inserta na memorável obra, procediam comentários, interrogações, informações, narrativas de fatos mediúnicos, exigindo demasiadamente do insigne Codificador. Ademais, as acusações e combates contra o Espiritismo avolumavam-se, necessitando de um órgão portador de esclarecimentos, que pudesse enfrentar a má fé e a pusilanimidade dos adversários do progresso. Ao mesmo tempo, considerando que as pesquisas prosseguiam, tornava-se necessário continuar divulgando-as como contribuição valiosa para os estudiosos e iniciantes no conhecimento libertador da nova ciência. A Revista Espírita, por conseqüência, tornou-se o veículo mensal de grande significado para atender a todas essas necessidades. Posteriormente, ao elaborar as demais obras da Codificação, Allan Kardec utilizou-se de muitas informações e contributos publicados na Revista para servir-lhes de fundamentos valiosos. “É de grande importância que se propague a doutrina espírita por todos os meios e modos nobres possíveis, a fim de atenuar as tragédias do cotidiano e preparar os seres humanos para as inevitáveis transformações morais e sociais que já se vêm operando no planeta.” 2 – A Revista Espírita é a primeira publicação espírita em forma de jornal de todos os tempos. Como tem servido de base para a imprensa espírita até os dias de hoje? Tratava-se de um pequeno grupo de participantes que se reuniam hebdomadariamente, com profundo interesse pelo aprofundamento das questões espíritas sob a presidência de Allan Kardec. Transformando-se em fonte inexaurível de informações e abarcando todo um universo de acontecimentos e de informações, a Revista Espírita é um exemplo para a nossa imprensa, especialmente pela maneira sábia como Allan Kardec a utilizou. Perseguido, hostilizado, combatida a Doutrina Espírita, o Codificador jamais abdicou da ética e do bom tom, para enfrentar os adversários ideológicos e pessoais, perdidos na própria pequenez. Utilizando-se sempre de linguagem escorreita e fundamentando os seus conceitos na experiência de laboratório, o mestre de Lyon tornou-se exemplo de serenidade, de honradez e nobreza no enfrentamento com os contumazes inimigos da humanidade. Nunca se permitiu nela publicar quaisquer temas ou questões que não estivessem vinculadas ao Espiritismo, jamais se preocupando com o proselitismo de arrastamento, mas sempre atento ao esclarecimento e à iluminação de consciências dos leitores. 5 – O que tem mudado nos Centros Espíritas desde o seu surgimento? 3 – Qual conselho daria aos divulgadores da imprensa espírita? Confesso reconhecer a pobreza de valores culturais e morais que me caracterizam, para atrever-me a aconselhar os lidadores da imprensa espírita. Nada obstante, sugiro a todo aquele que deseja oferecer contributos valiosos aos labores de divulgação do Espiritismo através da imprensa, que tenham em Allan Kardec na condição de modelo ideal, sendo fiel aos princípios doutrinários e jamais derrapando para as acusações ou as defesas pessoais, os debates inócuos, as publicações perturbadoras, as discussões infrutíferas em torno de temas que mais perturbam os principiantes do que os esclarecem. 4 – Há 150 anos surgiu a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, o primeiro centro espírita do mundo. Comente-nos como era o trabalho da época. A criação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas tornou-se uma necessidade imperiosa, naqueles dias, a fim de facultar o prosseguimento das pesquisas mediúnicas, o debate sensato com os Espíritos da Codificação, o estudo cuidadoso dos postulados revelados, a demonstração da legitimidade dos fenômenos, especialmente para alguns cidadãos interessados na busca da verdade. Em razão do próprio progresso cultural e tecnológico da atualidade, o Centro Espírita mantém um elenco ampliado de atividades, sendo uma escola de estudos da Doutrina, uma oficina de edificação moral, um santuário de amor onde a caridade vige soberana, um núcleo de aglutinação de todos quantos se interessam pelo conhecimento, divulgação e vivência do Espiritismo. 6 – Na época do Codificador surgiram os primeiros núcleos. Hoje falamos de mais de 12 mil centros espíritas, só no Brasil. Como você observa esta expansão no Brasil e no mundo? Essa expansão está prevista na revelação dos imortais, porquanto, os Espíritos sopram onde querem, e as suas vozes, chamando a atenção das criaturas humanas, logo as conclamam à organização de entidades de estudo, de trabalho e de divulgação dos seus conteúdos insertos na Codificação e nas obras que lhe são subsidiárias. É de grande importância que se propague a Doutrina Espírita por todos os meios e modos nobres possíveis, a fim de atenuar as tragédias do cotidiano e preparar os seres humanos para as inevitáveis transformações morais e sociais que já se vêm operando no planeta. 7 – Qual seria sua orientação aos trabalhadores dos centros espíritas? Sendo-me facultado sugerir uma orientação aos trabalhadores dos centros espíritas, conclamo-os à fidelidade doutrinária em relação à codificação kardequiana, às obras que lhe constituem complemento valioso, evitando os modismos e as novidades que muito agradam os frívolos, com desconsideração pela seriedade com que deve ser encarado o Espiritismo. O Espiritismo é doutrina séria para pessoas sérias que se dispõem ao esforço pela transformação moral de si mesmas para melhor, superando as suas más inclinações. > Divaldo Pereira Franco é médium e orador espírita revista espírita 25 EDICEI O desafio de editar livros espíritas para o mundo > Fernando Quaglia A penas começaram a ser divulgados os primeiros exemplares de O Livro dos Espíritos, na livraria Dentu, situada no Palais-Royal, em Paris, começou um singular fenômeno editorial que permitiu esgotar, em pouco tempo, os 1.200 exemplares que tinham sido impressos1. 26 revista espírita Com 501 perguntas e diagramado em duas colunas, o Livro teve grande repercussão na Sociedade Parisiense da segunda metade do século XIX. Seguindo a orientação dos Espíritos, Allan Kardec preparou uma segunda edição, desta vez aumentada e corrigida, no formato que atualmente conhecemos. Com uma seqüência lógica, e ampliando os ensinamentos que se encontravam nesta obra extraordinária, Kardec publicou os outros livros que integram a Codificação Espírita: O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, o Céu e o Inferno e A Gênese. Nos anos seguintes, numerosas traduções da obra de Allan Kardec começaram a ser publicadas em diferentes países, tanto na Europa como na América, permitindo uma ampla divulgação dos princípios da Doutrina Espírita. Hoje, mais de 150 anos da aparição de O Livro dos Espíritos, permanece vigente o desafio de levar a mensagem Consoladora que os Espíritos superiores legaram à Humanidade, até o mais distantes rincões do planeta. Com este objetivo, o Conselho Espírita Internacional – CEI, em conjunto com a Federação Espírita Brasileira, está trabalhando ativamente para que o Espiritismo seja cada vez mais conhecido em todo o mundo, valendo-se do livro espírita, que ainda hoje continua sendo o principal veículo de divulgação dos princípios doutrinários. É assim que surge a EDICEI, o departamento do Conselho Espírita Internacional que se encarrega de coordenar o trabalho de publicação de suas obras, que incluim a aquisição de traduções em múltiplos idiomas, os processos de diagramação e criação de capas, impressão e divulgação. Na hora de eleger um livro para publicação, as preferências mudam de acordo com a cultura e os hábitos de leitura de cada país. É por este motivo que os livros do CEI buscam adapatar sua apresentação de acordo com o idioma para o qual são traduzidos, mantendo inalterada a fidelidade dos princípios codificados por Allan Kardec. Com obras publicadas em espanhol, francês, alemão, russo e húngaro, entre outros idiomas, e com www.sxc.hu / Rodolfo Clix numerosas traduções em andamento, o CEI trabalha ativamente para ampliar o catálogo de títulos impressos. Uma vez que a obra foi publicada, o trabalho de divulgação apenas começa. Com presença nas principais feiras de livro do mundo, como Frankfurt, Paris e São Paulo, o CEI busca difundir, cada vez mais, as obras de Allan Kardec e de outros autores destacados da literatura espírita, como Francisco Cândido Xavier ou Yvonne A. Pereira, entre outros. O Conselho Espírita Internacional, desde que começou a trabalhar em programas mais amplos de divulgação, participando em feiras e eventos em diversos lugares do mundo, constatou um grande interesse das pessoas em conhecer os princípios da Doutrina Espírita. Hoje o CEI tem acordos para divulgar seus livros em países como a França e os Estados Unidos, e permanentemente vem trabalhando para poder ampliar estes convênios. Atualmente, as tecnologias do mercado editorial permitem uma verdadeira revolução na edição de livros. Hoje é possível diagramar um livro no Brasil e solicitar a impressão de 300 exemplares na Argentina, de 500 na Colômbia e 200 no Chile, simplificando os processos de edição, impressão e distribuição, o que permite contar com melhores opções de divulgação. Apesar de toda esta tecnologia, o que faz com que um leitor se sinta interessado por um livro é seu conteúdo e não pelas opções tecnológicas que o envolvem. Por isto, devemos contar com traduções que reflitam fielmente os princípios Espíritas, além de ter um correto uso do idioma ao qual foi transcrito. Entre os principais desafios que são enfrentados para a edição de livros espíritas é a falta de tradutores especializados e confiáveis. Antigamente, eram enviadas ao CEI traduções realizadas na base da boa vontade, por colaboradores que decidiam traduzir uma obra por sua conta e somente a enviavam quando estava finalizada. Assim ocorria que chegavam 3 ou 4 traduções de um mesmo livro que, em muitos casos, já havia sido publicado. Atualmente o Departamento Editorial do CEI está trabalhando para regularizar este processo, coordenando as diferentes equipes de colaboradores e estabelecendo um cronograma de trabalho que facilite a preparação de traduções de excelente qualidade. Contar com tradutores capacitados permite que as obras publicadas pelo Conselho Espírita Internacional sejam reconhecidas por sua qualidade lingüística e fidelidade doutrinária, transformando-se, hoje em dia, em obras de referência de grande valor para os leitores. Ainda resta muito trabalho a ser realizado. São milhões de livros que deverão ser impressos e divulgados, para que possam alcançar a todos aqueles que buscam esclarecimento e consolo através de suas páginas. O desafio apenas começou. > Fernando Quaglia é coordenador do Departamento do Livro do CEI Referências: 1 Esta foi a quantidade de livros impressos na primeira edição, segundo consta na obra O Livro dos Espíritos e sua tradição Histórica e Legendária. Canuto Abreu. Edições LFU – Lar da Família Universal. São Paulo, 1996. Edição em Espanhol da Confederação Espiritista Argentina – CEA. Buenos Aires, 2007. Tradução de Gustavo Martínez. revista espírita 27 Da primeira sociedade espírita aos nossos dias história > Antonio Cesar Perri de Carvalho A obra inaugural do Espiritismo - O Livro dos Espíritos (1857) - provocou interesse e seu autor foi muito procurado por aqueles que queriam conhecê-lo e trocar idéias. Poucos meses depois Kardec realizava reuniões em sua residência, à rua dos Mártires. Interessados da França e de outros países ali compareciam para conhecer o Espiritismo e o Codificador. Quatro meses após lançar - a 1º. de janeiro de 1858, a Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos – Allan Kardec e seus companheiros fundaram a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE), em 1o de abril de 1858, na Galerie Valois (Palais Royal), ao lado do Museu do Louvre, em Paris. Em 1860 a Sociedade mudou-se para nova sede, na Passage de Saint Anne, à rua Saint Anne no 59. A SPEE foi o primeiro Fotos: Cesar Perri Palais Royal no século XIX local de estudo e prática do Espiritismo e um ponto de referência para os interessados no Espiritismo. Kardec divulgou muitas informações sobre a SPEE nas páginas de Revista Espírita (6). A experiência de fundar e dirigir uma Sociedade Espírita foi de fundamental importância para o Codificador, passando pela vivência da organização, normatização e do acompanhamento rotineiro. Kardec viveu o contato direto com os colaboradores e suas dificuldades, os cuidados com os médiuns, a análise das dissertações espirituais, e os contatos com visitantes. O Codificador além de escrever os livros, editar a Revista Espírita e dirigir a Sociedade, ainda fez algumas viagens pela França e pela Bélgica para conhecer e ampliar o intercâmbio com as novas instituições espíritas que surgiam. Na realidade, foi um trabalho hercúleo para apenas quinze anos de atuação. Há muitas considerações de Allan Kardec sobre a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritos e o funcionamento de grupos espíritas, incluídas em Revista Espírita, O Livro dos Médiuns e em Obras Póstumas. Allan Kardec divulgou muitas informações sobre a SPEE nas páginas de Revista Espírita, adaptando-as depois em forma de orientações para reuniões em capítulos de O Livro dos Médiuns, onde também transcreve o “Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas” (1). Entendemos que as observações do Codificador incluídas nas obras citadas sejam significativos referenciais e subsídios para o funcionamento dos centros espíritas até nossos dias. O testemunho de sua atuação como Codificador reforça inclusive seu oportuno comentário sobre o compromisso dos encarnados: “O que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem.” (2). Passados 150 anos da fundação do primeiro Centro Espírita do mundo, torna-se importante a reflexão sobre a evolução desta instituição até nossos dias. as Entidades Federativas Estaduais que integram o Conselho Federativo Nacional da FEB aprovaram o texto “Orientação ao Centro Espírita”, que passou a ser um marcante subsídio orientador para as instituições espíritas do país. As propostas de organização administrativa e doutrinária dos centros espíritas culminaram com o projeto sobre “Capacitação Administrativa da Casa Espírita”, em Reunião realizada em novembro de 2002 e na elaboração do “Plano de Trabalho para o Movimento Espírita Brasileiro (2007-2010)”. Há também reflexos internacionais. Desde o ano de 2004 têm sido desenvolvidos miniseminários sobre temas de gestão administrativa e doutrinária. Daí em diante, os seminários de Gestão Administrativa e Doutrinária foram desenvolvidos em vários países e passou a ser um programa de trabalho do Conselho Espírita Internacional. Atualmente, perto de 50 países dispõem de grupos espíritas e 33 países dispõem de Movimento Espírita e estão integrados ao CEI. > Cesar Perri de Carvalho, diretor da FEB. Membro da Comissão Executiva do CEI. Referências: Rua Saint Anne no 59, Paris Léon Denis, que conheceu Kardec durante visita deste a Tours, em 1862, e depois esteve com este em mais duas oportunidades, no ano de 1867 (3), veio a se transformar no grande divulgador do Espiritismo e o consolidador do Movimento Espírita francês, visitando e proferindo palestras em inúmeros grupos espíritas. O Espiritismo se firmou em várias localidades francesas. Léon Denis considerou que “Lyon é a muralha do Espiritismo”. Esta cidade chegou a possuir uma creche espírita fundada em 1903 (5). Os primeiros grupos espíritas se espalharam pela França e países europeus e, em seguida, pelas Américas. No final do século XIX surgiram instituições espíritas em vários países da América Latina, e algumas destas fundadas na Argentina e no Brasil prosseguem em atividades até nossos dias. No Brasil, a expansão do Movimento Espírita e a tendência de se aumentar a procura pelos centros espíritas, a partir dos “Pinga-Fogos” na TV com Chico Xavier, gerou a preocupação sobre algumas aparentes distorções e obstáculos à organização doutrinária dos centros, ações de assistência social apenas com a materialização da caridade, e, a mediunidade como fim, poderiam comprometer as bases do Movimento Espírita. Seria importante o fortalecimento em bases kardequianas e a divulgação pelo livro (4). Em 1980, 1. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1964. Cap. XXX. 2. Kardec, Allan. A Gênese. Tradução Guilhom Ribeiro. Cap. I, Rio de Janeiro: FEB, item 13, 1977. 3. LUCE, Gaston. Vida e Obra de Léon Denis. (Trad. Miguel Maillet) 1. ed. São Paulo: Edicel, 1968. Cap.1. 4. PERRI DE CARVALHO, A.C. Espiritismo e Modernidade. 1. ed. São Paulo: USE, 1996, p.56-7. 5. PONSARDIN, Mickaël. Le Spiritism à Lyon. 1. ed. Marly-le-Roi: Philman, 2004, p.5, 105-06. 6. WANTUIL, Zêus.; THIESEN, Francisco. Allan Kardec: pesquisa biobliográfica e ensaios de interpretação. v. III. 3. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1988. Cap.3. Palais Royal na atualidade revista espírita 29 O Espiritismo na era digital > Victor Hugo Silva Santos B tvcei asta sentar-se em frente ao computador, digitar em um site de busca a palavra “Espiritismo” e, imediatamente, milhares de opções se farão disponíveis com os mais variados assuntos relacionados à Doutrina Espírita. Essa é a realidade atual para muitos espíritas com acesso ao mundo de possibilidades que a Internet oferece. Por meio dela, é possível encontrar desde as obras da codificação espírita, em versão de leitura, até bibliotecas virtuais com obras raras do Espiritismo referentes ao século XIX, para estudo e pesquisa dos interessados. Com isso, o Espiritismo ganha a oportunidade de expansão das revelações que o constituem. Dentro dos muitos instrumentos que a Internet proporciona, um dos que se encontra em maior expansão é a webtv, uma programação televisiva transmitida unicamente pelas ondas da rede mundial de computadores. Esta se apresenta como uma solução para o Brasil, onde a concessão de canais ou espaço em horários na TV aberta é restrita a pequenos grupos de comunicação. Além disso, as facilidades da webtv são variadas: acesso gratuito ao conteúdo, sem limites de horários, alcance de material televisivo gerado em nível mundial, interatividade com o usuário e muitas outras. 30 revista espírita “Uma publicidade em larga escala, feita nos veículos de maior circulação, levaria ao mundo inteiro, até às localidades mais distantes, o conhecimento das idéias espíritas, despertaria o desejo de aprofundá-las e, multiplicando-lhe os adeptos, imporia silêncio aos detratores, que logo teriam de ceder, diante da ascensão da opinião pública”. Atualmente, dentro do Movimento Espírita, a webtv do Conselho Espírita Internacional, conhecida como TVCEI, é o site mais visitado por internautas que buscam conteúdo audiovisual com temas sobre a Doutrina Espírita. O projeto foi criado há dois anos com o objetivo de expandir as idéias espíritas para além das fronteiras brasileiras. “Queremos nos tornar referência em divulgação espírita pela internet”, afirma Joseval Carneiro Jr, um dos idealizadores do projeto. Para ele, a TVCEI exerce um papel fundamental no consolo das pessoas que vivem em outros países e não têm fácil acesso à Doutrina Espírita. A TVCEI recebe apoio da Federação Espírita Brasileira. No site www.tvcei.com é possível assistir mais de 30 programas de TV, produzidos por grupos diversos de instituições espíritas, filmes, estudos, entrevistas e produções variadas em inglês, espanhol e francês, disponíveis 24h. São oito canais à dispo- sição do público, abrangendo, inclusive, canais de áudio, como a Rede Boa Nova de Rádio, a Rádio Rio de Janeiro e a Rádio do Conselho Espírita Internacional. A TVCEI é também pioneira nas transmissões de eventos espíritas, em tempo real, como palestras e seminários de várias localidades do Brasil e exterior, com os mais atuantes oradores espíritas, entre eles os médiuns Divaldo Pereira Franco e José Raul Teixeira. Recentemente, comprovou-se a amplitude da webtv com a transmissão da Semana Espírita de Vitória da Conquista, que está em sua 55ª edição e é um dos maiores eventos espíritas do país. O evento durou oito dias e teve um público estimado em 2.000 pessoas diariamente para estudo e divulgação do tema “Reencarnação: uma questão de justiça”. A transmissão ao vivo pela TVCEI bateu recorde de acessos com aproximadamente 25.000 visitantes do Brasil e exterior. “É um dos eventos mais importantes do ano para o cenário espírita”, explica Luis Hu Rivas, coordenadorgeral da TVCEI. “É muito gratificante poder levar esse encontro de paz aos espíritas, no conforto dos seus lares”. Os desafios do projeto são muitos. Certamente, os números mostram uma nova vertente que a divulgação espírita ganha, aliados aos mais novos recursos de comunicação, impulsionados pela tecnologia. O que resta daqui para frente é trabalhar para que o consolo espírita alcance um número cada vez maior de pessoas. Ademais, segue-se o Projeto 1868, do insigne codificador: “Uma publicidade em larga escala, feita nos veículos de maior circulação, levaria ao mundo inteiro, até às localidades mais distantes, o conhecimento das idéias espíritas, despertaria o desejo de aprofundá-las e, multiplicando-lhe os adeptos, imporia silêncio aos detratores, que logo teriam de ceder, diante da ascensão da opinião pública”. revista espírita 31 Honduras > A Coordenadoria do Conselho Espírita Internacional para a América Central e Caribe promoveu o “III Congresso Centroamericano, Panamá e o Caribe”, na cidade de Tegucigalpa (Honduras), nos dias 27, 28, 29 e 30 de junho. Entre os representantes do CEI e expositores, atuaram no evento: os diretores da FEB João Pinto Rabelo e Marta Antunes de Moura e, integrantes da equipe da FEB e do CEI: Roberto Fuina Versiani e Luís Rivas Hu. Itália > No dia 12 de abril foi fundada a Unione Spiritica Italiana – USI. A Itália hoje conta com 8 grupos espíritas, alguns já fundados há mais de 10 anos. Em breve a USI criará uma página eletrônica própria, oferecendo a todos os interessados informações sobre todo o Movimento Espírita italiano, livros espíritas na língua do País, entre outras informações. Contato pelo e-mail [email protected] CANADÁ > Com o objetivo de fundar o Conselho Espírita Canadense, nos dias 12, 13 e 14 de setembro, ocorreram reuniões e palestras nos três grupos espíritas de Montreal (Canadá): “Mensageiros Luz e Paz”, “Justiça, Amor e Caridade” e “Fraternidade”. Também estiveram presentes aos eventos os representantes do “Joanna de Angelis Spiritist Study Group”, de Toronto, o qual sediará a nova Entidade representativa do Canadá. As citadas atividades em Montreal e palestras e reuniões em Toronto, contaram com a atuação de Antonio Cesar Perri de Carvalho, membro da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional notícias Congresso da América Central e Caribe Constituída União Espírita CEI NO CANADÁ 32 revista espírita > A Coordenadoria de Apoio ao Movimento Espírita na Europa, do Conselho Espírita Internacional, realizou a sua 10ª Reunião Anual, nos dias 16, 17 e 18 de maio, no Hotel Nuovo, em Lecco (Itália). A Reunião foi dirigida pelo coordenador do CEI para a Europa Charles Kempf, contando com a presença do secretáriogeral do CEI, Nestor João Masotti e de integrantes da Comissão Executiva do CEI. Compareceram representantes de instituições de 16 países da Europa, dos quais 11 como membros do CEI e cinco como observadores, os quais apresentaram informações sobre as ações espíritas em seus respectivos países: Maria Gekeler (União Espírita Alemã), Jean Paul Évrard (União Espírita Belga), Salvador Martin (Federação Espírita Espanhola), Jean Luc Royens (União Espírita Francesa e Francofônica), Maria Moraes da Silva (União Espírita da Holanda), Evi Alborghetti (União Espírita Italiana), Maria Cristina Latini (Grupo de Estudos Espíritas Allan Kardec), Maria Isabel Saraiva (Federação Espírita Portuguesa), Joca Dalledone (União Britânica de Sociedades Espíritas), Eliane Dahre (União Espírita Sueca) e Gorete Newton (União dos Centros de Estudos Espíritas na Suíça). Como observadores: Cláudia Werdine (Áustria); Spartak Severin (Bielorrússia), August Kilk (Estônia), Pekka Kaarakainen (Finlândia), Szabadi Tibor (Hungria). Nesta Reunião foi realizada a integração da União Espírita Italiana junto ao CEI, em substituição ao Centro que temporariamente representava a Itália. Ocorreram informações sobre os preparativos para o 6º Congresso Espírita Mundial, programado para a cidade de Valencia (Espanha), para outubro de 2010; difusão do Espiritismo em novas traduções de livros e pela internet; o andamento das comemorações dos 150 anos de publicação de La Revue Spirite e de fundação da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, e, as atividades gerais do CEI. No período, houve reunião da Comissão Executiva do CEI para tratar de assuntos da organização e, especificamente, sobre os preparativos sobre o já citado Congresso, promovido pelo CEI. Foi desenvolvido o Seminário para Formação de Trabalhadores Espíritas, por Antonio Cesar Perri de Carvalho (Missão dos Espíritas) e Charles Kempf (Formação de Pequenos Grupos). Também ocorreram palestras públicas, no salão do Hotel Nuovo: no dia 16 por Nestor João Masotti e no dia 17 por Antonio Cesar Perri de Carvalho. No dia 19, pelo secretário-geral do CEI e presidente da FEB, na Associação Cultural Sentieri dello Spirito, em Milão. Europa Reunião da Coordenadoria do Cei revista espírita 33 EDICei A presença do CEI na Feira do Livro de Brasília supera todas as expectativas. > Com um importante trabalho de divulgação, o Conselho Espírita Internacional participou da Feira do Livro de Brasília, de 29 de agosto a 7 de setembro, com um stand exclusivo. No marco da Feira foram apresentados os novos lançamentos em outros idiomas, publicados pelo CEI, e também todas as obras já publicadas totalizando mais de 60 títulos em espanhol, inglês, alemão, francês e outros idiomas. notícias A procura do público foi maior do esperado. Os freqüentadores da Feira se mostraram gratamente surpresos por todo o trabalho de divulgação que o CEI vem realizando. TVCei > Espíritas de outros países têm encontrado um ótimo canal de divulgação da Doutrina Espírita em sua língua de origem através da Web TV do Conselho Espírita Internacional. A Web TV disponibiliza espaço para veiculação de congressos e palestras, em outros idiomas, ao vivo, para todo o mundo. Atualmente, existem 5 localidades do exterior com palestras em língua estrangeira: Todas as terças, 20h30(horário de Brasília) palestras direto de Cartagena, na Colômbia. Às quartas, a partir das 22h, com Edwin Bravo, da Guatemala. Todas as quintas e sábados, às 21h, palestras e estudo de O Livro dos Espíritos em inglês, direto de Baltimore (EUA), além de transmissões de Lisboa, às sextas-feiras, 16h30. É possível encontrar detalhes de temas e horários no www.tvcei.com no link “Agenda de eventos”, na página principal do site. Lima > Nos dias 11 e 12 de outubro, ocorre a 3ª Reunião da Coordenadoria do Conselho Espírita Internacional para a América do Sul, em Lima (Peru), tendo como anfitriã a Federação Espírita do Peru. Na pauta da Reunião constam informações sobre o andamento do Movimento Espírita em países da América do Sul e troca de idéias para um plano de ação. Durante o evento será desenvolvido um Seminário para Dirigentes Espíritas Sulamericanos, por Divaldo Pereira Franco. Desde o dia 10 e até o dia 12 também acontecerá o 2º Encontro Espírita Peruano, com palestras de Divaldo Pereira Franco, Nestor João Masotti, Antonio Cesar Perri de Carvalho, Ney Prieto Peres, Fábio Villarraga, Jorge F. Leon, Jorge Berrío, Simoni Privato e Ricardo Morante. Haverá ainda apresentação musical de Nando Cordel. Espíritas do mundo transmitem pela TVCEI Reunião da Coordenadoria do CEI para América do Sul 34 revista espírita revista espírita 35 Países Membros CEI do CEI CONSELHO ESPÍRITA INTERNACIONAL Av. L2 Norte - Quadra 603 - Conj. F - Asa Norte 70830-030 - Brasília - DF - Brasil Tel: 00 55 (0) 61 3321-1767 www.spiritist.org.br [email protected] 1 – ALEMANHA União Espírita Alemã Hackstrasse 11 D-70190 Stuttgart-Ost Alemanha – Germany Tel: 0049.7122.82253 [email protected] www.spiritismus-dsv.org 2 – ANGOLA Sociedade Espírita Allan Kardec de Angola Rua Amílcar Cabral, 29 - 4°. B LUANDA - ANGOLA Tel/Fax: 00 2 442 334 030 [email protected] www.seaka.org 3 – ARGENTINA Confederación Espiritista Argentina Sanchez de Bustamante 463 Buenos Aires Tel. (54) 11 4 8626314 [email protected] www.spiritist.org/argetina 36 revista espírita 4 – AUSTRÁLIA Franciscans Spiritist House 1 Lister Ave. – Rodkdale 2216 – Sydney – NSW Gloria Collaroy (02) 9597 6585 [email protected] www.joanadecusa.org.au 7 – BRASIL Federação Espírita Brasileira Av. L2 Norte - Quadra 603 - Conj.F - Asa Norte 70830-030 – Brasília - DF - Brasil Tel: 00 55 (0) 61 2101 6150 www.febnet.org.br [email protected] 5 – BÉLGICA Union Spirite Belge 43 Rue Maghin, B-4000 LIEGE BELGIQUE (BÉLGICA) Tel: 00 32 (04) 227-6076 www.spirites.be e-mail: [email protected] 8 – CANADÁ Canadian Spiritist Council 1357 B Dundas Street West Toronto, ON - M6J 1Y3 +1-456-532-7896 [email protected] [email protected] 6 – BOLÍVIA Federación Espírita Boliviana (FEBOL) Calle Libertad 382 Santa Cruz de la Sierra Tel. (591) 3337 6060 [email protected] www.febol.org 9 – CHILE Centro de Estudios Espíritas Buena Nueva Calle Nelson, 1721 – Ñuñoa – Santiago. SANTIAGO - CHILE [email protected] www.consejoespirita.com/chile 10 – COLÔMBIA Confederación Espírita Colombiana (CONFECOL) Calle 73, 20B-08 Bogotá D.C. Tel. (571) 2551417 , Fax (571) 21719565 [email protected] www.confecol.org 11 – CUBA Sociedad Amor y Caridad Universal Ave 37 No. 3019 entre 30 y 34 bajos, Playa, Ciudad Habana - CUBA Tel: 209-6833 [email protected] www.josedeluz.com 12 – EL SALVADOR Federación Espírita de El Salvador 39 Calle Poniente No. 579 y 571, Barrio Belén SAN SALVADOR - EL SALVADOR América Central Tel: 00 (503) 502 2596 2235-4250 7763-8764, 2235-4250 7229-4886, [email protected] www.elsalvadorespirita.org 13 – ESPANHA Federación Espírita Española Calle Dr. Sirvent, 36 A 03160 Alhoradí – Alicante Tel: (34) 626311881 [email protected] www.espiritismo.cc 14 – ESTADOS UNIDOS United States Spiritist Council P.O BOX 341366 - Bethesda, MD 20827 - USA Tel: 00 1 (240) 453.0361, Fax: 00 1 (240) 453.0362 www.usspiritistcouncil.com [email protected] 15 – FRANÇA Union Spirite Française et Francophone 1, Rue du Docteur Fournier Boite Postalle 2707 37027 TOURS - FRANCE Tel/Fax: 00 33 (0)2 4746-2790 www.union-spirite.fr [email protected] 16 – GUATEMALA Cadena Heliosophica Guatemalteca 15 Av. 6-71, zona 12 01012 – Guatemala Tel: (502) 2471 9935, Cel. (502) 5704 1387 [email protected] www.guatespirita.org 17 – HOLANDA Nederlandse Raad voor het Spiritisme Postadres: Klokketuin 15 1689 KN HOORN - HOLLAND Tel: 00 31 (0)229 234527 www.nrsp.nl [email protected] 18 – HONDURAS Asociación Civil de Proyección Moral – ACIPROMO Zona de Tiloarque, Colonia El Contador, Calle principal, lote 3 y 4 Apartado Postal # 3163 TEGUCIGALPA, HONDURAS Tel: 504-2379312 - 504-33800299 [email protected] www.hondurasespirita.org 19 – ITÁLIA Unione Spiritica Italiana Via dei Pescatori,43 23900 - Lecco - Italia Tel: 00 39 (0) 341494127 www.spiritist.org/italia [email protected] 20 – JAPÃO Comunhão Espírita Cristã Francisco Cândido Xavier Chiba-Ken/Jehikawa-shi/Ainokawa 3-13-20/101 2720034 – JCHIKAWA-SHI [email protected] www.spiritism.jp 21 – MÉXICO Central Espírita Mexicana Retorno Armando Leal 14 Unidad CTM Atzacoalco. Delegación Gustavo A. Madero; Ciudad de México, C.P. 07090 Tel: 00 52 5715-0660 E-mail: [email protected] www.spiritist.org/mexico 22 – NOVA ZELÂNDIA Allan Kardec Spiritist Group of New Zealand 7/7 Balmain Road Birkenhead - Auckland New Zealand Tel: 00 64 21 178 75 56 www.allankardec.org.nz [email protected] 23 – NORUEGA Gruppen for Spiritistiske Studier Allan Kardec Dronningens gt. 23 0154 Oslo – Noruega Tel: 00 47 (22) 19 44 69 www.geeaknorge.com [email protected] 24 – PANAMÁ Fraternidad Espírita Dios, Amor y Caridad (FEDAC) Calle V # 9 - Parque Lefevre Panamá - República de Panamá Apartado Postal 0834 - 01981 Panamá, República de Panamá www.fedac.org.pa [email protected] [email protected] 26 – PERU Federación Espírita del Perú FEPERU Jr. Salaverry Nº 632 -1, Magdalena del Mar LIMA-PERÚ Tel: 00 (511) 263-3201 - (511) 440-1919 [email protected] www.spiritist.org/peru 27 – PORTUGAL Federação Espírita Portuguesa Praceta do Casal de Cascais - Lote 4 R/C - A Alto da Damaia 2720 – 090 - Amadora - PORTUGAL Tel: 00 351 214 975 754 [email protected] [email protected] www.feportuguesa.pt 28 – REINO UNIDO British Union of Spiritist Societies-BUSS Room 9, Oxford House - Derbyshire Street Bethnal Green - E2 6 HG Tel. 02077293214 [email protected] www.buss.org.uk 29 – SUÉCIA Svenska Spiritistiska Förbundet c/o Eliane Dahre, Norra Kringelvägen 12, 28136 Hässleholm – Sweden Tel: 00 46 (451) 12916 [email protected] www.spiritist.org/sweden 30 – SUÍÇA Union des Centres d’Études Spirites en Suisse Postfach: 8404 - WINTERTHUR - SUIÇA Tel.privé: ++ 41/ 055 210 1878 UCESS 00 41 52 232 2888 www.spiritismus.ch [email protected] 31 – URUGUAI Federación Espírita Uruguaya Av. General Flores 4689 11100 - Montevideo - Uruguay Tel: 00 598 62 24980 [email protected] [email protected] www.spiritist.org/uruguay 32 – VENEZUELA Asociación Civil «Sócrates» Carrera 23 entre Calle 8 y Av. Moran Edificio: Roduar IV apto. 2-3 Barquisimeto – Estado Lara Tel: 0251-2527423 [email protected] www.venezuelaespirita.org 25 – PARAGUAI Centro de Filosofía Espiritista Paraguayo Calle Amancio González, 265 ASUNCIÓN – PARAGUAY Tel/Fax: 00 595 21 90.0318 www.spiritist.org/paraguay [email protected] revista espírita 37 Conselho Espírita Internacional - CEI, Av. L2 Norte - Quadra 603, Conj. F - Asa Norte, 70830-030 - Brasília - DF - Brasil Tel: 00 55 (0) 61 3321-1767 – www.spiritist.org.br – [email protected]