A paz protege:
Cultura de paz, juventudes e docentes
Kelma Socorro Alves Lopes de Matos
Introdução
O registro e a divulgação de experiências exitosas, dando visibilidade a essas
práticas, devem ser multiplicados. É uma forma de reacender a esperança, com o
intuito de que sejam acolhidos e floresçam atos de paz e amorosidade entre as pessoas
(MATOS, 2006a; MATOS, 2006b). Com essa crença realizamos, durante o período de
2007 a 2009 com profissionais graduados, estudantes1 de pedagogia, e da pós-graduação
em Educação Brasileira da Universidade Federal do Ceará, o estudo Cultura de Paz,
Juventudes e Docentes: experiências de escolas, ONGs e Secretarias de Educação
Estadual e Municipal (MATOS, 2007).
Num primeiro momento decidimos estudar experiências positivas, realizadas
em seis escolas públicas de Fortaleza que trabalham com a Cultura de Paz 2. Com o
desenvolvimento da pesquisa, outras instituições foram somando-se ao estudo. Assim,
pesquisamos, em média, vinte escolas públicas, mais duas particulares e uma
comunitária com projetos nessa perspectiva.
Focamos as percepções e vivências de professores, jovens e diretores de escolas.
Realizamos entrevistas com representantes das Secretarias de Educação Estadual e
Municipal (que possuem projetos de capacitação de professores para a promoção da
Cultura de Paz nas escolas), e pessoas das seguintes Organizações Não Governamentais:
Vivendo Valores em Educação (VIVE), Sathya Sai Baba e Centro de Defesa da Vida
Herbert de Souza - CDVHS. Todas essas instituições desenvolvem há mais de dez anos
trabalhos relacionados à temática escolhida. Solicitamos que nos indicassem escolas que
apresentassem experiências positivas ao nosso estudo.
Além
das
reuniões
semanais,
temos
um
e-grupo
([email protected]) onde nos comunicamos diariamente, e
disponibilizamos e arquivamos textos, fotos, informações sobre a temática, assim como
1
Danielle Alves Saraiva; Elisângela Lima do Nascimento, bolsista CNPq (2007 a 2009), Ivanildo Ferreira
Alves; Lívia Maria Duarte de Castro, bolsista CNPq (2007 a 2008) e UFC/Pibic (2008 a 2009); Régia
Costa Farias. Profissionais graduados em pedagogia: Jaceline de Lima Braga; José Edilmar de Sousa;
Luciana Inácio Albuquerque, Cícera Aline Lopes de Sousa, entre outros.
2
Esse foi o principal critério na seleção das instituições de ensino.
2
promovemos mais um espaço para a reflexão coletiva. Realizamos pesquisas
bibliográficas, documentais (jornais das escolas visitadas, projetos pedagógicos), de
campo (entrevistas semi-estruturadas com professores, supervisores, orientadores,
alunos e alunas, coordenadores de programas e projetos pela paz). Analisamos textos da
formação do Programa Vivendo Valores em Educação – VIVE, e cartilha e vídeo
produzidos pelo Movimento Não Violência da Organização Não Governamental (ONG)
Centro de Defesa da Vida Herbert de Sousa – CDVHS.
Paz sem voz não é paz, é medo!
...às vezes eu falo com a vida
às vezes é ela quem diz
qual a paz que eu
não quero conservar
para tentar ser feliz
(Marcelo Yuca)
Há, atualmente, diversas instituições escolares onde os professores realizam
trabalhos em que “razão e sentimentos” são levados em conta (ARANTES, 2007),
incentivando uma convivência pacífica. O cuidado com os alunos, a coesão do grupo, a
vivência na resolução de conflitos através do diálogo são pistas para a construção de
valores positivos. “Integrar o que amamos com o que pensamos é trabalhar, de uma só vez,
razão e sentimentos” (MORENO, 1998, p.15).
É necessário desnaturalizar o conceito de paz. São muitos os que ainda
acreditam que estar em “paz” é “conservar-se passivo”, “sem voz”, diante do mundo
real que, muitas vezes nos assusta, e que, ao mesmo tempo, ajudamos a construir
diariamente. Essa é a “paz” que deriva do conceito de pax romana (JARÈS, 2007),
forjada na dominação e no autoritarismo, inspirada no controle violento do exército
romano. É uma “paz“ em que armas e coação somam-se para obterem o silêncio, um
dos mais graves tipos de violência humana (ARENDT, 1994).
O conceito de paz positiva, com o qual concordamos, está ligado à justiça e à
sustentabilidade, aos direitos humanos e à democracia. A paz é, portanto, “um valor que
está relacionado a todas as dimensões da vida” (JAREZ, 2002, p.131). Esse conceito
não nega os conflitos. Acredita na “... possibilidade de introduzir e de fazer emergir
racionalidade nos processos conflitivos...” (GUIMARÃES, 2006. p 349). Podemos,
então, mudar a forma de lidar com os conflitos, estimulando sua resolução com a prática
do diálogo autêntico, guiado pelo acolhimento, pela amorosidade, pelo respeito ao
diverso.
3
O autêntico diálogo freireano do qual tanto precisamos é aquele que,
ao contrário, se rege pela amorosidade, pelo respeito ao diferente. E
admiração pela diversidade e pela crença na horizontalidade das
relações (...). È uma ação cultural para a humanização (ARAUJO
FREIRE, 2005, p.14).
Respaldamos uma cultura que visa à perfeição e pouco a humanidade (MATOS,
2006a, 2006b). A tradição cartesiana ainda nos influencia quanto a separar e
hierarquizar dimensões humanas (mente-emoção, corpo-espírito), favorecendo umas
(mente, corpo), e “desqualificando” outras (emoção - espírito) (YUS, 2002), quando, na
verdade“, mente, corpo, emoção, espírito”,
estão juntos valorizando a nossa
integralidade, ou seja, o Ser por completo. Alguns dos nossos achados serão pontuados
a seguir.
A vida é tão rara!Experiências de paz em escolas de Fortaleza
O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...
(Lenine)
•
O Programa Vivendo Valores em Educação (VIVE) e as Escolas João
Germano, Paróquia da Paz e João Paulo II
O VIVE3 foi criado em 1996 e aplicado em mais de 80 países pela Organização
da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) Instituto Vivendo Valores. Capacita
professores para que orientem seus alunos sobre a melhor forma de lidar com os
conflitos cotidianos (MATOS, NONATO JUNIOR, 2006; 2009). Possui uma
metodologia própria, e no Brasil, por um período, foi viabilizada pela Organização Não
Governamental Brahma Kumaris. Destacamos duas habilidades presentes nesse
trabalho: a escuta sensível, ouvir com atenção e abertura, e lidar bem com os conflitos,
utilizando o diálogo (TILLMAN, COLOMINA, 2004).
Os professores da Escola Municipal João Germano participaram da formação do
VIVE em 2002, e adotaram a prática de valores nas relações com os seus alunos. Isso
foi reforçado pelo compromisso da gestão escolar. À medida que jovens e crianças
vivenciam esses valores procuram mudar positivamente suas atitudes.
3
Para um maior aprofundamento sobre o VIVE Cf Barros; Nonato Junior – Orgs (2009)
4
Organizaram projetos que possibilitaram conhecimento e vivência dos valores 4
propostos pelo programa: Ecofeira (exposição anual de produtos ecológicos feitos pelos
alunos) que passou a ser Feira de Valores; Banco de valores humanos - BVH (abertura
de conta interna e pessoal, com depósitos cotidianos de valores individuais e resultados
coletivos); Planeta Feliz (escola passou a funcionar em horário integral, em 2003,
trabalhando com Paz, Amor e Respeito); Plano de Ação para o Ethos escolar 2006,
envolvendo toda a comunidade escolar; Escola de Pais – 2008; Eu sou especial - 2007
(fortalecimento da auto-estima dos alunos e o reconhecimento de professores e
funcionários especiais); Escola amorosa (visita a uma escola amorosa imaginária, onde
encontravam sujeitos da escola real: porteiro cuidadoso; professor contente); Balcão da
honestidade (venda de lápis, sem vendedor. O comprador teria de ser honesto e deixar o
pagamento); I, II e III Campanhas do desarmamento infantil (coleta de armas infantis e
troca por revistas e brinquedos; peças teatrais) (UCHOA, 2009).
Nas Escolas de Ensino Fundamental e Médio Paróquia da Paz e João Paulo II,
encontramos educadores também formados pelo Programa Vivendo Valores em
Educação, o que contribuiu para que pudessem obter resultados positivos quanto à
diminuição da violência física e verbal nessas instituições.
A Escola Paróquia da Paz promove, através das aulas de artes, a cultura de paz,
utilizando, como indicação do VIVE, um valor a cada mês. A partir da escolha dos
valores são realizadas atividades lúdicas com os alunos do ensino fundamental. No
ensino médio esses valores são trabalhados também nas disciplinas de sociologia e
filosofia.
A Escola João Paulo II realiza atividades por salas, pois a estrutura física não
oferece espaço adequado para reuniões com todos os alunos, dos diferentes turnos. Os
professores indicaram que a acolhida, antes do início das aulas, é o momento ideal para o
trabalho coletivo com valores. Utilizam, na ocasião, músicas, contos, poesias, buscando
relacionar valores às vivências diárias.
As mudanças de comportamento são mais evidentes em alunos que atuaram
como protagonistas nas atividades para a construção da paz. Um desses jovens afirma
que o fato de ter sido escolhido pela escola, para divulgar valores, fez com que passasse
a conhecer mais o tema, modificando a sua postura.
Antigamente eu era muito danado, ia pra secretária todo
dia [...] Depois que a gente soube o que era paz não
4
Paz, respeito, amor, felicidade, liberdade, honestidade, humildade, tolerância, cooperação,
responsabilidade, simplicidade e união.
5
houve nada disso. Mudou meu jeito de ser, não teve mais
confusão. Toda confusão na escola era eu... (Aluno da
Escola João Paulo II).
•
Programa de Educação em Valores Humanos Sri Sathya Sai Baba (Educare 5) e
a Escola Cícero Nogueira
O Programa Educare atua na Índia desde 1968 com duas escolas e uma
universidade, e no Brasil desde 1993, em diversas instituições educativas, e apresenta
características de laicidade e respeito à diversidade. Baseia-se nas seguintes técnicas:
contação de história, harmonização, citação, canto em grupo. O homem é visto como
um ser total que se manifesta através dos seguintes níveis: físico, mental/emocional,
intelectual, psíquico e espiritual. A cada um desses níveis de consciência corresponde
um valor: verdade, retidão, paz, amor e não-violência.
A Escola Cícero Nogueira, localizada no bairro Barra de Ceará, atua há dois
anos com o Programa de Educação em Valores Humanos Sri Sathya Sai Baba
(Educare). A iniciativa partiu da diretora, que em parceria com uma integrante do
Centro Sri Sathya Sai de Brasília tomou a resolução de oferecer aos alunos e professores
capacitações baseadas na formação do caráter, junto à formação técnico-científica.
Atualmente a escola trabalha com o sistema de ensino integral. Cada sala de aula
adota um dos valores do programa, realizando ações de paz ao lado das disciplinas
curriculares. A iniciativa vem mostrando avanços quanto a um melhor relacionamento
entre os alunos, ao respeito deles com os professores e à direção da escola. É feito um
trabalho também com os pais para que compreendam como a escola está atuando na
perspectiva de mudanças concretas no comportamento e postura de seus filhos.
Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS) e a Escola São Francisco de
Assis
O CDVHS é uma organização não governamental, sem fins lucrativos que
trabalha com a promoção dos direitos humanos desde 1994. Destacamos o projeto clube
da paz, realizado em 2006 por essa instituição, em parceria com a Secretaria Especial
dos Direitos Humanos. Esse projeto oferece curso de multiplicadores para alunos de
escolas publicas que desejam realizar ações, como monitores, em favor da paz. Através
dessa capacitação com os jovens, um dos resultados foi a produção, em parceria, com o
5
Há ainda a Escola Clodomir Teófilo Girão que adota esse programa, localizada no bairro Eusébio, por
nós pesquisada, que será apresentada em trabalhos futuros.
6
movimento não-violência, de cartilha e vídeo intitulados, “Idéias e atitudes de paz”
que apresentam as juventudes como força transformadora em favor da paz nas escolas
(MATOS, CASTRO, NASCIMENTO, 2008; SARAIVA, NASCIMENTO, MATOS,
CASTRO, FARIAS, 2008; MATOS, 2003)
A Escola São Francisco de Assis, localizada no Bairro Bom Jardim, atua há doze
anos na promoção da cultura de paz, com jovens alunos voluntários que participaram da
capacitação acima citada, e ofereceram depoimentos de que essa experiência foi muito
importante para a sua formação. Em entrevistas, dois jovens, esclareceram que os
motivos que os levaram a optar pela paz se devem ao histórico de violência na escola e
principalmente na comunidade local. Assim, organizaram atividades que também
sensibilizassem a comunidade como feiras culturais em favor da paz, estimulando o
respeito entre os membros da comunidade e a escola, visando diminuir praticas de
intolerância na instituição escolar e no seu entorno.
Destacamos projetos que estimulam o respeito entre alunos e professores “Sou
do bem, quero paz” e “Amor à Vida”. Outro que merece destaque é “Entre para nossa
turma: vamos abraçar a nossa escola”, que contribui para a reflexão sobre o senso de
limpeza, saúde, autodisciplina, ordenação e utilização adequada de materiais,
contribuindo para um ambiente escolar agradável, envolvendo aspectos físicos e
comportamentais. Nas feiras culturais são apresentadas produções de alunos que trazem
aprendizados sobre a paz e a tolerância.
Outras experiências de paz
È importante fazer o registro sobre o Programa Nacional “Paz nas Escolas”,
criado em 2000 pelo Governo Federal (Secretaria Especial dos Direitos Humanos) que
também capacita professores, através de materiais que abordam assuntos como ética e
direitos humanos. Uma das ações significativas desse programa tem sido o projeto
Escola Aberta - nos finais de semana.
Há, em muitas instituições escolares, um trabalho sendo realizado na perspectiva
da construção de valores positivos, através de ações simples. Prado, na Revista Nova
Escola (1999) apresentou diversas experiências de instituições escolares que optaram
pela paz, cada uma ao seu modo, como O Centro Integrado de Ensino Público (Ciep)
Mestre Cartola, no Rio de Janeiro, que realizou um trabalho de recuperação da autoestima, em que os educadores, cotidianamente, incentivaram a convivência pacífica.
7
Destacou, ainda, o caso da Escola Estadual Professor Renato Arruda, em São Paulo, que
teve uma jovem aluna assassinada no pátio do colégio. A depredação do local também
mostrava que a violência se fazia presente. A escola passou a ser aberta à participação
comunitária e obteve bons resultados. Na Bahia, jovens alunos da Escola Estadual Padre
Palmeira, ao assistirem a peça “Cuida Bem de Mim” (1998) voltaram para a sua escola
e realizaram um mutirão: ajeitaram carteiras, pintaram paredes, substituíram as
pichações por grafitagem. Resolveram expressar carinho pelo local onde estudam.
Ressaltamos, ainda, a experiência da Escola Parque 210/211 Norte, em
Brasília, que passou a trabalhar com o Reiki (terapia complementar) com os jovens
alunos. Como resultados principais, salientamos que o projeto foi aprovado pela
Secretaria de Educação do Distrito Federal; na escola existe uma sala equipada para
atender a demanda dos alunos e também da comunidade local, há registros de várias
experiências exitosas, indicando mudança de comportamento e melhor aproveitamento
em sala de aula, após as aplicações de reiki (MATOS, 2006a). Seria, então, essencial
investirmos na divulgação de experiências como essas, que tem acontecido em muitas
escolas por todo o Brasil.
É como a luz do sol sendo a luz da gente. É como a luz da gente sendo a luz do dia!
Freire (1996)6 afirma a necessidade de se vivenciar a corporeidade do
exemplo, onde as palavras significam a sincronia entre agir e pensar. Por isso também o
educador que atua com valores deve repensar sua compreensão sobre essa proposta,
além de vivenciá-la integralmente.
As formações oferecidas, por diversas instituições, auxiliam a prática
pedagógica no sentido de propiciar um maior esclarecimento sobre a cultura de paz e a
vivência de valores. O acompanhamento contínuo dos projetos estimula o respeito e a
tomada de decisões acertadas entre a escola e a comunidade, e consolida a paz ativa
nesse lócus.
O aprendizado de estabelecer conexões consigo e com os demais faz com que o
educador transforme-se num guia para os jovens alunos. Passa então a ser uma pessoa
seminal, ou seja, funciona como semente que alimenta o mergulho em si mesmo, o que
faz com que possamos nos sentir parte do todo (BOFF, 2006).
O trabalho com valores e conteúdos de natureza afetiva faz parte do aprendizado
escolar. A afetividade, a amorosidade e a paz podem ser aprendidas e cultivadas, como
6
Para maior aprofundamento cf. Pedagogia da Autonomia (FREIRE, 1996)
8
se aprendem outros conteúdos. O trabalho com Cultura de Paz precisa ser
permanentemente
fortalecido
nas
instituições
em
geral,
e,
particularmente, nas escolas publicas.
Referências
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Download

MATOS, Kelma. A Paz Protege (115368)