XXII CONFAEB Arte/Educação: Corpos em Trânsito
29 de outubro à 02 de novembro de 2012
Instituto de Artes / Universidade Estadual Paulista
ESCOLAS PARQUE DE BRASÍLIA: RESGATE DE UMA UTOPIA
Ana Maria Pinto de Lemos
Grupo Arteduca/MidiaLab/Universidade de Brasília
[email protected]
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4794419D8
Max Jucá Kokay
Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal
[email protected]
Sheila Maria Conde Rocha Campello
Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal/Grupo Arteduca/MidiaLab/Universidade
de Brasília
[email protected]
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4736832D1
RESUMO
Este artigo apresenta uma síntese de projetos de pesquisa a serem desenvolvidos em Escolas
Parque de Brasília, com o objetivo de resgatar a memória de sua proposta educativa, tentando
contribuir para o surgimento de um debate a respeito das possibilidades de atualização de sua
proposta pedagógica, mantendo a coerência com seu ideário. A metodologia aplicada ao
projeto baseia-se nas ações previstas na Abordagem Triangular, em diálogo com outras
abordagens metodológicas direcionadas à interpretação de imagens e com a educação
patrimonial.
Palavras-chave: Escola Parque; Arte/educação; Educação Patrimonial
ABSTRACT
This article presents a synthesis of research projects to be developed in Escolas Parque of
Brasilia, with the aim of rescuing the memory of its educational proposal, trying to contribute to
the emergence of a debate about the possibilities of updating the proposal, maintaining
coherency with its ideas. The methodology applied to the project based on the actions
contemplated in Triangular Approach, in conversation with other methodological approaches
directed to image interpretation and patrimonial education.
Keys words: Escola Parque; Art / education; Patrimonial Education
Escolas Parque de Brasília: uma pitada de história
O projeto das Escolas Parque integrou a utopia educativa planejada para ser
implantada no contexto da proposta modernista da nova capital brasileira que, no final
dos anos 50, estava sendo erigida por Juscelino Kubistchek. Nada mais apropriado
para viabilizar a renovação escolar que se pretendia, do que implantá-la no contexto de
mudanças proposto para a cidade-laboratório em construção no Planalto Central.
Concebidas por Anísio Teixeira como modelo para promover a educação
integral, pela inserção da arte e de atividades físicas na educação, essas escolas
tomavam por base a proposta pedagógica adotada no Centro Carneiro Ribeiro,
popularmente conhecido como Escola Parque da Bahia, que havia sido criado em 1950
pelo próprio Anísio. Essa proposta metodológica inovadora integrava o Plano de
Construção Escolar por ele concebido, inspirado no pensamento filosófico de John
Dewey, nas concepções metodológicas das Escolinhas de Arte (lideradas por Augusto
Rodrigues) e no ideário do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova.
O plano educacional e o projeto arquitetônico da cidade se harmonizavam,
buscando promover a integração plena do educando em sua vida em sociedade,
construída em bases democráticas, distribuída em unidades de vizinhança dotadas de
recursos para atender às necessidades da comunidade que abrigava. As superquadras
integrar-se-iam, de quatro em quatro, atendidas por quadro Escolas Classe e por uma
Escola Parque1, na qual eram desenvolvidas atividades físicas, manuais e intelectuais
voltadas ao desenvolvimento integral do aluno.
A Escola Parque representaria a referência cultural unidade de vizinhança. Nela
os alunos deveriam permanecer durante metade da carga horária de oito horas diárias
previstas para a educação integral. À medida que a cidade fosse sendo construída,
novas unidades de vizinhança completas, com todos os recursos previstos no programa
urbanístico seriam, também, erigidas e, nesse conjunto de escolas, se forjaria a nova
sociedade democrática pretendida.
Mas, esse ideal de ensino não prosperou. Por razões de natureza econômica e
política, que não nos cabe aprofundar neste momento, o plano foi sendo desvirtuado.
Novas superquadras foram sendo construídas sem serem dotadas de todos os recursos
e serviços previstos no projeto original. Apesar do aumento do numero de estudantes, a
construção de novas Escolas Parque não se concretizou. Outra distorção logo se fez
presente: os operários que construíram a nova capital, os candangos, foram sendo
1
As quatro Escolas Classe atendidas pela Escola Parque compõem as escolas tributárias do conjunto.
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deixados à margem do projeto urbanístico, representando um grave desvio dos
objetivos do plano de educação democrática.
Essa nova conjuntura ocasionou a diminuição da carga horária das aulas de arte
e a proposta de integração da educação à vida cultural da cidade, missão dada às
Escolas Parque, foi sendo esquecida. Paulatinamente o tempo de permanência dos
estudantes nessas escolas foi sendo diminuído. Das quatro horas iniciais, reduziu-se,
em 1962, para duas horas, abrindo espaço para a incorporação, por parte da Escola
Parque, de mais uma escola tributária. A segunda alteração, proposta para “solucionar”
o problema da falta de vagas, previa o atendimento dos estudantes em dias alternados
e, por fim, abriu-se mão completamente da proposta original, reduzindo-se o total de 28
unidades projetadas para as 5 que ainda persistem, funcionando de forma totalmente
diversa do que previa Anísio Teixeira e as novas Escolas Classe deixaram de ser
vinculadas a uma Escola Parque. Se nos anos iniciais de Brasília a Escola Parque
representou um papel de destaque para a cidade, hoje ela perdeu sua aura de centro
cultural de uma sociedade que se pretendia democrática.
Diagnóstico resultante de observações informais no contexto dessas escolas
conduziu-nos à formulação de algumas hipóteses: os estudantes pouco sabem sobre a
história das Escolas Parque em que estudam e não se sentem pertencentes a esse
espaço. Perderam sua identidade com a escola, ou talvez ela jamais tenha existido.
Esse distanciamento traz como conseqüência a desvalorização do papel da arte no
cotidiano escolar e na vida dos estudantes. O ideário da Escola Parque está sendo
esquecido e com ele está sendo perdido seu sentido de existir. Não é incomum
perceber, na própria rede pública de Brasília, um discurso que denota um sentimento
negativo em relação a essas escolas, vistas como um espaço de privilégios concedido a
poucos estudantes e professores. Tal diagnóstico reforçou algumas inquietações que
nos levam às seguintes indagações: qual será o destino das Escolas Parque
existentes? Existe a possibilidade de desativação dessas escolas, para transformá-las
em escolas de ensino regular, visando suprir carências que sabemos existir? Qual será
o destino desse projeto educacional? Alguns já se encarregaram de salvaguardar o
patrimônio material a ele vinculado, cuidando do tombamento do conjunto arquitetônico
da primeira escola. E quanto a esse patrimônio imaterial, representado pela proposta
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educacional de Anísio Teixeira? Ele corre o risco de ser definitivamente esquecido, sem
que tenha sido devidamente conhecido pelos próprios estudantes e pela sociedade em
geral?
Como contribuir para o debate sobre o assunto e, por meio dele, analisar as
possibilidades de atualização da proposta, considerando seu ideário face ao presente
contexto sócio-histórico? Com esse objetivo foram propostos estudos sobre o tema na
última edição do curso Arteduca: Arte, Educação e Tecnologias Contemporâneas2,
oferecido a distância pelo Grupo Arteduca, da Universidade de Brasília. Como resultado
dessa iniciativa foram desenvolvidos dois projetos de pesquisa para serem implantados
no contexto de duas Escolas Parque: a da SQN 210/211 e a da SQS 307/308.
É importante apresentar o perfil das duas equipes que desenvolveram esses
projetos, atribuindo aos seus integrantes os devidos créditos, considerando suas
contribuições para fundamentar o desenvolvimento do projeto-piloto, cujas bases são
apresentadas neste artigo. Participaram da equipe que atuou na Escola Parque
307/308 Sul: Ana Maria Pinto de Lemos, Juliana Hilário de Sousa e Mariana Rausch
Chuquer, vinculadas ao Grupo Arteduca e ao MidiaLab; Joana Luiza Lara Penna, tutora
em cursos a distancia da Universidade Federal de Goiás; José Rosário Gonçalves e
Leonardo Pedro Borges, professores nas redes privada e pública do DF,
respectivamente. Atuaram na Escola Parque da SQN 210/211: Adriane Martins Pereira
Lima, autora de livros infantis em Ipatinga, MG; Malena Macedo Nobre, professora no
Colégio Militar D. Pedro II, no DF e, Denise Soares dos Santos, Max Jucá Kokay e
Solange Ries, professores na rede pública do DF.
Como conseqüência natural desse processo, foi formado um grupo, composto
por alguns desses participantes, para dar corpo às intenções do Grupo Arteduca, de
empreender ações para alcançar os objetivos propostos, resumidos da seguinte forma:
pretende-se propor um projeto-piloto, a ser aplicado na Escola Parque 210/2111 Norte,
visando resgatar a memória dessa utopia educativa, considerando suas características
e seu ideário, bem como o contexto cultural, histórico e geográfico que as envolveu,
2
O Grupo Arteduca é um grupo de pesquisa sobre arte/educação em rede, vinculado ao Laboratório de Pesquisa em
Arte Computacional (MidiaLab), do Instituto de Artes da Universidade de Brasília. O curso é oferecido a distância pelo
Programa de Pós-graduação em Arte da Universidade de Brasília, por meio de uma proposta de aprendizagem
colaborativa, desenvolvida nem ambiente virtual de aprendizagem. Sobre o assunto, ver www.arteduca.unb.br.
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desde sua criação, buscando verificar a viabilidade da atualização da proposta para o
momento presente. Objetiva-se, ainda, contribuir para o levantamento e preservação de
conteúdos significativos, criando um repositório na Internet, um blog que poderá se
desdobrar na criação de um portal direcionado ao acolhimento de informações,
contribuindo para o aprofundamento de reflexões a respeito do tema, por meio de
recursos de interação em tempo real e por meio de fóruns de debates. As estratégias
de desenvolvimento desse projeto-piloto baseiam-se nas propostas desenvolvidas pela
equipe desta escola, enriquecida por contribuições relacionadas com o estudo da
unidade de vizinhança e a criação do portal, por parte de integrantes da equipe da
Escola Parque 308 Sul, que atuam junto ao Grupo Arteduca, na UnB.
Como previsto no primeiro projeto mencionado, a aplicação da proposta deverá
estruturar-se em uma série de ações metodológicas desenvolvida por uma equipe
multidisciplinar que envolve professores de Artes Visuais, Música, Teatro, lotados
naquela escola, buscando uma aproximação futura com os professores de Educação
Física e com o corpo docente das escolas tributárias. Sendo assim, tornou-se
necessário
buscar
referenciais
significativos
sobre
os
conceitos
de
inter/transdisciplinaridade e sobre a arte/educação, considerando tais linguagens
artísticas. Por se tratar de uma pesquisa que envolve uma proposta educacional
planejada para ser implantada em uma cidade considerada como um bem cultural da
humanidade, julgou-se pertinente considerar princípios da educação patrimonial,
apresentados por Horta, Grunberg e Monteiro (1999): observação, registro, exploração
e apropriação, detalhados oportunamente.
Foram, ainda, buscados referenciais definidos conforme os seguintes campos e
temas da pesquisa: Anísio Teixeira e o projeto das Escolas Parque; as relações entre
utopia educativa e o plano urbanístico da Nova Capital; abordagens teóricas
relacionadas com arte/educação; interdisciplinaridade e transdisciplinaridade e, o uso
das tecnologias digitais na pesquisa e na criação do portal que abrigará o projeto.
Não cabe neste momento detalhar todos esses temas. Apresentaremos, de
forma bem resumida, alguns dados referentes aos dois primeiros, deixando os dois
últimos para outra oportunidade. O primeiro deles foi apresentado, ainda que
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superficialmente na contextualização histórica introdutória. Complementaremos o
assunto abordando as relações da utopia educativa de Anísio Teixeira com os planos
arquitetônico e urbanístico, propostos por Oscar Niemeyer e Lucio Costa, buscando nas
unidades de vizinhança os fundamentos da proposta.
Nas idéias do inglês Ebenezer Howard (1850-1928), considerado precursor do
urbanismo, encontramos
as primeiras descrições de uma cidade utópica, onde as
pessoas e a natureza conviviam de forma harmônica. Sua publicação, intitulada Garden
Cities of Tomorrow, de 1898, deu início a um movimento chamado cidades-jardins, cujo
modelo consistia em uma comunidade autônoma, cercada por um cinturão verde, em
que o princípio fundamental estaria muito próximo ao conceito atual de ecocidade, onde
as pessoas aproveitariam as vantagens do campo, sem ter que passar pelas
desvantagens da cidade grande. Sob a influência desse movimento, Clarence Arthur
Perry (1872-1944), arquiteto e urbanista americano, apresentou pela primeira vez o
conceito de unidade de vizinhança, em 1923, postulando que os equipamentos urbanos
deveriam ser dispostos de tal forma que as projeções habitacionais não fossem
interrompidas por autovias, mas, sim, tangenciadas, permitindo a preservação da vida
comunitária e a proteção e segurança das crianças. Assim, as crianças poderiam ir e vir
da escola sozinhas, sem se cansar. A escola primária é considerada o equipamento
básico principal e orientador para a construção de uma unidade de vizinhança, que traz
no foco social a base do seu conceito (FERRARI, 1991, p. 301). Eis aí a origem das
unidades de vizinhança presentes na concepção de Brasília.
Em entrevista recente, no programa Casa Brasileira, transmitido pelo canal GNT,
o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, comentando sobre o trabalho de Lúcio Costa,
narra que, quando perguntado sobre o porquê de ter adotado os seis andares como
gabarito para os prédios residenciais do Plano Piloto, em Brasília, respondia este seria
o limite possível para que a mãe pudesse se comunicar com seu filho, pela janela,
quando necessário. Esta imagem pode representar perfeitamente os fundamentos do
conceito de unidade vizinhança que se aplica à concepção do projeto urbanístico do
Plano Piloto de Brasília. Tal conceito transparece na composição das primeiras
superquadras residenciais – SQS 107 e 108 – cuja construção foi iniciada em 1959, sob
o comando de Oscar Niemeyer, dotada dos seguintes equipamentos previstos no
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projeto urbanístico de Lucio Costa: escola, igreja, comércio, piscina (clube) e cinema.
Com base nesse modelo pretendia-se provocar um estilo próprio de vida na capital
federal que se estenderia a todo o plano piloto, onde seus moradores encontrariam,
dentro daquele perímetro, tudo que o fosse necessário para o seu dia-a-dia. Os prédios,
construídos sobre pilotis, permitiriam a democratização do espaço, facilitando a
circulação das pessoas e a convivência dos moradores nesses espaços comuns.
O plano arquitetônico de Lucio Costa fazia crer que a cidade reunia condições
ideais para a implantação de um sistema integrado de educação. O projeto de
educação pública concebido para Brasília foi o primeiro a se ocupar de uma distribuição
espacial democrática dos centros escolares. Assim, as escolas primárias seriam
edificadas no interior das quadras, de modo que as crianças não precisassem se
deslocar por longos trajetos para alcançá-las. Anísio Teixeira convenceu Lucio Costa a
destinar o espaço que era previsto para a construção de escolas secundárias, para a
criação das escolas parque, que seriam como “universidades infantis”. A estrutura da
cidade compreendia uma sequência de grandes quadras, densamente arborizadas, as
superquadras, nas quais seriam edificados os blocos residenciais dispostos de maneira
variada. O tráfego de veículos e trânsito de pedestres não se entrecruzariam,
garantindo especial atenção ao acesso seguro à escola primária. As escolas parque
ficariam nas entrequadras, ao centro da unidade de vizinhança.
Em consonância com essa concepção urbanística, a proposta de Anísio Teixeira
descrevia especificações relativas às construções das escolas, detalhando suas
características físicas. A escola não se limitaria ao ensino primário, mas se referiria a
diferentes níveis de escolarização, desde o elementar ao superior seguindo uma
continuidade. O ideal para a escola seria manter a educação caminhando junto a
sociedade, acompanhando as mudanças que estavam ocorrendo graças ao acelerado
desenvolvimento científico e tecnológico, formando um novo homem de acordo com a
vida moderna. Anísio acreditava que as necessidades da civilização implicavam em
obrigações à escola, aumentando suas atribuições para atender as necessidades
específicas de ensino e de educação e também ao convívio social.
O primeiro conjunto de superquadras, projetado e executado, é o único que
seguiu o projeto original da nova capital. Ainda assim, percebe-se que não conseguiu
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se manter dentro da utopia de seus idealizadores quando nos deparamos com a
realidade que hoje se apresenta na vida cotidiana da cidade e, em especial, da
população que habita essa unidade de vizinhança modelo. No percurso natural de
desenvolvimento da cidade a utopia foi sendo gradativamente substituída pela realidade
cotidiana.
Novas condições conjunturais e estruturais de ordem política,
administrativa e social, levaram à gradual descaracterização do plano de
educação elaborado por Anísio Teixeira. Dentre os fatores que
desencadearam essas alterações, podemos citar: a situação política
entre os anos de 1961 e 1964; a explosão demográfica de Brasília,
causando descompasso entre a implementação do plano e as demandas
educacionais; a paralisação das obras públicas durante o governo de
Jânio Quadros [sob] alegação do alto custo do empreendimento
(construção de novas unidades); redução da jornada de trabalho dos
docentes para seis horas; a redução do período de permanência diária
dos alunos na instituição para duas horas; carência de docentes para o
ensino primário, em decorrência da desmotivação de possíveis
candidatos à transferência para Brasília; falta de prédios escolares; [...]
greve e demissões de docentes; perseguição ideológica; crise política e
instauração da ditadura militar. (KOKAY et al, 2011, p. 25)
O aumento da densidade demográfica, acarretando aumento da frota de
veículos, descaracterizou o cotidiano das unidades de vizinhança e de toda a cidade.
Para completar o quadro, os condomínios de moradores das superquadras passaram a
limitar o acesso aos pilotis dos blocos, criando “jardins” cercados, obstruindo a livre
circulação de pedestres. As Escolas Classe e a Escola Parque passaram a ser
frequentadas, em sua maioria, por crianças que residiam fora da unidade de vizinhança,
visto que seus antigos moradores envelheceram e os novos, com maior poder
aquisitivo, preferiram matricular seus filhos em escolas particulares.
Kokay et al (2012) concluem que, apesar de terem sofrido descaracterizações e
adaptações, as Escolas Parque de Brasília continuam representando possibilidades de
viabilização da educação integral e integradora, por meio da formação artística e de
expressão corporal em prol da democratização do ensino na rede pública. Acreditamos
que estes são alguns dos ecos dessa utopia pedagógica que pretendemos perseguir.
Para tanto deveremos apurar nossos sentidos deixando que esses ecos de um
patrimônio, ainda vivo, nos afete.
Tais ecos também podem ser percebidos no contexto cultural, na narrativa de
representantes das gerações que aqui cresceram. É recorrente, por exemplo, ouvir
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relatos por parte dos contemporâneos da “geração do rock”, a respeito da condição
agregadora proporcionada pelo projeto urbanístico das superquadras, que permitia uma
rica convivência entre jovens amigos. Nos pilotis dos blocos do Plano Piloto, crianças
brincavam e jovens se reuniam para tocar violão, formar bandas, ou apenas para
conversar. Hoje, roqueiros ou não, atribuem isso ao espaço público criado pelos seus
projetistas e idealizadores. Isso vem comprovar que a unidade de vizinhança, mesmo
não tendo sido repetida da forma original, como nesse conjunto de superquadras aqui
citado, possibilita, sim, uma convivência mais humana, com uma melhor qualidade de
vida para os seus moradores.
Na relação entre presente e passado, podemos perceber o quanto o resgate da
memória se torna importante para a construção de uma educação mais sólida e de uma
sociedade cidadã. Apresentaremos a seguir algumas informações sobre as abordagens
metodológicas previstas no projeto da equipe da Escola Parque 210 Norte, que serão
incorporadas ao projeto-piloto.
O processo, relatado no referido projeto (Kokay et al, 2012) será iniciado por
meio da realização de pesquisas na Internet, baseadas em palavras-chave, que
deverão conduzir os estudantes a novos conceitos, proporcionando condições para que
eles se percebam como co-autores na construção deste projeto. Durante o exercício
investigativo eles serão estimulados o compartilhamento de descobertas, valorizando a
colaboração e o companheirismo entre os alunos. Em um segundo momento as
pesquisas exploratórias iniciais serão complementadas na biblioteca da escola, com o
objetivo de aprofundar estudos sobre o tema e de incentivar a realização de
investigação em diferentes tipos de mídia, valorizando, também, a leitura de livros.
Nesse processo serão consideradas ações previstas na educação patrimonial. Tais
ações envolvem pesquisas etnográficas, baseadas em métodos que incluem a
observação participante, a realização de entrevistas abertas, o registro e a exploração
de dados e a apropriação de resultados obtidos, para fundamentar análises de
possibilidades metodológicas. Serão incentivados os estudos interdisciplinares, ou
transdisciplinares, envolvendo a arte/educação, por meio da Abordagem Triangular,
sistematizada por Ana Mae Barbosa, que propõe estudos baseados em ações de
contextualização, leitura imagética e do fazer artístico. Visando fundamentar tais ações,
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serão buscados subsídios em textos de Terezinha Losada, que apresenta uma
interessante síntese de vários métodos relacionados com a compreensão da História da
Arte, baseados na interpretação de características e tendências percebidas nas obras.
Em conformidade com esse pensamento inter/transdisciplinar, um site criado na
escola pode ser explorado conjuntamente por várias disciplinas, para disponibilização
de conteúdos e interação entre os participantes, demonstrando que o conhecimento
não é fragmentado, mas sim passível de conexão.
A metodologia proposta por Denise Soares, que integra o grupo da Escola
Parque 210 Norte, para ser aplicada aos estudos relacionados com a música
fundamentar-se-á no modelo TECLA, proposto pelo músico e educador inglês Keith
Swanwick, e envolvem técnica, execução, composição, literatura e apreciação. Serão
propostas, também, atividades relativas à sonorização de imagens serão baseadas na
Paisagem Sonora de Murray Schefer,
que surge para construir o universo sonoro das ilustrações resultantes das
experiências e dos conhecimentos adquiridos, numa integração entre as artes
por meio da utilização das tecnologias na produção de sons, na captura de
imagens e na fusão de ambas. (Kokay et al, 2012)
Ao final desta etapa inicial da pesquisa os alunos deverão compreender as
origens do projeto das Escolas Parque, percebendo que ele é anterior à existência de
Brasília, descobrindo quem foi o autor da proposta e conhecendo as influências que ele
sofreu, após realizar estudos no exterior. Três recortes de tempo definirão a
continuidade da investigação, nas etapas subsequentes. São eles: recorte 1 - o cenário
cultural brasileiro no período da construção de Brasília e da primeira Escola Parque;
recorte 2 – do período em que foi criada a escola em que eles estudam, a Escola
Parque 210 Norte; recorte 3 – o momento atual das Escolas Parque de Brasília.
No recorte 1, serão propostas atividades relativas ao cenário cultural do Brasil do
período da construção de Brasília e da primeira Escola Parque inaugurada, em 1960,
na 308 Sul. Será abordada a história da cidade e da escola, considerando artes
plásticas, teatro, cinema, música, moda e comportamento. As imagens coletadas e
produzidas ao longo dessa pesquisa serão objeto de análise e comparações, baseadas
na Abordagem Triangular, nos passos do Image Watching e em outras abordagens
interpretativas da produção artística. Para finalização das atividades referentes ao
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primeiro recorte será realizado um evento intitulado “Festival Bossa Nova”, dedicado à
audição de músicas e a apresentação dos trabalhos referentes ao recorte temporal,
relacionando-o com o contexto histórico analisado.
No recorte 2, relativo ao período em que foi criada a Escola Parque 210 Norte,
serão realizadas pesquisas a respeito da transição do cenário em que foi implantada a
primeira Escola Parque, abordando o período da ditadura militar, citando os “anos de
chumbo”, a rebeldia e a repressão dos anos 70, mencionando até chegar ao período da
inauguração da escola, ocorrido na década de 80. Será analisado esse contexto
cultural, mencionando o processo de redemocratização que resultou na redação e a
promulgação da nova Constituição Brasileira. Esse enfoque foi considerado necessário
para que os estudantes possam compreender os motivos que levaram à interrupção do
processo de implantação do programa educacional, abortando um projeto previsto para
servir de modelo para todo o Brasil. Está prevista uma visita ao Congresso Nacional,
onde manterão contato com a realidade da política brasileira, de ontem e hoje. No
campo cultural, pretende-se ressaltar a condição atribuída a Brasília como a Capital do
Rock, propondo atividades como: a audição e interpretação de músicas das bandas da
cidade; a experimentação de instrumentos eletrônicos, explorando as batidas do rock; a
produção de ilustrações, histórias em quadrinhos e cartazes; a experimentação cênica
(caracterização, postura, dança), culminando com a realização de um “Festival de
Rock”. (KOKAY, 2012, pp. 47-48)
No recorte 3, referente ao momento atual, está prevista a realização de uma
“caminhada patrimonial” pela Escola Parque 210 norte e arredores, observando,
registrando e explorando impressões, por meio da produção de textos, desenhos e
fotografias. Dessa forma poderão identificar as diferenças entre esta e a Escola Parque
308 sul, comparando suas características e as de suas respectivas unidades de
vizinhança.
A equipe propõe o uso do material resultante das pesquisas na elaboração de
roteiros e criação de histórias em quadrinhos e animações, que poderão ser produzidas
por meio do uso de programas computacionais. Nelas, os estudantes poderiam
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apresentar a “Escola Parque dos seus sonhos”, planejada com base nos
conhecimentos adquiridos no processo.
Como encerramento do projeto, propõe-se a realização do “Festival Escola
Parque: patrimônio vivo”, quando serão realizadas exposições, instalações e
apresentações artísticas contemplando a produção resultante dos três recortes
temporais. Nessa mesma etapa pretendemos lançar o portal do projeto, divulgando-o
como um canal aberto para a comunicação com a comunidade. (KOKAY, 2012, p. 48).
É importante frisar que todo esse planejamento será detalhado e ajustado,
conforme avaliações processuais realizadas.
Como desdobramento, o grupo lembra que será importante contar com novos
parceiros, ao final do desenvolvimento do projeto-piloto, abrindo possibilidade de
adesão de professores das escolas tributárias em nova experiência a ser desenvolvida
nos semestres subseqüentes. Tal adesão poderia viabilizar a promoção da
interdisciplinaridade pretendida, por meio de contribuições em ações que envolvam
suas respectivas áreas de conhecimento.
REFERÊNCIAS
FERRARI, Celson. Planejamento municipal integrado. 7. Ed. São Paulo: Pioneira, 1991.
HORTA, Maria de Lourdes Parreiras; GRUNBERG, Evelina; MONTEIRO, Adriane
Queiroz. Guia Básico de Educação Patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional, Museu Imperial, 1999.
KOKAY, Max Jucá et al. Escola Parque: patrimônio vivo. Brasília: Trabalho de
Conclusão de Curso – Grupo Arteduca/Universidade de Brasília, 2012.
LEMOS, Ana et al. Escola Parque de Brasília: resgate de memórias para a construção
de uma nova unidade de vizinhança. Brasília: Trabalho de Conclusão de Curso – Grupo
Arteduca/Universidade de Brasília, 2012
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MOREIRA, Terezinha Maria Losada. A interpretação da imagem: subsídios para o
ensino da arte. Rio de Janeiro: Mauad X: FAPERJ, 2011.
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