Perfil Empresarial
Texto: Lucas Rizzi
dustrializada, montada em apenas 35 dias. Os pilares, painéis e pisos já vieram prontos de fábrica. Contudo, vários
edifícios comerciais começaram a ser construídos ao redor. “Eram obras fundas, com quatro pavimentos de subsolo, encostadas na minha parede, com tudo balançando no escritório, dando trincas, coisas caindo em cima.
Não tinha mais como ficar.”
Então em 2010 ele saiu. Vendeu o terreno para uma construtora e comprou outros dois ali perto. O plano era remontar a estrutura metálica em um deles e, enquanto isso,
ocupar o outro, onde funcionava o escritório de um velho
amigo, e que depois foi adaptado às suas necessidades.
Com o que Zanettini não contava era que a prefeitura iria
barrar a reconstrução alegando que não haveria recuos
suficientes nas laterais da edificação.
O papa do aço
Pioneiro no uso de estruturas metálicas na arquitetura, Siegbert
Zanettini tem uma vida marcada pela inovação e pela sustentabilidade.
O arquiteto Siegbert Zanettini entra na sala de reuniões
de seu escritório situado em um bairro nobre de São Paulo
esbanjando simpatia. E não é à toa. Com as paredes e a
mesa repletas de prêmios nacionais e internacionais, apontando para uma trajetória extremamente bem-sucedida,
o sorriso vem fácil. Não que atingir tamanho grau de reconhecimento tenha sido simples. São mais de 50 anos de dedicação profissional e aproximadamente 1,2 mil projetos,
que vão de casas de campo até a ampliação do Centro
de Pesquisas da Petrobras (Cenpes). E Zanettini não esconde o orgulho ao falar de sua obra. “A inovação é uma marca muito forte na minha vida. Meus projetos sempre tiveram qualidade, durabilidade e economia”, diz.
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São nove horas, e embora o sol brilhe impiedosamente lá
fora, em nenhum momento daquela manhã quente o calor se faz sentir naquele espaço completamente livre do
barulho e da atmosfera ressecada criada pelos aparelhos
de ar-condicionado. Cercado por um exuberante jardim e
repleto de amplas janelas de vidro que propiciam a entrada
de luz e a ventilação natural, o escritório do arquiteto é uma
espécie de síntese do seu trabalho. Apenas um elemento
característico de sua carreira não está tão presente como
ele gostaria: as estruturas metálicas.
Mas não é culpa sua. A antiga sede da empresa ficava em
uma rua próxima, em uma construção de aço totalmente in-
Foto: Yghor Beviahn
Não poder refazer uma obra que era o símbolo da sua ligação com o aço talvez seja uma das maiores frustrações
de sua carreira. Mas ainda assim é pouco perto daquilo
que conquistou na sua trajetória profissional, uma história
que começou quando ainda era um estudante do colégio Dante Alighieri. Um professor de artes o viu desenhando um prédio sobre pilotis dentro de uma piscina em forma
de ameba e, encantado, sentenciou: “Você vai ser arquiteto.” Depois disso, o interesse do aluno pela profissão só
cresceu, e alguns anos depois ele entrou na Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo
(FAU-USP) com a quarta melhor nota.
Filho de marceneiro e morador da zona Leste da capital paulista, Zanettini se sentiu um peixe fora d’água naquele ambiente de gente culta e letrada. Mas isso não
o intimidou. Estudando, se aplicando, vendo como os
colegas faziam, o então universitário criou no segundo
ano de curso uma casa que foi considerada o melhor
trabalho da turma.
Mas não foi apenas nisso que Zanettini inovou. Ele também
foi um dos primeiros a adotar a sustentabilidade nos seus
trabalhos, ainda na década de 1970, quando tal conceito ainda estava longe de atingir a relevância de hoje. Um
exemplo que combina os dois traços mais marcantes da
sua trajetória é a unidade da Escola Panamericana de Artes na Rua Groenlândia, em São Paulo. O edifício metálico
foi erguido em um terreno com 196 árvores. Apenas uma
foi derrubada. O arquiteto se aproveitou do vazio entre
elas para levantar o prédio.
No entanto, seu projeto mais completo, segundo ele próprio,
é o Centro de Pesquisas da Petrobras, inaugurado em 2010
na Ilha do Fundão (RJ). Selecionado por concurso público
e contratado por notório saber, seu escritório não apenas
cuidou do design do novo Cenpes, mas também gerenciou toda a obra, sendo o responsável por subcontratar as
30 companhias que atuaram no empreendimento e seus 248
profissionais. Não havia papel que saísse para a estatal sem o
seu consentimento.
“Foi uma época brava, em que trabalhamos dia e noite,
sábados, domingos e feriados”, conta. A área do Cenpes
foi ampliada de 150 mil m² para 305 mil m², e a expansão
consumiu mais de 6 mil toneladas em estruturas metálicas. Com exceção dos laboratórios, onde a temperatura
precisa ser controlada, não há aparelhos de ar-condicionado no edifício, que é refrescado pela brisa marinha. O
trabalho ajudou o arquiteto a conquistar, em 2012, o prêmio David Gottfried Global Green Building Entrepeneurship Award, concedido pelo World Green Building Council
(WGBC) pela sua postura pioneira no desenvolvimento de
empreendimentos sustentáveis.
“A partir daí, comecei a crescer rapidamente, e no terceiro
ano eu e mais dois colegas fundamos um empresa onde projetávamos e executávamos as obras”, conta. Assim, Zanettini
concluiu o curso já com alguma bagagem profissional, e logo
depois começou a desenvolver sua carreira solo. Apesar de
ter colecionado alguns prêmios durante os anos 1960, o grande salto veio na década seguinte, quando passou a usar o
aço nos seus projetos.
Mas a fama de estudioso não se deve apenas às inovações
que introduziu no País. Professor, doutor e com cinco cursos
de pós-graduação, Siegbert Zanettini sempre manteve uma
intensa vida acadêmica desde que começou a lecionar na
USP em 1964, instituição por onde se aposentou 40 anos mais
tarde. Todo esse conhecimento está condensado no livro “Arquitetura Razão Sensibilidade”, publicado em 2002. O volume
apresenta o seu conceito de arquitetura contemporânea,
que seria o encontro equilibrado e harmônico entre o mundo
racional, representado pela ciência e pelo conhecimento, e
o mundo sensível, que compreende a criação, a emoção e
a capacidade que toda obra tem que ter de surpreender.
O pioneirismo coube à fábrica da empresa Maio-Gallo, cuja
estrutura foi feita com o material e os fechamentos e a cobertura com chapas de alumínio. Isso em uma época em que
reinava o concreto aparente do modernismo e as edificações metálicas não eram sequer estudadas. “A arquitetura
moderna tinha virado mais um modismo, enquanto o aço era
uma tecnologia limpa, vinha tudo pronto, era só encaixar.”
Sua pesquisa na área lhe rendeu, em 2012, o prêmio Personalidade Abcem, concedido pela Associação Brasileira da
Construção Metálica. Além disso, ele ainda irá escrever um
livro sobre todas as patologias do aço quando empregado
junto com outros sistemas.
Foi isso o que o arquiteto sempre buscou e é o que continuará permeando seus trabalhos. Afinal, os 78 anos não parecem
empecilho para que ele mantenha uma intensa atividade
profissional. Entre os projetos em que Zanettini trabalha atualmente, estão o novo centro de convenções da Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp) e uma escola-parque no
bairro paulistano do Morumbi. Enquanto isso, as 40 toneladas
de aço do seu antigo escritório, assim como os painéis, o piso
e os revestimentos, aguardam em um depósito em Itu, no interior de São Paulo, até que um novo parecer da prefeitura
permita que a construção seja refeita. “Ainda vou montá-lo
de novo. Não sei quando, mas um dia eu vou”, garante.
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