anais do 2º 2º encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas A Dança e a Educação em Tempo Integral The Dance and the Full-Time Education Edna Christine Silva1 Programa em Comunicação e Semiótica Pontifícia Universidade Católica - PUCSP Resumo O presente trabalho propõe refletir a partir da atual inserção da dança no contexto das escolas de educação em tempo estendido, para o ensino fundamental. Ao dizer que os saberes integrantes dos conteúdos curriculares devem estar em constante diálogo com os saberes dos alunos e comunidade o Ministério da Educação vem criando resoluções e programas que ampliam o tempo do aluno na escola, atendendo ao compromisso de melhoria da educação brasileira. Nesse contexto, a dança é oferecida como disciplina integrante do currículo da parte diversificada e é apontada como linguagem em relação à área de conhecimento. A partir da análise desse tema, ressaltamos a urgência nas reflexões sobre as propostas para a inserção da disciplina dança na escola, assim como para seu para ensino. Palavras chaves: Dança, Educação em Tempo Integral, Linguagem, Ensino. Abstract This papers proporses a reflection about the current inclusion of dance in the context extended time study programs for primary schooling. By stating that the knowledge included in the content of the syllabuses should be in accordance with the students’ and local communities’ own knowledge, the Ministry of Education have proposed resolutions and programs which increase the students’ time at school and are aligned with the commitment to improve education in Brazil. In such a context, dance is offered as a subject included in the diversified part of the syllabus and is pointed out as a language in relation to the area of knowledge. By exploring that theme, this paper reflects upon the need to further meditate on the proposals of inclusion of the dance subject at school as well as the teaching of it. keywords: Dance, Full-Time Education, Language, Education. 1 Mestranda do Programa em Comunicação e Semiótica – Signo e Significação das Mídias - PUCSP, sob a orientação da Profª. Drª. Christine Greiner. Artista, pesquisadora em Dança e movimento. Professora de Dança da Rede Municipal de Ensino de Juiz de Fora. Diretora da Ekilíbrio Cia. de Dança. Coordenadora da Pós-Graduação Lato Sensu em Teatro e Dança na Educação da Faculdade Angel Vianna – FAV/RJ. www.portalanda.org.br/index.php/anais anais do 2º 2º encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas A Educação em Tempo Integral no Brasil O debate em torno da melhoria da educação brasileira vem alargando substantivamente suas proporções, principalmente após a implantação da avaliação de larga escala, como a Prova e a Provinha Brasil, que têm apontado índices não favoráveis, no que diz respeito ao aproveitamento escolar dos alunos inseridos, sobretudo, na fase de alfabetização que deve ser iniciada nos anos iniciais do ensino fundamental. Apesar de 98% das crianças brasileiras, com idade entre 7 a 14 anos, estarem matriculadas na escola, isso não garante uma educação de qualidade e os índices de defasagem idade/série se mantêm elevados produzindo, posteriormente, um aumento substancial em número de alunos nas salas de Educação de Jovens e Adultos – EJA. Desde o encontro Educação para Todos realizado em Jomtiem – Tailândia em 1990, que serviu como marco para o delineamento de políticas educativas no mundo inteiro, com o objetivo de garantir acesso e permanência de crianças, jovens e adultos na Educação Básica, o Brasil vem investindo na melhoria da sua Educação, entendendo que é preciso investir em recursos físicos, materiais e humanos. Dentre as propostas de investimentos existe a ampliação do tempo do aluno na escola, visualizando que para atingir uma educação para todos é preciso atender a diversidade, e uma das maneiras de atender a diversidade é expandindo o tempo do aluno. A proposta de uma Educação em Tempo Integral, como garantia de acesso e desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes, há muito vem sendo apontada, como pode ser visto em O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, publicado em 1932. Após longa espera, na década de 90, o tema ganha nova dimensão ao ser inserido como artigo na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que diz: A jornada escolar no ensino fundamental incluirá pelo menos quatro horas de trabalho efetivo em sala de aula, sendo progressivamente ampliado o período de permanência na escola. Outros documentos dissertam na mesma direção, como por exemplo, o Plano Nacional da Educação – PNE e o Documento Final da Conferência Nacional de Educação – CONAE/2010. www.portalanda.org.br/index.php/anais anais do 2º 2º encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas Recentemente, a publicação da Resolução nº7, em 14 de dezembro de 2010, fixa Diretrizes Curriculares para o Ensino Fundamental de nove anos e legisla para a Educação em Tempo Integral. O documento indica que o período integral é considerado para a jornada escolar que se organiza em sete horas diárias, constituindo uma carga horária anual mínima de mil e quatrocentas horas. Em seguida, no parágrafo único, complementa que as escolas e o sistema de ensino devem, conjugar esforços, para progressivamente ampliarem a carga horária mínima diária, visando uma maior qualificação do processo ensino aprendizagem, almejando assim o atendimento escolar em período integral. Nesse sentido, em maio deste ano, a Comissão de Educação, Cultura e Esporte – CE, aprovaram os projetos de lei – PLS388/07, que amplia de 800 para 960 horas a carga horária mínima anual para o ensino básico, e o PLS 385/07, que estende a frequencia mínima exigida para aprovação no ensino básico de 75% para 80% do total de horas eletivas. As duas propostas estão em tramitação na Câmara dos Deputados. É notável a atenção que vem sendo dispensada à educação brasileira pelos órgãos públicos, principalmente na tentativa de implantar a Educação em Tempo Integral. A aposta na diminuição das diferenças, especialmente quando o tempo educacional diário estendido propicia ao aluno uma educação substantiva, que transforma a atitude da vivência escolar, e aposta na mudança do papel desempenhado pela escola. Um breve resgate no Tempo Cronológico O histórico da ampliação do tempo de permanência dos educandos nas escolas públicas brasileiras teve seu início na década de 50, quando o Educador Anísio Teixeira propôs o Centro Integrado Carneiro Ribeiro em Salvador/BA, quando assumiu o cargo de Secretário Estadual da Educação daquele estado, popularmente conhecido como “Escola Parque”. Posteriormente, a proposta formulada por este educador se estendeu para a nova Capital do país. Anísio Teixeira, já no exercício do cargo de Diretor do INEP, teve a incumbência de elaborar o plano educacional de Brasília. Nesse contexto, o educador propunha que o modelo da Escola Parque servisse de exemplo e demonstração para o sistema educacional do país. No entanto, essas propostas, não foram compreendidas em sua amplitude e em pouco tempo foram extintas. www.portalanda.org.br/index.php/anais anais do 2º 2º encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas Na década de 60, no estado do Rio de janeiro, na época, denominado de Estado da Guanabara, o Governo Lacerda sistematizou um projeto piloto de trabalho, que objetivava a implantação do tempo integral em cinco escolas da rede pública. Esse projeto contava com a participação orçamentária da Fundação Ford. Nessa linha cronológica, na década de 80, Leonel Brizola, ao assumir o governo do Estado do Rio de Janeiro, prometia educação em tempo integral a todas as crianças. Nos seus dois mandatos de governo, construiu os CIEPs, edificando consideravelmente várias estruturas físicas para esse intento, porém a estrutura político/pedagógica necessitava de maiores investimentos. Cavalieri (1999) lembra que na mesma época aconteceram as experiências de dupla jornada em São Paulo com o PROFIC e em Curitiba com os CEIs. Na década seguinte, ao assumir o Governo, o presidente Fernando Collor propõe a criação dos CIACs por todo o país, que foi levada adiante por seu sucessor o presidente Itamar Franco, mudando a denominação para CAIC. A partir de 2005, os programas que visam a Educação em Tempo Integral começaram a ser desenvolvidos, com maior ênfase, nos estados de Santa Catarina, Minas Gerais e São Paulo. Outros estados têm disseminado a proposta do tempo estendido do aluno na escola, talvez de maneira tímida, como é o caso dos estados do Rio Grande do Sul, Amazonas, Tocantins, Bahia. Além desses estados, alguns municípios têm desenvolvido essa iniciativa, e podem ser ressaltadas as cidades de Americana (SP), Araruama (RJ), Recife (PE) e as de Cascavel, Pato Branco e Apucarana, pertencentes ao estado do Paraná, essas três últimas cidades são apontadas como as propostas mais bem desenvolvidas, sendo que no município de Apucarana, o programa foi implantado em toda a rede. (CAVALIERI, 2007). No ano de 2008, o Governo Federal instituiu o Programa Mais Educação, como estratégia para induzir a ampliação da jornada escolar e a organização curricular, na perspectiva da Educação Integral. Trata-se da construção de uma ação intersetorial entre as políticas públicas educacionais e sociais, contribuindo, desse modo, tanto para a diminuição das desigualdades educacionais, quanto para a valorização da diversidade cultural brasileira. Por isso coloca em diálogo as ações empreendidas pelos Ministérios da Educação – MEC, da Cultura – MINC, do Esporte – ME, do Meio Ambiente – MMA, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS, da Ciência e da Tecnologia – MCT e, também da Secretaria Nacional de Juventude e da www.portalanda.org.br/index.php/anais anais do 2º 2º encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas Assessoria Especial da Presidência da República, essa última por meio do Programa Escolas-Irmãs, passando a contar com o apoio do Ministério da Defesa, na possibilidade de expansão dos fundamentos de educação pública. (PROGRAMA MAIS EDUCAÇÃO – PASSO-A-PASSO) A proposta do programa consiste na ampliação de tempos, espaços e oportunidades educativas que qualifiquem o processo educacional e melhorem o aprendizado dos alunos. As atividades podem ser desenvolvidas dentro do espaço escolar, de acordo com a atividade e o espaço disponível na escola, ou fora dele, mediante o estabelecimento de parcerias com outros órgãos e/ou instituições filantrópicas ou privadas. O objetivo é contribuir para a formação integral de crianças, adolescentes e jovens, articulando, a partir do projeto da escola, diferentes ações, projetos e programas. Na concepção do Programa, a aprendizagem acontece nas diversas disciplinas e atividades em que o aluno participa e não somente nas disciplinas referentes à base comum. Com esse pensamento, o Programa Mais Educação afirma que, é necessário integrar os diversos conhecimentos, saberes, espaços educativos, pessoas da comunidade, na tentativa de construir uma educação que pressupõe uma relação de aprendizagem significativa e cidadã e da mesma maneira, para a vida. De acordo com o Programa Mais Educação esse é um experimento para se colocar o debate da Educação em Tempo Integral na agenda pública do município, do estado e da sociedade local. Para essa iniciativa, o governo federal oferece subsídios direto para as escolas, por meio de recursos transferidos para implementação do programa que se destinam à aquisição de kits de materiais, à contratação de pequenos serviços de material de consumo e ao ressarcimento de monitores. As escolas atendidas pelo Programa são prioritariamente escolas de baixo IDEB, situadas em capitais, regiões metropolitanas e grandes cidades em territórios marcados por situações de vulnerabilidade social que requerem a convergência prioritária de políticas públicas e educacionais. (PROGRAMA MAIS EDUCAÇÃO – PASSO-A-PASSO). Estima-se que o Programa Mais Educação, no ano de 2010, atendeu a cerca de dez mil escolas públicas do país. www.portalanda.org.br/index.php/anais anais do 2º 2º encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas Contextualizando o Município de Juiz de Fora A proposta de Educação em Tempo Integral no município de Juiz de Fora teve início em 1996, quando foram construídas três unidades dos Centros de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente – CAIC. A princípio eram oferecidos, com o propósito de integrar as atividades de atendimento à comunidade, atividades esportivas e oficinas de arte. Os primeiros projetos de arte se constituíram nas linguagens da dança e do teatro. (SILVA, 2010) Em 1997, a dança passou a fazer parte do contexto, não somente desses Centros, mas, também de algumas escolas do ensino regular. Assim, a disciplina era oferecida no contraturno como extracurricular ou projeto. Da mesma maneira, outras linguagens artísticas foram se constituindo como projetos nas escolas. Em 2004, a Prefeitura de Juiz de Fora publicou o primeiro edital específico para contratação temporária para professores nas linguagens artísticas de dança, teatro, música e artesanato. Na atualidade, várias escolas da rede municipal de ensino contam com oficinas de arte oferecendo aos seus alunos o acesso a linguagens distintas. Dentre estas, quarenta escolas municipais desenvolvem oficinas de dança no contraturno. Essa estrutura, de disciplinas oferecidas no contraturno, permaneceu sem alterações até o ano de 2005 (SILVA, 2010). No ano seguinte, em 2006, foi publicada o Plano Decenal Municipal de Educação para o período 2006/2015, Lei municipal nº 11.145, de 31 de maio de 2006, que apresenta como metas para o Ensino Fundamental, a ampliação gradativa do horário de atendimento nas instituições escolares da rede pública municipal e a Lei municipal nº 11.669, de 22 de setembro de 2008, dispõe sobre a criação do Programa Escola de Educação em Tempo Integral. Em outubro de 2008, a SE/PJF publicou as Diretrizes Educacionais para a rede municipal de Ensino de Juiz de Fora, contendo as Linhas Orientadoras das Escolas de Educação em Tempo Integral do Município de Juiz de Fora. Consta nessa publicação que para ampliação gradativa do tempo de permanência do/a educando/a na escola será garantido as condições adequadas para o desenvolvimento das atividades extracurriculares, tais como: oficinas literárias, artísticas, esportivas, tecnológicas e outras, e também profissionais especializados para essas atividades. www.portalanda.org.br/index.php/anais anais do 2º 2º encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas A partir da promulgação dessa lei, a rede municipal de ensino de Juiz de Fora passou a contar com seis escolas de Educação em Tempo Integral. Três dessas escolas são de Ensino Fundamental e as outras três são destinadas a Educação Infantil. Em termos numéricos o município possui 104 escolas, sendo 80 de Ensino fundamental e 24 de Educação infantil. Entre as escolas de Ensino Fundamental, três são escolas de Educação em Tempo Integral e três são CAICs. Outro dado significativo é que no ano de 2009, a Secretaria de Educação – SE, aderiu ao Programa Mais Educação do Governo Federal e atualmente 42 escolas municipais participam do programa. Essa diversidade de estruturas na rede municipal faz parte do processo de autonomia da escola que é afirmado pela SE. Em relação à implantação das Escolas de Educação em Tempo Integral na rede municipal de ensino de Juiz de Fora se fundamentou na construção coletiva, respeitando a autonomia e especificidades de cada comunidade escolar e da localidade em que está inserida. Pode-se considerar que esse foi e continua sendo um fator significante, pois, no período de implantação da ampliação do tempo do aluno visando à formação integral, as escolas que participariam do programa encontravam-se inseridas em comunidades distintas, em diferentes espaços geográficos, sendo que, uma delas está localizada em uma comunidade rural. Dessa forma, a opção de disciplinas para a formação integral do aluno foi decidida por cada instituição de ensino. Da mesma maneira, é realizada a opção de disciplinas pelas escolas que oferecem a ampliação da carga horária do aluno ou o tempo estendido. Nas palavras de Coelho (1999) a estruturação do currículo, visando à formação integral, deve considerar a realidade e deve ser trabalhado nos interstícios do já conhecido e vivenciado pelo/a aluno/a. Essa relação possibilita uma abordagem mais qualitativa e interdisciplinar, na medida em que se podem fundir conhecimentos/conceitos educacionais, artísticos, culturais, de saúde, do mundo do trabalho, que proporcionem uma visualização expandida do ato de aprender. Dessa maneira, pode-se compreender que a educação não deve ser entendida como um amontoado de conteúdos formalizados e categorizados como científicos que devem ser aprendidos pelos discentes. A cultura popular é possuidora de grandes saberes informais construídos historicamente e pode ser transformada em conteúdo vivo, dissolvendo as formas cristalizadas de se fazer educação. www.portalanda.org.br/index.php/anais anais do 2º 2º encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas A oportunidade de uma educação que considera o que já é conhecido, ou seja, a cultura em que cada educando está inserido pode representar um alargamento de oportunidades e situações que agenciem aprendizagens significativas e emancipatórias. A educação, por muito tempo, acreditou que, para ocorrer à aprendizagem, os educandos deveriam permanecer sentados e quietos, recebendo os ensinamentos do professor que representava o saber no espaço escolar. Essa prática de ensino, na qual o aluno é mero receptor de informações, foi amplamente criticada por Paulo Freire, que a chamou de educação bancária (SILVA, 2010). Pensar a arte na educação é pensar também no desenvolvimento integral do educando. Os processos criativos possibilitam o desenvolvimento da imaginação, da percepção, da atenção, da memória, elementos importantes para os processos de aquisição do conhecimento. Dessa maneira, o educando pode vivenciar diversas experiências de aprendizagem e desenvolver suas potencialidades. Nas palavras de Eisner (2002: 82), “É a arte que encoraja a criança a colocar sua visão pessoal e sua assinatura em seus trabalhos.” Com esse pensamento, as disciplinas artísticas, assinalam para o desenvolvimento das capacidades intelectuais e autonomia dos discentes (SILVA, 2010). Barbosa (2002: 17) aponta para a importância da arte no currículo educacional e diz que, “A Arte como uma linguagem aguçadora dos sentidos transmite significados que não podem ser transmitidos por intermédio de nenhum outro tipo de linguagem, tais como a discursiva e a científica.” Assim como esclarece Barbosa, a contribuição da arte no desenvolvimento do indivíduo também é apontada por Eisner (2002: 92) que esclarece: O que a arte proporciona é uma contribuição ampla ao desenvolvimento e às experiências humanas. Primeiramente a arte, isto é, as imagens e eventos cujas propriedades fazem brotar formas estéticas de sentimentos é um dos importantes meios pelos quais as potencialidades da mente humana são trazidas à tona. Nossas capacidades intelectuais tornam-se habilidades intelectuais à medida que damos a estas capacidades oportunidade de funcionar: o tipo de raciocínio necessário para vermos o que é sutil e complexo, para aprender como perceber formas de maneira que suas estruturas expressivas toquem nossa imaginação e emoção, para tolerar as ambigüidades enigmáticas da arte. www.portalanda.org.br/index.php/anais anais do 2º 2º encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas A arte permite ao educando expressar sua imaginação e emoção, experimentar sua inventividade, criar e recriar, improvisar e comunicar em diversas situações. A Dança na Rede Municipal A disciplina Dança, apesar de se apresentar, em maior numero quantitativo, entre as várias linguagens artísticas desenvolvidas no contraturno nas escolas da Rede Municipal de Ensino da Secretaria de Educação de Juiz de Fora, e, desde 1998, ser realizado em todos os anos, o Festival das Escolas Municipais de Dança Educação – FEMDE, somente em 2010 é que iniciou um processo de pensar a dança no currículo. Isso se deu, quando foi proposto, pela Rede, desenvolver um estudo para a confecção das proposições curriculares para todas as disciplinas integrantes da organização curricular, tanto as da base comum, quanto as da base diversificada. A proposta curricular da rede municipal de Juiz de Fora diz que, A dança é uma arte que se apropria tanto das expressões do indivíduo quanto do seu corpo e de suas diversas maneiras de se relacionar com o mundo. O indivíduo, na dança, é visto como um ser integral. Em uma visão contemporânea, é uma arte que interfaceia com as mais diversas linguagens e se coloca nos vários lugares. A produção de conhecimento em dança se amplia a partir das pesquisas realizadas pelos seus atores que vem atuando nos diversos espaços das Universidades, dos Fóruns de Discussão, dos Grupos e Companhias, dentre outros. Enfatizamos a necessidade da presença dessas pesquisas nas escolas, oportunizando aos alunos/as conhecerem e experienciarem a dança, nas suas mais diversas formas de existência. (Proposta Curricular da Rede Municipal de Juiz de Fora, 2011) Com esse pensamento, a disciplina dança tem o intuito de ampliar suas propostas de ensino, distanciando-se de uma visão utilitária, mecanicista e assistencialista. Ressalta-se que os métodos de apontamento dos erros dos/as alunos/as e correção de movimentos para aperfeiçoamento técnico que valorizam a técnica de maneira equivocada, podem ser considerados como um entrave e retrocesso no processo educacional. Intenciona-se a valorização da prática pedagógica que amplie os processos criativos e as improvisações dos discentes, priorizando a construção de conhecimento. www.portalanda.org.br/index.php/anais anais do 2º 2º encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas Ao observar atentamente os trabalhos desenvolvidos nas escolas, tanto nas aulas que são lecionadas, como nas apresentações nos diversos eventos , é possível perceber que muitos trabalhos são de excelente qualidade e é notável que os docentes dessa disciplina preconizam a pesquisa exploratória de movimentos, do corpo, do espaço, do tempo o desenvolvimento da criatividade e a capacidade de expressão e comunicação do corpo que são elementos básicos dessa disciplina. Aos discentes é propiciado a apropriação dos conteúdos elementares da disciplina Dança, aliada a preocupação com as possibilidades e limitações dos/as mesmos/as. No entanto, nem todos os profissionais desenvolvem o trabalho nessa mesma direção. é possível observar, que alguns trabalhos dessa disciplina, ainda apresentam equívocos, tanto no ensino da Dança em sala de aula, quanto no que diz respeito aos trabalhos coreográficos. Em relação à formação desses profissionais que atuam como professores de dança nas escolas, em sua grande maioria, são licenciados em Educação Física e somente uma docente possui Licenciatura em Dança. Em relação às condições físicas, muitas escolas possuem sala específica para a Dança, algumas possuem espelho e recentemente uma escola construiu uma sala com piso de madeira. O acompanhamento a essas escolas é realizado por meio da documentação que a escola entrega periodicamente a SE/PJF como: projeto político pedagógico, quadro de informações, grade horária, dentre outros; visitas as escolas que são agendadas pela SE/PJF ou solicitadas pelas próprias escolas; comissões, encontros e grupos de estudos. Com o propósito de ampliação de conhecimento e reflexão sobre a prática a SE tem oferecido formação continuada para os professores das disciplinas artísticas, há pelo menos seis anos. É notável que muitos docentes participantes, dessa formação, têm enriquecido suas propostas e transformado suas práticas. Na direção de aprimorar, cada vez mais os trabalhos nas escolas, a SE tem realizado um processo seletivo com os/as professores/as candidatos à contratação temporária, para a disciplina Dança. Sendo assim, o objetivo da seleção é buscar profissionais que possam oferecer uma educação diferenciada das tradicionais. Algumas reflexões ... www.portalanda.org.br/index.php/anais anais do 2º 2º encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas Ao observar atentamente a grade curricular e as dinâmicas vivenciadas nos espaços das escolas de Educação em Tempo Integral é notável que essas escolas ao conceberem a grade horária das disciplinas acabam seguindo o mesmo padrão das instituições escolares que funcionam em apenas um período, concentrando as disciplinas da base comum em um turno, e as disciplinas da base diversificada no turno anterior ou seguinte, contraturno. É possível perceber também que, por vezes, as disciplinas artísticas oferecidas não compõem uma linha de pensamento que norteie o desenvolvimento das aulas e integrem a proposta curricular da escola. Dessa maneira, constantemente, essas disciplinas são trocadas por alguma outra considerada mais atraente para os discentes, não implicando a sua interface com o projeto político pedagógico da escola. A escolha é realizada a partir de atividades que prendam melhor a atenção dos/as educandos/as e facilite o controle do caos que é estabelecido quando os/as educandos/as não concordam em permanecer o tempo integral na escola. Cavaliere (2007) considera que a satisfação e adesão do próprio alunado são essenciais para a sua permanência no ambiente escolar. A Dança não fica fora dessa realidade e muitas são as razões que contribuem para esses fatores. Ao abordar esse assunto surgem vários questionamentos que merecem reflexão: Como são escolhidas as disciplinas artísticas para integrarem o currículo escolar da Escola de Educação em Tempo Integral? Qual o significado da dança no contexto dessas escolas? A disciplina dança está realmente integrada ao currículo escolar e é entendida como parte significativa da formação? A dança é vista como linguagem produtora de conhecimento? Qual é o real espaço/tempo da dança nessas escolas? Ainda nesse contexto, é necessário refletir sobre o Programa Mais Educação que propõe o desenvolvimento do programa com adesão de monitores voluntários oferecendo ajuda de custo, aos mesmos, destinado ao transporte e alimentação para lecionarem as aulas no turno estendido. Ressalvo que essa não é a condição da rede municipal de Juiz de Fora, que aderiu ao Programa Mais Educação com o propósito de dar continuidade a política municipal de implementações de projetos, cuja ampliação da jornada escolar dos alunos é regida por legislações que prevêem a contratação de professores com formação específica na área de atuação dos projetos conforme o Quadro de Carreira do Magistério Municipal. www.portalanda.org.br/index.php/anais anais do 2º 2º encontro nacional de pesquisadores em dança (2011) Dança: contrações epistêmicas Além disso, outra reflexão que se faz urgente é que todas as regiões do país e talvez todos os estados brasileiros, atualmente, possuem cursos de licenciatura em Dança. Esses cursos estão profissionalizando pessoas para aturarem como professores. Cazé (2008) em sua dissertação de mestrado, sob o título – Corpos que Dançam Aprendem: análise do espaço da dança na rede pública estadual de Salvador/BA –, faz um relato sobre o espaço de dança em escolas de ensino básico, e aponta que, as instituições de ensino que desenvolvem essa disciplina, nem sempre priorizam o profissional licenciado nessa área de conhecimento para atuarem como professores. Mediante esses dados é possível questionar: Onde estão lecionando os profissionais diplomados pelos cursos de licenciatura em dança? As instituições de ensino básico fazem parte do mercado de trabalho para os profissionais licenciados em Dança? Considerações que não se extinguem nesse momento A partir da abordagem apresentada de maneira sucinta neste texto, é possível perceber que a educação brasileira aos poucos vem ampliando o tempo do aluno na escola. A Dança na escola necessita de discussões indispensáveis, tanto com a equipe de direção dos estabelecimentos de ensino, assim como com as Secretarias de Educação, seja estadual ou municipal, para que possa integrar o currículo, como uma disciplina que propõe ações e direcionamentos, e contribui na aquisição e produção do conhecimento do/a aluno/a. Além disso, aspira-se a urgência em repensar o ensino da dança na escola e sua atualização com as propostas e discussões contemporâneas. É necessário despertar nos docentes, discentes e gestores do sistema de ensino e das escolas, assim como, as organizações de apoio e pesquisa, para uma reflexão crítica e sensível sobre arte, educação e sociedade. Bibliografia BARBOSA, A. M. 2002. As Mutações do Conceito e da Prática. In: Inquietações e Mudanças no Ensino da Arte. BARBOSA, Ana Mae (org.). 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LEI Nº 11.669 – 2008. Dispõe sobre a criação do Programa Escola de Educação em Tempo Integral em consonância com o disposto no art. 34 e no § 5º, do art. 87, da Lei Federal nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Prefeitura de Juiz de Fora. de 22 de setembro. Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN: 1997. Arte/Secretaria de Educação Fundamental – Brasília: MEC/SEF. RESOLUÇÃO Nº 7 – 2010. Fixa Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental de 9 (nove) anos. Ministério da Educação – 14 de dezembro. www.portalanda.org.br/index.php/anais