UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS I VALÉRIA ARAÚJO SANTOS A EXPERIÊNCIA DA ESCOLA PARQUE NA TENTATIVA DE SUPERAR OS DESAFIOS DA RELAÇÃO COM A COMUNIDADE LOCAL Salvador 2010 VALÉRIA ARAÚJO SANTOS A EXPERIÊNCIA DA ESCOLA PARQUE NA TENTATIVA DE SUPERAR OS DESAFIOS DA RELAÇÃO COM A COMUNIDADE LOCAL Monografia apresentada como exigência para obtenção do grau de licenciatura em Pedagogia com Habilitação em Gestão e Coordenação do Trabalho Escolar pela Universidade do Estado da Bahia sob a orientação do Prof. Dr. Luciano Sérgio Ventin Bomfim. SALVADOR 2010 VALÉRIA ARAÚJO SANTOS A EXPERIÊNCIA DA ESCOLA PARQUE NA TENTATIVA DE SUPERAR OS DESAFIOS DA RELAÇÃO COM A COMUNIDADE LOCAL Monografia apresentada como exigência para obtenção do grau de licenciatura em Pedagogia com Habilitação em Gestão e Coordenação do Trabalho Escolar pela Universidade do Estado da Bahia sob a orientação do Prof. Dr. Luciano Sérgio Ventin Bomfim. Data da Aprovação: ___/___/____ Banca Examinadora: _________________________________ Prof. Dr. Luciano Sérgio Ventin Bomfim Universidade do Estado da Bahia _________________________________ Profª. M.Sc Iêda Rodrigues da Silva Balogh Universidade do Estado da Bahia _________________________________ Prof. Otoniel Vitor Cavalcante Rocha Universidade do Estado da Bahia FICHA CATALOGRÁFICA – Biblioteca Central da UNEB Bibliotecária : Jacira Almeida Mendes – CRB : 5/592 Santos, Valéria Araújo A experiência da Escola Parque na tentativa de superar os desafios da relação com a comunidade local / Valéria Araújo Santos. – Salvador, 2010. 125f. Orientador: Luciano Sérgio Ventin Bomfim. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação) – Universidade do Estado da Bahia. Departamento de Educação. Colegiado de Pedagogia. Campus I. 2010. Contém referências e apêndices. 1. Escola - Aspectos sociais. 2. Comunidade e escola. I. Bomfim, Luciano Sérgio Ventin. II. Universidade do Estado da Bahia, Departamento de Educação. CDD: 370.193 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho ao mestre dos mestres e maior educador do mundo: Jesus Cristo. Ensinou-me a enfrentar os desafios valendo-me da paciência, sem perder de vista valores fundamentais como a honestidade e a perseverança, que serviram de base para que eu chagasse até aqui. “Eu te fortaleço, te ajudo e te sustento com a destra da minha justiça”. Isaías 41.10 AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar a minha gratidão a Deus, por seu perfeito amor, por fortalecer-me, ajudar-me e sustentar-me com a destra da sua justiça, principalmente nos momentos mais difíceis da construção desse trabalho. Aos meus familiares pela compreensão e apoio nessa fase decisiva da minha jornada acadêmica. Ao meu orientador Prof. Dr. Luciano Bomfim, que através de sua competência e disponibilidade contribuiu para o meu aprimoramento intelectual e pessoal. As suas orientações proporcionaram-me o privilégio de aprender como construir um trabalho científico de qualidade. Às professoras Lucinete Chaves e Elisabete, pelas fundamentais contribuições, além dos demais mestres, que de alguma maneira também contribuíram para a minha formação acadêmica. À Ademildes, amiga de todas as horas, pelo apoio e companhia nos momentos difíceis. À Denise, amiga que conduzida por Deus trouxe no momento certo a palavra certa, que serviu para edificar-me. Ao Sr. Wellington, funcionário da Biblioteca/CAMPOS–I, pelo seu excelente atendimento aos alunos, que como eu, precisam da sua ajuda profissional. À funcionária Carminha da Biblioteca CEAP, que além da competência profissional, praticou valores como solidariedade e compreensão em meu favor. À Escola Parque, por abrir as portas para esta pesquisa, apoiando-me em todas as etapas da mesma, e à sua Comunidade Local que também contribuiu, principalmente através de entrevistas concedidas com total respeito e disponibilidade. A Escolha Na sociedade que preza pelo capital Ainda que esta pareça absoluta, atribulada e cheia de desafios, A Escola é fundamental Uma escola não mesquinha Uma escola transformadora Uma instituição idealizada A favor da classe trabalhadora Que assim como outras classes sociais Integram a Comunidade Local Um segmento essencial à existência da Escola E que possui capacidade fenomenal! Daí pergunta-se: o que fazer Escola? Prezar pelo isolamento e pela separação? Justificando o medo das adversidades e a falta de apoio público? Ou unir-se em harmonia a sua Comunidade Local? Que mesmo isolada influencia no seu funcionamento enquanto instituição? De fato, trata-se de um grande desafio! Que para muitos não passa de uma utopia Mas para mim, trata-se de um objetivo que poderá tornar-se possível, Se a Escola fizer a escolha certa algum dia! (Autora: Valéria Santos) RESUMO O presente trabalho foi construído a partir de uma análise sobre a importância da relação Escola – Comunidade Local, destacando a relevância da integração entre ambas para o desenvolvimento de uma convivência sadia, capaz de incentivar toda a sociedade civil a significativas transformações sociais. As reflexões presentes nesta monografia resultam das experiências vivenciadas durante a pesquisa desenvolvida na Escola Parque, que foi observada em sua relação com a Comunidade Local, objetivando apontar que tal prática, além de possível, é fundamental para o funcionamento do estabelecimento de ensino em harmonia com o público externo. Os fundamentos teóricos presentes nesta pesquisa estão baseados nas idéias de autores como Althusser, Enguitta, Frigotto, Nosella, Gramsci e Freire, entre outros, cujas abordagens discutem formas diferentes de atuação da escola na sociedade, que podem viabilizar ou não a integração desta instituição à sua comunidade local. Dois são os pressupostos centrais que sustentam o conjunto da pesquisa: o primeiro é o de que a escola e a comunidade local constituem-se numa dinâmica de relações interdependentes, por isso, uma depende da outra para existir. O segundo pressuposto é o de que embora atuando em uma sociedade capitalista, e por isso enfrentando diversos desafios, a escola pode abrir mão da prática de isolamento, e aproximar-se da sua comunidade local, independente das fragilidades sociais que esta apresente, exercendo uma relação orgânica, baseada em propostos humanistas como a integração e interação entre ambas. Tal experiência é capaz de resultar em práticas emancipadoras, como a gestão escolar democrática, que conte com a participação direta da comunidade local, uma vez que esta, servida pela escola, pode através da construção de parcerias, contribuir para a organização de ações de interesse comum. Agindo assim, a escola estará cumprindo parte da sua missão social essencialmente humanizadora. Palavras Chave: Escola; Relação; Comunidade Local ABSTRACT This work was constructed from an analysis of the importance of the School - Local Community, highlighting the importance of integration between them to develop a healthy living, able to encourage the whole society to significant social change. The reflections in this monograph result of experiences during the research conducted at the Park School, which was observed in their relationship with the Local Community, aiming to point out that such a practice, not only possible, it is essential to the functioning of the school in harmony with the general public. The theoretical foundations for this research are based on the ideas of authors such as Althusser, Enguitta, Frigotto, Nosella, Gramsci and Freire, among others, whose approaches discuss different ways of acting school in society that can make or break the integration of the institution your local community. There are two central assumptions that underpin the whole of the research: the first is that the school and local community are on a dynamic of interdependent relationships, therefore, depends on one another to exist. The second assumption is that while working in a capitalist society, and therefore facing several challenges, the school can give a mediocre insulation, and approach their local community, regardless of social weaknesses come forward practicing an organic relationship, based on humanistic proposed as the integration and interaction between them. This experience can lead to emancipatory practices, such as democratic school management, which rely on the direct participation of the local community since it serviced by the school, you can by building partnerships, helping to organize activities of interest common. In doing so, the school will be fulfilling part of its social mission essentially humanizing. Keywords: School; Value; Local Community LISTA DE FOTOS Foto 1_______________________________________________________52 Foto 2_______________________________________________________54 Foto 3_______________________________________________________55 Foto 4_______________________________________________________56 Foto 5_______________________________________________________95 Foto 6_______________________________________________________97 Foto 7_______________________________________________________99 Foto 8______________________________________________________100 Foto 9______________________________________________________101 Foto 10_____________________________________________________102 Foto 11_____________________________________________________102 Foto 12_____________________________________________________104 Foto 13_____________________________________________________105 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 11 1. A RELAÇÃO ESCOLA-ESTADO-SOCIEDADE 15 1.1 A ESCOLA NA SOCIEDADE CAPITALISTA 24 1.2 A ESCOLA EM UMA PERSPECTIVA EMANCIPATÓRIA 32 2. A RELAÇÃO ESCOLA-COMUNIDADE LOCAL 44 2.1 GESTÃO ESCOLAR DEMOCRÁTICA JUNTO À COMUNIDADE LOCAL 58 2.2 PRESSUPOSTOS PARA UMA GESTÃO ESCOLAR DEMOCRÁTICA QUE RESULTE EM UMA INTEGRAÇÃO EMANCIPADORA ENTRE ESCOLA E COMUNIDADE LOCAL 72 3. A EXPERIÊNCIA DA ESCOLA PARQUE 84 3.1 INICIATIVA 107 3.2 DESAFIOS 109 3.3 RESULTADOS 112 CONSIDERAÇÕES FINAIS 117 REFERÊNCIAS 121 APÊNDICE A 123 APÊNDICE B 124 11 INTRODUÇÃO A relação com a comunidade local faz parte da vida da escola, por se tratar de duas instituições que embora sejam distintas entre si, estão ligadas uma à outra. A escola encontrase inserida na comunidade local, e ambas ajudam a compor o corpo social da sociedade civil. O relacionamento entre escola e comunidade local é, portanto, um processo que obrigatoriamente faz parte do cotidiano escolar, e acontece mesmo através de práticas hostis como o desprezo e a apatia, exercidas pela maioria das instituições de ensino brasileiras, que recusam acolher o público externo, visto pelas mesmas como mal-vindo ao ambiente escolar. Em outras palavras, quando a escola não esforça-se para estabelecer uma relação emancipadora, estimulando práticas de integração e interação, que viabilizam a construção de parcerias com sua comunidade local, ela mantém de fato, uma relação atrofiada e não produtiva com aquela que indiretamente também contribui para a sua existência e funcionamento. Ao desempenhar sua função social, a escola configura-se historicamente como espaço natural de convivências e vinculações. Conhecer e conviver articulando-se à comunidade local, representa um dos vínculos sociais mais desafiantes para a instituição de ensino atuante na sociedade capitalista, que por sua vez, preza por uma atuação contrária aos propósitos de emancipação da classe dominada. Assim, partindo do pressuposto de que a parceria entre escola e comunidade local representa um avanço social que favorece a classe popular, e por isso não é estimulada pelo poder público que administra a educação, perguntamos: Como a Escola Parque realiza a sua integração com a comunidade local? O interesse pelo estudo dessa temática surgiu a partir das observações realizadas em torno do que diz a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, sobre a obrigação que tem a escola de articular-se à sua comunidade local, criando processos de integração da sociedade com a instituição de ensino. O despertar para tal estudo deu-se no momento em que após visitarmos cinco escolas da rede pública de Salvador, procurando saber se as mesmas desenvolviam vínculos com a comunidade local, chegamos à conclusão de que estabelecer um processo de integração entre ambas, é um trabalho ainda pouco conhecido e exercido por aquela que mais poderia beneficiar-se com tal prática, isto é, a escola pública. Quando perguntamos se os cinco estabelecimentos de ensino já 12 desenvolviam alguma parceria com ao público externo, a resposta da diretoria de todas as instituições visitadas foi não. Nem sequer pensa-se sobre o assunto, pois acredita-se tratar apenas de mais um sonho desejo pelo educador Paulo Freire, porém que nunca se realizará. Prevalece a visão de que a escola pública não consegue dá conta do seu público interno, então como é que poderá estabelecer um processo de integração com a comunidade local? Justificamos essa afirmação através da fala da diretora de uma das escolas pesquisadas, que sem cerimônias declarou: “entre a teoria escrita por Paulo Freire, que desejava ver a escola aberta para a sociedade, e a prática vivenciada hoje pela escola pública, muitas vezes vítima da própria comunidade local que a depreda com violência, há um grande abismo de separação, que inviabiliza a materialização do princípio teórico na vida escolar”. Através da sua fala, a diretora, representado toda a sua escola, demonstrou total pessimismo e falta de interesse pelo tema. Tal postura estimulou em nós uma inquietação, que culminou na reflexão sobre como outras instituições de ensino da rede pública vêem o desafio de articular-se com a comunidade local? Válido? Possível? ou mais uma utopia freiriana? Foi a partir desta inquietação que iniciamos nossa pesquisa na Escola Parque, buscando observarmos na prática, se estava sendo cumprida a determinação do Artigo 12º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A vinculação da escola com a comunidade local constituiu-se em um tema bastante estimulante, pois denuncia um modo diferente de pensar e trabalhar com o público externo, mostrando caminhos de abertura da escola para o intercambio de desejos e experiências. Objetivando contribuir para o despertar sobre a importância da integração entre escola e comunidade local, esse estudo aponta tal prática como imprescindível para a vida em sociedade. A pesquisa foi fundamentada nas perspectivas humanista e progressista de atuação escolar, baseada principalmente, nas contribuições de Antonio Gramsci e Paulo Freire. Partindo-se do princípio de que a escola precisa trabalhar não visando apenas números, lucro e formar trabalhadores, mas desenvolvendo uma postura libertadora, que “prepare” o indivíduo para atuar na vida política, buscando, sobretudo, a plenitude do exercício da democracia. A abordagem desse estudo não está focada em dados quantitativos, mas é de natureza qualitativa, tendo como matéria-prima principal as informações e os aspectos subjetivos. 13 Nesse sentido, durante a construção desse trabalho não foram analisados e interpretados apenas os aspectos vistos, mas também aspectos percebidos ao longo do processo de convivência com o campo de estudo, isto é, a Escola Parque e a sua comunidade local. É um estudo de caso que segundo Menga Ludke (1986), retrata a realidade de forma complexa e profunda. A fim de que fosse alcançado o objetivo principal dessa pesquisa, foram utilizadas técnicas como: pesquisa teórica, observação direta do cotidiano da Escola Parque, interpretação teórica daquilo que foi observado, registro de fotos, entrevistas com sujeitos dos espaços escola e comunidade local, coleta de dados das atividades desenvolvidas e relatório de acompanhamento sobre o contexto observado. No primeiro capítulo deste trabalho abordamos de maneira individual os elementos Escola, Estado e Sociedade, mostrando que a relação estabelecida entre os mesmos, condiciona a vida em sociedade. O filósofo Louis Althusser enfatiza na sua teoria, que a instituição de ensino atua na sociedade como Aparelho Ideológico de Estado. Em seguida, apresentamos alguns teóricos como: Gaudêncio Frigotto, Mariano Enguita, Paolo Nosella, Antonio Gramsci e Paulo Freire, que abordam diferentes formas de atuação da escola na sociedade capitalista, demonstradas através de exemplos práticos. São realizadas duas abordagens opostas uma à outra: a primeira baseada nas contribuições de Frigotto e Enguita, diz respeito à escola atuante de acordo aos interesses capitalistas, que são contrários à emancipação da classe popular, enquanto que a segunda, baseada nas idéias de Gramsci e Freire, diz respeito à escola atuante conforme princípios libertadores, que contribuem para a emancipação da massa oprimida, fator fundamental na superação das diferenças sociais que predominam na sociedade capitalista, regida pelo Estado liberal. No segundo capítulo, autores como: Sônia Kruppa e Samuel Reis, ambos influenciados por idéias freirianas, contribuem para a abordagem feita sobre o fenômeno da relação entre escola e comunidade local. Os dois autores trazem exemplos de escolas que no contexto nacional, conseguiram estabelecer de maneira emancipadora uma convivência com o seu público externo, servindo de exemplo para toda a rede pública de ensino brasileira. Ainda nesse capítulo, a gestão escolar democrática, iniciativa que segundo o Artigo 14º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), nº 9394, de 20 de dezembro de 1996, deve ser desenvolvida também com a participação da comunidade local, é abordada a partir das 14 contribuições teóricas de autores como: Moacir Gadotti, José Carlos Libâneo, Heloísa Luck, Vitor Henrique Paro, Maria de Lourdes Melo Prais e Dermeval Saviani. No terceiro capítulo, é apresentada a experiência que presenciamos através da pesquisa prática realizada na Escola Parque. São realizadas reflexões que associam a teoria presente nos capítulos anteriores, à prática exercida por essa instituição em favor do seu envolvimento com a comunidade local. Enfim, ressaltamos que as análises desenvolvidas sobre as formas de articulação com a comunidade local praticadas pela Escola Parque, vão além do formalismo cientificista, pois trata-se de uma experiência não simplesmente conteudista, mas rica em dados da realidade, que estimulam a curiosidade na busca pelo significado da experiência relatada neste trabalho. 15 1. - A RELAÇÃO ESCOLA – ESTADO – SOCIEDADE O objetivo que direciona a nossa abordagem sobre a relação estabelecida entre Escola, Estado e Sociedade é o de evidenciar a existência de tal relação e suas implicações na vida da humanidade. Somos orientados pela herança teórica marxista que norteia a obra de autores como: Louis Althusser, Paulo Meksenas, Sônia Kruppa, Marino Enguitta, Gaudêncio Frigotto, Paolo Nosella, Antonio Gramsci e Paulo Freire. A abordagem sobre a relação Escola - Estado - Sociedade torna-se essencial, pois ao longo deste capítulo conduz a reflexões que levam ao entendimento sobre o que é e como atuam cada um desses elementos na sociedade, e de como os mesmos estão envolvidos entre si. Tais reflexões são importantes para o entendimento sobre o fenômeno da relação escola e comunidade local, relação esta, que por sua vez, constitui o tema deste trabalho. Denomina-se escola ou colégio um estabelecimento ou instituição de ensino/educação. Tratase de uma instituição que possui: uma estrutura física, normas específicas que dão forma às ações que ali acontecem, agentes próprios (diretores, coordenadores, professores, alunos, demais funcionários, conselho de classe, etc.) e toda uma hierarquia fundamental ao funcionamento da mesma. Porém não trata-se apenas de um espaço físico, compreende também uma forma de ser e uma visão. De acordo com Moacir Gadotti (2000) a escola é definida principalmente, a partir das relações sociais que desenvolve, isto é, a sua atuação constrói o seu significado. Segundo Sonia Kruppa (1994, p. 32): “a escola é um direito”. Tal afirmação comprova que seu significado é amplo e complexo, chegando a ultrapassar os limites de uma simples definição científica. Trata-se de um conceito que envolve significado com dimensões físicas, filosóficas, culturais e sociais. A partir da sociedade capitalista, que predominou sobre a sociedade feudal, a ciência passou a ser destaque, mostrando que a vida moderna, sob esta ótica, só poderia ser interpretada e entendida através dos métodos científicos, e com isso, a educação deixou de refletir apenas os valores religiosos para ter a ciência como base. É a partir dessa visão paradigmática que nasce a mais nova instituição responsável pela educação: a escola. 16 Como conseqüência da revolução ideológica capitalista, a educação, que durante o feudalismo estava sob a responsabilidade exclusiva da família e da Igreja, passa a ser desenvolvida e manejada pela escola. Conhecemos hoje, portanto, uma escola oriunda dos séculos XVIII e XIX, período no qual nasce a necessidade de educação pública. Uma nova estrutura de ensino passa a ser obrigatória: muitas salas de aula, muitos alunos em uma só sala, carteiras organizadas em filas, cadernetas de freqüência, avaliações, notas. O objetivo dessa estrutura montada é o de educar uma massa cada vez maior de indivíduos, buscando capacitá-los a submeter-se às exigências da sociedade capitalista. Para Sônia Kruppa (1994, p. 119) o Estado é “o conjunto de instituições que compõem ou exercem o poder político em uma sociedade territorialmente delimitada”. Trata-se de uma instituição constituída política, social e juridicamente, integrante de um território definido, regido por uma Constituição própria, que por sua vez, é alimentada e dirigida por um governo. Responsável pela organização e pelo controle social o Estado engloba tanto um território, quanto uma população, sobre os quais exerce soberania. Embora seja alvo de discussões polêmicas nas mais diversas teorias sociais e políticas, o Estado constitui uma instituição que desde a era antiga sobrevive, mesmo sofrendo modificações que variam de nação para nação. A denominação Estado vem do latim status e significa estar firme. Ao contrário do governo (conjunto de mecanismos para a tomada e implementação de decisões) que se modifica, é transitório, o Estado possui caráter de permanência, isto é, sua estrutura prevalece. Sônia Kruppa (1994) destaca que o Estado é dividido em três representações, órgãos de administração caracterizados pelo exercício de funções definidas: - Ao poder Executivo destina-se a responsabilidade pela coerção legal; - Ao poder Legislativo destina-se a responsabilidade de editar as leis; - Ao poder Judiciário destina-se a responsabilidade de resolver as demandas jurídicas. Atualmente, o modelo de Estado predominante na sociedade brasileira é o Estado capitalista liberal, que segundo Mariano Enguita (1989) possui como característica marcante uma atuação vertical em busca de produção material. De acordo com a visão liberal, pautada nos 17 princípios do individualismo, da liberdade, da propriedade, da igualdade e da democracia, as representações expostas no parágrafo anterior que compõem a prática do Estado, considerado organizador do poder político, têm por finalidade prover as condições para o livre desenvolvimento das atividades particulares entre os cidadãos individualmente organizados em torno de interesses comuns. Isto significa que sob a ótica da visão liberal o Estado praticante da democracia, não deve intervir nas atividades sócio-econômicas, consideradas restritas à iniciativa privada, a fim de que seja priorizada a liberdade dos indivíduos. A teoria marxista ensina que o Estado é produto da sociedade, manifestado como instrumento da burguesia para exploração do proletariado. Ainda que consiga atuar como “soberano”, regente, poderá ser extinto no futuro, uma vez que é uma criação artificial, idealizada para satisfazer interesses particulares. Quanto ao elemento sociedade, descrito como conjunto de indivíduos, grupos e instituições que se relacionam entre si, interagindo nas mais diversas dimensões, Sonia Kruppa (1994, p. 24) define como sendo “uma situação educativa”, pois a existência humana coletiva que gera convivência entre os homens é condição de educação. As ações desenvolvidas e vivenciadas pelos homens que vivem em condição de sociedade os educam, e ao interagirem, educando-se entre si, os homens formam a sociedade. Anísio Teixeira destaca que uma sociedade é: (...) um complexo grupo humano vivendo do sistema da língua e dos saberes, costumes, hábitos e atitudes comuns, dentro de um quadro de instituições que ligam e corporificam todo esse denso e complexo contexto social. (TEIXEIRA, 1969, p. 16). Esta concepção de sociedade escrita por Anísio Teixeira, assemelha-se com a concepção admitida por Paulo Meksenas (1994) uma vez que, para este a sociedade é formada pelo corpo social, que por sua vez, é composto por instituições sociais que possuem finalidades distintas: o exército, a família, a escola, o Estado, a Igreja, partidos políticos, sindicatos, associações, clubes, instituições privadas, etc. No processo de socialização torna-se fundamental o papel dessas instituições. Os indivíduos organizam a sociedade através da atuação das diferentes instituições sociais, na busca por satisfazer determinadas necessidades. Nesse contexto, cada 18 instituição componente do corpo social possui objetivos próprios diferentes entre si, porém uma depende da outra para que a sociedade se desenvolva em harmonia ou em conflito. Portanto, a sociedade engloba tanto o Estado, quanto a escola, já que ambos compõem o corpo social da mesma. Até aqui foi feita uma descrição e análise individuais dos elementos Escola, Estado e Sociedade, com o objetivo de entendermos quem são e como funciona cada um deles. A seguir, exploraremos a relação entre os mesmos a partir de uma perspectiva capitalista, já que esta influencia o sistema sócio-econômico do qual participa a sociedade baiana, que por sua vez, dispõe da Escola Parque, instituição que serviu como campo de pesquisa para a confecção deste trabalho. A predominância de Aparelhos Ideológicos de Estado, é a influência teórica que utilizamos como base para desenvolvermos nossa abordagem sobre a relação Escola - Estado - Sociedade. O filósofo francês Louis Althusser (1980, p. 43) admite a existência e atuação de Aparelhos Ideológicos de Estado - AIE (escola, família, jurídico, político, sindical e cultural), definidos por ele como sendo: “um certo número de realidades que se apresentam ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas”. Sendo assim, examinando a reprodução das relações de produção que implica na reprodução das formações sociais existentes, Althusser concebe a escola, especializada em educação, como Aparelho Ideológico de Estado a favor da burguesia, isto é, ela atua ensinando certas habilidades ao educando, porém através de meios que viabilizam e reforçam o submetimento do mesmo à ideologia dominante. Concordamos com o autor, e aproximando suas considerações do tema relação escola – comunidade local, percebemos que na sociedade brasileira a primeira atua como Aparelho Ideológico de Estado também junto a esta última, uma vez que, tal relação raramente é exercida de forma emancipadora, o que favorece o propósito de dominação do Estado liberal, já que contribui para o isolamento entre estes dois segmentos sociais tão importantes, resultando no enfraquecimento da sociedade civil. A ideologia é definida por Althusser (1980, p. 69) como “o sistema das idéias, das representações, que domina o espírito de um homem ou de um grupo social”. Por isso, entendemos que existiram e existem ideologias diferentes, que atuaram e atuam em épocas e 19 contextos sociais diferentes, cada qual representando a relação dos indivíduos com suas condições reais de existência, a partir de suas concepções de mundo. Segundo Paulo Meksenas (1994), a teoria marxista que influencia as concepções elaboradas por Althusser, descreve que a ideologia dominante é ao mesmo tempo uma imposição de valores da classe empresarial (dominante) como sendo a única visão correta e aceitável de sociedade, e a consequente tentativa de levar a classe trabalhadora (dominada) a pensar e compreender o meio social no qual vive a partir dos valores e idéias da classe dominante. Este é um fato que repercute consideravelmente quando se trata da relação escola – comunidade local, pois a ideologia dominante que direciona as decisões do Estado sobre a educação, leva a classe trabalhadora a compreender a integração entre estas duas instituições como sendo desnecessária à vida da sociedade, uma vez que, de acordo com a ideologia capitalista o papel da escola pública restringe-se em “preparar” a massa popular para atuar no mercado de trabalho. Sendo a ideologia dominante um sistema de idéias ou representações, Althusser destaca que se trata não apenas de idéias fabricadas, mas que existem e reproduzem-se por meio de práticas materiais, que por sua vez, são definidas, incentivadas e exercidas por instituições materiais, isto é, Aparelhos Ideológicos do Estado, entre os quais destacamos a escola de massa, que tem sua origem a partir do interesse burguês de desarmar o Aparelho Ideológico de Estado religioso. Sobre esta o autor afirma que: (...) Um Aparelho Ideológico de Estado desempenha, em todos os seus aspectos, a função dominante, embora não se preste muita atenção à sua música, de tão silenciosa que é: trata-se da escola. (ALTHUSSER, 1980, p. 64). Isto implica no fato de que a escola, reconhecida na sociedade capitalista como uma importante disseminadora das capacidades e habilidades indispensáveis à sobrevivência do ser humano, “parada obrigatória” para este, constitui o “instrumento” mais eficiente de reprodução das relações sociais, já que nenhum outro Aparelho Ideológico de Estado (a família, a Igreja, a imprensa, os sindicatos, os partidos políticos, o exército, etc.) requer dos indivíduos tantos anos de freqüência obrigatória. Ela é conduzida pelo Estado, que por sua vez, através da mesma consegue exercer um controle oculto sobre a sociedade. Como exemplo disso, expomos a seguir três práticas materiais, ou seja, relações sociais através das 20 quais torna-se possível entender como se dá o fenômeno da relação Escola - Estado Sociedade a partir da atuação do Aparato Ideológico Escolar. No que diz respeito ao primeiro exemplo, Mariano Enguita afirma que: Sem chegar a ser uma instituição total, tem-se, ao menos, uma vontade absorvente e panóptica. Crianças e jovens são mantidos constantemente em interação com o professor e outros agentes da instituição ou sob sua vigilância. (ENGUITA, 1989, p. 158). O objetivo dessa estrutura de convivência não é apenas moldar as dimensões cognitivas do educando, mas também o seu comportamento social e caráter, através da manipulação da sua formação intelectual. Após a família ou a comunidade imediata, a escola é a primeira instituição à qual destina-se a criança, que passa neste ambiente grande parte da sua vida, porém apenas uma pequena parte do tempo dos professores e educandos é remetida à transmissão ou aquisição de conhecimentos, prática esta que depende de liberdade e do exercício de reflexão para acontecer, sendo estes dois fatores não explorados pela instituição escolar que atua orientada por uma mínima visão, interessada apenas em resultados imediatos. A maior parte do tempo é empregada no estabelecimento e manutenção de rotinas medíocres, nada significativas, que prezam por repetições, e são controladas por professores e demais funcionários com o propósito de ensinar e manter a ordem, a pontualidade e o controle tão exigidos ao longo da vida em sociedade, que por sua vez, não admite a prática de caprichos individuais. Como exemplo disso, destacamos que é prioridade para a instituição escolar o rigoroso cumprimento de conteúdos programáticos, horários, regras de fardamento e higiene, porém, a mesma não busca sequer sondar as necessidades de aprendizagem do seu público alvo: o educando não estuda e aprende aquilo que gostaria, o que lhe é interessante, mas aquilo que lhe é imposto como necessário aprender para conseguir sobreviver em sociedade, sendo conduzido a não questionar e criticar os significados, valores, práticas e relações sociais nos quais está envolvido, atuando inclusive como sujeito. Trata-se da prática definida por Mariano Enguita (1989, p. 195) como “a aprendizagem da chateação”, baseada na monotonia. Esta realidade escolar é socialmente construída e preza pelo desrespeito ao saber comum e conhecimento prévio. Ao contrário do que ensina Paulo Freire, tal atuação escolar reprime, sobretudo, o exercício da autonomia necessária para que exista liberdade de pensamentos e decisões na sociedade, duas práticas tão temidas e reprimidas pelo Estado, que desta forma, exerce através do aparato escolar a manipulação da formação intelectual do indivíduo. 21 O segundo exemplo está baseado no seguinte fato que corresponde à realidade do sistema escolar atual, e é destacado por Sérgio Haddad (1985, p. 22): A escola não é uma só. Existem escolas, cada uma atendendo àquilo que os interesses nela envolvidos permitem que se reproduza. (HADDAD, 1985, p. 22 apud KRUPPA, 1994, p. 94). Tomamos por base esta afirmação com o objetivo de mostrar a contribuição da escola para a reprodução da divisão social do trabalho e das classes sociais, ambas permitidas e alimentadas pelo Estado. Destacamos então, a existência de duas redes escolares: uma pública e outra privada, distintas por sua base social e pela hierarquia na divisão social do trabalho à qual conduzem. A herança marxista admite que toda educação é de classe, isto significa que a população não é toda submetida ao mesmo processo de socialização, por isso, comparando o trabalho desenvolvido pela rede privada com o trabalho desenvolvido pela rede pública de ensino, o que verificamos na didática desenvolvida por ambas são alarmantes diferenças como respectivamente: o estímulo à iniciativa frente a prática da repressão, a contextualização do saber frente à aula mecânica, a dissertação frente ao ditado, o incentivo à leitura de livros e o conhecimento de teorias frente ao contato com textos fragmentados, o estímulo à superação individual frente ao trabalho voltado apenas para o coletivo, interpretação e entendimento do problema matemático frente à memorização e prática de cálculos. As formas de ensino praticadas tanto pela rede privada, quanto pela rede pública, produzem efeitos respectivamente opostos: os burgueses (futuros dirigentes da sociedade), enquanto educandos são conduzidos por uma série de métodos didáticos apropriados, a refletirem o abstrato, e aprendem a interpretar, elaborar e praticar a ideologia dominante que lhes assegura uma privilegiada vida material, enquanto que os futuros trabalhadores, aos quais é destinado um conhecimento parcial, disciplinados por uma didática ineficiente, bastante superficial à ponto de comprometer operações intelectuais de raciocínio e interpretação, refletem apenas o concreto e aprendem os pré-requisitos de submissão à ideologia dominante, que na sociedade capitalista lhes assegura uma vida material repleta de privações e fatalidades. São produzidos dois tipos de socialização e cada grupo social deixa a escola com aquele que lhe “capacita” para atuar na vida em sociedade. 22 Entendemos a partir desta realidade, que independente da rede escolar (pública ou privada), através das relações sociais de educação que exerce a escola, esta reflete o modelo de sociedade de classes (empresários e trabalhadores), que por sua vez, é alimentado e mantido pelo Estado, que utiliza a mesma como eficiente disseminadora de suas intenções ocultas, isto é, não explícitas. O terceiro exemplo refere-se especificamente à relação escola – comunidade local, sendo esta última constituída por membros como: sindicatos, associações representantes de bairro, igrejas, além da vizinhança geral da escola, formada também por estabelecimentos comerciais, e indivíduos que mantenham um vínculo direto com a comunidade, sentindo-se, admitindo-se e atuando como parte desta. Na realidade atual das escolas públicas de Salvador a convivência da escola com a comunidade local é marcada pelo isolamento entre ambas, principalmente em áreas consideradas de maior risco como favelas e bairros periféricos, nos quais a violência do tráfico de drogas é mais do que alarmante. Nessas regiões a prática de uma gestão escolar democrática junto à comunidade local não passa de um princípio previsto apenas em lei, mas que na vida cotidiana não é materializado, devido primeiramente ao fato de a instituição escolar adotar uma postura de distanciamento dos moradores, alegando medida de segurança. Agindo assim, a escola reproduz a seguinte ideologia da classe dominante, que por sua vez orienta a atuação do Estado: por viver em condições sociais desfavoráveis a classe popular (dominados) não dispõe de capacidade para participar da gestão de sua própria instituição de ensino. Afirmamos que trata-se de uma ideologia pois, como expomos em detalhes no próximo capítulo, a experiência das escolas comunitárias de Salvador na década de 80, revelanos que as mesmas foram administradas de maneira eficiente a partir do esforço da comunidade local moradora de bairros periféricos como o Calabar, chegando ao ponto de serem reconhecidas oficialmente por órgãos como a Secretaria de Educação e o Governo Estadual, que passaram a vê-las como dignas de méritos. Isto deixa claro que embora vivendo em condições sociais desfavoráveis, a classe popular possui além de capacidade, também grande potencial de organização e discernimento, capaz de levá-la a conquistas como a prática de uma gestão escolar democrática que produza favoráveis transformações sociais. Assim como o educador Paulo Freire, acreditamos que a classe popular mesmo em condições de extrema miséria como a vida em favela, sabe o que quer para si e quer o que é bom, sendo 23 portanto, capaz de superar obstáculos e alcançar objetivos se lhe forem proporcionadas oportunidades para tal. Portanto, concordamos com Althusser, quando o mesmo encaminha o nosso entendimento sobre a relação Escola - Estado - Sociedade para a seguinte conclusão: A escola (pública ou privada) enquanto poderoso Aparelho Ideológico de Estado, atua junto à sociedade através da disseminação e do fortalecimento de ideologias que quando absorvidas e exercidas, garantem as condições para a reprodução das relações sociais necessárias à prática capitalista, que por sua vez, é contrária à emancipação social de muitos, e a favor da formação de analfabetos políticos, que percebam apenas a visão de mundo da classe dominante como correta. Quando a escola localizada em áreas da cidade nas quais a violência é quem “dita as regras”, não busca sequer tentar integrar-se à comunidade local carente, alegando diversos motivos, entre eles a questão da segurança, além do fato de os moradores e frequentadores da região não possuírem amadurecimento filosófico, sociológico e político para tal, está contribuindo diretamente para a disseminação e o fortalecimento da ideologia dominante capitalista, que entre outras idéias ensina que: - a violência deve ser combatida por meio da força e não através da inclusão social, que por sua vez, deveria ser incentivada e exercida também por representantes da sociedade civil como a escola, através da sua integração à comunidade local; - a estrutura de exclusão social fortalecida pelo enfraquecimento intelectual de muitos, na qual está fundamentada a sociedade capitalista é fator natural e irreversível, não adiantando a instituição escolar pública fazer a sua parte, isto é, adotar uma postura de não pré-conceito, mas sim de acolhimento e respeito àqueles considerados menos favorecidos intelectualmente, mas que podem tornar-se o contrário disso, caso lhes sejam proporcionadas condições para tal. Nessa perspectiva concluímos que: a sociedade constrói o Estado, que por sua vez, através da escola, constrói a sociedade, também por meio da forma como a instituição de ensino relaciona-se com a sua comunidade local. 24 1.1 - A ESCOLA NA SOCIEDADE CAPITALISTA O dinheiro utilizado para fazer mais dinheiro chama-se capital, e o que resulta a mais desse emprego de capital é o lucro. Segundo Gaudêncio Frigotto (1993) capitalismo é o sistema econômico-social que não tem por objetivo satisfazer necessidades humanas, mas produzir para o lucro. Não trata-se apenas de uma forma de ser da economia, mas também de uma forma de organização da sociedade que conserva em condições diferentes os que detêm o capital e os que trabalham para produzilo. Com o desenvolvimento do comércio e o aumento da produção no final da Idade Média, os comerciantes que viviam em burgos ou cidades, e por isso, eram chamados burgueses, compravam mercadorias a preços baixos e vendiam as mesmas por preços muito altos. Dessa forma, passaram acumular riquezas (lucro) e aplicar no próprio comércio e em pequenas indústrias, que aumentavam seu lucro. Assim nasceu o capitalismo. A sociedade capitalista é aquela originada a partir da evolução do mundo agrário-feudal para o mundo urbano-industrial, constituída pelas classes fundamentais (burguesia – dona dos meios de produção e proletariado – dona apenas da sua força de trabalho), caracterizada por relações sociais de produção da existência antagônica. A partir da Teoria do Capital Humano que é explorada por Frigotto, e representa a forma pela qual a visão burguesa pautada por um método positivista reduz a prática educacional a um “fator de produção”, desenvolveremos a seguir, a nossa visão sobre o que representa e como funciona a escola na sociedade capitalista. Segundo o autor (1993, p. 41) o capital humano, ou recursos humanos é: “(...) o montante de investimento que uma nação faz ou os indivíduos fazem, na expectativa de retornos adicionais futuros”. Sendo assim, a prática educativa escolar é considerada um investimento como qualquer outro empregado na busca por lucro, pois atua como produtora da capacidade de trabalho tão necessária à manutenção e sobrevivência da sociedade capitalista. 25 O avanço e a natureza do pensamento econômico na educação reduz a escola a uma fábrica, e a prática educativa a uma mera relação técnica, de caráter nada emancipador. A consequência de se encarar a escola apenas sob o ponto de vista técnico minimiza, ridiculariza esta instituição que passa atuar contrária a uma perspectiva emancipatória, alimentando as graves desigualdades que sustentam o sistema sócio-econômico capitalista, que por sua vez, são contrárias aos interesses da classe trabalhadora, que carece de iniciativas como a integração da instituição de ensino à sua comunidade local. Sobre isso o autor afirma que: A ação pedagógica, a prática educativa escolar reduzem-se a uma tecnologia educacional cuja função precípua é ajustar requisitos educacionais a pré-requisitos de uma ocupação no mercado de trabalho de uma dada sociedade. Trata-se da perspectiva instrumentalista e funcional de educação. (FRIGOTTO, 1993, p. 16). Apesar dessa grave realidade, a burguesia, detentora dos meios de produção que regem a sociedade capitalista, alimenta a ideologia de que é possível atingir igualdade econômica e social, investindo-se somente no capital humano (através de um treinamento escolar), sem abalar as estruturas geradoras das desigualdades, que para serem modificadas precisam de uma intervenção social baseada na atuação do Estado e na participação cidadã de um povo, participação esta que depende da prática de uma educação emancipadora para acontecer, o que inclui o efetivo envolvimento da comunidade local na vida cotidiana da escola, inclusive através de práticas desafiadoras como a gestão democrática. Como agravante da ideologia apontada acima, expomos o fato de que o trabalho na sociedade capitalista passa por um movimento histórico de submissão ao capital, ou seja, o trabalhador é obrigado a atuar como um mero executor da sua função, desconhecendo a concepção de produção e de seu instrumento de trabalho. Trata-se de uma situação de dominação intelectual combatida por autores humanistas como Gramsci. A esse respeito Frigotto reflete: Se o objetivo do capital é reduzir todo trabalho complexo a trabalho simples, e se isto implica uma desqualificação crescente do posto de trabalho, para a grande maioria, como poderia a sociedade do capital pensar elevação da qualificação para a massa trabalhadora? (FRIGOTTO, 1993, p. 26). Através dessa tese, Frigotto denuncia o fato de que a escola na sociedade capitalista possui como combustível as necessidades de um mercado de trabalho, que por sua vez, preza por 26 trabalhadores alienados, desconhecedores de si e do meio produtivo no qual atuam. O processo de produção do saber que deveria prezar pelo pensar e refletir sobre as condições histórico-sociais das quais origina-se, tende a reduzir-se a uma transmissão de um “ pacote de conhecimento” pré-programado, nada emancipador e, que atende apenas aos interesses do capital. Na prática, a escola pública brasileira preza pelo cumprimento de conteúdos programáticos dos quais não participa da escolha, já que os mesmos são pré-determinados por órgãos como o Ministério de Educação, e atendem às demandas do mercado de trabalho, mas não às necessidades dos educandos, que por sua vez, ao estudar Geografia são obrigados a memorizar números, isto é, todos os estados e as capitais brasileiras, enquanto permanecem ignorantes sobre a organização social e política das cidades e comunidades nas quais vivem. No que diz respeito à relação da escola pública com a comunidade local, por não ser de interesse da classe dominante que a mesma aconteça, tanto o Ministério, quanto as Secretarias de Educação não desenvolvem incentivos que viabilizem essa prática cidadã. A escola é o Aparelho Ideológico de Estado que serve para transformar o caráter através de operações que produzem efeitos coercitivos nos indivíduos, e consequentemente na sociedade. Capacitar as pessoas para atuarem no mercado de trabalho é uma prática que vai muito além de ensiná-las a serem competentes na execução de funções inerentes ao posto de trabalho, supõe também modelar o caráter dos educandos, sufocando a iniciativa e a individualidade de cada um, a fim de que tornem-se dispostos a aceitar normas de conduta necessárias ao desempenho de um emprego. Na prática, os educandos são recompensados por se submeterem aos professores e não criticarem as tarefas exigidas, renunciarem a sua criatividade, além de demonstrarem um raciocínio conduzido intelectual e não emocionalmente. Destacamos sobre a domesticação da classe trabalhadora praticada pela escola a seguinte afirmação feita por Tyack: Quando os educadores argumentavam que o trabalhador educado era um empregado melhor, isto não significa simplesmente que soubesse ler as instruções ou que estivesse menos inclinado a beber uísque ou a entrar em greve; significava também, na realidade, que havia sido adequadamente socializado nas novas formas de produção, adaptado à hierarquia, à neutralidade afetiva, às exigências específicas de papel e aos incentivos extrínsecos com relação ao rendimento. (TYACK, 1974, p. 73 apud ENGUITA, 1989, p. 144). A idéia de submissão que norteia a fala acima é também identificada quando se trata da integração escola – comunidade local: os trabalhadores educados pela escola atuante sob uma 27 perspectiva capitalista, não são incentivados a desenvolverem um senso crítico que os capacite enxergar os benefícios sociais que podem ser alcançados à partir dessa integração, a exemplo da gestão escolar democrática, chegando ao ponto de os mesmos não exigirem do poder público as condições necessárias para o desenvolvimento de mais este direito garantido por lei, porém negado na prática. A partir da realidade exposta no parágrafo anterior, entendemos que a escola na sociedade capitalista, corresponde a este modelo econômico e social, isto é, serve ao capital e não aos indivíduos. O capitalismo embora não recuse o direito à escola, opõe-se a modificar a função social da mesma, à fim de que não venham acontecer práticas emancipadoras como a participação direta da comunidade local no processo de organização e funcionamento da instituição de ensino, e consequentemente da educação que lhe é oferecida. É o medo que a classe dominante e opressora tem de que a escola pública venha tornar-se de fato pública, regida não por propósitos gerais, vindos do “alto” – Estado, mas por interesses locais estabelecidos por quem de fato sabe do que necessita – A Comunidade local, formada pela massa popular. Para o capitalismo a operação fundamental executada pela escola é a aplicação ao trabalho: ajustar requisitos educacionais às necessidades do mercado de trabalho nos diferentes setores da economia. Sendo assim, o processo de escolarização é manipulado a fim de que as crianças, adolescentes, jovens e adultos alcancem não o conhecimento, mas os modos de pensar, normas sociais e princípios de conduta, que alimentem e conservem o sistema social capitalista. Entre as normas sociais às quais nos referimos, identificamos na atual prática escolar o exercício da frequência obrigatória, do silêncio e do cumprimento de horários. Quanto aos princípios de conduta, destacamos a não resistência às tarefas impostas em sala de aula, e o respeito que os educandos são ensinados a exercer ao longo das relações com autoridades e hierarquias (direção, vice-direção, coordenação, professores, demais funcionários, etc.). As considerações realizadas ao longo deste parágrafo estão baseadas na seguinte afirmação feita por Parsons (1976, p. 229): “O sistema escolar é um microssomos do mundo do trabalho adulto (...)”. (PARSONS 1976, p. 229 apud ENGUITA, 1989, p. 138). Sendo assim, a escola atuando como um microssomos do mundo do trabalho adulto contribui para a reprodução da divisão social deste e das classes sociais, através também do incentivo ao individualismo e à competitividade. Ambos são estimulados na sala de aula através dos 28 processos de avaliação, que possuem como finalidade fazer com que o indivíduo aceite passivamente ser objeto de classificação, e a partir dos quais são atribuídas notas e certificações que categorizam os educandos, tanto individual, quanto coletivamente. Aqueles (educandos e equipes) que obtêm as melhores notas são reconhecidos e aclamados pelos professores como os melhores, mais produtivos, que devem inclusive ser vistos pelos demais como um exemplo a ser seguido. Processos de auto-avaliação que visam o superar a si mesmo, suas próprias limitações e dificuldades não são incentivados, mas sim o superar o outro, ter no mínimo o desempenho que os outros têm é o que importa. Em outras palavras, o educando é incentivado a ver o sucesso do outro como seu fracasso, e o fracasso do outro como o seu sucesso. Individualismo e competitividade: dois valores respectivamente contrários à solidariedade e cooperação, estimulados pela escola e obrigatórios para o sucesso na manutenção do mercado de trabalho capitalista, já que ambos geram rivalidade entre aqueles que disputarão de maneira destrutiva as vagas de emprego. Como agravante desta realidade, destacamos que independente do resultado (êxito ou fracasso do indivíduo), a escola responsabiliza apenas o educando, futuro trabalhador, pelo sucesso ou fracasso social que o mesmo vivenciará ao longo da sua trajetória. A instituição escolar não busca avaliar-se, reconhecer-se como também responsável pelos resultados. É como se a todos fossem dadas as mesmas oportunidades, mas nem todos soubessem aproveitá-las, e as relações sociais de poder e dominação não influenciassem diretamente no modo de produção da existência de cada um. A esse respeito Mariano Enguita destaca que: Finalmente, a escola contribui para que os indivíduos interiorizem seu destino, sua posição e suas oportunidades sociais como se fossem sua responsabilidade pessoal. Assim, os que obtêm as melhores oportunidades atribuem-nas a seus próprios méritos e os que não as obtêm consideram que é sua própria culpa. As determinações sociais são ocultadas por detrás de diagnósticos, legitimados e sacralizados pela autoridade escolar. (ENGUITA, 1989, p. 193). Esta citação denuncia de fato uma situação que preza pelo desumano! Entre as determinações sociais às quais Enguita refere-se na fala acima e que são ocultadas pela escola, destacamos a desqualificação do trabalho escolar, materializada na forma de um ensino apenas técnicoprofissional, forçado e improdutivo, desprovido do político e do social, que constitui um importante fator, a fim de que mais trabalhadores sejam “formados” e estejam disponíveis ao sistema capitalista, como matéria-prima para a geração de mais-valia. Disciplinas como História, Geografia e Literatura, que poderiam ser desenvolvidas em sala de aula prezando por 29 conteúdos e abordagens de cunho político, filosófico e sociológico, que por sua vez, favorecem o desenvolvimento crítico do educando, são reduzidas a meros conteúdos programáticos, obrigatórios em processos seletivos como o vestibular, e que são abordados pelos educadores de forma mecânica, nada atraente, contribuindo assim, para a formação de analfabetos políticos. Tanto Frigotto, quanto Enguita consideram que atuando dessa forma, a escola exerce o papel de mediadora no processo de acumulação capitalista através de sua ineficiência, isto é, nega ao educando da classe trabalhadora o acesso ao saber elaborado, qualificado, transformando-o em um analfabeto político e impossibilitando o mesmo de conhecer, entender e agir contra a predominância das desigualdades sociais. Nesse contexto, a integração da instituição de ensino à sua comunidade local é considerada algo dispensável, já que não contribui para a prevalescência da ideologia capitalista. Sendo assim, a escola torna-se improdutiva para o trabalhador e produtiva para o capitalismo. Como medida de solução para a abominável realidade que expomos no parágrafo anterior, motivo de concordância entre Frigotto e Enguita, Paulo Freire em seu livro “EDUCAÇÃO E MUDANÇA” (1979, p. 48) declara: “a estrutura social é obra dos homens, e que, se assim for, a sua transformação será também obra dos homens”. Além de concordarmos com Freire, nos animamos por entendermos a partir dessa sua declaração que o fato de a escola atuar na sociedade capitalista a favor desse sistema sócio-econômico e contra os cidadãos, constitui uma estrutura social não definitiva, mas sim passível de mudanças e transformações que para acontecerem dependem principalmente do interesse e iniciativa da instituição escolar que é formada, mantida e atua através de homens. Isto significa que existe solução para o fato de a escola atuar condizente apenas com as necessidades do mercado de trabalho. Para tanto, é necessário que a mesma substitua a visão fatalista que sustenta diante da realidade social capitalista, por uma visão esperançosa e crítica, capaz de conduzir a transformações, como uma integração emancipadora à comunidade local. Iluminados pela visão esperançosa de Paulo Freire, elaboramos e expomos a seguir, uma lista de atribuições na qual destacamos como solução para o problema da escola na sociedade capitalista servir às demandas deste sistema social e não ao cidadão, que é necessário esta instituição: 30 - passar a ver os educandos como “pessoas”, “sujeitos” e não como meros objetos, números estatísticos, passíveis de manipulação; - tratar o trabalho não apenas como uma ocupação remunerada, ou emprego, mas admitir que o trabalho é uma relação social que expressa a forma pela qual os homens produzem sua existência; - desenvolver uma prática educacional que explore em sala de aula estudos envolvendo o político, o social, o filosófico e o ético; - não temer a liberdade, não manipular, mas incentivar a comunicação; - tratar o mercado de trabalho como princípio pedagógico, buscando iluminar intelectualmente os futuros trabalhadores, a ponto de os mesmos não atuarem somente como receptores de ordens, mas como agentes capazes de interagir, manifestando inclusive, opinião e atitudes contrárias aos propósitos burgueses; - resgatar e valorizar os interesses da classe trabalhadora, através da revelação da natureza real das relações de produção de desigualdade; - mostrar a gênese da produção do desemprego ou subemprego que prejudica contingentes cada vez mais elevados de trabalhadores formados pelo ensino superior, mas que não encontram vaga no mercado de trabalho; - excitar e desenvolver a consciência crítica da classe trabalhadora a fim de que a mesma possa organizar-se, buscando superar as relações sociais vigentes; - respeitar a comunidade local a ponto de enxergá-la não como uma mera consumidora de serviços educacionais, mas como membro importante da sociedade civil, capaz de contribuir na busca de transformações sociais; - superar desafios como a indiferença e as adversidades, buscando integrar-se à comunidade local que atende, visando acima de tudo uma interação fundamentada no respeito e colaboração entre ambas, capaz de gerar parcerias produtivas. Para tanto, a escola deve chegar ao ponto de exigir do poder público a ajuda necessária; - permitir a participação da comunidade local em conselhos escolares ou equivalentes, a fim de que a mesma conheça melhor como funciona a instituição escolar; - incentivar a prática de uma gestão escolar democrática, que conte inclusive com a efetiva participação da comunidade local, uma vez que, a mesma já contribui indiretamente para a existência e funcionamento da instituição de ensino. A esse respeito, concordamos com Frigotto (1993, p. 28) que considera: “(...) à classe trabalhadora interessa uma escola que lhes dê acesso ao saber historicamente produzido, 31 organizado e acumulado”. Nesta direção, entendemos que quanto mais eficaz for a escola na sua tarefa de transmitir o conhecimento historicamente sistematizado, este atuará como instrumento contrário aos interesses do capital, e a favor de práticas escolares emancipadoras como a integração escola – comunidade local. A escola na sociedade capitalista, alvo de uma disputa de interesses antagônicos e detentora de potencial político, precisa atuar explorando a revolucionária herança teórica marxista, que preza inclusive pelo estabelecimento de uma forte aliança entre escola e comunidade local, a fim de iluminar a tarefa de articulação do trabalho escolar aos interesses da classe trabalhadora, seu público alvo, até então fortemente discriminado. 32 1.2 - A ESCOLA EM UMA PERSPECTIVA EMANCIPATÓRIA A escola em uma perspectiva emancipatória é, sobretudo, o sonho compartilhado por homens como Antonio Gramsci e Paulo Freire, que embora tenham vivido em épocas e contextos sociais diferentes, coabitaram no propósito de verem esta instituição atuando de forma dialógica e libertadora, tendo como base o humanismo e a dialética marxista, na busca por transformação social. Trata-se de uma escola atuando sob uma perspectiva humanista e questionadora, pois seu objetivo é desenvolver no indivíduo humano a capacidade fundamental de pensar e agir como sujeito da sua vida. A afirmação feita no parágrafo anterior, em outras palavras, significa que a escola atuante em uma perspectiva emancipatória, exerce exatamente o contrário da atuação escolar descrita por nós no item 1.1 deste trabalho: A escola na sociedade capitalista, isto é, atuante de acordo com a Teoria do Capital Humano. Para Gramsci (1995, p.118) trata-se de uma “(...) escola “desinteressada” (não imediatamente interessada) e ´formativa’”. A expressão “desinteressada” não é utilizada no sentido pejorativo, mas contrapõem-se ao significado de medíocre, imediatista, interesseira, rebaixada, individualista, de mínima visão. A expressão “formativa” é empregada no sentido de comprometida, libertadora, de ampla visão. Nesse sentido, ao contrário do que pretende a escola sob a perspectiva capitalista, explorada na Teoria do Capital Humano, a escola proposta por Gramsci deve “preparar” o indivíduo (trabalhador), para participar da vida política não apenas visando melhores salários, mas visando, sobretudo, a plenitude do exercício da democracia, que transcende qualquer valor de caráter material. O italiano Gramsci, que viveu tanto o contexto histórico da Primeira Guerra Mundial, quanto do predomínio do Regime Fascista na Itália, sendo contrário a ambos acontecimentos, discorda da escola tradicional, autoritária e doutrinária, que reprime, sobretudo, a liberdade de expressão fundamental ao indivíduo. Por outro lado, ele também discorda da escola moderna que faz do industrialismo seu princípio pedagógico, objetivando apenas preparar o aluno para o mercado de trabalho de forma exclusivamente profissionalizante, técnica e imediatista, contrária a uma formação intelectual de caráter reflexivo. Concordamos com ele, pois, a 33 escola tradicional, contrária à dialogicidade1, foi eficiente apenas em sociedades antiquadas, e o trabalho industrial é um princípio pedagógico, devendo ser por isso, valorizado como um momento educativo, capaz de gerar preciosos frutos, entre eles, a liberdade. Articular a formação profissional com a formação humanista é a essência da escola que visa de fato a “formação” e não a mera instrução do indivíduo. Conforme cita Gramsci: (...) A crise terá uma solução que, racionalmente, deveria seguir esta linha: escola única inicial de cultura geral, humanista, formativa, que equilibre equanimente o desenvolvimento da capacidade de trabalhar manualmente (tecnicamente, industrialmente) e o desenvolvimento das capacidades de trabalho intelectual. (GRAMSCI, 1995, p. 18). A citação acima faz reflexões sobre a importância de se articular a finalidade material incorporada pela escola (quando trata-se de preparar o educando para atuar no mercado de trabalho, seu gerador de renda) à sua finalidade filosófica (preparar para a vida) que por sua vez, é expressada também através da vida material. Antes se formar-se trabalhador, o educando é homem, possui também um espírito que predomina em sua existência, por isso, não deve ser submetido a uma formação exclusivamente técnica (visando o benefício material apenas), sendo esta capaz de castrar-lhe os sonhos. Percebe-se na atualidade vivida pela sociedade baiana que a escola única, com características humanistas, é uma necessidade social urgente, pois a crise moral e ética, alimentada inclusive pelo Estado, assola a sociedade global e por isso, precisa ser superada, já que resulta diretamente na crise do desemprego e da violência que prejudica a qualidade de vida também do povo baiano. Isto prova que é importante a escola capacitar o indivíduo para o exercício profissional, já que trata-se de uma necessidade de sobrevivência humana, mas não adianta a escola “preparar” o indivíduo somente para o exercício profissionalizante, pois, não existe nem mesmo um mercado de trabalho amplo e digno para absorvê-lo. Diante dessa grave realidade, se faz necessária a adoção por parte da instituição escolar em seu cotidiano de práticas políticas como a integração desta à comunidade local, pois agindo assim, a escola estará prezando por valores humanistas como a responsabilidade, abrindo mão de atuar como um mero Aparelho Ideológico de Estado. 1 Trata-se do diálogo nascido na prática da liberdade, enraizado na existência e comprometido com a vida que se historiciza em seu contexto. De acordo com pressupostos freirianos é a ação e reflexão de educandos e educadores sobre a prática pedagógica realizada, que combate a imposição, estimulando a prática dialética. 34 Segundo Paolo Nosella, no contexto italiano de 1916, predominava uma densa discussão entre os que defendiam a escola profissionalizante (vereadores liberais) e os que defendiam a escola desinteressada (vereadores socialistas), caracterizada por ser uma instituição que atua contrária ao “adestramento” do educando. Diante desse contexto Gramsci manifesta seu pensamento: Para o proletariado é necessária uma escola desinteressada. Uma escola que dê à criança a possibilidade de se formar, de se tornar homem, de adquirir aqueles critérios gerais necessários para o desenvolvimento do caráter. Uma escola humanista, em suma, assim como a entendiam os antigos e mais próximos homens do Renascimento. Uma escola que não hipoteque o futuro do garoto, nem obrigue sua vontade, sua inteligência, sua consciência e informação a se mover na bitola de um trem com estação marcada. Uma escola de liberdade e livre iniciativa e não uma escola de escravidão e de mecanicidade. Também os filhos dos proletários devem ter diante de si todas as possibilidades, todos os campos livres para poder realizar sua individualidade de forma melhor, e por isso no modo mais produtivo para eles e a coletividade. A escola profissional não pode se tornar uma encubadeira de pequenos monstros mesquinhamente instruídos para um ofício, sem idéias gerais, sem cultura geral, sem alma, possuidores apenas de um olhar infalível e de uma mão firme. (GRAMSCI, 1916, p. 283 apud NOSELLA, 1992, p. 20). Uma escola atuante segundo o espírito Renascentista como deseja o autor, preza por princípios como: cultura, liberdade, iniciativa, criatividade, emoção, etc. O homem renascentista é caracterizado como detentor de elevada cultura, capaz de refletir sobre idéias teórico-políticas através da convivência popular, não é soberbo e nem mesquinho, é humilde, devendo ser, por isso, o ideal de formação da escola, que por sua vez, precisa ter como foco principal tanto o individual, quanto o coletivo. Formar homens e mulheres renascentistas é impossível, pois o contexto histórico-social do renascimento é bastante diferente do contexto histórico-social vivenciado hoje, mas a essência do Renascimento, o melhor do seu espírito, expresso na segunda linha deste parágrafo, pode e deve ser explorado pela escola pública, que embora enfrente grandes desafios como a desvalorização do seu trabalho por parte das comunidades escolar e local, precisa servir de exemplo para ambas, alimentando e cultivando valores que despertem nas duas o interesse por valorizá-la. Além disso, a grande maioria dos educandos, provenientes de uma precária estrutura familiar (desprovida da mínima base ética e material para viver dignamente), não recebem ajuda intelectual fora da escola, sendo assim, esta é a principal responsável pela educação dos mesmos. Isto implica no fato de que se a escola não ensinar através do melhor espírito Renascentista, estes educandos não poderão 35 conhecer e praticar a liberdade, a iniciativa e a criatividade. Nesse contexto, se a instituição escolar não explorar o potencial que possui o exercício da interação com a comunidade local, estará desperdiçando uma excelente oportunidade de conhecer mais e melhor quem é o seu educando, o que inviabiliza o desenvolvimento de um trabalho contextualizado. Ensinar valorizando e incentivando a cultura do aluno como almeja tanto Gramsci, quanto Paulo Freire é uma prática pouco exercida pela escola pública, mesmo sendo um fator essencial na transmissão de conhecimento, pois ela traz vida ao ato educativo, potencializando-o e diferenciando-o de uma mecânica transmissão de informações. Trata-se de um pré-requisito para que a escola tenha sucesso na busca por uma educação emancipadora, pois está baseado no princípio de conhecer a si mesmo e aos outros, de forma prazerosa, atraente e cativante. Como exemplo disto Gramsci aborda: Na velha escola, o estudo gramatical das línguas latina e grega, unido ao estudo das literaturas e histórias políticas respectivas, era um princípio educativo na medida em que o ideal humanista, que se personifica em Atenas e Roma, era difundido em toda a sociedade, era um elemento essencial da vida e da cultura nacionais. Inclusive a mecanicidade do estudo gramatical era vivificada pela perspectiva cultural. As noções singulares não eram aprendidas visando-se a uma imediata finalidade práticoprofissional: esta finalidade não se revelava, pois o que contava era o desenvolvimento interior da personalidade, a formação do caráter através da absorção e da assimilação de todo o passado cultural da civilização européia moderna. Não se aprendia o latim e o grego para saber falar estas línguas, para servir de camareiro, de intérprete ou de correspondente comercial. Aprendia-se a fim de conhecer diretamente a civilização dos dois povos, pressuposto necessário da civilização moderna, isto é, a fim de conhecer conscientemente a si mesmo. (GRAMSCI, 1995, p. 133). Eis aí um princípio essencial: o ensino culturalmente contextualizado pode não ser a solução para todos os problemas quando se trata de educação, mas contribui para a vivificação tanto do ato de ensinar, quanto do ato de aprender. Entre os significados da palavra cultura, encontrados no Dicionário Aurélio (1977, p. 135) estão: “o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores transmitidos coletivamente, e típicos de uma sociedade; civilização”. A escola ao buscar explorar de maneira responsável em seu ambiente esse complexo, através de elementos como: história, música, língua, dança, artes e literatura de um povo, isto é, ensinar e aprender através deles, contribui para que educadores e educandos sejam motivados associar a teoria aprendida à realidade cultural herdada, que reproduzem e que vivem. Para isso, se faz necessário que a escola busque 36 aproximar-se da sua comunidade local, esforçando-se para conhecê-la e entendê-la, respeitando-a e assumindo-a como princípio pedagógico que deve ser explorado em sala de aula, na busca por tornar significativa a aprendizagem dos educandos, que devem ser conduzidos a aprender mais sobre si mesmos. Isto torna os atos de ensinar e aprender atraentes e significativos, sem esquecer de que problemas graves que atingem a comunidade local, a exemplo da violência e doenças podem ser explorados pela escola, na busca por combatê-los e minimizá-los. Ao contrário, a escola ao menosprezar a cultura da comunidade local, não praticando sua exploração e valorização, torna este ambiente desagradável, pouco fecundo aos olhos de educadores e educandos, que o vêem única e exclusivamente como um local que serve apenas para cumprimento de obrigações, uma estrutura física sem espírito, sem vida, incapaz inclusive, de acrescentar algo a mais às suas vidas, além da formação de Ensino Médio, exigida pelo mercado de trabalho. Trata-se um exemplo prático de predomínio do pragmatismo. Sobre isso, Gramsci é bastante radical: Assim como nas instituições de vulgar beneficiência, eles na escola distribuem sacolões de alimentos que enchem o estômago, produzindo indigestões, sem deixar algum sinal ou algum germe de nova vida, de vida diferente. GRAMSCI, 1916, p. 284 apud NOSELLA, 1992, p. 21). Ao contrário da prática escolar exposta na citação acima, o ato educativo proposto tanto por Gramsci quanto por Paulo Freire é orgânico, ou seja, possui e produz vida. Nesse sentido, a escola não atua como uma produtora em série, mas como uma orientadora na busca pelo conhecimento e desenvolvimento crítico, ambos incentivados a partir de um ensino que leva em consideração a realidade da comunidade local na qual habita e frequenta a maior parte dos educandos atendidos pela instituição. Na prática, isto significa que o educando é incentivado a interagir, refletir sobre a teoria, e concordar ou não com aquilo que lhe apresentado pela escola como sendo a verdade, fazendo inclusive comparações entre a realidade local vivida diretamente por ele, e a realidade nacional da qual também faz parte. Trabalhar explorando a cultura do público externo não de forma mecânica, mas de maneira orgânica é uma prática fundamental também quando se visa a integração escola – comunidade local, pois esta última de maneira específica é composta por indivíduos que além de uma formação técnica, possuem também uma formação constituída por aspectos históricos, sociais, 37 filosóficos, espirituais, religiosos e artísticos, isto é, valores culturais, que precisam ser considerados. Sobre a prática de descobrir o conhecimento, Gramsci é a favor de uma escola que trabalhe sob a perspectiva do método historicista, que vivifica e recria a ciência, atuando de maneira contrária ao método enciclopédico, caracterizado por inibir a recriação o questionamento, e o livre entendimento. Ele visa ao longo da formação escolar a prática do incentivo à autoreflexão, com o objetivo de fazer o educando sentir-se capaz de descobrir o conhecimento por si mesmo e não apoderar-se somente de idéias já prontas, concluídas e ensinadas como verdades absolutas. Neste sentido, o autor considera que: (...) Deve-se convencer a muita gente que o estudo é também um trabalho, e muito fatigante, com um tirocínio particular próprio, não só muscularnervoso mas intelectual: é um processo de adaptação, é um hábito adquirido com esforço, aborrecimento e mesmo sofrimento. (GRAMSCI, 1995, p. 139). Importa destacar que a citação acima reflete dois dos aspectos mais essenciais da formação proposta por Gramsci: a liberdade do indivíduo na busca pelo conhecimento e o esforço próprio necessário para alcançá-lo. Conhecer é descobrir e construir, e não copiar. Ao contrário da escola jesuítica, que apresenta o conhecimento como algo definitivo e indiscutível, expandindo dogmas, a escola atuante sob uma perspectiva humanista reconhece que o conhecimento só pode ser produtivo, quando se faz um esforço pessoal para conquistálo. É preciso que cada mente viva as excitações que foram vividas pelo estudioso antes da descoberta, para se chegar a uma conquista de valor indiscutível. O ato de recriar beneficia o aluno na busca pelo aprendizado das informações enciclopédicas. Esse é para Gramsci o único método vivo. Tal prática envolve não somente o raciocínio do educando, mas também o trabalho do educador que precisa reconhecer a importância daquilo que ensina e valorizar o processo de aprendizagem do seu público alvo. Enfim, o ensino conduzido dessa forma, deixa de ter características medíocres, pragmáticas, inconsistentes, e passa atuar como uma prática que leva o sujeito à libertação. Sendo assim, Gramsci afirma: (...) Esse reapresentar em ato para os ouvintes a seqüência dos esforços, dos erros e das vitórias pelos quais os homens passaram para alcançar o conhecimento atual é bem mais educativo do que a exposição esquemática desse mesmo conhecimento. Isso forma o estudioso; isso lhe dá a elasticidade da dúvida metódica que faz do amador um homem sério, que purifica a curiosidade (entendida no sentido singular) e a torna um estímulo 38 sadio e fecundo do conhecimento cada vez maior e mais perfeito. (GRAMSCI, 1916, p. 284 apud NOSELLA, 1992, p. 21-22). Deste modo, um educador que abre mão do emprego da prática emancipadora exposta na afirmação acima, desperdiça a rica oportunidade de instigar no educando o interesse pelo trajeto percorrido por outros na busca pelo conhecimento. Tal trajeto precisa ser conhecido e analisado pelo educando, a fim de que ele perceba que outros homens também passaram por desafios e dificuldades, mas não desistiram do seu objetivo, deixando como resultado de sua experiência preciosas descobertas à disposição da humanidade. Além disso, descobrir os erros cometidos por outros no trajeto da busca pelo conhecimento, pode levar o educando a não cometê-los ao longo do seu percurso individual. Quanto à postura do educador que não ministra seu trabalho sob uma perspectiva humanista, Gramsci destaca: (...) Na realidade, um professor medíocre pode conseguir que os alunos se tornem mais instruídos, mas não conseguirá que sejam mais cultos; ele desenvolverá com escrúpulo e com consciência burocrática a parte mecânica da escola, e o aluno, se for um cérebro ativo, organizará por sua conta e com a ajuda do seu ambiente social a “bagagem acumulada”. (GRAMSCI, 1995, p. 132.). Diante dessa afirmação fica claro que ensinar é inserir-se no contexto do educando: não é só estar presente na sala de aula, mas atuar em um contexto mais amplo, a exemplo do ambiente social constituído pela comunidade local. A artificial orientação praticada por professores humilha o aluno e é uma prática que deve ser combatida se objetivo da escola for a emancipação do mesmo, pois até os métodos de ensino mais valorizados passam a ser inválidos quando falta no seu emprego o toque pessoal do educador, capaz de torná-los atraentes e significativos para os que deles se valem. Para tal, torna-se fundamental o envolvimento do educador com a comunidade local, a fim de conhecer mais sobre a realidade da maioria dos educandos, e utilizá-la como referência para a elaboração de aulas contextualizadas e por isso, mais significativas. Ainda sobre os dois aspectos mais essenciais da formação proposta por Gramsci, isto é, liberdade e esforço próprio, entendemos que os mesmos são também os mais essenciais 39 quando se trata de desafios como: a escola integrar-se à sua comunidade local, buscando manter com esta uma relação emncipadora, baseada em princípios de respeito, responsabilidade, cooperação, solidariedade e participação inclusive na gestão escolar. É necessário que a escola pública brasileira, atenta para o que isto representa, disponha de liberdade para escolher e apropriar-se da forma mais adequada de aproximar-se e relacionarse com sua comunidade local, uma vez que, em um contexto social formado por escolas e comunidades locais diferentes entre si, embora participantes de uma mesma rede de ensino (pública), não adianta o poder público estabelecer obrigatoriamente um modelo único de aproximação e relação entre ambas, pois este, por se tratar de uma regra inflexível não irá contemplar ao mesmo tempo as necessidades de todos. Além disso, se faz necessário que a instituição de ensino busque com esforços próprios alcançar a superação do desafio que pode representar uma aproximação entre escola e comunidade local. Como exemplo disso, destacamos na realidade brasileira o contexto social caótico no qual vivem e atuam escolas públicas localizadas próximas a favelas e áreas consideradas de risco, nas quais práticas como violência e prostituição são predominantes, chegando ao ponto de parecer não haver solução. Paolo Nosella (1992) ressalta que educar a partir do contexto vivido pelo trabalhador e não exclusivamente de doutrinas enciclopédicas, educar com base no historicismo e não em qualquer mecânica aula de história, visando sobretudo, a liberdade concreta é a alma da concepção educativa de Gramsci, que cria em 1920 na Itália o Ordine Novo2, uma escola atuante a favor dos socialistas, que por sua vez, visam uma relação escola-trabalho na qual fique clara a idéia de que os trabalhadores (operários) vão à escola para viverem uma iluminação intelectual: entender mais profundamente seu ambiente de trabalho (fábrica), seu instrumento de trabalho e sua organização produtiva, numa perspectiva histórica, universal e política. Assim, a escola passa a existir como “escola-trabalho”, isto é, uma instituição educativa influenciada diretamente pelo exercício da profissão, que passa a ser desenvolvida de forma humanizada e potenciada, através de trabalhadores iluminados intelectualmente. Quanto a isso, bastante otimista, Gramsci escritor, jornalista, pensador e militante político, afirma: 2 O Ordine Novo foi escola criada a partir dos princípios defendidos pelo grupo partidário de Gramsci, chamado “Ordine Novo”. Gramsci e seus companheiros socialistas criaram a Revista Ordine Novo no contexto do pósguerra, preocupados em divulgar os reais problemas da revolução italiana, incentivada principalmente pelo fato de os soldados que combateram na Primeira Guerra, voltaram para casa em sua maioria, mutilados e precisando de ajuda, porém não foram apoiados pelo Estado, restando-lhes apenas a revolta e a indignação que tomaram conta da Itália na forma de greves, invasões de terras e manifestações de descontentamento que constituíram o cenário social daqueles anos. 40 A nossa escola é viva porque vocês, operários, levam a ela a parte melhor de vocês, aquela que o cansaço da oficina não pode enfraquecer: a vontade de se tornarem melhores. Toda a superioridade de sua classe, neste turvo e tempestuoso momento, é evidenciada nesse desejo que anima uma parte sempre maior de vocês, o desejo de adquirir conhecimento, de se tornarem capazes, donos de seu pensamento e de sua ação, artífices diretos da história de sua classe. (GRAMSCI, 1919, p. 106 apud NOSELLA, 1992, p. 39). A nossa escola continuará e dará os frutos que for possível: ela está aberta a todos os eventos, um acidente qualquer poderá afastar e dispersar amanhã todos nós que hoje nos reunimos ao redor dela e com ela comunicamos e dela tomamos um pouco de calor, da fé de que precisamos para viver e lutar. (GRAMSCI, 1919, p. 106 apud NOSELLA, 1992, p. 43). Nessa perspectiva, embora a Escola Ordine Novo, amada e valorizada por Gramsci, não tenha prevalecido até os dias atuais, ela serviu para despertar em nós uma consciência crítica contrária à atuação da escola mesquinha e, a favor de uma escola que possua como princípio pedagógico o mercado de trabalho, sem contudo, deixar de atuar sob uma perspectiva emancipatória: valendo-se de princípios renascentistas e não unidirecionais. Concluímos então que: embora a Escola Ordine Novo no contexto sócio-histórico em que existiu, não praticasse uma integração junto à sua comunidade local, a mesma por ser condicionada por propósitos humanistas como o favorecimento da classe trabalhadora, tinha grandes chances de atingir mais esta significativa vitória. Quanto a Paulo Freire, suas contribuições aproximam-se muito das que estão presentes na concepção gramsciniana. As perspectivas humanista e progressista, almejadas por Gramsci e Freire, respectivamente, convergem no que diz respeito principalmente à concepção de educação como um ato dialógico e libertador. O pernambucano Paulo Freire (1921 – 1997), assim como o italiano Gramsci era um ser humano esperançoso, ambos de origem pobre, ainda crianças conheceram de perto os horrores que as injustiças sociais, reforçadas pelo predomínio de uma educação deficiente promovem na sociedade. No seu livro “EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DA LIBERDADE” (1996) Paulo Freire, sensibilizado com o fato de a maior parte da população ser manipulada por políticos interessados apenas em votos, propõe a mobilização de educadores, economistas, sociólogos e 41 demais especialistas na busca por “abrir os olhos” das massas, que até então posicionavam-se de forma ingênua diante da supressão que viviam. Como solução para esse problema, ele recomenda não apenas uma ação pedagógica, mas uma mudança tanto na organização, quanto no próprio trabalho educacional. Tal mudança é na prática, a idealização de uma escola emancipadora, que preza por “(...) uma educação para a decisão, para a responsabilidade social e política”. (FREIRE, 1996, p. 96). Nessa perspectiva, entendemos que para o alcance desse tipo de educação a atuação de pessoas comuns da comunidade local na vida da escola se faz obrigatória. A idéia presente na citação acima não é praticada pela escola atual. Ainda hoje constitui-se uma necessidade da sociedade brasileira aprender sobre a autêntica democracia, despertar para o que ela é, sua importância, e o que de fato pode proporcionar. Vivemos a realidade de que a maior parte da população só participa da democracia na hora de eleger representantes políticos, não conhecendo o seu próprio poder de decisão para outras finalidades, como a participação em decisões de caráter econômico e social. Como exemplo disso, citamos respectivamente, as privatizações e a transposição do Rio São Francisco, decisões tomadas pelo governo brasileiro sem a participação do povo, embora este apresentasse opinião contrária à decisão do poder público. Educar para convencer o indivíduo de que ele participa das mudanças de sua sociedade, é um princípio fundamental para o exercício da democracia, que por sua vez, é aprendida principalmente através da experiência, que pode ser viabilizada por meio de práticas como a gestão escolar democrática, desenvolvida com a participação das comunidades escolar e local. Uma educação preocupada com a prática e o desenvolvimento da democracia é para Paulo Freire uma educação corajosa: que possibilita ao indivíduo atuar como investigador da realidade que vive, contemplando-a, entendendo-a e chegando a conclusões próprias que levem à transformação da mesma. Trata-se de uma educação para a vida, liberta de interesses imediatistas e comprometida inclusive com o bem-estar do público externo, oriundo da comunidade local. Neste sentido o autor alerta: Uma educação que possibilitasse ao homem a discussão corajosa de sua problemática. De inserção nesta problemática. Que o advertisse dos perigos de seu tempo, para que, conscientes deles, ganhasse a força e a coragem de lutar ao invés de ser levado e arrastado à perdição de seu próprio “eu”, submetido às prescrições alheias. Educação que o colocasse a constantes 42 revisões. A análise crítica de seus “achados”. Que o identificasse com métodos e processos científicos. (FREIRE, 1996, p. 98). Como prática de uma educação corajosa, associar a palavra (teoria) à prática (vida) é um importantíssimo fator que contribui para o enriquecimento do processo educativo, embora ainda hoje não seja priorizado pela escola, que continua atuando centrada na teoria, dissociada da vida, desvalorizando inclusive, o contexto vivido pela comunidade local atendida. Sobre isso, Paulo Freire considera que: Nada ou quase nada existe em nossa educação, que desenvolva no nosso estudante o gosto da pesquisa, da constatação, da revisão dos “achados” – o que implicaria no desenvolvimento da consciência transitivo-crítica. Pelo contrário, a sua perigosa superposição à realidade intensifica no nosso estudante a sua consciência ingênua. (FREIRE, 1996, p. 102). Deste modo, trata-se de uma grande oportunidade desperdiçada pela escola que abre mão de proporcionar ao educando um aprendizado contextualizado, rico, oposto ao que desperta no mesmo um desgosto materializado durante o processo de aquisição do conhecimento na forma de desinteresse e desatenção. Vale ressaltar, que ministrado dessa forma, o processo de aprendizagem, devia chamar-se processo de repúdio à aprendizagem. A afirmação presente no parágrafo anterior denuncia uma monstruosa situação, que possui dimensões sociais catastróficas: o desinteresse manifestado pelo educando ao longo do processo de aprendizagem resulta em um déficit de criticidade, o que influencia o mesmo a ver os problemas de forma ingênua e superficial, tornando-se alvo passível de manipulação. Isto impede o povo de emergir na vida pública brasileira. Tal situação para ser superada precisa que a escola atue através da prática de: troca de idéias, discussão e debates sobre temas de interesse do educando, e de um trabalho conjunto (escola, educador, educando e comunidade local) em busca do pensar autêntico, que por sua vez, é contrário à acomodação e a favor da reinvenção. Para isso, se faz necessário o aproveitamento de situações vivenciadas pela comunidade local e que atingem o educando, visando desenvolver a partir das mesmas, temas para trabalhos de diversas disciplinas. Nessa perspectiva Paulo Freire afirma: A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa. (FREIRE, 1996, p. 104). 43 Analisando a citação do autor entendemos que a educação como farsa é ainda hoje a realidade da maior parte das escolas brasileiras, que por sua vez, não pratica uma educação emancipadora, o que inclui o exercício de um sadio relacionamento com a comunidade local, e em consequência, não vive o processo de humanização tão sonhado por Paulo Freire, que era a favor de que ambas “iluminassem” uma à outra. A afirmação feita no parágrafo anterior não é definitiva, pois a atual realidade está submetida à possibilidade de ser modificada, através de nossa intervenção nela, por isso, o processo de humanização que exige respeito e valorização também quando se trata do relacionamento da escola com a sua comunidade local, não deve ser visto como algo impraticável pela instituição, mas como um objetivo difícil de ser alcançado sem que a mesma modifique a sua forma de ver as comunidades que atende, concebidas apenas como receptoras de trabalhos e conhecimentos prontos, dos quais não participam da construção e recriação. Como bem afirma o autor, praticante de uma outra visão: Sempre confiáramos no povo. Sempre rejeitáramos fórmulas doadas. Sempre acreditáramos que tínhamos algo a permutar com ele, nunca exclusivamente a oferecer-lhe. (FREIRE, 1996, p. 110). Nessa perspectiva, é importante considerar que o processo de humanização, almejado tanto por Gramsci, quanto por Paulo Freire, só é possível a partir de uma prática progressista, isto é, quando a escola valoriza a dimensão cultural à qual pertence o educando e sua comunidade local, tomando-as como base para planejar, criar e desenvolver o processo educativo, que precisa ser contextualizado ao ponto de o educando encontrar-se inserido nele, identificando-o como uma projeção da sua própria vida, do seu próprio eu. Trata-se de um diálogo, uma participação consciente de ambos envolvidos (escola, educando e comunidade local), que alimenta uma dinâmica viva e eficaz, da qual resulta uma relação de interação e integração, característica marcante da escola emancipadora. 44 2. - RELAÇÃO ESCOLA – COMUNIDADE LOCAL Entre os itens abordados no capítulo anterior, está presente a relação Escola – Estado – Sociedade, sobre a qual concluímos através de uma análise de experiências educacionais, que a sociedade constrói o Estado, e este por meio da escola, e outras formas constrói a sociedade. É com base nesta conclusão que expomos ao longo das páginas a seguir, uma concepção da relação Escola – Comunidade Local, fundamentada na idéia de que ambas determinando-se, são constituintes de si mesmas e do Estado que as recria, influenciando-as diretamente também no quesito convivência. Entre as considerações realizadas por Sônia Kruppa em seu livro “SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO” (1994), está a de que a escola é uma instituição social, isto é, os serviços desenvolvidos e oferecidos pela mesma, resultam em consequências que repercutem na vida de toda a sociedade, o que inclui a comunidade local, que por sua vez, diferencia-se da comunidade escolar (formada por educandos, educadores, funcionários e famílias), uma vez que é constituída por membros externos, entre eles sindicatos, associações representantes de bairro, igrejas, além da vizinhança geral da escola, formada também por estabelecimentos comerciais, e indivíduos que mantenham um vínculo direto com a comunidade, sentindo-se, admitindo-se e atuando como parte desta. Cada escola possui uma história própria e um modo de existir na comunidade local (vila, bairro, cidade), e, em muitos casos, esta instituição representa a conquista de uma determinada comunidade, constituída por sujeitos sociais que lutaram para garantir um espaço destinado à aprendizagem de seus filhos. A partir desta realidade, entendemos que se faz fundamental um processo de articulação, baseado na integração e interação entre escola e comunidade local, a fim de que ambas busquem uma na outra, apoio para lutar por transformações sociais. Para que tal relação venha existir, é fundamental que o estabelecimento de ensino busque em primeiro lugar “educar-se”, refletindo sobre si mesmo: Quem é? A quem e que se destina? Qual a sua finalidade e importância? Qual a importância de um trabalho que vise a sua articulação com a comunidade local? O objetivo dos questionamentos acima é sensibilizar todos os profissionais da instituição de ensino, com destaque para a gestão, numa busca por entender que a escola é mais um segmento da sociedade (composta por diversos segmentos sociais), que para existir e atuar de 45 maneira emancipadora, precisa superar o pessimismo liberal, abrindo mão da imperfeição organizacional, o que inclui articular-se com a comunidade local, que existe como parte da sociedade civil organizada. Mesmo sem grande instrumentação filosófica, sociológica, histórica ou política, as pessoas (pertencentes às duas comunidades) são levadas a concordar com a afirmação de que a integração constituída a partir de uma relação entre escola e comunidade local é mais um desafio ainda não superado pela educação brasileira, embora a Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), no Artigo 12º estabeleça entre outras obrigações que: Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino, terão a incumbência de: VI – articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola. Embora esteja prevista em lei, não há no contexto social brasileiro interesse político para que exista e seja praticada pela instituição escolar pública, uma relação junto à sua comunidade local, que resulte em uma integração emancipadora entre ambas, capaz de originar benefícios para toda a sociedade, pois tal realidade é contrária ao predomínio do privilégio de elites. Esse desinteresse por parte da classe política é segundo o autor Samuel Aarão Reis (1991) resultado do medo que os “poderosos” (elite, classe opressora) têm caso a classe oprimida venha conhecer e desenvolver a parceria escola – comunidade local, o que por sua vez, poderia resultar no exercício direto de uma autonomia, isto é, os dominados (através de representações sociais como associações de moradores) participariam ativamente das tarefas de administração, o que inclui a tomada de decisões inerentes ao funcionamento da instituição escolar, chegando ao ponto de “decidir” qual a melhor solução para problemas locais, que órgãos como o Ministério da Educação não conseguem resolver, pois são orientados por uma visão que ignora tanto o local, quanto o regional, prezando apenas pelo nacional. Além disso, não é de interesse da classe política brasileira que a população venha aprender através da prática o que é autonomia, passando exercê-la através da relação escola – comunidade local, pois a cada vitória parcial, ou seja, problemas resolvidos em conjunto e superação de desafios, planeja-se e propõem-se novas lutas, já que trata-se de uma prática que capacita o povo a não pedir mais favor, nem ficar agradecendo por aquilo que recebe e que é 46 dever do poder público fazer, mas conhecer seus diretos e as obrigações do Estado. Um exemplo dessa prática de autonomia é que na década de 80, a Escola Comunitária do bairro Calabar – Salvador, já estabelecida e estruturada, apoiada pela associação de moradores, passou a exigir que em um espaço onde uma imobiliária desejava construir um edifício em benefício próprio, a Prefeitura construísse uma praça de lazer que beneficiasse os habitantes da localidade, principalmente os educandos carentes. Além disso, estando ainda não satisfeitas, escola e comunidade local, esta última representada pela associação de moradores, também exigiram da Prefeitura ajuda financeira para a construção de uma biblioteca, que atendesse não apenas aos alunos da instituição, mas também aos moradores do bairro e proximidades. Trata-se de um exemplo que prova que é possível a escola atuar não como um Aparelho Ideológico de Estado, mas contrária aos propósitos de exclusão que este privilegia. Percebemos que existe também por parte do poder público nacional o desinteresse no que diz respeito à integração estabelecida entre escola – comunidade local, devido isto significar a realização de um dos princípios revolucionários almejados por homens como Paulo Freire, que era a favor de que ambas “caminhassem” juntas, conhecendo-se, respeitando-se, valorizando-se, modificando-se, já que tal relação favorece o compartilhamento de experiências, informações, objetivos e desafios que englobam a vida tanto da escola, quanto da comunidade local atendida por ela, que por sua vez, precisa sentir-se parte importante do processo educacional ao qual está submetida. Isto influencia diretamente na maneira como é vista a escola pela comunidade local: digna de valor ou de desprezo, acolhedora ou excludente, amiga ou inimiga? É comum nas mais diversas regiões brasileiras atingidas gravemente pela violência, que escolas públicas tenham dificuldades em manter-se funcionando, pois estão inseridas em um contexto social no qual bandidos “ditam” as regras, chegando até mesmo determinar o horário de funcionamento do estabelecimento de ensino, que submetido ao regime adota por sua vez, uma postura de distanciamento da comunidade local, justificando medida de segurança. Segundo Sônia Kruppa (1994, p. 129) isto acontece, pois entre outros fatores, o público externo tem pouco acesso à escola pública, que atua como se não fizesse parte da comunidade local. “Tudo se passa como se a escola fosse um favor” e o isolamento entre esta e a comunidade local uma obrigação cumprida também com o auxílio de barreiras físicas: muros, altas grades e portões de ferro tornam a escola um espaço “estranho” aos moradores, frequentadores e instituições do próprio bairro no qual está localizada. Trata-se de um 47 isolamento que resulta em dimensões sociais catastróficas, traduzidas em outras palavras por Frigotto como a produtividade da escola improdutiva. O pior exemplo do isolamento apontado no parágrafo anterior é o efeito vitrine que recentemente presenciamos em escolas públicas da periferia de Salvador: a quadra de esportes é a única área de lazer existente nessas regiões, mas em geral permanece vazia e fechada, quando poderia ser disponibilizada para pessoas/grupos da comunidade local realizarem atividades esportivas como a ginástica para idosos de um asilo, ou atividades recreativas para crianças de creches e orfanatos, que em sua maioria carecem da prática de serviços simples como estes, por não terem à sua disposição espaços apropriados para praticá-los, mesmo se tratando de trabalhos que contribuem efetivamente para a melhoria da sua qualidade de vida. Desta forma, é transmitida à comunidade local, a mensagem de que a escola não lhe pertence! Porém, ao contrário do grave exemplo de isolamento citado no parágrafo anterior, a autora Sônia Kruppa (1994) destaca a experiência da Escola Estadual de 1º Grau Guiomar Novais, localizada entre três favelas da Vila Inglesa, subdistrito de Santo Amaro – SP, na qual direção, coordenação e uma moradora do bairro, uniram-se para tornar a instituição de ensino um lugar agradável, respeitado, procurado e protegido pelos educandos e moradores/frequentadores da comunidade local, que até então não possuíam nenhum vínculo com a mesma. Trata-se de uma medida condizente com a visão humanista de Gramsci, e contrária ao que pretende a escola atuante sob a perspectiva capitalista, explorada por Frigotto na Teoria do Capital Humano. Na prática, ocorrem atualmente quatro experiências: 1ª) muitos barracos localizados nas três favelas não possuem abastecimento de água, a direção da escola então instalou várias mangueiras e organizou com o auxílio dos moradores, uma escala de horários para que pudessem buscar água nas dependências da instituição de ensino. Isto aliviou a tortura que era para a comunidade local das três favelas conseguir água para consumo próprio, e fez com que a mesma passasse a enxergar a escola como uma amiga acolhedora, digna de respeito, que não merece ser depredada, nem mesmo sofrer violência aqueles que ela frequentam (educandos, educadores e funcionários). Embora não tivesse a obrigação de suprir a falta de água que atingiu a comunidade local, a Escola fez o que lhe foi possível; 2ª) na escola são distribuídas merendas às famílias mais necessitadas, independente das mesmas possuírem filhos matriculados na instituição de ensino. Tal prática não representa prejuízo financeiro, mas um investimento que retorna à escola na forma de benefícios como: 48 os educandos que haviam abandonado os estudos por causa da fome, passando a dedicar-se à criminalidade como alternativa de vida, voltaram a estudar uma vez que, a merenda fornecida pela escola à sua família, embora não seja a forma mais adequada de alimentação, supre a falta das demais refeições ausentes em seu lar. Com esta medida simples, porém de extremo impacto, a escola ajudou a combater dois graves problemas sociais que assolavam tanto a sua comunidade, quanto a comunidade local: as altas taxas de evasão escolar e de criminalidade. Esta atitude é claro, não representa solução, nem tira do Estado a sua responsabilidade, mas demonstra que é possível fazer alguma coisa pelo social, quando se quer realmente, até porque como considera o educador Paulo Freire, toda realidade, por mais desafiadora que seja, está submetida à nossa capacidade de intervenção nela. 3ª) um médico amigo da diretora, atuou nas dependências da Escola atendendo voluntariamente durante dois anos as famílias mais carentes. Segundo a direção nunca houve problemas durante o fornecimento desses três serviços, pelo contrário, foram formados laços valiosos de amizade com a comunidade local (moradores carentes), que participa de festas promovidas pela instituição de ensino, além de utilizar as quadras esportivas da mesma para jogos realizados aos domingos. Este é um exemplo que nos prova que é possível a escola atuar de maneira bem diferente daquela determinada pela visão burguesa, presente na Teoria do Capital Humano, e que existem pessoas como o médico voluntário, dispostas a colaborar com tal atuação. 4ª) além da assistência de caráter social presente nos três exemplos acima, é fundamental o trabalho pedagógico que a coordenadora Neide vem desenvolvendo junto aos educadores: através da aproximação e convivência com a comunidade local, os educadores estão sendo levados a realizar um levantamento sócio-econômico para que conheçam melhor quem são os seus educandos (suas origens, contexto sócio-cultural, problemas, etc.) e reflitam sobre a dura realidade na qual vivem, a fim de que não prevaleçam as tão constantes frustrações de expectativas, que atingem tanto um lado, quanto o outro, resultando no desânimo dos primeiros e na evasão escolar praticada pelos segundos, que de acordo com a coordenadora, na maioria das vezes “voltam ao ambiente escolar para depredar o local que para eles não é acessível”. Este é mais um exemplo de que pode ser superada a atuação técnica, de caráter nada emancipador, que Frigotto (1993) aborda em sua teoria, e que a maioria das escolas públicas exercem em cumprimento à tendência capitalista de reduzir a instituição de ensino a um “fator de produção”. 49 O extremo exemplo presente nas quatro experiências acima, nos leva a entender que a relação escola – comunidade local depende, sobretudo, do interesse e iniciativa por parte da instituição de ensino, que precisa abrir mão da postura fatalista que alimenta, admitindo que nada pode fazer, para assumir-se como possuidora de autonomia e capacidade, passando a admitir que deve sim fazer o possível, sendo que este pode representar muito na vida de comunidades locais carentes. O autor Samuel Aarão Reis (1991) relata de maneira específica o surgimento na década de 80 das Escolas Comunitárias em Salvador, localizadas em bairros populares como: Calabar, Itapuã, Plataforma e Stiep. Tal surgimento se deu a partir do momento em que as Associações de Bairro resolveram enfrentar os problemas educacionais vividos por suas respectivas comunidades, que até a década de 80 não contavam com a presença de escolas em sua localidade. Trata-se de uma experiência na qual podemos identificar que a relação escola – comunidade local aconteceu antes mesmo de que a primeira viesse existir fisicamente, isto é, na forma de prédios e estabelecimentos. Segundo o autor (1991, p. 13) as escolas comunitárias foram construídas na base do mutirão e com os materiais e profissionais disponíveis. Nas Associações de Bairro, que administravam a instituição escolar, “representantes da comunidade local indicaram educadores voluntários entre os próprios moradores do bairro, prepararam um programa e um currículo, adotaram uma metodologia adequada às necessidades e características dos seus educandos, construíram ainda material didático próprio e organizaram encontros pedagógicos entre professores de várias escolas, cuidando de sua formação e motivação”. Com isso, as escolas comunitárias soteropolitanas foram se fortalecendo, passando a lutar junto ao Estado contra a estrutura precária de funcionamento que as assolava, reivindicando do mesmo o financiamento total da educação, a contratação dos educadores, o recebimento de material escolar e de merenda, o direito de exercer auto-gestão, e também a oficialização destas instituições de ensino, que necessitavam ser reconhecidas (através de leis) pelo poder público como Escolas Públicas Comunitárias, isto é, possuidoras de características e necessidades próprias, diferentes daquelas pertencentes às escolas estaduais. Para apoiar tal luta foi criada uma comissão, formada pela Comissão Estadual de Educação Popular, pelo Conselho de Educação, pela Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, e por representantes da Secretaria de Educação, com a finalidade de que fossem apresentadas propostas concretas, simples e objetivas, que viabilizassem o relacionamento entre o Governo Federal, a Secretaria Estadual 50 de Educação e as escolas comunitárias. Por intermédio da atuação dessa comissão, foram aprovadas as emendas populares apresentadas à Constituição Estadual e à Lei Orgânica do Município, exigindo a responsabilidade do Estado na manutenção financeira das escolas comunitárias. A partir da iniciativa da comunidade local em busca de escolas, hoje existem funcionando em Salvador, mais de quinze instituições de ensino, construídas a partir do esforço mútuo de homens e mulheres esperançosos a ponto de juntos, trabalharem voluntariamente em prol do avanço social. Cada escola possui uma história própria e um modo de existir na comunidade local, por isso deve articular-se com as pessoas que, de uma forma, ou de outra contribuíram e contribuem para a sua existência e funcionamento. O mesmo autor (1991) destaca ainda que é um grande benefício para os educandos que frequentam essas escolas, é o fato de seus educadores serem moradores do bairro, que conhecem bem a realidade social, o modo de vida e as necessidades do seu público alvo, como a prática vocabular presente na comunicação local. É a comunidade local trabalhando em benefício da comunidade escolar. Orientado pela perspectiva freiriana, Samuel Aarão Reis (1991) admite que as escolas comunitárias constituem um movimento político, que através da adequação do currículo à cultura do povo negro de Salvador (por meio de inovações curriculares como: aulas de capoeira, história do negro, teatro-afro, artes, etc.) estabeleceu uma integração da instituição de ensino à comunidade local, por meio também da realização de eventos como palestras, seminários e festas, nos quais constitui prioridade a divulgação e o entendimento da cultura afro-brasileira, na busca por conhecê-la verdadeiramente, respeitá-la e valorizá-la. Esta prática contraria uma atuação escolar pautada exclusivamente nos princípios capitalistas, que por sua vez, não prezam por reflexões sócio-culturais desse tipo. O Centro Educacional Carneiro Ribeiro - Escola Parque, localizada no bairro Caixa D’água em Salvador, também desenvolve uma experiência de relação junto à sua comunidade local, porém diferente daquelas desenvolvidas pela Escola Estadual de 1º Grau Guiomar Novais e pelas Escolas Comunitárias. Tal experiência, relatada por nós com detalhes ao longo do próximo capítulo deste trabalho, acontece há dez meses, através de diversos serviços específicos oferecidos pela Escola Parque à sua comunidade local, entre os quais estão: - Serviço de assistência jurídica, com ênfase para casos de pensão alimentícia; 51 - Serviço de assistência social, com destaque para casos de violência contra crianças e adolescentes, além de famílias que sofrem as graves consequências de possuírem membros dependentes e traficantes de drogas; - Oficinas diversas como: Arte em Argila, Madeira, Serigrafia e Padaria, que ensinam uma profissão; - Educação Física para Mulheres: Ginástica para a cidadania, que visa melhorar a auto-estima do público feminino, combatendo inclusive doenças como a obesidade; - Oficina da Terceira Idade, cujos trabalhos auxiliam na prevenção e combate de doenças como a depressão em idosos; - Oficina de Educação Física para Idosos, que trabalha com técnicas de exercícios adequadas às necessidades e aos limites do público alvo; - Uma Biblioteca3 cujo acervo possui aproximadamente seiscentos livros, sendo a única localizada na região, e que atende além da Caixa D’água, também aos bairros IAPI, Pau Miúdo e Pero Vaz. Funciona de segunda à sexta-feira, das 8:00 às 11:30 e das 13:30 às 17:00 horas. A comunidade local tem acesso livre para consultar o acervo no interior do estabelecimento, pois o empréstimo dos livros não é disponibilizado para o público externo, mas apenas para os educandos da casa. Dois educadores formados em Letras Vernáculas permanecem à disposição para orientar didaticamente tanto os educandos, quanto a comunidade local sobre pesquisas e construção de trabalhos das diversas áreas de ensino. Esses mesmos profissionais são os que organizam o acervo da biblioteca catalogando os livros, pois já foi solicitado pela direção da escola um bibliotecário, mas até o momento a Secretaria de Educação não o disponibilizou. 3 A Biblioteca Carmem Teixeira possui um acervo de livros organizado nas seguintes categorias: Literatura Brasileira, Literatura Infantil, Língua Estrangeira, Ciências Exatas, Religião e Pesquisa Acadêmica (Filosofia e Pedagogia). Além disso, a mesma dispõe de pesquisa via internet e realiza cursos de extensão sobre temas variados, que são oferecidos tanto para a comunidade escolar, quanto para a comunidade local. 52 Foto 1 - Chama-se Biblioteca Carmem Teixeira, em homenagem à irmã de Anísio Teixeira, primeira diretora da Escola Parque. Com exceção dos funcionários que trabalham na biblioteca, os demais envolvidos são educadores titulares na Escola Parque, e atuam como voluntários na realização dos trabalhos desenvolvidos em benefício da comunidade local, que acontecem na própria escola em dias, horários e espaços variados. Em entrevista, todos afirmaram que participam da realização dos trabalhos em busca de mais conhecimento e principalmente pelo prazer em contribuir para a melhoria da vida de pessoas carentes, que compõem a maior parcela da comunidade local atendida pela Escola Parque. Os objetivos que movem tais profissionais são condizentes com os propósitos humanistas e progressistas, sonhados respectivamente por Gramsci e Paulo Freire, e provam que é possível a escola pública atuar na sociedade capitalista não como Aparelho Ideológico de Estado, mas a partir de uma política “desinteressada”, isto é, visando a materialização de valores como a solidariedade, que transcende qualquer valor de caráter material. Ao longo da pesquisa prática que realizamos no ambiente e arredores da Escola Parque, período de 10/2009 a 12/2009, examinamos tanto o discurso, quanto a prática desta instituição no que diz respeito à sua atuação junto à comunidade local, que bastante interessada, insiste em procurá-la em busca dos serviços que a mesma oferece. Verificamos então uma realidade 53 com a qual nos encantamos: os trabalhos voluntários desenvolvidos são de qualidade, chegando ao ponto de haverem listas de espera pelos mesmos. Princípios tão estimados por Paulo Freire como a valorização e o respeito à dimensão sócio-cultural do indivíduo, são praticados pelos membros (funcionários) da Escola Parque, através do acolhimento que os mesmos oferecem à comunidade local, atendida não com pré-conceito e desprezo devido a sua situação de carência social, mas com respeito e dedicação, que levam esta última a sentirse confortável e profundamente agradecida, chegando ao ponto de valorizar não apenas os trabalhos oferecidos, mas principalmente o fator humano (profissionais envolvidos direta e indiretamente na prestação dos serviços) desta instituição de ensino, que como tantas outras, enfrenta em seu dia-a-dia grandes desafios, porém ao contrário da maioria, não assume uma postura fatalista diante da complexidade que é o estabelecimento de uma relação que prioriza a integração e interação com a comunidade local de baixa renda, que na maior parte dos casos é mantida à distância do ambiente escolar. Mariano Enguita (1989) nos ensina que para o capitalismo a operação fundamental executada pela escola é a aplicação do educando ao mercado de trabalho, porém através da postura adotada pela Escola Parque, podemos perceber que tal instituição é capaz de incentivar e desenvolver também uma atuação voluntária na busca por ajudar o próximo, o que traz benefícios também para ela mesma. Um exemplo disso é que os atendimentos Jurídicos, de Assistência Social e de Psicopedagogia juntos desenvolvem trabalhos que contemplam famílias pobres da vizinhança, buscando combater a violência contra crianças e adolescentes. O trabalho contempla também famílias de educandos pertencentes à Escola Parque, o que influencia diretamente na melhora do comportamento de muitos deles, psicologicamente debilitados por serem vítimas da violência doméstica. Além dos serviços já citados anteriormente e que são oferecidos há dez meses pela Escola Parque à comunidade local, dois eventos extras aconteceram ao longo do período no qual desenvolvemos a nossa pesquisa: - CAMINHADA PELA PAZ. Realizada no dia 25/09/09, das 8:00 às 11:00 horas, nas principais ruas do bairro Caixa D’água, em comemoração ao aniversário da Escola Parque. O NUPE da escola – Núcleo de Pluralidade Esportiva, foi o setor responsável pela organização deste evento, que contou com a colaboração de educadores, educandos, funcionários e comunidade local, além do apoio efetivo da Polícia Militar, que garantiu a segurança, 54 inclusive do trânsito, ao longo da trajeto percorrido. Foram organizadas as seguintes alas: idosos, adultos, jovens e crianças, que de forma respeitosa saíram em passeata cantando, declarando poemas e proferindo gritos pela Paz. Por onde passava, a caminhada atraía mais adeptos, isto é, simpatizantes da comunidade local, representados principalmente por trabalhadores de casas comerciais, que aprovavam e aplaudiam a iniciativa, uma vez que, a mesma não estava direcionada a um público específico de partidos políticos, igrejas ou times de futebol, mas era aberta a todos que dela desejassem participar, visando o propósito comum, isto é, a mensagem pela paz. Um carro de som, conduzido por animadores, foi utilizado para orientar a multidão durante a caminhada, que contou ainda com a leitura de mensagens, exibição de números de dança, além de coreografias diversas, todas enfatizando o tema: “Paz dentro e fora da Escola”. O evento foi concluído com um amplo discurso da direção da Escola Parque sobre a violência em nossa sociedade: causas, consequências, e o que pode ser feito por nós contra este grave problema. A partir de tal iniciativa, a Escola Parque deu um belíssimo exemplo de que a postura fatalista que direciona a atuação das instituições de ensino, motivo de concordância entre Frigotto e Enguita, pode ser superada também quando se trata de problemas sociais complexos, como é o caso da violência. Foto 2 - Ala de Alunos da Escola que frequentam as Oficinas de Dança e Teatro oferecidas nos turnos manhã e tarde 55 Foto 3 - Participação da comunidade local. Percurso próximo ao Largo do Tamarineiro – Pau Miúdo A Caminhada pela Paz serviu também para que mais pessoas tomassem conhecimento da existência dos serviços oferecidos pela Escola Parque. Influenciados por Frigotto (1993) entendemos que um evento como este, embora pouco valorizado pela elite capitalista e pelo Estado liberal, que conduzidos pelo pensamento econômico reduzem a escola à uma mera fábrica e a prática educativa à uma relação técnica, é de extrema importância, pois, através do mesmo são ensinados não apenas à comunidade escolar, mas à toda sociedade, valores que compreendem sobretudo, a causa humana e o social, como os temas paz e violência. Isto contraria os pontos de vista capitalista e liberal, que priorizando apenas aspectos técnicos, ridicularizam a instituição escolar, que deve esforçar-se e prezar por uma prática históricosocial libertadora. 56 Foto 4 - Banda da Escola Parque formada exclusivamente por educandos do sexo masculino, que participam da Oficina de Música desenvolvida na própria instituição - SEMANA DE SAÚDE. Realizada de 20/10/2009 a 23/10/2009. Este evento idealizado e organizado pela Escola Parque, contou com o apoio da Prefeitura, e foi aberto à toda comunidade local, que pôde assistir palestras e esclarecer dúvidas sobre temas variados, entre eles: saúde mental, bucal, física e psíquica. Além disso, foram desenvolvidos serviços de: vacinação, aferição de pressão, teste de glicemia, trabalho de prevenção de DSTs e gravidez na adolescência. Segundo a coordenação da escola, para que esta experiência resultasse no sucesso alcançado, atendendo a um público de mais de 300 pessoas, foi fundamental o apoio e a participação de órgãos como: Polícia Militar, Lipurb, Salvar, Distrito Sanitário da Liberdade e Universidade Federal da Bahia – UFBA, representada pelos cursos de Odontologia e Enfermagem. Associamos este trabalho ao sonho de mobilização social em prol das minorias tão almejado por Paulo Freire (1996), que entendia a causa social como sendo uma responsabilidade de toda a sociedade civil (o que inclui a escola), e não apenas de segmentos isolados desta. 57 A Escola Parque pratica ainda um outro tipo de vínculo com a comunidade local, através do empréstimo do seu espaço (um teatro com 560 lugares) que encontra-se à disposição de instituições como: universidades, igrejas, demais escolas, estabelecimentos comerciais, entre outras, que utilizam o ambiente escolar para a realização de eventos diversos (conferências, palestras, exposições artísticas, teatro, reuniões, etc.). Esta é uma prática que de certa forma, viabiliza a criação e manutenção de vínculos entre diversos segmentos da sociedade civil. Abrir a escola para o mundo como queria Paulo Freire, é uma das condições para sobrevivência da mesma com dignidade. Por fim, entendemos a partir da experiência vivida pela Escola Estadual de 1º Grau Guiomar Novais de São Paulo, pelas Escolas Comunitárias e pela Escola Parque de Salvador, que para as mesmas avançarem ainda mais (sobreviverem com dignidade), se faz necessária entre outros fatores, a prática de uma gestão comunitária, isto é, gestão escolar democrática que conte com a efetiva e permanente participação de entidades representativas de setores da população, entre as quais destacamos: entidades sindicais, entidades de movimento negro e entidades representativas de bairros. A gestão escolar comunitária contando com a participação destes movimentos sociais é sem dúvida, a democracia exercida de forma direta pelos interessados, capaz de fortalecer a sociedade civil, constituída por sujeitos reais e históricos, por isso, como esclarece Samuel Aarão Reis (1991), esta é uma prática tão temida e combatida pelo poder público, que transforma a mesma no maior desafio já enfrentado quando se trata da integração escola – comunidade local. 58 2.1 - GESTÃO ESCOLAR DEMOCRÁTICA JUNTO À COMUNIDADE LOCAL Neste item, discorreremos sobre a concepção de gestão escolar democrática, fazendo algumas incursões na atuação da gestão da Escola Parque junto à comunidade local e não escolar, isto é, aquela não constituída por educadores, educandos, famílias e funcionários, mas sim por sindicatos, associações representantes de bairro, igrejas, além da vizinhança geral da escola, o que inclui estabelecimentos comerciais, e indivíduos que mantenham um vínculo direto com a comunidade, sentindo-se, admitindo-se e atuando como parte desta. De acordo com Noberto Bobbio (2000, p. 30) democracia é uma forma de governo contrária às formas de governo autocrático, “caracterizada por um conjunto de regras (primárias ou fundamentais) que estabelece quem está autorizado a tomar decisões coletivas e com quais procedimentos”. Trata-se de um governo constituído pelo povo, representado por cidadãos eleitos como governantes, entre os quais estão: o presidente da República, além de senadores e deputados. Segundo Moacir Gadotti (2000) ela está fundamentada em direitos civis (segurança, locomoção, etc.), direitos sociais (trabalho, educação, habitação, etc.) e direitos políticos (liberdade de expressão, de participação em partidos políticos, etc.). Porém, embora o significado de democracia inclua a efetiva participação popular no governo de uma nação, a realidade vivida pelo povo brasileiro é bem diferente disso: não somos mais “dominados” pela ditadura que reprimia direitos como a liberdade de expressão, mas o governo atual (eleito por uma maioria analfabeta política e pouco consciente de seus direitos) que tem por base o discurso democrático, governa permeado pela lógica do poder, desmobilizando a sociedade civil que não participa de decisões importantes quando se trata de setores como a economia do país, que por sua vez, é regida pela política liberal. Na atual realidade brasileira, a concepção de democracia como governo de participação popular, é contrariada por severas restrições sociais e políticas que delimitam a liberdade de participação do povo. A partir de uma análise sobre as concepções apresentadas no parágrafo acima, percebemos que a democracia possui um significado ambíguo: ao mesmo tempo que abre espaço para a luta por direitos civis, como a livre expressão, serve de base também para favorecer a economia de livre mercado (capitalista), e o predomínio de oligarquias políticas. Embora o senso comum confunda o conceito de democracia com o de cidadania, trata-se de dois conceitos diferentes, com características distintas, embora ambos refiram-se também a 59 direitos. Moacir Gadotti (2000, p. 38) revela que cidadania: “é essencialmente consciência de direitos e deveres e exercício da democracia”. Ela representa uma das conquistas mais importantes na história da humanidade. Sendo assim, na busca pelo exercício da cidadania, ou seja, para o indivíduo chegar a ter plena consciência dos seus direitos e deveres, se faz obrigatória a prática da democracia. Um breve retrospecto na história nos revela que a democracia, forma de governo que possui como fundamento a liberdade, é conhecida pela humanidade desde a Era Antiga, embora desde esta época venha sendo exercida como se o seu fundamento fosse a privação. Segundo o Filósofo Aristóteles (2003) o povo grego buscava a prática de um governo democrático em oposição ao predomínio de oligarquias, isto é, forma de governo na qual o poder supremo concentrava-se nas mãos de homens ricos (magistrados), que por sua vez, existiam em menor número na sociedade grega. Na Era Medieval a burguesia, classe que predominou através de uma revolução sócioeconômica realizada contra o regime de servidão, no qual o poder concentrava-se nas mãos da realeza, do clero e dos senhores feudais, reivindicou participar ativamente do governo, o que deu origem às lutas por participação na vida política do Estado. Na Era Moderna foi instituída pelos burgueses uma democracia formal, caracterizada por ser legalmente igual para todos, porém, por se tratar de uma sociedade de classes, estruturou-se em relações sociais de exclusão, ou seja, antidemocráticas, materializadas no não oferecimento de iguais oportunidades, princípio este, fundamental para a existência e o exercício da democracia, e consequentemente da cidadania. Segundo Gaudêncio Frigotto (2001, p. 12) a partir do século XX países considerados desenvolvidos foram pressionados pela luta de trabalhadores e pelas próprias necessidades de existência do sistema capitalista a expandir privilégios, isto é, direitos sociais até então vividos somente pela burguesia foram disseminados para as grandes massas, entre os quais o autor destaca: “saúde, educação, habitação, transporte, cultura e lazer, seguro e saláriodesemprego, e aposentadoria digna”. Porém, como afirmamos no parágrafo anterior, os países desenvolvidos são os que viveram e vivem os efeitos de uma conquista de direitos pelas grandes massas, ao contrário, países 60 considerados em desenvolvimento como o Brasil, desde o século XX almejam por ela, enquanto vivem os efeitos de praticar a fraca democracia, caracterizada por uma participação popular pouco efetiva, marcada por restrições como a não convocação da massa trabalhadora quando se trata de decisões sobre a economia. Entre os efeitos resultantes dessa realidade e vividos atualmente pelo Brasil, Frigotto (2001, p. 12) destaca: “pior distribuição de renda do mundo, analfabetismo, desemprego, subemprego, violência e indigência”. Assim como Frigotto, percebemos que na atual realidade da sociedade capitalista brasileira, a cidadania que o significado da democracia reflete, na prática não é materializada. Concordamos também com Pedro Demo (1990) quando o mesmo admite que a democracia no Brasil é ainda uma prática não cotidiana, diária, comum para a população. A nossa sociedade apresenta-se democrática esporadicamente, ou seja, através do exercício de votação quando há eleições. Essa falta de prática da democracia vivida pelo povo brasileiro, impossibilita o mesmo de avançar na conquista histórica de direitos e, favorece cada vez mais o seu empobrecimento político, uma vez que, os grupos dominantes reivindicam para si a interpretação dos interesses populares. É diante da desfavorável realidade denunciada no parágrafo anterior, que entendemos ser mais do que necessária a busca por uma efetiva democracia, isto é, contrária àquela exercida esporadicamente, também no campo educacional, já que este constitui um terreno fértil para a articulação, composição e materialização da emancipação humana, tão necessária à existência de lutas sociais, através das quais pode-se atingir transformações que prezem pela não exclusão das classes populares. Trazendo o significado dessa afirmação para o objetivo de nossa abordagem neste item, destacamos que uma efetiva democracia no ambiente escolar, é materializada através de uma gestão democrática, realizada com a participação das comunidades escolar e local. Segundo José Carlos Libâneo (2001) gestão representa uma prática administrativa fundamentada no processo de tomada de decisões, além de direção e o controle das mesmas, a fim de que a instituição funcione, supere obstáculos e realize seus objetivos. Gerir o ambiente escolar significa direcionar o processo de organização e funcionamento dessa instituição, a partir de práticas que englobam tanto o físico, quanto o constitucional da mesma. Sendo assim, a gestão escolar constitui um fator crucial para o alcance da qualidade nos serviços 61 prestados pela escola, pois abrange todo o seu ambiente e pessoal, com suas respectivas implicações, sendo o ponto chave de ligação entre os mais diversos setores que a compõem. Planejar, organizar, reger e avaliar os serviços educacionais são as quatro principais operações que caracterizam o ato de gerir. De acordo com o Dicionário Aurélio (1985, p. 239) gerir significa administrar. Administração segundo Vitor Henrique Paro (1996, p. 152) é: “(...) a utilização racional de recursos para a realização de fins determinados”. Assim, os objetivos, os princípios e as técnicas estabelecidos e utilizados pela instituição escolar na prática da administração, determinam as possibilidades de avanços na qualidade do serviço de gestão. Este fato justifica a existência de escolas com histórias, rotinas e resultados diferentes em uma mesma rede de ensino (pública). Exemplificamos esta afirmação apontando a experiência da Escola Parque, que como tantas outras escolas de Salvador, pertence à pública de ensino, mas ao contrário da maioria, consegue desenvolver um processo de gestão eficiente, pautado em princípios de produtividade, respeito e organização coletiva, que se refletem através de fatores como um exemplar atendimento prestado não apenas à comunidade escolar, mas também à comunidade local, que na realidade da maioria das instituições públicas de ensino é desrespeitada, chegando sequer a frequentar o ambiente escolar. O estilo de gestão praticada denuncia a natureza dos objetivos e das relações que caracterizam a escola. O processo de administração/gestão escolar como nos ensina Vitor Henrique Paro, deve ser contemplado não de forma isolada, mas de maneira contextualizada, pois segundo o mesmo: (...) A administração escolar está, assim, organicamente ligada à totalidade social, onde ela se realiza e exerce sua ação e onde, ao mesmo tempo, encontra as fontes de seus condicionantes. (PARO, 1996, p. 13). Diante dessa realidade, admitimos que no caso da Escola Parque, a mesma busca através do seu processo de gestão, contemplar a comunidade local, que faz parte da sua totalidade social. Os condicionantes aos quais o autor refere-se e que identificamos como determinantes da prática administrativa escolar atual, são produtos de uma construção histórica, marcada por contradições sociais e pelos interesses políticos que regem a sociedade capitalista em seus diversos aspectos: econômico, político e social. Por isso, destacamos que a gestão escolar é um instrumento que a depender dos objetivos aos quais destina-se, pode a vir promover tanto o predomínio da estrutura social excludente, quanto superação da mesma. Na prática, a escola 62 pode ser organizada para funcionar estimulando o isolamento e a falta de comunicação entre as comunidades escolar e local ou pode estimular o trabalho coletivo, solidário e compartilhado entre as duas, como aconteceu com as Escolas Comunitárias de Salvador na década de 80. Para que ocorra uma transformação social, contrária à estrutura excludente predominante, é fundamental a participação da escola, que precisa contribuir, entre outros fatores, a partir da prática de uma gestão escolar democrática, que segundo Heloísa Luck (2008) é entendida como uma forma regular e significante de envolvimento dos funcionários de uma organização escolar, no seu processo decisório. Para tal, se faz necessário que a instituição escolar busque empenhar-se por não praticar da mesma forma que as empresas, os princípios da administração capitalista, que embora considerada de excelência e insuperável, da maneira como é desenvolvida no meio empresarial, funciona baseada apenas em uma perspectiva de eficiência técnica, que por sua vez, tem como objetivo principal satisfazer os interesses e necessidades do capital, e não a contemplação das necessidades humanas. Entendemos que trata-se da visão burguesa, que reduz a prática da gestão escolar a um “fator de produção”. Ousamos mencionar que Frigotto chamaria isto de: “Teoria do Capital Humano da Gestão Escolar”. Segundo Heloísa Luck o conceito de gestão democrática escolar envolve: (...) além dos professores e funcionários, os pais, os alunos e qualquer outro representante da comunidade que esteja interessado na escola e na melhoria do processo pedagógico. (LUCK, 2008, p. 17). Em outras palavras, trata-se de um movimento, que remete à idéia de acumulação de poder pela classe popular (trabalhadora) em busca de transformação social. Ele constitui uma estratégia capaz de superar no ambiente escolar o autoritarismo, o individualismo e as desigualdades sociais que têm caracterizado as diferentes ações políticas governamentais, predominantes em nossa sociedade. Está fundamentada em práticas participativas, materializadas na cooperação, na socialização de conhecimentos sobre a escola, na tomada de decisões e na descentralização de poder, condições estas essenciais para o exercício da democracia no ambiente escolar. Porém, de acordo com Vitor Henrique Paro (1996) muito do que se tem verificado na realidade da grande maioria das escolas públicas brasileiras, que afirmam exercer uma gestão democrática é o contrário disso: há o predomínio de préconceitos por parte da direção, que não pratica o acolhimento e o diálogo necessários, mas sim, processos de imposição pessoal e dominação, e em conseqüência disso, prevalece a 63 contra-participação por parte das comunidades escolar e local nos diversos processos de decisão: currículos, programas, métodos, pessoal, financeiro, etc. Segundo Maria de Lourdes Melo Prais, isso se dá principalmente devido ao fato de: (...) a ótica privilegiada é, na maioria das vezes, a da reprodução das relações sociais de produção, e que, nesse sentido, a educação pública é sempre enfocada como uma prática do Estado, utilizada para difundir a ideologia dominante e garantir o sistema social de produção. (PRAIS, 1992, p. 14). Sendo assim, prevalece a ideologia de que a classe popular não pode freqüentar o ambiente escolar, buscando construir uma educação que viabilize a superação da hegemonia da classe dominante. Tal crença, alimentada principalmente pelo Estado, que preza por formalidades burocráticas, e não incentiva através de medidas consistentes a prática da gestão democrática na escola, deixa claro um fato já confirmado pela história da educação brasileira: a escola refletindo a sociedade é um espaço de luta de classes e de exercício político. Já foi detectado o potencial de superação que possui a classe proletária, caso a mesma venha ter o seu nível cultural elevado, isto é, poderá aprender através do exercício da gestão escolar, como dirigir o poder público que hoje executa tal função na sociedade. Afirmamos isto, influenciados pela perspectiva gramsciniana, segundo a qual, uma das condições para a conquista de poder governamental pela classe popular, é que antes de alcançá-lo, a mesma deve atuar como dirigente, a fim de adquirir significativa experiência. Segundo Heloísa Luck (2008) a gestão democrática escolar é um movimento iniciado a partir da década de 1980, e que tem se fortalecido inclusive, com o apoio das reformas educacionais e proposições legislativas. Embora apoiado por aspectos legais, no Brasil, o exercício da gestão democrática junto à comunidade local, é inviabilizado principalmente por atitudes de descrença e alienação, fortemente alimentadas entre os membros que compõem o Conselho Escolar da instituição de ensino. Na maior parte das áreas de risco como favelas e bairros periféricos, por exemplo, a comunidade local (extremamente carente e marginalizada), além de ser tratada pela escola com repugnância e indiferença, é considerada uma inimiga: mal vinda ao ambiente escolar e incapaz de sensibilizar-se e interessar-se pela rotina da instituição. Tal crença é colocada em prática principalmente através do não incentivo exercido por parte da instituição de ensino, quando se trata da participação de representantes da comunidade local (como associações de moradores de bairro) na administração financeira da 64 escola, que na prática funciona como uma caixa preta, inacessível justamente àqueles que contribuem financeiramente para a sua existência. Por isso, concordamos com Vitor Henrique Paro (1996, p. 167) quando o mesmo expõe que o pessoal envolvido no processo de gestão escolar, precisa desenvolver além de uma competência técnica, uma “consciência crítica da realidade social” buscando, sobretudo, converter práticas de pré-conceito, em atos de inclusão. Sendo a democracia definida como um governo de participação popular, que representa a valiosa conquista de uma maioria, entendemos que a gestão democrática junto às comunidades escolar e local, tornou-se hoje uma condição obrigatória para o alcance de mudanças significativas no sistema educacional brasileiro, e consequentemente na qualidade de vida da população, uma vez que ambas são quem mais conhecem de fato suas necessidades locais, e por isso, podem contribuir efetivamente para a superação de desafios como a evasão escolar, que continua sendo tratada pelo Ministério da Educação sob uma perspectiva nacional, quando na verdade é um problema que para ser resolvido necessita sobretudo, de intervenções locais, já que entre os estados que compõem o território brasileiro, existem diferentes determinações históricas, sociais, econômicas, culturais, físicas e biológicas, que caracterizam de forma particular a organização sócio-cultural de cada população e do seu respectivo modo de vida. Praticando o princípio da democracia, de maneira diferente de como é praticado na política brasileira, ou seja, buscando desenvolver uma ação que responda de modo efetivo às legítimas necessidades e aspirações das camadas populares, a escola contribui para: - a democratização do poder no seu interior, já que as comunidades escolar e local passam a ter voz e vez no processo administrativo, como aconteceu na experiência das escolas comunitárias, na qual ambas compartilhavam responsabilidades como: a produção de seu próprio material didático, elaboração de projetos diversos, contratação e treinamento de pessoal, manutenção física dos prédios, transações financeiras e avaliação do desempenho das instituições, além de inovações curriculares como a inclusão da cultura e história do povo negro, grupos de teatro e horta. - a melhoria da qualidade dos serviços oferecidos ao público das comunidades escolar e local, já que através de sua efetiva participação, elas, que melhor do que ninguém conhecem suas necessidades, podem apresentar queixas e soluções precisas, contribuindo assim para eliminação de uma prática escolar descomprometida com a realidade, exercida 65 principalmente, devido ao cumprimento de regras e programas “vindos do alto”, isto é, préestabelecidos por órgãos atuantes como superiores no sistema educacional, a exemplo do Ministério e das Secretarias de Educação, que não tomam como referência o local, mas o nacional. Como exemplo disso, destacamos a experiência da Escola Comunitária do Calabar nos anos 80, para a qual ligar cultura e saber era uma necessidade particular da classe popular de Salvador, constituída principalmente por negros, que eram estimulados pela ideologia branca a envergonhar-se de si mesmos. Por isso, as comunidades escolar e local lutaram para que fossem incluídas em seu currículo, tanto a história, quanto a cultura do povo negro, a fim de que ambas pudessem ser disseminadas de maneira respeitosa e não pré-conceituosa, no ambiente escolar frequentado pela classe popular negra. Dessa forma, a comunidade local, que embora presente fisicamente, vive distanciada da instituição de ensino, tem a oportunidade de conhecer e compreender melhor o que é e como funciona a escola, aprendendo a valorizá-la e respeitá-la, já que a mesma foi capaz de abrir mão do conservadorismo, adotando uma postura baseada no acolhimento, e contrária ao tão comum exercício da arbitrariedade que predomina na atuação de grande parte das instituições públicas brasileiras. Nessa perspectiva, concordamos com a autora Maria de Lourdes Melo Prais (1992), quando a mesma admite que a gestão democrática é um processo determinado e determinante de uma prática progressista, pois atua contra uma postura centralizadora e autoritária, que é favorável ao funcionamento escolar condizente com a perspectiva capitalista. O corpo discente, só aprende quando torna-se sujeito de sua aprendizagem, e para que isto aconteça, ele precisa participar de forma democrática das decisões que dizem respeito ao funcionamento da sua escola. O mesmo acontece com a comunidade local brasileira, necessitada de aprender também através do ambiente escolar o que é de fato o exercício da democracia. A partir do que nos ensina Vitor Henrique Paro em seu livro “ADMINISTRAÇÃO ESCOLAR” (1996), percebemos que a democratização da gestão, representa a democratização do saber, por isso, é uma prática não estimulada pela poder público. Orientados pela perspectiva gramsciniana, entendemos que o acesso ao saber permite à classe popular desenvolver uma concepção de mundo própria, efetivamente vinculada aos seus interesses, e diferente da ideologia manipulada pelas classes dominantes, que têm como objetivo manter a sua hegemonia. 66 De acordo com Moacir Gadotti (2000) uma das razões principais na justificativa da implantação e o exercício de uma gestão democrática na escola pública, é o fato de que a escola propõe-se formar para a cidadania, por isso, precisa partir da mesma o exemplo. Estando a serviço da comunidade local que também ajuda mantê-la, a escola deve proporcionar a participação desta em sua gestão, pois a prática da gestão democrática junto ao seu público externo constitui para este um importante passo no aprendizado da democracia. Atuando desta forma, a escola desenvolve uma postura oposta àquela que Frigotto (1993) descreve como sendo de acordo com os propósitos capitalistas, isto é, “preparar” o educando para atuar apenas como mão-de-obra no mercado de trabalho. Além disso, a participação na gestão da escola proporciona um contato permanente entre esta e a comunidade local, o que leva ambas ao conhecimento mútuo. Na prática, tal conhecimento pode ser a chave para amenizar problemas como a violência, uma vez que, como citamos no item 2. deste trabalho, a experiência da Escola Estadual de 1º Grau Guiomar - SP, comprova que os moradores das três favelas atendidas não mais depredaram o ambiente escolar, pois a partir da abertura da instituição para a comunidade local, passaram a conhecê-la de perto, e vê-la como uma amiga acolhedora e não como uma estranha soberba, repressora e desagradável. A gestão democrática escolar junto à comunidade local é importante, sobretudo, pelo fato de que no processo de superação das desigualdades sociais, torna-se obrigatória a anulação do domínio que o Estado de classes exerce sobre a educação, a fim de que esta recupere o seu sentido etmológico de público. É nesta perspectiva que funcionava a Escola Comunitária do Calabar, criada em Salvador na década de 80, e entendida pelo autor Samuel Reis (1991, p. 77) “como a mais pública das escolas públicas”. Era uma escola administrada diretamente pela comunidade local, representada principalmente pela Associação de Moradores do Bairro, que embora solicitasse a participação do Estado no financiamento e manutenção da instituição, abria mão do domínio deste sobre seu processo de gestão. Neste sentido, concordamos com Dermeval Saviani, quando o mesmo afirma: Cabe à sociedade civil exercer o controle da educação em geral e, principalmente, daquela educação ministrada pelo Estado (...) Retirar a educação da tutela do Estado implica, pois um amplo e concomitante movimento. De um lado, é necessário que os organismos representativos das camadas populares exerçam severa violência e um rígido controle sobre o ensino ministrado pelo Estado; de outro lado, cumpre às organizações das camadas populares desenvolverem projetos educativos inteiramente autônomos em face ao Estado. (SAVIANI, 1984, p. 20 apud PRAIS, 1992, p. 15). 67 O controle da educação proposto por Saviani acima, é um processo que se dá de dentro para fora, ou seja, a partir da gestão escolar democrática local, que quando exercida de maneira progressista, é capaz de influenciar e estimular os representantes das classes populares, na busca por exigir do Estado condições que viabilizem sua participação em órgãos externos, também responsáveis pelo funcionamento da escola, a exemplo das Secretarias de Educação, que no contexto atual, sobrecarregam as unidades de ensino com um grande número de leis e portarias (formalidades burocráticas), que raramente atendem às necessidades das mesmas. Samuel Reis (1991) relata um exemplo prático disso, através da experiência vivida na década de 80 pelas escolas comunitárias de Salvador, que unidas passaram a exigir a eleição de uma comissão representativa formada pela Secretaria de Educação, pelo Conselho de Educação, pela Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia e por representantes das escolas comunitárias, com o objetivo criarem alternativas de articulação entre estas últimas, o Governo Estadual e a Secretaria de Educação. Concordamos com Vitor Henrique Paro (1996) quando o mesmo destaca que a realização de uma gestão escolar democrática, que conte inclusive com a participação da comunidade local, não é tarefa fácil, não se realiza “do dia para a noite”, com um mero ato de vontade. Trata-se de um processo conquistado historicamente, via ações constantes, orientadas em determinada direção. O mesmo precisa ser iniciado a partir das condições reais nas quais vive a escola, isto é, deve-se considerar e respeitar quem ela é: suas comunidades, seu contexto sócio-cultural, sua condições físicas, etc. O objetivo é evitar propor mudanças impossíveis de serem alcançadas, já que dessa forma compromete-se todo o desenvolvimento de uma gestão escolar democrática, podendo até mesmo frustrar aqueles que participam do processo, chegando ao ponto de desenvolverem sentimentos de descrença, pessimismo e repugnância a novas tentativas. Sobre isso, o autor admite: (...) Um processo de mudança só se inicia com medidas no nível da prática, que levem a romper com as condições presentes. Por mais modestas que sejam essas medidas, elas têm de começar por desenvolver-se, oferecendo condições para que as pessoas possam realmente participar do processo e levá-lo adiante. (...). (PARO, 1996, p. 166). A partir dessa colocação, entendemos que apenas o estabelecimento formal da gestão escolar democrática no Projeto Político Pedagógico não é suficiente para que a mesma venha efetivarse. Além de permitir que funcionários, alunos, pais e comunidade local participem do 68 processo decisório da escola, se faz obrigatória a criação por parte da mesma, de condições (internas e externas) para que as pessoas possam participar efetivamente. De acordo com Samuel Aarão Reis (1991) foi a partir de práticas desse tipo que tornou-se possível a gestão democrática junto à comunidade local, exercida pelas escolas comunitárias na década de 80. Entre as condições internas, destacamos: o desenvolvimento no interior da escola de um clima social amigável, baseado em valores como a cooperação, a cordialidade e o respeito, capaz de mobilizar e atrair os participantes, além daqueles que desejam contribuir com o processo de gestão. Entre as condições externas, citamos as lutas trabalhistas, baseadas em direitos humanos como: redução da jornada de trabalho, melhores salários e mais empregos. Para o estabelecimento de ambas, se faz necessário que a instituição escolar busque aproveitar espaços e possibilidades oferecidos pelas condições atuais, atentando inclusive, para dificuldades e resistências que as mesmas apresentem. Entre os benefícios alcançados pela escola com a prática da gestão participativa, em que as decisões são tomadas de maneira consciente pelo grupo influenciado pela flexibilidade, pela liberdade e pelo caráter participativo em função de iniciativas e interesses locais, Vitor Henrique Paro (1996, p. 164) destaca: - “o fortalecimento da unidade escolar externamente”. As pressões exercidas pelo poder público contra os objetivos da classe popular, são menos eficazes quando um grupo é quem responde, e não apenas a figura do diretor. Esta afirmação é exemplificada através da experiência vivenciada pelas escolas comunitárias de Salvador, que geridas por representantes das comunidades escolar e local, conseguiram fortalecer-se contra a intenção do Estado de controlar totalmente o seu funcionamento; - menor probabilidade de o diretor valer-se de sua autonomia, com o objetivo de administrar buscando satisfazer interesses pessoais. No caso das escolas comunitárias o diretor, eleito pelas comunidades escolar e local, atuava não como um ditador de regras e decisões, mas como um representante de propósitos coletivos, que empenhava-se na articulação das duas comunidades. A Constituição oficializada em 1988, artigo 206, inciso VI, é quem regulamenta a gestão democrática do ensino público. A partir dessa Constituição, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), nº 9394, de 20 de dezembro de 1996, no Artigo 14º, define os princípios da gestão democrática: 69 Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: I – participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola; II – participação das comunidades escolar e local em Conselhos de Escola ou equivalentes. O Conselho de Escola é segundo Moacir Gadotti (2001, p. 20) “um colegiado formado por representantes da comunidade escolar: pais, alunos, professores, direção e demais funcionários. É o órgão mais importante de uma escola autônoma, base da democratização da gestão escolar”. É eleito anualmente durante o primeiro mês letivo. Funciona ao mesmo tempo como um canal de participação, e como instrumento de gestão da própria escola, influenciando diretamente o funcionamento da mesma, através do desempenho de duas funções principais: consultiva e deliberativa. De acordo com o autor, este órgão deveria atuar estimulando a participação e a consequente democratização na escola pública, tornando-se um meio prático de formação para a cidadania. Porém, na grande maioria das escolas públicas brasileiras, o Conselho de Escola ou Conselho Escolar fracassa, pois atua de forma vaga e superficial, ou seja, a comunidade local não é convidada a participar, e seus membros reúnemse restritamente com objetivos de: organizar eventos festivos e decidir como a comunidade escolar pode contribuir na realização de serviços (faxinas, pintura, conserto de rede elétrica, etc.) no ambiente da instituição. Porém, este mesmo instrumento pode vir atuar de forma progressista, se a escola não temer a participação popular, e incentivar os membros do Conselho Escolar a interessar-se pela história e cotidiano da instituição (organização, funcionamento, relações, implicações, problemas, resultados, etc.) com o objetivo de inserilos, a fim de que os mesmos desenvolvam uma atuação política consistente, nos mais diversos processos de decisões que norteiam a vida da escola, inclusive a eleição de diretores, contratação de educadores e funcionários, mudanças na estrutura física do estabelecimento, relação com órgãos como as Secretarias e o Ministério de Educação, além da construção de programas educacionais específicos, que atendam às necessidades locais. Embora na década de 80 as escolas comunitárias de Salvador ainda não conhecessem a definição científica de Conselho de Escola, as comunidade escolar e local organizaram-se como tal, resultando em uma atuação responsável e emancipadora nos mais diversos processos de tomada de decisões. A partir de uma análise sobre o atual conceito do Conselho de Escola descrito por diversos autores, inclusive Moacir Gadotti, percebemos que entre os indivíduos que dele fazem parte, 70 não está incluída a comunidade local. Chega ser irônico, diante do forte discurso de inclusão presente no artigo 14º da Lei de Diretrizes e Base da Educação, o fato de em pleno século XXI a comunidade local ainda não ter sido acrescentada oficialmente como mais um membro que compõe o Conselho de Escola. Parece tratar-se de uma espécie de “esquecimento proposital maldoso”, que resulta em uma efetiva marginalização. No caso específico da Escola Parque, embora a mesma reconheça a legalidade, importância e necessidade de um processo de gestão democrática que conte inclusive com a participação da comunidade local, esta ainda não é uma realidade vivida pela instituição, que por sua vez, não dispõe de um Conselho de Escola, nem equivalentes nos quais participem os representantes desta comunidade. Até mesmo as oficinas e os atendimentos jurídico e social, oferecidos à comunidade local, não contam com a sua participação na elaboração, construção, execução, reformulação e avaliação dos mesmos. Todas as decisões administrativas (calendários, horários, eventos, documentações, patrocínios, financeiro, pessoal, organização geral, etc.) são tomadas exclusivamente pela direção, apoiada pela Coordenação Geral e pelo Núcleo de Projetos Especiais da escola, responsável pela existência e manutenção dos serviços oferecidos ao público externo. As pessoas da comunidade local atuam apenas como beneficiárias, receptoras, ou seja, participam dos serviços (atendimento jurídico e social, além das oficinas) ambos previamente organizados, porém não conhecem sua origem e legalidade, não questionam, e não são incentivadas pelos profissionais que os executam a contribuir com sugestões e críticas na elaboração e construção dos mesmos, ainda que estas sejam procedentes. Refletindo sobre a realidade destacada no parágrafo acima e sobre a atuação da escola pública na sociedade capitalista, concordamos então com Frigotto (1993) quando o mesmo admite a idéia de que o capitalismo embora não recuse o direito à escola, opõe-se a modificar a função social da mesma. Influenciados pela concepção freiriana, entendemos que a função social da Escola Parque, atuante em uma sociedade capitalista, não deve restringir-se apenas ao oferecimento dos serviços que a mesma presta junto à comunidade local, mas também compreender o desenvolvimento de estratégias substanciais que possibilitem a esta última, o exercício da democracia no ambiente escolar, que por sua vez, ao contrário de alguns 71 ambientes de predomínio coletivo, constitui um terreno fértil para a gênese e disseminação de significativas lutas sociais, que favoreçam principalmente, a classe popular. Como justificativa, a coordenação da Escola Parque informa que os trabalhos desenvolvidos junto à comunidade local, acontecem a menos de um ano (10 messes), um período visto como de experiência e adaptações, isto é, já se percebeu a importância de tal participação na gestão das oficinas e serviços (jurídico e social) oferecidos, e a potencialidade dos indivíduos (comunidade local - de base popular) para isso, mas até o momento não foram estudadas formas de torná-la possível, devido principalmente, à falta de uma maior experiência social por parte da instituição, no estabelecimento e vivência da relação escola e comunidade. Além disso, a coordenação aponta como elemento obrigatório para o estabelecimento de uma gestão democrática junto à comunidade local, um pleno amadurecimento político por parte da instituição escolar, que no caso da Escola Parque está em processo, já que a mesma avalia e utiliza a experiência adquirida nesses dez meses para tal. Diante dessa realidade, concluímos de acordo com a nossa abordagem sobre gestão democrática escolar junto à comunidade local, e o que observamos na justificativa da coordenação da Escola Parque, que ainda que esta sirva de exemplo para muitas outras instituições escolares, por já ter vencido o desafio de exercer a indiferença social, aproximando-se e articulando-se à comunidade local, através dos serviços de qualidade que oferece à mesma, abrir a escola para o mundo, como queria Paulo Freire, em um propósito de gestão democrática progressista, que visa acima de tudo transformações sociais, continua sendo um obstáculo enfrentado por esta instituição, que embora limitada principalmente pela pouca experiência adquirida até o momento, busca explorar a autonomia que possui, a fim de superar este grande desafio. 72 2.2 - PRESSUPOSTOS PARA UMA GESTÃO ESCOLAR DEMOCRÁTICA QUE RESULTE EM UMA INTEGRAÇÃO EMANCIPADORA ENTRE ESCOLA E COMUNIDADE LOCAL Embora a relação Escola – Comunidade possa ser desenvolvida de diversas maneiras, como aconteceu com as escolas comunitárias de Salvador na década de 80, com a Escola Estadual de 1º Grau Guiomar Novais de São Paulo, e há dez meses acontece na Escola Parque através dos serviços que a mesma oferece ao público externo, destacamos influenciados pelas idéias de Vitor Henrique Paro, que a gestão escolar democrática é a forma mais significativa para que tal integração aconteça, pois através desse processo a comunidade local, constituída por sindicatos, associações representantes de bairro, igrejas, além da vizinhança geral da escola, atua não como uma mera receptora, mas sim como uma participante ativa nos processos de planejamento e decisões que direcionam diretamente a vida da instituição escolar, e indiretamente os rumos que toma a sociedade. Constatada a natureza conservadora da gestão escolar vigente, explorada no item 2.1 deste capítulo, resta discutirmos a seguir, os pressupostos para uma gestão escolar efetivamente democrática junto à comunidade local, isto é, comprometida com a transformação social, transformação esta, que deve priorizar fatores como o combate à corrupção e à má distribuição de renda, que atualmente deformam a sociedade brasileira. Influenciados pelas idéias de Vitor Henrique Paro (1996), destacamos quatro pressupostos básicos para o estabelecimento e prática de uma gestão escolar que resulte em uma integração emancipadora entre escola e comunidade local, são eles: 1) A questão da especificidade da gestão escolar A escola assume um papel efetivamente revolucionário, contrário à predominância de desigualdades sociais, quando consegue conduzir a classe popular trabalhadora a desenvolver uma consciência crítica da realidade social em que se encontra, apropriando-se do saber historicamente acumulado. Porém, como já afirmamos no item anterior deste capítulo, o atual exercício da gestão escolar no contexto nacional, revela-se conservador, já que na prática os interesses das classes dominantes são priorizados, entre eles, a sonegação do saber, materializada através da transmissão de conteúdos desprovidos de aspectos filosóficos e sociais. Agindo assim, a escola assemelha-se à empresa capitalista, pois desenvolve um 73 trabalho que favorece a exploração de uma maioria em favorecimento da classe dominante. Quanto a isto, Vitor Henrique Paro destaca: A diferença específica é que, enquanto a empresa serve ao capital diretamente, mediando a apropriação da mais-valia no nível das relações de produção, a escola, administrada dentro dos parâmetros capitalistas e atendendo aos interesses da classe proprietária dos meios de produção, assume o papel político de enfraquecer os antagônicos do capital, isto é, a classe trabalhadora, despotencializando sua ação política, na medida em que lhe nega a apropriação do saber e o desenvolvimento da consciência crítica. (PARO, 1996, p. 150). Entendemos a partir da afirmação acima, o motivo de a escola que deveria exercer uma política a serviço da classe popular, atuar como instrumento de ação política a serviço da classe dominante. Trata-se de uma instituição que para desenvolver o seu processo de gestão, inspira-se na empresa capitalista, que por sua vez, é referência do autoritarismo. Como a produção da mais-valia acontece a partir da exploração do trabalhador, é instalado na empresa capitalista, através da gerência, um amplo processo de dominação e controle, sendo este contrário, sobretudo, ao exercício de uma prática educativa emancipadora, o que inclui uma gestão escolar democrática que conte com a participação de pessoas comuns oriundas da comunidade local. Sendo assim, em termos políticos a gestão escolar semelhante à administração empresarial capitalista, mostra-se antagônica aos interesses e necessidades da classe dominada, e incompatível com uma proposta de acolhimento e inclusão da comunidade local. Como afirma Frigotto (1993, p. 16) “(...) trata-se da perspectiva instrumentalista e funcional da educação”. Como alternativa para o problema exposto no parágrafo anterior, Paro (1996) recomenda à instituição escolar que deseja praticar uma gestão em favor da participação da classe popular, que descarte o modelo de administração empresarial capitalista, uma vez que este, não preza por consultar, informar, ouvir e capacitar a comunidade local, principalmente quando se trata da tomada de decisões. A escola interessada no exercício de uma gestão democrática, precisa estabelecer a prática constante de reuniões nas quais, o público da comunidade local seja efetivamente estimulado a atuar, sendo consultado e ouvido, principalmente quando se trata de decisões importantes como: planejamento, questões financeiras e estabelecimento de 74 programas educacionais. Além disso, a construção coletiva do Projeto Político Pedagógico4 da escola, incluindo também a participação de pessoas da comunidade local, é sem dúvida uma das manifestações mais significativas do modelo de administração que a instituição escolar precisa desenvolver. Sobre isso o autor afirma que: Este tema não pode, entretanto, ser tratado à maneira da visão conservadora que, raciocinando em termos de aproximação entre empresa e escola, reduz a especificidade da Administração Escolar apenas aos retoques e adaptações que se devem fazer à administração empresarial para adequá-la às peculiaridades da escola. (PARO, 1996, p. 151). Assim, em termos políticos, a especificidade da gestão escolar está fundamentada em uma prática oposta à administração empresarial capitalista, que de acordo com o que nos ensina Frigotto (1993) obriga o trabalhador a atuar como um mero executor da sua função, desconhecendo a concepção de produção e de seu instrumento de trabalho. Porém, isto significa que nem tudo está perdido, ou seja, o progresso técnico presente tanto na teoria, quanto na prática administrativa empresarial capitalista, pode e deve ser aproveitado pela instituição escolar no estabelecimento de uma gestão democrática junto à comunidade local. Como exemplo, destacamos que o rígido cumprimento de metas pré-estabelecidas pela administração empresarial capitalista, deve ser seguido também quando se trata de uma gestão escolar que conte com a participação do público externo, ao contrário, prevalece na educação brasileira o tão conhecido e irresponsável discurso de “querer, estabelecer melhorias”, mas não buscar meios concretos e viáveis para realizá-las. Paro (1996) destaca ainda que a existência de uma gestão democrática, articulada com os interesses da sociedade, é pré-determinada pelos fins e realidade da instituição administrada. Isto significa que no caso da gestão escolar, sua especificidade resulta de dois fatores: - dos objetivos que se buscam alcançar com a escola; - da natureza do processo que envolve essa busca; 4 Projeto Político Pedagógico é o plano global da escola. Pode ser entendido como a sistematização, nunca definitiva, de um processo de Planejamento Participativo, que se aperfeiçoa e se concretiza ao longo da caminhada da instituição. Define claramente o tipo de ação educativa que se quer realizar. É um instrumento teórico-metodológico para a intervenção e mudança da realidade escolar. É um documento flexível e aberto de organização e integração da atividade prática, abrange todos os aspectos da realidade escolar. Constituído de forma democrática porque é elaborado participativamente e resultado de consensos. Trata-se de uma tentativa, no âmbito da educação, de resgatar o sentido humano, científico e libertador do planejamento. 75 A efetiva vinculação existente entre esses dois fatores (objetivos e processos/meios para alcançá-los) é fundamental para a prática de uma gestão democrática comprometida com a transformação social, uma vez que, os objetivos adotados pela escola estejam de acordo com os interesses da classe trabalhadora, representada também pela comunidade local, se faz obrigatório que os princípios, as técnicas e os procedimentos utilizados em sua gestão, sejam apropriados a esse tipo de objetivos. Como gerir significa utilizar recursos para realização de determinados fins, são estes, representados pelos objetivos, que determinam a forma como serão empregados os recursos disponíveis para tal. Por isso, é importante que a escola busque avaliar os elementos técnicos da administração empresarial capitalista antes de adotá-los, através de adequações que os adaptem às necessidades da gestão escolar. É preciso substituir o paradigma de dominação e exclusão que eles priorizam, por um paradigma de democracia e inclusão, práticas de uma escola comprometida com a sua comunidade local. Desta forma, concluímos que: buscar uma especificidade para a administração escolar é fator fundamental para a prática de uma eficiente gestão democrática junto à comunidade local, uma vez que, trata-se de um processo específico, que possui público, características, objetivos, métodos e desafios próprios. Como exemplo, destacamos a gestão democrática praticada pelas escolas comunitárias de Salvador na década de 80: um processo que envolvia segmentos da sociedade civil, entre os quais estavam inclusos associações de moradores de bairro, igrejas e sindicatos, membros estes não presentes no processo de administração de empresas capitalistas. 2) Gestão escolar e racionalidade social Segundo Vitor Henrique Paro (1996, p. 152) o grau de comprometimento de uma instituição escolar com a transformação social ou com a conservação social é medido não somente pela sua racionalidade interna, ou o sucesso na administração de recursos materiais e conceptuais, mas também pelo desempenho que a mesma apresenta em termos de sua racionalidade externa, ou racionalidade social, isto é, “em que medida aquilo que ela realiza tem repercussão na vida do todo social”. Uma abordagem sobre a racionalidade social praticada pela escola é fundamental, pois tratase de um processo historicamente determinado, que atende a interesses de grupos sociais. Os responsáveis pela gestão escolar, individual e coletivamente, através de suas escolhas e ações, mantêm um vínculo com os fatores externos, que influenciam diretamente a vida da escola, 76 entre os quais destacamos: interesses conservadores da classe dominante, ou interesses revolucionários da classe dominada. É evidente que a gestão escolar comprometida com a transformação social deverá buscar estabelecer e alcançar objetivos articulados aos interesses revolucionários da classe dominada, o que envolve a luta pelos direitos humanos de toda ordem no nível da sociedade global, entre eles: as reivindicações por aumento de salário de professores e funcionários, melhorias de suas condições de trabalho na escola, mais empregos, redução da jornada de trabalho, assistência social, enfim, por tudo que concorra para proporcionar melhores condições de vida à classe trabalhadora. Vitor Henrique Paro (1996, p. 153) enfatiza que quando trata-se do fator racionalidade social, a gestão escolar precisa atentar para duas questões: “uma diz respeito à explicitação dos objetivos e a outra à compreensão dos reais interesses da classe trabalhadora”. No que diz respeito à primeira questão, a escola atua como parte de um sistema educacional, regido também por metas coletivas, determinadas por órgãos como o Ministério e as Secretarias de Educação, por isso, a gestão escolar precisa atentar para a natureza das determinações partidas de órgãos superiores (regras de administração em geral, métodos, calendários, metas, números, etc.) a fim de que não ocorra a aceitação incondicional das mesmas, mas ao contrário, seja praticado um sadio questionamento dos verdadeiros propósitos a que servem e, quando necessário sua rearticulação com fins de transformação social. No caso da Escola Parque, a gestão estabeleceu a realização dos serviços oferecidos à comunidade local, não orientada por determinações de órgãos superiores, mas a partir da interpretação que fez dos constantes apelos de moradores do bairro. No que diz respeito à segunda questão apontada por Paro, ou seja, compreensão dos interesses da classe trabalhadora, com quem a escola mantém um contato direto através de funcionários, pais, alunos e representantes da comunidade local, é preciso que a instituição escolar busque por si mesma conhecê-los o mais rigorosamente possível, pois é um grande equívoco tomar como verdadeiro aquilo que a ideologia dominante ensina como os reais interesses da classe dominada, uma vez que, a esta última não são proporcionadas condições adequadas para que a mesma possa expressar e manifestar seus propósitos. No caso da escola, a classe trabalhadora não deve ser mais uma vez marginalizada das decisões a respeito dos objetivos a serem alcançados pela instituição, nem mesmo forçada a aceitar passivamente currículos, programas, métodos, pessoal, etc. Daí a necessidade de a gestão escolar, criar meios que viabilizem a expressão e a plena participação dos membros tanto da comunidade escolar, quanto da 77 comunidade local. No exemplo das escolas comunitárias de Salvador, Samuel Reis (1991), relata que a expressão de idéias e pontos de vista das duas comunidades aconteciam através de constantes assembléias, nas quais a plena participação de todos era colocada em prática independente dos assuntos a serem tratados: divisão de tarefas, questões financeiras, organização de novos mutirões, relacionamento com órgãos como as Secretaria de Educação, etc. Destacamos que a racionalidade externa da escola, não compreende apenas conhecer e entender os interesses da classe trabalhadora, mas identificá-los à ponto de levá-los em conta na sua organização interna e na sua prática educativa, chegando até mesmo ajudar as comunidades escolar e local a desenvolverem condições de tomarem consciência crítica de seus interesses de classe. Como exemplo disso, as escolas comunitárias da década de 80, incluíram entre seus objetivos que os professores atuantes como voluntários, fossem contratados pelo Estado, com direito à todas as conquistas trabalhistas da época. Por fim, é através do desenvolvimento de uma consciência crítica, que os membros da classe trabalhadora, presentes nas duas comunidades, têm condições de interagir e participar efetivamente da construção de uma nova concepção de mundo, revolucionária e progressista, articulada aos seus interesses. A ideologia dominante só pode ser desarticulada através de um trabalho coletivo desenvolvido pelas diversas instituições da sociedade civil (família, igrejas, sindicato, associação de classe, etc.) por isso, a escola precisa contribuir com a sua parte, não apenas através das atividades desenvolvidas em sala de aula, mas também através de reuniões de estudos, palestras, discussões e outras atividades que precisam ser proporcionadas tanto à comunidade escolar, quanto à comunidade local. 3) A racionalidade interna na escola Para que a gestão escolar possa contribuir verdadeiramente para a transformação social, através da concretização da participação da comunidade local nesse processo, não basta o caráter transformador dos objetivos, é preciso que além de traçados e perseguidos de maneira efetiva pela escola, eles tornem-se uma realidade prática, do contrário, os mesmos servem ao lado oposto, isto é, à classe dominante que preza pela conservação e ampliação das diferenças sociais. Através da busca efetiva dos objetivos propostos, é que o caráter revolucionário da gestão escolar manifesta-se. É com base nesta realidade que o autor Vitor Henrique Paro 78 (1996) considera que a racionalidade externa da escola depende, sobretudo, de sua racionalidade interna. Sendo a gestão escolar um item fundamental no processo de transformação social, entendemos que uma integração emancipadora entre escola e comunidade local é um processo que não se dá de forma espontânea, mas a partir da vontade e organização coletiva dos indivíduos em torno de objetivos comuns, utilizando de forma adequada todos os recursos (materiais e conceptuais) de que se dispõem. Por isso, a importância de uma gestão escolar reflexiva, uma vez que, esta representa de forma prática e intencional, a própria utilização desses recursos, que no caso específico da Escola Parque acontece através da coordenação do esforço humano coletivo, envolvido na elaboração e construção dos serviços oferecidos para o público externo. Nessa perspectiva, reconhecemos que a racionalidade interna, ou eficiência na utilização de recursos é uma prática reflexiva, que precisa ser realizada permanentemente pela escola, a fim de que ocorram avanços em sua gestão. A mesma é fator fundamental na busca pelo estabelecimento de uma relação emancipadora junto à comunidade local, e se dá a partir da consideração dos conhecimentos, técnicas e instrumentos referentes tanto à seleção, quanto ao emprego racional de recursos para a realização de fins determinados de maneira consciente e responsável. Trata-se de um pré-requisito mais que obrigatório para a prática de uma gestão escolar verdadeiramente revolucionária, pois segundo Vitor Henrique Paro (1996, p. 158) a racionalidade interna engloba a consciência do sujeito (individual ou coletivo), não apenas sobre a utilização racional dos recursos, mas sobretudo, da práxis, ou seja, “da racionalidade do processo e da participação neste de sua consciência”. É a partir da substituição da gestão escolar imediata e espontânea, por uma gestão escolar reflexiva e intencional, ou seja, praticante efetiva de uma racionalidade interna, que se consegue alcançar objetivos desafiadores, que estão além do nível técnico, como o estabelecimento e prática da interação com a comunidade local, processo este comprometido com uma revolucionária transformação social. Na prática, todos os funcionários da instituição precisam ser envolvidos no processo de racionalidade interna da escola, sendo estimulados a conhecer o que são, qual a sua origem, como acontecem, a que e quem destinam-se, e quais as consequências das tarefas que realizam. 79 Enfim, para o estabelecimento e prática de uma gestão escolar democrática, que resulte em uma corajosa integração entre a Escola Parque e sua comunidade local, faz-se obrigatória por parte dos profissionais envolvidos com a gestão do estabelecimento de ensino, a posse e exibição de uma competência técnica (diferente do tecnicismo, isto é, utilização da técnica pela técnica, sem considerar os fins aos quais a mesma destina-se) que diz respeito tanto ao conhecimento da instituição gerida, quanto aos processos e métodos relacionados à atividade de gestão. 4) A gestão escolar e a participação coletiva O modelo de gestão escolar atualmente praticado na rede pública de ensino brasileira, em geral baseado no autoritarismo e na ausência de participação das comunidades escolar e local, contraria totalmente a prática democrática à qual se pretende chegar, quando o objetivo é uma transformação social que favoreça aos excluídos. Para a prática de uma gestão escolar efetivamente democrática, se faz obrigatória a participação de todos os envolvidos direta ou indiretamente no processo escolar, o que inclui a comunidade local, que deve participar das decisões importantes referentes à organização e o funcionamento da escola que a serve. Segundo Vitor Henrique Paro (1996) na prática isto significa que a gestão escolar tradicional (que concentra a autoridade nas mãos apenas do diretor, que sozinho responde pela escola), precisa ser substituída por uma forma coletiva e cooperativa de gestão, na qual seja uma realidade concreta a responsável e adequada distribuição da autoridade, o que inclui destinar uma parcela desta tanto para a comunidade escolar, quanto para a comunidade local, no que diz respeito aos processos de conhecimento, funcionamento e de tomada de decisões da organização escolar. Ambas as comunidades precisam ser instruídas, capacitadas e incentivadas a exercer sua autoridade de maneira consciente, chegando ao ponto de juntas poderem ajudar no fortalecimento (interno e externo) da instituição escolar, frente às autoritárias demandas exigidas por órgãos como o Ministério da Educação. Para tanto, José Carlos Libâneo (2001) declara ser necessário que os integrantes das duas comunidades além de estarem à disposição, possam ser levados a conhecer o processo de organização escolar: sua cultura, relações de poder, modo de funcionamento, problemas, procedimentos necessários para a participação, desenvolvendo inclusive saberes e competências para fazer análises, identificar e solucionar problemas, e reinventar práticas frentes a situações inesperadas. 80 Nessa perspectiva, José Carlos Libâneo (2001, p. 89) destaca que: ao diretor, enquanto líder que possui “uma visão de conjunto e uma atuação que compreende a escola nos seus aspectos pedagógicos, administrativos, financeiros e culturais”, cabe o papel de aglutinar as aspirações, os desejos, as expectativas das comunidades escolar e local, além de articular a adesão e a participação de ambas na gestão de um projeto comum. Se cada grupo participante possui sugestões e prioridades próprias, mas a urgente necessidade da escola é a instalação em suas proximidades de um semáforo a fim de contribuir para a segurança na trajetória principalmente de alunos, o diretor precisa buscar despertar em todos o entendimento de que a gestão escolar democrática deve priorizar em primeiro lugar os objetivos que favoreçam ao coletivo. Não podemos ignorar que cada categoria de sujeitos componentes das duas comunidades (professores, alunos, diretores, coordenadores, famílias, demais funcionários, sindicatos, associações representantes de bairro, igrejas, além da vizinhança geral da escola) vive caminhos próprios e possui interesses específicos, o que implica em diferentes visões das questões escolares, chegando a gerar assíduas divergências. Porém, é necessário que o diretor adote uma postura de respeito e neutralidade, destacando através do diálogo que a escola possui objetivos próprios, buscados em prol do coletivo e não do favorecimento de categorias individuais, além de uma estrutura de gestão coletiva, que preza, sobretudo, pelo respeito mútuo de papéis, competências, relações sociais e opiniões alheias. De maneira específica, a gestão escolar inspirada na cooperação recíproca entre as comunidades escolar e local, deve estimular e assegurar a construção de um novo perfil de trabalhador, isto é, aquele que consegue trabalhar com interesse e responsabilidade, sem antes ser coagido pelo autoritarismo praticado pela gestão capitalista. Trata-se de um indivíduo que possui tanto o lado pessoal, quanto o lado profissional guiados pela vontade coletiva na busca dos objetivos que verdadeiramente favoreçam uma transformação social em prol da maioria. O tipo de controle (no qual poucos impõem sua vontade sobre muitos, fazendo-os cumprir suas determinações) proposto pelo autoritarismo que caracteriza a sociedade dividida em classes, é segundo Vitor Henrique Paro (1996, p. 161) “necessário quando as pessoas ou grupos envolvidos no empreendimento não têm os mesmos interesses, não lhes importando atingir um objetivo que seja comum a todos. Porém, tal necessidade deixa de existir, se o diálogo em prol da consciência e concordância são estimulados na busca por determinados fins coletivos. Por isso, entendemos que a prática de uma gestão escolar democrática, envolvendo as comunidades escolar e local não é tarefa simples, uma vez que, a mesma 81 implica na convergência e consciência de interesses pertencentes a indivíduos diferentes, provenientes de histórias e contextos sociais distintos, possuidores de opiniões contrárias, e que não possuem uma ampla experiência quando se trata do exercício da democracia. Mas, é necessário que a instituição escolar não desanime, mas procure lidar com as contradições existentes dentro e fora do seu ambiente, visando acima de tudo estimular a introdução e a prática democrática de coordenação do esforço humano coletivo. Como consequência dessa prática, destacamos que a coordenação do esforço de funcionários, professores, alunos, família e a comunidade local, fundamentada na participação coletiva, contribui extremamente para a instalação e exercício de uma gestão escolar democrática, capaz de mobilizar todos os membros em prol de desafios que vão além das necessidades específicas da escola, como por exemplo: combater a indiferença da atual sociedade sobre a questão do lixo espalhado nas ruas e lugares públicos, que favorece a reprodução do mosquito da dengue e consequentemente o aumento no número de casos da doença, ou ainda, como foi conquistada pela gestão democrática da Escola Comunitária do Calabar na década de 80, a melhoria das condições de vida da população do bairro, a partir da instalação de redes de água e esgoto, construção de escadarias, calçamento de algumas ruas e instalação de telefones públicos. A prática de uma gestão democrática, Paro (1996, p. 162) pressupõe que os grupos ou equipes representativas de todos exerçam seu papel de forma autêntica, e “estejam sempre funcionando adequadamente os mecanismos mais eficientes de expressão das idéias e de intercâmbio de informações” que constituem os canais de comunicação. Diante desta afirmação, destacamos entre tais mecanismos que as assembléias, debates, seminários e reuniões de grupos, envolvendo as duas comunidades, precisam ser articulados de maneira responsável e serem rigorosamente frequentados por todos, além de encarados não como um momento vazio, desorganizado, no qual são praticadas discussões vulgares, divulgadas exigências medíocres e contestações pouco ou nada produtivas, mas sim como um momento de produtividade singular, materializada através de uma verdadeira participação: a socialização de informações e experiências, discussões coletivas de problemas e soluções, estudos de propostas e determinações do poder público, exposição de projetos, objetivos e alternativas, além da busca de consensos que possuam como foco principal questões que favoreçam o alcance de avanços sociais na vida da unidade escolar, a exemplo do combate ao consumo de drogas nas redondezas da instituição de ensino, que prejudica tanto esta, quanto a comunidade local atingida, contribuindo efetivamente para o aumento da violência que assola toda a sociedade. Além disso, ouvir representantes da comunidade local em reuniões, debates 82 e assembléias pode trazer à escola uma visão mais ampla e precisa de problemas como a violência, pois quem mais conhece na prática sua gravidade e consequências são justamente aqueles que estão expostos à mesma direta e constantemente, uma vez que, na realidade de muitas escolas públicas brasileiras, diretores, coordenadores, educadores e demais funcionários residem em um bairro, e trabalham em outro com o qual pouco estão familiarizados. Sem dúvida, em uma perspectiva de gestão democrática, a fala de todos os setores que compõem a escola, além das comunidades escolar e local, precisa ser ouvida e considerada como fator essencial, capaz de superar a tão exercida falta de esclarecimentos e diálogo, que fortalece ainda mais a prática da burocracia. Como justificativa para esta afirmação, apontamos o relato feito por Paulo Freire (1998, p. 91), de que “a democracia como qualquer sonho, não se faz com palavras desencarnadas, mas com reflexão e prática”. Ainda segundo o que nos ensina Paro (1996, p. 163) em uma gestão escolar autoritária, que possui como centro a figura do diretor, “basta que este e alguns de seus auxiliares mais diretos dominem os conhecimentos e técnicas de gerência e administração”, fundamentais ao exercício de funções relacionadas com o pessoal, com a parte financeira, com o prédio da escola e os recursos materiais. Porém, em uma gestão democrática, as responsabilidades administrativas e a autoridade são distribuídas entre todos os participantes (coordenadores, secretários, professores, demais funcionários e representantes das comunidades escolar e local) por isso, se faz obrigatório que todos conheçam e pratiquem os princípios e métodos de uma administração identificada com a transformação social. De modo específico, a própria formação do professor precisa capacitá-lo para tal. De acordo com José Carlos Libâneo: O conceito de participação se fundamenta no de autonomia, que significa a capacidade das pessoas e dos grupos de livre determinação de si próprios, isto é, de conduzirem sua própria vida. (LIBÂNEO, 2001, p. 80). A autonomia precisa ser manifestada nas instituições de ensino, como a Escola Parque, por meio de uma forma não autoritária de tomada de decisões, mas através de um processo de gestão democrática, isto é, participativa, o que implica na livre escolha de objetivos, meios para alcançá-los, e na construção conjunta de processos de trabalho. Na prática a liderança 83 organizacional compartilhada representa o maior desafio quando se trata de exercer a gestão escolar democrática. Entendemos por fim, que nos dias atuais, o envolvimento da vizinhança formada por pessoas comuns, igrejas, sindicatos e associações representantes de bairro nas atividades de gestão escolar praticadas por uma unidade pública de ensino é sem dúvida um grande desafio, pois a regra geral é uma total ausência de participação da comunidade local nos assuntos da escola, principalmente no que diz respeito às camadas sociais mais pobres, que são justamente aquelas que mais se beneficiariam com tal prática. Nunca houve, no plano federal ou estadual, a vontade política necessária para fazer existir a prática de uma gestão escolar democrática, junto ao público externo. Trata-se, portanto, de um grave problema que a Escola Parque não conseguirá resolver sozinha, uma vez que, o mesmo envolve impedimentos sociais de grandes dimensões, como as precárias condições de vida nas quais encontram-se as comunidades locais. Porém, diante dessa grave realidade, destacamos que a Escola Parque não deve “cruzar os braços” praticando uma ideologia fatalista, que favorece a classe dominante, mas deve como alertava Paulo Freire, fazer no momento presente o possível de hoje, para amanhã fazer o impossível de hoje, pois a sobrevivência dela própria enquanto instituição situada em um contexto social capitalista e liberal depende, sobretudo, do exercício de sua autonomia na busca por soluções de questões desafiadoras como o exercício de uma gestão democrática junto à sua comunidade local. Um exemplo desse “possível de hoje”, é que a Escola Parque pode permitir que a comunidade local participe da articulação das oficinas que lhes são oferecidas, contribuindo com sugestões e críticas. Consideramos que este é de fato um primeiro grande passo! Deve, portanto, partir da Escola Parque o empenho pela iniciativa, a fim de mobilizar a sociedade para tal. 84 3. - A EXPERIÊNCIA DA ESCOLA PARQUE Localizado à Rua Saldanha Marinho, 134, no Bairro da Caixa D’água, na cidade de Salvador Bahia, o Centro Educacional Carneiro Ribeiro – Escola Parque, foi inaugurado parcialmente em 21 de outubro de 1950, pelo então Secretário de Educação do Estado Dr. Anísio Teixeira. A partir dessa data foram necessários mais catorze anos para que as obras de construção da escola fossem concluídas totalmente, dando origem à seguinte estrutura: - 4 Escolas Classe, de nível primário, para mil alunos cada, com funcionamento em dois turnos, localizadas nos bairros: Liberdade, Pero Vaz, Pau Miúdo e Caixa D’água; - 1 Escola Parque construída em uma área arborizada e gramada de 42.000m2, com os seguintes pavilhões: a) Pavilhão de trabalho; b) Setor socializante; c) Pavilhão de educação física, jogos e recreação; d) Biblioteca; e) Setor administrativo geral e almoxarifado; f) Teatro; g) Artístico. A princípio tratava-se de uma estrutura escolar voltada apenas para o ensino primário (1ª à 4ª série), na qual os quatro mil educandos das quatro Escolas Classe permaneciam nas mesmas durante quatro horas (em processo de aprendizagem), e no turno oposto eram encaminhados para a Escola Parque onde permaneciam mais quatro horas, completando seu tempo integral de educação com as atividades desenvolvidas pelos diversos setores, entre eles: a) Setor de trabalho: artes aplicadas, industriais e plásticas; b) Setor socializante: grêmio, jornal, rádio-escola, banco e loja; c) Setor de educação física: ginástica, jogos e brincadeiras; d) Setor artístico: música instrumental, canto, dança e teatro; e) Setor de extensão cultural e biblioteca: leitura, estudo e pesquisa; f) Setor de assistência alimentar: refeições e lanches; g) Setor médico-odontológico: assistência médica e odontológica diária, fornecida pela Secretaria de Saúde do Estado; 85 Havia ainda um plano de manter em uma residência apropriada que seria construída no interior da Escola Parque, 5% dos educandos considerados sem lar. Essa residência foi a única parte do projeto que não se cumpriu. Embora tenha se passado mais de meio século, acreditamos que as forças progressistas da sociedade, que continuam lutando por justiça, condições e oportunidades iguais para toda a população, precisam lutar para que essa parte do projeto de Anísio Teixeira venha tornar-se real, uma vez que, ainda hoje existem educandos vivendo em situação de flagelo. Trata-se da prática de Educação Integral idealizada por Anísio Teixeira, que no contexto de inauguração da Escola Parque, discursou: Os brasileiros depois de 1930, são todos filhos de improvisação educacional, que não só liquidou a escola primária, como invadiu os arraiais do ensino secundário e superior e estendeu pelo País uma rede de ginásios e universidades cuja falta de padrões e de seriedade atingiria as raias do ridículo, se não vivêssemos em época tão crítica e tão trágica, que os nossos olhos cheios de apreensão e de susto, já não têm vigor para o risco ou a sátira. (TEIXEIRA, 1950, p. 23 apud EBOLI, 1969, p. 13-14). É contra essa tendência à simplificação destrutiva que se levanta este Centro Popular de Educação. Desejamos dar, de novo, à escola primária, o seu dia letivo completo. Desejamos dar-lhe seus cinco anos de curso. E desejamos dar-lhe seu programa completo de leitura, aritmética e escrita, ciências físicas e sociais, artes industriais, desenho música, dança e educação física. Além disso, desejamos que a escola eduque, forme hábitos, forme atitudes, cultive aspirações, prepare realmente a criança para a sua civilização – essa civilização tão difícil por ser uma civilização técnica industrial e ainda mais difícil e complexa por estar em mutação permanente. E, além disso, desejamos que a escola dê saúde e alimento à criança, visto não ser possível educá-la no grau de desnutrição e abandono em que vive. (TEIXEIRA, 1950, p. 24 apud ÉBOLI, 1969, p. 14). Contrário ao emprego de paliativos quando o assunto é educação, o professor Anísio Teixeira (1950) entende que a escola precisa suprir as deficiências presentes em instituições como a igreja e a família, que atuam em estado de defensiva, por isso, embora caras, custosas e desafiadoras, estabeleceu para o Centro Popular de Educação Escola Parque as pretensões que destaca em sua citação acima, como justificativa de que investir em educação é investir em defesa, isto é, sobrevivência. Neste sentido, concordamos com ele, de que não se pode construir uma educação de qualidade, que busque educar a infância nos seus aspectos culturais, intelectuais, sociais, artísticos e vocacionais, e que seja ao mesmo tempo barata! Ao contrário do que nos ensina a Teoria do Capital Humano, explorada por Frigotto, e que 86 representa a forma pela qual a visão burguesa pautada por um método positivista reduz a prática educacional a um “fator de produção”, investir em educação não é como qualquer outro investimento, pois acima da geração do lucro, tal investimento compreende a geração de seres humanos. Como justificativa para que fosse desenvolvida na Escola Parque uma educação de tempo integral, Anísio Teixeira afirma: No mínimo, as crianças brasileiras, que logram freqüentar escolas, estão abandonadas em metade do dia. E este abandono é o bastante para desfazer o que por acaso, tenha feito a escola na sua sessão matinal ou vespertina. Para remediar isto, sempre me pareceu que devíamos voltar à escola do tempo integral. (TEIXEIRA, 1950, p. 31 apud EBOLI, 1969, p. 15). A difícil realidade social das crianças pobres soteropolitanas de ontem, época em que começou a funcionar a Escola Parque, não é muito diferente daquela vivenciada pelas crianças pobres de hoje: falta principalmente assistência familiar e social, o que inclui alimentação e saúde dignas. Diante dessa realidade concordamos com a afirmação acima, e entendemos que a escola de tempo integral proposta por Anísio Teixeira, embora não seja a solução para o problema da pobreza em que vive a maior parte das crianças provenientes de famílias de baixa renda, serve para tornar a vida escolar destas menos deficiente, uma vez que, a assistência familiar não recebida por elas é suprida pela assistência de professores especializados e demais profissionais envolvidos. Justificamos essa afirmação destacando que no momento atual, a grande maioria das famílias que possuem crianças e adolescentes estudando na Escola Parque, geralmente formadas por pais, mães e familiares que saem para trabalhar às 7:00 e retornam para casa após às 19:00 horas, reconhecem que se não pudessem contar com a educação de tempo integral oferecida pela instituição, não teriam outra opção, isto é, deixariam seus filhos em casa sozinhos, sem poder monitorar a sua rotina e prestar a assistência na área educacional, o que representa um gravíssimo problema para famílias moradoras de áreas de risco atingidas pelo tráfico de drogas e pela prostituição, que prejudicam principalmente indivíduos considerados mais vulneráveis como crianças e adolescentes. Percebemos então, que a educação em tempo integral proposta por Anísio Teixeira, aproxima-se da educação com características humanistas proposta por Gramsci, uma vez que, busca articular a formação técnica com a formação humana, alimentando aspectos espirituais através do ensino das artes. Como o próprio Anísio Teixeira relata em seu discurso, 87 trata-se de uma escola que educa formando hábitos, formando atitudes, cultivando aspirações, preparando realmente o educando para a sua civilização. Como um dos grandes desafios para a realização de uma educação de tempo integral emancipadora, Anísio Teixeira destaca: “(...) a maior dificuldade da educação primária, que por sua natureza é uma educação universal, é a de obter um professor primário que possa atender a todos os requisitos de cultura e aptidão para um ensino tão vasto e tão diversificado (...)”. (TEIXEIRA, 1950, p. 34 apud ÉBOLI, 1969, p. 16). Diante dessa realidade o corpo docente contratado pela Escola Parque na época, era formado por professores todos baianos, recrutados em Salvador e no interior do Estado. Em sua maioria, realizaram cursos de aperfeiçoamento no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos – INEP, do qual Anísio Teixeira era diretor, no Centro Regional de Pesquisas Educacionais da Bahia e no Centro Educacional de Pesquisas Regionais de Belo Horizonte. Outros eram especializados em música, dança, atividades dramáticas, artes industriais, desenho, educação física, recreação, jogos e biblioteca, formados inclusive no Curso de Artes Industriais no SENAI do Rio de Janeiro. Em vez de sobrecarregar um único professor com inúmeras tarefas, a prioridade era formar e contratar muitos professores com diferentes habilidades e aptidões, a fim de contemplar as necessidades culturais, intelectuais, sociais, artísticas e vocacionais dos educandos. Segundo a autora Terezinha Eboli (1969, p. 20) os objetivos da Escola Parque eram: 1- “Dar aos alunos a oportunidade de maior integração na comunidade escolar, ao realizar atividades que os levam à comunicação com todos os colegas ou com a maioria deles”. Entre essas atividades destacamos: trabalhos em equipe tanto de natureza científica, quanto envolvendo práticas de dança, jogos, brincadeiras, oficinas de artes manuais (em desenho, couro, cerâmica, metal, madeira, bordados diversos, alfaiataria – corte e costura, tapeçaria, tecelagem, flores e bijuteria), música, ginástica, excursões, clubes, jornal e grêmio. 2- “Tornálos conscientes de seus direitos e deveres, preparando-os para atuar como simples cidadãos ou líderes, mas sempre como agentes do progresso social e econômico”. Para tal, eram empregadas além das atividades curriculares expostas no parágrafo anterior, o ensino da disciplina Organização Social e Política Brasileira e o estímulo ao uso consciente dos serviços oferecidos pela Biblioteca. 3- “Desenvolver nos alunos a autonomia, a iniciativa, a 88 responsabilidade, a cooperação, a honestidade, o respeito a si mesmo e aos outros”. O ensino do Catecismo, Higiene, o exercício do Escotismo5 e as Campanhas para melhoria do aprendizado eram práticas extra-curriculares desenvolvidas também na busca desses objetivos. Percebemos que esses objetivos traçados e as respectivas atividades empregadas pela Escola Parque na tentativa de alcançá-los, embora não sejam suficientes contribuem até mesmo para a formação de indivíduos capazes de atuar na vida política e cultural, em busca de transformação social, por estimularem a capacidade reflexiva nos mesmos, tão negligenciada pela escola atuante como um Aparelho Ideológico de Estado. Visando chegar-se aos objetivos acima o currículo do Centro Educacional Carneiro Ribeiro foi divido em: - Disciplinas obrigatórias (Escolas Classe e Escola Parque): Português, Matemática, Estudos Sociais, Ciências, Francês e Religião; - Práticas Educativas Complementares (Escola Parque): Artes Industriais, Atividades Socializantes, Educação Física, Atividades Artísticas, Atividades Culturais e Biblioteca. Como prioridade no desenvolvimento desse currículo, a direção da Escola Parque em 1969 destacou: (...) o aluno deve tratar de conteúdos que o estimulem intelectualmente, que tenham significado para sua vida, que se relacionem com o que lhe é familiar ou que possam ser usados na solução de problemas. Conteúdo que tem pouco significado para as crianças ou que represente uma ginástica mental (por exemplo, memorizar as capitais dos Estados), não tem lugar no currículo moderno. Um currículo escolar que dependa em grande parte de uma rotina de memória e recordação de fatos não estimula a curiosidade intelectual do educando. A aprendizagem é muito mais eficiente quando o aluno é um ativo participante na descoberta do conhecimento (...). (DIREÇÃO DA ESCOLA PARQUE apud EBOLI, 1969, p. 23). Um exemplo dessa prática curricular inovadora exercida pela Escola Parque foi que em 1968, os educandos estudaram os temas: “Como são nossas casas”, “A água e sua utilidade” e “Atrações turísticas da comunidade”, através de excursões pela cidade de Salvador onde puderam ver e observar a realidade, fazendo comparações com a teoria. Além disso, foi 5 Organização mundial masculina de educação extra-curricular, fundada por Baden Powell (1857 – 1941), e que visa desenvolver nos jovens, um comportamento baseado em valores éticos. 89 desenvolvido na Escola um projeto diversificado de trabalho em grupo, no qual os alunos mais desembaraçados, que se encaminhavam para a autonomia da aprendizagem e do exercício de liderança, eram estimulados a atuar como líderes de equipes, auxiliando os demais. Trata-se de duas práticas que estimulam respectivamente a curiosidade e a liberdade, por isso são condizentes com a proposta de educação progressista recomendada por Paulo Freire, que estimula a participação ativa e consciente do educando em seu processo de aprendizagem, visando a iluminação intelectual do mesmo. Embora de caráter inovador para a época, a atuação da Escola Parque junto às famílias dos educandos acontecia através da Associação de Pais e Professores, que se reunia para tratar de assuntos restritos à formação dos estudantes. Assim como nos dias atuais, não era praticada uma gestão democrática junto às famílias atendidas. A estrutura administrativa do Centro Educacional Carneiro Ribeiro era formada por: - Direção Geral: além da Escola Parque cada Escola Classe possuía a sua; - Coordenação: composta por uma equipe de profissionais que atuavam em sistema de rodízio, percorrendo os ambientes das quatro Escolas Classe e da Escola Parque; - Assistentes administrativos e técnicos que atuavam nos diversos setores das escolas, executando um trabalho supervisionado diretamente pela direção geral das mesmas. Devido à precária estrutura das escolas públicas encontradas em Salvador na época (galpões improvisados, velhos casarões nos quais era desenvolvido um ensino improvisado), a Escola Parque (que além do fardamento fornecia também material didático e medicamentos necessários para os alunos) em sua estrutura “esplendorosa” até então nunca vista, era julgada pela população soteropolitana como um exagero, uma utopia desnecessária, já que esta por não conhecer o caráter transformador da educação, acreditava que a mesma poderia ser desenvolvida em qualquer lugar e de qualquer forma, por se tratar apenas de mais uma formalidade exigida pela sociedade. O histórico construído até aqui, tem por objetivo apresentar quem é a instituição pesquisada: sua estrutura e política de atuação. Nos dias atuais a estrutura de funcionamento da Escola Parque e das Escolas Classe continua sendo a mesma: ainda é oferecida educação de tempo integral, a fim de que os educandos não 90 fiquem nas ruas enquanto seus pais e familiares trabalham, porém com modificações curriculares adaptadas à realidade educacional da sociedade soteropolitana do século XXI, regida a partir de regras estabelecidas por órgãos como a Secretaria e o Ministério da Educação. Como exemplo dessas modificações, citamos que a escola não trabalha mais somente com o ensino primário, mas também com o ensino médio. Além disso, práticas como o Escotismo e as aulas de Catecismo não acontecem mais, porém são oferecidos para os educandos e suas famílias serviços de Assistência Social, Jurídica e Pedagógica, assim como a prática de educação física, além das diversas oficinas desenvolvidas nos três turnos. A Escola Parque funciona das 7:30 às 21:00 horas. Os educandos do ensino médio que estudam em um turno, almoçam na própria instituição, e no turno oposto participam de atividades diversas, entre as quais destacamos as oficinas de dança, artes, jogos, teatro, música e atividades físicas. De maneira específica, foi a partir das oficinas de artes oferecidas com exclusividade aos educandos, que se deu o primeiro contato estabelecido pela Escola Parque com a comunidade local. Segundo a atual coordenação da instituição, em 2008, moradores de bairros como: Caixa’água, Pau Miúdo, Pero Vaz, IAPI e Liberdade, já conheciam a estrutura de funcionamento da escola, e consequentemente os trabalhos desenvolvidos nas oficinas de artes (objetos decorativos em madeira, metal, cerâmica, papelão e argila) das quais participavam somente os educandos, que demonstravam estarem bastantes satisfeitos com tudo o que lhes era proporcionado pelas mesmas. Inclusive, as peças desenvolvidas nessas oficinas passaram a serem expostas no IAT, um centro de artes localizado no Shopping Liberdade, onde há o comércio das mesmas, gerando uma renda que é dividida entre o educando que construiu a obra e a Escola Parque, que utiliza o dinheiro para comprar matéria-prima necessária à manutenção dos trabalhos. Os constantes testemunhos de satisfação proferidos pelos educandos, e o resultado material (belíssimas peças produzidas pelos mesmos, que passaram a contar com uma fonte de renda alternativa) estimularam os moradores, em sua maioria, vizinhos das famílias que possuem filhos estudando na Escola Parque, a pedirem que a instituição estendesse também para a comunidade local as oficinas até então proporcionadas somente ao público discente. A direção da instituição estudou o apelo e concordou em atender ao pedido. Assim, nasceu em 2008, o trabalho oferecido para a comunidade local, que por sua vez, conta com os seguintes serviços: - Atendimento de Causas Jurídicas; - Assistência Social; - Oficina de Educação Física para Mulheres: Ginástica com Cidadania; 91 - Oficina da Terceira Idade; - Oficina de Padaria; - Oficina de Arte em: argila, serigrafia e madeira; - Oficina de Educação Física para Idosos. A seguir, expomos de maneira detalhada os trabalhos desenvolvidos pelos profissionais que atuam nas instalações da Escola Parque de duas maneiras: como educadores titulares das diversas disciplinas em um turno, e no turno oposto como voluntários que ensinam para a comunidade local um pouco do que sabem. Com exceção dos serviços de Assistência Jurídica e Social, cada turma de oficina é formada por um número de frequentadores que varia de vinte a sessenta participantes, e as matrículas são realizadas no início do ano letivo, ao mesmo tempo em que são matriculados os educandos da casa. Os trabalhos oferecidos contemplam o público formado por adolescentes, jovens, adultos e idosos. - SERVIÇO DE ASSISTÊNCIA JURÍDICA É o atendimento realizado pela advogada Lícia Maria de Oliveira, que além da área de Direito é formada em Filosofia e Educação Física. Acontece quatro vezes por semana. A comunidade local, geralmente mães carentes que não podem pagar um advogado procuram este serviço, a fim de receberem o direito de pensão alimentícia. A Escola Parque busca agilizar as causas jurídicas já iniciadas, porém ainda não resolvidas. Tal atuação se dá através do contato direto que é estabelecido entre a Escola e a Defensoria Pública. Além disso, é realizado o indiciamento de novas causas que são encaminhadas para universidades, como a UFBA - Universidade Federal da Bahia, que possui o Núcleo de Atendimento da Defensoria Pública. Todo o trabalho é desenvolvido em parceria com o Conselho Tutelar6. Segundo a advogada Lícia Maria de Oliveira, cem por cento dos casos de pensão alimentícia são resolvidos com sucesso, pois quando encaminhados à Defensoria Pública por uma pessoa jurídica, isto é, a Escola Parque, o processo de comunicação entre as duas instituições 6 É o órgão municipal que goza de autonomia funcional e está destinado a zelar pelos direitos das crianças e adolescentes. Surgiu com a criação da Lei do Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei Nº 8069, de 13 de julho de 1990. Fiscaliza todos os entes de proteção: Estado, família e comunidade. 92 públicas torna-se viável e livre de procedimentos meramente burocráticos, que contribuem para a demora no julgamento de processos desse tipo. No início, o Serviço Jurídico oferecido pela Escola Parque foi aceito com desconfiança pela comunidade local, pois a mesma não acreditava na sua eficiência. Somente a partir dos primeiros casos de pensão alimentícia resolvidos com sucesso é que este serviço passou a ser visto como confiável e eficiente. Tal experiência proporciona benefícios também para a Escola Parque: o Conselho Tutelar que atende nas dependências da instituição as mães da comunidade local que desejam resolver causas de pensão alimentícia, desenvolve ainda um trabalho de orientação destinado não apenas à estas, mas também às mães de educandos que por pertencerem a uma má estrutura familiar na qual são vítimas da violência doméstica, transformam-se em indivíduos perturbados psicologicamente, praticantes ativos de atos de infrações no ambiente escolar. Conforme a advogada Lícia, trata-se de um trabalho de conscientização que tem contribuído e muito para a redução dos casos de violência escolar, pois as famílias atendidas, especialmente as mães, recebem apoio e orientação sobre como educar domesticamente crianças e adolescentes sem fazer uso de agressões. - SERVIÇO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL É o trabalho desenvolvido pela Assistente Social Luciene Santos Brandão, formada também nas áreas de Biologia e Sociologia. Acontece duas vezes por semana. A comunidade local (mães, pais, filhos – crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos) procura este serviço na esperança de amenizar e resolver principalmente casos de uso de drogas e de álcool, que possuem um negativo impacto na estrutura familiar. Aqueles que buscam ajuda são atendidos primeiramente pela assistente social Luciene Brandão, que examina o grau de dependência e os encaminha para Clínicas de Recuperação especializadas. Nessas Clínicas é desenvolvido além do tratamento médico voltado para os dependentes, também um tratamento psicológico destinado às famílias dos mesmos, visando minimizar os traumas causados pela dependência química, que contribui para a desarmonia familiar. A Escola Parque acompanha de perto todas as fases do tratamento, até o final da recuperação, incentivando inclusive, que os recuperados participem das oficinas oferecidas pela instituição, já que nas mesmas é desenvolvida uma postura de acolhimento, inclusão e socialização, que 93 beneficia seus participantes, uma vez que, são criados vínculos de amizade capazes de fortalecer a sensação otimista de que valeu à pena abrir mão das drogas e do álcool. É grande o número de casos em que a recuperação é feita com sucesso, chegando ao ponto de ex-drogados e ex-alcoólatras passarem a desenvolver uma vida social próspera, estabelecendo projetos pessoais e conseguindo unir forças para alcançá-los. Um exemplo disso é a volta ao mercado de trabalho. Há até mesmo aqueles indivíduos que de tão recuperados e agradecidos, comparecem à Escola Parque para agradecer a contribuição da mesma no seu processo de recuperação. Porém, embora todo o esforço seja empregado tanto pela Escola Parque, quanto pelas equipes que atuam nas Clínicas de Recuperação, existem infelizmente os casos de pacientes que por escolha própria abandonam o tratamento, voltando à condição de dependentes químicos de alto risco. Segundo a assistente social Luciene Brandão, atualmente existe o caso grave de uma jovem, moradora da Lagoa do peixe, zona de risco de Salvador: a garota além de ser filha de um alcoólatra, é usuária de cocaína. Pai e filha já foram atendidos e aconselhados pelo Serviço de Assistência Social, que tenta convencê-los de que é preciso o quanto antes iniciar o tratamento, pois as chances de recuperação tornam-se maiores. Porém, até o momento a Escola Parque admite que não obteve êxito neste caso específico. - OFICINA DE EDUCAÇÃO FÍSICA PARA MULHERES: GINÁSTICA COM CIDADANIA Formada em Educação Física e Letras com Francês, Maria de Lourdes Kerner, desenvolve atividades de educação física específicas para sessenta alunas com idade de 30 a 60 anos. As atividades de aeróbica acontecem três vezes por semana, durante duas horas e meia, na quadra da escola. Após a sessão de ginástica acontece um momento de socialização entre a educadora e as participantes, que conversam sobre temas diversos, entre eles: direitos humanos, estética, convivência amorosa e familiar, etc. Às participantes é dada a oportunidade de esclarecer dúvidas sobre como lidar com problemas diversos, entre eles: 94 desemprego e depressão. É um trabalho voltado para a elevação da auto-estima das mulheres, que desabafam sobre problemas próprios e recebem orientação de profissionais capacitados, além do apoio coletivo. A professora Maria de Lourdes Kerner convida profissionais voluntários como psicólogos, terapeutas e nutricionistas para participar das reuniões. São identificados muitos casos de doentes emocionais, suicidas, alcoólatras e usuárias de drogas, atendidas pelo Serviço de Assistência Social da Escola e encaminhadas para Clínicas de Tratamento. Há inclusive experiências de participantes que após serem submetidas ao tratamento psicológico em Clínicas especializadas, conseguiram até mesmo deixar de fazer uso de remédios controlados contra a depressão, por terem sido curadas. Para o alcance de tal resultado foi fundamental importância o apoio afetivo proporcionado tanto pela professora Maria de Lourdes, quanto pelas colegas de turma. Participantes consideradas obesas também são encaminhadas para Clínicas de Tratamento, que desenvolvem trabalhos na área de redução de peso. Segundo a professora Maria de Lourdes, existe até mesmo o caso de uma participante que a partir da prática frequente dos exercícios de aeróbica, e através do seguimento de orientações recomendadas por uma nutricionista voluntária, já conseguiu emagrecer 23 quilos, e por isso sente-se bem, pois com o tratamento teve a saúde melhorada e sua auto-estima restaurada. Em entrevista, uma moradora da comunidade local, com idade de 40 anos, afirma: Fui recomendada pelo médico a cuidar da minha saúde também através de exercícios físicos. Não disponho de dinheiro para pagar uma academia, e fiquei sabendo através de minha vizinha que esta escola desenvolvia a oficina de aeróbica, por isso, fiz minha inscrição e hoje frequento as aulas com muita satisfação, percebo inclusive que minha saúde já melhorou, pois depois que iniciei as atividades passei a dormir melhor Além disso, frequentando este ambiente social, me sinto amparada quando preciso de ajuda. A mesma frequenta também a Oficina de Padaria com o propósito de aprender uma profissão. Está desempregada e pretende comercializar os alimentos que aprender a preparar. Conhece inclusive uma colega que já conseguiu emprego com registro em carteira, após aprender a preparar pães, doces e salgados na Escola Parque. 95 O melhoramento da saúde é um dos principais objetivos que leva o público feminino a procurar a Oficina de Ginástica com cidadania para mulheres, oferecida pela escola. “Sinto-me plena, o trabalho que desenvolvo para minhas alunas, me faz ser uma pessoa melhor, mais humana, ter uma outra visão de mundo”, afirma a professora Maria de Lourdes Kerner”. Foto 5 - Momento de descontração e conversa entre as participantes e a professora Maria de Lourdes - OFICINA DA TERCEIRA IDADE É o trabalho desenvolvido em parceria pela advogada Lícia Maria de Oliveira, pela assistente social Luciene Santos, pela psicopedagoga7 Claudinea Portella Cerqueira, além de outros profissionais voluntários. Acontece duas vezes por semana, e está baseado na exploração e 7 Profissional preparada para atuar na prevenção, diagnóstico e tratamento clínico ou institucional de problemas relacionados com a aprendizagem. 96 divulgação do Estatuto do Idoso8, a fim de que os participantes da terceira idade conheçam mais sobre seus direitos. São realizadas as seguintes atividades: - aulas de ginástica pela manhã, duas vezes por semana; - aulas de dança individual e para casais; - atividades lúdicas envolvendo jogos e brincadeiras educativas; - oficina de costura em retalhos; - oficina de maquiagem para as idosas; - montagem de peças de teatro, nas quais os próprios idosos atuam interpretando os personagens; - festas diversas como comemorações de Páscoa, São João, Natal e aniversários dos membros do grupo; - atendimento assistencial e psicológico: os idosos conversam sobre problemas diversos, compartilham experiência em grupo, desabafam e são ouvidos, além de orientados individualmente, quando necessário. São acompanhados pela advogada e pela assistente social na resolução de problemas familiares; - idosos com problemas no recebimento de benefícios como aposentadoria são encaminhados para o atendimento jurídico da escola, que atua junto a órgãos como a Previdência Social9, na busca por viabilizar a garantia dos benefícios. 8 O Estatuto do Idoso – Lei nº 10.741, de 1º de Outubro de 2003, é um instrumento que visando a realização da cidadania, tem por objetivo deliberar sobre políticas públicas, controlar ações de atendimento, além de zelar pelo cumprimento dos direitos de pessoas com idade a partir de sessenta anos. Os principais pontos do Estatuto do Idoso são: Saúde, Transportes Coletivos, Violência e Abandono, Entidades de Atendimento ao Idoso, Lazer, Cultura e Esporte, Trabalho e Habitação. 9 Órgão responsável pela garantia do seguro social, originado a partir de contribuições previdenciárias, que por sua vez, têm a finalidade de prover subsistência ao trabalhador, em caso de perda de sua capacidade de trabalho seja por doença, invalidez ou por tempo de aposentadoria. Todos os trabalhadores formais recolhe contribuições previdenciárias durante o período mínimo de 25 anos. As políticas referentes a essa área são executadas pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). 97 Foto 6 - Idosas aguardando para receber orientações sobre benefício de aposentadoria Em entrevista, a assistente social Luciene Santos, afirma: As famílias reconhecem uma melhora na auto-estima dos idosos que frequentam a Oficina da Terceira Idade. Até mesmo casos de doenças graves como o câncer, são superados com mais facilidade devido ao apoio que estes idosos recebem tanto dos profissionais, quanto dos colegas participantes do grupo. As famílias dos idosos aprovam o trabalho e recomendam a participação dos mesmos, incentivando-os em todas as atividades realizadas. Também em entrevista, um casal de aposentados, declaram: Não faltamos às oficinas, pois aqui aprendemos sobre convivência, fazemos amizades e nossa saúde melhora, o trabalho desenvolvido pelos professores alivia o stress. Apreciamos as festas, é quando trazemos nossas famílias para compartilhar da nossa experiência vivida aqui. A escola é sim especial e deve ser valorizada, pois ela faz muito bem para a comunidade. 98 A Oficina de Maquiagem é um dos trabalhos mais apreciados pelo casal: após aprender a utilizar corretamente as novas técnicas de maquiagem, a aposentada afirma que sente-se mais bonita para o marido, que por sua vez, declara sentir-se mais atraído por ela. Quando perguntados sobre qual o trabalho que mais gostam, ambos (esposa e esposo) responderam que é a Oficina de Costura em retalhos e as aulas de dança, respectivamente. Em justificativa os dois disseram que a participação nestes trabalhos contribui para o alívio da tensão causada pelo stress, o que influi diretamente na melhora de sua saúde, pois quando estão concentrados nessas atividades esquecem um pouco das preocupações do cotidiano, respiram melhor e sentem-se relaxados. - OFICINA DE PADARIA Acontece de segunda à sexta-feira, das 18:00 às 20:30 horas. É um trabalho idealizado e conduzido pelo professor Givaldo Rocha, formado em Pedagogia e possuidor do Curso Técnico de Culinária. Participantes de ambos os sexos, com idades que variam de trinta a cinquenta anos, aprendem receitas de pães, doces e salgados, objetivando profissionalizar-se. Alguns já trabalham com culinária de maneira autônoma: atendem encomendas para aniversários e outros tipos de festas. No início as receitas eram selecionadas apenas pelo professor Givaldo Rocha, mas atualmente o mesmo permite que os participantes sugiram as receitas que serão ensinadas. De maneira democrática cada dia é escolhido um tipo de pão, doce ou salgado para ser trabalhado na aula seguinte. A matéria-prima utilizada durante as oficinas é fornecida por cada participante, já que a Escola Parque não dispõe de recursos para bancar todo o material. A instituição oferece matéria-prima apenas para treinamento, isto é, farinha de trigo, sal e fermento que são utilizados na fabricação dos pães servidos no dia seguinte como merenda aos educandos da escola. As receitas são avaliadas pela nutricionista da instituição, que supervisiona o trabalho. 99 O aprendizado dura seis meses. Ao final é fornecido um certificado para cada participante. Segundo o professor Givaldo Rocha, somente em 2009 vinte ex-participantes conseguiram emprego com registro em carteira, para atuar em padarias e lanchonetes da cidade. “O certificado é peça fundamental nessa conquista”, afirma ele. Foto 7 - Modelagem de pão francês 100 Foto 8 - Montagem de pizzas sendo supervisionada pelo professor Givaldo Rocha - OFICINA DE ARTES EM ARGILA, SERIGRAFIA10 E MADEIRA É o trabalho desenvolvido respectivamente pela psicopedagoga Claudinea Cerqueira, formada também em Artes Plásticas, pela estudante de Artes Plásticas Misma Dórea e pela artista plástica Arilene Serra, formada em Desenho. As oficinas são desenvolvidas três vezes por semana. As matérias-primas (argila, tinta, madeira e acessórios diversos) utilizadas nas três oficinas são fornecidas através de uma parceria estabelecida pelos participantes e Escola Parque (ambos dividem os custos). As peças produzidas são apresentadas e comercializadas em uma Exposição de Arte realizada uma vez por ano nas dependências da instituição, que é aberta ao público externo a fim de que o mesmo possa apreciar o material produzido, e se desejar também adquiri-lo. A renda resultante das vendas é dividida entre os participantes (que produziram as peças 10 Processo de impressão e gravura no qual a tinta é vazada pela pressão de um puxador. É utilizada em diversos tipos de materiais como: madeira, papel, plástico, borracha, vidro, tecido, etc. Pode ser feita de uma forma mecânica (por pessoas) ou de forma automática (por máquinas). 101 comercializadas), as professoras e a Escola Parque. Além disso, como afirmamos anteriormente, visando o comércio das peças existe a permanente exposição das mesmas no IAT, um centro de artes localizado no bairro da Liberdade. O trabalho desenvolvido inclui aulas teóricas e práticas. As técnicas utilizadas são: modelagem em argila11, pintura em serigrafia e decoupage12 em madeira. Foto 9 - Modelagem em argila 11 É a atividade de produção de artefatos diversos a partir da manipulação da argila (barro) umedecida. Durante a manipulação da matéria-prima argila, são utilizados instrumentos diversos como: pinças, arames e fios de nylon. Ao final, a argila é modelada, modificada e polida chegando apresentar o aspecto desejado pelo manipulador. 12 É uma técnica que consiste em selecionar (garimpar), recortar e colar figuras sobre móveis e objetos que podem ser de madeira, ferro, alumínio, vidro, plástico, etc. Uma vez o trabalho finalizado, deve parecer uma verdadeira pintura. 102 Foto 10 - Peças resultantes do emprego da técnica de Pintura em serigrafia Foto 11 - Peças resultantes do emprego da técnica de Decoupage em madeira 103 Alguns participantes das oficinas frequentam as aulas para aprenderem uma arte, buscando exercê-la como hobbie, porém a maioria freqüenta almejando aprender uma profissão. Ao final do curso de formação de cada turma, que possui duração de nove meses, a Escola Parque fornece o certificado individual. Um grupo de três participantes adultos, chegou a declarar: “as oficinas ajudam na nossa formação profissional, sendo esta a única que possuímos até o presente momento”. Diante dessa realidade a professora Misma Dórea sente-se solidarizada a continuar esforçando-se para oferecer a Oficina de Arte, pois segundo ela é prazeroso ensinar aquilo que sabe, principalmente quando se trata de ajudar pessoas humildes e esforçadas a conseguirem um meio de geração de renda, através de um trabalho que valoriza a prática social, princípio tão fundamental ao funcionamento da escola. Além dos benefícios de aprender uma profissão e gerar renda com a venda das peças, vários participantes admitem que freqüentam as oficinas, já que os trabalhos desenvolvidos em ambas contribuem para a melhoria da sua saúde. Uma costureira de 43 anos, casada e mãe de dois filhos, chega a dizer: Procuro freqüentar a oficina de Arte em Serigrafia para aprender mais uma profissão, e aperfeiçoar a arte em costura. Serve como uma verdadeira terapia que alivia as tensões, além de promover minha interação com outras pessoas, faço muitas amizades e por isso, me sinto bem. De acordo com a arteterapeuta13 Selma Ciornai (2007), do Instituto Sedes Sapientae localizado em São Paulo, favorecido pelo estado de relaxamento proporcionado pela prática da arte, o sistema imunológico do indivíduo responde positivamente contra diversas doenças físicas e emocionais, inclusive a sobrecarga de stress. Percebemos então que a declaração da Sra. Ana Lúcia é uma realidade confirmada pela medicina, isto é, os benefícios da integração entre a Escola Parque e comunidade local vão além da dimensão material, já que favorecem até mesmo a saúde dos participantes. 13 Profissional especializada na técnica da utilização de diferentes modalidades de arte em diversos tratamentos de saúde. 104 - OFICINA DE EDUCAÇÃO FÍSICA PARA A TERCEIRA IDADE Trata-se do trabalho realizado três vezes por semana pela professora de Educação Física da Escola Parque, Ana Aparecida Silva, formada em Educação Física. São trinta e duas vagas destinadas aos idosos, que para frequentarem as sessões de ginástica, precisam antes apresentar atestado médico autorizando a prática de exercícios físicos. Durante as atividades são trabalhados itens como: articulação, respiração, equilíbrio, lateralidade, alongamento e relaxamento, através de exercícios leves, adequados às limitações dos participantes. Foto 12 - Atividade física coletiva sendo coordenada pela professora Ana Aparecida Uma vez por mês acontece a participação das famílias dos idosos em uma confraternização chamada Parque da Melhor Idade, na qual são realizadas atividades de diversão, como bingos e jogos diversos que estimulam a integração entre todos os presentes. O objetivo é promover um momento lúdico e de descontração para todos, visando ao mesmo tempo o envolvimento das famílias na rotina vivenciada pelos idosos nas dependências da Escola Parque. 105 Na busca por mais diversão também são realizadas atividades externas, isto é, passeios diversos para lugares públicos como museus, parques e clubes. Um dos objetivos é o fortalecimento dos vínculos afetivos do grupo em um ambiente de acolhimento e descontração. O último passeio aconteceu em dezembro/2009 para o Clube Petromar, localizado na orla de Salvador, onde ocorreu um amigo secreto que contou com a participação de todos os membros do grupo, que divertiram-se em um ambiente bastante animado. Os passeios são conseguidos graças à iniciativa adotada pela direção da Escola Parque, que envia ofícios às instituições públicas, solicitando com antecedência a disponibilização de espaços como o Clube Petromar, que atende à diversas instituições. Quando algum membro do grupo fica doente, os demais são incentivados pela professora Ana Aparecida a exercer solidariedade visitando o colega enfermo, e oferecendo ajuda para a família. Isto contribui e muito para a recuperação da saúde, pois como já foi comprovado cientificamente o apoio afetivo proporciona ao doente uma sensação de conforto que ajuda a fortalecer o seu sistema imunológico. Foto 13 - Idosa de 80 anos recebendo orientação individual 106 Segundo a professora Ana Aparecida o trabalho desenvolvido pela Oficina da Terceira Idade é dificultado por problemas como: a falta de aparelhos adequados, instrumentos de ginástica e a estrutura física da quadra de esportes que até o momento não foi adequada às necessidades do público idoso. 107 3.1 - INICIATIVA Descrevemos a experiência da Escola Parque através da exposição dos trabalhos desenvolvidos em favor da comunidade local, objetivando apresentar a iniciativa que esta instituição de ensino exerce na prática, embora seja considerada pelo filósofo Althusser (1980) o Aparelho Ideológico de Estado mais eficiente quando se trata da reprodução das relações sociais. Pode parecer pouco perto do que significa reproduzir a ideologia dominante que contribui para a opressão de muitos em nossa sociedade capitalista, mas entendemos a partir da realidade que acompanhamos nos três meses de pesquisa prática, que a atitude da Escola Parque em iniciar por conta própria um contato direto com a comunidade local, sem receber do poder público incentivo e condições adequadas para tal, é sem dúvida uma prova de que o Aparato Ideológico Escolar possui autonomia para se desejar, agir de maneira contrária aos princípios de exclusão que beneficiam a classe dominante, adotando inclusive uma postura “desinteressada”, isto é, de caráter solidário, que serve de exemplo para os demais segmentos da sociedade civil, sobretudo, para o Estado liberal. No sistema escolar público soteropolitano a Escola Parque atua como pioneira na experiência de integrar-se à comunidade local através de projetos tão inovadores, realizados de maneira comprometida e não pragmática, a ponto de difundirem na sociedade a importância do trabalho comunitário e da construção de parcerias também com o público externo. A maioria dos estabelecimentos de ensino da cidade ainda continua mantendo um grande distanciamento de suas respectivas comunidades locais, alegando como justificativa não receberem do Estado, incentivos para formar uma aliança de cumplicidade com o público externo. Valorizamos então a iniciativa da Escola Parque, que não limitou-se a esperar “ajuda do alto”, mas fez a sua parte, servindo de exemplo para toda a rede pública de ensino. Analisando o que afirma Vitor Henrique Paro (1996) sobre o desafio de a escola estabelecer uma relação emancipadora com a comunidade local, compreendemos que não se trata de uma tarefa fácil, porém possível de ser realizada a longo prazo, quando respeitados limites e possibilidades da instituição escolar. Na experiência da Escola Parque, verificamos que a mesma não iniciou sua relação com a comunidade local partindo do ponto mais difícil, isto é, desenvolvendo uma gestão democrática, mas sim, partindo daquilo que lhe foi possível realizar neste primeiro momento 108 (10 meses) de contado: um trabalho de acolhimento que tem possibilitado à instituição conhecer primeiro quem é a sua comunidade local, e a esta, conhecer quem é a sua instituição escolar. Agindo assim, a Escola Parque valendo-se de sua autonomia superou atuar de forma medíocre, isto é, apenas como mais um Aparelho Ideológico de Estado que culpa o poder público por sua falta de interesse e iniciativa quando se trata de questões sociais. Trata-se de uma escola que vai além: exerce através de esforços próprios a atitude emancipadora de atender ao apelo feito pela comunidade local que passou a frenquentar suas dependências, um princípio de acolhimento tão sonhado por autores progressistas como o educador Paulo Freire. 109 3.2 - DESAFIOS Quando perguntados sobre os desafios enfrentados pela Escola Parque na busca por integra-se à comunidade local, tanto os profissionais que desenvolvem diretamente os trabalhos, quanto a coordenação da instituição concordam que atender à grande demanda de indivíduos que desejam ser contemplados pelos serviços Jurídico, Assistência Social e as diversas Oficinas é o maior desafio identificado até o momento. Embora tenham sido estudadas formas de ampliar o número de vagas, ainda não foi encontrada uma solução, devido ao fato de que faltam recursos financeiros até mesmo para desenvolver com melhor qualidade os serviços e a as oficinas já existentes. A Escola Parque vem sendo obrigada a “estreitar o orçamento”, isto é, retirar do recurso financeiro fixo que já recebia do Estado antes mesmo de oferecer os serviços para a comunidade local, uma parcela mensal que destina à manutenção dos mesmos. Devido à dificuldade financeira a maior parte do material utilizado nas Oficinas de Arte precisa ser reaproveitada. De acordo com o que nos ensina Frigotto (1993), na sociedade capitalista a educação é considerada um campo de investimento como outro qualquer, no qual se investe apenas na busca por lucro. Por isso, entendemos que o poder público brasileiro, atuante em uma sociedade regida por um Estado liberal, não apóia financeiramente práticas como a integração que a Escola Parque exerce junto à comunidade local, embora tenha conhecimento dos benefícios proporcionados pela mesma, devido ao fato de considerar não se tratar de um investimento que resulte em retornos adicionais futuros. É como se a função da escola estivesse limitada ao mero atendimento técnico destinado ao público discente, que é formado com o objetivo de gerar mais-valia da qual beneficia-se também o Estado. Trata-se de uma visão nada emancipadora, coerente com a política de instituições como o Banco Mundial, que não investe e não incentiva o Estado brasileiro a investir na área de educação, quando se trata de práticas sociais como a integração escola – comunidade local, que como podemos perceber na experiência da Escola Parque, influi positivamente na vida de todos os envolvidos, com destaque para os profissionais que admitem estarem mais motivados, a partir do momento em que descobriram que podem ir além, isto é, trabalhar voluntariamente em um mundo que preza pela constante busca material, praticando princípios como solidariedade e cooperação, ambos tão necessários ao cotidiano da relação com o público carente, e contrários ao que nos ensina a ética capitalista baseada no individualismo e no espírito de concorrência. Além disso, influenciados por Gramsci, entendemos que já se percebeu o potencial de organização que 110 possui a classe dominada, por isso não é de interesse do Estado capitalista que esta articule-se com a escola, pois a partir de tal convivência podem surgir práticas inovadoras como a gestão democrática capaz de ensinar ao povo noções importantes de cidadania e administração, incentivando-o a interessar-se por participar de forma ativa e consciente do planejamento e gerência de instituições públicas. Um outro desafio, desta vez identificado exclusivamente por nós que somos influenciados pela proposta inovadora de Vitor Henrique Paro (1996), é o fato de assim como as outras escolas da rede pública soteropolitana, a Escola Parque precisa desenvolver uma gestão democrática que conte inclusive com a efetiva participação da comunidade local. Esta é uma prática que para acontecer depende em primeiro lugar da iniciativa da instituição escolar, que deve interessar-se por compartilhar sua vida administrativa com aqueles que indiretamente já contribuem para a existência e funcionamento da mesma. A comunidade local através da frequência nos serviços oferecidos, deve ser incentivada pela Escola Parque a participar de sua vida política, visando a plenitude do exercício da democracia, que transcende qualquer valor de caráter material. Um primeiro passo para isso, é que tal participação pode ser iniciada a partir de um convite feito pelos profissionais da instituição à comunidade local, formada por cidadãos comuns, a fim de que estes contribuam e atuem na organização dos serviços dos quais já participam e conhecem. Neste caso, a prática da dialogicidade torna-se fundamental, pois uma participação democrática no processo de administração desses serviços não pode ser alcançada através da imposição. Se necessário for a Escola Parque deve procurar ajuda externa, a exemplo de universidades que possam contribuir com sugestões e medidas para a superação de eventuais dificuldades. Abrindo-se para a comunidade local, na forma de gestão escolar democrática, a Escola Parque estará ampliando “seus horizontes”, praticando um olhar sensível e atento às realidades da vida social, contribuindo para a prática da cidadania e solidariedade a partir do processo educativo da gestão coletiva. Trata-se de uma tarefa grandiosa, que além do esforço permanente exige também constante ação-reflexão, a fim de que barreiras como o preconceito, sejam superadas por uma convivência humana fraterna, capaz de contemplar aspirações coletivas. Influenciados pelas contribuições de José Carlos Libâneo (2001), entendemos que para tornar possível a prática de uma eficiente gestão democrática que conte com a participação da comunidade local, é preciso antes de tudo que os profissionais da Escola Parque disponham de conhecimentos sobre a estrutura e organização do sistema educacional, a fim repensarem 111 as formas de funcionamento da instituição, considerando ao mesmo tempo a realidade sócioeconômica e cultural na qual a mesma está inserida, visando o desenvolvimento da participação da comunidade local, que deve ter liberdade para avaliar, sendo também avaliada em suas contribuições. Para tanto é necessário investir na qualificação teórica dos integrantes das duas comunidades, de modo que todos sejam capacitados a fazer análise da prática e, com isso, aprender idéias, saberes e experiências que viabilizem tal processo. Princípios, métodos e procedimentos relacionados com o processo de gestão da escola e de tomada de decisões, além das relações estabelecidas por esta com a comunidade local, precisam ser alvo de constantes estudos que envolvam os profissionais da instituição. O processo de organização e funcionamento da Escola Parque está intimamente associado ao da comunidade local representante da sociedade civil. Ambas devem atuar estabelecendo uma parceria de gestão que não chega a substituir o Estado em suas competências constitucionais, porém agrega valores diferenciados, mobilizando pessoas, instituições e governo em torno de projetos comuns e ações de relevância social. A gestão democrática junto à comunidade local, portanto, requer da Escola Parque disposição, esforço e conquista, a fim de articular parcerias, em que uma ajuda a outra e ambas beneficiam-se mutuamente. Trata-se de uma prática descrita por Samuel Aarão Reis (1991) como sendo: tornar de fato pública a instituição pública. 112 3.3 - RESULTADOS A experiência da integração estabelecida pela Escola Parque a sua comunidade local, além de inovadora produz resultados positivos, entre os quais destacamos: 1) Para a Escola: - O reconhecimento por parte da comunidade local que não admite apenas em entrevista, mas demonstra na vida real valorizar e respeitar a comunidade escolar, também na forma da redução dos casos de violência dentro e fora da Escola Parque: práticas como brigas, pichações apedrejamento do muro, e vandalismos em geral, originadas a partir da iniciativa da comunidade local, tão comuns na rede pública de ensino, há quase um ano não são registradas no cotidiano dessa instituição. A redução de casos de violência e vandalismo praticados pela comunidade local (geralmente crianças, adolescentes e jovens infratores) é uma meta ainda não alcançada por muitas escolas da rede pública brasileira, que contam com a proteção da polícia militar, porém no caso da Escola Parque, a mesma alcançou superar este desafio, pois articulou-se à sua comunidade local, demonstrando reconhecê-la e reconhecendo-se como partes integrantes de um mesmo tecido social, estando por isso diretamente interessada por aqueles que dele participam, respeitando seus anseios e necessidades. Um exemplo disso é que as famílias carentes, ainda que não possuam filhos matriculados na instituição, recebem orientações e acompanhamento no tratamento de crianças e jovens infratores, que encontramse em situação de risco. Influenciados pelas contribuições freirianas admitimos ser uma atitude bastante corajosa, praticada por uma representante da sociedade civil constituída por corpo e alma, e que abriu mão do medo visando tornar possível a convivência humana. A excelente reputação da Escola Parque percorre as redondezas de bairros como Caixa D’água, IAPI, Pau Miúdo, Pero Vaz e Liberdade, que são os principais atendidos pelos serviços que a mesma oferece. Como nos ensina Paolo Nosella (1992) a função da instituição de ensino vai além do âmbito escolar, por isso entendemos que o mundo externo constituído também pela comunidade local, não pode ser ignorado, mas precisa ser considerado pela escola como parte importante para seu funcionamento na sociedade; - A superação de resistências internas quanto à formação de parcerias com a comunidade local. Ao contrário de atitudes descomprometidas, a Escola Parque buscou nesses dez meses conhecer de maneira clara e eficiente quem é a sua comunidade local, chegando a avaliá-la 113 através de aspectos históricos, culturais, sociais e econômicos, o que resultou no diagnóstico de que a mesma é capaz de exercer práticas que ainda desconhece, como a gestão escolar democrática. Esta atitude da Escola Parque nos leva a admitir assim como Paulo Freire (1979), que a estrutura social atual é obra dos homens, e a transformação da mesma também; - Hoje, após dez meses de trabalhos desenvolvidos em favor da comunidade local, a Escola Parque admite estar mais confiante em si, pois percebe que pode fazer algo além de transmitir conhecimentos dentro de um círculo fechado, girando sempre em torno da relação educadores - educandos. A busca por relações que extrapolem a sala de aula trouxe aos profissionais da coordenação e direção da Escola Parque a certeza de que embora seja desafiante, desenvolver uma gestão democrática que conte com a participação da comunidade local, é um desafio possível de ser superado se partir da instituição a iniciativa de também confiar em indivíduos externos, que mesmo não sendo profissionais atuantes na área de educação, podem contribuir com suas experiências diversas para a superação de desafios e alcance de metas. Assim como José Carlos Libâneo (2001), acreditamos que saber gerir e organizar uma escola, inclui prezar pela prática de um diálogo produtivo com a comunidade local, o que produz um diferencial visível nas condições concretas pelas quais pode-se garantir uma sólida participação desta última no processo de gestão. É uma prática que serve de exemplo para uma sociedade como a nossa, que precisa tornar-se mais includente do que tem sido; - Os educadores que atuam em sala de aula e participam ativamente dos trabalhos desenvolvidos para o público externo, admitem que trata-se de um serviço indispensável, pois a comunidade local que reside nos bairros contemplados pela Escola Parque é bastante carente, uma constante vítima de crimes como o tráfico de drogas e a prostituição, por isso, precisa e muito do atendimento social que essa instituição presta-lhe. Esses profissionais alertam para o fato de que a comunidade local é o meio no qual habitam grande parte dos educandos da casa, então o bem que é feito à ela, reflete diretamente na vida destes, o que inclui seu desempenho escolar. Há um consenso entre esses educadores de que seus trabalhos passaram a serem melhor aproveitados pelo público discente, a partir do momento em que começaram a serem oferecidos os serviços à comunidade local, pois pessoas adultas (moradoras da vizinhança) confessam em entrevistas que antes viam a escola como uma inimiga, incentivando inclusive os educandos a exercerem desprezo pelo trabalho oferecido em sala de aula, porém a partir do momento que começaram a frequentá-la, passaram a vê-la 114 como uma aliada, incentivando então a prática do zelo pelo trabalho de educação que a mesma desenvolve; - Todos os profissionais voluntários envolvidos na prática dos serviços admitem sentirem-se realizados, pois a partir do momento em que começaram a servir à comunidade local, passaram a refletir sobre como são importantes para a sociedade, uma vez que, mesmo na agitada rotina diária de suas vidas são capazes de destinar tempo para ajudar os outros. Uma educadora que desenvolve a Oficina de Arte relata: Eu me interesso pelo belo trabalho que realizo, pois ajudo pessoas e ao mesmo tempo sou ajudada. Quando tive a oportunidade de ouvir de uma participante da Oficina de Arte, que o meu trabalho contribuiu para que ela melhorasse da crise depressiva que teve depois que perdeu seu único filho em um acidente de carro, percebi então que este trabalho não pode parar, mas deve evoluir cada vez mais. Eu também sou beneficiada quando percebo que posso fazer por alguém aquilo que gostaria que fizessem por mim, isto melhora a minha auto-estima e me sinto mais humana. Este relato nos faz entender nos dias de hoje, a plenitude do que é para Gramsci uma escola “desinteressada”, capaz de estimular práticas contrárias a neutralidade afetiva, que despertem no indivíduo, embora este viva em uma sociedade capitalista que preza pelo descomprometimento social, valores não interesseiros e imediatistas, mas sim de ampla visão, como a solidariedade que serve de base para a educadora que fez o relato acima, continuar atuando como voluntária. 2) Para a Comunidade Local: - A descoberta de que a escola funciona como um excelente apoio também para indivíduos em situação de risco, que integram a comunidade local e não frequentam o ambiente da sala de aula. Um exemplo disso é que os serviços de Assistência Jurídica e Social são a única alternativa para as muitas famílias pobres, que possuem filhos menores infratores, cujas dificuldades são inicialmente estudas pelos profissionais da Escola Parque, e encaminhadas para órgãos como a Defensoria Pública e o Conselho Tutelar, que atuam em favor da recuperação dos mesmos. A Escola Parque como pessoa jurídica consegue com eficiência viabilizar o julgamento de questões referentes às infrações cometidas por crianças e 115 adolescentes, comprometendo-se também em ajudar na recuperação social dos mesmos, incentivando-os na volta aos estudos. Mariano Enguita (1989) nos ensina que para o capitalismo a operação fundamental executada pela escola é a aplicação ao trabalho: ajustar requisitos educacionais às necessidades do mercado de trabalho nos diferentes setores da economia. Entendemos a partir do que representa a atuação da Escola Parque na vida de menores infratores, que esta instituição consegue através do apoio que presta a estes, transcender a operação fundamental que o capitalismo lhe impõe, dando uma lição que serve de exemplo inclusive ao poder público, pois se crianças e adolescentes em situação de risco não contarem com ajuda externa para superar o problema da prática de infrações como o envolvimento com o tráfico de drogas, que os afastam dos estudos, não poderão nem mesmo preparar-se para concorrer a uma vaga no disputado mercado de trabalho, que a tantos exclui; - Em entrevista, pessoas da comunidade local declararam que o aprendizado de uma profissão é sem dúvida um dos maiores benefícios resultantes da relação que estabelecem com a Escola Parque. Há um número crescente de participantes que após aprenderem técnicas nas Oficinas de Arte e Padaria, passaram a trabalhar de maneira autônoma ou foram admitidos com registro em carteira, gerando uma renda que antes embora tentassem através de outras atividades não conseguiam obter, sendo esta a única que sustenta toda a família. Os certificados oferecidos pela escola na conclusão dos cursos ajudam e muito, pois são reconhecidos e aceitos por empresas diversas. Diante dessa realidade, a Escola Parque, percebendo o impacto e importância dos serviços oferecidos para a comunidade local, que por sua vez, chega até mesmo depender do que aprende através dos mesmos para sobreviver, busca avaliar-se constantemente, reconhecendo-se também como responsável pelos resultados, inclusive pelas falhas, admitindo, se necessário, fazer modificações que resultem em melhorias. Educadores, coordenadores e direção no encerramento dos trabalhos desenvolvidos em 2009, buscaram auto-avaliar-se enquanto instituição, a fim de identificarem falhas próprias e projetarem planos e meios para alcançá-los não de maneira aleatória, mas sim comprometida com as necessidades do público formado pela comunidade local. A Escola Parque reconhece que é responsável também tanto pelo sucesso, quanto pelo fracasso dos participantes contemplados pelos trabalhos desenvolvidos. Trata-se de uma postura que desafia a perspectiva de Mariano Enguita (1989), de que a autoridade escolar atuante na sociedade capitalista, sempre esquiva-se da tarefa de assumir a responsabilidade própria nos resultados do seu processo de atuação social; 116 - De maneira específica nas diversas oficinas oferecidas é desenvolvido um clima amigável, reconhecido por todos (participantes e educadores) como de acolhimento e cooperação. Laços de amizades são formados, gerando um ambiente no qual todos sentem-se bem. Há momento para falar, para ouvir, para ajudar e ser ajudado de diversas maneiras. Retribuir a todos os funcionários da instituição é um dos desejos que possui os integrantes da comunidade local, que estão profundamente agradecidos pelos serviços prestados. Mas os benefícios alcançados vão muito além dos serviços em si, pois tanto participantes quanto educadores reconhecem que os vínculos afetivos criados, oferecem um apoio fundamental em situações extremas como: dependência química, casos de depressão e crises de stress, ambos provocados por problemas diversos. Há casos de pessoas fumantes, que encontraram no apoio dos educadores e colegas de oficina forças para lutar, e assim conseguiram deixar de fumar. Alguns frequentadores da Oficina de Arte admitem que o processo de aprendizagem através da mesma funciona como uma eficiente terapia, capaz de trazer de volta o ânimo consumido em mais um longo dia de trabalho. Além disso, aniversários e funerais são momentos dos quais todos participam, prestando a sua solidariedade na busca por ajudar no que for preciso. Entendemos que trata-se de uma realidade que pode ser traduzida como sendo um pouco da escola orgânica, sonho de homens com Gramsci e Freire, que eram a favor da prática da liberdade iluminando o ambiente escolar, e do incentivo à valores éticos que fizessem com que os sujeitos nele encontrados tivessem suas histórias e sentimentos respeitados e valorizados, na busca por formar homens e mulheres menos egoístas. Por isso, somos a favor de: se o trabalho inovador e ao mesmo tempo específico que vem sendo desenvolvido pela Escola Parque somente beneficia, pois atende às necessidades de uma determinada realidade social, deve então ser incentivado, melhorado e recriado quando preciso, uma vez que, seguir padrões pré-estabelecidos pelo Estado não significa contemplar com sucesso aquilo que precisa o público humano. De maneira geral, a abertura da Escola Parque à sua comunidade local impulsionou a dinâmica das relações sociais, fazendo com que pessoas e grupos (instituições) aproximassem-se da instituição de ensino por dois motivos principais: visando contribuir para avanços na causa comunitária, ou buscando valer-se da mesma. Tal experiência resultou em práticas que consolidaram a dimensão comunitária da escola, através de ações transformadoras, de natureza humana e solidária. 117 CONSIDERAÇÕES FINAIS As reflexões sobre a relação escola – comunidade local mostram que esta é uma prática presente no cotidiano da instituição de ensino, que por sua vez, possui autonomia para decidir a fim de que tal relação seja desenvolvida de maneira emancipadora ou não produtiva. Neste sentido, é preciso que em primeiro lugar a escola procure conhecer e respeitar a sua comunidade local, a fim de que tal relação não seja desenvolvida de maneira atrofiada. Dessa forma, a instituição de ensino terá grandes chances de estabelecer uma sadia relação com aquela que direta ou indiretamente contribui para a sua existência e funcionamento, o que poderá resultar em práticas de integração e interação entre ambas, capazes de uni-las em torno de propósitos com dimensões sociais que englobem toda a sociedade civil. Ao longo deste trabalho, procuramos revelar através de reflexões sobre a integração da escola à comunidade local, como esta é uma prática essencial e possível de ser exercida, mesmo em uma sociedade capitalista como a nossa, na qual o poder público não incentiva uniões desse tipo, por elas representarem um primeiro passo na busca por transformações sociais. Fazendo referência à problemática que serviu de estímulo para a realização deste trabalho, constatamos por meio da experiência observada ao longo da pesquisa, que a relação escola-comunidade local, vista por integrantes de ambas como algo inovador, contribuiu bastante para que essas duas instituições se conhecessem melhor, chegando ao ponto de substituírem o pré-conceito que antes imperava, pela valorização que passou a predominar. Durante as visitas feitas à Escola Parque foram realizadas entrevistas com membros das comunidades escolar e local, a fim de saber a opinião dos mesmos sobre o processo de integração que a instituição buscou desenvolver ao longo do período de dez meses. De acordo com suas falas, percebemos que os membros de ambas as comunidades aprovaram a iniciativa da instituição, pois entre outros benefícios, problemas como o desemprego, foram amenizados, devido ao fato de que alguns participantes que aprenderam profissões nas oficinas de Arte e Padaria passaram a exercê-las com registro em carteira, isto é, ingressaram no mercado de trabalho. A proposta envolvendo a relação escola - comunidade local teve entre outros objetivos, incentivar a reflexão sobre a desafiante prática da gestão escolar democrática, que para ser 118 emancipadora precisa ser exercida de forma amistosa por essas duas representantes da sociedade civil. Para tanto, a comunidade escolar deve considerar a comunidade local como capaz de contribuir para o funcionamento da instituição de ensino. Ao realizarmos uma reflexão sobre os resultados desta pesquisa, percebemos que o processo de integração desenvolvido pela Escola Parque em favor da comunidade local, foi algo marcante, pois entre outros benefícios, contribuiu para despertar em ambas o interesse mútuo de uma pela outra, principalmente no que diz respeito ao quesito segurança. Uma prova disso é o fato de as comunidades reconhecerem satisfeitas, que o número de casos de violência praticados nos arredores da Escola Parque, diminuiu a partir do momento em que pessoas carentes (dependentes de drogas), encontraram nesta instituição que trabalha em parceria com Clínicas de tratamento para dependentes químicos, o apoio necessário para superar os danos causados pelo vício, e que contribuem diretamente para o aumento da violência. A integração da Escola Parque à comunidade local foi relevante também, pois estimulou nos profissionais da instituição, o entendimento de que eles podem trabalhar para resolver problemas que estão além das dependências do estabelecimento de ensino, mas que de alguma forma influenciam no cotidiano e funcionamento do mesmo. Nesse contexto, o pensamento otimista de Paulo Freire é mais atual do que nunca: Toda realidade está aí submetida à nossa possibilidade de intervenção nela. Esta verdade chama atenção para o fato de que é inevitável a escola enfrentar graves problemas no processo de articulação com a comunidade local, mas enfrentar e superar os mesmos, também é possível. A experiência dos serviços desenvolvidos pela Escola Parque em favor da comunidade local, mostrou que proporcionar educação é uma responsabilidade que compreende práticas além das que são exercidas restritamente em sala de aula. Lições de solidariedade, respeito e cooperação foram ensinadas ao público discente, através do testemunho resultante dos trabalhos desenvolvidos para a comunidade local, que passou a frequentar as dependências da instituição escolar em busca de ajuda. Os educandos puderam refletir que a escola “prepara para a vida”, quando demonstra disposição e interesse em interagir com a comunidade local carente, à qual pertence grande parte do público discente. Agindo assim, além de beneficiar a si mesma, a Escola Parque deu um precioso exemplo de responsabilidade social, contrariando a egoísta visão capitalista de ser “cada um por si”. 119 A experiência da Escola Parque representa também uma porta aberta para novas conquistas importantes, como o exercício de uma gestão democrática junto à comunidade local. Esta é uma prática que condiz com a postura escolar progressista, e estimula a participação da classe popular no mundo político, possibilitando a esta aprender como funciona o patrimônio público que lhe pertence. Sendo assim, a comunidade local poderá deixar de ser uma mera expectadora da ineficiente atuação política que comanda o Aparelho Ideológico Escolar, para atuar em favor de si mesma, através da gestão democrática. Antes de conhecermos a Escola Parque, visitamos outras cinco escolas públicas de Salvador, na busca por saber se as mesmas desenvolviam ou pretendiam desenvolver algum projeto de integração junto as suas respectivas comunidades locais. A resposta da direção de todas elas foi não, chegando ao ponto de nem mesmo refletir sobre tal possibilidade. Pensamos então em desistir do tema escolhido, por acreditarmos que não encontraríamos uma escola que desenvolvesse tal prática, porém ao persistirmos mais um pouco em nossa procura, conhecemos a Escola Parque, construída sob a orientação de Anísio Teixeira, que era a favor de uma educação integral. Fomos então bem recebidos pela instituição, e por isso sentimos bastante motivação em desenvolvermos nossa pesquisa prática, que associada à pesquisa teórica, resultou neste trabalho. Ressaltamos que foi gratificante a experiência da pesquisa desenvolvida, pois serviu para conhecermos a realidade, a ponto de compreendermos que a postura fatalista que resulta em um total distanciamento entre escola e comunidade local, e que verificamos no exemplo das cinco escolas visitadas anteriormente, é sobretudo, uma escolha da instituição de ensino, que embora não possa resolver todos os problemas da sociedade, deve buscar sempre fazer a sua parte. A partir da realidade observada na experiência da Escola Parque, e que resultou nos benefícios expostos no capítulo anterior, refletimos com base na tese de Althusser (1980), entendendo que as escolas, em sua maioria, atuam apenas como um Aparelho Ideológico de Estado no que diz respeito à relação com a comunidade local, devido principalmente ao fato de as mesmas renunciarem a autonomia que possuem. Ao afirmarmos isso, admitimos que a integração à comunidade local é uma tarefa difícil de ser realizada, já que trata-se de uma prática que conduz à cidadania um sistema educacional e uma sociedade repletos de inúmeras injustiças capitalistas, mas se a Escola Parque, que pertence à rede pública de ensino e atende a um público carente, superou o desafio de articular-se com a comunidade local através dos excelentes serviços que presta à mesma, é sinal de que não trata-se de um sonho impossível, 120 mas de um sonho que para ser materializado, requer sobretudo da instituição escolar, um alto grau de interesse e de determinação. Assim, em resposta à problemática que direciona este trabalho, concluímos que: a Escola Parque realiza a sua integração com a comunidade local, através da iniciativa e esforços próprios, ambos materializados pela união, colaboração e participação de todos os profissionais envolvidos no processo. Consideramos de fundamental importância a realização do trabalho de pesquisa em instituições educacionais, para que possamos articular a teoria à prática, mediante o aprendizado que resulta da reflexão sobre diferentes atuações escolares. Tal reflexão é manifestada através da entrevista com gestores, educadores, educandos e representantes da comunidade local, e pela observação dos trabalhos desenvolvidos. Tanto o educador, quanto os profissionais atuantes nas áreas de coordenação e direção escolar, precisam conhecer não somente as teorias sobre como a escola pode e deve ser gerida, mas devem também experimentar na prática, lições inovadoras como a integração à comunidade local estabelecida pela Escola Parque. Como futura profissional da área de educação, habilitada para atuar tanto na sala de aula, quanto na área de coordenação escolar, entendo que é necessário refletir sobre o valor de experiências desse tipo, enquanto recurso necessário para a inclusão da classe popular. Por fim, este trabalho de monografia além de simbolizar a conclusão de mais uma etapa da vida acadêmica, a graduação, amplia caminhos para a continuidade dos estudos e formação, objetivando a ampliação de novos conhecimentos fundamentados tanto na teoria, quanto na prática. 121 REFERÊNCIAS - ALTHUSSER, Louis. Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado. 3 ed. 1980. - ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martin Claret, 2003. - BOBBIO, Noberto. O futuro da Democracia. 9 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000. - BUARQUE, Aurélio de Holanda Ferreira. Dicionário da Língua Portuguesa. 1 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. - DEMO. Pedro. Pesquisa e Informação Qualitativa Aportes Metodológicos. Campinas: Papirus, 2001. - EBOLI, Terezinha. Uma escola diferente. São Paulo: Nacional, 1969. - EBOLI. Terezinha. Uma experiência de educação integral. Salvador: IBGE, 1969. - ENGUITA, Mariano Fernández. A face oculta da escola. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. - FREIRE, Paulo. 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São Paulo: Cortez, 1984. 123 APÊNDICE A Roteiro de Pesquisa de Campo 1.0 Identificação da instituição de ensino: a) Nome e histórico da Escola, endereço, características físicas e política presente no Projeto Político Pedagógico; b) Rotina de funcionamento: horários e serviços oferecidos para a Comunidade Local. 2.0 Avaliação Diagnóstica: a) Identificação do perfil social das Comunidades Escolar e Local, através de entrevistas e observações orientadas pelas idéias presentes na pesquisa teórica; b) Acompanhamento da experiência de convivência estabelecida entre ambas; c) Identificação das opiniões de participantes das duas comunidades, sobre a experiência vivenciada até então; d) Identificação dos desafios e superações vivenciados pela Escola, na busca por prosseguir com tal convivência; e) Constatação das implicações e benefícios resultantes a partir de tal experiência, tanto para a Escola, quanto para a Comunidade Local; f) Associação das conclusões resultantes da pesquisa prática às idéias de autores que serviram de base para a pesquisa teórica. 124 APÊNDICE B – Diversos momentos de convivência Figura 1: Ala de educadores, crianças e adolescentes participando da Caminhada da Paz Figura 2: Ensaios da Banda de Música que tocou na Caminhada da Paz 125 Figura 3: Oficina de Artes envolvendo técnicas de decoração em garrafas, sendo desenvolvida para educandos e participantes da Comunidade Local Figura 4: A Comunidade Local aprendendo como modelar a argila 126 Figura 5: Arte com bordados Figura 6: Bordado em costura 127 Figura 7: A Comunidade Local praticando modelação de salgados na Oficina de Padaria Figura 8: Avaliando o material produzido 128 Figura 9: Pães produzidos na Oficina de Padaria e que são servidos no dia seguinte como lanche para os educandos da Escola Parque Figura 10: Degustação e avaliação do pão de queijo 129 Figura 11: Preparação da massa de farinha de trigo Figura 12: Produto final originado a partir da massa preparada pela Comunidade local