74 IEEE LATIN AMERICA TRANSACTIONS, VOL. 6, NO. 1, MARCH 2008 Redução da Confiabilidade em Instalações Elétricas Sujeitas a Sobrecargas Augusto Ferreira Brandão Jr. Resumo – Calcula-se aqui a confiabilidade de subestações de energia elétrica empregando diagramas de Markov. Três estados são assinalados à operação de cada componente, correspondendo às condições de operação normal, de sobrecarga e de reparo. O modelo inclui contingências até a segunda ordem. A influência da sobrecarga nas taxas de falha dos componentes e na confiabilidade da subestação é examinada. Os equipamentos analisados com maior detalhe são o transformador de potência e os cabos contruídos com isolamento extrudado. A solução é obtida pelo método dos conjuntos de ligação e de corte mínimos, sendo apresentadas equações para as contingências de primeira e de segunda ordem. É apresentado um estudo de caso com uma subestação de distribuição e dois ciclos de carga. Palavras-chaves – Subestações de Energia Elétrica; Confiabilidade de Subestações; Processos de Markov; Modelagem de Componentes em Estudos de Confiabilidade; Confiabilidade de Cabos Isolados; Confiabilidade de Transformadores. I. INTRODUÇÃO O cálculo da confiabilidade de subestações de energia elétrica, visando primariamente a comparação entre alternativas e arranjos, é um assunto abordado com grande freqüência na bibliografia, já há algumas décadas, empregando vários processos e incluindo procedimentos de manutenção, manobras e chaveamentos, falhas de proteção, etc. [2,6,15]. A modelagem do processo de falha de cada equipamento segue o procedimento matemático usual, a partir do chamado “modelo de falhas da curva da banheira”, Fig. 1. Esta curva expressa um comportamento comum a todos os equipamentos, elétricos ou não. Devido ao processo de manufatura, a taxa de falha mais alta ocorre logo após a fabricação, possivelmente refletindo defeitos de fabricação ou um controle de qualidade imperfeito. Após a depuração inicial, a taxa de falha tende para um valor constante, que permanecerá durante toda a “vida útil” do componente, justificando o emprego da distribuição exponencial para a variável aleatória que a representa, e de processos estocásticos do tipo “cadeias de Markov” para representar seu comportamento. Finalmente, devido ao desgaste do material, ocorre um aumento súbito da taxa e da probabilidade de falha e a subseqüente retirada do equipamento de operação. Manuscript received April 27, 2006. Augusto F. Brandão Jr. Department of Electrical Energy and Automation Engineering of Polytechnic School of the University of São Paulo, São Paulo – SP – Brazil, phone: 55-11-30915313; e-mail: [email protected]. taxa de falha (ano-1) λ tempo Fig. 1. Modelo de Taxa de Falha denominado “Curva da Banheira”. O modelo utilizando cadeias de Markov é apresentado na Fig. 2. Um modelo mais completo, que inclui os estados representando manutenção preventiva e o chaveamento, é descrito na referência [3]. N 1/TR λ R Fig. 2. Diagrama de Markov com dois estados. Um equipamento qualquer na subestação – transformador de potência, barramento, cabos, disjuntor, chaves, sistema de proteção ou qualquer outro – opera na condição normal – estado N – durante a maior parte do tempo, sujeito a uma taxa de falha constante λ. O tempo de permanência no estado N é TN, que é uma variável aleatória com distribuição exponencial. A ocorrência de uma falta causa a transição ao estado R, com duração descrita por outra variável aleatória com distribuição exponencial, TR, com taxa igual ao inverso do tempo médio de reparo – “MTTR – mean time to repair” – e retorna à condição normal N. Os componentes da subestação podem ser organizados de forma lógica a constituir os “tie sets” ou conjuntos de ligação, que interligam a carga às fontes e transmitem a energia a um barramento de referência. A continuidade de qualquer conjunto de ligação é um requisito considerado suficiente para garantir o fornecimento de energia elétrica à carga em questão e é a condição normal de operação. Os conjuntos de ligação são considerados entidades diferentes, e conjuntos de componentes comuns a todos eles constituem os conjuntos de corte ou “cut sets”. As falhas simultâneas de todos os componentes de um conjunto de corte impedem que seja fornecida energia à barra FERREIRA BRANDÃO : RELIABILITY REDUCTION IN ELECTRICAL considerada. Conjuntos de corte podem ser de primeira, segunda, terceira ordem e assim sucessivamente, dependendo de quantos equipamentos em paralelo existem em cada um deles. Como os equipamentos elétricos normalmente têm confiabilidade elevada, com MTBF’s (tempo médio entre falhas) da ordem de milhares ou dezenas de milhares de horas, os conjuntos de corte de terceira ordem e superior são bastante improváveis e são normalmente descartados. Do equacionamento de todos os conjuntos de corte possíveis, os índices de confiabilidade na barra de referência – disponibilidade e indisponibilidade, taxas de falhas, tempos médios de interrupção – podem ser calculados. Associados a custos – de aquisição e instalação dos equipamentos, da energia não fornecida e outros custos de interrupção – estes valores permitem comparar esquemas alternativos para a subestação – barramento simples, barramento duplo, principal e de transferência, disjuntor e meio, etc. Também podem ser determinados os pontos críticos e os caminhos que necessitam de reforço com mais urgência, soluções que otimizem relações custobenefício e assim por diante, e todas as aplicações usuais de um estudo de confiabilidade. Todavia, devido ao modelo empregado, Fig. 1, não existe influência da magnitude da carga no cálculo, um fato que é realmente verdadeiro quando a carga, ou potência elétrica circulante, está abaixo dos valores nominais de projeto dos equipamentos. Por exemplo, não há forma de diferenciar as taxas de falha de um transformador de 10 MVA se estiver submetido a uma curva diária de carga com valor de pico de 5 MVA, da taxa quando a curva diária apresenta ponta em 10 MVA, que é o dobro do valor. Não há como distinguir o suprimento a um determinado barramento por um transformador de 12,5 MVA do suprimento por outra unidade, desta vez de 30 MVA, ambas com a mesma taxa de falhas, se a confiabilidade é o critério de comparação. Não se considera a influência da taxa de crescimento da carga nos índices de confiabilidade da instalação elétrica. A validade da asserção anterior pode ser questionada quando a potência ultrapassa os valores nominais de projeto dos equipamentos. Seja, por exemplo, uma curva diária de carga que apresenta na ponta o valor de 8 MVA, e dois transformadores de 10 MVA, completamente redundantes, já que cada um é capaz do fornecimento, alimentam a carga. Os índices de confiabilidade são calculados através das expressões usuais de associações em série e paralelo, incluindo a redundância entre os dois transformadores. Com o passar do tempo, um aumento da carga para, p.ex., 13 ou 15 MVA torna a instalação menos confiável, já que uma falha em um transformador implica que o remanescente seja sobrecarregado com 30% ou 50% de sua capacidade. As expressões para associação em paralelo tornam-se inadequadas, já que os resultados calculados são excessivamente otimistas. Esse é um dos casos básicos de redundância incompleta, ocasionado por sobrecarga no componente restante, e é o foco deste trabalho. 75 Hoje em dia, muitas instalações no Sistema Elétrico Brasileiro de Potência aproximam-se de seu limite operativo de projeto, havendo restrições econômicas e/ou ambientais na sua ampliação, especialmente no caso de transformadores de potência, redes elétricas de distribuição, unidades geradoras e equipamentos associados. São propostas e aplicadas a “repotenciação” do equipamento e/ou a aplicação de sobrecargas, embora controladas e por tempos limitados. Nesta situação, a perda da confiabilidade das instalações elétricas, normalmente projetadas e construídas corretamente dentro dos limites de operação nominais, não é usualmente citada, mas é inevitável. II. BASES FÍSICAS A dependência da confiabilidade com a carga é levada em conta aqui calculando-se dois valores discretos diferentes para a taxa de falha, λ para condição normal e λL para a condição de sobrecarga. Este enfoque é uma simplificação, já que a potência circulante varia de forma contínua, aumentando, atingindo e ultrapassando o valor nominal. As temperaturas internas acompanham o aumento de carga, não imediatamente, mas atrasadas por algumas constantes de tempo, as quais podem variar de alguns minutos, como em cabos nus ao ar livre, a algumas horas, como em grandes transformadores de potência. Ultrapassados os valores de projeto, o equipamento fica mais suscetível às falhas devido a fenômenos físicos vários ocasionados pelo aquecimento. Assim, λL deve ser encarado como o valor médio das taxas de falha dentro do intervalo em que existe a sobrecarga. Os equipamentos que apresentam algum grau de deterioração em seu desempenho quando submetidos a sobrecargas são aqueles que são dimensionados a partir de aquecimento e equações de transferência de calor em sistemas termodinâmicos, que determinam temperaturas internas limitadas em valores predefinidos. Os componentes elétricos mais comuns que apresentam tal característica são os cabos de energia isolados, manufaturados pelo processo industrial de extrusão de material polimérico – PVC, EPR, XLPE, por exemplo – sobre condutores de cobre ou alumínio, e os transformadores de potência. Testes de laboratório em transformadores e em modelos de enrolamentos de transformadores mostram que existe uma redução da rigidez dielétrica entre espiras e entre bobinas, e a elevação do risco de falha dielétrica causada por impulso ou sobretensão, quando o transformador está com carregamento acima do valor nominal [9,10,12]. O desenvolvimento de bolhas de gás dentro da estrutura isolante em temperaturas elevadas é o fenômeno responsável por essa redução. As bolhas consistem primariamente de vapor de água, que é atribuído à transferência da umidade existente na celulose, altamente higroscópica, para o óleo devido à temperatura elevada. A criação de bolhas cessa tão logo a temperatura se reduza com a eliminação da sobrecarga, e a rigidez dielétrica 76 IEEE LATIN AMERICA TRANSACTIONS, VOL. 6, NO. 1, MARCH 2008 paulatinamente retorna aos valores anteriores. O envelhecimento não apresenta efeito de deterioração na tensão de ruptura a impulso. Quanto aos cabos isolados, existem dois grupos principais: os com isolação estratificada, composta de camadas de papel impregnado com óleo mineral ou massa asfáltica, e aqueles com isolação extrudada. Com respeito ao primeiro tipo, a literatura não relaciona nenhuma alteração do dielétrico com a temperatura, talvez porque a isolação desses cabos, empregando uma tecnologia conservadora, seja dimensionada com uma folga bastante grande. Os materiais isolantes que são utilizados em condutores de energia por extrusão são o PVC (polyvinyl chloride ou cloreto de polivinila), usado até cerca de 10 kV, o EPR (ethylene propylene ou borracha de etileno propileno) e o XLPE (cross-linked propylene ou polietileno reticulado). A rigidez dielétrica, tanto do XLPE como a do EPR, é reduzida em até 30% quando a temperatura aumenta de 21 a 175o C. Como o cálculo da confiabilidade de cabos isolados [1,8,13,16] é feito utilizando-se o valor da rigidez dielétrica do material como um parâmetro para uma distribuição de Weibull, a sobrecarga com o subseqüente incremento de temperatura implicará valores maiores de taxas de falha. III. MODELAGEM POR CADEIAS DE MARKOV Diversos enfoques têm sido aplicados ao cálculo de risco em transformadores sujeitos às sobrecargas e ao envelhecimento. A redução da suportabilidade dielétrica com a formação de pequenas bolhas de vapor tem sido tratada em diversas publicações [9,10,12]. Quanto ao risco dos transformadores submetidos às sobrecargas, podem-se citar desde simulações pelo processo tradicional de Monte Carlo [4] até sistemas aplicativos inteiros desenvolvidos em Concessionárias Brasileiras com esta finalidade [11]. Também o efeito das condições preexistentes e das manutenções preventiva e corretiva tem sido considerado com aplicações técnicas e desenvolvimento de trabalhos acadêmicos [5,7,17]. Vários indicadores têm sido selecionados, tais como teores de gases dissolvidos no óleo obtidos em análises cromatográficas, descargas parciais nas espiras e, mais recentemente, funções de transferência dos enrolamentos. Todos buscam um indicativo das condições operativas do transformador com respeito a uma possível falha futura, e atualmente é um assunto em intenso desenvolvimento. O enfoque adotado aqui emprega a construção dos conjuntos de ligação (“tie sets”) e conjuntos de corte para o cálculo da confiabilidade, com a operação de cada equipamento sendo descrita por uma cadeia de Markov com três estados. Tendo em vista que o componente oscila entre duas condições, uma de “operação normal” para outra de “sobrecarga”, o modelo construído para representar este comportamento é o da Fig. 3. L k/TR λL 1/TN R λ 1/TL N (1-k)/TR Fig. 3. Diagrama de Markov para um componente e três estados com a sobrecarga “L”. Em condição normal N, o componente apresenta condição dielétrica também normal e taxa de falhas λ. Por outro lado, durante a sobrecarga L existirá uma condição de redução da rigidez dielétrica e, conseqüentemente, a taxa de falhas é aumentada para λL. A parcela do tempo em p.u. na qual há sobrecarga é k, logo, o tempo restante é 1 - k. Considerando um ciclo diário repetitivo, se TL é o tempo em horas em que há sobrecarga e TN é o restante do tempo, então: TN + TL = 24h k = TL / 24h Na Fig. 3, R representa o estado em condição de falha, e 1/TR é o inverso do tempo médio de reparo. O fator k é necessário nas taxas de transição para manter o tempo médio de permanência em R, que é para reparo. Definindo λeq = (1-k)λ + kλL as equações associadas com os estados da Fig. 3 ficam as apresentadas na Tabela 1. Tipo Estados Probabilidade Freqüência Saída Forçada R λeqTR λeq Sobrecarga L k k/TL Tabela 1 – Equações para Componentes de Conjuntos de Corte de 1a Ordem A Fig. 4 esclarece os conceitos de conjuntos de corte – “cut sets” – de 1a e 2a ordens. O barramento B é um componente que pertence a um conjunto de corte de 1a ordem, já que qualquer tipo de desligamento, seja por reparo, chaveamento ou manutenção preventiva, leva à interrupção do fornecimento de energia. Dois componentes pertencem a um conjunto de corte de segunda ordem se eles não são de 1a ordem individualmente e se, quando ambos estão no estado R, o sistema inteiro fica desligado. Os transformadores T1 e T2 da Fig. 4 são um exemplo de componentes pertencentes a um conjunto de corte de 2a ordem. Os conjuntos de corte das várias ordens são obtidos a partir dos conjuntos de ligação (“tie sets”) entre fontes e carga na instalação. FERREIRA BRANDÃO : RELIABILITY REDUCTION IN ELECTRICAL Fonte LT1 HB1 T1 LB1 B LB2 p+jq B 77 transformadores de 15 MVA, embora na condição “normal” nenhuma das alternativas apresente sobrecarga. A distinção aparece na emergência de um transformador, quando a carga total é transferida para o que permanece em operação. TB Fonte LT2 HB2 T2 B k2 λ1 Fig. 4. Exemplo de Instalação. 1/TR1 A Fig. 5 mostra o modelo empregando cadeias de Markov para a operação de dois componentes. Admite-se que na situação normal os componentes não apresentam sobrecarga. Os novos estados criados para levar em conta a sobrecarga no equipamento restante no caso da falha de um deles são RL – primeiro componente em reparo, sobrecarga no segundo – e LR – segundo componente em reparo, sobrecarga no primeiro. Equações para esses estados são apresentadas na Tabela 2. (1-k2) λ1 1/TR1 RL k2/TR2 1/TN2 1/TL2 (1-k2)/TR2 λ2 RN NN RR (1-k1) λ2 1/TR2 1/TR2 λ1 NR 1/TN1 k1λ2 (1-k1)/TR1 λL1 1/TL1 LR k1/TR1 Fig. 5. Diagrama de Markov com seis estados para dois componentes. IV. REDUÇÃO DA CONFIABILIDADE DEVIDO À APLICAÇÃO DE SOBRECARGA Esse é um casos possíveis em que ocorre a “redundância incompleta” na qual a associação paralela de dois componentes apresenta valores de probabilidade e freqüência (e indisponibilidade) maiores do que aqueles obtidos com as fórmulas usuais da associação em paralelo. Quanto maior a relação λL/ λ, maior o incremento nos índices e maior a diferença. A consideração de taxas de falha distintas λ e λL permite comparações dos índices de confiabilidade entre esquemas elétricos e topologias similares, mas com diferentes potências nominais dos equipamentos. Na subestação da Fig.4, se a carga apresenta uma ponta diária de 20 MVA, dois transformadores de 20 MVA trabalhando em paralelo são, certamente, mais confiáveis do que dois Situação Estados Probabilidade Freqüência Saída Forçada RR (λ1λ2eqTR1 + λ1eqλ2TR2) TR1TR2 / (TR1 + TR2) (λ1λ2eqTR1 + λ1eqλ2TR2) LR λ2TR2 k1 λ2TR2 (1-k1)λL1 + k1λ2 RL λ1TR1 k2 Sobrecarga λL2 λ1TR1 (1-k2)λL2 + k2λ1 Tabela 2 – Equações para Componentes pertencentes a Conjuntos de Corte de 2a Ordem. 78 IEEE LATIN AMERICA TRANSACTIONS, VOL. 6, NO. 1, MARCH 2008 V. ESTUDO DE CASO Os resultados para o ciclo de carga “A” são apresentados na tabela 6 e aqueles para o ciclo de carga “B”, na tabela 7. A subestação de entrada de uma instalação elétrica comercial é similar à mostrada na Fig. 4 e recebe energia de duas fontes através de duas linhas externas independentes de 34,5 kV de 14 km, cabos 2/0 AWG isolados em EPR. Na secção interna à subestação, esses cabos apresentam comprimento de 30 m. Existem dois transformadores de 15 MVA, 34,5/13,8 kV conectados em estrela/estrela aterrada. A energia é distribuída em 13,8 kV. Os cabos de 13,8 kV são trifásicos, isolados em EPR, 750 MCM com 800 m de comprimento. Intervalo 0 – 10 h 10 – 12 h 12 – 16 h 16 – 22 h 22 – 24 h Ciclo A (MVA) 6,0 9,0 12,0 15,0 9,0 Ciclo B (MVA) 7,2 10,8 14,4 18,0 10,8 Tabela 3 – Ciclos Diários de Carga. Foram considerados dois ciclos de carga correspondentes a dois instantes distintos no tempo, um atual (A) e outro prevendo um crescimento de 20% na carga (B), tabela 3. Cabos e transformadores operam em metade (50%) de sua capacidade nominal no ciclo “A” e, em primeira contingência, não há sobrecarga. Componente Cabos 35kV, 14 km, 2/0 AWG Disjuntores 35 kV Barramento 35 kV Chave de “tie” 35 kV Transf. 15 MVA Disjuntor 15 kV Cabos 15kV, 800 m, 750MCM Barramento 15 kV λ 10-3/ano 64,9 TR (h) 168,0 3,2 16,0 20,0 100,0 17,6 0,164 27,0 38,0 50,0 1080,0 44,5 27,2 1,7 41,0 Tabela 4 – Taxas de Falha e Tempos de Reparo. Já com crescimento da carga, no ciclo “B” eles operam em condição normal com 60% de sua capacidade e podem ser submetidos a uma sobrecarga moderada de 20% em condições de emergência. Os dados de confiabilidade para os componentes estão na tabela 4 para condição normal, e na tabela 5 os valores de taxa de defeito em sobrecarga e o tempo de sobrecarga. Componente cabos 35 kV, 2/0, 14 km Transf. 15 MVA cabos 15 kV, 750 MCM λL (10-3/ano) 1850 1730 1,35 TL (h) 6,0 6,0 6,0 Tabela 5 – Taxas de Falha e Tempos de Sobrecarga. Conjunto de Corte 1a ordem 2a ordem total indisponibilidade Indisp.(h/ano) λ(ano -1) 1,7000 0,070 0,00356 1,381 1,70356 1,451 1,451 h/ano Tabela 6 – Resultados para o Ciclo de Carga “A”. No primeiro caso, ciclo de carga “A”, a indisponibilidade da subestação é de 1,45 hora/ano e no segundo, ciclo de carga “B”, é de 6,98 horas/ano. Conjunto de Corte 1a ordem 2a ordem total indisponibilidade Indisp.(h/ano) λ(ano -1) 1,7000 0,070 0,01493 6,908 1,71493 6,978 6,978 h/ano Tabela 7 – Resultados para o Ciclo de Carga “B”. A diferença é devida principalmente aos elementos pertencentes aos conjuntos de corte de 2a ordem. Existe somente um componente que é corte de 1a ordem, o barramento de 15 kV, o qual não apresenta condição de sobrecarga. VI . CONCLUSÕES Neste trabalho, foram modelados componentes de sistemas elétricos de potência para cálculo de confiabilidade com cadeias de Markov, com três estados para representar a operação. No estado adicional de “sobrecarga”, o componente apresenta uma taxa de falha diferenciada, o que permite a consideração da potência circulante na subestação no cálculo da confiabilidade. Os componentes que apresentam taxas diferenciadas de falha quando em sobrecarga são o transformador de potência e os cabos com isolamento extrudado. No transformador de potência, há uma redução da rigidez dielétrica devido à formação de bolhas de gás em altas temperaturas, enquanto nos cabos isolados as propriedades isolantes do material dielétrico são reduzidas. O cálculo com dois níveis de taxa de falha demanda uma grande quantidade de operações numéricas e a utilização de computação digital é necessária. As temperaturas internas dos componentes sujeitos à sobrecarga devem ser calculadas de fórmulas que podem ser longas e iterativas. O valor numérico da taxa de falha em sobrecarga pode ser assunto de outras discussões, dado o método que foi empregado. Existe uma simplificação com a utilização de somente duas taxas de falha e o processo pode ser sofisticado. Um ponto a considerar é o decréscimo dos índices de confiabilidade das instalações elétricas com o tempo, à medida que os equipamentos envelhecem com o uso e a carga aumenta. Outro fator é que a aplicação de sobrecargas nos equipamentos do sistema elétrico FERREIRA BRANDÃO : RELIABILITY REDUCTION IN ELECTRICAL de potência tende a reduzir as normalmente altas e conservadoras condições operativas. APÊNDICE 1 – FALHAS EM CABOS ISOLADOS O tempo de vida útil e a probabilidade de falha de cabos com isolação extrudada são calculadas através da conhecida distribuição de Weibull. A taxa de falhas é variável no tempo e é expressa por: λ( t ) = αβ t β−1 onde o parâmetro β é o fator de forma e α é o fator de escala. No cálculo de confiabilidade de cabos isolados, estes parâmetros tomam a forma α = (E/E0)b(1/t0)a β=a onde E é o campo elétrico (kV/cm) aplicado. Os valores de E0, “a” e “b” são experimentais, obtidos em testes em amostras reduzidas para um valor fixo de t0 (15 min) e extrapolados para cabos reais por meio de E02 = E01 [(L1/L2)(R1/R2)2]1/b onde L é comprimento, R é o raio do condutor e os subscritos 1 e 2 referem-se à amostra e ao cabo real, respectivamente. A taxa de falha instantânea fica 79 λL(t) / λ(t) = (E0 / E0L)b = (G/GL)b A rigidez dielétrica dos isolantes dos cabos diminui com o incremento da temperatura, conforme gráfico da figura 6 e, conseqüentemente, aumenta a taxa de falhas. APÊNDICE 2 – FALHAS EM TRANSFORMADORES A taxa de falhas em transformadores de potência já vem sendo acompanhada há vários anos, e um valor usualmente aceito é λ = 0,02 falha por ano, o que leva a uma vida útil esperada de 50 anos. As falhas ainda podem ser divididas conforme a origem em: mecânicas, dielétricas ou térmicas. A sobrecarga, e a conseqüente sobre temperatura, terá efeitos no grau de rigidez dielétrica do óleo. Assim sendo, é possível dividir a taxa de falhas total λ em: λ = λd + λ0 com λd representando as falhas com origem dielétrica, e λ0, as restantes. O efeito da sobrecarga nos transformadores de potência é o de elevar a temperatura e reduzir a suportabilidade, aumentando a probabilidade da solicitação, um pulso de tensão, por exemplo, exceder a rigidez e causar falha, Fig. 7. Densidade de probabilidade suportabilidade P(V) λ( t ) = (E/E0)b(a/t0)(t/t0)a-1 e o valor médio para a taxa de falhas em um intervalo de tempo T vale solicitação f(V) λmédio = (1/Τ)(E/E0)b(t/t0)a λd Tensão (kV) Fig. 7. Alteração das Falhas Dielétricas em Transformadores com a Temperatura. rigidez 100 dielétrica (% nom) A partir de dados históricos, é possível estimar a parcela de falhas de origem dielétrica, λd, dada por: 50 +∞ 100 200 temp.(0C) Fig. 6. Comportamento da Rigidez Dielétrica do Material Isolante com a Temperatura. Os valores para E0, a e b são obtidos experimentalmente, a partir de ensaios em amostras executados em tempos reduzidos e extrapolados para o condutor real. O valor de E é o gradiente de potencial a que o isolante do cabo é submetido. É interessante notar a variação na taxa de falhas resultante da variação de E, já que o valor do expoente b é da ordem de 10 a 12, de modo que um pequeno aumento em E causa um grande incremento em λ. Da mesma forma que um aumento do gradiente aplicado E, uma redução da rigidez dielétrica G do isolante causa um aumento na taxa de falhas, dado por λd = ∫ f(V) P(V) dV -∞ com f(V) igual à função de densidade de probabilidade da solicitação dielétrica durante um ano, e P(V) é a probabilidade de falha dielétrica nos enrolamentos, para uma solicitação V. A partir da curva de carga, é possível calcular as temperaturas internas do transformador e a diminuição da suportabilidade no intervalo no qual ela excede o valor de projeto. Assumindo que as solicitações se mantenham no período, um novo valor de λd pode ser obtido reduzindo-se o valor da suportabilidade P(V) no intervalo com temperatura elevada, com auxílio de valores experimentais. Quanto maior a sobrecarga, maior a formação de bolhas e maior a exposição às sobretensões. 80 IEEE LATIN AMERICA TRANSACTIONS, VOL. 6, NO. 1, MARCH 2008 REFERÊNCIAS [1] Bahder, G et al., “Electrical breakdown characteristics and testing of high voltage XLPE and EPR insulated cables”, IEEE Trans. Power Appar.&Syst., vol 102 No 7, 1983, pp. 2173-2185; [2] Billinton, R e Lian, G, “Monte Carlo approach to substation reliability evaluation”, IEE Proceedings-C, vol. 140, No.2, March 1993, pp. 147152; [3] Brandão Jr, AF, “A model for substation reliability analysis including overload effects”, International Journal of Electrical Power & Energy Systems, vol. 9 No. 4, October 1987, pp. 194-205; [4] Brandão Jr., AF, “Probability approach to installation studies of power transformers”, International Journal of Electrical Power & Energy Systems, vol. 5, 1983, pp. 173-181; [5] Costa, S e Brandão Jr., AF, “Manutenção de transformadores com base nas condições”, revista Eletricidade Moderna, vol. 322, pp. 152-163, 2001; [6] Endrenyi, J, “Reliability evaluation of transmission systems with switching after faults – approximations and a computer program”, IEEE Trans. Power Appar.&Syst. Vol. 92 No. 6, 1973, pp. 1863-1875; [7] Flores,EM et al., “Vida de transformadores de potencia sumergidos en aceite: Situación Actual. Parte I. Correlación entre la vida y la temperatura, IEEE Latin America Transactions, vol. 5, no. 1, pp. 50-54, March 2007; [8] Gazzana-Priaroggia et al, ”The influence of ageing on the characteristics of oil filled cable dielectric”, IEE, paper No 3348S, 1960, pp. 467-490; [9] Harlow, JH, Electric Power Transformer Engineering, CRC Press, 2004; [10] Heinrichs, FW, “Bubble formation in power transformer windings at overload temperatures”, IEEE Trans. Power Appar.&Syst. Vol. 98 No. 5, 1979, pp. 1576-1582; [11] Jardini, JA et al., “Management of available power in substation transformers by reliability”, IEEE Transmission and Distribution Conference and Exposition Latin America, pp. 869-73, November 2004; [12] asda Kaufmann, GH and McMillen, CJ, “Gas bubble studies and impulse tests on distribution transformers during loading above nameplate rating”, IEEE Trans. Power Appar.&Syst. Vol. 102 No. 8, 1983, pp. 2431-2540; [13] Katz, C et al, “Emergency overload characteristics of extruded dielectric cables operating at 130oC and above”, IEEE Trans. Power Appar.&Syst. Vol. 103 No 12, 1984, pp. 3454-3463; [14] Li, W, “Incorporating aging failures in power system reliability evaluation”, IEEE 2002; [15] Meeuwsen, JJ and Kling, WL, “Substation reliability evaluation including switching actions with redundant components”, IEEE Trans. Power Delivery, Vol. 12 No 4, October 1997, pp. 1472-1479; [16] Metra, P et al, “High voltage cables with extruded insulation. Statistical controls and reliability evaluation”, IEEE PES Summer Meeting on Energy Resources Vol. 94 No. 3, July 1974; [17] Mendonça, PLS, Modelos de enrolamentos de transformadores de distribuição voltados à manutenção preventiva, tese de doutorado, Escola Politécnica da USP, 2004; [18] Vega, M e Sarmiento, HG, “Algorithm to Evaluate Substations Reliability with Cut and Path Sets”, IAS 2004, IEEE. Augusto F Brandão Jr. (M' 1986, SM 1991) nasceu em São Paulo, Brasil, em 1952. Graduou-se Engenheiro Eletricista, Sistemas de Potência, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – EPUSP, em 1975, onde também completou o doutorado e a livre-docência. Permaneceu um ano em estágio de pós-doutorado no Rensselaer Polytechnic Institute, Troy, NY, em 1989. Professor Associado no Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétricas da Escola Politécnica da USP, tem interesse em estudos e modelos para confiabilidade, estudos de transformadores de potência e de medida e automação de instalações elétricas.