1 COMPETITIVIDADE DA CADEIA PRODUTIVA DO CAFÉ NO SISTEMA COOPERATIVO1 NO PARANÁ Doretto, Moacyr2 (IAPAR, Brasil) RESUMO O objetivo do estudo é verificar a competitividade da cadeia produtiva do café no sistema cooperativo, através do valor adicionado a preços de mercado. Os dados foram obtidos em entrevistas nas cooperativas agrícolas com unidades de torrefação. Constatou-se que a verticalização na cadeia do café é realizada, de um lado, pelas cooperativas e de outro, por outras agroindústrias (maquinistas, torrefadoras e indústria de café solúvel). O valor adicionado (R$/Kg de café beneficiado) segundo os grupos de agentes econômicos foi: de 2,20 para o grupo 1, sendo 0,99 para o produtor de café, 0,14 para o maquinista e 1,07 para a torrefadora. Para os grupos 2 e 3 foi de 2,26, sendo 0,99 para o produtor e 1,27 para as torrefadoras e cooperativas com torrefadora. Para o grupo 4 foi de 1,38 sendo 0,99 para o produtor de café e 0,39 para a cooperativa que comercializa o produto beneficiado. Existe disparidade no valor adicionado entre os grupos de agentes econômicos e a vantagem competitiva para o agricultor é de comercializar o café através do grupo 3 e 4, onde está presente a entidade cooperativa, dado que está sob sua gerência e os benefícios do valor adicionado pelo processo industrial, ainda revertem em favor dos associados através da prestação de serviços e da capitalização das cotas. 1 – Introdução No final dos anos 80 e início de 90, a cafeicultura brasileira apresentava baixa competitividade no mercado nacional e internacional, decorrente do processo de desregulamentação da economia cafeeira, do decréscimo dos preços do café, da baixa qualidade e rendimento físico da lavoura de café, além da concorrência com os refrigerantes. Este 1 Projeto financiado pelo PRONAF 2 processo de diminuição da competitividade do produto café refletiu na agricultura do Paraná, pois no período 1960-96 a área e o número de produtores com café reduziram em 90,8% e 71,1%, respectivamente. A redução dos produtores de café ocorreu, indistintamente, entre os que eram ou não associados às cooperativas de agricultores. No Paraná ocorreu um processo crescente de expansão daquelas cooperativas e que incluíram nas suas atividades a industrialização 3 do café beneficiado em torrado e moído, através da implantação de unidades torrefadoras que são componentes do movimento de verticalização 4 da produção para agregação de valor ao produto. A discussão em torno da conceituação de competitividade já avançou e superou a visão econômica fundada nos preços, custos e taxa de câmbio de cunho estritamente empresarial, através da competitividade sistêmica. Esta referência permite verificar que a competitividade dos produtos está associada à flexibilidade das empresas em renovar as estratégias concorrenciais e as vantagens competitivas (Coutinho & Ferraz, 1993). A coordenação 5 vertical foi realizada pelo Instituto Brasileiro do Café - IBC, que normatizava, e era o principal cliente do produtor e fornecedor para as torrefadoras. O progresso tecnológico é possível nos segmentos à montante e a jusante da cadeia produtiva do café, cuja atribuição é a geração de inovações tecnológicas que propiciam a competitividade do setor cafeeiro no mercado interno e externo. No sentido de elevar a competitividade do produto café, foi criado no Paraná no início dos anos 90, o Plano Integrado 2 Economista MSc -Pesquisador da Área de Sócio-economia do IAPAR. E-mail: [email protected] Etapa na qual o produto primário café foi submetido a um processamento que modifica a sua forma original, transformando-o num produto para ser consumido como bebida ou em componente para a formação de outros produtos. 4 O produto pode ser processado por um único agente econômico representante de um segmento da cadeia produtiva ou ainda por segmentos distintos da cadeia. 5 Coordenação ocorre quando um segmento da cadeia produtiva é dotado de capacidade de tomada de decisão sobre o que, como e quanto produzir de um produto, sob determinado preço unitário. Existe duas variações básicas na forma de coordenação da cadeia: a primeira quando a coordenação é plena e o produtor de matéria prima não interfere no planejamento da atividade e só executa o que foi determinado pelo agente econômico que demanda o produto, casos específicos das aves de corte, dos suínos e do fumo. A segunda forma está centrada na fase da industrialização, em virtude da necessidade para ser consumido e também da variabilidade de opções de subprodutos que podem ser obtidos, ou seja o segmento que demanda o produto não interfere em nenhuma fase do processo produtivo, casos específicos da soja que é transformada em óleo e farelo, e leite em leite pasteurizado, queijo e iogurte. 3 3 de Cafeicultura com a implantação do novo modelo tecnológico de produção de café adensado6, cuja tecnologia foi gerada e validada pelo Instituto Agronômico do Paraná – IAPAR. Diante desta reestruturação que está ocorrendo na cafeicultura do Paraná, através das estratégias que possibilitam a elevação da competitividade do produto no mercado e do envolvimento das cooperativas no processamento do café é que se propôs a realização do estudo, cujo objetivo é verificar a competitividade da cadeia produtiva do café no sistema cooperativo, através do valor adicionado. O trabalho está organizado em capítulos: no segundo, a revisão bibliográfica acerca do processo de diminuição da competitividade do café brasileiro no mercado; no terceiro, a metodologia para a mensuração do valor adicionado nos segmentos da cadeia produtiva; no quarto, a caracterização da cadeia; no quinto, as conclusões relativas a ampla vantagem competitiva da comercialização do café via cooperativa; e, finalmente a bibliografia. 2 – Competitividade e a desregulamentação da economia cafeeira 2.1 – Participação brasileira no comércio de café O mercado nacional de café foi regulamentado em períodos distintos para solucionar crises com o excesso de produção, estabilidade dos preços e, harmonização dos interesses do capital privado e das políticas do Estado na substituição de importações ( Saes 1997). A crise na atividade cafeeira foi seletiva entre os produtores, e acelerou a eliminação de regiões decadentes. Aqueles que permaneceram na atividade já obtinham rendimentos físicos superiores e a reestruturação que se apresentava à atividade era favorável para a elevação do padrão de produtividade e de qualidade da bebida. 2.3 – Preços 6 IAPAR. Modelo tecnológico para o café no Paraná. 1991 (Informe de Pesquisa, 97). 4 Com a desregulamentação o mercado sinalizou com pagamento adicional para a qualidade do produto café e, esta foi incluída entre os agentes econômicos agro-industriais no processo de transformação. Assim sendo, a implantação da atividade cafeeira, como da agroindustria de transformação, passaram a ser efetuada sob um novo patamar tecnológico, visando a obtenção de novos produtos e diversificando a indústria (Zylbersztajn 1995). A partir de 1993 ocorreu recuperação do nível de preços externos, em virtude da baixa dos estoques mundiais e da recuperação do consumo per capita e, também as inovações tecnológicas reduziram o custo unitário de produção, pois o cultivo adensado de café representa aproximadamente, 56% do custo médio do modelo tradicional, (Staviski,1998). A coordenação da cadeia do café, via preços e pela diferenciação dos produtos, são insuficientes para promover o abastecimento do produto com qualidade, dado as características do processo biológico de produção e da comercialização. Assim sendo, a reestruturação no sistema de cultivo, advindas do progresso técnico das instituições de pesquisa, estão generalizando entre os produtores de café um patamar tecnológico que, de certa forma, eqüaliza o processo produtivo, minimizando o efeito do produtor específico e ampliando as possibilidades de preços eficientes na coordenação da cadeia (Farina & Saes,1997). 2.4 – Cooperativas e a transformação agro-industrial de café As mudanças ocorridas na economia mundial submeteram os sistemas agro-industriais menos eficientes há uma profunda transformação, isto é, ou remodelavam as estratégias competitivas ou gradualmente decresciam na atividade (Bialoskorski, 1998). A opção efetuada por algumas cooperativas no processamento do café propiciou o aumento da competitividade no setor, pois diferem dos demais agentes econômicos pelo seu estreito relacionamento com as unidades produtivas agrícolas para manterem um padrão de qualidade dos produtos ofertados no mercado. 5 No Paraná ocorreu um processo crescente de expansão e de fusões entre cooperativas, advindas da necessidade de adequação para acompanharem a evolução das relações comerciais internas e externas do mercado brasileiro. Essa forma de organização social foi, também, submetida há um processo de transformação na sua estrutura organizacional, inclusive contrariando os ideais cooperativistas (Coradini, 1982). Isto levou as cooperativas desempenham funções de empresas agro-industriais, ultrapassando os limites de recebedoras de produtos primários (Medeiros, 1995). No Paraná, em 1996, existiam 52 cooperativas agrícolas, sendo que 12 delas recebiam, beneficiavam e comercializavam o produto café e, apenas duas (COROL e COCAMAR) efetuavam a torrefação e moagem de café. 3 – Metodologia A competitividade foi mensurada através do valor adicionado a preços de mercado por quilo de café beneficiado, segundo os grupos de agentes econômicos envolvidos com a comercialização do produto na cadeia. Através de entrevistas nas cooperativas7 foram obtidos dados sobre custos de produção de café no sistema de plantio adensado, de beneficiamento, de torrefação e os preços recebidos pelo café beneficiado e torrado/moído, referentes a maio de 1999. Para a eqüalização dos preços do café beneficiado e torrado/moído, utilizou-se a relação 1:0,8 que representa a redução de 20% no peso da primeira para segunda forma. O valor adicionado (rendas do trabalho, do capital e mais a depreciação) a preços de mercado é constituído pelo valor total da receita obtida com a comercialização do produto agrícola transformado subtraíndo-se o montante do custo de produção ou de aquisição da matéria prima e o consumo intermediário (adubo, corretivo, mudas, agrotóxico, aluguel de máquina, serviço de empreita, transporte da produção, sacaria, embalagens, combustível, 7 COROL e COCAMAR 6 lubrificantes e energia elétrica), incluíndo a depreciação de instalações e dos equipamentos com ou sem força-de-tração. 4 – Caracterização da cadeia produtiva do café A montante do produtor de café localizam-se os segmentos de máquinas, equipamentos, sacaria, agrotóxicos, crédito, mão-de-obra, tecnologia, assistência técnica, embalagens, material de consumo, lenha e mudas que se relacionam distintamente. À jusante o produto café é destinado ao mercado através de: agentes que realizam o primeiro beneficiamento; a segunda,quando o produtor comercializa com as torrefadoras; a terceira quando entrega na cooperativa. Neste contexto, a cooperativa é um agente econômico que se localiza à montante, quando repassa aos associados os meios de produção e, à jusante quando recebe a produção e procede a transformação e comercialização do produto. Na cadeia do café existem os grupos de interesses localizados à montante e jusante da unidade de produção, objetivando a manutenção dos estoques, coordenação dos leilões e de programas de melhoria da competitividade. 4.1 – Verticalização da cadeia 4.1.1. Agroindústria Desde os primórdios do cultivo de café no Paraná foram implantadas máquinas de benefício e de torrefação ao longo do trajeto de ocupação com a cultura. Posteriormente, as máquinas beneficiadoras foram desativadas ou mantidas com elevada capacidade ociosa, nas regiões produtoras onde a cultura foi substituída ou decrescera a importância econômica. A agroindústria representa a forma mais antiga de verticalização da cadeia produtiva do café, pois sempre foi efetuada por muitos agentes econômicos. A característica principal desta 7 verticalização, é a independência e ausência de articulação entre os segmentos à montante e a jusante da produção de matéria prima. Os agentes apropriam-se dos resultados do avanço do progresso técnico, gerado por entidades públicas e privadas, sem compromisso de difusão das inovações para a melhoria da qualidade do produto. 4.1.2 – Cooperativas com torrefadoras de café As cooperativas com unidades torrefadoras representam a forma mais recente de verticalização da cadeia produtiva do café e, sua gênese é decorrente do processo de agroindustrialização que ocorreu na agricultura. A característica principal da verticalização pelas cooperativas é a concentração em um segmento da cadeia que efetua as operações de secagem, beneficiamento, torrefação e moagem. A torrefadora é uma unidade de transformação do café da cooperativa e os benefícios gerados com as transações comerciais do café torrado é capitalizado nas cotas dos associados. Este procedimento da cooperativa constitui-se numa estratégia gerencial para viabilizar o custeio da estrutura administrativa que está a serviço dos associados. Em 1994 a COROL e a COCAMAR participaram ativamente na implantação do Plano Integrado da Cafeicultura, através da produção de mudas e da assistência técnica para implantação do novo modelo tecnológico de produção de café adensado (Androcioli et al 1997). A partir daí a cafeicultura teve impulso significativo, atraindo produtores que já exploravam a cultura no sistema tradicional, inclusive dispondo de infraestrutura física (terreiro e tulha) depreciados, até produtores com outras culturas. O maior rendimento físico de café adensado por área, em relação aos demais sistemas de plantio, associado à melhoria da qualidade do produto, despertou entre os produtores a necessidade de redimencionar a forma de secagem dos grãos de café. A primeira foi efetuada com telas suspensas nas unidades produtivas e, a segunda com a adaptação dos secadores de 8 grãos da cooperativa, constituindo-se em mais uma operação do processo produtivo verticalizada a jusante. No ano de 1997, quando as condições pluviométricas foram normais, verificou-se que 90% do café recebido pela cooperativa foi de bebida dura e 10% de outras bebidas (5 tipos); enquanto que em 1998, ocorreu excesso de chuva no período de colheita e foram constatados 26 tipos de bebidas (COROL,1999). A cooperativa recebe dos produtores associados o café em coco ou beneficiado, sendo que a primeira é a forma predominante (80%). A segunda, é mais freqüente entre os agricultores com maior escala de produção que beneficiam o café através de máquinas próprias ou pelos prestadores de serviços ambulantes que se deslocam até os estabelecimentos agrícolas com as beneficiadoras de pequeno porte. No relacionamento entre a entidade cooperativa e o produtor de café associado não se verificou nenhuma forma de contratualização sobre a padronização e a obrigatoriedade da entrega da produção. A cooperativa classifica o produto levando-se em consideração os grãos inteiros e os quebrados (escolha), pois o valor de mercado destes correspondem a 70% dos grãos inteiros, diferentemente do que normalmente ocorre nas transações no mercado aberto. O procedimento fidedigno das cooperativas na comercialização e na difusão de técnicas para a condução da atividade está refletindo no crescente aumento da quantidade recebida de café. As unidades torrefadoras das cooperativas absorvem 20% da quantidade de café entregue pelos associados e os 80% restantes são destinados ao mercado. Esta aparente disfunção pelo não uso do café dos associados está associada: ao diferencial de preços praticados no mercado onde o produto de melhor qualidade é mais valorizado; as torrefadoras utilizam produtos de menor qualidade para formação de “blends” que são competitivos via preços no mercado ; e também adquirem produtos nos leilões realizados pelo governo federal. 4.2. Reestruturação da atividade cafeeira 9 No Paraná entre 1960 e 1996 a atividade cafeeira passou por processo de reestruturação no número de produtores, na área cultivada e no sistema de plantio. Segundo IBGE, no referido período o número de estabelecimentos de café reduziu de 89.247 para 25.787; a área cultivada de 1.548.083 para 141.156 ha, respectivamente. Esta última área, subdividia-se em 112.680 ha no sistema de plantio tradicional; 7.579 ha no sistema de dobra e; 20.897 ha no sistema adensado (SEAB/ DERAL, 1998). Em 1995/96 a cultura do café estava distribuída espacialmente nos mesmos municípios que foram implantadas no passado e que elevaram o Estado por um período determinado a ser o principal produtor de café do Brasil. Este movimento do retorno da concentração de informantes e de área com café está diretamente associado com a implantação do modelo tecnológico de plantio de café no sistema adensado, nos anos 90. As bases de sustentação do modelo de plantio de café adensado são a diversificação agrícola integrada, conservação e melhoria dos recursos naturais, racionalização do trabalho e menor uso de capital (IAPAR, 1991). O cultivo de café no sistema adensado concentra o uso de mão-de-obra no período de colheita, comparativamente ao sistema tradicional. Neste sentido, a reestruturação na cafeicultura com o sistema adensado, assemelha-se ao que ocorreu com o avanço das inovações nas lavouras temporárias, isto é, suprimiu ou acentuou a sazonalidade da ocupação de mão-deobra, mas com possibilidades de expansão dos postos de trabalho em regime temporário (Laurenti 1996). Para isto, surgiu entre os associados da COROL uma forma de condomínio de mão-de-obra para contratação de trabalhadores rurais para colheita de produtos integrados ao processamento na cooperativa, inclusive servindo os produtores de café. Os produtores de café estão aderindo de forma amena à contratação de mão-de-obra da referida organização, principalmente porque ainda persiste alguns pontos que são flexíveis na exploração cafeeira: a produção de café não está contratualizada para entrega na cooperativa; a colheita pode ser 10 realizada por um período mais longo; não está definido que tipo de café os produtores terão que produzir e serem remunerados pela qualidade; tamanho das áreas de lavoura de café são condizentes com a disponibilidade de mão-de-obra da família e dos recursos para contratação de trabalhadores na vizinhança; precariedade na divulgação da legislação trabalhista e sensibilização dos produtores sobre as obrigações sociais; a cooperativa adquire café para a torrefadora onde o preço é mais competitivo para atender a demanda de cafés no mercado, via preço. O sistema de plantio adensado até 1994 restringia-se a alguns produtores que detinham maior dotação de recursos econômicos para sua implantação e uma pauta diversificada de produtos de renda na unidade produtiva. 4.3. Valor adicionado Os grupos de agentes envolvidos com a comercialização de café no mercado, associado à forma em que se apresenta o produto, são os seguintes: 1) produtor-maquinista-torrefadora, onde o café em coco e/ou beneficiado é comercializado entre os três agentes e, posteriormente com as indústrias de café solúvel e cooperativas que possuem unidade de torrefação ou, ainda exportados; 2) produtor-torrefadora, em que o café em coco e/ou beneficiado é comercializado entre os dois agentes econômicos e, a torrefadora efetuará o processamento da matéria prima e venda para o consumidor final; 3) produtor-cooperativa com torrefação, onde esta entidade compra e efetua o processamento do café dos produtores associados ou não, para complementar a capacidade instalada de processamento da unidade industrial; e, 4) produtor-cooperativa de comercialização, onde esta entidade recebe o produto do agricultor associado, comercializandoo em coco ou beneficiado no mercado, Tabela 1. Entre os agentes econômicos maquinista, torrefadora e cooperativa existe disparidade na operacionalização, abrangência territorial de transação e no tipo de produto que é ofertado no 11 mercado. Isto propicia desigualdades nos níveis de agregação de valor ao produto, dado que alguns só operam com o café beneficiado, enquanto que outros, também, efetuam a torrefação. O grupos de agentes econômicos que agregam maior valor por unidade de produto café beneficiado são aqueles onde estão as unidades torrefadoras, dentro e fora do sistema cooperativo, representados pelos grupos 2 e 3 (R$2,26/kg de café beneficiado), Gráfico 1. Este montante de adição de valor está distribuído desigualmente entre os agentes, pois enquanto o segmento do produtor agregou R$0,99/kg de café beneficiado, o da torrefadora apresentou o montante de R$1,27/kg. Tabela 1. Valor adicionado (R$/Kg de café beneficiado) segundo os grupos de agentes econômicos da cadeia produtiva do café no Paraná, 1999. Grupos de agentes Variáveis econômicos Valor adicionado (R$/Kg) 1- produtor-maquinista-torrefadora (B - A) + (C – (B + G)) + (E – (C+ D)) 2,20 2- produtor-torrefadora (B - A) + (E – (B + D)) 2,26 3- produtor-cooperativa (torrefadora) (B - A) + (E – (B + D)) 2,26 4-produtor-cooperativa (comercialização) (B - A) + (F – (B + H)) 1,38 Fonte: Dados da pesquisa A = consumo intermediário (R$1,01/kg de café beneficiado) do produtor de café na unidade produtiva. B = preço recebido (R$2,00/kg de café beneficiado) pelo produtor que comercializou com o maquinista, torrefadora e cooperativa. C = preço recebido (R$2,20/kg de café beneficiado) pelo maquinista que comercializou com a torrefadora. D = Consumo intermediário (R$0,21/kg de café beneficiado) na unidade torrefadora. E = preço recebido (R$3,48/kg de café beneficiado) pela torrefadora que comercializou o café torrado/moído no varejo. F = preço recebido (R$2,50/kg de café beneficiado) pela cooperativa que comercializou o café beneficiado do produtor. G = consumo intermediário (R$0,06/kg de café beneficiado) na máquina de benefício de café em coco. H = consumo intermediário (R$0,11/kg de café beneficiado) na cooperativa (benefIciar, armazenar e comercializar). 12 Os segmentos que representam o grupo 1 (produtor-maquinista-torrefadora) de agentes econômicos agregaram R$2,20/kg de café beneficiado. Neste, existe grande disparidade entre os agentes, haja visto que estão presentes os segmentos do produtor (R$0,99/kg), do maquinista (R$0,14/kg) e da torrefadora (R$1,07/kg). Cabe destacar que os segmentos à jusante (maquinista e torrefadora) representam mais da metade do valor adicionado, com destaque para a torrefadora (R$1,07/kg). Através destas evidências fica patente a necessidade do produtor de café efetuar o beneficiamento do café na unidade de produção, pois sómente com tal operação o maquinista agregou R$0,14/kg. O grupo 4 (produtor-cooperativa de comercialização) consiste naquele que agregou o menor valor (R$1,38/kg de café beneficiado). Apesar disto, a vantagem para o produtor, do grupo 4 em relação ao 1 e 2, é a de que a parte da cooperativa constitui numa extensão da sua unidade de produção. A agregação de valor realizada pela entidade cooperativa retorna aos agricultores associados através de benefícios decorrentes da organização da produção, quer seja através da infra estrutura voltada à atividade que o mesmo já vem desenvolvendo ou ainda pelas possibilidades de outras que estão sendo expandidas no âmbito da entidade. A supremacia de 13 agregação de valor nos grupos 2 e 3, com a presença da unidade torrefadora, reafirma a viabilização destas unidades dentro do sistema cooperativo. Tais resultados positivos tem contribuído na manutenção da infra estrutura administrativa e também na expansão de outras atividades de prestação de serviços em prol do quadro de associados. Por outro lado, quando se analisa parte do grupo 1, onde está presente o produtor-maquinista, verificou-se o menor valor adicionado em relação aos demais agentes, reafirmando a inviabilização desta antiga forma de transação, ou seja, quase que necessariamente o produto tinha que ser comercializado com os maquinistas. Este movimento decrescente da presença dos maquinistas como agente econômico da cadeia produtiva do café é , ainda, decorrente da: expansão do sistema cooperativo que está verticalizando em um único agente o recebimento, beneficiamento, torrefação e moagem; comercialização do produto café na bolsa de mercadorias; expansão das associações de produtores que beneficiam o produto; prestação de serviços realizada por autônomos com máquinas de benefício que se deslocam até os locais de produção; baixa capacidade de disponibilização de capital de giro para aquisição do produto junto aos agricultores e; dos custos fixos da maquinaria e das instalações juntamente com os impostos e taxas a serem pagos por estarem localizados no perímetro urbano. 5- Conclusão A competitividade da cadeia produtiva do café no Paraná está associada à duas formas de verticalização da produção: a primeira, é a mais antiga e é composta de muitos agentes econômicos (maquinista e torrefadora), cuja característica relevante é a independência entre os segmentos, inclusive não existindo nenhuma forma de contratualização, entre o produtor de café com os segmentos à jusante; a segunda, a mais recente é a entidade cooperativa que verticaliza a secagem, beneficiamento, armazenamento, torrefação e moagem de café em apenas um agente econômico. A característica principal é de ser uma extensão da unidade produtiva dos 14 associados, porque localiza-se à montante e a jusante. Para os produtores de café a cooperativa apresentou ampla vantagem competitiva entre os agentes econômicos que transacionam o produto, haja visto que o segmento cooperativo está sob sua gerência. As cooperativas dispenderam esforços para a difusão e expansão do sistema de cultivo de café adensado no Paraná, através da iniciativa de formação de mudas; assistência técnica; planejamento da unidade de produção; técnicas de colheita para melhoria da qualidade do café e a comercialização no mercado. A implantação do sistema de plantio adensado de café no Paraná foi efetuada em três períodos distintos: no primeiro, os agricultores que adotaram a tecnologia foram aqueles que eram dotados de recursos técnicos e econômicos; no segundo, atraiu outros agricultores que cultivavam diferentes culturas, incluindo-se os empresários urbanos que não tinham experiência com a atividade agrícola, mas que estavam diante de real condição de obtenção de retornos econômicos e; no terceiro, quando ocorreu a efetivação do plano de expansão da cafeicultura no sistema adensado, com recursos específicos e que os agricultores menos capitalizados ingressaram na atividade, principalmente aqueles que já tinham explorado a cultura. A inovação ocorreu na secagem dos grãos com o uso de terreiro de telas suspensa e, principalmente, o uso dos secadores da cooperativa que verticalizou mais uma fase do processo produtivo. O cultivo de café adensado concentra o uso de mão-de-obra na operação de colheita e dado o seu maior rendimento físico (kg/ha), proporciona a expansão de postos de trabalho em regime temporário. A possibilidade de expansão do uso de mão-de-obra do condomínio na lavoura de café associa-se à possibilidade de contratualização da produção para a entrega na cooperativa no período determinado, ao tipo de bebida especificado, a remuneração pela qualidade e à sensibilização dos produtores rurais para o cumprimento das obrigações sociais. 15 O valor adicionado (R$2,26/kg de café beneficiado) é maior onde existe a unidade torrefadora dentro e fora do sistema cooperativo, e está distribuído desigualmente entre o produtor (R$0,99) e a torrefadora (R$1,27). A cooperativa enquanto entidade representativa dos agricultores efetua a transação do produto café beneficiado e/ou torrado no mercado, seja ele procedente ou não dos associados. Esta transação no mercado gera recursos para a entidade para o custeio da estrutura administrativa como um todo, propiciando a inclusão e/ou expansão de opções de atividades e serviços aos associados. Portanto, o montante de valor adicionado da cooperativa irá retornar aos produtores de café e aos demais associados da entidade de forma indireta, ou seja na forma de prestação de serviços. Na cadeia produtiva do café a maior vantagem competitiva para os produtores de café comercializarem o seu produto no mercado é através da entidade cooperativa, pois o valor adicionado para este grupo de agentes foi de R$1,38/kg de café beneficiado, sendo que no processo de produção foi agregado (R$0,99) pelo produtor de matéria prima e pela entidade cooperativa (R$0,39). Neste caso, o valor adicionado é todo atribuído ao produtor, pois se utilizou da entidade cooperativa que está verticalizando a cadeia do café, sob a gerência dos produtores associados e, consequentemente se convertendo em importante segmento para a transação dos meios de produção e do café beneficiado e/ou torrado. 6 – Bibliografia ABIC. disponível = http://www.abic.com.br/pesquisa. (extraído em 05/03/99). Androcioli Filho, A. et al. Cadeia produtiva do café no Estado do Paraná. Londrina - Pr. 1997. IAPAR (Relatório não publicado). 16 Bialoskorski Neto, S. Cooperativismo: direitos de propriedade eficiência econômica, a nova geração de cooperativas no Canadá. In: XXXVI Congresso da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural, 1998. Anais...v.2. Poços de Caldas – MG. p. 745-753. Coradini, O. L. Produtores, cooperativismo empresarial e multinacionais: o caso do trigo e da soja. In: Agricultura, cooperativas e multinacionais. Rio de Janeiro. Zahar Ed., 1982. COROL. Departamento de Planejamento, 1999. Rolândia – Pr. Coutinho, L. & Ferraz, J. C. org. Estudo da competitividade da indústria brasileira. Campinas, 1993. UNICAMP/IE. 104 p. Farina, E.M.M.Q. & Saes, M.S.M. Os desafios do livre mercado. In: Competitividade: mercado, estado e organizações. São Paulo. Editora Singular, 1997. IAPAR. Modelo tecnológico para o café no Paraná. Londrina-Pr. 1991. IAPAR (Informe de Pesquisa, 97). 14 p. Laurenti, A. C. A terceirização na agricultura: a dissociação entre a propriedade e o uso dos instrumentos de trabalho na moderna produção agrícola paranaense. Campinas. Tese de Doutorado. IE/UNICAMP. 1996. 245 p. Medeiros, N. H. A competição Schumpeteriana e a organização cooperativa: o caso da COCAMAR. São Paulo, 1995. Tese de Doutorado. USP/FEA. 235 p. Panzutti, R. Especificidades da empresa cooperativa agrícola: estratégia de financiamento. Agricultura em São Paulo. SP, 44 (1): 75-118, 1997. Saes, M. S. M. & Giordano, S. R. O café: um agribusiness brasileiro. 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