Rev. Bras. Fisiot. V oi. I, No. I (1996) 29-3 7 ©Associação Brasileira de Fisioterapia 29 Bota de Polipropileno vs. Tutor Longo: Estudo Comparativo da Velocidade da Marcha, Consumo e Gasto de Energia em Pacientes Paraplégicos - Estudo de Caso Rui Moreira da Costa Filho Departamento de Fisioterapia, Universidade Estadual de Londrina - UEL Recebimento: 8.2.96; Aceitação: 1.3.96 Resumo. Desenvolvemos uma nova órtese para membros inferiores de pacientes portadores de paraplegia baixa ou monoplegia. O objetivo foi reduzir o peso, facilitar sua colocação e retirada e melhorar a marcha e a estética, bem como, devido a seu baixo custo operacional, viabilizar sua aquisição por um número maior de pacientes. Na ORLAU, Inglaterra, avaliamos a bota de polipropileno em um paciente paraplégico, nível T 12• com 40 anos de idade e totalmente independente. · Após a confecção da bota de polipropileno, o paciente foi levado ao laboratório de marcha com o objetivo de se analisar a posição correta do vetor de reação do solo para posterior colocação do mata-borrão sob o calçado. Em seguida, o paciente passou por um período de treinamento de três meses. Logo após, foram analisados e comparados a velocidade de marcha, o consumo e o gasto de energia para cada um dois sistemas, ou seja, a bota de polipropileno e o tutor longo convencional. O estudo da velocidade da marcha demonstrou que quando o paciente deambulou com a bota de polipropileno sua velocidade foi menor que com o sistema convencional, principalmente quando o paciente deambulou com a marcha pendular. O estudo do consumo de energia demonstrou que quando o paciente deambulou com a bota de polipropileno este foi menor que com o sistema convencional. Dessa forma, podemos dizer que a bota de polipropileno é fisiologicamente melhor que o sistema convencional, isto é, o paciente consegue suportar mais tempo deambulando com esse sistema. O estudo do gasto de energia, por sua vez, demonstrou que quando o paciente deambulou com a bota de polipropileno, este foi maior que com o sistema convencional. Palavras-chave: órteses, paraplegia Abstract. A new orthosis for the lower limbs of patients affected by lower paraplegia o r monoplegia was developed. The goal was to reduce the weight ofthe device, facilitate its placement and remova!, and improve its esthetics, as well as improve the patients' gait. Furtherrnore, its low operational cost should make it possible for a larger number ofpatients to acquire it. We evaluated the use ofthe polypropylene boot on a totally independent, forty year-old T12 levei paraplegic patient. After the placement o f the boot, the patient was taken to the gait laboratory to analyze the correct position of the ground reaction vector for !ater placement ofthe compensation sole under the boot. Then the patient went through a three month training period. Soon afterwards, the gait velocity and the consumption and expenditure of energy for each o f the two systems were analyzed, that is for the polypropylene boot and for the conventionallong tutor. The gait velocity study showed that when the patient walked with the polypropylene boot his velocity was less than that with the conventional system, especially when the patient walked with a pendular gait. The energy studies demonstrated that the use ofthe boot reduced the energy consumption. As such, it can be said that the polypropylene boot is physiologically better than the conventional system, that is, the patient is able to walk for a greater period of time with this new system. The energy studies also demonstrated that when the patient walked with the polypropylene boot the expenditure of energy was greater than with the conventional system. Keywords: orthosis, paraplegia 30 Costa Filho Introdução Os pacientes portadores de paraplegia representam um problema complexo. As incapacidades devido à perda do controle vesical e intestinal, da sensibilidade e da motricidade levam o indivíduo a um quadro depressivo importante e a inúmeras infecções, sejam localizadas (escaras) ou generalizadas (septicemias). Embora conscientes da grande importância das medidas profiláticas e terapêuticas a serem observadas com o objetivo de evitar grandes complicações, esses indivíduos mantêm, acima de tudo, o desejo de andar. Porém, o sucesso da marcha depende de fatores importantes como o nível e o grau da lesão neurológica e a motivação desses indivíduos 21 . A órtese é um aparelho usado externamente ao corpo de um indivíduo deficiente fisico com a finalidade de suportar o peso, controlar os movimentos involuntários, prevenir e corrigir deformidades 24 . As órteses utilizadas na reabilitação de paraplégicos são com freqüência pesadas, desconfortáveis, difíceis de serem colocadas e retiradas e necessitam de constantes reparos 23 . Uma inobservância dos princípios mecânicos envolvidos na confecção das órteses, bem como o desconhecimento dos princípios básicos da marcha do paraplégico, provocaram o abandono destas e o confinamento em cadeira de rodas 9• 18 ~ 20 • 22 . Inúmeros beneficios para o ortostatismo e a deambulação têm sido relatados em pacientes com lesão medular: aumento da circulação dos membros inferiores, diminuição do risco de deformidades e de fraturas, melhora da função intestinal e da drenagem vesical, estimulação do sistema cárdio-pulmonar e prevenção do ganho de peso, bem como da úlcera de decúbito, uma complicação na vida em cadeira de rodas4 •14 •19 . Na paraplegia completa, encontramos basicamente dois tipos de marcha: a marcha pendular (2 ou 3 pontos) e a marcha recíproca (4 pontos). Butler et ai. 3, observaram que a redução da excursão vertical do centro de massa na marcha de 4 pontos teoricamente facilitaria a marcha. Na marcha recíproca, em que o membro inferior suporta alternadamente o peso do corpo é fundamental: elevação suficiente do pé durante a fase de oscilação do membro para a frente, enquanto o outro continua suportando o peso; deslocamento do membro inferior para a frente durante a fase de oscilação; deslocamento do tronco para a frente sobre o membro de apoio. Diversos autores mediram o gasto energético durante a marcha dos paraplégicos 5•6•10- 13 •15 - 17 •19 , mas a importância da medida do gasto energético durante a marcha com órtese foi ressaltada por Gordon e Vanderwalde 8 que analisaram a mar-· cha pendular (2 ou 3 pontos) em paraplégicos, com aparelhos tutores longos convencionais e auxílio de muletas, e verificaram que o gasto de energia era cinco a seis vezes maior que a taxa basal requerida para uma marcha normal. Nene e Patrick 16 compararam paraplégicos adultos que utilizavam o ParaWalker com a march~ normal 2 . Os resultados demonstraram que o gasto metabólico dos pacientes com ParaWalker era 4,9 vezes maior que o normal, a uma velocidade de 15,5% da marcha normal. Rev. Bras. Fisiot. O alto gasto energético e o esforço desenvolvido durante a marcha são os principais responsáveis pelo fracasso da deambulação do paraplégico 8 •9•12 •25 . O uso da estimulação elétrica associada à órtese mecânica (sistema híbrido) reduz o gasto energético dos pacientes, e aumenta a velocidade da marcha 1•7. Objetivo do Trabalho Motivados pelos problemas e dúvidas revelados pela análise dos trabalhos já publicados com relação aos tipos de órteses existentes para membros inferiores de paraplégicos- assim como pelas queixas dos pacientes relacionadas ao peso, às dificuldades na colocação e retirada das órteses e na marcha e também ao aspecto estético desses aparelhos-, propusemo-nos a desenvolver um novo modelo de órtese. Esse novo modelo visa solucionar os problemas de peso, colocação, retirada, marcha e estética, bem como minimizar seu custo de produção, facilitando dessa forma sua aquisição por um número maior de pacientes. Para isso, analisamos a óstese quanto à velocidade da marcha e ao consumo e ao gasto de energia, buscando-se comparar a nova órtese com o sistema convencional (tutor longo). Material e Método Levantamento dos prontuários no Midland Spinal lnjury Centre - Robert Jones & Agnes Hunt Orthopaedic Hospital - Oswestry, Inglaterra Foram levantados 20 prontuários de pacientes portadores de paraplegia baixa de causa traumática. Esses pacientes foram contatados por telefone, e nesse mesmo momento foi explicado o objetivo do trabalho. Desses 20 pacientes, somente dez compareceram à ORLAU (Orthotic Research & Locomotor Assessment Unit) para avaliação. Antes da avaliação, foi mostrado um filme sobre a nova órtese, e explicado ao paciente todo o mecanismo envolvido nesse novo sistema. Terminada a sessão, alguns pacientes recusaram-se a participar do projeto, uma vez que seria longo o tempo de treinamento e reeducação. Além do mais, a maioria dos pacientes morava distante do hospital. Avaliação dos pacientes segundo protocolo Os pacientes que concordaram em participar do projeto passaram por uma rigorosa avaliação clínica. Nessa ocasião foram observados principalmente a amplitude dos movimentos articulares, a força muscular dos membros superiores, a presençà de deformidades e ou contraturas, o grau de independência e, principalmente, o tipo de locomoção e da órtese que o paciente utilizava. Após essa avaliação, apenas um paciente pôde comparecer à ORLAU para o projeto. Esse paciente tinha 40 anos de idade, apresentava uma paraplegia completa nível T 1rL 1 de causa traumática há 14 anos, deambulava com o tutor longo bilateral e muletas. Estava completamente reabilitado e não apre- Vol. I, No. I, 1996 Bota de Polipropileno vs. Tutor Longo sentava sintomas nem sinais clínicos de problemas relacionados ao sistema cardiorespiratório. Concluída a avaliação, o paciente foi convidado a retomar à ORLAU para confecção da bota de gesso. 31 riormente à articulação do joelho e à articulação do quadril, fazendo com que o quadril seja empurrado para trás e o paciente não consiga manter essa articulação em extensão (Fig. 3). Confecção da bota em polipropileno Confecção das botas de gesso Moldagem da bota, acabamento e secagem Devido à possibilidade dos paraplégicos apresentarem um encurtamento do tendão de Aquiles, a bota foi confeccionada com 90 graus na altura do tornozelo. Visualização do vetor de reação do solo no paciente utilizando a bota de gesso No laboratório de marcha da ORLAU, o indivíduo foi orientado a permanecer em pé entre as barras paralelas, na passarela do laboratório. Quando solicitado, o indivíduo ficava sobre uma plataforma de força (Kistler 9261 B) montada no centro da passarela e a visualização do vetor de reação do solo era feita em um monitor de vídeo através de uma linha. Quando essa linha situava-se um pouco à frente da articulação do joelho e atrás da articulação do quadril, um mata-borrão era colocado sob a bota gessada do paciente, com a finalidade de manter essa linha na posição citada (Fig. I). O posicionamento do mata-borrão é de suma importância, pois se estiver localizado atrás do ponto de estabilização o vetor (linha de força de reação do solo) passará posteriormente ou no centro da articulação do joelho e da articulação do quadril, fazendo com que o joelho seja empurrado para frente, flexionando essa articulação. Por outro lado, se o mata-borrão for fixado à frente do ponto de estabilização, o vetor passará ante- Após os testes com a bota gessada foi confeccionada a bota em polipropileno. (Fig. 4) Confecção do sapato para utilizar junto com a bota de polipropileno Uma bota em lona e solado de borracha, conforme o tamanho do pé do paciente, foi confeccionada com a finalidade Figura 4. A: vista anterior da boda de polipropileno; 8: vista lateral da bota de polipropileno. Figura l. Posição correta da linha de força de reação do solo, passando à frente do joelho e atrás do quadril. Observe a retirada dos membros superiores das barras paralelas. Posição estável. Figura 2. Linha de força de reação do solo passando no meio da articulação do joelho. Posição instável. Figura 3. Linha de força de reação do solo passando à frente da articulação do quadril, impedindo a extensão desta articulação; posição instável. 3Z Costa Filho de fixar omata-borrão de 1-1,5 em de altura, logo após a visualização da posição correta do vetor de r~ação do solo (Fig. 5). Visualização do vetor de reação do solo no paciente utilizando a bota de polipropileno Nesta fase foram executados os mesmos procedimentos utilizados para as botas de gesso, apenas com uma diferença: aqui o paciente utilizou a bota de polipropileno com um sapato confeccionado para essa nova órtese (Figs. 1, 2 e 3). Treinamento do paciente com as botas de polipropileno O paciente foi treinado inicialmente nas barras paralelas, buscando-se obter um equilíbrio estático e um controle sobre a nova órtese. Foram realizados os seguintes exercícios: 1. Com os membros superiores apoiados nas barras paralelas, o paciente controlava o quadril e o joelho em extensão. 2. Retirada de um membro superior de cada vez das barras paralelas. 3. Retirada dos dois membros superiores ao mesmo tempo das barras paralelas. 4. Com os membros superiores apoiados nas barras paralelas, colocava-se um membro inferior inicialmente para frente e posteriormente para trás, deslocando o peso do corpo para esse membro- sempre travando primeiro o joelho por meio da hiperextensão do quadril. 5. Transferir para frente um membro superior e depois um membro inferior contralateral e deslocar o peso do corpo para esse membro, sempre travando primeiro o joelho pela hiperextensão do quadril, do lado que está com a bota de polipropileno. 6. Transferir para trás um membro superior e depois um membro inferior do mesmo lado e deslocar o peso do corpo para esse membro, sempre travando primeiro o joelho pela hiperextensão do quadril. 7. Treinamento de marcha. Sempre se utilizou a marcha de quatro pontos (marcha recíproca), para frente, para trás e Figura 5. A: vista lateral em lona; B: vista inferior da bota em lona, mostrando a posição do mata-borrão. Rev. Bras. Fisiot. para os lados. Nesta fase é importante verificar se o paciente não está puxando as barras paralelas para cima, pois isso dificultará o treino de marcha com muletas, uma vez que estas não são fixas no solo. 8. Treinamento de equilíbrio com muletas. Esta fase foi as barras paralelas, pois o paciente se sente mais seentre feita foi o mesmo utilizado com as barras paprocedimento O guro. uma muleta para frente e volta, transfere seja, ou ralelas, com os membros inferiores mesmo o volta, transfere a outra e de um lado com o superior membro o e depois dissociando contralateral. inferior membro 9. Treinamento de marcha com muletas (marcha recíproO ca). paciente deve hiperextender o quadril após o contato do pé com o solo, a fim de bloquear o joelho em extensão. O treinamento foi iniciado entre barras paralelas, passando posteriormente para superficies planas e regulares e posteriormente para superficies como grama, asfalto e meio-fio. Testes no laboratório de marcha Equipamento utilizado Bota em polipropileno: esta é uma órtese que capacita o indivíduo a deambular reciprocamente com o uso de muletas. A bota consiste de duas partes: anterior e posterior, mantidas juntas por meio de quatro correias de couro com velcro. A parte anterior alcança a parte inferior da coxa (um pouco acima da patela), com a finalidade de garantir a extensão do joelho durante a fase de apoio do membro. A parte posterior termina um pouco abai~o da articulação do joelho, de forma a permitir alguns graus de flexão do joelho durante a fase de oscilação do membro. Oxylog: é um instrumento utilizado para medir o consumo de oxigênio de um indivíduo durante a marcha. Quando em uso, a máscara do Oxylog é ajustada para o paciente. A máscara possui válvula inspiratória e um medidor de ar circulante para medir o volume inspiratório. O ar expirado é canalizado através de um cano flexível para o instrumento principal. O Oxylog mede a diferença entre a pressão parcial de oxigênio (POz) no ar inspirado e no ar expirado. O volume de oxigênio utilizado é calculado e mostrado como um volume acumulativo total para o período do teste e volume minuto (VOz min.). Medida de velocidade da marcha, consumo e gasto de energia: quando o ·paciente chegava à unidade com seu tutor longo bilateral, era verificado seu peso total. O mesmo era feito quando o paciente estava utilizando a bota de polipropileno na esquerda e o tutor longo na direita. Todas as medidas foram feitas em três sessões no mesmo dia. Com o Oxylog calibrado, a máscara foi ajustada individualmente. As leituras do volume minuto (VOz min) foram tomadas por dez min consecutivos, enquanto o paciente descansava em sua cadeira de rodas. Após verificarmos o volume de repouso, slicitou-se ao paciente que ficasse de pé e deambulasse com marcha de dois pontos com seu tutor longo bilateral e muletas, Bota de Polipropileno vs. Tutor Longo V oi. I, No. I, 1996 33 Figura 6. A: medida do consumo de energia em repouso, com uso de Oxylog; B: medida da velocidade de marcha, consumo e gasto de energia, paciente com tutor longo bilatearl; C: medida da velocidade de marcha, consumo e gasto de energia, paciente com a bota de polipropileno à esquerda e tutor longo à direita. conforme sua velocidade de marcha preferida, ao longo de um caminho de 25 metros de comprimento, em forma de '8', marcado no solo com bolas amarelas. o vo2 min e a distância foram registrados por seis min consecutivos, porque o paciente demorava um certo tempo para alcançar um estado constante, fato esse bem evidenciado nas leituras. Foram desprezadas as duas leituras iniciais devido às variações ocorridas até atingir um equilíbrio, o que ocorreu com as quatro leituras subseqüentes. Imediatamente após o exercício, o paciente era colocado sentado e instruído a relaxar. Uma segunda sessão do teste era iniciada somente 30 min após a primeira. Nessa ocasião, a deambulação ao longo do mesmo trajeto foi realizada com o auxílio de um tutor longo bilateral, muletas e com marcha de quatro pontos a uma velocidade constante. Foram repetidas as mesmas medidas anteriores. Na terceira sessão do teste, também iniciada no mínimo após 30 min após a segunda sessão. o paciente deambulou com a bota de polipropileno do lado esquerdo e tutor longo do lado direito junto com as muletas, com uma marcha de quatro pontos a uma velocidade constante, no mesmo percurso. Também aqui as medidas foram feitas da mesma forma que as da primeira e da segunda sessões. Cálculo da velocidade da marcha, consumo e gasto de energia: para obtermos os valores da velocidade da marcha, consumo e gasto de energia, utilizamos as fórmulas abaixo: Velocidade da marcha d Vm=t onde d = distância percorrida em 6 min e t = tempo utilizado. Consumo de energia Ce = vo2 min de deambulação (mL min) XK Massa (kg) x 60 s Gasto de Energia Ge = vo2 min de deambulação (mL min) XK Velocidade (m I min) x massa (kg) onde K = 20,19 (constante) desde que: 1 mL 0 2 = 4.285 cal e 1 cal= 4.184 J Na ocasião do teste, o paciente estava independente, conseguia deambular aproximadamente 400 metros, utilizando uma bota de polipropileno no membro inferior esquerdo e um tutor longo no membro inferior direito com muletas. Durante os testes, não manifestou nenhum sintoma ou sinal de patologia relacionado a sua função cardio-respiratória. Resultados Velocidade da marcha O total de distância percorrida em 6 min variou de 57,3 m a 60,7 m quando o paciente foi analisado com tutor longo à direita, bota de polipropileno à esquerda, marcha recíproca (quatro pontos) e auxílio de muletas. A variação da distância quando o paciente foi analisado com tutor longo bilateral, marcha recíproca (quatro pontos) e auxílio de muletas foi de 88,7 m a 89 m. Quando o paciente deambulou com tutor longo bilateral, marcha pendular (2 pontos) e auxílio de muletas a distância variou entre 192m e 250m. (Gráfico 1) A média de velocidade da marcha com tutor longo à direita, bota de polipropileno à esquerda, marcha recíproca (quatro pontos) e auxílio de muletas foi de 9,62 m/min (0,162 m/s). A média da velocidade da marcha com tutor longo bilateral, marcha recíproca (quatro pontos) e auxílio de muletas foi de 14,50 m/min (0,24 m/s). Quando o paciente deambulou com tutor longo bilateral, marcha pendular (dois pontos) e auxílio de muletas, a média de velocidade de marcha foi de 34,45 m/min (0,576 m/s). Rev. Bras. Fisiot. Costa Filho 34 250r---------------------------------~--~ Bota Tutor (4 ptos.) Média dos três testes Tutor (2 ptos.) Gráfico 1. Bota de polipropileno vs. tutor longo. Comparação da distância percorrida em 6 min. Podemos observar que essa medida foi 1,5 vezes menor quando o paciente foi testado com tutor longo à direita, bota de polipropileno à esquerda, marcha recíproca e auxílio de muletas em comparação com o tutor longo bilateral, marcha recíproca e auxílio de muletas, e essa medida foi 3,6 vezes menor em comparação com o tutor longo bilateral, marcha pendular e auxílio de muletas (Gráfico 2, Tabela 1). Com o tutor bilateral, marcha pendular e auxílio de muletas, foi de 4,67 J/kg/s (Gráfico 3, Tabela 1). Podemos observar que o consumo de energia durante a deambulação foi três vezes maior quando o paciente foi testado com tutor longo à direita, bota de polipropileno à esquerda, marcha recíproca e auxílio de muletas. Esse consumo foi 3,8 vezes maior quando o paciente foi testado com tutor longo bilateral, marcha recíproca e auxílio de muletas, e 5,5 vezes superior no paciente testado com tutor longo bilateral, marcha pendular e auxílio de muletas, quando comparados com o consumo de energia de repouso (Tabela 2). Gasto de energia A média do gasto de energia na deambulação com tutor longo à direita, bota de polipropileno à esquerda, marcha recíproca e auxílio de muletas foi de 16,21 J/kg/m; com o tutor longo bilateral, marcha recíproca e auxílio de muletas, foi de 13,55 J/kg/m, mas utilizando o tutor longo bilateral, marcha pendular e auxílio de muletas, foi de 8,27 J/kg/m (Gráfico 4, Tabela 1). Tabela 2. Consumo de energia de repouso (0.861 J/Kg/s). Consumo de energia O consumo de energia de repouso foi de 0,861 J/kg/s. O consumo de energia durante a deambulação com tutor longo à direita, bota de polipropileno à esquerda, marcha recíproca e auxílio de muletas foi de 2,59 J/kg/s. Com o tutor longo bilateral, marcha recíproca e auxílio de muletas, foi de 3,27 J/kg/s. Tutor longo (D) +Bota (E) (Marcha recíproca) 3 vezes maior Tutor longo bilateral (Marcha recíproca) Tutor longo bilateral (Marcha pendular) 3,8 vezes maior 5,5 vezes maior 4or-----------------------------------, 3sr-------------------------~======~ 3or--------------------------zsr----------------------------- 2or---------------------------Isr--------------10 5 o Tutor (2 ptos.) Bota Bota Média dos três testes Tutor (4 ptos.) Tutor (2 ptos.) Média dos três testes Gráfico 2. Bota de propileno vs. tutor longo. Comparação das velocidades de marcha. Gráfico 3. Bota de propileno vs. tutor longo. Comparação dos consumos de energia entre os dois sistemas. 20r-----------------------------------~ Tabela 1. Comparação entre velocidade de marcha, consumo e gasto de energia. Velocidade da marcha Consumo de energia Gasto de energia Tutor longo à D + Bota de Polipropileno à E (marcha recíproca) 0,160 m/s 9,62 m/min 2,59 J/kg/s 16,21 J/kg/m Tutor longo bilateral (marcha recíproca) 0,24 m/s 14,50 m/min 3,27 J/kg/s 13,55 J/kg/m Tutor longo bilateral (marcha pendular) 0,576 m/s 34,45 m/min 4,67 J/kg/s 8,27 J/kg/m E g Bota Tutor (4 ptos.) Tutor (2 ptos.) Média dos três testes Gráfico 4. Bota de propileno vs. tutor longo. Comparação dos gastos de energia entre os dois sistemas. Voi. I, No. I, 1996 Bota de Polipropileno vs. Tutor Longo Podemos observar que o gasto de energia foi 1,2 vezes maior quando o paciente foi testado com tutor longo à direita, bota de polipropileno à esquerda, marcha recíproca e auxílio de muletas do que quando o mesmo ioi testado com tutor longo bilateral, marcha recíproca e auxílio de muletas, sendo duas vezes maior do que quando o paciente foi testado com tutor longo bilateral, marcha pendular e auxílio de muletas. Discussão Modelo experimental A esperança de ser 'capaz de andar' acreditando que exercícios o ajudarão a alcançar isso em breve, é logo perdida quando o paciente paraplégico se defronta com a realidade da vida diária, imediatamente após a alta do ventro de reabilitação21. Existe um nível de lesão na paraplegia acima do qual nenhum paciente deveria esperar ser capaz de andar? Existe um nível de lesão abaixo do qual todos os pacientes seriam capazes de andar, e se existe, qual seria o tipo de aparelho? 23 . Em nosso trabalho, selecionamos pacientes paraplégicos com lesões medulares baixas (abaixo de T 12) por serem estes capazes de controlar melhor a pelve e deambular com aparelhos convencionais (tutores longos). Quanto ao nível de lesão, concordamos com Stauffer et a!. 23 , que revisaram pacientes no Rancho Los Amigos, Califórnia, e concluíram que somente pacientes portadores de lesão T12 para baixo- ou com lesões incompletas, mas com alguma sensação e controle dos músculos dos membros inferiores -, eram capazes de deambular funcionalmente, utilizando os tutores longos. O critério que utilizamos para a escolha da faixa etária partiu da constatação de que a maioria dos paraplégicos em condições de treino de marcha estão entre 16 e 40 anos de idade. Segundo Andrews et a/. 1, a estabilização de um membro inferior sem atividade muscular, é possível se o vetor de força de reação do solo situar-se anteriormente ao eixo de articulação do joelho e posteriormente ao eixo de articulação do quadril. Com base nisso, utilizamos o sistema do mata-borrão sob o calçado, visando situar a linha do vetor na posição anteriormente citada. O desenvolvimento da órtese foi baseado nas queixas dos pacientes, que relataram que as órteses empregadas na reabilitação eram pesadas, desconfortáveis, difíceis de colocar e remover, necessitavam de reparos constantes. Resultados Uma avaliação da velocidade da marcha realizada em períodos pré-fixados demonstrou que a média da velocidade encontrada foi de 9,6 m/min, para o paciente que utilizou a bota de polipropileno à esquerda, o tutor longo à direita, marcharecíproca e auxílio de muletas. Quando comparamos esse resultado com o de Blessey2, que relatou uma média de velocidade da marcha de 82,0 m/min em indivíduos adultos normais, observamos que o paciente 35 com a bota de polipropileno à esquerda, tutor longo à direita, marcha recíproca e auxílio de muletas deambulou com uma velocidade correspondente a 11,7% da marcha normal. Quando comparamos os resultados de Blessey2 com a deambulação do paciente com tutor longo bilateral, marcha recíproca e auxílio de muletas, a média da velocidade da marcha foi de 14,5 m/min, ou seja, 17,7% da marcha normal. Porém, quando esse paciente deambulou com tutor longo bilateral, marcha pendular e auxílio de muletas, a média da velocidade da marcha foi de 34,4 m/min, ou seja, 41,9% da marcha normal. Nene e Patrick 16 , após compararem os resultados de Blessel na marcha de pacientes adultos utilizando o ParaWalker com muletas e marcha recíproca, encontraram que a média da velocidade foi de 15,5% em relação à marcha normal. Concluímos que a bota de polipropileno apresentou menor velocidade de marcha em relação a esses outros sistemas, devido a sua instabilidade. A análise dos testes do consumo e do gasto de energia demonstrou que o sistema (bota de polipropileno) é fisiologicamente melhor em relação ao sistema convencional (tutor longo), devido ao consumo de energia por minuto ser menor. Ainda assim, é menos eficiente que os sistemas convencionais, pois tem um maior gasto de energia em função da distância percorrida. Os primeiros estudos do consumo e do gasto de energia na locomoção do paciente paraplégico foram realizados por Gordon e Vanderwaldé. Relataram, no estudo de 11 pacientes portadores de paraplegia de diversas etiologias, que o gasto de energia foi pelo menos 3,5 vezes- freqüentemente de 5,5 a 8 vezes- maior, com uma média de 6 vezes maior que a taxa basal normal requerida e os pacientes foram incapazes de deambular períodos longos. Concluíram que os pacientes com lesões de nível torácico provavelmente seriam incapazes de deambular com aparelhos tutores. Clinkingbeard et al. 6 também chegaram a conclusões similares. Blessel estudou as necessidades de energia da marcha normal e relatou que o consumo de energia a uma velocidade de 82,0 m/min, foi de 4.355 J/kg/s e o gasto energético foi de 3,25 J/kg/m. Merkel et al. 12 relataram que o gasto de energia de seus pacientes com lesões torácicas médias e baixas foi 8 a 9 vezes superior ao da marcha normal enquanto para os indivíduos com lesões torácicas altas esse gasto foi 25 vezes maior. Nene e Patrick 16 estudaram os pacientes que utilizaram ParaWalker. Observaram que esses pacientes tinham um consumo de energia de 3,1 J/kg/s e um gasto de energia de 16 J/kg/ m. Os consumos de energia dos pacientes foram 3,45 vezes maiores que os níveis de repouso, a uma velocidade de 15,5% da marcha normal. Clinkingbeard et a!. 6 relataram em seus estudos que os níveis das lesões neurológicas mais inferiores requereram maior energia para a deambulação (por unidade de distância). Concluíram que o consumo de energia do paciente (por unidade de tempo) diminuiu com a diminuição da velocidade e que o gasto Costa Filho 36 de energia diminuiu também quando a duração do treinamento diminuiu. Nos testes realizados com o paciente deambulando com o tutor longo à direita, bota de polipropileno à esquerda, marcha recíproca e auxílio de muletas, encontramos um consumo de energia de 2,59 J/kg/s, um gasto de energia de 16,20 J/kg/s, com uma velocidade de 9,63 m/min. O consumo de energia foi 3 vezes maior que a taxa de repouso. Conclusões 1. Sendo um sistema instável, a bota de polipropileno apresenta maior gasto energético e menor velocidade da marcha, quando comparada ao sistema convencional (tutor longo). 2. A bota de polipropileno é um sistema individual viável, devendo ser empregada somente em pacientes paraplégicos com lesão baixa (T 12 ou abaixo) ou monoplégicos, sem contraturas ou deformidades em membros inferiores e com bom controle pélvico. 3. O tempo de tratamento necessário para que o paciente consiga deambular com bota é maior que o necessário para que o mesmo consiga deambular com tutor longo convencional. Além disso a marcha com a bota só pode ser feita de forma recíproca (quatro pontos). Referências Bibliográficas 1. ANDREWS, BJ; BAXENDALE, RH; BARNETT, R; PHILLIPS, GF; YAMAZAKI, T; PAUL, JP e FREEMAN, PA. Hybrid FES orthosis incorporating closed Joop contrai and sensory feedback. J. Biomed. Eng., 10: 189-95, 1988. 2. BLESSEY, R. Energy Cost of normal walking. Orthop. Clin. North America, 9: 356-358, 1978. 3. BUTLER, PB; MAJOR, RE; PATRICK, JH. The technique of reciproca! walking using the Hip Guidance Orthosis (HGO) with crutches. Prosthet. Orthot. Int., 8: 33-38, 1984. 4. BUTLER, PB; POINER, R; FARMER, IR e PATRICK, JH. Use ofthe ORLAU Swivel Walker for the severely handicapped patient. Physiotherapy, 68: 324-326, 1982. 5. CHAINTRAINE, A; CRIELAARD, JM; ONKELINX, A e PIRNAY, F. Energy expenditure of ambulation in paraplegics: effects of Jong term use of bracing. Paraplegia, 22: 173-181,1984. 6. CLINKINGBEARD, JR; GERSTON, JW e HOEHN, D. Energy Lost ambu1ation in traumatic paraplegic. Am. J. Phys. Med., 43: 157-165, 1964. 7. CLIQUET, A. Paraplegic Iocomotion with neuromuscular electrical stimulation based systems - a feasibility study. Glasgow: University ofStrathclyde, 1988. Ph.D. thesis. 8. GORDON, EE e V ANDERW ALDE, H. Energy requirements in paraplegic Ambulation. Arch. Phys. Med. Rehabil., 37: 276-285, 1956. Rev. Bras. Fisiot. 9. HOFFER, MM; FEIWELL, E; PERRY, J. e BONNER, L. Functional ambulation in patients with myelomeningocele. J. Bone Joint Surg., 55-A: 137-148, 1973. 10. HUANG, CT; KUHLEMEIER, KV; MOORE, MB e FINE, PR. Energy Lost of ambulation in paraplegic patients using Craig Scott Braces. Arch. Phys. Med. Rehabil., 60: 595600, 1979. 11. MERKEL, KD; MILLER, NE e MERRITT, JL. Energy expenditure in patients with Jow, mid or high thoracic paraplegia using Scott Craig Knee-Ankle-Foot-Orthoses. Mayo Clin. Proc., 60: 165-168, 1985. 12. MERKEL, KD; MILLER, NE; WESTBROOKE, PR e MERRITT, JL. Energy expenditure of paraplegic patients standing and walking with two Knee-Ankle-Foot-Orthoses. Arch. Phys. Med. Rehabil., 65: 121-124, 1984. 13. MERRITT, JL. Knee-Ankle-Foot-Orthosis. Phys. Med. Rehabil. State Art. Rev., 1: 67-82, 1987. 14. MOORE, P. The ParaWalker: walking for thoracic paraplegics. Physiotherapy Practice, 4: 18-22, 1988. 15. NENE, AV e PATRICK, JH. Energy cost ofparaplegic locomotion with the ORLAU ParaWalker. In: ANNUAL SCIENTIFIC MEETING OF THE INTERNATIONAL SOCIETY OF PARAPLEGIA 1987, Aylesbury, Stoke Mandeville Hospital. 16. NENE, AV e PATRICK, JH. Energy cost of paraplegic Iocomotion with the ORLAU ParaWalker. Paraplegia, 27: 518, 1989. 17. NENE, AV e PATRICK, JH. Energy cost ofparaplegic locomotion using the ParaWalker - Electrical Stimulation "Hybrid" Orthosis. Arch. Phys. Med. Rehabil., 71: 116120, 1990. 18. ROSE, GK. Functional assessment of Spina Bifida for orthotic prescription and integrated surgical treatment. WORLD CONGRESS OF THE I.S.O.P., Montreaux, 1974. 19. ROSE. GK. Orthoses for the severely handicapped- Rational or empirical choice. Physiotherapy, 66: 76-81, 1990. 20. ROSE, GK.; STALLARD, J. e SANKARANKUTTY, M. Clinicai evaluation o f Spina Bifida patients using Hip Guiodance Orthoses. Develop. Med. Child. Neurol., 23: 30-40, 1981. 21. ROSMAN, N. eSPIRA, E. Paraplegic use of walking bracing: a survey. Arch. Phys. Med. Rehabil., 55: 310-314, 1974. 22. STAUFFER, E; HOOFER, Me NICKEL, VL. Ambulation in thoracic paraplegia. J. Bone Joint Surg., 54A: 1336, 1972. (Abstract) 23. STAUFFER, ES; HOFFER, MM e NICKEL, VL. Ambulation in thoracic paraplegia. J. Bone Joint Surg., 60-A: 823824, 1978. 24. VANALLE, RM. Caracterização e elementos de projeto de órteses para membros inferiores. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1987. 171 p. Dissertação de mestrado, COPPE. 25. WILLIAMS, LO; ANDERSON, AD; CAMPBELL, J; THOMAS, L; FEIWELL, E e W ALKER, JM. Energy lost of walking and ofwheelchair propulsion by children with MyeIodisplasia: comparison with normal children. Develop. Med. Child. Neurol., 25: 616-624, 1983.