A globalização e a produção do espaço urbano: um olhar sobre a migração e
os impactos sociais na Região Metropolitana de Campinas°
Ednelson Mariano Dota•
José Marcos Pinto da Cunha♦
Resumo
A globalização, enquanto faceta contemporânea do modo de produção capitalista tem
gerado diferentes modelos de capitalismo e de resultados em cada localidade. Estas
configurações e a distribuição destes resultados são desiguais, a partir da exploração e da
maximização dos recursos distribuídos de forma também desigual pelo território, culminando
em novas divisões sociais e espaciais do trabalho. Este artigo visa analisar a globalização
enquanto processo de âmbito econômico, mas com relevantes reflexos sociais, e busca a
partir da reflexão com vários autores caracterizar quem são e como agem os atores locais e
globais, a partir das suas diferentes escalas de atuação. Por fim, analisamos a RM de
Campinas como espaço de destaque econômico e demográfico, enfatizando como o
crescimento econômico e o aumento das trocas comerciais desta região têm se apresentado
em relação aos resultados verificados entre 2000 e 2010, a partir dos Censos Demográficos.
Palavras-chave: globalização; espaço urbano; impactos sociais; RM de Campinas.
Trabalho apresentado no XII Seminário Internacional da Rede Iberoamericana de investigadores
sobre Globalização e Território, realizado entre 01 e 05 de Outubro de 2012, em Belo Horizonte-MG.
°
Geógrafo, mestre e doutorando em Demografia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
(IFCH) e Núcleo de Estudos de População (NEPO) da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp). [email protected];
•
Demógrafo, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), Departamento de
Demografia e pesquisador do Núcleo de Estudos de População (NEPO), ambos da Unicamp.
[email protected].
♦
Introdução
A globalização, entendida como um dos resultados do desenvolvimento do modo de
produção capitalista contemporâneo, tem trazido uma série de resultados distintos para as
diferentes regiões do globo. De modo geral, a ideia de que o aumento das trocas de
produtos, serviços e informações entre países reduziriam a distância econômica existente
entre eles caiu por terra, e observou-se na verdade um aumento nas trocas internacionais
concomitantemente ao distanciamento econômico entre os países ricos e pobres.
No atual contexto de inserção desigual dos países no mercado global e, consequentemente,
de geração de riquezas desproporcionais, observa-se uma clara propensão ao aumento da
desigualdade social, não apenas nos países mais pobres, mas também naqueles que
sempre foram considerados exemplos de igualdade sob a égide do modo de produção
capitalista, como os Estados Unidos e a Suécia (ATKINSON, 2003). O enquadramento em
um modelo de desenvolvimento social e econômico relativamente semelhante é apontado
como fator causal, visto que, para competir no mercado e “alcançar o desenvolvimento”
devem-se seguir políticas direcionadas, que não necessariamente visam atender as
demandas sociais de sua respectiva população. Como salienta Sassen (1998:44), “a
economia mundial jamais foi um acontecimento planetário; sempre teve fronteiras mais ou
menos definidas”.
Como processo econômico em nível internacional, a globalização tem culminado em
consequências locais. Isto se deve, sobretudo, às mudanças no modo de atuação dos
Estados nacionais, que de forma mais ou menos explícita utilizam o Consenso de
Washington como modelo de ação política. Este consenso confere as características de
atuação, legitima e coloca este modelo de desenvolvimento econômico como único possível
e adequado para o sucesso econômico das nações (SANTOS, 2002).
Os impactos da globalização em nível nacional, nas estruturas e configurações urbanas, e,
mais especificamente, no caso brasileiro, está ainda pouco explorado. O Brasil, como um
dos principais mercados consumidores do globo se apresenta atualmente como destino
interessante aos fluxos de capitais e investimentos estrangeiros. Como resultado, observase a formação de territórios especializados, alguns focados na produção de informação e no
gerenciamento do mercado, como é o caso do município de São Paulo, e outros espaços
voltados para a produção física dos produtos, como ocorre de forma muito diversificada no
restante do país.
Essa divisão regional do trabalho é também uma divisão regional da renda, dos empregos e
da população. As dinâmicas geradas por essa distribuição são diversas, e impactam a
estruturação das cidades, a produção do espaço urbano, a redistribuição espacial
populacional e a mobilidade num contexto mais amplo. Estes processos mostram-se de
extrema relevância para as condições de vida da população e, desta forma, a globalização,
mesmo que pareça distante do âmbito local, influencia a vida cotidiana da população.
Cabe salientar, entretanto, que não vemos a relação entre o local e o global de forma
dicotômica, pois esta relação não é direta, mas mediada por uma série de fatores, agentes e
interesses que alteram os modelos preexistentes e criam outros em cada espacialidade
distinta. O entendimento destas ações nas distintas escalas se mostra relevante, pois são
nelas que atuam os diversos agentes, cada um num nível de abrangência segundo suas
possibilidade e interesses.
Busca-se neste trabalho analisar alguns resultados da globalização na RM de Campinas.
Para tal objetivo, utilizaremos dados dos Censos Demográficos de 2000 e 2010, analisando
a evolução de alguns indicadores sociodemográficos no período, além dos dados da
balança comercial, que possibilitará a análise da forma e do peso das variações em relação
ao comércio internacional para cada um dos municípios componentes da região.
1. Globalização: como e de que forma?
O termo globalização tem sido usado de forma genérica para se referir à relativa unicidade
contemporânea nas mais diversas situações, onde modos de vida de uma localidade
passam a ser assimilados por outros povos, com costumes e tradições completamente
distintos. Podemos citar exemplos em praticamente todos os setores da vida moderna,
como alimentação, música, roupas etc. O uso do termo de forma generalista, entretanto, não
está dissociado daquilo que acreditamos que de fato ele represente, mas está empregado
nos resultados deste processo, que é mais complexo e abrangente.
Concorda-se assim com Dicken (2004), para quem “globalization is, then, a complex
syndrome of processes, in which actor-networks and macro-structures interconnect in
extremely complex ways”. Para Milton Santos, a globalização é o ápice do processo de
internacionalização do capitalismo, sendo explicada sobretudo pelo avanço das técnicas e
pelo estado da política (SANTOS, 2000).
A visão da globalização enquanto processo advém do entendimento de que a forma de
organização dos negócios, que segue a lógica espacial das empresas, denominadas
transnacionais, é resultado do atual modelo de desenvolvimento do capitalismo, assentado
em intensas trocas de capital, produtos e serviços entre as mais diversas partes do globo.
Segundo Harvey (1994), a expansão do capitalismo para áreas “inexploradas” é uma
necessidade recorrente deste modo de produção, visto que a produção e o consumo devem
ser crescentes para que o crescimento econômico possa se realizar. Neste sentido, a
incorporação de países (e regiões) periféricos ocorre para suprir a necessidade dos países
centrais em aumentar a sua riqueza, e não para que possam usufruir dos resultados
positivos gerados, que é observado nos países mais desenvolvidos para uma grande parte
da população, enquanto nos países periféricos para pequenas partes do conjunto
populacional.
Neste contexto, apesar dos esforços constantes1, o que se vê é um aprofundamento da
desigualdade social nestes países e da desigualdade entre países ricos e pobres. A visão
de Santos (2000) ajuda na distinção da percepção do processo e da realidade empírica na
sociedade: para o autor, a globalização é também uma forma de ideologia, que cria a
impressão de que o mundo está à mão de todos quando, na verdade, para a grande
maioria, restam apenas “migalhas” da riqueza gerada. “Um mercado avassalador dito global
é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças
locais são aprofundadas” (SANTOS, 2000:19).
O aumento da desigualdade e das diferenças tem sido o resultado de um processo que em
seu discurso tem o objetivo de reduzir as desigualdades dos países e as condições da
população residente em seus territórios. Neste sentido, para caracterizar estes resultados
(locais) e compreendê-los à luz dos processos econômicos vigentes (globais), devemos
buscar formas de olhar a organização dos processos econômicos e os agentes envolvidos.
1
Ao menos na retórica.
“A tese fundamental é que as transformações ocorridas durante as últimas
décadas na composição da economia mundial, acompanhando a mudança
na direção de prestação de serviços e das finanças, suscita a renovada
importância das grandes cidades como locais destinados a certos tipos de
atividades e funções.” (SASSEN, 1998:16).
Falando sobre as implicações da globalização nas grandes cidades, Sassen (1998:18)
reflete sobre o impacto que isso exerce sobre a ordem social e econômica. Com isso chama
a atenção para o fato de que “o rápido crescimento de indústria financeira e de serviços
altamente especializados gera não apenas empregos técnicos e administrativos de alto
nível, como também empregos que não exigem qualificação e que apresentam baixa
remuneração”. Além dessas novas desigualdades interurbanas “estamos também
presenciando novas desigualdades econômicas nas cidades, sobretudo nas cidades globais
e em suas contrapartidas regionais”.
Para a autora, a globalização tem exercido inúmeros impactos sobre as cidades e os
sistemas urbanos. Em alguns casos, contribui para o desenvolvimento de novos pólos de
crescimento situados fora das grandes aglomerações urbanas e, em outros, aumenta o peso
das aglomerações urbanas principais.
Para compreender a complexidade dos resultados gerados, Dicken (2004) propõe uma
metodologia para a análise da globalização numa perspectiva estrutural, através do
comportamento dos diversos agentes e como estes comportamentos podem alterar os
resultados nos níveis locais.
Esta perspectiva de análise diferencia cinco grandes atores, com representatividade e
interesses convergentes e/ou conflitantes, que resulta nos distintos modelos de capitalismo,
além de diferentes configurações espaciais em cada parte do globo. Os agentes
considerados pelo autor são: as corporações transnacionais, os Estados nacionais, os
consumidores, o trabalho (enquanto instituição) e a sociedade civil (DICKEN, 2004).
A partir do resultado das disputas entre os atores, cria-se uma relação dialética, pois as
características do capitalismo em cada nação culminam em relações distintas entre atores,
assim como estas relações molda de forma específica o modo de produção (DICKEN,
2004), temporal e espacialmente, distribuindo a partir destas configurações os bons e maus
resultados que gera.
O modo de produção na globalização é a nova divisão internacional do trabalho, que visa à
maximização dos lucros a partir da exploração da mão-de-obra e recursos de países
periféricos. Para isso, transfere a produção com baixo valor agregado para estes países,
pagando menos para a geração dos insumos básicos necessários para a manutenção das
economias dos países centrais. Esta divisão reforça as desigualdades internacionais, ao
mesmo tempo em que é vista com bons olhos pelos países pobres, pois representa
desenvolvimento e progresso, mesmo que estas positividades fiquem restritas a pequenas
parcelas da população.
Segundo Evans (1979), as desigualdades sociais geradas pelo atual modelo de produção se
assenta na
manutenção de um equilíbrio delicado entre os três parceiros [burguesia
estatal, transnacionais e o capital local, que] milita contra qualquer
possibilidade de um tratamento sério às questões de redistribuição de
rendimentos, mesmo que membros da elite expressem um apoio ao
princípio teórico da redistribuição dos rendimentos (EVANS, 1979:288 apud
SANTOS, 2002:33)
Desta forma, sendo a questão da distribuição de renda ponto chave para que os bons
resultados alcancem maiores proporções, é o embate de interesses, entre quem comanda o
trabalho e aqueles que efetivamente trabalham que pode resultar em perspectivas mais
coerentes do ponto de vista social.
1.1 Agentes e escalas em tempos de globalização
Quem são os agentes, como e onde eles agem é ponto chave para a compreensão da
distribuição dos resultados da globalização. Uma das considerações mais relevantes sobre
estes pontos é que, quando falamos em escalas não estamos nos referindo às escalas
cartográficas, pois num contexto de grande complexidade, como as relações de poder e
seus resultados efetivos, o campo de ação de cada um dos agentes varia de forma
relevante, produzindo sobreposições de interesses e de ações em cada porção do território
(DICKEN, 2004). Desta forma, a escala aqui considerada é a geográfica, para uma maior
apreensão dos processos, que não necessariamente casam com os limites políticos dos
países e regiões.
A ação das transnacionais ocorre em escala global, diferentemente da ação dos Estados,
que preponderantemente age na escala da nação2. O trabalho, enquanto instituição, e a
sociedade civil organizada trabalham na escala local e, portanto, influenciam e são
influenciadas pelas relações de poder de seus respectivos países. A escala, neste sentido,
tem um papel central nas possibilidades de (re)negociação, visto que, enquanto as forças
sociais atuam principalmente em escalas reduzidas, os seus interesses (salários,
participação nos resultados etc.) são negociadas em nível global, a partir de comparações
de preços entre países3.
As condições territoriais diferenciadas são geradas, segundo Dicken (2004), a partir das
interações entre os atores, que efetivam as mudanças nas configurações geográficas da
economia global nas diferentes escalas. Neste sentido, salienta ainda que a força de cada
agente se assenta na habilidade de extrair vantagens localizacionais, ou seja, cada ponto do
território tem um valor, e a possibilidade de extrair dado valor representa a força de um ator
frente aos outros.
O espaço urbano brasileiro pode ser apontado com um dos grandes exemplos do produto
gerado a partir da ação dos atores no território: Martine e McGranahan (2010) salientam que
a transição urbana brasileira foi um processo de exclusão e geração de desigualdades,
podendo inclusive ser utilizado como exemplo para outros países realizarem uma transição
socialmente mais justa. O processo de urbanização no Brasil ocorreu de forma rápida e
não se processou de forma harmoniosa, tendo sido particularmente difícil
para os contingentes mais pobres que, apesar de representar parcela
majoritária do crescimento urbano e um motor essencial do
desenvolvimento nacional, raramente tiveram seu lugar contemplado na
expansão urbana (MARTINE; MCGRANAHAN, 2010:11).
2
A escala regional seria a mais interessante para pensar as influencias entre países, excetuando os
EUA, com maior força política e econômica.
3
O trabalho é o principal meio de redistribuição de renda, sendo que as empresas buscam regular o
preço da mão-de-obra globalmente, culminando assim numa impossibilidade de negociação justa.
O espaço urbano é ponto chave para a reprodução do capital, local em que se assenta parte
relevante dos investimentos econômicos. Harvey (2011) cita que a produção das cidades há
muito é a base para a reprodução do capital, tanto pela necessidade das moradias quanto
pela crescente valorização destes locais, que culmina numa cumulativa duplicação do valor
inicialmente investido.
A cidade é o lócus de reprodução social, local na qual se realizam as atividades cotidianas.
O processo de produção e reprodução do espaço urbano, neste sentido, reflete diretamente
nas condições de vida da população, visto que modifica os usos e direcionam os fluxos
populacionais (DOTA, 2011), alterando de forma efetiva a configuração dos lugares e a
distribuição das pessoas pelo espaço.
2. Concentração e desconcentração no Estado de São Paulo
Sendo a globalização a faceta mais recente do modo de produção capitalista, no Brasil o
Estado de São Paulo é a área mais integrada a este mercado, local de onde a maior parte
das empresas transnacionais controla e produz seus bens e capitais em território brasileiro.
A concentração exercida pelo Estado de São Paulo remonta ao século XIX, época em que o
café se expandiu por quase todo o estado e criou riquezas e infraestrutura, que
posteriormente foi a base para a industrialização brasileira. A industrialização de
substituição, durante a Segunda Guerra Mundial e, a partir da década de 50, a chegada das
primeiras multinacionais iniciou o período de internacionalização da economia brasileira, e
propiciaram a São Paulo a continuidade como principal centro econômico do país.
O vigor econômico do Estado de São Paulo e a desigualdade regional em âmbito nacional
culminaram em relevantes fluxos populacionais, que segundo Singer (1976), podem ser
explicados a partir da estagnação das áreas de origens associado à desigualdade regional,
que tornava outros lugares mais atrativos. Assim, desde a década de 40 o estado paulista
recebe relevantes fluxos de migrantes, que foram essenciais para o desenvolvimento
paulista observado na segunda metade do século XX, e que levou o estado a concentrar em
2010 aproximadamente 21,6% da população brasileira, conforme Figura 1.
Figura 1. Gráfico da proporção de população residente no Estado de São Paulo em relação
ao Brasil e à região Sudeste. 1872-2010
60%
50%
40%
30%
20%
10%
0%
1872 1890 1900 1920 1940 1950 1960 1970 1980 1991 2000 2010
São Paulo no Brasil
São Paulo no Sudeste
Fonte: FIBGE. Censos demográficos de 1872 a 2010.
A influência e a concentração exercida sobretudo pela Região Metropolitana de São Paulo
culminaram na formação de uma das maiores aglomerações urbanas do mundo, que é
considerada a grande metrópole nacional (IBGE, 2008), devido a influencia exercida em
todo o território nacional. O crescimento demográfico é um indicativo da centralidade do
estado paulista, entretanto, no âmbito intraestadual, as dinâmicas apresentam-se tão
diferenciadas quanto aquelas observada em nível nacional.
A concentração econômica exercida pelo Estado de São Paulo começa a se reduzir a partir
da década de 1970, em dois sentidos: do estado em relação ao país, e da RM de São
Paulo, principalmente da capital para o restante do estado. Esta desconcentração não foi
um processo automático, mas influenciado por políticas voltadas para a redistribuição da
indústria, de forma a privilegiar outros pontos do território. Segundo Negri (1994:174) a
preocupação com o “caos urbano” inicia-se nos anos 60, fazendo com que os governos
federal e estadual planejassem e iniciassem a implementação destas políticas4. A partir
deste objetivo, várias foram as ações direcionadas para que outros pontos fossem inseridos
no processo de alocação industrial. Segundo Negri (1994), os programas mais relevantes
para a descontração ocorrida no Estado de São Paulo foram o PROINDE (Programa de
Interiorização do Desenvolvimento), o Programa de Cidades Médias e o Programa de
Descentralização Industrial, sendo todos os programas de nível estadual.
No contexto geral, o objetivo destes programas era fazer investimentos em infraestrutura
que tornassem outros pontos do território atrativos, e dessa forma descentralizasse os
investimentos da RM de São Paulo. Os investimentos destes programas ocorriam na
interligação rodoviária dos principais centros urbanos, e na adequação da infraestrutura
básica dos municípios, como pavimentação das principais vias, pontes e viadutos para
facilitar acesso, além de saneamento básico e escolas primárias (NEGRI, 1994).
A atratividade exercida por algumas áreas do interior a partir dos investimentos estruturais
aliada aos problemas da grande aglomeração culminou no sucesso dos programas, com a
desconcentração se efetivando. Dentre os pontos principais para o entendimento deste
processo, pode-se citar, para a capital, a especulação imobiliária, que encarecia o custo da
terra, os problemas de aglomeração, como o transito e as enchentes, que influenciavam a
produtividade da mão-de-obra, além da organização dos sindicatos Negri (1994:204).
Neste contexto de desconcentração, as cidades médias do interior já apresentavam na
década de 60 uma importante base industrial de nível local e regional (BAENINGER, 1999).
Mas foi apenas a partir da desconcentração industrial que de fato a infraestrutura
relativamente desenvolvida do interior, herança da época do café, passou a receber
investimentos de indústrias de maior amplitude.
A ação estatal, com investimentos direcionados foi de grande importância nesse processo.
Segundo Cano (1988 apud Baeninger, 1999), aqueles com maior peso foram: a implantação
da refinaria de petróleo em Paulínia, os investimentos no PROÁLCOOL, com importantes
rebatimentos nas regiões de Campinas e Ribeirão Preto, a instalação de institutos e
empresas tecnológicas em Campinas, além da indústria aeronáutica e militar no Vale do
Paraíba.
Segundo Baeninger (1999) a desconcentração industrial sentido interior foi fruto da
combinação de vários fatores: (1) de forças endógenas, entendida como a infraestrutura e a
rede urbana estabelecida no interior; (2) do processo de modernização da agricultura, que
4
Em 1959, a Grande São Paulo detinha 41,0% do valor das transformações industriais do país, e
73,8% do total do estado (NEGRI, 1994).
direta e indiretamente influenciava a criação de postos de trabalho na indústria para
reparação e manutenção, e nos serviços para o transporte e armazenagem dos produtos;
(3) as deseconomias de aglomeração, que direcionaram os investimentos da RM de São
Paulo para áreas interioranas, e os (4) incentivos governamentais e seus reflexos.
A partir destes fatores, o Estado de São Paulo observou um crescimento importante do seu
interior, inclusive com a constituição de três novas regiões metropolitanas5 e a formação de
um eixo urbano-industrial de grande proporção, incluindo as Regiões Metropolitanas de São
Paulo, Santos, Campinas e a nova, do Vale do Paraíba, conforme Tabela 1.
Tabela 1
Proporção de população do Estado de São Paulo em regiões metropolitanas6 e não
metropolitanas. 1980, 1991, 2000 e 2010.
População e proporção
RM de Campinas
RM da Baixada Santista
RM de São Paulo
Restante do Estado de
São Paulo
1980
1991
2000
2010
1.269.559
1.852.813
2.332.988
2.792.855
5,1
5,9
6,3
6,8
957.889
1.214.980
1.473.912
1.662.392
3,8
3,9
4,0
4,0
12.549.856
15.369.305
17.852.637
19.667.558
50,3
48,9
48,3
47,7
10.175.934
12.999.175
15.314.841
40,8
41,4
41,4
Fonte: FIBGE. Censos Demográficos de 1980, 1991, 2000 e 2010.
17.100.878
41,5
Apesar da importância relativamente menor das regiões metropolitanas no contexto
estadual, a maior parte da população vive numa organização socioespacial metropolitana,
fruto da desconcentração industrial e demográfica, que culminou no crescimento das
cidades e expansão da industrialização para as cidades médias, principalmente aquelas
mais próximas da capital e cortada por rodovias.
A complexidade social do contexto metropolitano, que pode ser observada em todas as
grandes cidades do país, seria uma reprodução das desigualdades na escala local. O
território, local na qual se assentam os atores da globalização é utilizado de forma diferente
por cada um deles. A localização espacial, portanto, é a busca pela maximização dos
potenciais ganhos e, consequentemente, culmina na criação de distinções espaciais
relevantes, tanto na escala local - com os bairros representando claramente a divisão social
do trabalho - quanto na escala regional, onde a infraestrutura disponível é reflexo da divisão
espacial do trabalho.
5
A RMBS, formada por nove municípios foi criada a partir da Lei Complementar nº 815, de
30/07/1996 e a RMC, composta por dezenove municípios, foi criada pela Lei Complementar n° 870,
de 19/06/2000. Vale registrar ainda que a RMSP foi instituída pela Lei Complementar federal nº 14,
de 8/06/1973, e disciplinada pela Lei Complementar estadual nº 94, de 29 de maio de 1974. Formada
por 39 municípios, as diretrizes da RMSP estão colocadas na Lei Complementar nº 1.139, DE
16/06/2011. A RM do Vale do Paraíba foi criada a partir da lei complementar estadual 1166/2012.
6
Devido a recente constituição, manteve-se a RM do Vale do Paraíba com o “restante do Estado de
São Paulo”.
Pensar nos fluxos, para tanto, mostra-se essencial, pois são eles que determinam em
grande medida as características e a posição de determinado lugar na hierarquia urbana. É
o caso da RM de Campinas, que sendo um dos principais focos dos fluxos advindos da
desconcentração a partir da capital, apresenta-se hoje como uma das áreas mais dinâmicas
e economicamente importantes do país. Cabe salientar, entretanto, que os processos
verificados na segunda metade do século XX no Estado de São Paulo não criou
homogeneidade, mas o crescimento econômico significou em grande medida
desigualdades, fruto do próprio modelo de desenvolvimento capitalista.
3. O contexto da RM de Campinas
A Região Metropolitana de Campinas apresenta-se atualmente como uma das áreas mais
dinâmicas do Brasil, e um dos principais resultados tem sido um intenso crescimento
demográfico, maior do que a média do estado e do país7. A centralidade exercida pela RM
de Campinas para os fluxos populacionais extrapola os limites estaduais, visto que recebe
relevante contingente de migrantes de outros estados, que representou 38,9% dos
migrantes entre 1986 e 1991, 32,5% entre 1995 e 2000, continuando relevante entre 2005 e
2010, tendo representado 35,0% dos migrantes, conforme Tabela 2.
Tabela 2. Proporção dos migrantes segundo origem. RMC. 1991, 2000 e 2010.
Interestadual
Intraestadual Intrametropolitano
Total
1991
38,9
43,0
18,1
288.645
2000
32,5
45,3
22,2
291.370
2010
35,0
38,9
26,1
349.869
Fonte: Censos Demográficos de 1991, 2000 e 2010.
Apesar de ainda receber uma relevante proporção de migrantes de outros estados, o
chama atenção na dinâmica migratória desta região é o aumento da relevância
movimentos intrametropolitanos. A ascensão da migração intrametropolitana já
esperada (ver DOTA, 2011; CUNHA, 2010), visto que o processo de metropolização
conurbação acabam por constituir, em grande parte, uma única área urbana.
que
dos
era
e a
A migração intrametropolitana apresenta características distintas em relação às outras
modalidades migratórias: o fato deste migrante acumular um maior conhecimento da região
culmina numa migração com maior propensão às questões habitacionais. Neste sentido, os
fatores com maior relevância para o direcionamento dos fluxos populacionais estão ligados
à produção e estruturação do espaço urbano e, portanto, os fluxos de capitais e
investimentos nas cidades podem ser importantes indicativos da formação ou não de
lugares atrativos aos migrantes, inclusive de forma seletiva, a partir de loteamentos
populares ou de alto padrão.
Em relação à questão habitacional, o crescimento do número de domicílios na última década
foi maior do que o crescimento populacional para todos os municípios da região (Figura 2),
culminando numa redução do número médio de pessoas por domicílio, que passou de 3,55
em 2000 para 3,21 em 2010.
7
Segundo o IBGE, entre 2000 e 2010 o crescimento geométrico médio anual da RM de Campinas foi
de 1,83%, enquanto o Estado de São Paulo cresceu 1,08% e o Brasil 1,16%.
População
RM de Campinas
Vinhedo
Valinhos
Sumaré
Santo Antônio de…
Pedreira
Paulínia
Monte Mor
Nova Odessa
Jaguariúna
Itatiba
Indaiatuba
Hortolândia
Holambra
Engenheiro Coelho
Cosmópolis
Campinas
Artur Nogueira
Americana
7,00
6,00
5,00
4,00
3,00
2,00
1,00
0,00
Santa Bárbara…
Figura 2. Gráfico das taxas de crescimento médias anuais de população e domicílios.
Municípios da RMC. 2000-2010.
Domicílios
Fonte: FIBGE. Censos Demográficos de 2000 e 2010.
O vigor do setor imobiliário, neste sentido, pode ser apontado como um dos fatores
explicativos do expressivo crescimento da migração intrametropolitana, pois a dinâmica
vigente cria oportunidades e relativiza outros fatores de permanecia, como a distância casatrabalho.
Cabe, entretanto, duas questões para um melhor entendimento quanto aos processos desta
última década: como medir os impactos da globalização para torná-la comparável com
outros indicadores? Os processos urbano-metropolitanos nesta região estão culminando em
respostas socialmente melhores?
Primeiramente, temos clara a dificuldade de se quantificar impactos um processo tão amplo
e complexo como este, pois as suas raízes se assentam nos mais diversos ramos e setores,
de distintas formas em cada um. Pela sua amplitude, buscaremos neste momento apenas
um dos seus aspectos, que pode nos dar ao menos uma noção daquilo que ocorreu na
última década nesta região.
Para tal objetivo nos utilizaremos das importações e exportações, considerando que uma
das principais características do atual momento, segundo Santos (2000), é a fluidez de
capitais e mercadorias pelo espaço globalizado. O uso destes dados mostra-se relevante se
considerarmos que as transnacionais estão entre os principais atores da globalização, e
são, justamente, as que mais têm participação no comércio internacional, importando e
exportando produtos e componentes entre suas filiais. Pode-se considerar, desta forma, que
os dados da balança comercial expressam a divisão territorial do trabalho (ARROYO, 2012),
podendo ser um interessante indicador para a compreensão das desigualdades territoriais.
Na Tabela 3 podemos verificar a evolução das exportações, importações e da
movimentação (exportação somada a importação) entre os anos de 2000 e 2010. O
incremento na movimentação verificado no período chegou a 138,6% para a região,
variando de forma distinta em cada município8.
Tabela 3. Variação das exportações, importações e movimentação bruta (%). Municípios da
RMC. 2000-2010
G
*
3 Americana
1 Artur nogueira
2 Campinas
2 Cosmópolis
3 Engenheiro Coelho
1 Holambra
1 Hortolândia
1 Indaiatuba
Exportação Importação Movimentação Participação Participação
(a)
(b)
(a+b)
2000
2010
46,4
4,5
89,2
8,5
5,2
341,3
116,1
722,6
0,1
0,1
69,5
17,6
103,0
31,3
22,2
1686,8
-1,8
196,3
0,8
1,0
-50,3
1.564,4
-44
0,7
0,2
273,2
377,5
322,9
0,1
0,2
308,3
389,2
5,7
11,6
441,4
574,1
3,7
10,4
1045,9
937,6
1 Itatiba
3 Jaguariúna
784,2
211,8
331,1
0,9
1,7
40,2
-33,7
-36
25,7
6,9
2 Monte Mor
3 Nova Odessa
96,8
295,6
195,8
1,6
2,0
39,1
128,5
65,8
1,6
1,1
1 Paulínia
3 Pedreira
381,3
304,6
323,5
7,8
13,8
-0,7
1.101,9
53,9
0,3
0,2
6,1
135,3
88,8
1,1
0,8
23,2
115,9
2 Santa Bárbara d’Oeste
2 Santo Antônio de
Posse
1 Sumaré
2 Valinhos
1 Vinhedo
RM de Campinas
105,5
0,2
0,1
397,4
542,5
491,4
5,9
14,6
87,2
177,1
133,2
2,3
2,2
600,3
569,0
577,8
2,0
5,6
104,7
158,2
138,6
100,00
100,00
Fonte: Secretaria de Comércio Exterior. *Grupo segundo evolução da participação da balança
comercial.
Quando se observa a participação dos municípios no início (2000) e final (2010) do período,
transparecem diferenças relevantes entre eles. Primeiramente cabe salientar a redução da
concentração dos fluxos em Campinas, que detinha 31,3% dos negócios em 2000 e reduziu
sua participação para 22,2% em 2010. Além da metrópole, chama à atenção a queda de
participação de Americana e Jaguariúna, que somadas passaram de uma participação de
34,2% em 2000 para 12,1% em 20109. Em relação aos municípios que aumentaram a sua
participação no período, salienta-se Holambra, Hortolândia, Indaiatuba, Itatiba, Paulínia,
8
O crescimento médio do PIB per capita da RM de Campinas entre 2000 e 2009 foi de 130,00%,
sendo que apenas Paulínia apresentou leve redução de 3% no período. Apesar da limitação deste
indicador, aqui ele nos serve para demonstrar que o crescimento econômico regional no período
ocorreu de forma relevante.
9
Devemos considerar que existe uma limitação analítica nos dados de importação e exportação, pois
estes valores podem variar de forma significativa de um ano para outro. Apesar disto, a análise num
período mais longo de tempo, como realizado aqui, tende a minimizar este problema, visto que em
geral a variação observada entre os anos pode ser considerada “natural”, não perfazendo algum
evento raro que possa ter ocorrido num respectivo ano.
Sumaré e Vinhedo, que somados passaram de 26,1% em 2000 para 57,9% em 2010, tendo
mais do que dobrado a sua parcela.
Neste contexto, para facilitar a análise que segue, dividiremos os municípios entre (1)
aqueles que tiveram aumento significante de participação entre 2000 e 2010 (Aumento); (2)
aqueles com variação pequena (Manutenção) e (3) aqueles com queda significativa na
participação (Redução)10. Esta divisão possibilitar-nos-á a verificação dos possíveis
impactos sociais da variação das trocas mercantis realizadas pelos municípios. Deste modo,
pode-se analisar se o esforço realizado pelos municípios para atração de investimentos que muitas vezes tem um alto custo através da redução de impostos e cessão de áreas tem apresentado resultados socialmente interessantes.
Para a divisão analítica proposta: os municípios com aumento da participação (1) são
aqueles que apresentaram crescimento maior do que 30%; os municípios com redução de
participação (3) são aqueles que apresentaram decréscimo maior do que 30%; os
municípios no grupo “manutenção” (2) foram aqueles com variação entre -30% e 30%,
dados considerados a partir da variação da movimentação (importações somadas às
exportações) entre 2000 e 2010.
3.1 Resultados: onde estão?
A partir da divisão dos municípios em três grupos, como já salientado, buscamos analisar
alguns indicadores básicos em relação à renda e à condição de ocupação do domicílio, dois
pontos centrais para as condições de vida da população nas áreas urbanas.
Resultados interessantes puderam ser observados, como, por exemplo, as mudanças nos
percentuais em relação à faixa de renda (Tabela 4). Para todos os grupos é perceptível o
aumento da proporção de domicílios nas três primeiras faixas de renda, e uma redução nas
faixas de maior renda.
Tabela 4. Rendimento domiciliar em salários mínimos segundo grupos de município. RMC.
2000-2010.
Aumento
Manutenção
2000
2010
Variação
(%)
2000
2010
até 1 SM
5,0
5,5
8,6
4,6
7,5
64,0
de 1 a 3 SM
17,5
30,9
76,0
15,2
28,2
de 3 a 5 SM
21,5
28,5
32,7
17,7
5 a 10 SM
34,6
25,3
-26,9
mais de 10 SM
21,3
9,9
-53,8
Redução
Variação
(%)
2000
2010
Variação
(%)
2,1
3,7
71,8
86,0
14,3
29,3
105,3
24,0
35,4
20,4
27,4
34,0
30,9
23,9
-22,6
34,7
28,2
-18,7
31,6
16,4
-48,3
28,5
11,5
-59,7
Fonte: Censos Demográficos de 2000 e 2010.
Estas mudanças, entretanto, ocorreram de forma distinta segundo os grupos de municípios:
em relação às duas primeiras faixas de renda, houve um maior crescimento para os
municípios com redução de participação (101,0%), seguidos pelo de manutenção (80,9%) e,
10
Na Tabela 3 está apresentada a divisão dos municípios segundo grupos.
com menor proporção, aqueles com aumento de participação (61,0%). Apesar do diferencial
entre os grupos, a redução da renda foi substancial, sendo que o percentual de redução
daqueles com maior renda (entre e 10 e mais de 10 salários mínimos) foi semelhante, entre
35% e 37%.
Fica claro, neste sentido, que houve uma redução generalizada na renda
domicílios da região, que apesar dos diferenciais por grupos de municípios, não
relevante. A redução na renda média dos domicílios chegou a 21,7% para o
aumento na participação, 23,4% para o grupo “manutenção” e 24,4% para o
redução de participação.
média dos
se mostrou
grupo com
grupo com
A Tabela 5 salienta outro dado interessante. Apesar do crescimento do número de
domicílios maior do que o crescimento populacional11, como visto anteriormente, o
percentual de moradores proprietários se reduziu na RM de Campinas enquanto o
percentual de domicílios ocupados pagando aluguel observou aumento relevante em todos
os grupos, fato que assevera que a produção do espaço urbano regional está servindo mais
aos especuladores e investidores do que para a população que ainda não tem sua moradia.
Cabe salientar que na condição de domicílio próprio estão contidos também aqueles que
estão financiados, ou seja, todos estes que foram adquiridos na onda de crédito da última
década.
Tabela 5. Condição de ocupação dos domicílios segundo grupos de municípios. RMC.
2000-2010.
Aumento
Manutenção
Redução
2000
2010
Variação
(%)
2000
2010
Variação
(%)
2000
2010
Variação
(%)
Próprio
72,2
68,5
-5,1
72,2
72,8
0,8
71,1
67,1
-5,6
Alugado
16,3
23,3
42,9
15,2
20,2
32,9
19,2
25,3
31,8
Outros
3,8
8,2
115,8
12,5
7,0
-44,0
9,7
7,6
-21,6
Fonte: Censos Demográficos de 2000 e 2010.
Em relação à migração, fator primordial para a compreensão da dinâmica de
desenvolvimento da RM de Campinas vê-se dados que não fogem do padrão. Percebe-se
que em relação à condição de ocupação, por exemplo, apresentam-se relativamente
semelhantes segundo grupo de municípios, não oferecendo, desta forma, ganhos em
relação aos outros grupos. Cabe salientar, a partir dos dados da Tabela 6, o grande
diferencial apresentado em relação à propriedade do domicílio, que dentre os migrantes é
sempre maior para os intrametropolitanos12, mas ainda bem abaixo em relação aos nãomigrantes.
Tabela 6. Condição de ocupação dos domicílios segundo grupos de municípios e
condição migratória. RMC. 2010.
11
A comparação entre 2000 e 2010, através do Censo Demográfico, salienta que houve uma melhora
relevante em relação ao número de pessoas por cômodos nos domicílios na RM de Campinas. Esta
melhoria ocorreu para todos os grupos aqui considerados, com aproximadamente 80% dos domicílios
com até 1 morador por cômodo.
12
A questão habitacional é um dos principais motivadores da migração intrametropolitana. Ver Dota
(2011 e 2012) e Cunha (1994, 2010 e 2011).
Aumento
Manutenção
Estado de Outros
NãoIntrameEstado de Outros
NãoIntrametropolitano São Paulo Estados migrante tropolitano São Paulo Estados migrante
Próprio
65,2
50,1
37,8
75,3
62,4
48,0
42,9
78,5
Alugado
26,8
41,6
54,2
16,5
29,7
46,2
48,7
14,3
Outros
8,0
8,3
7,9
8,2
7,9
5,8
8,4
7,2
Tabela 6. Continuação.
Redução
Intrametropolitano
Estado de
São Paulo
Outros
Estados
Nãomigrante
Próprio
53,8
40,8
30,3
74,6
Alugado
38,4
52,5
62,4
18,1
Outro
7,8
6,6
7,2
7,2
Fonte: Censo Demográfico de 2010.
Outro ponto a ser ressaltado se refere à atratividade migratória exercida pelos municípios,
conforme Tabela 7. Os dados apresentados reforçam a importância da integração e
interdependência dos municípios, pois mesmo com dinâmicas econômicas distintas, não se
observam fluxos populacionais seguindo a mesma tendência. Percebe-se, neste sentido,
que existe uma complementariedade, onde os fluxos populacionais não seguem o mesmo
sentido dos fluxos econômicos. As possíveis explicações devam se assentar no mercado de
terras, que é um dos fatores mais importantes para o direcionamento dos fluxos
populacionais na RM de Campinas (DOTA, 2012).
Tabela 7. Composição da migração segundo grupos de municípios. RMC. 20002010. (%)
Intrametropolitano
Aumento
2000
27,2
2010 Variação
37,4
Estado de São Paulo
2010
Variação
37,4
2000
44,5
28,7
Outros Estados
2010
Variação
-35,7
2000
28,2
33,9
20,2
Manutenção*
Campinas
28,0
45,7
63,0
44,9
24,5
-45,5
27,1
29,8
10,1
10,2
34,5
238,7
46,0
24,1
-47,7
43,8
41,4
-5,5
Redução
28,1
39,7
41,7
46,9
27,9
-40,4
25,0
32,3
29,1
Fonte: Censo Demográfico de 2010. *Menos Campinas.
Percebe-se, neste sentido, que o direcionamento dos fluxos populacionais perpassa,
necessariamente, pela análise da fluidez de capitais principalmente em escalas de análise
mais amplas, que modificam as configurações territoriais em cada local, afetando a
sociedade de múltiplas formas. Fica evidente, neste sentido, que no caso de regiões de
relevante integração, como as metropolitanas, outros fatores atuam conjuntamente, gerando
lugares complexos e distintos entre si ao longo dos municípios.
Considerações Finais
O desafio de analisar a globalização e buscar resultados empíricos na RM de Campinas
possibilitou uma série de avanços, desde observar que o processo é mais complexo e
multifacetado do que aparenta ser, até chagarmos a conclusão de que pensar nos
resultados territoriais efetivos que ele tem gerado mostra-se extremamente relevante para
que estes possam ser mais positivos no âmbito social.
A atração de investimentos através de grandes empresas, que se usa de forma constante
como política de desenvolvimento municipal e regional, pode não significar ganhos efetivos
para a população, pois os salários gerados por esta podem não cobrir o investimento para
esta atração.
A evolução econômica dos municípios durante a última década, através do PIB per capita ou
da variação da balança comercial mostrou-se clara: crescimento sustentado e relevante
para todos eles. Entretanto, esses resultados não representaram nos dados aqui analisados
mudanças relevantes para a população. Entre os Censos Demográficos de 2000 e 2010
observou-se redução na renda média dos domicílios, redução da proporção de domicílios
próprios e aumento da proporção dos alugados, além de dinâmicas populacionais que não
apresentam lastros com os fluxos econômicos, denotando que não está havendo
rebatimentos positivos diretos para a população.
Cabe ressaltar os questionamentos gerados nesta primeira análise, visto a realidade
regional frente outras partes do país. Se uma região dinâmica e com grande crescimento
não observa dados efetivamente melhores, como pensar em outros pontos do território
nacional? Como qualificar políticas voltadas para atração de investimentos se estes não
resultam em melhorias?
Estas primeiras análises deixam saliente que esta face mais recente do modo de produção
capitalista per se não irá se traduzir em ganhos sociais relevantes, a não ser que políticas
específicas criem no Brasil um novo contexto de desenvolvimento econômico, diferente do
modelo atual. Neste sentido, a atuação política de representatividade dos interesses sociais
será de alta relevância para que os bons frutos gerados pelo modo de produção de fato
permaneça no país e, além disso, seja distribuído de forma mais igualitária.
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A globalização e a produção do espaço urbano