Politécnica Revista do Instituto Politécnico da Bahia Fundado em 1896 Ano 4 * Edição trimestral * setembro/2011 * ISSN 1809-8169 ESTABILIDADE DAS ENCOSTAS DO “ENÍGMA BAIANO” À INDUSTRIALIZAÇÃO DA BAHIA A ENGENHARIA NAVAL NA BAHIA: FORMAÇÃO E CAPACITAÇÃO Fonte : Internet; www.odebrechtonline.com.br Pólo Petroquímico de Camaçari-BA Fonte www.sisalnews.com.br 11E Expediente A Revista POLITECNICA é uma publicação do Instituto Politécnico da Bahia – IPB , visando a apresentação de trabalhos científicos na área da Engenharia. Ano III – Numero 11 - E - 3º trimestre /2011 – ISSN 1809-8169 - Instituto Politécnico da Bahia - IPB Conselho Editorial José Góes de Araújo - Presidente Professor Adjunto Aposentado da Escola Politécnica da UFBA Membro do Instituto Politécnico da Bahia – IPB Membro do Conselho Superior da Fundação Escola Politécnica Assessória de Edição Paulo N. Teixeira Alves Web Design www.Projetus.com Valdir Leite Junior E-mail : [email protected] Martha Godinho dos Anjos - Editora chefe Engenheira Civil Assistente Administrativa Ronicheli Lima Ribeiro de Souza Publicação Eletrônica : IPB Nossa Capa: Pólo Petroquímico de Camaçari-Bahia Fonte : Internet; www.odebrechtonline.com.br e www.sisalnews.com.br ____________________________________________________________________________________________________________ INSTITUTO POLITÉCNICO Fundado em DA BAHIA 1896 Diretoria do Instituto Politécnico da Bahia Eleita em Assembléia Geral Ordinária de 23 de novembro de 2010. Presidente em exercício 1º Vice-Presidente 2º Vice Presidente 1º Secretário 2º Secretario Tesoureiro Prof. Wellington Correia Figueiredo Prof. Adailton de Oliveira Gomes Prof. Wellington Correia Figueiredo Prof. Silvino José Silva Bastos Prof. Carlos Arthur Mattos Teixeira Cavalcante Prof. Silvino José Silva Bastos Conselho Fiscal Conselho Deliberativo Prof. Caiuby Alves Costa Eng. João Carlos Beltrão de Carvalho Conselho Fiscal Suplentes Engº João Augusto de Lima Rocha Prof. Luis Edmundo Prado de Campos Eng. Adinoel Motta Maia Eng. Antonio Carlos Medrado Sampaio Prof. Antonio Carlos Reis Laranjeiras Eng. Armando Góes de Araújo Neto Eng. Gabriel Barreto de Almeida Prof. Geraldo Sávio Franco Sobral Politécnica Arq. Guarani Valença de Araripe Prof. Luiz Jose dos Santos Pereira Valente Prof. Mario Mendonça de Oliveira Prof. Mauricio Franco Monteiro Eng. Octavio Henrique Bahia de Aguiar Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 2 EDITORIAL O estudo aplicado de ciências nas escolas brasileiras praticamente não existe. As escolas públicas não possuem laboratórios de ciências e as particulares, em maioria esmagadora, acompanham esta marcha disseminando a ignorância científica. Alega um dos diretores de escola particular : “ Temos uma sala de computadores onde podem ser demonstradas todas as experiências do curso”. Ver e observar complementam mas não transmitem o sentimento “do fazer” a experiência científica. Em casa, com os meios não perigosos disponíveis no lar, podem ser demonstradas muitas Leis da Física e da Química e então: Qual a razão que impedem que sejam executadas nas escolas? Econômica ? Falta de conhecimento? Salvo outras considerações. Professores, que também não cursaram escolas com laboratórios, não sabem como fazer, não dispõem dos meios e nem sentem a necessidade de despertar nos alunos o gosto pela Ciência. José Goes de Araujo Presidente Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 3 INSTITUTO POLITECNICO DA BAHIA REVISTA ELETRONICA Nº. 11 - E Sumario 1 - ESTABILIDADE DAS ENCOSTAS Sylvio de Queirós Mattoso, DSc, Geociências Engenheiro de minas e metalurgista 2 - DO “ENÍGMA BAIANO” À INDUSTRIALIZAÇÃO DA BAHIA Dr. Fernando Alcoforado 3- A ENGENHARIA NAVAL NA BAHIA: FORMAÇÃO E CAPACITAÇÃO Ademar Nogueira Nascimento, Engenheiro Químico, Doutor em Engenharia Química pela UNICAMP /Coordenador do CENAV. Henrique José Caribé Ribeiro, Engenheiro Naval, Doutor em Engenharia Naval e Oceânica pela COPPE/UFRJ/Vice-Coordenador do CENAV. Alexandre de Macêdo Wahrhaftig, Engenheiro Civil, Doutor em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP/ Professor do CENAV Os textos assinados e aqui publicados são de exclusiva responsabilidade de seus autores, podendo não representar a opinião do Conselho Editorial ou mesmo da Diretoria do IPB. Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 4 1 ESTABILIDADE DAS ENCOSTAS Sylvio de Queirós Mattoso, DSc, Geociências Engenheiro de minas e metalurgista Abstract: landslides in mountainous regions are natural phenomena which can also be triggered by human activity. A brief comment on the time concept for geologists is presented to facilitate the understanding of how present Earth topography was built. The author, considering the climate change that Earth is undergoing, believes that more landslides can be expected in the next 20 to 50 years, which call for a better mapping to forecast their occurrence and prepare better plans for land occupation. Thus education, science, technology and keen social political feeling will be strongly called for from now on so as to avoid more deaths and high costs of accidents. Resumo: escorregamento de encostas em regiões montanhosas são fenômenos naturais que podem ser acionados pela atividade humana. O conceito de tempo geológico apresentado pelo autor a fim de facilitar a compreensão da origem das atuais formas de relevo da Terra. O artigo mostra que as mudanças climáticas em curso tornarão mais freqüentes os escorregamentos de terra nas regiões montanhosas. Essa previsão torna necessário, desde já, o planejamento da ocupação humana, sobretudo em cidades de topografia acidentada como Salvador e nas regiões montanhosas do Brasil. O artigo conclui que Educação, Ciência e tecnologia e Tirocínio sócio - político são cruciais nos próximos anos. Palavras- Chave: observar, pensar, planejar, agir Key words: record what you see, think plan, act. Introdução – Escorregamentos de encostas são fenômenos absolutamente naturais, e vêm ocorrendo sem qualquer traço de que a ocupação humana tenha contribuído para a formação de numerosos espetáculos da natureza. As formas de relevo, como as que vemos ao norte de Porto Alegre e que se estendem a Santa Catarina e Paraná, com vales bem profundos, e paredes quase verticais, bastante parecidas com as que também são vistas em Mato Grosso, e na Chapada Diamantina da Bahia embora menos imponentes, são tão belas quanto o gigante Grand Canyon do rio Colorado nos Estados Unidos. Também são naturais as formas como o Pão de Açúcar, Urca, Corcovado, Mesa do Imperador na cidade do Rio de Janeiro e o Dedo de Deus, entre Petrópolis e Teresópolis. Tudo resulta da própria formação da Terra que esculpiu o relevo original. Com o tempo, a erosão se encarrega de dar outras formas ao relevo da Terra, no que é ajudada pela movimentação da crosta terrestre sobre o manto. Em seguida, as chuvas, os ventos e a neve, atuando sobre a cobertura vegetal, cujo porte e densidade de cobertura variam em função do clima em cada região, imprimem irregularidades no relevo da superfície de nosso planeta e modelam as paisagens que apreciamos e que são o resultado final dos eventos ocorridos durante a história geológica da Terra. Os acidentes físicos que nos perturbam ocorrem quando nossas observações são escassas, quando os estudos geológicos e geomorfológicos são insuficientes, de modo que a ausência de prevenção pode levar, Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 5 ou leva fatalmente, aos acidentes de escorregamento de terra que podem custar vidas e causar prejuízos econômicos bastante graves. Com as mudanças climáticas hoje em curso, prevê-se que períodos de chuvas, secas e ventos mais intensos ocorrerão nos próximos quarenta anos. Entre outras consequências, a alteração na cobertura vegetal, originada por essas mudanças no clima, poderá agravar o resultado da má gestão ambiental pela população em geral e pela sociedade, aí necessariamente incluída a classe política que tem responsabilidade pela educação e medidas de prevenção de catástrofes. A sociedade que se organize e se cuide. Nosso conceito de tempo e da história da Terra - Acredito que compreender a escala de tempo geológico é importante para desenvolver este tema. A Terra existe há quase cinco bilhões de anos. Pode ser difícil introjetar e assimilar esse conhecimento, essa dimensão do tempo. O contraste é demasiado amplo para o tempo de vida humano. Vamos imaginar algumas situações em que usamos o tempo: - O interior da Terra está a uma temperatura próxima de dois mil graus Celsius. Essa era possivelmente a temperatura da Terra há cinco bilhões de anos. - Se a temperatura baixasse a uma velocidade de 1º C a cada cem séculos, quanto tempo levaria para atingir algo como 20º C? Resposta: 10.000 x 1.980 = 19.800.000 séculos ou 1.980.000.000 anos, isto é, pouco menos de metade da idade da Terra. Evidência de vida sobre a Terra sugere que esse ambiente propício teria ocorrido há algo como um bilhão de anos. Os movimentos internos no nosso planeta e seus efeitos - É comum encontrar regiões da Terra que estão submetidas a uma elevação de 2cm por século (velocidade medida, por exemplo, no mar Báltico, entre Suécia, Finlândia, Polônia e outros cinco países banhados por esse mar). Significa que se existir uma caverna a 1.000 metros de profundidade nesse mar, ela atingirá a superfície da terra em 5.000.000 (cinco milhões) de anos. Essas velocidades de elevação podem também ser de abaixamento da superfície, o que permite acumular vários milhares de metros de sedimentos em lagos e nos oceanos e depois ter esses mesmos sedimentos expostos à superfície também acima do nível do mar. Os movimentos da terra não são permanentemente para baixo nem continuadamente para cima. Localmente os abaixamento e levantamento podem acontecer com maior rapidez, como no caso do Templo de Júpiter, na Itália, e do Farol de Alexandria, no Egito, que ficaram sob quase dez metros de água no Mediterrâneo em um intervalo de tempo que pouco ultrapassou um milênio. Se as denominadas rochas sedimentares estão acima do nível do mar, muitas vezes em cotas superiores a mil metros, significa que essa região foi submetida, primeiramente a um abaixamento quando se formaram as camadas sedimentares, e depois a um levantamento, quando a erosão pode nos presentear com paisagens como o Grand Canyon do Colorado ou seus assemelhados na chapada Diamantina da Bahia e os planaltos andinos da Bolívia. Quando os sedimentos acumulados, por efeito do movimento descendente da crosta atingem espessuras que ultrapassam algo como 20.000 metros. Nos sedimentos da base a temperatura (que se eleva cerca de 1º C a cada 33 m de profundidade) vai atuar e mudar a composição mineral dos sedimentos mais profundos. Aos 30.000 metros de profundidade, por força dos movimentos da crosta e também do acúmulo de sedimentos, os minerais começarão a fundir nas camadas ou níveis mais profundos, originando minerais Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 6 novos e se incorporando ao manto, fluido. Este, em seu movimento continuado vai, ocasionalmente, em busca de locais de temperatura mais baixa, pressionando para cima e originando vulcões com derrame de lava na superfície do terreno. Ainda um aceno ao que podemos pensar sobre velocidade - A Terra gira a uma velocidade, na linha do equador, de pouco mais de 1.685 km/hora. Nossa velocidade a pé está um pouco abaixo de 5 km por hora. As chuvas removem algo como 5 a 20 cm de solo por século (ou um metro a cada 5 a 40 séculos isto é, mil a quatro mil anos), e esses detritos de solo e rochas são transportados pelos rios para os oceanos e lagos. Significa que um lago de 100 metros de profundidade pode ser preenchido de terra (sedimento) totalmente em cinquenta mil a duzentos mil anos. No centro da Terra temos um núcleo fundido de Ferro e Níquel e acima desse núcleo temos um material fundido (chamado de magma) que envolve o núcleo e fica por baixo da crosta. A crosta como que flutua sobre esse magma, o qual está sempre em movimento. Esse movimento do magma altera a forma superficial dessa crosta, com partes se levantando, partes se abaixando e partes se rachando “escorregando” por cima de outras (placas tectônicas) e ocasionalmente deixando esse magma atingir a superfície da crosta, que é também a superfície da Terra. Quando o magma se derrama pela superfície temos o que se chama de lava (lava vulcânica). A fértil terra roxa de São Paulo e Paraná resulta da alteração dessas lavas (basálticas) em contato com a atmosfera e a matéria orgânica. Como curiosidade, essas lavas sustentam rochas sedimentares mais novas (portanto por cima delas) e na região do rio Paraná, na fronteira de São Paulo com Mato Grosso) atingem espessura bem superior a mil metros. As lavas resfriadas formam rochas normalmente impermeáveis, em contraste com os sedimentos que são permeáveis e porosos. O relevo resultante desses movimentos de soerguimento da crosta e de erosão pelas águas (chuvas), associado aos movimentos que produzem fraturas dá origem ao relevo que forma hoje a paisagem da superfície terrestre. A posição relativa das rochas e seus diferentes graus de coesão e dureza explicam parte das diferenças na topografia: regiões de planícies quase horizontais, ou de encostas suaves ou encostas íngremes, a presença de picos salientes, cônicos ou mais abaulados modelados e em constante alteração de forma e altura devido à ação da erosão pelas águas da chuva. O tipo de cobertura vegetal, que pode ser mais ou menos ralo, mais ou menos denso, vai depender do tipo de clima. A mudança de clima pode afetar a natureza original da vegetação. A formação dos solos - Os solos são o resultado de um complexo de reações químicas: a reação da água da chuva, dos compostos químicos produzidos por bactérias no e do solo (ação de matéria orgânica), e dos dejetos animais, com as rochas. O solo é, portanto, rocha alterada. A natureza do solo (mais argiloso ou mais arenoso) depende ainda da composição mineralógica original da rocha que lhe deu origem. A fertilidade do solo depende da composição mineralógica da rocha da qual se originou e sobre a qual o solo se formou. Em regiões de clima mais úmido os solos são mais espessos que em clima seco. Na parte mais úmida do Recôncavo e na faixa litorânea da Bahia os solos (denominados residuais) podem ultrapassar 15 metros de espessura sobre a rocha dura que lhe deu origem. Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 7 Como, numa mesma região, o clima é bastante irregular, com períodos em que as chuvas são mais intensas e demoradas, alternando de modo também bastante irregular com os anos chuvosos e chuvas mais ou menos intensas, o solo fica sujeito a um desgaste que varia com a natureza e permeabilidade e porosidade do próprio solo, com a inclinação do terreno e das encostas e com o tipo da cobertura vegetal. Árvores de raízes pivotantes (uma raiz que se adentra no solo verticalmente) dão à árvore maior resistência ao vento e, ao mesmo tempo, podem dar mais sustentação ao solo do que árvores com raízes subhorizontais. Escorregamento de encostas. Origem do relevo - Essas considerações e comentários, sobre os movimentos naturais da Terra, mostram que escorregamentos de encostas existirão mesmo sem a presença de atividade humana. Quanto mais extensas e inclinadas forem as encostas, mais facilmente ficam sujeitas a escorregamentos. Entretanto, as pessoas podem contribuir para acelerar um processo de escorregamento (erosão) com qualquer obra simples como um pequeno corte (barranco) de terreno para construir sua casa, com a alteração que fizer na densidade ou natureza da cobertura vegetal, com a construção de um muro que desvia e atrasa o curso do escoamento superficial da água e favorece a infiltração no terreno. A topografia de qualquer região pode mostrar sinais claros de escorregamentos pretéritos: o Pão de Açúcar, os morros da Urca e Corcovado no Rio de Janeiro são testemunhas do escorregamento espontâneo anterior à ocupação da região. No caso particular do Pão de Açúcar, é fácil imaginar que as ondas do mar desgastando o solo na base do morro facilitaram seu desnudamento, Como se formaram os canyons encontrados no rio Colorado, em Santa Catarina e na Chapada Diamantina e vizinhanças? Os rios escavam progressivamente seus leitos que vão ficando cada vez mais fundos; a encosta, inicialmente na vertical, cada vez que o rio em seu leito desgasta a base na margem, desequilibra e lá vem um desmoronamento despejando uma fatia vertical de rochas de média e/ou pequena coesão no leito do rio. Uma encosta com solo espesso (situação comum em Salvador) desenvolvido sobre uma rocha dura, impermeável, situação também freqüente encontrada em Salvador, assim como na região de Itaberaba e inúmeras outras no interior da Bahia, depois de chuvas intensas fica pesado por causa da água infiltrada acumulada. Essa água acumulada que se infiltra eleva o peso do material do solo e, se não tiver mais como se infiltrar para baixo, atua como uma espécie de lubrificante entre o solo e a rocha impermeável que forma sua base e traz o solo morro abaixo, tal como ocorre em Salvador e no Recôncavo em geral quando as chuvas são demoradas e intensas. Pequenos abalos sísmicos podem acionar os desmoronamentos. Ventos muito fortes capazes de derrubar árvores podem viabilizar os desmoronamentos ao desnudar o solo. O relevo é dinâmico, em constante alteração - Em resumo, o relevo a Terra está em constante adaptação às condições naturais de processos que se desenvolvem por milhares e/ou milhões de anos. Os processos naturais podem ser acelerados pela atividade humana. Há então necessidade de aliar a observação com a inteligência, fazer conjecturas, imaginar várias possibilidades, de modo a prever as mais graves que poderão ocasionar acidentes e assim tentar evitá-los. Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 8 Prevenindo escorregamentos - Em Salvador, ao começar a ocupação de terrenos com encostas inclinadas, a administração pública deveria intervir providenciando arruamento e orientando a ocupação do solo a fim de prevenir acidentes graves. O arruamento e obras de contenção já representam uma orientação aos que vierem a construir na área. Educação voltada para fortalecer a associação dos moradores é importante para que a população local saiba que devem evitar construir muros e jogar lixo nas ruas que possam acumular água, barrar o movimento das águas superficiais e dificultar o escoamento da água da chuva. Também o peso do lixo jogado na encosta e saturado de água da chuva, soma-se ao peso do solo também “encharcado” de água que se infiltrou e termina por atingir a condição favorável para iniciar um escorregamento da encosta, destruindo casas, provocando mortes e ferimentos nas pessoas do lugar. E, muitas vezes, dificultando a chegada de socorro. A título de ilustração, embora não seja o nosso caso, mas qualquer um pode imaginar o efeito da acumulação de neve nas montanhas dos Alpes, dos Andes, dos Apeninos, dos Urais, dos Pirineus, do Himalaia e em todas as cordilheiras de montanhas no mundo mostradas em cinema. As avalanches de neve nas encostas se assemelham, dentro de certos limites, aos escorregamentos de solos nas encostas de morro no Brasil. Os escorregamentos nas encostas são fenômenos naturais que podem ser acionados antes do tempo como resultado da ocupação humana não planejada ou planejada de modo inadequado. As encostas estão em um equilíbrio natural que pode ser rompido de modo absolutamente natural. O relevo que temos hoje, em áreas não construídas resulta de alterações naturais e sucessivas do equilíbrio, mal comparando, como o equilíbrio dos dentes de leite de uma criança. Apenas a título de ilustração comparativa, a queda dos dentes de uma criança pode ser acelerada, mas tem um tempo natural para o dente soltar da gengiva e cair. Atenção às mudanças climáticas. Fim da estabilidade climática dos últimos doze mil anos - Número 1 recente da revista norte americana NEWSWEEK publicou um artigo que ilustra muito bem o que podemos esperar no futuro como consequência das irregularidades do clima que parece estão se acentuando nos últimos anos e prometem muito mais desdobramentos no futuro. Nos Estados Unidos quase um milhar de tornados devastaram muitas áreas, registrando mais de 500 mortos e perdas que atingiram US$9 bilhões, este ano. O meio Oeste daquele país teve o maior índice de umidade dos últimos 116 anos. Na Rússia, a seca respondeu pela morte de algo como 15.000 pessoas há dois anos. Enchentes mais recentes no Paquistão e na Austrália foram responsáveis por 2.000 vidas. O longo período de seca ocorrido recentemente na China devastou milhões de hectares de terras cultivadas. Esses eventos sugerem que a estabilidade climática dos últimos doze mil anos desapareceu, não mais existe. Não podemos contar com clima estável. Nos próximos 30 a 50 anos, com uma boa proporção de população existente na Terra hoje (para testemunhar essas previsões), o derretimento do gelo polar aumentando o “upsurge” (borbulhar) de águas frias nos oceanos, certamente causará transtornos climáticos acentuados, junto com a simultânea elevação do nível dos oceanos. Prevê-se que as chuvas de maior intensidade irão agravar os escorregamento nas encostas de várias partes dos Estados Unidos e, com a elevação do nível dos mares na Califórnia, já começam a preparar novo traçado para a Rodovia conhecida como Highway 1, muito próxima do litoral e 1 Nature’sfury, autor Sharon Begley, Newsweek, June 06,2011, pp28-34 Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 9 que terá de ser reprojetada e construída mais para o interior. O território do Brasil está sujeito aos mesmos fenômenos. Planejar é essencial. Agir também – Essas são as palavras chave deste texto. Esses tipos de evento estão levando os líderes da sociedade a cuidar para que ações sejam tomadas já, a fim de enfrentar o desaparecimento de algumas ilhas e a invasão do continente pelas águas do mar que está se elevando em velocidade crescente nos próximos 30 a 50 anos. Entretanto, somente 14 estados do país (EUA) têm planos, alguns já em execução, para enfrentar os efeitos dessas mudanças de clima. Pergunto: alguém no Brasil está ciente desses problemas? Estão agindo ou pelo menos influindo a sociedade para que cuidemos logo do futuro? De que modo entidades como o IRAE, ou o Rotary, poderão contribuir para disseminar o conhecimento sobre esse tema e ajudar a minimizar ou até evitar, inundações e escorregamentos de encostas e outros efeitos mais graves das mudanças climáticas em curso? As mudanças de temperatura farão sentir seus efeitos não somente nas pessoas, mas também nas plantas e nos animais. Doenças mais características de climas mais quentes, como a malária, poderão aparecer em regiões hoje com clima frio. As cidades de clima mais frio nos Estados Unidos já se dispõem a plantar mais árvores na área urbana (e várias cidades de lá já estão fazendo isso), pois grama é mais bem-vinda nos climas frios e temperados, enquanto árvores têm forte efeito moderador de temperatura em regiões tropicais, como é o caso do Brasil. Em 2020 já se espera uma temperatura cerca de 1º C mais alta do que hoje. Podemos esperar, no Brasil, nos próximos 20 a 40 anos, mais inundações e mais graves que no passado, escorregamentos de terra naturais mais freqüentes o que obriga a um cuidado maior na proteção da população de zonas rurais próxima de cidades montanhosas como Rio de Janeiro, assim como Salvador e outras pelo Brasil afora. Nossa posição como celeiro do mundo ficará ameaçada se não agirmos em tempo. Livro recente da EMBRAPA sobre “Mudanças climáticas” parece ser a primeira manifestação oficial a esse respeito em nosso país. As cidades litorâneas terão de fazer investimentos pesados para se prevenir das inundações causadas pela elevação do nível do mar. Por exemplo, a parte sul da cidade de Nova Iorque exige investimentos para proteger as fundações dos edifícios e reconfigurar as vias de circulação para tráfego de barcos, como em Veneza na Itália. Isso já está sendo feito naquela metrópole. Além da elevação do nível dos oceanos (entre 3 e 4 metros), temos ainda de lidar com eventuais zonas de subsidência, em que áreas expressivas estão abaixando e tendendo a submergir. Em vários pontos do litoral isso já é evidente no Brasil. Educação, ciência e tecnologia e tirocínio sócio - político são cruciais nos próximos anos. A Era do Conhecimento que estamos vivendo, mas que muitos menosprezam, precisa valorizar mais ainda a educação, o conhecimento. Conhecimento é poder, mas poder de debater, poder de sugerir, poder de escolher equipe competente de pessoal e poder de resolver os problemas que brevemente teremos de enfrentar como resultado do chamado “efeito – estufa”. Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 10 Estamos preparados para o futuro? - Em Salvador temos de estar preparados para agir com antecedência, reservando áreas para expansão da cidade, com efetivo planejamento urbano, ruas largas e arborização de encostas com árvores de raiz pivotante e drenos subterrâneos do tipo usado em cortes rodoviários, com tubos porosos para recolher as águas do subsolo da encosta e desviá-las para locais adequados. Essa experiência de reservar áreas para bairros novos já foi feita no passado, no governo Roberto Santos, em Cajazeiras e Mussurunga e, creio também, em Cají. Com os conhecimentos acumulados sobre as mudanças climáticas que já estão em curso, com os escorregamentos já mapeados e mais a experiência que temos com o tráfego em Salvador hoje, há necessidade e urgência de projetar bairros novos com escolas, centrais de polícia e centros de saúde, tal como também se fez nos bairros citados. Se essas providências deixarem de ser tomadas com a urgência devida poderá ser considerado um testemunho de ignorância e incapacidade de governar. EMAIL - [email protected] REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS Begley, Sharon – Nature’s fury, Newsweek (revista semanal), June 06, 2011, PP. 28-34, New York, NY – Estados Unidos Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 11 2 DO “ENÍGMA BAIANO” À INDUSTRIALIZAÇÃO DA BAHIA Fernando Alcoforado∗ Abstract: this article aims to present the factors that contributed to overcome the so-called “Enigma of Bahia” with the onset of industrialization of the State of Bahia in the second half of the twentieth century. Resumo: este artigo tem por objetivo apresentar os fatores que contribuíram para superar o denominado “Enigma Baiano” com o desencadeamento do processo de industrialização do Estado da Bahia na segunda metade do Século XX. Keywords: the “enigma of Bahia”, the industrialization process in Brazil, the industrialization process in the state of Bahia Palavras-chave: o “enigma baiano”, o processo de industrialização no Brasil, o processo de industrialização no estado da Bahia 1. O “enigma baiano” Durante a primeira metade do Século XX, aventou-se a existência de um suposto enigma envolvendo o crescimento da atividade industrial no Estado da Bahia, que possuía dinâmica oposta em relação ao vertiginoso desenvolvimento industrial que estava ocorrendo nas regiões mais dinâmicas do país, ou ∗ Fernando Alcoforado, Doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, Graduado em Engenharia Elétrica pela UFBA - Universidade Federal da Bahia e Especialista em Engenharia Econômica e Administração Industrial pela UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi Secretário do Planejamento de Salvador (1986/1987), Vice-Presidente da ABEMURB – Associação Brasileira das Entidades Municipais de Planejamento e Desenvolvimento Urbano (1986), Subsecretário de Energia do Estado da Bahia (1988/1991), Diretor de Relações Internacionais da ABEGÁS - Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Gás Canalizado (1990/1991), Coordenador do Programa Nacional do Dendê- PRONADEN (1991), Presidente do Clube de Engenharia da Bahia (1992/1993), Presidente do IRAE- Instituto Rômulo Almeida de Altos Estudos (1999/2000) e Diretor da Faculdade de Administração das Faculdades Integradas Olga Mettig de Salvador, Bahia (2003/2005). É atualmente professor universitário e consultor de organismos públicos e privados nacionais e internacionais nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos. Foi articulista de diversos jornais da imprensa brasileira (Folha de S. Paulo, Gazeta Mercantil, A Tarde e Tribuna da Bahia), publicando artigos versando sobre economia e política mundial e brasileira, questão urbana, energia, meio ambiente e desenvolvimento, ciência e tecnologia, administração, entre outros temas. É autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010) e Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) , entre outros. Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 12 mesmo em alguns estados do Nordeste, como era o caso de Pernambuco. Esta estagnação do setor industrial do Estado da Bahia fez com que sua economia perdesse importância no contexto da produção industrial do Brasil durante as décadas de 1940 e 1950. Esta situação vivida pela Bahia foi estudada durante as décadas seguintes por diversos autores, entre eles, Pinto de Aguiar que a denominou de "Enigma Baiano". As bases da superação do “Enigma Baiano” foram delineadas entre as décadas de 1950 e 1970, quando o Estado da Bahia passou por um processo sistemático de planejamento que resultou no desencadeamento do processo de industrialização do Estado da Bahia, no qual se destaca a contribuição do Plano de Desenvolvimento da Bahia — PLANDEB, elaborado sob o comando do economista Rômulo Almeida com base em estudos desenvolvidos por técnicos da recém-criada Comissão de Planejamento Econômico – CPE, bem como do Fórum Econômico “Luiz Tarquínio”, promovido pela Federação das Indústrias do Estado Bahia (FIEB) no qual foi relevante a participação do engenheiro José Goes de Araújo que, como relator do tema “Petroquímica”, apresentou suas conclusões apoiadas em estudos por ele aprofundados sobre a indústria química e petroquímica dos Estados Unidos e que foram úteis na implantação da indústria petroquímica na Bahia. 2. O processo de industrialização no Brasil Ressalte-se que até 1930, era insignificante a participação da indústria na economia brasileira. A Primeira Guerra Mundial, a crise econômica de 1929 e a Revolução de 1930 criaram, entretanto, as condições para o início do processo de ruptura do Brasil com o passado colonial e a decolagem do processo de industrialização do País. As forças políticas que assumiram o poder no Brasil em 1930 sob a liderança de Getúlio Vargas apoiaram e implementaram um projeto de industrialização com o objetivo de retirar o País do atraso econômico e impulsioná-lo rumo ao progresso com a implantação de um parque industrial próprio, nos moldes das nações européias e dos Estados Unidos. Foi a primeira vez na história do Brasil que um governo fez semelhante opção. Em 1930, torna-se vitoriosa a ideologia do nacionalismo: desenvolvimento autônomo com forte base industrial. A industrialização se desenvolveria através do processo de substituição de importações, isto é, produzindo no país o que antes era importado do exterior. Na primeira fase da industrialização de 1930 a 1940, a ênfase foi na produção de bens de consumo imediato (bens não-duráveis). Com base no Programa de Metas do governo Kubitschek, a partir da segunda metade da década de 1950, foi implementada a segunda fase do processo de industrialização no Brasil com a produção de bens de consumo duráveis como o setor mais dinâmico da economia brasileira. O Programa de Metas, ao optar pela indústria de bens de consumo duráveis, significou o abandono do projeto do governo de Getúlio Vargas no período 1950/1954 que era orientado para a implantação e expansão da indústria de base, a produção de bens de capital. A implantação da indústria automobilística, na segunda metade da década de 1950, representou o passo mais importante dessa fase seguido da indústria de eletrodomésticos e eletroeletrônica. Em meados da década de 1950, a industrialização brasileira toma novo rumo. Até então, o processo de industrialização avançara sob a liderança da empresa Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 13 brasileira. A partir daí, o capital estrangeiro vai assumir, progressivamente, o controle dos ramos mais dinâmicos da economia brasileira. Os desequilíbrios regionais se acentuaram durante o governo Kubitschek porque o esforço de industrialização do Brasil concentrou-se no Sudeste do país. Foi o desequilíbrio entre o Nordeste e o Sudeste que fez com que o governo Kubitschek constituísse o GTDN — Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste e dele resultasse a criação da SUDENE, que elaborou em 1961 um plano qüinqüenal que se apoiava em transferências líquidas de fundos do Sudeste para o Nordeste, bem como em recursos proporcionados pelos Estados Unidos. Cabe ressaltar que, de 1930 a 1970, o processo de integração nacional estimulou enormemente o desenvolvimento de todas as regiões do país. A criação da SUDENE no Nordeste e da SUDAM e SUFRAMA na Amazônia com os incentivos fiscais intensificaram a migração do capital produtivo para aquelas regiões. Os turbulentos anos vividos pelo Brasil a partir de 1960, durante o governo João Goulart, foram vazios de qualquer linha consistente de política econômica. A grande expansão econômica registrada no Brasil durante o governo Kubitschek chegou ao fim com o advento da estagnação que se prolongou de 1962 até 1967. De 1968 a 1973, durante a ditadura militar, o Brasil experimentou elevadas taxas de crescimento econômico, gerando um clima de otimismo geral logo batizado como “o milagre econômico” e a indústria constituiu o principal setor no surto de desenvolvimento iniciado em 1968. Percebe-se, pelo exposto, que a experiência desenvolvimentista recente no Brasil teve no governo federal seu principal agente e como seu principal suporte o processo de industrialização. A substituição de importações no processo de crescimento industrial levou a uma tendência contra o uso de tecnologias que absorviam grande quantidade de mão-deobra. O crescimento industrial contribuiu para o aumento substancial na concentração de renda devido ao uso intensivo de capital pelas indústrias. O processo de industrialização no Estado da Bahia No período entre 1950 e 1970, o Estado da Bahia passou por um processo sistemático de planejamento, no qual se destaca como seminal, o Plano de Desenvolvimento da Bahia — PLANDEB (concluído em 1959 e contemporâneo do planejamento elaborado por Celso Furtado para o Nordeste) sob o comando do economista Rômulo Almeida, então Secretário da Fazenda) durante o governo Antonio Balbino, que foi elaborado com base em estudos desenvolvidos por técnicos da recém-criada Comissão de Planejamento Econômico – CPE, que projetou um setor industrial objetivando um equilíbrio entre a produção de bens de consumo e de capital, além de enfatizar a prioridade para a especialização das grandes empresas produtoras de bens intermediários, aproveitando alguns recursos naturais à época abundantes na região, como o petróleo. O PLANDEB propunha projetos que integrariam de forma sistêmica os setores agrícola, industrial e comercial, objetivando o desenvolvimento equilibrado do Estado da Bahia sendo responsável pela “estratégia de desconcentração concentrada” que preconizava a industrialização da Bahia mediante a sua inserção no projeto nacional de desenvolvimento posto em prática pelo governo federal. A estratégia do PLANDEB contemplava a atração de grandes empresas produtoras de bens intermediários que atuariam como pólos do desenvolvimento industrial juntamente com as empresas produtoras de bens finais que se instalariam a jusante nos centros e distritos industriais criados para abrigá-las, tanto na Região Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 14 Metropolitana de Salvador quanto nas cidades do interior. Entre 1970 e 1980, com financiamentos a juros subsidiados, isenção de impostos e incentivos fiscais com o aporte de consideráveis recursos públicos a fundo perdido oriundos dos organismos de fomento ao desenvolvimento do país, foram implantados os distritos industriais do interior e da RMS (o Centro Industrial de Aratu e o Complexo Petroquímico de Camaçari) e montado o parque produtor de bens intermediários concentrados nos segmentos da química/petroquímica e dos minerais não-metálicos. De 1980 até o momento atual concretizou-se efetivamente a implantação do Complexo Petroquímico de Camaçari em conseqüência da evolução do setor petrolífero e químico do Brasil. Após a elaboração do PLANDEB, é importante destacar a contribuição do Fórum Econômico “Luiz Tarquínio” promovido pela Federação das Indústrias do Estado Bahia (FIEB), realizado de 14 a 21 de maio de 1961, no desencadeamento posterior do processo de industrialização do Estado da Bahia. Este Fórum teve por objetivo o equacionamento dos aspectos fundamentais da economia baiana, cujo temário contemplou: 1) produção agrícola; 2) produtividade; 3) problemas fiscais; 4) industrialização; 5) investimentos básicos; 6) comércio exterior; e, 7) comunicações. No que concerne ao item 4 (industrialização), cabe destacar a importante contribuição do engenheiro José Goes de Araújo que foi indicado pelo presidente da FIEB como autor do tema “Petroquímica”. Como relator do tema “Petroquímica”, o engenheiro José Goes de Araújo demonstrou a semelhança existente entre as condições existentes na Bahia e em Houston no Texas (Estados Unidos) onde existia um Pólo petroquímico, além de apresentar, apoiado em estudos por ele aprofundados sobre a indústria química e petroquímica dos Estados Unidos. As conclusões do engenheiro José Goes de Araújo sobre o tema “Petroquímica” estão descritas a seguir: 1) Sem sombra de dúvida, a Petroquímica abrirá caminho para a industrialização da Bahia; 2) Seus produtos impulsionarão direta ou indiretamente nossa Agricultura, Pecuária, Mineração e Indústria; 3) Obrigará uma revisão no sistema ferroviário principalmente para as zonas de mineração; 4) Exigirá mais quilômetros de estradas pavimentadas, intensificando o tráfego rodoviário; 5) A demanda de energia permitirá maiores investimentos em centrais elétricas e sistemas de distribuição; 6) Aumentará o volume de exportações para outros Estados, exigindo melhores aparelhagens portuárias; 7) A nossa balança comercial com os Estados Sulinos será possivelmente equilibrada; 8) A arrecadação do Estado e Municípios não será diretamente beneficiada devido a possíveis isenções, porém será indiretamente pela comercialização; 9) Haverá mais procura de mão-de-obra, na zona industrial, como também nas zonas de mineração e de produtos agrícolas auxiliares; 10) Incentivo às profissões técnicas, como engenheiros- Químicos, Geólogos, Metalúrgicos, Engenheiros de Minas, Agrônomos, etc.; 11) Concentração de investimentos na Bahia de capital estrangeiro, nacional, público ou privado; 12) A renda per capita tenderá a se elevar; 13) A participação na renda bruta nacional que diminuiu de 11% para 9,6% (Nordeste) melhorará; e, 14) É mais rentável para a Petrobrás utilizar o óleo combustível e o gás natural para produtos petroquímicos do que como combustível. As conclusões do engenheiro e professor José Goes de Araújo se confirmaram na prática com a implantação da indústria petroquímica no Estado da Bahia que se transformou no “carro-chefe” da industrialização da Bahia. A partir da década de 1970, no contexto da política do governo federal de substituição de importações, a Bahia foi contemplada com vários projetos industriais que tinham por objetivo a produção de bens intermediários (intensivos em capital e tecnologicamente modernos) complementar à matriz de produção já desenvolvida na região Sudeste do país. O processo de industrialização da Bahia baseado na indústria de bens intermediários começou com a implantação da Refinaria de Mataripe na Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 15 década de 1950, aproveitando-se da disponibilidade de petróleo existente no Estado, com a formação de um complexo mínero-metalúrgico em Candeias na década de 1960, a implantação do CIA — Centro Industrial de Aratu, do Complexo Petroquímico de Camaçari e da metalurgia do cobre no início da década de 1980. Conclusões O “Enigma Baiano” foi desvendado e superado com o desencadeamento do processo de industrialização que ocorreu tardiamente no Estado da Bahia em comparação com os países líderes do capitalismo mundial, com uma defasagem de cerca de 40 anos em relação ao que aconteceu em São Paulo no Brasil. A industrialização processada no Estado da Bahia se realizou na década de 1970 com base nos fundamentos do taylorismo e do fordismo, isto é, com o uso de plantas industriais baseadas na produção padronizada em massa e na economia de escala. A quase totalidade dos recursos foi destinada às indústrias químicas, petroquímicas e metalúrgicas de grande porte. Havia a expectativa que não se realizou de que a indústria petroquímica viabilizaria no Estado da Bahia a implantação de indústrias menores locais a montante e a jusante. No entanto, essas indústrias a montante aconteceram em pequeno número e aquelas a jusante voltadas à produção de bens finais não foram implantadas fazendo com que os efeitos multiplicadores da indústria fossem menores do que o previsto. Essas indústrias de bens finais se instalaram, sobretudo em São Paulo, principal mercado consumidor do Brasil. Apesar de ter produzido sobre a economia baiana efeitos multiplicadores menores do que o esperado, a indústria petroquímica produziu aumento da massa salarial com os empregos diretos oferecidos, crescimento da renda local com a contratação de serviços e incremento da arrecadação de impostos do governo em todos os seus níveis. Durante e após a implantação da indústria petroquímica na Bahia, produziram-se grandes mudanças na RMS — Região Metropolitana de Salvador, com o incremento do processo de urbanização e o adensamento populacional, sobretudo em Salvador, e a realização de investimentos imobiliários e de infra-estrutura urbana. CONTATO Email - [email protected] Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 16 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALCOFORADO, Fernando. Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia. Tese de doutorado. Barcelona: Universidade de Barcelona, 2003. (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003). ARAÚJO, José Góes de. Petroquímica e industrialização da Bahia. Salvador: Fórum Econômico Luiz Tarquínio, 1961. CANO, Wilson. Desequilíbrios regionais e concentração industrial no Brasil. Campinas: Unicamp, 1998. FÓRUM LUIZ TARQUÍNIO. A Bahia tem condições para indústria pesada. Salvador: A Tarde, 1961. FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil. 22ª edição. São Paulo: Editora Nacional, 1987. SPINOLA, Noélio Dantaslé. A implantação de distritos industriais como política de fomento ao desenvolvimento regional: o caso da Bahia. Salvador: Revista de Desenvolvimento Econômico, Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 17 3 A ENGENHARIA NAVAL NA BAHIA: FORMAÇÃO E CAPACITAÇÃO Ademar Nogueira Nascimento, Engenheiro Químico, Doutor em Engenharia Química pela UNICAMP /Coordenador do CENAV. Henrique José Caribé Ribeiro, Engenheiro Naval, Doutor em Engenharia Naval e Oceânica pela COPPE/UFRJ/ Vice-Coordenador do CENAV. Alexandre de Macêdo Wahrhaftig Engenheiro Civil, Doutor em Engenharia Civil pela Escola Politécnica da USP/ Professor do CENAV.. Abstract: this work evaluates the conditions of provision of training courses and training in Naval Architecture and Marine Engineering fields at Polytechnic School of the Federal University of Bahia – hereafter UFBA – specifically with considerations on the Specialization Course in the same field CENAV, and their possible impacts on the marine segment in Bahia. Resumo: o presente artigo avalia as condições de oferta de cursos de capacitação e formação em Engenharia Naval na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (UFBA), especificamente tecendo considerações sobre o Curso de Especialização em Engenharia Naval – CENAV – e seus possíveis impactos no segmento naval baiano. Keywords: naval Architecture, marine engineering. specialization, undergraduate program, polytechnic school. Palavras chave: engenharia naval, especialização, graduação, escola politécnica. Introdução Segundo o Ministério de Educação e Cultura do Brasil – MEC (1) encontram-se instalados em suas respectivas Universidades Federais, cursos de graduação em Engenharia Naval apenas nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Pará, mas a partir deste ano (2011) foi também instalado na Universidade Federal de Pernambuco (2). O Rio Grande do Sul, através da Universidade Federal do Rio Grande, também iniciou recentemente o curso de graduação na área naval, contudo apenas como uma extensão da engenharia mecânica, denominado de Engenharia Mecânica Naval (3). Uma análise correlacionando a oferta de engenheiros e o Produto Interno Bruto (4) na região nordeste do Brasil revela um grande espaço ainda a ser preenchido por essa formação no Estado da Bahia. Enquanto a Universidade Federal de Pernambuco, por exemplo, pertencente ao Estado com o segundo maior PIB do nordeste (R$70 bilhões), disponibilizou 900 vagas em seus 14 cursos de engenharia ofertados em seus campi da capital e interior, para o próximo vestibular (2012), a Universidade Federal da Bahia, sediada no Estado com o maior PIB do nordeste (R$130 bilhões), quase o dobro do pernambucano, disponibilizou apenas 580 vagas para o mesmo evento, na Capital e interior (Barreiras), em seus apenas 10 cursos de Engenharia (5). Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 18 Evidencia-se, portanto, que a criação de um novo Curso de Graduação, bem como a oferta de cursos de capacitação, a exemplo de especializações, deverão se constituir em importante canal para o desenvolvimento estadual, principalmente nos setores secundário e terciário, repercutindo na força de trabalho e trazendo conseqüências benéficas sobre os aspectos sociais, a exemplo da geração de emprego e renda, trazidos pelos empreendimentos nas áreas naval, e de petróleo, gás, e “offshore”, previstos para a Bahia e o Brasil, todas elas fortemente correlacionadas. Justificativa de oferta Os fundamentos apresentados anteriormente – sobretudo em razão da demanda presente, que já se faz sentir, e da demanda futura em rápida expansão são razões suficientes para que o Estado da Bahia aumente a sua oferta de Engenheiros especializados na área naval e nas correlacionadas. Além do mais, pode-se mencionar aspectos tais como: a) Necessidade de responder aos anseios gerais da sociedade, no sentido do aumento do número de vagas, bem como da criação de novos cursos no sistema público de educação superior, visto que uma expressiva parcela dos jovens brasileiros em idade universitária busca qualificação em instituições particulares, já que o seu acesso ao ensino superior público e gratuito revela-se muito difícil. b) A impulsionada demanda por Engenheiros, conforme as evidentes consultas de Indústrias e outras Organizações baianas, fez com que várias empresas do Pólo Petroquímico de Camaçari, através do Comitê de Fomento Industrial de Camaçari – COFIC, solicitassem à Escola Politécnica da UFBA novas edições de cursos consolidados no passado, a exemplo das áreas de Processamento e Manutenção Petroquímica, recentemente oferecidos nas instalações da referida Escola Politécnica. c) Segundo divulgação da Associação dos Engenheiros da Petrobras – AEPET (6), para se atender às demandas do PAC e do Pré-Sal faz-se necessário a formação de 90 mil engenheiros por ano, mas formamse apenas um terço desse valor anualmente. Apenas para efeito de comparação internacional, estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, citado no mesmo levantamento da AEPET indica que no Japão formaram-se, apenas em 2008, 129.570 engenheiros, o que demonstra o quanto estamos distante de alcançarmos um nível de desenvolvimento tecnológico equivalente a nações com esse perfil. Cabe aqui salientar, que nesse ambiente serão necessários profissionais em diferentes modalidades, mas que a engenharia naval deverá destacar-se em razão das demandas por construções de estruturas “offshore” e de navios que darão sustentação à expressiva produção que deve ser iminente. d) No plano Nacional e Estadual, a Bahia, além de deter o maior litoral do Brasil – aproximadamente 1.200 Km – possui um estaleiro de grande porte, que é o canteiro de São Roque do Paraguassú (consórcio Rio Paraguassú – UTC/ODEBRECHT/QUEIROZ GALVÃO), onde atualmente constroem-se as plataformas de petróleo P-59 e P-60, o estaleiro de reparos de embarcações de médio e grande porte situado na Base Naval de Aratú, que contem um dique-seco para até 40.000 t e um sistema elevador de navios (SELENA) para 1.200 t, e o estaleiro COREMA, de porte médio, especializado em construção de embarcações de até 2.000 t. Além desses estão também em operação vários outros estaleiros de médio e pequeno porte, destacando-se o estaleiro da empresa B3BOAT – localizado no Centro Industrial de Aratu, construindo atualmente lanchas para transporte escolar fluvial na bacia amazônica – e o estaleiro de reparos da BELOV ENGENHARIA. Encontra-se ainda em construção outro estaleiro de grande porte, denominado Estaleiro Enseada do Paraguassú (OAS/ODEBRECHT/UTC), que deverá servir para a construção de navios e módulos de indústrias de petróleo. Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 19 e) Dada a crescente movimentação que vem ocorrendo na área naval, o Governo do Estado criou organismo específico para coordenar e fomentar tais demandas instituindo a Secretaria Extra-Ordinária da Indústria Naval e Portuária - SEINP, atuando na construção de um complexo logístico integrado, que inclui um porto de grande porte, uma ferrovia e um moderno aeroporto no município de Ilhéus. f) Um marco também relativamente recente refere-se à iniciativa do Governo Federal juntamente com empresas privadas, principalmente a PETROBRAS, que instituíram o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás (PROMIMP), cujo objetivo é maximizar a participação da indústria brasileira em bases competitivas e sustentáveis na implantação de projetos no Brasil e no Exterior. Nesse ambiente, a Escola Politécnica da UFBA contribuiu com a oferta de 08 (oito) cursos, todos na área de engenharia, onde foram capacitados 240 profissionais. g) Justamente visando melhorar sua participação para a formação de mão-de-obra qualificada, o Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da UFBA ofereceu entre os anos de 2009 e 2011, o Curso de Especialização em Engenharia Naval (CENAV). Nessa mesma direção, o PROMINP, reconhecendo a importância do Estado da Bahia nessa área, o incluiu na oferta de curso de Especialização em Engenharia Naval para o presente ano, curso que será oferecido em apenas mais três Estados (Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco). h) O Plano de Desenvolvimento Institucional da UFBA advoga claramente pela expansão de vagas na Universidade. A Escola Politécnica também trilha a mesma direção, existindo elementos formais emitidos por sua Direção que evidenciam a preocupação da Instituição com o esforço pela expansão de vagas na engenharia. Tal esforço resultou na criação de 03 (três) novos cursos de graduação em engenharia (Produção, Computação e Controle e Automação), estando-se atualmente em estudo a possibilidade de criação do curso de Engenharia Naval e de Engenharia Metalúrgica, o que consolidaria o ciclo metalmecânico com o já existente Curso de Engenharia Mecânica. Curso de Especialização em Engenharia Naval – CENAV. O objetivo do CENAV é contribuir para o desenvolvimento da capacidade tecnológica da Engenharia Naval no Estado da Bahia, qualificando engenheiros para conduzir a referida indústria naval baiana, focado nas áreas de construção e reparos navais de média e alta complexidade, a partir de atividades práticas, com consistente embasamento teórico. Aprovado pelas instâncias superiores da Escola Politécnica e de Órgãos da Administração Central da Universidade, o Curso é classificado como Pós-Graduação Lato Sensu (Especialização), tendo iniciado suas aulas em setembro de 2009 e finalizado em maio de 2011, apesar de os esforços para tanto datar desde o ano de 2005. Trata-se de um Curso com 18 componentes curriculares, incluindo um trabalho de conclusão, tendo duração total de 680 horas, cuja relação dos componentes encontra-se na Tabela , a seguir: O perfil do corpo discente foi de engenheiros plenos em algumas modalidades, preferencialmente com experiência ou atividade na área naval. Os candidatos inscritos, foram selecionados através da análise de curriculum vitae seguido de entrevista técnica por comissão avaliadora composta por professores. O Curso Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 20 teve o seu horário de funcionamento no turno noturno da sexta-feira, e em horário integral nos turnos matutino e vespertino dos sábados. Ao longo do seu período de realização, além das aulas tradicionais (encontros presenciais em classe), foram realizadas várias visitas técnicas de alunos e professores a estaleiros tanto no Estado da Bahia (COREMA, BASE NAVAL DE ARATU, B3BOAT, SÃO ROQUE DO PARAGUAÇU) bem como em outro Estado (Rio de Janeiro), oportunidade em que vários alunos visitaram instalações de um Estaleiro de Grande Porte (Brasfels), localizado no município de Angra dos Reis. Tabela – Componentes curriculares - CENAV CARGA DISCIPLINA1 4º Per 3º Per 2º Per 1º Per HORÁRIA 1 ENGB97 - REVISÃO BÁSICA 34 2 ENGB98 - INTROD. ENGENHARIA NAVAL 17 3 ENGB99 - ESTRUTURAS NAVAIS 51 4 ENGC01 - ARQUITETURA NAVAL I 34 5 ENGC02 – HIDRODINÂMICA 34 6 ENGC03 - LEGISLAÇÃO E NORMAS 17 7 ENGC04 - METOD. DA PESQ. CIENTÍFICA 17 8 ENGC05 - ARQUITETURA NAVAL II 34 9 ENGC06 - INST. PROPULSORAS E AUX. 34 10 ENGC07 – PRATICAS E CONSTRUÇÕES NAVAIS I 34 11 ENGC08 - CONSTRUÇÃO NAVAL I 51 12 ENGC09 - TECNOLOGIA DE SOLDAGEM 51 13 ENGC10 – CORROSÃO 51 14 ENGC11 - REPAROS NAVAIS 51 15 ENGC12 - CONSTRUÇÃO NAVAL II 51 16 ENGC13 - ORG. ESTAL. E PROCESSOS 51 17 ENGC14 - PRATICAS E CONSTRUÇÕES NAVAIS II 34 18 ENGC15 - PROJETO FINAL DE CURSO 34 Total 680 Outro momento de destaque nesse contexto foram as visitas às instalações da Indústria Química DETEM, localizada no Pólo Petroquímico de Camaçari, com o objetivo de se trabalhar conteúdos ministrados na Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 21 disciplina Corrosão. Deve-se ainda destacar as palestras proferidas por autoridades do segmento da Indústria Naval, a exemplo do Secretário da Indústria Naval e Portuária do Estado da Bahia – SEINP, versando sobre as perspectivas dessa Indústria na Bahia, de experiente Engenheiro da Petrobras, abordando os desafios da engenharia para a exploração do petróleo na camada pré-sal, de Engenheiro do Estaleiro Consórcio Rio Paraguaçu, tratando das excepcionais exigências técnicas para a realização das operações de “load-out” de plataformas, bem como de Engenheiro de Organização Normatizadora (RBNA), debatendo aspectos relacionados à importância de marcos reguladores para a construção e reparos de embarcações navais. No que se refere à aquisição de material técnico de suporte às aulas, podem-se mencionar as dificuldades operacionais para a aquisição de livros específicos da Engenharia Naval. Se por um lado esses títulos não foram encontrados no País, sua importação esbarrou na impossibilidade de emissão de nota fiscal, o que impediria a prestação de contas administrativas. Destaca-se a importância da doação de livros realizada por professores e colaboradores, que foi integralmente encaminhada à Biblioteca da Escola Politécnica. Os alunos tiveram ainda às suas disponibilidades apostilas elaboradas pelos professores com o necessário conteúdo das aulas. No que se refere a disciplinas de caráter básico e geral, encontravam-se disponíveis os títulos do acervo da Biblioteca da Escola Politécnica. Outro destaque digno de nota foi a aquisição de software especializado em projetos de estruturas navais, denominado de “MAXSURF®”, tendo sido os alunos treinados em seu uso. No que se refere à empregabilidade dos egressos, constata-se que o CENAV foi coroado de grande êxito, uma vez que todos os alunos se encontram empregados em diferentes áreas do segmento naval. Observase, contudo, que muitos desses alunos já atuavam em Organizações do segmento, mas que com a conclusão do CENAV foram atraídos por outras empresas do setor com a oferta de melhores condições de emprego, em razão da nova qualificação que foi incorporada em seus currículos. A positiva imagem do CENAV no contexto estadual repercutiu junto ao Comando do 20 Distrito Naval da Marinha do Brasil que convidou o curso a apresentar algumas de suas monografias durante o “Simpósio de Guerra de Minas”, realizado na Base Naval de Aratu em maio/2011. No entanto, esse conceito positivo acabou sendo projetado para além das fronteiras do Estado da Bahia, repercutindo em várias partes do país. Instituições de Ensino sediadas fora da Bahia solicitaram que o curso fosse oferecido em regiões, a exemplo do Rio de Janeiro (Prefeitura do Município de São Sebastião) e de Manaus (proposta formulada pelo Exército Brasileiro). A primeira demanda não pôde ser atendida em razão de que o Curso ainda se encontrava em plena atividade, não existindo disponibilidade docente para tanto. Já a segunda, encontrase em fase de avançados entendimentos, com a apreciação jurídica de contrato entre as Instituições (UFBA/Exército Brasileiro) prestes a ser finalizada. Também em razão do êxito e experiência com curso na área da Engenharia Naval, o Governo Federal, juntamente com a Petrobras, incluiu o Estado da Bahia na oferta de Curso similar (Especialização em Engenharia Naval), no ambiente do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás (PROMINP), que será realizado na Escola Politécnica, provavelmente ainda este ano. Ao final do CENAV foi formalizada solicitação de atribuição profissional dos egressos ao Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA/Ba), que se encontra em fase final de análise por Câmara Técnica. O corpo docente do Curso, composto por quinze professores, todos mestres, doutores e experientes em suas respectivas áreas de atuação, é formado, em sua maioria, por titulados no próprio segmento da Engenharia Naval. Como resultado complementar, além da capacitação de profissionais, o CENAV gerou trabalhos conclusão, elaborados pelos alunos e supervisionados por seus correspondentes professores orientadores, cuja relação encontra-se na Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 22 Tabela , a seguir: Tabela – Trabalhos de conclusão - CENAV TEMA PROF. ORIENTADOR Cálculo de Tensões em Amarras de portos Flutuantes da TANSPETRO em Manaus em função da Variação do Nível do Rio Negro. Marcos Parahyba Campos Diagnóstico da Indústria Naval na Bahia Ademar Nogueira do Nascimento Gestão de manutenção em frotas de embarcações de grande porte e controle do seu DOWTIME (tempo da embarcação parada por motivo de manutenção não programada no contrato) Marcos Parahyba Campos 4. Fernando Lisa Barbosa Análise dos Processos de Soldagem na Indústria Naval Carlos Alberto Caldas Sousa 5. Jefferson Nery de Almeida Evolução histórica da soldagem sub-aquática molhada Marcelo de Barros Alonso 6. Júlio César Santos de Jesus Sistemas de Ancoragem aplicáveis a estruturas oceânicas Henrique José Caribe Ribeiro Controle Preventivo e Corretivo das avarias a bordo de meios flutuantes de grande porte Silvino José Silva Bastos Estudo da eficiência propulsiva do navio químico Jataí Henrique José Caribe Ribeiro 9. Mauricio Carvalho Sacchi de Oliveira Evolução das características de projeto, construção e montagem de navios petroleiros nas ultimas décadas Leopoldo Amaral Neto 10. Mayanne Moreira Santos Análise de tensões em estruturas offshore, usando modelagem computacional. Alexandre de Macedo Wahrhaftig Análise dos esforços para dimensionamento de Jaquetas Alexandre de Macedo Wahrhaftig Estudo voltado a veículo remotamente controlado (ROV) e sua Valmar P. Cabral ALUNO 1. Allysson Vicente Diniz 2. Antônio Barreto Doria 3. Daniel Chaves Bastos 7. Marcelo Cajado Sampaio 8. Marcelo da Silva Rohrs 11. Moema Almeida Hagge Sampaio 12. Nilson Garcez Montenegro Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 23 ALUNO Junior 13. Odair José de Morais 14. Paulo de Tarso Cordeiro Baleeiro 15. Ricardo Matos Pimentel 16. Sérgio Helemilton Belov Moreira TEMA PROF. ORIENTADOR atuação no apoio a indústria naval. Junior Aços inoxidáveis duplex: Características e aplicação no setor offshore. Carlos Alberto Caldas de Sousa Efeito slamming em navios ULCC Alexandre de Macedo Wahrhaftig Aplicação dos aços inoxidáveis austeníticos e aços inoxidáveis duplex na indústria naval e offshore Carlos Alberto Caldas de Sousa Serviços e operações subaquáticas em navios e plataformas Leopoldo Amaral Neto Faz-se importante observar ainda a estatística de resultados discentes como indicadora de eficiência. Neste caso os resultados foram os seguintes: Alunos inicialmente matriculados: 22; Alunos que abandonaram o curso: 1; Alunos que cursaram até o fim: 21; Bolsista integral: 1; Bolsistas parciais: 4; Alunos que não concluíram com aproveitamento suficiente :5; Alunos concluintes: 16 Curso de Graduação em Engenharia Naval O Curso de Graduação em Engenharia Naval está enquadrado por Resolução específica do CONFEA, sendo que aos egressos deste curso, deverá ser conferido o título de Engenheiro Naval. Seguindo-se os mesmos propósitos já mencionados, vem-se planejando a criação do curso de graduação em Engenharia Naval na EPUFBA, com as seguintes características: Título: Engenharia Naval Turno: Diurno Regime: Semestral Número de Vagas: 45 Previsão de início: 2013.1 Propõe-se que o Engenheiro Naval a ser capacitado na UFBA, seja capaz de absorver e desenvolver competências para a concepção e análise de produtos, processos e projetos navais, para a operação e melhoria de sistemas produtivos, tais como a condução de projetos de engenharia, e que seja capaz de liderar equipes de trabalho a partir de eficiente capacidade de comunicação, incluindo o domínio da tecnologia de informação. Considerando-se que o número total de entrada anual será de 45 estudantes, estima-se que a população acumulada total de alunos deva ser de 270, até o final dos primeiros seis anos. Constata-se que isto poderá representar um importante acréscimo na formação de engenheiros pela UFBA, buscando atender à demanda reprimida da sociedade. Para se ter uma idéia, a população atual de estudantes de engenharia na Universidade Federal da Bahia é de aproximadamente 3.000 alunos. Este novo curso, portanto, representaria um aumento de 11,25 % na formação de engenheiros pela mesma. A carga horária total prevista para a graduação em Engenharia Naval deverá situar-se em torno de 4.000 h, sendo que o núcleo de disciplinas específicas deverá absorver mais de 50 % dessa carga horária, conforme estabelece a Resolução 11/2002 do CNE/CES. As disciplinas do núcleo específico podem ser vistas na Tabela Tabela – Disciplinas do núcleo específico – Graduação em Engª Naval Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 24 N Código Nome hs 1. ENG-IEN Introdução à Engenharia Naval 102 2. ENG-HDBI Hidrodinâmica Básica I 68 3. ENG- HDBII Hidrodinâmica Básica II 68 4. ENG-TSOI Tecnologia de Sistemas Oceânicos I 68 5. ENG-TSOII Tecnologia de Sistemas Oceânicos II 68 6. ENG-ANI Arquitetura Naval I 68 7. ENG-ANII Arquitetura Naval II 68 8. ENG-CNI Construção Naval I 68 9. ENG-CNII Construção Naval II 68 10. ENG-TMI Transporte Marítimo I 68 11. ENG-TMII Transporte Marítimo II 68 12. ENG-TMIII Transporte Marítimo III 68 13. ENG-REI Resistência Estrutural I 68 14. ENG-REII Resistência Estrutural II 68 15. ENG-REIII Resistência Estrutural III 68 16. ENG-TS Tecnologia de Soldagem 68 17. ENG-MMI Máquinas Marítimas I 68 18. ENG-MMII Máquinas Marítimas II 68 19. ENG-MMIII Máquinas Marítimas III 68 20. ENG-HDAI Hidrodinâmica Aplicada I 68 21. ENG-HDAII Hidrodinâmica Aplicada II 68 22. ENG-ITP Introdução a Teoria de Projetos 68 23. ENG-PSM Projetos de Sistemas de Máquinas 68 24. ENG-PSOI Projetos de Sistemas Oceânicos I 68 25. ENG-PSOII Projetos de Sistemas Oceânicos II 68 26. OPT-1 Optativa 1 68 27. OPT-2 Optativa 2 68 Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 25 28. OPT-3 Optativa 3 68 29. OPT-4 Optativa 4 68 Totais 2006 Com o objetivo de complementar o aprendizado teórico e viabilizar o desenvolvimento de pesquisa aplicada na área naval, está prevista, inicialmente, a instalação de 04 (quatro) laboratórios para o curso Engenharia Naval, assim discriminados: 1) 2) 3) 4) Laboratório de Hidrostática e Mecânica dos Fluidos Laboratório de Ensaios Hidrodinâmicos (Tanque de Provas) Laboratório de Termodinâmica e Turbinas a Gás Laboratório de Geração de Energia a Vapor Outros laboratórios e instrumentações complementares que também se fazem necessários, e que se encontram no momento em fase de dimensionamento, são: 1) Fábrica de Modelos (escala reduzida); 2) Bancada de ensaio de decaimento em jogo com modelos de embarcações em escala reduzida; 3) Bancada de dinamômetros e instrumentação necessária a ensaios com modelos auto-propelidos; 4) Bancada de Instrumentação de medição da esteira hidrodinâmica em modelos em escala reduzida; 5) Laboratório de teste com motores e outras máquinas marítimas; 6) Bancada de medição de tensões em materiais e estruturas; Considerações Finais Parece oportuno observar que as discussões em torno da necessidade de disponibilizar formação de pessoal para o segmento naval iniciaram-se no ano de 2005, quando se notou que a sociedade demandaria uma quantidade de mão-de-obra de nível superior significativa para o setor. Desde então a Escola Politécnica da UFBA mobilizou-se continuamente para atender esta demanda, o que pode ser demonstrado pelos resultados apresentados ao longo deste texto. Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 26 Também é importante observar que nenhuma demanda solicitada pela sociedade local ou nacional ficou sem resposta. A ausência de oferta objetiva para as consultas recebidas apenas se observou no caso em que o Grupo de Trabalho encontrava-se com seus recursos humanos comprometidos em atender outras demandas. Isso demonstra claramente a eficiência do trabalho de Coordenação, aí incluídos a Direção da Escola Politécnica e do Departamento de Engenharia Mecânica, que não mediram esforços para prestar um serviço com prontidão e qualidade, ajudando a Universidade a cumprir com excelência seu papel de servir à sociedade no processo de capacitação e formação de recursos humanos especializados. E-MAILS DE CONTATO Ademar Nogueira Nascimento∗ Henrique José Caribé Ribeiro - [email protected] [email protected] Alexandre de Macêdo Wahrhaftig - [email protected] REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS 1) Ministério de Educação e Cultura. www.emec.gov.br. Acesso em 14 de setembro de 2011. 2) Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. http://www.ufpe.br/agencia/index.php?option=com_content&view=article&id=40959. Acesso 14/09/2011 3) Fundação Universidade Federal do Rio Grande. www.furg.br. Acesso em 05/09/2011. 4) Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI). Acesso 05/09/2011 http://www.sei.ba.gov.br/index.php? 5) Universidade Federal da Bahia – UFBA. http://www.vestibular.ufba.br/docs/vest2012/relatorio_concorrencia_CPL.pdf. Acesso em 04/09/2011 6) Associação dos Engenheiros da Petrobrás - AEPET. www.aepet.org.br/site/noticias. Acesso em 30/09/2011 Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 27 Politécnica Ano 4 Nº 11 - E Edição trimestral Julho/setembro 2011 | 28