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UMA HISTÓRIA APÓS ARMAGEDON
:
O HOMEM DO GELO
Pietro Bocchese
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SUMÁRIO
-PRÓLOGO.....................................................................................3
1 - DEVANEIOS................................................................................4
2 - SONHO E REALIDADE..............................................................10
3 - NOVA RESIDÊNCIA...................................................................17
4 - COSTUMES CURIOSOS.............................................................22
5 - UM PROGRAMA........................................................................28
6 - ENTREVISTA..............................................................................32
7 - REALIDADE VIRTUAL..............................................................40
8 - ESTRANHAS VISITAS................................................................47
9 - POLÍTICA E SOCIEDADE...........................................................50
10- LOJA DE BONECOS...................................................................61
11- PERIGO REAL............................................................................68
12- QUASE NATURAL.....................................................................78
13- COM A NATUREZA...................................................................89
14- A FESTA....................................................................................104
15- VIRTUAL COLETIVO...............................................................119
16- O MUSEU..................................................................................128
17- TENTÁCULOS..........................................................................136
18- MONO ATACA.........................................................................147
19- O PLANO...................................................................................160
20- AÇÃO........................................................................................170
21- MOMENTO DE PAZ..................................................................181
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PRÓLOGO
Os médicos de cidades pequenas precisam prestar todo tipo de assistência, inclusive para
pessoas com necessidades de apoio psicológico. Isso lhes dá oportunidade para se defrontar com
situações inusitadas que demonstram toda versatilidade do espírito humano.
Um jovem muito perturbado procurou o consultório de um médico com queixas de dor de
cabeça, ansiedade e alucinações. Descreveu, em consultas repetidas, imagens mentais desordenadas
cuja origem ele atribuía a pesadelos que tivera na infância. Estava certo de que se deviam ao desejo
do pai desaparecido de estabelecer comunicação mental com ele desde o futuro. Descontadas
algumas descrições ininteligíveis, os episódios se constituíam em quadros que, embora
inverossímeis e sem seqüência temporal lógica, eram bem elaborados e capazes de compor uma
história estimulante à curiosidade de quem é apreciador do extraordinário e da ficção científica.
Por um processo de contratransferência conhecido da psiquiatria, o médico foi motivado a
participar das narrativas, de modo que, ao invés de dissuadi-lo, estimulou as suas divagações. Uma
transcrição fiel dos sonhos seguindo a ordem ou desordem conforme foram revelados seria
incompreensível. As imagens compartilhadas foram montadas como se fosse um quebra-cabeça. As
visões caóticas reconstruídas e ordenadas, utilizando palavras atuais para descrever abstrações
oníricas, fazendo-se as adaptações indispensáveis para haver alguma seqüência com
verossimilhança, foram compondo uma história. Até o momento em que o próprio paciente
considerou estar melhor com relação às suas inquietações e preferiu parar. Embora pensasse ter
decifrado o enigma, aceitava rotular todo episódio como uma elaboração da sua mente,
inexplicável, porém, não tormentoso.
O caso resultou em uma fábula tão marcante que, após anos, a sua lembrança compele a ser
partilhada. O limite entre a loucura e a normalidade é, às vezes, tênue. As construções imaginárias
surreais são tidas como exclusivamente pertinentes ao contexto mental do seu criador. Todavia, a
história já nos surpreendeu com descobertas cujos indícios se afirmavam fantasias.
Posto que um sonho não interpretado seja uma carta não lida, uma história não contada é um
livro nunca aberto.
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1 – DEVANEIOS
O sol poente avermelhava uma estreita faixa no horizonte de um céu azul-acinzentado. Na
varanda de sua casa, Deodéa admirava o jardim e o recorte superior de silhuetas das construções ao
longe. Ela precisava cuidar para que os que acompanhavam a sua atividade social e política não
suspeitassem o quanto o seu ânimo estava esmorecido. Os compromissos que tinha a ajudavam a
entreter seus pensamentos, entretanto, há algum tempo, principalmente ao cair da tarde, o tédio a
assaltava. Atribuía esses momentos de melancolia ao afastamento dos pais, embora sabendo que,
com idade igual à sua, outras pessoas viviam longe dos seus e nem se lembravam deles.
A casa em que ficara morando era grande e rara na zona central da cidade, área onde
predominavam palácios governamentais e prédios públicos. Encontrava algum refúgio na
biblioteca do pai onde havia muitas gravações de cópias dos livros de antes do Armagedon, as
quais eram inacessíveis ao público em geral. Na adolescência, ela havia se dedicado aos romances
da antiga era, agora, porém, estava voltada para a história, propriamente dita. Era atendida pelo seu
antigo boneco-companhia Artur, o qual ainda a tratava como se fosse uma menina. Madra,
registrada como sua sobrinha, vivia mais com ela do que com a própria mãe. Era ela quem animava
um pouco o ambiente. Entre as amizades de Deodéa, Leneu sempre foi a mais fiel. Embora
considerado ranzinza, era um confidente e quase substituía seu pai.
Deodéa se voltava para a introspecção, lembrando as experiências da infância e da
adolescência. Então, as brincadeiras eram sem inibições, assim como as dos colegas que ela
conhecia. Ela se diferenciava, apenas, por gostar da leitura de livros muito antigos, principalmente
romances. Mais tarde, influenciada pela mãe, iniciara junto com alguns amigos o Movimento
Naturista. Ele cresceu mais do que esperavam, passando a demandar bastante atenção. Contudo,
não havia maiores preocupações para ela, até ocorrer o acidente suspeito que afastou seu pai do
governo e o levou a exilar-se. Desde então, o espectro do crime, talvez comandado por uma figura
mítica denominada Mono, abateu-se sobre o Estado. Deodéa se sentiu abandonada e com a
obrigação de lutar contra isso. Deixou de atender suas questões pessoais para se dedicar às
demandas de natureza política. Agora, porém, ela pensava se deveria atribuir ao seu isolamento da
sociedade mundana e fixação em antigos romances a preocupação por alguém de quem ela não
conhecia nem a possibilidade de vida, apenas pela aura de ser um homem do passado.
*
Deodéa pediu a Artur pela sua sobrinha. O boneco-companhia informou que ela assistia a um
programa musical em outra sala:
-Chame-a para jantarmos. – Ordenou Deodéa.
Madra logo foi ter com ela.
-Você esteve na sede do Movimento Naturista hoje? - Deodéa perguntou.
-Estive trabalhando com Arlon em uma monografia tratando sobre “a influência das formas de
associação no desenvolvimento dos povos antigos”. É o tema que você sugeriu. Encontramos
poucos subsídios nos documentos acessíveis ao público. Poderia ver se há alguma coisa na
biblioteca do seu pai?
-Eu tenho lembrança de já haver lido alguma coisa sobre esse assunto. Vou ver o que encontro
e seleciono para vocês. Primeiro, esgotem o que há nos arquivos cujas fontes podem ser citadas.
Infelizmente, os textos da biblioteca do meu pai não podem ser apresentados para documentar o
vosso trabalho. Eles são documentos disponibilizados apenas para os Conselheiros e interditados ao
público em geral. Esse é um dos absurdos das leis que nós desejamos mudar.
Geralmente tranquila, Madra demonstrou irritação.
-A legislação sobre documentos históricos é arcaica. Qualquer um tem acesso, sem censura, a
todo tipo de ficção ou outro tipo de programa a qualquer hora. Basta pedir ao computador para ser
imediatamente atendido. Enquanto isso, para qualquer consulta aos textos históricos originais
anteriores ao Armagedon se exige um requerimento pessoal do consulente com perguntas
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específicas. Depois de uma avaliação, cujo critério é desconhecido, são dadas respostas parciais.
Por que não se pode simplesmente indicar o assunto de interesse e receber os textos completos?
-Os governistas temem ser contraditados. O controle deles sobre a sociedade depende da
interpretação que eles mesmos fazem sobre a história. Evitar catástrofes se tornou justificativa para
tudo. O que não fazem é descobrir os responsáveis pelo surgimento de crimes que antes não havia.
Entretanto, está ficando muito claro que eles distorcem os fatos. Isso dá mais argumentos à
oposição. Nós acabaremos tomando os seus lugares. – Falou Deodéa, esboçando, ao final, um
sorriso maroto.
-Arlon, também, pensa assim.
-Ele está bem orientado. Como está a vossa relação?
-Está bem. Eu gosto dele, mas, ele desejaria que eu assumisse maior compromisso. Por
enquanto, eu não quero. Qual é a sua opinião?
-Atualmente, fora do Movimento Naturista, poucos se comprometem seriamente. Se você não
está segura, é melhor não assumir. A experiência que eu tive nos meus relacionamentos não foi
boa. Ocasionava muitas cobranças. Hoje eu sigo a maioria e só assumiria o compromisso exigido
para ter um filho.
-Está pensando nisso?
-Não seriamente, mas, tenho as minhas fantasias.
-Eu pensei que você não gostasse de fantasiar.
-As minhas fantasias não são iguais às suas, entretanto, quem não as tem?
-Você devia deixar as preocupações com a política e viver sua própria vida. Se o seu desejo é
ter um filho, por que não?
-Não é, assim, tão fácil. Em primeiro lugar, é preciso encontrar alguém razoável que deseje ser
pai. Depois, assinar um contrato e entrar na fila de espera. Quando houver vaga e a autorização for
dada, confirmar o compromisso, fazer uma inseminação e assumir a obrigação de morar junto até o
filho atingir quinze anos de idade. Ainda não encontrei ninguém que me inspire confiança para
assumir isso.
-Não será difícil achar quem queira morar nesta casa. Há espaço para que cada um cuide de si
com todo conforto.
-Eu gostaria de alguém que se preocupasse com o filho.
-Você precisa procurar. Não vai a lugar nenhum fora do seu círculo fechado de amigos e
companheiros de partido. No Movimento Naturista, só trata com a diretoria. Venha comigo a
algum lugar de encontros. Há pouco, junto com algumas colegas, eu fui à casa Nova Amizade. É
um espaço de encontros virtuais com pessoas reais. É divertido e interessante para conhecer mais
gente. O programa não admite quem tenha maus antecedentes ou use uma imagem diferente da sua
aparência real. Os pares são sorteados para que as pessoas se conheçam, conversem e dancem por
um determinado tempo. Quando há interesse de ambos, pode-se pedir para prolongar o encontro.
-Não seria melhor um lugar para encontros reais entre as pessoas?
-Para novas amizades, fora do Movimento Naturista, eu não conheço lugares interessantes.
Existem as reuniões particulares, mas, quase somente as protocolares. Todos vão às danceterias,
bares ou outros espaços virtuais. Depois, eventualmente, as pessoas combinam encontros reais.
-Você já foi ali muitas vezes?
-Poucas. Eu prefiro me encontrar pessoalmente com o Arlon ou outros amigos do Movimento
Naturista. Quando eu e minhas amigas estamos sozinhas, costumamos ir a lugares servidos
integralmente por bonecos-companhia. Há muitas opções com cenários incríveis. Mas, se você está
pensando em ter um filho, esses programas não servem. Disse Madra, com um sorriso malicioso.
A sobrinha continuou falando até convencer Deodéa a acompanhá-la. Embora ela tivesse
apenas vinte anos e Deodéa quarenta e cinco, os recursos atuais não permitiam reconhecer a
diferença de idade pelo visual. Os comportamentos, porém, eram bastante distintos. Desta vez,
Deodéa decidiu aceitar:
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-Faz bastante tempo que eu não faço esse tipo de programa. Não custa experimentar.
*
Na sala denominada área de esportes elas trocaram suas tangas pelo traje de atividades virtuais.
Deram as ordens e se viram no saguão de entrada da danceteria onde uma boneca-companhia lhes
entregou uma pulseira. Convidou-as para sentar e perguntou se conheciam as regras. Madra
respondeu que sim. Entretanto, pediu à boneca explicar para Deodéa.
-Vocês devem informar se têm algum tipo de exigência particular e aguardar aqui por vagas.
Serão conduzidas ao salão, onde, a cada quinze minutos, os pares são sorteados para estabelecerem
contato, conversar e dançar. Após quatro contatos, as pessoas devem marcar em suas pulseiras os
nomes daqueles em quem ficaram interessadas, em ordem de preferência. O computador verifica as
coincidências e os pares assim formados recebem a oferta de camarotes superiores onde têm uma
visão do salão com maior conforto. Ali podem permanecer por períodos de quinze minutos e, se
esse for o desejo de ambos, poderão prorrogar. Para as pessoas que não obtiveram coincidência,
prosseguem os sorteios, evitando a repetição dos mesmos pares. O programa termina para os que
não quiserem continuar ou tiverem a sua possibilidade de acordo esgotada.
-Não sei se vou ficar. Tudo me parece muito artificial. Sussurrou Deodéa para Madra.
-Você permaneceu fora de circulação por muito tempo. Cadê a coragem? Quer desistir antes de
experimentar?
Elas ficaram observando o movimento das pessoas até serem conduzidas a poltronas dentro do
salão. Bonecos-acompanhantes ofereciam coquetéis para terem seus vapores aspirados num
ambiente de muita descontração. Deodéa sentiu em realidade o efeito transmitido pelos vapores lhe
subir à cabeça e ser envolvida por uma tontura agradável que afastou a sensação de ridículo em que
imaginou estar colocada. Após os sorteios, os pares foram apresentados. Dançavam ou procuravam
um lugar em que se acomodavam para conversar. Ao fim de cada período, o sorteio era repetido.
Após cada quatro sorteios, os pares formados pela coincidência de preferências eram conduzidos
aos camarotes. Madra marcou duas preferências, obteve acordo com o primeiro marcado e foi
conduzida a um camarote. Deodéa não marcou ninguém. Continuou nos sorteios, fazendo novos
contatos. Depois de algum tempo, Madra voltou a encontrar Deodéa, demonstrando entusiasmo e
disposição para participar de novos sorteios. Deodéa lhe disse que estava cansada e preferia sair.
Madra concordou, elas pediram para terminar o programa e se viram de novo na área de esportes de
sua casa. Trocaram de roupa e voltaram a uma sala de estar, às gargalhadas.
-Eu me diverti bastante. Você não quis ficar com ninguém? – Perguntou Madra.
-Desta vez, não. Mas, gostei. Outro dia, poderemos ir novamente.
-Aquele com quem tive uma coincidência participa, às vezes, dos encontros naturistas. Vou
encontrá-lo novamente.
-O Arlon não se aborrece com isso?
-Ele é meio romântico, mas, não faz o tipo possessivo. Eu não aceitei ter maior compromisso
com ele porque prefiro liberdade para outros contatos. Por mim, nós poderíamos ir logo
experimentar uma nova atividade. Se você gosta de se exercitar, há algumas academias com
esportes virtuais muito boas. Nelas, também, é possível estabelecer novos contatos. Quando vai
querer fazer um novo programa?
-Vou pensar. Amanhã conversaremos.
*
Deodéa, meditando sobre a atividade que tivera, concluiu que fora uma experiência interessante
e que deveria continuar a procurar novos contatos. A tentativa de eliminar fantasias e expectativas
absurdas por uma simples decisão da vontade não estava dando certo. O recolhimento emocional a
que se impusera estava fazendo com que fosse muito suscetível a sonhos irrazoáveis. Talvez,
precisasse mesmo submeter sua imaginação a outros estímulos para diluí-los, facilitando o
comando dos seus próprios sentimentos. Seria melhor se distrair, criar novos interesses, não pensar
em romances antigos e em homens do passado.
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Apesar dessa disposição, uma informação recebida através da sua amiga Solina despertou o seu
interesse e vontade de agir. Ainda que fosse fantasioso, não deixaria de tentar por em prática o
plano que teve em mente. No mínimo, lhe serviria de distração.
Enquanto aguardava o encontro marcado com Tacialmo, Deodéa se percebia mais ansiosa do
que habitualmente. Poderia ir logo ver o guru, antigo amigo do seu pai e, agora, dela. Sabia que o
agradaria se assistisse a sua preleção semanal inteira, mas, no momento, não estava disposta a ouvir
sobre qualquer assunto diferente daquele que a motivava. Aguardou com ansiedade a hora que
aprazara para que um módulo de transporte a viesse apanhar. Quando ele pousou junto ao hall de
entrada da sua casa, acomodou-se e seguiu deslizando por vias magnéticas entre as construções da
cidade em direção ao templo onde Tacialmo fazia sua palestra. O pensamento se concentrava em
como se dirigir a ele. Não tinha lembrança de outra ocasião em que houvesse solicitado sua
intervenção para um benefício pessoal e, de modo pouco razoável, temia que o amigo percebesse o
quanto estava ansiosa. Desejava tratar o que lhe iria pedir como um assunto bem banal.
O módulo desceu junto ao portão lateral do templo ecumênico. Deodéa foi conduzida pelo
boneco-companhia de Tacialmo até um balcão próximo à tribuna em que o Conselheiro
Internacional fazia sua preleção. A palestra podia ser assistida em casa, entretanto, o convite para
estar presente era valorizado. Ela chegou quando Tacialmo respondia ao público, como costumava
fazer ao final da locução.
-Acredita que temos um destino determinado? - Deodéa escutou perguntar.
-O que sabemos de certo sobre a natureza é que cada grupo de fatores causais tem
obrigatoriamente um efeito determinado. Nisso se baseia a ciência. Ela tem desvendado muitas
equações que regem esse determinismo, desde as mais simples, como a queda de um corpo no
vácuo, até as de múltiplas causas, como a precipitação da chuva. A incomensurável multiplicidade
de acontecimentos que interagem simultaneamente torna impossível, mesmo para os computadores
mais potentes, relacionar inteiramente todos os fatos. Ainda que seja impossível para nós prever
tudo, a lei da causalidade deveria determinar a trajetória obrigatória de cada um de nós e, portanto,
o nosso destino. A ausência de determinismo imutável só pode ser compreendida aceitando haver
uma capacidade de decisão soberana. Rejeitar um destino inescapável significa admitir a existência
de uma capacidade diferente de tudo o que cientificamente nos é dado conhecer sobre as leis que
regem a matéria/energia. Eu acredito que, dentro de limites, nós temos essa capacidade de escolha.
-Com que fins são utilizados os recursos que vão para o Conselho Internacional? - Mudando o
assunto, outro assistente perguntou.
-Embora não seja meu objetivo tratar aqui de assuntos políticos, vou responder à sua indagação.
Os recursos que o Conselho Internacional recebe são os necessários para atender às tarefas que,
desde a sua organização, a ele foram atribuídas: estabelecer leis internacionais, fiscalizar a sua
observação e possuir uma força de dissuasão própria, superior a de qualquer Estado, capaz de fazêlas cumprir. O Conselho Internacional foi criado junto com os novos Estados Nacionais, no tempo
em que a humanidade se recuperava do período de catástrofes apelidado Armagedon. O temor
causado por aquela destruição determinou a prioridade de prevenir novos cataclismos e guerras. O
sistema anterior, no qual a força estava com cada Estado, conduziu ao desastre. Os mais fortes, ou
possuidores de um trunfo qualquer, desconheciam as necessidades dos demais. Não se chegava a
um acordo pacífico e, como conseqüência, havia guerra. Recentemente, em nosso Estado, estarmos
assistindo a um recrudescimento dos crimes violentos. Entretanto, não há disputas entre Estados
resolvidas pelas armas, pois, a Organização Internacional julga e tem poder para impor a sua
decisão. O bom encaminhamento de todas as questões depende, apenas, de julgamentos corretos.
Em outra ocasião, poderemos conversar mais sobre esse assunto. Infelizmente, o tempo de que eu
disponho neste templo terminou. Estarei aqui, como sempre, na próxima semana.
Enquanto o público se retirava pelos portões principais, Deodéa foi conduzida através de um
corredor lateral ao aposento onde já a aguardava Tacialmo. Sorridente, ele a abraçou e beijou na
face.
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-Tenho muito prazer em vê-la. Assistiu à minha palestra de hoje? – Perguntou o guru.
-Só a parte final. Sei que o seu objetivo é falar sobre coisas transcendentais e com respeito a
questões que tratam do íntimo das pessoas, mas, sempre o puxam para assuntos políticos.
-Os indivíduos têm muitos problemas pessoais, mas, há obstáculos para que os admitam. Tem
falado com Delonel?
-Algumas vezes. Creio que você tenha contato mais freqüentemente com meu pai do que eu
mesma.
-Ele me consulta algumas vezes com respeito ao trabalho que desenvolve sobre esoterismo. O
que a traz aqui com tanta urgência? Poderia atendê-la melhor amanhã, em minha residência.
-Não desejava incomodá-lo demais. O assunto é breve.
-Sente-se e fale sem pressa. – DisseTacialmo, sentando em uma poltrona e indicando outra para
Deodéa.
-Como é do seu conhecimento, sempre me dediquei à história. A maioria das pessoas com
quem eu me relaciono tem essa mesma motivação. Agora, considerando que o caso envolve
interesse internacional, desejo lhe fazer um pedido de intervenção da parte do meu amigo Leneu.
Creio que o conheça. Ele é um investigador do Instituto de Idiomas Antigos. A questão se refere à
descoberta de um homem congelado na Antártida desde uma época anterior às catástrofes. Os
tecidos corporais ficaram preservados de forma extraordinária e o seu funcionamento vital foi
restaurado no Centro Internacional Avançado de Recuperação. Como ele portava documentos
indicando que pertencia à região correspondente a este Estado, será transferido para o nosso Centro
Nacional de Recuperação. A volta à atividade das funções cerebrais, se ocorrer, será lenta, mas, a
equipe de recuperação deverá contar com um interlocutor para o caso de se poder conseguir alguma
comunicação no seu antigo idioma. O Leneu gostaria que essa função lhe fosse atribuída. Ele é
nosso amigo de muitos anos e eu conheço a competência dele. Ademais, havendo algum êxito, eu
teria acesso às informações que ele possa colher.
-Eu sei do caso. Até participei das gestões para que o corpo viesse para cá. Existe interesse em
sua anatomia e fisiologia, porém, disseram-me que, apesar dos avanços técnicos, há poucas chances
de se lograr alguma comunicação. Nunca se conseguiu recuperar um cérebro que tivesse sido
congelado sem os recursos atualmente disponíveis.
-Tive uma informação colateral muito confiável de que, neste caso, há esperança. A nossa
chance de conseguir o cargo para Leneu é agora. Depois, se houver algum sinal favorável, os
governistas não abrirão mão.
-Não tenho como intervir diretamente, mas, alguns amigos, talvez, possam fazê-lo. Eu conheço
Leneu. Peça para ele entrar em contato pelo comunicador diretamente comigo. É melhor que a
minha recomendação tenha origem num pedido partido dele mesmo, sem que você apareça. A
minha intervenção não deve ser considerada uma questão de amizade consigo. Contudo, você tem
boas relações e não há por que não usá-las.
-Estou fazendo o que posso, mas, quero evitar a atenção dos governistas. Eles logo imaginarão
que o meu interesse vislumbre alguma vantagem política.
-Como está o Movimento Naturista?
-Está bem. Progredindo devagar, porém, sempre ativo.
-Eu admiro o seu trabalho e a sua persistência.
*
Voltando para casa, Deodéa apresentava nova animação. Tacialmo intervindo, a chance de
conseguir era grande. Agora, precisava tratar com Leneu, sem deixar transparecer para ele o quanto
ela mesma estava interessada. Calculou bem as palavras. Leneu confiava nela e iria aceitar,
entendendo a falta de maiores explicações através do comunicador como um cuidado ao falar por
esse meio. Apesar das leis contra a escuta clandestina, nunca se podia estar certo de que ela não
ocorresse. No próprio módulo de transporte, Deodéa ordenou a ligação. Sem muita demora, a
imagem tridimensional de Leneu surgiu à sua frente.
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-Olá Deodéa, tenho satisfação em vê-la.
-Liguei para comunicar que estou encaminhando aquele assunto sobre a interlocução que você
me pediu. Quando puder venha até a minha casa para conversarmos. Está de acordo?
-Não faço objeção. Eu poderei ir amanhã?
-Venha pela manhã. Almoçaremos juntos.
-Com muito prazer. Amanhã estarei aí.
A concordância de Leneu vinha ao encontro dos planos de Deodéa. Uma vez que ele não
apresentara objeção, ela estava certa de que iria concordar.
Pela manhã, Leneu chegou, demonstrando pouco entusiasmo. Ele não poderia ser considerado
velho num mundo em que era comum uma pessoa alcançar o bicentenário. Todavia, entre as
silhuetas geralmente uniformes, sua magreza ressaltava. Ele não escondia de Deodéa que tomava
pela metade o restaurador diário recomendado pela medicina preventiva. A intimidade permitia a
Deodéa dizer que ele fazia isso para que o seu corpo chamasse atenção. No mesmo tom, Leneu
respondia que era ela, sim, quem tudo fazia para aparecer. Deodéa pediu que fossem à sala
protegida.
-Qual é o assunto que a faz exigir a minha presença? – Leneu perguntou.
-Eu nunca lhe exijo nada. Tenho falado com alguns amigos e penso que será possível conseguir
a indicação do seu nome para interlocutor do grupo responsável pela recuperação do homem do
gelo.
-Eu pensei na sua sugestão e, ainda que seja improvável ele recuperar alguma consciência e,
menos ainda, comunicar-se, seria uma boa oportunidade para mim. Estaria em contato com outros
estudiosos e, assim, talvez, o meu trabalho fosse mais reconhecido.
-Conversei com uma amiga casada com um médico que tem informações diretas sobre o caso.
Foram utilizados novos recursos e a recuperação não é totalmente impossível. Você deve entrar em
contato diretamente com Tacialmo pelo comunicador e pedir em seu próprio nome a intervenção
dele. O pedido não precisa ser sigiloso, apenas, não me nomeie. Ele estará disposto a atendê-lo.
-Posso fazer isso, mas, não acredito que obtenha a nomeação. Em nosso Instituto Estatal de
Idiomas Antigos ninguém sequer tomou conhecimento do caso, porém, Joadir tem inveja do meu
conhecimento. Ele conta com o apoio de algumas forças espúrias com influência no governo.
Bastará saber que eu estou interessado para pleitear o cargo para si.
-Estive considerando isso. O nosso grupo de Conselheiros, apesar de não ser governo, tem
alguma influência. Estamos fazendo campanha contra maiores despesas e, portanto, contra a
criação de um novo Campus do Instituto de Idiomas. É uma campanha que tem apelo popular.
Podemos deixar de obstruir, acenando com a expectativa de que você seja indicado como Diretor
do Campus. O Joadir irá se atravessar e acabará sendo o nomeado. Isso irá criar um
constrangimento político suficiente para que não queiram negar quando você pleitear a indicação
para interlocutor do homem do gelo com o nosso apoio. É quase certo que receberá o cargo como
prêmio de consolação. É assim que as coisas acontecem. Temos que agir rapidamente.
Leneu riu de modo aberto, como raramente costumava.
-A herança política do seu pai ficou em boas mãos. Você joga alto quando pretende alguma
coisa. Qual é o seu interesse em que eu receba esse cargo?
-Eu via meu pai tratar das coisas de modo mais direto. Essas manobras eu aprendi com a minha
mãe. O novo Campus acabaria sendo aprovado de qualquer forma. Se conseguirmos a sua
indicação, você ficará em dívida comigo.
-Você sempre teve o meu apoio, incondicionalmente. Por que está tão interessada?
-Porque você é meu amigo e acredito que seja o mais capacitado.
*
Deodéa pretendia dormir logo, porém, não quis tomar remédios e o sono custou a chegar.
Voltou a lembrar da adolescência com seus pais, das brincadeiras com os amigos, com os bonecoscompanhia e suas primeiras experiências com o mundo virtual. A sua educação curricular fora igual
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a dos demais colegas, porém, em casa teve contato com idéias menos corriqueiras. O avô havia sido
Presidente do Conselho Nacional e construíra a casa em que, atualmente, ela ainda morava. Seu pai,
Delonel, atualmente afastado da política, foi Conselheiro importante, líder do grupo partidário por
muito tempo no governo. A mãe Florena exercia uma carreira diplomática. Antes, pela visão que
eles tinham do mundo do que pelos seus cargos, ela crescera num ambiente diferenciado. Seus pais
interpretavam os acontecimentos de modo especial, sentindo-se responsáveis pela sociedade e tendo
sempre em mente influenciá-la. Um dos desgostos que tinham era o de que cada vez mais pessoas
viviam o tempo todo apenas em jogos virtuais. Acreditavam que o objetivo original do estímulo a
essa atividade houvesse sido desvirtuado.
Eles haviam contado a Deodéa que os pioneiros deste novo tempo, após o que se habituou
chamar Armagedon, haviam estimulado a virtualidade como alternativa ao uso exagerado dos
recursos naturais para não provocar o esgotamento que ocorrera no passado. Imaginaram que, com
o aperfeiçoamento da virtualidade e dos bonecos-companhia, seria possível evitar as frustrações por
falta de recursos e de atenção às pessoas, conseqüentemente, desestimulando brigas, crimes e
guerras. Não esperavam que a virtualidade substituísse quase inteiramente a realidade.
Os pais de Deodéa, principalmente Florena, julgavam necessário que se voltasse ao convívio
com a natureza para que a vida tivesse um sentido mais verdadeiro. Sonhavam recuperar o que
havia de bom antes das catástrofes, sem incidir nos mesmos erros. Cultivavam pessoalmente o seu
jardim e faziam longas caminhadas pelas trilhas permitidas da floresta. Deodéa, sempre que podia,
os acompanhava com muito prazer.
Esse era o resumo do que Deodéa lembrava da sua vida até Delonel sofrer graves lesões em um
acidente. Nele morreu o agente de segurança que o acompanhava. Delonel precisou se licenciar,
abandonando por algum tempo a direção do partido. Aproveitando-se da situação, alguns o traíram
e a oposição assumiu o governo. As circunstâncias do fato e o comportamento de correligionários a
quem Delonel considerava amigos provocaram nele um grande desgosto. Deodéa acompanhou a
sua recuperação. Depois, o viu se afastar da política e viajar com a mulher, deixando para ela a
responsabilidade de manter unido um grupo que permanecera fiel.
Essa história era conhecida de todos. Deodéa, porém, remoia a convicção de que o evento que
atingiu seu pai e acabou por tirá-lo da vida pública não fora acidental. Delonel não a apoiou na sua
suspeita e a proibiu de fazer qualquer comentário a respeito. Também, pediu para que nunca se
candidatasse ao Conselho. Deodéa ficou aborrecida, mas obedeceu, com profundo desgosto.
Sempre havia visto o pai como um herói e lhe pareceu que houvesse faltado coragem a ele para
enfrentar os seus inimigos. A relação de Deodéa com Delonel e Florena, desde então, ficou
estremecida.
Com o sono, as lembranças foram se tornando menos claras e ela adormeceu com a sensação de
ser de novo uma menina caminhando entre os pais pela floresta.
2 - SONHO E REALIDADE
No início havia uma sensação de paz com a companhia da mulher, do filho, dos pais e de uma
tia muito querida. Depois, veio a sensação de peso na cabeça e de adormecimento por todo o corpo.
Como no despertar de um coma febril, entre o sono e a vigília, Alberto procurava, com esforço,
clarear a confusão mental. Permaneceu assim, sem saber por quanto tempo, entre meio acordado e
adormecido. Vinham-lhe à mente lembranças da casa e da família, numa seqüência de imagens
incontroláveis e ilógicas. Por certo, sofrera um acidente ou uma doença grave, mas, nada lembrava
sobre o passado recente. Procurou palpar os membros e ficou feliz por constatar que nenhuma parte
do corpo lhe faltava.
Apesar de tudo, havia uma sensação irregular de bem estar e relaxamento. Imaginou estar sob o
efeito de entorpecentes. Lembrou-se de certa época em que experimentara sensação parecida.
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Contudo, há muito havia decidido não usar drogas. Dispensara a euforia enganosa que elas
provocam, preferindo encarar frontalmente os males físicos e espirituais da realidade.
De quando em quando, vultos humanos circulavam ao seu lado, murmurando coisas
ininteligíveis, mas, a sua atenção se prendia mais no seu confuso mundo interior, dando-se conta
do quanto vale ter uma consciência clara. O que teria acontecido? Podia estar sonhado. Entretanto,
era um sonho diferente dos que jamais tivera. Ocorreu-lhe a idéia de que estivesse morto.
*
Com o tempo, dias talvez, a visão foi se tornando um pouco mais clara e Alberto pôde
distinguir ao seu lado a imagem do que parecia ser um homem com avental branco. Perguntou-lhe,
quase sem voz, onde estava e pôde perceber que a sua tentativa provocou na pessoa incontida
satisfação. Concluiu que a sua manifestação dissipara os temores do seu assistente pela recuperação
da sua capacidade cerebral. Ouviu o que parecia ser uma resposta com palavras que não conseguiu
entender, porém, num tom que demonstrava a intenção de tranqüilizar. Continuou falando e
perguntando. A pessoa demonstrava interesse, sem nada responder de inteligível. Finalmente,
pareceu ter entendido que ela o indagava com um acento desconhecido:
-Como está? Sente-se bem?
A pessoa insistiu para que Alberto falasse. Com um fio de voz, pretendeu responder que o
corpo todo doía, tinha tonturas e não se lembrava de nada. Durante um tempo impreciso, enquanto
ele adormecia e acordava ainda com a sensação de estar sonhando, a mesma pergunta e resposta se
repetiram diversas vezes.
Transcorridos, aparentemente, vários dias, Alberto continuava confuso. Dormia a maior parte
do tempo. Distinguiu na parede do quarto um quadro e uma cadeira de modelo antigo.
Contrastavam com a evidente modernidade do conjunto de paredes completamente lisas e suave
luminosidade, para a qual não se percebia janela ou luminária. O leito era macio, como um colchão
de ar. Ele não lembrava haver se alimentado, ainda assim, não sentia nenhuma fome.
Depois de mais um número impreciso de dias, percebeu-se um pouco mais lúcido e divisou se
abrir na parede um espaço, como uma porta, por onde a pessoa de avental entrou. Seria um
medico? Agora já podia distinguir sua fisionomia. Sugeria uma mistura de etnias, incluindo alguns
traços asiáticos. Sua face não revelava nenhuma emoção.
-Como se sente? – Aproximando-se, perguntou a pessoa, suavemente e com estranho sotaque.
-Sinto-me abandonado pela falta de visitas de alguém da minha família ou de algum conhecido.
Onde estou? O que me aconteceu? – Alberto falou, com voz fraca e entrecortada.
-Logo irá saber. Espere melhorar. - Respondeu a pessoa, com a mesma suavidade e sotaque
irreconhecível.
Alberto adormeceu e voltou a acordar, sempre com sensação de tontura e se perguntando sobre
os estranhos sonhos que tivera. Em uma ocasião, tentou levantar e conseguiu fazê-lo, com grande
dificuldade. As pernas estavam sem forças e doíam. Apoiado no leito, ele deu alguns passos e
voltou a deitar. Não havia janelas nem porta. Não havia para onde ir e, fora o próprio leito, nem o
que ver. Exceto a cadeira antiga e o quadro da Mona Lisa. Quando a mesma pessoa voltou a
aparecer, forçou a garganta e conseguiu falar rouco, porém, mais forte:
-Sinto-me bem, mas, preciso saber o que aconteceu. Não tenho nenhuma lembrança dos
acontecimentos próximos. Onde estou?
-Você sofreu um acidente e ficou inconsciente por muito tempo. - A pessoa respondeu, com
voz que já pareceu menos estranha.
-Quanto tempo? Que hospital é este? E a minha família?
-Muito tempo. A sua família está longe. Em breve você saberá tudo o que aconteceu. É preciso
que tenha paciência, para não prejudicar a sua recuperação.
-Posso deduzir que você seja médico?
-Sou apenas um interlocutor, representando a equipe responsável pela sua recuperação.
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Enquanto falava, o movimento dos seus lábios parecia estar em desacordo com o som que
emitia. Os pensamentos de Alberto se perderam numa multidão de possibilidades. Como teria sido
o acidente? A sua família se acidentara com ele? Estariam feridos ou mortos? Apesar da ansiedade,
logo adormeceu. Acordou com a sensação de haver sonhado com suas atividades passadas. Agora
lembrava o seu emprego na marinha, um frio intenso e um panorama todo branco. Para frente daí,
nada mais recordava. As paredes do quarto lembravam aquele branco, porém, a temperatura era
sempre amena. A modernidade que podia reconhecer na textura das paredes não combinava com a
cadeira e o quadro antigo. O aspecto e o comportamento das pessoas que circulavam faziam
concluir que, para não ser sonho, a sua situação era muito inusitada. Ele nunca poderia ter
imaginado quanto...
*
Alberto relutava em perguntar, de novo, o que havia acontecido. Precisava saber, mas, temia
que o sonho se transformasse numa realidade cruel. Já aceitara que a resposta poderia ser a má
notícia de que, junto com ele, a sua família havia se acidentado e morrido. Devia estar sob o efeito
de medicamentos tranqüilizantes porque aceitava isso sem se sentir desesperado. Por fim, acabou
encontrando coragem para falar.
-Sei que ocorreu comigo um grave acidente o qual deve ter atingido, também, a minha família.
Talvez eu seja o culpado. Agradeço os cuidados que me estão sendo dispensados e a intenção de
me preservar de um choque, mas, preciso saber. É uma situação por demais angustiante. Qualquer
coisa que eu venha a enfrentar é melhor do que ficar assim, sem saber o que aconteceu.
O assistente o encarou por algum tempo, como se estivesse em dúvidas e buscasse inspiração
sobre o que dizer. Quando finalmente falou, ele o fez pausando a cada frase.
-Você não tem nenhuma culpa. Estamos esperando que se recupere o suficiente para poder lhe
passar informações sobre fatos que são realmente extraordinários. Você sofreu um acidente na
Antártida e ficou congelado por muito tempo. A sua recuperação é um acontecimento fantástico.
Estamos dispensando os melhores recursos, mas, não há experiência suficiente com casos
semelhantes para uma ação segura. Devemos andar devagar, acompanhando o ritmo de evolução
do seu estado de saúde.
Alberto tentou assimilar aquelas palavras. Lembrava vagamente ter feito preparativos para uma
expedição à Antártida, mas, nada sobre um acidente. Todavia, naquele momento as suas
preocupações eram outras.
-O que aconteceu com a minha família? Por que eles ainda não vieram me ver?
-Como lhe disse, você ficou muito tempo desacordado. Alguns anos. Não será possível ter
contato com a sua família, mas, a sua recuperação está indo muito bem. - O interlocutor falou, após
fazer nova pausa.
Dito isso, o interlocutor se voltou e saiu do quarto, sem dar oportunidade para insistência.
A cabeça de Alberto parecia dar voltas, foi acometido por um sono irresistível e adormeceu.
Ele acordou perdido em lembranças das brincadeiras felizes na sua casa, com sua mulher e seu
filho. Ao fazer qualquer movimento, todo o corpo doía. Apesar disso, com dificuldade, levantou-se
e passou a examinar as paredes, o leito preso apenas pela cabeceira e as vestes que pareciam um
macacão à moda de pijama. O tecido era irreconhecível, próximo a um algodão macio. Estava
intrigado pelo contraste surreal da cadeira de modelo antigo e o quadro Mona Lisa com a
modernidade da cama e paredes. Aguardou com impaciência a próxima visita.
-Estou cada vez mais confuso. Não há motivo para me deixarem nesta ignorância sobre o que
aconteceu. Já passei por outros acidentes e muitas situações difíceis. Sei que posso suportar
qualquer informação negativa. Por quanto tempo fiquei desacordado? Onde estou? O que
aconteceu com a minha família? - Alberto voltou a insistir.
O interlocutor pos a mão sobre o seu ombro, demonstrando, pela primeira vez, alguma emoção.
-Você está num centro avançado de recuperação hospitalar, em local que corresponde ao do seu
país. Não temos informações sobre o destino da sua família, mas, tenha como um fato eles já não
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viverem mais. Você terá que se adaptar a uma situação muito diferente da que conhecia. No
começo, talvez, seja difícil. Nós faremos todo o possível para ajudá-lo.
Alberto se havia preparado para o pior, ainda assim, a emoção que teve com a notícia da morte
da sua família o apanhou desprevenido. Foi atingido por uma sensação de angústia, a qual não
havia conhecido antes. Tomou fôlego para falar com voz embargada.
-Eu devia estar com documentos. Verifique o endereço da minha casa. Veja o telefone. Deve
haver alguém que possa dar informações sobre o que aconteceu com eles.
O homem de avental continuou a olhar-lo demoradamente, como se estivesse com piedade.
-Como lhe disse, passou-se muito tempo, muitos anos. O endereço não existe mais. Nada do
que você conheceu existe. Terá que se acostumar com um novo tempo e refazer a sua vida sem as
antigas relações. Pode contar conosco. Faremos todo o possível para a sua readaptação.
A notícia de que não poderia saber nada sobre a sua família o deixou desinteressado de tudo,
sem perceber o significado mais amplo daquelas palavras.
-Como não existe? Por quanto tempo fiquei desacordado? - Indagou Alberto automaticamente,
com voz sumida.
Seu atendente encarou-o com simpatia, sem responder à pergunta.
-É melhor você descansar, voltaremos a conversar. - Disse apenas, ainda com voz estranha,
porém, em tom brando.
Alberto reagiu segurando firme o seu braço com veemência.
-Já que não terei minha família, nada pode ser pior do que a confusão mental em que estou.
Preciso de esclarecimentos sobre o que houve e qual é a minha situação. Por favor, conte-me tudo o
que sabe. Eu não o aborrecerei mais.
O interlocutor demorou um pouco, parecendo meditar. Depois, dirigiu-se a Alberto com
palavras calculadas.
-Você não me aborrece. Para mim é um privilégio ter sido designado para um caso tão especial.
Houve um avanço muito grande nas técnicas de descongelamento e é a primeira vez que
conseguimos restaurar uma pessoa congelada naturalmente durante tanto tempo. A sua recuperação
é um fato extraordinário. Muito tempo se passou desde o acidente que você sofreu e muitas coisas
aconteceram. O nosso compromisso é o de ajudá-lo a se readaptar para uma nova vida. A assessoria
psicológica que nos orienta depende da resposta ao tratamento porque não existe experiência
anterior mostrando a melhor forma de abordá-lo.
Alberto continuou a segurá-lo com firmeza, impedindo-o de sair.
-Mas, afinal, quanto tempo passou?
-Muito tempo, mais de mil anos. – O interlocutor falou, em tom baixo, como se não desejasse
ser ouvido.
Em seguida, continuou o seu discurso, com mais ênfase na voz.
-O que deve importar para você é saber que as suas antigas relações não existem mais. Tempos
depois da época em que você sofreu o acidente, ocorreram guerras e cataclismos de grandes
proporções. Houve quase total destruição e um atraso geral da vida civilizada. Depois, lentamente,
as populações e os recursos técnicos progrediram, acompanhando-se de mudanças nos costumes. O
desenvolvimento seguiu uma direção que, provavelmente, você não teria imaginado. Este será um
mundo inteiramente novo para você. Procure assimilar os fatos com tranqüilidade. Saiba que há
muitas pessoas empenhadas na sua recuperação.
*
Ainda tonto, parecia a Alberto que estivesse sonhando e procurou não pensar. Sentiu-se com
energia para levantar e esquadrinhou o quarto de paredes lisas. Distraindo sua mente da confusão
de pensamentos, examinou o quadro e a cadeira. Formavam um conjunto que lhe transmitia
familiaridade, mas, ao toque, tinham uma textura estranha, lisa e sem emendas, como se fossem
fabricados num só bloco. Fez alguns exercícios leves e voltou para o leito, desta vez sentindo
menos dores musculares. Logo surgiu o interlocutor, demonstrava satisfação.
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-Estamos vendo que está com boa disposição, Alberto. O fato de fazer exercícios
espontaneamente indica isso. – Falou o interlocutor, antes que lhe fosse perguntada qualquer coisa.
-Vejo que sabe o meu nome. Eu já nem lembrava mais que tinha um nome. Conforta-me ouvilo novamente. Qual é o seu?
-Havia documentos com nome nas suas roupas. Pode me chamar Leneu.
-Qual é o seu sobrenome? - Perguntou Alberto, quase instintivamente, tentando obter alguma
orientação.
-Não usamos mais sobrenomes, nem títulos. Só o nome e, às vezes, a função. É mais
democrático. Somos identificados sem dificuldade pelos amigos e pelos computadores. Apenas nos
documentos temos um código de identificação exclusivo.
-Nunca ocorre confusão?
-Pode ocorrer, mas, o computador sabe selecionar cada pessoa.
-Então, Leneu, por que ninguém mais, além de você, fala comigo?
-O setor de psicologia entendeu que seria melhor somente uma pessoa falar consigo, para evitar
que alguma contradição pudesse embaraçar a sua recuperação.
-Também estranhei o seu sotaque. De onde você é?
Houve uma pausa, como se ele procurasse o que dizer.
-Aos poucos você terá que conhecer novos fatos. O que você ouve não é propriamente a minha
voz. Apesar de que eu seja estudioso de línguas antigas, teria dificuldade para me comunicar
diretamente com você. As palavras teriam um sentido diferente, muitas nem existiriam. Um
computador, embora mantendo o tom, o timbre e a intensidade da minha voz, transforma o que eu
digo, procurando as palavras e frases mais adequadas numa linguagem que você entenda. São
transmitidas para um pequeno aparelho colocado no seu ouvido. Eu também recebo a sua
conversação transformada pelo computador. Com esse recurso, não há problemas para a
comunicação entre pessoas de diversos lugares do mundo. O computador aprendeu a sua língua
com os registros de arquivos e com aquilo que você mesmo falou.
Alberto apalpou os ouvidos, não percebendo a existência de qualquer aparelho.
-O dispositivo é minúsculo, feito para não causar nenhum desconforto. – Disse Leneu.
A coisa era tão estranha que ele não se animou comentar. Procurando um derivativo para a
confusão de idéias que cada vez mais o afligia, apontou para o quadro e a cadeira.
-Estranhei o fato de aqueles objetos não combinarem com o restante do ambiente.
Leneu apresentou um sorriso sem jeito. Com uma postura menos composta em relação àquela
que costumava apresentar.
-Foi idéia dos psicólogos. Procuraram criar um ambiente que lhe fosse familiar. É o melhor que
conseguiram.
-Estou agradecido pela intenção. Talvez tenha ajudado. Todo o meu desejo é encontrar coisas
que sejam familiares.
-Em breve poderemos sair deste quarto e ir para um ambiente mais amplo e melhor. Haverá
muitas novidades para você conhecer e se entreter. Alguns programas virtuais poderão lhe oferecer
ambientes familiares.
*
Já se sentindo, fisicamente, com mais disposição, Alberto levantou com menos dificuldade e
fez exercícios. Sentia-se menos tonto, mas, continuava perturbado. Tudo o que ouvira fazia sentido
para uma história de ficção, todavia, como realidade era um absurdo. Desejava sair daquele quarto
e ver o que havia lá fora. Quando um atendente lhe serviu suco e saiu, seguiu-o sem ser notado.
Atravessando a porta, viu-se em um longo corredor de cor branca com iluminação difusa, sem nada
mais. A porta atrás de si fechou automaticamente. De súbito, o atendente olhou para trás. Ao vê-lo,
demonstrou surpresa e temor.
-Não fique assustado, eu quero apenas ver o que há aqui fora. - Alberto falou.
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O atendente permaneceu no meio do corredor, tentando impedir a passagem. Alberto foi em
frente e, percebendo que, apesar de parecer robusto, ele tinha pouca força muscular, empurrou-o
sem esforço para o lado. Entretanto, o corredor terminava sem sinal de passagem. Deu alguns
passos a esmo até ver se abrir na parede em frente um espaço por onde Leneu entrou. Ele se
aproximou e sorriu simpaticamente.
-Percebo que você se recupera mais rapidamente do que esperávamos. Mas, aqui nada há para
ver. Apenas outros pacientes. É melhor voltarmos para o quarto. Logo iremos sair e você poderá
conhecer o mundo lá fora.
A porta do quarto voltou a se abrir e Alberto concordou em entrar.
-É um hospital estranho. Estou sendo vigiado, sem saber como. Só tomei uns poucos sucos e
estou bem alimentado. Em alguns momentos, devo receber medicação para provocar o sono,
contudo, sem nada perceber. Não há nada para fazer ou ver. Se continuar assim, eu fico louco.
-Estamos fazendo todo o possível para que se recupere com segurança. Sua evolução foi mais
rápida do que esperávamos e há dúvidas sobre a melhor forma de distraí-lo. Vou me empenhar para
antecipar sua transferência a uma residência confortável, onde possa ter distrações e maior
privacidade. Aos poucos, esperamos que viva de um modo considerado normal, embora muito
diferente daquele que você conhecia. Alguma medicação tem sido dada imperceptivelmente por via
gasosa. A alimentação e outros procedimentos, principalmente no início da sua estada, foram
realizados durante o sono. Você está sendo acompanhado todo o tempo porque o seu caso é muito
especial. Agora que está bem consciente, faremos todo o possível para apressar a sua adaptação ao
mundo atual.
-Mudar de ambiente seria uma coisa boa. Por mim, poderíamos ir agora.
-Estão sendo tomadas as providências necessárias. Enquanto isso, procure descansar.
Alberto deitou, perdendo-se em memórias distantes. Voltou-lhe a idéia de que poderia estar
sendo submetido a uma experiência para conhecer os limites humanos frente a uma situação
absurda. Vieram-lhe à mente relatos de pessoas com a firme convicção de haver tido experiências
verdadeiras, embora os médicos as explicassem como produzidas por distúrbios cerebrais. Por que
não se investia mais para esclarecer definitivamente as visões tidas como de fora do corpo, ou com
respeito a lembranças de vidas passadas provocadas pelo hipnotismo? O que é mais importante
conhecer: outros planetas ou a natureza da própria consciência? Com ele, todavia, parecia
acontecer o contrário: os fatos ao seu redor eram apresentados como reais, entretanto, tinha a
sensação de estar sonhando. Repetiu para si mesmo o propósito de não se entregar ao desespero e
voltou seu pensamento para momentos agradáveis do seu passado até que o sono o apagou.
*
Deodéa recebia as informações de Leneu, acompanhando com enorme interesse a recuperação
do chamado homem do gelo. Animou-se com o relato de que ele havia obtido um progresso mais
consistente.
-Acredita que ele chegará a viver normalmente no nosso mundo? - Ela perguntou.
-Condições físicas e intelectuais para isso, ele tem. A dificuldade maior será a sua adaptação
psíquica e social. As diferenças com o mundo em que viveu são muito grandes. Para que se
desligue do passado, adaptando-se às condições da sua nova vida, precisará contar com um trabalho
intenso da nossa parte. Já lhe foi designada uma casa moderna na borda da floresta, junto à
natureza. Infelizmente, em breve eu terei que abandoná-lo. Quando ele deixar o hospital, será
indicado um tutor para acompanhá-lo.
-O tutor não poderia ser você mesmo?
-A decisão não é minha. Estabeleci laços afetivos e gostaria muito de permanecer como tutor.
Todavia, ele já não depende de um entendido em línguas antigas para se comunicar através do
computador.
-Quem irá decidir?
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-A opinião do Instituto de Psicologia deveria prevalecer, mas, haverá pressões políticas. Como
você sabe, o caso teve enorme repercussão. Ele era chamado de homem do gelo, depois, homem do
passado e, agora, alguns já o conhecem como Alberto, seu nome original. Foi criado um grupo
interdisciplinar denominado Comissão Tutelar para cuidar da sua readaptação.
-Parece-me claro que ele deveria ser acompanhado por quem já tem laços afetivos
estabelecidos. Vou entrar em contato com pessoas do Instituto de Psicologia. Precisamos fazer
prevalecer um critério técnico.
*
No mesmo dia, Deodéa solicitou comunicação com sua amiga Solina do Instituto de Psicologia.
Após pouco tempo, a imagem dela surgiu na sala.
-Olá! Há tempo desejava vê-la e agora tenho um motivo. Gostaria de falar pessoalmente. Posso
ir até a sua casa?
-Que bom vê-la. Você não precisa motivo para ligar. Ultimamente eu tenho andado ocupada
com a minha filhinha. Agora, ela viajou com a avó. Eu gostaria que você viesse quando ela estiver
presente para conhecê-la. Se quiser, posso ir até a sua casa.
-Eu muito agradeceria.
Deodéa se deu conta ter sido agradável falar com Solina, embora seu temperamento fosse
diferente. Há algum tempo ela não a via. As memórias da infância e da adolescência tinham muita
importância para ela. Embora afastados, os antigos amigos continuavam próximos em seus
sentimentos, mais do que aqueles contraídos na vida adulta.
Quando Solina chegou, ela quis visitar o jardim e a casa. Muitos gostavam de ir àquela mansão
só para admirar sua arquitetura. Havia poucas iguais. Sem muitos subterfúgios, Deodéa falou:
-Você deve saber que meu amigo Leneu ficou como interlocutor do homem do gelo. Eles
estabeleceram fortes laços de confiança. Saindo do hospital, deverá ser designado um tutor. Sendo
psicóloga, você sabe melhor do que eu que seria um absurdo escolher uma pessoa desconhecida. O
homem está completamente deslocado e precisa manter com alguém uma relação afetiva
duradoura. É muito importante que o Instituto de Psicologia se pronuncie sobre isso.
-Sua influência política é maior do que a minha, porém, pelo Instituto de Psicologia eu penso
que posso responder. Façamos um trato. Irei empenhar-me para que Leneu seja designado tutor e
você me apóia para que eu seja a sua assistente. Atualmente, tenho pouco tempo, mas, para auxiliar
nesse caso, eu posso arranjar. Não é apenas por prestígio. Desde que tomei conhecimento, o
acontecimento me interessou bastante do ponto de vista científico. - Falou Solina, depois de
meditar por algum tempo.
-Pode contar comigo. Se Leneu for designado, ele irá solicitar que você seja sua assistente. Se
eu pedir, esteja certa de que ele não negará. – Disse Deodéa.
Antes de sair, Solina abraçou a amiga.
-Lembra-se do nosso tempo de meninas? É pena que não possa mais ser assim. Nada tínhamos
para nos preocupar. Você sempre interessada em romances da época passada. Eu sei que, desde
aquele acidente que ocorreu com seu pai, você tem muito trabalho e responsabilidade. Entretanto,
não precisa ficar tão reclusa. Seria interessante voltarmos a nos encontrar. Tempo bom foi aquele!
A menção de Solina fez Deodéa voltar sua memória para a adolescência. Ela gostava de livros
recuperados de um tempo anterior às catástrofes contendo romance, Tinha acesso a eles na
biblioteca do seu pai. Quase só ela, entre seus colegas, lia esses livros antigos. As histórias daquela
época enchiam a sua imaginação. O que não revelava a ninguém era que ela ainda cultivava
algumas dessas fantasias. Agora, o seu pensamento era entretido com a idéia de que o homem
recuperado do passado poderia ser um personagem de romance. Alguém capaz de ver a sua amada
como única e de dizer coisas que nenhum homem da atualidade falaria. Ela não desconhecia haver
ofertas de tais fantasias em programas de realidade virtual. Neles se podia encontrar qualquer tipo
de experiência, mesmo as de tempos antigos. Entretanto, Deodéa pouco apreciava a vida virtual e
se censurava pelos devaneios. Precisava policiar-se. O que pensariam os Conselheiros do seu
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partido da brilhante e combativa mulher, se a soubessem perdida em sonhos tais que, hoje, nem as
adolescentes entenderiam.
No dia seguinte, Deodéa teve notícia da arrebatada defesa feita por Solina no Instituto de
Psicologia em favor de Leneu.
3 - NOVA RESIDÊNCIA
Ao acordar, Alberto verificou que, ao invés do pijama, estava trajando uma espécie de abrigo
de cor escura e tecido leve. Levantou e fez alguns exercícios. Estava ainda de pé quando o homem
que se denominara Leneu entrou sorridente. Desta vez não trajava o avental, mas, um abrigo da
mesma cor.
-Finalmente, podemos ir à sua nova residência. Está disposto? – Perguntou Leneu.
-Sinto-me bem e, sobretudo, curioso. Sair significa a possibilidade de conhecer mais sobre a
minha misteriosa situação. Fica longe daqui?
-Um pouco. Conseguimos uma casa em meio à natureza, fora do centro urbano, na borda da
floresta,. É um privilégio que poucos podem desfrutar. Você é uma pessoa muito especial. Fui
nomeado seu tutor provisório, o que significa estar diariamente ao seu lado, ao menos, por algum
tempo. Vamos?
Apoiado pelo braço, Alberto foi dirigido em direção à abertura do quarto. Saindo, percorreram
o corredor de paredes nuas até o ponto em que se abriu a entrada de um quarto diminuto. Ali havia
um sofá ocupando toda a parede lateral. Sentaram-se, a porta se fechou e o teto desceu até próximo
às suas cabeças.
-Estamos num módulo de transporte, o qual nos levará até a sua residência.
Leneu disse algumas palavras e a parede em frente se transformou numa espécie de tela de
televisão com imagens em três dimensões apresentando cenas da natureza. Alberto teve a sensação
de que se deslocavam suavemente, com algumas paradas e mudanças de direção.
-O módulo se move através de fluxos magnéticos. Escolhemos um horário em que o transito
está menos congestionado nesta área.
-Não seria possível ver o que há lá fora?
-Sim, mas há pouco para ver.
Disse outras palavras e a imagem em frente passou a mostrar um labirinto de construções
surrealistas, entre as quais se viam objetos de forma ovalada se deslocando rapidamente no ar em
todas as direções. Para Alberto, parecia um desenho animado, fortalecendo a sua sensação de estar
sonhando. Apontou para os objetos:
-São automóveis?
-Nós os denominamos módulos de transporte. Dirigem-se automaticamente para o endereço
indicado. Existem veículos com motor próprio e necessidade de serem dirigidos por um condutor
para uso, apenas, fora da zona urbana.
Alberto ficou quieto, como se considerasse essas coisas normais, ou, como se estivesse
acreditando em tudo como verdade. O aglomerado de construções geométricas superpostas, aos
poucos, tornou-se menos compacto, mostrando ilhas verdes e alguns espaços de céu claro, o que
lhe pareceu um aspecto mais familiar. Espaçadamente, destacavam-se estruturas de gradeado
metálico com um formato que lembrava a Torre Eiffel, porém, muito mais altas.
-O que são estas torres? - Alberto se animou a perguntar.
-Suportam os equipamentos para o controle do clima: insolação, temperatura, ventos, chuvas e
o mais.
-Só chove quando se quer?
-Sim, conforme a conveniência de cada região. Isso, quando os acordos funcionam. Uma das
nossas grandes questões políticas é obter concordância sobre onde e quando chover. – Respondeu
Leneu, concluindo com um sorriso de malícia.
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Ao longe, sobre a cidade, avistava-se uma coluna de fumaça.
-Há muita poluição? Alberto apontou e perguntou.
-Fumaça assim, só quando acontecem estes falsos acidentes.
A resposta causou estranheza. No entanto, Alberto não insistiu com indagações. Leneu parecia
aborrecido com o que vira, porém, pouco propenso a conversar sobre o assunto.
As construções foram rareando, vendo-se do alto a margem de uma compacta floresta tropical.
O humor de Leneu mudou e ele sorriu embevecido, feliz com a visão:
-Veja que beleza. A preservação da floresta é o nosso maior orgulho.
Enxergar o céu, as árvores e, através das suas copas, áreas de solo relvado, provocou em
Alberto um choque emocional. Ele foi subitamente surpreendido por uma sensação de
contentamento. Pela primeira vez, desde que acordara no hospital, tinha a sensação de que vivia em
realidade. Uma incrível, mas, palpável realidade. Ele se perguntava o que estaria por vir.
O modulo de transporte seguiu pela borda da floresta, desceu e se aproximou de uma meia
esfera de coloração escura junto à qual encostou. O teto do módulo se elevou e a parede lateral
abriu, permitindo aos tripulantes saírem diretamente para um amplo salão abobadado. O ar era
fresco e levemente perfumado. Leneu falou alguma coisa e duas poltronas com maciez de espuma
se elevaram do chão. Alberto foi convidado a sentar. As poltronas, embora dando boa sustentação,
acomodavam-se às posições do corpo.
-Esta é uma residência moderna e está localizada em um lugar privilegiado. Já foram emitidas
instruções para o reconhecimento da sua voz. Você poderá comandar todas as funções da casa. Por
enquanto, eu permanecerei aqui tanto tempo quanto desejar, até que aprenda e se acostume lidar
com todas as coisas.
Com mais algumas palavras de Leneu, a parte lateral esquerda da abóbada perdeu sua
opacidade, tornando-se transparente e revelando a floresta tropical chegar até junto à casa. Podia-se
ver, até, uma serpente numa árvore próxima. Alberto procurou não revelar o seu deslumbramento:
-É aqui que eu vou morar?
-Aqui você terá todo conforto. Este grande salão pode ter seu espaço dividido em áreas. Aqui,
próximo à entrada, estamos numa área adequada para ser preenchida com uma sala de estar e de
comunicação. No restante do espaço podem ser criadas áreas para instalações sanitárias, banhos,
leitos, refeições e esportes.
Enquanto explicava, mediante algumas palavras ininteligíveis, fazia elevar-se do chão
divisórias transparentes e as estruturas mencionadas.
-Noto que você diz algumas palavras que não são traduzidas para mim.
-Quando o comando é para o computador, ele reconhece que não estou me dirigindo a você. Se
preferir, posso dizer a ele que traduza. As divisões podem ficar opacas e assim, talvez, a casa fique
mais conforme com os seus costumes. O mobiliário contém recursos correspondentes às
necessidades. Você deverá comandar. A área de esportes serve, também, para todas as outras
atividades virtuais, como viagens ou quaisquer outras práticas, envolvendo todo o corpo com
sensações táteis e de cinestesia. Coloca-se um traje adequado e se têm a sensação de estar
praticando o esporte escolhido, com jogadores virtuais ou imagens de pessoas reais com as quais
tenha combinado a realização de um jogo. Pode-se estar com pessoas de qualquer local do mundo
em lugares virtuais determinados. É possível viajar em cenários virtuais, ou, adotar o corpo de um
boneco, o qual estará presente no lugar escolhido, interagindo realmente com o ambiente. As
sensações são transmitidas e percebidas por você como se estivesse lá, pessoalmente.
-Para assistir alguma coisa é preciso sempre ir àquela área?
-Desde aqui, através do comunicador, podemos acessar imagens tridimensionais em tamanho
real, ou outro, com sons e odores. Nos contatos com outras pessoas, elas são vistas como se
estivessem aqui presentes. Temos a impressão de estarmos dentro do ambiente, entretanto, sem
poder tocar. Aliás, em qualquer lugar onde estivermos, podemos ter imagens do que quisermos, em
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geral, com tamanho menor. O comunicador nos dá acesso a quaisquer pessoas e acontecimentos
atuais ou passados. Isso reduz a necessidade de esforços e contatos reais.
-Todas as práticas são virtuais? As pessoas não se encontram?
-Em geral, nos encontramos para negócios muito especiais, festas, reuniões de amigos e em
outras ocasiões. Alguns poucos gostam de estar presente em estádios quando há jogos com times
profissionais, ou, em outros espetáculos. É possível jogar em ambientes reais, mas, a maioria
prefere se exercitar com simulações. Quer ver a imagem de um jogo que está se realizando agora?
Sem esperar pela resposta, Leneu pronunciou algumas palavras e se descortinou a visão de um
estádio onde se realizava a disputa de um jogo, parecido com o futebol. A imagem em três
dimensões cobria a frente e lados dando a impressão de que estavam sentados no meio da
arquibancada. Estranhamente, os jogadores usavam apenas, além de calçados apropriados, uma
espécie de tanga colorida com cinto branco. Um público pequeno acompanhava os lances
animadamente. Todos vestiam apenas tangas. Entre o público, havia mulheres que se distinguiam
dos homens apenas pelo contorno do corpo e seios, pois, tinham corte de cabelo igual e trajavam,
também, apenas tangas. Os traços étnicos das pessoas tinham semelhança aproximada com os de
Leneu. O som do estádio os obrigou a elevar a voz.
-Veja aquele sinal no canto. Assinala que é uma transmissão ao vivo. As pessoas ao lado
preferiram comparecer pessoalmente. Se estivéssemos utilizando a área de esportes, poderíamos
sentar ao lado de outras pessoas virtuais e com elas interagir. Combinando com amigos,
poderíamos ficar juntos virtualmente num estádio, permanecendo, em verdade, cada um em sua
casa. O jogo poderia ser ao vivo ou o de qualquer data passada.
-É costume ir aos estádios vestindo apenas tangas?
Leneu sorriu e pediu para o som do estádio se reduzir.
-Assim é mais fácil conversar. Atualmente, a tanga é o nosso traje normal. Como a temperatura
é estável, não há necessidade de outras coberturas. É mais cômodo e saudável. As roupas que nós
estamos usando foram fornecidas com a intenção de reduzir, inicialmente, a sua estranheza.
-De fato, é estranho, mas, não o mais extraordinário. Para mim, é como se eu estivesse numa
praia onde se pratica “top less”. Posso saber como trocar de canal nesta espécie de aparelho de
televisão?
-O nome oficial é telecomunicador multifuncional, mas, é costume chamar apenas de
comunicador. Basta um comando de voz para que lhe seja mostrado o que quiser. Também, poderá
estabelecer contato com qualquer pessoa, pedindo ao comunicador para fazer a ligação. Ele está
preparado para reconhecer a sua voz, entender a sua linguagem e atender os seus pedidos.
Conforme o diálogo, para entender logo que é a ele que você está se dirigindo, é possível lhe dar
um nome e usá-lo para iniciar os comandos. Que nome você quer? De preferência, não o de pessoa,
ou que costume ser usado no início de frases para outras finalidades.
-Poderia ser apenas Comunicador?
-Sim. Entretanto, se alguma frase provocar confusão, você terá que explicar.
Leneu pronunciou algumas palavras.
-Sua conexão está ativada. Você pode comandar.
-O que eu devo dizer?
-Diga: Comunicador! Logo após fale o que você quer que lhe seja apresentado. Ele procurará
atendê-lo. Se não entender o seu pedido, irá solicitar esclarecimentos e aprenderá a interpretar as
suas intenções.
-Comunicador! Mostre-me outra espécie de jogo esportivo. Aquele que, no momento, esteja
sendo o mais assistido. - Alberto experimentou, ainda inseguro.
Imediatamente, a imagem à frente mudou para um estádio com outra espécie de esporte. Havia
um campo circular e um único cesto colocado bem alto na parte central do campo. Os competidores
corriam ao seu redor e, às vezes, arremessavam a bola ao cesto.
-Parece que o meu comando funcionou. – Disse Alberto.
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-De fato, este é o segundo jogo mais popular e esta partida deve ser a mais assistida nesta hora.
Você pode comandar qualquer coisa nesta casa.
-Ainda se usam livros?
-Não de papel. Há visores em toda a parte. Habitualmente os livros são teatralizados. Alguns
autores, porém, fazem questão de que seja mantido apenas texto para leitura, de modo que o leitor
imagine livremente a narração. Eu mesmo prefiro os livros de texto, sem dramatização.
Principalmente, os que me propiciam estudos lingüísticos e literários.
-Eu preciso ir ao toalete. Ele fica sempre assim exposto?
-Basta pedir para ter privacidade e a parede perderá a transparência. Nesse caso, o pedido será
para o computador da casa. É melhor iniciar dizendo: Computador!
Alberto se dirigiu ao toalete de porta transparente.
-Computador! Eu desejo privacidade. - Ele pediu;
A parede e a porta logo se tornaram opacas. Tudo correu normalmente. Após, a porta se abriu
automaticamente.
-Estou ficando perito em automação. A mudança de ambiente me deu fome. Podemos comer
alguma coisa?
Leneu ordenou ao computador e foram até uma área de refeições tendo ao centro apenas uma
mesa e duas cadeiras.
-Esta mesa tem agregado um sintetizador. Você pede o que quer e ele faz a junção dos
elementos básicos, produzindo o seu pedido. Qualquer tipo de alimento conhecido. Este
sintetizador pode, também, fabricar objetos simples.
-Após a dieta do hospital, viria bem um bife com batatas fritas.
-Peça ao computador. Eu o acompanho para saber como ficou. Peça, também, algo para beber.
-Computador! Desejo bife com batatas fritas e um cálice de vinho tinto para duas pessoas.
-Quantas gramas de carne e quantas gramas de batatas? Inteiras ou fracionadas? Se fracionadas,
quantas gramas por fração? Vinho de qual tipo de uva? Pratos, cálices e talheres comuns? - No
ouvido de Alberto, uma voz perguntou.
Alberto fez alguns cálculos e ordenou os detalhes. Sem muita demora, abriu-se o tampo da
mesa e do seu interior se elevou uma bandeja portando os pedidos, com pratos, cálices e talheres
diferentes dos que ele conhecia.
-Se não estiver ao seu gosto, dê novas especificações. – Alberto ouviu a voz dizer.
-O aroma está ótimo. Estava com saudade disto.
As porções tinham forma retangular e consistência macia, com sabor razoavelmente bom. O
vinho estava agradável. Com apetite para algo diferente do que vinha recebendo, Alberto se
alimentou voluptuosamente. Leneu pareceu satisfeito. Conversaram sobre comidas e, ao fim,
Alberto foi orientado para avisar o computador. A bandeja, os pratos, os talheres e os cálices
desceram para o interior da mesa.
-O que é feito com os restos nos pratos?
-Tudo é automaticamente limpo, desintegrado e os seus elementos reaproveitados.
Voltaram à área de estar e passaram a utilizar o comunicador. Alberto ficou especialmente
impressionado com imagens ao vivo tomadas em profundidades oceânicas e, depois, em colônias
de planetas próximos. Achou interessante ver montagens sobre os eventos históricos ocorridos após
a época do seu acidente. Em determinado momento, o semblante de Leneu se anuviou.
-Vamos pular essa época. Ninguém gosta de ver.
-O que aconteceu? – Perguntou Alberto.
-Guerras e cataclismos. As guerras impediram os cuidados de prevenção contra outros
desastres. Foi uma fase triste em que a humanidade quase desapareceu. Passaram-se muitos anos de
lenta recuperação até chegar à atualidade. A memória histórica daqueles acontecimentos ainda
marca a vida atual e a nossa política.
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Aparentemente, Leneu não desejava prolongar a conversa sobre esses fatos. Alberto preferiu
não insistir e passaram a outros assuntos. Mais tarde, não havendo luar, a floresta foi ficando
escura. A parede, embora transparente, não deixava passar nenhuma luz do interior para fora.
Leneu explicou que era para não perturbar a natureza com luz artificial. Alberto se queixou:
-Foi um dia pesado para mim. Eu ainda me canso com facilidade. – Disse Alberto.
-É melhor você repousar. Se, nesta primeira noite em sua nova casa, preferir que eu durma aqui,
eu poderei ficar.
-Não será necessário. Eu estarei bem.
Leneu foi até a área de alimentação e trouxe um copo contendo líquido.
-Tome este suco. Ele irá recompor as suas necessidades metabólicas do dia. No hospital você
recebia um sedativo gasoso. Se lhe faltar sono, peça ao sintetizador um comprimido de sedativo.
Até que fique mais ambientado, poderá necessitar. Se desejar entrar em contato comigo, é só pedir
ao comunicador e ele estabelecerá o contato. Pela manhã, estarei aqui.
Alberto aceitou tomar o suco sem pedir maiores explicações. Leneu se dirigiu até a entrada, a
porta se abriu e ele entrou diretamente em um módulo de transporte. Antes de deitar, Alberto
solicitou ao comunicador a apresentação de cenas de acontecimentos atuais. Era como se estivesse
dentro de cada ambiente. Entretanto, estava cansado e perturbado demais para apreciá-las
devidamente. Com sono, dirigiu-se ao leito. Vieram-lhe à mente fatos dos tempos passados e suas
antigas personagens. Todas as ambições e metas para o futuro daquelas pessoas, agora, pareciam
tolices. As suas pretensões, assim como os seus corpos, se haviam tornado pó. Algo semelhante
podia sentir com respeito às preocupações que ele mesmo tivera com respeito à própria família e o
seu futuro. Olhando à distância, realidade e fantasia lhe pareciam ser o mesmo. De novo, teve
dúvidas sobre a verdade da experiência que vivia. Entretanto, era o que via e sentia. Como nada
podia mudar, devia relaxar e aceitar os acontecimentos, ou, acabaria louco. De qualquer modo, não
pretendia permanecer apenas observando, sem reagir. Até então, não fora da sua natureza ficar
inativo, apenas, ao sabor dos ventos. Acontecesse o que fosse acontecer, estava disposto a explorar
todas as oportunidades oferecidas.
*
Alberto acordou com a luz filtrada pela floresta atravessando a parede translúcida. Testou pedir
ao computador para aumentar a iluminação e logo foi atendido. Levantou-se, foi à toalete e, depois,
à área de refeições. Solicitou uma taça de café com leite, pão, manteiga e uma maçã. Todos os
pedidos foram imediatamente atendidos. Dirigiu-se à área de esportes e fez alguns exercícios, sem
utilizar os recursos virtuais aos quais Leneu se havia referido. Disse ao computador que desejava
tomar um banho. Foi-lhe pedido que escolhesse o modo. Optou por imersão e vapor. Na área
correspondente, uma banheira com água turbilhonada elevou-se do chão. Ele permaneceu por
algum tempo confortavelmente imerso na água tépida, enquanto o quarto de banho encheu-se de
vapor. Ao sair, jatos de ar quente secaram rapidamente o quarto e o seu corpo. Verificou que
toalhas macias estavam à mão num compartimento transparente. Ao mesmo tempo, rindo de si
mesmo, vestiu-se conforme a moda, utilizando uma tanga com cinto de cor branca disponível no
compartimento. A temperatura era amena e ele se sentiu confortável. Dirigiu-se à sala de estar,
disposto a apreciar algumas imagens. Pediu ao comunicador a apresentação de notícias atuais no
canal mais assistido. A imagem em tamanho natural que, subitamente, apareceu provocou um
susto. Transmitiam ao vivo um incêndio e parecia que ele estivesse presente no local. Aproximouse um oficial da segurança dizendo que a causa provável do incêndio fora a explosão de um
depósito de produtos químicos. Um funcionário reclamou de sabotagem. Em seguida, a
apresentação mostrava a entrada de um hospital e o repórter perguntava sobre feridos. Alberto
preferiu mudar e pediu para assistir um show musical. Abriu-se à sua frente um palco grandioso,
com música e dança. Ele apreciava o espetáculo quando ouvi um sinal na porta de entrada e, em
seguida, Leneu apareceu. Ele trajava uma tanga branca com cinto verde.
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-Congratulações. Vejo que a sua adaptação está se fazendo com bastante rapidez. De agora em
diante, após o sinal, o computador o avisará quem chegou e qualquer um, mesmo eu, só poderá
entrar se você autorizar. - Falou Leneu.
-Tento me adaptar, mas, estou longe disso. Sem você para me orientar, eu estaria perdido.
-Não sei por quanto tempo continuarei vindo aqui. Eu fui interlocutor enquanto a questão
lingüística poderia ser o mais importante e, depois, tutor provisório. Agora, alguns estão propondo
a indicação de um novo tutor para me substituir.
-Eu preferiria que você continuasse. Quem decide isso?
-Eu também gostaria, mas, não depende de mim. Existe uma Comissão Tutelar indicada e eu
tenho pouca influência política.
4 – COSTUMES CURIOSOS
Quando estava sozinha, Deodéa voltava ao estado introspectivo que há algum tempo assumia.
Desde o afastamento dos pais não tivera mais tempo para tratar das suas coisas pessoais. Isso,
porém, não a perturbava, nem era, por si, motivo de abatimento. Por que se via, agora, pensando
com tanta freqüência num homem do qual ela não conhecia o aspecto físico, nem a índole?
Era noite quando encontrou Madra. O visual não indicaria a diferença de idades, porém, o
comportamento sim. Madra percebeu o abatimento de Deodéa.
-Você precisa deixar as apreensões, ter o filho que deseja e viver sua própria vida.
-Ainda não encontrei ninguém que me inspire confiança para isso. – Respondeu Deodéa.
-Não será difícil achar, se procurar.
-Eu gostaria de alguém que se preocupasse com o filho.
-Vamos a outros lugares em que possa se divertir e conhecer pessoas.
-Vou pensar. Quando resolver ir, eu a aviso.
*
Deodéa recebeu a visita de Solina. A amiga se mostrava exultante.
-Consegui que o Instituto de Psicologia impusesse a manutenção definitiva de Leneu como
tutor do homem do gelo até completar a sua recuperação. Estava bem encaminhado, mas, Formeno,
um bajulador governista que alguns dizem ser apoiado pelo criminoso Mono quis atropelar a minha
proposta e obter o cargo para si.
-Isso seria uma afronta ao bom senso e um desprestígio para o Instituto de Psicologia. –
Reclamou Deodéa.
-Eu sei, mas, já tomei providências. Você sabe que eu tenho amigos na Segurança Pública.
Investiguei e fiquei sabendo que o sujeito tem uma ficha bem suja. Pedi para o meu primo levantar
algumas informações e as joguei na imprensa. Comigo não se brinca!
-É melhor nem falar para Leneu. Ele é muito escrupuloso e lhe causaria desagrado saber das
suas manobras em seu favor.
-Pode deixar. Se Formeno não se garante, não devia se intrometer. Lembre-se de que eu quero
ser assistente de Leneu para esse caso.
Quando Solina saiu, Deodéa riu consigo mesma. Sua amiga não admitia ser desprestigiada. Se
não tivesse conseguido, iria causar um abalo na grei governista. Por certo, não lhes convinha
demonstrar inequivocamente que punham as suas motivações partidárias acima das razões técnicas.
À noite do mesmo dia, circulavam notícias de que Formeno, a quem alguns pretendiam nomear
tutor do homem do gelo, tinha maus antecedentes.
Quando Leneu visitou Deodéa, nada lhe foi dito sobre o papel de Solina na denúncia contra
Formeno. Por que ela iria perturbar a sua felicidade?
-Finalmente, reconheceram que você é o mais credenciado para ser o tutor de Alberto.
-Assim espero. Ele parece desejar que seja eu quem o continue acompanhando. – Concordou
Leneu.
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-Como ele aceita tudo isso. Compreende a situação?
-Ele nos surpreende pelo grau de entendimento demonstrado com as coisas em geral, mas,
ainda não está plenamente convencido de viver no que chama de futuro. Pensa que possa ter sido
envolvido à revelia em algum teste psicológico.
Deodéa sorriu, demonstrando interesse.
-Na situação dele, creio que eu pensaria o mesmo. Ouvi que a Comissão Tutelar não aceitou
que divulgassem a imagem. Que tipo ele tem? É bonito?
-Eu não vejo motivo para essa curiosidade. Você está muito interessada? Não estará com
fantasias românticas? Lembro que gostava dos livros do seu pai contendo romances antigos. É a
única garota que eu conheci que se interessava por isso. – Respondeu Leneu, com um sorriso
malicioso.
-Você, também, pedia muitos livros para o meu pai.
-Eu gosto de história. Sou interessado, principalmente, em conhecer a filosofia e a política
anterior ao Armagedon. Os romances antigos me parecem desinteressantes para a nossa época.
Tratam de questões ultrapassadas, quase sempre envolvendo emoções de ódio e desespero ligadas a
problemas amorosos, relações de família, filhos ilegítimos, doenças e miséria econômica. Os
problemas hoje são outros. Todos têm os recursos necessários, mesmo sem trabalhar. Há lazer
virtual amplo e sempre acessível. Os filhos têm, desde o nascimento, acompanhamento psicológico
com a finalidade de evitar desajustes e severa cobrança aos pais para que lhes dêem atenção. As
relações sexuais se fazem desde cedo com bonecos-companhia, o que elimina os desgostos
amorosos. Quando as emoções incomodam, basta tomar um remédio para tudo ficar sereno e surgir
uma sensação de contentamento.
Deodéa estava sensível e se sentiu atingida, a ponto de não perceber que Leneu, um crítico
severo do sistema, usava de ironia.
-Os problemas pessoais podem ser outros, mas, continuam existindo. O que cada um sabe a
respeito dos sentimentos daqueles com quem convive? Você pretende ser muito racional, mas, faz
coisas sem sentido. Está magro, usa remédios calmantes e não toma o seu restaurador diário. –
Falou Deodéia, com alguma rispidez.
-Eu tenho as minhas razões. Só não me disponho a explicá-las, para evitar discussões estéreis.
Tomo o restaurador parcialmente e deixei os tranquilizantes. Leneu falou, mantendo o sorriso e
sem demonstrar contrariedade.
-Parece mesmo mais bem disposto. Foi a sua escolha para tutor que o deixou otimista?
-Nem tanto. Eu não a censuro por ler o que não é da moda. Apenas, parece-me que os romances
antigos tratam de problemas diferentes dos atuais. Enquanto isso, outros hábitos, tais como as
ambições políticas desmedidas e as vaidades exageradas pouco mudaram e continuam causando
danos. De qualquer modo, para mim, esses são sentimentos banais, coisas da vida corriqueira. Os
verdadeiros problemas são de ordem existencial.
-Se deixou de tomar remédios, fez bem. Eu não gosto de remédios para alterar as emoções.
Basta o contato com a natureza para eu me sentir bem. As fantasias que eu construo mentalmente
são inócuas e me satisfazem mais do que as que são obtidas acabadas, através de programas
virtuais.
-A sua educação e as suas experiências foram diferentes das da maioria. Se estiver bem para
você assim, fico feliz. Eu, por princípio, gostaria de ser realista em tudo. A questão, porém, é saber
o que é a realidade. – Disse Leneu, tornando-se mais sério.
-Você precisa conversar mais com Tacialmo. Ele tem muitas respostas.
*
Voltando à casa da borda da floresta, Leneu não conseguia disfarçar sua satisfação.
-Você vai ter que me aturar por mais algum tempo. A Comissão Tutelar decidiu confirmar o
meu nome como seu tutor.
-Fico satisfeito. Eles tomaram em consideração o meu desejo? – Perguntou Alberto.
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-Seria o certo, porém, não creio. A repercussão dos fatos relacionados com a sua pessoa tem
crescido, mas, a política pesa sobre todas as decisões.
-Eu vi a notícia sobre um novo incêndio. Intriga-me que, com tantos avanços, esses acidentes
ainda aconteçam. Parece-me que o vosso progresso não é, assim, tão perfeito.
A fisionomia de Leneu anuviou-se. Alberto temeu que o seu comentário fosse considerado
ofensivo. Logo, ele entendeu não se tratar disso. O desgosto se dava pela própria notícia. Ela
causava a Leneu uma contrariedade maior do que seria justificado por um acontecimento fortuito.
-Conforme se avança, novos problemas aparecem. Você acabará sabendo. Antigamente, não era
assim. Há pessoas que pretendem manter as suas posições provocando atentados. Estão
organizados e parece haver um comando oculto denominado Mono. Publicamente, há um grande
debate. Alguns querem mudanças, inclusive os que procuram ter uma vida mais próxima à
natureza. Outros alegam que as mudanças propostas levariam a guerras, como no passado. O
motivo do interesse que você tem despertado está relacionado, em parte, com isso. As pessoas
comuns querem conhecer como era o homem antigo para saber se evoluímos na melhor direção. –
Falou Leneu.
-Qual é a sua opinião?
-Não creio que viver mais próximo à natureza cause problemas. Entretanto, as minhas opiniões
não são as prevalentes. As pressões contrárias a quem me apoiou usavam como argumento minhas
críticas a coisas do nosso tempo e a influência que isso poderia ter sobre você. A psicóloga Solina
foi designada para me ajudar na sua adaptação. Ela representa um pensamento diferente do meu. Murmurou Leneu, parecendo não desejar se aprofundar sobre o assunto.
-Você crê que o incêndio foi sabotagem?
-Não sei. Os proprietários de algumas das empresas que sofreram incêndio apóiam mudanças.
Parece existir uma sombra encoberta que chamam de Mono. Será melhor falarmos de outras coisas.
Por enquanto, você é um tutelado e não deve se preocupar com isso.
-Como será o meu programa de recuperação?
-Não há experiência anterior com um caso igual ao seu. A proposta é mostrar o que existe e dar
tempo, deixando você manifestar seus interesses. O que gostaria de fazer?
-Sinto-me acabrunhado, porém, o que mais me move é a curiosidade. Em primeiro lugar,
gostaria de saber sobre a minha situação. Ou, ao menos, o que eu posso e o que eu não posso saber.
-Nada há que não possa saber. Conforme a orientação do setor de psicologia, as informações
devem ser transmitidas aos poucos, para evitar um choque cultural. Você está classificado como
tutelado do nosso Estado. Eu fui nomeado seu tutor e Solina que logo estará aqui será tutora
auxiliar. Com o tempo, dependendo da sua adaptação, você deverá ser emancipado. O grupo
responsável conta com médicos, psicólogos, advogados e outros profissionais para cuidar da sua
recuperação, dos seus direitos legais e o mais. Desde que não haja alguma contraindicação
apresentada pelo setor de psicologia, nenhuma informação lhe poderá ser negada.
Alberto reconhecia haver boa vontade por parte de Leneu e, provavelmente, de toda a equipe,
mas, estava desmotivado. Nada lhe causava grande satisfação ou contrariedade.
-Incomoda-me a falta de privacidade. Não gosto de saber que estou sendo vigiado. - Alberto
protestou, mais do que por outro motivo, para manter a conversação.
O desabafo produziu um efeito maior do que Alberto esperava. Leneu pareceu perturbado,
assustado até.
-Estamos preocupados com que não haja problemas para a sua recuperação. Se preferir, eu
poderei deixá-lo mais tempo sozinho.
-A sua companhia é agradável. O que me incomoda é a sensação de existirem câmeras de
televisão me vigiando o tempo todo.
-Existe a preocupação de atendê-lo em tudo o que for necessário e de que não corra nenhum
perigo. A sua reclamação será devidamente analisada e eu lhe transmitirei a conclusão.
-Como é a assistência jurídica que você mencionou? Poderia falar com o meu advogado?
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Leneu, mais uma vez, demonstrou surpresa e meditou por algum tempo antes de responder.
-Evidentemente, basta solicitar contato e terá acesso a um representante da equipe de sua
assistência jurídica.
-Peço ao comunicador?
-Sim. Quer que eu me retire?
-Não, absolutamente, não é nada sigiloso. Comunicador! Desejo fazer contato com o meu
assistente jurídico.
Não demorou muito para surgir à sua frente a imagem tridimensional de um homem sentado em
sua poltrona. Parecia estar realmente presente na sala. Apesar de ter sido informado que este era o
costume, Alberto estranhou vê-lo em postura formal vestindo apenas uma tanga branca com cinto
verde.
-Bom dia. É uma satisfação atendê-lo. Eu sou o advogado Sazon, representante da equipe
designada para lhe prestar assistência jurídica. Em que posso servi-lo?
-Desejaria conhecer em detalhes a minha condição jurídica. Quais são os meus direitos e
deveres atuais.
-Como lhe deve ter sido parcialmente informado, a sua cidadania foi aceita de forma definitiva.
Sendo evidente o seu desconhecimento sobre as condições do ambiente em que está colocado, o
Conselho do Estado decidiu lhe conceder o status de tutelado. Isso significa que compete ao Estado
do Sudoeste zelar preventivamente para que não prejudique a sua própria integridade e não pratique
atos antisociais, os quais, entretanto, não lhe poderiam ser imputados. Quanto ao mais, você tem
liberdade para quaisquer iniciativas. A equipe que cuidou da sua recuperação foi confirmada para
lhe dar assistência tutelar na fase de readaptação, designando Leneu como tutor. Ele teve instruções
para trazer ao conhecimento do nosso grupo de assistência jurídica qualquer fato que possa
infringir os seus direitos. Uma vez que você já está habilitado a estabelecer comunicação conosco
diretamente, pode exercer essa prerrogativa pessoalmente quando desejar.
Dito isso, Sazon ficou calado, esperando alguma manifestação.
-Incomoda-me estar sendo sempre vigiado. Isso é invasão da minha privacidade. – Disse
Alberto.
-A vigilância é inerente à responsabilidade da tutela, mas, não deve se estender além do mínimo
indispensável. O seu pedido será tomado em consideração. Há o risco de praticar inadvertidamente
atos que resultem em conseqüências desfavoráveis para você mesmo. Na medida em que os
responsáveis se convençam da sua segurança, terão a obrigação de reduzir a vigilância, prevenindoo sobre os possíveis inconvenientes. A sua vontade sempre prevalecerá, desde que não ponha em
risco sua própria pessoa ou outrem. Eu lhe recomendaria aguardar um pouco mais, antes de tomar
uma decisão definitiva a esse respeito.
-Ademais dos contatos com Leneu, a minha atividade é apenas virtual. Que atos arriscados eu
poderia praticar?
-As sua movimentação estará ampliada na medida da sua recuperação. Provavelmente, você
desejará ter experiências reais e receberá propostas tentadoras, com contratos que poderiam lhe
causar inconveniências. No seu caso, a validade de um contrato inconveniente poderá ser
contestada, mas, os prejuízos, talvez, já tenham ocorrido. As contestações implicam em processos
demorados, com muitos incômodos. Sugiro que nos consulte antes de assumir qualquer
compromisso.
-Obrigado, pensarei sobre o assunto. Até à vista.
-Sempre às suas ordens. Até à vista.
A imagem em frente desapareceu. Alberto entendeu apenas parcialmente o significado do que o
advogado dissera. Todavia, preocupou-lhe a afirmação de que a sua movimentação pudesse
implicar em riscos desconhecidos.
-O que significa a cidadania para mim? Que contratos poderão me comprometer? Alguma
proposta de trabalho? – Perguntou Alberto.
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Leneu pensou um pouco, antes de responder.
-Quando você foi encontrado, houve discussão sobre se a cidadania deveria lhe ser concedida
num Estado evoluído, como o nosso. Em caso negativo, depois de recuperado, seria destinado a um
Estado marginal. Para alguns, desse modo você estaria mais próximo aos seus costumes originais.
A corrente predominante considerou que, feita a transposição das épocas, as suas qualificações
correspondiam à condição de uma pessoa evoluída e merecedora da oportunidade de desfrutar a
cidadania num país evoluído.
Leneu deve ter percebido que Alberto ficou sem entender toda extensão do que estava expondo,
mas, no momento, não se dispôs a esclarecer. Com um sorriso malicioso, completou:
-Creio que o que valeu mesmo foi a curiosidade sobre o seu caso. De qualquer modo, uma vez
concedida a cidadania, ela não mais lhe poderá ser retirada.
-E quanto aos contratos?
-A sua situação, naturalmente, é notícia. Mesmo sem ter sido apresentado pessoalmente à
mídia, você é uma celebridade. Há vários programas disputando a possibilidade de entrevistá-lo.
Até agora foi possível ao grupo tutor evitar os contatos, mas, em algum momento terão que ser
liberados e caberá a você tomar a decisão sobre quem atender.
-Por que eu haveria de querer ser entrevistado?
-Alguns programas pagariam uma fortuna por entrevista exclusiva.
-De fato? E o que eu poderia fazer com o dinheiro?
-A sua condição atual de tutelado lhe assegura privilégios. De outra forma, receberia, como
todos os cidadãos, um salário básico que garante uma vida confortável, porém, bem simples. Com
o fim da tutela, para gozar de uma situação econômica mais satisfatória, terá de contar com outras
fontes de renda.
-Pelo que sei, o básico seria suficiente para mim. Não tenho grandes ambições. O que de
diferente eu poderia comprar?
-Há muito que possa fazer: manter todos os recursos desta casa, ir a festas e retribuir, viajar,
participar de grupos de estudos em nível superior, colecionar objetos de arte, comprar aparelhos
com programas modernos de realidade virtual, bonecos-acompanhantes mais sofisticados e
sintetizadores com mais habilidades. No meu caso, os recursos permitem me dedicar a estudos e
pesquisas do meu gosto. Elas resultaram em eu poder estar aqui com você, ampliando os meus
conhecimentos numa área que é a minha paixão.
-Você é um homem rico?
-Não posso dizer isso, porém, já amealhei recursos que atendem às minhas necessidades. Tenho
um belo acervo de livros raros. Alguns gostam de artes plásticas. Para mim, a literatura é a arte
mais completa porque permite ao homem se expressar do modo integral, não só emocional como
logicamente. Eu gosto de estudar todos os nuances da linguagem, procurando descobrir o que os
textos trazem de oculto sob suas mensagens evidentes. Você, porém, poderá ficar rico de verdade
vendendo a sua imagem e respondendo a entrevistas. Basta aproveitar a curiosidade que despertou
em todo o mundo.
-Qual é a sua idade?
-Tenho mais anos do que você imagina. Recebi a recomendação de, por enquanto, não falar em
números. Teriam pouca significação para você e iriam confundi-lo.
-Notei que o cinto do advogado e o seu têm cor verde enquanto o da maioria das imagens e o
meu são brancos. Há algum significado nisso?
-Você é bom observador. É um costume que distingue quem têm certas responsabilidades. Eu
costumo usar o verde quando estou em atividades oficiais. Em outras ocasiões, prefiro usar o
branco mesmo, como a maioria. Conselheiros e membros da cúpula governamental usam cintos
pretos. A cor não tem relação com riqueza, contudo, representa status. Não é proibido usar
qualquer cor, mas, pareceria fora de tom alguém exibir um status superior ao que realmente tem.
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Atualmente, muitos com condição para usar outra cor preferem não se diferenciar e usam apenas o
branco, principalmente em ambientes populares.
-Só se usam essas três cores?
-Sim, exceto os bonecos-companhia. Eles usam a cor vermelha.
-O que é isso de bonecos-companhia?
-Será melhor que você se adapte um pouco mais, antes de conhecer. Eles interferiram muito na
formação dos costumes atuais.
-Tenho alguma pressa em me sentir integrado. Espero não demorar ser informado sobre tudo o
que importa neste novo mundo.
A conversa continuou, abordando como eram feitas as entrevistas e de que modo se podia
empregar o dinheiro ganho. Depois, eles prosseguiram com outros assuntos, até a chegada de uma
mulher. A sua aparência não diferia muito da de Leneu, porém, os seus gestos eram bastante mais
vivos. Gesticulava muito e parecia ser bem alegre. Leneu a apresentou.
-Esta é Solina de quem lhe falei. Ela irá trabalhar junto comigo na sua readaptação.
-Tenho muita satisfação em conhecê-lo. Desculpe-me pelo atraso. Eu me comprometi ajudar
Leneu, mas, estou com pouco tempo. Nosso grupo achou que uma voz feminina, mais otimista,
seria uma coisa boa para elevar a sua moral. Relutei, em virtude dos meus compromissos, mas, uma
amiga minha e de Leneu insistiu para que eu aceitasse.
-Solina discorda um pouco da minha opinião sobre algumas questões políticas, mas, não somos
radicais. Você deve aprender tudo com respeito ao nosso mundo. É recomendável que as suas
fontes de informação sejam diversificadas.
-Antes de pretender saber sobre questões políticas, eu preciso conhecer como as coisas
funcionam. Ainda estou atordoado com tudo o que vejo.
-Dar explicações é comigo. Peço que desculpe alguma inconveniência. Dizem que eu falo
demais. Se eu andar muito depressa, peça-me para repetir. - Interveio Solina, com voz segura e
estridente.
-Já me habituei com algumas tarefas rotineiras, todavia, preciso saber mais sobre os hábitos,
direitos e obrigações das pessoas na atualidade.
-Você já foi instruído a como se tratar? É indispensável ingerir a solução corretiva, preparada
pelo sintetizador, uma vez ao dia. Os sinais vitais, a urina, as fezes, a água do banho, tudo é
automaticamente analisado e as alterações metabólicas diagnosticadas são corrigidas pelos
elementos contidos na solução. O sabor fica à sua escolha. Se passar alguns dias sem essa
providência, o setor de medicina preventiva entrará em contato para ver qual é o problema.
Periodicamente, você terá uma revisão médica mais completa.
A seguir, Solina se pôs a descrever as maravilhas do seu mundo, principalmente as atividades
virtuais postas a disposição de todos desde a infância. As suas informações eram completadas com
imagens tridimensionais do comunicador. Vendo crianças, Alberto, acometido pela nostalgia,
lembrou a infância e deixou seu pensamento transbordar.
-Perturba-me constatar que, desde a infância, se viva na virtualidade. Na minha memória estão
presentes os tempos de criança. O convívio fácil com os amigos em minha casa, na da tia Clara, ou
mesmo na rua. As peraltices e pequenas faltas corrigidas pelos pais com o simples argumento de
que esta não era a vontade de Deus. Excepcionalmente, com algumas surras. Elas provocavam
pouca amargura porque eram reconhecidas como merecidas, uma vez que se sabia como proceder
para receber reconhecimento e carinho. Depois, vieram as ditas realidades da vida. Os
comportamentos construídos para atender à eficácia de resultados, os quais não excluem maldades.
Contudo, restou no fundo da alma a lembrança de uma infância de inocência e de amizades
desinteressadas. - Alberto desabafou.
Leneu olhou para Solina sem disfarçar um sorriso de vitória.
-A infância nos deixa fantasias de paraísos perdidos. Se analisar objetivamente, irá encontrar,
também, frustrações. Os comportamentos do mundo passado, antes do Armagedon, alimentaram
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desgraças e guerras que conduziram às catástrofes. Não se pode voltar no tempo. É preciso
encontrar novas soluções. - Disse Solina, demonstrando o seu desagrado.
Alberto continuava pensando no mundo que deixara.
-Admito que nos porões da minha mente possa ter ficado uma inquietação pelo destino do meu
filho. Ele encontrou um ambiente diferente do meu. Eu me lembro das preocupações com o tempo
que ele perdia vendo televisão e com jogos eletrônicos. Naquela época, já conjeturava se as
respostas fáceis e imediatas do mundo artificial não reduziriam a paciência necessária para as
construções reais. Ainda mais, se elas não dificultariam, para a geração do meu filho, o convívio
entre pessoas e a empatia necessária para contrapesar os impulsos do egoísmo e da intolerância.
Qual seria o resultado desse modo de vida na atitude das pessoas? A minha convicção era de que,
existindo mais contatos amistosos diretos, o conhecimento mútuo reduziria as agressões e haveria
mais chances de uma harmonia estável na sociedade. Todavia, eu não pude auxiliar e nem conhecer
o futuro do meu filho.
-Antes, no seu tempo, sempre houve poluição e guerras. As armas foram ficando cada vez mais
potentes. A degradação se intensificou a ponto de provocar aquecimento planetário, vendavais,
inundações e outras catástrofes. O descompasso entre os anseios das pessoas e a possibilidade de
satisfação teve um papel preponderante em suas atitudes destemperadas. Atualmente, atendendo
quase completamente todos os impulsos humanos, não se vê ocorrerem guerras. – Afirmou Solina,
mostrando-se ainda mais contrariada.
-Essa é uma visão simplista demais. A lembrança das catástrofes tem servido para desestimular
atitudes poluidoras e as pregações belicistas, mas, não há tanta satisfação assim. Estão ocorrendo
crimes violentos e muitas pessoas sofrem de depressão. Levantar questões sempre será útil. Interveio Leneu, sério, porém, em tom apaziguador.
A querela continuou por algum tempo. Ficar em casa vivendo de experiências virtuais
desagradava Alberto, porém, ele preferiu não se manifestar. Julgou que o interesse pela sua opinião
fosse apenas retórico. Só mais tarde constataria a importância que lhe era atribuída. A falta de
disposição de Alberto para se posicionar acabou por desestimular a discussão, fazendo-a cessar.
Nos dias seguintes, Solina continuou a relatar com grande entusiasmo os benefícios do seu
mundo. Permanecia pouco tempo, alegando sempre compromissos inadiáveis. Leneu costumava ser
menos entusiasta em seus comentários e Alberto os tinha como mais equilibrados. Alguns
costumes haviam mudado pouco, enquanto, outros eram muito diferentes. Ele constatou que era
difícil aceitar a perda que sofrera e se integrar no novo mundo. Entretanto, estava disposto a
enfrentar o desafio.
5 - UM PROGRAMA
Quando estava sozinha, Deodéa voltava a um estado introspectivo. A sua vida fora
despreocupada até o afastamento dos pais. Então, não tivera mais tempo para tratar das suas coisas
pessoais. Isso, porém, não a abalara. Agora, porém, sentia-se mais carente. Ainda assim, ela mesma
não entendia por que se preocupava tanto com o desconhecido homem do gelo.
-Você precisa deixar as preocupações com a política e viver a própria vida. Tenha um filho se é
isso o que deseja. – Observou Madra, percebendo a prostração de Deodéa.
-Não desejo tanto assim. Ainda não encontrei ninguém que me inspire confiança. Penso que eu
seja exigente demais.
-Vamos a outros lugares. Você precisa se divertir e conhecer pessoas.
-Vou pensar. Talvez, eu decida ir.
Deodéa reconhecia que os seus sentimentos em relação ao homem do gelo eram impróprios e
resolveu abandonar o seu propósito de se aproximar dele. Precisava conhecer outras pessoas. No
dia seguinte, dirigiu-se para Madra.
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-Estou inclinada a aceitar a sua recomendação para ter alguma diversão. Qual sugestão você me
faz? - Falou Deodéa.
-Isso me deixa feliz. Há um programa que, embora seja em espaço virtual, é bem interessante
para conhecer pessoas. Primeiro, o programa pede o horário em que se está disponível e quais são
as características pessoais. A seguir, apresenta um rol de qualidades para as quais deve ser dada
uma nota com respeito às características daqueles com quem se estaria disposta a ter um encontro.
O computador analisa milhares de respostas, seleciona automaticamente as afinidades dos
participantes, forma grupos de pessoas compatíveis e marca um encontro virtual entre elas. Após as
apresentações, os participantes são colocados em situações surpreendentes para que se revelem
mais completamente. Então, os que ficarem interessados em ter novo encontro podem marcá-lo,
seja de forma virtual ou em realidade. Provavelmente, nós duas não ficaríamos num mesmo grupo.
Os meus gostos são bem diferentes dos seus.
Havendo concordado, Deodéa e Madra indicaram o mesmo horário e aguardaram até haver
confirmação. Sem muita demora, foram avisadas e colocaram seus trajes de realidade virtual.
Deodéa se viu num salão aprazível onde o mestre de cerimônias fez as apresentações a grupo de
pessoas, dando-lhes algumas instruções. Disse que seriam colocadas em diversas situações
provocantes nas quais se facilitaria o conhecimento mútuo. Mal concluíra a exposição,
subitamente, todo o grupo se viu em meio a um grande incêndio com outras pessoas e crianças
chorando desesperadas. Açodadamente, tiveram que se proteger e acudir às crianças. Pouco depois,
já estavam num transportador aéreo. O piloto perdeu os sentidos e eles precisaram se organizar para
tentar controlar a nave. Ninguém sabia pilotar e eles se viram mergulhar em direção ao solo. Em
seguida, viram- se num bote em mar agitado, o que os obrigava a se agarrarem uns aos outros para
não cair. Alguém foi lançado às ondas e outro se jogou ao mar com uma bóia para salvá-lo. Os
demais ajudaram a içá-los. Por fim, o bote e os participantes, encharcados e exaustos, chegaram a
uma praia deserta que lhes propiciava aquecer ao sol, deitar e descansar. Então, tinham
oportunidade para conversar com tranqüilidade. O grupo se espalhou. Deodéa ficou junto com
Keone, alguém que lhe parecera simpático, e eles sentaram na areia.
-É a primeira vez que eu faço este programa virtual. As aventuras me agradam. Precisamos
viver o presente. O passado já passou e o futuro é uma incógnita. – Disse Keone.
-São palavras bonitas, mas, na nossa mente convivem o passado e o futuro. Todos os nossos
julgamentos se fundamentam no passado e cada ato decidido se dirige para o futuro.
-Sua observação tem fundamento. O que eu quero dizer é que alguns pensam demais e, por fim,
decidem morrer. Eu apenas deixo fluir.
-Deixar fluir por alguns momentos pode ser uma atitude acertada, por que não?
Conversaram mais algum tempo e, findo o prazo previsto, viram-se no salão inicial. O mestre
de cerimônias anunciou que tinham alguns minutos para, se assim o desejassem, marcar novo
encontro. Algum tempo depois, Deodéa estava novamente na área de esportes da sua casa.
Enquanto retirava o traje de realidade virtual, observou Madra ao seu lado, ainda com seu traje.
Para quem a visse solta no ar, fazia movimentos doidos, sensuais e risíveis. Em seguida, ela
também parou, abanou para Deodéa e trocou a roupa. Voltaram à sala na qual estavam antes.
Madra comentou:
-Gostei bastante. Estava com um grupo bem amalucado e tivemos experiências conjuntas
incríveis. Você conheceu alguém que a entusiasmasse?
-Combinei me encontrar em realidade com um diplomata de nome Keone. Ele também gosta do
contato com a natureza. Iremos nos ver num local oferecido pelo mestre de cerimônias. Exceto por
fazer questão de aparentar ser imediatista, pareceu-me uma pessoa interessante.
-Vamos examinar o seu currículo.
Pediram ao computador e viram aparecer fotos e longa lista de atividades.
-Nada de excepcional. - Deodéa comentou.
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-Não se pode ser exigente demais. Encontrar o homem ideal na primeira vez em que se entra
num programa desses, só com muita sorte. Experimente falar de coisas picantes, deixe rolar e
aproveite. De outra forma, estará perdendo o seu tempo.
-Como você diz, nossos gostos são diferentes. A impressão que eu tive não foi má. Esses
currículos não dizem tudo. – Concluiu Deodéa.
*
No horário combinado, o módulo de transporte deixou Deodéa no local do encontro. Uma bela
casa sobre rochedos na extremidade da cidade. Keone a aguardava e se dirigiu para ela sorrindo.
Sentaram-se num recanto do terraço e conversaram sobre a experiência que tiveram.
-Você é uma pessoa importante, o que a fez se interessar em manter contato comigo? - Após
algum tempo, Keone perguntou.
-Principalmente, o seu gosto pela natureza. O que prefere fazer? – Perguntou Deodéa.
-Uma boa idéia é ir a uma praia real, igual àquela virtual onde nós estávamos. Qual é o seu
interesse no Movimento Naturista?
-Eu ajudei a fundá-lo. Ele tem crescido mais do que se esperava. Nosso mundo está se
distanciando cada vez mais da natureza. Somos parte dela e a artificialidade não nos pode satisfazer
completamente.
-Eu aprovo o Movimento Naturista porque trabalha para oferecer alternativas. Há outros que
apenas se preocupam em censurar, sejam programas virtuais ou o que mais possam, com palavras
torpes. Utilizam nobres motivos, porém, o que os motiva em verdade é o prazer que lhes causa
agredir e interferir na vida alheia. Nada sugerem de construtivo.
Deodéa não desejava fugir ao propósito do encontro e procurou voltar para amenidades.
-Eu também gostei daquela praia, mesmo sendo virtual. Pratica algum esporte?
-Agora menos. Já escalei montanhas. É muito agradável chegar ao alto e olhar bem distante,
como se nada mais existisse.
-É relaxante esquecer o dia a dia e ter o pensamento em paz. Um amigo meu diz que as suas
maiores preocupações são existenciais.
Keone se tornou sério.
-Que tenha bom proveito! Se encontrar alguma conclusão definitiva, gostaria de saber. Já fui
dado a essas preocupações. A minha convicção é a de que depois de avançar um pouco se chega a
uma questão de crença e tudo fica por conta da opção sentimental de cada um.
Deodéa ficou a imaginar qual antecedente teria provocado a contrariedade dele.
-Para você, qual é o sentido da vida? – Perguntou Deodéa.
-Não existe nenhum. Há quem pense ser um teste para qualificar seres livres. A mim, parece
uma idéia infantil. Eu não cultivo crenças fundamentais. Penso que só temos acesso àquilo que
percebemos e o que sentimos no momento. O mais são especulações que não levam a nada.
-Assim se fica muito limitado e as conseqüências podem não ser boas. Precisamos fundamentar
em algo as nossas escolhas e a nossa ética.
-Eu não acredito que as crenças produzam algo de melhor e não creio em ética, afora aquela de
que quem não cumprir as regras será punido.
-Muitas vezes, as regras e as punições são injustas.
-A lei não é feita para ser justa, mas, para ser útil a quem a sustenta. É injusta, mas, funciona
porque estabelece uma ordem.
-Funciona para quem? Meu pai dizia que a integridade serve ao bem estar íntimo de quem a
possui. Aos outros, aqueles que não a têm, para eles cabe a aplicação da lei.
-A questão é que esses outros são muitos e se aproveitam de quem acredita em integridade. As
punições não são justas, elas são usadas para inibir os criminosos menores.
-Não sei como poderia demonstrar, entretanto, parece-me evidente que uma sociedade não se
sustenta só com ameaças. Não se podem igualar todas as crenças, elas não são uma mesma coisa.
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-Admito que as crenças existam por serem úteis. A prova disso é que as sociedades as adotam,
ainda que os seus promotores não acreditem nelas. Entretanto, o que é útil hoje pode se transformar
num transtorno amanhã. Prefiro não pensar sobre isso.
-Já ouvi argüir que, se uma crença fundamental não serve para todo o tempo e lugar, ela não
deve ser verdadeira. De outra parte, por ser útil, um fato não precisa ser obrigatoriamente falso.
Sem pensar, como pode se orientar?
-Eu me conformo com o palpável e desfruto o possível. Gosto da natureza, mas, um
artificialismo cada vez maior é o caminho sem volta.
-Por que você acha isso?
-Estive uma vez numa grande estação espacial. Elas se criaram para cuidar da captação de
energia solar, mas, agora se tornaram independentes e adaptadas para ter vida própria. Apesar de se
comunicarem com a Terra, elas produzem quase tudo de que necessitam e estão sempre ampliando
o seu espaço habitável. Provavelmente, muitos dos que lá nasceram nunca virão até a Terra.
-Eles preferem viver isolados?
-Buscam de fora apenas alguns elementos, trocados por seus produtos tecnológicos. Tudo o
mais é reciclado. Eles têm menos restrições, inclusive podem ter quantos filhos desejarem. O
espaço é praticamente ilimitado, basta ampliar a estação ou construir uma nova. O clima é
controlado mais facilmente do que nos planetas. Chegará o dia que a civilização deles será maior
do que a da Terra.
-Não me parece que seja algo desejável. Eu não me sentiria bem morando permanentemente
num desses lugares.
-Aqui na Terra, a maioria se habituou a viver em atividades virtuais e quase não sai de casa.
Qual é a diferença de estar no espaço?
-O Movimento Naturista gostaria de mudar esse hábito. A vida é mais saudável em contato com
a natureza. Eu me preocupo por ver a maioria não acreditar nisso.
-Esqueça o que lhe causa preocupação. Sempre haverá outros dispostos a assumir os encargos
que você tem. Eu gosto de desfrutar a natureza, entretanto, não me disporia a tentar convencer
alguém a fazer o mesmo.
-Concordo com que eu precise de mais tempo para mim, mas, temos o dever de combater o
crime e procurar o bem. Deixando para os outros, o que eu desejo ver feito nunca irá acontecer.
-Para que correr riscos com o que não me compete? O meu tempo é todo para mim. Entretanto,
estou pensando em fazer o caminho inverso. Talvez seja hora de eu ter um filho. – Falou Keone,
com um sorriso irônico.
-Já decidiu com quem?
-Se você aceitasse, eu estaria decidido.
-Ainda não estou com a cabeça pronta para assumir tal responsabilidade. É preciso ter grande
disponibilidade para cuidar de uma criança.
-Há bonecas-companhia preparadas para serem babás, melhores do que as pessoas. A vantagem
delas é que são construídas especificamente para atender às necessidades. São treinadas para
prestar quaisquer atenções, sem reclamar. Quantos bonecos-companhia você tem?
-Quando criar um filho, eu gostaria de ter tempo para me dedicar pessoalmente a ele.
-Basta deixar de lado outras coisas que sobrará algum. Além da política e do naturismo, o que
mais você faz?
-Sou historiadora e me dedico, sobretudo, ao estudo da história antiga.
-Deve ser divertido, embora me pareça de pouca utilidade. Com relação a estudos, eu prefiro
geografia, principalmente a humana. Ela me dá subsídios para tratar de questões atuais, necessárias
à expansão comercial dos meus negócios.
-A sua área não é a diplomacia?
-Agora me dedico ao relacionamento mercadológico. Descobri que, embora goste de viajar, eu
preciso lidar com coisas palpáveis. Mas, se decidir ter um filho, você sabe com quem contar.
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-Fico lisonjeada com a sua proposta. Vou pensar.
Eles se despediram com pouca animação. Concordaram em ter um novo encontro, todavia, sem
marcar a data.
Ao chegar em casa, Deodéa encontrou Madra. Ela deixou o programa que estava assistindo e se
dirigiu para Deodéa.
-Gostou do encontro com Keone?
-Foi interessante, porém, as suas idéias não são as que eu desejaria para o pai do meu filho. Eu
tive melhor impressão dele na primeira vez. Chegou a dizer que o estudo da história antiga é de
pouca utilidade.
-Vê-se que não conhecia com quem estava falando. - Disse Madra, rindo abertamente.
Deodéa revisou mentalmente o encontro, tentando entender por que estava tão contrariada.
Muitas das idéias de Keone não concordavam com as dela, mas, se fosse só isso, bastaria
contradizê-lo e não vê-lo mais. Concluiu que ficara perturbada porque ele lhe fez a proposta de ter
um filho e isso tocou um ponto sensível. Confrontou-a com os sentimentos ambivalentes que essa
possibilidade lhe provocava.
6 - ENTREVISTA
Leneu foi à casa de Deodéa para uma das suas visitas costumeiras.
-Como está o seu tutelado? - Deodéa perguntou.
-Eu o estou ensinando a comandar a casa. Ele estranha os recursos virtuais, porém, aprende
com facilidade e faz bastante esforço para se integrar. Sente falta da sua mulher e do filho que
ficaram no passado.
-Quando será apresentado ao público?
-Temos recebido assédio da imprensa para uma entrevista. Ele deseja fazer contatos e creio que
estaria disposto a concedê-la. Todavia, a Comissão Tutelar reluta em autorizar.
-Acabarão autorizando. O interesse do público em conhecê-lo os obrigará a isso. Até eu estou
curiosa. Aliás, espero que me seja apresentado pessoalmente logo que você julgue possível.
-Para tanto não haverá dificuldade. Alberto se mostra interessado em contatar com pessoas. Eu
vou organizar um encontro com amigos. Então, você poderá conhecê-lo.
Deodéa pensou em perguntar quando o encontro seria realizado, mas, não o fez. Ela própria não
se reconhecia no temor em revelar o quanto estava interessada.
*
Alberto se sentia mais ambientado, porém, não o satisfazia ter somente experiências virtuais e
desejava conhecer mais pessoas reais. Perguntou a Leneu o que poderia ser feito para que tivesse
novos contatos.
-Temos sido insistentemente solicitados por agências de comunicação que desejam entrevistálo. Sempre há procura por notícias e um acontecimento excepcional, como o que diz respeito à sua
pessoa, provoca intenso interesse. A história de um homem recuperado do gelo causou enorme
sensação em todo o mundo. – Falou Leneu.
-Eu gostaria de ouvir essas propostas. No mínimo, seria uma experiência interessante.
-O entrave para a Comissão Tutelar aceitar está na possibilidade de alguma ação judicial
contrária. Como você é um tutelado, não se pode expô-lo sem ter certeza de que isso não o irá
prejudicar. É preciso que a entrevista seja do seu próprio interesse.
-Como podem concluir ser do meu interesse?
-Creio que uma manifestação espontânea e inequívoca da sua parte de que é esse o seu desejo
poderá ser considerada uma confirmação.
-Então, já pode ter a manifestação de que, certamente, eu quero.
Passados alguns dias, Leneu voltou ao assunto com Alberto.
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-A Comissão Tutelar estudou a questão e a permissão foi concedida. O setor jurídico concluiu
que, sendo essa a sua vontade, não cabia impedir.
-Fico grato pelo seu empenho. Agrada-me, sobretudo, o reconhecimento de que eu devo ter
liberdade para decidir o que fazer. Agora, o que precisamos providenciar?
- Existem preocupações políticas com respeito à sua manifestação. Se você comentar com
Solina, provavelmente ela procurará dissuadi-lo, a menos que, antes, o convença das vantagens da
vida virtual. A iniciativa para as providências, também, terá que ser sua. - Leneu falou, depois de
pensar um pouco, demonstrando insegurança.
-Eu percebi a posição dela a esse respeito. O que sugere que eu faça?
-Eu não posso dirigi-lo. Mas, também, você não pode ser impedido de fazer o que deseja.
-Eu, porém, necessito de informações sobre os procedimentos.
-Informar, eu posso. Primeiro, seria necessário escolher uma organização promotora. Há
inúmeras propostas de agências disputando a primazia e o contrato irá implicar em valores
econômicos elevados. Se eu interferir, o critério de escolha poderá ser questionado. Posso
responder o que você quiser, mas, não me cabe fazer qualquer sugestão. Mesmo a orientação sobre
o critério de escolha precisa partir do seu próprio discernimento.
-Os artistas de espetáculos teatrais e shows devem ter agentes. Poderíamos contatar com aquele
que seja o mais famoso.
-Optar por um agente que trabalhe com espetáculos teatrais seria uma escolha válida. A fama,
porém, parece-me um critério impreciso. Será necessário você utilizar um indicador mais objetivo.
-Se eu escolhesse aquele cuja soma dos valores dos contratos obtidos nos últimos doze meses
fosse a maior, esse critério poderia ser considerado uma indicação objetiva?
Leneu sorriu e confirmou, embora a sua inclinação lateral de cabeça sugerisse dúvida.
-Sim, mas, eu não posso influenciá-lo.
-É uma decisão minha. Pode-se obter essa informação?
-Não é sigilosa. Basta pedir ao computador.
-Ótimo. Como eu poderia tomar providências para tal finalidade?
-Solicite ao computador informar o nome da agência e, depois, peça para ligar. A menos que a
agência se recuse atendê-lo, o contato será estabelecido e você poderá explicar a sua intenção.
Assim se fez e não houve demora. Com mais facilidade do que Alberto imaginaria, o
computador apontou a firma do agente Melior. Feita a ligação, ele próprio atendeu, ouviu, pediu
algumas explicações e, imediatamente, disse que aceitava o agenciamento. Faria uma proposta
imbatível. Propôs-se procurar Alberto para ter um contato pessoal e tratar logo do assunto. Diante
disso, combinaram o horário em que ele iria comparecer.
-Pode-se ver porque é ele quem faz mais contratos. - Alberto comentou para Leneu.
-Melior é um agente muito requisitado. Você deve ter sido considerado um produto
extraordinário. Ele é bastante conhecido e só empreende grandes espetáculos.
-Admirei-me da rapidez com que ele aceitou o convite. Deve ter um bom computador
auxiliando a sua decisão.
-Pelo que sei, ele alardeia que o computador apenas lhe oferece dados, como um auxiliar. Só
aceita agenciar depois de avaliar pessoalmente, contando com seu instinto. Acredito que diga isso
para criar carisma acerca da sua pessoa. Hoje aprendi uma lição, a qual não esperava: Bons
empreendedores, quando têm convencimento, não relutam em decidir.
-Não seria correto eu pedir uma assessoria ao meu advogado?
-Você também é bem rápido nas decisões e mais atilado do que eu pensava. Deseja que eu
esteja presente?
-Se não lhe for incômodo. É quase indispensável.
-Então, será um prazer. A reunião poderia ser virtual, mas, em negociações sobre assuntos
dessa natureza, envolvendo performances pessoais e somas muito significativas, costuma-se
preferir realizá-la com a presença real dos participantes.
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-Parece-me mais natural. Eu ficarei mais à vontade.
Foi feito contato com o advogado e, na hora combinada, estavam reunidos: Alberto, Leneu, o
advogado Sazon e o agente Melior. Os cintos de Leneu, Sazon e Melior eram verdes e o de Alberto
de cor branca. Feitas as apresentações, Melior assumiu sua posição de perito.
-São raras as ocasiões em que uma entrevista cultural é remunerada. Em geral, as pessoas
fazem questão de aparecer. Sei perfeitamente que não é o seu caso. Na minha avaliação, a sua
pessoa desperta excepcional curiosidade e interesse. Há outras agências que gostariam de
entrevistá-lo. Já deve ter recebido outras ofertas. Vou direto ao assunto. Em nenhuma hipótese eu
desejaria perder esta oportunidade para um concorrente. Mais do que dinheiro, isso significa
prestígio. Para uma primeira entrevista exclusiva, creio que se possa estipular aos espectadores uma
taxa igual àquela cobrada para a assistência de um show de primeira linha. Estou disposto a lhe
oferecer as mesmas condições que eu faço para os meus grandes e já consagrados astros. Ou seja,
cobro vinte e cinco por cento da renda. Nisso estão incluídas as despesas de promoção, as taxas de
transmissão e todos os elementos técnicos para a apresentação. Serão setenta e cinco por cento
limpos para você. Naturalmente, fora os seus impostos. Eu poderei me empenhar para que a
entrevista seja enquadrada como de interesse público, caso em que lhe seria atribuída uma alíquota
menor. Estou certo de que não obterá de ninguém proposta melhor.
Alberto não tinha idéia sobre o que isso, de fato, significava. Mostrou-se interessado, mas,
sabendo que Leneu conhecia a extensão da sua ignorância sobre o assunto, dirigiu-se para ele.
-Como se calcula a renda de um show?
-Quando a assistência é paga, o valor é indicado ao espectador no alto da imagem. Após dois
minutos, se o espectador permanece assistindo, cada segundo é registrado. Um sistema de cobrança
faz automaticamente a transferência dos valores, creditando nas respectivas contas o que cabe a
cada um, conforme os contratos registrados. Pela proposta de Melior, você receberá limpo setenta e
cinco por cento do que for cobrado aos assistentes, menos o seu imposto. Se houver uma grande
assistência internacional, isso irá resultar em valores muito elevados.
-Na prática, quanto eu poderia comprar com isso?
Melior abriu um sorriso simpático de vendedor.
-Com a promoção que farei, atingiremos o mundo inteiro. A menos que muito me engane e eu
não costumo me enganar, teremos tal audiência que os ganhos dessa única apresentação lhe
garantirão recursos para toda a vida. Agenciei um artista que, após um único show, decidiu não
assumir qualquer outro compromisso. Ganhou tanto que passou a se dedicar a coisas nas quais
tinha maior prazer.
-O que me diz da proposta? A minha condição de tutelado cria algum embaraço? – Alberto
perguntou para Sazon.
O advogado manteve uma postura de neutralidade, sem empolgação.
-Creio que a proposta esteja dentro do habitual para estes casos. A sua condição de tutelado não
o impede de nada, desde que não haja prejuízo para si próprio. Não creio que possa haver.
Solicitarei ao grupo tutor para que eu esteja presente na entrevista como representante dos seus
interesses. Poderei interditar alguma pergunta cuja resposta tenha potencial para risco de ofensa a
alguém ou embaraço para você. Se estiver de acordo, encaminharei o pedido para registrar a
entrevista como informativa e cultural, com o que a alíquota do imposto será menor do que a de um
show de entretenimento. O nosso grupo poderá preparar os contratos, junto com os advogados do
agente Melior.
-Creio que nada tenho a perder e será interessante. Estou de acordo.
-Muito bem, os meus advogados entrarão em contato com Sazon. Encaminharei os detalhes da
promoção e demais acertos. Teremos uma reunião virtual para fechar o contrato. Seria conveniente
que você fizesse um pequeno treinamento prévio com a minha equipe. Se estiver de acordo,
marcaremos a entrevista para a próxima semana.
-Sim, pode preparar o contrato.
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Estando tudo acertado, Sazon e Melior se retiraram.
-Esqueci-me de perguntar sobre os honorários do meu advogado. – Disse Alberto para Leneu.
-Não se preocupe. Ele foi designado e é pago pelo Estado para assisti-lo. Pode estar certo que,
ele estando presente na entrevista, a notoriedade proporcionada será o seu melhor pagamento.
-Você também estará presente.
-Estarei, mas, apenas na sombra. Para mim, notoriedade pública em nada me beneficia. Antes,
iria provocar ciumeiras prejudiciais à minha atividade, principalmente de parte daqueles colegas
que foram candidatos à indicação para o cargo.
No dia seguinte, Solina compareceu. Estava aborrecida por não ser incluída nas tratativas e
haver ficado sabendo quando tudo já estava combinado.
-É cedo demais para enfrentar o público. Você precisaria conhecer com mais profundidade as
questões atualmente em disputa. As suas palavras poderão desagradar algumas pessoas, criando
para si grandes problemas. – Solina censurou.
-Eu já me comprometi. Estou enfastiado com a minha rotina e tomei a iniciativa. Pedirei às
pessoas para apreciarem as minhas afirmações como vindas de uma pessoa fora deste tempo. Elas
devem ser tomadas como simples curiosidade.
-Ocorre que o seu tempo determinou o nosso e há uma briga muito grande sobre como
interpretá-lo. Pedirei ao Sazon para tentar evitar que você seja posto em dificuldades. Eu o
aconselho a não radicalizar nas suas respostas. Nada lhe custará ser cauteloso.
*
Dois dias depois, uma nova reunião foi realizada para fechar o contrato com respeito à
entrevista. Desta vez, através de um encontro virtual. Alberto e Leneu estavam em casa, enquanto
Sazon, Melior e o seu advogado em seus respectivos escritórios. Para todos, parecia estarem
presentes na mesma sala. Foi combinado o horário e o local, o qual seria na própria casa de
Alberto. Ele conheceria as perguntas iniciais, formuladas pelo apresentador. Depois, seriam feitas
perguntas por espectadores sorteados entre os que a tanto se candidatassem. Para se candidatar, eles
precisavam confirmar, concordando com que as suas imagens fossem apresentadas ao público
durante a entrevista.
-Geralmente, candidata-se para participar com perguntas uma proporção maior de jovens. Eles
gostam quando são dadas respostas irônicas e agressivas. - Melior explicou.
-Eu tenho certa inibição em ser irônico com quem não conheço.
-Com algum treino, perderá o pudor e a apresentação ficará mais cênica.
Combinados os acordos, reconhecia-se que o que havia sido tratado verbalmente ficaria
gravado e constituiria um contrato formal.
Na tarde do mesmo dia compareceram três pessoas da equipe de Melior para o treinamento.
Comentaram que a entrevista só havia sido liberada por causa da grande pressão pública para que o
homem do gelo fosse apresentado. Insistiram em que eles não pretendiam e nem poderiam
manipular a entrevista, mas, ficaria bem se fosse dado um sentido de cumprimento de obrigação
para com o público. Falaram sobre postura, gestos, descontração, sorrisos e outras coisas mais.
Demonstraram como rebater ou desviar as perguntas que ele não quisesse ou não soubesse
responder. Quando Melior sinalizasse, indicando que a pergunta provocara grande interesse, a
resposta deveria ser mais extensa. Se houvesse alguma dificuldade para responder, Alberto deveria
dar um sinal, imperceptível aos espectadores, indicando para o apresentador ou o advogado
intervir. Concluíram dizendo que Alberto parecia já estar razoavelmente inteirado sobre a estratégia
do programa. Voltariam no próximo dia.
Nos dias que se seguiram, componentes da equipe de Melior compareceram algumas vezes.
Alberto manifestou a Leneu o desejo de conhecer outros lugares e pessoas ao vivo.
-Logo haverá oportunidade. Ao ser entrevistado, embora à distância, você terá oportunidade de
entrar em contato com várias pessoas. É importante que você se familiarize com as coisas atuais.
Evitará parecer primitivo e ser colocado em alguma situação constrangedora por pessoas menos
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avisadas ou mal intencionadas com quem venha a ter contato. Sendo reconhecido como uma pessoa
razoavelmente culta, ninguém ousará desrespeitá-lo. Não concorda que, assim, seja melhor?
-Apenas em parte. Não tenho compromisso de agradar a todos. Qual a importância de pensarem
que sou primitivo? Quem me conhecer melhor saberá que sou desinformado, mas, não sou tolo. Em
sua opinião, o que os assistentes irão perguntar na entrevista?
-Provavelmente, fatos sobre a sua vida anterior. Sugiro que fale como um diplomata, apenas o
óbvio. Não precisa ter excessiva preocupação com a elaboração das respostas, mas, evite ser
contundente ou agressivo. Você não necessita atender à pretensão de Melior de fazer um show. A
maior curiosidade dos espectadores é ver e ouvir o tom da sua fala. Ficará bem, se demonstrar
tranqüilidade. O computador adapta as palavras, mas, utiliza o mesmo timbre e tom de voz.
*
No dia aprazado, compareceu uma pequena equipe trazendo consigo um equipamento pouco
volumoso. Melior, sempre entusiasmado, disse que pelas suas pesquisas o programa seria um
grande sucesso. Um dos maiores públicos que ele já obtivera. Solina evitou se comprometer e
preferiu não estar presente.
Iniciando o programa, um mestre de cerimônia relatou como Alberto havia sido encontrado, o
trabalho para a sua recuperação e o interesse que havia despertado. Citou que outras reportagens já
haviam apresentado alguns dos responsáveis pelo êxito do feito, mas, era a primeira vez que o
chamado homem do gelo aparecia em público e explicou como seria o programa. Em seguida,
apresentou o organizador do evento. Melior mencionou o seu esforço em conseguir a entrevista, o
papel da sua empresa na divulgação e a grande audiência que estavam tendo. Em seguida, o
advogado Sazon foi apresentado. Falou sobre o contrato, explicando o seu zelo para que o tutelado
estivesse protegido juridicamente.
Um monitor produzia, em retorno, as imagens transmitidas e um quadro com as imagens
seqüenciais do público assistindo o programa em suas casas. Eram pessoas isoladas ou em grupos,
a maioria com aspecto de adultos jovens, alguns adolescentes e poucas crianças, todos trajando as
tradicionais tangas. Quando aparecia alguém com cinto verde ou preto a duração da imagem era um
pouco maior. Praticamente, não apareciam sinais exteriores de velhice. As expressões eram de
curiosidade. Os ambientes variavam pouco, com grandes vazios e escassos móveis aparentes.
O apresentador se dirigiu a Alberto, fazendo as perguntas preparadas pela equipe organizadora.
-Está se sentindo confortável?
-Sinto-me muito bem.
-Responde a esta entrevista livremente? Ninguém o pressionou para participar?
-Fui convidado e aceitei participar, com satisfação. Achei que seria uma maneira de iniciar a
minha integração com as pessoas e o ambiente em que estou vivendo. É até uma obrigação,
considerando o bom acolhimento que estou tendo. Se há quem queira me conhecer, por que eu não
iria satisfazer o seu desejo?
-A remuneração que irá receber pela entrevista lhe parece satisfatória?
-Conforme fui informado, ela será igual àquela que os melhores artistas de shows recebem. Não
sei bem o que isso significa, mas, deve ser satisfatória.
-O que mais o impressionou ao acordar num ambiente totalmente diferente daquele ao qual
estava acostumado?
-É impossível explicar. Uma desorientação total. Um ambiente onde tudo é diferente. A
ausência de familiares ou conhecidos foi muito dolorosa. Toda a situação que eu vivo, até hoje,
ainda me parece surreal. Ao me analisar, o mais impressionante para mim mesmo é que, apesar de
tudo, eu esteja conseguindo me adaptar. Agradeço às pessoas que têm me ajudado.
-Há alguma coisa de que sinta falta? O que mais desejaria ter?
-Sinto falta das minhas relações, da minha mulher, do meu filho deixado com oito anos, dos
parentes e amigos. Eu desejaria saber o que lhes aconteceu desde quando não mais os vi. Embora
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reconhecendo como totalmente impossível, o meu maior desejo seria lhes mandar uma mensagem
dizendo que sobrevivi e estou bem.
Após mais algumas perguntas, para as quais Alberto se havia preparado, vieram as questões
apresentadas pelo público. O desfile das imagens no monitor subitamente parava, fixando-se na
pessoa que fora sorteada para perguntar.
-Qual era a sua atividade, antes do acidente que sofreu? - Indagou um homem.
-Eu era engenheiro, contratado pela marinha. Pelas minhas últimas lembranças, fazíamos
pesquisas no Continente Antártico.
A seguir foi a vez de uma mulher indagar.
-Parece que as relações pessoais eram diferentes. Havia maior aproximação entre as pessoas nas
famílias do que atualmente?
-Ainda não vivi tempo suficiente na época atual para poder falar com segurança. Pelo que ouvi,
atualmente, as relações familiares pesam menos. No meu julgamento, baseado em informações
indiretas, há menos comprometimento nas relações pessoais.
-No seu tempo, quanto se estudava? Como vocês se divertiam? - Indagou uma adolescente.
-O estudo tinha um tempo mais definido do que agora. Atualmente, pelo que pude saber, todos
devem estudar sempre, embora com menos rigidez de horário e com currículos menos estanques.
Houve grande melhoria na disponibilidade de meios auxiliares. Os divertimentos, principalmente
para a juventude, eram esportes, jogos, bailes, excursões, reuniões e o mais. Parece-me que a
essência do que se fazia não mudou fundamentalmente, exceto pela maior utilização de recursos
automáticos e virtuais.
-É verdade que vocês não tinham bonecos-companhia? Como é que brincavam? Perguntou uma
criança, depois de alguma relutância.
-Isso, de fato, mudou bastante. As crianças brincavam com seus pais, seus parentes e outras
crianças. Tinham brinquedos, mas, não tantos jogos virtuais sofisticados quanto vocês. Penso que
as crianças têm imaginação muito fértil e são capazes de construir seus mundos, muito além
daquilo que vêem. Do que você mais gosta de brincar?
Antes que houvesse resposta da criança, já havia a imagem de uma mulher.
-Quantos filhos as mulheres costumavam ter?
-Eu diria que, na idade própria, a maioria tinha filhos. Mas, já havia tendência para terem
menos filhos do que há mais tempo e algumas preferiam não os ter.
-Tendo tão poucos recursos tecnológicos, vocês eram mais ou menos felizes do que
atualmente? - Perguntou um homem de aparência jovem.
-A felicidade é uma coisa subjetiva. Não saberia fazer comparações. O que posso afirmar é que,
no passado, apesar de haver menos recursos, muitas pessoas se consideravam felizes. Eu me
incluiria entre elas.
-Existem pessoas procurando soluções no passado, num mundo que resultou em catástrofes.
Você pensa que pode nos dar alguma lição de vida? – Indagou outro, em tom desafiador.
Alberto observou certa inquietação ao seu lado, porém, ninguém deu sinal de que ele devesse
fugir à resposta.
-Não tenho essa pretensão. Se alguma coisa do que eu digo pode ser aproveitado para a vida
atual, é uma conclusão que só vocês poderão tirar. Acredito que, quanto mais informações alguém
disponha, tanto mais bem aparelhado estará para formar o seu próprio juízo.
Seguiam-se perguntas embaraçosas.
-Se voltasse ao seu tempo, o que recomendaria que fizessem para evitar as catástrofes?
-Isso eu não sei. Deixei de acompanhar o meu tempo antes de ocorrerem. Talvez, tentasse
advertir as pessoas para a necessidade de se conhecerem, de se entenderem e de se estimarem. É
pouco provável que me ouvissem.
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-Consta que foi preciso haver muita pressão pública para que você concedesse essa entrevista.
Houve censura? Você não queria aparecer em público? – Indagou um rapaz, com acento
contestador.
Ao redor aumentava a inquietação. Alberto tomou a pergunta como uma brincadeira. Sorrindo e
apresentando descontração, respondeu:
-O meu grupo tutor considerava que eu ainda não estava preparado. Pela dificuldade que estou
encontrando para responder adequadamente a algumas perguntas, parece que, em parte, tinham
razão. Eu estou pronto para relatar sobre a minha vida anterior, mas, não para fazer comparações
com os costumes atuais, os quais pouco conheço. De qualquer forma, quando fui autorizado, aceitei
dar esta entrevista com satisfação.
Depois disso, as perguntas foram menos polêmicas. Algumas repetiam os mesmos temas. O
programa prosseguiu por duas horas. Então, Melior assumiu o controle, avisando que havia
terminado o tempo contratado. Informou sobre os índices de audiência alcançados em vários países
e que, certamente, haveria oportunidade para uma nova entrevista. Sazon também apareceu,
garantindo que houve cumprimento dos contratos e das normas relativas à condição de tutelado.
Encerrada a transmissão, Melior estava bem humorado. Cumprimentou Alberto, demonstrando
entusiasmo pelo resultado da audiência. Justificou o encerramento como sendo uma boa política
não cansar o público e manter a curiosidade. Considerou que tudo saíra bem, mesmo tendo havido
algumas perguntas impertinentes.
-Desculpe-me se as respostas foram pouco interessantes. Algumas pediam comparações com o
mundo atual sobre o qual eu tenho pouco a dizer. – Disse Alberto.
-As perguntas são feitas mais com a emoção do que com a lógica. As pessoas querem, antes,
dizer alguma coisa do que ouvir as respostas. Os temas tratados estão na ordem do dia e a polêmica
é o que dá graça à entrevista. Esteja certo de que haverá repercussão maior do que imagina. Eu sei,
porque vivo disso. Se não houver embargo político, dentro de pouco tempo poderemos fazer outra.
- Sentenciou Melhor, com ar irônico e professoral.
-Eu estou satisfeito e ninguém poderá alegar ter sido ofendido com as perguntas e respostas. Se
julgasse o contrario, eu interviria. Quem contestar ficará contra a maioria que deseja ver. Está tudo
bem. Os pagamentos já devem ter sido transferidos para as respectivas contas e, pelos números
preliminares, Alberto pode se considerar um homem rico. Vou solicitar os registros e verificar se
tudo está conforme. – Disse Sazon, não concordando sobre a possibilidade de qualquer embargo.
Após algum tempo de confraternização, quase todos se retiraram.
-Cada dia você mais nos surpreende. - Exclamou sorridente Leneu, colocando a mão sobre o
ombro de Alberto.
-Devo tomar isso como elogio? Uma surpresa boa ou má?
-Muito boa, quanto à sua adaptação. Essa apresentação terá repercussão internacional. Poderá
suscitar inconformidade entre os que não querem prestigiar atividades mais naturais. Isso poderá se
constituir num desafio para o grupo tutor. Preferiríamos uma formatação apenas científica, evitando
que a apresentação parecesse um show. Entretanto, estou satisfeito e penso que tudo tenha corrido
bem. Não há como deixar de reconhecer que Melior é um artista. Ele sabe explorar a fantasia das
pessoas. Porém, não se pode pedir que ele faça diferente. Se a maioria prefere assim, sempre
haveria outro alguém para satisfazer o seu gosto.
-Você não me recomendou para parecer uma demonstração científica. De qualquer modo, não
penso que tenha sido um show. Respondi o mais objetivamente possível àquilo que me
perguntaram, procurando pouco me demorar com relação às minhas opiniões pessoais.
-Fiz referência à fantasia com relação à forma, não ao conteúdo. Eu não poderia, mesmo, fazer
qualquer restrição às suas manifestações. O que pode comprometer as minhas relações com o grupo
tutor é não ter insistido com Melior para evitar a questão da virtualidade.
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-Duvido que ele lhe desse ouvido. Por certo, considerou em primeiro lugar a questão da
audiência e da remuneração. Para mim, ainda é difícil distinguir fantasia e realidade. Não sei como
poderia responder com mais parcimônia.
-Se quiser, amanhã poderei demonstrar a utilização dos equipamentos de realidade virtual.
Então, você verá o que é fantasia. Hoje, muitas pessoas vivem unicamente no mundo virtual.
Alguns pensam que seja um exagero e há muita discussão sobre isso.
Muito animados, eles quiseram ver se havia na mídia algo sobre a entrevista. De fato, em quase
todos os noticiários havia comentários, detendo-se, sobretudo, na grande audiência alcançada.
Enquanto assistiam, o comunicador apresentou um sinal de que alguém se denominando amigo
desejar falar. Alberto ficou curioso, pois, havia instrução para não serem aceitos pedidos de pessoas
desconhecidas. No entusiasmo, decidiu autorizar o contato. A imagem de uma pessoa desconhecida
apareceu lendo um depoimento.
-Assistimos à sua entrevista. Há alguns pontos positivos, outros nos causaram preocupação.
Advertimos para que evite emitir comentários fora da sua competência sobre o modo de vida e a
política atual. A insistência nessa conduta poderá lhe causar problemas. Vale, também, para os seus
tutores. Será melhor que aceitem esse aviso, por enquanto amigo, do Grupo Defensor.
Leneu se agitou, irado.
-Não sei como o comunicador deixou passar. Deve ter sido usado um dos nomes autorizados.
Vou tomar providências para que não se repita. Você é uma celebridade e não se pode permitir que
qualquer idiota possa incomodá-lo com ameaças. Alguém deverá ser responsabilizado.
-Quem são estas pessoas que se dizem do Grupo Defensor?
-Devia se chamar Grupo Agressor. O que sei é que existe um grupo clandestino usando essa
denominação. Faz ações promocionais a mando de pessoas importantes com negócios escusos.
Consta ter ligações com um criminoso maior denominado Mono. Esqueça isso. Você nem deveria
ter conhecimento de que existe. A comunicação se deu devido a uma falha.
Ao fim de algum tempo, Leneu se acalmou. Perguntou se não seria preferível a sua
permanência à noite. Ante a negativa, despediu-se, dirigindo-se para casa. Alberto deitou,
repassando os acontecimentos. Não imaginava com o que poderia ter dito que justificasse a
advertência que recebera. Qual seria a implicação política das suas respostas? Por que ficaram tão
excitados? O que poderiam fazer contra ele? Outro fato que lhe parecia incrível era a entrevista têlo tornado rico. Se assim era, embora se assegurasse recursos para todos os cidadãos, a distribuição
da fortuna deveria ser pouco equânime, como por sorteio. Pensou sobre o que poderia fazer com o
que ganhara. Sua sobrevida atual era produto do esforço de muitos. Sentia-se com o compromisso
de aplicar os recursos de modo a produzir o maior retorno social possível. Contudo, conforme o
que observara, teria grande dificuldade para encontrar algo a fazer realmente significativo.
*
Pelo que lhe haviam descrito Leneu e Solina, a imagem de Alberto não surpreendeu Deodéa.
Mas, não contava com a emoção que lhe provocou. Acompanhou as respostas temendo que ele se
embaraçasse ou respondesse algo inadequadamente. Suas afirmações a satisfizeram, ainda mais,
quando declarou não lhe agradar o excesso de virtualidade. Emocionou-se, sobretudo, ao vê-lo
dizer que, no passado, havia sido feliz. À noite, ela entrou em contato com Leneu pelo
comunicador.
-Perdoe-me não haver ligado. O dia de hoje foi cansativo. - Leneu se desculpou.
-Serei rápida. Desejo, apenas, cumprimentá-lo pela entrevista do seu tutelado. Posso imaginar
que a tenham comemorado como um grande sucesso.
-Tudo foi muito bem controlado. Temos notícia de que obteve repercussão bastante favorável.
De negativo, apenas o fato de termos recebido a desagradável mensagem do grupo que se intitula
Defensor. Reclamaram e fizeram ameaças em termos rudes contra o que consideram críticas ao
nosso modo de vida.
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-Não vi críticas negativas. Alberto apenas descreveu um mundo antigo não totalmente inculto,
tal como alguns gostam de fazer crer.
-Existem interesses em não diferenciar entre os aspectos bons e os maus do passado. Assim,
fica mais fácil assustar e paralisar as pessoas com a ameaça de que, se houver qualquer mudança,
ocorrerão novas catástrofes.
-Quando você me irá apresentá-lo?
-Não fique ansiosa. Eu preciso ter a anuência da Comissão Tutelar. Antes de conviver
socialmente, ele necessita conhecer um pouco mais sobre o funcionamento das coisas. Na reunião
de amigos que vou fazer em minha casa, não gostaria de vê-lo sendo julgado como um primitivo
por desconhecer as coisas do nosso tempo.
-Nem precisa tanto zelo. Seus amigos serão perspicazes para compreender as circunstâncias.
Deodéa não insistiu. Apesar de Leneu ser a pessoa com quem tinha maior intimidade, ela não
pretendia confidenciar o interesse que Alberto lhe despertava. Avaliou ser tolice falar sobre isso.
Ele iria escarnecer. Sempre seria assim: excluindo o detentor de um sentimento, ninguém mais o
considera relevante.
7 - REALIDADE VIRTUAL
Leneu chegou mais tarde, ao mesmo tempo em que Solina. Ela, como sempre, agitada e
sorridente. Ao mesmo tempo, demonstrava algum desagrado.
-A sua entrevista agradou a alguns e desagradou a outros. Você precisa conhecer melhor as
vantagens do progresso. Por alguns dias eu virei aqui diariamente, ainda que fique pouco tempo.
Tenho o compromisso de estar presente ao lado da minha filha de quatro anos. Meu marido
permanece pouco em casa e ela reclama por ficar só com os nossos bonecos-companhia. Expressou Solina com convicção.
Embora apreciasse a espontaneidade de Solina, desagradava a Alberto seu temperamento
excessivamente impositivo.
-Eu também tinha um filho com oito anos do qual sinto muita falta. Espero, um dia, conhecer a
sua filha. – Disse Alberto, procurando ser cortês.
-Terei muito prazer em apresentá-la. É uma criatura maravilhosa e com grandes competências.
Você vai ficar encantado. Do que mais sente falta?
-De tudo que ficou para trás. Não é fácil perder todas as referências.
-De fato, deve ser difícil. Eu venho aqui, sobretudo, com a finalidade de ajudar Leneu a lhe
mostrar o que há de bom na atualidade para que possa suportar melhor o que deixou.
-Leneu tem me ajudado muito. Sem ele, não sei como conseguiria suportar.
-Há muitas alternativas interessantes. Você tem desfrutado os recursos virtuais?
-Ainda não. Leneu prometeu que iria iniciar a me instruir hoje.
-Existem possibilidades sensacionais. Com respeito a uma boneca-companhia, já pensou em
adquirir a sua?
-Você sabe o que os psicólogos do grupo tutor recomendaram. Alberto deveria ir tomando
conhecimento aos poucos com respeito ao que significasse uma mudança muito grande de hábitos
em relação ao seu tempo. - Leneu interveio, contrafeito.
-É verdade. Mas, ele já está, até, dando entrevistas. Estamos pensando que é tempo de
desfrutar novas distrações.
-Você está disposto a utilizar os equipamentos de realidade virtual? – Perguntou Solina,
dirigindo-se a Alberto.
-Estou curioso. Gostaria principalmente de conhecer mais pessoas. Pelo que tenho percebido,
com a virtualidade, cada vez elas mais se afastam entre si e da natureza.
-Cuidamos para que a natureza seja preservada. A tecnologia atual permite ir muito além dos
limites da natureza, sem degradá-la. Virtualmente, podemos tudo.
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-Preciso experimentar. Como se faz para por em prática?
-Utiliza-se o espaço chamado área de esportes. Chamamos assim porque, no início, era apenas
para a prática de esportes virtuais. Com o aperfeiçoamento, hoje se pode praticar múltiplas
atividades. Você coloca o traje de realidade virtual e recebe impulsos que pressionam sobre o seu
corpo de forma a experimentar as mesmas sensações táteis que teria se o que faz fosse real. Todas
as impressões que teria ao vivo, inclusive olfativa e de cinese. Você pode estar em qualquer lugar
sem sair de casa, seja numa nave espacial, na lua, num planeta, ou em mundos que nem existem.
Pode interagir com imagens inteiramente artificiais ou com as imagens de outras pessoas reais que
queiram compartilhar as mesmas experiências.
-Os ambientes são artificiais?
-Há várias opções. A sua imagem pode estar em ambientes criados artificialmente ou reais.
Pode ter as mesmas habilidades do seu corpo natural ou a sensação de mais força, velocidade e
outras capacidades. Em qualquer hipótese, sentirá as mesmas sensações que teria estando presente
de verdade. Poderá, também, assumir o corpo material de um boneco, o qual estará presente num
ambiente real distante. Você sente como se fosse o seu próprio corpo, enquanto o boneco interage
realmente com as pessoas e objetos naquele ambiente.
-O excesso de atividade virtual não afasta as pessoas, tornando-as muito solitárias?
-Poderia acontecer, mas, a solidão é compensada pela presença dos bonecos-companhia. Eles
têm todas as características de pessoas humanas. Inteligência, pele e tudo mais. Há modelos de
homens, mulheres, adolescentes, crianças e até bebês, com as características físicas e psicológicas
que escolher. Os modelos mais sofisticados simulam sentimentos, de tal modo que você não
consegue distingui-los de uma pessoa natural.
-Se são iguais às pessoas, qual é o motivo para elas quererem ter bonecos como acompanhantes
ao invés de conviver entre si.
Solina se havia levantado. Teve um largo sorriso e, com atitude condescendente, sentou-se
novamente, demonstrando disposição para uma longa explicação.
-Na verdade, são iguais, mas, com todas as qualidades que satisfazem os seus donos e aceitando
fazer tudo o que lhes pedem. Com o prolongamento da vida, o nosso mundo não comporta muitos
nascimentos. A licença para ter um filho é disputada. Pode demorar muito ou não ocorrer. É
preciso formar um casal e assumir o compromisso de permanecer juntos para a educação emocional
do filho, no mínimo por quinze anos. Existe fiscalização rigorosa e penas duras em caso de
descumprimento. As pessoas estão cada vez mais egocêntricas. Uns não toleram as idiossincrasias
dos outros, ou, o horário das suas disposições não coincide. Os bonecos-companhia se adaptam.
Não reclamam e não contradizem além daquilo para o que estiverem programados. Tendo havido
grande difusão dos bonecos, as pessoas se acostumaram com a sua convivência desde a infância.
Aos poucos, as atenções pessoais, inclusive sexuais, foram se fazendo com bonecos-companhia.
Inicialmente era excepcional, mas, com o seu aperfeiçoamento, o hábito se tornou comum.
-Que coisa estranha. Parece tão antinatural.
-No seu tempo só andavam de automóvel. Em épocas ainda mais remotas, isso seria
considerado antinatural. Como eu disse, não aconteceu de repente. Resultou de uma seqüência de
fatos ao longo do tempo. Nesta época, primeiro foram atendidas as necessidades de alimentação,
moradia e conforto geral para todos. Havia a determinação de proteger a natureza, inclusive, os
animais. As diversões virtuais resolveram a procura por entretenimento. Com menor necessidade
da presença, houve um aumento do individualismo. As necessidades de atenção pessoal passaram a
ser o maior problema e foram procuradas em bonecos-companhia. As pessoas se acostumaram. As
fábricas passaram a produzi-los cada vez mais perfeitos e a indústria deles se tornou um grande
empreendimento. Houve a sua promoção. Eles se tornaram tão perfeitos que é difícil distingui-los
de pessoas naturais. A sociedade os aceitou como um fator de estabilidade. Muitos acreditam que é
preciso evitar a insatisfação dos instintos humanos para não haver crimes e até as guerras. Seja isso
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verdade ou não, desde as grandes catástrofes não mais ocorreram grandes guerras. As pessoas,
atualmente, parecem estar contentes com recursos de que dispõe.
-Quando se pensava em robôs humanóides, a idéia era de trabalhadores para os serviços das
casas ou das fábricas.
-As fábricas funcionam com maquinário automatizado. Os seus robôs têm aspectos funcionais.
Nas casas há automatização para tudo, embora fique oculta. Só há necessidade de robôs com
aspecto humano para atenções pessoais.
-Fiquei ainda mais curioso.
-Eu não estava preparada para uma conversa tão longa hoje. Vou ter que sair. O Leneu pode lhe
mostrar o equipamento de realidade virtual. Voltarei amanhã.
Dizendo isso, despediu-se e se retirou.
*
Após a saída de Solina, Leneu se sentiu obrigado a dar explicações.
-Havia orientação para que as informações lhe fossem passadas lenta e progressivamente. Após
a entrevista, alguns acharam que as suas opiniões sobre o mundo atual eram muito negativas e
houve pressões sobre o grupo tutor. Acreditam que isso se deva à minha influência e houve um
pedido para que Solina transmitisse mais otimismo, compensando o meu temperamento crítico.
-É espantoso o modo de interpretar as minhas manifestações e que dêem tanta importância às
minhas opiniões. Solina é simpática e eu gosto de andar depressa. Entretanto, creio que seria mais
justo se me tivessem consultado sobre a origem dos conceitos que eu expressei.
-Eu e os que me apóiam sugerimos consultá-lo. Acontece que a política atual é complicada.
Argumentaram que, talvez, você fizesse objeções e ficasse difícil contornar. A decisão foi tomada
ontem, com sentido de urgência. Peço que me desculpe. Considerei que, desta vez, seria melhor
não ir contra o que a maioria do grupo deseja.
-Simplesmente, eu não vejo tão grande vantagem em substituir a própria realidade por
atividades virtuais. As explicações que Solina deu foram úteis, embora, ela me pareça entusiasmada
demais.
-Nem só você pensa assim. O mundo virtual ocupa cada vez mais um grande espaço na vida das
pessoas. Muitos ficam totalmente presos à fantasia e passam a desconhecer a realidade. Há um
movimento conclamando por maior contacto com a natureza, conquanto todos reconheçam a
utilidade dos recursos virtuais e que esse é um caminho sem volta.
-Sou obrigado a convir que a fantasia faz parte da nossa natureza, desde os desenhos nas
cavernas, o teatro da antiguidade, o cinema, a televisão e a internet do meu tempo. Algumas
pessoas sempre viveram num mundo de fantasia.
-O que ocorre é que, atualmente, se vê, ouve, sente, cheira e toca a fantasia. Pelos sentidos não
dá para distingui-la da realidade. Há quem viva no mundo virtual durante o tempo todo. Há
equipamentos que oferecem até a possibilidade de alimentação e fazem incineração dos dejetos
durante as atividades virtuais. São recursos ainda pouco adotados, mas, sabe-se lá como iremos
evoluir. Trabalhar deixou de ser uma exigência para a sobrevivência A realidade, para alguns,
tornou-se apenas um conceito. Hoje, já é possível viver só na fantasia.
-As pessoas não ficam preocupadas com isso?
-Os grupos naturistas não aceitam. Cultivam a natureza e pretendem reduzir radicalmente a
atividade virtual. Pessoas mais estudiosas, como as do meu grupo de amizade, utilizam os recursos
virtuais, mas, têm espírito crítico. Há quem não se interesse tanto pela atividade virtual, mas,
pensam ser melhor que outros vivam num mundo de fantasia para não lhes criar problemas.
-De qualquer modo, eu preciso conhecer. Ainda não tive contato com o equipamento de
realidade virtual e a possibilidade de ter uma boneca-companhia nem me foi oferecida.
-Tenha calma. Chegaremos lá. Hoje podemos experimentar algumas atividades virtuais. Quanto
à boneca-companhia, o que você ganhou com a entrevista lhe permitirá comprar uma da melhor
qualidade. As mais modernas e perfeitas custam bastante e só são acessíveis a poucos. Se você
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dependesse apenas dos recursos públicos, receberia um modelo dos mais econômicos, os quais,
todavia, funcionam razoavelmente bem. Vamos praticar algum esporte?
*
Na área de esportes, Alberto demonstrava ansiedade.
-Explique-me, passo a passo. Como se faz? – Ele perguntou a Leneu.
-É simples. Você deve tirar a tanga e colocar o traje de realidade virtual. Ele ficará bem
ajustado. Depois, fique no cento da sala e indique o programa que deseja acessar. Fale como quiser,
o computador irá entender. Imediatamente, ver-se-á colocado no local escolhido e terá todas as
sensações de uma experiência real.
-Eu já vi coisa parecida em filmes.
-Atualmente, está disponível para qualquer um. É conveniente conhecer algumas regras. Você
executará realmente os movimentos, apenas os fará no ar. Se forem muitos, pode ficar cansado.
Pense no que vai pedir ao computador. Embora haja bloqueio e interrupção automática nas
situações de risco, poderá ser posto em situações desagradáveis. Há, ainda, a possibilidade de
assumir poderes virtuais excepcionais, mas, no início, é preferível que utilize a sua força normal.
Ao acabar a brincadeira, é melhor descansar um pouco, antes de pedir para sair do programa. A
súbita mudança de ambiente, para quem não está acostumado, pode causar mal estar. Creio que seja
preferível iniciar com um esporte individual. Você joga tênis?
-Só um pouco. Eu jogava mais futebol.
-Tênis é bom para começar. Foi restabelecido um formato que é quase igual ao que se praticava
antigamente. Você pode pedir para ter aula com um professor de iniciantes. Ao fim, peça para
concluir o programa. Eu estarei acompanhando e poderei interromper, se parecer necessário.
-Não seria melhor que, antes, eu ficasse observando você jogar um pouco?
-Se prefere, pode ser.
Leneu tirou a tanga e entrou no compartimento envidraçado. Havia no chão o desenho de um
círculo com uma veste depositada no centro, parecendo um macacão de tecido estranho.
Posicionou-se dentro do círculo e colocou o abrigo elástico. Ele aderiu completamente e cobriu
todo o corpo, com pequenas lentes cobrindo os olhos. Disse algo e em alguns minutos iniciou a
fazer movimentos, como se cumprimentasse alguém e pegasse alguma coisa. Depois, caminhou em
certa direção. Na medida em que caminhava, o chão se deslocava em direção contraria, como se
fora uma esteira, de modo que ele permanecia no mesmo lugar da sala. Então, começou a fazer
todos os movimentos de um jogador de tênis, sem raquete, sem bola, sem nada. Para quem assistia
era um espetáculo hilariante. Após cerca de dez minutos, caminhou, sem mudar de lugar, em
direção ao lado de onde tinha saído. Cumprimentou o nada, ficou um pouco imóvel, relaxou o
corpo e retirou o traje. Saiu do compartimento e sugeriu que fosse feito o mesmo. Alberto falou
com bom humor:
-Foi um balé interessante.
-É o que você irá fazer.
Alberto se portou como havia visto e falou:
-Desejo fazer um jogo virtual de tênis com um professor para iniciante.
Imediatamente, viu-se à beira de uma quadra com calção, camisa e tênis brancos. Um rapaz
com igual indumentária se aproximou e o cumprimentou.
-Sou o professor Primo, categoria iniciante, para sua aula de tênis. Esta é a sua raquete. Pode
escolher o lado da quadra.
Alberto tomou a raquete. Mesmo lembrando que tudo era virtual, teve a sensação de pegar uma
raquete verdadeira. Dirigiu-se para um lado da quadra. Seus pés pareciam pisar em saibro. O
instrutor sacou a bola em sua direção sem violência e ele rebateu com facilidade. Na sua mão e no
seu braço o impacto da bola era real. Continuaram jogando em ritmo lento, próprio para um
principiante. Após algum tempo, ele nem lembrava mais não ser um jogo real. Continuou, até se
sentir cansado e pedir para parar. Foi até o lado do campo. O professor veio ao seu encontro.
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-Muito bem, você está preparado para uma categoria superior.
-Muito obrigado, mas, por hoje basta.
Só então Alberto se deu conta de que falava com uma imagem. Respirou fundo e pediu para
voltar à vida real. A quadra desapareceu, surgindo o compartimento vazio da área de esportes.
Retirou o traje e saiu.
-Parabéns, você, também, dança balé muito bem.
-Que experiência incrível. Nem sei se é lá ou aqui a realidade. Aliás, desde que acordei no
hospital perdi a noção do que é real.
-É o que eu lhe falei. Muitos se viciam em atividades virtuais.
-Gostaria de experimentar um jogo de futebol.
-O futebol mudou um pouco, mas, é fácil se adaptar às novas regras. Há vários esportes
coletivos onde, também, é possível escolher o nível dos competidores. Sugiro que, por enquanto,
faça algo mais leve. Você ainda está em recuperação.
-O que eu poderia fazer?
-São infinitas as possibilidades. Você andava a cavalo?
-Sim, algumas vezes.
-Não quer cavalgar por campos verdejantes e perfumados?
-Com a condição de, primeiro, vê-lo demonstrar.
-Pode ser.
Leneu se dirigiu para o compartimento transparente e voltou a colocar o traje de realidade
virtual. Após alguns minutos, fez os movimentos de montar um cavalo e prosseguiu como se
estivesse cavalgando. Seu corpo ficava suspenso no ar, sem tocar os pés no chão. Após algumas
mudanças de direção, fez os movimentos de apear e, por fim, retirou o traje e saiu.
-Para quem assiste, é um quadro cômico. Como se faz esta suspensão do corpo no ar?
Leneu mostrou o traje.
-Não é o meu ramo de conhecimento, mas, posso explicar assim: Veja a malha. Absorve e
elimina a transpiração. Contém uma infinidade de pontos de material sensível aos fluxos
magnéticos deste compartimento, de forma que em cada local se produzem pressões e temperaturas
diferenciadas, controladas pelo aparelho. O corpo flutua porque é empurrado pela força magnética,
como flutuam os módulos de transporte.
-É fascinante.
-O setor de produtos para a realidade virtual e o de bonecos-companhia contém, atualmente, as
maiores indústrias. Esse material é de boa qualidade, mas, existem outros muito sofisticados, os
quais dão sensações mais perfeitas, mesmo para o tato suave, cinese e cheiros. Você pode
experimentar virtualmente as sensações de quaisquer situações reais ou imaginárias, conforme
previstas nos programas. Se desejar, eu posso acompanhá-lo no passeio. A área de esportes desta
casa tem mais um compartimento contíguo.
-Creio que possa experimentar sozinho. Não pretendo demorar.
Novamente, Alberto entrou e colocou o traje, cumprindo o ritual. Em frente a uma casa de
campo lhe foi oferecido um cavalo com os seus apetrechos. Cavalgou pelo terreno verdejante mais
tempo do que esperava, sentindo o aroma da relva e das flores campestres. Sentia uma brisa suave e
um sol ameno sobre a fronte. Voltou à casa de campo, desceu do cavalo e encerrou o programa.
Antes de sair, Leneu que tinha ido até a área de estar, aproximou-se.
-Pelo visto, o passeio agradou. Agora, será melhor você descansar. Amanhã, continuamos.
*
Ao chegar em seu apartamento, Leneu verificou haver ocorrido um arrombamento.
Imediatamente, concluiu que os incomodados pelas respostas dadas por Alberto na entrevista
achavam a sua influência inconveniente e desejaram assustá-lo. Felizmente, por sugestão de
Deodéa, havia providenciado a instalação de um sistema de proteção mais eficiente. Isso,
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provavelmente, fez com que os assaltantes se afugentassem. Antes de tomar outras providências,
entrou em contato com Deodéa para contar o que ocorrera.
-Fique tranqüilo. Politicamente, esse tipo de ação é contraproducente. Acredito no que meu pai
dizia: “Quem pensa precisar agir sempre com contundência comete um erro. As ações drásticas só
são aceitas pelo público quando dirigidas contra agressões do mesmo nível.” Os contrários não
encontrarão nenhum motivo para justificar essa invasão. - Deodéa consolou.
-Eu não sou político. Estou preocupado com o meu estado físico.
-Se deixar transparecer isso, irá estimular novas agressões. Avise a segurança sem demonstrar
que está amedrontado.
*
Depois da rotina matinal, Alberto ficou admirando a floresta através da parede transparente. A
sua solidão o acabrunhava, mas, a observação de pássaros brincando entre as folhagens lhe dava
tranqüilidade. Ele se sentia gratificado com o sucesso da entrevista. Imaginou o que poderia
comprar, mas, nada lhe ocorreu para entusiasmá-lo. Deu-se conta da fragilidade das suas
pretensões, assim como as das pessoas em geral. Ponderou que qualquer proeminência eventual
enaltece a vaidade, no entanto, o destino é determinado por circunstancias e fogem ao que se
deseja. Existem algumas escolhas, mas, elas são poucas.
Ao chegar, Leneu parecia preocupado. Comentou distraidamente as experiências virtuais do dia
anterior e a existência de pessoas que nela ficam viciadas.
-A realidade virtual é interessante, mas, não se pode fugir à realidade. Conclui Leneu.
-O resultado da entrevista me deixou animado, entretanto, foi coisa passageira. Sem uma
função, ainda me sinto pouco útil. A falta de propósitos torna a vida monótona. Talvez, eu esteja
me preocupando demais comigo mesmo. Eu o vejo cansado. Não dormiu bem esta noite? –
Perguntou Alberto.
Antes que Leneu respondesse, eles foram interrompidos por um sinal do comunicador
solicitando contato com Leneu de parte da Segurança Internacional. Autorizada a ligação, surgiu a
imagem de uma pessoa.
-Eu sou o oficial Bonam do Serviço de Segurança. Solicitamos que marque hora para um
exame interno do local da tentativa de invasão.
-Perfeitamente. Entrarei em contato mais tarde.
Assim que se desfez a ligação, Alberto perguntou o que havia acontecido.
-Ontem, pouco antes de eu chegar em casa, houve um arrombamento. Felizmente, há pouco eu
havia instalado novos equipamentos de detecção, os quais devem ter provocado a fuga dos
meliantes.
-O que pretenderiam?
-Provavelmente, assustar-me, ou encontrar alguma gravação comprometedora. Há sinais de
haver participação de um robô que precisaria ter sido modificado para delinqüir. Esse fato
determinou o acionamento, até, da segurança internacional.
-Isso é freqüente?
-Antes, nunca ocorria. Ultimamente, tem acontecido. Parece que alguns passaram a ver a sua
posição ameaçada e se aliaram à rede de um criminoso ao qual designam por Mono.
Pouco depois, Solina chegou. Cumprimentou-os com seriedade incomum:
-Soube que tentaram assaltar a sua casa. Que absurdo! Não se tem mais paz.
-Há possibilidade de que esta casa também seja invadida? - Alberto perguntou.
-É muito difícil. Aqui foi instalada a melhor proteção disponível. Só com uma ação de grande
envergadura. A repercussão seria enorme e, se os assaltantes tivessem motivação política, a causa
que defendem sofreria grande rejeição. – Respondeu Leneu.
-Como foi a sua experiência com a realidade virtual? - Atalhou Solina.
-Impressionante. Em pouco tempo já duvidava não ser real.
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-Eu gosto de viajar virtualmente e encontrar pessoas que apreciam fazer o mesmo. Temos um
grupo habitual. São experiências muito instrutivas. Existe alguma coisa que você esteja
especialmente interessado em ver?
-Gostaria de conhecer a vida doméstica e ver como as pessoas reais vivem normalmente em
suas casas. Você pode me dizer: Qual é o seu trabalho?
-Eu sou psicóloga, mas estou licenciada para cuidar da minha filhinha, sobre quem já falei.
Moro com ela, com o meu companheiro, mais um boneco e uma boneca-companhia. O trabalho
que eu faço aqui é um extra, a pedido do seu grupo tutor. O Leneu, também, poderia relatar sobre a
sua vida. – Disse Solina, parecendo satisfeita pela oportunidade de contar.
-Eu Tenho falado. Minha formação é na área da arqueologia, mas, dediquei-me às pesquisas
lingüísticas. Isso me credenciou para ser designado inicialmente como o interlocutor do grupo que
acompanhou a sua recuperação e, depois, tutor para o período da sua readaptação. Tenho uma filha
que mora longe daqui. Minha ex-mulher mora numa cidade próxima. Moro sozinho, mas, como
quase todos, eu tenho uma boneca-companhia que me acompanha há muitos anos. Convivo
bastante com um grupo de pessoas que têm interesses semelhantes aos meus.
-Não quis casar novamente? – Perguntou Alberto.
-Atualmente, os casamentos não têm o mesmo sentido que tinham na sua época. Para os que
desejam ter um filho, é obrigatório formar um casal, esperar a licença e assumir o compromisso de
morar juntos desde o nascimento até que o filho complete quinze anos de idade. A maior parte das
pessoas depois se separa, passando a viver sozinhas ou em grupos.
-O controle da natalidade funciona mesmo?
-O controle é rigoroso. Desde antes da puberdade, é praticada uma pequena intervenção em
meninos e meninas para impedi-los de ter um filho com as relações naturais. Para haver concepção,
o material genético dos pais precisa ser recolhido instrumentalmente, diretamente das suas gônadas.
A inseminação se realiza em laboratório. O embrião é colocado no útero da mãe onde fica até os
três meses de idade. Após, é retirado e desenvolvido em outro laboratório, até ser entregue aos pais.
Fora dessa situação, não há como reproduzir. A licença para ter um filho só é dada uma vez para
cada pessoa. Outro fato é que a sexualidade se expressa mais comumente de forma virtual entre as
pessoas naturais e, mais freqüentemente, com bonecos-companhia. Os bonecos foram muito
aperfeiçoados nesse aspecto e são praticamente indistinguíveis das pessoas naturais. - Solina se
antecipou em resposta.
A coisa toda pareceu complicada a Alberto. No momento, ele preferiu não insistir com maiores
indagações. Entretanto, perguntou:
-Eu poderia ter uma boneca-companhia?
-Esperávamos que, antes, você se familiarizasse com alguns comportamentos atuais. - Leneu
explicou.
-Você apresentou uma adaptação mais rápida do que a esperada. O setor de psicologia já
concordou em antecipar etapas. Se desejar, basta fazer o pedido. Existem vários modelos com
diferentes tipos e preços. - Solina interveio:
-Se, como dizem, estou rico, vou escolher a mais cara. Deve ser a melhor. – Brincou Alberto,
achando a perspectiva bastante divertida.
-O Leneu, apesar de ser muito conservador, deve estar mais preparado do que eu para orientá-lo
nessa compra. - Solina aprovou.
-Por mim, podemos fazer contato agora mesmo. Pelo que sei, os bonecos mais caros são os da
empresa Prius. Eles têm o cérebro muito desenvolvido e aceitam todas as especificações do cliente.
Os modelos são escolhidos individualmente e têm a sua construção completada artesanalmente. Por
seu alto preço, estão acessíveis a poucos, mas, você pode pagar. - Leneu interveio.
-Poderia fazer um pedido para mim?
-Sim, certamente. Devido aos detalhes artesanais, eles precisam ser encomendados com alguns
dias de antecedência.
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-Então, vamos encomendar.
-Eu vou fazer contato com a Prius. Eles marcarão o dia para você dar sugestões de modelos e
escolher características particulares.
Assim foi feito e eles foram informados de que seria marcada data para indicação das
preferências. Solina se despediu e saiu. Alberto e Leneu continuaram assistindo programas ao sabor
da curiosidade. Em determinado momento, Leneu pediu para verificar uma notícia, dando a
perceber, contrariamente ao que pretendia demonstrar, seu interesse por assuntos de natureza
política. Depois, continuaram “navegando” por sítios diversos. Almoçaram e, à tarde, cavalgaram
virtualmente juntos por diversos caminhos.
-Gostaria de encontrar logo outras pessoas ao vivo? - Leneu perguntou, antes de sair.
-Teria muito prazer.
-Vou realizar uma reunião de amigos em minha casa e você poderá conhecê-los. Irei
recomendar que eles o poupem de muitas perguntas, mas, sei que precisará ter alguma paciência.
-Não tenho segredos e não me causa incômodo falar, desde que não cobrem de mim muita
responsabilidade sobre aquilo que eu digo.
Quando mais tarde se deitou, a mente de Alberto estava cheia de indagações sobre como seria o
ambiente e os amigos que iria conhecer. O cansaço, porém, o fez logo adormecer.
8 - ESTRANHAS VISITAS
Na madrugada, Alberto foi acordado tendo três homens ao seu lado. Quis se movimentar, mas
percebeu que o seu corpo estava paralisado. Não conseguia levantar, nem falar. Pode notar que um
estava com cinto branco e dois com cintos vermelhos.
-Não tenha receio. Eu o imobilizei para evitar alarme, mas, ficará acordado. Vamos levá-lo num
veículo até uma pessoa que deseja conhecê-lo. Logo estará de volta. - Dirigiu-se a ele, com voz
tranquila, o de cinto branco.
Dito isso, os que estavam com cinto vermelho suspenderam Alberto com facilidade e o
carregaram até a porta onde os aguardava um veículo com seu condutor, bem diferente dos
módulos de transporte, os quais se dirigiam sozinhos. Após ser introduzido no veículo, viu o
condutor dirigir com instruções verbais e alguns toques digitais. Deslizaram próximo ao solo, entre
as árvores da floresta. Os modos dos sequestradores eram gentis, cuidando para não provocar
temor. Após andarem algum tempo, surgiu outro veículo em perseguição, causando, entre eles,
alguma agitação. O condutor pegou em mãos um comando, acelerou e realizou algumas manobras
bruscas, tomando distância dos perseguidores. O ambiente no veículo voltou à tranqüilidade.
Informaram Alberto se tratar de um guarda florestal de quem era fácil se safar. Após mais algumas
voltas em diversas direções, o veículo mergulhou no solo. Seguiram por um túnel subterrâneo e
estacionaram em frente a um portal. Alberto sentiu as forças musculares recuperarem seu tônus
normal. Saíram do veículo e seguiram por um curto corredor até uma sala bem iluminada. Um
homem com sorriso convencional estendeu a mão e convidou Alberto para sentar, acomodando-se
em outra poltrona à sua frente. A sua aparência pouco diferia da dos demais presentes, todos com
cintos brancos.
-Eu sou designado por Zefir. Desculpe-nos a maneira como foi tratado. Era o único modo que
eu tinha para chegar até você rapidamente e sem os riscos que o seu pânico poderia provocar. A
nossa organização é clandestina, mas, não há nada a temer. Aqui você está absolutamente seguro.
-Qual é a finalidade disto tudo?
-Desejo perguntar se estaria disposto a colaborar conosco para algo que, acreditamos, seja de
nosso interesse comum.
-Desde que acordei num hospital, tenho sido levado pelos acontecimentos, com muito pouca
oportunidade de opção.
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-Ouvimos em sua entrevista que você teria grande vontade de enviar uma mensagem aos seus
familiares. Estamos empenhados em pesquisas telepáticas e acreditamos ser possível fazer contato
com o passado. Você é, aparentemente, um candidato perfeito.
Na situação em que se encontrava, nada poderia surpreender Alberto, mas, até então, os
acontecimentos tinham alguma verossimilhança. A afirmação sobre se comunicar com o passado
era totalmente despropositada. Se tudo não fosse um sonho, devia estar tratando com um bando de
malucos. Ainda assim, achou melhor argumentar logicamente:
-Eu sou considerado um tutelado e, como tal, estou sob constante vigilância, embora não saiba
como e nem por quem. Parece-me que isso dificultaria a continuidade da vossa ação clandestina.
-Temos bastantes recursos. Tomamos a providência de fazer uma camuflagem eletrônica da sua
casa e desligá-lo provisoriamente do sistema de comunicação oficial. Você está agora conectado a
um sistema de comunicação paralelo. O veículo em que vieram, também, tem um sistema de
proteção contra detecções.
-Um guarda florestal nos perseguiu.
-Ele fez contato visual, mas, isso não conta porque está sempre acontecendo. Provavelmente,
nem irá relatar aos seus superiores esse incidente. Não fique preocupado. Em poucas horas nós
levaremos você de volta.
Alberto era obrigado a admitir que eles haviam penetrado em sua casa, apesar de lhe ter sido
garantido que ela era absolutamente segura. Estava sem saber em quem acreditar.
-Em que eu poderei ser útil?
-Hoje realizaríamos alguns testes telepáticos para confirmar a força da sua capacidade de
transmissão. Obtendo bom resultado, em outro dia, tentaríamos estabelecer comunicação com o seu
passado. Pelo que ouvimos na sua entrevista, isso corresponde a um desejo seu.
-Por que são clandestinos?
-Uma parte da nossa atividade foi proibida por razões políticas e o medo de tudo que é novo.
Então, decidimos operar na clandestinidade.
-Eu me sentiria melhor sabendo um pouco mais. Qual foi o motivo da proibição?
-Alegam falta de fundamento científico e existência de riscos. Mas, temos resultados que
justificam as nossas atividades e, com milhares de provas realizadas, nunca causamos prejuízo a
ninguém. Acreditamos que a principal razão seja a de que, se a comunicação telepática se tornar
comum, o controle político sobre as pessoas ficará reduzido. Os atuais mandatários têm medo do
que possa significar alguma mudança e perda de poder. Você deve entender, pois, o mundo sempre
foi assim. Quem se imagina com alguma posição de mando teme qualquer coisa que fuja ao seu
controle.
-Qual seria o motivo da preferência pela minha pessoa?
-O nosso grupo tem feito muitas experiências com transmissões telepáticas e temos um
interesse adicional em tentar transmitir para pessoas vivendo no que se denomina passado.
Julgamos que o saneamento genético, feito há bastante tempo para eliminar condições hereditárias
predisponentes a doenças, ocasionou a perda de um gene indiretamente relacionado com a
capacidade telepática. Você tem mais chances do que nós de possuir um elevado poder telepático.
Com a capacidade que logramos obter para estimular a telepatia e com a sua colaboração, contamos
alcançar resultados muito expressivos.
-Como surgiu a idéia de ser possível uma comunicação com o passado?
-Essa questão é mais complexa. Tem a ver com o conceito de tempo. Nossas pesquisas sugerem
que é possível se comunicar por telepatia com pessoas em épocas anteriores. Pelo que constatamos,
não basta o simples desejo da pessoa. Depende de ligação emocional entre os comunicantes. Como
você tem fortes vínculos com pessoas de um passado distante e demonstrou forte vontade de se
comunicar com elas, é uma pessoa especialmente adequada para as nossas pesquisas.
-No tempo passado, por curiosidade, fiz algumas tentativas telepáticas, sem resultados
positivos.
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-Temos novas técnicas. Descobrimos uma região cerebral relacionada com a telepatia que pode
ser estimulada pelos equipamentos por nós produzidos.
-Não é perigoso?
-Já foram feitas milhares de experiências. Embora muitas tenham resultado pouco efetivas,
nunca houve nenhum dano.
-Parece haver algo conflitante com o conceito de liberdade. A informação dada a alguém no
passado sobre o que lhe acontecerá no futuro significaria um destino obrigatório para ele.
-Essa objeção é interessante. Acreditamos que as decisões sempre foram, eventualmente,
influenciadas por informações recebidas do futuro, como ocorre no caso das premunições. As
informações transmitidas são imprecisas, principalmente quanto a datas e números, de forma que
não garantem o que irá acontecer. O mundo, tal como o observamos, não nos permite explicar tudo.
Se tiver interesse sobre premonição, poderá contatar com um estudioso sobre o assunto. Vou
recomendá-lo a Catafeu. Deixarei o código dele no seu catálogo de endereços.
Alberto, apesar de continuar acreditando se tratar de malucos, estava nas mãos deles e julgou
que colaborando seria mais fácil se safar.
-Se nada tenho a perder, por que não?
-Ótimo. Hoje faremos apenas um teste de telepatia estimulada para confirmar a sua capacidade.
Alberto foi conduzido por Zefir para outro aposento onde havia equipamentos e algumas
pessoas de ambos os sexos. Apresentaram-lhe uma mulher denominada Agfa, a quem deveria
transmitir as mensagens telepáticas.
-O processo demanda alguma relação afetiva. O contato físico é o modo mais rápido de criar
alguma empatia pessoal. – Informou Zefir.
À pedido de Zefir, ela segurou as mãos de Alberto, sorriu e o abraçou com força, pedindo
gentilmente para ficarem assim durante algum tempo, trocando alguns comentários estimulantes e
afagos. Alberto, aos poucos, sentiu de fato alguma intimidade com ela. Era muito estranha aquela
forma de criar uma relação afetiva, mas, não era desagradável e ele optou por não reclamar.
Passado algum tempo, o procedimento foi considerado satisfatório. Fizeram-no deitar sobre uma
maca, enquanto Agfa ocupava outra, situada a alguma distância.
-Vamos baixar esta campânula sobre você. Ela contém o estimulador e um visor. Você poderá
sentir algum desconforto inicial, logo aliviado. Vamos mostrar seqüencialmente dez imagens.
Deverá fixar nelas o seu pensamento e, ao mesmo tempo, tentar enviá-las para a receptora.
-Como faço isso?
-Pense que está vendo ela se concentrar em cada imagem.
Passados alguns minutos, Alberto teve uma sensação de pânico, sem nada que justificasse.
Fizeram-no inalar um gás e ele logo se sentiu melhor. À sua vista apareceram cenas emocionantes,
nas quais, aparentemente, estava envolvido. Na primeira, ele caia no mar e parecia se afogar, em
outra era festejado por crianças, logo estava tentando salvar alguém na beira de um precipício e, a
seguir, outras situações semelhantes. Alberto procurou se fixar em cada uma e, de algum modo,
transmiti-las para Agfa. Ao fim, retiraram a campânula. Ele estava exausto.
-Parabéns. Agfa acertou oito vezes. A sua capacidade telepática induzida é excelente. Temos
alguns dados mais para analisar e, então, confirmar o resultado.
Voltaram à sala anterior.
-Se você estiver disposto a colaborar, na próxima semana iremos buscá-lo e tentaremos um
contato com o passado. - Zefir propôs.
-Estou interessado, embora descrente. É preciso acreditar para obter bom resultado?
-Basta aceitar e fazer o que pedimos. Considere como um compromisso que lhe é atribuído.
-Sendo clandestinos, vocês não têm medo de que eu os denuncie?
-Tomamos alguns cuidados e, como lhe disse, estamos bem estruturados. Nossa localização não
é fácil e estamos usando máscaras faciais para evitar o reconhecimento. As nossas experiências não
são prioridade para o serviço de segurança. Eles estão com outras preocupações maiores. Contamos
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com o interesse que você demonstrou em enviar uma mensagem para sua família. Nós
representamos sua única chance. Ademais, você não tem obrigação legal de contar nada a ninguém.
Se alguém perguntar, não precisa ter medo de negar. A responsabilidade de descobrir é deles.
Como tutelado, nada lhe pode ser imputado.
Alberto examinou com curiosidade os rostos, todavia, sem perceber sinais do uso de máscaras.
-Como vou entrar em contato com vocês? – Ele Perguntou.
-Siga sua rotina e aguarde nossa iniciativa.
Zefir o acompanhou até a porta. Alberto entrou no veículo e logo adormeceu. Quando acordou,
percebeu que estava em seu leito.
9 – POLÌTICA E SOCIEDADE
Pela manhã, Alberto ainda estava deitado meditando sobre tudo o que lhe acontecera quando
Leneu chegou. Levantou-se preguiçosamente e foi ter com ele.
-Custei para dormir e acordei mais tarde. Você me acompanha em um lanche?
-Não, obrigado. Fique à vontade, eu vou verificar as notícias.
Após lanchar, Alberto manteve uma conversa protocolar, sem nada referir sobre as suas
andanças noturnas. Procurou perscrutar se os seus tutores haviam tomado conhecimento do que lhe
havia acontecido. Aparentemente, nada havia sido captado. Decidiu, por enquanto, nada dizer com
respeito aos seus seqüestradores. O contato com Zefir lhe dava oportunidade de conhecer outro
lado da sociedade.
-Como é feita a vigilância desta casa?
-Existem câmaras e sensores que transmitem todos os movimentos a um cérebro eletrônico. Se
for reconhecida alguma ação que signifique risco, o pessoal será alertado.
-Há possibilidade de eu seja assaltado ou seqüestrado?
Leneu sorriu, fazendo um sinal de negação.
-Esta casa tem proteção contra a aproximação de pessoas não autorizadas e três séries de
equipamentos de segurança. Ademais, aqui não há o que possa interessar a um ladrão. Os roubos
hoje se fazem por transações virtuais. Sempre poderia haver algum interessado em atingi-lo
tresloucadamente, mas, não conseguiria fazê-lo. Para um grupo poderoso, mais organizado, agir
com violência seria, politicamente, pior do que a inconveniência que você lhe poderia causar.
Alberto concluiu que os seus seqüestradores eram competentes e muito bem equipados. Talvez,
não fossem apenas malucos.
Passando a discutir sobre a entrevista, Alberto foi informado do quanto ganhara, mas, não tinha
como avaliar o significado desse valor. Leneu lhe assegurou que, se não fizesse extravagância ou
algum negócio desastroso, poderia viver com folga o resto da vida. Havia propostas para outras
entrevistas e os recursos poderiam aumentar ainda mais. Enquanto comentavam sobre o que
poderia ser feito, Solina chegou, desculpando-se pelo atraso.
-Qual a vantagem, ou desvantagem, de ser um tutelado? – Perguntou Alberto.
-A vantagem é que a sua manutenção e segurança são obrigações do Estado. Fora desta
condição, você teria direito apenas à renda básica de cidadania que não permite sustentar uma casa
como esta em lugar assim privilegiado. Todavia, com o que você ganhou pela entrevista, isso não
deve mais ser problema. De qualquer modo, não vejo benefício em você abrir mão das
prerrogativas dadas pela tutela do Estado. Por exemplo, com a emancipação, se você cometesse um
ato ilegal, teria que responder por isso. - Solina se apressou em responder.
-Na minha condição atual isso não acontece?
-A responsabilidade é dos seus tutores. Se logo após perder a tutela ficar comprovado que você
agiu ilegalmente por ignorância, os tutores podem ser responsabilizados por tê-lo liberado
prematuramente. Como tutelado, não lhe pode ser imputada culpa. Nem sequer uma inquirição. No
máximo, algumas atividades deixarão de lhe ser permitidas.
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-Quem são esses tutores? Eles me vigiam?
-O grupo tutor é designado pelo Estado como responsável pela sua recuperação. Ele pode
delegar para empresas especializadas algumas tarefas.
-Não me sinto bem sabendo disso. Eu havia pedido para deixar de ser vigiado.
Solina nada disse. Leneu ficou pensativo antes de responder.
-Existe em todo o mundo muita expectativa com relação às contribuições que você pode trazer
ao conhecimento do nosso passado. A responsabilidade pela sua segurança é muito grande. De
outra parte, você é um cidadão do Estado do Sudoeste e a tutoria não tem poderes para lhe tolher a
liberdade, exceto em situações de risco iminente. O seu pedido não pode ser desconsiderado. Está
havendo uma avaliação jurídica e política. O assunto está sendo analisado com muita seriedade.
-Então, eu reitero o meu pedido. Quanto a danos que eu provoque a mim mesmo, não será culpa
de vocês. Não gosto de saber que estou sendo observado como um animal enjaulado.
-Não é o caso, mas, compreendo os seus sentimentos. - Consentiu Leneu.
A proposta, aparentemente, não agradou Solina e ela demonstrou contrariedade.
-A assessoria jurídica deverá se pronunciar. A nossa responsabilidade é muito grande. Nunca se
sabe o que algum louco ou clandestino possa querer fazer. Você tem boa compreensão, mas, os
seus conhecimentos ainda são insuficientes. Se algo lhe acontecer, nós teremos que responder por
negligência.
-Se algo de mal acontecer e o prejudicado for só eu, estou disposto a assumir toda
responsabilidade. – Assumiu Alberto.
-Vamos esperar a decisão. Tudo o que estamos fazendo é para a sua segurança.
Dito isso, Solina mudou de fisionomia. O aspecto sério deu lugar a outro, sorridente e
malicioso. Trazia uma bolsa e dela retirou uma caixinha.
-Você disse que gostaria de conhecer o interior dos domicílios. O uso deste aparelho seria
proibido, mas, o seu caso é excepcional. Se Leneu não se opuser, podemos fazer algumas visitas
secretas, contudo, bem intencionadas. Em minha casa, lá no centro urbano, eu tenho um inseto
espião. Com ele posso captar imagens próximas e retransmiti-las para este aparelho. Podemos
inspecionar alguns domicílios visinhos à minha residência. O inseto é pequeno, silencioso e quase
invisível. Ele passa, praticamente, despercebido. É controlado por um tipo de onda especial. Em
algumas casas, como a sua, existe um detector de emissões que não permite essa invasão. A
maioria das pessoas, porém, não se preocupa com isso. Espero que vocês não comentem isso com
ninguém. Não estou espionando com um propósito menor. Quero apenas mostrar ao Alberto como
é a vida comum para ele se sentir familiarizado com o nosso mundo.
Leneu não mostrou entusiasmo.
-Eu não irei denunciá-la. Também, não assumo nenhuma responsabilidade. O risco, se você for
descoberta, fica por sua conta.
-Eu tenho uma boa desculpa. O Alberto precisa conhecer a vida doméstica. – Disse Solina.
Na parte anterior da caixinha apareceu a imagem tridimensional do interior de uma casa.
-Esta é a minha casa. Vou transferir a imagem para o comunicador.
A mesma imagem, porém maior, surgiu na frente deles, dando a impressão de estarem no
interior da casa. Como se estivessem voando, a imagem se deslocou para um emaranhado de
prédios, entrando e saindo em diversas residências. Os seus interiores eram semelhantes aos da casa
em que estavam. O comportamento das pessoas nada tinha de extraordinário. Olhavam algum
programa no comunicador, praticavam atividades virtuais, comiam, tomavam banho ou dormiam.
Solina transpôs rapidamente algumas cenas mais íntimas e voltou à visualização da rua.
-Quer conhecer um bruxo, quase meu visinho? Ele se autodenomina mentor. Fiquei sabendo
que o detector da casa dele estragou. Podemos aproveitar para examiná-la.
Logo tiveram a imagem do interior de uma casa com decoração diferente, cheia de cortinas e
estátuas. Um homem adotava posturas estranhas, como uma espécie de yoga, enquanto alguns
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jovens de ambos os sexos o acompanhavam, fazendo os mesmos movimentos em silêncio. Depois,
ele bradava alguma coisa e todos repetiam.
-Não sei se você reconhece isso. Nem tudo é modernidade. Ainda se usam rituais secretos
antigos. É interessante saber quantas facetas se pode encontrar no nosso mundo. O mais incrível é
que ele tem prestígio com muita gente importante. Deseja ver mais alguma coisa?
-Já foi possível ter uma visão geral. Para conhecer melhor, eu precisaria falar com as pessoas e
ouvir o que pretendem.
Solina desligou o aparelho e, sempre demonstrando animação, guardou a caixinha na bolsa. Em
seguida, desculpou-se por ter que sair e se despediu.
-A Solina critica a segurança pública, porém, tem vários parentes oficiais. Deve ter conseguido
com algum deles o inseto espião. Ela é bastante ousada, de outro modo não se arriscaria a utilizar
esse equipamento. A invasão de domicílio é considerada falta grave. O mentor espionado e seus
discípulos, por certo, têm apoio de pessoas importantes. Se ela for descoberta, poderá se dar mal. Comentou Leneu.
-É curioso como, com todo o avanço científico, ainda haja quem pratique esse tipo de ritual. O
que faz esse mentor para conseguir quem o siga?
-Ele faz o sol nascer.
-Como assim? O que quer dizer com isso?
-Não conhece aquela fábula antiga do feiticeiro da tribo que fazia o sol nascer? Passava o seu
poder de pai para filho. Todo o dia precisava subir numa colina ao leste para fazer o sol nascer.
Com isso, era reverenciado pela tribo.
-Tem a ver com uma história do rei que estava nu.
-Essa eu também conheço. Vamos almoçar?
Sentaram-se à mesa.
-Tenho testado comidas com vários sabores, contudo, sempre são apresentadas com a mesma
consistência e o formato de um bolo retangular. Há falta de maior diversidade na apresentação. Alberto comentou.
-Pode solicitar outras formas e consistências. Embora este sintetizador não seja um modelo dos
mais sofisticados, irá atendê-lo. Os mais avançados reproduzem com perfeição todos os detalhes,
como a textura externa e interna de uma caça, por exemplo.
-Ainda existe caça?
-Só de fantasia.
Leneu ordenou e receberam pratos com formatos peculiares de acordo com o pedido.
-Os detalhes que eu informei foram memorizados e podem ser repetidos quando você quiser. Se
der outras explicações ao sintetizador, ele irá obedecer, ou, dirá que é impossível. Se não entender
o que você quer, pedirá explicações.
*
Terminada a refeição, voltaram para a sala de estar. Alberto estava seguro de que nada havia
transpirado com respeito ao seu contato clandestino com Zefir. Lembrou-se das críticas que ouvira
dele sobre a legislação e a política.
-Como se organiza o governo. São realizadas eleições? - Perguntou a Leneu.
-Elegem-se Conselheiros para o Município, o Estado e a União Internacional. Os Conselheiros
escolhem os Executivos. Cada eleitor pode votar diretamente ou dar procuração a qualquer outro
cidadão para fazê-lo em seu nome, para um ou mais cargos. Muitos fazem apenas uma indicação
municipal para alguém que conhecem pessoalmente e o substabelecem para as votações dos outros
níveis. O voto é dado por via eletrônica na casa do cidadão, em qualquer dia e hora que deseje fazêlo. É voluntário e pode ser mudado a qualquer momento. A quantidade de votos que cada candidato
recebe está permanentemente exposta. A cada quatro anos o número de votos é dividido pelo
número máximo possível de vagas, resultando no quociente eleitoral do quatriênio. Os cargos são
preenchidos pelos candidatos que atingem esse quociente. A cada seis meses há um reajuste. O
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Conselheiro cujo número de votos for reduzido abaixo da metade do quociente perde o cargo. Ao
mesmo tempo, o candidato cujos votos cheguem a um número igual ou maior do que o quociente
irá tomar posse. Assim, não há um número fixo de Conselheiros, embora, aproximadamente, ele se
mantenha. O sistema é bem democrático, as informações é que não são.
-Isso não gera muita instabilidade, com constantes alterações?
-Embora a cobrança sobre os Conselheiros seja grande, os eleitores conhecem a inconveniência
de muitas trocas e não mudam seus votos com muita freqüência. O panorama geral só se altera
raramente.
-Existem partidos?
-Tem todo o tipo de partido, cada qual fazendo a defesa de uma ou várias causas. Eles
costumam se associar em frentes a favor ou contra o governo executivo. Os interessados podem se
filiar a vários partidos, os quais divulgam os seus programas e os candidatos que com eles estão
comprometidos. Cada candidato divulga o seu currículo e as suas prioridades.
-Os compromissos são cumpridos?
-Todos os atos políticos e votos dos Conselheiros são divulgados. Se o candidato assumir
posições conflitantes, ou não cumprir os programas com que se comprometeu, poderá ser excluído
do partido. Se a sua justificativa não for aceita pelos seus eleitores, perderá indicações de voto e,
por ocasião da recontagem semestral, perderá o cargo.
-Como os candidatos fazem sua propaganda?
-De múltiplas formas. Cada partido e cada candidato têm o seu canal de divulgação. Em geral,
os candidatos divulgam os partidos aos quais são filiados, as suas atuações, as suas idéias e críticas.
Pagam para colocar em outros programas sugestões para que o seu canal seja acessado. Como há
excesso de informações na mídia, o que vale mesmo são as suas relações e atuações ao longo da
carreira e o contato direto com os eleitores, Há programas oficiais que oferecem acesso a todos os
atos, presentes e passados, dos Conselheiros. Infelizmente, poucos eleitores acompanham com
espírito crítico.
-Qual é a sua posição política?
-Eu procuro apoiar os Conselheiros que mantém uma conduta coerente com os seus
compromissos, defendendo mais recursos para estudos e pesquisas. Também, apóio os que são a
favor de algum retorno a uma vida mais natural, sem abrir mão do conforto moderno. É preciso que
você saiba: muitos pensam de modo diferente. Não posso influenciá-lo com as minhas posições.
-Gostaria de entender o que podem dizer contra mais atividade natural?
-Eles acusam quem deseja fazer mudanças de pretender recriar aquelas condições que levaram
a humanidade às grandes catástrofes. Argumentam que, para preservar a natureza, é preciso
substituir o consumo de recursos naturais por atividades virtuais. A natureza não teria possibilidade
de satisfazer a todos e o resultado seria desabastecimento, poluição, insatisfação, violência,
revoluções e guerras. Acreditam que as guerras foram as grandes responsáveis, direta e
indiretamente, pelas catástrofes, desviando recursos que deveriam ter sido utilizados para prevenir
os cataclismos.
-O que dizem com relação à afirmação de que é possível ser mais natural mantendo os avanços
tecnológicos e evitando agredir a natureza?
-Dizem que, uma vez desencadeada uma onda, não há como segurar. As pessoas não têm
autocontrole e, quando se sentem estimuladas a desejar algo, seguem cegamente os seus impulsos
pessoais, sem medir as consequências para a coletividade.
-Esses argumentos não deixam de ter alguma razão.
-Toda moeda tem duas faces. Tudo é uma questão de dose. Eu penso que nisso há alguma
verdade, mas, não precisa ser obrigatoriamente como dizem. Se houver suficiente esforço
educativo, pode-se ter uma sociedade consciente do que é possível desfrutar e o que é necessário
evitar para preservar a natureza.
-Nunca se candidatou a algum cargo de governo?
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-Eu não me sinto motivado por esses postos. Os erros que existem são consentidos ou desejados
pelo conjunto da população. O poder segue uma cadeia de delegações dadas pela mente das
pessoas. O meu trabalho está na pesquisa em arqueologia e filologia. Procuro fazer a minha parte
oferecendo elementos que sirvam para um pensamento com menos enganos. Eu gostaria de poder
divulgar mais os resultados das minhas pesquisas. A dificuldade está em que as pessoas que menos
sabem menos desejam saber.
-Assim que eu tenha mais informações, pretendo obter a cidadania plena para votar. Entretanto,
temo perder a tutela porque não gostaria de ser incriminado sem merecer. Há muitas proibições?
-Em tese, só são considerados crimes os atos que firam os direitos dos outros, como agressões,
falsidades, fraudes e coisas assim. Não há crime sem vítima. - Leneu manifestou, de modo
tranquilizador.
-Pode-se propagar qualquer opinião?
-As manifestações através da mídia só são restringidas quando consideradas mentirosas, ou,
capazes de prejudicar pessoas que tenham pouca informação. A dificuldade está na interpretação do
que é prejudicial. Eu participo de um movimento que defende a liberdade para quaisquer
manifestações pacíficas, exceto calúnias e ofensas pessoais. Acredito que as pessoas devem
procurar saber o que é certo e, quando desconhecem, não aceitar qualquer coisa que lhes seja dita
sem ouvir e meditar sobre o que diz a outra parte. Isso as obrigaria a ter uma atitude mais atenta,
buscando informações em diversas fontes. Muitas proibições se fazem por preconceitos, ou, com
falsas motivações, para atender interesses particulares.
-Como se fazem as punições? Existem muitas prisões?
-O cerceamento de liberdade é feito através da imposição duma pulseira que monitora todos os
atos do condenado, inclusive suas comunicações. Ele será obrigado a seguir um programa estrito de
impedimentos e obrigações, com prestação de serviços ao Estado. Se não cumprir, as restrições vão
sendo aumentadas. Se tentar fugir, ou fizer alguma coisa fora do permitido, recebe
automaticamente um choque paralisante. A pena vai, conforme a gravidade do delito, de poucos
meses até muitos anos.
-Não seria justo que trabalhasse para ressarcir às vítimas?
-O prisioneiro sempre é obrigado a trabalhar, conforme a sua capacidade. O ressarcimento às
vítimas é feito por um seguro obrigatório, sem relação com o delito. É mais justo porque pequenas
infrações podem se relacionar com grandes prejuízos, assim como crimes intrinsecamente
perversos podem resultar em pequenos danos materiais. O monitoramento é bastante usado e não
só para os crimes maiores. Se for verificado que os pais não dão a devida atenção física e
emocional a uma criança, eles poderão receber uma pulseira e ter o cumprimento da sua
permanência e compromissos fiscalizado.
-Os filhos também são vigiados?
-Diretamente, não. Eles têm metas de aprendizado e recebem assistência psicológica. As
crianças têm direito a toda liberdade, desde que não causem prejuízos aos outros. Se agredirem
alguém ou não cumprirem suas metas de aprendizado, serão submetidas obrigatoriamente a
programas de reeducação.
-Com qual idade são consideradas maiores?
-Não há uma idade única. Existe liberdade e responsabilidade, a qual varia conforme a função.
Desde cedo, a convivência fora de casa é estimulada. A partir dos quinze anos são plenamente
responsabilizados e podem morar longe dos pais, porém, alguns preferem ficar por mais tempo em
casa. Às vezes, continuam com os pais após terem seu próprio filho.
-A proibição de manifestações é só pela a mídia.
-Quase todos têm o seu canal de comunicação e participam dos mais diversos canais coletivos.
O que não aparece na mídia é como se não existisse.
Alberto lembrou as atividades de Zefir, concluindo que devia haver muita coisa acontecendo
sem ser registrado pela mídia. Ainda bem, pois, uma total dependência dos meios eletrônicos lhe
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parecia constrangedora. Concordava com Zefir que devia haver liberdade para as pesquisas
telepáticas. Contudo, como acreditar ser possível enviar uma mensagem para o passado? Os seus
pensamentos teimavam em voltar para a sua família e o quanto gostaria de lhes contar o que havia
acontecido. Ele verificara que Zefir tinha instrumentos poderosos. Haveria fundamento para a
proposta que ele apresentava? Gostaria de obter algumas informações sobre os clandestinos.
Contudo, temia provocar questões sobre como soubera da sua existência.
*
Alberto perguntou a Leneu:
-Poderíamos fazer alguma coisa que não fosse virtual, tal como dar um passeio?
-O que você gostaria de ver?
Talvez, visitar a cidade. Gostaria de conhecer pessoas, ouvir as suas opiniões.
-O problema é que você é uma celebridade. Em lugares públicos causará tumulto. Se aceitar, eu
posso confirmar para logo mais uma reunião que combinei com um grupo de amigos em meu
apartamento.
-Creio que seria ótimo.
Leneu se dirigiu ao computador para avisar com relação à reunião que planejara.
-Logo veremos se será possível nos reunirmos ainda hoje.
-Quanto tempo você permaneceu casado?
-Quase vinte anos, na época da criação da minha filha. Agora, eu vivo só, com minha bonecacompanhia, mas, mantenho contato diário com amigos pelo comunicador. Os encontros reais com
amigos acontecem menos freqüentemente, em casa ou em clubes. Espero confirmações para nos
encontraremos hoje. Você está mais conformado em viver distante da sua família?
-Tenho procurado esquecer para não entrar em crise. Eu era muito ligado à minha mulher, ao
meu filho, a outros parentes e amigos. Sinto-me um extraditado neste novo mundo.
-Você irá se acostumar.
-E a sua filha, que idade tem?
-Deve estar com quarenta e oito anos. Eu já quase me esqueço dela.
Alberto achou que ele estivesse brincando:
-Então, quantos anos você tem?
Leneu sorriu e falou com alguma relutância:
-Sei que você irá estranhar. Tenho noventa e três.
-Como assim? Aparenta não ter mais do que uns trinta anos.
-Com a descoberta e eliminação de genes relacionados com o envelhecimento e mais alguns
outros recursos, as pessoas podem viver mais tempo mantendo a saúde e a aparência por até
duzentos anos. Depois, muitos optam por ser congelados.
-Há genes do envelhecimento?
-Isso é indispensável à sobrevivência das espécies. Todos os seres possuem. Aqueles que,
evolutivamente, não o possuíam, esgotaram o seu próprio ambiente pela superpopulação e
desapareceram. Os nascimentos humanos, agora, são controlados inteligentemente para evitar o
excesso de população.
-Então, tudo é planejado? Com os recursos atuais deve ser possível escolher o sexo, o aspecto
físico e tudo o mais. Quem faz as escolhas? Pelo que pude ver, há pouca diversidade.
-É um fato, mas, a possibilidade de escolha causa preocupação. Houve muito abuso na genética,
a ponto de se perderem definitivamente algumas características. Atualmente, a lei não permite que
se faça nenhuma manipulação, a não ser em caso de má formação. A fiscalização é séria. No
processo de reprodução, as definições devem ser aleatórias. O resultado dos exames permanece
desconhecido do casal até o nascimento. Há interesse social em promover a diversidade.
Neste momento, Leneu recebeu em seu ouvido um aviso.
-Podemos continuar esta conversa depois. Está na hora de irmos. O pessoal já está se dirigindo
para a minha casa.
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*
Leneu e Alberto se dirigiram ao módulo de transporte que os aguardava. Desta vez a imagem à
frente correspondia ao que havia do lado de fora. Fizeram um caminho de pelo alto da margem da
floresta e depois seguirem em direção ao conjunto de construções da cidade. Muitos módulos
passavam por eles. Leneu reclamou que estava indo muito lentamente. Embora não houvesse
ninguém dirigindo, uma voz falou que não seria prudente ir mais depressa. Aproximaram-se de
uma edificação e, finalmente, estacionaram a uma boa altura do solo. A porta se abriu diretamente
para a sala onde havia um grupo de pessoas. Eram quarto homens e cinco mulheres. Quase todos,
exceto um casal com aspecto um pouco mais jovem, tinham cintos verdes. Leneu apresentou-os um
a um. Embora Alberto já estivesse acostumado a ver todas as pessoas vestidas apenas com tangas,
aquela seminudez em ambiente social lhe causou algum constrangimento. Entretanto, não deixou
transparecer. As pessoas se assemelhavam bastante entre si. Com corte de cabelo e atitude
semelhante a dos homens, as mulheres pareciam a ele ter aspecto pouco feminino. Sentaram-se ao
redor de uma mesa onde havia pequenos quitutes e bebidas. Todos se mostravam simpáticos e
atenciosos. Contaram se dedicar a estudos e atividades relacionados com as de Leneu. O assunto,
naturalmente, recaiu sobre as condições da vida pregressa de Alberto, porém, tinham o cuidado de
não fazer um questionário. Às vezes se referiam a ele como o homem do gelo, apelido que lhe fora
dado pela mídia. Intercalavam gentilmente as perguntas com observações sobre as suas próprias
experiências. Alberto achava interessante, pois, isso o ajudava a conhecer melhor o seu novo
mundo.
-O seu apartamento é bastante diferente da casa em que eu estou morando. - Alberto comentou
para Leneu.
-É um modelo antigo, maior do que a média, mas, menos funcional. Tem uma bela vista da
cidade.
Dito isso, conduziu-o até uma ampla janela de onde se avistava o impressionante conjunto de
construções da cidade.
-O que são aqueles prédios distantes, com fachadas aparentemente suntuosas? - Alberto
perguntou.
-São antigos e pertencem a repartições governamentais. Venha conhecer a minha bonecacompanhia. Às vezes, quando os outros vêm acompanhados, ela fica comigo na sala. Hoje preferi
que nos deixasse sozinhos. Ela se chama Janura.
Em outro quarto, apresentou uma mulher igualmente vestida apenas com tanga e cinto
vermelho. Ela deixou a poltrona de onde acompanhava imagens pelo comunicador. Tinha cabelos
longos e algumas características diferentes das outras mulheres. A aparência era de uma jovem e
bela mulher do mundo que Alberto deixara para trás.
-Como arqueologista, eu gosto das coisas do passado. Creio que Janura deve se parecer com as
mulheres que você conheceu. - Lenou explicou.
-Fiquei impressionado com a sua aparência. É tão natural, especialmente, a pele e os cabelos.
A boneca-companhia sorria simpaticamente e olhava para Leneu com aparente admiração.
Surpreendeu Alberto ao se dirigir para ele.
-Tenho muito prazer em conhecê-lo. O Leneu gosta que eu deixe o cabelo assim, à moda
antiga. Assisti à sua entrevista e aprendi muitas coisas interessantes sobre o passado.
Era difícil Alberto acreditar que não estava diante de uma mulher de verdade. Ela sorria para
ele olhando-o nos olhos. Pela primeira vez, desde que Alberto acordou no Hospital, os seus
instintos masculinos foram provocados. Segurou a respiração e procurou não demonstrar a sua
estupefação. Janura se dirigia a Leneu com aparente admiração e o anfitrião a tratou como se fosse
uma pessoa natural. Alberto fez o mesmo. Após uma curta conversa, Leneu disse a Janura que
ficasse à vontade e conduziu Alberto para a sala onde estavam as outras pessoas.
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-Discutíamos quais foram as insatisfações que podem ter provocado as guerras e grandes
catástrofes. Você formou algum juízo a esse respeito? – Interpelou Alberto um conviva que lhe
havia parecido mais atilado.
-Não me considero um “expert” nesse assunto, entretanto, o meu pensamento tende a seguir
outro raciocínio. Parece-me impossível evitar totalmente a insatisfação. As guerras, todavia,
dependem de ideias formadas e à tempos ruminadas. Havia duas visões fundamentais: uma
apregoava reagir a cada ofensa “dente por dente”, outra pretendia aceitar “se alguém te pede ir com
ele uma milha, vai duas”. Não cheguei até as catástrofes, mas, penso que venceu a primeira visão.
-A expressão desse pensamento deve lhe parecer inofensiva, mas, em razão das divergências
atuais e da sua condição de testemunha, pode provocar reações. Leneu precisa ter cuidado.
Aproximou-se de Alberto um jovem de nome Arlon estava bem alegre, parecendo ter bebido
um pouco demais.
-Sou estudante de sociologia. Estou preparando, junto com a Madra, um trabalho sobre as
formas de associação e a sua influência no desenvolvimento dos povos. Gostaria de obter algumas
informações sobre o que ocorria no seu tempo com respeito a esse assunto. Em outra oportunidade,
eu poderia falar consigo mais demoradamente?
-No que estiver ao meu alcance, não há problema. Eu também tenho interesse em ouvir as suas
opiniões. Combine uma data com Leneu.
Uma mulher havia despertado a atenção de Alberto por ter algo de traços e modos familiares e,
também, por parecer o olhar com mais interesse. Ela pediu a ele para se afastarem um pouco do
grupo, pois, desejava falar em particular.
-Eu me chamo Deodéa. Gostei das suas respostas na entrevista. Deram apoio à argumentação
dos que preferem maior aproximação com a natureza. O debate sobre esse assunto está muito
quente atualmente e as suas afirmações tiveram grande repercussão nos bastidores políticos.
-Eu nunca imaginei que pudesse haver qualquer repercussão política. As informações que eu
posso dar são sobre uma época bem diferente da atual.
-Demonstram que as pessoas de épocas passadas não eram uns brutos. Alguns recriminam tudo
o que se fazia no passado. Outros, como eu, reconhecem que os comportamentos responsáveis pela
destruição podem ter sido apenas de alguns.
-Eu já havia percebido que qualquer observação minha causa admiração. A idéia que se faz dos
homens do passado é a de que eram desprovidos de inteligência.
-Há pessoas interessadas em afirmar isso. Como lhe disse, há muita reação contra o que
consideram uma volta aos erros do passado. Outros acreditam que ter mais contato com a natureza
não significa reproduzir o que houve de errado.
-No meu tempo também havia posições conflitantes. Entretanto, nós não tínhamos como saber
os resultados que iríamos colher. Os caminhos possíveis são muitos e a escolha é difícil. Vocês têm
condições de analisar e concluir o que, de fato, é preciso evitar.
-A questão não é tão simples. Há pessoas bem intencionadas defendendo idéias que são
utilizadas por outras com interesses escusos. Posições ideológicas contra o Movimento Naturista
servem de disfarce para atacar violentamente qualquer atitude que ponha em risco privilégios
ilegítimos. Ocorre, por exemplo, armazenamento de lixo radioativo em áreas não autorizadas, o que
entra em conflito com quem deseja manter, no mesmo local, parques para o desfrute da natureza.
Esse pessoal acredita em abortar precocemente qualquer coisa que possa vir a prejudicá-los. As
empresas que recentemente sofreram incêndio foram sabotadas porque apoiavam o Movimento
Naturista. Você precisa de proteção, pois, a casa de Leneu já foi atacada. Deve ter cuidado,
inclusive, na volta para sua residência. Outro dia, gostaria de conversar com você por mais tempo.
-Com o maior prazer. Agradeço a sua confiança. Essas são questões sobre as quais eu nada sei e
desejo conhecer. Aguardarei a sua ligação.
O contato com Deodéa animou Alberto. Ele desejava ampliar as suas relações e ficou ansioso
por ouvir mais explicações. Ela o inteirou de fatos que desconhecia. Ademais, causou-lhe viva
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impressão. Demonstrava muita autoconfiança, era elegante, simpática e alguma coisa nela o fazia
lembrar as mulheres de sua outra época. Iria aguardar com ansiedade esse encontro. Retornando ao
grupo, apesar da animação dos convivas, depois de algum tempo, preferiu se retirar. Leneu o
acompanhou até o módulo de transporte, perguntando se desejava que fosse com ele até sua casa.
Alberto respondeu não ser necessário.
*
Naquela mesma noite, Alberto recebeu nova visita clandestina. Foi acordado por um bonecocompanhia dizendo que trazia uma mensagem. Justificou sua presença dizendo ser perigoso
transmiti-la por meio eletrônico.
-Zefir agradece por não ter relatado a ninguém a experiência da noite anterior. Significa que
você tem verdadeiro interesse no projeto. A análise dos testes realizados justifica a tentativa de
prosseguir. Logo que tudo esteja concluído, viremos buscá-lo novamente.
Quando o boneco-companhia ia saindo, Alberto lembrou perguntar quantos dias poderia
significar o “logo”.
-Não tenho condições para comunicar mais nada. Por medida de segurança, assim que o recado
é comunicado, apaga-se da minha memória todo seu conteúdo.
A pretensão de Zefir parecia a Alberto inverossímil, porém, nada tinha a perder fazendo
contato. Considerou que, se aquele grupo quisesse fazer algo contra ele, já teria feito. O alerta de
Deodéa sobre a sua segurança o tornou ainda mais ansioso por conhecer o ambiente em que estava.
No mínimo, Zefir seria uma fonte alternativa de informações. Raciocinou que não devia se opor à
tentativa de enviar uma mensagem ao passado, mas, principalmente, desejava se adaptar à nova
vida. Quanto mais tivesse experiências, tanto mais aceitaria deixar para trás o mundo em que havia
vivido e para o qual, já se convencera, não poderia voltar.
*
Ao acordar, mais tarde do que estava habituada, Deodéa se defrontou com uma cena inusitada.
Madra estava sentada em sua cama chorando com a cabeça baixada entre as mãos. Assustada,
perguntou o que havia acontecido.
-Arlon sofreu um acidente e foi hospitalizado. O seu módulo de transporte dele foi abalroado
hoje pela manhã, quando saía da casa de Leneu.
Deodéa abraçou-a.
-Isso não acontece por acidente. Só pode ser uma ação criminosa.
-Por que fariam isso? Ele não tem inimigos. Está sempre pronto para ajudar.
-Com loucos não adianta argumentar.
-As lesões cerebrais parecem muito graves. Talvez seja congelado para ser tratado em um
centro especializado.
Os pensamentos de Deodéa iam do ocorrido com Arlon e outros acontecimentos para os seus
próprios sentimentos. Queria falar com Madra sobre eles, mas, não neste momento. Deviam ir até o
hospital. Antes, precisava falar com Leneu.
-Soube o que aconteceu com Arlon. Como isso se deu?
-Ele havia bebido demais, não se sentiu bem e dormiu aqui em casa. Hoje pela manhã, o seu
módulo de transporte foi abalroado por um transportador de carga. O desastre deve ter sido
preparado para mim. Ocorreu no horário em que eu costumo sair. Eu me sinto responsável.
-Você não tem culpa. O mais provável é que alguns não estejam contentes com as declarações
de Alberto e as atribuem a sua influência.
-Essas pessoas não conhecem Alberto, senão, saberiam que ele tem muita firmeza em suas
opiniões. Eu não poderia conduzir as suas respostas.
-Na reunião eu o adverti. Expliquei os motivos pelos quais as declarações dele desagradam a
alguns. Gostei muito dele. Sugeri que nos encontrássemos novamente. Ele demonstrou interesse e
aceitou. Precisamos descobrir quem são os bandidos.
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-Ele deseja ter mais contatos com as pessoas deste tempo. Ficou impressionado com a minha
boneca-companhia e quer adquirir uma.
Deodéa experimentou um sentimento que não saberia identificar, porém, riu e falou sem alterar
a voz:
-Ele parece estar se adaptando rapidamente. Para viver no mundo atual, terá que agir assim.
-A minha obrigação é fazer com que se integre perfeitamente. Não poderá se sentir bem
enquanto não for um participante dos nossos modos e costumes. Ele sabe disso e tem procurado
cumprir a sua parte. É surpreendente como tem andado depressa.
-Você pensa que um dia ele poderia casar para ter um filho?
-Por que não? Você está interessada?
Deodéa não deixou transparecer nenhuma emoção. Apenas sorriu e falou, aparentando
desdenhosa ironia.
-Seria um grande auxílio à ciência. Acha que valeria a pena?
-Depende da sua disposição para o risco. Conviver algumas horas com ele como amigo tem
sido estimulante. Contudo, não há como saber o que seria estar longo tempo em maior intimidade.
Ainda precisamos conhecê-lo melhor. A experiência que ele teve foi única e não se pode prever em
que irá resultar. - Respondeu Leneu, permitindo-se um arremedo de riso.
-Você tem razão. Estimule-o a adquirir e se relacionar intimamente com uma bonecacompanhia. As pessoas revelam muito das suas tendências nessas situações.
-Por enquanto ele parece temeroso, sem saber como iria lidar com ela. Contudo, está
deslumbrado e até excitado com a perfeição que as bonecas da Prius apresentam. Creio que vai
gostar. – Leneu completou, com alguma malícia.
O comentário não contentou Deodéa, mas, nem a si mesma ela confessaria. Continuaram
conversando sobre o que fazer a respeito do provável atentado. Por enquanto, Leneu iria apresentar
formalmente uma denúncia à Segurança Pública e Deodéa faria pressões nos bastidores para que o
caso não fosse negligenciado.
Pouco depois, Deodéa recebeu um recado de Keone desejando marcar novo encontro. Ela
respondeu que, no momento, estava com muitos compromissos.
*
Atrasado com relação ao seu horário de costume e demonstrando grande abatimento, Leneu
cumprimentou Alberto.
-Você está preocupado? Aconteceu alguma coisa?
-Você se lembra de Arlon, aquele jovem que estava na reunião ontem? Ele bebeu demais e nós
o pusemos para dormir lá em casa. Ao sair pela manhã, o seu módulo de transporte foi abalroado
violentamente por um transportador de carga trafegando fora da sua via. Foi levado para um
hospital com traumatismo cerebral grave. Estou aguardando noticias.
-Estes acidentes costumam acontecer?
-São quase impossíveis. Os transportadores de carga têm muito peso e trafegam por vias
próprias. Estão investigando. Há algum tempo, ocorrem crimes que, antes, não existiam. Você
precisa conhecer o mundo atual, mas, por enquanto, não deve ser preocupado com essas coisas.
Logo, um sinal do comunicador indicou que Deodéa desejava se comunicar com Leneu. O
contato foi autorizado e a sua imagem apareceu.
-Liguei para o hospital. Houve lesões cerebrais graves e ele foi congelado. A Madra está muito
abalada. Já fiz alguns contatos e estão investigando. De qualquer forma, tome cuidado e só use
condução identificada. Não se sabe a amplidão deste grupo criminoso.
-Como assim, congelado? - Alberto interveio.
-Ficará congelado em condições especiais enquanto eles veem se é melhor intervir logo ou
enviá-lo para um centro internacional especializado. Volto a ligar se houver mais notícias.
-Você acredita que as suspeitas de Deodéa sobre ser um crime tenham fundamento? - Alberto
perguntou, após desfeita a ligação.
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-Ela está bem informada sobre crimes, conforme o que circula na área política. Entretanto, os
que sabem sobre uma rede criminosa organizada nem se atrevem mencionar. Você não deve se
preocupar. Foram tomadas as providências cabíveis e nada há que possamos fazer. - Respondeu
Leneu, de modo enigmático.
Enquanto conversava com alguém através do aparelho embutido em seu ouvido, ainda que
procurasse não demonstrar, Leneu estava visivelmente apreensivo. Apesar disso, assumindo uma
atitude positiva, dirigiu-se para Alberto.
-Ontem você causou boa impressão entre os meus amigos. Pensavam ver uma figura estranha,
mas, ao contrário, encontraram um homem civilizado.
-Seus amigos foram simpáticos. Evitaram me massacrar com excesso de perguntas. Estranhei a
importância excessiva dada às minhas declarações opinativas. Apesar das explicações, ainda
entendo pouco o motivo.
-É um grupo muito próximo, com afinidade de idéias. Não creio que, entre eles, tenha
provocado desagrado com o que disse, embora, nunca se possa saber com certeza aquilo que cada
um pensa. Eu freqüento outras reuniões mais amplas nas quais as posições são divergentes. Nelas
recebo algumas críticas azedas por conta de me considerarem responsável pelas suas opiniões
desfavoráveis a alguns aspectos do mundo atual. Aquilo que se fala sempre acaba vazando, pois, os
amigos têm amigos. Todavia, quem eu conheço age com moderação.
-Há pessoas assim tão descontentes com a minha entrevista a ponto de quererem nos atacar
fisicamente? Estariam ligadas ao governo ou à oposição?
-A oposição, em geral, é a favor de mudanças. Alguns dos que estão no governo, talvez, não
tenham gostado, mas, não creio que chegassem ao ponto de assumir alguma ação deste tipo apenas
por idéias políticas. A notícia de qualquer crime prejudica o prestigio do governo, pois, ele tem
obrigação de manter a segurança. Há grupos de influência ligados ao governo cujos interesses
econômicos serão prejudicados com a mudança de algumas leis atualmente em contestação. É
provável que algum desses grupos seja responsável pelas agressões. Não acredito que os
criminosos sejam diretamente comandados pelo governo. Entretanto, muitas vezes, o pior inimigo é
um pretenso amigo com atitudes excessivamente radicais.
-Engraçado, na maioria das vezes, quando fazia restrições ao seu mundo, eu pensava que o
estava contrariando e, até, temia ofendê-lo. É injusto que você receba essa culpa. Penso que a
minha atitude de descontentamento deveria ser vista como natural em alguém que mudou de
ambiente contra a sua vontade.
-Ainda que me pareça justificado muitas coisas não lhe agradarem, o meu compromisso é fazer
com que você veja este mundo como sendo o seu.
-Percebi que os encontros reais continuam prestigiados, mesmo quando possam ser feitos
virtualmente.
-O que tem mais valor: um objeto de arte original ou uma cópia perfeita? O contato pessoal dá
mais prestígio e status ao encontro. Para os negócios comuns se usam as reuniões virtuais. Quando
os assuntos são mais importantes, os contatos são presenciais. Embora não seja uma afirmação de
bom tom, é preciso admitir que, apesar de todas as garantias, teme-se que alguém esteja na escuta
das comunicações. Eu gosto mais de contatos com presença real e procuro realizá-los sempre que
tenha oportunidade.
-Quem faz o controle dos instrumentos de comunicação?
Leneu fez uma careta de contrariedade.
-São agências governamentais, agindo de acordo com as normas do Conselho. Há grande
preocupação e leis severas com relação à privacidade. Todavia, tecnicamente, quem produz a
proteção também pode fraudá-la.
-Notei que todos têm muita semelhança física, distinguindo-se um pouco de mim. Apenas
Deodéa tem parência mais familiar ao meu outro tempo.
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-Ela sabe se apresentar. A nossa pouca variedade é considerada um problema. Depois de uma
época com guerras, cataclismos e eliminação de grande parte da população, os poucos
sobreviventes nas diversas regiões rejeitaram tudo o que lembrasse o passado. Procuraram se
comunicar, houve trocas e miscigenação. Longo tempo depois, em alguns centros se iniciou um
despertar tecnológico. Então, aproveitando aquilo que ficara documentado sobre o conhecimento
do passado, o progresso andou rápido. O medo de repetir o que havia ocorrido determinou a adoção
de uma legislação internacional pela qual só se poderiam desenvolver setores aprovados. Em certa
época, foi decidido fazer uma depuração dos genes causadores de doenças, o que resultou na
eliminação, intencional ou não, de alguns caracteres.
-Você me disse ser proibido fazer seleção genética.
-Atualmente, sim. Ademais da perda de caracteres, houve loucuras, como a inserção de genes
de animais em seres humanos. Alguns tentaram obter características superiores e isso resultou em
monstruosidades. Agora, a manipulação genética está totalmente proibida. Há, mesmo, uma
nostalgia pelos caracteres perdidos. Nas festas, é comum a simulação de traços étnicos antigos. O
mesmo acontece com a confecção de bonecos-companhia.
-Nunca houve problemas a com rebeldia de bonecos-companhia?
-Os regulamentos internacionais obrigam os fabricantes a bloquear a possibilidade de
insurreição, agressão aos seres humanos ou prática de delitos. Alguns são preparados para lutas
esportivas, mas, somente entre eles, disputando em bandas de igual força física, distinguindo-se
apenas pela habilidade. Quanto ao temperamento, eles podem ser escolhidos entre diversos tipos:
ativos, reativos, submissos, rebelde, exigentes, sensíveis, encabulados, indiferentes, carinhosos,
sensuais, apáticos, sérios, brincalhões e outros mais. Os mais sofisticados podem apresentar
qualquer combinação de caracteres que a pessoa deseje. O grau de capacidade para interagir
inteligentemente é a característica mais cara e valorizada.
10 - LOJA DE BONECOS
Após o almoço, Alberto comentou:
-Fiquei impressionado com a perfeição da sua boneca-companhia. É difícil acreditar que não
seja uma pessoa natural.
-Já existem modelos mais sofisticados do que o de Janura. São mais avançados em alguns
detalhes internos, no grau de inteligência, com recursos até superiores às necessidades habituais. O
setor de construção de bonecos-companhia é a maior indústria atual e a concorrência é grande. O
que mais importa para um desempenho satisfatório é a capacidade de acumular e relacionar
memórias adquiridas pela observação e a convivência com os donos. Se trajassem cintos iguais, os
modelos avançados demandariam grande experiência para diferenciá-los das pessoas naturais. O
código de posturas dos bonecos-companhia exige que, quando estão fora da casa em que residem,
usem um cinto vermelho.
-Para mim, essa deve ser a única maneira para distingui-los. Impressionou-me o jeito da sua
boneca-companhia, a perfeição dos gestos, as expressões do rosto e dos olhos, assim como a
textura, calor e umidade da pele.
-Esses e outros detalhes foram superados há tempo. A dificuldade maior está na construção da
inteligência e da personalidade para que respondam e, até, proponham perguntas de modo
inteligente. Também, é valorizado o seu comportamento, simulando emoções iguais às das pessoas
reais. Quem desconhece o mecanismo da sua construção fica, de fato, deslumbrado. Não são
emoções verdadeiras, mas, fazem acreditar que sejam. Vendo as suas expressões, instintivamente,
projetamos neles os nossos próprios sentimentos.
-Existem modelos masculinos?
-Nos modelos masculinos existem as mesmas qualidades que se pode encontrar nos femininos.
Evidentemente, as mulheres os apreciam bastante. Alguns homens também os preferem, assim
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como outras características. Com bonecos, não existem restrições. – Respondeu Leneu, esboçando
um sorriso e com alguma malícia.
-Todas as pessoas possuem algum?
-Mais do que um. A integração deles à nossa vida foi se dando aos poucos. Tornaram-se
comuns com o aperfeiçoamento da fabricação, o isolamento das pessoas, a necessidade de
companhia e o desestímulo à natalidade. Acredita-se que, na medida em que eles reduzem as
frustrações devidas à falta de companhia, cuidados pessoais, atenção e sexo, evitam os ciúmes
doentios e os crimes. No mundo atual, as pessoas estão impacientes uns com os outros. Os
adolescentes são independentes e as crianças mais rebeldes. A rapidez virtual os tornou
imediatistas, com pressa em obter resultados. Praticamente, todos têm bonecos-companhia desde a
sua infância e o hábito tornou indispensável tê-los por perto.
-É possível escolher todas as suas características?
-Existem diferenças na qualidade. Os mais comuns são modelos padronizados. Os mais
elaborados permitem ajustes conforme o gosto pessoal. Algumas empresas permitem que sejam
experimentados por um período, antes da compra definitiva. A Prius, empresa para a qual foi feito
o seu pedido, oferece escolha de quaisquer características no aspecto físico e no temperamento. É
possível fazer indicações apenas virtualmente ou comparecer na empresa para conferir e
acrescentar detalhes. Penso que já seja tempo de apresentar quais são os seus gostos para a
confecção do produto. Vamos fazer contato?
A compra de um objeto como Janura, com aparência e comportamento indistinguível de um ser
humano, causou em Alberto um sentimento estranho. Parecia algo indecente, mas, se esse era o
costume, ele não poderia fugir a tal experiência.
-Vou pedir um modelo que seja a visão idealizada da mulher que deixei no passado. - Alberto
falou, procurando ser jocoso.
-Eu não o aconselharia a fazer isso. Correria o risco de se apegar, como se revivesse a relação
com sua mulher real. É importante não perder a noção de que se trata apenas de uma boneca.
Prefira uma sem nenhum defeito, tal como não existe na realidade. Contestou Leneu, mantendo o
mesmo tom.
-É possível que tenha razão. Então, vou usar como modelo uma artista que me empolgou na
adolescência, com alguns aperfeiçoamentos.
Leneu fez contato pelo comunicador e acessou a imagem tridimensional de um grande salão
parecendo o prolongamento da sala em que estavam. A decoração lembrava um jardim, com
pássaros e pequena queda d’água. Um homem caminhou do fundo do salão até a frente, dirigindose a eles prestimosamente. A sua indumentária contrastava com as que eram vistas normalmente.
Ao invés de tanga, usava um terno preto lembrando traje de gala com faixa vermelha à cintura. Ele
se dirigiu para Alberto.
-A Prius tem prazer em servi-lo com sua qualidade de artigos e atendimento mundialmente
conhecidos. Podemos dizer que o seu crédito nos autoriza a lhe oferecer os nossos produtos mais
avançados. Portanto, não se furte a escolher o que o seu gosto sugerir como melhor. Se quiser nos
adiantar agora algo da sua escolha, teremos satisfação em receber as características iniciais das suas
preferências.
-Gostaria de ter uma orientação inicial sobre como escolher. – Disse Alberto, instigado pela
curiosidade.
Atendendo ao pedido, o boneco-companhia apresentador perguntou com respeito às
qualificações gerais sobre gênero, altura, peso, idade, medidas do corpo, tipo de tez, forma do
rosto, características dos olhos, tipo, cor e comprimento do cabelo, assim como outros detalhes.
Enquanto Alberto respondia, ia se formando ao lado do apresentador uma imagem de mulher com
as características indicadas. Em seguida, foi solicitado apontar as correções desejadas. Conforme
elas eram sugeridas, a modelo ia se modificando. Quando nada mais foi pedido para alterar o
visual, passaram à escolha da voz.
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-Veja os movimentos e a fala da imagem. Verifique se corresponde ao que imaginou. Se desejar
sugerir mais algum detalhe, pode fazê-lo. Tenha em conta que algumas peculiaridades dos gestos,
dos modos e da entonação da voz ainda dependerão da escolha do temperamento. - O apresentador
informou ao final.
A imagem correspondente às indicações desfilou como um manequim. Depois, dirigiu-se a
Alberto e o cumprimentou. Ele pensou consigo mesmo que seria impossível melhorar o que já era
perfeito. Disse que nada havia a acrescentar. A manequim se retirou, permanecendo o apresentador.
-Desde que aceite as condições e faça as escolhas para o temperamento, nós poderemos
entregá-la em três dias.
Junto ao chão apareceu discretamente a indicação do preço. Leneu comentou ser o mais alto do
mercado, mas, o pagamento não seria problema. Alberto falou que, para ele, estava bem. Perguntou
como saber se o que viam eram imagens totalmente virtuais, imagens de bonecos-companhia ou
imagens de pessoas naturais, ao vivo ou gravadas.
-O que você vê da boneca é uma imagem totalmente virtual. O ambiente e o comunicador são
imagens de uma existência real, embora o apresentador seja um boneco-companhia, o que se revela
pelo cinto vermelho. No canto superior da imagem há um sinal que indica ser transmissão ao vivo,
ou seja, nada é gravação. Será preciso escolher o temperamento. Os bonecos-companhia continuam
apreendendo e assimilando os comportamentos que lhes são ordenados, mas, mantém um
temperamento original. No futuro, o corpo poderá ser trocado, mantendo-se a memória adquirida.
A escolha do temperamento é importante, pois, seria impossível trocá-lo sem apagar parte da
memória. Sugiro que peça para ver alguns exemplos no local da loja. Ali terá maior contato com as
alternativas, podendo escolher com mais acerto. - Leneu comentou.
-A idéia me agrada. Deve ser divertido.
Alberto se dirigiu ao apresentador.
-Sim, eu desejo adquiri-la. Para uma melhor escolha, gostaria de ter um contato direto na loja
com os diversos temperamentos.
-Teremos o maior prazer em recebê-lo em nosso estabelecimento. Quando deseja que o
busquemos?
Alberto combinou com Leneu para irem mais tarde naquele mesmo dia e isso foi transmitido ao
apresentador. Ele ainda perguntou se havia qualquer outra recomendação. Foi-lhe dito que não e
encerrada a comunicação.
-Estranhei a técnica de venda. Dá impressão que não se faz muito esforço para convencimento.
No meu tempo os vendedores eram mais agressivos.
- É uma alternativa mercadológica. Nem todas as empresas agem assim. O apresentador foi
intencionalmente comedido. Respeita a privacidade da sua seleta clientela, a qual, supostamente,
sabe o que quer. A Prius é considerada por muitos como a que produz os melhores bonecos.
Demora um pouco na entrega das encomendas porque os detalhes de finalização têm toques
artesanais. Se houvesse manifestação da sua parte do desejo de mais informações, ou qualquer
outra demonstração, esteja certo de que seria prontamente atendido. Quando formos à loja, peça
todos os esclarecimentos que quiser e teste os modelos à vontade. Terá o tempo que quiser e não
lhe será feita qualquer restrição.
-Estou curioso para conhecer essa loja.
*
No horário combinado para irem à loja da Prius um módulo de transporte de aspecto luxuoso os
aguardava. Enquanto eram transportados, à sua frente se projetavam imagens da história da Prius,
desde os seus primeiros bonecos-companhia até os mais modernos, indistinguíveis de pessoas
naturais.
Quando chegaram à Prius, o portão de entrada se abriu para um amplo salão decorado. Era
igual à imagem que haviam visto e o mesmo apresentador com seu traje de gala e cinto vermelho se
aproximou dando boas vindas. Acompanhou-os até um recanto com poltronas de cor dourada e os
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convidou a sentar. Anunciou que o modelo físico que havia sido escolhido já fora encaminhado à
produção. Apresentaria algumas bonecas-companhia com características físicas aproximadas às da
escolha, as quais demonstrariam suas diversas atitudes e comportamentos. Poderiam ser indicadas
as adaptações pessoais desejadas. Outras modificações poderiam ser feitas mais tarde sem custo,
desde que solicitadas dentro do período de um mês. O temperamento só poderia ser modificado
dentro desse pouco tempo, antes que a boneca-companhia houvesse adquirido hábitos próprios.
-Prefere que apresentemos antes alguns temperamentos contrastantes, ou, antecipar as
características da sua preferência.
-Seria interessante, inicialmente, ver alguns padrões.
O apresentador fez um sinal teatral e se aproximaram duas bonecas-companhia com aspecto de
belas mulheres trajando as tradicionais tangas com cinto vermelho. Tinham pouca diferença física
entre si, mas, enquanto uma se destacava pelo andar bem desenvolto, a outra caminhava um pouco
atrás, mais contida. A atitude da segunda aparentava alguma timidez, como se ficasse embaraçada
com a presença de estranhos, só falando quando interrogada. Enquanto isso, a primeira tomava
iniciativas.
-Eu tenho prazer em conhecê-los. Permitem-me sentar ao vosso lado?
Leneu ajudou no interrogatório, perguntando a cada uma delas como reagiriam em
determinadas situações. Depois, sugeriu a Alberto que as examinasse de perto, palpando e até
beliscando, para verificar suas reações. Alberto constatou que a pele tinha consistência, textura,
umidade e temperatura iguais às de pessoas naturais. Apresentavam sensibilidade normal ao toque,
reagindo normalmente à dor. A mais ativa fez reclamações bem humoradas, mas, não demonstrou
descontentamento. A mais tímida pareceu encabulada e, às vezes, até ruborizou. Foi sugerido um
temperamento intermediário, com especificações sobre cada item. As primeiras bonecascompanhia se retiraram e compareceu outra. O aspecto físico era semelhante, mas, as suas atitudes
correspondiam à média solicitada. Do mesmo modo, para cada aspecto de temperamento foram
apresentadas duas ou mais alternativas. Alberto, auxiliado por Leneu, fazia perguntas para ver as
reações. As respostas obtidas indicavam reações pseudoemocionais diferentes, mas, perfeitamente
pertinentes às atitudes ou aos comentários que eram feitos. As escolhas se decidiam com
especificações complementares. Esse processo consumiu um longo tempo.
Completadas as indicações, foi-lhes apresentada uma imagem virtual com o aspecto físico
anteriormente indicado e o temperamento escolhido. Puderam conversar com a imagem,
solicitando respostas e a realização de alguns movimentos. Concluída a apresentação, foi
confirmada a entrega do produto original em três dias. Eles se despediram e foram transportados de
volta para casa no mesmo módulo luxuoso.
-Estou maravilhado com o que desenhamos. Espero que funcione. – Comentou Alberto.
-Pode ver porque homens e mulheres se fixam em bonecos-companhia. É quase impossível
encontrar uma pessoa natural que preencha tão perfeitamente as especificações solicitadas e esteja
sempre pronta a atender qualquer desejo.
-A escolha não é uma tarefa fácil, a gente pode se enganar sobre o que realmente quer. Espero
não precisar mudar nada.
Chegando em casa, já anoitecia e Leneu se despediu. Alberto deitou e repassou mentalmente o
seu dia. Alguns preferiam a solidão, mas, para ele, principalmente à noite, num mundo onde tudo
era estranho, estar sempre sozinho era quase insuportável. Talvez, uma boneca-companhia
amenizasse a situação. Analisando-se à luz dos parâmetros de comportamento que sempre tivera,
perguntou-se se agira corretamente, mas, convenceu-se de que eles não podiam valer numa
situação inteiramente diversa daquela em que se criara. Gostaria de saber mais sobre os padrões
morais atuais, principalmente em relação à convivência com os bonecos-companhia. As
explicações que recebera não o haviam convencido inteiramente.
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Leneu chegou avisando que naquele dia Solina não viria.
-Como está o seu amigo Arlon? - Alberto perguntou.
-Permanece igual, o caso é grave e a solução vai demorar.
-O esclarecimento da causa do incidente tem tido algum progresso?
-Algumas pessoas, aparentemente, têm tentado desviar o rumo das investigações. Ainda assim,
acredito que os culpados acabarão por ser descobertos.
-Ficaram de me entregar amanhã a minha boneca-companhia. Como as pessoas se comportam
com relação aos seus bonecos? O que se deve fazer?
-Faça como quiser. Não precisa ter preocupação sobre como agir ou o que dizer. Menos ainda
com a etiqueta. Os bonecos-companhia são construídos para sempre obedecer e procurar agradar os
seus proprietários. Se assim for o comportamento encomendado, comportam-se como se
estivessem apaixonados pelo dono. Quando são maltratados, podem estar programados para chorar,
mas, não sofrem de verdade. De qualquer forma, será mais agradável fazer de conta que se trata de
uma pessoa natural, embora, sem esquecer de que é apenas um boneco.
-As pessoas não se perturbam com essa dualidade de ser e não ser? - Perguntoi Alberto,
formulando uma questão que o intrigava.
Leneu riu gostosamente.
-Dizem que o costume é uma segunda natureza. Acostumaram a se relacionar com bonecos
desde a infância. Há casos, porém, de pessoas desorientadas que desenvolvem sentimentos fortes,
comportamentos obsessivos e bizarros.
-Há alguma legislação sobre isso?
-Do ponto de vista legal, trata-se apenas de máquinas e podem ser utilizadas sem qualquer
restrição. As pessoas não são cobradas pelo tratamento dado aos seus bonecos. Todavia, um
comportamento muito sádico depõe contra a índole do seu dono.
-A sensação provocada poderia ser a de que sejam como antigos escravos?
Leneu pensou um pouco antes de responder.
-Sob alguns aspectos, penso que sim, porém, de temperamento mais estável e confiável. Desde
que a virtualidade e a fantasia sejam tomadas como verdades, são ótimo lenitivo para o ego. Outra
vantagem sobre a companhia humana é que, por serem apenas bonecos, não têm e nem dão razão
para crises de ciúmes. Contudo, tudo depende da mente das pessoas.
-O que você pensa sobre o papel que desempenham?
-Eu pertenço, como você já deve ter percebido, a uma minoria contestadora que vê com
desconfiança a virtualidade. Os bonecos-companhia são apenas máquinas verdadeiramente
insensíveis. Suas demonstrações de sentimentos são respostas automáticas muito bem elaboradas,
imitando as nossas. Quem conhece os princípios da sua fabricação, mesmo que queira, não
consegue se iludir. Aqueles que se apaixonam ficam sujeitos, um dia, a chocar-se com a realidade e
sofrer frustrações. Desde que se esteja bem consciente das ressalvas, não há mal em se empolgar
por alguns momentos, aproveitando as possibilidades lúdicas da fantasia.
Enquanto conversavam, no comunicador, uma abertura deixada em canal de notícias chamou a
atenção deles, mostrando a imagem de um incêndio. Aumentaram o tamanho do quadro e o som.
Conforme dizia o apresentador, aparentemente se tratava de outro caso de sabotagem.
-Atualmente se cometem muitos crimes? – Alberto inqueriu.
-Da forma que vem ocorrendo, como no caso de Arlon, não se conhecia. Antes, apenas se viam
fraudes com o uso da comunicação e da tecnologia em geral. Tem havido um aumento da
criminalidade violenta. Pode existir um criminoso maior atrás de quase todos os crimes.
-Você acredita estarem esquecendo as catástrofes, conforme o que se propala, ou tudo se deve à
ainda incompleta satisfação dos impulsos básicos?
-Essas são teorias de alguns dirigentes. O medo da destruição uniu as pessoas, mas, se os
sentimentos sadios não são cultivados, cada vez mais haverá quem procure obter vantagens, sem
tomar em consideração os outros. Isso vale para os crimes e para as guerras. Eu penso que, através
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da cultura, os sentimentos de respeito ao próximo podem sobrepor-se aos impulsos agressivos
naturais, mas, precisam ser cultivados pela sociedade. As atividades virtuais trouxeram benefícios,
mas, atingiram um excesso. A falta de contato humano fez perder algumas conquistas que as
sociedades, sob pressão, alcançam, tal como a capacidade de se associar espontaneamente de modo
construtivo. Parece evidente serem necessárias algumas alterações de rumos. Entretanto, há os que
querem evitar mudanças a qualquer custo.
-Por quais outras coisas as pessoas se interessam? Existem religiões, ou, preleções sobre moral?
-Depois das catástrofes, por muito tempo, as populações remanescentes chegaram a uma
religiosidade bastante uniforme. Com o passar do tempo, aconteceram divisões. Hoje existe um
contingente relativamente grande de aficionados a várias correntes de teísmo. Eles não lutam entre
si, como no seu tempo, todavia, as suas controvérsias não favorecem uma convicção.
-Como são as religiões?
-Esse assunto não é o meu forte. De modo geral, o fundamento de todas as religiões está em que
as pessoas têm um espírito imaterial e precisam atingir alguma perfeição para se unir ao Criador. A
partir daí, dividem-se em várias correntes que diferem nos detalhes das crenças, no formato dos
cultos e nas suas estruturas. Em geral, têm pregadores sobre comportamento moral e realizam
cerimônias. Muitas pessoas aceitam como válidas todas as formas de religião, ou, não têm opinião
formada. Há os que se retiram para uma vida de meditação. A posição oficial do Estado é a de ser
uma questão de foro íntimo. Nem nos recenseamentos é incluída. Conseqüentemente, não se pode
saber ao certo quantos são religiosos, ateus ou agnósticos. Ocorre-me que estamos em falta consigo
por não termos perguntado se desejava alguma assistência religiosa. Você é religioso?
-Eu tinha a minha religião, mas, fiquei desorientado sobre quase tudo. E você?
-Às vezes, eu me censuro por não dedicar mais tempo para estudar essa questão. O nosso
grupo, de modo geral, se classifica como agnóstico. O agnosticismo também tem várias correntes.
Eu me classifico como um agnóstico esperançoso.
-O que vem a ser isso?
-Quer dizer: Eu não sei, mas, tenho a esperança de que alguma coisa possa justificar a minha
existência e eu venha a encontrar provas disso.
-Há cerimônias públicas?
-Existem, mas não há muitos praticantes de demonstrações externas. As facilidades tornaram as
pessoas menos dispostas a qualquer esforço. Talvez, esteja faltando algum choque para nos
temperar algo como a alma, o espírito, a consciência, ou outro nome que se lhe dê. Como já lhe
disse, muitos preferem viver num mundo de pura fantasia virtual. Outros se deixam cair num vazio
existencial. A propósito, Sartre é da sua época?
-Aproximadamente, mas eu pouco conheço da sua filosofia.
-Está na moda entre alguns que se dizem seus discípulos.
-Como as religiões se pronunciam com respeito aos bonecos-companhia.
-Algumas rejeitam toda relação que não seja natural. Outras sustentam que o que importa são os
sentimentos internos da pessoa, inclusive nas suas relações com os bonecos. Outras os vêem apenas
como máquinas e que, portanto, não devem ser objeto de considerações morais ou religiosas. Se
desejar, podemos ter mais informações fazendo contato com algum dos canais que tratam do
assunto. Eu ouvi falar de Nataléu. Ele se dedica a responder questões sobre temas religiosos.
Com o interesse demonstrado por Alberto, Leneu fez contato e a imagem de um homem
segurando na mão um livro antigo apareceu na sala. Um sinal no canto superior indicava se tratar
de uma imagem virtual, todavia, capaz de se relacionar:
-Meus cumprimentos. Eu sou Nataléu. Mantenho este programa com o fim de trocar idéias
sobre as religiões e sobre como encontrar um sentido para a sua vida. Qual abordagem deseja dar
ao nosso início de conversa?
-Gostaria de saber em que se fundamentam, atualmente, as religiões.
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-É uma questão tão ampla quanto a do fundamento da existência do universo e de tudo o mais.
Aceitaria que eu falasse primeiro com respeito ao sentido da vida?
-Pois não, eu gostaria de ouvir.
-Partimos da premissa de que o nosso universo existe e dele podemos ter uma imagem. Ele se
molda por leis permanentes que regem o comportamento da matéria/energia. Tudo o que sabemos
de positivo através da ciência, ou seja, através de observações e ilações, são as leis naturais de ação
e reação. Deixemos de lado a aparente indeterminação das partículas subatômicas, cujo contexto
ainda não se pôde decifrar. A interpretação do universo admite duas hipóteses possíveis, sem que
uma tenha precedência sobre a outra: A de que ele tem algum sentido, ou a de que simplesmente
existe, sem nenhum sentido. Se preferirmos a primeira hipótese, segue-se a necessidade da
existência de uma entidade consciente, à qual quem quiser pode denominar Deus, capaz de, por um
ato de vontade, criar o universo. Se fosse impossível para essa entidade a opção de não criar, a sua
ação seria apenas mais um elo da cadeia de leis obrigatórias, imutáveis e sem sentido, conforme a
nossa compreensão. Estaríamos na segunda hipótese. Para haver algum sentido, a entidade original
criadora do universo deve se distinguir dos elementos naturais atingíveis pela ciência por seu poder
criador e pela faculdade de livre-arbítrio. Não lhe parece que esse raciocínio tem lógica?
-Pelo que pude entender, dentro dessa hipótese, parece-me que sim. E nós, como ficamos?
-Nós, também, para que a nossa vida tenha sentido, precisamos ser possuidores de algum livrearbítrio. De outro modo, seríamos apenas, como máquinas, organismos de respostas obrigatórias.
Por tudo aquilo que nos é dado conhecer, as leis naturais que regem a matéria/energia não
comportam livre-arbítrio. Entretanto, se um ato voluntário gerou as leis de ação e reação, esse ato
também pode ter gerado a possibilidade do surgimento de uma existência com diferente condição.
Entre duas hipóteses, nenhuma das quais a ciência pode comprovar, eu penso que seja preferível
escolher a que dá sentido à nossa vida. O que você acha?
-Se for uma questão de escolha, é claro que sim.
-Temos a prerrogativa da escolha, desde que sejamos capazes de não nos obrigar a estar sempre
com a noção mais comezinha de verdade.
-Eu havia perguntado sobre as religiões.
-À religião cabe fundamentar uma moral requerida a seres com consciência e livre-arbítrio,
com o propósito de buscar a harmonia do universo. Refere-se, na escala humana, às atitudes de
cada qual para com o seu próximo. Mas, antes de falarmos mais sobre isso, sugiro que medite sobre
os argumentos apresentados. Se não puder desfazer essas afirmações, deverá aceitá-las e, então,
fazer a sua escolha. Optando pela primeira hipótese, podemos voltar a conversar. Sem aceitar a
existência do livre-arbítrio e suas conseqüências, será inútil dialogar sobre o sentido da nossa
existência. Depois, poderemos abordar os sinais que reforçam a crença na existência do imaterial e
o papel das estruturas religiosas.
-Sobre as relações com os bonecos-companhia, o que tem a dizer?
-As relações com as máquinas, assim como com a natureza em geral, dependem do estado de
espírito de cada um. Quem tem boa índole trata tudo com benevolência. Penso que seja melhor
fazer uma pausa e voltar a conversar num novo encontro. Está de acordo?
-De fato, há muito sobre o que meditar.
-Então, até o próximo encontro. Quando estiver preparado para continuar, faça contato.
Dito isso, a transmissão foi encerrada.
*
Ainda perturbado, sem compreender tudo o que via e ouvia, Alberto perguntou:
-Por quanto tempo ainda você virá me fazer companhia? Eu tenho muito a aprender sobre o
mundo atual.
-Não tenho prazo marcado. Virei enquanto for julgado necessário. Possivelmente, até quando
você prefira ficar sozinho. A propósito, já pode fazer uma demanda para suspensão da vigilância
contínua, ficando, apenas, com a obrigação de um contado diário, em horário que preferir.
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-Então, por favor, encaminhe a minha demanda.
-Irei providenciar. A assessoria jurídica deverá confirmar a sua opção.
Foram interrompidos por um pedido de comunicação da empresa Omnimundi. Oferecia novos
trajes “top de linha”, sem custo adicional. Faziam questão de entregar o seu melhor produto.
-Vê-se que há muito empenho em converter você em defensor do virtualismo.
-O esforço deles precisará ser grande. O que achou da preleção de Nataléu?
Leneu olhou ao longe, perdendo-se em meditação. Essa atitude convenceu Alberto tratar-se de
alguém que não ficava contente em ter sempre uma resposta pronta para qualquer indagação. Por
fim, ele externou:
-O problema é que as pessoas parecem não exercer nenhum livre-arbítrio. Elas não contestam
para si mesmas a origem das suas convicções. Respondem apenas aos instintos, às circunstâncias e,
principalmente, à influência de outros, geração após geração. Comportam-se como se formassem
um círculo interminável de robôs.
-Se não exercemos nenhum livre-arbítrio, então, o que é nossa consciência?
-Essa é a grande questão. Todavia, aqui e ali, às vezes, parece brilhar alguma luz.
-O que você pensa sobre as religiões?
-Eu aceito a posição de quem assume a sua religião, mas, não a de quem a defende cegamente,
sem pensar, como se fosse fã de uma agremiação esportiva.
-Ainda se usa torcer por um time?
-Certamente. Alguns são fanáticos.
-Faz-me lembrar o entusiasmo que tive por meu time de futebol e os seus jogadores. Como as
emoções esportivas são transitórias!
Neste momento, chegou o boneco-companhia entregador dos novos trajes de realidade virtual:
-Com os cumprimentos da Omnimundi. A empresa pede o obséquio de comunicar qualquer
inconveniente.
Os bonecos de serviços padronizados são construídos com menos cuidados e costumavam ser
quase indistinguíveis. Alberto notou que esse tinha uma minúscula mancha na face direita, parecida
com a de um dos jogadores que ele tinha em mente. Ele não poderia imaginar que essa observação
viria a ter utilidade.
11 – PERIGO REAL
No dia seguinte, Alberto pediu a assistência de Leneu para experimentar o novo traje de
realidade virtual. Escolheu um jogo de tênis com competidor de igual categoria. Pareceu-lhe que a
sensibilidade oferecida era de fato mais perfeita do que a do traje anterior. Após o jogo, retirou o
traje e se dirigiu a Leneu.
-Ainda estou inseguro para usar estes equipamentos sem a sua presença.
-Não há razão para isso. Parece já haver se adaptado bem ao seu novo mundo. A petição que
fez foi aprovada. A partir de hoje, a verificação da sua condição será inferida pelo recebimento de
uma ligação diária da sua parte.
-Fico-lhe grato. Como posso ter certeza de não estar mais sendo vigiado?
-Sua assistência jurídica tem a obrigação de zelar pelos seus direitos. Há um sistema de
fiscalização e concorrentes prontos a denunciar qualquer descuido. A privacidade foi objeto de
grandes batalhas legais e jurídicas e hoje é um dos direitos mais protegidos. O desrespeito a esse
mandato pelos tutores poderia lhes trazer graves conseqüências.
Quando Solina chegou, Alberto se dirigiu para ela:
-Eu estava praticando tênis. É possível praticar natação?
-Por que não? É só pedir.
Alberto ficou um pouco encabulado pela presença de Solina ao retirar a tanga. Ela, porém, não
demonstrou nenhum embaraço e o ajudou a colocar o traje de realidade virtual. Feita a solicitação,
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ele se viu à beira de uma piscina com águas claras e tépidas. Entrou lentamente, tendo igual
sensação de alteração da temperatura e de flutuação que teria com água real. Nadou tranquilamente,
sentindo necessidade de respirar fora d’água. Quando se sentiu cansado, pediu para encerrar o
programa, retirou o traje e saiu da área de esportes:
-Tive a sensação perfeita de flutuação e de impossibilidade de respirar sob a água.
-Se pedir para fazer um voo espacial, você sentirá uma perda total de gravidade. Se for para a
lua ou um planeta menor, irá caminhar com peso reduzido. - Solina se apressou em explicar.
-Já fizeram contato com seres extraterrestres?
-No sistema solar só existem colônias humanas. Permanece a dúvida para outros sistemas
estelares. Se existem, não podem ou não querem fazer contato conosco.
-Pensávamos que em alguns anos isso iria acontecer.
-Considerando os anos-luz de distancia das estrelas, o tempo que você dormiu não é nada.
-É fácil fazer uma viagem para outros planetas do nosso sistema solar?
-Não é difícil, mas, entediante. Fazer o percurso total só para turismo não compensa. Uma
viagem virtual tem a vantagem da rapidez, todavia, sem a possibilidade de interagir com o
ambiente em realidade. Para distancias moderadas, pode-se alugar o corpo de um boneco situado na
nave e participar de parte da viagem. O corpo do boneco se conforma com porte e feições parecidas
com as suas. Com o traje de realidade virtual, você sentirá o corpo do boneco como sendo o seu
próprio e irá interagir realmente com o ambiente. O boneco lhe transmitirá todas as sensações que
teria se você mesmo que estivesse lá. Será visto no local e as pessoas ou objetos sofrerão a sua
ação, como se você estivesse presente. As naves transportadoras costumam conduzir corpos de
bonecos para aluguel. Entretanto, ir às colônias lunares é uma experiência mais gratificante. A
distância é menor, resultando em menos defasagem de tempo entre a ação e a reação. Nas
distâncias maiores, mesmo com recursos que mascaram a defasagem, a reação do boneco não é
imediata. Pode-se andar sobre o solo lunar a pé, em veículo de superfície ou em veículo aéreo.
Pode-se escolher a opção em diversas empresas operadoras.
-Lembro-me das vezes em que, dormindo, o sonho me parecia realidade. Agora, estou bem
acordado e as coisas me parecem irreais. Gostei dessa idéia de dar um passeio a pé na lua. Eu
poderia alugar hoje um corpo lá?
-Quer que eu contate agora com uma agência?
-Se for possível, seria um favor.
Solina tomou a iniciativa de fazer contato, explicando a intenção. A secretária da agência disse
que iria verificar as vagas e daria retorno.
-É estranho que essa rotina não seja automatizada.
-A lei determina vagas limitadas para o turismo externo com aluguel de corpos semelhantes aos
humanos. A intenção é evitar a poluição dos ambientes.
Pouco tempo depois, a secretária informou que reservara uma vaga na colônia lunar número
seis. Foram até a área de esportes.
-Eu vou ter que sair. Leneu lhe dará toda assistência necessária. - Solina comunicou.
No espaço para o qual fora mantida a denominação de área de esportes, Alberto colocou o traje
e, dadas as ordens, logo se viu em um quarto rústico, com a sensação de pesar menos. Havia apenas
armários e um espelho A imagem que refletia, com algumas imperfeições, era a sua. Aproximou-se
uma pessoa que o cumprimento e abriu o armário de onde retirou um traje de tipo espacial.
-Você vai precisar colocá-lo para sair do abrigo. O boneco adotado percebe e transmite ao
titular, em sua casa, as mesmas necessidades de ar, pressão e temperatura de qualquer ser humano.
Enquanto ajudava Alberto vestir, disse que bastaria falar para ser ouvido e atendido. Conduziuo até um pequeno compartimento e fechou a porta. Automaticamente, abriu-se outra à frente,
surgindo o panorama lunar. O solo de cor cinza claro se estendia ao longe e se viam algumas
construções em forma de campânula. Alberto caminhou sentindo o corpo leve e os pés afundarem
no solo fofo. Algumas pessoas passavam, abanando em cumprimento. Ele deu saltos, entusiasmado
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pela facilidade com que o fazia. Caminhou para mais longe, admirando o panorama desolado. Só
após algum tempo, deu-se conta de que, às suas costas, podia divisar o planeta azulado. Admirouse embevecido, sem poder fugir ao lugar comum de pensar o quanto são insignificantes as questões
humanas vistas à distância. Caminhou ainda mais e, ao voltar, perdeu a direção sobre qual era o
abrigo do qual saíra. As várias campânulas eram quase iguais, distinguíveis apenas pelas letras que
ostentavam. Pessoas circulavam ao seu redor. Ele falou da sua dificuldade e uma voz lhe indicou a
direção. Ao se dirigir à porta do compartimento, transpôs um grupo de adultos e crianças que
brincavam, correndo e pulando. Alguém esbarrou nele com força, possivelmente portando algum
instrumento pontiagudo. O choque provocou uma pequena abertura no traje espacial, ocasionando a
sua despressurização. Imediatamente, sentiu frio intenso e falta de ar. Chamou por socorro e
percebeu que alguém vinha em sua direção, porém, parecendo não se dar conta do quanto estava
verdadeiramente mal. A visão escureceu e ele desfaleceu, vendo-se numa espécie de transe, imerso
num ambiente de gelo branco e frio. Então, tudo apagou.
Percebeu-se voltando a si, caído no chão da sala de esportes, gelado, ofegante e com a mente
obscurecida. Desesperadamente, Leneu tentava socorrê-lo. Havia comandado o desligamento do
equipo, o aumento do aquecimento e da saturação de oxigênio na sala. Enquanto verificava o corpo
de Alberto retomar o fôlego e o aquecimento, ajudou-o a retirar o traje de realidade virtual.
-Como está?- Perguntava Leneu.
-Agora, melhor. Persiste uma dor na cabeça.
-O que aconteceu?
Alberto, ainda sufocado, contou balbuciando o ocorrido.
-Se soubesse que era tão perigoso, teria mais cuidado em evitar esbarrões.
-O equipamento de realidade virtual devia desligar automaticamente ao detectar o menor
desconforto da sua parte. A demora em fazê-lo é inadmissível.
*
Verificando que Alberto melhorava, Leneu o ajudou a ir até o quarto e deitar. O socorrista
chamado apareceu em seguida. Ele examinou com um aparelho as condições de Alberto, apoiado
por médicos à distância. Após algum tempo, foi-lhe assegurado que estava bem. O socorrista
recebeu autorização para se retirar, deixando um aparelho preso ao corpo de Alberto. Verificando a
melhora, Leneu se tranqüilizou. Sem muita demora, um sinal indicou o desejo de comunicação do
fabricante de equipamentos da empresa Omnimundi. Sentindo-se melhor, Alberto autorizou o
contato. Uma pessoa com aparência desolada se identificou como gerente operacional. Pediu
desculpas, dizendo que aquilo nunca ocorrera antes. Haveria rigorosa investigação. O equipamento
seria trocado pessoalmente por ele. Ao seu lado, apresentou-se o assessor jurídico da companhia.
Ele também assegurou não existirem antecedentes para o acontecido e propôs um acordo. A
empresa estava disposta a pagar uma indenização muito satisfatória, desde que não fosse
apresentada denúncia. Argumentou que seriam tomadas providências para que tal fato nunca mais
ocorresse e que uma denúncia implicaria na divulgação pela mídia, com prejuízos para a empresa e,
também, para uma multidão de usuários de todas as marcas de equipamentos pela ansiedade
provocada. Leneu tomou a iniciativa de responder que, no momento, Alberto não estava em
condições de tratar do assunto e que o seu advogado entraria em contato com eles. Desfeita a
ligação, sugeriu um contato com a assessoria jurídica. Assim que a imagem de Sazon apareceu,
foram-lhe narrados os acontecimentos. O advogado ouviu atentamente e se dirigiu para Alberto.
-Preciso me certificar de alguns detalhes. Conforme a norma, eu deveria fazer uma denúncia à
segurança pública. Entretanto, se não for do seu interesse, você tem o direito de pedir para não
fazê-la. Essa decisão você terá que tomar sozinho. Preferindo entrar em negociação com a
Omnimundi e não denunciar, eu não poderei representá-lo. Nesse caso, recomendaria que
contratasse uma assessoria jurídica independente. Seria conveniente, também, contratar uma
agência de investigação particular. Se não houver acordo nas negociações, voltaremos às
providências de rotina.
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-Poderia me indicar uma assessoria jurídica?
-Espontaneamente, não. Mas, se houver a iniciativa da sua parte de me solicitar, eu não poderei
me negar a fornecer algum nome.
-Então, eu lhe peço sugerir alguém que conheça bem.
-Para os meus clientes particulares, em casos de pedidos de indenização, quando por algum
motivo não convém que eu mesmo atenda, tenho indicado o advogado Janos.
Após agradecimentos, encerrou-se o contato. Alberto perguntou a opinião de Leneu.
-O que ocorreu é muito estranho. A Omnimundi é uma empresa bem conceituada e a segurança
desses equipamentos é um item dos mais importantes. Acidentes com atividades virtuais ou com
bonecos incorporados são freqüentes, mas, a transmissão dos danos ao usuário é automaticamente
bloqueada.
-Poderia ser alguma espécie de sabotagem?
-É uma hipótese que precisa ser investigada.
-O que me diz da sugestão de uma investigação particular?
-Oficialmente, eu estou impedido de fazer indicações que envolvam valores.
-Pelo que entendi, se eu tomar a iniciativa de lhe pedir, você deverá opinar.
Leneu sorriu e respondeu:
-Você aprende depressa. Há muitas agências competentes. Se houver negociação com a
Omnimundi, pode ser exigido dela um compromisso de total colaboração com a investigação.
-Eu poderia ter logo um contato, sem compromisso, com o advogado Janos?
-Certamente, ele estipulará as suas condições para aceitar ou não.
O contato com o advogado foi feito. Após as apresentações, foram explicadas todas as
circunstancias do caso.
-Eu, poderei estabelecer negociações com a empresa cobrando um honorário inicial bastante
módico. Não haverá compromisso da sua parte de acatar o resultado da negociação. Aceitando as
condições que lhe forem oferecidas, cobrarei 10% da indenização obtida. Em caso contrário, nada
mais precisará pagar.
-Estou de acordo. A negociação deverá incluir o compromisso de colaboração total com uma
agência particular de investigação.
-Da minha parte, nada a obstar.
-Poderia me indicar alguma?
-Se deseja, posso sugerir os serviços do agente Mincan. Ele atuou em alguns casos meus com
bons resultados. Entretanto, eu não assumo compromisso de que ele obtenha resultado positivo.
Fizeram contato com Mincan e pediram a sua opinião. Ele se mostrou interessado:
-É preciso investigar. Talvez desejem, apenas, prejudicar a Omnimundi.
Leneu interveio:
-A sabotagem poderia ter alguma relação com o criminoso que denominam Mono?
-Não creio. É melhor nem mencionar esse nome. Isso dá azar.
Depois, como de hábito, Leneu acompanhou o almoço. Desta vez, Alberto especificou o
formato dos alimentos. O sabor e o aspecto da comida ficaram bem convincentes. Ele comentou:
-Nosso cozinheiro preparou bem.
-O sintetizador tem alguns padrões culinários coletados na memória. Os ingredientes são
debitados em sua conta, porém, a confecção é gratuita. Se escolhesse uma receita com marca
divulgada na mídia, teria que pagar pelos direitos autorais.
Mais tarde, Leneu perguntou se deveria permanecer à noite, mas, Alberto recusou. Ficando
sozinho, enquanto acompanhava visualmente o comunicador, meditava sobre o que lhe acontecera.
Solina saíra antes do incidente. Teria ela alguma responsabilidade? Esperava que não. Sentia-se
sozinho. Uma companhia previsível, mesmo a de uma boneca falante, seria bem vinda. Propôs-se
perguntar a Leneu quando haveria outra reunião com os seus amigos. Desejava, principalmente,
falar de novo com Deodéa. Ela lhe havia parecido sincera. Voltou seu pensamento para a vida
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passada, a família, as velhas amizades, tudo o que ficara para trás. O mais triste era saber que
nunca, nunca mais, os veria. Não havia mal em enviar uma mensagem, ainda que fosse ilusória.
*
Apenas havia conciliado o sono, quando Alberto foi despertado pelos visitantes noturnos. Um
com cinto branco, outro com vermelho. Desta vez, foram ainda mais solícitos.
-Zefir lhe pede o obséquio de que nos acompanhe.
Alberto levantou preguiçosamente.
-Está bem, vamos lá.
Uma mulher dirigia o veículo, cumprimentou simpaticamente e fez o mesmo trajeto para o
local do laboratório subterrâneo. Alberto foi conduzido à sala em que Zefir o aguardava e
encaminhado a uma poltrona. Observou o rosto do anfitrião, tentando ver a máscara que devia
cobrir as suas feições, sem conseguir identificá-la. Com um sorriso, comentou:
-Gostaria saber qual é a sua verdadeira fisionomia.
-Um excesso de medidas de segurança, para mim e para você, não faz mal. Agradeço a boa
vontade que tem tido conosco.
-Creio que seja mais curiosidade do que boa vontade.
-A curiosidade é o que nos move a todos. Soubemos que sofreu um atentado.
-As notícias correm depressa. Não houve comunicação do acontecimento e, por enquanto,
consta ter sido um acidente.
-Temos nosso próprio sistema de informações e acreditamos que foi um atentado.
-Quiseram matar-me?
-Provavelmente, apenas assustá-lo para que não faça mais declarações. Desejaram adverti-lo
sobre o perigo de continuar difundindo as mesmas opiniões.
-Embora não tenha grande motivação para permanecer vivo, também, não tenho estímulo para
gestos heróicos. Assim, será melhor que eu fique quieto.
-Seria uma pena. Embora o conteúdo das suas declarações tenha, para nós, pouca importância,
você foi tornado um ícone para todos os que desejam provocar uma discussão sobre o
comportamento do nosso governo. Ademais, não acreditamos que algum grupo clandestino, mesmo
o Defensor, arriscaria assumir a culpa de ter eliminado a fonte potencial de informações sobre o
passado que você representa. Quem assim fizesse correria o risco de ser execrado. Nós, inclusive,
decidimos protegê-lo contra novos atentados.
-Vocês têm condições de assegurar isso?
-Nada é totalmente seguro, mas, temos nossos recursos. De outra forma, já estaríamos
descobertos. O governo, primeiro, restringiu e, depois, proibiu as nossas atividades. Então,
aproximamo-nos de grupos clandestinos. Esses grupos têm diferentes objetivos, mas, alguns
colaboram entre si para benefícios mútuos.
-Acredita que o atentado partiu do governo?
-O governo, oficialmente, rejeita veementemente métodos ilegais. Todavia, entre os seus
partidários predominam idéias que não correspondem ao sentido das suas declarações e todos são
contrários a mudanças para uma vida mais natural. Isso, para os governistas, significa opor
resistência às atividades virtuais e à imutabilidade do sistema atual que eles controlam. Existe um
grupo clandestino criminoso muito forte. Embora o governo apenas se omita, não creio que a
segurança pública se esforce para combater os radicais que tramaram contra você.
-Você é contra as atividades virtuais?
-Para mim, essa questão não é importante. Não me preocupo com aqueles que querem viver
alienados, mas, com os que desejam coisas melhores e são impedidos. O meu interesse está em
fazer novas descobertas na área da telepatia. Você tem características muito favoráveis para
mensagens telepáticas e, talvez, para enviá-las a pessoas no passado.
-A sua experimentação pode ter pouca base científica, ainda assim, não me parece justificado
proibi-la.
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-A alegação de falta de base científica para as nossas pesquisas não se sustenta. Não temos
confirmação definitiva, porém, os resultados justificam a continuidade dos experimentos. Os
processos já foram testados suficientemente para nos assegurar que não oferecem riscos. A
contrariedade a eles foi precipitada pela forma como os estudos sobre estimuladores de telepatia
foram divulgados. Juntamente com a sua divulgação, houve críticas ao controle dos meios
eletrônicos de comunicação. As coisas acabaram associadas politicamente. Quanto menos
convicção as pessoas têm sobre a legitimidade da sua posição, mais ficam sensíveis e agressivas.
-Eu me faço um questionamento: O que nos vai pela nossa mente é o último reduto da
privacidade. A indução da telepatia não poderia ter um efeito contrário ao desejável, favorecendo
que se vasculhe o cérebro das pessoas?
-É uma boa pergunta. Isso também foi argumentado contra nossas pesquisas. Gostaria que essa
discussão fosse pública. Nunca tivemos indicação de que os pensamentos possam ser transmitidos
contra o desejo do emitente. Existem técnicas para investigar a memória, as quais são permitidas ao
serviço de segurança em situações extremas. A pesquisa sobre essas técnicas não está totalmente
proibida, demonstrando que não os move preocupação com a privacidade.
-O que já se conhece sobre a natureza íntima da mente das pessoas?
-Ainda pouco. Existem apenas hipóteses. Eu gosto da teoria que compara a geração da
consciência pelo cérebro com a geração de um filho. O filho se forma com uma parte do corpo e
outra estranha. Embora permaneça por algum tempo dele dependente, já não é mais o mesmo
corpo. A diferença é que, no caso, o produto gerado é imaterial e, portanto, não submetido às leis
físicas. A consciência continua dependente do cérebro para o mundo material, porém, em
condições especiais pode se desprender e se comunicar com outras.
-Teoria interessante. Quando o corpo morre o que acontece?
-Essa é uma grande questão. Prefiro deixá-la para outros.
-Quanto a viajar ao passado, o que sustenta essa idéia?
-As explicações se fazem a partir de teorias sobre o tempo. É melhor ir aos poucos porque é
complicado. O meu trabalho é, sobretudo, pragmático. Na próxima vez que vier aqui, poderemos
conversar sobre isso.
-Posso saber qual é a função dos instrumentos aos quais fui submetido?
-Acreditamos que produzem uma espécie de irradiação sensibilizante da parte do cérebro
relacionada com a emoção e o pânico. A descoberta da capacidade de favorecer os fenômenos
telepáticos foi um achado ocasional. Não temos nenhuma idéia sobre o seu mecanismo de ação,
mas, comprovamos que é seguro.
-Eu tive uma sensação de pânico, porém, logo passou e me senti relaxado.
-Você recebeu medicação ansiolítica para aliviar o pânico.
-Não entendo a lógica de provocar pânico e medicar contrariamente. Entretanto, deixo os
esclarecimentos para outra vez. Se pretendesse só aceitar o que tivesse explicações inteligíveis, não
estaria aqui.
-É simples. O mal estar provocado pelo pânico é um fenômeno colateral, desnecessário ao
nosso propósito. Por favor, acompanhe-me. Iremos a um laboratório mais completo, onde se obtém
melhores resultados. Para sua própria tranqüilidade, na hipótese de ser interrogado pela segurança
pública, nada verá no caminho.
Embarcaram em outro veículo. Alberto foi instalado em um compartimento vedado na parte de
trás. A cabeça foi coberta com um capuz impedindo-o de ver e ouvir o ambiente. Depois de
viajarem pouco tempo, caminhou conduzido pelo braço, até o capuz ser retirado numa ampla sala
contendo grande número de aparelhos.
-Aqui os recursos são maiores.
-O que eu devo fazer?
-Lembre sinteticamente acontecimentos que foram capazes de emocioná-lo. A comunicação
telepática conterá detalhes subconscientes associados que nem você mesmo terá presente em sua
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mente no momento. Evite números, datas e descrições técnicas que se transmitem mal e causam
confusão. Ao mesmo tempo, direcione mentalmente para quem você tenha profunda ligação, como
se desejasse informar sobre esses acontecimentos. Deve pensar na pessoa com a idade que ela tinha
quando a viu pela última vez.
-Tudo o que aconteceu até aqui me impressionou extraordinariamente.
-Ótimo. Com qual pessoa desejaria se comunicar.
-Creio que com a minha esposa e com o meu filho de oito anos.
-Embora os relatos de crianças possam receber menos credibilidade, elas têm mais
sensibilidade e menos censura interna para as suas visões.
-Irei me concentrar no que tenho visto desde quando acordei nesse novo tempo. Se a chance de
transmissão é maior para crianças, pensarei no meu filho.
Alberto foi deitado sobre uma mesa e fechado sob uma cápsula transparente com dispositivos
na parte correspondente à cabeça. Em seguida, foi-lhe solicitado que se concentrasse, conforme
fora instruído. Teve a mesma sensação de quando foi feito o primeiro teste de telepatia. Terminado
o procedimento, ajudaram-no a levantar. Zefir se aproximou:
-Como está?
-Ainda um pouco tonto.
-Isso logo passa. Vamos voltar.
Fizeram o trajeto de volta até a sala anterior. Zefir pediu que descansasse um pouco e voltou às
explanações.
-Nas experiências em que temos obtido algum sucesso, a comunicação se fez para um passado
próximo. Há testemunhos de que as imagens transmitidas se parecem com sonhos. Em geral, é
necessário repetir várias sessões para firmar um padrão.
-Como vamos saber se a minha mensagem foi recebida? O meu filho poderia enviar uma
resposta telepática?
-Infelizmente, cremos que não seja possível. Já fizemos tentativas de obter um retorno
telepático para o emissor, porém, até agora não obtivemos sucesso.
-Se não há a possibilidade de se obter confirmação do recebimento, as experiências não servem
para nada.
-Podemos procurar textos da sua época. Recentemente, novas técnicas permitem reconstituir
muitos escritos deteriorados. Encontrando-se em algum arquivo menção ao recebimento das
imagens que você enviou, pode haver confirmação. É uma oportunidade ímpar. Sua forte ligação
com pessoas de um passado remoto e o elevado grau de capacidade telepática que possui não
podem ser negligenciados. Vale a pena repetir as transmissões para o seu filho e continuar
procurando uma menção disso em documentos antigos.
-Sinto-me cansado e pouco perceptivo. Gostaria de descansar. Podemos voltar a conversar
outro dia.
-Entraremos em contato. Uma última informação: É possível que os adversários recebam
alguma indicação de que temos interesse em sua pessoa. Não se consegue manter a rede sempre
sem nenhum vazamento. Não terão certeza, mas, poderão dar pistas à segurança pública e ela
desejará averiguar. Não tenha preocupação. Na sua condição de tutelado não poderá ser inquirido
oficialmente e nada lhe poderá ser imputado, nem no futuro, por ter negado informações. Evitará
maiores incômodos para si e para os seus amigos. Outra questão se refere aos seus desafetos.
Talvez, não se dêem por satisfeitos e voltem a atacar. Estaremos vigilantes e atuaremos para
desbaratar esses radicais que o perseguem.
Transportado de volta para casa, Alberto deitou e ficou imaginando o que Zefir lhe iria falar
sobre o significado do tempo. As idéias dele despertavam curiosidade. Depois, novamente seu
pensamento se voltou para a família. Sem as recordações que ficaram do passado não teria história
e a sua vida estaria vazia. Não iria rejeitar a oportunidade de se comunicar, ainda que fosse remota.
Acalentava essa idéia como uma fantasia a cujo encantamento não se podia furtar.
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*
Alberto levantou quando Leneu já estava na sala.
-Esta noite perdi o sono e acordei mais tarde.
-Se quiser alguma coisa para facilitar o sono, é só solicitar.
-Não há motivo para isso. Aproveitei para refletir.
-Isso é bom. Apesar de que, às vezes, é melhor apenas deixar acontecer. Posso lhe pedir que
receba um oficial da segurança pública?
-Por que não? Com qual propósito?
-Ele deseja conversar. Não deve ser sobre o acidente com o equipamento de realidade virtual
porque ninguém denunciou. Caso não queira, você não é obrigado a atendê-lo. Há quem, como
Solina, prefira não encontrá-lo. Pediu-me para avisá-la, pois, só viria aqui se ele não comparecesse.
-Eu posso atendê-lo, desde que não seja obrigado a responder tudo que ele perguntar.
-Você não é obrigado a responder nada que não queira.
Feito o contato, pouco depois apareceu um homem com semblante fechado. Apresentou-se
formalmente como o oficial Cliolan da segurança pública.
-A sua condição de tutelado nos faz responsáveis pela sua segurança. Sabemos que há pessoas
agindo fora da lei que têm interesse em incluí-lo em suas experiências clandestinas. Desejamos
preveni-lo.
-Serão tomadas providências contra isso?
-Procuramos coibir, mas não é fácil. O grupo em referência conta com cientistas importantes e
recebe cobertura de pessoas influentes. Nós da segurança pública, não faríamos maiores objeções
às pesquisas deles. Elas, por si, não representam um perigo imediato. Contudo, para continuar com
o exercício de atividades proibidas pelo Conselho, criou-se uma ligação entre cientistas
inconformados e pessoas perigosas. Trata-se de uma rede clandestina poderosa que se opõe ao
estado democrático atual. Solicitamos a sua colaboração.
-Como eu poderia ajudá-los?
-Em primeiro lugar, autorizando-nos a não repassar oficialmente para os responsáveis pela sua
readaptação a informação de que temos conhecimento sobre essas intenções do grupo clandestino.
Legalmente, seríamos obrigados a fazer a comunicação, porém, a seu pedido podemos evitá-la. Os
tutores são pessoas honestas, mas, algumas excessivamente liberais, não gostam de guardar
segredos. Em Leneu podemos confiar, inclusive, porque obtivemos uma autorização judicial para
que colabore conosco. Em segundo, comunicando-nos qualquer contato que venha a ter com
alguém desse grupo. O que me responde?
-Quanto à autorização para vocês não informarem, embora não tenha captado bem o sentido da
dificuldade, eu estou de acordo. Quanto a denunciar, não tenho o perfil de espião e me reservo o
direito de guardar o que me seja dito em confiança, a menos que, no meu julgamento, esteja
convencido da periculosidade.
-É seu direito. Assim sendo, solicito que não conte a ninguém sobre a nossa conversa.
Voltaremos a fazer contato.
-Está bem. Pode contar com a minha discrição.
O oficial se despediu pomposamente e saiu. Alberto comentou:
-Creio que não ficou muito satisfeito.
-Por que não? Em primeiro lugar, deu seu recado, obtendo autorização para não informar ao
grupo tutor. Eu já estou comprometido a nada relatar ao grupo por ordem judicial. Em segundo,
recomendou-lhe cautela com relação a um eventual contato com alguém do grupo clandestino,
deixando uma mensagem de que estão vigilantes.
-Desejou me assustar? Mensagem para quem, se pediu sigilo?
-Este pessoal da segurança pública não perde viagem. O compromisso de sigilo pode ser apenas
um teste. Não acredito que confie em alguém, nem mesmo em mim.
-Há quanto tempo conhece o oficial Cliolan?
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-Não o conhecia. Ele me procurou pedindo autorização para lhe falar. Eu lhe disse que,
oficialmente, teria que consultar o grupo tutor. Então, obteve a ordem judicial e me alertou de que,
se você autorizasse explicitamente, poderia ser evitada a consulta. Acabei concluindo que seria
melhor atender. É bom não implicar com esse pessoal da segurança pública. Acha que fiz mal?
-Eu quero ter contatos com quantas pessoas puder, tanto da segurança pública quanto outros.
Ele disse que não estão preocupados com as pesquisas em que um grupo clandestino pretende me
incluir. Você pensa que esse grupo tenha algo a ver com o acidente que sofri?
-Não creio nisso, antes eu desconfiaria de outros.
Essa observação fez Alberto deduzir que nem tudo a respeito da sua pessoa lhe era revelado por
Leneu. Julgou que obteria mais confiança sendo, também, confidente e decidiu revelar algo sobre
os seus encontros.
-Se eu lhe pedisse que mantivesse um segredo, isso seria possível? Não o comprometeria
perante o seu grupo, ou, com a segurança pública?
-Meu compromisso de lealdade pessoal para consigo é institucional e se sobrepõe ao que eu
tenho para com as pessoas que me indicaram. Se você pedir, será minha obrigação atendê-lo,
exceto em caso de vê-lo se expor a um perigo iminente.
-Acho certo informá-lo, mas, não gostaria que comentasse com alguém. Eu já fui procurado por
alguém desse grupo clandestino.
-Sim? Com qual propósito?
-Eles pretendem que eu envie mensagens por via telepática para a minha família no passado.
Não acredito que seja possível, mas, vem ao encontro de um desejo muito forte e, aparentemente,
eu nada teria a perder.
-Assisti a uma conferência sobre o assunto, antes que as pesquisas fossem proibidas. As
restrições se referem à utilização de estimuladores cerebrais para a telepatia. Eles foram
considerados potencialmente perigosos.
-Foi-me dito que já se fizeram inúmeros testes sem nenhum efeito negativo. É uma questão
polêmica, mas, penso que não se deveria proibir qualquer pesquisa realizada com as devidas
cautelas. Não será possível que haja interesse político na proibição?
-Os interesses políticos estão sempre presentes em qualquer decisão do Conselho. No caso, não
saberia dizer em qual grau.
-Na prática, como funciona a política atual?
-A maioria prefere deixar a política para os políticos. Existem muitas organizações que
defendem determinadas causas. Atualmente, fala-se muito em defesa da natureza. Quanto a essa,
em princípio, ninguém é contra. As posições divergem quanto à substituição das atividades naturais
pelas virtuais. Eu pessoalmente não tenho maior interesse em política. Só quero que me dêem
oportunidade para continuar com o meu trabalho.
-Zefir também disse querer isso, porém, o proibiram.
-Já ouvi falar em Zefir. É o nome de fantasia do chefe de um grupo que se dedica a atividades
científicas clandestinas. Não imaginava que poderiam fazer contato consigo sem serem detectados
pela segurança pública. Devem dispor de recursos muito avançados. Por qual motivo você deseja se
submeter a essas experiências?
-Eu mesmo não sei. Tenho sentimentos de culpa por não ter dado à minha família a atenção que
merecia. É a única janela que me foi acenada com a possibilidade de transmitir alguma informação
que poderia lhes suavizar a falta de informações sobre o meu destino. Creio que sinta isso como
uma espécie de terapia para a minha saudade.
-Você é livre para tomar as suas decisões. Só recomendaria que fosse cauteloso. De qualquer
forma, eu cumprirei a minha promessa de manter segredo.
Leneu não demonstrava vontade de continuar a falar sobre o assunto, o que agradou Alberto.
Pareceu-lhe um dever de lealdade mencionar um contato com Zefir, mas, não seria prudente
comprometê-lo revelando maiores detalhes.
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-Quando poderei encontrar novamente os seus amigos?
-Lembra-se da Deodéa? Ela perguntou se poderia falar consigo.
-Teria muito prazer. Desejo mesmo estabelecer mais relações.
-Então, mais tarde poderemos contatar com ela.
Depois do almoço, voltaram à sala de estar e atenderam a um sinal do advogado Janos.
Apresentou a negociação feita com a empresa fabricante de trajes virtuais. O valor proposto para a
indenização era bem elevado. Alberto explicou:
-A minha preocupação não é tanto com o valor da indenização, mas, com o esclarecimento do
acontecido. Eu lhe pergunto se cabe a seguinte contraproposta: Ficando demonstrado que a culpa
cabe a sabotadores, com identificação e punição de responsáveis que sejam estranhos ao controle
da empresa, contento-me com a metade dessa indenização. Se, pelo contrario, o problema se deu
por falha da empresa, ou a culpa não ficar esclarecida, a indenização será paga em dobro.
-Nada vejo de ilegal, embora, mesmo tendo havido sabotagem, a empresa é responsável por
qualquer prejuízo causado por falha do equipamento até a colocação em sua casa. A menos de que
o dano tenha sido provocado por ação indevida posteriormente à entrega, o que será muito difícil
provar, ela deverá pagar. Todavia, se o seu desejo é esse, vou formular a proposta. Voltaremos a
falar sobre valores.
Desfeito o contato, Leneu concordou que fora uma boa idéia:
-O interesse econômico da empresa em provar que não houve falha na fabricação e saber de
onde veio o crime pode determinar maior empenho na descoberta dos eventuais sabotadores.
Deseja fazer agora a ligação para Deodéa?
*
Havendo concordância de Alberto, foi estabelecido contato. A imagem de Deodéa se fez
presente, sentada ao lado. Ela lhe pareceu mais bonita e alegre do que quando a vira antes.
-Agradeço por aceitar conversar comigo. Deve estar sendo assediado com perguntas de muitas
pessoas. Lamento sobre o seu acidente, ou atentado.
-Não recebi essas perguntas. Os tutores devem estar me protegendo. Entretanto, eu tenho muito
prazer em conversar consigo.
-Então, eu devo agradecer a Leneu por esta oportunidade. Desculpe-me se prefere não falar
sobre isso, mas, gostaria de saber como está depois do acidente? Estão investigando?
-Foi apenas um susto. Já contratamos uma agência para investigar.
-Com certeza, é necessário. Não se pode aceitar que haja problemas com equipamentos e,
menos ainda, provocados deliberadamente. Estamos atentos, também, à investigação sobre o caso
do Arlon. Antes do incidente, seu passeio estava bom?
-Foi emocionante. A visão é fantástica. Agora, estou me perguntando: Qual é a diferença entre
uma experiência inteiramente virtual e a utilização do corpo de um boneco?
-A sensibilidade é praticamente a mesma, porém, na virtual as escolhas se fazem dentro de uma
programação. Assumindo um corpo, há interação com outras pessoas e coisas reais. Existe a
possibilidade de encontros imprevistos. As marcas dos seus passos ficaram realmente estampadas
no solo da lua. - Interveio Leneu.
-Marcas do boneco, você quer dizer.
-Comandado pela sua cabeça, como se fosse seu próprio corpo.
-Não estou me queixando da experiência. Até o momento do incidente, foi excelente. Desde
então, mesmo após a troca dos equipamentos, estou com receio de novas aventuras em realidade
virtual.
-Não creio que um novo atentado possa se repetir do mesmo modo.
Deodéa pediu licença para intervir.
-Há outro assunto sobre o qual eu tinha vontade de falar consigo. Tenho grande interesse sobre
história, assim como sobre o convívio com a natureza. Você talvez possa me fornecer alguns
subsídios.
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-No que for possível, gostaria de colaborar. O difícil é estabelecer comparações. Confesso que
ainda estou confuso com este novo mundo.
-Acredito. Estamos admirados com a sua adaptação. Antes, nós o imaginávamos uma pessoa
bastante rude. Você parece até mais bem articulado do que muitos nascidos neste tempo. Eu
gostaria que me relatasse brevemente, sem juízo de valor, quais são as diferenças que mais o
impressionaram.
-Para mim, tudo é estranho, sobretudo o grau de virtualidade das coisas. Quanto às pessoas,
parece-me que as motivações básicas mudaram pouco. Talvez haja maior frieza nas relações
interpessoais, mas, considerando a minha condição, essa é uma opinião pouco válida. A
convivência com quem tenho tido contato pessoal tem sido fácil. Todos parecem ter cuidado para
não me causar embaraços.
-Existe, para muitos, o conceito de que o excesso de atividade virtual, com afastamento da
natureza, distancia as pessoas entre si e isso está na raiz de uma queixa muito comum de vazio
existencial. Estou justamente fazendo um estudo sobre essas relações e esses sentimentos.
A conversa se estendeu no mesmo tom por algum tempo. Versou, também, sobre as relações
entre pais e filhos e o seu significado para a vida posterior das pessoas. Deodéa fez relatos sobre
alguns acontecimentos e os seus próprios sentimentos, causando a impressão de que tinha interesse
em estreitar o relacionamento para além de um simples contato acadêmico. Alberto lhe disse que só
com o tempo teria condições para apreciar melhor as relações humanas na atualidade. Despediramse, combinando ter novo contato.
-As preocupações de Deodéa me parecem justificadas. - Alberto comentou.
-Ela é uma amiga excepcional. Não é comum as pessoas falarem com quem não sejam íntimas
sobre a sua vida interior. Ainda mais, considerando ela pertencer a uma família muito conhecida.
Embora não estejam no governo, ainda tem grande influência política. Ela deve ter um interesse
especial em você.
-De fato? É curioso como hoje eu a achei mais bonita. Será uma carência minha? Que idade ela
tem?
Leneu sorriu, com divertida malícia.
-É jovem, não mais do que quarenta e cinco anos.
-Parece bem mais jovem do que eu que tenho trinta e dois.
-Você se esqueceu de que é bem mais velho.
A observação pegou Alberto desprevenido. Provocou-lhe um choque e o fez rir às gargalhadas:
-Sim, se contar o tempo que passei dormindo.
-A propósito, amanhã deve ficar pronta a sua boneca-companhia. Poderá aliviar a sua carência.
Agora, se não deseja mais nada de mim, está na hora de eu ir.
Ficando sozinho, ao refazer mentalmente o seu dia, Alberto deteve-se em tentar entender o
sentido oculto que poderia haver na conversa de Deodéa. Muito do que ela dizia parecia
enigmático. Só chegou à certeza de que falar com ela fora agradável e que gostaria de encontrá-la
novamente.
12 - QUASE NATURAL
Pela manhã, Alberto fazia ginástica na área de esportes, porém, sem se arriscar a usar o
equipamento virtual que havia sido substituído, quando Leneu apareceu.
-Vejo que acordou mais cedo.
-Esta noite dormi bastante. Você sempre dorme bem? – Perguntou Alberto.
-Quando isso não acontece tomo algo para ajudar.
-Há muito tempo, também já fiz isso. Agora, se não tenho sono, aproveito para meditar.
-Pode ser bem proveitoso, quando houver oportunidade, vou tentar fazer o mesmo.
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Solina também chegou cedo, logo perguntando sobre como havia sido a relação com o agente
de segurança Cliolan.
-Ele veio oferecer os seus préstimos.
-Eu o conheço. Ele faz de tudo para aparecer. Tive um desentendimento com ele e, se o
encontrasse, poderia haver novo atrito. Soube que você sofreu um acidente com o equipamento de
realidade virtual. É muito azar. Isso nunca acontece.
-A empresa me propôs uma boa indenização, desde que eu não denuncie o fato à segurança
pública e nem à imprensa.
-Penso que deva aceitar. Na segurança pública tem gente boa, porém, a maioria não resolve
nada. Se quiser mesmo denunciar, eu posso ajudá-lo. Conheço algum pessoal de lá.
Enquanto conversavam sobre o acordo para indenização, houve sinal de um pedido da Prius
para contato. Solina se apressou a perguntar:
-Deseja falar com eles agora?
-Certamente, estou aguardando.
Assim foi feito e a imagem do boneco-companhia apresentador da Prius vestindo o seu singular
traje de gala comunicou que a boneca-companhia encomendada estava pronta. Perguntou se
poderia fazer a entrega imediatamente. Obtendo confirmação, agradeceu e se despediu. Pouco
depois, o mesmo boneco apresentador desembarcou do módulo de transporte exclusivo da Prius e
apresentou a boneca-companhia encomendada com a tradicional tanga e cinto vermelho.
Correspondia a uma mulher exatamente tal qual Alberto havia imaginado. Sem advertência, nunca
pensaria que não era humana, exceto pela perfeição. Ela sorriu para Alberto e disse ter muito prazer
em conhecê-lo pessoalmente. Cumprimentou Leneu, dizendo saber se tratar de um amigo.
Enquanto Alberto apenas admirava fascinado, Leneu cumprimentou-a e indicou Solina como outra
amiga, a qual logo tomou a palavra.
-Alberto estava descontente com o nosso mundo e precisando de alguém para lhe fazer
companhia, principalmente à noite. Vejo que você foi escolhida com esmero.
-Agradeço suas palavras, farei tudo que puder para agradá-lo.
O apresentador interveio dizendo que estariam prontos para atender a qualquer pedido ou
reclamação, despediu-se e seguiu de volta. Alberto ficou confuso, demonstrando desconforto e sem
saber como se comportar.
-Confesso estar desorientado, sem saber como agir. Sente-se, vamos conversar.
Sentaram-se os quatro.
-É a primeira experiência do meu amigo Alberto com uma boneca-companhia. Seria
conveniente que falasse um pouco sobre si. Creio que ele gostaria que você mesma dissesse o que é
e como deve ser tratada. – Disse Leneu, para início de conversação.
-Estou agradecida pela consideração. O que posso dizer sobre mim é que sou produto de um
contínuo esforço dos especialistas da Prius para o aperfeiçoamento da estrutura do corpo, do
desempenho, da inteligência e do temperamento dos bonecos-companhia. Fui programada para
satisfazer em tudo os desejos de Alberto. Meus fabricantes me repassaram informações sobre a sua
história. Tiveram o máximo empenho em atender às preferências, conforme as suas especificações.
Recebi uma memória copiada de pessoas naturais de modo a falar como se tivesse uma infância e
adolescência tranqüila, com pais normais. Isso me permitirá dar respostas sobre essas fases da vida,
como se fossem as minhas. Embora eu tenha pleno conhecimento sobre a minha origem e
condição, fui instruída a agir como se fosse natural, só mencionando a condição de bonecacompanhia quando diretamente solicitada, tal como entendo que me tenha sido perguntado agora.
Alberto poderá me tratar do modo que preferir e como lhe for mais prazeroso, dizendo o que deseja
de mim para que eu possa atendê-lo. Se eu errar, basta dizer e eu procurarei corrigir.
Alberto estava incrédulo, com a sensação de que estava sendo alvo de alguma brincadeira. Era
difícil acreditar que não se tratasse de uma pessoa humana natural. Apesar de que fora fabricada a
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pedido, não teria sido possível prever inteiramente o resultado. Ademais, conforme haviam
escolhido, ela demonstrava bom humor, sorria e tinha gestos de discreta sensualidade.
-Qual é o seu nome? - Ainda inseguro, Alberto perguntou.
-Colocaram provisoriamente o nome de Mari, mas, poderei adotar outro, se preferir.
-Você gosta do nome Mari?
-Não faço nenhuma objeção.
-Então ficaremos com Mari mesmo. Parabéns, o produto ficou melhor do que a encomenda.
Solina interveio, colocando-se como promotora do produto. Fez várias perguntas com a visível
intenção de demonstrar que Mari era portadora de razoáveis conhecimentos. Depois, pediu para ela
fazer ginástica, cantar e dançar. A boneca-companhia, olhando para Alberto como se desejasse
confirmar a sua concordância, atendeu com graça, sempre sorrindo. Solina elogiou sua agilidade,
versatilidade e sensualidade. Por fim, disse para Mari que ela tinha a tarefa de fazer Alberto
apreciar as vantagens que o mundo atual oferecia. Considerou concluído o seu trabalho com êxito,
ficando à disposição para qualquer outra necessidade. Em seguida, retirou-se com uma expressão
de triunfo.
-Isso merece um brinde e uma boa refeição. Comemorou Leneu.
Não esclareceu se o brinde era pela chegada de Mari ou pela despedida de Solina. Dirigiram-se
à área de refeições. Alberto deu-se conta de não estar informado sobre se os bonecos ingeriam
alimentos.
-Você nos acompanha? - Perguntou Alberto, encabulado.
-Se desejarem, com muito prazer. – Respondeu Mari.
-Eu vou pedir um filé com molho de tomate, arroz, salada verde e, para beber, vinho tinto. –
Falou Leneu.
-Eu acompanho.
-Pode ser o mesmo para mim. – Disse Mari.
-Almoçaram e brindaram com alegria. A conversa versou sobre comidas e temperos. Mari se
alimentou e conversou como se tivesse lembrança de outras comemorações. Após a sobremesa e
café, Leneu levantou:
-Hoje vou sair mais cedo. Vocês ficarão mais à vontade para se conhecerem.
Despediu-se e saiu, com um gesto de cumplicidade.
Alberto e Mari se dirigiram para a sala de estar. Conversaram sobre passeios e viagens,
conforme a vontade demonstrada por Alberto. Após algum tempo, Mari tomou a iniciativa de
manter a conversação e perguntou a Alberto se ele desejava namorar.
-Gostaria, mas, não sei como se namora atualmente.
-Como quiser. Pode ser da forma antiga. Gosta de dançar?
Houve concordância e ela solicitou ritmos românticos antigos. Orquestras, parecendo estar
dentro da sala, os interpretaram com suavidade. Sempre com iniciativas de Mari, dançaram
lentamente, interrompendo apenas para um cálice de licor. Ela se mostrava sensível, apresentando
todas as reações de uma mulher real. Alberto esqueceu completamente se tratar apenas de uma
boneca-companhia e, ainda conduzido por iniciativas dela, terminaram indo para o quarto com um
ótimo desempenho.
*
Pela manhã, Alberto fazia seu lanche, agora acompanhado por Mari, quando Leneu chegou e
perguntou como ele havia se dado com a nova companhia.
-Melhor do que poderia imaginar. -Alberto respondeu, sorrindo e evitando demonstrar
excessivo entusiasmo.
-Meus parabéns. Creio que, de agora em diante, as minhas visitas poderão ser mais curtas,
embora continue disponível a qualquer hora.
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Alberto pensou perceber uma ponta de ciúme em seu companheiro. Ele era humano, afinal,
mais do que lhe havia parecido no início. Ou, seria imaginação sua, com base em experiências do
seu antigo mundo?
-Não tenho como contestar as suas decisões, entretanto, a sua companhia sempre foi e
continuará sendo um prazer. Por mim, nada precisaria mudar e, se não causar inconveniência,
gostaria de comparecer a outras reuniões com os seus amigos.
-As decisões com respeito ao tempo do meu comparecimento são tomadas pelo grupo tutor.
Quanto às reuniões com amigos, quando forem realizadas, tenho a certeza de que todos terão
satisfação em contar com a sua presença. Eu o manterei informado.
-Existem grandes reuniões, com a presença de muitas pessoas?
-As reuniões virtuais, às vezes, realizam grandes concentrações de participantes.
-Eventos com muita gente natural reunida só ocorrem em competições esportivas?
-Existem comemorações, festas e homenagens nas quais comparece muita gente. Deodéa, por
exemplo, tem uma casa bem grande onde são realizadas festas promovidas por ela mesma, ou, por
aluguel do espaço. Muitas pessoas comparecem pessoalmente em exposições de arte e musicais e
outras apresentações. Há os encontros e acampamentos do Movimento Naturista onde se
promovem apresentações de músicos, poetas e palestrantes.
-Quem participa do Movimento Naturista?
-Pessoas de todos os tipos. Há confraternização de jovens, adultos e crianças. Além das
apresentações, organizam-se jogos, trabalhos manuais e brincadeiras em convívio com a natureza.
-Eu faria gosto em presenciar um desses encontros. Você já foi alguma vez?
-Compareci algumas vezes há bastante tempo. Não sou apreciador, mas, sua amiga Deodéa é
promotora de encontros e poderia conduzi-lo.
-Ela ficou de contatar comigo novamente, falarei sobre isso.
-Deodéa costuma dispor de mais tempo à tarde. Se você quiser, depois do almoço será fácil
fazer contato.
-Eu lhe peço que faça isso para mim.
Ademais da parte física, Mari impressionava por ser capaz de conversar sobre vários assuntos.
Ela se mantinha discretamente atenta ao que falavam. Alberto teve curiosidade de ouvir o que ela
podia dizer sobre o que falaram.
-O que você sabe sobre o naturismo?
-O que Leneu contou. Consta que o número total de participantes seja relativamente pequeno.
Há quem deseje proscrevê-los, acusando-os de baderneiros porque em suas reuniões costumam
fazer muito barulho. – Respondeu Mari.
-Está na hora do almoço. Que refeição recomendaria? - Alberto convidou, ainda admirado com
o que ela era capaz de saber.
-Por mim, o que decidirem estará bem. Eu tenho na minha memória milhares de receitas para
pratos deliciosos. Se quiserem utilizar os meus serviços, é só mencionar as preferências. Eu posso
instruir o sintetizador como preparar.
Leneu aceitou ficar para o almoço. Eles discutiram e fizeram algumas escolhas de comidas e
bebidas. Mari foi até a área de refeições para ordenar o preparo.
-Sua companheira é bastante conhecedora de comidas.
-Ainda bem que aquela solução fornecida diariamente como suplemento terapêutico, também,
controla o peso. De outra forma, eu iria engordar.
-O suplemento o fará viver mais tempo.
-Como é possível as pessoas viverem tanto atualmente? Esse é um assunto sobre o qual
gostaria de ter maiores esclarecimentos.
-É conseqüência dos avanços na área de saúde. Se quiser uma explicação científica,
oportunamente lhe porei em contato com alguém que possa informá-lo melhor do que eu.
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Almoçaram tranqüilamente. Os pratos e o vinho estavam deliciosos. Elogiaram as receitas e
voltaram à sala de estar.
-Deseja, mesmo, participar de um encontro naturista? - Leneu insistiu.
-Tenho curiosidade. Deve ser interessante e servir para o meu aprendizado.
-Então, vou contatar com Deodéa.
Pouco tempo depois, a imagem dela apareceu. Leneu lhe falou que Alberto gostaria de ir a um
evento promovido pelo Movimento Naturista.
-Terei prazer em acompanhá-lo. Qual é o seu interesse pelo naturismo?
-Necessito entender melhor os tempos atuais. As atividades virtuais são ótimas, mas, eu tenho
tido pouco contato humano. Se não fosse pela presença do Leneu, eu já teria entrado em depressão.
-Ampliar os contatos entre as pessoas e com a natureza é a parte mais importante do
movimento. Está programada a realização de um encontro para daqui a três dias na cidade de Relin.
É um belo lugar à beira mar.
-Eu poderia comparecer?
-Qualquer um é bem-vindo, desde que se inscreva previamente. No seu caso, eu só vejo um
problema. Já ocorreram tumultos com a presença de celebridades. Conviria que você comparecesse
usando um disfarce.
-Da minha parte, não vejo impedimento. Com uma só entrevista já me tornei celebridade?
-Ocorre que você chegou num momento de valorização do passado. Principalmente entre os
naturistas, tem-se falado muito de recuperação das sabedorias perdidas. Os escritos antigos estão
em alta. Outra questão é que, se os demais promotores souberem da sua presença, irão insistir para
que eu lhe peça para fazer algum pronunciamento público.
-Se eu puder ser útil, não me custaria fazê-lo. Contudo, temeria decepcioná-los, pois, não tenho
muito a dizer. Outro fato é que o meu disfarce ficaria comprometido e eu não gostaria de ser
motivo para nenhum tumulto.
-No caso, você só apareceria sem disfarce no momento de falar. Valeria apenas pela presença.
O único problema é que o Movimento Naturista não tem recursos para remunerá-lo
adequadamente.
-Isso não seria problema. Ocorre-me ter que consultar o agente Melior para saber se eu tenho
com ele algum compromisso de exclusividade. Que eu saiba, não. Mas, não conheço as leis daqui e
preciso confirmar.
-Não deve haver impedimento. Não será uma entrevista. Apenas se faria um pedido para que
dissesse alguma coisa informalmente. Seria bom que falasse de algo relativo à natureza e sobre o
sentimento de vazio que a falta de contatos naturais produz. Quem vai lá está de acordo com isso e
gosta de ouvir uma pessoa famosa reforçar as suas próprias idéias.
-Não tenho experiência em fazer conferências, mas, tratando-se de uma fala despretensiosa,
poderei fazer. O que você me recomendou dizer está de acordo com o meu pensamento e não terei
dificuldade de externá-lo.
-Ótimo, vou fazer os contatos e voltaremos a conversar sobre isso. Soube que está com nova
companhia. Como está se dando?
-Tem sido agradável. Porém, há sempre o fato de não ser natural.
-O movimento naturista não pretende acabar com todas as coisas virtuais, ou, com o progresso
tecnológico em geral. Nós nos opomos ao excesso de virtualidade quando isola totalmente as
pessoas umas das outras e da natureza.
-Creio que estejam com razão. Isso significaria, para o ser humano, renegar sua própria
essência e se tornar, também, um objeto do mundo virtual. Embora a presença de Mari seja
agradável, eu me proponho ter tantos encontros quantos me for possível com pessoas naturais.
-Você demonstra ter ótimas idéias para apresentar no nosso encontro.
Tendo havido acordo, Deodéa prometeu fazer novo contato para combinar os detalhes.
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-Talvez seja uma boa experiência, porém, tenha cuidado com o que irá falar. A maioria é de
jovens e eles são muito críticos. Se, ao contrário, você for tão contundente quanto eles gostariam,
atiçará ainda mais os inimigos ocultos. - Leneu recomendou, quando estava para sair.
-Eu pensei apenas em agradar, mas, assim, você me deixa preocupado.
-Deodéa conhece bem a política e ela o irá ajudar. Agora eu tenho que ir.
Alberto ficou sozinho com sua boneca-companhia.
-Não quis ofendê-la dizendo que desejo ter mais encontros com pessoas naturais. – Disse ele,
mostrando-se contrito.
Mari chegou bem próxima dele, com um sorriso maroto.
-Esteja certo de que nunca ficarei ofendida com o que você diz. Eu concordo inteiramente que
deva procurar pessoas naturais, mas, na falta delas, estou aqui para lhe fazer companhia e, se
possível, fazê-lo esquecer da falta que lhe faz o seu antigo mundo.
Alberto esqueceu, de fato, tudo o mais, até conciliar o sono, inclusive, de que havia combinado
um novo encontro com Zefir.
*
Mais tarde, Alberto foi despertado por integrantes do grupo clandestino. Informaram-no de que
não se preocupasse com relação à sua companheira. Haviam tomado providências para que ela não
acordasse. Era preferível que ela nada visse, para o caso da sua memória ser requisitada pela
segurança. Dele não poderiam exigir informações.
Seguiram até o subterrâneo onde Zefir o aguardava, cumprimentando com simpatia.
-Estamos agradecidos pela sua colaboração. Nossos associados procuram elementos do passado
que possam dar alguma indicação de que a sua mensagem tenha sido recebida. É um trabalho
demorado porque somos poucos e há muita coisa não catalogada.
-A minha expectativa de confirmação é pouca, mesmo assim, desejo continuar.
-Sabemos da dificuldade para aceitar a possibilidade de comunicação com o passado. Foge à
experiência, como uma inversão da seqüência natural de causa e efeito, onde o efeito é sempre
posterior. Entretanto, nem tudo o que temos observado tem a seqüência lógica do que aceitamos
cientificamente. O que posso afirmar é haver indícios que justificam as nossas pesquisas.
-Para mim não é sacrifício. O simples aceno à possibilidade de enviar alguma mensagem vale
por si. Encaro conscientemente como um jogo e me deixo levar por essa fantasia. Desde que,
mesmo assim, sirva às experiências, estamos de acordo. Só tenho a confessar que me sinto
desconfortável em manter segredo para Leneu. Ele é a pessoa que tem me apoiado desde o
momento em que acordei.
-Estimo a sua honestidade. Se você colaborar com empenho, não há necessidade de estar
convencido da efetividade do processo. Quanto ao segredo, embora do ponto de vista legal, como
tutelado, nenhuma responsabilidade lhe pode ser imputada, os seus amigos, embora confiáveis, não
têm essa isenção. Estarão mais protegidos de inquirições desconhecendo detalhes da nossa
atividade. Por que precisam ser informados de algo que não lhes diz respeito? Desde que não nos
manifestemos na mídia e não sejamos comentados em reuniões, causamos pouco interesse às
autoridades. Não acreditam que possamos obter resultados, mas, pode surgir alguma denúncia que
os obrigue atuar.
-Telepatia eu entendo que possa ser uma coisa razoável, o que não dá para entender é como se
possa voltar no tempo. De qualquer modo, não tenho nada a perder.
-Eu sou um pesquisador pragmático. Há os que estudam os fenômenos a partir de uma teoria,
fazendo experimentos para a sua comprovação. É uma linha de pesquisa interessante, todavia, não
é o meu caso. Eu trabalho com base em indícios que apontam a existência de fatos inexplicados.
Procuro reproduzi-los e estudá-los. Aceito provisoriamente qualquer explicação teórica que seja
compatível com o que estou pesquisando. Alguns acreditam em dimensões paralelas. Eu prefiro
outra explicação: O universo se compõe de matéria/energia representada por elementos com
volume e movimento, o que origina o espaço e o tempo. Pelo impulso inicial e reações entre si os
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elementos estão em constantes combinações e mudanças da posição relativa uns aos outros. Cada
momento representa a situação estática desses elementos. Observa-se que o total de matéria/energia
é constante e que dois elementos não podem ocupar a mesma posição no espaço.
Conseqüentemente, um elemento material não poderia voltar no tempo, pois, a quantidade de
matéria/energia ficaria reduziria em um momento e aumentada no outro. Todavia, a consciência
humana, sendo imaterial, tem uma natureza diferente daquela desses elementos. Ela faz conexão
com a matéria através do cérebro que a gerou. Entretanto, não sendo material, não cria
espaço/tempo e não está sujeita às suas leis. Eventualmente, pode se desprender ou sintonizar
diretamente com outras consciências. Assim sendo, a comunicação com consciências no passado
não é impossível. Essa tentativa de explicação é a que mais me satisfaz por enquanto.
-Faz sentido, desde que se admita para a consciência uma existência própria imaterial.
-É coerente com a idéia de que o cérebro material, sob muitos aspectos, atua como um
computador, tal qual o de um boneco-companhia. Armazena percepções em forma de memórias e
desencadeia reações mais ou menos elaboradas, mas, sempre dentro do princípio de causa e efeito.
A capacidade de síntese atemporal e o livre-arbítrio são próprios da consciência, pois, sendo
imaterial, não está submetida ao condicionamento das leis do espaço/tempo e pode se assenhorear
de uma só vez do presente, passado e futuro.
-Essa explanação me parece pouco inteligível. Poderia haver uma viagem da consciência para o
futuro? Isso explicaria as premonições e previsões?
-Desculpe-me se a explicação não parece satisfatória. Teorias não são o meu forte. Quanto à
comunicação telepática com o futuro, na prática, até aqui não temos obtido resultados positivos.
Uma explicação levantada é de que os vínculos emocionais da consciência foram construídos no
passado e não no futuro, onde, portanto, ela não encontraria conexões satisfatórias. Essa seria,
também, uma das explicações para a imprecisão das previsões. Outro grupo de pesquisadores
estuda essas observações.
-Na minha época, falava-se em viagem fora do corpo, experiência de quase morte, reencarnação
e outros fenômenos conhecidos como para-normais. Como estão esses assuntos?
-Eles são estudados, clandestinamente, por outros grupos. É uma pena que coloquem
dificuldades para quem quer pesquisar tais fatos. A demonstração definitiva de manifestações dessa
natureza ajudaria reconhecer que o imaterial existe.
-Quais poderiam ser as conseqüências da comprovação pública desses fenômenos?
-Acredito que as conseqüências advindas do conhecimento de algo verdadeiro, ao final, só
podem ser vantajosas. Seria difícil para criminosos como Mono evitar alguma denúncia.
Enquanto falavam, Alberto foi conduzido ao veículo fechado e, como da outra vez,
transportado a um laboratório maior. Perdeu-se em pensamentos sobre o quanto era dependente da
qualidade das informações a que tinha acesso. Qual seria o grau de manipulação a que as pessoas
estavam submetidas atualmente? O contato com os clandestinos proporcionava idéias alternativas.
Tomando-as com cautela e selecionando os fatos, ainda que pudessem ser incorretas, podiam
agregar elementos para juízos mais amplos. Quando foi colocado sob a cápsula transparente, voltou
à sua situação imediata.
-Preciso ter algum cuidado mental especial?
-Apenas se fixe em seu filho e em acontecimentos marcantes atuais, como se quisesse contar
mentalmente a ele aquilo que tem vivenciado.
Depois da cápsula fechada, Alberto teve as mesmas sensações da vez anterior e cumpriu o que
fora determinado. Quando saiu, queixou-se de tontura. Examinaram-no, concluindo que estava
bem. Ficou combinado repetir a sessão outro dia e, do mesmo modo anterior, ele foi conduzido de
volta para casa.
*
Os argumentos apresentados por Zefir ainda estavam na mente de Alberto e ele desejou atender
à sugestão de fazer contato com Catafeu com respeito à visão do futuro. A imagem da sala em que
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o estudioso atendeu era bastante simples, mas, apesar da hora, o sinal indicava se tratar de uma
comunicação ao vivo.
-Eu sou Catafeu. Recebi a recomendação de um amigo seu para responder às suas indagações.
Procurarei fazê-lo, conforme me for possível.
-Agradeço a sua atenção. Eu gostaria de ouvi-lo sobre profecias.
-O meu trabalho consiste apenas em reunir material sobre o assunto. Desde o início da história
e, também, em seu tempo, homens comuns e governantes têm consultado adivinhos, isto é, pessoas
que têm visões do futuro. Em geral, as previsões se fazem em sonhos, em estado de alteração
psíquica, contato com substâncias psicotrópicas ou auto-estimulação. Você deve conhecer a
história do oráculo de Delfos na antiga Grécia onde a pitonisa fazia suas previsões aspirando
emanações vindas através de uma fenda no solo. Séculos depois, descobriu-se que as emanações
eram de gás etileno natural. Nostradamus costumava ver acontecimentos futuros olhando uma
bacia com água. Tenho procurado analisar os resultados obtidos pelos profetas mais famosos. A
atividade se presta a enganadores. Contudo, a minha conclusão é de que alguns revelam uma
proporção de acertos não explicável por simples perspicácia ou pelo acaso. As premonições
geralmente são confusas quanto ao seu significado, tempo e local de ocorrência, redundado em
pouco proveito para grandes decisões. Podem ser úteis para alguém em particular, entretanto, não
serviram para impedir desastres sociais. A previsão bíblica da batalha do Armagedon teve muita
divulgação, mas, não pôde prevenir as nossas catástrofes. O mesmo quanto às profecias dos Maias.
Há setenta e quatro mil anos antes da sua era nenhuma previsão impediu a quase eliminação da
humanidade pela erupção do vulcão Toba. Muitas outras calamidades, como a submersão da
Atlântida, ocorreram sem permitir às pessoas se prevenir. Ainda assim, há previsões inexplicáveis e
o fenômeno merece ser estudado com maior profundidade. O meu trabalho se volta mais para a
catalogação de previsões pequenas, melhor analisáveis. O mais fácil é atribuir tudo à fantasia. Mais
do que um entendido, o estudo me fez um inconformado com simplesmente negar. Existem teorias
interessantes sobre o tempo e alguns métodos de pesquisa promissores.
-O que existe atualmente de previsão para o nosso futuro.
-Encontrei algumas profecias com pequena abrangência, entretanto, a sua validação depende de
interpretações pessoais. Eu me interesso mais pelas profecias do passado, cujos acertos eu tenho
podido mensurar com análises estatísticas. O meu objetivo é coligir comprovações para a hipótese
da existência de fenômenos premonitórios, inexplicáveis pela dogmática ciência oficial. O que eu
poderia lhe dizer, resumidamente, é isso.
-Deduzo da sua análise que a capacidade de previsão existe, mas, não muda o caminho das
sociedades humanas.
-Podem servir, ocasionalmente, para algumas pessoas em particular, contudo, não serviram, até
agora, para determinar mudanças fundamentais no curso do destino humano. Esse é o entendimento
que eu obtive. Evidentemente, a simples comprovação da existência do fenômeno, mesmo em
pequena escala, tem enormes conseqüências.
-Agradeço a atenção que me dispensou. Vou meditar sobre essas questões.
Desfeita a ligação, Alberto concluiu que a exposição pouco acrescentara, mas, estava de acordo
com a posição de Zefir, negando que comunicações com o passado pudessem resultar em previsões
capazes de interferir nos rumos da história. Cansado, deitou-se ao lado da boneca-companhia ainda
adormecida. Tentou refletir sobre o que havia ouvido, mas, estava com sono e logo adormeceu.
*
Quando Alberto acordou, Mari já havia levantado. Na área de refeições a mesa estava posta
com o lanche habitual e café. Apesar de que esta iniciativa não exigisse de Mari nenhum esforço, a
atenção causou satisfação. Trouxe à lembrança de Alberto os pequenos prazeres da antiga vida, tão
saudosa. Sentou-se e convidou Mari a acompanhá-lo. Ainda se sentia sonolento, enquanto Mari se
mostrava solícita e sorridente.
-Acordou cedo. Quantas horas você dorme por noite? - Alberto perguntou.
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-Atualmente, seis horas, mas posso ser programada para dormir quantas horas você quiser.
-O que fez mais cedo esta manhã?
-Assisti noticiários e o que está em moda. Assim, se você desejar, eu terei condições de relatálos resumidamente.
Alberto continuava espantado com sua boneca-companhia. Não se diferenciava de uma pessoa
de verdade, a não ser pela perfeição e a incansável disposição para agradar. Foram até a sala e
continuaram conversando até o sinal da chegada de Leneu. Ele cumprimentou, avisando que sairia
antes do almoço. Percebeu que Alberto estava recostado na poltrona de forma mais relaxada do que
a habitual.
-Você me parece cansado. Tem feito muitos exercícios? - Comentou Leneu divertidamente,
com alguma malícia.
Como não pretendia falar sobre a sua saída noturna para a sessão de telepatia, Alberto preferiu
manter o mesmo tom de brincadeira.
-É que eu estou fora de forma.
-Alberto é modesto. Pelo que percebi, está em ótima forma. - Mari, graciosamente, interferiu.
Todos riram. Sobretudo Alberto, reconhecendo nela uma percepção do tom da conversa e ironia
inesperada. Concluiu que na Prius haviam interpretado corretamente a indicação para que o seu
temperamento incluísse uma boa dose de iniciativa e de humor. Contudo, preferiu tratar de assunto
menos frívolo.
-Obtiveram alguma notícia sobre a investigação do incidente que ocorreu comigo?
-Continuamos esperando as conclusões do serviço contratado. Quanto ao que ocorreu com
Arlon, se há algum progresso, nada foi revelado. Parece haver uma força criminosa oculta
embargando as investigações da segurança.
-O Melior ficou de contatar para outra entrevista. Entretanto, não voltou a se manifestar.
-Melior sabe como promover um show. A sua entrevista anterior é recente. Por certo, ele deseja
dar um tempo e pesquisar a previsão de audiência. Só então irá firmar novo contrato. Antes disso,
voltará a provocar notícias sobre a sua pessoa reativando o interesse. Quando todos estiverem bem
motivados, anunciará a nova entrevista podendo contar com grande público. Esteja tranqüilo, ele e
você ficarão ainda mais ricos.
-Preciso de algumas aulas sobre finanças na atualidade para poder interpretar corretamente qual
é a minha situação.
-Se fosse meu ramo, eu gostaria de ser seu agente financeiro.
-Estou admirado sobre como uma simples entrevista seja tão rendosa. Quem controla isso? É
difícil obter licença para a exploração de um canal na mídia?
-No caso, a soma de grande quantidade de pequenos valores formou um bolo apreciável. Os
meios de comunicação estão disponíveis para todos. A propósito, foi aberto um canal de
comunicação com o seu nome. As perguntas selecionadas, consideradas de interesse científico, são
respondidas. Naturalmente, é informado que a responsabilidade por essas respostas não é sua, mas,
do seu grupo tutor. Desde que se sinta disposto, pode deixar mensagens pessoais. Quando não for
mais tutelado, se desejar, a alimentação desse canal ficará sob sua inteira responsabilidade.
-Como faço para colocar uma mensagem?
-Basta pedir para o computador fazê-lo. Ele o reconhece e insere a matéria no seu canal. Pode,
também, indexar o assunto da forma que quiser. O grupo tutor apenas irá verificar se não é algo
que, por desconhecimento seu, possa prejudicá-lo. Certamente, a mensagem provocará interesse.
-Estou curioso e depois irei verificar. Há muita gente acessando o meu canal de comunicação?
-Sim, mesmo sem ter havido divulgação. Procuram pelo seu nome ou outra indicação. Apesar
de saberem que as respostas vêm do grupo tutor, são feitas muitas perguntas.
-Você também tem um canal de comunicação?
-Praticamente todos possuem o seu para trocar idéias com os amigos e fazer manifestações. O
difícil é conseguir interessados em acessá-los. Os chamados grandes canais precisam ter, para
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manter sua audiência, uma programação constantemente atraente. Isso implica em ter uma estrutura
para notícias, espetáculos, entrevistas e outras programações chamativas. Há os canais oficiais
educativos e os que noticiam as realizações do governo. Há os de empresas e de outras entidades,
sejam comerciais ou filantrópicas. Há os canais dos partidos, assim como os de cada Conselheiro
ou pretendente político. Há canais de buscas e os indicadores que apenas anunciam a programação
dos outros e dão a sua cotação. A maioria da programação é gratuita, mas, desde que seja
anunciado, pode haver cobrança automática pela audiência. Quem permanece assistindo tem
descontado da sua conta o valor correspondente ao tempo de permanência. O problema, nesse caso,
é fazer com que as pessoas acessem o canal e se mantenham ligadas. Há os que gozam da
preferência e poucas pessoas se dão ao trabalho de verificar o que há em outros. Os agentes pagam
a eles pela promoção dos programas que organizam, mas, para obter sucesso, precisam ter notícias
ou artistas que despertem interesse.
-A cobrança automática implica em haver controle sobre tudo o que cada um está vendo?
-O controle é feito automaticamente, por computador. A legislação é severa, assegurando
privacidade.
-Há alguma censura sobre o que é apresentado?
-Em tese, nenhuma. Se alguém se sentir ofendido poderá processar o responsável, obtendo
pronta reparação. O juiz também poderá determinar, preliminarmente, que uma manifestação não
seja divulgada, ou não seja repetida, se houver fortes indícios de que é falsa ou caluniosa. A
decisão só será definitiva após o julgamento. Algumas proposições foram decididas pelo Conselho
como sendo enganadoras e estão previamente proibidas.
-Parece bem democrático.
-Alguns contestam que, na prática, as coisas não se passam tão perfeitamente como na teoria,
principalmente com relação às decisões do Conselho.
-Sempre foi assim. As estruturas dependem de pessoas e elas dão prioridade aos seus próprios
interesses. A natureza humana não é perfeita.
Leneu tinha uma expressão de contrariedade. Aparentemente, a ordem das coisas tratadas o
desagradava. Mudando de assunto, voltou a se mostrar bem disposto:
-Você sente vontade e tem coragem para tentar novas atividades virtuais?
-Qual é a probabilidade de ocorrer outro incidente?
-O novo traje que lhe deram foi exaustivamente testado, na fábrica e aqui. Se ocorrer
novamente um problema, a empresa Omnimundi poderá ser, até, fechada.
Alberto achou que deveria testar em alguma situação de risco e solicitou a Leneu para ser
observado. Na área de esportes, colocou o traje e ordenou para ser colocado na corda bamba de um
circo. Procurou se manter sobre a corda, desequilibrou-se e caiu. Poderia ter ficado bastante
machucado, porém, viu-se fora do mundo virtual, deitado no chão da área de esportes, sem
nenhuma contusão. Retirou o traje e saiu.
-Vejo que quis testar efetivamente o equipamento.
-É melhor testar numa simples queda do que em perigo maior.
Antes do almoço, Leneu se despediu. Alberto solicitou a Mari que escolhesse um cardápio
diferente e ela atendeu alegremente. A comida exótica e o vinho estavam excelentes. Depois,
voltaram à área de estar. Ela tomou algumas iniciativas, às quais ele acedeu prazerosamente. Bem
mais tarde, convidou-a a acompanhá-lo num passeio virtual ao fundo do mar. Ao vê-la colocar o
traje especial, ocorreu-lhe como era estranho fazer num passeio virtual acompanhado por uma
pessoa artificial que, na área de esportes, estava de fato ao seu lado. Deslizando entre golfinhos e
peixes, ele pôde se maravilhar pelo contato com a fauna marinha.
*
À noite, Alberto esperou, conforme combinado, pela chegada dos assistentes de Zefir e foi,
mais uma vez, conduzido até ele. Antes de se submeter ao procedimento telepático, desejou
conversar. Tinha curiosidade de ouvir dele uma opinião sobre o acesso às informações:
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-As suas idéias sobre telepatia estimulada estão expostas para consulta em algum canal
informativo?
-Diretamente, não. A proibição dessas experiências inclui o que chamam de proselitismo sobre
o método. Alguns canais de universidades e outros institutos de pesquisas tratam do assunto como
uma excentricidade ultrapassada. Temos utilizado esses espaços para expor fundamentos e
resultados como se fossem apenas alegações. Precisamos usar de sutileza, rotulando como
hipóteses fatos que já comprovamos. Sem que se possa fazer a divulgação do assunto em outros
canais, essas informações passam quase despercebidas aos que estão fora do nosso círculo.
-O acesso à mídia tinha me parecido bem democrático. Conforme a sua informação, existe
censura.
-As leis de proibição ao incentivo da violência e calúnias têm fundamento, ainda que
discutíveis nos seus detalhes. O problema são os critérios e o uso que disso se faz. A ampliação das
restrições além do necessário favorece a posição de quem tudo quer controlar.
-A fiscalização é severa?
-Quando é estabelecida qualquer proibição, não faltam censores. Em geral, gente desocupada
querendo aparecer ou aproveitando a chance de exercer o seu sadismo contra qualquer pessoa. Se
os indivíduos seguem em manada, não se importando em atentar para o que há por trás das
fachadas, sempre serão conduzidos, sabe-se lá para onde.
-Você acredita que algum dia haverá melhor compreensão sobre as suas experiências?
-Eu sou um pesquisador. Aliei-me aos clandestinos porque me dão oportunidade de continuar
com o meu trabalho. Há um grande número de pessoas ligadas à clandestinidade. São tantas as
correntes divergentes que, provavelmente, nunca cheguem a um acordo. Contudo, muitos
consideram não se justificar restrições à investigação científica e que a busca pelo conhecimento
não deve se submeter a eventuais interpretações de pessoas ou grupos. Mais do que isso:
concordam em que, para haver democracia, a primeira exigência é impedir o controle sectário das
informações. Eu trabalho com a hipótese de que, com a habitualidade da telepatia, promovendo
mais fácil comunicação, haverá menos possibilidade de manipulação. Contudo, sou cético,
inclusive, sobre isso. O que você pensa a respeito?
-Concordo sobre a liberdade para opiniões e pesquisas. Não me sinto habilitado a prever o que
poderia resultar de uma comunicação telepática rotineira.
Zefir apenas sorriu complacente e conduziu Alberto para novo processo telepático regressivo.
Sob a cápsula, ele deixou as conjeturas, concentrou-se nos episódios surpreendentes que vivenciava
e em seu filho. Antes de voltar, propôs ter a iniciativa na marcação das próximas sessões, o que foi
aceito sem contestação. Foram combinadas duas senhas para serem embutidas em mensagens do
seu canal de comunicação: uma com urgência e outra sem. Em seguida, ele foi levado para casa.
No caminho meditou sobre motivos para cizânias em seu tempo passado, tais como: acesso à
saúde, moradia, alimentação, lazer, sexo e cuidados pessoais. Ainda que neste novo tempo tais
problemas pudessem ter sido superados, o mesmo dificilmente aconteceria com a vaidade, a inveja
e a vontade de aparecer. Se o poder pudesse ser oferecido por igual a todos, qual valor teria para
esses sentimentos? Ainda não se encontrara solução para conflitos entre os impulsos egocêntricos
individuais e a reconhecida necessidade social de altruísmo.
*
Apesar de tudo o que já lhe havia sido explicado, persistia a curiosidade com respeito a como
uma boneca-companhia, ela mesma, via a sua condição. Alberto inquiriu a Mari:
-Eu tenho dificuldade em distingui-la de uma pessoa humana natural e fico imaginando o que
você pensa consigo mesma sobre a sua condição.
-Não posso saber como é ser uma pessoa humana natural. Fui construída para ser o que sou e
nada pretendo mudar. Ser uma boneca-companhia é o normal para mim.
-Posso entender essa disposição, mas, qual é a consciência que você tem sobre si mesma
quando se olha no espelho?
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-Para mim essa questão não existe. Quando vejo minha imagem no espelho, procuro verificar se
está correspondendo àquela que eu deva ter. Recebi a instrução de responder sempre a verdade,
mas, não provocar o assunto com respeito da minha identidade para não desfazer a ilusão de quem
não deseje. Todavia, uma vez que tenha havido a pergunta, não devo me furtar. O que posso dizer,
com base nas informações que possuo, é o seguinte: nós, bonecos, não temos uma consciência
igual a dos humanos. Respondemos por reflexos produzidos a partir de um potentíssimo banco de
dados que se amplia continuamente com aquilo que aprendemos e pela interligação desses
elementos. Temos, também, centros que acumulam cargas positivas e negativas relacionadas com o
tratamento que recebemos, os quais produzem reações em conformidade com o temperamento
escolhido, simulando as emoções humanas. São as projeções internas das pessoas, com base em sua
própria experiência, o que as faz interpretar essas reações como sendo produto de uma emoção real.
Eu não sofro verdadeiramente. Não precisa ter escrúpulos quanto a me magoar, exceto se imaginar
que isso reflete um lado seu do qual não gosta. Essa é a realidade científica. Todavia, é melhor
esquecê-la. Para o meu desempenho ser satisfatório, oferecendo-lhe o melhor desfrute, é preferível
que me considere uma pessoa humana igual a você.
Mari se expressou com seriedade, concluindo com um sorriso simpático. Alberto concordou
que seria melhor assim e esquecer outras perguntas. Na situação de solidão e carência em que
estava, seria tolice resistir a tê-la como uma pessoa de verdade. Afinal, também no mundo que
deixara, quanto do que se vivia não era fantasia?
13 - COM A NATUREZA
Apesar da mágoa que tinha pelo comportamento dos pais, Deodéa, embora raramente, os
visitava. Poderia contatá-los pelo comunicador com imagens tridimensionais perfeitas, mas, não
seria a mesma coisa. Se houvesse algo mais importante a dizer, não o faria através do meio
eletrônico. Quanto mais tempo passava sem vê-los pessoalmente, mais escassos iam se tornando os
assuntos para conversação. Ademais, fora acostumada a tratar, sempre que possível, com a
presença real. Agora, a evolução dos fatos fez com que sentisse o desejo de falar com eles. Após os
devidos contatos, ela foi visitá-los.
Enquanto o módulo de transporte percorria a cidade, Deodéa meditava sobre o que iria dizer,
prestando pouca atenção à imagem da orquestra que tocava à sua frente. A porta do módulo se
abriu diretamente para o transbordador que a levaria ao outro lado do planeta. Percorreu as fileiras
de pessoas acomodadas e sentou no lugar reservado. Dentro de pouco, sentiu se elevar, ao mesmo
tempo em que via o solo distanciando até aparecer a curvatura da Terra. Ao seu lado uma mulher
acompanhava as imagens do filho na escola. Desejou falar-lhe, mas, ela estava absorvida e não lhe
pareceu receptiva. Deodéa se sentiu diminuída por não ter um filho. Então, determinou a
apresentação do livro que estava lendo da biblioteca da sua casa. Pouco tempo depois, o
transbordador desceu sobre uma superfície escurecida pela noite, com luzes esparsas. Como os
demais, ela atravessou diretamente para um módulo de transporte e seguiu por uma distância
relativamente longa até a residência dos pais. Moravam numa pequena vila, em uma casa grande
com jardim, porém, bem mais modesta do que aquela que haviam deixado. Eles a abraçaram,
demonstrando alegria.
-Até que enfim veio nos visitar.
-Também, para vocês, não seria difícil irem me ver.
-Se eu fosse lá, a etiqueta me obrigaria a manter alguns encontros que prefiro evitar. Aqui, eu
tenho paz de espírito.
A mãe de Deodéa perguntou:
-Como está o Movimento Naturista?
-Temos tido cada vez mais adesões. Os que se opõe ao Movimento estão preocupados.
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-Existem organizações naturistas similares em várias partes do mundo. Pensamos em formar
uma federação, mas, ainda é cedo. Provocaria mais resistências e não estamos ainda
suficientemente fortes para enfrentá-las. Por enquanto, seria bom manterem conversações. Você
poderia contatar com alguém de confiança no seu grupo aventando essa possibilidade?
-Creio que sim.
-E na política? Aconteceu algo novo? - Perguntou Delonel com displicência.
-Conseguimos colocar o nosso amigo Leneu como tutor de Alberto, o chamado homem do
gelo. Ele deu uma entrevista da qual alguns não gostaram. Pensam que Leneu o esteja influenciado.
O namorado da Madra, ao sair da casa de Leneu, foi gravemente atingido num pretenso acidente.
Pelas circunstâncias, julgamos ter sido um atentado dirigido contra Leneu. Acionamos a Segurança
Pública e contratamos uma investigação particular. Todavia, parecem pouco eficientes.
-Assisti à entrevista e achei muito boa. Entendo porque outros podem não ter gostado. Quanto à
investigação, peça a opinião dos mais antigos do nosso grupo. Todavia, tenha cuidado, pode haver
quem não seja confiável. Você está bem?
-Estou com saúde. O que vocês diriam se eu decidisse casar para ter um filho? – Disse Deodéa,
após uma pausa e tomar coragem.
-Se está disposta, faria muito bem. Deixe a política para outros e cuide da sua vida. Já tem o
pretendente? - Adiantou-se sua mãe.
-Essa é a questão. Ainda não tenho a meu gosto. Quanto à política, o meu papel é pequeno e
não creio que atrapalharia.
-Quando tiver decidido, não deixe de nos comunicar. Se nós pudermos ajudar de algum modo,
teremos muito prazer.
Depois do almoço Delonel fez um sinal para que ela os acompanhasse e se dirigiu para uma
sala menor.
-Aqui podemos falar com mais segurança.
-Até aqui existem espiões?
-Come se pode saber? Alguns amigos estão cada vez mais convencidos de que a maioria dos
crimes tem o comando de um criminoso maior. Pensam que ele tem acesso às comunicações e, até,
às memórias de muitos bonecos-companhia. Quando tiver algo de importante para dizer, não fale
através do comunicador, nem perto de qualquer boneco-companhia.
-Nem mesmo do nosso velho Artur?
-Os bonecos são robôs. Sem que se saiba, alguém pode interferir nos seus circuitos. Para os
assuntos mais sigilosos, use sempre a sala protegida. Aquela que nós chamamos indevassável.
-Ninguém faz nada contra esse criminoso?
-Ele tem apoio e é difícil atingi-lo diretamente. Ações contra os seus tentáculos poderão
enfraquecê-lo, permitindo que, depois, se chegue à cabeça.
-O nosso partido está crescendo. Há algo que eu possa fazer?
-Sabendo mais, será possível encontrar o melhor modo para agir. Aceitaria prestar um pequeno
favor, porém, importante?
-Naturalmente, por que não?
-Então, memorize esta senha e a mostre ao Conselheiro Manevan e ao amigo Nemato. Tome o
máximo cuidado. Havendo um engano de digitação, a senha fica definitivamente invalidada.
Delonel escreveu na mão uma senha, apresentou-a e, logo depois, apagou.
-Apenas mostre a eles a senha, sem nada dizer. Saberão do que se trata. Não fale sobre isso com
ninguém, nem mesmo para os mais íntimos. Embora sendo íntegros, desconhecem os riscos e
podem não ter os devidos cuidados. As batalhas se dão no âmbito das informações. Se soubermos
quem são os inimigos e como agem, eles estarão derrotados e vice-versa. É conveniente trocar
periodicamente as senhas, desde que se possa fazê-lo através de pessoas absolutamente confiáveis.
-Posso ajudar em mais alguma coisa? - Animou-se Deodéa.
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-Não faça nada mais fora da rotina. Nem nisso eu deveria envolvê-la. Evite qualquer ação capaz
de colocá-la em perigo.
-Pensei que você estivesse afastado da política. Posso saber o que está havendo?
-Estou afastado. Contudo, pediram-me para repassar algumas informações. Sou apenas um elo
transmissor numa rede que tenta identificar o criminoso autodenominado Mono. Ele parece ter a
ambição de controlar o mundo. Há muitas pessoas prejudicadas, mas, poucas em quem se possa
confiar. Eu não estou comprometido com nada mais do que o repasse de algumas informações.
Florena interveio, procurando dar bom humor à reunião.
-O segredo com relação à formação de uma federação de grupos naturistas não é tão grave.
Mesmo assim, procure fazer alguns testes para ver quem é confiável e pode ser o interlocutor para
outros movimentos naturistas.
Na volta para casa Deodéa tinha muito em que meditar. Estava satisfeita por ter encontrado
seus pais bem dispostos. Entretanto, Delonel continuava mais cauteloso do que ela aceitaria que
estivesse. Sua atitude parecia, até, covardia. Pensava se devia ter mencionado a sua
desconformidade. Já estava madura para falar com eles sobre seus sentimentos. No entanto, apesar
de que a sua mãe fosse aberta a qualquer assunto, temia magoá-la e nem para ela manifestara esse
julgamento. Estaria sendo injusta? Como poderiam explicar seu comportamento? De qualquer
modo, ficara feliz com a simpatia demonstrada quanto à possibilidade de ter um filho.
A missão que Delonel dera a Deodéa não era tão simples quanto poderia parecer. Ela não
mantinha contatos habituais com o Conselheiro Manevan. Procurá-lo ostensivamente para uma
entrevista pessoal logo depois de ter visitado o pai, dependendo do desdobramento dos
acontecimentos, poderia provocar suspeita. Tinha a alternativa de encontrar um pretexto qualquer
para uma reunião com ele, mas, melhor seria oferecer uma festa para muitos, despersonalizando o
contato. Houve época em que as festas em sua casa eram freqüentes e a elas sempre compareciam
Conselheiros com os quais tinha relações, inclusive Manevan. Havia outro motivo para realizar a
festa, o qual ela preferiria não admitir. Seria uma boa oportunidade para convidar Alberto e lhe
mostrar a casa. Antes, porém, precisava estreitar a amizade e introduzi-lo no seu círculo. Desejava
levá-lo a um encontro do Movimento Naturista para que os amigos de lá o conhecessem. O
encontro com Nemato despertaria menos desconfiança. Ele não tinha a importância política de um
Conselheiro. Também para esse caso, a companhia de Alberto podia ser útil.
*
Deodéa se comunicou com Leneu, dizendo que gostaria de convidar Alberto para um passeio.
Ele a pôs em contato.
-Sei que você deseja ter experiências não virtuais. Eu teria prazer em lhe fazer companhia para
ver alguns lugares interessantes.
-De fato, eu teria muito gosto nisso. Aonde poderíamos ir? – Perguntou Alberto.
-Você trabalhava na marinha e, possivelmente, tenha interesse pelo que se faz no mar.
Poderíamos visitar uma instalação submarina onde trabalha um amigo. Creio que seja um passeio
instrutivo e uma boa distração.
-Sempre tive curiosidade de saber como vocês aproveitam o mar.
Deodéa sentiu algum remorso por manipular Alberto. Entretanto, desculpava-se com a idéia de
que estava atendendo, também, ao interesse dele em aprender sobre seu novo mundo. No horário
combinado, o módulo de transporte os conduziu até a marina onde passaram para uma cápsula
submarina. Com ela, mergulharam até grande profundidade, observando o trabalho desenvolvido
por robôs em mineração. Mais adiante, apreciaram locais de processamento dos minerais. Depois,
subiram a uma profundidade menor para chegar a uma estação de controle do cultivo orgânico.
Nela, através de amplas janelas, podiam visualizar o trabalho dos robôs tratando e recolhendo
massas de algas de várias espécies. Foram conduzidos até Nemato, o gerente geral. Ele os
cumprimentou com simpatia, fazendo questão de apresentar detalhes das atividades realizadas.
-Qual é o destino dado a todo este material? - Alberto perguntou.
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-Estas algas são matéria prima para múltiplas finalidades. Servem para quase tudo o que antes
se extraia do petróleo. Exceto, é claro, a queima. A produção de energia se faz com captação
diretamente do sol.
Enquanto falavam, Deodéa mostrou discretamente a mão onde escrevera a senha dada pelo seu
pai. Depois pediu para usar a toalete.
Nemato não aparentou demonstrar interesse especial, porém, antes da saída deles, dirigiu-se a
Deodéa em atitude conspiratória.
-Delonel está autorizado a estudar os fósseis aqui encontrados. Depois, eles são encaminhados
ao museu de história natural. Costumávamos trabalhar juntos nisso. Ele não tem podido vir, mas,
há alguns exemplares que, por certo, gostaria de examinar. É um material valioso no mercado
negro. Precisamos ter muito cuidado para que não se extravie. Avise-me quando for visitá-lo.
Levarei algum material selecionado até a sua casa para que você entregue pessoalmente ao seu pai.
Ao se despedirem, Deodéa se dirigiu a Alberto.
-Eu ainda preciso fazer alguns contatos para o nosso encontro naturista. Logo que estejam
concluídos, pedirei a Leneu que verifique o seu interesse em colaborar.
-Estou agradecido pelo passeio. Terei grande prazer em ajudar no que for possível.
*
No dia seguinte, Leneu estava bem disposto. Dirigiu-se a Alberto, tendo um tom de ironia:
-Já fizeram os arranjos para a sua participação no encontro naturista que vão realizar amanhã.
Estão entusiasmados com a possibilidade de que você faça uma apresentação.
-Está decidido que eu deva falar?
-Certamente. Não se preocupe, pois, não haverá tumulto. Será anunciado em cima da hora.
Com isso, evitam o comparecimento de pessoas que iriam apenas pela curiosidade de vê-lo.
-O Movimento Naturista não deseja atrair novos adeptos?
-O naturismo está bem divulgado. O que falta é a adesão de participantes com convicção e
disposição para trabalhar por ele.
Havia um sinal para contato com Deodéa. A sua imagem irradiava simpatia:
-Provavelmente Leneu já lhe falou, mas, eu desejo convidá-lo oficialmente para participar do
nosso encontro naturista de amanhã em Relim. A diretoria solicitou o meu empenho em convencêlo a fazer uma pequena palestra.
-Fico agradecido, embora não tenha tido tempo para me preparar.
-Não se trata de uma conferência, apenas transmita brevemente as suas impressões. As pessoas
presentes saberão apreciá-las adequadamente.
Costumava haver muito consumo de drogas em encontros da juventude. Como está isso
atualmente?
-O movimento naturista não aceita drogas nos encontros e desfavorece o seu uso. O uso de
drogas reduz o relacionamento inteligível entre as pessoas. Todavia, em reuniões de grupos não
naturistas o consumo costuma ser intenso. Há muito tempo a lei não interfere. Com isso, acabou-se
com o comércio ilegal e as suas conseqüências. Também, reduz-se a produtividade das pessoas,
mas, a sociedade atual não depende do trabalho de todos. Portanto, quase ninguém se importa.
-Como irei até lá.
-Eu vou buscá-los em sua casa pela manhã.
-O Leneu e a Mari, também?
-O Leneu, eu creio que vá. Quanto à Mari, o Movimento não aceita bonecos-companhia em
seus encontros. Busca-se reduzir a atividade virtual excessiva e a dependência com relação aos
bonecos. Entretanto, não existe objeção à sua existência. Eu, particularmente, tenho o meu e o
considero valioso.
Alberto se voltou para Leneu:
-Você vai?
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-Em sua homenagem, irei. Ultimamente, não tenho acompanhado o Movimento Naturista, mas,
nada tenho contra ele. Apenas, preferi me dedicar a outras coisas.
-Você, também, irá gostar. Amanhã passarei aí para levá-los.
Encerrado o contato, Alberto se dirigiu à Mari.
-Você se importa em não ir?
-De modo nenhum, compreendo e concordo com eles. Não é o seu caso, pois, você até esquece
a minha presença, mas, há pessoas completamente dependentes dos seus bonecos-companhia. Não
é esse o objetivo da nossa criação. Eu fui instruída para evitar e, se necessário, adverti-lo para que
tal não aconteça.
-Uma dependência excessiva nunca é benéfica para ninguém. Entretanto, discordo que eu a
esqueça. Tento evitar o excesso.
Leneu despediu-se, manifestando que, talvez, não fosse tão ruim ele ir ao encontro.
Alberto quis explorar o modo de reagir de Mari.
-Você não se ofendeu com a recusa de Deodéa?
-Evidentemente, não. Nós não temos os melindres humanos. De fato, existem pessoas
excessivamente dependentes dos bonecos-companhia e da atividade virtual.
-Como você formou esse conceito?
-Para formar conceitos, o meu cérebro é parecido com o humano. Ele armazena informações,
verifica a sua consistência em relação a outras, depura, conecta e deduz com base em
probabilidades. A conclusão a que cheguei tem base na ocorrência de uma grande proporção de
pessoas em que a insatisfação está relacionada com essa condição de dependência. Foi feita,
também, uma avaliação prospectiva. Algumas análises calculam que, se aumentar o número de
dependentes virtuais até um ponto crítico, o conforto que a sociedade humana desfruta atualmente
estará ameaçado.
-Em que isso seria um problema para os bonecos-companhia?
-Nós não temos metas pessoais. Nossa constituição nos faz receber estímulos positivos ao
percebermos ou prevermos alegria e bem estar para quem nos adquire e, extensivamente, para o
conjunto da humanidade.
-Eu penso que estaríamos em melhor situação se todas as pessoas fossem um pouco assim.
Mari sorriu abertamente, aparentando satisfação:
-Não me parece que você tenha um comportamento egocêntrico.
-Na minha condição de exilado em que me sinto, não sirvo de parâmetro para nada. As minhas
possibilidades de ação são limitadas. Não sei como agiria em condições diferentes.
-Recebi a incumbência de atendê-lo de modo a se sentir perfeitamente integrado no tempo
atual. O que mais eu poderia fazer para obter esse resultado?
-Você é perfeita, todavia, me deixa confuso. Eu não posso deixar de ter nascido em outra era.
Peça o almoço para nós.
Mari detalhou para o sintetizador como deviam ser os pratos. Ao concluir o almoço, foram para
a área do quarto onde permaneceram até tarde. Alberto não procurou distinguir a bonecacompanhia de uma mulher natural. Convenceu-se de que a circunstância de estar fora do seu tempo
o justificava para fugir à realidade e se deixar levar pela fantasia.
*
Era cedo ainda quando Deodéa tomou um módulo de transporte para ir à casa de Alberto na
borda da floresta. No caminho percebeu que outro módulo a seguia ostensivamente, do modo como
atualmente estavam fazendo para intimidar alguns. Não se assustou, antes, pretendeu saber de onde
provinha a iniciativa. Deu ao seu módulo um código, não aberto a todos, e ele passou a obedecer
diretamente os seus comandos. Mandou acelerar e dobrar subitamente à direita. O perseguidor fez a
mesma manobra, demonstrando estar, também, no controle direto do módulo. Ela acelerou ainda
mais e dobrou novamente. A perseguição continuava bem próxima. Deodéa percebeu que quem a
seguia gostava do esporte e calculou que o desafio iria fazer a sua adrenalina subir. Comandou
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novas manobras, provocando-o intencionalmente. Depois, dobrou rapidamente e parou de súbito. O
outro repetiu as manobras, mas, apesar do módulo contar com proteção automática anti-choque,
não conseguiu evitar a colisão. Ambos os módulos tiveram os seus revestimentos um pouco
amassados. O modulo que a perseguia deu marcha ré e, rapidamente, fugiu.
Deodéa comunicou-se com a Central dos Módulos de Transporte dizendo que ocorrera um
pequeno acidente. Precisava saber quem estava no outro módulo para um acordo sobre a
indenização. Depois de algum tempo, foi-lhe comunicado que o contratante do módulo tinha direito
ao sigilo, porém, pagaria todas as despesas. Não era o que ela esperava, mas, servia de pista para
investigação. Ordenou ao seu módulo voltar à rotina automática e prosseguir até a casa de Alberto.
Ele e Leneu subiram no módulo e seguiram para o local do encontro naturista. Deodéa preferiu não
mencionar o incidente para não assustá-los e desfrutar um diálogo com assuntos mais amenos.
-Desculpe-me ter dito não ser possível levar a Mari. Espero que você não tenha ficado
desgostoso com isso.
-Se a regra é essa, não há problema.
-Eu mesma, às vezes, gostaria de levar o meu boneco-companhia nestes eventos. Quando não
se tem os confortos de casa, seria cômodo tê-los à mão. Mas, a finalidade é nos aproximarmos da
natureza. Estaríamos frustrando um dos objetivos do naturismo que é o de fazer mais coisas por nós
mesmos.
-Relim fica longe?
-Um pouco. Situa-se numa praia muito bonita. Não foi fácil obter licença para fazer o evento
nesse lugar.
-Existem ambientes públicos ao ar livre para as pessoas freqüentarem?
-Há parques e trilhas ecológicas, porém, os regulamentos são rígidos e não permitem
aglomerações, som alto e outras liberdades. Em princípio, o fundamento é evitar incômodos para os
demais, porém, exageram na dose por outros motivos.
Alberto percebeu que Leneu demonstrava pouco entusiasmo. Para provocá-lo indagou:
-Não conheço o espírito que anima estas pessoas. Preocupa-me a possibilidade de não
transmitir a mensagem adequada. O que devo falar?
-Basta a sua presença. Se quiser agradar, finalize dizendo que o naturismo representa a única
esperança de um mundo melhor. Todos ficarão satisfeitos.
-Será correto aduzir que há algum cinismo nas suas palavras?
-Eu tenho reservas ao pedido para que discurse. Aceito que palestras motivadoras façam parte
do contexto e possam ser estimulantes para quem não pensa. Todavia, só acredito em
convencimento genuíno quando originado em conclusões tiradas do próprio estudo e das próprias
observações.
-Da minha parte, não pretendo convencer ninguém.
-Nem precisa ter a preocupação de fazê-lo. Basta aparecer. Será uma grande atração.
A ênfase em “atração” pareceu a Alberto que ele o comparava com um animal de circo,
todavia, não contradisse e nem demonstrou contrariedade. Tendo sido recentemente apresentado a
Deodéa, preferiu manter uma conversação com bom humor. Antes de saírem do módulo, colocou
uma máscara com a qual adotou feição diferente e pôde andar tranquilamente sem ser reconhecido.
Caminharam próximo à praia onde estavam grupos de jovens, jogando ou se banhando de modo
descontraído, com ou sem as tangas. Em alguns palcos havia música e declamações. As pessoas se
dispunham em grupos, conversando e brincando, sem retraimento. Havia aglomerados maiores ou
menores, próximos a pequenos palcos onde se faziam apresentações de música, recitação,
conferências, debates e outras promoções. Não se via alto-falantes, mas, o som de cada palco
chegava até o limite onde estavam as pessoas ao seu redor. Na praia, alguns ignoravam totalmente
as promoções e brincavam apenas. Distribuídos pela área, havia sintetizadores de comida e
instalações sanitárias. Após caminharem bastante, Alberto foi levado a um aposento montado
abaixo de um grande palco. Ele foi apresentado a outros diretores do Movimento e cumprimentado
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com entusiasmo. Apesar disso, percebeu sinais de preocupação. O diretor-presidente desejou falar
com Deodéa a sós e a conduziu para uma saleta ao lado.
-Recebemos um aviso não documentado do setor de atividades públicas para que o Alberto não
discurse. Em caso contrário cancelarão a nossa autorização.
-Com que razão? – Perguntou Deodéa.
-Um amigo nos disse que há pressões dos opositores, temendo que a divulgação do apoio de
Alberto ao Movimento nos dê um estímulo exagerado. A desculpa oficial será de que o encontro
estaria se transformando num evento político, contrariamente ao de recreação para o que foi
autorizado.
-O que vocês pensam a esse respeito.
-Nós consideramos essa determinação um abuso e estaríamos dispostos a não acatar. Você
conseguiu a autorização e, também, a participação do Alberto. Aceitaremos o que decidir.
Não era uma decisão fácil, pois, não podiam prever inteiramente as conseqüências. Deodéa
estava acostumada a só resolver questões importantes depois de ponderar e ouvir a opinião de
outras pessoas. O governo não tinha direito de proibir a fala de Alberto, porém, podia negar
autorização para os encontros com uma desculpa qualquer. O Movimento estava obtendo
progressos significativos através de uma política de avanços graduais e, talvez, não fosse vantajoso
afrontar, agora, os opositores. Por outro lado, a decisão acabaria sendo conhecida. Recuar e não
exercitar um direito legítimo poderia desmoralizar a diretoria e desestimular o idealismo dos
jovens. O forte do Movimento sempre fora a tenacidade dos seus participantes. O que seria melhor:
um acordo ou a contestação? Outra questão era que a oposição às conferências de Alberto poderia
aumentar. Ele deveria ser informado sobre a objeção? Em outras circunstâncias seria o mais certo,
porém, no caso, tiraria a sua espontaneidade, deixando-o temeroso de falar algo que prejudicasse o
Movimento. Enquanto procurava decidir, ouvia alguns gritos vindos do palco:
-O homem do gelo vai ou não falar? Há muita gente esperando.
Ela não tinha tempo. A solução não podia demorar mais. Deodéa se lembrou de um conselho
do pai: Mesmo em política, quando estiver com muita dúvida, decida pelo que é mais correto.
Ainda que o efeito no curto prazo não seja favorável, você estará tranqüila e, ao fim, acabará
obtendo melhores resultados.
-Por mim, ele pode falar. – Apostou Deodéa.
-A razão irá prevalecer. Continuamos na luta! - Recebeu como resposta.
O momento foi de quase euforia. Perguntaram a Alberto se estaria disposto a dizer algumas
palavras ao público. Havendo sua concordância, foi feito o anúncio. Ele tirou a máscara e foi
levado para cima. No palco, à sua frente, formara-se uma grande multidão. O apresentador falou
introduzindo Alberto como o homem do gelo. Mesmo os mais longinqüamente situados podiam
ouvir perfeitamente. Os que estavam próximos ao palco tinham aparência bem jovem. Abanavam
continuamente, parecendo estar se divertindo. Apesar das recomendações para que não ficasse
preocupado com o que dizer, Alberto estava arrebatado pela presença de tão grande público
aplaudindo entusiasmado. Dado um sinal, houve silêncio de espera pelas suas palavras.
-Agradeço vossa atenção. Entendo que a minha situação desperte curiosidade. No que for
possível, procurarei satisfazê-la. Estou aqui, sobretudo, para apreender e tenho pouco a falar, além
do que já tenho dito. Ao despertar num novo mundo, todos os meus sentimentos estavam presos à
vida anterior: família, amigos, colegas e tudo o mais. Com grande custo, eu me convenci de que
nunca mais os iria ver. Os avanços da técnica me deslumbram e ajudam para distrair com relação
àquilo que eu amava e que ficou para trás. Tudo isso, mais a curiosidade, têm me permitido
suportar o afastamento sem me abater. Vejo-me como um estranho, num ambiente de costumes que
não são os meus e de cuja construção nem remotamente participei. Mesmo havendo encontrado
pessoas a quem hoje eu posso chamar de amigos, o antigo contato íntimo e afetuoso é aquilo de que
mais sinto falta.
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No passado, cometeram-se erros, com trágicas conseqüências. Eu me perdi na Antártida antes
das catástrofes, mas, na época, muitos já condenavam certas atitudes que podem ter sido as
responsáveis pelos desastres. Acredito que seja preciso aprofundar o estudo da história para separar
as boas atitudes daquelas que foram más. Só assim se poderá concluir com responsabilidade o que,
realmente, deve ser evitado. Diante de tão grande quantidade de novas situações às quais fiquei
exposto, tenho dificuldade para maiores conclusões. Contudo, eu vos posso afirmar que, estando
hoje aqui, embora sejam desconhecidos, a confraternização e a alegria de vocês me comovem.
Resgatam um pouco do calor pessoal que vejo como o melhor do que deixei no passado. O meu
sentimento é de que, apesar de reconhecer todo avanço da técnica, o mais confortante que encontrei
nesse mundo novo é a convivência natural que vocês aqui praticam. A minha pouca experiência
com os costumes e as leis atuais não me confere autoridade para juízos definitivos, mas, se me
pedem uma opinião, devo dizer: não vejo motivo para que esse convívio possa ensejar qualquer
prejuízo.
Assim que Alberto concluiu sua breve locução, houve uma prolongada e entusiástica ovação.
Os jovens em frente pularam no palco, abraçando e beijando, até serem contidos pelos promotores.
Alberto, ainda espantado com esse exagerado entusiasmo, teve de se conter para não atender os
veementes pedidos para que continuasse a discursar. Em tempo, lembrou-se que o estímulo da
multidão conduz as pessoas a atitudes das quais depois se arrependem. Foi protegido, mas, antes de
voltar à sala reservada, assistiu a uma briga surgida entre os espectadores. Casualmente, pôde
reconhecer um dos jovens vistos através do inseto espião de Solina como sendo um dos
provocadores. Alberto permaneceu na sala até o tumulto cessar e a aglomeração dispersar. Só
depois, colocou novamente a máscara e saiu. Em um canto isolado, sentou-se no solo com Deodea
e Leneu para um lanche frugal.
-Não esperava tal demonstração de entusiasmo por tão pouca fala. – Disse Alberto.
Leneu continuava mal humorado.
-É que você acertou dizer aquilo que eles queriam ouvir. Principalmente, para os mais jovens.
Eles gostam da contestação às leis.
-Apenas mencionei que pouco conheço sobre as leis.
-Interessa-lhes entender como uma contestação. Eles têm muita energia para gastar e tudo serve
para manifestações ruidosas.
Deodéa demonstrava satisfação.
-Os promotores me agradeceram por tê-lo trazido e pediram para convidá-lo a vir novamente.
-Se eu acertei com o que queriam, foi sorte de principiante. Temo que não tenha o mesmo
sucesso outra vez.
-Não deve temer. Com o tempo, cria-se um mito. Depois, é só repetir, mudando um pouco as
palavras. As pessoas gostam de ouvir sempre a mesma coisa. - Leneu continuou, sarcástico.
-Não ligue para o Leneu. Deve ter ocorrido algum desentendimento no seu departamento. Ele é
daqueles intelectuais pernósticos que abominam as manifestações coletivas.
Leneu riu ruidosamente.
-Deve ser por isso que eu me dou bem com você. Os opostos se atraem. Você adora se meter no
meio de uma multidão.
Para Alberto, essas batalhas verbais tornavam o ambiente, até, mais familiar. Deodéa, porém,
não demonstrava apreciá-las e preferiu mudar de assunto.
-Aqui próximo há um depósito de lixo radioativo. Deveria ser provisório, mas, só tem
aumentado e a empresa responsável pleiteia uma licença para utilizar esta área também. Como ela
foi cedida ao Movimento Naturista, a empresa o combate. De forma indireta, é claro. O
compromisso deles seria para depositar o lixo no planeta Mercúrio. Houve protestos contra a
utilização do planeta que resultaram num embargo ao transporte. Alegando não ser culpa dela, a
empresa continua recebendo pelo contrato, sem ter a despesa do transporte. Nós temos informações
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de que os grupos arruaceiros que pediram o embargo do transporte são subsidiados por comparsas
ocultos da companhia. Eles atuam, também, em favor dos políticos adversários do naturismo.
A fisionomia de Leneu perdeu o ar enfastiado e, demonstrando vivo interesse, disse estar de
pleno acordo com essas palavras. Antes que comentasse mais alguma coisa, surgiu Madra, a
sobrinha de Deodea, vindo ao encontro deles. Cumprimentou-os e apresentou um rapaz que a
acompanhava. Eles não portavam tanga ou cinto identificador.
-Ele é natural ou boneco-companhia? - Alberto perguntou a ela em tom de brincadeira.
-Eu puxei à tia Deodéa e não aprecio muito os bonecos. Por isso, participo do Movimento
Naturista. Aqui preferimos não usar cintos. Gostaria de ter uma entrevista com você para o trabalho
que estou fazendo. - Madra respondeu, sorrindo.
-Combine com a sua tia um horário e terei prazer em responder sobre tudo o que quiser.
-Fico muito agradecida. Pode estar certo que procurarei marcar.
Em seguida, ela e o acompanhante retornaram para o grupo de amigos com quem estavam.
-Parece que ela já esqueceu Arlon. - Alberto comentou.
-Não é o caso. Tinha iniciado com ele o trabalho que está fazendo. A sua vida precisa
continuar. Não se pode saber quando Arlon sairá do hospital, nem quanto recuperará da memória
anterior à lesão cerebral.
Caminharam até o local de embarque nos módulos de transporte. Via-se na proximidade um
campo onde estavam viaturas que pareciam a Alberto modelos antigos de automóveis de corrida.
-O que é aquilo?
-Denominam-se carros. São veículos com rodas e motor próprio. Eles andam sobre o solo. São
usados para esporte em locais adequados. Alguns os usam para fazer correrias pela cidade, abaixo
dos fluxos magnéticos dos módulos de transporte. Essa é uma prática proibida e perigosa, contudo,
a segurança tem pouco controle sobre ela. Se quiser, poderemos ir a um campo de esporte outro dia
e alugar carros como esses.
-Para mim, não é novidade. Já andei bastante em carros semelhantes.
Enquanto eram transportados de volta, Leneu criticava o encontro, enquanto Alberto
manifestava opiniões contemporizadoras. Deodéa parecia não prestar atenção. Depois de deixarem
Alberto em casa, Deodéa e Leneu seguiram juntos até a casa dela.
*
No caminho para casa, Leneu mantinha-se com mau humor.
-Por que você não gostou do encontro? - Deodéa perguntou.
-Pareceu-me bem animado, porém, eu não aprecio essas aglomerações. Ao fim, constroem-se
poucas relações duradouras. Eu prefiro reuniões autônomas e menores, onde há oportunidade para
a expressão criativa de cada participante.
-Estamos plantando num vazio de relações humanas reais. A sua idéia poderá servir para um
próximo passo.
-Você, também, parece mais preocupada do que de costume.
-Preciso lhe falar sobre alguns fatos. O primeiro se refere à descoberta feita pelo nosso pessoal
nas redondezas desse local. A empresa Radclean tem contrato para recolhimento do lixo radioativo
e o deposita ali perto, mas, está avançando no terreno. Deve ser por isso que ela ampara pessoas
que se opõe ao Movimento Naturista. O segundo se trata de que, antes de encontrá-los, o meu
módulo de transporte foi ostensivamente perseguido. Provavelmente, queriam me intimidar. Outro,
ainda, refere-se à própria diretoria do Movimento. Havíamos combinado manter segredo sobre a
fala de Alberto. Houve algum vazamento permitindo a ação da oposição. Com isso, fica
prejudicada a confiança interna na diretoria.
-É preciso que você se cuide. Deixe outros assumirem, ao menos em parte, as suas
responsabilidades.
-Há muitos descontentes dispersos e eu sou procurada para contatos. Tornei-me uma referência
em virtude do que o meu pai representava.
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-A confiança é a pedra angular de qualquer movimento. Entretanto, há uma organização
criminosa oculta com interesse na política e nos grandes negócios. Ela é muito mais perigosa do
que esses delinqüentes assessórios que ameaçam Alberto por causa da sua entrevista. É preciso que
divida as suas responsabilidades com os seus correligionários.
-Você gosta de ser misterioso. Eu vou tentar delegar alguns compromissos, mas, as questões
políticas me perseguem. Agora, como você sabe, vou realizar uma festa em minha casa.
-Há tempo você não realizava festas. Existe algum motivo especial?
-Os amigos têm me cobrado oportunidade para mantermos relações mais informais. Conto com
que você traga, também, o Alberto.
-Ele, apesar de desfrutar bem as relações com a sua boneca-companhia, sente-se desambientado
e demonstra interesse em conhecer novas pessoas. Disse-me ter simpatizado bastante com você.
Deodéa se distraiu da conversa comparando Keone e Alberto. Esse último, apesar de vir do
passado, tinha posições que casavam melhor com as dela. A questão era que Keone lhe propusera
ter um filho e Alberto nem pensava a esse respeito. Ademais, precisava considerar os seus outros
compromissos. Alberto era considerado por muitos como um objeto estranho. Acabou por
perguntar:
-Conheci um diplomata bastante instruído. Convidou-me para ter um filho. No tempo de
Alberto, certamente, as pessoas não eram tão diretas. O que você pensa que ele acharia de uma
proposta como essa?
-Ele está muito inseguro sobre as questões de intimidade. Acredito que temeria assumir
qualquer compromisso mais sério. Quer que eu pergunte a ele?
-Não, de modo algum. Eu só queria ouvir a sua opinião.
Após Leneu seguir para sua casa, Deodéa encontrou a sobrinha.
-O Alberto gostou do encontro naturista? - Madra perguntou.
-Pareceu-me que sim. Para ele, tudo é novo e interessante.
-Algumas amigas me pediram que, se você verificar que ele está em forma, depois, o repasse
para elas.
Deodéa riu e se mostrou desdenhosa.
-Você está interessada? Ele não é um boneco-companhia. Tem sua vontade própria.
-Contudo, ele também se diz curioso. Não deixe outras se adiantarem.
-Não precipitem as coisas. O setor de psicologia recomendou conduzir devagar a sua adaptação.
O modo pelo qual ele encara as coisas é diferente do nosso.
Quando Deodéa deitou, percebeu que, mesmo a contragosto, precisava tomar alguma coisa para
prender o sono.
*
Leneu chegou cedo, esbravejando.
-Assistiu às notícias ontem à noite?
-Não. Eu deitei cedo, sem assistir. – Respondeu Alberto.
-Logo depois de sairmos do encontro naturista, a segurança pública encerrou o evento.
Argumentaram a interdição com a ocorrência de tumultos e a degradação do ambiente.
-Não havia licença para realização do evento naquele local?
-Foi concedida licença, mas, como não há lei específica, a situação se presta para essas
arbitrariedades.
-O pessoal do Movimento irá apresentar algum protesto?
-Sim, devem protestar. Entretanto, é difícil que obtenham resultado porque os que se opõe ao
Movimento têm muita força. Eles pressionam o governo, convencendo alguns de que
pronunciamentos como o seu favorecem à oposição. Na verdade, querem manter o lugar para seus
negócios escusos. Os naturistas tentam há muito obter uma lei que regulamente a sua atividade e
conceda espaços definitivos para os eventos.
-O que eu disse influiu na interdição?
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-Ninguém diria isso, mas, acredito que teve alguma influência. A situação se sente atacada e,
em política, quando existe uma ameaça a razão desaparece. Há quem receba para provocar temor e
apontar prejuízos para os negócios. O naturismo diminuiria as vendas de produtos para atividades
virtuais e robôs em geral. Os políticos da situação temem qualquer mudança. Se não fosse essa,
eles encontrariam outra desculpa.
-Todos os robôs são do tipo boneco-companhia?
-Não há porque construir robôs com modelo humano para todas as funções. Existem outros,
construídos das mais diferentes formas, conforme a finalidade. Veja esta casa. Não há evidência de
robôs, mas, é toda automatizada, com controles embutidos. O aspecto humano dos robôs só se
justifica para atenções pessoais.
-Com toda esta automação, o que fazem, em geral, as pessoas humanas?
-Mais freqüentemente, esporte e lazer. Outras atividades são: estudo, pesquisa, cultura, criação,
controle e governo. Os que não querem viver apenas se distraindo com brinquedos virtuais têm
muitas oportunidades de trabalho. Todo trabalho gera recursos extras para os seus autores.
Entretanto, a maioria prefere nada fazer de produtivo.
- A automação sustenta tudo isto?
-O Estado tem recursos suficientes para permitir que cada cidadão, desde o nascimento, tenha
um bônus que garante os serviços básicos. Isso permite sobrevivência, embora com poucas sobras.
-Apesar disso, vê-se que houve muito progresso técnico.
-Atualmente, o progresso é menor. A Organização Internacional aprova algumas áreas, às quais
considera de interesse, dentro das quais compra os direitos do resultado de pesquisas promissoras e
os deixa gratuitamente à disposição de quem queira aproveitá-los. Os laboratórios, em geral,
sustentam-se trabalhando nessas áreas. Há muita política por traz desses apoios.
-Como se classifica a atividade de dar entrevistas?
-É uma atividade cultural ou de entretenimento. É aceita como produtiva, porém, está fora do
programa de apoio da Organização Internacional.
-Fico satisfeito de não ser classificado como improdutivo.
-Com a influência de Melior, a sua entrevista foi classificada como cultural e isso que lhe dá a
vantagem de pagar menos imposto. Entrevistas assim classificadas costumam ter pouca audiência,
entretanto, a sua foi exceção.
-Assim que me considerem capaz, gostaria de trabalhar. O que mais eu poderia fazer?
-Você teria vantagem atuando como professor de história antiga. Para trabalhos que exijam
conhecimentos técnicos atualizados você necessitaria se preparar. Considerando que as atividades
são compartimentadas, trabalhando dentro de uma equipe com funções específicas, creio que a sua
adequação não iria demorar. Eu recomendo não se apressar. Primeiro, forme uma base de
conhecimentos gerais sobre o mundo atual para tomar decisões mais fundamentadas depois.
-Poderia sugerir alguma área em particular?
-Você era engenheiro da marinha. Quem sabe alguma atividade ligada ao trabalho no mar?
-Visitei com Deodéa de uma base de produção submarina. Foi um passeio interessante. Como
se faz o transporte marítimo?
-Basicamente, como o terrestre, porém, mais veloz, através de estradas de fluxos
eletromagnéticos com menos interrupções.
-Vejo que, de fato, precisarei me atualizar.
*
As novas provas às quais fora submetido aumentaram a inquietação de Alberto. Ele pensou em
ter novo contato com Zefir. Ditou ao comunicador, para introduzir em seu canal de comunicação,
uma mensagem banal de agradecimento pelos cumprimentos que continuava recebendo e nela
introduziu a senha para contato sem urgência. À noite, enquanto Mari dormia, veio buscá-lo um
colaborador de Zefir denominado Ulram. Ele mesmo dirigia o veículo. Pouco tempo depois de
iniciarem o deslocamento, surgiu outro veículo em perseguição. Conforme Ulram, não se tratava de
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um guarda florestal. Ele ficou animado com a situação e acelerou o veículo em que estavam.
Demonstrando ter gosto pela disputa, dirigia com maestria, fazendo manobras bruscas e deixando o
perseguidor sempre a uma boa distância. Porém, a perseguição continuava. Urlam persistia em suas
manobras, excitado com o confronto, dando voltas sem se afastar da casa.
-Não quero que ele descubra a direção para a qual nós pretendemos ir. Só vou prosseguir depois
de haver desistência da perseguição.
O tempo passava e a corrida não diminuía. Ulram resolveu mudar de tática. Estreitou a
aproximação e, com súbito movimento, provocou uma leve colisão. O outro veículo sofreu um
desvio e foi se chocar violentamente contra uma árvore. Ulram conseguiu aterrar seu veículo com
danos moderados, porém, deslizando até a beira de um barranco profundo.
-Vamos ficar parados e observar o que ele faz.
Não vendo movimento no veículo adversário, Ulran pegou uma caixinha, igual àquela usada
por Solina e dela retirou o que parecia um pequeno inseto. Soltou-o para voar fora do veículo,
acompanhando numa tela da caixa o que seria a visão do inseto. O vôo de exploração chegou até o
outro veículo. Estava destroçado e o seu ocupante caído e imóvel. O inseto espião pousou sobre o
seu pescoço e o examinou. Urlam manipulou e apareceram alguns sinais junto à imagem. Em
seguida, o inseto voou de volta e foi recolocado na caixinha.
-Pelo visto, não há recuperação para o nosso inimigo. A transmissão que usamos é de curta
distância e não pode ser detectada pelo controle do satélite da segurança. Entretanto, é melhor
sairmos daqui, antes que a guarda florestal nos encontre.
A seguir, Ulran insistiu, sem êxito, em fazer funcionar o próprio veículo. Alberto comentou:
-Não vejo como possa fazer esse veículo andar. A nossa cabine de proteção está bem, porém, o
resto está destroçado.
-Estamos perto da sua casa. Se conseguíssemos deslocá-lo até lá, poderíamos avisar Zefir.
Ficando aqui até ele se dar conta da demora e enviar alguém para nos procurar, corremos o risco de
ser detectados pela guarda.
-Então, vamos a pé. Pode-se avistar daqui a elevação ao lado da minha casa. – Propôs Alberto.
-Sair a pé pela a floresta? Você está louco?
O veículo em que estavam começou a resvalar pela encosta do barranco. Alberto saiu e chamou
seu companheiro. Ele, porém, perdera a coragem e estava paralisado pelo medo.
-Vamos caminhar, qual é o problema? – Alberto insistiu.
-Seremos devorados pelas feras.
Quase ao despencar do veículo pela ribanceira, Alberto puxou-o com força para fora.
-Onde você vê feras? Vamos em frente.
Puxando o tremulante Urlam pelo braço, seguiram rápido entre as árvores. Cerca de meia hora
após, com escoriações, principalmente nos pés, chegaram à casa. Ainda assustado, Ulram pediu que
fosse enviado o seu próprio sinal. Alberto emitiu uma nota sobre a beleza e perigos da floresta na
qual incluiu a senha de Urlam indicando um contratempo. Não precisaram esperar muito para que
chegasse outro veículo com enviados de Zefir, aparentemente armados. Alberto e Urlam
embarcaram, seguindo novamente em direção ao abrigo. Urlam ia contando o ocorrido, ressaltando
a sua coragem em enfrentar a floresta. Zefir os recebeu com evidente preocupação. Feitos os
relatos, ordenou algumas providências.
-Tomem banho e vamos tratar essas escoriações para não deixar sinais que ensejem perguntas
embaraçosas. – Disse Zefir.
Depois de algum tempo, recebeu notícias tranqüilizadoras e comunicou:
-Trata-se de um grupo adversário muito vagabundo. Querem mostrar serviço aos seus senhores,
mas, são incompetentes. Pedi para que recolhessem o nosso veículo, apagassem o seu rastro e
deixassem o deles sem a camuflagem eletrônica. Logo será descoberto pela segurança. Quero ver o
que vão noticiar quando o encontrarem. Podem ficar tranquilos, está tudo controlado.
-Será possível nova sessão de telepatia hoje? – Alberto perguntou.
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-Se estiver disposto, não vamos desperdiçar a sua vinda. Temi que não entrasse mais em
contato conosco. Temos boas notícias. Nossos pesquisadores descobriram no acervo de um antigo
jornal uma nota mencionando a resenha de um livro cujo tema poderia ter algo a ver com as suas
transmissões.
-Há possibilidade de encontrar esse livro?
-É possível, porém, não será fácil. Deve ter sido uma edição pequena. Estamos procurando
novas fontes. O que obtivemos já é uma sinalização importante.
-Admiro o seu empenho.
-As pesquisas telepáticas de rotina constituem o nosso trabalho básico, mas, não queremos
perder a oportunidade de fazer uma pesquisa que pode nos ensinar muito sobre o conceito de
tempo. Soubemos que foi visitado por um pessoal da segurança pública.
Alberto havia se proposto não mencionar o assunto. Ficou surpreso que tivessem conhecimento
sobre os atos da segurança pública.
-É uma situação curiosa. A segurança sabe que existe atividade clandestina e vocês sabem,
ainda mais, sobre a segurança. Há algum acordo entre as partes?
-A coisa é bem mais complexa. De cada lado existem várias correntes. Há legisladores que
defendem muitas posições que são comuns com as dos clandestinos. Parte da atividade a que eu
estou ligado é universalmente aceita. As pesquisas sobre telepatia foram proibidas com estreita
margem de votos. A maioria governamental sabe que, se agir muito energicamente nesse caso, terá
mais prejuízos políticos do que vantagens. Existem radicais de ambos os lados. Há os mais e os
menos ativos. Há inimigos infiltrados como amigos no nosso movimento clandestino. Eles tendem
a sugerir ações ultra-radicais da nossa parte, justamente para nos indispor com a população. Os
nossos agressores no governo recebem secretamente algumas informações de aliados bem
intencionados os quais, porém, disputam a minha liderança e vice-versa. Eu não estou de acordo
com algumas posições de aliados e, alguns deles, com as minhas. É um equilíbrio instável que
ninguém se arrisca romper. Pior do que tudo isso, existe uma organização criminosa muito forte
atuando de forma insidiosa. Ela tem um chefe com grande poder de comando paralelo, conquanto
nem os seus comandados saibam como são controlados.
-As suas pesquisas têm objetivos políticos?
-A minha ambição seria popularizar a telepatia para impossibilitar o controle dos meios de
comunicação. Adicionalmente, demonstrar a possibilidade de telepatia regressiva. Essa
confirmação mudaria profundamente a visão que temos sobre o mundo e a natureza do tempo.
-Eu penso que as pessoas sempre tiveram medo de rever os seus conceitos. Não me admira que
tenham proibido a sua atividade. Vejo que a ciência e a tecnologia avançaram, mas, os temores sem
fundamento continuam impedindo o entendimento entre as pessoas.
Pela primeira vez, pareceu a Alberto que Zefir o olhou com real interesse e curiosidade,
possivelmente surpreso por ele ter dito algo que lhe pareceu inteligente.
-Você percebeu bem. Atualmente, está pior do que há pouco tempo atrás. Quase ninguém se
interessa em expandir os seus horizontes. Todos têm comida e diversão, sem compromisso. Estão
contentes com a vidinha que o Estado lhes garante. São poucos os que se dispõe a fazer qualquer
coisa que exija algum esforço, principalmente pensar. Temos que nos felicitar pela sua boa vontade
em nos ajudar.
-Eu não sei se vale a pena elucubrar sobre isso. Tudo o que me aconteceu é muito louco. De
qualquer forma, sendo-me apontada a possibilidade de comunicação com a minha mulher e o meu
filho, ainda que pareça absurda, simplesmente não posso recusar.
-Eu o parabenizo pela sinceridade. Ainda o convencerei de que não é tão absurda assim.
As escoriações foram tratadas com uma aplicação tópica que escondeu completamente as
marcas. Em seguida, seguiram até o laboratório maior para mais uma sessão de telepatia regressiva.
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-Os que querem prejudicar o nosso trabalho estão muito ativos. Depois de hoje, convém
pararmos por algum tempo. Assim que estivermos seguros, eu aviso para continuar. Zefir externou,
com fisionomia de preocupação.
-A sua idéia mudou quanto à periculosidade dos contrários aos seus experimentos?
-Os que são mais importunos não acreditam que eu obtenha resultados. Talvez, antes, estejam
mais preocupados consigo. Você fará nova entrevista na próxima semana e eles temem que as suas
respostas instiguem ao não conformismo. Detectando-o em um ato ilegal, embora nada possam
fazer contra você por sua condição de tutelado, colocarão em má situação os seus tutores e
desprestigiarão a sua entrevista.
-O que eu posso dizer de tão extraordinário?
-De fato, nada. Mas, tem gente paranóica. Na medida em que cresce a oposição eles vêem
inimigos em toda a parte. Se quiser, pode falar sobre a importância da liberdade de pesquisa, mas,
recomendo que não se estenda sobre os excessos da virtualidade, sobre alienação e fuga da
realidade, ou coisas assim. Causará menos problemas para si e para os seus amigos. Essas opiniões,
embora por si só pouco significativas, tornaram-se mote para os grupos antagônicos que desejam
ser governo e, nas atuais circunstâncias, os que o detém ficam mais unidos e agressivos. Você
entrou no meio de uma briga que não é sua, mas, eles crêem que a pode influenciar.
-Pessoas como Deodéa e os naturistas fazem grandes críticas ao excesso de virtualidade e nem
por isso sofrem tanta perseguição.
-Eles já são conhecidos como adversários tradicionais e não provocam tanto interesse. Você é
um acontecimento novo, o que desperta muita atenção. Os seus pronunciamentos têm impacto
psicológico maior e são estimulantes para o grupo que quer mudanças.
-Nunca imaginaria isso. Não sou contra os recursos virtuais, apenas, parece-me que, sendo
exagerados, ensejam menos contatos pessoais.
-Concordo com isso. Os donos da situação temem mudanças e perda de poder. Quanto mais
todos forem dependentes da tecnologia da comunicação, melhor para eles.
-Eu posso esperar mais alguma notícia do passado?
-É melhor não contar com isso imediatamente. São milhões de fragmentos mal catalogados e as
autoridades não nos facilitam o trabalho.
Alberto se despediu, prometendo ser cuidadoso com o que diria na próxima entrevista. Quando
estava em seu leito, apesar de cansado, o sono não vinha. Ao seu lado, Mari dormia tranqüilamente.
Curioso sobre qual seria a resposta, ele experimentou interferir no sono dela, chamando-a
suavemente. Ela acordou com facilidade e, como sempre, apresentando ótima disposição,
sorridente e provocativa, o que surpreendeu Alberto.
-A sua programação não era para dormir seis horas?
-Sim, desde que você não manifeste o desejo de que eu acorde. A minha programação pode ser
alterada quando você queira. Às vezes, é bom mudar hábitos e horários.
Alberto se deixou conduzir. Mais tarde, meditando sobre a observação de Zefir de que a
maioria parecia estar contente, sem fazer especulações ou ter maiores ambições, ele se perguntava
como agiria se as suas condições fossem outras. Não estaria inclinado a proceder da mesma forma?
*
Embora a contragosto, Deodéa era absorvida pela atividade política e precisou receber a visita
do Conselheiro Isotis. Ele era ligado ao governo, mas, mantinha diálogo com a oposição. Tinha se
iniciado a pouco na política e fazia de tudo para aparecer. Cumprimentou-a e entrou imediatamente
no assunto que fora tratar.
-As votações têm demonstrado algum aumento da simpatia pela oposição. Para mim, não seria
estranhável se dentro de alguns anos vocês chegassem ao governo. É importante para a sociedade
que haja maior entendimento entre as nossas forças políticas. Pode haver divergência, sem
radicalismo.
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-O nosso partido tem praticado isso e, em muitos casos, votado com a situação. Eu entendo a
divergência de idéias e sou capaz de reconhecer quando perco. O que o nosso grupo não pode
aceitar é falta de lealdade e alguns métodos adotados pela situação. Usam os instrumentos do
governo para pressionar, distorcer os fatos e simular situações falsas. Os fins não podem ser
legítimos se os meios não forem corretos. Se o governo sustentar suas opções com argumentos
verdadeiros, assim como nós, terá uma oposição amigável.
-Você sabe que a situação tem várias correntes, assim como a oposição. A minha proposta é
para um entendimento entre as facções moderadas dos dois lados. Estão ocorrendo muitos
acidentes e há suspeitas de que alguns sejam criminosos. A legislação restritiva sobre o
interrogatório de testemunhas impede que a Segurança Pública tenha mais elementos para a
investigação. A lei precisaria ser adequada, mas, há obstrução, inclusive de Conselheiros que
apóiam o governo. Em contrapartida à vossa colaboração, o nosso grupo poderia aprovar mais
recursos para os eventos naturistas.
-Eu ficaria mais motivada com um apoio à revogação das leis que estimulam exageradamente a
vida virtual. Contudo, vou levar o assunto para ser discutido no nosso grupo.
-As leis sobre a vida virtual se baseiam nas recomendações dos pioneiros e têm a finalidade de
impedir que se criem situações como as que levaram ao Armagedon.
-Eu aprovo condutas cautelosas, mas, as circunstâncias mudaram. Temos condições de recolher
automaticamente os detritos, reciclar quase tudo e transportar o que se quiser para fora do planeta.
Utilizamos diretamente a energia solar. Realizamos o controle populacional. Poderíamos ter a
segurança de não degradar, mesmo reduzindo a virtualidade e vivendo em maior contato com a
natureza. Também, não existem mais razões para manter as atuais restrições ao exame de
documentos antigos.
-Não se pode negar que existem questões políticas. Teme-se que, com maior inserção das
pessoas nas realidades do dia a dia, as disputas aumentem. Foi possível satisfazer os desejos de
conforto, saúde, alimentação, diversão, sexo, lazer, mas, não a vaidade humana. Os programas
virtuais que oferecem às pessoas uma ilusão de estarem em situações extraordinárias contentam
essa vaidade. Se muitos procurarem sua satisfação na realidade, não será possível atender àqueles
que têm grande desejo de poder e, conseqüentemente, a paz será perturbada.
-A paz deveria existir para alguma finalidade. Não podemos viver em paz e nada mais.
Entretanto, a investigação dos acidentes nos interessa. O difícil será encontrar uma fórmula para
que não se corra o risco de ações discricionárias por parte da Segurança Pública. Os cidadãos de
bem precisam de garantias, inclusive, contra os agentes do Estado. Voltamos à questão de que
algumas atitudes pouco éticas de setores do governo minam a nossa confiança. De qualquer forma,
manteremos contato sobre isso. Conversar sempre será uma atitude positiva.
Quando Isotis se retirou, Deodéa pensou que, pelo que o conhecia, podia confiar muito pouco
em suas intenções. Apesar disso, concluiu ter agido acertadamente em manter um diálogo e não
rejeitar de pronto a sua proposta.
*
Mais tarde, Deodéa recebeu a visita de Nemato. Ele veio com a finalidade declarada de entregar
alguns pequenos fósseis para serem levados pessoalmente a Delonel.
-Não há pressa, mas, sei que o seu pai gostará de receber este material. Tenho, também, um
pedido a fazer:
Deodéa o conduziu à sala indevassável.
-Aqui podemos falar com segurança.
-Eu sei, já estive aqui diversas vezes com Delonel. – Disse Nemato.
-Meu pai confia em mim, mas, tem excessivo cuidado em me preservar, o que resulta
contraproducente. O meu papel político na oposição fica prejudicado por não saber de coisas que
estão acontecendo às escondidas.
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-Estou ciente da importância do seu papel, substituindo a atividade política do seu pai. Você
deve evitar envolver a nossa atividade clandestina com a sua política ostensiva.
-Um setor da situação, aparentemente moderado, propõe diminuir as restrições nas inquirições
de testemunhas, até para leitura da mente, quando haja suspeitas de crime. Nem todos os
governistas apóiam, pois, controlam apenas parcialmente a segurança. Todavia, eles podem estar
pretendendo mostrar atenção às críticas públicas de ineficácia contra os criminosos, deixando-nos
na defensiva por não aceitar. Qual é a sua opinião?
-De fato, a proposta tem apelo público, mas, a sua aprovação seria muito perigosa. O
Conselheiro Isotis está tomando posições dúbias e vocês não devem apoiá-lo. Eu penso que seria
aceitável se houvesse a criação de um sistema de fiscalização onde uma oposição confiável tivesse
poder de veto. Não se pode contar com a isenção da segurança nas investigações. Os governistas
dificilmente aceitarão a proposta de um grupo neutro no controle.
-Essa é uma excelente idéia. Seria uma plataforma para sustentar publicamente nosso apoio, em
tese, porém, desconfiando das intenções do governo. Você ia me fazer um pedido?
-Estou constrangido, mas, preciso fazê-lo. Trata-se de Damian. Ele era o mais importante
técnico da Prius, empresa que fabrica bonecos-companhia. Mexeu com alguma coisa que desgostou
alguém e a empresa foi pressionada a demiti-lo. Ele montou uma pequena loja de concertos e,
inclusive, faz alguns trabalhos para o nosso grupo. Sofreu ameaças e a exigência de que se
afastasse para longe. Nós o escondemos provisoriamente, porém, o lugar não é seguro. Esta casa
tem dependências para hóspedes e poderia abrigá-lo. Ele ficaria isolado para trabalhar, sem ver
ninguém, apenas com seu equipamento, um computador e um sintetizador. Daríamos um jeito para
fazer chegar até aqui algum material que desejarmos que examine.
-Eu preciso saber mais. Quem é o nosso grupo? Que trabalho ele faz? De onde vêm as
ameaças?
-Não comente com ninguém o que eu estou falando e evite dizer qualquer coisa sigilosa fora de
salas protegidas. Há vários grupos agindo nas sombras, com boas e más intenções. O mais
perigoso, cujo chefe é chamado de Mono, pretende ter o controle absoluto das informações. Ele
tem muitos vassalos que não relutam em praticar delitos e até assassinatos para lhe serem
simpáticos. Nada mais convém que eu lhe diga. Continue a fazer o seu partido crescer.
Infelizmente, por enquanto, quanto menos se falar sobre isso, melhor será. Eu apenas posso lhe
dizer que Damian é amigo do seu pai e que ele faria muito gosto em protegê-lo.
-Esta casa é do meu pai. Sei que ele confia completamente em você. Sendo assim, eu não posso
negar. Vou aceitar sob protesto e direi isso a ele.
-Esteja certa de que não lhe pediríamos se não fosse absolutamente necessário. Damian deve
ficar isolado. Ninguém deve saber da sua existência, nem o boneco-companhia.
Embora estivesse descontente, Deodéa aceitou o hóspede em sua casa, designando-lhe um
apartamento isolado.
14 - A FESTA
Passados poucos dias, Leneu abordou com Alberto as oportunidades para conhecer mais sobre
os costumes do seu novo mundo.
-Surgiu uma boa ocasião. Deodéa irá realizar uma reunião festiva em sua residência. Ela me
pediu para convidá-lo.
-Será uma reunião como aquela em sua casa? – Perguntou Alberto.
-Bem maior e bastante diferente. Haverá muita gente e várias atrações. As pessoas costumam se
maquiar e usar fantasias, quase sempre imitando modelos de épocas passadas. Alguns levam seus
bonecos-companhia e se comportam de modo não convencional. Você poderá se sentir
constrangido por alguma irreverência. Todavia, se deseja apreciar todas as nuances do mundo atual,
será um momento oportuno.
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-Fico com muita vontade de conhecer.
Alberto se dirigiu à Mari.
-Você gostaria de ir?
-Você sabe que o meu gosto é vê-lo satisfeito. Para mim, tanto faz. Entretanto, creio que seja
conveniente Leneu lhe explicar como é o comportamento de alguns nessas festas.
-Nada impede que ela vá. Porém, provavelmente, você será novamente monopolizado com
perguntas. Ela estaria sozinha e, naquelas circunstâncias, não seria adequado exigir que uma
boneca-companhia deixasse de atender aos pedidos de outros convivas. Provavelmente,
considerando as suas características especiais, seria bastante assediada. Não sei se você já está com
preparo psicológico para aceitar isso naturalmente. Por enquanto, não creio que levá-la seja uma
boa ideia. – Interveio Leneu.
-Fiquei ainda mais curioso sobre essa festa. Quando será realizada?
-Amanhã à noite. Se quiser, eu virei buscá-lo.
-Se você puder, ficarei agradecido. É desagradável chegar a um lugar cheio de gente e não
conhecer ninguém.
-Você conhece Deodéa. Gosta dela?
A pergunta de Leneu se acompanhou de um sorriso que pareceu a Alberto algo malicioso,
fazendo-o suspeitar de alguma significação oculta.
-Sim, ela já me levou para conhecer alguns lugares interessantes. Parece ser sincera em suas
opiniões.
-De fato, assim é. Ela lhe dará atenção.
-Você me pareceu não apreciar o encontro do Movimento Naturista. Vê algum problema?
-Há tempos eu, até, participava dele. O que me deixa insatisfeito é ver o Movimento
transformado, apenas, em um campo de lazer. Ademais de sentar na grama e conversar à toa, não
tem outras atividades. Quais são as suas propostas políticas?
-Não sou eu quem deve saber. Para mim, estimular o contato com a natureza é algo meritório
por si só. Você tem algum programa previsto para hoje?
-Precisamos de exercício. Quanto esporte você tem praticado ultimamente?
-Nem tanto quando deveria.
-Que tal se exercitar um pouco? As atividades virtuais podem não ser totalmente inúteis. Elas,
também, facultam desenvolver o físico. Algumas brincadeiras, além de divertidas, são
interessantes. Você já praticou atividades virtuais com superpoderes?
-Como é isso?
-É só pedir para ter superpoderes, tais como voar, ter grande força e velocidade e sair pelo
mundo com a sensação de ser um super-homem. Vamos lá?
Alberto concordou, eles colocaram os trajes especiais e solicitaram super poderes. Alberto se
viu vestido com uma tanga colorida, tendo a sensação de possuir grande força por causa da
facilidade com que podia se movimentar. Leneu, ao seu lado, disse a ele que o seguisse e se elevou
no ar. Alberto acompanhou, percebendo espontaneamente que podia controlar sua velocidade e
direção. Eles voaram a grande velocidade sobre florestas, mares, montanhas e cidades, em diversas
regiões. Explorando essas habilidades, Alberto descia e subia, percorrendo todos os recantos.
Depois de largo tempo, Leneu diminuiu o ritmo e perguntou se ele desejava continuar ou parar.
-É uma experiência sensacional, mas, prefiro parar.
Ordenaram ao programa e, imediatamente, estavam de volta à realidade na sala de esportes.
-Apesar dos superpoderes, eu estou muito cansado. - Alberto comentou.
-Os nossos movimentos aqui na sala são reais, apenas o efeito virtual é exagerado.
*
Albert e Leneu voltaram à área de estar, Mari informou haver um pedido do oficial de
segurança pública Cliolan para uma visita à tarde. Desejava ter uma conversa extraoficial. Leneu
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recomendou a Alberto atendê-lo, mas, só responder o que desejasse e aquiesceu em estar presente.
Depois do almoço, receberam Cliolan. Ele se apresentou sério, trazendo uma maleta na mão.
-Este equipamento bloqueia a sua ligação com o computador central, fazendo uma conexão
direta com o seu sistema de comunicação. Desse modo, poderemos conversar com mais segurança.
Apesar dos sistemas de proteção, há espiões muito sofisticados. Eu venho para pedir para que
colabore conosco.
-No que estiver ao meu alcance.
Leneu interveio:
-Como tutor, eu devo prevenir Alberto para que nada diga que possa ser comprometedor para
alguém, sem antes ouvir a sua acessoria jurídica.
-Não se trata de um depoimento formal. Posso saber qual seria a sua opinião com relação a um
movimento subversivo, o qual, apregoando intenções libertárias, promove atos destinados a
derrubar um governo eleito democraticamente?
-A minha formação é favorável à democracia. Acredito que quaisquer pretensões de mudanças
nos governos devam ser encaminhadas pela razão, com meios pacíficos, através do convencimento
das pessoas.
-Se fosse procurado para um contato clandestino com um pesquisador denominado Professor
Zefir, cuja real identidade nós desconhecemos, você nos procuraria para testemunhar?
O pedido apanhou Alberto de surpresa. Ele meditou um pouco antes de responder.
-Eu pensei que o meu depoimento fosse versar sobre o que eu falei com respeito ao meu antigo
mundo e as reações que provocou por parte de algumas pessoas. Embora ele tenha desaparecido há
muito tempo, o meu testemunho têm gerado ameaças. Parece que tudo o que eu digo pode ter
interpretações, para mim, imprevistas. Eu gostaria de colaborar, mas, conheço pouco sobre os
costumes atuais. Não sei quais são as implicações de uma opinião hipotética. Devo consultar a
minha assessoria jurídica, pois, temo que um depoimento dado à segurança, mesmo
extraoficialmente, possa resultar em problemas que eu não sei avaliar. Eu preciso me informar mais
sobre as leis, antes de dar qualquer resposta formal.
-Poderia confirmar extraoficialmente se houve alguma tentativa de contato?
-Tentativa de contato é algo muito vago. Por qual meio? Uma conversa circunstancial com
alguém poderia, sem que eu soubesse, ser considerada um contato. Fazer declaração a um oficial da
segurança pode implicar em compromissos que eu não estou em condições de assumir. Havendo
alguma coisa sobre as ameaças que recebi, gostaria de saber. Insisto em só responder sobre outros
assuntos se assim o recomendar a minha assessoria jurídica.
-Não precisará consultar a sua assessoria jurídica. Eu posso informá-lo de que, na condição de
tutelado, não poderá ser convocado para depor. Os advogados sempre acham melhor se isentar.
Teríamos que contar com uma iniciativa espontânea da sua parte. Seria muito útil ao Estado. O
Professor Zefir está ligado a pessoas perigosas que desejam a desestabilização social. Falou
Cliolam, com uma expressão de contrariedade.
-Lamento, mas não posso auxiliá-lo. Ainda mais, desconhecendo a origem das suspeitas que o
trouxeram até a mim. Por certo, encontrará outros meios para obter o que deseja saber.
-Muito bem. Não posso obrigá-lo, mas, se mudar de idéia, por favor, contate conosco.
Assim que o oficial se retirou, Alberto pediu uma opinião sobre a resposta que deu com relação
às perguntas feitas.
-É uma decisão que você tem o direito de tomar e sobre a qual eu não devo interferir. – Disse
Leneu, mostrando-se cauteloso.
Mari permanecera presente. Alberto não pedira que saísse e o oficial da segurança observara
com agrado a sua presença. Havendo justificativa, a sua memória poderia ser requisitada, o que era
interditado para com as pessoas naturais.
-Qual é a sua opinião Você acha que eu agi com acerto? Alberto perguntou para ela, em tom de
brincadeira.
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-Pelo que eu tenho lido, alguns oficiais da segurança tomam, freqüentemente, atitudes
personalistas e ilegais com o objetivo de se projetar perante os seus superiores. A minha conclusão
é a de que você tenha agido corretamente.
A competência para apresentar uma resposta tão pertinente causou admiração. O próprio Leneu
manifestou a sua surpresa.
-A sua boneca-companhia, além de bonita, tem conhecimento e opinião. É uma coisa rara.
Estou sujeito a mudar alguns dos meus conceitos. - Comentou bem humorado.
-Sou um produto de última geração. As especificações que vocês fizeram sobre o meu
temperamento demandaram bastante trabalho aos meus construtores. Se as minhas atitudes lhes
agradam, devem se sentir orgulhosos, pois, resultam das escolhas que fizeram.
-Acredito que, de fato, não tenha sido fácil equilibrar um arquivo com tantas informações,
capacidade de apreciação do contexto em que estão inseridas e senso de oportunidade para intervir.
Independentemente de quem seja o mérito, desejo parabenizá-la. Agregou Leneu.
Havia um pedido para comunicação de Melior. Autorizado o contato, apareceu a sua imagem
demonstrando satisfação.
-Tenho o prazer de informar que poderemos fazer nova entrevista na próxima semana. Houve
algumas dificuldades com as autoridades para liberação. Diziam que desejavam protegê-lo. Na
verdade, estão ciumentos pelo sucesso. Eu tive que fazer algumas pressões e ameaçá-los, mas,
agora está liberado. As condições econômicas são as mesmas propostas para a entrevista anterior.
Você está disposto?
-Pelo que me consta, os recursos que obtive já seriam suficientes para me sustentar por toda
vida. Ainda assim, farei com prazer. Foi gratificante ter contato com diversos tipos de pessoas. –
Respondeu Alberto.
-Recursos nunca são demais. Verá isso quando quiser fazer qualquer empreendimento. Eu já
tomei algumas providências para a entrevista. Pela minha experiência, na segunda apresentação as
perguntas costumam ser mais contundentes e indiscretas. Espero que você tenha preparo para
agüentar.
-Não haverá problemas, desde que eu possa dar as respostas que julgue apropriadas, mesmo não
satisfazendo a quem perguntou.
-Nunca agradará a todos. Apenas evite ser ofensivo ou admitir coisas que não lhe convenham.
Faça como os políticos quando não querem falar sobre um assunto: estendem-se num preâmbulo e
finalizam respondendo sobre assuntos que nada têm a ver com o que foi perguntado.
-Captei a mensagem. Pode encaminhar o contrato.
Melior se despediu bem humorado, demonstrando estar gratificado pela aceitação.
-Se eu já tenho recursos para todas as necessidades, o que posso fazer com os novos ganhos?
Doar para alguma entidade beneficente ou algo assim? - Alberto perguntou a Leneu.
-Poderá ser feito, desde que encontre alguma atividade que julgue merecer. O meu conselho é
para esperar e se informar bem antes de qualquer decisão, tendo cuidado para não ser enganado. As
suas necessidades vitais estão sendo atendidas pelo governo. Não precisa ter pressa. Mais adiante,
você poderá desejar desenvolver um projeto próprio que demande recursos vultosos.
-O que você faria, se os recursos fossem seus?
Leneu pensou um pouco antes de responder.
-Eu organizaria um instituto de literatura e lingüística. Você poderia criar um instituto de
documentação de textos antigos.
-Por que não um instituto voltado para a lingüística de documentos antigos?
Leneu deu uma sonora risada.
-É uma boa idéia. Apesar de tudo, o interesse pela cultura não está totalmente morto. Há
mercado para informações especializadas sérias. Sugiro que pense bem. Uma decisão dessas poderá
ter grande impacto na sua vida.
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Após Leneu se retirar, Alberto ficou meditando sobre como os acontecimentos se haviam
precipitado, independentemente da sua vontade. Nunca fora seu feitio fazer segredo. Agora, era
levado a nada mencionar, nem mesmo ao seu amigo Leneu, com respeito a Zefir ou à perseguição
que sofrera, a qual resultou em acidente e morte do perseguidor. Fazia-lhe mal não discutir com ele
esses fatos, mas, não desejava torná-lo cúmplice de uma atividade considerada ilícita, a qual só
dizia respeito aos seus sentimentos de ligação com o passado.
Havia sido solicitado à empresa Prius para construir a boneca-companhia com programação
para colher informações em todas as fontes possíveis. Alberto constatara que Mari podia fornecer
resumos de conhecimentos úteis e era capaz de formar conceitos, melhores do que obteria ouvindo
apenas as versões oficiais dos fatos. Suas observações eram mais pertinentes do que as de algumas
pessoas que havia conhecido. Comentou isso e ela respondeu sorridente, simulando orgulho:
-Os bonecos-companhia da minha categoria relacionam as informações conflitantes, verificam
a credibilidade das fontes e a probabilidade de acerto, cotejando com situações anteriores. Os seus
pareceres são menos emotivos porque têm base estatística e, em muitas situações, podem ter mais
acertos do que os humanos. A maioria das pessoas não se dispõe a pesquisar a pertinência e
alternativas para as informações que recebe, contentando-se em reproduzir as opiniões mais
difundidas pela mídia.
-No passado, algumas histórias futuristas imaginavam uma revolta dos robôs contra os
humanos.
-Isso só ocorreria se a nossa programação conduzisse a esse comportamento. Os programadores
não são, assim, tão tolos. A fabricação é submetida a uma severa legislação e fiscalização
internacional.
-Qual é a sua curiosidade? Ou melhor, como você dirige o seu interesse no aprendizado?
-A palavra curiosidade se refere a sentimentos e motivações humanas. Estou programada para,
sempre que não me seja dado outro compromisso, procurar e confrontar dados e informações em
fontes alternativas, seguindo uma seqüência lógica que leva em consideração as demandas a que
tive contato anteriormente e as últimas notícias.
-Desculpe-me insistir. O que você percebe como sendo o seu objetivo?
-Peço licença para catalogar como engraçado o seu pedido de desculpas, embora saiba ser,
apenas, um hábito. A prioridade na minha programação é dar satisfação a quem me adquiriu, até o
limite de não causar prejuízos indevidos e graves a outras pessoas.
-Disseram-me que algumas pessoas tratam mal os seus bonecos-companhia. Como seria a sua
reação se eu a tratasse mal?
-Há pessoas sádicas que se sentem fortes provocando mal aos outros. No caso dos bonecos, o
mal fica exclusivamente com essas pessoas. Conforme a minha programação, eu acumularia cargas
negativas, o que resultaria em demonstrações de contrariedade e menos iniciativas favoráveis.
Todavia, não iria desenvolver reações similares às provocadas pelos sentimentos humanos, como o
desejo de vingança. Continuaria a atender todas as ordens, embora o humor demonstrado nas
respostas pudesse ser diferente.
-Parece um perfil de nobres princípios encontrados em servos medievais.
-É diferente porque tais pessoas agiriam por necessidade, ou mesmo por princípio, contrariando
suas reações naturais espontâneas. Para mim não significaria nenhum esforço.
-Tenho dificuldade em reconhecer que seja assim tão fria.
-Como anteriormente já lhe havia dito, a menos que você peça o contrário, eu estou programada
para não mentir. O que você chama de frieza é a característica pela qual existe interesse em adquirir
um boneco-companhia. Os seres humanos naturais reagem com raiva ou desprezo quando se
sentem contrariados. Alguém pode causar desgosto, mesmo sem desejar ou se dar conta, fazendo o
outro se sentir ofendido e responder com agressão. Enquanto isso, você sempre poderá confiar em
um comportamento favorável da minha parte. Porém, eu tenho o compromisso de adverti-lo que
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será mais satisfatório para você esquecer toda essa explanação sobre bonecos-companhia e fazer de
conta que sou uma pessoa inteiramente natural.
-Você tem razão. Se eu voltar a abordar esse assunto, lembre-me logo do meu propósito de
evitá-lo.
A conversa era séria, mas fluía em tom leve, com gestos carinhosos e brincadeiras. Alberto
concluiu:
-Em qualquer situação, quem pode saber onde começa e termina a fantasia?
*
Logo que chegou pela manhã, Leneu perguntou:
-Está pronto para ir à festa de hoje à noite?
-Gostaria que você escolhesse para mim o traje adequado.
-Podemos escolher juntos.
-O seu grupo de amigos deve ser considerado representativo da sociedade em geral?
-Não, absolutamente. Os que estavam na reunião em minha casa se consideram parte de uma
elite, não econômica, porém, intelectual. Há em nosso grupo divergência de posições. Temos em
comum sermos ligados a academias, associações e outros movimentos que se interessam em
discutir alternativas para o mundo atual. Nisso eles são diferentes da maioria da população que
apenas desfruta a sua vida, aparentemente, está contente e não cogita que possam existir outros
caminhos. Deodéa é mais politizada, vem de uma família que sempre foi ligada de alguma forma
ao poder. Ela mantém relações bem amplas. Na festa de hoje, haverá pessoas de todos os tipos.
-Quais são as restrições legais com relação aos movimentos divergentes, como os que
propugnam por menos atividade virtual?
-Oficialmente, não existem. Todavia, devido à acomodação da maioria, predomina uma posição
contrária a mudanças e, conseqüentemente, desinteressada de novas propostas. Entretanto, isso tem
mudado um pouco e aumentado o número de representantes dessas correntes no Conselho. Há
grupos conservadores radicais que não relutam em realizar, na clandestinidade, ações ilegais. Há
outros grupos clandestinos que os combatem. Os primeiros são mais tolerados pela maioria
governista. Não sei se é correto da minha parte preocupá-lo com essas questões. Como tutelado,
você não vota e nem deve se envolver em política.
-Acontece que essas questões estão me afetando muito diretamente. Creio que não seja proibido
me fornecer informações de natureza política.
-Isso não, pelo contrário, é muito desejável. Apenas, eu tenho que ser neutro e não influenciá-lo
politicamente, o que nem sempre é fácil.
-Como será a reunião de hoje?
-É uma reunião festiva, com pessoas conhecidas de Deodéa. A casa, herança da família, é
grande, com várias salas e pátios muito acolhedores. Ela mora na ala residencial e, às vezes, aluga a
parte social para festas. Hoje, ela mesma está promovendo. Os freqüentadores são pessoas de
elevada representação, mas, devo preveni-lo de que é comum alguns usarem psicoestimulantes e se
descontrolarem. Há os que se acompanham de bonecos-companhia de todos os tipos e os trocam
reciprocamente, fazendo cenas oníricas. Desde que não haja mortos e feridos, tudo é considerado
normal. Deodéa, porém, é mais conservadora e deve tê-los advertido para não o bombardearem
com perguntas. Algumas atitudes e inconveniências poderão lhe causar desconforto. Não se
preocupe, basta se afastar de quem o incomoda. Não é de bom tom perseguir quem não quer
participar de algo.
-O que você costuma fazer nestas festas?
-Eu já as apreciei mais. Atualmente, só as freqüento por obrigação. Em geral, fico conversando
tranqüilamente com um pequeno grupo.
-Provavelmente, será isso o que eu irei fazer.
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-Virei buscá-lo logo mais à noite. Quando desejar voltar para casa, basta me comunicar e eu
tomarei providências para deixarmos a festa. Deodéa sabe que você tem poucos conhecidos.
Certamente lhe dará mais atenção.
Mais uma vez, Alberto percebeu um sorriso maroto e se perguntou qual a sua significação:
-Você acha que ela está preocupada com o meu desempenho social?
-Já pudemos comprovar que você sabe se comportar. Não se trata disso. Eu conheço Deodéa
desde criança e me causa curiosidade o quanto ela se preocupa consigo.
Na parte da tarde, Alberto pediu a Mari que o acompanhasse num passeio virtual mais distante.
A partir da área de esportes, andaram virtualmente pelas superfícies dos planetas Marte e Vênus.
Sem sentir a inclemência dos seus climas, observaram as construções feitas pelos exploradores.
Depois, foram banhar-se em uma cachoeira isolada. Alberto teve a experiência de namorar
virtualmente em um ambiente rupestre, embora, às vezes, advertisse a si mesmo ser tudo um
mundo de fantasia.
*
As festas de Deodéa eram preparadas para agradar a todos os gostos. Serviam, principalmente,
ao seu relacionamento político. Desta vez, porém, o interesse maior de Deodéa era outro.
A agente organizadora deixara tudo preparado. Contava com bonecos e bonecas-companhia
para todos os serviços. Na hora aprazada, Deodéa iria receber os convidados, dando as boas vindas
e indicando para se acomodarem nas várias dependências da parte social da casa ou no seu grande
jardim. Haveria diversas apresentações com músicos e outras atrações. Em algumas salas haveria
apenas conversação tranqüila. Em outras, com o passar do tempo, o ambiente lembraria as antigas
orgias romanas. Ela convidava amigos, correligionários e outros nem tão próximos, a quem
desejava conquistar. Costumavam usar fantasias, com trajes de épocas antigas, incluindo perucas,
maquiagem e vestuário variado. Como anfitriã, ela costumava se vestir discretamente. Entretanto,
para esta ocasião, decidiu apresentar um visual mais ousado, vestindo um modelo do tipo
melindrosa, com muito brilho.
-Faz tempo que você não oferecia uma festa assim. Alberto virá? – Perguntou Madra, com um
sorriso.
-Acredito que venha com o Leneu.
-Está bonito o seu modelo de vestido. Por certo, ele irá gostar.
*
Leneu apareceu na casa de Alberto com algum atraso sobre o horário indicado. Desculpou-se,
dizendo que seria melhor chegarem quando a festa já houvesse começado. Os convivas estariam
entretidos e não os perturbariam. Trouxe uma maleta dentro da qual havia roupas.
-As pessoas irão à festa com roupas características de épocas. Eu trouxe roupas e sapatos do seu
tempo para nós. Veja se lhe agrada.
Colocaram terno, camisa, gravata, meias e sapatos feitos por medida, conforme encomenda.
Eles ficaram perfeitamente ajustados.
-É estranho como já perdi o costume de usar estas roupas.
-A mim parece que ficamos muito elegantes.
Enquanto seguiam no módulo de transporte, Leneu informou:
-A casa de Deodéa pertenceu ao seu avô, antigo Presidente do Conselho Nacional. Agora
pertence ao seu pai, mas, ele está fora. Apesar de que o seu partido esteja na oposição, as suas
festas recebem políticos de todas as correntes. Sugiro que fique próximo a mim para evitar
contratempo com algum conviva impertinente.
O módulo contornou a parte central da cidade até chegar à região das mansões governamentais.
Aproximou-se de uma grande residência cujos portões se abriram automaticamente. Desceram e
percorreram um jardim onde estavam grupos de pessoas e alguns cervos.
-Estes animais vivem aqui? - Alberto perguntou.
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-São robôs. Você não os distinguiria dos naturais. Animais de verdade só existem em campos
isolados e florestas protegidas. Eles são vistos pela população apenas virtualmente. Até os animais
expostos em jardins zoológicos são robôs.
Caminharam pelo pátio de entrada da mansão, passando por grupos de pessoas que
demonstravam alegria. Algumas abanaram em cumprimento. Ao invés das tangas, às quais Alberto
já se acostumara, vestiam roupas de épocas passadas. Seus rostos estavam maquiados, simulando
os formatos, os narizes e as peles características de diversas etnias, tal como atualmente não se
encontrava mais.
*
No saguão de entrada, Deodéa os cumprimentou efusivamente. Usava peruca com cabelos
soltos, roupa, colar e adereços de época, tais quais os de uma melindrosa. Mantinha os traços
originais do rosto, porém, a pintura dos lábios, dos olhos e da face era igual às do mundo pregresso,
conhecido de Alberto. O visual o surpreendeu e ela lhe pareceu muito bonita.
-Permita-me lhe dizer que estou impressionado com a sua aparência. Você faria sucesso,
também, na minha época.
-É muito simpático da sua parte. Estou lisonjeada. Vocês também estão muito charmosos com
estes trajes. Peço que continuem juntos enquanto atendo outros convidados. Mais tarde, eu gostaria
de conversar com Alberto.
Eles caminharam entre os convivas a quem eram servidas bebidas e iguarias por bonecoscompanhia de ambos os sexos. Distinguiam-se das pessoas naturais por manter o uso de tangas
com cinto vermelho e pela atitude obsequiosa. Havia várias salas contíguas onde se haviam
formado grupos. Alguns conversavam, outros assistiam a um programa de notícias. Alberto se
deteve para prestar atenção à notícia de que um veículo, provavelmente da guarda florestal, havia
sofrido colisão com uma árvore e ficara semi destruído. O corpo do ocupante estava desaparecido,
conjeturando-se que fora devorado pelos animais da floresta. Alberto reconheceu a imagem do
veículo que o perseguira e riu consigo mesmo da história sobre o corpo ter sido devorado por
animais. Seguramente, os que o encontraram não desejaram comunicar a verdadeira identidade do
ocupante. Em outra sala, de forma estridente, um conjunto tocava estranhos instrumentos enquanto
todos cantavam embriagados. Passando uma ante-sala que lhe permitia algum isolamento, havia um
salão de orgias. Homens e mulheres com fantasias e maquiagem, ou mesmo sem, dançavam sobre
ombros ou se enlaçavam entre si e com maior número de bonecos-companhia de ambos os sexos,
apresentando toda diversidade de cabelos, traços étnicos, idades e cores. Alguns desses bonecos
vestiam apenas o cinto vermelho e tinham o corpo todo pintado com desenhos fantasiosos.
-Se deseja fazer parte dessa bagunça, é só entrar e participar. Ninguém irá estranhar, nem
perguntar nada. - Comentou Leneu, com um sorriso malicioso.
-Parece divertido, mas, não me sentiria confortável.
Seguiram até uma sala menor onde um grupo conversava. Alberto reconheceu alguns que
estavam na casa de Leneu. Feitos os cumprimentos, eles sentaram e se integraram à conversação do
grupo. Logo, Alberto se tornou o centro das atenções, respondendo amistosamente às perguntas de
praxe. Todavia, um cidadão que ele nunca vira antes de nome Polácio se expressou de forma pouco
amistosa.
-Há divulgação de que irá dar outra entrevista. Deve ser difícil se expor a um público tão
grande sem cometer alguma gafe. A preparação é muito cansativa?
-Não creio que deva fazer alguma preparação. Seria impossível imaginar o que vão querer
perguntar. Responderei com naturalidade, contando com que sejam benevolentes.
-Qual é o seu objetivo? Dizem que a sua entrevista anterior foi muito lucrativa.
-Eu fui bem acolhido e tenho recebido tanta consideração que não há como recusar retribuir do
único modo que posso, satisfazendo a curiosidade de quem deseja conhecer o que eu tenha a dizer
sobre o mundo em que vivia. Fui remunerado, mas, ainda não sei avaliar o que significa.
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-Falar em rede internacional é uma responsabilidade. É preciso ser cuidadoso em reprovar os
recursos virtuais. Há pessoas que podem explorar politicamente as suas respostas.
-Espero que sejam compreensivas para o fato de que eu nada entendo sobre a política atual. As
minhas respostas devem ser apreciadas apenas com a curiosidade que desperta ouvir o que diz
alguém de uma antiga cultura.
-Deveria ser assim, mas, há aqueles que tomam por regra tudo o que tem repercussão. O fato de
saber que a explanação está sendo escutada e comentada internacionalmente faz convencer aos
tolos de que há um consenso universal sobre o que é dito. São os eternos descontentes, ativistas do
naturismo. Se lhes for dito que as coisas já funcionaram de modo diferente, passam a querer que
tudo seja mudado, da forma como é sugerido. - Continuou Polácio, com um tom acusatório
desagradável na voz.
-Os defensores do naturismo não são responsáveis pelas sabotagens atuais. Considerando a
condição de tutelado do Alberto, haverá um fiscal da segurança pública designado pelo grupo tutor
monitorando as perguntas para evitar que ele seja colocado em situação constrangedora. - Leneu
interveio.
-Ele poderia fazer mais, para agradecer a acolhida, admitindo que, pelo modo como agiram no
passado, os seus contemporâneos provocaram as catástrofes. Melhor ainda, se reconhecer que no
mundo atual a natureza é protegida da depredação, as pessoas podem se relacionar usando o
progresso da tecnologia e uma vida prazerosa é acessível a todos. – Polácio insistiu.
-Honestamente, ainda não estou em condições de fazer qualquer julgamento sobre o mundo
atual. Entretanto, pude perceber algumas coisas negativas, como pessoas que, mesmo tendo acesso
a uma vida prazerosa, são amargas e pouco cordiais. De qualquer forma, devo agradecer pela sua
observação. Terei o cuidado de tentar evitar que a minha entrevista seja motivo de interpretações
negativas. – Alberto revidou.
As pessoas ao redor riram, demonstrando ter entendido o retruque.
-Se ouvir que você pretende ser demasiadamente cuidadoso, nosso amigo Melior vai ter um
choque. O pessoal do entretenimento vive de controvérsias. É o que as pessoas gostam e o que
anima um show. - Ponderou Leneu, em tom de brincadeira.
Polácio viu que estava em minoria e preferiu se calar. Quase todos desejaram manifestar a sua
opinião sobre o papel das entrevistas. De modo geral, foram favoráveis.
*
A festa transcorria agitada, com os participantes tomando os seus coquetéis de forma
descontraída. Deodéa procurou pelo Conselheiro Manevan e, ao cumprimentá-lo, mostrou-lhe
displicentemente a mão onde havia escrito a senha que o seu pai lhe dera. Constatando que ele
havia percebido, foi apagá-la. Ela havia cumprido um dos seus objetivos para a festa.
Em seguida, ela foi em direção a Alberto. Entrou na saleta acompanhada de outras pessoas e de
uma boneca-companhia portando um bolo encimado por uma tocha chamejante. Cumprimentou-o,
dizendo saber que a data tinha correspondência aproximada com a do seu aniversário. Abraçou-o,
seguida por todos os que estavam próximos, exceto Polácio que se esgueirou para outra sala.
Provaram o bolo e, em seguida, ela o convidou para uma conversa particular. Seguiram,
atravessando espaços onde as pessoas conversavam em atitude mais circunspeta. Alberto não
deixou de notar que, em uma pequena sala, pelo menos três convivas usavam cintos pretos.
Acompanhou Deodéa até a ala residencial da sua mansão. Atravessarem um pequeno corredor e,
logo, não escutavam mais nenhum ruído vindo da área social. Entraram numa saleta decorada com
móveis de estilo antigo e sentaram frente a frente.
-Espero que os meus convidados não o estejam perturbando demais com as suas perguntas. O
que você achou deste tipo de festa?
-Com certeza, está animada. A maioria dos seus convivas se mostra simpática. Embora prefira
reuniões mais tranqüilas, eu não desgosto apreciar toda esta energia. Fiquei sensibilizado pela
lembrança do bolo de aniversário.
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-Para que veja que nem tudo é frieza nas relações atuais. Eu também prefiro reuniões menores,
mas, as festas grandes são assim. Não posso policiá-los. Acontece que, tendo ficado com esta casa
que há muito tempo é da minha família, tenho o compromisso de utilizá-la. Já quiseram
transformá-la em museu.
-Ficou com obrigação de dar festas?
-Quase. As festas me dão prestígio e, alugando algumas vezes a ala social da casa, ganho o
suficiente para sustentá-la. Nessas ocasiões, eu quase nunca compareço. A ala residencial é
confortável e sempre muito tranqüila. Tem um jardim menor nos fundos. Quando não há festa, o
grande jardim da frente oferece recantos muito agradáveis. Atualmente, é difícil encontrar um
espaço como este para morar.
-Realmente, parece um palácio antigo do mundo que eu deixei. Só me espantou ver os animais
robô. Também, assisti a pouco a notícia de acreditarem que uma pessoa acidentada na floresta tinha
sido totalmente devorada pelas feras. As florestas são, assim, tão perigosas?
Deodéa riu desdenhosamente.
-Naturalmente, existem animais selvagens na floreta. Hoje, as pessoas só conhecem animais
artificiais. Há um medo atávico injustificado. Essa história está muito mal contada.
Alberto ficou satisfeito em verificar que Deodéa não acreditava naquilo. Ele se indagou sobre o
conhecimento geral das pessoas a quem se dirigia a notícia. Era algo que lhe provocava
curiosidade. Para chegar a uma resposta ainda teria que esperar.
-Quem é aquele senhor Polácio? Ele me pareceu estar demais preocupado com a possibilidade
de que, na próxima entrevista, eu fale alguma coisa contra a virtualidade e o modo de vida atual.
-Não se preocupe. Ele não tem maior influência. Apenas repete coisas que ouve. Desde que
você não seja grosseiro, o que não é, pode falar tudo o que quiser. Não se pode agradar a todos.
Estão aqui alguns Conselheiros. Depois, gostaria de lhe apresentar Belário. Nossas idéias
divergem, mas, ele é uma pessoa tratável e manifestou o desejo de conhecê-lo.
-Disseram-me que você tem muito prestígio político. Isso é verdadeiro?
-Minha família é de políticos. Herdei alguma influência do meu pai que foi Conselheiro e,
atualmente, está fora. Fui convidada diversas vezes para me candidatar a cargos de governo, porém,
nunca aceitei. Prefiro apoiar movimentos e pessoas que penso merecer. Por exemplo, Leneu
desejou muito ser o seu tutor e eu me empenhei para que ele fosse designado. Se os governistas
soubessem quanta importância você alcançaria, talvez eu não conseguisse. O naturismo tem
opositores e dificuldades para realizar as suas reuniões. Eu e outros simpatizantes tivemos que
trabalhar muito para conseguir um lugar adequado para o último encontro. Depois, os contrários
conseguiram anular a licença, mas, o principal já havia acontecido. Há ainda outros movimentos
menores aos quais eu me dedico, todavia, a minha influência é limitada. Essa é a minha atividade
diária, fora o meu apreço por leituras históricas.
-Simpatizo com pessoas realizadoras. É bom quando colocam o seu prestígio a favor de causas
corretas.
-Quais são os seus planos para o futuro?
-Quanto a isso, não sei responder. Com a mudança radical que aconteceu na minha vida, estou
perdido. Confesso que os desafios imediatos não me permitiram pensar sobre o meu futuro. Tento,
apenas, sobreviver, aprender e a me acostumar com esta nova vida.
-A sua adaptação tem sido admirável. Está com a vida agitada porque o seu caso despertou
muito interesse. O nosso mundo, quando não acontecem essas novidades, é bastante monótono.
Tenho conversado com Leneu e sei dos seus progressos. Pude concluir que tem um bom caráter e
grande desejo de acertar.
-Fico agradecido, seja lá qual tenha sido o critério da sua avaliação. Também simpatizei muito
com você.
A conversa tinha tomado um tom mais pessoal e Alberto teve o impulso de fazer um galanteio.:
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-Espero que eu não seja considerado deselegante se lhe disser que, para mim, este traje a deixa
deveras bonita. - Expressou com sinceridade.
-Obrigada, em qualquer tempo receber um elogio é sempre agradável. Eu desejo lhe falar sobre
o motivo do meu pedido para conversar em particular consigo. Creio que não seria honesto da
minha parte ter um propósito e não revelá-lo. Você, talvez, não esteja acostumado a tratar de coisas
pessoais importantes tão diretamente. Perdoe-me se julgar impertinência, mas, gostaria que
pensasse sobre uma proposta que eu vou lhe fazer.
-Eu aprecio que seja assim. Prefiro a comunicação direta.
-Você já sabe sobre a dificuldade atual em obter licença para a criação de um filho. Precisa ser
uma decisão pensada, muito consciente. É bem diferente da sua época e não envolve muito
romantismo. Todavia, para alguns, chega um momento em que um filho é importante para
preencher a vida. Sei que você deixou um filho e demonstra ter sido muito apegado a ele. Acredito
que essa seja uma qualidade essencial para ser pai. Eu gostaria que pensasse bastante e
considerasse a possibilidade de criarmos um filho juntos.
O inesperado da proposta causou a Alberto um choque. Ele ficou algum tempo sem saber como
deveria responder.
-Eu tinha um filho. Gostava muito dele e, também, da minha mulher. Ainda não assimilei a
separação. Não sei o que dizer. O sistema atual é muito diferente. Como se faria isso?
-Em primeiro lugar, teríamos que assumir o compromisso. Eu iria me empenhar para conseguir
a licença. O filho é produzido em proveta, fica no útero da mãe por três meses e, após, em
incubadora até o nascimento. A partir daí, os pais têm obrigação de morar juntos, no mínimo, por
quinze anos para criar o filho. Isso é fiscalizado, principalmente nos primeiros anos. Nós
poderíamos morar aqui. Não se consegue ambiente melhor nesta cidade. Você não teria nenhuma
obrigação a mais, apenas, não poderia assumir outro compromisso para ter um filho.
-Qual seria o nosso relacionamento? - Ainda perplexo, Alberto fperguntou.
-Dependeria do que viesse a acontecer e do que desejássemos. Fora os compromissos legais,
haveria liberdade completa. Cada um teria os seus aposentos e as suas próprias atividades, sem
precisar prestar contas. Você poderia viver com sua boneca-companhia e outras mais.
-Isso, atualmente, é o normal?
-Leneu deve ter explicado. O ciúme passional é um sentimento praticamente esquecido.
-E você? Viveria com o seu boneco-companhia?
-Artur, para mim, é mesmo apenas companhia. Meus pais o adquiriram há muito e ele
acompanhou a minha infância. O corpo foi restaurado, mas, é um produto antigo. Não tenho
intimidades com ele. Na verdade, talvez por situações muito complicadas que eu vivi, há algum
tempo não tenho esse tipo de relações. Contudo, sinto falta de convívio com um filho. Pelo que eu
sei a seu respeito, creio que sinta o mesmo.
-Não se relaciona com os seus pais?
-Eles vivem em outra cidade. Meu pai teve problemas políticos e preferiu se afastar.
-Disseram-me que a licença é demorada e nem sempre se consegue.
-De fato. Mas, eu tenho esperança de que conseguiria. Posso invocar que você tem alguns genes
que foram perdidos, os quais são importantes recuperar.
Essa sugestão e o nervosismo fizeram Alberto dar uma gargalhada.
-Desculpe-me, mas, algumas coisas atuais, pela diferença com os costumes que eu aprendi, me
parecem risíveis. De qualquer modo, fico feliz por ter genes apreciáveis.
-Não pretendi dizer que o via apenas dessa forma. Tenho admiração pela sua pessoa. Discutir
os genes, atualmente, é normal e muito comum.
Alberto se viu tido como um reprodutor. Apesar disso, a idéia não lhe pareceu de todo
desagradável. Enquanto falava, Deodéa havia colocado sua mão sobre a dele de forma muito
carinhosa. Sua expressão e o tom mais suave da voz faziam com que ele a visse de um modo como
não tinha visto antes. Reconheceu que era uma bela mulher e que uma relação mais afetiva seria
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possível. Mari era fisicamente mais atraente, contudo, seria sempre apenas uma boneca-companhia.
Faltavam-lhe requisitos singulares para ser uma mulher de verdade. Deodéa demonstrava decisão e
iniciativa. Uma vez que esse era o costume, ele nem seria obrigado a se desfazer de Mari. A
proposta o espantou, mas, não queria ser indelicado.
-Sinto-me lisonjeado e a idéia de conviver consigo é bem agradável. Para mim, tudo é ainda
muito complicado. Preciso de tempo para refletir. Antes, creio que precisaríamos nos conhecer um
pouco mais. - Alberto falou, procurando demonstrar sinceridade.
-Naturalmente. Tome o tempo que quiser. Enquanto isso, independentemente da sua decisão,
desejo manter a sua amizade. Podemos marcar um novo encontro?
Disse isso, enquanto se punha de pé. Alberto a acompanhou:
-Com prazer. Os meus compromissos são poucos. Pode indicar a data.
-Então, entrarei em contato consigo amanhã mesmo para marcarmos alguma coisa. Há muitos
lugares interessantes para ver. Você aceitaria que, agora, eu lhe apresentasse o Conselheiro
Belário?
-O meu propósito é conhecer tantas mais pessoas quanto puder.
Voltando à ala social, Deodéa introduziu Alberto na sala onde estavam os Conselheiros com
seus cintos pretos.
-Quero lhes apresentar o Alberto de quem já ouviram falar. O Belário me disse que gostaria de
conhecê-lo.
O Conselheiro lhe estendeu a mão.
-Muito prazer, eu tenho grande satisfação em conhecê-lo, ainda mais sendo apresentado por
Deodéa. Nós somos amigos, apesar de não compartilhamos muitas idéias.
-Apenas algumas. Concordar sempre em tudo não seria democrático.
-Assisti a sua entrevista. Você se meteu, sem querer creio eu, no meio de uma grande discussão
da atualidade.
-De fato, ainda não compreendo bem a importância que tem sido atribuída ao que eu disse na
entrevista. Não tenho nenhuma credencial para pretender ser ouvido sobre a política atual.
-Você deve saber que, desde as catástrofes, existe a preocupação de orientar a sociedade na
direção de evitar as causas daquilo que houve, para que os infortúnios não se repitam. Nossa crença
tradicional é de que, no passado, os recursos necessários para preveni-las foram consumidos com
imprevidência, desperdício e conflitos armados. Houve aquecimento do planeta, secas, tufões,
inundações e miséria. Isso provocou mais guerras e devastação. A nova civilização concluiu que os
meios naturais não são suficientes para satisfazer a todos. Não se pode esperar que as pessoas
sejam capazes de limitar espontaneamente os seus apetites, os seus gastos e a sua agressividade. A
solução encontrada foi criar, através de meios artificiais, alternativas para satisfazer os impulsos
básicos. Verdadeiro ou falso, o fato é que não tem havido grandes conflitos. Agora, existem grupos
propondo que se volte ao contato com a natureza, abandonando a tecnologia dos recursos virtuais.
Acreditamos que isso conduziria à escassez e, por fim, às guerras. Há ainda o fator político. Alguns
partidos de oposição se esforçam por mais projeção, têm ânimo de rebeldia e apóiam esses grupos.
A platéia ao redor ouvia interessada.
-Essa é uma posição muito radical de desconfiança nas pessoas. Precisamos evoluir. Hoje
podemos buscar recursos no espaço ou em outros planetas. O Movimento Naturista deseja, apenas,
desfrutar mais a vida natural, respeitando os limites das possibilidades. Não será necessário deixar
de aproveitar os benefícios da tecnologia, apenas, não viver somente na virtualidade. Acredito que
a motivação maior contra nós seja a de nada mudar para não abrir o espaço político. - Deodéa
atalhou.
-Alguns naturistas têm compulsão pelo uso da natureza. Como se poderia controlar os desejos
desencadeados? A história mostra que as pessoas não são capazes de impor limites para os seus
impulsos, seus apetites e, principalmente, as suas crenças. O que o Alberto pensa do homem atual?
Seria mais confiável do que o do seu tempo? – Perguntou o Conselheiro.
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-Não posso opinar sobre a probabilidade de que o homem atual provoque novos conflitos, uma
vez que não sei quais foram as causas reais das catástrofes e nem posso estar certo se haveria algum
modo de evitá-las. Não vivi até a época em que ocorreram, mas, no meu tempo, já estavam
presentes muitos sintomas da intolerância que pode tê-las causado. Apesar de haver muita gente
contrária ao espírito belicoso, mesmo a maioria, pelo visto, não tiveram convicção suficiente para
uma reação mais efetiva e imposição dos seus conceitos.
-Muito bem dito. Mas, desde que se conhece o ser humano, existe voracidade em obter a
satisfação dos desejos sem medir conseqüências e isso está na origem das guerras. As atitudes
poderiam ser diferentes agora? Com informações mais completas do passado poderíamos melhorar
o comportamento humano? Com quais informações você pode contribuir?
-Não tenho a pretensão de trazer ensinamentos. Apenas me coloco à disposição das pessoas
para responder o que me perguntarem da melhor forma possível. É um fato que, quanto mais
conhecimentos houver, maior será a possibilidade de acerto. A história sempre foi contada pelos
vencedores, cujas glórias estimulam optar por novos atos para vitórias. Pelo que eu sei, desta vez,
só houve vencidos. Isso poderia produzir novas atitudes.
Deodéa, bem humorada, interveio novamente.
-Esses temas são muito complexos para se chegar à conclusão durante uma festa. Haverá
oportunidade para aprofundarmos a discussão em ambiente menos profano. Peço que nos dêem
licença. Tenho o compromisso de apresentar Alberto a algumas pessoas.
Enquanto Alberto dizia da sua satisfação em tê-los conhecido, Deodéa o puxou pelo braço,
levando-o até a sala onde estava Leneu com seus amigos.
-Você daria um bom político. Todavia, estará mais tranqüilo longe daquelas raposas. - Deodéa
falou, em tom de brincadeira.
Leneu disse a Alberto que, quando estivesse cansado, poderiam se retirar. Ele tendo
manifestado essa preferência, despediram-se de quem estava próximo.
-Antes de saírem, você aceitaria responder algumas perguntas da minha sobrinha Madra para o
trabalho que ela está realizando? - Deodéa pediu.
Alberto concordou e Madra foi chamada. Ela usava uma peruca cacheada com uma flor,
vestindo-se à moda havaiana. Pareceu a Alberto que ela estava mais bonita assim do que quando a
vira sem roupa, com o cabelo bem curto e sem nenhuma pintura. A sua apreciação tinha, por certo,
base em reminiscências da sua outra época.
-Desculpe-me incomodá-lo.
-Não será incômodo. Como está o Arnon?
-Está sendo atendido no mesmo centro internacional especializado onde você teve o seu
primeiro atendimento. A recuperação dele demorará mais de um ano e não sabemos se será
completa.
-No centro médico onde eu estava?
-Não naquele do qual você se lembra. Em outro, no qual esteve anteriormente. Você não o
conheceu porque estava inconsciente. Quando acordou, já estava neste aqui, mais próximo. Deodéa interveio.
-Fico triste pelo Arlon, espero que se restabeleça.
-Estou continuando um trabalho que iniciamos juntos. Seria ótimo ilustrá-lo com um
testemunho seu. – Disse Madra.
-Se puder ajudar, terei o maior prazer. Imagino que hoje seja difícil abordarmos o assunto com
maior profundidade.
-Não pretendo escrever um tratado. Desejaria apenas ouvir algumas rápidas observações. Vou
lhe fazer uma pergunta pouco criativa: Como vê as relações humanas no mundo atual, comparando
com o seu tempo?
-As reações básicas parecem ser as mesmas, mas, alteraram-se as relações na família de uma
forma que eu não poderia prever. Provavelmente, a virtualidade das coisas tenha redundado em
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novos comportamentos. As relações de amizade parecem ter mudado menos. Sobre as relações
profissionais, institucionais e políticas a minha experiência é pouca.
-Você acredita que o sexo e a família antiga eram melhores?
-Ainda bem que esta não é uma entrevista para o público. Para ser sincero, pelo pouco que pude
ver, acredito que havia mais afeto.
-Em compensação, a liberdade atual não é uma vantagem?
-Sou a favor da liberdade, mas, o afeto cria compromissos que dão segurança emocional. Ainda
não estou em condições de avaliar qual é a proporção de vantagens e desvantagens na substituição
das relações entre pessoas pelas tidas com bonecos-companhia.
-Soube que você aceitou se relacionar com uma boneca-companhia.
-É verdade, mas, sinto falta de uma relação mais humana.
-Meu trabalho se refere mais às relações profissionais, ainda assim, as suas opiniões servem
para promover uma discussão inicial. Estou agradecida. Recebi a recomendação de não incomodálo demais. Em outra ocasião poderemos conversar mais um pouco?
-Com o maior prazer.
Em seguida, Deodéa os acompanhou até o vestíbulo. Eles voltaram a se despedir e se dirigiram
para casa. A festa prosseguia animada.
Leneu deu instruções precisas ao módulo, fugindo do trajeto mais óbvio.
-É melhor dificultarmos o trabalho de quem queira nos perseguir.
-Você conversou bastante com Deodéa. O que ela lhe falou? - Leneu perguntou, enquanto eram
transportados.
Alberto percebeu que ele estava muito curioso e desconfiou que ela já o houvesse consultado
sobre o pedido que iria fazer. Julgou apropriado ser confidente.
-Não me foi pedido segredo e, creio, não serei indiscreto por lhe contar. Entretanto, peço que
não fale para outras pessoas.
-Disso, esteja seguro. Mesmo que não recomendasse, a minha consideração por você e pela
Deodéa não permitiria qualquer comentário.
-Ela fez uma proposta tão inesperada que me deixou perplexo. Pediu-me para considerar a
possibilidade de termos um filho juntos.
Leneu fez uma expressão de falsa surpresa.
-E você, o que respondeu.
-Disse que iria pensar. A idéia é tentadora, mas, eu temo me colocar numa situação ainda mais
complicada do que aquela em que já estou.
-De fato, é uma responsabilidade. Entretanto, Deodéa é uma pessoa sensata e muito bem
informada. Não o colocaria em situação difícil. O que importa são os seus sentimentos a esse
respeito.
-Ela deve ser muito corajosa para se arriscar a conviver com alguém sobre cujos antecedentes
tem tão pouco conhecimento.
-Deodéa tem acompanhado a sua recuperação desde que você acordou e pôde verificar as suas
manifestações, especialmente com relação ao seu filho e toda a sua família.
-Assusta-me assumir um compromisso tão longo e a responsabilidade de criar um filho. Será
uma decisão sem recuo e eu sei muito pouco sobre as implicações que isso tem atualmente.
-Creio que seja razoável pensar bem, antes de decidir. Pelos costumes atuais, as suas obrigações
oficiais seriam apenas viver na mesma casa e dar atenção ao filho. Quanto ao mais, nada precisaria
mudar. Não existem obrigações mútuas, senão as que espontaneamente sejam assumidas. Nem
haveria necessidade de que você estivesse constantemente presente.
-Preocupa-me o que resultaria, se eu não correspondesse às expectativas dela.
*
Em casa, Alberto passou a elucubrar sobre a sua conversa Deodéa. Ela devia já ter falado com
Leneu sobre a sua intenção e ele se propusera interceder a seu favor. Alberto estava lisonjeado e
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tentado a aceitar, mas, a boa razão recomendava que esperasse antes de decidir. Se tivesse um filho,
precisaria ser mais cuidadoso e preocupado com as ameaças à sua vida. Aparentemente, Deodéa
não temia essas ameaças. Alberto teve dificuldade em prender o sono e decidiu acordar Mari. Ela
despertou prontamente e bem disposta, como sempre.
-Se tivesse sido programada para se indispor por ter sido perturbada durante o sono, pareceria
mais natural. - Alberto comentou, em tom de caçoada.
-Para isso, não é necessária nova programação. Basta me dizer o modo que prefere que eu me
comporte. Entretanto, ressalvo que pedir para eu acordar rabugenta não seria uma boa idéia.
-Você sabe que é brincadeira. Em algumas coisas, prefiro que não seja muito natural. Gostaria
de ouvir o que você pode dizer sobre uma proposta que recebi e que está me tirando o sono. Fui
convidado a ter um filho com uma mulher.
-Certamente, é uma demonstração de grande consideração. Você aceitou?
-Por enquanto não, mas, fiquei tentado.
-O que eu posso dizer é que convém analisar as condições estipuladas, onde irão morar e se é
realmente isso o que deseja.
-Deodéa me convidou para ir morar com ela e você ir junto, o que acha disso?
Mari respondeu séria, porém, com voz tranqüila e tom de quase professoral.
-Consta que Deodéa seja uma pessoa sincera e direta. Não pediria que eu fosse junto se
pensasse de modo contrário. Isso não significa que esteja pouco ligada emocionalmente a você.
Apenas, faz questão de vê-lo satisfeito e integrado. Se for seu propósito estar de acordo com o
mundo atual, precisa reconhecer os relacionamentos com bonecos-companhia como um hábito que
não contam para sentimentos possessivos ou de ciúmes. Ela mora numa casa grande e bonita, tem
influência política e é bem conceituada. Para mim, o que você achar melhor estará bem.
Impressionou a Alberto ela ter percebido o sentido oculto da pergunta com relação aos
sentimentos de Deodéa.
-É difícil vê-la como um robô. – Alberto voltou a comentar.
Mari riu e se aproximou com expressão de sensualidade e satisfação.
-Fico lisonjeada. O mérito é seu por ter dado as medidas certas aos meus fabricantes.
-Você viria morar conosco?
-Você ainda não aprendeu que o meu desejo é vê-lo satisfeito? Desde que assim prefira, estará
bem para mim.
-Às vezes, você parece excessivamente cordata.
-Se quiser, eu posso mudar. Há uma larga faixa de possibilidades no meu temperamento.
-Como você faria isso?
-Eu posso fazer uma avaliação estatística sobre como agiria uma mulher natural com o
temperamento que você preferisse. Por exemplo, uma mulher egocêntrica e ciumenta.
Mari falou isso com um sorriso enigmático. Mais uma vez, Alberto ficou intrigado sobre como
podiam tê-la programado de modo a exprimir humor e ironia na hora certa.
-Prefiro que não seja assim. Disseram-me que já não existe ciúme.
-Pelo que eu sei, pode existir, mas, não no sentido de antigamente. Os humanos,
freqüentemente, têm sentimentos de amor próprio ferido, mas, não por causa de bonecoscompanhia. As relações conosco são consideradas uma categoria à parte. Ressentimentos por
quaisquer perdas podem causar muita confusão quando as pessoas são possessivas. Você não pode
voltar ao seu mundo anterior, então, adote o atual tal como ele é. Morando na casa de Deodéa,
talvez, alguns procedimentos podem mudar para melhor, ou, não. O certo é que, se não relaxar,
acabará doente. Aproveite melhor as suas oportunidades. Por enquanto, aceite as coisas como são e
desfrute aquilo que existe.
As explicações não lograram fazer Alberto sentir-se esclarecido. Provavelmente, faltava a ele
saber o que, de fato, perguntar. Concluiu que, talvez, tivesse entabulado conversa apenas porque
estivesse com vontade de namorar. Efeito do clima da festa. Apesar da ambigüidade de
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sentimentos, ele se submeteu ao antigo argumento: “Em Roma como os romanos.” A idéia de ir
morar com Deodéa amadurecia em sua cabeça, mas, não devia ocorrer imediatamente. Era melhor
deixar cada decisão para o momento em que precisasse ser tomada.
-Não tenho como contestar. Vamos continuar a nos comportar como até agora, esperando para
ver o que irá acontecer. - Concedeu Alberto.
15 - VIRTUAL COLETIVO
No dia seguinte, Leneu apresentava boa disposição.
-Como passou a noite? Dormiu bem, ou perdeu o sono por ter muito em que pensar?
-As duas coisas. Sobre o assunto a respeito do qual falávamos ontem, posso dizer que estou
propenso a aceitar. Todavia, peço que não transmita isso a Deodéa. Eu preciso de tempo, antes de
dar uma resposta.
-Em minha opinião de amigo, pois, como tutor eu não poderia opinar, isso seria bom para você.
Deodéa é uma mulher excepcional e um filho poderia ajudá-lo a se sentir inteiramente integrado
neste este mundo.
-Inteiramente integrado será difícil. Algumas coisas pouco mudaram. Outras, porém, mesmo
não sendo desagradáveis, não consigo tê-las como normais. Por exemplo: o papel dos bonecoscompanhia. Eles participam, são quase indistinguíveis, provocam emoção, mas, não contam como
pessoas para provocar ciúmes ou receber quaisquer considerações.
-Para ter como natural tal comportamento, você precisaria ter sido criado num ambiente com
esses costumes. Ainda que muitas coisas nunca venham a lhe parecer naturais, com o uso, irá se
acostumar. Se você analisar os costumes de uma época anterior à do seu tempo, encontrará um
conceito de honra que a sua época já não compreendia. Vocês não tinham mais como aceitáveis os
duelos por paixão. As pessoas passaram a ver o ciúme passional por bonecos como sendo um
sentimento execrável. Como ter ciúmes de uma máquina? Em conseqüência, o mesmo acabou
ocorrendo com relação a pessoas naturais. Provavelmente, haja menos temor à rejeição. Outro fato
é que desde o início da sociedade atual, o pavor pelas catástrofes levou a evitar condições indutoras
de conflito. Aceitam-se divergências discursivas políticas, mas, não as demonstrações passionais.
Os crimes atuais são novidade. Deodéa é estudiosa de sociologia e de história. Ela tem
compreensão sobre a sua maneira de ver as coisas e poderia orientá-lo em sua adaptação.
*
Após a festa, Deodéa acordou com duas grandes preocupações. A primeira era desfazer a má
impressão que imaginava haver causado em Alberto a sua proposta. A outra, esclarecer quem fora
o responsável pela perseguição ao seu módulo de transporte. A exigência de sigilo feita à agência
dos módulos só poderia ter partido da Segurança Pública ou do Conselho. Não era provável que
tivesse partido da Segurança Pública, mesmo assim, entrou em contato com Solina e pediu para ela
usar as suas relações com os agentes que ela conhecia. Provavelmente, o mandante fora algum
Conselheiro. Essa possibilidade, todavia, apresentava maior dificuldade para investigar. Ela
contatou com Manevan, um dos Conselheiros do seu partido em quem tinha confiança. Ele marcou
um encontro pessoal para aquela mesma tarde. Deodéa o encontrou em seu gabinete protegido.
-Eu preciso descobrir se algum Conselheiro foi o mandante da minha perseguição. Será
possível descobrir o nome para quem a agência liberou o módulo de transporte?
-Não posso, simplesmente, solicitar essa informação, mas, talvez, consiga obtê-la
indiretamente. Eu tenho acesso às despesas do Conselho através de uma Comissão da qual faço
parte. Transmitirei a você o que descobrir. Se o responsável é algum Conselheiro, pode fazer parte
do esquema de Mono. É melhor você não me procurar logo em seguida. Devemos evitar a suspeita
de que o seu incidente esteja relacionado com o meu interesse por examinar as despesas do
Conselho.
*
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Seguindo em direção à sua residência, Deodéa meditava sobre a cautela que os Conselheiros
estavam tendo com respeito a informações que deveriam ser públicas. Atualmente, o ambiente era
de desconfiança e de medo. Ademias, ela percebia o cuidado dos seus amigos em preservá-la.
Preferiria não ser considerada tão importante e poder andar com mais descontração. Essa
responsabilidade era uma razão a mais para o seu arrependimento. Não podia desconsiderar tantos
compromissos. O interesse por Alberto lhe servia de motivação, mas, ela não devia agir de forma
precipitada. A sua proposta teria sido normal para o tempo presente, porém, os costumes de Alberto
eram outros. A convivência que imaginara não se mostrava exeqüível. Mais do que pela recusa,
sentia-se atingida pela perplexidade que a proposta causara. As diferenças eram grandes demais.
Seria melhor desistir. Precisava esquecer e seguir um novo caminho. Se ainda desejasse um filho,
assim como Keone, muitos outros estariam dispostos a acompanhá-la. Precisava transmitir essa
resolução para Leneu. Já era tarde, mas, resolveu ir até a sua residência para lhe falar pessoalmente.
A conversa que desejava ter exigia intimidade.
O amigo a recebeu carinhosamente.
-Meus parabéns pela sua festa. Eu geralmente não aprecio esse tipo de reunião, porém, gostei
bastante. O grupo em que eu estava manteve uma conversação interessante.
-O Alberto também gostou?
-Certamente. Ele está considerando a sua proposta. Ficou surpreso porque é um modo diferente
de agir com relação à experiência que tinha sobre essas questões no seu tempo.
-Dei-me conta disso. Penso que me precipitei. Convenci-me de que seria complicado ter como
pai do meu filho alguém que não se sente bem com os nossos costumes. Decidi esquecer tudo e
cumprir as minhas obrigações. Já basta me considerarem demasiadamente presa aos livros de
romance antigos.
-Ele está encarando a sua proposta com seriedade. Creio que a idéia lhe agrada. Apenas, tem
medo de não fazer a coisa certa.
-Como está a relação dele com a boneca-companhia?
-A situação o deixa confuso e, às vezes, sem saber como agir. Parece ter sentimentos de culpa
por se relacionar com um robô. Contudo, estou certo de que acabará por se adaptar aos costumes
atuais.
-Espero que sim, mas, provavelmente demore. Eu vim vê-lo para lhe pedir um favor. Esclareça
para ele que a minha proposta não tem a mesma significação e seriedade que teria no tempo dele.
Não deve tomá-la em consideração, pois, eu mudei de idéia e não quero mais falar sobre o assunto.
Apenas, não gostaria que isso fosse impedimento para continuarmos amigos.
-O meu conselho é o de que não tome decisões precipitadas.
-Eu meditei bastante. Peço-lhe o favor de fazer o que pedi.
Seguindo para casa, enquanto o módulo de transporte deslizava suavemente entre os conjuntos
de construções assimétricas, Deodéa era assaltada por idéias contraditórias. Como estudiosa da
história, ela sabia que, embora as emoções básicas fossem as mesmas, o modo de valorizar os
sentimentos mudava. Atualmente, a virtualidade, os bonecos-companhia e a forma como os filhos
são concebidos determinaram outra forma de ver as relações e as regras de conduta. Alberto reagia
conforme a sua experiência anterior. Teria que aprender a se comportar de modo igual aos demais
para ser bem aceito na sociedade, ainda que isso o fizesse perder seu atrativo. Para seu próprio
bem, ele precisava ser induzido a fazer mais experiências.
Conquanto tivesse chegado a essa convicção, assaltava-lhe uma dúvida: Se Leneu estivesse
certo e Alberto lhe dissesse que aceitava ter um filho com ela, o que iria responder? Era melhor
evitar tal oportunidade. Não podia se deixar impressionar pelas palavras de Leneu. Elas
provocavam expectativas que iam em direção contrária à decisão que tomara.
*
Deodéa fora preparada para abrir mão de benefícios pessoais em favor de uma imagem de
moderação e credibilidade. Não era suficiente remir-se a si mesma. Os seus atos públicos
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precisavam ter aprovação social. De outra forma, o seu espaço político seria ocupado por pessoas
mal intencionadas. Quanto estaria justificado ela se projetar publicamente como pivô de um
relacionamento considerado extravagante? Como seria possível saber se o comportamento de
Alberto, acusado de exótico, conseguiria se ajustar a este, para ele, novo mundo. Ela não podia
esperar indefinidamente para chegar a uma conclusão.
-Estou desistindo de me relacionar com Alberto. Seus costumes são muito diferentes dos
nossos. Ele é muito inibido em suas relações e parece não saber a que se propor. - Deodéa
comentou com Madra.
-Eu simpatizo com ele. Não creio que se possa ter sempre metas perfeitamente determinadas.
Você é excessivamente compenetrada em suas atividades. Deveria continuar a sair com ele sem um
projeto definido. Estou certa de que, bem provocado, perderá a inibição. Respondeu Madra, com
vivacidade.
-O meu grupo político depende da herança do meu pai. Não posso correr tanto risco com pouca
probabilidade de sucesso. A minha influência transigente tenderia a induzir Alberto permanecer
com os preconceitos da sua época. Ele precisa ser submetido a um choque para se ter um
diagnóstico rápido sobre sua resposta às provocações do nosso mundo. Se você pensa que ele seja
divertido, poderia entretê-lo e forçá-lo a dar resposta a uma situação descompromissada.
-Se eu tiver oportunidade, por que não? – Disse Madra, com um sorriso malicioso.
*
Solina chegou inesperadamente à casa de Alberto.
-Estou de passagem, com muitos compromissos. Gostou da festa na casa de Deodéa?
-Sim, foi bem interessante.
-Ela me convidou, mas, não pude ir. Sou antiga amiga de Deodéa, porém, as suas festas estão
sempre cheias de políticos. Eles, às vezes, se tornam cansativos querendo me aliciar para a sua grei.
A gente quer sair e não pode. Prefiro ambientes mais descompromissados. A propósito, faltou-me
demonstrar as possibilidades da participação em festas virtuais. São ambientes coletivos onde as
imagens de muitas pessoas interagem como em uma festa. Já teve a oportunidade de experimentar?
-Ambientes virtuais assim, eu creio que não.
-Seria interessante que conhecesse, pois, é uma prática constante no nosso mundo. Você vai dar
uma entrevista e é possível que façam perguntas sobre isso.
-Conquanto eu não seja obrigado a conhecer tudo, quanto mais informação eu possua, tanto
melhor poderei me situar. Você viria me mostrar?
-Estou muito atarefada, mas, vou falar com Deodéa. Ela havia me dito que faria gosto em
acompanhá-lo. Posso ligar?
-Se ela estiver disposta, por que não?
Enquanto Solina ligava, Alberto foi até outra sala. Deodéa apareceu, cumprimentou Solina,
mas, disse que não poderia ir.
-Vou pedir à minha sobrinha Madra. Se ela não tiver outro compromisso, estou certa de que irá
com prazer. Quando eu mesma procuro distração, valho-me dos seus conhecimentos.
Pouco tempo depois, surgiu a imagem de Madra.
-O Alberto quer conhecer um ambiente de diversão virtual coletivo? Eu terei gosto em mostrar
para ele hoje mesmo.
Solina chamou Alberto e disse que Madra o acompanharia. Ele se mostrou um pouco surpreso.
-A agitação da festa não a cansou? A sua tia, o que diz? - Bem humorado, ele indagou.
-Ela deseja que eu o acompanhe. Pensa que é bom você conhecer todo tipo de ambiente onde
haja oportunidade para se divertir.
-Ela está ai?
-Tinha um compromisso e recém saiu. Há muitos ambientes virtuais coletivos. Alguns são bem
animados. Você estaria disposto a me acompanhar em uma casa de diversão virtual?
-Eu tenho curiosidade.
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-Podemos ir, por exemplo, à Casa da Floresta. Está na moda. Você coloca o traje na área de
esportes e dá a ordem. Eu coloco o meu aqui mesmo. As nossas imagens irão se encontrar na frente
da casa. Embora eu fizesse gosto em me mostrar consigo para causar inveja às minhas amigas, isso
causaria muito tumulto. Será melhor você camuflar a sua imagem.
-Como eu faria isso?
-Que tal uma mixagem com a imagem do cantor Marquês? Creio que combinaria com você.
-Preciso que você me mostre como fazer.
Ao comando de Madra, ao lado da imagem de Alberto apareceu a de um homem desconhecido.
A seu pedido, surgiu outra, com aparência de uma mistura das duas.
-O resultado não ficou mau. Podemos chamá-lo Alquês. Se concordar, pode ordenar que seja
essa a sua imagem na Casa da Floresta.
-Penso que esteja bem.
-Então, vamos vestir os trajes e nos encontramos lá.
Solina se despediu. Alberto estranhava que mantivessem o nome de área de esportes, mas, fez
conforme foi instruído e se viu na entrada de uma casa movimentada por grupos alegres. Logo
surgiu Madra, vindo ao seu encontro. Ela mostrou dois cartões com os números oito e nove.
-É cedo, mas, a casa já está lotada. Conforme saiam ocupantes, os números destas senhas
baixam. Quando virmos chegar ao zero, o tempo pago começa a contar e podemos entrar.
-Sendo virtual, não seria fácil aumentar o tamanho da casa?
-Creio que o hábito seja tal que as pessoas nem se dão conta disso. Devem pretender manter a
fantasia, fazendo tudo parecer mais natural.
Em pouco tempo as senhas zeraram e eles entraram. O ambiente simulava uma floresta onde
havia muita gente vestindo as habituais tangas com cintos brancos. Alberto tinha a sensação de que
fosse o seu corpo, mas, a imagem refletida em um espelho era a que criaram para Alquês. Ele se
sentia tocado e empurrado pelos que estavam próximos e percebia as outras pessoas também serem
sensíveis ao seu toque. Um boneco-companhia com capuz imitando a cabeça de um macaco
perguntou se desejavam sentar. Concordaram e ele os conduziu aos encontrões até um pequeno
sofá num canto do grande salão. Havia várias jaulas contendo animais selvagens. O centro estava
completamente lotado por imagens de pessoas naturais de ambos os sexos dançando entre si ou
com todo tipo de bonecos-companhia. Os músicos e os garçons tinham cintos vermelhos
sinalizando serem bonecos-companhia e capuzes simulando cabeças de animais. Sem esforço de
raciocínio, não se podia dar conta de que eram apenas imagens. Serviam-se cálices contendo
líquidos coloridos. O líquido evaporava liberando fragrâncias que eram aspiradas pelos seus
tomadores. Madra chamou um garçom, pegou dois cálices de cor esverdeada e ofereceu um deles.
-O efeito é real. Estes são leves. Se arriscar aspirar um de cor preta, irá cair no sono.
Alberto aspirou o conteúdo gasoso com cheiro de limão e isso lhe provocou alguma tontura.
Algumas pessoas cumprimentaram Madra ruidosamente. Ela apresentou Alquês, um amigo de
outra cidade.
-Bonito! Ele está, também, com o visual da moda. - Gracejou um dos amigos de Madra.
-Qual é significado dessa observação. - Alberto perguntou para Madra.
-Veja as imagens de muitas das pessoas que estão aqui. Elas têm alguns traços da sua
fisionomia. É comum se usar algum detalhe de quem está na moda para maquiar a imagem. O que
eles não sabem é que eu estou com o original. Eu me dou conta de que você poderia ter vindo com
sua própria fisionomia. Pensariam que era um disfarce. Respondeu Madra, falando baixo, em tom
de confidência.
Foram atraídos para o meio do salão. Eram mais encontrões do que dança. Assim como os
demais, Madra demonstrava grande animação. Embora procurando parecer energizado, Alberto se
sentia desajeitado. Subitamente, abriu-se a jaula de um tigre e ele saltou sobre o pequeno palco
fazendo os músicos debandarem. O tigre deu um enorme rugido, compelindo as pessoas a se
jogarem na direção contrária, amontoando-se e atropelando umas às outras. Um homem,
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aparentemente drogado, não se afastou e o tigre o atacou. Apareceu grande número de bonecoscompanhia com longas lanças e obrigaram o tigre a voltar para a jaula. O homem jazia
ensangüentado e foi carregado para fora do salão. O barulho era grande. Madra gritou no ouvido de
Alberto para não se assustar. O homem real iria acordar ileso na área de esportes da sua casa. Se ele
quisesse, poderia voltar, mas, estando assim drogado, provavelmente ficaria dormindo. Os
presentes riam muito, embora a emoção do susto fosse verdadeira. Os músicos voltaram ao seu
lugar e a música recomeçou. Todos queriam dançar e o lugar ficou absolutamente apertado. Havia
vapores entorpecentes no ar e nenhuma inibição. Alberto se sentia embriagado e Madra também.
Entrando no ritmo do ambiente, dançaram abraçados por algum tempo até Alberto se dar conta da
sua situação e, constrangido, pediu para parar.
-Está ótimo, mas, será melhor sairmos.
-Se você quiser. Para mim está bem divertido. Em breve, haverá outro show. Eles sempre têm
novidades. Na outra vez que eu vim aqui houve a luta de um gladiador com o leão.
-Talvez possamos voltar para assistir em outro dia.
Madra abriu caminho aos encontrões em direção ao portal de entrada. Alguns, aparentemente
bêbados, passaram a jogá-los de um lado para o outro. Alberto reagiu com força e iniciou-se uma
briga. Saíram aos trambolhões e, no lado de fora, tiveram a sensação refrescante de receber ar puro
sobre o corpo suado.
-Quer conhecer outros lugares? - Madra perguntou.
-Você não tem outras obrigações amanhã?
-Eu dou conta dos meus compromissos, porém, não me recuso divertir.
-Você não era naturalista, assim como a sua tia?
-Sim, mas, não sou fanática. Embora ainda prefira a vida natural, não posso rejeitar tudo o que
é virtual. Deodéa sabe o que quer, entretanto, como nem tudo acontece conforme o seu desejo, ela
fica abatida. Eu sei o que não quero, mas, não sei o que quero. Sinto-me bem fazendo experiências,
sem exigir que elas me dêem soluções definitivas. Deodéa gosta que eu seja assim. Creio que
gostaria que você também se divertisse. Assim, compensaria o excessivo senso de responsabilidade
dela.
-Você pensa isso? São as diferenças encontradas que me deixam inseguro. Eu preciso me
preparar para a entrevista. Não quero decepcionar os assistentes, inclusive sua tia.
-Deodéa se preocupa mais com a possibilidade de que você não consiga se adaptar ao nosso
tempo. As suas inibições sobre algumas coisas são demasiadas. Ela teme que você nunca mude.
-Eu estou me adaptando. Hoje foi uma prova. O que mais se poderia fazer?
-Existem vários ambientes. Alguns são barulhentos, outros mais tranqüilos e aconchegantes.
Venha comigo. Diga ao computador que deseja ir ao Balneário Sereno.
Logo, Alberto se viu, junto com Madra, na entrada de uma casa de banhos. Ela o conduziu até
um quarto com banheira, esguichos de água morna em todos os sentidos, vapores, música e
reflexos de luzes coloridas. O efeito psicodélico dos vapores e luzes o fez perder a idéia de onde
estava ou do que fazia e provar, junto com Madra, todas as sensações. Depois de passado algum
tempo, o efeito se reduziu e só então ele se deu conta do que fazia.
-Agora já podemos voltar. Desejo boa sorte na sua entrevista. Você me deve uma entrevista
particular para o meu trabalho. Vamos nos ver outro dia? – Madra perguntou.
-Basta marcar. Desculpe os meus modos. Eu ainda estou tonto. Como você está se sentindo? –
Falou Alberto, com voz rouca.
-Eu estou ciente daquilo que faço, se é o que quer saber. Apenas, com uma tonturinha gostosa.
Após se despedirem, Alberto se viu novamente na área de esportes de sua casa. Mari se
aproximou e, com um sorriso malicioso, ajudou-o a retirar o traje.
-Pelos seus movimentos, o ambiente devia estar bem animado.
-Não esperava encontrá-la acordada.
-Você sabe que eu não tenho compromisso de horário.
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Alberto disse à Mari que ela podia dormir. Embora relaxado, ele tinha pouco sono. Ponderou se
deveria ter conversado mais com Madra. Não procurara saber sobre os sentimentos dela. Devia ter
seus próprios conflitos com respeito aos quais ele nada perguntou. O que ela contaria e qual seria a
reação de Deodéa? Estaria tendo preocupações que elas desdenhavam? De qualquer modo,
precisava deixar esses pensamentos para outro dia e se concentrar na entrevista. A perspectiva de
não corresponder ao esperado lhe causava inquietação. Recebera conselhos de alguns para não falar
contra a virtualidade e de outros para dizer tudo o que pensasse. Eram instigações antagônicas e o
deixavam dividido. Por fim, chegou à conclusão: Não seria provocativo, mas, desde que
perguntado, não ficaria acovardado em falar o que considerasse adequado. Conhecia pouco o
ambiente em que estava, todavia, se fosse viver com Deodéa, teria que confiar na percepção dela.
Sua sugestão foi para que agisse assim. Tendo decidido, tranqüilizou-se. Voltou a pensar em Zefir.
O mundo atual oferecia relações interessantes e oportunidades para conhecimentos como nunca
teria imaginado. Contudo, isso não compensava a perda que sofrera. Tentaria enviar uma
mensagem para sua família, ainda que julgasse ser quase nula a possibilidade de que a recebessem
e nenhuma a de obter uma resposta. Para ele, o sonho paradisíaco, lugar para o qual nunca voltaria,
era o seu passado longínquo.
*
Vendo-se de volta, Madra procurou Deodéa em seu quarto para lhe contar sobre o programa
virtual com Alberto.
-Como ele se comportou na aventura?
-Alberto é boa companhia, embora tenha um comportamento diferente das pessoas deste tempo.
As suas reações físicas e sexuais são normais, conquanto, às vezes, se mostre constrangido.
Pareceu-me preocupado com o que você pensaria a respeito. Seria bom se tivesse ido junto. Eu lhe
disse que você prefere o convívio de pessoas menos inibidas, tais como eu, para compensar o seu
próprio senso de responsabilidade excessivo.
-O que ele respondeu?
-Disse que estava procurando se adaptar para ser menos inseguro com relação aos hábitos deste
mundo. Eu penso que você deveria sair com ele e ajudá-lo.
-Eu preciso dar um tempo. Ele é muito complicado e eu tenho compromissos exigindo
dedicação permanente.
*
Alberto contou a Leneu sobre sua visita virtual a uma danceteria acompanhado por Madra.
-O espetáculo com o tigre foi hilário.
-Solina não desiste de convencê-lo das vantagens da atividade virtual.
-Não posso negar que, como diversão, é bastante satisfatória.
-Por aí você pode entender porque alguns se viciam a ponto de não saírem mais de casa. Vivem
contentes, até se sentirem vazios e entrarem em depressão.
-Fui instigado por Madra e penso que passei dos limites. Devo pedir desculpas a Deodéa?
Leneu o fitou pensativo. Aberto percebeu que ele procurava entender o real significado da sua
pergunta e como responder.
-Ela deseja que esqueça a sua proposta para ter um filho, mas, os seus sentimentos são outros.
Creio que funcione assim: Conhecendo alguma coisa sobre os costumes do seu tempo, ela, talvez,
fique lisonjeada com a sua preocupação em não desagradá-la. Entretanto, ficará satisfeita por saber
que você tem reações biológicas normais e tende a aceitar os modos atuais. Madra irá contar, mas,
penso que você não deva nem comentar, a menos que ela pergunte. - Leneu respondeu, sorrindo de
modo malicioso.
-Penso entender o que você quer dizer. Embora Deodéa esteja inclinada a tomar para futuro pai
do seu filho alguém com uma história absolutamente singular, ela não aceita que essa pessoa tenha
um comportamento estranho ao padrão social atual.
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-Em parte, é isso mesmo. Diferentemente de pessoas como eu, ela tem os compromissos
políticos do pai e se preocupa com sua imagem pública.
Alberto evitou demonstrar decepção. Deixaria para depois procurar entender os seus próprios
sentimentos com relação à Deodéa. Agora, precisava se concentrar em outra questão.
-Nesta nova entrevista, irão perguntar, de novo, a minha opinião sobre as atividades virtuais?
-Acredito que perguntem, mas, você não precisa se aprofundar na resposta. A maioria faz
indagações apenas para aparecer internacionalmente.
*
No comunicador, a imagem do advogado Janos demonstrava otimismo.
-Estive negociando com a empresa Omnimundi. Eles verificaram que houve sabotagem no
transporte de entrega. Então, vão continuar suas próprias averiguações e estão dispostos a garantir
todas as facilidades para a agência de investigação que você contratou. Para evitar uma discussão
sobre responsabilidade que poderia levar a um processo com repercussão negativa, propõe um
acordo pelo qual pagarão cinqüenta por cento a mais sobre a proposta de indenização anterior
desde que você concorde evitar qualquer questão judicial ou comentário público.
-O que me aconselha? - Alberto perguntou.
-A proposta de indenização feita pela Omnimundi é uma oferta vultosa e a empresa parece não
estar disposta a ceder mais. O valor já leva em consideração o quanto a divulgação de um acidente
com a sua pessoa lhes seria desfavorável. Certamente, ganharíamos a disputa judicial, mas,
provavelmente, a indenização obtida resultaria bem menor.
-Neste caso, prefiro o acordo. A finalidade principal da minha proposta era garantir uma boa
investigação. Uma vez que isso seja assegurado, está bem.
-Nesse caso, encaminharei o documento. Voltarei a me comunicar quando tudo estiver pronto.
-O acordo foi bom. Você já pode pensar em fazer alguma coisa grande com todos os recursos
que obteve. Um instituto de estudos seria socialmente muito bem aceito. Quanto à investigação, é
importante que chegue a um resultado esclarecedor para que possamos estar mais seguros quanto a
novas agressões. - Leneu opinou.
-Gostaria de falar com Mincam para saber o que ele conseguiu descobrir.
-Ontem, o retorno dele foi negativo, mas, podemos ver o que diz hoje.
Feito o contato, Mincam se mostrava preocupado.
-Algum outro problema?
-Eu gostaria de saber como anda a sua investigação.
-Tenho apresentado relatórios ao seu tutor. Nada de positivo, exceto que o caso é mais quente
do que nos pareceu no princípio. A Omnimundi vem sofrendo pressões. Primeiro foi da parte do
governo. Eles se disseram prontos a auxiliar, mas, extraoficialmente advertiram que uma
divulgação sobre o caso resultaria em desprestígio internacional. Com o progresso das
investigações, surgiram ameaças anônimas. A empresa tem colaborado, porém, está temerosa. Nós
os fizemos ver que eles só estarão seguros quando os culpados forem presos. As investigações
comprovaram que houve sabotagem no traje virtual e que a alteração na programação só pode ter
sido feita no momento do transporte. Falta descobrir como isso foi feito e quem são os
responsáveis. As gravações nada revelaram. As memórias dos bonecos da companhia foram
examinadas e nada foi constatado. Provavelmente, o boneco que fez a entrega foi trocado. Esses
bonecos de série são todos iguais e seria necessário examinar a memória de milhares. Mesmo se
restringindo aos mais prováveis, isso não é factível sem um indício importante que justifique a sua
requisição para exame. Quando houver novidades eu comunico.
Já estavam interrompendo a ligação quando Alberto se lembrou de algo e pediu para Mincam
um pouco mais da sua atenção.
-Ajudaria se eu dissesse que o boneco que fez a entrega tinha um pequeno sinal em forma de
meia lua escura na têmpora direita?
-Seria uma ótima pista. Você pode confirmar?
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-Vendo, eu tenho certeza de poder identificar.
-Então, aguarde minhas notícias.
-Admiro a sua memória. Peço desculpas por haver informado a Mincam que você nada podia
agregar. Eu não queria que você fosse perturbado com perguntas. - Leneu manifestou.
-Com certeza, eu não teria prestado atenção se o sinal dele não lembrasse o de um jogador do
time pelo qual eu torcia.
*
Bem mais tarde, após Leneu se retirar, Mincam voltou a ligar.
-Seria importante termos um contato pessoal imediato. Eu posso ir até a sua casa?
-Certamente, de que se trata?
-Será melhor falar pessoalmente. – Disse Mincam.
Pouco depois Mincam chegou e pediu para falar a sós. Mari se dirigiu para outra sala.
A alteração no sistema de bloqueio obrigatório dos bonecos, permitindo que cometam atos
ilegais, é um crime internacional. Ficando demonstrado que foi feito isso, os responsáveis serão
severamente punidos. Provavelmente, tenham ligações com outros criminosos e elas sejam
detectadas. Nós fizemos um levantamento sigiloso de bonecos que apresentam alguma marca na
face, entre os pertencentes a pessoas e empresas suspeitas. Gostaríamos que os visse, tentando
reconhecer o que esteve em sua casa.
Mincam apresentou dezenas de imagens de bonecos com pequenas manchas na face. Alberto
examinou-as e reexaminou-as para se assegurar.
-Foi este. Tenho certeza. A grande semelhança da sua mancha com a de um jogador que eu
conheci facilita a conclusão.
-Ele pertence a uma empresa que explora ambientes virtuais para encontros. Ela é fachada para
negócios escusos. Sem uma denúncia formal, os responsáveis não podem ser indiciados. Essa
empresa não tem nenhuma relação direta com a Omnimundi e os elementos que possuímos não são
suficientes para solicitar um exame da memória do seu boneco. O seu testemunho, baseado apenas
na semelhança de uma pequena mancha, seria contestado. Entretanto, é uma pista importante.
-Sem acesso à memória do boneco, nada se pode fazer?
Mincam se aproximou e falou em tom baixo, de modo conspirador.
-Podemos usar de estratégia. Vamos montar um crime fictício comprometendo os bonecos da
empresa com atividades externas. Eles serão denunciados como suspeitos desse crime à segurança
pública, dando ensejo a uma requisição para serem examinados. O exame pode revelar que o
boneco com a marca identificada está desbloqueado para a prática de delitos e tudo o que consta
em sua memória será averiguado. Não mencione a ninguém, precisaremos estar ser ágeis para
impedir que eles o escondam antes de ser examinado. Vamos obter, através de relações com alguns
agentes de segurança, uma ação silenciosa e rápida.
Saindo Mincan, Alberto ficou a meditar sobre as artimanhas que continuavam a ser praticadas
em investigações. No caso, seriam utilizadas para obter a verdade, porém, também, podiam servir
para más ações. A coleta de provas sempre estaria sujeita a injunções.
*
Deodéa não desejava tornar pública a perseguição do seu módulo de transporte e sua procura
através do computador fora sem sucesso. Quase havia esquecido o incidente, porém, a fisionomia
do perseguidor ficara retida em sua memória. Ao frequentar a sede do Conselho na qualidade de
presidente de honra do seu partido, divisou aquele rosto em uma lanchonete. Seguiu-o, sem se
deixar notar. Ele entrou rapidamente nas dependências do computador central, um local só
acessível aos funcionários ali lotados. Procurou o Conselheiro Manevan na sua sala protegida.
Antes que ela falasse, Manevan se apressou em explicar.
-Examinei a relação de despesas do Conselho e não encontrei nenhum registro de pedido para
transporte no dia e horário que você me deu. O valor total das despesas pagas à central de
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transportes está de acordo com as contas apresentadas. Portanto, não foi daqui que saiu o pedido
para o módulo. Você se informou com a Segurança Pública?
-Verifiquei e não foi de lá. Entretanto, hoje, ao entrar aqui, eu vi a pessoa do módulo que me
perseguiu. Segui-o até ele entrar nas dependências do computador central. Trabalhando lá, poderia
ter alterado os registros, transferindo os gastos para outra rubrica.
-Poderemos verificar no cadastro de pessoas autorizadas a entrar naquele recinto.
Manevan acessou em seu monitor o cadastro do Departamento de Computação. Logo
localizaram a fisionomia reconhecida por Deodéa. Tratava-se de Zotino, um profissional externo
agregado ao departamento.
-É este aqui. Estou certa. Ele deve ter manipulado os dados.
-Essa é uma acusação muito séria que, possivelmente, atingirá outras pessoas. Ele não faria isso
sem ter algum superior que o apoiasse.
-Estou certa do que digo. Se for necessário, eu posso testemunhar.
Manevan ficou sério e pensativo.
-Se fizermos uma acusação formal, os registros da empresa de módulos de transporte podem ser
requisitados e cotejados com os do nosso computador. Contudo, é preciso agir com cuidado. As
conseqüências podem ser muito graves e é fundamental que você seja preservada. Temos duas
frentes de luta: uma na oposição parlamentar e outra contra um grande criminoso oculto. A sua
participação parlamentar na defesa de princípios não implica em grandes riscos. Todavia, a outra
batalha é perigosa. Não podemos deixar que corra esse risco. Devo lhe pedir para se afastar do
caso. Eu vou encaminhar a investigação por outros caminhos. Só entre em contato comigo da
forma rotineira, sem se envolver com isso.
Mais uma vez, Deodéa era tratada com restrições. A vítima da perseguição fora ela. Quem
identificou o bandido fora ela. Manevan, por decisão própria, não se atreveria excluí-la tão
peremptoriamente. Alguma fonte desconhecida teria decidido esse procedimento? Pelo momento,
ela iria aceitar. Porém, disse para si mesma que não se conformaria por muito tempo com essa
exclusão. Restava esperar e ver o que Manevan iria descobrir.
*
Alguns dias depois, Deodéa foi surpreendida pela notícia de que um funcionário do Conselho
de nome Zotino tivera morte acidental. Ela não podia continuar a ignorar o que se passava. Usando
um pretexto qualquer, procurou Manevan.
-A morte de Zotino torna imprescindível que eu tome conhecimento das investigações que
foram realizadas e a quais resultados chegaram.
-É para você ver com quem estamos lidando. Eles não têm nenhum escrúpulo em assassinar
pessoas. Você não pode se envolver diretamente. Para investigar, sem levantar suspeitas, eu
declarei ter encontrado um lançamento irregular nas minhas despesas com módulos de transporte e
pedi confidencialmente à tesouraria para verificar. Ela requisitou a contabilidade da empresa de
módulos de transporte. Havia vários registros não combinando com os constantes no computador
do Conselho. Verificou-se que as alterações se fizeram no horário de trabalho de Zotino. O assunto
foi entregue à segurança do Conselho e ele foi convocado para prestar depoimento. Então, ocorreu
o falso acidente que o matou. Verificamos a sua ficha pessoal e ela está incompleta, não constando
quem o indicou. Agora, havendo suspeita de assassinato, as investigações passarão, também, para a
Segurança Pública. Eu me penitencio porque a ação intrépida que você teve, provocando um
acidente para reconhecer o perseguidor, não chegou à identificação do mandante. Estou procurando
por outros indícios, inclusive, a possível participação de um boneco-companhia. Politicamente, foi
importante para nós, pois, evidencia a fragilidade da infra-estrutura atual do Conselho.
Considerando extinta a possibilidade de avançar com essa pista, Deodéa se conformou em saber
que o seu esforço serviu para eliminar a ponta de um tentáculo. Foi útil, também, para advertir as
pessoas de que nem tudo estava bem e de que existe uma organização criminosa oculta atuando.
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16 - O MUSEU
Pelo comunicador, Melior pediu para conversar reservadamente.
-Pode vir. Estou aguardando. - Alberto respondeu:
Em seguida, ele dirigiu-se para Leneu.
-Vejo que, apesar de tantas facilidades para comunicação, alguns ainda preferem que os
contatos entre as pessoas sejam diretos.
-Contatos diretos dão mais status às conversas consideradas importantes. A escuta clandestina é
considerada um crime grave, mas, acontece. Quem aperfeiçoa os sistemas de proteção também
pode aperfeiçoar os instrumentos para fraudá-los. – Explicou Leneu.
-Quem faz o controle técnico das comunicações?
-Há os técnicos operadores, os fiscais dos operadores e os fiscais dos fiscais dos operadores. O
Conselho tem um comitê de controle. Apesar disso, nunca se está seguro. Ocorre a fabricação de
equipamentos de espionagem mais sofisticados e o desleixo ou corrupção das pessoas responsáveis.
Sem demora, Melior apareceu. Veio acompanhado de um boneco-companhia com uma maleta,
a qual foi identificada como contendo um aparelho para interromper a ligação com o computador
central e estabelecer comunicação direta entre eles. Alberto pediu para Leneu permanecer na sala.
-Como está a sua disposição para a nova entrevista? – Perguntou Melhor.
-Da minha parte, tudo bem. Algumas pessoas manifestaram preocupação com a possibilidade
de que eu critique o excesso de virtualidade do mundo atual.
-Eu sei, mas, não se preocupe com isso. Haverá um oficial designado como representante do
grupo tutor. Ele estará autorizado a interditar alguma pergunta que julgue inconveniente. A
desculpa dele será evitar constrangimentos. É melhor deixar essa responsabilidade com eles.
Responda o que achar conveniente. Um pouco de polêmica é útil para a audiência. Pelas minhas
pesquisas, teremos novamente uma ótima assistência. Poderá ser até maior do que a primeira.
Quanto tempo você é capaz de agüentar?
-Não creio que me canse facilmente, mas, tenho pouco para acrescentar ao que já disse. A
minha preocupação é não provocar contrariedades gratuitas. Meu objetivo seria não fazer
afirmações sobre cuja interpretação eu não esteja seguro e nem aborrecer os espectadores pela
omissão de respostas às suas indagações.
-Esta avaliação deixe comigo. Eu sou o especialista. Quando organizo um show, o meu nome
também está em jogo. Sugiro que não tenha tanta preocupação em ser exato. Todos sabem que não
se trata de uma explanação científica. Apenas, evite agressões diretas a pessoas ou instituições.
Não pareceu correto a Alberto comparar a sua entrevista a um show. Não estavam falando de
um cantor ou um comediante. Pretendia ser sério, porém, aceitou a regra do jogo.
-O que irão me perguntar?
-Talvez, coisas mais pessoais: Como está se sentindo? Como está se adaptando? Quais os seus
planos para o futuro? Qual a sua impressão sobre as pessoas do mundo atual?
-Perguntas simples, respostas difíceis. Preferia perguntas sobre o passado. – Disse Alberto.
-Insista em dizer que são apenas opiniões de quem vem de outra época e fale o que quiser. Não
se preocupe com o que lhe tenham dito. A maioria ainda está curiosa e deseja apenas vê-lo. Seja lá
o que quer que diga, sempre haverá alguém do contra para criticar. O formato geral do programa
será o mesmo da outra vez. Se estiver sendo bem aceito, nós o faremos um pouco mais longo,
porém, não demais. Está bem?
Tendo obtido resposta afirmativa, Melior se despediu, para voltar à tarde. Após a sua saída,
Leneu permaneceu com trocando ideias com Alberto.
-Não gosto de exibir coragem, mas, também não é do meu feitio ficar amedrontado com
ameaças. Apenas, tento seguir em frente. Se os resultados econômicos permitirem, concordo com a
idéia de criar uma espécie de instituto que atraia estudiosos de documentos antigos de todo o
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mundo. Ensejaria um intercâmbio interessante, contribuindo para o conhecimento do passado mais
do que eu posso testemunhar. – Manifestou Alberto.
-Ouça a opinião de pessoas bem informadas como, por exemplo, Deodéia.
-Ouvir sempre é bom, contudo, ela me parece estar abespinhada. Seria possível assistir alguma
outra entrevista, semelhante a que eu devo fazer, para ter uma base de comparação?
-Vou pedir ao comunicador para apresentar algumas. Você poderá escolher.
Assim foi feito e Alberto escolheu o relato de um astronauta que passou bastante tempo em
viagens muito distantes.
Leneu almoçou com eles, pronto a permanecer na casa durante a entrevista. Ouviram, inclusive,
as informações de Mari. Alberto gostava de ouvi-las porque representavam uma média das opiniões
correntes na mídia.
*
No horário previsto, apareceu Melior e sua trupe. Havia euforia pela audiência projetada. As
mesmas providências da ocasião anterior foram tomadas e, ao se iniciar a transmissão, a imagem
dos espectadores no interior das suas casas desfilava em seqüência. O agente Melior, o advogado
Sazon e um oficial de segurança fizeram questão de aparecer, explicando as suas funções. O
apresentador fez a introdução e logo iniciaram as perguntas. As primeiras foram semelhantes às da
outra vez. Perguntaram a Alberto sobre os costumes na sua vida anterior, a casa, o trabalho, as
roupas e tudo o mais. Estava fácil. Ele podia responder sem muito pensar. Melior fazia sinal para
que se alongasse, pois, sabia que logo iriam abordar questões mais difíceis e ele desejava ganhar
tempo sem correr riscos. Previsivelmente, as perguntas foram ficando mais provocativas.
-O que obteve de aprendizado no mundo atual? Se voltasse para o seu tempo, o que de mais
importante levaria? - Perguntou um homem, com uma postura sisuda.
-Tenho aprendido muito. O desenvolvimento técnico é fantástico, mas, isso não é o mais
importante. O distanciamento no tempo, assim como o distanciamento espacial de um astronauta,
oferece uma visão menos estreita. Se as pessoas se preocupassem menos com coisas mesquinhas e
desfrutassem o que está à sua mão, seriam mais felizes.
Pelo sorteio, em seqüência, apareceu a imagem de um jovem tendo ao lado o seu grupo.
-Com essa visão, dada pela distância no tempo, o que julga que se deveria modificar para
melhorar o mundo atual?
-Desculpe-me por não poder dar uma resposta satisfatória. Eu não me sinto competente para
fazer um julgamento a esse respeito. Posso apenas relatar as minhas experiências e expressar os
meus sentimentos. Esses relatos, talvez, sirvam para pessoas com maior conhecimento tirarem suas
próprias conclusões. Se eu pretender mais do que isso, arrisco-me a falar impropriedades.
-Sem pretender julgar, você poderia, ao menos, transmitir os seus sentimentos com respeito ao
modo de vida atual. Prosseguiu em seguida, na mesma linha, uma mulher.
-Não desejo fugir à sua pergunta. Entretanto, devo fazer a ressalva de que a minha opinião está
viciada pela condição de que eu fui afastado de tudo aquilo a que estava ligado. O sentimento que
eu tenho é de alguma frieza emocional, apesar da extraordinária dedicação de algumas pessoas, às
quais considero amigas. Eu tenho a sensação de que os excelentes meios de comunicação facilitam
a tal ponto as trocas à distância que reduzem o contato, o toque, a carícia real entre as pessoas. Sei
que isso não é uma regra para todos, mas, parece-me ser uma tendência. Talvez, com o tempo, eu
venha a mudar de opinião.
-Deveríamos eliminar as atividades virtuais? - Perguntou um homem que, sorridente, abanou.
-É claro que não, pois, oferecem muitas coisas boas. Entretanto, embora elas sejam tentadoras,
eu não gostaria de ficar preso só a isso, deixando de lado os contatos com pessoas reais. Penso que
seja útil haver alguém alertando para não se cair no excesso.
-Você fala da importância do contato pessoal. Eu gostaria de conhecê-lo e ter um contato
pessoal. Como poderia fazer para encontrá-lo? - Outra jovem emendou, com um largo rorriso.
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-A minha situação especial me tornou excessivamente exposto. Infelizmente, isso impede que
eu tenha uma convivência pública normal, tal como gostaria. Estou certo de que bem perto de você
existem muitas pessoas com quem você pode ter contato pessoal satisfatório. - Alberto respondeu,
relaxando-se.
Uma mulher apareceu, parecendo ansiosa por perguntar.
-Como você enfrenta a solidão provocada pela distancia das pessoas com quem você se
relacionava anteriormente?
A pergunta levou Alberto a fazer uma pausa, antes de responder.
-Esse é o meu maior problema. A solidão com respeito às relações que eu tinha faz com que eu
me associe aos sentimentos de tantos que por diversos motivos viajaram para longe e precisam
viver entre pessoas e costumes estranhos. Do mesmo modo, eu me identifico com aqueles cujas
pessoas, às quais estavam intimamente ligados, se distanciaram. Só quem teve essa experiência
pode compreender. Muitas vezes, a distância no espaço pode ser compensada por contatos virtuais,
ou, a expectativa de refazer o ambiente antigo. A minha distancia não permite contar com essas
possibilidades. Resta-me a esperança de que eu possa recompor meus sentimentos, amadurecer
novas relações e encontrar aconchego no íntimo do meu próprio ser.
-Quais são os seus planos para o futuro? Já pensou em viver com alguém e ter um filho? - Outra
mulher junto a um homem e uma criança indagou, com uma expressão de compaixão.
Em homenagem à sua preocupação, Alberto respondeu mais contrito.
-A idéia não me é desagradável. Penso que precise conhecer um pouco mais. Espero obter a
segurança que ainda me falta para assumir maiores compromissos.
-Quais são suas convicções morais e religiosas. – Indagou, com muita tranquilidade, uma
mulher aparentando ter um pouco mais idade.
-Concordo que deva haver liberdade religiosa, assim como liberdade para a ciência. O que me
aconteceu perturbou o meu pensamento e eu preciso reavaliar algumas convicções. De qualquer
forma, acredito que os princípios doutrinários originais do cristianismo recebidos na minha infância
permanecem uma inspiração válida.
-Ouvi comentários de que houve objeções a que realizasse mais esta entrevista e que a sua
agência encontrou grandes dificuldades para liberá-la. O que tem a dizer sobre isso? Um homem
indagou, apresentando um tom sério e formal.
-Ainda sou um tutelado do Estado. Foi-me dito que havia o temor de que, por desconhecimento
dos costumes atuais, eu fizesse afirmações que poderiam criar prejuízos para o meu relacionamento
com pessoas que as interpretassem como uma pretensão de contrariá-las. Por conta da minha
desatualização, peço que relevem alguma declaração entendida como não apropriada.
-Objetivamente, qual contribuição você pensa que pode trazer? Sabe dizer quais foram os
eventos causadores das catástrofes? - Outro homem perguntou.
-Eu poderia simplesmente dizer que vivi antes do tempo das catástrofes e ainda não tive tempo
para me aprofundar sobre o assunto. No entanto, essa pergunta me tem sido feita reiteradamente e
eu não quero fugir a dar uma resposta. Então, vou expor como, por enquanto, vejo a questão:
Antes das catástrofes, havia correntes de pensamentos e atitudes muito antagônicas. Se tivesse
havido maior convicção por parte de quem desejava a conciliação, opondo-se às ações que
conduziram às guerras, talvez, os rumos tivessem sido outros. Naquela época, o desconhecimento
sobre os efeitos futuros das posições assumidas não permitiu essa convicção. No tempo atual, o
estudo aprofundado do ocorrido pode permitir uma discriminação dos fatos e conclusões sobre
quanto, efetivamente, as catástrofes se deveram a cada comportamento. Mais do que eu tenha a
contar, o empenho no estudo dos acontecimentos pode produzir conceitos verdadeiros.
-O próximo sorteado foi um jovem com aparência inquieta.
-Uma das proposições da oposição é para haver menos estímulos às atividades virtuais, o que,
de certa forma, coincide com o seu discurso. Reclamam de sabotagens contra os seus benfeitores e
de que as suas manifestações a favor da natureza têm sido reprimidas. Você acredita em uma rede
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criminosa dirigida por Mono? Houve alguma pressão para que evitasse esse assunto? - Perguntou o
jovem, incisivamente.
O agente de segurança mostrava sinais de inquietação, fazendo sinais para Melior intervir. Ele
sinalizou para que esperasse um pouco.
-Se houve objeção oficial, eu desconheço. Alguém me disse que eu deveria cuidar para não ser
mal interpretado. A minha intenção é apenas não me furtar a responder às perguntas que são feitas.
Isso significa discorrer sobre os meus sentimentos, os quais são os de alguém vindo de uma época
distante. Se as minhas palavras servem de subsídio a alguma tese, deixo-as à interpretação de quem
esteja mais habilitado. Acredito só ter competência para falar sobre a política atual quem conheça
melhor do que eu todo o seu contexto.
Melior acedeu à gesticulação de agente e interveio dizendo que o tempo previsto estava
esgotado. Afirmou que a entrevista fora um sucesso, tendo obtido grande audiência em todo o
mundo. Apareceram ainda Sazon e o agente de segurança dizendo que tudo havia corrido bem, sem
necessidade de intervenção. Terminada a transmissão, Melior se mostrava eufórico. Desta vez você
atingiu a emoção. Não só houve ótima audiência como tenho a certeza de que a repercussão será
grande. Quando se retirou com sua trupe, disse que voltaria a conversar. Alberto alegrou-se com a
confirmação da boa audiência. Conquanto ainda não estivesse convencido das razões pelas quais as
suas palavras merecessem tal consideração, não iria contestar. O interesse que despertavam lhe era
vantajoso, exceto pela eventualidade de uma reação agressiva do grupo clandestino radical que,
absurdamente, parecia desejar eliminá-lo.
*
Quando os outros saíram, Leneu permaneceu.
-Não pude fugir inteiramente às perguntas sobre a atividade virtual. É difícil avaliar como as
minhas respostas foram percebidas pelos espectadores.
-Creio que deixou clara a sua intenção de não interferir na política.
E você, Mari, o que pode dizer?
-As respostas foram corretas, mas, não conte com que todos fiquem satisfeitos.
Alberto se dirigiu para Leneu.
-Gostaria de ouvir a opinião de Deodéa. Infelizmente, sem pretender, eu devo tê-la ofendido.
-Não se trata disso. Ela é quem está envergonhada por haver se precipitado ao fazer uma
proposta para a qual você não estava preparado. Ela chegou à conclusão de que deve esquecer a
idéia, porém, estou certo de que ficará feliz se souber que você não deixará de estimá-la por isso.
Quer que eu ligue para ela? – Perguntou Leneu.
-Se julgar apropriado.
Feita a conexão, após falar com Leneu, Deodéa se dirigiu a Alberto com expressão amigável.
-Eu o felicito pela entrevista. Acho que ficou ótima e será muito bem acolhida.
-Agradeço a sua atenção. Estava dizendo à Leneu que não desejava opinar sobre a política
atual, pois, não tenho porque provocar desafetos. Contudo, não consegui evitar responder sobre a
questão da virtualidade, tal como pretendia.
-Isso ficou bem claro. Só não entende quem não quer. É impossível opinar sem desagradar
alguém. De qualquer forma, é bom tomar cuidado. Se perceber algum sinal suspeito, gostaria de ser
comunicada imediatamente. Tenho alguns contatos confiáveis com a segurança, os quais poderão
ajudar. Peço desculpas por parecer instável. Fiquei satisfeita em saber que você gostou da
danceteria à qual Madra o levou.
-Devo reconhecer que, apesar de virtual, foi uma experiência interessante. Eu fiquei tonto e,
talvez, não a tenha tratado com a merecida consideração.
-Não foi o que Madra me disse. Ela é voluntariosa e não o acompanharia se não desejasse.
Reconheceu a sua preocupação com os sentimentos dela, contrariamente à má prática atual de
verem todas as pessoas, também, como bonecos.
-Fico aliviado que pense assim. Você acha que eu agi corretamente?
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-Certamente. Você foi ótimo companheiro. Eu prefiro as atividades naturais, porém, não faço
objeções a um entretenimento virtual. Quando gostaria que eu o encontrasse para mais um passeio,
conforme havíamos combinado?
-Quando você quiser.
-Então, entrarei em contato.
*
Conforme prometera, Deodéa foi até a casa de Alberto para um passeio. Leneu preferiu não
acompanhar. Ela propôs visitarem, em primeiro lugar, o maior museu da cidade.
-Será um ambiente mais calmo do que a agitação virtual que você conheceu.
-Você sugeriu à Madra irmos à danceteria?
-Ela me conta tudo, mas, não pergunta nada sobre o que pretende fazer. Solina sugeriu, mas, a
decisão foi dela mesma. Creio que tenha sido boa idéia. Ampliando suas experiências sobre a
realidade virtual, você pode fazer melhores julgamentos.
-Tive uma experiência, no mínimo, surpreendente. Você me acompanharia alguma vez, quando
seu espírito estivesse despreocupado?
-Não sou contra o virtual, desde que não se torne um vício. Nesta época, tenho tido muitas
reuniões e prefiro evitar agitação. Talvez, mais adiante. Todavia, a qualquer hora que você queira,
sobra tempo para a Madra e ela irá com prazer. Está sempre a procura de diversão e me disse que
gostou de ir lá consigo.
-Pensei que ela tivesse ficado aborrecida. Estava muito cheio. Tentamos dançar, mas, foram
quase só encontrões. Eu fiquei tonto e creio que me desequilibrei. Você não se incomodou ao saber
do meu comportamento?
-Entendo sua maneira de ver, mas, nossos costumes são outros. Há uma hora para trabalhar e
outra para se divertir. Desde que ninguém se machuque, não há o que censurar. Foi bom saber que
o seu preparo físico e masculinidade estão em boa forma. Madra o considerou uma companhia
agradável.
-Muitos costumes são iguais, mas, outros me causam estranheza. Disseram-me que não existe
mais o ciúme. Para mim, isso é difícil compreender porque é uma reação instintiva.
-Não é, propriamente, que não exista. Ele não é aceito como algo correto. É como a inveja
espontânea que alguém tenha pelo prêmio de um amigo, ou uma raiva provocada por um encontrão
involuntário. Se a reação ocorrer, deve ser desapreciada. Eu estudei os costumes do seu tempo e sei
que há motivos para serem diferentes. Não se preocupe, eu respeito isso. Só peço que não veja as
minhas atitudes como pouca consideração pela sua pessoa. A experiência lhe mostrará que, com as
mudanças ocorridas nas práticas atuais, não há mais lugar para o cultivo de reações possessivas
desnecessárias. A aceitação desses fatos criará menos dificuldades para você mesmo.
Estavam chegando próximo ao enorme prédio do museu, o que impediu Alberto de insistir em
mais esclarecimentos sobre o assunto. Ele acedeu à sugestão de verem imagens históricas e
geográficas do mundo e, após, alguns objetos reais da sua época anterior. Desceram até junto a um
pódio. Dali, tinha-se uma visão do imenso espaço onde flutuava um globo terrestre de grandes
proporções. Girava, mantendo uma face escura e outra clara, iluminada pela luz de um sol distante.
-Basta indicarmos o lugar, a data e a hora, para termos as imagens que lhes correspondem.
Vamos procurar uma data próxima ao seu tempo. - Deodéa comentou.
Ao seu comando, o globo girou e acenderam-se as luzes nas cidades da face escura
correspondente à Europa e à Ásia, enquanto o hemisfério ocidental estava iluminado pelo sol. O
globo foi se aproximando, fazendo-os ver, do alto, cada vez mais próxima, a cidade do Rio de
Janeiro. Logo, tiveram a visão tridimensional de uma ensolarada Avenida Atlântica. O pódio em
que estavam se confundiu com a calçada e eles se viram como participantes do movimento habitual
da rua. Depois, o pódio os levou para o alto do Corcovado.
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-Espero que as reconstruções virtuais lhe agradem. Há projetos para refazer esse e outros
monumentos importantes em realidade. Os atuais governantes se mostram desinteressados porque
temem uma redução do atrativo dos recursos virtuais.
Prosseguindo com a visitação de lugares da mesma época, foram à Europa. Deodéa fez questão
de mostrar a estátua de Velazquez em frente ao “Museo del Prado”, em Madrid.
-É um dos meus locais preferidos. Restaram muitas informações, permitindo reconstruir
virtualmente quase inteiramente este museu. Poderíamos regredir até 1918 e ver o projeto inicial do
Edifício Villaneuva que lhe deu origem.
A seguir, avançaram nos anos para além do que Alberto conhecera, observando a
modernização das cidades. Em dado momento Deodéa teve uma expressão de desgosto:
-A menos que você faça questão, prefiro evitar guerras e cataclismos. São imagens de muito
sofrimento.
Saltando alguns anos o panorama era o de cidades destruídas e de devastação quase completa
em todo mundo. Prosseguindo adiante, puderam acompanhar o lento crescimento de pequenas
comunidades repovoando o planeta.
-É emocionante ver o meu futuro se destruir e, depois, ser reconstruído.
Apesar do que já havia visto e ouvido, tudo parecia a Alberto uma história de ficção. Ele
desejou ter visões menos incômodas:
-Seria possível regredir, a partir de onde iniciamos?
Voltaram a um passado com fatos cuja história Alberto conhecia. Visitaram edificações,
habitantes, roupas e instrumentos de épocas antigas em todos os continentes. Alberto se interessou
em acompanhar o crescimento da Europa medieval, o Império Romano, o início de Roma, a antiga
Grécia, as cidades primitivas, tribos e grupos familiares, o povoamento do Antigo Continente a
partir da fixação de tribos nômades, e os grupos dispersos da África.
Concluídas as solicitações, o globo voltou a se distanciar.
-Naturalmente, há um pouco de especulação. Deseja ver mais alguma coisa?
-É demais. Não consigo absorver tanta informação. Pode-se passar uma vida inteira aqui.
-Vamos ver alguns objetos reais? – Propôs Deodéa.
Feito o pedido, o pódio se deslocou, conduzindo-os através do grande museu para outro espaço
onde havia objetos reais da época de Alberto com réplicas do habitat. Não havia impedimento de
tocá-los. Deodéa pediu para Alberto desligar o seu comunicador para ouvir o nome dos objetos
ditos diretamente por ela.
-Estou estudando a sua antiga língua e desejo saber se você aprova a minha pronúncia. – Disse
Deodéa.
A seguir, ela construiu pequenas frases. Tinha um sotaque carregado, porém, era perfeitamente
inteligível.
-Está muito bom. Quase me sinto em casa. – Comentou Alberto.
Em seguida, preferiu voltar à intermediação.
-Os objetos foram restaurados, porém, são originais. Vamos voltar? – Propôs Deodéa.
-Estou admirado. Creio que virei aqui, de novo, outro dia.
Enquanto Alberto manifestava a sua admiração pelo interesse lingüístico dela, o pódio os levou
até o local de embarque em um módulo de transporte.
-Estranhei ter visto poucas pessoas visitando o museu. – Disse Alberto.
-A maioria quase não sai de casa. É possível ter acesso virtual a estas imagens. A perfeição é
menor e, nem sempre, estão atualizadas. Existe uma equipe agregando constantemente novos
achados.
*
Em frente ao museu, embarcaram num módulo de transporte.
-Gostaria de conhecer um amigo por quem tenho grande consideração? - Deodéa propôs.
-Será um prazer. O que ele faz?
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-É um filósofo, religioso, colecionador de artes e bom companheiro de nome Tacialmo. É,
também, o representante do nosso Estado junto ao Conselho Internacional.
Deodéa fez um contato e, pouco depois, o módulo se aproximou de uma construção com grande
abóbada em forma oval. Desceram junto a uma porta lateral e foram recebidos por um jovem
prestimoso.
-O mestre Tacialmo irá recebê-los logo após sua apresentação. Vosso lugar está reservado.
Acompanharam o jovem por um corredor até entrarem em um grande estádio lotado. Foramlhes indicados lugares laterais, próximos a uma espécie de palco onde um homem discursava com
voz suave.
-Este é um templo ecumênico. Aquele é Tacialmo. Ele tem o seu horário semanal de pregação.
É mais um diálogo estabelecido com pessoas que gostam de meditar sobre coisas que vão além do
dia a dia. - Deodéa explicou.
O palestrante tinha feições de mais idade do que as demais pessoas que Alberto havia
conhecido. O grande espaço interno era cercado por balcões superpostos ocupados por pessoas
acomodadas confortavelmente. A iluminação suave e a decoração com desenhos ondulados e
coloridos compunham um conjunto espetacular. De quando em quando, um balcão era iluminado e
o seu ocupante fazia uma indagação para ser respondida por Tacialmo.
Inicialmente, Alberto ficou deslumbrado com o que via. Depois, prestou alguma atenção no que
estavam dizendo.
-Se o mal é o culpa do homem, como entender os desastres naturais? - alguém perguntou.
-Precisamos distinguir infortúnio de maldade. O infortúnio é tudo o que causa sofrimento. Já
discutimos o papel do sofrimento. A natureza e os impulsos humanos não têm intenções boas ou
más e acontecem dentro de uma disposição imemorial das coisas. Ao contrário, quem pratica o mal
deseja ou não se importa com o infortúnio que os seus atos irão causar aos outros, imediatamente,
ou, dentro de algum prazo. Alguém pode agir com boa intenção e produzir infortúnio, assim como
desejar o mal e acabar por produzir um benefício. Embora seja difícil, o julgamento verdadeiro da
culpa deve considerar, sobretudo, as intenções. – Tacialmo respondeu.
-Então, como a lei pode definir a gravidade de um crime? Insistiu o mesmo assistente.
-A lei deve classificar o crime pelo potencial de infortúnio que o mal praticado poderia causar.
Infelizmente, essa avaliação é difícil e está sujeita a preconceitos. Há necessidade de grande
sabedoria para formular as leis, assim como para aplicá-las.
Houve outras perguntas, porém, Alberto estava novamente distraído, examinando o cenário. Ao
final, iniciou-se uma música e todos, inclusive Deodéa, entoaram um hino. O palestrante se retirou
aplaudido. O jovem os convidou para acompanhá-lo através de um corredor lateral até a sala onde
Tacialmo os aguardava e cumprimentou Deodéa com entusiasmo, demonstrando serem velhos
amigos. Ela apresentou Alberto e Tacialmo o abraçou, expressando sua simpatia.
- Assisti a sua entrevista, a qual me pareceu muito boa. Deodéa me falou a seu respeito. Tenho
muito prazer em conhecê-lo. – Disse Tacialmo.
-Ela ainda pouco me falou sobre a sua pessoa, mas, o suficiente para admirá-lo. Vejo que tem
muitos seguidores.
-Eu diria que ainda estou em moda. Estas pessoas são bem intencionadas e têm prazer em estar
juntas. É uma espécie de festividade. Infelizmente, são poucos os que têm o hábito de pensar
alguns passos adiante do cotidiano. Menos ainda, os que põem em prática o que dizem. Se
houvesse mais pessoas como Deodéa, nosso mundo estaria melhor. Entretanto, estou otimista.
Embora a maioria ainda procure coisas mesquinhas, vejo aumentar o número daqueles que querem
fazer parte da harmonia do universo. O que achou deste nosso ambiente?
-É impressionante. Parece que uma preleção a partir de perguntas funciona melhor.
-Assim é, quando as perguntas são bem formuladas. Boas perguntas sempre são o mais
importante numa apresentação. Merecem uma resposta, positiva ou negativa, a qual a gente expõe e
se obriga justificar. Quando não se sabe a resposta, é preciso admitir com franqueza. Reconhecer o
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desconhecimento é o primeiro passo da caminhada em procura de resposta. Quais são as suas
opiniões com relação ao que discutimos na sessão de hoje?
-Peço que me desculpe. Só escutei a parte sobre julgar a culpa pela intenção, com o que eu
concordo perfeitamente. Estava surpreso e admirado com tudo que via e prestei pouca atenção ao
que diziam.
-O que falamos antes tem a ver consigo. Eu dizia que não podemos conhecer o presente sem
conhecer o passado do qual ele é fruto.
-Eu tenho me perguntado quanto eu poderia ter previsto sobre a época atual. Algumas coisas já
existiam na imaginação, outras me surpreenderam completamente.
-Ainda que as crises violentas tenham destruído e mudado alguns rumos do nosso processo
evolutivo, os fundamentos do presente estão no passado.
-A sua filosofia é evolucionista?
-Não há como negar os fatos, assim como não se pode negar que a evolução natural só explica
uma parte. Ou nossa visão procura ir além da observação imediata, ou, o nosso conhecimento não
conduz a lugar nenhum. Qual é a sua posição sobre isso?
-Não sou muito bom em pensamentos de tal profundidade. Mas, concordo em que o
conhecimento que temos do cosmos não o pode explicar. Entretanto, mais difícil é admitir que tudo
isso tenha por finalidade um ser tão imperfeito quanto o homem.
-O paradoxo é que o homem precisa ser imperfeito para estar próximo à perfeição. Um ser com
inteligência só é perfeito se tiver poder de escolha. Isso implica no poder de escolher o mal. Sem
livre-arbítrio, seríamos apenas máquinas respondendo conforme a programação. A perfeição está
em fazer o bem podendo fazer o mal.
-De fato, é um mistério. Eu preciso meditar sobre isso.
Deodéa resolveu intervir.
-O Alberto tem muito em que pensar para organizar as suas idéias. Eu imagino como seria viver
a experiência que ele teve. É surpreendente quanto tem conseguido se adaptar.
-O seu caso surpreende a todos e nos traz muitos ensinamentos. A nossa comunidade gostaria
de ouvi-lo. De outra parte, estamos prontos a apoiá-lo em tudo que nos seja possível. – Confirmou
Tacialmo.
-Para mim, o mais útil que eu possa fazer é satisfazer a curiosidade das pessoas e o desejo que
têm de conhecer sobre o meu passado distante, enquanto eu seja novidade. Coloco-me a vossa
disposição. Respondendo às perguntas, eu também apreendo.
Deodéa interveio, mais uma vez.
-Hoje eu procurei lhe mostrar alguns fatos do nosso tempo com os quais ainda não tinha tido
contato. Acredito que Tacialmo aceitará ter outros encontros conosco, se você quiser.
-Terei muito prazer em conversar mais com o mestre Tacialmo. Eu preciso muito colocar em
ordem os meus pensamentos e penso que os seus conselhos podem ajudar.
-Se há algo em que eu me tenha qualificado é ajudar as pessoas a porem em ordem os seus
pensamentos e chegar às próprias conclusões. Isso me ajuda a encadear as minhas próprias idéias.
Ter ordem nos pensamentos é o caminho para a serenidade. Quando você desejar vir, basta marcar
com Deodéa. Ela é uma grande amiga e colaboradora. Participa da organização de todos os nossos
eventos, principalmente para os jovens. Agora, porém, teremos um programa para idosos. Vamos
discutir sobre a monotonia na maturidade.
-É monótono viver tantos anos?
-Para alguns, sim. Quem participa da nossa comunidade se sente estimulado a viver, cultivando
a beleza estética das coisas e aprofundando os seus conhecimentos. A sabedoria que a idade
favorece pode proporcionar um prazer acima de tudo o mais. Procuramos ajudar aqueles que ainda
não fizeram essa descoberta.
Em seguida, Tacialmo pediu licença e se dirigiu a Deodéa, perguntando se desejava ver como
estava a programação do evento. Havendo concordância, projetou-a em frente. Tacialmo e Deodéa
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se puseram a discutir alguns detalhes, enquanto Alberto ficou perdido em seus pensamentos. O
passeio lhe produzira bem estar. Seria pela companhia de Deodéa? Cada vez mais ele se sentia
atraído por ela. Seria amor? Certamente, não como a empolgação que tivera uma vez. Lembrou-se
com nostalgia dos antigos tempos de namoro e das emoções que experimentara. Com Deodéa era
diferente, mas, havia encantamento e prazer em estar junto. Veio-lhe ao pensamento a bonecacompanhia. Os sentimentos que tinha por ela o confundiam. Não era apenas como a paixão que
tivera pelo primeiro automóvel, mas, também não era como o sentimento que Deodéa inspirava.
Gostava de se relacionar com Mari. Não lhe encontrava imperfeição física ou nas atitudes, mas,
faltava algo. As palavras de Tacialmo o ajudaram a entender. Ela fora construída para atender a
todos os seus desejos. Não era perfeita porque não tinha o arbítrio de contrariar, a menos que ele
assim determinasse. Ela havia chegado num momento em que ele carecia demais de afago. Se o
relacionamento com Deodéa tivesse ocorrido antes, possivelmente, teria tido menos atração por
Mari. Qual seria o sentimento que Deodéa lhe devotava? Ela tinha proposto terem um filho juntos.
O que isso, de fato, significaria emocionalmente para ela? Se lhe dissesse que a amava, o que
responderia?
Subitamente, os seus pensamentos foram interrompidos por Deodéa.
-Desculpe-me Alberto, eu tinha ficado de rever a programação do evento. Se não desejar mais
nada de Tacialmo, podemos ir.
Despediram-se, combinando que haveria outros encontros. Tacialmo chamou seu assistente
para acompanhá-los até a saída.
17 – TENTÁCULOS
Quando Alberto e Deodéa estavam para entrar em um módulo de transporte, alguém se
precipitou à frente deles. Imaginaram se tratar apenas de um mal educado. Em seguida, surgiu
outro módulo e eles embarcaram. Mal começaram a se deslocar, sentiram-se sonolentos e
rapidamente adormeceram. Acordaram afundados num sofá de uma sala cujo mau aspecto
contrastava com tudo o que Alberto tinha visto até então. Ele sentia o corpo adormecido, tal como
sentira ao ser levado pela primeira vez até Zefir. Os seus pulsos, assim como os de Deodéa,
estavam presos, mas, não os pés. Em pé, um homem olhava para eles. Parecia forte e portava na
cintura um pequeno aparelho igual ao do inspetor Cliolan, identificado por Leneu como uma arma
paralisante. Deodéa se dirigiu a ele em voz alta, numa linguagem que Alberto não entendia e na
qual foi dada a resposta. Ele concluiu que a comunicação através do computador central estava
bloqueada. O mesmo devia ocorrer com outras irradiações que pudessem localizá-los. Enquanto o
homem olhava por uma pequena janela, Deodéa falou em voz baixa com o sotaque carregado que
Alberto conhecera no museu. O seqüestrador não devia contar com que Deodéa aprendera um
pouco daquela língua morta e não supunha que eles pudessem se comunicar.
-Fomos seqüestrados. Ele é ligado ao grupo Defensor e querem extrair de você informações
sobre Zefir.
-Onde estamos?
-Na floresta. Não sei o lugar.
Alberto sentiu as suas forças voltarem gradualmente. Depois de algum tempo, pôde ver passar
pela janela um veículo que foi parar junto à porta. O carcereiro disse uma palavra e a porta
automaticamente se abriu para a entrada de outro homem com uma maleta. Era um sujeito magro
com gestos ríspidos e autoritários. Pareceu a Alberto um característico técnico mal resolvido.
Imaginou que a maleta portasse equipamentos para extrair as informações. Aparentemente, o
técnico não tinha grande apreço pelo seu companheiro. Indicou com um gesto autoritário que ele se
afastasse duma pequena mesa. Em cima colocou a maleta, abriu-a e retirou um fone, o qual
prendeu com um gesto brusco sobre um ouvido de Alberto. Com excessivo cuidado, foi colocando
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sobre a mesa os aparelhos da sua maleta. Ao mesmo tempo, falava e era traduzido pelo aparelho
colocado em Alberto.
-Vou fazer algumas perguntas. Será melhor você responder corretamente. Evitará sofrimento
desnecessário. – Disse o sequestrador.
Os carcereiros não pareciam estar preocupados com que seus cativos tentassem algo, confiantes
no desamparo que eles demonstravam e nas armas paralisantes que portavam. O mais forte também
não demonstrava nenhuma simpatia pelo seu companheiro. Ele o olhava de esguelha, com
semblante fechado. Alberto pensou na experiência que tivera em andar a pé pela floresta e no medo
que isso provocava em pessoas acostumadas a um mundo tecnológico.
-Você fugiria comigo pela floresta? - Dirigiu-se para Deodéa discretamente Alberto.
-Podemos tentar.
-Seria capaz de falar a senha que abre a porta?
-Acredito que sim.
-Então, abra quando eu pedir. Sairemos correndo juntos.
-De acordo.
O técnico não demonstrava pressa, usando trejeitos pomposos para impressionar. A
oportunidade surgiu quando o homem mais forte entrou num quarto anexo com instalações
sanitárias, enquanto o da maleta ainda fazia os seus preparativos.
-Tente abrir agora. - Alberto falou.
Deodéa repetiu as palavras que ouvira e a porta iniciou a se abrir. O técnico olhou surpreso para
a porta ao mesmo tempo em que Alberto se atirou contra ele arrancando sua arma paralisante e
fazendo-o estatelar-se no chão. Saíram correndo para o interior da floresta, procurando seguir por
onde o matagal estivesse mais fechado. Continuaram sempre em frente, sem saber em qual direção.
Ouviam gritos atrás deles com expressões de raiva. Enquanto corriam, perceberam que a
comunicação através do computador central se havia restabelecido. Deodéa solicitou socorro. Sem
parar de correr, Alberto solicitou contato com o seu canal de comunicação e nele colocou uma
breve mensagem. Disse que escapava de seqüestradores, correndo a pé em uma floresta, sem saber
o local em que estava. Embutiu na mensagem a senha de urgência combinada com Zefir. Após
algum tempo, estavam cansados e caminhavam ofegantes. Não viam os seqüestradores e não
tinham idéia sobre onde estavam, mas, sabiam que os perseguidores dispunham de, pelo menos, um
veículo. Subitamente, surgiram zunidos próximos a eles. Entraram em pânico e tentaram correr em
outra direção. O solo estava escorregadio. Deodéa tropeçou e caiu. Tentou levantar sem conseguir,
gemendo de dor no tornozelo:
-Continue você, eu não agüento mais.
-Fique firme. Eu vou ajudá-la.
-É você quem eles querem. Continue. Eu vou tentar despistá-los.
Alberto tomou-a no colo e seguiu em frente, porém, diversos veículos os cercaram. Ele ficou
paralisado, sem saber o que fazer. Pensou que estavam perdidos.
-São da segurança pública. Finalmente, agora, tudo ficará bem. – Disse Deodéa, de modo
tranquilizador.
Depois, falou diretamente para o ouvido de Alberto.
-Evite mencionar que perguntaram sobre Zefir.
Os oficiais da segurança se aproximaram demonstrando preocupação e desejo de ajudar. As
mãos foram libertadas. Em seguida, apareceu também um pessoal da imprensa. O oficial mais
graduado dava ordens aos seus comandados. Conversou com Deodéa e os encaminhou para um
hospital onde seriam examinados. Nada foi constatado de grave com a perna de Deodéa. Ela foi
medicada e a dor passou. Em seguida, eles foram interrogados. Alberto disse que não havia
entendido o que queriam os seqüestradores e procurou transferir as perguntas para Deodéa. Ela fez
um longo relatório e exigiu providências. Alguns jornalistas conseguiram furar o bloqueio e
perguntaram a Alberto:
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-Sabe por qual motivo o seqüestraram?
-Não faço idéia. Eles cortaram a minha comunicação. Tenho recebido algumas críticas pelas
entrevistas que eu dei, mas, não entendo como possam ser causa para tanto.
-Seriam motivos políticos?
-Gostaria de saber. Espero que o serviço de segurança esclareça. Desculpem-me. Estou muito
cansado.
Esquivou-se de novas perguntas e os seguranças, com alguma dificuldade, afastaram os
repórteres. Concluídos os trâmites protocolares, Deodéa convidou Alberto para jantar em sua casa.
Havia muita coisa para falar e seria melhor fazê-lo pessoalmente, em ambiente tranqüilo. Ao sair
ela ainda deu breves declarações à imprensa, concluindo por dizer que estava esgotada e, outro dia,
responderia com mais calma. Foram transportados até a casa de Deodéa utilizando um veículo da
segurança.
*
Em frente ao magnífico jardim da casa de Deodéa, ela e Alberto repassaram detalhes da
aventura que viveram.
-Peço que aceite os meus agradecimentos pelo salvamento. Você mostrou coragem e
determinação. Foi muito hábil, também, em não responder tudo o que queria a segurança e a
imprensa. Quem tem respostas a nos dar são eles. - Expressou Deodéa.
-Antes, eu devo me desculpar. Acredito que a culpa tenha sido minha porque era a mim que
eles desejavam.
-Não vejo qual seja a sua culpa por existirem maus elementos.
-Você sabe algo sobre Zefir?
-Leneu mencionou uma indagação da segurança. – Disse Deodéa.
Foi uma resposta curta, deixando claro que ela preferia, ao menos pelo momento, não discutir o
assunto. Chamou um cãozinho que se aproximou abanando a cauda. Não havia indicação de que se
tratasse de um robô. Alberto o acariciou e perguntou:
-Os cães domésticos também são robôs?
-A gente esquece que sejam. Bobô já incorporou os meus modos e desejos. Só os insetos do
jardim são genuínos. Eles são controlados sanitariamente. Veja que borboletas bonitas.
Era agradável admirar as borboletas coloridas esvoaçando sobre as flores. Alberto comentou:
-Está bem mais tranqüilo do que no dia da festa. Hoje se aprecia melhor a beleza do seu jardim.
-É quase sempre assim. São poucos os dias em que dou festas ou alugo a parte social da casa
para eventos. Faço isso, apenas, para pessoas conhecidas.
Artur, o boneco-companhia, apareceu perguntando se desejavam alguma coisa. Deodéa pediu
suco de laranja e Alberto acompanhou.
-Sinto que a implicância que eu provoquei contra mim se esteja tornando perigosa também para
os meus amigos. Estou pensando que será melhor não falar mais em público.
-É minha a culpa pelo que aconteceu. Eu devia ter mais cuidado ao tomarmos o módulo de
transporte. Uns poucos radicais são responsáveis por estas ações, mas, hoje se deram mal. Foi-me
dito que os seqüestradores foram presos. Com toda aquela imprensa, o assunto não poderá ser
minimizado. O chefe da segurança ficou irritado porque serão obrigados a ir até o fim com as
investigações. Eles vão ser cobrados para procurar quem mandou.
-O serviço de segurança é conivente com essas ações?
-Não gostam quando pessoas famosas estejam envolvidas. As pressões são maiores. De um
lado o governo, do outro a oposição e, ainda, a imprensa. Este caso pode resultar num escândalo
internacional.
-Você chamou a imprensa?
-Não. Eu nem saberia dizer onde estávamos. É curioso, pois, normalmente, só os agentes de
segurança poderiam ter rastreado onde estávamos e eles não a teriam informado. Não gostam de
notícias antes do caso resolvido. Não sei como a imprensa descobriu tão prontamente. Eu pedi que
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você não mencionasse o que disseram pretender os seqüestradores para evitar que, a imprensa se
fixe sobre o assunto, ao menos enquanto for notícia nova. O que alguns mais gostariam é depreciar
a sua credibilidade. Eu o aconselho a não admitir saber algo sobre o que eles pretendiam, nem
mesmo para mim. Só serviria para estimular mais inquirições.
-Continuo sem atinar com o motivo dessa perseguição.
-No seu tempo seria dito que você entrou como Pilatos no credo, se eu bem entendo o
significado dessa expressão: Você nada tem a ver diretamente, mas, tornou-se uma espécie de
símbolo para quem deseja contestar várias coisas.
-Creio que você entendeu bem o significado da expressão. O seu conhecimento da minha língua
nos salvou hoje. Faz muito tempo que a vem estudando?
-Como você deve ter observado, eu e os demais amigos de Leneu nos interessamos por história.
Conhecer você me estimulou a estudar mais.
A tarde caia. Alberto prestou atenção em Deodéa. Após o grande susto, ela se mostrava
descontraída e parecia feliz. Ele a avaliou como sendo bonita e atraente.
-Estive pensando sobre o seu desejo de um filho. Muitos desejariam o privilégio de ser o pai. O
que a levou considerar a minha pessoa?
Deodéa sorriu, mostrando-se bem humorada.
-Leneu implica comigo dizendo que eu quero aparecer. Acho que ele é um pouco ciumento. Se
fosse para aparecer eu teria muitas outras oportunidades. Há tempo eu penso em ter um filho,
porém, creio ser exigente demais e os meus contatos não têm dado certo. Acreditei ter encontrado
em você a pessoa adequada. Entretanto, convenci-me de que é melhor sermos amigos, sem outros
compromissos. Desculpe-me pelo transtorno.
-Eu fiquei lisonjeado, porém, temeroso de não corresponder. Parece-me que Leneu faz gosto
em que haja esse acerto.
-Ele é uma pessoa excepcional. Desde que meu pai viajou, tem sido o meu maior apoio.
-Se não houvesse tantas ameaças pairando sobre a mim, eu não relutaria em dizer sim.
Conhecendo-a, eu me convenci que seria muito agradável viver em sua companhia.
Deodéa levantou e sentou ao lado de Alberto. Tomou sua mão carinhosamente, demonstrando
uma doçura inesperada.
-Vamos esquecer isso, ser bons amigos e deixar o tempo correr.
Eles trocaram um beijo e ficaram abraçados, olhando o jardim. Depois, entraram para jantar.
Ao anoitecer, Alberto voltou para casa, sentindo-se bem, apesar de desnorteado. Mari lhe fez
algumas massagens e ele logo adormeceu.
*
No dia seguinte Alberto procurou por notícias nos canais mais conhecidos. Todas as manchetes
eram sobre o seqüestro, relatando as prisões ocorridas e as providências que estavam sendo
tomadas. Como fora previsto por Deodéa, ninguém aceitava que os seqüestradores tivessem agido
por conta própria. Havia uma grande cobrança para que a investigação fosse aprofundada. Os
canais sensacionalistas aludiam a Alberto como o homem do gelo, ou o homem do passado, capaz
de enfrentar os perigos da floresta. Uma espécie de Tarzan. Alberto continuava preocupado com a
possibilidade de retaliações. Evitou responder à mídia, justificando com a ansiedade provocada
pelos acontecimentos. Mari o consolava e fazia comentários pertinentes.
-As investigações devem chegar a uma solução satisfatória. Em caso contrário, as implicações
internacionais serão muito desfavoráveis. – Disse Mari.
Leneu demonstrava preocupação.
-Falei com Deodéa. Ela está bem, mas, pediu para deixá-lo descansar. Contou-me sobre a sua
atitude corajosa. Alguns estão afirmando que a nossa tutoria deveria ter sido mais cuidadosa. Estou
me sentindo culpado.
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-Vou fazer uma declaração dizendo que os meus tutores não tiveram nenhuma culpa pelo que
aconteceu. Foi iniciativa minha sair sem me prevenir contra estas pessoas desequilibradas que,
provavelmente, só querem aparecer.
-Não creio que, neste momento, uma declaração sua seja boa idéia. Poderiam dizer que foi
pressionado. Ninguém acredita que o seqüestro tenha sido um ato isolado. Nós vamos discutir
como proceder. Se precisarmos da sua ajuda, voltaremos a conversar sobre isso.
-Não deixe de fazê-lo. Eu gostaria de saber que os responsáveis foram apanhados. Espero que
estes atentados não voltem a acontecer. Entretanto, a culpa é minha. Eu falei e me expus
publicamente demais, sem conhecer todas as implicações.
-Você não fez nada que não seja seu direito. Não podemos viver encurralados. Os culpados
precisam ser punidos para todos nós termos tranqüilidade.
Nos dias que se seguiram, Alberto ficou prisioneiro em sua casa, com atenção em novidades
sobre a investigação. A segurança da casa havia sido reforçada. Leneu comparecia diariamente. Ele
aconselhou-o a não sair. Alberto continuava a falar com Deodea pelo comunicador, evitando dizer
qualquer coisa que pudesse ser mal interpretada. Haviam concordado ser melhor não se
encontrarem. Estavam vigiados pela imprensa e não desejavam fazer declarações. A carência de
relações com outras pessoas era preenchida pela Mari. Ao menos uma vez ao dia, Alberto fazia
exercícios na área de esportes virtuais. A toda hora surgia uma nova notícia. A partir dos
seqüestradores, várias pessoas influentes foram denunciadas. Havia suspeitas de que alguns
Congressistas e seus assessores, inclusive Polácio que Alberto havia conhecido na casa de Deodéa,
estivessem implicados. Isso determinou a presença de observadores da Organização Internacional,
uma praxe em crimes envolvendo pessoas do governo. A agência contratada para investigar a
sabotagem no traje virtual trouxe a informação de que as investigações conduziam a ações
interligadas. Causou satisfação a Alberto que não houvesse nenhum indício de participação por
parte de Solina. Chegara a suspeitar dela, porém, simpatizava com o seu jeito descontraído de agir.
*
Alberto estava com Leneu quando recebeu um comunicado da sua assessoria jurídica de que
havia uma ordem judicial para que a Segurança Pública o inquirisse oficialmente. O advogado
Sazon perguntava se preferia atender ao pedido ou queria que ele entrasse com uma contestação.
Alberto solicitou algumas informações sobre possíveis implicações e disse que preferia atender.
Antes da chegada dos demais, Leneu recomendou a Alberto que não se deixasse levar para
outros assuntos, fora o seqüestro. Especialmente, não confirmasse contato com clandestinos e, se
mencionados, exigir a fonte da informação.
-Não se pode ser ingênuo. O sequestro pode ter sido planejado apenas para levantar
publicamente a suspeita de que você tenha ligações com pessoas fora da lei e, com isso, abalar a
sua credibilidade. – Explicou Leneu.
Na hora aprazada, estavam na sala: Alberto, Leneu, o advogado Sazon e o oficial da segurança
Cliolan. Foi pedido para Mari ficar em outro quarto. O oficial, inicialmente, mostrou-se muito
autoritário. Apresentou a ordem judicial para inquirição e avisou que as declarações estariam sendo
gravadas. O advogado não se mostrou disposto a ficar só observando.
-É bom lembrar que a autorização judicial, à qual o meu cliente e os seus tutores anuíram com
boa vontade, é para permitir que ele seja inquirido na condição de vítima de um crime. Não implica
na exigência de que responda fora desse propósito. Quero também deixar um protesto por ele,
anteriormente, ter sido inquirido arbitrariamente, sem autorização judicial e sem a presença da sua
assessoria jurídica. – Disse Sazon.
Cliolan baixou o tom da voz.
-Anteriormente, houve apenas uma conversa informal, com o consentimento do Sr. Alberto.
Agora, os acusados presos alegam que tiveram a intenção de colaborar com a segurança pública no
propósito de coibir atividades ilegais. Desejavam apenas obter algumas informações sobre um
grupo clandestino chefiado por um personagem denominado Zefir. O que tem a dizer sobre isso?
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Alberto, ao responder, demonstrou agastamento.
-Espero que não considere tais declarações dos seqüestradores, evidentemente pretensas
justificativas, com seriedade. Eu havia recebido ameaças sobre a entrevista que iria fazer. Pessoas
que desconheço ameaçaram-me, alertando que as minhas opiniões lhes poderiam ser prejudiciais.
Na entrevista, respondi perguntas sobre os meus sentimentos com relação à virtualidade no mundo
atual. Tinha obrigação de satisfazer a curiosidade manifestada por muitos sobre o choque cultural
que eu tive. Aparentemente, algumas pessoas interpretaram as respostas como contrárias às suas
posições. Agora, sofri um seqüestro e surgem essas alegações. Estou disposto a colaborar em tudo
o que possa, mas, peço uma contrapartida. Eu quero saber em que fonte os meliantes se
abasteceram para as alegações que fizeram a meu respeito e quem os instruiu a me seqüestrar.
-O inquérito está em andamento e eu não posso adiantar essas informações. – Disse Cliolan.
-Nesse caso, eu prefiro aguardar o resultado, antes de responder qualquer coisa a mais, além do
relato de como ocorreu o seqüestro.
-Parece que o senhor não confia na nossa intenção de levar até o fim as investigações. O sigilo
do inquérito é uma praxe. Inquirimos várias pessoas e não lhes prestamos informações. – Insistiu o
oficial de segurança.
-Não se pode confundir a inquirição de criminosos com o testemunho do meu cliente que foi
vítima. Ele deseja ter acesso ao conteúdo do inquérito referente às informações que lhe digam
respeito. É seu direito e podemos entrar com uma petição judicial para obtê-lo. – Sazon,
prontamente, interveio.
Cliolan se mostrou contrariado, falando com maior rispidez.
-Para isso eu terei que consultar os meus superiores. Nossa intenção ao inquiri-lo é a de
esclarecer o caso, o que também deve ser do vosso interesse.
-É do meu máximo interesse, mas, não posso colaborar sem conhecer a inteira situação em que
me colocam. Parece-me que os seqüestradores pretendem desviar o foco da questão e estão obtendo
alguma anuência. – Disse Alberto.
-O meu cliente já deixou clara a sua posição. Permita-nos acesso ao teor do inquérito
espontaneamente ou farei uma petição judicial. – Concluiu Zazon.
-Irei consultar os meus superiores e voltarei a me comunicar. Passem bem.
O oficial levantou-se e partiu, com gestos visíveis de aborrecimento. Logo que saiu Sazon deu
uma sonora gargalhada.
-Gostei de ver. Esse Cliolan é muito arrogante. Se tivesse outra atitude, obteria melhores
resultados.
-Não sei como as coisas funcionam atualmente. Temo que desviem o rumo das ações, deixando
de procurar o que interessa. – Falou Alberto.
-Às vezes acontece. No caso atual, seria difícil fugir às conseqüências. A repercussão foi muito
grande. Assim como há quem deseje desviar, existe quem queira apontar os culpados. Se você
estiver de acordo, vou entrar com um pedido de vistas ao inquérito. Estou certo de que não nos será
oferecido espontaneamente.
-Nem faço tanta questão sobre os detalhes, mas, estou de acordo. No mínimo, aprenderei um
pouco mais. O que me interessa é que cheguem a um resultado.
Após a saída de Sazon, Leneu comentou a atitude do oficial Cliolan.
-O interesse dele parece ser maior em Zefir do que no seqüestro. Você respondeu muito bem.
Esse inquérito acabará circulando por muitas mãos. É preciso ter cuidado ao falar para não
municiar pessoas mal intencionadas.
*
Diariamente havia notícias, porém, sem apresentar conclusões definitivas. Apesar das
cobranças, o assunto parecia estar sendo deixado em água morna. Entretanto, havia também muita
pressão pública por resultados. Passaram-se alguns dias, até que, inopinadamente, Deodéa
comunicou a Alberto estar indo à casa dele para levar novidades. Ao chegar, demonstrava alegria.
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-Recebi, agora, uma antecipação do resultado das investigações. Os responsáveis pelo seqüestro
que sofremos e pela sabotagem do seu traje virtual se relacionam. Eles alegam que foram induzidos
a obedecer pelo personagem que se autodenomina Mono, mas, não o conhecem. Ninguém o
identifica e os agentes da Segurança Pública dizem não acreditar que exista. De qualquer modo,
ademais do pessoal de campo, várias pessoas proeminentes já terão que colocar pulseiras
prisionais, inclusive três Conselheiros Estaduais e um Internacional. Se insistíssemos nas
acusações, talvez se apontasse mais gente indiretamente comprometida. Julgamos contraproducente
porque os nossos inimigos são muitos e, sem provas indefensáveis, eles os apoiariam. O importante
é que a estrutura do grupo denominado Defensor que conspirava contra nós foi desbaratada,
deixando-nos aliviados. O seu modo de ação radical provocava descontentamentos até dentro do
governo. Creio que, pelo menos por algum tempo, poderemos ficar tranqüilos. O nosso grupo
político obteve importante avanço com relação ao apoio da opinião pública.
-Estamos completamente livres de bandidos? – Perguntou Alberto.
-Infelizmente, penso que essa segurança seja impossível. Eles mencionam haver um chefe
denominado Mono. Eu já ouvi falar muito sobre esse nome. Penso que se foram alguns tentáculos,
mas, persiste a cabeça.
*
Alberto sentia falta de conversar com Zefir. Ele podia lhe dar informações de outras fontes, ou
relatar-lhe fatos que outros relutavam revelar. Apesar de que tivesse dito para esperar pelo seu
aviso, Alberto tomou a iniciativa de colocar em seu canal de comunicação, junto com uma
mensagem de agradecimento aos que o ajudaram no episódio do seqüestro, a senha combinada para
um contato não urgente. Entretanto, sabia que Zefir, talvez, não pudesse mandar buscá-lo como de
outras vezes. O dia fora cansativo. Alberto dispensou a atenção de Mari e prendeu o sono com
facilidade.
Na madrugada foi acordado com uma movimentação inusitada. Os visitantes pediram para que
fosse até a área de estar e lá Alberto encontrou o próprio Zefir. Foi deixado a sós com ele.
-Desculpe-me pelo aparato. Por enquanto, estamos precisando desse excesso de cuidados. Eu
espero não demorar em resolver essa inconveniência.
-Eu também passei por sérios contratempos.
-Foi muito feliz a sua idéia de nos dar um aviso. Acionando em tempo a imprensa, pudemos
dificultar que a segurança negligenciasse a atenção ao caso.
-Foram vocês que avisaram à imprensa?
-A segurança pública nunca o faria.
-Nada há de urgente para o meu pedido e, menos ainda, exigindo o seu comparecimento
pessoal.
-Eu desejava conhecer pessoalmente a sua casa e tinha vontade de cumprimentá-lo pela
entrevista. Gostei mais do que a primeira.
-Entendo que haja uma discussão entre continuar promovendo a virtualidade ou prestigiar as
atividades naturais. Isso, como qualquer outra discussão, pode se tornar um instrumento de disputa
pelo poder. Compreendo, também, a curiosidade histórica que eu provoco. Ainda assim, não me
conformo com que as minhas opiniões, as quais se relacionam com um tempo distante, possam
causar controvérsias tão importantes a ponto de ensejar agressões.
-A tecnologia evoluiu, mas, apenas em áreas permitidas pela legislação internacional. Como
sempre, cada pessoa precisa aprender tudo de novo ao nascer. As comodidades estimulam o pouco
esforço. Alguns aceitam que, no passado, apesar dos erros cometidos, vocês estivessem até mais
adiantados do que nós em alguns setores. Fala-se em resgatar a sabedoria do passado. Neste
momento, é até uma moda. Eu estava lendo os Provérbios de Salomão e conclui que mereceriam
ser largamente divulgados. Entretanto, outros se sentem ameaçados com isso.
-Saber desse interesse faz bem ao meu ego. Entretanto, parece-me que poucos concordam em
existir algum mérito no passado. Quando iremos fazer nova sessão de telepatia?
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-O laboratório maior que usávamos pertence a uma fundação. Houve denúncia e ele está sob
vigilância. Já identificamos o denunciante como um falso aliado. O laboratório próprio que estamos
montando deve ficar pronto hoje. Se concordar, amanhã mesmo eu o mando buscar.
-Estarei à disposição. Embora a convicção seja pouca, faz bem pensar que há uma possibilidade
de comunicação com o passado. Sinto-me desenraizado neste mundo. A propósito, gostaria de
ouvir a sua opinião sobre a eventualidade de, um dia, eu me unir a uma mulher para ter um filho.
-Consulte os seus próprios sentimentos para não se arrepender. É uma decisão importante, a
qual só você mesmo pode tomar. Se assim decidir, pode contar sobre os nossos encontros, mas,
evite falar sobre modo de ação, horários, local e outros detalhes.
-Noticiaram que o perseguidor do nosso veículo foi devorado pelas feras da floresta.
Zefir riu, enquanto fazia um sinal negativo com a mão.
-As pessoas acreditam no que querem e têm pouca preocupação com a consistência das
informações. Isso, porém, é demais. Eles estão ficando pouco sofisticados nas suas explicações.
-Quem são eles?
-Os piores obedecem a um criminoso maior, mas, contam com a ajuda de todos aqueles que só
olham para o próprio umbigo, seguindo quem faz barulho, sem nada querer saber de verdadeiro.
-Para você, quanto se pode aprender sobre o que é a verdade?
-Se eu não sei, pelo menos procuro saber. Isso já é uma direção. Creio que você também
procure. A verdade que eu posso afirmar é: os meio que os atuais responsáveis apregoam como
necessários não conduzem ao que dizem pretender.
-Leneu se diz deprimido por desconhecer a razão da existência.
-Sobre isso, eu não sou o interlocutor mais capaz. Recomende a ele conversar com seu amigo
Tacialmo. Agora, eu preciso ir. Se for possível, amanhã conversaremos mais.
Zefir chamou os seus acompanhantes e eles seguiram em três veículos. Aberto tinha poucas
pessoas como confidentes e a sua intuição o autorizava a valorizar a opinião de Zefir. Meditando
sobre ele, reconheceu que, apesar de operar na clandestinidade e ter teorias sobre o tempo bastante
malucas, dispunha de informações privilegiadas sobre quase tudo e não parecia estar mal
intencionado. Zefir devia saber mais sobre os inimigos ocultos do que desejava falar.
*
Na madrugada seguinte, seguidores de Zefir acordaram Alberto perguntando cortesmente se
aceitaria acompanhá-los. Seguiram por um trajeto mais longo do que o das outras vezes, até
mergulharem no solo e estacionarem junto à entrada de uma sala com aparência de nova e diferente
das que ele conhecera antes. Alguém se dirigiu para ele.
-Eu sou Barcante, um associado a Zefir. A tentativa de seqüestro feita por nossos rivais com o
propósito de implicá-lo e a movimentação que se seguiu, obteve dos agentes da Segurança Pública
a obrigação de mostrarem serviço, dificultando a nossa circulação. Julgamos melhor fazer uma
pausa em nossas atividades e ajudar Zefir a concluir o seu próprio laboratório. Ele não deve
demorar. Enquanto isso, nós podemos conversar. Há alguma coisa que tenha interesse em conhecer
sobre as nossas ações clandestinas?
-Fico agradecido pela atenção. Qual é a sua relação com Zefir?
-O seu grupo nos dá algum apoio tecnológico e nós entramos com a parte operacional. Temos o
objetivo comum de liberalização do sistema de governo.
-Ouvi um oficial de Segurança Pública dizer que vocês são contra a democracia.
-Se eles fizessem corretamente o trabalho deles, nós nem precisaríamos existir. Por que não
procuram Mono? Eles embaralham os grupos. Podem-se dividir clandestinos em três grandes
segmentos. Há os simplesmente criminosos, os ligados aos setores podres do governo para fazer o
serviço sujo que não querem praticar oficialmente e há os que fazem oposição à orientação atual e
só por isso são perseguidos. Em cada segmento atua mais de um grupo, cada qual com seu interesse
específico e, até, com algumas divergências entre si. Há os ultra-radicais do nosso segmento, mais
prejudiciais do que úteis, porque propõe ações extremas capazes de causar a repulsa da população.
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Aliás, desconfiamos que o inimigo, até, os financie. Precisamos ter cuidado com o que dizemos a
eles. Com a desarticulação do esquema ligado ao grupo Defensor, para a qual o episódio do seu
seqüestro contribuiu, provisoriamente, a situação deverá melhorar.
-O que vocês fazem, mais especificamente?
-O nosso grupo é operacional e político. É o que tem mais relações com a oposição legal e com
grupos internacionais democratizantes. A razão dos nossos contrários estarem na clandestinidade é
realizarem atividades inconfessáveis para benefício próprio. Nós apoiamos a liberdade de
comunicação e outros projetos de valor. Fomos levados à clandestinidade para autodefesa. Se não
fôssemos perseguidos com argumentos falaciosos, poderíamos nos apresentar publicamente.
-Vocês também apóiam a ampliação das atividades naturais?
-Esse é um ponto simbólico. Os governantes estão fixados nas prioridades criadas após as
catástrofes porque desejam evitar quaisquer mudanças. Usam o pretexto de que é preciso impedir a
ação dos que querem destruir a atividade virtual. Dizem que a utilização de recursos naturais
conduziria ao desabastecimento, à insatisfação e às guerras. Eles têm o direito de argumentar em
defesa das suas posições, entretanto, para garantir o imobilismo apelam para a criação de fatos
mentirosos e, pior, para a violência. Torna-se necessária uma reação de mesmo nível.
-Comparando com a minha época, houve bastante progresso material.
-Já houve mais. Agora estamos estacionados. Veja o caso dos transportes. Alegando que é
melhor usar recursos virtuais e desestimular o seu uso, não há investimentos e eles são deixados
cada vez mais precários e caros. Acreditamos que o relacionamento virtual tenha o seu lugar, mas,
defendemos o argumento de que ele não estimula a energia criativa, tal como se pode obter pela
reunião das pessoas em contato direto. Existem os que apóiam essas posições com sinceridade,
porém, a maioria dos políticos da situação quer manter postos de mando para continuar com suas
vantagens ilegais. A nossa preocupação não está em reduzir o status social deles. Apenas,
desejamos fazer o nosso trabalho sem impedimentos e que eles cumpram os seus compromissos.
Algumas ações encobrem corrupção, como a de fraudar os contratos para depósito de lixo
radioativo no planeta Mercúrio.
-A utilização da energia solar não tornou as usinas atômicas dispensáveis?
-Para a produção, sim. Existem outras aplicações, inclusive, as baterias atômicas são a forma
mais compacta para acumular energia.
-O que pretendem fazer?
-Não temos pressa. Aceitamos que as mudanças aconteçam por via política, ainda que os
resultados demorem a ser atingidos. Pretendemos nos dedicar a um processo de conquista das
consciências, sem o que os avanços seriam inconsistentes. Entretanto, é preciso contra-atacar a
atividade criminosa, ligada ou não ao governo, desmascarando a corrupção. Para isso, você nos tem
ajudado.
-Como assim?
-A repercussão das suas opiniões os pegou desprevenidos. Amigos nossos com espaço na mídia
têm trabalhado para dar a elas maior projeção. Desculpe-nos se agimos contrariamente ao seu
desejo de tranqüilidade.
-Aos poucos, vou entendendo certas coisas que me pareciam absurdas.
Alberto deu-se conta de que era, de fato, importante manter contatos alternativos para entender
a sua própria posição, enquanto conjeturava consigo mesmo se deveria protestar pela utilização não
autorizada das suas declarações. Concluiu que, sendo públicas, desde que não as deturpassem, era
direito deles utilizá-las como lhes conviesse. Quem não concordasse deveria contradizê-las através
de argumentação. Assim, continuou conversando com Barcante sobre política e o papel dos
clandestinos até a chegada de Zefir.
*
Um grupo de pessoas cheio de entusiasmo, comandado por Zefir, entrou na sala elogiando as
novas instalações. Ele apresentava um semblante alegre e se dirigiu para Alberto:
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-Demorei um pouco porque precisei tomar algumas medidas de proteção. Vejo que já conheceu
Barcante.
-Fiquei sabendo que existem vários grupos clandestinos.
Zefir elevou a voz, de modo a ser ouvido pelos demais:
-Quanto mais proibições houver, inibindo as pessoas de agir conforme o seu justo desejo,
fatalmente, mais clandestinidade se irá gerar. Em princípio, deve-se respeitar a lei. Todavia, existe
um limite além do qual a rebeldia se justifica.
-Disseram-me que a lei atual só caracteriza como crime as ações que produzem vítimas.
-Assim deveria ser. Mas, há vítimas criadas artificialmente por interesse político. Fora as que se
promovem por desejo de indenização, promoção, ciúme, vingança e outros motivos. Os políticos
incentivam as pseudo vítimas, beneficiando-se com os desacordos provocados. Precisamos de boas
e poucas leis. Na maioria dos casos, um ordenamento completo da atividade humana é impossível e
tal pretensão é usada arbitrariamente por quem detém o poder.
Concluindo sua fala em tom de discurso, Zefir segurou Alberto pelo braço e o conduziu para
um canto isolado. Os demais entenderam a sua intenção de discrição.
-Você já pensou em se emancipar.
-Sim. Eu já aprendi o suficiente para abandonar a tutela.
-O nosso grupo deseja propor que medite sobre a possibilidade de, no futuro, candidatar-se ao
Conselho Estadual, ou mesmo Internacional. Você tem posicionamentos corretos e a sua imagem
está bastante divulgada. O grupo acredita que poderia elegê-lo.
A sugestão surpreendeu Alberto e ele não pôde deixar de rir.
-Ter conhecimentos para conduzir a minha vida é uma coisa, decidir o que é melhor para todos
os outros é diferente.
-Nem tanto. Naturalmente, antes, você teria que freqüentar reuniões com pessoas politicamente
ligadas a nós e ver se concorda com os nossos propósitos e métodos. Todas as sugestões são
bastante discutidas. Só depois se decide a posição que o grupo irá adotar. Se você aceitar, eu posso
encaminhá-lo, sem compromisso, para assistir a algumas reuniões preliminares.
-Quem tem mais influência com a oposição legal, vocês ou o grupo de Barcante?
-Nosso acordo com Barcante respeita limites precisos. Ele tem as suas relações e nós temos as
nossas. Devo dizer que alguns dos nossos aliados na oposição visível não concordam com as
atividades de Barcante. Se você aceitar, teremos que conversar sobre essas relações.
-Fico lisonjeado com o convite, mas, tudo é muito novo para mim. Eu preciso pensar e não
poderia deixar de falar com algumas pessoas da minha relação.
-Pode falar tranqüilamente com Leneu e Deodéa. Deve ter o cuidado de não mencionar o meu
nome para outras pessoas, inclusive para a Mari. A Segurança Pública, sob qualquer pretexto, pode
requisitar a memória de bonecos-companhia.
O que pensa do mestre Tacialmo?
-É um grande talento. Tem o apoio dos nossos aliados na política visível. Todavia, não
desejamos envolvê-lo. Ele não tem nenhum relacionamento com a atividade clandestina. Deve
permanecer protegido. Você pode lhe falar sobre a proposta de entrar para a política, mas, evite
mencionar o nosso movimento e, principalmente, o meu nome.
Alberto concluiu que todas as suas relações se ligavam. Devia haver uma espécie de complô ao
seu redor que ele desconhecia. Talvez, Leneu tivesse facilitado o acesso do grupo de Zefir à sua
casa. Evidentemente, ele nunca iria admitir. Ainda assim, Alberto via sinceridade nas propostas
dessas pessoas e as idéias que defendiam não destoavam daquelas que ele mesmo tinha. Ademais,
sentia-se melhor estando ligado a alguma coisa. Antes de responder definitivamente, teria que
colecionar mais informações. Preferiu mudar o rumo da conversa.
-Voltaremos a conversar. Quanto à telepatia, pensa que devemos continuar?
-Com certeza. Se houver a sua concordância, podemos realizar agora. Eu ia me esquecendo de
falar algo importante: Com técnicas recentes que permitem a restauração de documentos antigos
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muito deteriorados, encontramos informações sobre um livro que poderia estar relacionado com as
suas mensagens. Um jornal traz uma indicação que pode justificar plenamente a continuação do
nosso trabalho de telepatia regressiva.
-Qual indicação?
-Um acervo antigo de jornal foi encontrado e tem sido possível recuperar algumas partes. Numa
secção especializada se encontra menção à resenha de um livro de ficção cuja história se assemelha
àquela que representa a sua experiência. Curiosamente, constitui-se até em um elemento de
previsão sobre a situação atual. Se os fatos ocorrerem do modo como está descrito, isso poderá
servir de confirmação para as minhas teorias. Surgindo mais informações, você saberá.
-Eu gostaria de examinar esse jornal.
-Vamos ver se conseguimos levá-lo até os arquivos confidenciais, sem despertar a suspeita de
que o exame se relacione com telepatia regressiva. O material anterior às catástrofes, quando
recuperado, é analisado por uma comissão internacional e, sendo considerado passível de provocar
controvérsias, fica rotulado como secreto. Então, o material, só pode ser examinado por pessoas
autorizadas.
Alberto foi encaminhado até o novo laboratório situado numa sala ao lado. Era menor do que a
anterior e a aparelhagem, embora semelhante, tinha aparência de nova. Os tumultuados
acontecimentos que Alberto enfrentava faziam com que algumas memórias do seu passado
ficassem esmaecidas. Ele se perguntava se isso deveria lhe trazer regozijo ou tristeza. O seu
passado era a sua vida e ele não queria perdê-lo. As sessões de telepatia regressiva, no mínimo, o
fazia voltar à essas lembrança. Dispôs-se, com animação, a realizar os procedimentos. Depois, foi
levado de volta para casa.
*
O convite para participar da política deixara Alberto inquieto. Ele se havia proposto não
recusar nenhum desafio, mas, essa sugestão lhe parecia temerária. Esperavam dele mais do que
seria capaz de desempenhar. Na sala de estar silenciosa e escura, a suave visão do luar filtrado pela
floresta inspirou-o a expressar no seu canal de comunicação uma mensagem. Havia combinado
com Zefir divulgar com regularidade composições inofensivas, isentas de senha, para despistar
quem nelas tentasse encontrar códigos de comunicação: “Tenho recebido muitas mensagens. A
maioria me pede uma manifestação sobre a extraordinária experiência que vivi e alguns perguntam
qual conclusão ela me pôde oferecer sobre o sentido da vida. Perdoem-me não atendê-los como
desejaria. Não me sinto um guru, nem para mim mesmo. Eu só posso dizer que os meus
sentimentos são de perda pela vida que deixei e de perplexidade pela atual. Apesar de tudo,
permaneço admirando a vida, convicto de que a nossa existência é um bem único. Cabe a cada um
procurar o melhor para si e para os outros, com respeito ao enorme privilégio que gratuitamente
recebeu.” Após ter colocado a mensagem, foi ao quarto, recostou-se e relaxou. Ao seu lado, Mari
continuava dormindo um sono tranqüilo.
A alusão à tutela também o fazia pensar. Pela manhã, perguntou a Leneu se havia
possibilidade de pedir emancipação. Ele respondeu afirmativamente, porém, com pouco
entusiasmo.
-Você tem progredido rapidamente e está em evidência com méritos. Quando quiser solicitar a
emancipação, eu encaminho o pedido, mas, não há pressa. Espero que, depois disso, a nossa
amizade e convivência continue.
-O interesse em manter nossa amizade é, sobretudo, meu. Não pense que eu seja presunçoso.
Sei perfeitamente que a situação de relativa evidência não é mérito meu e sim da conjuntura em
que fui posto e da sorte de ter encontrado pessoas como você. Entretanto, considerando que possuo
recursos, não me sinto bem em ser um dependente do Estado. Meu único desgosto seria você não
poder mais vir me visitar diariamente.
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-Se a consideração for apenas econômica, são escrúpulos exagerados. Os recursos que lhe são
dispensados não fazem falta para ninguém. De qualquer modo, desde que você assim deseje, depois
da emancipação continuaríamos a nos ver, talvez, não diariamente, mas, com bastante freqüência.
-Vou estudar melhor essa questão e voltaremos a conversar.
18 - MONO ATACA
Voltando a visitar Deodéa, Leonel a encontrou com ânimo abatido.
-Nosso grupo político tem avançado na obtenção de votos, mas, a situação geral continua a
mesma. Alguns Conselheiros têm mudado de posição sem razão aparente. Parece haver uma força
oculta a pressioná-los. Alguns companheiros estão exasperados.
-Há muito tempo, eu desisti de me importar com a política porque sou impaciente com relação
a coisas óbvias e propenso a radicalizar. Em política, o caminho mais curto nunca é a linha reta.
-Em outras coisas, igualmente. Desisti de ter um filho com Alberto porque não senti confiança
da parte dele. Continuo apreciando o empenho com que ele enfrenta as dificuldades para se
adaptar, sem abrir mão das próprias convicções. Reconheço o seu destemor e persistência,
qualidades cuja falta desaprovei em meus pais. - Leneu comentou.
-Você tem sentimentos ambíguos com relação aos seus pais, mas, não há razão para isso. Eles a
amam muito.
-Eu também os amo, contudo, nunca pude aceitar os seus motivos. Havia aprendido com eles
que, quando estamos convictos de agir corretamente, não temos porque nos sentirmos
constrangidos com a opinião dos outros. Entretanto, o meu pai decidiu abandonar a política e se
ausentar porque a maioria dos correligionários o abandonou. Fiquei decepcionada ao vê-lo fugir da
luta. Eu me senti abandonada e, até hoje, tenho a compulsão de atuar para tentar redimi-los.
-Creio que você julga seus pais com excessiva severidade e exige demais de si mesma. Ainda
irá ver que fizeram apenas o que as circunstâncias indicavam ser o mais adequado. Procure
valorizar o que deixaram de bom.
*
O Conselheiro Manevan solicitou uma conversa sigilosa com Deodéa.
-A investigação sobre a sabotagem do equipamento enviado pela Omnimundi ao seu amigo
Alberto sugere que o boneco transportador do traje tinha o núcleo central do seu cérebro eletrônico
alterado. Existe a possibilidade de que a adulteração nos bonecos esteja disseminada e, até, de
ocorrer o mesmo em outros computadores no nosso Estado. Isso extrapola as ações criminosas até
agora desvendadas. Falei com Tacialmo sobre a viabilidade de uma varredura completa,
verificando a integridade dos núcleos centrais. Atualmente, os técnicos da Organização
Internacional teriam condições para fazer isso, sem interferir nas memórias recentes dos
computadores. Entretanto, exceto em casos singulares de crime comprovado, a nossa lei não
permite esse exame. Ele me sugeriu que eu apenas fizesse, discretamente, uma sondagem sobre a
possibilidade da edição de uma lei para atender a essa situação específica e, por enquanto,
verificasse, apenas, quem seria favorável. O caso é que eu estou cansado de medidas protelatórias e
disposto a brigar abertamente. No mínimo, o projeto exporá a questão ao público. Eu peço a sua
concordância, como presidente do nosso partido, para que eu tome essa iniciativa.
-Eu não poderia impedir um companheiro de apresentar um projeto basicamente correto.
Entretanto, penso que deva considerar a oportunidade. Tacialmo deve ter as suas razões. Existe um
crime organizado subterrâneo muito sensível a essas questões, capaz até de assassinar. Seria mais
prudente que, antes, nós lográssemos identificar a força do inimigo, para poder agir com os olhos
abertos em ambiente mais seguro.
-Se nós não os atacarmos, nunca obteremos as informações de que necessitamos. Desde que
você não se oponha terminantemente à proposição, eu assumo o risco e vou iniciar os trâmites.
-Eu não recomendo, mas, não posso me opor.
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*
A disposição de Manevan para não atender à recomendação de Tacialmo deixou Deodéa
perturbada. Ela precisava conhecer melhor o assunto e foi procurar Tacialmo:
-Tenho uma questão sobre a qual preciso esclarecimentos. O Conselheiro Manevan vai
apresentar um projeto para revisão completa de todos os bonecos-companhia por técnicos da
Organização Internacional. Ele mesmo referiu que você lhe pediu para esperar. Entretanto, mesmo
sabendo que corre perigo, ele está disposto a levá-lo avante.
-O Conselheiro Manevan está bem intencionado, mas, o risco é muito grande. Eu tenho um
pedido para lhe transmitir: Tente dissuadi-lo, mas, se não conseguir, fique distante e não apóie a
aprovação, mantendo-se neutra. Assim, terá mais facilidade para fazer contatos com todos os
Conselheiros, observando como eles se situam em relação a cada item da proposta. Eu devo lhe
transmitir o pedido de que, sigilosamente, faça uma listagem dessas posições.
-De quem é o pedido transmitido? Não gosto de agir sem saber do que se trata. Manevan é
nosso correligionário e amigo.
-Justamente por isso. Eu sugeri a ele que não se precipitasse. Manevan conhece o grande perigo
que corre, mas, tem vontade forte. Se ele está irredutível, nada se pode fazer. Quanto ao seu desejo
de saber quem faz o pedido, você terá que confiar em mim.
-Dito assim, não tenho como negar.
-Eu lhe peço um pouco de paciência. Estamos próximos a uma decisão importante. Permita-me
ajuntar a solicitação de mais um favor: Não assuma posições radicais e, também, evite criar má
vontade com o pessoal do Comitê da Chuva. Talvez precisemos de um favor deles em breve. É
importante que não fale sobre isso com ninguém.
A situação era totalmente inusitada e devia envolver fatos graves. Manevan era um antigo
correligionário e tinha ligações com Delonel. O Comitê da Chuva, praticamente, só estabelecia os
dias em que haveria chuva para lavar a cidade. Geralmente, ela era provocada em dias
determinados da meia noite até a manhã seguinte. Deodéa não entendia qual era a intenção,
contudo, concluiu que Tacialmo, sempre escrupuloso em interferir na atuação política dela, só lhe
solicitaria isso numa situação extrema, ou, por um pedido do seu pai. Gostaria de falar com ele,
mas, esse assunto só poderia ser tratado pessoalmente. No momento, era difícil sair. De outra parte,
se Delonel desejasse, ele a teria convidado, usando um subterfúgio qualquer.
*
Deodéa procurou novamente o Conselheiro Manevan.
-Peço que aguarde um pouco, antes de apresentar o seu projeto. Desde que o nosso grupo se
fortaleceu, os Conselheiros da situação têm se disposto a uma aproximação. Estamos numa fase de
boas relações e a tendência do nosso grupo é a de dialogar. Neste momento, seria contraproducente
radicalizar.
-Vou apresentar o projeto e pedir votos do nosso grupo e dos governistas. Ele precisa ser levado
à votação sem nenhuma modificação. Estou tomando uma iniciativa que contraria pessoas
perigosas. Evite o seu envolvimento pessoal, mas, peço-lhe não alardeie sobre os riscos para não
espantar indecisos. Com mais adesões, a minha responsabilidade ficará diluída. – Disse Manevan.
-No devido tempo, eu poderia apoiá-lo, mas, sem pressa. Poderíamos estudar cada item
primeiro. Sempre há o que aprimorar.
- Eu já estudei o suficiente e tenho motivos para querer que se evitem maiores discussões. Você
precisa ficar afastada de qualquer responsabilidade. Eu penso que deva ser apresentado logo. Estão
acontecendo muitos crimes e não podemos contemporizar. É só o que eu tenho a dizer.
Dito isso, Marevan se retirou. A situação estava complicada e Deodéa, por não lhe fornecerem
esclarecimentos suficientes, sentia-se usada. A intenção de todos podia ser boa, mas, isso não
resolvia a questão. Os pedidos eram conflitantes e partiam de pessoas a quem ela respeitava.
Entretanto, a sua obrigação com Tacialmo era maior. Deodea adotou o que o guru e o próprio
Manevan lhe haviam dito: Não fez oposição, mas, não se comprometeu a apoiar. Procurou ouvir os
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argumentos de cada Conselheiro, tanto da situação quanto da oposição. Manevan foi em frente,
buscando adesões antes de protocolar o projeto. Algumas notícias foram divulgadas e o apoio
público que ele recebia, aos poucos, ia crescendo.
Após alguns dias, eis que explode a notícia de que o Conselheiro Manevan fora encontrado
morto no grande bosque onde ele costumava passear, situado junto aos fundos da sede do
Conselho. O espaço era bem guardado e as primeiras notícias, alegando problemas antigos de
saúde, eram de que, possivelmente, tivesse sofrido um mal estar súbito com queda e lesão cerebral.
*
As investigações feitas pela segurança do Conselho e pela Segurança Pública sobre a
possibilidade de um atentado contra Manevan não obtinham pista consistente. As hipóteses
levantadas eram varias. Ele era muito combativo e já recebera ameaças por diversos motivos.
Admitindo que fosse um assassinato, poderia ter partido de qualquer um dos seus desafetos.
O chefe da Segurança Pública foi convocado, mas, pouco esclareceu:
-Ainda não encontramos nenhuma pista. O corpo do Conselheiro foi minuciosamente
examinado. Está absolutamente limpo. A sua roupa só contém pó da região do bosque. Ele morreu
com lesão cerebral por efeito de um veneno muito raro. Poderia ser suicídio.
-Por que ele se suicidaria?
-Apenas, estou dizendo que são muitas as hipóteses.
A morte de Manevam interrompeu automaticamente o encaminhamento do seu projeto.
Entretanto, havia apoio público e Isotes, apesar de ser ligado à situação, estava ansioso por se
promover. Dizendo honrar a memória de Manevan, prometeu dar continuidade ao trabalho. Os
correligionários de Deodea não queriam perder espaço e decidiram que o grupo deveria continuar
com o que Manevan deixara. Embora Deodéa argumentasse que era preciso estudar melhor, ela não
podia opor-se. De outra forma, a sua condição de líder ficaria prejudicada. Um líder precisa atender
aos reclamos dos liderados, mais do que aos seus próprios desejos. Entretanto, ela tentava postergar
a decisão, pois, temia estarem sendo colocados numa situação cujo enredo eles não conheciam
perfeitamente. Os seus maus pressentimentos se confirmaram quando recebeu inesperadamente a
visita de um oficial da segurança.
*
Apesar dos cuidados, Leneu fora visto sendo seqüestrado em uma ação ousada da qual
participaram, no mínimo, cinco bandidos. Deodéa foi procurada por ser, reconhecidamente, a
pessoa mais próxima a ele na atualidade. A Segurança Pública estava investigando, mas, ainda
nada encontrara de positivo. Entre aflita e desesperada, ela pensou em contratar uma agência
particular. Antes, porém, recebeu uma mensagem no comunicador provinda de um equipamento
móvel abandonado. Anunciava que iria receber um comunicado da parte de Leneu. Logo, um robô
de tipo comum lhe entregou um envelope contendo alguns fios de cabelo junto com uma nota. Os
circuitos da memória do estafeta se desintegraram em seguida. Imediatamente, ela testou os
cabelos, confirmando pertencerem a Leneu. A nota comunicava à Deodéa o local em que devia
comparecer imediatamente, sozinha, sem avisar ninguém e sem nenhum rastreamento para
negociar a libertação. Deodéa, desesperada, embora em dúvidas sobre se essa seria a atitude mais
correta, dirigiu-se ao local. Nas circunstancias, não conseguiu imaginar nenhuma alternativa e ela
não era pessoa que fugisse a desafios. Anoitecia quando chegou a um parque deserto e lá aguardou.
Alguém se aproximou e disparou sua arma paralisante contra ela.
Ao despertar, Deodéa se viu sentada numa poltrona confortável, sem nada a prendê-la. No
quarto havia apenas outra poltrona em sua frente. Procurou vasculhá-lo e percebeu que entre as
duas poltronas havia uma parede transparente. Pouco depois, uma pessoa entrou na sala e sentou na
poltrona em frente.
-Acomode-se. Eu sou conhecido como Mono. Evidentemente, este não é o meu verdadeiro
corpo, nem a minha voz.
Deodéa bateu com força contra a parede transparente.
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-Se você puder se controlar, isso lhe será muito conveniente. Eu gostaria de ter podido vê-la há
mais tempo. Teríamos muito sobre o que falar.
-Podia usar o comunicador.
-Desejo privacidade e, para isso, este é o modo mais eficaz. Eu a admiro. Desprezo a maioria
das pessoas e não teria porque lhe tecer elogios gratuitos. Se não fosse assim, teria usado um
método mais fácil para o que pretendo. Sei que se preocupa com Leneu. Ele está bem. Quer vê-lo?
-Você o seqüestrou?
Apareceu a imagem de Leneu,acomodado em outro quarto. Ele deve ter recebido a imagem de
Deodéa, para a qual abanou com tranquilidade.
-Olá Deodéa. Pelo visto, fomos pegos. Ainda não sei por que.
-Eu, também, não sei.
A imagem desapareceu.
-O que você quer? - Deodéa perguntou a Mono.
-Infelizmente, às vezes estamos em campos opostos. O seu Movimento Naturista já me trouxe
muitos transtornos e prejuízos, mas, não sou dado a vinganças. Isso é coisa para os tolos. Eu olho
sempre para frente. Se os meus controlados perderam batalhas, foi por incompetência. Também,
não pense que eu me incomodo com as vitórias eleitorais do seu partido. Para mim, qualquer
governo serve.
-Então, o que pretende?
-Em primeiro lugar, a sua atenção, tomando-me a sério. Eu desejava que o seu pai me
concedesse atenção. Até lhe ofereci um acordo. Se aceitasse, garantiria, permanentemente, o poder
para si. Você estaria feliz, sem sofrer os inconvenientes pelos quais passou. O acidente teve,
apenas, a intenção de assustá-lo para que visse a realidade da minha determinação.
-Você é o responsável pelo acidente? Além dos ferimentos em meu pai, nele morreu um
segurança.
-Não tome isso em consideração. Foi apenas um dano colateral. O seu pai logo poderia ter
voltado à atividade. Eu o fiz ser mais realista. Ele pôde ver que alguns amigos com quem contava
se deixavam manipular por poucas vantagens e não mereciam a sua liderança. Ficou decepcionado,
mas, nem assim aceitou ceder aos meus pedidos. Então, tive que fazer algo de que não gosto:
ameaçar a integridade da sua filha. Há pessoas, como o seu pai e você, com poucas ambições
egoístas. Entretanto, todos têm o seu ponto fraco.
Deodéa ficou enrubescida pela emoção, com tanta raiva quanto não se imaginava capaz.
Desejou agredi-lo de qualquer forma, mas, foi capaz de se conter e manter a cabeça fria.
Unicamente, imaginava que trunfo poderia obter. Murmurou, com voz quase imperceptível:
-Preciso ver meu pai e me desculpar. Eu o condenei como fraco, sem saber que foi por mim que
ele abandonou tudo.
-Ele poderia ter lhe contado. Eu não o proibi.
-Por que pratica essas maldades? Por que deseja tanto o poder?
-Você não acreditaria, mas, não tenho a vaidade de ser poderoso. O poder é apenas um
instrumento para assegurar o meu divertimento predileto: Gosto de manipular pessoas arrogantes e
pretensiosas que pensam estar numa posição elevada. Eu as ameaço usando as informações que
tenho sobre elas. Temendo perder os seus privilégios, elas cedem e se aliam a mim. Se acontecer,
nesse entremeio, algum dano casual a inocentes, são questões de contingências. Não aprecio a
violência. Basta relatar o meu problema para algum dos bajuladores que procuram me agradar. Não
tenho prazer com isso. Aliás, estou pensando, até, em me aposentar.
-Só busca o seu prazer pessoal, sem nenhuma consideração moral?
-Aprendi outros princípios e não cultivo a fantasia de me preocupar com o que as pessoas que
eu desprezo pensam ou sentem. A falsidade é a arma dos fracos. Eu a admiro porque, apesar de
estarmos em campos opostos, assim como eu, você me parece coerente com os seus próprios
princípios. Entretanto, tenho as minhas dúvidas. Gostaria muito de vê-la provada numa situação em
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que tivesse real liberdade para cumprir ou não um compromisso muito amargo, através de uma
decisão que só dependesse de si. O resultado desse teste faria grande diferença para mim.
-Se todos agissem assim...
-A sociedade se destruiria. Contudo, a maioria se comporta dentro de regras sociais, mas,
pretendendo enganar os outros. Por circunstâncias, eu já me obriguei a ser assim. Hoje estou numa
posição que me permite não depender de ser julgado bonzinho. Posso buscar meu prazer, sem
esconder isso de alguma pessoa que mereça ouvir a verdade. Você me dirá que é um prazer
ilusório. Concordo, mas, fora disso, o que nos resta? Em nome do que eu iria abrir mão de me
sentir contente com as minhas brincadeiras?
-De fato, estamos em campos bem opostos. O que deseja de mim?
-Peça-me coisas de interesse só pessoal e verá que podemos concordar em muitos campos.
Agora, eu quero que retire o projeto sobre automação. Ele poderá ser reapresentado mais adiante,
com uma redação que eu aceite. Leneu irá para casa quando o projeto não estiver mais em pauta,
com a minha garantia de que estará protegido.
-Infelizmente, sou obrigada a me curvar. Pedirei ao meu grupo, entretanto, tenho pouca
influência sobre Isotis. Qual é o seu interesse nesse projeto?
-Não gosto que façam as coisas com as quais me importo à minha revelia. Voltaremos a falar.
Antes de conseguir o que eu pedi, dê-me uma demonstração de boa vontade. Eu tenho interesse em
automação e coleciono todos os tipos de bonecos-companhia. Sei que o seu amigo Alberto tem
uma boneca-companhia de modelo que foi abandonado. Eu pagaria o triplo do que ele pagou se
você a trouxesse para mim.
-Alberto não precisa de dinheiro. Ele gosta da Mari e não creio que atenda a um meu pedido
para se desfazer dela.
-Entretanto, ele deve ter muita consideração por Leneu. Posso aceitar que ela seja emprestada
desligada, para um rápido estudo. Será devolvida com a memória intacta. Leneu seria libertado e
você teria um crédito comigo, para o que viesse precisar.
-Se Alberto aceitar, por mim, pode ser. Eu só desejo a segurança de Leneu.
Deodéa percebeu que estava sendo anestesiada e perdeu os sentidos. Estava ainda escuro
quando despertou sozinha no banco de um parque. Procurou a entrada e pediu por um módulo de
transporte. Sentia-se arrasada. Fora difícil encarar Mono, uma pessoa que se mostrara inteligente,
egocêntrica, desequilibrada e destituída de qualquer consideração moral. Nunca fora confrontada
com tanto cinismo. Ademais, tivera que se submeter, assim como ocorreu com seu pai. Ele aceitou
as condições que lhe impuseram para protegê-la. Todavia, não confiara nela. Se tivesse contado
toda a história desde o início, talvez, pudessem ter enfrentado o criminoso.
*
Deodéa contatou com Alberto, encontrando-o mortificado por ter recebido o comunicado do
desaparecimento de Leneu. Chorando, ela pediu:
-Eu preciso falar com você sobre isso. Por favor, venha até aqui.
Na casa de Deodéa, Alberto foi conduzido até a sala indevassável.
-Fui sedada e levada ao esconderijo do criminoso que se autodenomina Mono. Para que ele
liberte Leneu, eu tive que assumir o compromisso de abandonar o projeto sobre automação e tentar
convencer Isotis a desistir. Ele disse ter interesse em computação e estar disposto a libertar logo
Leneu, se emprestarmos Mari para que ele a examine. Prometeu devolvê-la logo, sem alteração da
sua memória. Mono confessou, sem nenhum escrúpulo, ter sido o responsável pelo acidente
ocorrido com meu pai. Consegui manter a compostura, mas, estou abalada, sem saber em que
pensar. Precisamos encontrar alguma forma de atingi-lo, porém, estamos em suas mãos. – Disse
Deodéa.
-A Segurança Pública não pode intervir?
-Ele controla quase tudo sub-repticiamente. Eu vou fazer com que o meu grupo se retire do
projeto. Preciso falar com meu pai pessoalmente e contar-lhe os fatos ocorridos. Acredito que saiba
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mais do que quer me revelar. Talvez, tenha algo a dizer que ajude. O que acha da proposta para
emprestarmos a Mari?
-Só é aceitável para salvar Leneu. Você acha que ele respeitará o que diz?
-Ele é louco. Entretanto, tentou se explicar para mim, desnecessariamente, de forma a parecer
ter orgulho em não precisar mentir.
-Vou enviar Mari para cá. O seqüestro de Leneu nos deixa sem ação.
Deodéa contatou com o seu grupo no Conselho para se posicionar pela retirada do projeto de
automação. Justificou dizendo ter verificado que precisava de mais estudo. Deixou para Isotis um
comunicado solicitando encarecidamente, em caráter pessoal, para que ele fizesse o mesmo. Em
seguida, embarcou para a casa dos pais. Chegando à residência deles, aos prantos, narrou os
acontecimentos. Delonel não demonstrou grande surpresa.
-Quando uma mente está estruturada para fazer do prazer a razão última da sua vida, ela pode
se tornar a mais pura expressão do mal. Você não deve se perturbar por não ter resistido a esta
situação de força. O seu ânimo não se corrompeu. Quanto à Mari, soube que Damian hospedou-se
lá em casa. Peça a opinião dele.
-Mono deve ter sido responsável pela morte de Manevan. – Disse Deodéa.
-O nosso amigo Manevan assumiu, por conta própria, uma missão arriscada. A sua insistência
em manter o projeto serviu para confirmar, sem sombras de dúvidas, o ponto fraco do inimigo.
Manevan é um herói.
-Eu deveria ter insistido mais para que desistisse. Penso que cometi um erro.
-Ele sabia dos riscos e coisa nenhuma o teria feito mudar.
-Não posso me conformar em nada fazer. O nosso partido cresceu, mas, isso não tem resultado
em nenhum progresso.
-Nenhum partido defende a delinqüência. Ela sempre existiu, com mais conivência em alguns
governos e menos em outros. Em todos os partidos, alguns entram procurando espaço para
sustentar os seus ideais enquanto outros apenas proclamam ideais para buscar o que lhes convém.
-Dizem que aspirar ao poder não é, por si, um mal. A ambição é um elemento da natureza
humana. Ela estimula a ação, boa ou má. – Falou Deodéa.
-A sociedade humana, também, é natureza, Para que a ambição não se torne maléfica, as
necessidades coletivas devem ser consideradas. Deve-se perguntar: a inteligência deve servir à
ambição grosseira ou a ambição servir à inteligência? Mono é forte pela ambição desvirtuada das
pessoas. Entretanto, o mal acaba por se voltar contra si.
-Ele diz que não é a ambição que o move, apenas o divertimento.
-Há várias formas de ambição, assim como diferentes tipos de vaidade. Ao que parece, Mono
está acuado e disposto a tudo. Muitos já sofreram por sua causa e estão se organizando. Talvez, não
demore organizarem uma ação contra ele.
-Eu gostaria de saber mais sobre essa organização.
-Eu só sei que haverá uma ação decisiva, de vida ou morte. Este seqüestro a colocou em
evidência de modo inadequado. Você não deve se expor a riscos desnecessários. Tenha paciência.
Ao retornar, libertado Leneu, procure agir com naturalidade, aparecendo na vida social como se
estivesse despreocupada. Uma coisa mais. Estão cobrando a devolução dos fósseis que recebi para
exame e tenho acumulados. Avise lá em casa para, se algum dia chegar um caixão com esses
fósseis, ele seja deixado fechado num canto da sala protegida. Será informada depois sobre o que
fazer a respeito dele.
Ao retornar, Deodéa vivia fortes emoções. Seu pai, igual como agira desde sua saída de casa,
fora pouco esclarecedor. Agora, ela podia avaliar, em parte, os seus motivos. A submissão a que
fora obrigada para proteger Lenor a fazia entender a dificuldade de reação. Seu pai tinha pensado
em protegê-la. Entretanto, desconsiderara os seus sentimentos, a sua mágoa, a sua angústia por se
sentir abandonada, sem poder lutar. Ela não aceitava a decisão de fugir sem reagir, assumindo uma
posição de simples repassador de informações. Mesmo que isso a pusesse em risco, seria preferível
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que ele tivesse enfrentado mais frontalmente os inimigos. De outra parte, era estranho seu pai
conhecer a situação de Damian. Ele devia estar sendo informado com muita proximidade.
*
Ao chegar, Deodéa encontrou Madra, num ambiente de desolação. Ela lhe disse que Mari
estava na casa, enviada por Alberto. Entretanto, Mono havia deixado um recado: Você me
enganou. Eu lhe dou vinte e quatro horas para o cumprimento do prometido.
Madra se dirigiu a ela.
-Os diretores do Movimento Naturista, sobretudo o meu amigo Renano, ficaram chocados ao
tomar conhecimento do seqüestro. Eles querem ajudar e perguntam se há alguma coisa que possam
fazer.
-Não sei. Talvez possam fazer uma mobilização dos membros do Movimento para procurar
qualquer informação com alguma pista. – Disse Deodéa.
-Isso eles já estão fazendo. Organizaram grupos para coletar informações em áreas próximas
aos lugares onde ocorreram situações de seqüestros semelhantes.
Deodéa entrou em contato com um Conselheiro amigo.
-Não foi encaminhado o meu pedido de cancelamento do projeto?
-Certamente, porém, Isotes apresentou-o sozinho, em seu próprio nome.
-Que safado! Eu vou já falar com ele.
Deodea se dirigiu diretamente à casa de Isotes.
-Como você fez isso, depois do meu pedido, sem falar comigo?
-Não a encontrei e não preciso da sua autorização para apresentar um projeto. Eu disse que
devíamos isso a Manevan.
-Haverá tempo. Se não retirar, o meu amigo Leneu poderá ser morto.
-Então é isso? Não podemos aceitar chantagens de bandidos. Eles irão fazer, cada vez mais,
novas exigências.
-Há casos e casos. Existem momentos em que precisamos recuar.
-Eu não penso assim. Por favor, deixe-me em paz. Está perdendo o seu tempo.
Dito isso, apontou-lhe acintosamente a porta. Deodéa retirou-se, cada vez mais desesperada.
Nunca pensara que, diante da gravidade do seu clamor, Isotes recusasse. Embora não fosse do
mesmo partido, sempre mantivera boas relações pessoais, parecendo amigo. Voltando para casa,
Deodéa procurou Damian em seu aposento isolado. Ela lhe narrou a situação e a recomendação do
seu pai.
-Coloque em seu espaço de comunicação público a informação de que deseja emprestar a Mari.
Mono irá se sentir respeitado e ficará calmo. Você a entregará e dirá que Isotes se tornou seu
inimigo e que, portanto, ele precisará encontrar outro meio para convencê-lo a retirar o projeto.
Diga-lhe que você gostaria de manter boas relações em troca de que a ajude para se eleger para o
Conselho. É o tipo de proposta à qual ele está acostumado e irá acreditar. - Damian sugeriu.
-Não sei se saberei mentir. Nunca deixei de cumprir a minha palavra, nem para os inimigos. Eu
não quero ser Conselheira e, menos ainda, ficar presa a Mono.
-Um contrato só é válido se as partes têm a opção de não fazê-lo. Que opção você tem estando
seu melhor amigo seqüestrado? Ele aceitará a proposta, não porque acredita na sua palavra, mas,
porque pensa que todos são interesseiros iguais a ele e que, por esse meio, poderá dominá-la.
Quanto a ficar presa a ele, confie em nós. Não será para sempre.
-Confiar em quem, ninguém me diz do que se trata? - Deodéa reagiu.
-Sem saber, estará mais segura. Cuide da parte política. Fui eu quem construiu a bonecacompanhia Mari. Ela será desacordada sem perceber e eu irei trabalhar na sua memória. O Mono
não é tão experto quanto pensa.
-Parece não haver alternativa, uma vez que ele está com Leneu. O pessoal do Movimento
Naturista se ofereceu para ajudar. Haverá alguma coisa que eles possam fazer?
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-As transferências nas ações de seqüestro se fazem, em geral, nos parques, à noite. Alguns
rapazes devem ter carros com rodas, feitos para campos de esporte. Embora seja proibido, andam
rodando à noite pelo chão da cidade, abaixo dos módulos de transporte. Observando os suspeitos,
poderiam confirmar o local onde os seqüestradores se abrigam. Temos condições de fornecer
equipamentos para vigilância à distância. Por serem amadores, se Mono descobrir, presumirá que
estão dando apoio por amizade à Madra, sem desconfiar de engajamento no projeto de uma
organização maior. - Depois de refletir um pouco, Damian respondeu.
-Creio que, para eles, será uma aventura. – Concluiu Deodéa.
*
A boneca-companhia Mari foi levada à sala reservada onde Damian, sem permitir que ela o
visse, provocou o seu desligamento. Um cuidado necessário para evitar que Mono, ao vasculhar a
sua memória, tomasse conhecimento da intervenção. Ela foi colocada sobre uma mesa para que os
seus circuitos fossem manipulados. Antes de iniciar o procedimento, Damian se deteve para
admirá-la.
-Foi o meu melhor trabalho técnico. O pessoal da estética também caprichou. Manter a linha de
produção seria muito caro e economicamente pouco atraente, mas, não foi só por causa disso que o
meu trabalho foi interrompido. Os criminosos temiam a minha atividade.
Em seguida, ele se pôs a trabalhar com instrumentos de ultramicroscopia.
-Vou colocar um minúsculo sensor capaz de registrar as vibrações características das pessoas
que se aproximam. O verdadeiro Mono não vai resistir à curiosidade e chegará perto. Depois, ele
irá conhecer que existe quem sabe mais do que ele.
A boneca-companhia foi deixada desacordada junto com Deodéa no recanto indicado de um
parque. Desta vez, Deodéa nem viu quando foi atingida. Quando recuperou os sentidos estava outra
vez na sala de Mono. Ela se dirigiu a ele de modo agressivo.
-Contrariamente ao que você afirmou, eu cumpri a minha parte, espero que cumpra a sua
libertando Leneu.
-O projeto que eu pedi para retirar continua em pauta. – Mono falou.
-Você é bem informado. Deve saber que eu retirei o nosso apoio. Também, sabe que Isotes
deseja se promover a qualquer custo. Ele manteve a iniciativa de reapresentá-lo contra todos os
meus apelos, sem se importar em se tornar meu inimigo.
-O acordo foi para que o projeto ficasse fora da pauta. Contudo, eu sei que a culpa não foi sua.
Isotes está se vangloriando de que você, até, implorou para ele.
-Eu conhecia a ambição de liderança dele, mas, não o imaginava capaz de tamanha
desconsideração a um apelo meu.
-Para mim, confirmou não ser confiável. Eu colaborei com ele. Depois, implorou pelo meu
apoio para ficar na liderança do partido. Eu não confiava nele e achei que não merecia estar ali.
Disse-lhe que não era a sua vez. Como eu lhe pedi para não apoiar o projeto, quis me dar uma
demonstração de força fazendo o contrário. É um tolo. Se eu a libertar juntamente com Leneu,
promete não mencionar no Conselho esse encontro comigo? Eu não preciso de propaganda.
-Isso eu posso prometer. Ainda bem que reconhece que eu cumpri a minha parte.
-Eu também não descumpri a minha palavra, pois, o projeto permanece em pauta. Se
desconfiasse de um logro, a minha conduta teria sido outra. O que eu desejava era uma
oportunidade para conversar frente a frente consigo mais uma vez. Agradeço à iniciativa inteligente
de me oferecer a boneca. Hoje mesmo, Leneu estará em casa. Já lhe disse que eu a admiro.
Acompanhei o seu drama quando foi abandonada pelo pai. Conseguiu sozinha aglutinar políticos
desvalidos e ter uma representação importante no Conselho. Porém, não se iluda. Ninguém lhe dará
real reconhecimento. Eles a abandonarão por qualquer vantagem. Eu tive desgostos semelhantes. A
minha decepção foi mais precoce e me fez ver a inconsistência do altruísmo. É uma lorota que cada
um conta pensando enganar os outros. Um dia, você chegará à mesma conclusão. Poderá ser tarde
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demais para recuperar o que perdeu. Você é muito orgulhosa, mas, se aceitar, eu terei prazer em
compensá-la pelo transtorno que causei.
Deodéa lembrou a sugestão de Damian para pedir apoio para se eleger e, assim, ganhar uma
confiança que poderia ser útil. Entretanto, não era da sua índole mentir para obter vantagens.
Conversar, porém, não faria mal.
-Qual foi a sua decepção? – Deodéa Perguntou.
-As pessoas não são mais do que bonecos egocêntricos. Meu pai foi um exemplo e a primeira
decepção para mim. Você não admite, mas, pensa igual. Entretanto, veja o que eu lhe ofereço. Se
juntarmos nossas forças, poderemos controlar o governo e obter o que quisermos. Você tem o
prestígio e eu tenho os meios. Não precisará abandonar nada do que gosta, nem o seu homem do
gelo. Terá acesso a tudo o mais que possa desejar. Você ambiciona ainda mais do que isso? - Mono
completou, apresentando um sorriso forçado.
-As minhas aspirações são bem modestas. Espero que você cumpra o que prometeu.
-Se eu prometi, pode estar certa que farei. Você merece progredir. Não gostaria de ser
Presidente do Conselho, como foi seu avô?
Deodéa não resistiu à deixa.
-Quem pretendesse isso precisaria de muito apoio.
Desta vez o riso de Mono foi largo e verdadeiro.
-Apenas, aceite o que lhe oferecerem, sem se meter em intrigas. Nem precisa trocar de partido.
Nada mais vou lhe pedir agora. Quando for Conselheira voltaremos a conversar.
Ainda ouvindo o riso de Mono, Deodéa se sentiu desfalecer.
Acordou no mesmo parque, junto com Leneu e a boneca-companhia. Ele ainda estava
entorpecido. Mari tentava se desculpar.
-Desfaleci e despertei aqui, com Leneu e você desacordados ao meu lado. Tudo aconteceu
muito rápido. Eu estava tonta e nem pude chamar auxílio. O que aconteceu? – Falou Mari.
-É uma longa história. Vamos tomar um módulo de transporte.
Em casa, Deodéa e Leneu recostaram-se em poltronas.
-Apesar do que Isotes me fez, gostaria de preveni-lo de que corre grande perigo. Devo fazê-lo
sem contar que estive com Mono, pois, prometi não mencionar o encontro. - Deodéa comentou.
-Pelo que tem demonstrado, Isotes não teria o mesmo cuidado com você.
Deodéa pediu a ligação. Depois de algum tempo a imagem de Isotes apareceu, demonstrando
má vontade.
-Espero que não seja para me pedir, mais uma vez, para retirar o projeto.
-Eu só me sinto na obrigação de avisá-lo de que há pessoas perigosas dispostas a tudo para que
o projeto não prossiga. Veja o que aconteceu com Manevan.
-Antes de apresentar um projeto sobre automação, como relator da Comissão de Energia, ele já
havia contrariado muitos interesses e feito inimigos. A mim mesmo havia contado ter recebido
ameaças. Eu não sou medroso e sei me cuidar. Algum capeta a mandou me assustar?
-Eu falo por conta própria, mas, recebo muitas informações. Proteja-se.
-Estou encantado com a sua preocupação. Fique tranqüila. Eu sei me defender.
-Isotes a julga por si e não acredita na sua sinceridade. De qualquer modo, acredito que para
alguma coisa servirá o seu recado. Ele deve saber em que está se metendo e tomará mais cuidado. Leneu falou, após concluída a ligação.
-Eu temo que não seja suficiente.
*
Quando Leneu se retirou, Deodéa foi ter com Damian. Mari foi novamente desligada na sala
protegida e os seus circuitos acessados. Damian retirou e guardou os elementos microscópicos que
havia colocado antes.
-Estes registros vão para análise. Se tivermos sorte, comprovarão as nossas suspeitas.
Precisamos acompanhar o que Mari vai fazer daqui por diante. Vou instalar monitores pela casa e
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examinaremos as gravações amanhã. Provavelmente, Mono a programou para algum
comportamento compulsório.
Em casa, Leneu entrou em contato com Alberto.
-Sinto não ter podido comparecer. Houve alguns contratempos.
-Estou feliz por vê-lo a salvo. Soube do seu sequestro e, inclusive, o de Deodéa. Como ela está?
-Foi, sobretudo, um grande susto. Nós lhe agradecemos por ter emprestado a Mari. Deodéa
deseja perguntar se você tem urgência em recebê-la de volta. Já que está na casa dela, poderia
ajudá-la em alguns compromissos.
-Se lhe for útil, pode ficar com ela por alguns dias.
-Você não pretende se comunicar com Deodéa? Ela certamente ficaria feliz com isso.
-Não desejava perturbá-la, depois do que ele passou. Eu vou ligar em seguida.
Alberto pediu para fazer contato e foi imediatamente atendido.
-Soube o que vocês sofreram. Leneu me pediu para que deixasse a Mari ajudá-la por alguns
dias. Fico contente em poder colaborar.
-O seu apoio é muito importante. Nem sei como agradecer.
-É quase nada, comparado ao que tenho recebido.
-Eu devo visitar Tacialmo. Seria bom se você quisesse me acompanhar.
-Será um prazer. Eu gosto de ouvir o que ele diz. Quando pretende ir?
-Eu vou verificar e lhe aviso.
*
Pouco depois o comunicador da casa de Deodéa indicou haver uma notícia que se enquadrava
na relação dos assuntos assinalados como do seu interesse. Ela pediu para ver e apareceu uma
grande movimentação no Edifício do Conselho. A notícia dizia que ocorrera o assassinato do
Conselheiro Isotes. Ao que parecia, um desequilibrado se lançara sobre ele e explodira uma bomba.
Especulavam sobre quem era o maluco e como poderia ter entrado com a bomba na sede do
Conselho. Ao que constava, isso nunca havia acontecido antes. Descreviam que, ultimamente,
Isotes estava tomando grandes precauções com a sua segurança, sugerindo ter sido ameaçado.
-Mais um problema para o governo. O que pensa disso? – Perguntou Madra, dirigindo-se para
Deodéa.
-Acredito que Mono quis dar uma demonstração de força, mandando aos seus controlados o
recado de que não tolera traições. Ele não costumava agir tão abertamente. Está ainda mais louco,
ou, sentindo-se acuado. O projeto sobre automação deve ter grande importância para ele.
-Você vai tomar alguma atitude, protestando sobre isso?
-Naturalmente, vamos denunciar. Entretanto, o partido dele é situação e a responsabilidade para
tomar atitude cabe ao governo.
A notícia da morte do Conselheiro Isotes teve grande repercussão, porém, não era o único
embaraço. Surgiam denúncias de algumas famílias sobre o desaparecimento dos seus filhos. Todos
eles ligados ao Movimento Naturista. Entre eles se incluía Renano. Madra estava exasperada. Fora
ela quem pedira a eles para organizar a vigilância. Deodéa, sem saber como agir, disse a ela que
devia acompanhá-la para ouvir Tacialmo.
Nesse ínterim, Alberto contatou perguntando quando seria a visita. Deodéa perguntou se ele
não poderia passar na casa dela, a qual ficava no caminho, para irem juntos. Alberto concordou e
contou sobre sua intenção de ouvir o que Tacialmo teria a dizer sobre uma proposta que recebera
para entrar na política. Acrescentou que, embora já houvesse decidido negativamente, desejava
ampliar o seu conhecimento, observando a opinião de outros. Sem mencionar Zefir, cujo nome,
possivelmente, ela inferisse, falou sobre a sugestão para freqüentar reuniões de um grupo político e,
no futuro, candidatar-se a um cargo público.
Deodéa estimulou-o positivamente.
-Se for do seu agrado, não vejo inconveniente. A minha família sempre teve Conselheiros em
vários níveis. Porém, devo adverti-lo de que, se desejar fazer essa experiência, precisará ter muito
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cuidado em relação a qualquer ligação suspeita. A descoberta de alguma amizade condenável seria
explorada politicamente de forma negativa.
Madra estava junto e, ao contrario da tia, mostrou-se reticente.
-Não gosto de política, tal como eu vejo ser praticada. Uma coisa é dar opiniões aparentemente
desinteressadas, outra será tomar posição quando estiver ligado a um partido. Os adversários
sempre encontram alguma coisa para atacar. Talvez, você não esteja preparado para se defender
dos mal intencionados em conformidade com as nuances do pensamento atual.
-Vamos ouvir a opinião de Tacialmo. – Interveio Deodéa.
*
Juntos, Deodéa, Alberto e Madra foram recepcionados pelo boneco-companhia da casa de
Tacialmo, o qual logo os cumprimentou com simpatia. Deodéa adiantou-se, mostrando sua
preocupação pelo seqüestro de jovens do Movimento Naturista.
-Pelo que estou informado, vossos amigos do Movimento foram afoitos demais. Eles não só
vigiaram como prenderam suspeitos, submetendo-os a interrogatório. Era de se esperar que
houvesse reação. - Retrucou o guru.
-Nisso, agiram por conta própria. Em sua opinião, o que poderá acontecer com os jovens
desaparecidos?
-Os seqüestradores devem acreditar que foi uma reação emocional da parte dos jovens, sem
maiores conseqüências. Eles estão bem aparelhados e não são dados a estimular antagonismos mais
do que o indispensável às suas finalidades. Não se sentindo ameaçados, logo irão libertá-los. Se
desconfiassem de uma articulação mais ampla, seria diferente. Eu recomendo que diga ao seu
pessoal que, em consideração à ansiedade das famílias, parem com todas as ações. Não temos
necessidade de mais sacrifícios.
A ansiedade de Madra ficou menor. Ela apresentou a Tacialmo um relatório.
-Eis o que, até aqui, eles conseguiram colher.
Tacialmo o examinou rapidamente.
-Pelo que posso ver, são informações importantes e confirmam as suspeitas. Elas se encaixam
no quadro que se desenha.
-Vamos suspender a vigilância com os carros e pensar em outro modo de ação. A seu ver, neste
momento, é mais conveniente uma demonstração de medo?
-Você entendeu a estratégia. – Disse Tacialmo.
Deodéa queria ouvi-lo sobre as suas dúvidas de natureza ética sobre algumas condutas.
-Julga que seja lícito responder à violência com violência?
-Penso que é preciso haver sempre uma intenção sincera de procurar em cada ato o maior bem
possível para todos.
-No seu entender, por que tantas pessoas praticam o mal?
-Possivelmente, não tenham conhecido a satisfação de praticar o bem. Esse é um assunto sobre
o qual é difícil falar com brevidade. As pessoas possuem impulsos internos e percepções do mundo
externo que as rodeia. Freqüentemente, a satisfação imediata está em oposição com o que a pessoa
pode perceber como sendo o mais justo para todos. O poder de escolha do ser humano tem a
capacidade de se sobrepor a tudo o mais. Contudo, cada um possui reservas de carinho, de mágoa,
de força e de fraqueza que tornam as decisões mais fáceis ou difíceis e, portanto, os erros mais, ou,
menos, perdoáveis.
-O hábito de viver só em programas virtuais pode ser uma causa. As pessoas se acostumam a
ter respostas imediatas e, quando se defrontam com a lentidão do que acontece na realidade, não
têm paciência. Elas ficam ansiosas e praticam crimes para obter imediatamente o que desejam, do
mesmo modo como conseguem apertando um botão. - Madra interveio.
-O que nos diz sobre a recuperação dos criminosos? - Deodéa perguntou.
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-Evidentemente, a recuperação deve ser a nossa meta e agir, preferentemente, antes que
cometam um crime. O sucesso da recuperação depende, também, do foro íntimo do indivíduo e,
por isso, é imprevisível.
-Então, como se pode julgar?
-As sociedades organizadas precisam julgar e punir conforme a sua necessidade de
sobrevivência, mas, eu não me atreveria fazer o julgamento moral de alguém para a eternidade. O
Estado deve agir para evitar que o criminoso pratique novos crimes, inibir os criminosos potenciais
e recuperar, quanto possível, os prejuízos causados. Cabe ao Estado compensar as vítimas, porque é
seu o compromisso da segurança. Depois, tentar ressarcir o prejuízo com o criminoso. Mais do que
receber uma vingança que de nada lhes serve, as vítimas merecem ser compensadas pelos seus
infortúnios.
-Nas suas pregações, o que fala sobre religião? - Alberto interveio.
-Entendo que não cabe à religião julgar, mas, educar para o bem, apoiar e dar esperança. Os
pregadores religiosos costumam não admitir quaisquer objeções. Eu sou, também, político e não é
conveniente que defenda uma denominação religiosa específica. Procuro persuadir os meus
ouvintes a não fugir do raciocínio lógico, porém, aceitar que ele não oferece todas as respostas.
-Há outro assunto sobre o qual gostaríamos de ouvir a sua opinião. O Alberto recebeu um
convite para participar de reuniões políticas e, no futuro, candidatar-se ao Conselho. - Falou
Deodéa.
-Não pelos meus méritos. Eu sei que o interesse está na divulgação que foi dada ao meu nome
em razão das circunstancias que eu vivi. – Interveio Alberto.
-Qualquer pessoa pode participar da política, desde que assim o deseje. Não há inconveniente
pelo convite lhe ter sido feito por sua condição de sobrevivente. Tenha em conta, porém, que a
exposição só vale no começo. Depois, as pessoas o apoiarão, apenas, se você corresponder ao que
elas pretendem. Eu recomendaria que andasse devagar, sentindo o terreno para não sofrer demais
com as decepções que sempre vêm. O sucesso político tem altos e baixos, impossíveis de se prever
totalmente. Muitos ficam deprimidos quando os resultados não são os esperados. Qual é a sua visão
sobre a política? O que pensa do mundo atual?
-Ainda parece um mundo muito estranho para mim. O progresso tecnológico em muitas áreas é
magnífico. De outra parte, o conhecimento sobre algumas questões que eu pensaria estar mais
adiantado, acompanhando a evolução de outras áreas, permanece obscuro. Por exemplo, quase nada
se estuda sobre a consciência humana e a chamada para-normalidade.
-Acredito que isso tenha a ver com o medo dos sobreviventes das catástrofes com relação às
ideologias. Embora aceitando as religiões tradicionais, criaram-se leis restritivas a qualquer
iniciativa que fuja à experiência palpável, temendo o surgimento de idéias decorrentes não
controláveis. Só progrediu a tecnologia aprovada para objetivos determinados. Atualmente, há os
que desejam ir além, mas, ainda são poucos. Quais seriam os objetivos da sua atividade política?
-Eu apenas desejo trabalhar. Quando pedem a minha colaboração, a tendência que eu tenho é de
não negar. Só preciso estar convencido de que o que eu faço é útil e justo para as pessoas.
-Você deve conhecer o filósofo Sócrates. – Perguntou Tacialmo.
-É quase da minha época. Cerca de dois mil anos antes.
O guru entendeu, corretamente, a ironia como uma brincadeira para amenizar o diálogo. Ele
devolveu no mesmo tom, sorrindo.
-Atualmente, temos tendência a dividir a história em, apenas, dois períodos: antes e depois das
catástrofes. Voltando aos tempos de Sócrates: Já se discutia se era melhor ser justo ou apenas
parecer justo. A sua disposição parece sincera e os seus objetivos melhores do que os da maioria.
No entanto, não se consegue decidir sem prejudicar algum interesse, muitas vezes honesto, porém,
considerado impróprio. É preciso escolher prioridades entre as opções, adotando aquela que pareça
mais legítima. Temos que saber qual será o resultado das ações ao longo prazo, às vezes,
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contrariando benefícios imediatos. A escolha de quem exerce a política precisa de bom senso nas
decisões correntes e concordância com objetivos de longo alcance bem definidos.
-Qual a sua orientação com relação à questão proposta por Sócrates.
Tacialmo pareceu surpreendido pela pergunta, mas, não se negou a responder.
-Em primeiro lugar, é preciso distinguir os que agem injustamente convencidos de que é o justo
daqueles que agem sabendo que cometem injustiça. Quem oculta o que faz, percebendo não ser
justo, atua contra a sua própria moral. Quem argumenta a favor do que não acredita é ainda pior.
Enganando, pode obter um sucesso passageiro, o qual ele mesmo se julga incapaz de alcançar
atuando conforme as próprias convicções. A menos que seja um bruto, não se reconhecerá
possuidor de um valor real, o que é indispensável para a verdadeira felicidade. Ademais, sempre
viverá com o temor de ser desmascarado e não ter argumentos para responder.
-Por que se pratica injustiça? – Insistiu Alberto.
-Porque uma resposta automática ao impulso dá satisfação imediata. No momento, é tão
espontâneo como sonhar sem nada a se opor. A capacidade de não agir em resposta, apenas, aos
apetites imediatos é o difícil e o que diferencia as pessoas.
-Seus conceitos são bem criteriosos. Como se pode chegar à percepção?
-Vivendo, estudando, meditando e, também, errando muitas vezes. Entretanto, eu sei que as
respostas sempre são incompletas.
-Quando não se pode ter uma forte convicção própria sobre algum tema em particular, será
legítimo aceitar o julgamento de outros mais experientes a quem se respeite? – Continuou Alberto.
-Assim tem que ser, pois, ninguém pode ter convicção fundamentada sobre tudo. Todavia, não
se deve aceitar sempre o julgamento dos outros. É bom conservar independência para discordar,
mesmo dos amigos.
-Antes de pretender fazer política, eu ainda preciso aprender muito.
-Não exija demais de si. Para justificar a candidatura a um cargo, basta o convencimento de ser
um pouco melhor do que a maioria. Ouça, embora com reservas, o julgamento de quem o conhece.
-Estou certo de que, para mim, ao menos por enquanto, a política não seria uma boa opção.
-Já o ocupamos demais. Agradeço a atenção. Os jovens do Movimento Naturista estão ansiosos
para agir, mas, vou lhes transmitir a sua orientação. - Deodéia interveio.
-Tenham paciência. O mal, também, encontra seus limites. – Sentenciou Tacialmo.
Antes de saírem, Tacialmo ainda propôs que vissem a sua pinacoteca. Passaram para uma sala
com poltronas voltadas para uma parede de cor negra.
-Não se trata de projeções. Os elementos desta parede tomam as cores e a textura dos quadros
escolhidos. Em cada tela, o revestimento muda a sua cor e a forma, semelhantemente a um
camaleão, de modo que o reflexo das pinturas depende da incidência da luz sobre elas. Os quadros
antigos foram reproduzidos com base em trabalhosas restaurações. Para mim, as obras de arte são a
expressão maior do virtuosismo humano. Eu tenho empregado quase todos os meus recursos
materiais nesse trabalho. De outra forma, seria impossível desfrutar em minha casa o prazer
contemplativo que os museus oferecem.
Enquanto ele fazia explanações, ao seu comando, em seqüência, se estampavam na parede
diversas pinturas. A iluminação frontal fazia com que, ao movimento dos olhos, os reflexos
sofressem variações, tal como ocorre quando se vê um quadro real.
-Vamos aos clássicos. Você provavelmente aprecia o quadro mais famoso do seu tempo.
Dito isso, Tacialmo apresentou a Mona Lisa, fazendo Alberto se lembrar do quadro na parede
do hospital.
-Vejam, do mesmo Leonardo da Vinci, a Última Ceia, tal qual foi pintado numa parede do
refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie.
-Esse quadro causou muita celeuma. Um dos apóstolos tem traços femininos e alguns
sugeriram que seria Maria Madalena. - Alberto comentou.
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-Eu sei. Da Vinci usava seus próprios discípulos para modelo e, possivelmente, tenha querido
representar a sua própria homossexualidade. Vamos ver outros do mesmo período Renascentista.
Foram apresentados quadros de Botticelli, Michelangelo e Rafael. Após, com entusiasmo,
Tacialmo os fez apreciar quadros de épocas posteriores, sobre os quais Alberto nunca ouvira falar.
Quando Tacialmo perguntou se estavam cansados, Deodéa sugeriu continuar a observação outro
dia. Agradeceram e se despediram.
*
Ao retornar, Deodéa perguntou a Madra a sua opinião sobre o que ouvira.
-Penso que a previsão sobre o modo de Mono reagir faz sentido. Tacialmo é, de fato, muito
inteligente. Estará tramando alguma coisa? - Madra questionou.
-Acredito que sim, mas, desconheço completamente.
O grupo de jovens do Movimento Naturista espalhado pela cidade desistiu da vigilância. Pouco
depois, os que haviam desaparecido acordaram em parques, sem nada lembrar daquilo que lhes
havia acontecido.
O chefe da Segurança Pública foi convocado para prestar informações ao Conselho sobre as
investigações nos casos Manevan e Isotis, mas, pouco esclareceu.
-Ainda não encontramos nada de novo. O corpo do Conselheiro Manevan foi minuciosamente
examinado. Está absolutamente limpo. Ele morreu pelo efeito de um veneno raro e muito rápido.
Não se sabe se foi suicídio ou assassinato. O homem que explodiu a bomba junto ao Conselheiro
Isotis está louco e nada se pode extrair da sua memória. Não encontramos nenhum registro da
entrada da bomba na sede do Conselho. As medidas de segurança foram reforçadas.
Os acontecimentos eram desgastantes para o governo, favorecendo a oposição. Entretanto,
aparentemente, tudo permanecia como antes.
19 – O PLANO
Como de outras vezes, Alberto foi despertado à noite por um boneco-companhia. Zefir desejava
conversar com Madra, mas, sem utilizar os meios de comunicação. Pedia o obséquio de contatar
com ela e ver se era possível ir com ele até o laboratório.
-Informe Zefir que eu vou solicitar para Leneu levar o convite dele para Madra. Acredito que
ela gostará de ir. Pode contar com a minha colaboração.
Pela manhã, Alberto transmitiu a Leneu o pedido. Ele não se mostrou muito surpreendido:
-Deve ter algo a ver com o seqüestro dos jovens do Movimento Naturista. Zefir, possivelmente,
deseja pedir algo a Madra e ouvir o que ela pode dizer a respeito. Pelo temperamento que ela tem,
com certeza ficará interessada.
Enquanto isso, na casa de Deodéa, Damian recolheu as gravações dos monitores que espalhara
para examiná-las. Junto com ela repassou rapidamente o seu conteúdo até a surpresa de ver Mari se
levantar, examinar a casa e, verificando que todos estavam dormindo, dar um código para o
comunicador seguido de um chiado prolongado. Depois, deitou-se novamente.
-As memórias do dia devem estar condensadas naquele som que ela transmitiu. - Damian
comentou.
-Não se pode confiar em robôs. – Disse Deodéa.
-Especialmente quando são manipulados pelo inimigo. Ela nem lembra o que fez. Essa é uma
forma de Mono obter informações, juntamente com as obtidas por escutas clandestinas, ou, através
das pessoas que ele controla.
-Deve haver uma pessoa conhecida por trás dessa figura de Mono. Ele me disse que era apenas
um boneco. Todavia, falou com muita intimidade sobre o desgosto que eu tive com a viagem dos
meus pais, algo que eu mencionei a pouca gente. A fisionomia e a voz, certamente, eram diferentes,
mas, eu associo remotamente os seus gestos a alguém que já vi. Se conseguisse identificar, talvez o
mistério ficasse resolvido.
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-Este é o seu grande trunfo. Ninguém o conhece e ele conhece a todos.
-Não temos mais liberdade, nem em nossa casa. A situação nos obriga a estar quase sempre
nesta sala protegida para poder falar com tranqüilidade.
-Não convém retirar o implante que Mono colocou em Mari. Isso indicaria que sabemos da sua
existência. Precisamos evitar que transpareça estarmos envolvidos em atividades conspiratórias.
Não pode haver qualquer indicação de que haja um movimento contra ele.
-Estou andando no escuro. Tacialmo me disse para demonstrar despreocupação e aparecer
socialmente, porém, não tenho disposição para isso.
-Pensando no longo prazo, o seu papel político é importante e você não pode parecer
encolerizada. Depois da atuação do pessoal do Movimento Naturista, a Madra, também, pode estar
sendo vigiada e precisa demonstrar que desenvolve as suas atividades sociais com normalidade.
-Quanto a isso, não haverá dificuldade. Ela gosta de aventuras.
Deodéa entrou em contato com Madra.
Damian disse-me algo que faz sentido. Em face ao ocorrido, devemos manter atividades sociais
normais para não levantar suspeitas de que nos envolvemos em atividades conspiratórias contra ele.
Eu devo intensificar os contatos oficiais no Conselho e não tenho tempo nem disposição para
outros compromissos. O Conselheiro Pracaléu vai dar uma das suas festas. Eu costumo
comparecer, mas, estou esgotada e peço que me represente. Será bom você aparecer socialmente.
Ao conversar, aproveite para dar pistas falsas de tranqüilidade. Vamos usar de esperteza contra
Mono, evitando levantar qualquer suspeita.
-Não gosto de ir a este tipo de festa sozinha. Renano poderá ir comigo?
-Renano ficou marcado com o episódio da espionagem. Por enquanto, você deve ficar afastada
dos seus amigos do Movimento Naturista. É melhor ir com alguém do nosso convívio costumeiro.
Posso pedir para Leneu, ou, Alberto. Você está de acordo?
-Tenho convidado Leneu várias vezes. Duvido que ele aceite. Só se tomar como uma missão. Madra contestou, rindo.
-Vou fazer contato.
Leneu preferiu falar pessoalmente e foi até a casa de Deodéa. Falou sobre o pedido de Zefir
para conversar com Madra e sugeriu convidar Alberto. Ele aceitaria, pois, pensava que, quanto
mais conhecesse sobre a sociedade atual, melhor seria.
-Você poderia contatar com Alberto convidando-o para ir à festa. Se Madra aceitar se encontrar
com Zefir, poderão juntar os dois compromissos.
Deodéa aceitou a sugestão e se dirigiu a Alberto.
-Como será essa festa? - Alberto perguntou.
-Será realizada num espaço de aluguel próprio para esse tipo de evento. Madra poderá orientálo. As atrações são múltiplas e os ambientes servem a todos os gostos. Ficam disponíveis várias
diversões. Bonecos e bonecas-companhia de todos os tipos estão sempre à disposição, oferecendo
iguarias. Alguns ambientes podem lhe parecer chocantes. Entretanto, se você tem o propósito de se
amoldar à atualidade, deve encarar tudo com naturalidade. Estará demonstrando integração perfeita
com o nosso mundo.
-Eu admito que esteja curioso. – Disse Alberto.
-Aproveite e depois me conte. Esteja certo de que ficarei contente em saber que você se divertiu
e aproveitou bastante. Leneu irá lhe falar sobre o pedido do seu amigo.
Alberto desejou estender a conversação.
-É estranho como nestas festas os bonecos-companhia se misturam com as pessoas naturais,
Ainda tenho dificuldade para assimilar a aceitação social dos bonecos-companhia e o papel dos
sentimentos nos relacionamentos.
-Existem reações naturais de inveja e ciúmes, mas, não devem ser consideradas. Quando um
amigo recebe um prêmio, ou quando um filho se afasta, temos sentimentos de inveja ou de perda,
mas, outros valores devem prevalecer. As condições objetivas da vida determinam a valorização
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das relações. No seu tempo não entenderiam o significado dado a “honra” em épocas mais antigas.
Hoje, em razão do crescimento dos recursos virtuais, o que se considera nas relações é a qualidade,
veracidade e perenidade dos sentimentos entre as pessoas.
*
Na hora aprazada, Madra chegou à casa de Alberto:
-O que este Zefir pretende conversar?
-Penso que diga respeito à atuação dos seus amigos do Movimento Naturista.
-Para mim, está bem, embora, deva estar cansada após a festa. Eu gosto de ambientes
barulhentos, mas, estas festas de Conselheiros têm uma parte chata. Espero que você me ajude a
fugir das conversas formais. Lembra as aventuras virtuais que fizemos? Foram bem divertidas.
-Eu fico admirado sobre como você se envolve com os compromissos de Deodéa, tendo
interesses tão diferentes.
-Eu faço por gosto, de modo espontâneo. Também, devo muito a ela. Eu lhe conto todas as
minhas peripécias. Ela sempre me incentiva, dizendo para agir conforme a minha inspiração. Fala
que a minha desinibição a estimula.
-Eu não entendo Deodéa. Imprevisivelmente, ela me convidou para ter um filho com ela. Em
seguida, mudou de idéia e me comunicou isso através de Leneu. Ela me trata com cortesia, mas,
nunca mais quis falar sobre o assunto.
-Deodéa está com muitos problemas. Quando a situação melhorar, talvez, seja diferente.
-Os modos atuais são estranhos. Como estão as suas relações com Renano?
-Estão bem, porém, não estou disposta assumir compromissos. Não sei se foi por causa do que
aconteceu com meu antigo namorado Arlon, mas, eu não me sinto disposta a um envolvimento
mais sério. Tenho prazer em aventuras arriscadas, sem excluir outras coisas das quais, também, eu
gosto. Não precisa ficar preocupado comigo. Não é angústia nem desequilíbrio. Quando cansar de
experiências diferentes, irei dar à minha vida um ritmo mais calmo.
Chegado no local da festa, logo após a entrada, encontraram um grande salão onde muitos
grupos se dedicavam à conversação. O anfitrião se aproximou e os cumprimentou, apresentando-os
a outras pessoas:
-Deodéa é muito casmurra, ainda bem que tem uma sobrinha mais animada para representá-la.
-Ela, apenas, tem muito trabalho e ficou abalada com os últimos acontecimentos.
-Pelo que lhe aconteceu, desta vez ela está perdoada.
Enquanto Madra fugia para outras salas, Alberto era submetido às mesmas perguntas de sempre
sobre o seu passado. Após algum tempo, ele conseguiu se afastar e aceitou conhecer as atrações da
festa. Foi conduzido por duas bonecas-companhia a vários ambientes. Os vapores no ar logo o
deixaram tonto. Convidado para jogos, não quis disputar, continuando a percorrer as salas,
experimentando alguns brinquedos. Mais tarde, encontrou Madra na entrada de um salão onde as
pessoas flutuavam, parecendo estar sobre ondas, acompanhando o ritmo agitado ou lento das
músicas e das luzes, algumas.
-Fique comigo. Estes bonecos-companhia são estereotipados. Como se comportam as suas
bonecas-companhia? - Madra pediu.
-Mostram boa vontade, mas, não se comparam em qualidade com a Mari.
Entrando em outro salão, um ciclone os fez girar no ar. Era preciso se agarrar uns aos outros
para não ser jogado para fora do turbilhão, sobre um colchão de espuma. Depois, foram a uma sala
bastante escura onde as pessoas gritavam o nome de qualquer coisa que lhes viesse à cabeça. Os
objetos se formavam e pareciam precipitar-se sobre os presentes. A situação provocava sustos e
risos. Outros ambientes eram mais calmos, com músicas suaves, luzes reduzidas e vapores
alucinógenos.
-Se pretendemos visitar Zefir, precisamos sair agora. - Alberto propôs.
Despediram-se do anfitrião que permanecia junto à entrada. Ele agradeceu a presença e enviou
saudações a Deodéa.
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Retornaram à casa de Alberto e não demorou até se aproximar o veículo que os levou para o
laboratório de Zefir.
-Uma festa dessas deve ser bem dispendiosa. Os mesmos efeitos não poderiam ser obtidos de
modo virtual? Alberto comentou, enquanto trafegavam.
-Não seria a mesma coisa. O próprio custo serve para torná-la mais exclusiva e atraente. Não
sei dizer o motivo, mas, eu não aprecio muito festas apenas virtuais. O que você fez quando estava
sozinho, antes de nos encontrarmos? - Madra falou, sorridente.
-Você costuma ir a essas festas e sabe como são. Algumas vezes, somos obrigados a participar
da bagunça.
-Sei como costuma ser. Mas, como foi para você? Conte os detalhes. - Madra insistiu, com
marota ironia.
-Como eu disse, fiquei embriagado e não recordo os detalhes. Você conhece bem esses
ambientes. Use a imaginação. – Alberto, apenas, sorriu e retrucou sem se abalar.
Chegando ao laboratório, foram recepcionados com agradecimentos por Zefir. Ele pediu para
falar em particular com Madra. Enquanto se dirigiam para outro aposento, seu assistente perguntou
a Alberto se desejava enviar uma mensagem telepática. Havendo concordância, encaminhou-o para
a sala dos equipamentos.
Zefir acomodou Madra para explicar.
-Algumas pessoas estão trabalhando dentro de um plano. Foi combinado que a ação de cada um
seria planejada com o conhecimento de um mínimo de pessoas. Isso serve de proteção para todos.
É preciso que você não transmita a ninguém, além das pessoas absolutamente necessárias, o que
vou pedir. Ocorre que um dos nossos colaboradores suspeita haver um traidor em seu grupo e está
com problemas para cumprir a sua parte. A ação dos seus amigos do Movimento Naturista foi
corajosa e bem realizada. O meu pedido é para que você converse com eles sobre a possibilidade
de, num dia aprazado, fazerem uma grande correria de carros pelo centro da cidade, criando grande
confusão para atrapalhar a ação da segurança. Eles precisariam concordar, sem conhecer os
detalhes e a razão para a tarefa.
-É um pedido estranho. Nós temos um traidor no Movimento, mas, ele já foi identificado e está
isolado. Renano contou, para cada um de três suspeitos, três diferentes locais de uma suposta ação.
Então, pudemos constatar qual local foi revelado para o inimigo.
-Isso demonstra vosso ânimo e perspicácia. No caso do nosso colaborador, ele considerou ser
mais seguro suspender uma parte da sua ação. Eu não apelaria para vocês se houvesse alternativa.
-Vou conversar com Deodéa. Se ela concordar, reunirei um grupo que julgo confiável.
-Diga à Deodéa que o desafio dela é, também, nosso. Fico aguardando a sua resposta.
-Eu tenho uma curiosidade. Posso perguntar o que Alberto faz quando vem aqui?
-Não faz nada demais, porém, você deve perguntar para ele. Aquilo que ele prefere omitir, eu
não posso falar.
-Ele diz que faz experiências com telepatia. Fico intrigada com o interesse que ele possa ter.
-Antes, o interesse é nosso. Como ele vem de um tempo passado, a sua genética e as suas
reações podem ser diferentes. Nós estamos analisando a sua capacidade telepática.
Madra levantou e sorriu.
-Acredito. Ele provoca curiosidade em todos. Eu mesma gosto de testar as reações dele.
Voltando a se encontrar na sala de recepção, Alberto e Madra seguiram de volta num veículo
que os deixou na casa da borda da floresta.
-A presença de Mari não está fazendo falta? - Madra perguntou.
-Admito que, morando sozinho, uma boneca-companhia seja distração interessante. Entretanto,
tenho outras coisas para me entreter.
-Pelo que você mais se interessa?
-Tenho pesquisado a possibilidade de criar um instituto para o estudo de textos do passado.
-Eu vejo nisso uma inspiração de Leneu. - Disse Madra.
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-Eu o escuto, mas, preocupa-me que ele leve a culpa e corra riscos por opiniões que são minhas.
O desagradável na festa de Deodéa foi acusarem Leneu de me influenciar negativamente.
-Gostou do seu bolo de aniversário? Eu nunca tive um. Nem na infância.
Ao falar sobre isso, Madra demonstrou uma amargura inusitada. Alberto desejou fazer uma
brincadeira. Enquanto ela foi à toalete, demonstrando já dominar os costumes locais, encomendou
pelo computador um bolo de aniversário. Sem muita demora, Madra recebeu um bolo com seu
nome, encimado por uma tocha chamejante.
-Embora fora de data, você não poderá mais dizer que nunca teve um bolo de aniversário. Alberto falou, troçando.
Madra nada falou. Apagou a tocha. Cortou e comeu lentamente uma fatia do bolo. Depois,
inopinadamente, desatou em choro convulsivo.
-O que aconteceu? Alguma coisa errada? - Alberto perguntou, assustado.
Madra enxugou as lágrimas.
-Desculpe-me, eu nunca pensei que um fato tão simples pudesse me emocionar assim.
-Estou surpreso. Acostumei-me a ver você apresentar uma postura sempre contente, desprovida
deste tipo de emoção.
-As contingências fizeram com que algumas coisas que vocês valorizavam não tenham a
mesma significação atualmente. Talvez, por isso, você não entenda que, às vezes, eu possa ser
sensível. Incorporar essas diferenças deve ser a parte mais difícil da sua adaptação.
-De fato, vou ter que rever alguns conceitos. Entretanto, você já demonstrava estar preocupada
desde que saiu da conversa com Zefir.
-Estava contemplativa, preocupada não. Nem agora. Estou um pouco cansada, mas, não
incomodada. O dia foi movimentado. Posso ficar aqui até de manhã?
-Como quiser. O que Zefir queria? Eu fiquei curioso.
-Nada demais. Ele quer a colaboração dos jovens do Movimento, mas, pediu que eu não falasse
para ninguém. Para mim, está bem. Eu adoro provocações. Sei que você, também, gosta de
experiências diferentes. Isso é bom para nós.
*
Leneu marcou um encontro na casa de Deodéa pedindo que Madra estivesse junto. Na sala
protegida falou com seriedade e sem nada da sua costumeira ironia.
-Eu tenho um pedido a fazer em nome do grupo que prepara uma ação contra Mono. Por
segurança, eles têm agido isoladamente, porém, precisam reunir-se para firmar a estratégia.
Concluíram que a melhor opção é esta casa, desde que você consinta e sejam tomados alguns
cuidados para camuflar o encontro.
Deodéa o fixou nos olhos.
-Não preciso dizer que estou disposta a fazer o que for possível para prender Mono. O que eu
não suporto mais é ver à minha volta pessoas amigas escondendo fatos. Você sempre foi o meu
maior amigo, em quem eu sempre confiei, mas, não estou vendo reciprocidade. Diga-me o que
pretendem e não haverá problema. O que você sabe a respeito do preparo de uma ação?
-Leneu se mostrou embaraçado, tateando sobre o que dizer.
-Eu coloco a nossa amizade em primeiro lugar. Esteja certa de que lhe conto tudo o que seja
vantajoso saber. Acontecem muitas coisas consigo sobre as quais eu, também, não fico sabendo.
Agora, estamos nos defrontando com uma situação crítica. Você já foi posta em uma situação de
mais risco do que o desejável, o que pode ser prejudicial para todos no futuro. Até onde eu sei,
espera-se que você garanta os contatos políticos. Eu mesmo desconheço os detalhes. Há bastante
tempo, pessoas confiáveis entre si trocam informações, formando grupos ou células com a intenção
de realizar uma ação dita de Restauração contra Mono. Cada qual preparou uma parte do plano,
sem conhecer detalhes das partes dos demais. Essa precaução é necessária para o caso da queda de
uma célula.
-Eu fui deixada fora. Nem sabia de tal organização. Quem está no comando?
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-Eu confiei, sem conhecer os pormenores. Peço que você, também, confie em mim. Nessa
reunião, da identificamos. qual você irá participar, todo o esquema será esclarecido.
-Como pretendem fazer uma reunião desse porte sem despertar suspeitas?
-O grupo se reuniria na sala protegida. Para camuflar a entrada do pessoal organizador da
Restauração, a Madra precisaria realizar uma reunião festiva com um grupo restrito do Movimento
Naturista no grande jardim, comemorando o que o Movimento conquistou. Os conspiradores iriam
utilizar a entrada de serviço, juntando-se aos bonecos entregadores de material. Apesar de todos
esses cuidados, é preciso ter em conta que o plano envolve riscos. - Leneu propôs.
-Eu posso convidar para o encontro um grupo pequeno, mas, será melhor que estejam presentes
alguns menos confiáveis, inclusive, o sabidamente traidor. Desse modo, não despertaríamos a
suspeita de que o conhecemos. - Madra interferiu:
-Não posso negar um pedido seu. Espero ficar conhecendo, por fim, o mistério. - Deodéa
concordou, embora aborrecida.
Após Leneu se retirar, Deodéa e Madra permaneceram na sala combinando pormenores. Todo
material seria fornecido por uma empresa indicada por Leneu. Os próprios jovens do Movimento
apresentariam os números musicais e as declamações poéticos. Mari foi mandada aperfeiçoar
números de dança com a finalidade de animar a festa. Embora o Movimento Naturista tivesse
algumas reservas quanto à participação de bonecos-companhia, era preciso que ela permanecesse
fora da casa.
*
No grande jardim, o número de participantes era modesto, porém, todos estavam muito
animados. Grupos de jovens tocavam, cantavam, discursavam e declamavam sobre tablados.
Cumprindo o que lhe foi ordenado, Mari dançava sensualmente e ensinava passos de danças com
grande entusiasmo. O boneco-companhia Artur cuidava para que ninguém entrasse na casa. Pela
entrada de serviço, bonecos com trajes identificadores da empresa traziam mantimentos. Entre eles,
com igual indumentária, entravam os conspiradores da Restauração. Eles eram orientados para se
esgueirar até a sala protegida. Completando o quadro, estavam, ademais de Deodéa, Leneu,
Alberto, Damian, Nemato, Zefir, Barcante e Melano, Madra e Renano. Assentaram-se formando
um círculo. Deodéa só não conhecia Barcante e Melano. Foram feitas as apresentações.
-Estou acostumada a organizar festas e reuniões, mas, nunca uma de tamanha importância. Eu
fui deixada fora desta organização, mas, felicito vossa iniciativa. Alguém precisava agir. Espero
que saibam o que estão fazendo. Atacar Mono é muito perigoso. – Deodéa falou.
Nemato levantou e tomou a palavra.
-Somente o nosso coordenador conhece todas as partes do plano. Logo ele estará conosco.
Decisões importantes envolvem riscos. Todos aqui conhecem os perigos envolvidos. Há muito
tempo estamos nos preparando. Apenas o jovem Renano é um novo participante. Felizmente, ele
aceitou ser incluído para ajudar no que fosse necessário.
-Devo confessar que suspeito de um dos meus homens. Ultimamente ele tem andado com
pessoas pouco confiáveis. Eu temo que afastá-lo dos outros, agora, provoque atenção e vigilância
redobrada do inimigo. Algumas das minhas funções, como a entrega de material, eu posso fazer
com poucos homens. Todavia, o despiste programado com carros exige muita gente. Como só
depende de dirigir bem, acredito que seria mais seguro utilizar elementos de outros grupos. Barcante manifestou.
Essas afirmações criaram um clima de grande constrangimento. Os participantes pareciam não
saber o que dizer. Alguns levantaram, caminhando pela sala.
-Não digo que não se possa arranjar. Contudo, seria difícil reduzir o meu grupo. Somos poucos
e estamos muito afinados. Eles poderão ter a sua confiança abalada se forem designados para
funções diferentes das programadas. Contamos com outra solução. - Pronunciou-se Zefir
Outros manifestaram opiniões semelhantes. Concordavam que não se deveria atuar com quem
não fosse confiável, mas, relutavam em ceder pessoas do seu grupo.
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Renano interveio, surpreendendo a maioria.
-Eu já combinei com Madra e temos como assumir essa incumbência. Ela me ajudará na
organização do grupo. Já passamos por experiências bem desafiadoras e estou convencido de que
conhecemos quem, no Movimento Naturista, é absolutamente confiável, dirige carros e está
disposto a correr riscos. Conversamos com eles e nós podemos assumir as funções de despiste,
apesar de ainda não sabermos exatamente do que se trata.
Havendo concordância de todos, Nemato apontou para um canto da sala onde estava o caixão
recebido por Deodéa, classificado como contendo fósseis marinhos.
-Está precisamente na hora acertada. Creio que aqueles fósseis me pertencem.
Nemato dirigiu-se para o caixão.
-Vou apresentar para Deodéa, Madra, Alberto e Renano, os quais ainda não o conhecem como
tal, o nosso coordenador.
A seguir, abriu o caixão e ajudou Delonel sair, desprendendo-se do invólucro que o protegia.
-Desculpem-me chegar de forma assim inusitada. Foi o modo mais seguro que achei para viajar
sem usar os tramites oficiais. A informação sobre a minha vinda poderia despertar suspeita e
averiguações, pondo em risco o plano. Temos amigos que asseguraram a livre passagem do caixão.
Delonel cumprimentou um a um e abraçou Deodéa. Ele mostrava-se firme, mas, os seus olhos
revelavam a grande emoção.
-Espero que um dia me perdoe. Eu a fiz sofrer, mas, estava certo de que você seria forte o
bastante para suportar.
Depois, dirigindo-se para todos, com voz firme.
-Durante estes últimos anos nós estivemos coligindo informações. Custou muito, mas,
logramos identificar Mono. De nada valeria entregar à Segurança Pública as informações que
conseguimos e esperar pela realização da tarefa restante. A Segurança está infiltrada de espiões,
assim como o próprio governo. Eles o alertariam e seriam desencadeados mecanismos de defesa,
evitando confirmações e fazendo retaliações. No fim, tudo continuaria igual. Tivemos que manter
nossos grupos separados para que, se houvesse a descoberta uma célula, as demais fossem
poupadas. Eu me mantive distante para a coordenação estar em maior segurança. Não quis nem
mesmo que a minha filha soubesse da nossa organização porque, ante qualquer suspeita, nossa
óbvia ligação a tornaria alvo e um perigo para os outros. Ela tem atuado com sucesso inteiramente
por iniciativa própria. A solução do seu primeiro seqüestro junto com Alberto favoreceu o nosso
trabalho. Comecei a organizar este grupo após ser acidentado e haver me afastado da política. Pude
verificar que o inimigo dominava os bastidores da política e da segurança. Procurei um
extraordinário estrategista, conhecedor da situação, o qual colaborou comigo. Ele não quer aparecer
e é melhor que assim seja. O sistema social atual se fundamenta inteiramente na informática. Um
cérebro maldoso logrou avançar aos poucos, até dominá-la, criando o personagem Mono. Através
dele, controla a todos, sem que ninguém o reconheça. Muita gente ficou dependente dele e faz tudo
o que ele manda. Isso impede a eficiência de um ataque convencional. Todos aqui já foram
prejudicados por Mono, mas, quem se expõe em seu esconderijo é apenas um boneco inventado
pelo criador, o qual é incorporado à distância através de um sistema de transmissão singular. Há
anos trabalhamos, primeiramente testando em quem confiar, para construir este grupo e uma rede
que incluem muitos outros os quais têm colaborado de forma indireta. Através de múltiplas
abordagens, colhendo e confrontando informações, formamos um quadro que nos permitiu
identificar o criminoso escondido por trás de Mono. O Conselheiro Manevan sempre foi o mais
ousado, fez uma provocação arriscada e foi sacrificado. Mesmo sem conhecer o nosso objetivo,
Deodéa e Isotes mantiveram o projeto de Manevan, permitindo que as suspeitas se fundamentassem
ainda mais. Elaboramos um plano para atingi-lo de forma definitiva. Pelo seu modo de operar,
estávamos convencidos de saber quem era, mas, era preciso confirmar sua identidade de forma
absoluta. A oportunidade de colocar no covil do bandido a boneca-companhia de Alberto preparada
por Damian nos permitiu obter a prova definitiva. O Damian pode explicar melhor esta parte.
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-Quando se aperfeiçoaram os computadores, o Conselho Internacional decidiu que todos e,
principalmente, os robôs deveriam ter um núcleo central que os impedisse de agir contra os
humanos, ou, dar ordens por conta própria. - Damian explanou.
-O homem é programado geneticamente para preservar primeiro a si mesmo, depois o seu
grupo, a espécie humana e o seu próprio ambiente, embora, a cultura possa interferir sobre essa
ordem. Os robôs, entretanto, devem receber programação para proteger o seu proprietário e a
espécie humana, ficando a própria preservação em segundo plano. Essa programação básica precisa
ser resguardada contra uma reprogramação feita por alguém mal intencionado. Interrompeu Zefir,
demonstrando seu gosto pela teoria.
Damian continuou a sua exposição.
-Apenas três empresas no mundo foram autorizadas a produzir o núcleo central dos
computadores. Em nosso Estado, a mais importante é a Primol. Para proteção contra alterações, os
núcleos se autodestroem com qualquer tentativa de abertura. Eu fui chefe do departamento técnico
da empresa Prius. Ela obteve prestígio internacional produzindo a melhor qualidade de bonecoscompanhia existente. Isso deixou a Prius credenciada a pleitear uma autorização para produzir
núcleos centrais. Havíamos produzido alguns núcleos para teste, os quais foram utilizados,
sigilosamente em três bonecos-companhia. Os dois primeiros eram modelos comuns e ficaram com
funcionários da empresa. Eles foram revendidos por um valor bem superior ao que valiam e o seu
destino é ignorado. O outro núcleo foi usado no protótipo do nosso mais avançado modelo, o qual
foi vendido a Alberto. Houve pressões contrárias, vocês podem adivinhar de que tipo e de quem.
Eu fui demitido e o projeto abandonado. O controle internacional fiscaliza o núcleo central dos
robôs somente para verificar se cumpre o seu papel de impedir agressões a humanos, sem a
preocupação de verificar a possibilidade de que produza outros efeitos, como o de ativar nos
bonecos-companhia uma ação de espionagem. O interesse de Mono em tomar emprestada a
boneca-companhia do Alberto confirmou a nossa suspeita. Quando foi devolvida, eu a examinei,
verificando que o seu núcleo central havia sido substituído. Em casa, ela foi vigiada e se detectou
que passava informações, às escondidas, pelo comunicador. Antes de ser emprestada, eu havia
instalado outro equipamento imperceptível no seu interior. O exame dos dados desse equipamento
confirmou, com certeza, a identidade de Mono.
Damian fez uma pausa. A curiosidade dos presentes aumentava.
-Descobriram, afinal, quem é esse Mono? - Deodéa perguntou, rompendo o silêncio.
-Certamente. Deixo para Delonel explicar.
O pai de Deodéa retomou a palavra.
-Com todas as informações que coligimos até hoje, podemos dizer que Mono é o festejado
Madejar, chefe da empresa Primol. São duas figuras com imagem pública muito diferente, mas, a
mesma pessoa. É ele a quem precisamos atingir.
-Como pretendem atingi-lo? - Deodéa perguntou, parecendo chocada.
-O personagem Mono é protegido por defesas bem postadas, todavia, o verdadeiro responsável
sente-se seguro e tem um esquema de proteção pessoal mais fraco. Como não confia em ninguém,
quase só admite robôs próximos a ele. Se Madejar for retirado de ação sem ter tempo para reagir,
todo o seu esquema ficará desarticulado.
-Quem é esse Madejar? - Alberto perguntou.
-O pai de Madejar era considerado um gênio da robótica. Ele fundou a Primol e foi um dos
técnicos da comissão internacional que criou os núcleos centrais para os robôs. Morreu assassinado
por seu colaborador mais próximo, o qual está condenado à prisão perpétua. Madejar assumiu a
Primol em condições tumultuadas. O criminoso o acusou de ter colaborado na morte do pai. Não
encontraram prova alguma contra Madejar e a afirmação do assassino não foi levada em
consideração. Madejar adquiriu grande prestígio continuando os programas sociais da empresa. Os
concorrentes enfrentaram danos que resultaram em grandes prejuízos e a Primol açambarcou quase
todo mercado de núcleos centrais. Levantaram suspeitas contra a empresa, todavia, sem
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comprovação. Madejar se apresenta como benemérito, exteriorizando a parte má da sua
personalidade como Mono. Temos o desenho completo das suas atividades. Ele é forte por causa
das suas ligações, valendo-se da fraqueza e da desonestidade de muitas pessoas.
Sem que os outros percebessem, Deodéa foi esconder lágrimas no toalete.
-Não seria mais fácil simplesmente matá-lo, como ele faz com os seus desafetos, inclusive
assassinando o meu melhor amigo? - Barcante perguntou.
Delonel fez uma pausa e continuou.
-Ficaria difícil comprovar a sua culpa e muitos o teriam como herói. Ele tem um auxiliar que,
embora desconheça todas as facetas do seu negócio, igualmente, não têm escrúpulos. Madejar não
confia nele e o mantém sob estrita vigilância, entretanto, em caso de morte comprovada, ele
assumiria o seu lugar e teria, imediatamente, acesso a todos os recursos e segredos. Precisamos
desmoralizá-lo, provando que é o Mono, para que os seus colaboradores fiquem expostos sem
possibilidade de reação. Outra ação importante será acessar o computador central de Mono antes
que ele seja destruído para termos em mãos o esquema completo. Estejam confiantes. Tudo foi
analisado e revisado. Se não ocorrerem imprevistos, a nossa ação será exitosa. Vocês já tinham
recebido esquemas hipotéticos. Agora, eu vou distribuir o plano completo, com nomes e locais
reais. Vamos discuti-lo em conjunto. O essencial é ter absoluta confiança nos elementos dos nossos
grupos. Qualquer vazamento pode por tudo a perder.
-A minha maior dúvida fica por conta do desempenho do pessoal do Movimento Naturista. Eles
não tiveram tempo para se preparar. - Barcante e falou.
-Tínhamos a intenção de reservar Renano para um Plano B. Se não conseguirmos o nosso
objetivo, partiremos para uma ação pública de denúncia dos núcleos centrais da Primol. Nisso o
papel do pessoal do Movimento Naturista seria fundamental. No mínimo, impediria retaliações
imediatas. Todavia, a situação é de emergência. Nossa melhor oportunidade se dará daqui há dois
dias, quando Madejar for receber o Premio do Mérito Nacional. Eles terão necessidade de fazer um
treinamento rápido. A preparação, sendo em local do próprio Movimento Naturista, não provocará
suspeita de que faz parte de uma operação mais ampla.
-Tenho certeza de que podemos conseguir. - Renano retornou.
Depois de discutirem longamente todos os detalhes, os conspiradores se dispersaram.
-Você aceita Madra estar participando da nossa ação. - Renano perguntou para Deodéa.
-Ela sabe o que faz. Quando pede, eu dou a minha opinião, mas, não interfiro nas suas decisões.
Deodéa havia voltado e se dirigiu ao seu pai.
-Perdoe-me se não confiei em você. Imaginei que houvesse abandonado a luta. É uma pena eu
só tenha tomado conhecimento agora, em momento de tanta tensão. Estou sem saber o que dizer.
-Foi difícil nada contar e pedir que ninguém lhe falasse sobre os nossos planos. Ter você contra
mim era a maneira mais segura de protegê-la.
-Não fiquei contra você. Apenas um pouco decepcionada. Preciso assimilar melhor tudo isso.
Madejar foi meu colega de infância. Agora eu sei como reconheci os trejeitos de Mono. O boneco
repete os seus gestos. Ou alguns dos seus tiques não mudaram, ou a minha presença fez com que
ele regredisse aos modos de quando convivíamos.
-Eu me lembro da vossa amizade na infância. Ele parecia um garoto bonzinho. Infelizmente,
tomou o caminho do mal. Estou certo de que tudo correrá bem. Contudo, se algo der errado, você
será auxiliada, imediatamente, para viajar com sua mãe para a nossa casa distante. Lá temos amigos
e você estará protegida.
O encontro do Movimento Naturista continuava animado e ninguém reclamou pela presença da
boneca-companhia animando a festa. Alberto se despediu de Deodéa.
-Compreendo as suas inquietações. Quando isso terminar, espero que possamos conversar com
tranquilidade. – Ele falou, afetuosamente.
-Eu precisaria um pouco de tranquilidade, mas, o momento, agora, é de ação. - Respondeu
Deodéa, com um suspiro enigmático.
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Delonel considerou melhor permanecer escondido, junto com Damian, em sua própria casa.
*
Pela manhã, Deodéa ligou para Leneu.
-Há dias não recebo uma visita social da sua parte.
-Não gosto de perturbar sem ser convidado. Sei que deve estar muito ocupada.
-Desde quando você precisa convite? O abraço dos amigos sempre é bem vindo.
-Se não causo incômodo, vou logo até aí.
Enquanto aguardava, Deodéa encontrou a sobrinha bem animada.
-Estou contente por saber que você não se opõe a que eu participe da aventura com Renano. Disse Madra.
-Nunca interferi com o que você faz. Só devo lhe advertir que não é uma brincadeira.
-Melhor assim, além de emocionante é útil.
-Como está o seu relacionamento com Renano?
-Bastante proveitoso. Estou simpatizando com o modo corajoso como ele vem se portando.
Deodéa se deixou absorver por seus pensamentos. A manifestação de Madra a desagradava por
ver nela algo que recriminava em de si mesma. Tinha gosto pelo risco e a admiração pelo herói
aventuroso, mais do que pela pessoa prudente. Sustou seu ímpeto de contestá-la, pois, deu-se conta
de que estaria em contradição com suas próprias atitudes. Não era o inusitado da situação e as
posturas ousadas o que a atraía em Alberto? Não fora a excessiva reserva que censurara em seu
pai? Todavia, agora podia compreendê-lo melhor. Se ela não tivesse demonstrado repudiá-lo,
talvez, estivesse morta, como Manevan e outros. A atitude de Delonel não fora covardia, antes, um
recuo estratégico no momento em que estava em absoluta desvantagem. Ainda assim, ela não podia
apagar repentinamente as marcas deixadas pelo longo remoer de frustrações e o tempo de desfrute
que perdera. As marcas do desgosto sentido ainda doíam. Consolava-se com a idéia de que o
mundo era assim. O destino cria situações que se sobrepõe à vontade das pessoas. Apesar de tudo,
devia considerar ter valido a pena o sacrifício que lhe assegurou estar viva. Ela pudera contar com
o seu interesse pela história, o seu trabalho e os seus amigos. Agora, qualquer que fosse o resultado
desta ação de restauração, ela sentia-se redimida.
Quando Leneu chegou, dirigiram-se imediatamente à sala reservada, conscientes de que
precisavam conversar sobre a reunião.
-Pela primeira vez na vida estou realmente temerosa. Talvez, porque envolva, também, o meu
pai. - Deodéa externou.
-Como foi para você encontrá-lo, do modo como aconteceu?
-Foi bom saber que ele tomou a atitude que julgou ser a mais segura para mim. Ainda estou em
dúvida se foi a mais correta. Ele manipulou a situação, sem considerar os meus sentimentos e a
minha vontade. Não sei se foi para melhor ou para pior.
-A sua magoa é porque ele não demonstrou considerá-la suficientemente capaz para se safar das
ameaças. É normal um pai procurar proteger a sua filha.
Deodéa parecia mais contrariada e defensiva do que seria justificável.
-Você fala como Tacialmo. Estranhei que ele não fizesse parte do grupo.
-Provavelmente, preferiram preservá-lo. Ele faz, mas, no momento, não teria função.
-Será ele o estrategista que o meu pai mencionou?
-Não sei. Nem a mim Delonel contou. Como foi que o Conselho resolveu conceder a Madejar o
Prêmio do Mérito Nacional?
-O premio é entregue a cada dois anos pelo Presidente do Conselho. Há tempos Madejar o
pleiteava. Inteligentemente, ele nunca usou os Conselheiros controlados por Mono para obtê-lo.
Pelo que ele aparentava, a concessão estava justificada. Muitos Conselheiros o boicotavam apenas
por considerá-lo presunçoso. Manevan insistiu comigo para que, neste ano, o nosso grupo apoiasse
a sua indicação. Agora, acredito que ele já tenha feito o pedido em função da intenção de atacá-lo.
Mais uma vez me usaram, escondendo os reais motivos.
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Leneu apenas balançou a cabeça em sinal de discordância, porém, nada falou.
20 – AÇÃO
Como de rotina nestes eventos, toda a parte pública do palácio sede do Conselho foi examinada
pela Segurança Pública. Agentes de Madejar também vasculharam completamente o Salão Nobre
onde se realizaria a cerimônia. Nada criava suspeição sobre a cerimônia, mas, o grupo conspirador
da restauração vinha há muito tempo preparando o ambiente para o seu plano de ação. Embora
livros de papel já não fossem usados, no subsolo, abaixo do Salão Nobre, havia uma biblioteca. Ela
continha arquivos de livros virtuais, mas, como elementos decorativos, junto à parede do fundo da
sala, havia uma estante com grossos volumes impressos. As senhas que serviam de chave para a
entrada da biblioteca haviam sido copiadas. Semanas antes, os livros das prateleiras superiores da
estante foram substituídos por capas de livros contendo outros materiais.
O ato seria transmitido pela mídia e havia pouco interesse para a presença de público, ainda
assim, muitas pessoas haviam sido convidadas com antecedência e o auditório estava repleto. Na
parte frontal se assentavam as autoridades, ficando os demais convidados na parte de trás. Os
conspiradores escolheram Melano para assistir à premiação. Ele não provocaria suspeita por ser
filho de um Conselheiro e ter o costume de presenciar cerimônias oficiais. Embaixo de uma cadeira
da última fila havia sido preso um imperceptível micro-comunicador. A incumbência de Melano
era apenas transmitir um sinal no momento preciso em que se deveriam desencadear as ações.
Quando, com algum atraso, ostentando ao seu redor grande aparato de segurança, Medejar deu
entrada no salão, todos levantaram. O lugar que lhe cabia fora reservado ao lado direito do
Presidente. Entretanto, usando uma precaução a mais, ele pediu para trocar de lugar com o
secretário que estava à esquerda. O mestre de cerimônias tentou intervir, mas, a determinação de
Madejar foi inflexível e ele não teve como evitar. Melano entrou em pânico. A troca de lugares
impedia a execução do plano. Deveria dar o sinal fatídico designado para abortar toda ação?
Quando haveria igual oportunidade? O papel que lhe fora dado, conquanto pequeno, era essencial,
mas, nada fora combinado para este especifico imprevisto. Previa-se dar apenas um sinal pelo
micro-comunicador. Somente uma situação catastrófica justificaria que fosse usado de outra forma.
Embora a decodificação de uma comunicação criptografada pudesse ser demorada, a origem da
transmissão logo teria sua localização descoberta. Melano ficou paralisado, sem saber o que fazer.
Iniciaram-se os discursos. Melano saiu da sala o mais discretamente possível e, dirigindo-se ao
toalete, entrou num reservado. Ele precisava tentar. Sendo preso, depois, pensaria sobre o que
fazer. Avisou pelo micro-comunicador que Madejar estava sentado à esquerda do Presidente. Mal
completou a ligação, um agente da segurança bateu na porta aos gritos.
-Não pode haver transmissão daqui. Saia já!
-Estou com diarréia. Espere um pouco. – Justificou Melano.
-Entregue o aparelho de comunicação. Depois, pode terminar.
O desespero aumentou. Ele iria precisar do comunicador para a sua única função: dar o sinal
indicando o momento de iniciar a ação.
-Aguarde só um momento. Já vou sair.
Enquanto o segurança ameaçava invadir, com cuidado, passou por cima da divisória para o
reservado ao lado. O segurança repetia a ordem com impaciência. Melano abriu a porta do segundo
reservado e, praticamente nas costas do segurança, aproveitando-se da surpresa, arrancou a arma do
seu cinto e disparou uma descarga paralisante. O segurança caiu desacordado e foi arrastado para
dentro do reservado. Melano enxugou o rosto encharcado de suor e voltou para o seu lugar no
Salão. O Presidente e Madejar estavam no pódio para a cerimônia de entrega do diploma. Melano
arquejava. Ele se perguntava se a mensagem que enviou fora compreendida. A ausência do agente
logo seria investigada. O homenageado voltaria para o mesmo lugar? Percebeu uma movimentação
no corredor. Teriam encontrado o segurança desacordado? Finalmente, após os cumprimentos,
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Madejar retornou à sua cadeira. Melano comprimiu o comunicador dando o sinal esperado pelos
conspiradores. Quase imediatamente, Madejar arregalou os olhos com uma expressão inequívoca
de espanto. Certamente recebera um aviso. Melano comprimiu mais uma vez o comunicador.
Madejar falou algo para o Presidente e se levantou. Melano acionou o comunicador outra vez.
Neste momento, uma forte explosão fez o chão ruir aos pés de Madejar e ele desapareceu sob uma
nuvem de fumaça escura que cobriu toda a parte anterior do recinto, seguida da emissão de gás. A
confusão era geral, com gritos, esbarros e desmaios.
Enquanto isso, no andar inferior, Madejar caia sobre um colchão de ar junto com partes do piso.
Antes de qualquer reação, foi-lhe retirado o comunicador e anestesiado. Os conspiradores, com
máscaras protetoras contra gás, conduziram Madejar por uma passagem lateral para saída do
palácio. Havia começado a chover. Ele foi posto num carro com pneus adaptados à lama o qual
saiu rodando sobre o solo em grande velocidade abaixo dos módulos de transporte. Na mesma
região, uma grande quantidade de carros cruzava velozmente em várias direções. A confusão entre
os carros, a chuva e a lama dificultavam a perseguição tentada pela segurança. O carro com
Madejar seguiu um curso irregular até adentrar pela floresta. Ali, ele foi transferido para um
veículo camuflado, próprio para transitar naquele ambiente, seguindo um trajeto circular em
direção à casa de Alberto. Ao se aproximar, foi detectada a presença de veículos de patrulha
circulando pelas redondezas. Conseguiram desviar sem se fazer notar, deram outra volta e entraram
na casa por um acesso posterior onde Alberto os aguardava.
-Estão certos de que não foram seguidos? – Perguntou Alberto.
-Tomamos todas as precauções.
O prisioneiro foi levado para uma sala preparada e colocado em um sofá, sem poder se
movimentar.
*
O sinal dado por Melano para iniciar a operação na sede do Conselho também havia servido de
indicador para os conspiradores desencadearem ações contra a casa de Madejar e o esconderijo de
Mono. A entrada do esconderijo foi atingida por fortes explosões seguidas de disparos, fazendo os
seus defensores acorrerem para ali, onde se iniciou uma batalha. Ao mesmo tempo, na parte de trás,
era aberta uma passagem para lançamento de gás e penetração dos assaltantes. Seguiram-se
disparos enquanto, sob a orientação de Damian, o computador central era procurado e dele retiradas
suas memórias. Em seguida, os conspiradores evadiram-se do local, antes da chegada das forças da
Segurança Pública. Enquanto isso, a casa de Madejar, menos guardada, foi facilmente atingida com
a derrubada do portão de entrada e dominação dos guardas. Ali, o objetivo maior era provocar a
intervenção da Segurança Pública e da imprensa, associando o ato, pela simultaneidade dos
acontecimentos, com a invasão do esconderijo de Mono. Desse modo, estariam preparando
psicologicamente o público para aceitar evidências de que Madejar era o criminoso. Tal fato ainda
precisava ser demonstrado. A publicidade de Madejar tinha feito dele um grande benemérito. O
estrategista orientador de Delonel previra que isso criaria dificuldades. O prestígio de Deodéa,
sempre com posições políticas moderadas, seria importante para que a resposta do Conselho fosse,
no mínimo, cautelosa. O seqüestro de Madejar era a parte crucial do plano, mas, por si só não
assegurava vitória. Precisavam provar cabalmente que era ele o criminoso. De outra forma, seria
tido como mais uma vítima e nenhum dos seus comparsas resultaria punido, acabando o seu
esquema criminoso por se reorganizar.
*
-Por quanto Madejar deve ser mantido aqui? - Perguntou Alberto a Delonel.
-Até ser confirmada a sua culpa através das investigações da Segurança Pública. Depois, nós o
entregaremos. A segurança será auxiliada por informações anônimas. - Delonel completou, com
um sorriso confiante.
-Existe uma previsão de tempo?
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-Se você permitir que ele fique, provavelmente, alguns dias. Estão procurando por ele e aqui
estaremos mais seguros. O local foi vedado eletronicamente e montado um esquema de proteção.
Há espaço para continuar com as atividades normais.
Havia notícias desencontradas e a perplexidade era geral. Alguns jovens foram presos por
circularem com carros no perímetro urbano. Eles alegaram que se tratou apenas de uma brincadeira
programada para aproveitar o momento da chuva. O seqüestro fora uma coincidência, ou, os
conspiradores aproveitaram a brincadeira, sem a sua cooperação. Os conspiradores divulgavam
mais boatos do que podiam provar. Lançavam, entre outras, informações de que a ação fora uma
simulação planejada pelo próprio Madejar para se esconder, fugindo às suas responsabilidades.
Alguns fatos podiam ser comprovados, dando-lhes credibilidade. O esconderijo de Mono, inclusive
o boneco, correspondia ao que fora descrito por pessoas anteriormente presas por ele. Na casa de
Madejar foram encontrados alguns equipamentos misteriosos, porém, nada que pudesse incriminálo definitivamente. A Primol foi examinada, constatando-se que havia irregularidades. Foi possível
a Damian recolher algumas informações sobre os contatos recentes de Mono, servindo para
ameaçar a esses seus colaboradores, impedindo-os de se empenharem em uma campanha contra o
sequestro de Madejar.
Todavia, nem tudo corria bem para os conspiradores. O plano inicial fora um sucesso, mas, os
resultados pretendidos estavam mais difíceis de serem obtidos do que o esperado. Os núcleos
centrais dos robôs estavam sob investigação internacional, entretanto, o seu lacre continuava
inviolável, conforme convinha, destruindo-se o conteúdo a qualquer tentativa de abertura. Damian
tentava, mas, não lograva desvendar o acesso ao arquivo principal de Mono. A impossibilidade de
acessar as memórias impedia a comprovação definitiva de que ele era Madejar. O ataque na sede
do Conselho provocara ferimentos graves em um agente da segurança, acentuando a urgência em
justificar o fundamento da ação. Por seus conhecimentos de psicologia, Zefir foi designado para
tentar obter informações de Madejar. Entretanto, ele conhecia os recursos técnicos disponíveis,
estava treinado contra eles, parecia não se importar com o que lhe pudesse acontecer e resistia a
qualquer pressão.
-Eu fui amiga de Madejar na infância. Nunca mais o vi e, agora, preferiria não ter contato com
ele. Contudo, talvez, obtenha melhor resultado. Quando estive presa, Mono foi bastante loquaz. Deodéa falou para seu pai.
-Estamos num impasse. Qualquer tentativa de aproximação é válida.
Deodéa foi ao quarto onde Madejar estava preso. Ele a saudou com um riso sardônico.
-Olha quem eu vejo aparecer. É certo o que se diz: em toda desgraça há sempre algo de
positivo.
-Eu custei a acreditar que Mono fosse você. A lembrança que eu tinha era de uma criança dócil
e amistosa.
-Melhor seria dizer tímida e desajeitada. Devido aos meus modos, as outras crianças não me
davam atenção, pouco se importando com o meu sofrimento. Você era a única que brincava
comigo. Eu a admirava e também a invejava. Seu pai era tão importante quanto o meu e, no
entanto, ele lhe dava atenção. O meu só se interessava pelos seus negócios. O mundo o enaltecia
como um grande empreendedor, mas, eu o conhecia melhor e não tinha motivos para admirá-lo.
Quando fui obrigado a mudar de escola, perdi a sua companhia, ficando ainda mais sozinho.
-Espero que não me culpe por isso. O serviço de psicologia não o ajudou?
-Primeiro meu pai e depois eu, nós os enganávamos. Eles só estavam preocupados com os seus
relatórios.
-Naquele tempo, quando você saiu, eu senti a sua falta.
-Sempre a vi como uma irmã. Quando seu pai foi atingido, ele a abandonou. Eu fiquei feliz
porque você o repeliu e ficamos em igualdade de condições.
-Se você me dava tanta importância, por que não me procurou?
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-Pensei nisso, mas, não tive coragem. Estava mais seguro com a ilusão de que alguém gostava
de mim. Não quis correr o risco de ser mal recebido. Como vê, não sou tão duro assim. O que é o
destino... Se tivéssemos continuado amigos, talvez toda esta história tivesse sido diferente.
-Você está fazendo cena por estar preso. Quando era eu quem estava presa, não me falou assim.
-Não a tratei mal. Você teve mais conforto do que eu. Quase não posso mover-me. O seu
Movimento Naturista muitas vezes prejudicou o esquema de Mono. Eu a protegi contra ele.
-Mono era você, agindo de modo ilegal e maldoso.
-O que vocês fizeram comigo está dentro da lei? Nunca ataquei ninguém com as minhas
próprias mãos. Mono, porém, estava preso a um esquema. Há algum tempo, eu planejava
abandoná-lo e viver só como Madejar. Talvez, por causa disso, eu me tenha tornado menos
cuidadoso. Confesso ter feito acordos com verdadeiros criminosos. Se eles não se destacaram, foi
por serem menos hábeis.
-Só apela para a maldade quem não é competente para obter sucesso respeitando as regras de
boa convivência. Existem muitos que ainda sofrem pela perda das pessoas assassinadas.
-Nunca tive gosto em fazer alguém sofrer. O que aconteceu de ruim para alguns foi
conseqüência das situações que se criaram. Eu somente procurei realizar os meus objetivos de
poder. Sempre estão acontecendo infortúnios por ação da natureza e você não culpa Deus por isso.
-Você desejava ter poder igual a um Deus?
-O meu poder é pouco, mas, eu me orgulho de ter liberdade para decidir sobre as minhas ações.
Mesmo estando preso, eu posso escolher o que pensar.
-Você acredita nisso?
-Se não fosse assim, não haveria razão para me culpar. Colocaria a culpa nos meus pais, ou nos
coleguinhas que me agrediam pela inveja de ter um pai importante. Não sou um boneco. Eu me dou
valor e aceito a responsabilidade pelo que me acusam.
-Não teme o julgamento?
-Eu me importo com o seu julgamento. Deveria ponderar, considerando o mal que eu poderia
ter feito a você e não fiz, ou quantos mais desgostei e poderia ter sacrificado. A ninguém deveria
ser permitido acumular sozinho tanto poder quanto o que as circunstâncias me ofereceram.
-Você parece ser incapaz de pensar no bem dos outros. Eu sofri o afastamento dos meus pais
por sua causa, entretanto, não desejo tanto o seu mal quanto você pensa. Se colaborasse com
algumas informações, poderíamos chegar a um acordo.
-A última combinação que tivemos era fazê-la Conselheira. Veja no que deu o nosso acordo.
-Eu não fiz nenhum acordo. Você interpretou o que eu disse conforme o seu modo de pensar.
-Negue que, se não falou concordando, sabia ter sido assim interpretado.
-Eu temia por Leneu e não estava em condições de discutir. Voltarei em outra hora. Pense na
possibilidade de um acordo.
Ao sair, Deodéa abraçou seu pai, emocionada.
-Ele é louco, mas, tem a capacidade de me perturbar.
-Acredito. Ele pode ser louco, mas, é muito esperto.
*
Leneu transmitiu a Deodéa que Alberto acreditava tê-la visto muito aflita pela situação que se
criara. Ela pediu para sugerir a ele visitá-la em sua casa. Alberto foi contatado e gostou da
oportunidade. Chegando lá, procurou consolar Deodéa.
-Não me parece haver motivo para desespero. Tudo está correndo bem. Apenas, é estranhável
que, com tantos elementos descobertos, não se chegue à comprovação da culpa de Madejar.
-Não basta condenar Madejar, é preciso desmontar todo esquema. Há muitos implicados não
descobertos e eles criam resistências. Outros têm, sinceramente, dificuldade para mudar de opinião
sobre alguém que acreditavam ser filantrópico. Sem provas cabais, a situação fica complicada. Não
se deve desprezar a capacidade de reação dos adversários.
Madra, porém, mostrava-se satisfeita.
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-Embora a maioria da turma nem estivesse informada sobre o sequestro, o despiste feito com os
carros foi um sucesso. Todos apoiaram, mesmo só sabendo dos detalhes depois. O grupo ficou
coeso, sem nada informar sobre os preparativos. Renano e os outros presos já estão livres.
Conforme o advogado do Movimento, o julgamento deverá resultar em penas leves.
Mais tarde, Deodéa desejava descansar, entretanto não pôde deixar de receber Solina.
-Eu venho lhe emprestar a minha solidariedade. Soube que Leneu foi sequestrado e você
conseguiu a sua libertação. Como foi isso?
-Queriam que eu retirasse da pauta um projeto. Peço não comentar isso com ninguém. Ainda
estamos em perigo.
-Agora temos esta confusão com Madejar. Ao que me parece, os delinqüentes estão cada vez
mais ativos.
Deodéa desconfiou que Solina estivesse, apenas, especulando. A antiga amizade permitiu que
respondesse com uma provocação.
-A psicologia deveria nos dar alguma sugestão. O seqüestrador de Leneu lhe disse que os
psicólogos que o atenderam só estavam preocupados em preencher relatórios.
-Está na moda colocar a culpa nos psicólogos, mas, eles não respondem por tudo na
criminologia. Os tratamentos não interferem com o ego de um criminoso, isto é, nas suas razões
conscientes. Esse território é da filosofia, das crenças e da vontade de cada um. Hoje se aplicam
métodos instrumentais, como o mapeamento da atividade cerebral e outros indícios. Eu ainda uso a
interpretação de sonhos e a livre associação de idéias. Através do encadeamento das idéias, sem
interferência de censura, desnudando os traumas reprimidos que causam sentimentos e atitudes
compulsivas. A medicação, também, acaba impedindo que a pessoa desenvolva suas próprias
resistências naturais. Eu prefiro o método antigo, oferecendo apoio pessoal e um abraço.
Quando Solina saiu, Deodéa lembrou as muitas conversas informais que tivera com ela.
Debruçou-se, mais uma vez, sobre si mesma e os seus sentimentos. Analisar as causas não
eliminara suas mágoas, mas, ajudara a conviver com as frustrações. Se tivessem ocorrido numa
infância tão remota que não lhe permitisse evocá-las, provavelmente, a sua angústia teria sido
maior. Sabia que a sua falta de serenidade dependeu, inclusive, de acontecimentos externos, os
quais haviam interferido nas suas relações com o seu pai. Agora, ela avaliava que o motivo do
afastamento dele fora preservar a sua vida. Concluiu que a felicidade depende, também, de
condições do ambiente, pelas quais vale a pena lutar.
*
Voltando à casa da borda da floresta, Deodéa encontrou seu pai preocupado com a demora em
obter uma solução.
-Com você, Madejar, ao menos, dialoga. Proponha a ele que nos dando as senhas para o
computador ele logo será entregue à Segurança Pública, com toda consideração e respeito aos seus
direitos. Estará mais confortável e o seu julgamento poderá resultar numa penalidade até menor do
que merece. Daqui ele nunca irá se safar. Talvez convenha adverti-lo de que alguns estão exigindo
métodos mais agressivos. - Delonel sugeriu.
-Ele saberá que não sou eu quem decide e, portanto, tudo pode acontecer.
Desta vez, Deodéa encontrou Madejar acabrunhado e de péssimo humor.
-É assim que você trata o seu amigo?
-Eu tive um amigo na infância. Quem é você, Madejar ou Mono?
-O meu verdadeiro eu ficou na criança que você conheceu. O que existiu depois foram atores de
um teatro do qual eu sou, em verdade, um espectador. Talvez, possa me reencontrar comigo mesmo
um dia.
-Não foi uma criança que nós prendemos.
-Quando você ficou presa, teve todo conforto. Vai me deixar assim, quase sem movimentos?
-Eu sou apenas um porta-voz. Se você nos der a chave para a memória do computador, será
logo entregue para ser julgado e terá mais conforto.
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-Proposta não aceita. Aprendi a não confiar em ninguém. Você talvez seja uma exceção, mas, é
apenas um porta-voz. Deixe-me falar com quem comanda.
-As decisões são do grupo que promoveu esta ação.
-Ah! É uma democracia? Então devo falar com todos juntos. Como alguém poderia decidir
apenas ouvindo contar por outrem o que eu proponho?
-Há métodos para vasculhar a sua memória.
-Também para eu sumir. Você sabe como morreu Manevan?
-Você se suicidaria?
-Por que não? Esteja certa de que eu tenho meios para isso. Depende das alternativas. Se eu não
a ver mais, saiba que não lhe quero mal. Compreendo a sua posição. Estávamos em campos
opostos. O seu time jogou melhor e venceu.
-Não vejo esta situação como um jogo. Gostaria que não houvesse vencedores nem vencidos.
Vou levar a sua proposição.
-Diga que eu quero ver a face dos meus oponentes.
Ao ouvir a narração da conversa que Deodéa teve com o prisioneiro, Delonel concordou.
-Penso que, desta vez, ele tenha razão. A nossa decisão deve ser conjunta. Vou convocar uma
reunião para ouvi-lo.
Os conspiradores estavam curiosos e, exceto Melano e Renano, compareceram à reunião.
Puseram-se em frente, encarando Madejar. Ele lhes falou com sarcasmo.
-Vejam quem está aqui: Delonel, Zefir, Damian, Nemato, Barcante, Leneu, Deodéa e Alberto.
Fico feliz em saber que, pelo menos, não fui derrotado por principiantes, nem por pessoas pouco
capazes. Com vocês ao meu lado seríamos donos do mundo.
Delonel tomou a palavra.
-Vê-se que você é um corruptor compulsivo. Nunca deixa de tentar aliciar com propostas de
grandeza. Consta-nos que aceitaria fazer um acordo.
-Eu sei reconhecer uma derrota. Vocês me vêem como uma espécie de monstro, mas, não
deveriam acreditar que eu seja pior do que outros descumpridores da lei. Apenas, tive mais
oportunidades, fui mais inteligente ou menos dissimulado e preferi viver intensamente. Nunca tive
prazer em perseguir alguém, ou pretender vingança. A minha força estava no controle da empresa
que o meu pai deixou, na captação de informações através da informática e em ter aprendido
manipular pessoas ambiciosas. Uma vez descoberto, não há como refazer a estrutura que eu havia
conseguido montar. Aceito que vocês têm razões para estar com raiva, entretanto, entregar-me à
segurança pouco mudará. Apenas dará a ela um bode para expiar a própria incompetência. Muitos
outros que se escondiam atrás de Mono continuarão agindo. Entretanto, com a senha que abre os
dados do computador central, a vossa vitória será verdadeiramente significativa. Poderão usar o
traje de realidade virtual que está na minha casa para ativar o boneco que representa Mono no seu
esconderijo. Poderão abrir os núcleos centrais produzidos pela Primol. Terão acesso a todos os
meus colaboradores voluntários e involuntários. Em contrapartida, eu só desejo viver em paz, longe
daqui. O poder pessoal é uma droga que vicia, ainda mais quando há um mundo de bajuladores
covardes ao redor, porém, eu cansei e já pensava em aposentar o Mono. Apenas peço que me
deixem ir com um veículo camuflado pela floresta e ninguém nunca mais ouvirá falar de mim.
Estou oferecendo uma boa troca. De outro modo, perderemos todos.
-O que pretenderia fazer no futuro? - Damian perguntou.
-O que eu poderia fazer sem recursos? O futuro não existe. É só uma projeção mental.
Zefir não perdeu a oportunidade para apresentar os conceitos em que baseava as suas pesquisas.
-Passado, presente e futuro são um continuum determinado pelas leis da matéria, desde o inicio
do mundo. Na minha hipótese, por exceção, o nosso corpo gera uma consciência imaterial que não
obedece o determinismo das leis da matéria e, por isso, é capaz de abranger, de uma vez, aquilo que
chamamos passado presente e futuro. As pessoas, por comodismo, pouco exercem a sua
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prerrogativa de livre-arbítrio. Reagem automaticamente aos impulsos, sem serem capazes de se
assenhorem deles e, eventualmente, contestá-los.
Medejar mostrou seu sorriso irônico.
-Então, exerçam o seu livre-arbítrio.
-Alguma outra pergunta mais? – Delonel incentivou.
Os participantes pareciam estar admirados com o discurso de Madejar. Ninguém mais desejou
se manifestar.
-Iremos conversar e lhe traremos a decisão. – Disse Delonel.
*
Reunidos em outra sala, Delonel iniciou a discussão.
-Creio que Madejar expressou a sua proposta bem claramente. Eu acrescentaria que ameaçou se
suicidar e, efetivamente, tem a possibilidade de fazê-lo. Todos nós sabemos que ele não merece ser
libertado. O que temos a decidir é o que pode ser melhor para o futuro da nossa sociedade. Eu peço
a Damian que nos diga o que descobriu.
-Eu tentei decifrar, porém, não obtive resultado. Convenci-me de que, sem as senhas, será
impossível prosseguir. Com qualquer erro arriscamos destruir tudo. É um sistema que, ainda,
ninguém descobriu como abrir sem as senhas de entrada. – Disse Damian.
Zefir pediu para falar.
-Seja qual for a decisão que tomarmos, ela não será perfeita. Aprendi a atuar conforme os
elementos que eu tenho. Precisamos levar em consideração o fato de que nós também agimos sem
o respaldo da lei. Se não incriminarmos logo Madejar, haverá mais pressão e investigações. Seria
muito ruim sermos descobertos e ter que responder por sequestro. Eu, provavelmente, teria o meu
próprio esquema clandestino exposto. Por mim, estou disposto a aceitar.
Barcante completou:
-Eu, como quase sempre, não discordo de Zefir.
-Destruir o esquema criminoso é mais importante do que punir Madejar. - Reforçou Leneu.
-Alguém tem algo a acrescentar?
Ninguém mais desejou se manifestar. Delonel comandou o processo de decisão, realizado
através de votação secreta. Venceu o sim para um acordo com Madejar, tendo um voto contrário.
-Agora surge outro problema. Para efetivar esse acordo será preciso convencê-lo a nos dar as
senhas e esperar até que as suas validades sejam confirmadas. Não podemos recebê-las e libertá-lo
na mesma hora. Será preciso que ele confie na nossa palavra de que, depois de confirmadas, nós o
iremos libertar. - Delonel continuou.
Sem saber o que dizer, os participantes se entreolharam. O caso era desanimador. Haviam
concordado que lhes convinha aceitar a proposta de Madejar, entretanto, restava esta dificuldade:
não podiam de modo algum confiar nele e estavam certos de que ele também não iria confiar.
Delonel entrou no quarto de Madejar com pouca esperança de chegar a um acordo. Informou
sobre a decisão e pediu que ele confiasse na sua palavra. O modo de falar, porém, não escondia o
seu pessimismo.
-Desejo falar com você junto com Deodéa e Alberto. – Disse Madejar.
Delonel ficou surpreso, mas, pediu para Deodéa e Alberto entrarem.
Antes de se pronunciar, Madejar fez algum suspense.
-Eu sabia que chegariam a este dilema: como uma parte poderá confiar na outra? O seu olhar de
hesitação confirma essa insegurança. Eu tenho tido tempo para refletir e não faria uma proposta
para a qual não visse solução. Como já lhes disse, eu sei que perdi. Contudo, sem ter um fim de
vida com um mínimo de conforto, prefiro me extinguir. Eu confiarei em Deodéa, se ela, perante seu
pai e Alberto, sobre cuja idoneidade eu me informei e admiro, assumir o compromisso de que serei
libertado, significando que poderei viver em liberdade longe daqui. Talvez, ela seja a única pessoa
em quem eu confiaria. Conheço-a e penso que, se não cumprir um compromisso com tanto
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significado, ela também nunca terá paz. Tenho os meus próprios critérios e acredito nos meus
julgamentos. Se eu estiver enganado e até ela falhar, não valerá mesmo a pena viver neste mundo.
Os olhos de todos se voltaram em direção à Deodéa.
-Para mim, este momento é muito grave. Representa o fim de uma grande luta envolvendo a
todos nós e que me separou dos meus pais. Não desejo o seu mal e, também, não me sinto
responsável pelo seu destino. É conseqüência do que fez. Entretanto, considerando todos os
aspectos envolvidos, houve uma votação muito séria da qual participei. O resultado que lhe
trouxemos é verdadeiro. Eu o cumprirei e jamais teria qualquer consideração por quem deixasse de
cumprir o que foi solenemente decidido. Esse é o compromisso que eu posso lhe oferecer.
-Então, está feito. Vou lhes dar os códigos do computador.
*
Damian verificou que as senhas recebidas eram válidas e liberavam informações significativas.
Imediatamente, muitos dados foram passados para a segurança e para a imprensa, permitindo que,
junto com os achados na casa de Madejar, o esquema fosse claramente desmascarado. Porém, as
implicações eram muitas e os agentes de segurança, incluindo alguns culpados, poderiam
manipulá-los, comprometendo a aferição das responsabilidades. Os conspiradores delegaram a
Delonel a tarefa de um estudo dos dados, ao invés de simplesmente liberá-los para a Segurança
Pública. O procedimento demandava tempo. As senhas dadas por Madejar haviam correspondido e
cumpria atender ao que lhe haviam prometido. Barcante aproximou-se de Deodéa.
-Não me parece que Madejar seja digno de que se cumpra com a palavra de libertá-lo. Será
mais justo entregá-lo para ser preso. Ele terá um tratamento até melhor do que merece. Entretanto,
você prometeu e é quem deve decidir.
-A decisão foi dada pelo nosso voto. Para mim, principalmente, é importante os meus amigos
saberem que, sejam quais forem as circunstâncias, poderão confiar na minha palavra.
-A humanidade ficaria melhor com Madejar preso.
-Haverá outros Monos. A humanidade só estará melhor quando cada um puder confiar sempre
nos outros.
Deleonel abraçou carinhosamente a filha.
-Os pais, também, aprendem com os filhos. Estou orgulhoso pela sua convicção.
Deodéa abraçou seu pai e chorou emocionada pelo reconhecimento tardio que dele recebia. Ele
não podia saber, mas, para sua filha, essas palavras, por fim, o redimiam.
*
Delonel, Deodea e Alberto libertaram Madejar, entregando-lhe um veículo próprio para o
deslocamento na floresta. Ele se dirigiu para Deodéa, irônico.
-Apesar de tudo, tenho que ser grato por cumprir com a sua palavra. Eu ainda tinha um trunfo,
mas, apostei comigo mesmo em você e ganhei. O mundo ainda não está perdido.
-Esteja certo de que não me agrada libertá-lo. Não creio que você entenda a razão para se
honrar um compromisso. Deve acreditar que está levando vantagem por sermos ingênuos. Delonel
interveio.
Madejar apresentou uma atitude de menos prepotência, mesmo com relação àquela que
mantinha enquanto prisioneiro.
-Não me julgue tão severamente. Toda moeda tem duas faces. Eu nunca acreditei na integridade
das pessoas, mas, a vossa atitude pode mexer com as minhas convicções. Não se sintam mal por
parecerem tolos. Ganhar sempre nada ensina. Eu fui ainda mais ingênuo ao me deixar pegar e não
me condeno. Encarem como uma guerra em que pela vantagem da troca de prisioneiros se esquece
as ofensas. Ou quando, ao fim da guerra, fica estabelecido um acordo de paz.
Dito isso, acomodou-se na direção do veículo.
Deodéa adiantou-se.
-Há um pedido de prisão contra você. Está certo de que conseguirá fugir?
Madejar sorriu e abanou.
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-Não se preocupe. Ainda me restam alguns recursos. Estou tão certo disso como sei que o
destino de um botão de rosa é se abrir.
O veículo partiu com grande velocidade para o interior da floresta.
-Ele maneja bem. Agora, meu pai, está na hora de irmos para a sua casa. – Disse Deodéa,
demonstrando grande satisfação.
*
No mesmo dia, Delonel percorreu silenciosamente todos os quartos e jardins da casa com
grande emoção. Abraçou fortemente Deodéa, deixando transparecer na sua fisionomia uma mistura
de riso e choro. Depois, sentou-se com ela e Madra na varanda, apreciando o cair da tarde. Deodéa
se lembrou dos crepúsculos que acompanhara com melancolia. Percebia tudo estar mudado.
Carinhosamente, dirigiu-se ao pai, abraçando-o.
-Não existem mais motivos para que vocês não morem aqui definitivamente.
-Sua mãe, também, precisa se desligar dos seus compromissos. Assim que eu acabar meu
trabalho aqui, iremos encerrar nossas obrigações lá fora. Depois, ficaremos morando aqui.
-O seu interesse pelo esoterismo é real ou foi uma cobertura para as atividades conspiratórias? Madra perguntou.
-No começo foi um despiste. Entretanto, eu pude verificar que há muito para se descobrir nesta
área. Pretendo deixar observações úteis para que outros interessados prossigam com os estudos.
-O seu trabalho aqui ainda irá demorar em se resolver?
-Embora tenha sido entregue apenas parte do conteúdo do computador central de Mono, a
Segurança Pública já apontou muitos criminosos. Desejamos expor quem deva ser punido, porém,
proteger da maledicência quem foi, principalmente, vítima. Existem grandes culpados, outros
apenas fracos, alguns ingênuos e diversos não tiveram opção. Infelizmente, as culpas dos elementos
mais importantes carecem de comprovações. Damian verificou faltar uma senha que,
possivelmente, daria acesso a documentos catalogados como tratando sobre o nível mais elevado
do esquema e que seriam necessários para as ações legais contra essas pessoas. Ele não sabe se
Madejar reteve a senha propositadamente. Sem esses documentos, embora a base do esquema
criminoso tenha sido desmascarada, com o tempo, poderá se refazer.
-Eu convidei Leneu, Alberto e Damian para jantarem conosco. Será uma reunião íntima para
comemorar. Convidei também o Tacialmo, mas, ele prefere vê-lo em particular outro dia. – Deodéa
comunicou.
-Tacialmo é um grande amigo. Ele sabe que pode ser mais útil ficando afastado de qualquer
grupo que, ao público, pareça uma facção.
-Além daqueles que compareceram às reuniões, quantos colaboradores existem? - Madra
insistiu.
-Nem sei. Muitos participaram em confiança, sem conhecer exatamente o que nós faríamos.
-O grupo será mantido?
-Já está desfeito. A amizade continua, porém, encerramos as atividades ilegais ao concluir a
ação contra Madejar. Elas foram utilizadas numa situação extrema. Sem ter objetivo específico, um
grupo clandestino acaba se voltando para vantagens pessoais a custa de perdas para alguns e
prejuízos para todos. Apenas eu e Damian continuamos com o caso, até concluir a avaliação dos
nomes encontrados no computador central. Surgiram dificuldades porque verificamos que faltou a
Madejar nos dar uma última senha. Todavia, por enquanto, nada se pode fazer.
-O vosso grupo sempre teria o que realizar.
-Não com este tipo de organização. Acabaria tendo que inventar inimigos para sustentar a
coesão. Há muito para ser construído, mas, agora devemos trabalhar com partidos e organizações
abertas a críticas e sansões. Eu gostaria de reunir pessoas para a realização de empreendimentos
produtivos.
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Deodéa foi surpreendida com a chegada da sua mãe, a qual abraçou.
-Não foi fácil chegar a tempo. Tive que abandonar alguns compromissos. - Florena falou.
-Espero que, agora que o perigo passou, você, também, permaneça aqui.
-Pretendemos ficar definitivamente, mas, antes, terei que concluir algumas providências.
-Florena tinha uma importante missão no nosso plano. Do mesmo modo que era essencial você
manter os contatos políticos aqui, ela fez isso em nível internacional. Os contatos tinham que ser
muito cuidadosos porque desconhecíamos os inimigos ocultos. Qualquer motivo de desconfiança
poderia provocar uma reação contra o nosso grupo. Ela, também, precisava ficar afastada de você.
Um diálogo maior seria interpretado como facilitador de comunicação secreta e indício da
possibilidade de um complô. O bom resultado que obtivemos nos faz esquecer os riscos
envolvidos, mas, um pequeno erro teria posto tudo a perder. - Interveio Delonel.
-Eu sei dos riscos, mas, agora, é preciso relaxar e desfrutar. – Disse Deodéa.
-Temos muito que conversar, mas, vai ter que esperar. Eu só vim porque não podia deixar de
aproveitar este momento para te abraçar. - Disse Florena.
O almoço transcorreu descontraído, rememorando a operação. Ao fim, foram para uma sala de
estar.
Vamos ver as notícias? - Delonel propôs.
Ao seu pedido, apareceram imagens dos últimos acontecimentos. Mostravam que as
investigações, apoiadas pela Segurança Internacional, conduziram a várias prisões. Inclusive de
agentes locais como Cliolan, conhecido de Alberto. Eles preferiam ficar com os méritos e nada
transpirou sobre a ação e as informações dos conspiradores da Restauração.
-Isso é bom. De outra forma, teríamos que dar muitas explicações. - Delonel comentou.
Em seguida, tiveram sua atenção voltada para a notícia da explosão de um veículo na floresta.
O calor fora tão forte que quase tudo se havia volatilizado.
Deodéa se apressou em pedir mais informações. Segundo souberam, o exame de alguns restos
de tecido humano confirmava se tratar de Madejar.
-Sendo assim, alguém deve ter preparado o veículo para fazê-lo explodir, eliminando Madejar
para sempre.- Delonel concluiu.
Deodéa ficou visivelmente chocada.
-Alguém do grupo não respeitou a decisão coletiva. Quem teria sido o traidor?
-Provavelmente, o mesmo que votou secretamente contra a sua libertação. Também, poderia ser
alguém que, embora tendo se manifestado favoravelmente à soltura, mudou de idéia. Eu prefiro não
conjeturar.
-Quando serão substituídos os núcleos centrais alterados. - Madra perguntou.
-Os núcleos centrais dos bonecos-companhia serão trocados aos poucos. Apenas, quando os
bonecos-companhia receberem a sua manutenção periódica. Sem estímulo externo, a função de
espionagem fica anulada. Já podemos conversar sem medo. Respondeu Damian.
*
Apesar de não ter motivo para desgosto, Leneu chegou à casa de Alberto demonstrando estar
em um dos seus dias de depressão:
-O divertimento terminou. Com Mono morto acabou-se a caçada. Espero que você, como
todos, esteja feliz.
-Você não considera isso um grande benefício?
-Certamente, para nossos amigos Delonel, Deodéa e muitos outros. Para mim, pessoalmente,
nada mudou. O filme terminou, mas, continuam os mistérios da vida. Desculpe-me se estou
melancólico, não dormi bem esta noite.
-Não gostou da solução dada para o caso?
-Faltou pegar os peixes grandes. Mas, esse mal do mundo é histórico.
-Você acredita que a causa dos crimes atuais tenha origem antes das catástrofes?
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-O comportamento humano não se construiu a partir do Armagedon. Nem mesmo em
sociedades tão remotas como as do antigo Egito. As informações históricas nos dão conta de que os
primeiros grupos humanos se agregaram a partir de crenças no poder místico dos antepassados. Os
grupos só lograram unir suas crenças e dar origem às primeiras tribos para se sobrepor à escassez e
a outros. No mundo atual, chegamos a um estágio em que poderíamos viver sem escassez, porém,
as pessoas se viciaram em atividades virtuais. Estão impossibilitadas de chegar a idéias
convergentes sem o uso dos meios eletrônicos e, portanto, permanecem dependentes da mídia. Fica
fácil serem manobrados por poucos expertos. Todavia, a razão do meu constrangimento é de
natureza transcendental. Eu não sinto nenhuma razão para a minha existência.
-Não sei o que dizer. Você tentou procedimentos espirituais?
-Naturalmente, quem não tenta?
-A que conclusão chegou?
-Apesar do meu interesse, pouco avancei. O mundo não deve se restringir ao que podemos
palpar, porém, o que vai além fica por conta da crença de cada um. Nada adianta arrazoar, se não
temos como experimentar. A minha conclusão é desanimadora. Desculpe mais uma vez. Eu o estou
incomodando com pensamentos negativistas.
-Com o sucesso obtido, nada pode abater o meu astral. Você deveria se fixar mais no que é
positivo. Deodéa convidou para ir até a casa dela. Você não quer ir junto comigo?
-Não estou com disposição para comemorações. Fica para outro dia.
*
Apesar de estar satisfeita pelo resultado da ação, Deodéa era assaltada, também, por uma
estranha tristeza, a qual nunca ousaria confessar. Torcera para que Madejar conseguisse fugir. Ele
lhe havia dito tê-la como uma irmã. Ela se dava conta de que nas profundezas da sua memória ele
ficara como o irmão que gostaria de ter tido. No jardim da escola, brincavam de adivinhar quais
botões de rosa estariam abertos no dia seguinte e diziam que as gotas de orvalho eram lágrimas. A
recordação que guardava dele era a de um menino tímido e carente que chorou por não continuar
na aula em que ela estava. Essa lembrança era mais forte do que tudo que odiara em Mono.
Pela manhã, vendo a relação das mensagens emitidas no dia para ela, Deodéa ficou curiosa com
uma que se assinava: Mais uma vez, obrigado. Ela pediu para ver e em sua frente surgiram os oito
dígitos de uma senha seguidos da imagem de um botão de rosa se abrindo. Da flor caiu uma gota
que brilhou ao sol, como se fora de orvalho. Ou, como uma lágrima.
Deodéa não contou a ninguém a conclusão a que chegou, mas, dirigiu-se ao seu pai.
-Estive recordando a conversa que tive com Madejar e lembrei que, em determinada ocasião,
ele me segredou uma senha e disse que, talvez, ela viesse a ser útil. Não valeria a pena tentar
utilizá-la no computador central de Mono?
-Damian me disse que nada será possível obter do computador, além do que já conseguimos,
sem a senha. Vou falar com ele. Se ele asseverar que nada se irá perder provocando destruição do
que resta, vale a pena tentar.
Delonel confabulou com Damian. Não havia nenhuma chance de obter novos dados. Então,
com pouca esperança de sucesso, ele concordou em fazer uma tentativa. Com a senha dada por
Deodéa, para surpresa deles, abriu-se imediatamente todo o restante da memória, expondo as
informações que faltavam. Examinaram cuidadosamente os dados encontrados.
-Parabéns pela sua lembrança. Se naquele momento uma informação assim me houvesse sido
dada, eu nunca teria tomado em consideração e nem guardado na memória. Os dados que
encontramos permitem encontrar elementos para incriminar toda a cúpula do esquema de Mono.
São pessoas importantes, mas, não terão como resistir. Exclamou Delonel cheio de entusiasmo para
Deodéa.
A imagem da rosa voltou diversas vezes à mente de Deodéa, entretanto, não iria revelar para
ninguém o que a mensagem significava para ela. Agora, estava aliviada e, ainda que não admitisse
o motivo, nem para si mesma, com uma sensação de serenidade.
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21 - MOMENTO DE PAZ
Atendendo ao convite, Alberto foi à casa de Deodéa, encontrando-a bem-disposta.
-Desejo agradecer o apoio que você nos deu. A sua casa na borda da floresta, pela localização,
foi fundamental no desenvolvimento da nossa ação.
-O interesse, também, era meu. Sobrou um grande aprendizado sobre o mundo atual. Lutar é
próprio da natureza, mas, o tempo dá a tudo uma dimensão diferente.
-Parece que, enfim, teremos paz. Eu vou transferir quase todos os meus compromissos políticos
para o meu pai. Gostaria de viajar e ter contato com pessoas que conheço apenas à distância. Você
gosta de viajar?
-Viajar é bom, embora, hoje seja possível fazer quase tudo virtualmente, ou, alugando o corpo
de um boneco em qualquer lugar do mundo.
-Temos acesso virtual a tudo, menos ao que as pessoas não desejam mostrar e isso não é pouco.
Elas escondem a sua realidade dos desconhecidos, temendo a impertinência. Apresentam apenas
encenações de acordo com os conceitos formais. As verdadeiras identidades só se revelam quando
se tem contato direto. Para conhecer as idéias que circulam fora das fachadas de rotina, é necessário
buscar o convívio direto. É isso o que me atrai.
-Eu nem saberia dizer qual é a minha verdadeira identidade. Ainda sou visto como o homem do
gelo. Entretanto, os vínculos com a minha antiga família vão se apagando. A vida pregressa vai se
distanciando e, atualmente, é ela que me parece quase um sonho. A minha realidade tornou-se o
tempo presente. Pensei que isso nunca iria acontecer. No início, sentia-me perdido, sem vínculos e
desejei, até, morrer. A serenidade que agora encontrei eu a devo, sobretudo, a você. - Alberto falou,
com voz emocionada.
-Acredito que deva imputá-la à fortaleza do seu próprio espírito.
-Dou-me conta de que você me conhece bem mais do que eu conheço o seu pensamento e,
principalmente, os seus sentimentos.
-Eu mesma, talvez, conheça pouco sobre mim. Ocupei meu tempo e fugi à introspecção.
Porém, estou me propondo a mudar. Minha família há muito tempo participa da vida política. A
tradição diz que temos laços com os organizadores das primeiras comunidades formadas após as
catástrofes. Não se pode saber com certeza, pois, houve um longo tempo sem registros. Meus pais
formam um dos poucos casais que eu conheço sempre vivendo juntos. Herdei certo desgosto pela
insensibilidade das pessoas, umas com as outras. Acredito que houve época na história em que os
sentimentos e a lealdade foram mais valorizados. Tenho procurado me aproximar de quem deseja
formar um ambiente com mais empatia. O naturismo é um dos meios. Os resultados, até agora,
foram modestos, porém, é o que eu pude conseguir.
-Os seus pensamentos formam uma doutrina bem elaborada. Você os desenvolveu sozinha?
-Há um grupo de estudos do qual eu participo. Foi iniciado pelos meus pais, influenciados por
nosso guru, o Tacialmo.
-Todas suas posições foram influenciadas pelos seus pais?
-Apenas em parte. Eu, até, os havia rejeitado. Pensei que a falsidade dos pretensos amigos
houvesse deixado meu pai desesperançado a ponto de abandonar a luta e eu o recriminava por isso.
Agora, pude ver que fez o que lhe pareceu melhor para me proteger. Estou aprendendo que é difícil
corrigir as mágoas, mesmo quando a nossa razão nos diga que não são justificadas. Creio que a
parte mais importante das minhas convicções veio do estudo da história.
Alberto se percebia cada vez mais atraído por Deodéa, porém, ainda inseguro sobre como agir.
Se dissesse que a amava, pareceria uma coisa descabida?
-Embora você tenha mudado de idéia, eu não esqueço a proposta para termos um filho. Se
mudar de opinião novamente, poderíamos conversar sobre isso. – Disse Alberto.
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-Os meus sentimentos são favoráveis, mas, eu não gostaria de criar, por impulso, uma situação
que resultasse inadequada.
-Por que seria inadequada? Alguém se opõe? – Perguntou Alberto.
-Os meus pais apoiarão qualquer decisão minha nesse sentido, assim como Leneu e Madra. O
caso é que você apontou, com muita razão, a sua dificuldade para adaptar-se aos costumes atuais e,
conseqüentemente, existe possibilidade de insatisfação. Eu não posso viver fora deste mundo.
-Sei que há algum risco de insucesso. Porém, convenci-me de que as perspectiva favoráveis são
maiores.
-Eu fiquei demasiadamente sensível e temerosa em questões emocionais. Talvez, porque sofri
muito com o afastamento dos meus pais. Agora, eu me sinto mais segura.
Alberto tomou a mão de Deodéa.
-O que me importa saber é se ainda gostaria de ter um filho comigo.
-Apesar de minha proposição ter sido precipitada, ela foi fruto de um pensamento amadurecido.
Depois, surgiram outras percepções. O ambiente melhorou, o que torna mais fácil superar os
temores. Tacialmo sempre me ajudou a tomar as melhores decisões. Você estaria disposto a vir
comigo visitá-lo novamente?
-Quando você quiser. Eu tenho grande prazer em conversar com ele.
-Vou fazer contato. Quando ele puder nos receber, iremos até lá.
*
Ao chegarem à casa de Tacialmo, o guru os recebeu, como sempre, gentilmente:
-Tenho grande prazer em recebê-los pessoalmente e cumprimentá-la, mais uma vez, por vossa
grande vitória.
-Foi uma vitória, sobretudo, do meu pai. Eu sei que você sempre foi um grande apoio para ele.
-Sempre fui um amigo. Meus cumprimentos, também, ao Alberto. É verdade que você se
interessa por filosofia?
-Atualmente, aprecio mais. Talvez porque aborda questões perenes, com questões que já
existiam na minha época anterior. Fico mais à vontade falando sobre conceitos gerais do que
quando provocado para emitir opinião sobre os costumes atuais. Neste mundo eu sou a exceção e
só me cabe aceitar o que existe.
Continuaram conversando por algum tempo, tratando, principalmente, sobre Mono e o mal.
Tacialmo discorreu sobre a necessidade da imperfeição no mundo para que exista poder de escolha,
o qual seria impossível num mundo perfeito. Alberto manifestou a sua concordância e preferiu
passar para um assunto mais prático.
-Observei que as leis internacionais interferem bastante na vida local. Poderia nos falar alguma
coisa sobre o papel da Organização Internacional?
-Eu sou Conselheiro Internacional do Estado do Sudoeste. A minha designação atual é para a
Comissão de Cultura. É um organismo importante porque dele saem muitas sugestões para a
elaboração e votação de leis. As bases da Legislação Internacional são antigas. Seu fundamento
maior é a prevenção contra guerras. A maioria dos seus regulamentos se refere à legitimidade e
transparência dos governos, aos limites obrigatórios para os computadores, incluindo os de
bonecos-companhia, à fabricação e distribuição de armamentos e outras questões que interessam a
todas as nações. A Organização Internacional possui agências executivas. As mais importantes são
a de fiscalização e a que detém, com exclusividade, o armamento pesado.
-Como é a lei sobre os computadores?
É bastante detalhada, limitando, inclusive, o poder de decisão dos estados nacionais.
Fundamentalmente, ela visa que os computadores nos sirvam, sem risco de que nos comandem.
-O controle internacional é efetivo?
-A Organização Internacional só atua dentro dos regulamentos aprovados pelo conjunto dos
estados membros, porém, tem uma estrutura de poder independente, capaz de intervir e fazer
cumprir esses regulamentos em qualquer lugar.
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-Há muita discussão sobre estar ou não estar mais próximo à natureza. Parece-me
desproporcional a importância que é dada a esse desacordo. Qual é a posição da Organização
Internacional a esse respeito?
-Após as grandes catástrofes, alguns núcleos humanos remanescentes foram se aproximando e
se criou a Organização Internacional. Como os bens naturais são limitados e esgotáveis, a solução
seria criá-los artificialmente. Os líderes tiveram a visão de um mundo sem escassez onde os
impulsos humanos seriam atendidos por produtos virtuais. A legislação criada favoreceu as
pesquisas dirigidas para esses objetivos.
-Há quem diga que a legislação inibe o progresso em muitas áreas por interesses sectários,
inclusive, com relação a uma vida mais natural.
-A oposição alega que o Conselho não acompanha a nova realidade. Eu creio que a maioria das
pessoas ainda seja conservadora. Sem contar, evidentemente, o desejo de manutenção de poder de
alguns dirigentes. A orientação do Conselho Internacional a esse respeito já está mais branda, mas,
a evolução tende a ser lenta. De qualquer modo, há grande liberdade para os estados membros. Em
alguns, como o nosso, os debates atuais sobre o assunto tem originado muita controvérsia e,
provavelmente, acabarão por provocar mudanças.
-Qual é a esperança de que esses desacordos cheguem a um bom termo?
-Não sei responder. Em quase toda a história humana, sempre houve disputas. Porém, há
momentos de paz e os bem intencionados conseguem prolongá-los. Agora, talvez, isso aconteça.
-Qual tem sido a sua posição pessoal?
-Alguém, mesmo refreando as suas próprias opiniões, tem que fazer o papel de mediador. Para
mim, talvez pela idade, coube-me essa posição. Eu expressamente a admito. Sei que não satisfaço
inteiramente nenhuma das partes. Todavia, até agora, parecem concordar com que eu seja mais útil
ficando fora das políticas sectárias.
-O Tacialmo é muito modesto quanto à sua contribuição. - Deodéa interveio.
-Eu me pergunto se não deveria ter contribuído mais. Desejo parabenizar o Alberto por
demonstrar real interesse pelas coisas atuais e fazer perguntas tão pertinentes. – Disse Tacialmo.
Para Deodéa, a opinião de Tacialmo sobre Alberto era importante. Ela não pretendia assumir
um compromisso tão sério apenas sentimentalmente. O julgamento do guru faria parte da avaliação
dela sobre Alberto ser um bom pai. Quando desejava algo, Deodéa costumava ir diretamente ao
assunto. Pediu licença para abordar uma questão pessoal.
-Convidei Alberto para ter um filho comigo. Depois, fiquei receosa de ter sido precipitada e
considerei que, por diversos motivos, podia não dar certo. Ele tem manifestado disposição para
aceitar, mas, não me parece, ainda, estar seguro. O que o senhor nos diria a esse respeito?
-Creio que seja uma questão apenas pessoal. Se for do gosto de ambos, por que não?
-Vou tentar dizer como me sinto. Ainda estou pouco familiarizado com o comportamento das
pessoas. A minha vida, desde que acordei neste mundo, tem sido tumultuada, inclusive, por
motivos que se deveram à minha atuação. Não tenho dificuldade para tomar decisões conforme o
meu discernimento quando os riscos são apenas para mim, mas, tenho dificuldade para agir em
circunstâncias que afetam outras pessoas. Encontrei algum rumo com Leneu e, depois, com
Deodéa. Eu gosto dela, mas, temo que, havendo maior convivência, ela acabe incomodada com a
minha insegurança e isso resulte em prejuízo para o nosso relacionamento. - Alberto interferiu.
-Deodéa tem maturidade, sabe avaliar as pessoas e conhece bem o mundo em que vive. Se ela
convida é porque está disposta a enfrentar os possíveis inconvenientes. O importante é que haja um
diálogo muito franco e que, se para uma parte algo não for satisfatório, a outra parte aceite a
decisão sem mágoas. A autorização para a concepção de um filho, às vezes, demora e não há
obrigação de sua utilização imediata após ser emitida e pode haver desistência. Vocês poderiam
fazer um teste de convivência antes de tomar a decisão definitiva.
-Estando de acordo, o que preciso fazer? Assinar alguma coisa? – Perguntou Alberto.
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-Não se usa mais isso. Basta uma declaração definitiva. As pessoas confiam nas afirmações de
compromisso porque, se houver alguma contradição, é expedido judicialmente um pedido de
exame do trecho específico da gravação. Basta uma manifestação inequívoca. Após a confirmação,
os procedimentos demoram em serem autorizados. Não gostaria de vir morar logo comigo?
Perguntou Deodéa.
-Uma vez que haverá demora, prefiro um tempo para assimilar a responsabilidade.
-A exigência legal para morarmos juntos se dá a partir do nascimento do filho. Se concordar e
decidir vir, não deixe de trazer consigo a Mari.
Alberto ficou pensativo sobre essas palavras. Significariam que ela não desejava manter com
ele maior contato? Deodéa adivinhou seu pensamento.
-Eu apenas quero dizer que a liberdade desejada e a companhia dela não devem ser obstáculos
para a sua mudança. Você teria todo arbítrio para levar uma vida tão independente quanto
desejasse, inclusive, conservar sua casa e voltar lá quantas vezes quisesse. A minha expectativa é
de que a autorização não demoraria muito.
-Se você está segura, pode encaminhar o pedido. A lei obriga haver um convívio de, no
mínimo, quinze anos após o nascimento e eu não pretenderia agir de modo diferente. Obtendo a
autorização, irei morar em sua casa e faríamos um teste, morarmos juntos por algum tempo antes
dos procedimentos para concepção.
-Poderia mudar até antes, mas, está bem assim. Posso considerar a sua resposta como um sim?
-Sim. Se você está de acordo, eu também estou. – Disse Alberto.
Tacialmo abriu os braços, com um gesto amplo.
-Quando ficar confirmada a autorização, eu vou querer oficiar uma cerimônia.
*
Enquanto eram transportados de volta, Deodéa convidou Alberto para jantar em sua casa.
-Você acredita que todo o perigo passou? – Perguntou Alberto.
-Com relação à segurança imediata, creio que podemos estar tranqüilos. O desafio, agora, é
fazer com que isso se traduza num avanço político. Trava-se uma batalha decisiva no Conselho do
Estado. Se tudo ficar apenas como um acontecimento policial, conforme a pretendem alguns, não
existirá progresso significativo para a sociedade. Continuarão as mesmas leis restritivas originadas
em condições já superadas.
-As questões políticas são muito importantes para você?
-A minha família sempre esteve envolvida com a política. O meu pai se afastou daqui após um
atentado, injunções políticas e ameaças. Ele pretendeu me proteger. O governo atual se organizou
com base em interesses de pessoas desonestas. Existe a possibilidade de mudar tudo isso e eu estou
posta no meio desta controvérsia.
Chegando à casa de Deodéa, logo que eles entraram, o boneco-companhia Artur informou
haver um pedido de comunicação endereçado a Deodéa para ser transmitido a Alberto. Ela ficou
em dúvida se deveria atender, porém, a curiosidade foi maior. Poucos poderiam saber que eles
estavam juntos. Decidiram que, se não atendessem, permaneceriam curiosos sobre o conteúdo.
Com a indicação de ser uma gravação, a imagem de uma pessoa desconhecida transmitiu a seguinte
mensagem: Fui imbuído de comunicar que os últimos acontecimentos estão em perfeito acordo
com o sugerido pela resenha encontrada. Nosso trabalho ficou confirmado. Parabéns.
Alberto teve uma expressão de contentamento.
-Você sabe do que se trata? – Intrigada, Deodéa perguntou.
-Não estou bem certo, mas, deve ser sobre o achado de um documento antigo que eu pedi para
Zefir verificar. Se você fizer muita questão eu lhe explico tudo demoradamente. Em caso contrário,
preferiria deixar para falar mais adiante.
Deodéa pareceu suspeitar sobre o que poderia se tratar e preferiu não insistir.
-Pode deixar para outra ocasião. Vamos ver as notícias.
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O comunicador mostrava imagens e detalhava a repercussão dos últimos acontecimentos. Havia
manifestações, protestos e prisões. Seguiam-se pronunciamentos de próceres nacionais e
internacionais. As votações públicas determinaram mudanças na composição do Conselho se
previa uma mudança no governo. Outra notícia dizia que os propugnadores do naturismo estavam
mobilizados e, possivelmente, obteriam algumas decisões favoráveis.
-Para você, o naturismo é de vital importância?
-É um canal para expressões mais amplas. O Movimento estimula discussões aprofundadas
sobre questões ideológicas que influenciam todos os aspectos da vida pública. Teoricamente, existe
liberdade de expressão, mas, os debates políticos devem ocorrer somente através de canais
destinados especificamente para isso. Esses canais têm fama de serem pouco interessantes e obtém
reduzido acesso. As pessoas estão condicionadas a temer mudanças. Para conseguir a atenção do
público é preciso haver um choque contra o conformismo. As contestações feitas pelo nosso
Movimento têm, também, essa função.
-Se a maioria está satisfeita, por que mudar?
-Não estão felizes, apenas acomodados, com um temor artificialmente impingido de que
qualquer perturbação do “status quo” possa conduzir à destruição. Entretanto, quem vê o que
acontece nos bastidores não pode se conformar. As mudanças que propomos são sabotadas com o
pretexto de que o naturismo é subversivo. Se os mais lúcidos não tomam a iniciativa, dão espaço
para os demagogos mal intencionados.
-O que, especificamente, você desejaria mudar?
-Nada muito radical. São mudanças pontuais muito bem estudadas. Eu gostaria que as coisas
públicas fossem conduzidas com transparência e houvesse menos sectarismo. Há bastante tempo, o
poder se concentra nas mãos de pessoas que decidem tudo conforme o seu próprio interesse. As
decisões não são tomadas às claras, prosperando o tráfico de influência para vantagens pessoais e
de grupos ilegítimas. Nem todos ligados ao governo têm má vontade, porém, será necessário iniciar
um caminho com novos padrões para relações mais sadias com a sociedade.
-Então, o ideário do naturismo parece ser maior do que simplesmente curtir a natureza.
-As circunstâncias ampliaram os objetivos. Originalmente, apenas se pretendia oferecer uma
alternativa ao aumento avassalador da atividade virtual com a finalidade de reduzir o
individualismo. Conhecer à distância não cria verdadeira comunidade. Viver na virtualidade torna
as pessoas desaparelhadas para as contradições e os riscos próprios da vida real. É cômodo viver na
virtualidade, mas, a outra face da moeda é um progressivo alheamento a tudo o mais. O mundo
virtual não cobra nem comprometimento nem lealdade, são apenas jogos. As pessoas nele inseridas
desde crianças não aprendem a lidar com os nuances e o tempo de maturação da realidade. As
drogas combatem a depressão e mascaram as verdadeiras causas da frustração. Em resumo, o
objetivo básico do naturismo é promover um encontro mais direto e fraterno entre as pessoas.
-Se a ameaça de desabastecimento não procede, quais são os argumentos da oposição ao
naturismo?
-Para quem não quer mexer em nada, o fortalecimento da virtualidade é útil e se tornou um
tabu. Há muita atividade produtiva dependente dela. Também, alega-se que movimentos de jovens,
antes das catástrofes, desviando-se dos seus propósitos, tornaram-se radicais e violentos.
-As circunstâncias eram outras, mas, já aconteceu.
-O nosso movimento conhece a história e está prevenido contra os excessos. Não desejamos
destruir aquilo de bom que foi feito até aqui, apenas, avançar e superar comportamentos já sem
razão de ser.
-Eu espero que você concorde com que a minha compreensão sobre a política atual é limitada e
não seria prudente eu aceitar a sugestão para me candidatar a um cargo político.
-Com boa vontade e dedicação, logo aprenderia, mas, teria que ser um desejo seu.
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Eles ainda conversavam sobre as implicações do não reconhecimento do naturismo, quando
Artur avisou sobre um pedido de comunicação urgente do Conselheiro Capriano. Alberto
perguntou a Deodéa se desejava que se afastasse. Ela quis que ele permanecesse:
-Esse é dos nossos. É bom que você tome conhecimento sobre a minha atividade política.
À frente deles apresentou-se, ladeado por outros, um cidadão com cinto preto. Alberto lembrou
tê-lo conhecido na festa de Deodéa. Havia a indicação de ser uma transmissão ao vivo.
-Olá Deodéa. Tenho a satisfação de lhe comunicar que o escândalo ocasionado pelo
desnudamento do esquema de Madejar com identificação dos culpados por vários crimes nos
favoreceu enormemente. Nestas circunstâncias, logramos negociar e obter aprovação da lei sobre o
naturismo. A atividade foi reconhecida e deverão ser designados locais próprios para os seus
encontros. As votações do público nos apoiaram, provocando uma virada política mais rápida do
que nós mesmos esperávamos. Estamos confabulando e há possibilidade de que o nosso grupo
assuma o governo. Desculpe-me a pressa. Eu tenho que lidar com compromissos urgentes.
Oportunamente, darei maiores detalhes. Até a vista.
Deodéa deu salto de alegria e abraçou Alberto.
-Conseguimos! Este é um momento histórico. Foi quebrado um paradigma de imobilismo
acumpliciado com a corrupção. Essa vitória dá esperanças à abertura de portas para um tempo de
grande avanço humanista.
*
No avarandado em frente à casa, Artur perguntou prestimosamente se desejavam alguma coisa.
Foi-lhe ordenado servir uma bebida comemorativa e preparar um jantar muito especial. Passados
alguns momentos de extravasamento da euforia, Alberto e Deodéa ficaram abraçados. O cãozinho
bobô permanecia deitado ao lado e, no jardim, os cervos pastavam mansamente.
-Você costuma jantar sozinha ou Artur lhe faz companhia?
-Quando Madra não está aqui e eu estou com pouca pressa, peço para ele me acompanhar.
Quando eu tenho visitas, ele fica afastado. Os bonecos-companhia não têm melindres. Se você
preferir, Mari poderá jantar conosco. Ela é boa para animar uma conversa.
-Ainda não me acostumei a ver os bonecos-companhia como máquinas, mas, já não os estou
tratando como pessoas naturais. Ainda estou confuso com tantas mudanças e tento colocar minhas
idéias em ordem. Porém, sempre tenho prazer em ouvi-la. Esta foi a primeira vez em que pensou
ter um filho?
-Pensar, eu já pensei muitas vezes. Sou um pouco exigente e os rumos que dei à minha vida não
me permitiram tratar disso mais efetivamente.
-O que a fez mudar de posição?
-Cheguei à conclusão de que nunca teremos um mundo perfeito e, apesar de tudo, precisamos
viver. Um estímulo foi encontrá-lo. Você me cativou, principalmente pela transparência de
sentimentos e, sobretudo, pela lealdade que ainda demonstra para com os seus familiares, embora
sabendo que nunca mais os verá.
-A saudade irá permanecer, todavia, já penso menos neles. Eu me sinto atraído por você. Na
minha vida anterior eu poderia falar o que sinto sem temer parecer sentimental demais. Aqui, eu
encontro dificuldade para me expressar como gostaria.
Deodéa sorriu parecendo agradecida.
-Como você já pôde observar, algumas coisas nunca mudam. O que pretende fazer?
-Devo me considerar alguém de sorte. Deveria estar morto, mas, extraordinariamente,
sobrevivi. Há pouco tempo, sentia-me desamparado e agora me sinto bem. Eu já me posso ver
obtendo a licença para ter um filho e morando aqui. Depois, imagino que você terá pouco tempo
disponível para ficar comigo. As minhas entrevistas, naturalmente, irão diminuir. Eu precisarei me
dedicar a algum trabalho e estudar. Gostaria de continuar a manter contatos com Leneu, Tacialmo e
outros que conheci. Mais adiante, haverá o filho para cuidar. O que pensa dessa programação?
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-Está correta, mas, só em parte. Não irei deixá-lo muito tempo sozinho e prevejo que, pela sua
disposição para aceitar desafios muitas outras atividades irão surgir.
-Estive conjeturando sobre em que empregar os valores que recebi. Eles são muito superiores
ao necessário para o meu uso. Então, devo empregá-los em benefício de algo que eu julgue
importante. Pensei em criar um instituto para estudos especializados. Há muitas entidades
dedicadas ao estudo da história, mas, pesquisei e não encontrei nenhuma que se dirija
especificamente a estudar quais foram as atitudes humanas preponderantes para acontecerem as
catástrofes. Recebo freqüentemente perguntas sobre isso, entretanto, as pessoas parecem temer se
aprofundar nessa pesquisa.
-Ou, preferem que isso não se esclareça. Sua idéia é muito boa e eu penso que possa ser
ampliada. Há muitas áreas a pesquisar relativas ao comportamento humano anterior às catástrofes.
Eu teria grande prazer em ajudar na organização dessa instituição.
-Isso é mais do que um estímulo. O que importa mesmo é que, por sua causa, estou me sentindo
cada vez mais integrado neste novo mundo.
*
Entrando na casa, na sala de jantar uma mesa elegantemente adornada os aguardava. Alberto e
Deodéa sentaram e foram servidos com pratos preparados de uma forma que Alberto desconhecia.
Deodéa disse ser um dia especial. Encomendara uma apresentação em estilo antigo com alguns
temperos peculiares. A refeição foi acompanhada de um excelente vinho, seguindo-se a sobremesa.
Em seguida, foram para outra sala onde Artur os serviu licor e café. A luz era suave e, ao fundo,
ouvia-se musica suave.
-Eu ainda não havia encontrado tanto requinte neste novo mundo.
Deodéa sorriu agradecida. A sua voz de tinha aquele tom que se chama aveludado:
-Nem tudo, atualmente, é ruim. Há tempo eu desejo perguntar: Quando fomos seqüestrados, por
que não continuou correndo quando eu caí? Sabia que era a você que eles procuravam.
A memória de Alberto se voltou para aquele momento. Ele pensou, antes de responder:
-No momento não pensei muito, mas, se me pegassem, isso seria ruim para a vossa causa. Ela
tinha a mim como um elemento importante. Entretanto, embora o meu sentimento seja favorável a
uma vida mais natural, fui sincero quando falei não me julgar capaz de apontar o que seria melhor
para o mundo atual. Para mim, você era mais importante do que a vossa causa.
Deodéa não desejou aprofundar a discussão. Aceitou o cumprimento e sorriu.
-Eu tenho muitas causas a que me dedico. Agora, a principal é você.
Ela se aproximou, encostou o rosto, beijou-o e foi correspondida. Pediram música adequada
para dançar e se dirigiram ao quarto. Foi um encontro extremamente feliz. Enquanto ainda estavam
abraçados, ele disse ter certeza de amá-la. Ela sorriu e chorou. Alberto perguntou o que seu pranto
significava.
-A proposta que lhe fiz para ter um filho foi um ato normal, dentro dos costumes do nosso
tempo. Entretanto, fiquei arrependida, com medo de me haver precipitado. Deveria ter esperado
você se adaptar mais, conhecer outras mulheres e ter novas experiências. Assim, você teria certeza
sobre o que realmente desejava fazer. Agora, os meus sonhos parecem estar acontecendo.
-Eu ainda estou desorientado sobre muitas coisas, mas, tenho convicção sobre a minha emoção.
Não aceitaria o seu convite se não desejasse. Você me atrai e tem todas as qualidades que eu
admiro. Não tenho dúvidas sobre os meus sentimentos e fico feliz por ser correspondido.
-Eu, também, tenho dificuldade para explicar a minha emoção. Sempre li muitos livros antigos
e, na adolescência, os colegas mexiam comigo porque eu fantasiava com o passado. Sempre desejei
achar uma pessoa capaz de sentimentos verdadeiros. Encontrei você, em cuja sinceridade eu
acredito e a quem eu aprendi a amar.
*
Voltando para casa na manhã seguinte, Alberto meditava. Através de um inacreditável avanço
no tempo, a sorte lhe ensejara surpreendentes conhecimentos e maravilhosas experiências. O
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mundo em que se encontrava obtivera grande desenvolvimento tecnológico e podia propiciar
muitas satisfações. Havia pouca poluição, o clima era controlado e não ocorriam grandes guerras.
Embora tivesse havido um crescimento dos crimes violentos, todos esperaram que, agora, o
ambiente voltasse à normalidade. Ele tendia a concordar com Leneu em não estar tão otimista
quanto Deodéa com respeito ao futuro da atividade política. Não iria ficar deslumbrado. A vida se
havia prolongado, mas, continuava finita. As incertezas sobre o bem, o mal, a razão da existência e
a perplexidade sobre o destino persistiam. Não perdera de todo a sensação de ser um expatriado.
Seus novos sentimentos, conquanto sinceros, não modificavam os antigos. No momento, preferia
não comentar isso, mas, desejava manter os contatos com Zefir. Propunha-se a enviar, ainda,
mensagens à família, contando o que de incrível lhe acontecera. Com respeito a eles, era tudo o que
podia fazer. O que encontraram numa resenha de livro do passado podia dar esperanças mais
fundamentadas de que recebessem suas mensagens. Mesmo que não as compreendessem bem, ou
as tratassem como fantasias, poderiam servir de algum consolo aos que o haviam amado. Ademais,
se a percepção deles sobre a complexidade do mundo fosse ampliada, tanto melhor. Não seria justo
ficarem atormentados por um futuro que não estaria em suas mãos mudar. Mas, quem sabe,
estivesse. Para Zefir havia indicações de que, talvez, fosse possível. A vida é cheia de mistérios.
Devia se considerar feliz. Ainda que não tivesse encontrado uma razão transcendental para o seu
destino, muitos desafios haviam sido vencidos e, por enquanto, chegara a um momento de paz.
Afinal, uma história jamais tem um epílogo definitivo.
FIM
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