'•• Transformações sócio-culturais da gravidez e da maternidade: Correspondente transformação psicológica ISABEL LEAL Vivemos neste momento uma nova contextualização sócio-cultural da reprodução do nascimento, da relação precoce e dos conceitoa de parentalidadc que obviamente se devem acompanhar de novas abordagens psicológicas. Este trabalho pretende apresentar as questões antropológicas e sociológicas da época contemporânea que estão na base as nossas propostas sobre a Psicologia da Gravidez e da Maternidade. Num contexto de saúde e aproveitando a experiência institucional de psicólogos clínicos que trabalham nas diferentes áreas consideradas problemáticas, nomeadamente, as que dão conta das dificuldades ao nível da reprodução, das patologias múltiplas que podem decorrer no período gravidico, ou nas seqüelas físicas e psicológicas para a mãe ou para a criança no período pós-parto, pretende-se, destacar o deslocamento conceptual e pragmático que está na base na necessidade de novas abordagens psicológicas. 2110 (*) Instituto Superior de Psicologia Aplicada. • i iiNdltl SSONAí 'IONAI IKANSIOKMAI.nl •. •, ( « Mi i u! Dl I'SK 01 ( X IIA HA SAI 11)1 INTRODUÇÃO do, I I IK •i n-\ iiHAVMM /................. mercê do facto de na Psicologia d:i Saúde i ocxr.liirin, c oi ..... l< c ii> Dentro do extenso campo de intervenção que é coberto pela Psicologia da Saúde, uma área se destaca particularmente, entre nós Portugal de 1997: o da Psicologia da Gravidez e da Maternidade. Prova disso é o número de publicações que, nos últimos anos, têm vindo acontece na Psicologia em geral, diferentes quadros teóricos cmn rom i nu. que, ainda que primos, se mostram pouco disponíveis para o diálopi No caso particular da Psicologia da gravidez e da Maternidade, um território muito especifico ainda que vasto dentro do campo da Psicologia da Saúde, toma-se inequivocamente por objecto a mulher grávida. A mulher a lume. Prova disso é o enorme interesse que jovens psicólogos demonstram grávida saudável, mas porque em situação de crise vivencial (Caplan 1963, através das suas teses de licenciatura ou trabalhos de investigação. 1964; Rapoport, 1965 ) em "distress". De facto, no mundo ocidental, a Igualmente se pode sublinhar dissertações de mestrado e projectos de gravidez vai sendo um fenômeno cada vez mais raro, havendo uma investigação que têm sido publicamente defendidos ou apresentados em diminuição sensível das taxas de natalidade a partir dos anos sessenta e do Congressos de Psicologia e de Medicina e, ainda, cursos de curta e média fenômeno que passou à história como o "baby boom". Há cada vez menos duração no âmbito da formação continua de profissionais. mães de menos filhos, com gravidezes cada vez mais planeadas ou adiadas Prova disso é, em última análise, este 2° Congresso de Psicologia da Saú- em função de inúmeras variáveis. Daí que a mais banal gravidez se revista de em que 30% dos trabalhos propostos para apresentação se referenciam à de um significado particular, quer para a própria mulher, quer para a con- área que designamos como de Psicologia da Gravidez e da Maternidade. cepção geral dos sistemas de saúde interessados quer na prevenção das Independentemente do facto corresponder, eventualmente, a uma circuns- doenças, quer na promoção da saúde (McGinnis, 1991; Ribeiro, 1994). tância bem particular e sem nenhum tipo de conseqüências a retirar naquilo Para lá das gravidezes ditas normais é também, e naturalmente, objecto que vai sendo a Psicologia da Saúde em termos mundiais, parece-nos im- de estudo, investigação e intervenção as mulheres e as gravidezes que apre- portante reflectir a crescente importância da gravidez e da Maternidade e as sentam patologias correlativas ou simultâneas ao processo gravítico. implicações que daí decorrem para a psicologia que as toma como objecto. Mas, e isso é porventura menos claro, é também nosso objecto, outras dimensões que estão incluídas no conceito de Maternidade e que directa ou indirectamente dizem respeito à saúde da mulher e que podem, de algum PSICOLOGIA DA GRAVIDEZ E DA MATERNIDADE modo, colocar em risco esse projecto. Temos assim a montante as questões ligadas às infertilidades, às O interesse crescente sobre os fenômenos de gravidez e maternidade gravidezes muito jovens ou muito tardias, às diversas fisiopatologias e merece, do nosso ponto de vista, ser rellectido. Não só pelo volume de tra- psicopatologias que, em cada momento são consideradas como passíveis balho que significa mas, sobretudo, pelos dados que daí resultam e que de questionar a viabilidade de uma futura gravidez. devem, na nossa opinião, ser integrados teórica e pragmatícamente. A jusante, entretanto, fica tudo o que se relaciona com o recém-nascido Esta desejável integração não é no entanto fácil. como sejam as questões da vinculação ou da ligação (bounding), da relação Não é, no clássico sentido em que nada é fácil , mas também e sobretu- precoce, do desenvolvimento da criança e da relação entre mãe e filho. Num terreno tão vasto em que se cruzam múltiplas especialidades médi- 202 203 . . II \i li IIMI !'l |ii.i'. inii i,r. ir.ic (iio|'i( .!•, l".M i H ' ii.l \ H i lllll perspectiva1 , dcscnvolvirncntistas, A i |i l i Io que l oi i K i', a i ui'. M-v.enl.i iim.i |ier.|n i l i \ .1 mm .ulni.i il ................ I. i u niliii.iiiiii ,r.. t (i |'i nii \ r.i.is c sistêmicas para só lalar das mais o desenvolvimento psicológico tomo um continuo que '.e ;in,r.l.i , n> limpi Ire-(|iiriiii"., c l.u il peulci dr vista o sentido da nossa intervenção. K fácil, por de toda a vida, é hoje consensualmenlc um adquirido (Rciicdek, l '' •' ' exemplo, aderir sem critica aos procedimentos previamente estabelecidos Erickson, 1959; Bibring, 1961; Caplan, 1967). Ainda que se considere nas práticas institucionais dos diversos serviços de saúde. Como é fácil como Maldonado (1976) que no ciclo vital da mulher, existem três períodos hipervalorizar as dimensões e variáveis psicológicas que nos são próximas críticos de transição que constituem verdadeiras fases de desenvolvimento c e conhecidas em detrimento de outras variáveis fisiológicas ou sociológi- que são a adolescência, a gravidez e o climatério, parece indiscutível que o cas que sentimos como mais distantes. episódio gravílico se reveste de uma valoração particular. IIMI 1 Lm Psicologia da gravidez e da Maternidade, provavelmente mais do Enquanto a adolescência e o climatério vividos no singular são impor- que noutras áreas da Psicologia da Saúde, assiste-se a uma evolução tantes apenas para os próprios, a gravidez, enquanto fase de reprodução do biotecnológica espantosa e acelerada, que ao mesmo tempo que choca com indivíduo singular - a mulher - mas também, da própria espécie merece, valores sociais e às vezes mesmo com leis em vigor, obriga a questionar permanentemente o que fazemos, como fazemos e porque o fazemos. ou pelo menos tem, outros níveis discursivos e normativos. No episódio gravítico entram em linha de conta a criança a nascer, um pai também autor material (ou moral) do processo e "lhe la.it bul no t lhe leasf a sociedade que necessita assegurar a própria continuidade. O PRO.II-CTO D (i MATERNIDADE Assim, o interesse que este período tem suscitado na psicologia, e os múltiplos trabalhos que questionam angustias e ansiedades, fantasias e ati- Estabelecemos noutra ocasião (Leal, 1990), a importância de distinguir tudes, ajustamentos e vivências, só parecem encontrar sentido se, forem os conceitos de gravidez e de maternidade, habitualmente assimilados mas compreendidos à luz de um outro conceito, que, considera menos, as que se referem, de facto, a realidades, subjeclividades e processos bem transições de origem biológica e as mudanças metabólicas e hormonais diferenciados. envolvidas nas diferentes fases, e privilegia dimensões eminentemente A gravidez refere-se ao período de alguns meses que medeia entre a sociais e culturais. Este conceito é o de Maternidade. concepção c o parto e que, como tem sido exaustivamente descrito na De facto, a preocupação central sobre a gravidez que a própria psicologia literatura implica, do ponto de vista psicológico, ajustamentos e recurso a estimula e questiona não faz mais do que reproduzir, nos territórios consi- mecanismos adaptativos à própria situação (Bibring et ai., 1 9 6 1 ; A. derados como os pertencentes a uma "comunidade cientifica", os valores Colman, L. Colman, 1973; R. Sói ler, 1986; M.T. Maldonado, 1985; .1. em uso. E, os valores em uso, tornam prevalente a idéia de "Projecto de Justo, 1990; L. Mascou. 1990; M. Ammamtti, 1991). Maternidade" (Janaud, 1985; Leal, 1991). Mas se isto é verdade para a gravidez, é-o igualmente para outros acon- Muito mais do que valorar o acontecimento gravítico em si mesmo e, a tecimentos de vida significativos que, vividos como crise ou como fase, sua importância no equilíbrio e devir da identidade feminina, põe-se a tôni- actualizam sentimentos passados e desencadeiam respostas adaptativas, ca na dimensão existencial da própria continuidade do indivíduo, das mais ou menos adequadas, mas sempre de acordo com aquilo que são as sociedades ou da espécie, corno pano de fundo da construção de um con- possibilidades dos sujeitos. ceito diádico mãe-criança, que, antes de ser, já era. 204 ..v l II A M ' ,l < H < M \l l H ' . M l < Ouci r.Io <li/i'i que ;i Maternidade transcende em lúcio ;i mera grávido/.. Assunic-se como sendo um projecto de vida, de longo prazo ou mesmo vitalício que envolve prestação de cuidados e dádiva de afectos que assegurem um desenvolvimento sadio e harmonioso à criança (Leal, 1991). Se é pois relativamente fácil definir a Psicologia da gravidez como o trabalho realizado pela psicologia em relação estreita com este período, importa definir igualmente o que é a Psicologia da Maternidade. Propusemo-la (Leal, 1992) como "o conjunto de saberes e conhecimentos psicológicos que tomam como objecto a Maternidade, sincronicamente no sentido de determinar estruturalmente um conjunto de categorias que descrevam como este conceito opera num determinado tempo e, diacronica-menle no sentido de explicar as mudanças na forma estrutural do ohjecto. Epistemologicamente, a delimitação deste território de intervenção e de pesquisa implica o assumir de uma óptica transdisciplinar, ou seja, o assumir de um discurso a partir do interior de uma disciplina - a psicolo -g/a - para, como diria Agra (l 986) decifrar as mensagens que aí circulam e as pôr em relação com outras que circulam em outros domínios discipli-nares. Implica, do nosso ponto de vista, a partir das interfaces dos antigos limites disciplinares, assumir que este território é ele próprio produtor de um discurso normativo, legislativo c regulador daquilo que produz, e que, isso mesmo se deve espelhar no valor heurístico das suas propostas" (pp. 231-232). O conjunto de saberes e conhecimentos que tomam como objecto a maternidade Para lá da maior simplicidade ou complexidade das definições, é preciso teorias ou categorias para pensar um fenômeno. No caso da Psicologia da Maternidade, a dificuldade reside no lado de as múltiplas reflexões sobre o tema se colocarem quase sempre dentro do paradigma psicanalítico e colocando os conceitos de feminino c o materno como assimilados ou de tal forma imbricados que se torna quase impossível pensar um sem o outro. h M l II l 1 1 M \ l 1 , l i S i » l < \ \ II ' l Dizemos dificuldade porque, constatamos que tios l 1 1 \ l l ' l l H M il l M H independentemente trabalhos de investigação que se debruçam sobre a forma como uma ou várias variáveis psicológicas operam no período pré, peri e pós gravítico e em que a preocupação de enquadramento teórico surge essencialmente associada à natureza dos instrumentos de medida ou à especificidade das variáveis consideradas. O evoluir social e antropológico da maternidade ultrapassou as teorias psicológicas que lhe dizem respeito. De facto, as únicas teorias que pretendem integrar a gravidez e a maternidade como momento do desenvolvimento psico-sexual da mulher, fazem-no dentro do paradigma psicanalítico e aí, o desejo de gravidez e de maternidade são sinônimos e partes integrantes do processo de aquisição da feminilidade. Ora, se é verdade que o feminino se pode definir rápida e facilmente em termos de gênero sexual - ser mulher -, a identidade do gênero (Stoller, 1968) encerra um comportamento psicologicamente motivado. Quer isto dizer que, embora na maioria das vezes o sexo e o gênero sejam coincidentes, existem muitas situações em que assim não é. Teorias do feminino e do materno A noção de feminilidade, em alguns contextos psicanalíticos, aparece relacionada direclamente com a de masculinidade e dá conta da forma como o indivíduo humano se situa relativamente ao seu sexo biológico. Nesse sentido é no dizer de Laplanche e Pontallis "um termo aleatório de um processo conflitual" (1974). Quer isto dizer que, transcendendo rapidamente um dado de natureza que é o da própria diferenciação sexual, se passa a outro nível em que se dá conta de como a cultura trabalha esse dado da natureza. Ou seja, qual o grau de real, simbólico e imaginário investido num certo momento na atribuição daquilo que é ou não é feminilidade. Stoller diz "masculinidade e feminilidade é uma convicção -- mais precisamente uma densa massa de convicções, uma soma algébrica de se, mas e ' " < '(IN< ÍKI YSO NA( K INAI l II I'MI ( II ll( ,IA HA SAIU )l - não um fado incontroverso. Alem de fundamento biológico, a pessoa obtém estas convicções a partir das atitudes dos pais. especialmente na infância, sendo estas atitudes mais ou menos semelhantes àquelas mantidas pela sociedade como um lodo, filtradas pelas personalidades idiossincráticas dos pais" (\ 993). Na ortodoxia psicanalítica, entretanto, verifica-se que o par antitético masculino-feminino não se apresenta imediatamente à criança mas é precedido por outros patamares conceptuais a saber o par "fálico-castrado" e o par "activo-passivo". Nada disto seria muito complicado se a antinomia conceptual o fosse de facto, quer dizer desse apenas conta dos limites de processos intra-psiquí-cos essenciais na constituição da identidade. Na prática, no entanto, estabelece-se a confusão quando se diz, como o faz Freud de que "mais cedo ou mais tarde a menina descobre a sua inferioridade orgânica" (Freud, 1931). Como anota Stoller "'Para Freud, a psicologia das mulheres começa com um sentimento de castração . . . A feminilidade, constitui simplesmente uma defesa e mostra as suas origens provisórias em sua natureza: passividade, masoqiiismo, inveja de pénis, renúncia, um super-ego frágil, compromisso com os imperativos biológicos como a reprodução, mais que com as opções sociais, como a amizade, etc. etc. (Stoller, 1993). Dizendo de outro modo, torna-se complicado quando uma teoria que, se pretende geral e explicativa do processo de desenvolvimento psicossexual, para ambos os sexos, toma como referente o sexo masculino. Nos Três ensaios (1905) de uma forma pingpongueante entre o naturalismo e o impressionismo, Freud coloca as suas idéias sobre o complexo de castração nos dois sexos e a inveja de pénis na menina, defendendo no essencial que existe um monismo sexual Ialico para os dois sexos. Esta idéia é mais tarde reexprcssa em A organização genital infantil da lihido (1923), introduzindo os conceitos de fálico-castrado como dominante até á pubcrdadc. Reafirma entretanto o desconhecimento psíquico que existe nas rapariguinhas da própria vagina. IKANSI CHI MAC. l II ', MIC III c III M M I A I 1 , MA c i l c u IMI l IIA MATKNNIIMDI No Declínio do Complexo de Êdipo (1924), Freud propõe um complexo de castração como assinalando o declínio do Edipo e inversamente na rapariga como causa dos seus desejos edipianos. Como conseqüência metapsicológica fica a mulher com um super-ego mais frágil. No ano seguinte, 1925, num artigo chamado "Algumas conseqüências psíquicas da diferença anatômica entre os sexos", Freud defende que o Édipo é no rapaz uma formação primária e na rapariga uma formação secundária. Esta formação secundária implica na prática qualquer coisa deste gênero: primeiro há um desejo da mãe, mãe que é substituída por um pénis, pénis que é substituído pelo desejo de um filho do pai. Em 1931, no texto sobre "A sexualidade Feminina" e em 1932, no artigo das "Novas Conferências" sobre a feminilidade, lado a lado com a crítica a outros autores que entretanto foram escrevendo sobre o tema, Freud discorda sobre o vínculo pré-edipiano da rapariga à mãe e, reatando todas as opiniões anteriores e acentuando a importância do complexo de castração. O feminino Freudiano ultrapassa o próprio Freud e estende-se por todos os seus continuadores, que de algum modo continuam a conceder um papel central à sexualidade na etiologia das neuroses. Embora posteriormente a Freud muitos tenham sido os trabalhos que privilegiaram outros aspectos e dimensões intra-psíquicas da sexualidade feminina em geral e das questões ligadas ao significado da gravidez e da maternidade, prevalece do ponto de vista teórico uma indivisibilidade conceptual sobre o feminino e o materno. Como se, o feminino se cumprisse no materno e o desejo de gravidez, e de maternidade fossem coincidentes e inerentes à natureza feminina. Transformações no conceito de Maternidade Mas gravidez e Maternidade, não são a mesma coisa, o desejo de estar grávida e o desejo de ter um filho não correspondem muitas vezes (Soulé, 1985; Leal, 1991). A transformação ao longo dos anos do próprio conceito de maternidade. 2119 TRANSFORMAÇÕES SÓCIO-CULTURA1S DA GRAVIDEZ E DA MATERNIDADE .'"( C INCiKI SSO NACIONAL Dl- PSICOLOGIA DA SAÚDE ajuda nos n perceber, o processo secundário e de eminente de cariz social (|iie esta noção foi ganhando, afastando-se cada vez da idéia de um cerla idéia "naturalista" do que é ser mulher e mãe. Só a partir do séc. XVIII, a função materna começa a ganhar o estatuto de culto que cresce no séc. XIX e se propaga até aos nossos dias. As questões da educação, da ligação precoce à criança, do próprio amor materno, são questões insípidas ou ausentes em muitas culturas durante muitos séculos de história (Aries, 1975; Kniebiehler &. Fouquet, 1980; Badinter, 1980). Em l 806 com o surgimento da obstetrícia como especialidade médica, a mulher passa a ser um objecto de estudo em que o seu papel social é regulamentado a partir da sua anatomia e em que o seu corpo se destina e se realiza no ser mãe (Maldonado, 1976). Assiste-se assim, a um curioso fenômeno que, ao mesmo tempo que importantiza a criança e a função materna, as coloca sob a égide de um conceito entretanto surgido como problema econômico e político: o de população (Leal, 1989). Não admira pois, que as teorias que se construíram ainda no século XIX, estejam pejadas de noções herdeiras da exaltação do amor materno e dos discursos filosóficos, médicos e políticos em que a família se constitui e se mantém em torno desse acontecimento. O século XX, acentua se possível a dimensão da importância materna. A mulher-mãe passa também a ser responsável por "cuidar do inconsciente e da saúde emocional dos filhos" (Maldonado, 1985, p. 18). Dá-se o nascimento daquilo que alguns chamam "bebélogia": ciência que tem por ambição o estudo exaustivo do bebê sobre todas as suas formas e em todos os seus estados, in objectif bebe, 1985). Como anotam Parseval e Bigeargeal (1985), os anos 70 do nosso século promovem a idéia da "mama divina, bebê maravilhoso" e os anos 80 divulgam a crença de "bebê profeta, mama discípula". Ou seja, paralelamente a um movimento social que tenta conceder às 2111 mulheres a possibilidade de afirmação enquanto tal, incrustando a maternidade (e também a paternidade) em projectos individualmente significativos, continua como discurso dominante a hiper-responsabilização da função materna. Como se o destino das mulheres tivesse de continuar a passar por uma certa idéia de maternidade, ou como se acabasse por haver incompatibilidades enlre afirmações femininas e afirmações maternas. CONCLUSÃO Existe um complexo desentendimento entre aquilo que são as teorias psicológicas sobre a maternidade e aquilo que é a actual realidade do projecto de maternidade. As teorias psicológicas, destacam os aspectos ligados a "uma preocupação materna primária", às dimensões ligadas às próprias identificações e, ainda, ao ser mãe como parte integrante de um devir saudável do ser feminino. As concepções em vigor de maternidade, por seu turno, desinteressam-se de qualquer dimensão de afirmação feminina e privilegiam definitivamente a noção de projecto de maternidade. Se à partida, parece haver coincidência de objectivos entre aquilo que é um desejo estruturado em termos individuais e sociais para as mulheres continuarem a ter crianças e a querer tê-las, à chegada, o desprezar-se o feminino em favor do materno, parece significar no mundo ocidental uma quebra importante de taxas de natalidade Dito de outro modo e fazendo uso da nossa própria experiência clínica, o desejo de gravidez e o desejo de maternidade raramente são coincidentes. A gravidez continua a ser uma experiência do próprio corpo, desligada de posteriores conseqüências e responsabilidades. Afirma-se por si mesma e significa-se em si mesma, tendo como referente dominante a existência de uma feminilidade que nem sempre se conforma às normanda maternidade, .'"Cl INC .1' l '.'.n N ACIONAI. Dl; rsIfOLOGIA DA SAI 11)1 •; TRANSFORMAÇÕES SÓCIO-CULTURAIS DA GRAVIDEZ E DA MA l EKNIDADE poi ',cii i..... o, ' l n > i c i ;ip;i/ - por mérito da tecnologia, das legislações de l i l i . i (, . n i c do1, discursos que privilegiam a criança em devir- de passar por i MM.i (Io:; iintigos limites do corpo e estabelecer-se à revelia de qualquer nação de feminilidade. Parece pois surgido o momento de pensar o feminino e o materno individualmente e como conceitos autônomos, que ás ve/es se cruzam e outras se distanciam. Este é um desafio para a psicologia da gravide/. e da Maternidade que nasce cxaclamcntc nos serviços de saúde. Erickson, E. (1959). Growth and crisis of the healthy personality. In Kluckhohn & Morris (Eds.), Personality in Nature, Society and Cultwe. N. York: Alfred Knopf. Figueiredo, B. (1994). Saúde da mãe e do bebê durante o puerpério. In Teresa Mendonça Mcintyre (Ed.), Psicologia da saúde: Áreas de intervenção e perspectivas futuras. Braga: Apport. Freud, S. (1923 ). 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