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AN A IS – 20 10
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FILOSOFIAS EDUCACIONAIS PARA SURDOS
Thiago Bordinhon
(CCHE-UENP/CJ)
RESUMO
Atualmente a literatura nos traz diversas contribuições do contexto histórico da educação
em relação a pessoas com deficiência mostrando como eram tratados pela sociedade,
família e escola. Como já é de conhecimento de muitos, na antiguidade as pessoas com
algum tipo de deficiência eram exterminadas assim que fossem diagnost icadas suas
deficiências sem oportunidades de argumentação ou defesa, simplesmente por
apresentarem diferenças físicas, sensoriais ou mentais. Contudo vemos ao longo dos
séculos uma mudança no trato a estas pessoas e enxergamos isto por interesses
religiosos, financeiros ou solidários/assistencialistas, pois a mentalidade de assassinar
esse povo diminuiu e por isso medidas de manutenção e controle deles tornaram-se
necessárias. Abordando o tema educação e pessoas com deficiência algumas ações foram
realizadas, pesquisadas, mas poucas publicadas em relação a educação destas pessoas.
Só a partir do século XVI I encontramos obras direcionadas ao ensino de crianças que
apresentavam surdez com objetivos semelhantes aos interesses propostos acima, mas
pouco conhecimento foi deixado quanto às metodologias trabalhadas com elas. Todavia,
poucas idéias foram desenvolvidas com intuito educativo, a grande maioria delas foram
desenvolvidas buscando a normalização dos surdos almejando o ouvintismo através de
mecanismos dolorosos e situações repetitivas e sem significados para eles. Nosso estudo
buscará conhecer e analisar as filosofias desenvolvidas para educar pessoas surdas e/ou
deficientes auditivas com objetivo de esclarecer os docentes sugerindo uma abordagem
mais pragmática, transparente e funcional para o alunado.
Palavras-chave: Educação de Surdos. LIBRAS. Pessoas com Deficiência. Educação
Inclusiva.
Olhar o passado é mais do que um ato de nostalgia é buscar na história
elementos que nos completam e nos orientam indicando qual deve ser o caminho mais
adequado a trilhar. Sob esse prisma iniciamos nosso pensamento no que tange a
educação, mais especificamente na subdivisão dela, a educação de pessoas com
deficiência com o propósito de elucidar o tema e investigar, até certo ponto, quais foram
as metodologias e procedimentos utilizados nos anos passados e desde quando eles
existem para o cuidado dessas pessoas.
Pensando desta forma e vasculhando dados históricos encontramos vagas
referências sobre este tipo de população e uma delas nos chama atenção por
acreditarmos ser ela a mais antiga citação de pessoas com deficiência como conferimos
no livro bíblico de Êxodo no quarto capítulo e verso onze: “E disse-lhe o SENHOR: Quem
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fez a boca do homem? ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não
sou eu, o SENHOR? Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás
de falar” (ÊXODO, 4:11). Levando em conta esse trecho das escrituras sagradas
inferimos a existência de pessoas com outros tipos de deficiência na antiguidade, mas
que não foram expostos aqui.
Delimitando nosso estudo ao tema deste trabalho e considerando o argumento
histórico já enunciado acima questiona-se, então, quais as formas de instrução que este
público recebia. Investigando esses dizeres, Bordinhon (2009) nos acrescenta que:
Desta forma, também podemos concluir, em relação aos Surdos da
época, que eles utilizavam um sistema de comunicação para se
fazer entender entre as pessoas da família, ou pessoas de contato
mais próximo. Sendo a Língua de Sinais de desenvolvimento
natural aos Surdos, acreditamos que naquele tempo já existiam
estratégias de comunicação, por gestos, expressões faciais e as
demais combinações entre esses elementos. (BORDINHON,
2009:23).
O ponto que este autor nos oferece é de grande valia, pois ele acredita que
mesmo há longas datas as pessoas surdas já utilizavam mecanismos para se comunicar,
todavia, consideramos que, se existiam formas diferentes da comunicação oral entre
parentes e/ou vizinhos, no caso de pessoas de contato mais próximo, estes mecanismos
serviriam para troca de informações e transmissão de conhecimentos, ensinando
maneiras de agir e procedimentos para realizar inúmeras atividades. Mas antes de
falarmos sobre a questão educacional, ou melhor, do que era ensinado ou não aos
surdos, iremos conhecer a história cruel pela qual não só eles, mas todas as pessoas com
deficiência passaram ao longo de muitos e muitos anos.
Em algumas sociedades o desprezo e abandono para com as pessoas com
deficiência eram comuns gerando constrangimentos e desrespeitos com elas, chegando
ao ponto de ser inconveniente sua presença, como podemos ver:
As pessoas que não se enquadravam no padrão social considerado
"normal", seja em decorrência de problemas na sua concepção ou
nascimento, seja por fatores externos como guerras, acidentes
naturais, entre outros, eram considerados empecilhos ou "peso
morto", sendo por isso geralmente abandonadas ou relegadas ao
isolamento, sem que isso fosse considerado errado pelas demais
pessoas. (ANDRADE, 2008).
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Assim, não tendo as mesmas oportunidades das demais pessoas, sofrendo com
o distanciamento e a rejeição imposta socialmente essas pessoas se viam sós e
destinadas a uma vida sem contatos e sem relacionamentos com os outros, dificultando
seu desenvolvimento. Em outras sociedades mais longínquas, a prática do extermínio era
utilizada com objetivo de ‘limpar’ a sociedade do malefício vindo sobre ela:
Por outro lado, não se pode negar a existência, em algumas
sociedades antigas, de certas práticas atrozes, como, por exemplo,
o controle dos recém-nascidos com deficiências físicas. Como se
sabe, chegou-se, em alguns pontos do Império Romano, a criar-se
o costume de jogar essas crianças num local fora da cidade, a fim
de deixá-las morrer sozinhas. (MORENO e ROSITO, 2007:261).
Além de cometer tamanha crueldade, outra afirmação que na antiguidade era
usual é a de que as pessoas com deficiência tinham inclinações para a possessão
demoníaca, por isso eles assassinavam essas pessoas, levando em conta a fé depositada
por eles em Deus, pois sendo elas, pré-dispostas a tal acontecimento sua morte traria
tranqüilidade e bençãos divinas.
Na Idade Média, os deficientes físicos e mentais eram
freqüentemente vistos como possuídos pelo Demônio e eram,
portanto, queimados como as bruxas; durante a Renascença,
muitos indivíduos com essas mesmas deficiências considerados
desafortunados, eram hospitalizados e tratados com atenção.
(BUSCAGLIA tradução de MENDES, 2006:182).
Abandonavam essas crianças em locais distantes de seus vilarejos, próximas a
morada de animais selvagens que fariam delas comida (JANNUZZI, 2006:9), sob
argumentos embasados na beleza que eles não tinham e nas funções corporais que,
segundo o senso comum, as pessoas com deficiência não teriam condições de executar,
quando não, eram mortos por questões religiosas ou ideológicas, ou seja, vieram nesta
forma pelos pecados cometidos pelos seus pais e/ou por acreditarem que maldições ou
infortúnios acometeriam a comunidade em que viviam se não praticassem tal ato. “Pois
aos nove anos me contaram que nos Estados Unidos não haviam deficientes. Eles os
matavam. Todos. Se numa família nascia um deficiente, o médico dava ao bebê uma
injeção letal”. (GALLEGO tradução de GIL, 2004:44).
Por grandes momentos da história vemos retratado nos livros a forma como a
sociedade se comportava diante de pessoas com deficiência, em civilizações como a
Romana e a Grega o surdo, especificamente, não era considerado um ser humano e
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Aristóteles, um dos grandes filósofos, não os considerava como humanos por eles não
apresentarem linguagem (MOURA, 2000:16).
As sociedades primitivas matavam as crianças nascidas com
deficiências. Já se questionavam Aristóteles e Platão: "Pode-se
qualificar de humanos seres que não raciocinam e não falam?" Em
alguns hospitais, eles são qualificados de "vegetais". (VANIER,
1995:7).
Passado esse período de violência em que todas as pessoas com deficiência
tinham suas vidas interrompidas visualizamos outros períodos na antiguidade que é
importante estudarmos. Salientamos que as datas mais próximas do século XX, são mais
generosas em relação a produções bibliográficas sobre este público as quais iremos nos
aprofundar a pessoas com surdez.
Por vários séculos a concepção de que os surdos apresentavam retardamento
mental (Pintner, 1950 apud Luchesi, 2003:17) por não se expressarem oralmente se
manteve impedindo-os de constituir-se enquanto sujeitos de direitos:
[...] e a sua legislação, de que elles tanto se orgulhavam, a sua
legislação, que os Ciceros e os Hortensios consideravam como a
obra prima da intelligencia humana, excluia dos foros de cidadãos
os surdos-mudos, inhibia-os de testar, de dispor dos seus bens, de
contrahir quaesquer relações sociaes, punha-os, em fim, n´uma
condição ainda inferior á dos escravos, á dos párias da India, á dos
ilotas de Esparta, excluindo unicamente d´essas disposições os
surdos de nascença, a quem a natureza concedêra falla: Si enim
vox articulata eis natura concessa est. (CASTRO IRMÃO & C,
1868:266).
Esses mesmos direitos negados aos surdos por diversos anos, como podemos
observar, ocasionou mais problemas sociais a eles, pois sem recursos financeiros ficavam
limitados de procurar auxílio para sanar e/ou diminuir as manifestações decorrentes da
deficiência, para estudar e desenvolver-se culturalmente.
[...] ao surdo não era permitido o acesso à herança e aos
privilégios feudais... No século XVI, é possível verificar que as leis
de influência romana e feudal se mantêm em relação aos surdos,
pelo que, aliado à continuação dos mesmos valores, constata-se
que continua a não ser permitido aos surdos o acesso à herança
primogênita. (COUTINHO, 2008:32-33).
O impedimento de receber bens financeiros resultados da herança familiar, além
de outras restrições, como casar-se, frequentar e participar de atividades religiosas
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(HAGUIARA-CERVELLINI, 2003: 30 e 57) impulsionou familiares e membros do clero a
refletir uma nova postura para tratar pessoas com este tipo de deficiência. Desde o
século XV quando vemos algumas iniciativas de educação para este público, a
enxergamos ainda de forma simplista e regrada, pois a educação proposta não
enfatizava, de fato, os conhecimentos e serem adquiridos, mas sim, em grande parte,
instruíam apenas a produção oral da língua pátria e/ou a leitura e escrita da mesma para
se fazer melhor compreendido na sociedade na qual vivia como veremos a seguir.
Acreditamos piamente que a procura por educação aos descentes surdos de
famílias nobres veio como forma de minimizar os efeitos colaterais da surdez, como a
não produção oral para se expressar e como vimos anteriormente, sobre as pessoas que
não falavam, como pensavam Aristóteles e Platão, as famílias logo buscaram estratégias
alternativas para driblar as leis da época e encobertar a deficiência do filho buscando a
permanência na burguesia. Iniciou-se então a peregrinação por pessoas dispostas a
ensinar a falar os surdos.
Apenas no século XVI descobrimos o primeiro professor de surdos, o espanhol
Pedro Ponce de León, 1“A Espanha ocupa uma longa posição na história da educação de
surdos. Pedro Ponce de León (1520-1584), um monge Beneditino é considerado como o
primeiro educador de crianças surdas” (HENRY, 2008:107). Acredita-se que este monge
desenvolveu o primeiro alfabeto manual para trabalhar com as crianças surdas de classe
econômica elevada, já que os outros eram entregues a asilos, normalmente. Seu
trabalho era, basicamente, ensinar a soletração da palavra, letra por letra, chegando a
escrita e alguns gestos criados para referenciar algum conceito, porém, nada a respeito
de seu trabalho foi publicado. O primeiro livro publicado sobre o assunto foi feito pelo
monge Franciscano Fray de Melchor Yebra (1526-1586).
Vários anos se passaram e outras pessoas se interessaram pela temática e se
propuseram a ensinar os surdos, com motivos diferentes ou não o objetivo era que os
surdos conseguissem desenvolver habilidades na leitura e escrita, bem como na fala que
foi introduzida aos poucos, mas que acabou por se tornar meta central na educação dos
surdos. Destas pessoas que trabalharam na educação de/com surdos vale ressaltar a
importância de alguns como o francês Abade Charles-Michel de l´Épée (1712-1789) que
ficou conhecido como o pai dos surdos, e escreveu:
Todo surdo-mudo enviado a nós já tem uma linguagem... Ele tem
o hábito de usá-la e compreende os outros que o fazem. Com ela
1
“Spain has long occupied a salient position in the history of deaf education. Pedro Ponce de León (1520-1584),
a Benedictine monk, is usually credited with being the first educator of deaf children”.
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ele expressa suas necessidades, desejos, dúvidas, dores etc. e não
erra quando os outros se expressam da mesma forma. Nós
desejamos instruí-los e assim ensiná-los o Francês. Qual é o
método mais simples e mais curto? Não seria nos expressando na
sua língua? Adotando sua língua e fazendo com que ela se adapte
a regras claras, nós não seríamos capazes de conduzir a sua
instrução como desejamos? (L´ÉPÉE, 1776 apud MOURA,
2000:23).
Outra importante figura foi Thomas Hopkins Gallaudet (1787-1851) americano
que fundou a primeira instituição de surdos dos Estados Unidos juntamente com o surdo
francês Laurent Clerc (1785-1869) e Ernet Huet, professor surdo que com ajuda do
imperador Dom Pedro II fundou no Rio de Janeiro a primeira escola para surdos do Brasil
em 26 de setembro de 1857, data esta que é comemorado o dia nacional do surdo
através da Lei nº 11.976/2008.
Como é possível perceber, dentre esses personagens, a grande maioria era
surda, pois a partir dos trabalhos realizados através da língua de sinais por l´Épée, na
França, iniciou-se uma nova abordagem educacional onde os próprios surdos se
tornavam professores de surdos, dando modelo cultural, linguístico, profissional, entre
outros, mudando radicalmente a posição de inutilidade que foi atribuída aos surdos ao
longo dos tempos. Mas esta metodologia proposta pelo pai dos surdos não foi aceita por
todos e continuou existindo resistência a forma linguística materna dos surdos e
estratégias que não objetivavam a fala, pois quem não falavam oralmente não era
considerado uma pessoa humana. A partir daí diversas intrigas começaram a existir
gerando confronto das metodologias aplicadas para a educação e instrução dos surdos
em todo o mundo.
Com toda a polêmica em torno das formas de se trabalhar com o surdo foi que
em 1880 na Itália aconteceu o ‘Congresso de Milão’, grande marco na educação de
surdos com participantes italianos e franceses com objetivos políticos semelhantes. Neste
evento questionaram-se a validade da utilização da língua de sinais e da oralidade na
educação dos surdos. Dentro de todas as atividades propostas neste congresso,
aconteceu uma eleição para decidir qual o método mais adequado para o trabalho com
surdos a nível mundial, de todos os participantes apenas aqueles que se familiarizavam
com a proposta oral tiveram poder de voto, ou seja, os professores surdos, os surdos e
os defensores da língua de sinais como meio natural de aquisição e desenvolvimento de
conhecimentos foram impedidos de votar. Desta forma, prevalecendo a oralidade sobre a
língua de sinais é que a educação de surdos passou por tempos de escuridão e
retrocesso.
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Um dos grandes nomes do congresso de Milão, a favor da metodologia oralista
foi Alexander Graham Bell (1847-1922) opositor veemente da filosofia do gestualismo,
ele fazia parte de uma família que trabalhava com surdos e composta por surdos que
dedicavam-se ao ensino da fala. Conhecido como o inventor do telefone, é hoje
questionado se realmente esta produção é de autoria dele ou se ele simplesmente
comprou a patente do telefone e a comercializou, tornando-a famosa.
De todas as decisões e atividades realizadas naquele evento o que realmente
ficou conhecido foi a proibição em todo o mundo da metodologia desenvolvida por
l´Épée, ou seja, a utilização da língua de sinais na educação dos surdos deveria ser
banida e todos os seus adeptos (professores surdos e pesquisadores a favor da língua de
sinais) foram obrigados a interromper seus trabalhos e dispensados de suas funções.
Consideramos, então, que a partir do Congresso de Milão efetivou-se a abordagem
oralista destinada ao ensino dos alunos surdos, denominada Oralismo, a qual já vinha
sendo utilizada anteriormente e que ganhou notoriedade neste evento e sobre ela que
iremos expor agora.
Esta filosofia trabalhada com os indivíduos surdos, o Oralismo, aponta para a
necessidade da oralização para a integração efetiva desses indivíduos na sociedade,
buscando sempre usar dos resíduos auditivos que eles possam apresentar e/ou das
tecnologias assistivas para criar situações que favoreçam a comunicação por língua oral.
Sobre a abordagem oralista vale ressaltar que:
O Oralismo percebe a surdez como uma deficiência que deve ser
minimizada
pela
estimulação
auditiva.
Essa
estimulação
possibilitaria a aprendizagem da língua portuguesa e levaria a
criança surda a integrar-se na comunidade ouvinte e desenvolver
uma personalidade como a de um ouvinte. Ou seja, o objetivo do
Oralismo é fazer uma reabilitação da criança surda em direção à
normalidade, à “não-surdez”. (GOLDFELD, 2002:34).
Dentro deste enfoque os recursos disponíveis para estimular a audição residual
da pessoa surda seriam trabalhados de forma unilateral, permanente e exaustivamente.
Quando nos referimos a forma unilateral queremos dizer que apenas o profissional da
equipe médica fará as atividades necessárias, já quando falamos em permanente
queremos expor que essas atividades serão realizadas por um período muito longo da
vida desta pessoa e sobre a exaustão a ideia que deixamos é que esses procedimentos
se tornam repetitivos, muitas vezes sem significado, cansativos e estressantes para o
surdo e a ele não é questionado ou argumento sobre o seu modo de pensar sobre aquilo
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que fazem com ele, pelo contrário, fazem porque são os procedimentos padrão para
oferecer uma qualidade de vida melhor a pessoa.
Inúmeras metodologias, técnicas e objetivos, como por exemplo, o verbo-tonal
(desenvolve habilidades de fala e audição aproveitando a sensibilidade auditiva restante,
principalmente
nas
freqüências
graves),
aural
(pistas
auditivas),
acupédico,
audiofonatória (trabalha resíduos auditivos e leitura labial), entre outras, são trabalhados
nesta filosofia com intuito final de garantir ao surdo a possibilidade de entender e se
fazer entender na sociedade na qual vive, porém, ênfase igual não é dada a aquisição de
conhecimentos,
pois
como
ressalta
a
pesquisadora
supracitada
“o
trabalho
de
compreensão e de oralização é direcionado no sentido de possibilitar à criança dominar
gradativamente as regras gramaticais e chegar a um bom domínio da língua portuguesa”
(2002:35), desta forma vale ainda acrescentar sobre a leitura labial, que é a leitura da
posição dos lábios do falante que “até o melhor leitor labial adulto só consiga entender
50% das palavras articuladas (talvez, menos). O resto é pura adivinhação” (BRASIL,
1997:71).
Segundo o exposto pela autora e pela vasta experiência que obteve-se ao longo
de vários anos, pode-se refletir e entender que a área médica em parceria com a da
educação, em grande parte, veio criando mecanismos para melhorar a vida das pessoas
com audição considerada anormal, mas em nenhum momento enxergamos nesta
iniciativa valorização e reconhecimento da pessoa enquanto sujeito diferente que pode se
desenvolver social e linguisticamente de outras maneiras.
Essas outras maneiras que nos referimos são atividades e filosofias diferentes.
A próxima abordagem que também ficou mundialmente conhecida foi a
Comunicação Total, que englobava várias técnicas para estabelecer algum tipo de
comunicação com as pessoas surdas.
[...] a comunicação total foi definida oficialmente como uma
filosofia que incorpora as formas de comunicação auditivas,
manuais e orais apropriadas para assegurar uma comunicação
efetiva com as pessoas surdas [...] (SCHINDLER, 1988:10 apud
MOURA, 2000:57).
Iniciada na década de 1970, após grande número de pesquisas relacionadas
principalmente a área da Linguistica, a Comunicação Total veio como ferramenta para
suprir as necessidades e lacunas deixadas pelo Oralismo fazendo uso de todos os
instrumentos linguísticos, mas de forma simultânea, ou seja, utilizar, por exemplo, a
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língua de sinais e a língua oral ao mesmo tempo, além de outros recursos. Para Ciccone
(1990) a filosofia da Comunicação Total entende a pessoa com surdez:
Longe de considerá-lo como portador de uma patologia de ordem
“médica”, esta nossa filosofia educacional entende o surdo como
uma pessoa, e a surdez como uma marca, cujos efeitos adquirem,
inclusive, as características de um fenômeno com significações
sociais. (CICCONE, 1990:6-7).
Portanto, era proposta primeira desta filosofia, utilizar esses recursos variados
na educação dos surdos, porém, com o passar dos anos as estratégias comunicativas
relacionadas a língua de sinais e/ou comunicação não-oral foram sendo colocadas em
segundo plano até o momento que foi assumido a utilização destes como degrau para se
chegar a oralidade.
Da mesma maneira como a primeira filosofia, a segunda não valorizou as
potencialidades da estimulação de linguagem através da língua de sinais e do indivíduo
surdo adulto na educação das crianças surdas como modelo, e continuou a trabalhar com
referencial equivocado no que se refere a língua, cultura e identidade.
Já a terceira filosofia que tratamos tem princípios diferentes.
O Bilinguismo, abordagem considerada recente na educação dos surdos, veio
como proposta para substituir as concepções anteriores com vistas no reconhecimento
linguístico do surdo, não considerando sua língua um resultado imposto pela deficiência,
mas uma condição desenvolvida por uma diferença social e cultural. Esta filosofia prega a
utilização de, no mínimo, duas línguas pela pessoa surda, a primeira sua língua
natural/materna, a língua de sinais de seu país e a sua a língua oficial do país podendo
ser trabalhada na modalidade oral ou escrita.
[...] o bilingüismo tem como origem a insatisfação dos surdos com
a proibição da língua de sinais e a mobilização de diversas
comunidades em prol do uso dessa língua, aliado aos estudos
lingüísticos e comprovando o status das línguas de sinais enquanto
verdadeiramente uma língua. (GOLDFELD, 2002:108).
No Brasil, a lei (Lei nº 10.436/02) que reconhece a Libras (Língua Brasileira de
Sinais) como segundo idioma oficial da nação traz em seu texto que esta língua de
modalidade visuo-gestual não poderá substituir a modalidade escrita do português, desta
forma, entendemos que a Libras será a forma de educação dos surdos e prestar
atendimento em todas as situações comunicativas garantindo seu direito de exercer
cidadania.
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Bilinguismo, literalmente, refere ao indivíduo que fala duas línguas, no caso dos
surdos é a situação comunicativa onde ele faz uso da modalidade que mais lhe for
adequada, ou seja, se num grupo de surdos usuários de língua de sinais o surdo utiliza a
Libras e num grupo de ouvintes utilizando oralmente a língua portuguesa esse surdo
utilizar desta língua de forma competente. Sendo assim, não é a imposição de um ou de
outro sistema linguístico, mas a possibilidade de ser entendido e respeitado. Então:
Em uma perspectiva semiótica, podemos dizer que defender o
bilingüismo é, sobretudo, defender o uso natural de dois sistemas
distintos de linguagem que estruturam formas diferentes de
pensamento, que transformam as experiências em cognições,
atividades fundamentais ao desenvolvimento cognitivo e lingüístico
da criança surda. (FERNANDES e CORREIA, 2005:24).
É através desta forma natural, como coloca os autores, que deve ser o trabalho
com as pessoas surdas, respeitando sua língua e respeitando suas diferenças. Portanto,
esta filosofia não vislumbra apenas a situação linguística, mas também a situação
cultural que, através de sua condição os surdos se identificam e produzem maneiras de
viver.
Ao contrário, a educação bilíngüe deveria propor a questão da
identidade dos surdos como eixo fundamental da construção de
um modelo pedagógico significativo, criar as condições lingüísticas
e educativas apropriadas para o desenvolvimento bilíngüe e
bicultural dos surdos, gerar uma mudança de status e de valores
no conhecimento e no uso das línguas implicadas na educação,
promover o uso da primeira linguagem, a linguagem de sinais, em
todos os níveis escolares, definir e dar significado ao papel da
segunda linguagem na educação dos surdos, difundir a linguagem
de sinais, a comunidade e a cultura dos surdos para além das
fronteiras da escola, estabelecer os conteúdos e os temas culturais
que especifiquem o acesso à informação por parte dos surdos,
gerar um processo de plena participação dos surdos como
cidadãos, desenvolver ações para o acesso e a compreensão dos
surdos à profissionalização e ao mundo — e não ao mercado — do
trabalho. (SKLIAR, 1998:55).
Como pode-se observar não é apenas a questão educacional bilíngue que a
comunidade surda tem buscado, mas sim um conjunto de valores defendido como
essencial na construção do sujeito surdo e que o Bilinguismo possibilita esse
desenvolvimento por respeitar e aceitar a diversidade apresentada por eles. Portanto,
essa filosofia hoje é a mais difundida entre os profissionais de área relacionadas a
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questão da surdez, passando por processos de aceitação social, familiar – no caso de
famílias de surdos – e acadêmica.
Segundo essa mobilização social em torno das possibilidades educativas dos
surdos é que desenvolveu-se uma enquete sobre o tema numa comunidade virtual de um
site
de
relacionamentos
para
descobrirmos
a
aceitação
dessas
filosofias.
Essa
comunidade é específica para debates sobre a língua de sinais e da pessoa surda,
portanto, as pessoas que dela participam são, em grande parte, profissionais de áreas
afins a surdez/libras, pessoas surdas e demais interessados no tema.
A
questão
feita
foi:
“Em
sua
opinião,
qual
é
o
melhor
método
de
ensino/educação para surdos?” e as possibilidades de respostas eram: 1 – Oralismo; 2 –
Comunicação Total e; 3 – Bilinguismo. Os participantes deste ambiente virtual só
puderam escolher uma resposta, dos mais de mil votos que foram computados chegamos
a estes dados:
Gráfico 1: Enquete sobre as filosofias educacionais para surdos
69,22%
27,39%
3,38%
Fonte:
Comunidade
(www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=62227).
319
LIBRAS
X C ON G R ESS O D E ED UC AÇ Ã O D O N O R T E P I ON E I R O
N o vo s Di re i to s , N o v as Pr át i c a s So c i ai s: e a E du c a ç ão ?
UE N P- C C H E-C LC A –C A M PU S JA C A R EZ IN H O
AN A IS – 20 10
IS SN – 1 80 8- 35 7 9
Pode-se observar, com o grande número de votos obtidos, que essa questão das
filosofias de educação para surdos paira sobre o pensamento dos profissionais que
trabalham com as pessoas surdas e com os próprios surdos, pois a questão de ordem
hoje é a funcionalidade que as pessoas devem exercer, a qualidade de vida que todos
buscam e a dignidade e respeito para com todas as pessoas, com deficiência ou não.
Com toda a argumentação e colaboração de diversos autores chega-se a uma
ideia final sobre as filosofias educacionais para surdos: com as modificações sociais que
aconteceram ao longo dos tempos os surdos tomaram seu destino nas mãos e não mais
permitem que decisões que afetam diretamente suas vidas sejam conduzidas e
direcionadas
por
pessoas
sem
o
conhecimento
cultural
e
linguístico
que
eles
desenvolveram a partir da falta de audição, portanto, as antigas tendências de se educar
o surdo com o foco no modelo ouvinte caiu em desuso e toda e qualquer aproximação a
estas metodologias são rejeitadas pelo povo surdo que querem mais do que se igualar a
uma comunidade ouvinte, querem sim ser protagonistas de sua própria história dentro
de todas as instâncias da vida e sendo a educação a área que lhes permite o
conhecimento e as habilidades necessárias para se efetivar no mundo, é nela que eles
irão se apoiar.
REFERÊNCIAS
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outubro de 2008.
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X C ON G R ESS O D E ED UC AÇ Ã O D O N O R T E P I ON E I R O
N o vo s Di re i to s , N o v as Pr át i c a s So c i ai s: e a E du c a ç ão ?
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Para citar este artigo:
BORDINHON, Thiago. Filosofias educacionais para surdos. In: X CONGRESSO DE
EDUCAÇÃO DO NORTE PIONEIRO Jacarezinho. 2010. Anais. ..UENP – Universidade
Estadual do Norte do Paraná – Centro de Ciências Humanas e da Educação e Centro de
Letras Comunicação e Artes. Jacarezinho, 2010. ISSN – 18083579. p. 309 – 321.
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