Universidade de Brasília EDUARDO HENRIQUE NAVES O ESPORTE COMO PRÁTICA INCLUSIVA: uma realidade na cidade de Três Ranchos/GO? Catalão/GO 2007 2 EDUARDO HENRIQUE NAVES O ESPORTE COMO PRÁTICA INCLUSIVA: uma realidade na cidade de Três Ranchos/GO? Monografia apresentada ao Curso de Especialização em Esporte Escolar do Centro de Educação à Distância da Universidade de Brasília em parceria com o Programa de Capacitação Continuada em Esporte Escolar do Ministério do Esporte para obtenção do título de Especialista em Esporte Escolar. Catalão/GO 2007 3 Banca Examinadora ______________________________________ Profª Ms. Lana Ferreira de Lima (Orientadora) Mestre em Educação Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão _______________________________ Prof. Ms. Ari Lazzaroti Filho (Leitor) Mestre em Educação Brasileira Universidade Federal de Goiás 4 DEDICATÓRIA Dedico este trabalho as pessoas que através de seus esforços fazem que a área da Educação Física cresça em especial a minha orientadora Lana Ferreira de Lima, que me incentivou várias vezes na continuidade deste trabalho. Dedico ainda a todos que participaram com sua ajuda na realização do Programa Segundo Tempo no Colégio Estadual Maria Elias de Melo. 5 AGRADECIMENTOS Inicialmente agradeço a Deus pela oportunidade de vivenciar este momento. Agradeço a todas as pessoas que durante a realização deste trabalho contribuíram para sua realização, seja com incentivos de apoio, com dicas ou até mesmo com a sua ausência, dou a todos um tratamento igual e os meus sinceros agradecimentos. Em especial a minha orientadora Lana, que aqui reconheço não fossem seus vários telefonemas, e-mails eu não teria terminado essa pós-graduação, além desse incentivo seus conhecimentos, suas sábias orientações e tolerância quando da extrapolação quase que sempre dos prazos estabelecidos, deixo expresso meu apreço e reconhecimento de tamanha competência profissional. Aos amigos que com suas experiências profissionais me ajudaram na elaboração deste trabalho, não quero aqui cometer nenhuma injustiça em citar nomes e vir a me esquecer de alguém, fica um agradecimento a todos. Aos meus familiares e minha namorada Josiele, pela tolerância nos momentos de mau humor e apoio nos momentos de dificuldade. E finalmente aos organizadores desse curso de capacitação que nos deram à oportunidade de aperfeiçoarmos nossos conhecimentos em nossa área de atuação. 6 EPÍGRAFE “O conhecimento é processo diário que não termina nem acaba” Demo 7 Resumo NAVES, Eduardo Henrique. O Esporte como prática inclusiva: uma realidade na cidade de Três Ranchos/GO? 2007. 54f. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Esporte Escolar) - Centro de Educação à Distância da Universidade de Brasília - Ministério do Esporte, Brasília/DF. 2007. Este trabalho apresenta como objeto de estudo, a prática esportiva enquanto elemento de inclusão no Programa Segundo Tempo, desenvolvido na cidade de Três Ranchos/GO, o qual teve a duração de treze meses, com início em agosto de 2004 e término em outubro de 2005. Desse modo estabelecemos como objetivo geral deste estudo analisar como os alunos, monitores, professores e direção do Colégio Estadual Maria Elias de Melo compreendem a relação esporte-inclusão a partir da realização do Programa Segundo Tempo na cidade de Três Ranchos/GO. Mais especificamente objetivamos: a) analisar a relação Educação Física, Esporte e Cultura; b)refletir sobre o papel do esporte enquanto um elemento mediador da inclusão social; c)caracterizar a escola-campo em que foi desenvolvido o Programa Segundo Tempo; d)descrever e analisar a compreensão de alunos, monitores e direção do Colégio Estadual Maria Elias de Melo acerca da relação esporte-inclusão a partir da realização do Programa Segundo Tempo. Para a realização deste trabalho desenvolvemos uma pesquisa de campo. Para tanto a população do estudo foi composta pelos dois monitores que desenvolveram o Programa Segundo Tempo na escola-campo, a direção da escola e alunos que participaram do Programa. Para a coleta de dados foram aplicados questionários para cada grupo contendo questões abertas e fechadas. Os questionários eram diferentes para cada grupo contendo perguntas sobre esporte, inclusão e o Programa Segundo Tempo. Concluímos que para todas as categorias que fizeram parte da coleta de dados (alunos, monitores e direção) o Programa Segundo Tempo a partir de suas ações contribuiu para uma ação inclusiva nesta localidade, através de uma metodologia diferenciada nas aulas do programa, que não selecionava nem discriminava, muito menos buscava homogeneizar as ações, buscávamos nas ações estimular a criatividade e o respeito às diferenças. 8 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Demonstrativo do total de alunos e alunas distribuídas por ano e turma........................................................................................................................................ 39 Quadro 2 - Motivos que levaram os alunos a participarem do Programa Segundo Tempo ...................................................................................................................... 42 Quadro 3 - Dificuldades encontradas para participar do Programa Segundo Tempo...................................................................................................................................... 43 Quadro 4- Dificuldades apresentadas pelos alunos/alunas para participar nas atividades esportivas nos PST................................................................................................................... 44 Quadro 5 - Concepções de esporte dos alunos..........................................................................45 Quadro 6 - Concepções de inclusão ........................................................................................ 47 9 LISTA DE SIGLAS CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais EJA - Educação de Jovens e Adultos FMI – Fundo Monetário Internacional FUNDEC/MEC - Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação/Ministério da Educação e Cultura IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística PRAEC - Projeto de Atividades Educacionais Complementares PROINFO - Programa Nacional de Informática na Educação PST - Programa Segundo Tempo 10 Sumário Página Resumo.......................................................................................................................... 07 Lista de Quadros............................................................................................................ 08 Lista de Siglas ................................................................................................................ 09 Introdução...................................................................................................................... 11 Procedimentos Metodológicos...................................................................................... 17 Capítulo I - Cultura, Educação Física, Esporte e Inclusão............................................ 19 1.1 – Educação Física, Esporte, Cultura....................................................................... 22 1.2 – O papel do esporte enquanto elemento de inclusão social................................... 25 1.3 – Escola, Esporte, Inclusão..................................................................................... 27 Capítulo II - Inclusão/exclusão no Programa Segundo Tempo no Colégio Estadual Maria Elias De Melo..................................................................................................... 33 1. Caracterização do município de Três Ranchos......................................................... 33 2. Contornos da escola campo....................................................................................... 36 3. A relação esporte-inclusão, na perspectiva dos alunos, a partir da realização do Programa Segundo Tempo............................................................................................ 39 4. A relação esporte-inclusão, na perspectiva dos monitores e direção, a partir da realização do Programa Segundo Tempo....................................................................... 48 Considerações Finais...................................................................................................... 52 Referências...................................................................................................................... 54 Anexos............................................................................................................................ 57 11 Introdução Dentre os objetivos do Programa Segundo Tempo (PST) está a preocupação em avaliar e acompanhar o esporte educacional no Brasil, bem como propiciar o contato com a prática esportiva, desenvolver capacidades e habilidades motoras de crianças e jovens, contribuir para a diminuição da exposição a situações de risco social e ainda qualificar os recursos humanos profissionais. De forma geral este é um Programa idealizado pelo Ministério de Esporte que se caracteriza pelo acesso no contra-turno escolar, de crianças e adolescentes em situação de risco social, a diversas atividades e modalidades esportivas (individuais e coletivas), desenvolvidas em espaços físicos da escola ou em espaços comunitários, tendo como enfoque principal o esporte educacional como forma de inclusão social. (MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2007). A partir desses elementos temos como objeto de estudo, neste trabalho, a prática esportiva enquanto elemento de inclusão no Programa Segundo Tempo, desenvolvido na cidade de Três Ranchos/GO, o qual teve a duração de treze meses, com início em agosto de 2004 e término em outubro de 2005. Inicialmente deixamos clara a idéia de que a existência de excluídos acompanha a história da humanidade, já que sempre existiram pessoas vitimadas por processos de dominação e segregação, motivados por problemas relacionados com religião, política, saúde, etnia sexo, economia etc.que tiveram predominância exclusiva ou combinada em cada momento histórico. (RIBEIRO, 1999 apud ALMEIDA, 2002). É necessário aqui não simplificarmos o tema exclusão tratando-o apenas como um processo do campo de trabalho e sim como uma problemática social mais complexa presente nas mais variadas camadas sociais, estando relacionado ainda com a falta de acesso a práticas esportivas e atividades culturais. Assim, para nos orientarmos melhor sobre o que estamos denominando de inclusão, nos pautaremos no autor Bracht (2006) o qual nos diz que a Inclusão precisa ser entendida como a participação ou a construção das condições de possibilidade para participar da construção cultural: cidadania cultural (não apenas consumir o que a indústria cultural produz). Nesse sentido, a escola e a educação física possuem uma responsabilidade intransferível. Incluir não pode significar integrar de forma subordinada, vale dizer, não na condição de mero consumidor, e sim de cidadão. (p. 127) 12 Diante do exposto acima se torna necessário entendermos que a inclusão visa oportunizar condições de vivências igualitárias a todos os membros da sociedade indiferentemente de classes sociais, crenças religiosas ou quaisquer diferenças que seja. Mas para além de incluir devemos também nos atentar a como se dará o processo inclusivo, buscando garantir que o indivíduo incluído seja muito mais do que um receptor de tarefas, de dados, de conhecimento e sim favorecer a este ter uma visão de suas possibilidades enquanto sujeito constituinte do processo, podendo assim contribuir com a formação de cidadãos críticos. Segundo Rabelo e Amaral (2003) a inclusão se baseia na idéia de que todas as pessoas devem, democraticamente, participar de forma ativa na organização da sociedade, de tal maneira que todos possam ter acesso às oportunidades de desenvolvimento sociocultural, incluindo-se também os elementos da cultura corporal, e considerando-se suas características individuais. Compreendemos com essa fala uma necessidade em rompermos com a visão ofuscada pelo não reconhecimento das diferenças, valorizando ações homogenizadoras que acabam segregando indivíduos em função da cor, raça, classe econômica. Faz-se necessário entendermos e aprendermos a lidar com as diferenças sem classificá-las com estereótipos. Nessa linha de raciocínio que aponta para a relação inclusão e diversidade, encontramos os autores Marques e Marques (2003) que tratam a inclusão como sendo um princípio alicerçado no entendimento de que existem diversas formas de existência humana, portanto um ideário pautado no princípio da diversidade humana. Entendemos assim, que as diferenças que se fazem presentes na sociedade vão aparecer também no contexto escolar por meio, por exemplo, de ritmos diferentes de aprendizagem, classe social, cor, raça, biótipo e outras; a escola inclusiva, nessa perspectiva, deve se pautar nas multiplicidades, nas diversidades, e não ficar centralizada num modo padrão. (MARQUES, MARQUES, 2003). Para compreender nosso interesse pelo objeto ‘prática esportiva enquanto elemento de inclusão no Programa Segundo Tempo’ faz-se necessário antes de mais nada um regresso ao tempo em que ainda cursávamos a graduação em Educação Física; pois desde esse período tínhamos consciência da importância que o esporte possuía no contexto da área, como uma prática corporal constituída por códigos e significados, porém não conhecíamos a dimensão exata que este elemento da cultura corporal possuía dentro da escola, haja vista que este é tratado no ambiente escolar como um dos principais conteúdos da disciplina Educação Física. Na graduação são várias as disciplinas que trazem o debate sobre o tema esporte como, por exemplo, as disciplinas específicas no trato esportivo: Basquetebol, Futebol, 13 Handebol, Natação assim como disciplinas de trato pedagógico como Didática e Prática de Ensino, Filosofia e História das Atividades Corporais, Estrutura e Funcionamento Ensino, Antropologia Social e Aprofundamento em Educação Física Escolar. Tais disciplinas fortalecem nosso conhecimento sobre as dimensões pedagógicas no trato com o esporte, possibilitando um entendimento deste nas suas mais diferentes manifestações: esporte de rendimento, que é visto como uma prática de reprodução de valores, normas, técnicas e gestos da sociedade vigente, incorporando códigos e significados que reforçam os princípios de alta competitividade (COMISSÃO DE ESPECIALISTAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA DO MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004, módulo I, p.34); esporte educacional, visto na contra-mão do esporte de rendimento pois possibilita superarmos a idéia de transmitir e ensinar técnicas de esporte com vistas a competição e sim transformá-lo pedagogicamente (COMISSÃO DE ESPECIALISTAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA DO MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004, módulo I, p. 25); esporte enquanto lazer que trata de aspectos mercadológicos e eficácia do mesmo enquanto uma política social (COMISSÃO DE ESPECIALISTAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA DO MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004, módulo I, p. 28). Para, além disso, há no decorrer do curso de graduação uma discussão constante sobre a relação entre Educação Física e esporte com vistas ao desenvolvimento de um sujeito em todas as suas dimensões motoras cognitivas e sociais oportunizando o acesso a todos e valorizando os conhecimentos que os alunos trazem consigo as habilidades e vivências motoras. Portanto, nossa formação inicial nos possibilitou entender que não devemos excluir ninguém das aulas de Educação Física e que todos os alunos merecem ter a mesma oportunidade, consideração e respeito, e a instituição escola, neste processo, deve atuar como um mediador da inclusão social, pois conforme Almeida (2002) a escola é um espaço sociocultural, portanto em articulação com o contexto social em que está inserida, tornando-se responsável pela abordagem pedagógica do conhecimento e da cultura. Desse modo, veremos que na escola em vários momentos e situações é reforçada a hierarquização e desigualdade social presente no modelo econômico da sociedade capitalista, já que o professor passa a reproduzir os parâmetros da produção e do rendimento, trazendo-os para a prática cotidiana das aulas. Nessa perspectiva o professor torna-se um objeto a serviço do rendimento corporal como preparo para o trabalho produtivo necessário às sociedades capitalistas. Nesse sentido percebemos que o corpo humano é moldado como instrumento político e instrumentalizado pelo poder, com o fim de disciplinar e camuflar as desigualdades 14 sociais. (COMISSÃO DE ESPECIALISTAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA DO MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004, módulo I, p. 104) Porém, temos claro, que essa mesma escola age também na busca pela superação das diferenças e luta por oferecer uma Educação de qualidade. Assim, podemos dizer segundo Tiballi (2002) que a educação está posta entre dois movimentos opostos, no primeiro é a defesa de uma sociedade mais humana e justa construída através das ações participativas dos seus cidadãos e o Estado fica responsável por oferecer não só educação por si só, mas uma educação de qualidade e igualitária que conscientize todos os alunos do papel social que lhes cabe. O outro movimento que age de maneira oposta é a afirmação dos princípios capitalistas na economia sofrendo interferências de órgãos estrangeiros como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), que influenciam as políticas públicas inclusive a educacional, impondo uma dicotomia entre o discurso de uma escola pública de qualidade para todos e a prática que, de modo geral vem sendo utilizada. Nessa perspectiva, uma escola inclusiva será o reflexo de uma sociedade inclusiva e, por outro lado, uma educação inclusiva terá influência sobre a sociedade, transformando-a em uma sociedade voltada para todos, que não acolha em seu seio a intolerância para com os diferentes. (RABELO, AMARAL, 2002). Podemos entender que a escola e a sociedade estão numa relação intrínseca, onde os impactos de ações tanto de uma quanto de outra terá reflexos em ambos, uma educação que rompa com os princípios capitalistas que estabeleça explicitamente ou implicitamente parâmetros de rendimento, que devem ser buscados e constantemente superados numa sociedade capitalista reforçando uma educação excludente reforçada pela hipercompetitividade. Esta exclusão também se manifesta nas diferenças entre as classes sociais e nas oportunidades de acesso a bens de consumo e cultura restrito a apenas uma parte da população, no caso os incluídos. A partir desse entendimento, nos dedicamos de uma forma especial a observar durante as aulas de Educação Física no Colégio Estadual Maria Elias de Melo na cidade de Três Ranchos – GO a maneira como se manifestava o processo de inclusão/exclusão dentro da escola por meio do trabalho com o esporte. No ano de 2004 começamos a trabalhar no Colégio Estadual Maria Elias de Melo, na cidade de Três Ranchos, local onde foi desenvolvido o núcleo do Programa Segundo Tempo em questão aqui, logo quando do início de nossa atuação percebemos naquela localidade uma grande dificuldade em lidar com o conteúdo esporte, pois ali estava presente uma tendência à 15 reprodução do esporte de rendimento e para além disso os conteúdos desenvolvidos nas aulas de Educação Física se limitavam ao Futsal, Handebol e Basquetebol. Logo percebemos que a freqüência e participação dos alunos nas aulas teóricas eram satisfatórias, mas sempre com a cobrança pela aula prática; as aulas teóricas eram organizadas de forma a apresentar e discutir um conteúdo que seria posteriormente desenvolvido em atividades práticas e durante as quais objetivávamos não só possibilitar aos alunos a aprendizagem dos conteúdos mas também desenvolver as relações interpessoais entre os mesmos. Durante as aulas práticas observávamos que tanto a presença quanto a participação dos alunos eram insatisfatórias, fato este que nos incomodava bastante, pois eram sempre os mesmos alunos/as que participavam e os/as demais se negavam a participar das atividades demonstrando um grande desinteresse, mesmo a aula tendo por objetivo a participação de todos e, portanto não selecionando nem excluindo ninguém. Tal fato ocorria, em nosso entendimento, devido a problemas tais como, a exclusão das atividades daqueles alunos que tinham um repertório motor menos desenvolvido que outros alunos com sobrepeso ou menor domínio das habilidades técnicas gerando uma intolerância por parte daqueles com que consideravam apresentar um maior domínio/habilidade nas práticas esportivas desenvolvidas nas aulas de Educação Física. Estes fatos se agravavam nos anos finais do processo de escolarização tanto na segunda fase do Ensino Fundamental quanto ao final do Ensino Médio, pois alguns alunos em conversas informais durante as aulas, ou não, justificavam não participar das aulas práticas principalmente pela intolerância dos próprios colegas quanto aos seus erros e limitações, e também pela repetição dos conteúdos estudados os quais não avançavam nos diferentes anos de escolarização. Portanto, no ambiente escolar percebemos através de observações assistemáticas que a visão dos membros da comunidade escolar (professores, direção etc...) em relação à Educação Física ainda está pautada numa lógica de rendimento visando a descoberta de talentos esportivos. Em face disso sofremos cobranças por parte da comunidade escolar para obtenção de resultados em participações em jogos estudantis, existindo a necessidade de selecionarmos os alunos mais aptos, ou seja, aqueles que possuem melhores qualidades técnicas para representarem a escola nos jogos estudantis. Desta maneira começa a surgir o processo de exclusão gerada pelos próprios alunos que discriminam os menos habilidosos em certas práticas esportivas e até mesmo de nossa parte enquanto professores uma vez que precisamos apresentar resultados satisfatórios. 16 Com a implantação do PST passamos a ter um suporte para trabalhar de forma diferenciada e mais justa com aqueles alunos menos aptos e também com os portadores de alguma necessidade especial. Na condição de coordenador do PST na Escola Maria Elias de Melo, percebíamos através das aulas ministradas pelos monitores e também por meio da troca de experiências em nossas reuniões semanais, que o referido Programa veio em boa hora para suprir as necessidades que encontrávamos dentro da escola. No Programa os monitores foram instruídos a lidar com a inclusão social e, portanto, desenvolveram seu trabalho tentando fazer com que todos os alunos que ali estavam participassem das aulas estimulando-os a desenvolver mais do que habilidades técnicas pertinentes aos desportos ali desenvolvidos, mas que fossem desenvolvidas capacidades cognitivas e sociais, além de valores como respeito e cooperação com o próximo. Diante dessa vivência no ambiente escolar e as observações assistemáticas realizadas durante as aulas na escola, um fator que fortaleceu nosso interesse em refletir sobre a prática esportiva enquanto elemento de inclusão no Programa Segundo Tempo, foi o fato de termos iniciado o Curso de Especialização em Esporte Escolar, oferecido pela Subsecretaria Regional de Educação da cidade de Catalão – GO em parceria com a Universidade de Brasília. Isto porque durante o referido Curso pudemos refletir sobre nossa prática docente, bem como sobre o esporte como política social para todos, o direito da criança e do adolescente no esporte, o homem como produtor e consumidor do esporte e dessa forma aprofundar nossos conhecimentos sobre o esporte educacional. Com a discussão dos módulos de estudo avançamos nas concepções de esporte educacional compreendendo que este deve ser trabalhado numa perspectiva inclusiva favorecendo e oportunizando o acesso para todos os alunos a todas as atividades desenvolvidas. O esporte possibilita educar através da cooperação, da solidariedade, dá noção de conjunto, organização, discussão de regras, socialização e temas da cultura corporal assim as atividades devem favorecer a participação de todos e para isso torna-se importante que no interior das escolas, a comunidade tenha acesso a práticas culturais e sociais que a possibilite interagir com e através do esporte. (COMISSÃO DE ESPECIALISTAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA DO MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004, módulo I, p. 34-35). Tendo em vista estas considerações, levantamos para reflexão no decorrer deste trabalho a seguinte indagação: como os alunos, monitores e direção compreendem a relação esporte-inclusão a partir da realização do Programa Segundo Tempo? Desse modo estabelecemos como objetivo geral deste estudo analisar como os alunos, monitores, professores e direção do Colégio Estadual Maria Elias de Melo compreendem a 17 relação esporte-inclusão a partir da realização do Programa Segundo Tempo na cidade de Três Ranchos/Go. Mais especificamente objetivamos: a) analisar a relação Educação Física, Esporte e Cultura; b) refletir sobre o papel do esporte enquanto um elemento mediador da inclusão social; c) caracterizar a escola-campo em que foi desenvolvido o Programa Segundo Tempo; d) descrever e analisar a compreensão de alunos, monitores e direção do Colégio Estadual Maria Elias de Melo acerca da relação esporte-inclusão a partir da realização do Programa Segundo Tempo. Procedimentos Metodológicos Para a realização deste trabalho desenvolvemos uma pesquisa de campo. Para tanto a população do estudo foi composta por dois monitores que desenvolveram o Programa Segundo Tempo na escola-campo, a direção da escola e alunos que participaram do Programa. Tendo em vista que o Programa foi desenvolvido no Colégio Estadual Maria Elias de Melo no período de agosto de 2004 a outubro de 2005, para escolhermos os alunos que participariam da pesquisa foi obedecida à seriação atual em que se encontravam 9ºA, 9ºB, 1ºA, 2ºA, 3ºA. Assim, selecionamos aleatoriamente e por acessibilidade dois alunos de cada uma das séries (9ºA, 9ºB, 1ºA, 2ºA e 3ºA), sendo um do sexo masculino e um do sexo feminino. Essa escolha por alunos do fim do Ensino Fundamental e alunos do Ensino Médio se deu por entendermos que os mesmos possuem mais maturidade para responder as questões apresentadas no instrumento de coleta de dados. Para a coleta de dados foram aplicados questionários para cada grupo contendo questões abertas e fechadas. Os questionários eram diferentes para cada grupo contendo perguntas sobre esporte, inclusão e o Programa Segundo Tempo. A partir dos dados obtidos organizamos este estudo em dois capítulos no primeiro fazemos uma reflexão sobre os aspectos cultura, escola, Educação Física, Esporte e inclusão/exclusão. No último capítulo apresentamos a caracterização da cidade de Três Ranchos, da escola-campo e apresentamos e analisamos os dados coletados junto a alunos, monitores e direção. Esperamos com a realização de este trabalho poder contribuir para uma visão totalitária no trato do esporte como ferramenta inclusiva, tratando-o pedagogicamente no âmbito escolar favorecendo e oportunizando a todos os alunos o acesso as atividades sem 18 necessariamente ser um reprodutor de técnicas esportivas já constituídas, ou dominar gestos técnicos pré-estabelecidos historicamente. 19 CAPÍTULO I Cultura, Educação Física, Esporte e Inclusão Iniciamos nosso capítulo analisando a relação Educação Física, Esporte e Cultura e posteriormente refletirmos sobre o papel do esporte enquanto um elemento mediador da inclusão social. Para tanto, em um primeiro momento refletimos sobre o termo cultura, o qual sociologicamente – entendemos ter um sentido diferente do senso comum. Sintetizando simboliza tudo o que é aprendido e partilhado pelos indivíduos de um determinado grupo e que confere uma identidade dentro do seu grupo de pertença. Na sociologia não existem culturas superiores, nem culturas inferiores pois a cultura é relativa, desigando-se em sociologia por relativismo cultural, isto é a cultura do Brasil não é igual à cultura portuguesa, por exemplo: diferem na maneira de se vestirem, na maneira de agirem,crenças, valores e normas diferentes. (WIKIPEDIA, 2007) Para a filosofia cultura é o conjunto de manifestações humanas que contrastam com a natureza ou comportamento natural. Por seu turno, em biologia uma cultura é normalmente uma criação especial de organismos (em geral microscópicos) para fins determinados (por exemplo: estudo de modos de vida bacterianos, estudos microecológicos, etc). No dia-a-dia das sociedades civilizadas, especialmente a sociedade ocidental e no vulgo, costuma ser associada à aquisição de conhecimentos e práticas de vida reconhecidas como melhores, superiores, ou seja, erudição; este sentido normalmente se associa ao que é também descrito como “alta cultura”, e é empregado apenas no singular pois não existem culturas, apenas uma cultura, à qual os homens indistintamente devem se inserir. (WIKIPEDIA, 2007) Podemos dizer portanto, que no âmbito da filosofia a cultura está atrelada aos desejos e as necessidades humanas, pois através deles são criadas respostas para lhe satisfazer. A cultura é o resultado dos modos como os diversos grupos humanos foram resolvendo os seus problemas ao longo da história. Entretanto, na cultura não existe somente a repetição da cultura antiga mas a criação, o homem cria elementos que a renovam. A cultura favorece a humanização, pois o homem está inserido num grupo cultural e nesse grupo a cultura manifesta-se como um sistema de símbolos compartilhados com que se interpreta a realidade e que conferem sentido à vida dos seres humanos.(WIKIPEDIA, 2007). 20 Para a Antropologia a cultura é vista como o totalidade de padrões aprendidos e desenvolvidos pelo ser humano. Para Edward Burnett Tylor em sua definição pioneira, sob a etnologia (ciência relativa especificamente do estudo da cultura) a cultura seria “o complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, morais, leis, costumes e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. (WIKIPEDIA, 2007) Quando indagamos se tudo é cultura, Martins (2007) nos apresenta a seguinte resposta: Sim e não, dependendo de usarmos o conceito amplo de cultura ou o conceito restrito. Considerando, em primeiro lugar, o conceito amplo ou antropológico, cultura é o modo como indivíduos ou comunidades respondem às suas próprias necessidades e desejos simbólicos. O ser humano, ao contrário dos animais, não vive de acordo com seus instintos, isto é, regido por leis biológicas, invariáveis para toda a espécie, mas a partir da sua capacidade de pensar a realidade que o circunda e de construir significados para a natureza, que vão além daqueles percebidos imediatamente. A essa construção simbólica, que vai guiar toda ação humana, dá-se o nome de cultura. A cultura, nesse sentido amplo, engloba a língua que falamos, as idéias de um grupo, as crenças, os costumes, os códigos, as instituições, as ferramentas, a arte, a religião, a ciência, enfim, todas as esferas da atividade humana. Mesmo as atividades básicas de qualquer espécie, como a reprodução e a alimentação, são realizadas de acordo com regras, usos e costumes de cada cultura particular. Os rituais de namoro e casamento, os usos referentes à alimentação (o que se come, como se come), o preparo dos alimentos, o tipo de roupa que vestimos a língua que falamos as palavras de nosso vocabulário, tudo isso é regulado pela cultura à qual pertencemos. A função da cultura é tornar a vida segura e contínua para a sociedade humana. Ela é o "cimento" que dá unidade a certo grupo de pessoas que divide os mesmos usos e costumes, os mesmos valores. Deste ponto de vista, portanto, podemos dizer que tudo o que faz parte do mundo humano é cultura. (MARTINS, 2007) Encontramos em Geertz (1989 apud DAOLIO, 2006) a afirmação em que sustenta que a capacidade mental, durante a evolução do homem lhe foi permitindo certas atitudes culturais, como a utilização de ferramentas, o convívio social, o início da linguagem, que determinaram a evolução final do cérebro humano. Dessa forma, a cultura, mais do que conseqüência de um sistema nervoso estruturado, seria um ingrediente para seu funcionamento (...) sem os homens não haveria cultura, mas de forma semelhante e muito significativamente, sem cultura não haveria homens. (p. 29-30) Podemos então dizer que esta discussão sobre natureza e cultura humanas relaciona-se diretamente com a questão do corpo. Existe um arcabouço biológico semelhante a todos os seres humanos, mas que se expressa e se desenvolve diferentemente, dependendo das influências culturais. Os movimentos realizados pelo corpo humano são desenvolvidos e determinados em função de uma cultura. (DAOLIO, 2006) 21 Desde que nascemos estamos determinados a seguir uma linha cultural à qual somos submetidos, ou seja, conforme os valores culturais do meio ambiente em que estamos inseridos iremos agir socialmente acreditando ser esta a maneira ideal de se comportar frente aos obstáculos que surgem em nossa vida. Biologicamente o ser humano possui as mesmas características físicas, mas culturalmente cada local do mundo pode possuir uma característica própria que difere as pessoas tornando-as propícias a agirem da maneira em que acreditam ser o correto. Segundo Rodrigues (1986 apud DAOLIO, 2006, p.31) “o corpo humano como qualquer outra realidade do mundo, é socialmente concebido, e a análise de sua representação social oferece uma via de acesso à estrutura de uma sociedade particular”. Já DaMatta (1987, p.31) afirma que “existem tantos corpos quanto há sociedades”. Então podemos dizer que o conjunto de posturas e movimentos corporais representa valores e princípios culturais de uma sociedade. Portanto, atuar no corpo implica atuar na sociedade na qual este corpo está inserido. A Educação Física, como prática institucional que trabalha cotidianamente com o corpo, deve ser pensada neste contexto. E a Educação Física escolar, que se propõe educar os alunos por meio de seu corpo, deve estar atenta à importância cultural de sua prática. (DAOLIO, 2006) Devemos considerar que a Educação Física escolar deve partir do acervo cultural dos alunos, visto que os movimentos corporais que possuem extrapolam a influência da escola, são culturais e têm significados. O professor não deve encará-los como movimentos errados, não técnicos e tentar eliminá-los. Ao contrário, o professor pode ampliar o acervo motor de seus alunos, proporcionando assim aquisição cultural maior por parte deles. Os gestos esportivos não devem limitar-se aos movimentos padronizados ensinados pelo professor, mas contemplar a experiência dos alunos e incentivar sua criatividade e sua capacidade de exploração. Normalmente, o professor de Educação Física valoriza alunos que melhor repetem as técnicas esportivas que ele deseja. Muitas vezes, o aluno que tem outra experiência de movimento, que poderia ser considerada e valorizada nas aulas de Educação Física, é punido pelo professor e torna-se alvo de chacotas por parte dos colegas. (DAOLIO, 2006) Sendo assim, trabalhar com uma prática esportiva nas aulas de Educação Física é muito mais do que ensinar regras, técnicas e táticas próprias da modalidade. É preciso, acima de tudo, contextualizar esta prática na realidade sociocultural em que ela se encontra. Se o professor de Educação Física estiver conectado com a realidade sociocultural na qual seu aluno está inserido, provavelmente terá mais condições de realizar seu trabalho de 22 forma mais competente e desta forma contribuir com uma educação que leve à transformação da realidade, permitindo ao aluno um desenvolvimento em todos os seus aspectos. O esporte é hoje um fenômeno de grande expressividade social e que merece atenção dos estudiosos, inclusive dos que procuram pensar a Educação Física Escolar. No entanto, acreditamos que não é mais possível justificar a existência do esporte no currículo escolar, como conteúdo nas aulas de Educação Física, com um discurso que argumenta em favor da descoberta e fomento do talento esportivo, muito menos quando este está atrelado a iniciativas para que este esporte escolar venha a se tornar a base do esporte de alto rendimento, pois desse modo estaremos contribuindo para reforçar a exclusão no ambiente escolar. 1.1 Educação Física, Esporte e Cultura. A Educação Física se institucionalizou no Brasil, a partir do século XIX, onde era fundamentada pelas ciências biológicas, onde tinha como objetivo o desenvolvimento da aptidão física. A Educação Física no Brasil tem sua origem desde o período colonial com os índios, esses, porém deram pouca contribuição a não ser os movimentos rústicos naturais tais como nadar, correr atrás da caça, lançar, e o arco e flecha. Nas suas tradições incluem-se as danças, cada uma com significado diferente: homenageando o sol, a lua, os deuses da guerra e da paz, os casamentos etc. Entre os jogos incluem-se as lutas, a peteca, a corrida de troncos entre outras que não foram absorvidas pelos colonizadores. Sabe-se que os índios não eram muito fortes e não se adaptavam ao trabalho escravo. (CDOF, 2007). Posteriormente os negros que vieram para o Brasil para o trabalho escravo eram levados a fugir para os Quilombos o que os obrigava a lutar sem armas contra os capitães-domato, homens a mando dos senhores de engenho que entravam mato a dentro para recapturar os escravos. Com o instinto natural, os negros descobriram ser o próprio corpo uma arma poderosa e o elemento surpresa. A inspiração veio da observação da briga dos animais e das raízes culturais africanas, surgindo daí a capoeira. (CDOF, 2007). Foi no Brasil Império, em 1851, por meio da lei nº 630, que a ginástica passou a ser incluída nos currículos escolares. Embora Rui Barbosa não quisesse que o povo soubesse da historia dos negros, preconizava a obrigatoriedade da Educação Física nas escolas primárias e secundárias praticada quatro vezes por semana durante 30 minutos. (CDOF, 2007) No período do Brasil República começou a profissionalização da Educação Física. As políticas públicas até os anos 60 eram limitadas ao desenvolvimento das estruturas 23 organizacionais e administrativas específicas tais como: Divisão da Educação Física e o Conselho Nacional de Desportos.(CDOF,2007) Nos anos 70, marcados pela ditadura militar, a Educação Física era usada, não para fins educativos, mas de propaganda do governo sendo os ramos e níveis de ensino voltado para os esportes de alto rendimento. (CDOF, 2007) Mas a partir da década de 80, a Educação Física traz em cena a questão cultural, o que trouxe um avanço significativo para a área. Nesse sentido Daolio (2006) nos traz a afirmação que a cultura é o conceito mais importante para a Educação Física: (...) defendo que a cultura é o principal conceito para a educação física, uma vez que todas as manifestações corporais humanas (esporte, dança, ginástica, jogo etc.) são geradas no seio de uma dada cultura e se manifestam diversamente no contexto de grupos culturais específicos. De fato, uma manifestação cultural como o jogo de peteca, por exemplo, é característica principalmente do estado de Minas Gerais, e não é do Brasil como um todo e, muito menos, de outros países do mundo. (p.92) Essa afirmação nos traz a clareza de que a Educação Física possui construções corporais diferentes em cada grupo social, ou seja, os hábitos corporais, os cuidados com o corpo, o tipo de dança, até a mesma modalidade esportiva, adquire funções culturais específicas de cada local, pois há várias formas culturais de compreender o jogo, a dança e o esporte. Assim, é possível entender que a dimensão cultural é um processo de ensinoaprendizagem aonde a ação corporal vai dando sentido ao movimento humano em cada lugar ou grupo em que se realiza. Desse modo, o esporte trabalhado pela Educação Física é um fenômeno cultural, fruto de um processo histórico da humanidade, que varia de acordo com as formas e significados de cada modalidade. O esporte tornou-se uma prática hegemônica no âmbito da cultura corporal de movimento pela capacidade de mobilização social. Contudo Linhales (1996 apud FARIA, 2000), ao reconstituir a trajetória política do esporte no Brasil, destaca a existência de contradições e ambigüidades na prática esportiva, sendo as suas diferentes facetas permeadas “pela multiplicidade de interesses que constituem as relações humanas, políticas e econômicas e características do século e da modernidade que acolhe”. (p.09) As transformações econômicas e a globalização que afetam as diferentes sociedades levam ao aumento do consumo, na comercialização de bens e serviços, inclusive nos esportivos. Assim, o esporte de rendimento ou espetáculo “entra em campo” por suas possibilidades de inserção nas diversas culturas e de mobilização social. (FARIA, 2000). 24 É importante que tenhamos um olhar no interior da cultura esportiva, onde os sujeitos são capazes de criar estratégias e de processar escolhas sem perder de vista certos condicionantes de tempos/espaços nas quais os sujeitos se encontram inseridos. Um importante espaço de inserção do esporte é a escola, a qual deve ser entendida não apenas como o lugar de “reprodução”, mas também como um espaço social ambíguo, relativamente autônomo, conflituoso, contraditório e de “produção de cultura”. (FARIA, 2000). Faria (2000) vem discutindo a escola, como lugar fomentador da produção de conhecimento e de construção social e afirma que O conhecimento escolar, como todo conhecimento presente na sociedade, é uma construção social produzida entre conflitos, concordâncias e consentimento dos atores/autores frente à relação de tensão e luta que busca a auto-afirmação do poder, por meio da interação social. Essa interação social ocorre em meio a uma dependência de cultura, contextos, costumes e das especificidades dos processos históricos para a construção de símbolos e significados. (p.13) Pensando as relações que a escola estabelece com a cultura – em nosso caso com a cultura esportiva – analisamos que ela se constitui numa multiplicidade de aparências e formas segundo os rumos da história e as divisões geográficas, variando de uma sociedade a outra e de um grupo a outro, no interior da mesma sociedade. E o que percebemos no plano da história da Educação Física, é que o conteúdo que vem se destacando nos últimos 50 anos, como objeto de ensino dessa disciplina, é o esporte. (GONZÁLEZ, 2006). É evidente que nós professores precisamos desenvolver a prática esportiva, não com a finalidade de educar os alunos por meio de seus corpos, mas deve ficar atenta a importância cultural de sua prática, partindo do acervo cultural dos alunos, pois são dotados de cultura e significados. Pois sabemos que o esporte sempre esteve presente em suas vidas, sendo praticado por meio de atividades e jogos livres (piques de rua, jogos com bolas nas ruas, nos passeios, em terrenos baldios e praças) nas quais participa quem quer com total liberdade de entrar e sair da brincadeira. E nesses pequenos espaços, acreditamos que há troca e aquisição de conhecimentos; valorizar e respeitar todas as formas de movimentos e regras é o nosso papel, nós enquanto agentes mediadores de conhecimentos. Por isso, como nos afirma Daolio (2006), os movimentos corporais que os alunos possuem extrapolam a influência da escola, são culturais e têm significados, o professor não deve encará-los como movimentos errados, não técnicos e tentar eliminá-los e sim ampliar o acervo motor dos alunos proporcionando aquisição cultural maior por parte deles. (p.32) 25 Essas práticas esportivas determinadas culturalmente devem fazer parte de um programa de Educação Física Escolar, onde é valorizado o que os alunos já vivenciaram em suas vidas estimulando as trocas de experiências entre os mesmos. Assim, trabalhar a prática esportiva nas aulas de Educação Física é muito mais que o ensino das regras, técnicas e táticas, é contextualizar esta prática na realidade sócio-cultural em que ela se encontra. E quando o professor volta as suas aulas para o alcance da cultura, ele busca o trabalho de inclusão, onde o aluno tem o livre acesso para participar das aulas, livre de chacotas feitas muitas das vezes pelos colegas, e o professor desenvolve um trabalho fazendo com que haja nas suas aulas momentos de criação, recriação e transformação de gestos/movimentos. O professor deve ainda entender a variabilidade dos fenômenos humanos ligados ao corpo e ao movimento; é fundamental quando se pensa na pluralidade de formas de vida que o ser humano moderno apresenta. Entender ainda que não devamos nos pautar em aspectos biológicos e sim contextualizar o movimento onde ele se realiza. (COMISSÃO DE ESPECIALISTAS EM EDUCAÇÃO FÍSICA DO MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004). Quando estudamos a Educação Física, o esporte e a cultura podemos compreender que a natureza e a cultura fazem parte de um mesmo processo. Esta natureza cultural não exclui o desenvolvimento biológico, mas o engloba. Por mais que a Educação Física historicamente seja fruto de uma visão que separou a natureza da cultura lida diretamente com o homem em integração entre estes dois aspectos. A Educação Física na escola deve, portanto, dar conta não só da pluralidade de formas da cultura corporal humana (jogos, danças, esportes, formas de ginástica e lutas) como também da expressão diferencial dessa cultura nas aulas. Assim podemos vislumbrar uma prática escolar despida de preconceitos em relação ao comportamento corporal dos alunos oferecendo a todos e a cada um o direito de uma educação física significativa. (DAOLIO, 1995). 1.2. O papel do esporte enquanto um elemento mediador da inclusão social. Inicialmente faremos uma análise de como se dá o processo de inclusão/exclusão no âmbito geral de nossa sociedade e posteriormente relacionando-o com e esporte. Entender a inclusão nos remete a pensar esse processo sob um olhar crítico sobre as relações de poder, dominação e classes sociais. Um critério básico para identificar os incluídos é a prática social e econômica desse estrato social. Entretanto, este critério, na maioria das vezes, não é explicitado nem debatido 26 porque, caso isto aconteça, a identificação dos responsáveis pela existência dos excluídos saltará aos olhos de todos, denunciando que a existência dos incluídos é condição necessária para a existência dos excluídos. (COMISSÃO DE ESPECIALISTAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA DO MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004, p.68) Então a idéia de inclusão social, parte do princípio que existe uma exclusão social de determinado estrato social e que estas pessoas vivem à margem das riquezas sociais geradas historicamente por todos os homens. Assim, para Tiballi (2002), os termos exclusão e inclusão não podem ser suficientemente explicados senão vinculando-os a desigualdade social que tem na estrutura social de classes a sua sustentação. Inclusão e exclusão são desdobramentos da desigualdade social fundante das sociedades estruturadas em classes sociais. Diante disso, torna-se necessário ressignificar a diversidade humana e para que isso ocorra é necessário direcionar as políticas sociais para uma lógica que garanta modificações profundas na maneira de gerar e distribuir riqueza no país. A partir dessa compreensão procuraremos a seguir fazer uns resgates históricos nas relações que marcaram os incluído e excluídos. Na Antiguidade a organização social estava centrada na herança familiar e distinção entre escravos e amos. Observamos que o indivíduo nascia livre ou escravo, sendo ao segundo negado o direito de acesso aos benefícios sociais. No muno medieval e moderno os donos de grandes propriedades rurais, senhores feudais, clero e nobreza, viviam no ócio e à custa do trabalho dos servos e dos vassalos. Já no mundo contemporâneo, os homens tornaram-se iguais em direito, restando aos donos do capital e aos proprietários dos meios de produção comprar a força dos trabalhadores rurais e urbanos, pagando sempre menos que o valor do trabalho realizado. Com isso poucos trabalhadores conseguem ter acesso aos benefícios sociais que ajudaram a criar. (COMISSÃO DE ESPECIALISTAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA DO MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004). Existem, ainda em nossa era, outras distinções sociais importantes que merecem ser destacadas. Por exemplo, no início do século XX os excluídos eram os ignorantes e os iletrados. Em meados desse mesmo século passaram a ser os não especialistas, os incompetentes e os destreinados. Atualmente no século XXI os excluídos são os diferentes e os desiguais. Desde já podemos observar a questão do rendimento atrelando valores aos cidadãos. Um fato importante de ser analisado é até que ponto o discurso de implementação de práticas inclusivas vai realmente atender as necessidades, haja vista que na nossa sociedade as 27 pessoas excluídas são um dos pilares de sustentação da própria desigualdade, tal fato nos permite considerar que Acabar com a relação de alienação e domínio que existe entre os desiguais é o mesmo que acabar com o próprio sistema econômico vigente, e isto poucos colocam como horizonte possível, sobretudo os adaptadores sociais. (COMISSÃO DE ESPECIALISTAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA DO MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004, p.70). Portanto, pode-se dizer que é necessário que as ações desenvolvidas não sejam reduzidas meramente a ações paliativas para diminuir as desigualdades no que tange as oportunidades, mas atacar as desigualdades sociais como um todo, ou seja é necessário melhor distribuir a renda, independente do trabalho social gerador dessa fonte de recursos, colocando mais próximos os menores e maiores salários. (COMISSÃO DE ESPECIALISTAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA DO MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004). 1.3 Escola, Esporte e Inclusão Para Figueiredo (2002) a escola é um terreno fértil de aprendizagens diversas, constitui o espaço privilegiado para as manifestações de ordem afetiva, social e cognitiva dos sujeitos em enfrentamento do outro e da cultura. Entendemos assim a escola como um lugar de múltiplas possibilidades, de transformações e produtora de conhecimento, e nela são aprendidas as regras básicas de convivência em sociedade, indispensáveis à sobrevivência social. Nos dias atuais vemos um debate em torno de uma educação inclusiva que não pode continuar anulando e marginalizando as diferenças nos processos através dos quais forma e instrui os alunos e muito menos desconhecer que aprender é errar, ter dúvidas, expressar, dos mais variados modos, o que sabemos, representar o mundo, a partir de nossas origens,valores, sentimentos. Por esses motivos Mantoan (2002) aponta que muitas crianças, jovens e aprendizes em geral são penalizados nas salas de aula e até mesmo por suas famílias e pela sociedade. A exclusão escolar manifesta-se das mais diversas e perversas maneiras, e quase sempre o que está em jogo é a incompetência do aluno, o qual sofre as conseqüências de um jogo desigual, de cartas marcadas pelo autoritarismo e poder arcaico do saber escolar. Sabemos que uma educação inclusiva é ainda nos tempos de hoje um desafio para educadores, já que é necessário um rompimento com o paradigma tradicional da educação 28 escolar que busque a cada dia dar as melhores condições para atender as necessidades e principalmente as peculiaridades dos alunos. Entendemos que a educação produtora de igualdades preza pela homogeneidade reforçando as desigualdades, assegurar as diversidades é necessário, nesse sentido Figueiredo (2002) nos remete a pensar a diversidade: Formada pelo conjunto de singularidades, mas também de semelhanças, que une o tecido das relações sociais. Logo, está presente em todas as interações e manifestações do ser humano, mesmo que se tente normatizar, ordenar e regulamentar determinadas relações, como pretende a escola. Parece que, na tentativa de garantir a promoção da igualdade, a escola está confundindo diferenças com desigualdades. Aquelas são inerentes ao ser humano enquanto são socialmente produzidas. As diferenças enriquecem, ampliam, são desejáveis porque permitem a identificação/diferenciação,por conseguinte contribuem para o crescimento. As desigualdades ao contrario, produzem inferioridade, porquanto minam o desenvolvimento das potencialidades humanas pelo fato de implicarem relações de exploração. As diferenças assentem na cooperação, enquanto as desigualdades ocasionam competição. Adotar a abordagem da diversidade implica reconhecer as diferenças e, a partir delas, realizar a gestão da aprendizagem, tendo presente o ideário político pedagógico da escola que pensa uma educação capaz de atender a todas as crianças, tendo em grande consideração as desigualdades sociais. (p. 6970) Reconhecer as diversidades é também reconhecer e valorizar as diferenças, a heterogeneidade dos processos de construção coletiva e individual do conhecimento. Tais escolas são inclusivas, pois não excluem os alunos, ou seja, não têm valores e medidas predeterminantes de desempenho escolar, considerando a pluralidade um fator relevante para o desenvolvimento. Para Almeida (2002) uma educação que vise dotar o país de uma população capaz de participar ativa e criticamente na construção de um futuro melhor deve ter como objetivo a realização plena dos seus cidadãos. Entendemos necessária assim uma educação não somente visando ascensão no mercado de trabalho, mas sim que oportunize acesso ao conhecimento e a concomitantemente a formação de um cidadão realizado tanto individualmente quanto coletivamente, na economia, na política e na cultura. Na Educação Física, mais do que nunca, é necessário abandonar modelos arcaicos que já não atendem às expectativas da sociedade atual, como é o caso do modelo de aptidão física que traz em si uma visão positivista da produtividade e concebe o humano como uma máquina capaz de produzir trabalho. E neste caso, deve-se desconstruir as práticas segregacionistas, mesmo as mais simples que se apresentam em nossas aulas e que requerem um trabalho diferenciado. 29 O esporte enquanto fenômeno que surgiu das transformações de elementos da cultura corporal de movimento das classes populares e da nobreza inglesa, é interpretado como um produto da ascensão da nova forma da organização social capitalista presente na Idade Moderna. (PRONI apud GONZÁLES, 2002). Logo em seguida ao período da Segunda Guerra, o esporte apresenta um grande desenvolvimento, afirmando-se paulatinamente em todos os países sob a forma de influência da cultura européia como elemento predominante da cultura corporal. (COLETIVO DE AUTORES, 1992). Essa influencia vai se apresentar com tal magnitude que passa a ter, agora o esporte na escola e não mais o esporte da escola. Indicando assim uma subordinação da Educação Física aos códigos e sentidos da instituição esportiva, caracterizando o esporte na escola como um prolongamento da instituição esportiva: esporte olímpico, sistema desportivo nacional e internacional. Segundo o Coletivo de Autores (1992), esses códigos podem ser resumidos em: princípios de rendimento atlético/desportivo, competição, comparação de rendimento e recordes, regulamentação rígida, sucesso no esporte como sinônimo de vitória. Diante disso o esporte determina o conteúdo de ensino da Educação Física, e novas determinantes na relação professor-aluno, que pode ser entendido como treinador-atleta, o professor passa a ter um papel de treinador. Acontece o atrela mento de valores de eficiência e produtividade aos objetivos a serem alcançados nas aulas. O esporte desta maneira dentro da escola se torna uma prática excludente, onde o mesmo valoriza rendimento, gestos técnicos, cópia, tratando o aluno como uma atleta ele passa a excluir muito mais do que incluir. Os modelos esportivos predominantes são difundidos com base em práticas de reprodução de valores e normas técnicas. Assim, vamos presenciar a busca pelo esporte da escola em vez do esporte na escola. Enquanto esse último apenas reproduz de forma a-crítica condutas e princípios do esporte de rendimento, como a competição exacerbada, a especialização precoce, o ganhar a qualquer preço, etc., o esporte da escola defenderia a construção do esporte possível, com valores discutidos entre os participantes e com condutas condizentes a esses valores (COMISSÃO DE ESPECIALISTAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA DO MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004). Assim, Nessa construção do esporte da escola, o papel do professor é fundamental, a fim de que se posicione claramente em relação aos valores que levem a maior participação de alunos, ao reconhecimento e respeito às diferenças entre eles,à oportunidade de apropriação por parte de todos desse maravilhoso patrimônio cultural, que é o esporte (p.82). 30 Podemos dizer conforme o Coletivo de Autores (1992) que nas aulas de Educação Física Escolar o esporte precisa estar presente como um conteúdo a ser apreendido pelos alunos, devendo ser organizado e estruturado pedagogicamente de forma a ser entendido, apreendido, refletido e reconstruído enquanto conhecimento que constitui o acervo cultural da humanidade, possibilitando sua constatação, sistematização, ampliação e aprofundamento. Pode-se dizer, portanto, que é necessário trabalhar o esporte no âmbito escolar na perspectiva de uma educação integral, sendo oferecido sem distinção de qualquer tipo (sexo, raça, habilidade, características físicas, desempenho estudantil), de forma que no interior das escolas, a comunidade tenha acesso a práticas culturais e sociais possibilitando interagir através do esporte. O professor ao trabalhar o conteúdo esporte deve conhecer todas as dimensões necessárias para o efetivo conhecimento sobre o esporte, compreender que sua prática pedagógica, assim como a escolha do conteúdo ‘esporte’, não são ações neutras, ou seja exige do professor uma consciência crítica diante das escolhas que deve efetuar em sua prática profissional. Nesse sentido, cabe aqui chamarmos atenção para o PST, o qual surge no ano de 2003 e foi criado pelo Ministério do Esporte/Secretaria de Esporte Educacional; este foi idealizado com o intuito de democratizar e difundir o esporte nas escolas para as crianças dos sete aos quatorze anos. Para que o aluno fosse contemplado com a participação no Programa deveria estar regularmente matriculado nas escolas da rede pública de ensino nos estados e municípios. Uma das principais ações do Programa Segundo Tempo é a capacitação de recursos humanos para atuação no esporte educacional, desse modo acontece uma melhor capacitação dos envolvidos favorecendo uma melhor prática pedagógica no trato com o esporte educacional. Envolvendo vários Ministérios como os Ministérios da Educação, da Justiça, da Defesa, do Trabalho e Emprego, e também várias Ongs, universidades e diversas entidades, o Programa teve inicialmente a proposta de atender escolas que se encontravam situadas em locais de risco social entre outros. As atividades eram desenvolvidas no contra-turno escolar, 3 vezes na semana, 1 hora por dia, quem estudava no período matutino participava das atividades do PST, no período vespertino e vice-versa, a seleção dos alunos interessados em participar obedecia alguns critérios como vontade própria em estar participando, crianças em situação de risco social entre outros. 31 Os recursos materiais utilizados eram fornecidos por detentos do Programa Pintando a Liberdade, e comunidades de baixa renda, e os estagiários-monitores eram escolhidos em parcerias com as universidades locais; outro fator importante a salientar é o valor destinado ao lanche aproximadamente R$0,50 por aluno que era na época 3 vezes mais do que alunos do ensino regular que era aproximadamente R$0,15 por pessoa, dando assim a oportunidade de ser oferecido um lanche de melhor qualidade. Assim o PST apresentava como objetivo geral: democratizar o acesso ao esporte educacional de qualidade, como forma de inclusão social, ocupando o tempo ocioso de crianças e adolescentes em situação de risco social, e mais especificamente objetivava: a) Oferecer práticas esportivas educacionais, estimulando crianças e adolescentes a manter uma interação efetiva que contribuísse para o seu desenvolvimento integral; b) oferecer condições adequadas para à prática esportiva educacional de qualidade. Entendemos que o esporte trabalhado dentro do PST, veio ao encontro do posicionamento do esporte da escola e não do esporte na escola, com uma metodologia diferenciada tratando da cultura corporal. O professor/monitor agindo como mediador entre os valores expressos pelos seus alunos e os objetivos do programa. Assim, podemos dizer que o PST busca de uma forma efetiva democratizar o acesso às práticas esportivas nos estabelecimentos públicos de educação no Brasil e de tornar verdadeiro o preceito constitucional que define o esporte como direito de cada um. (COMISSÃO DE ESPECIALISTAS EM EDUCAÇÃO FÍSICA DO MINISTÉRIO DO ESPORTE, 2004). Entendemos que as atividades desenvolvidas no âmbito deste Programa buscam respeitar o conhecimento da cultura corporal, pois durante a sua realização tenta-se desmistificar a simples prática de gestos mecânicos e técnicos desprovidos de seu conteúdo social. Podemos então dizer que a discussão sobre natureza e cultura humanas relaciona-se diretamente com a questão do corpo. Existe um arcabouço biológico semelhante a todos os seres humanos, mas que se expressa e se desenvolve diferentemente, dependendo das influências culturais. Os movimentos realizados pelo corpo humano são desenvolvidos e determinados em função de uma cultura. (DAOLIO, 2006) Entendemos que embora todas as pessoas apresentem características biológicas parecidas, estas pessoas são moldadas a partir da cultura onde estão inseridas, pois o conjunto de posturas e movimentos corporais representa valores e princípios culturais de uma sociedade. Por isso Educação Física deve se atentar ao contexto de origem do aluno valorizando seus gestos, sua bagagem cultural e não querer que esse aluno seja um mero 32 repetidor de gestos esportivos pré definidos, o professor deve ser capaz de contextualizar a prática na realidade sociocultural em que ela se encontra. O esporte se condiciona em cada período da história de acordo com os interesses pertinentes de cada época. Entretanto, não podemos deixar de considerar que o esporte de rendimento (uma das perspectivas do esporte) dentro da escola se torna uma prática excludente, onde o mesmo valoriza rendimento, gestos técnicos, cópia, tratando o aluno como uma atleta ele passa a excluir muito mais do que incluir. Assim, é que podemos afirmar que na época da ditadura militar o esporte servia para alienação e controle social, por sua vez no contexto atual tratamos o esporte como fator de inclusão, porém, para que isto aconteça no âmbito escolar é necessário que nós professores desenvolvamos a prática esportiva, não com a finalidade de educar os alunos por meio de seus corpos, mas deve ficar atento para a importância cultural de sua prática, partindo do acervo cultural dos alunos, pois são dotados de cultura e significados. Entendemos que ao analisar o termo exclusão/inclusão devemos ir muito além da idéia de oportunizar o acesso às pessoas seja no que for, a cultura, a escolas, é importante favorecer além da acessibilidade condições para permanecer e usufruir dessa acessibilidade. A exclusão está basicamente atrelada à desigualdade social, e uma discussão nessa profundidade não é interessante para nossos governantes, pois os mesmos “necessitam desses excluídos” para alimentar programas sociais eleitoreiros que são não mais que ações paliativas, e que em longo prazo não resolvem a situação de exploração e exclusão em que vive parcela significativa da população. A escola é um espaço rico para reconhecer as diversidades é também reconhecer e valorizar as diferenças, a heterogeneidade dos processos de construção coletiva e individual do conhecimento. Nesse sentido o esporte como fator de inclusão na escola não deve ser tratado como um fato isolado, mas condicionado aos fatos históricos, à cultura local, deve respeitar as diferenças entre os indivíduos valorizar a criatividade a bagagem cultural que os alunos trazem consigo em sua trajetória. Devemos desvincular dentro da escola a relação aluno/atletas, professor/treinador, o trato do esporte não deve se prender a busca por resultados, performance. 33 CAPÍTULO II Inclusão/exclusão e Programa Segundo Tempo no Colégio Estadual Maria Elias de Melo Neste capítulo faremos uma caracterização da cidade de Três Ranchos onde foi desenvolvido o núcleo do Programa Segundo Tempo (PST) e também do Colégio Estadual Maria Elias de Melo. Apresentaremos na visão dos alunos, monitores e direção, seus pontos de vista quanto ao esporte, inclusão/exclusão e Programa Segundo Tempo. O capítulo foi divido em dois momentos, ou seja: num primeiro momento faremos uma caracterização da cidade de Três Ranchos e do Colégio Estadual Maria Elias de Melo; em seguida descreveremos e analisaremos os dados coletados por meio da aplicação dos questionários. 1. Caracterização do município de Três Ranchos. Inicialmente, nesta parte do capítulo, apresentaremos os aspectos referentes à origem e desenvolvimento da cidade de Três Ranchos bem como informações relativas a aspectos sócio-políticos, culturais, econômicos e esportivos que nos ajudarão a caracterizar o município em que o Programa Segundo Tempo foi realizado. Posteriormente apresentaremos uma caracterização da escola-campo, destacando sua história, organização física, pedagógica. Em nosso entendimento isso se faz necessário, pois entendemos que as instituições de ensino refletem os valores sociais da época em que estão inseridas. Segundo Rabelo e Amaral (2003) os valores que compõem uma sociedade é que determinarão o tipo de educação que a ser estabelecida. Destacamos que as informações aqui apresentadas foram obtidas por meio da leitura do Projeto Político Pedagógico da escola-campo e páginas eletrônicas da cidade de Três Ranchos. O município de Três Ranchos possui um território de 256km², sendo que destes 235,3km² são de área rural e 20,7km² são de área urbana. A cidade está a 675 metros acima do nível do mar e está localizada na microrregião sudeste à margem do Rio Paranaíba, limitandose com o Estado de Minas Gerais e com os municípios de Catalão e Ouvidor; está situada a 270 km de distância de Goiânia/GO e a 330 km da capital do Brasil. (TRÊS RANCHOS, 2004, p. 07). 34 As informações sobre o povoamento do território que hoje forma o município de Três Ranchos indicam que antes do período de 1887 a 1888 as terras, onde se localiza o município atualmente, já eram atravessadas por tropeiros oriundos da província de São Paulo e Minas Gerais com destino aos municípios de Entre Rios, Santa Cruz e Vila Boa, atualmente denominadas de Ipameri, Santa Cruz de Goiás e Goiás, respectivamente, e depois de algum tempo, este local transformou-se num ponto por onde transitava pessoas a procura de novas terras. O fato de haver no local três casebres cobertos por folhas de babaçu servindo como ponto de pouso para boiadeiros e viajantes, havendo também um local para pastagens e descanso dos animais, foi o aspecto que serviu como origem ao atual nome do município, Três Ranchos. Como elementos impulsionadores do povoamento do referido município destacam-se a inauguração, em 1922, da estrada de ferro, as terras férteis à margem do rio, portanto de excelente qualidade para pastagens, e o garimpo de diamantes, os quais contribuíram para o fortalecimento de migrações de povos de outras regiões do país para essa nova localidade. Em 1948, no dia 19 de dezembro, o povoado foi elevado à categoria de distrito da cidade de Catalão/GO, situada a 29 km desta cidade. Mais tarde, em 19 de outubro de 1953, através da lei 824, foi emancipado politicamente sendo que a instalação oficial do município se deu em 1º de janeiro de 1954 e com isso surgiu o nome de Paranaíba de Goiás. A população da época não gostou da troca de nomes e dois anos depois, devido à pressão dos próprios habitantes o povoado voltou a adotar seu nome original. Com a construção da Usina Hidroelétrica de Emborcação 1 , pela Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG), a rede hidrográfica do município modificou-se completamente, de forma que os ribeirões juntamente com outros córregos e o rio Paranaíba foram transformados num imenso lago, denominado de Lago Azul 2 , o qual está situado nas divisas dos estados de Goiás e Minas Gerais. Deve-se destacar que o represamento das águas do rio Paranaíba foi a principal causa de uma mudança radical na paisagem da região, que só era conhecida até então pelo garimpo de diamantes. Com a formação do Lago Azul, conseqüentemente várias mudanças foram 1 O início da construção da barragem foi em primeiro de maio de 1977, e o enchimento total tem como registro 06 agosto 1981. A barragem possui 1.507mt de comprimento, 156mt de altura. 2 A represa possui uma profundidade máxima de 176mt. O volume de água é, aproximadamente de 17,6 bilhões de metros cúbicos, numa área que abrange 446km², o que representa duas vezes o tamanho da Bahia de Guanabara. 35 acontecendo relacionadas ao município de Três Ranchos nos aspectos ambientais da região, como mudanças na fauna e flora, e nos aspectos físicos da região como a diminuição da área da cidade devido à invasão da água sobre as terras do município. A economia da cidade também sofreu mudanças em face da construção da Barragem, pois deixou de se basear apenas no garimpo e agricultura e passou a contar com o turismo. A instalação da indústria do turismo no município acarretou mudanças nos hábitos da população, a começar pelas propriedades rurais, que passou sofrer com o êxodo rural e estas propriedades tiveram uma valorização impensada até então. Como reflexo disso vamos observar que os trabalhadores braçais das fazendas passaram a optar pelo serviço doméstico das casas de veraneio ou os cargos públicos oferecidos pela Prefeitura da cidade, cargos criados para o atendimento às novas necessidades locais, em função da saída dos trabalhadores da zona rural e melhor dinâmica de trabalho para suprir as necessidades atuais. Uma mudança significativa a destacar, ainda, foi o fato de que os pequenos armazéns de secos e molhados deram lugar a mercearias bem abastecidas e a modernos supermercados, interessados em atender uma nova clientela, consumista e mais exigente. (SOUSA, 2004). Constatamos que o turismo é hoje a principal potencialidade do município de Três Ranchos, que na época de alta temporada fica bastante agitado com os turistas que ali se instalam e contribuem para a geração de divisas para a cidade. Deve-se destacar que uma das características do turismo em Três Ranchos é o fato de que nas margens do Lago localizam-se várias casas e chácaras de pessoas de outras cidades que no período do represamento do Lago se sentiram atraídas para ali construírem residências. Essas casas em sua grande maioria servem para seus proprietários em determinadas épocas do ano, as chamadas ‘altas temporadas’, como por exemplo, nos períodos em que ocorrem festas de carnaval ou religiosas, classificando assim o turismo de Três Ranchos de segunda moradia. Alguns fatores que contribuíram para o grande número de construções as margens do Lago relacionam-se com a boa localização do município de Três Ranchos estando situado perto de grandes centros urbanos e bem servido por rodovias, e ainda devido à carência, no Estado de Goiás, de locais que proporcionem turismo. (SOUSA, 2004). No que diz respeito à cultura local destacam-se na cidade, durante todo o ano, duas festividades que conseguem atrair várias pessoas, são elas o carnaval e a festa de Nossa Senhora do Rosário. A cidade de Três Ranchos vem se destacando, em todo o Estado de Goiás, não só por oferecer aos foliões (aproximadamente 100.000/ano) um dos melhores e mais animados carnavais da região, mas também por oferecer aos mesmos vários locais para 36 hospedagem como condomínios, pousadas, hotéis e ranchos, e ainda boas opções de serviços no ramo alimentício dentro da realidade do município. No que diz respeito à festa em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, esta se configura como uma manifestação cultural-religiosa muito forte na cidade, que acontece todos os anos durante o mês de Julho, e consegue atrair não só turistas das cidades vizinhas (a exemplo Ouvidor e Catalão) como também os moradores que normalmente alugam suas casas e condomínios. No que se refere às práticas esportivas na cidade o poder público local vem garantindo à população o acesso a atividades esportivas em modalidades coletivas como futsal, voleibol, futebol além de alguns esportes náuticos como caiaque e remo. Quanto aos espaços para práticas esportivas, a cidade possui uma infra-estrutura que favorece sua manifestação. São ao todo quatro praças que favorecem as tradicionais brincadeiras de rua (a exemplo o ‘bete’); um campo de futebol com dimensões oficiais, um ginásio de esportes coberto com boa infra-estrutura; e o espaço próximo ao Lago. Observa-se, porém, que além dos esportes apresentados e oferecidos pelo poder público outros se manifestam nesta realidade como rodeio, MotoCross e atletismo. No tocante a área da Educação a cidade conta com duas instituições de ensino e um curso pré-vestibular, a unidade municipal “Santa Rita de Cássia” que atende crianças na primeira fase do ensino fundamental e é mantida pela prefeitura local, o Colégio Estadual Maria Elias de Melo que atende crianças desde a primeira fase do ensino fundamental até o Ensino de Jovens e Adultos (EJA) dirigido pelo estado, já o curso pré-vestibular “Clarisse Pereira” visa preparar os alunos para o vestibular é oferecido pelo município aos alunos da cidade. Podemos considerar, portanto que a construção do Lago Azul foi um dos elementos impulsionadores do desenvolvimento do município, o qual conta atualmente, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2000), com aproximadamente 3189 moradores dos quais 2233 são moradores da área urbana e 956 residem na zona rural. 2. Contornos da escola-campo. A instituição de ensino na qual o Programa Segundo Tempo foi realizado na cidade de Três Ranchos é uma escola da rede estadual, o Colégio Estadual “Maria Elias de Melo”, e a sua história tem início no dia 1º de março de 1959 quando foi criado o Grupo Escolar de Três Ranchos. (MENDES et al, 2002). 37 Em 1963 a escola passou a se chamar Grupo Escolar Dr.Wilson da Paixão permanecendo assim até o dia 16 de abril de 1971, quando em seção solene com funcionários da escola e autoridades municipais, ficou decidido em votação secreta que a escola receberia o nome de “Maria Elias de Melo” em homenagem a uma das professoras pioneiras, já então falecida. (MENDES et al, 2002). Em 1981 o Conselho Estadual concede autorização ao Colégio para ministrar o curso em Magistério, sendo o mesmo extinto em 1996 e implantando o curso não profissionalizante. (MENDES et al, 2002). No que se refere à estrutura física a escola conta com dezessete salas de aulas, uma utilizada para sala de professores, uma utilizada sala pela coordenação pedagógica, uma sala de recursos, uma para programa acelera, uma sala destinada à secretaria, um laboratório de informática, uma biblioteca, quatro banheiros para os alunos, cantina, pátio coberto, almoxarifado, sala da direção, possui uma sala para guardar os materiais esportivos e ainda conta com uma quadra de esportes coberta. O Colégio Estadual Maria Elias de Melo funciona no sistema de seriação e oferece os seguintes cursos: primeira e segunda fase do Ensino Fundamental; Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos, para tanto funciona nos turnos matutino, vespertino e noturno. A escola no corrente ano atende a aproximadamente 570, sendo 260 do sexo masculino e 270 do sexo feminino, divididos em 22 turmas distribuídas por período da seguinte forma: matutino nove turmas, vespertino nove turmas e noturno quatro turmas. No quadro a seguir podemos visualizar o total de estudantes distribuídos por turno, ano gênero. 38 ANO/TURMA 2º "A”Ens. Fund. Iªfase 3º"A” Ens. Fund. Iªfase 3º"B” Ens. Fund. Iªfase 4º"A” Ens. Fund. Iªfase 4º"B” Ens. Fund. Iªfase 5º"A” Ens. Fund. Iªfase Projeto Se Liga 6º"A” Ens. Fund. 2ªFase 6º"B” Ens. Fund. 2ªFase 7º"A” Ens. Fund. 2ªFase 7º"B” Ens. Fund. 2ªFase 8º"A” Ens. Fund. 2ªFase 8º"B” Ens. Fund. 2ªFase 9º"A” Ens. Fund. 2ªFase 9ºB”Ens”. Fund. 2ªFase 1º"A” Ens. Médio 1º"B” Ens. Médio 2º"A” Ens. Médio 2º"B” Ens. Médio 3º"A” Ens. Médio 3º"B” Ens. Médio EJA TOTAL: MAT TURNO VESP X X X X X X X NOT X X X X X X X X X X X X X X X Nº. DE ALUNO MENINOS/MENINAS 14 10 15 7 6 17 12 14 12 11 15 14 10 3 14 20 17 13 23 10 9 22 12 18 15 17 12 11 12 11 12 19 11 6 5 11 12 6 8 15 9 8 5 7 TOTAL 24 32 23 36 23 29 13 34 30 33 31 30 32 23 23 31 17 16 18 23 17 12 530 Quadro: 01 Demonstrativo do total de alunos e alunas distribuídos por ano e turno. Fonte: Documentos cedidos pela Secretaria do Colégio Estadual Maria Elias de Melo. Vários projetos são desenvolvidos na escola, tais como, por exemplo, o Projeto de Atividades Educacionais Complementares (Praec), Projeto Aprender, Projeto Folclore e Projetos Mediáticos, que são projetos que visam aliar as tecnologias (câmera digital, dvd, retro-projetor, internet etc.) ao cotidiano do aluno estimulando sua capacidade criadora e crítica. A escola dispõe de vários recursos didáticos pedagógicos como: 1 aparelho videocassete, 1 aparelho de dvd, 1 TV 29 polegadas, 1 retro projetor, 1 kit tecnológico enviado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação/Ministério da Educação e Cultura FNDE/MEC, Laboratório de Informática (PROINFO) o qual conta com vinte microcomputadores com acesso a internet, atendendo várias crianças ao mesmo tempo; possui ainda uma Biblioteca, uma máquina digital, material do multicurso e periódicos, tais como: Nova Escola, Pátio, Ciência Hoje e Época. Especificamente para a Educação Física os recursos materiais são bolas de futsal, voleibol, handebol, basquetebol, queimada, bolas de borracha nº 08, 12, 14, petecas, cordas, 39 cones, tabuleiro de dama, tabuleiro de xadrez, jogo de ludo, bambolês, coletes, bastões, redes de voleibol e peteca.. Deve-se destacar que a escola apresentava algumas limitações para o desenvolvimento das atividades no seu interior, limitações estas relacionadas mais especificamente com o espaço físico para a realização das atividades de Educação Física. A escola pertence à rede estadual, e se constituía a única instituição de ensino no município da rede estadual, funcionando nos três períodos, atendendo alunos tanto da área urbana e quanto os provenientes da zona rural. Diante disso os horários para realização das atividades no contra turno das aulas regulares, como é a proposta do PST, ficava inviável, assim a solução encontrada foi negociarmos junto à prefeitura municipal uma parceria para que as atividades pudessem ser praticadas no ginásio de esportes municipal, que por sua vez viria a atender praticamente os mesmos alunos que desenvolviam atividades no próprio ginásio. Em relação aos professores (as) a escola conta 31 docentes dos quais 26 são mulheres e cinco são homens. Dentre os docentes alocados na escola quinze possuem habilitação em Pedagogia, três em Matemática, seis em Letras, dois em Geografia, dois em História, um em Educação Física, um em Biologia e um em Física. No que diz respeito ao corpo administrativo da instituição escolar esta conta com uma diretora, uma secretaria, três coordenadores pedagógicos, uma coordenadora geral, uma professora de recursos, uma gerente de merenda, dois dinamizadores no Laboratório de Informática, uma professora de apoio, um auxiliar de biblioteca, nove agentes administrativos nível I e II, cinco agentes administrativos nível III e IV e dois vigias noturnos. 3. A relação esporte-inclusão, na perspectiva dos alunos, a partir da realização do Programa Segundo Tempo. Os dados que apresentaremos foram obtidos junto aos dez alunos, à direção e aos monitores que atuaram no Programa. Destacamos que dentre os dois monitores apenas um respondeu ao questionário. O grupo de alunos foi composto por cinco mulheres e cinco homens na faixa etária dos quatorze aos dezessete anos. Dentre os dez alunos, cinco ao serem indagados sobre o que os motivou a participar do PST responderam ser o gosto elevado para a prática de esportes. Destacamos abaixo depoimentos que ilustram essa afirmação. 40 “Eu sempre adorei praticar esportes e mesmo antes do PST eu já praticava vários. E por isso o motivo que mais me motivou foi o meu gosto pelos esportes e a vontade de sempre aprender mais sobre cada modalidade”. (Aluna do 3º “A” do Ensino Médio). “A vontade de praticar esportes que eu gosto”. (Aluno do 1º “A” do Ensino Médio). “Porque eu gosto muito de praticar esportes” (Aluna do 2º “A” do Ensino Médio). “Foi à vontade e o gosto pelo esporte”. (Aluno do 2º “A” do Ensino Médio). “O que mais me motivou foi sempre gostar de esporte”. (Aluna do 9º “A” Ensino Fundamental II Fase). Pelas falas descritas observamos que mesmo antes do início do Programa os alunos já tinham acesso a alguma forma de prática esportiva e por sua vez já traziam consigo uma preferência para um ou outro esporte a partir de suas vivências, fato este respeitado para a implantação do PST na cidade de Três Ranchos, no momento de decidir quais modalidades seriam oferecidas a aquela comunidade escolar foi levado em conta não só as possibilidades estruturais e físicas para desenvolvimento das atividades esportivas como também o esportes que estavam mais ligados à realidade daquela comunidade. Outras duas pessoas responderam que buscaram participar do PST com a finalidade de ocupar o tempo ocioso, afirmação exemplificada nas falas abaixo. “A não ficar a toa na rua”. (Aluna do 9º “A” Ensino Fundamental II Fase). “Quando não estava na escola não tinha nada pra fazer”. (Aluno do 9º “A” Ensino Fundamental II Fase). Observamos nessas falas a importância de atividades educacionais complementares às ações desenvolvidas na escola durante o período de estudo, ou seja, no contra-turno como era a proposta do PST, favorecendo aos alunos/alunas participar de atividades que promovem o desenvolvimento dos mesmos. Tivemos ainda dentre os motivos apresentados pelos alunos aspectos como curiosidade, diversão e espaço para a construção de novas amizades. No quadro abaixo poderemos visualizar todos os motivos elencados pelos alunos para participarem do PST. 41 Categorias TOTAL 1-Gosto elevado pela prática de esportes. 5 2- Ocupar o tempo ocioso 2 3- Curiosidade 1 4-Diversão 1 5-Fazer amigos 1 TOTAL 10 Quadro 02: Motivos que levaram os alunos a participarem do PST. Fonte: Questionários Aplicados aos Alunos/alunas. Buscamos entender junto aos alunos/alunas se os mesmos enfrentaram dificuldades para participarem do PST. A partir da análise dos dados observamos que sete alunos/alunas disseram não enfrentar nenhuma dificuldade para participar e que os objetivos do Programa eram alcançados. Vejamos abaixo alguns depoimentos que ilustram essa afirmação. “Não, pois foi bem organizado”. (Aluna do 1º “A” Ensino Médio). “Não, dificuldade nenhuma”. (Aluna do 9º “A” Ensino Fundamental II Fase). “Não, para mim foi normal, eu não senti dificuldade nenhuma ao participar”. (Aluno do 9º “A” Ensino. Fundamental II Fase). “Não, pois ele foi um programa inclusivo”. (Aluno do 1º “A” Ensino Médio). “Não, porque as atividades eram para todos”. (Aluna do 9º “A” Ensino Fundamental II Fase). Para dois alunos as dificuldades para sua participação nas atividades do programa estiveram relacionadas à distância entre a residência e o local de realização do Programa, assim como o fato de alguns alunos se considerarem melhor do que os outros. Vejamos abaixo as falas dos mesmos. “Sim, pois morava um pouco longe de onde era realizado o programa e não tinha ninguém para me levar, e também não tinha nem bicicleta.” (Aluno do 3º “A” Ensino Médio). “Sim porque em todo esporte há atletas que se destaca mais que os outros e a maneira desses atletas se julgam superior, mas como os objetivos do programa era a inclusão eu consegui superar esses obstáculos”. (Aluna do 3º “A” Ensino Médio). 42 Categorias TOTAL 1-Não sentia dificuldades nenhuma 8 2- Distância entre a residência e o local de realização das atividades 1 3- Alguns alunos se considerarem melhor que outros 1 TOTAL 10 Quadro 03: Dificuldades encontradas para participar do Programa Segundo Tempo Fonte:Questionários aplicados aos alunos/alunas Através das falas podemos observar alguns dados relevantes do Programa na cidade de Três Ranchos, como já foi dito anteriormente nesse trabalho, a cidade apresenta algumas situações peculiares. É uma cidade que possui um imenso lago artificial o qual está rodeado de grandes casas nas quais trabalham boa parte da população como caseiros; a escola na modalidade de ensino oferecida é a única da cidade, o acesso dos alunos moradores das margens do lago e também da zona rural para as aulas regulares é oferecido através de transporte escolar, porém para as atividades do PST, não era oportunizado transporte para esses alunos virem à cidade participar do Programa, fato esse que dificultava a participação dos mesmos. Na fala da aluna do 3º ano A percebemos explicitamente que a questão do domínio das habilidades técnicas gerava entre os alunos/alunas um desconforto tanto para quem os possuí quanto para os menos habilidosos. O primeiro que as possui, “incluído”, se julga melhor e por isso não valoriza os demais, desrespeitando suas limitações; já o segundo que não as possui, “excluído”, pois considera como sendo melhor aquele que possui domínio de gestos técnicos, os quais se tornam um padrão a ser buscado, e ele mesmo não reconhece o valor da diversidade. O que se observa, portanto é que mesmo entre os alunos há uma ênfase na valorização da aprendizagem de movimentos técnicos esportivos e com isso não se legitima, no processo de ensino aprendizagem, as diversas possibilidades de aprendizagem que se estabelecem com a consideração das dimensões afetivas, cognitivas, motoras e socioculturais dos alunos. (BRASIL, 1998, p. 19) Quando indagados se durante o desenvolvimento das práticas esportivas oferecidas pelo PST enfrentavam alguma dificuldade, cinco alunos disseram não enfrentar dificuldade nenhuma, pois já possuíam vivências nos esportes e por considerarem que os monitores eram 43 qualificados. Outros três alunos disseram enfrentar dificuldades por não dominarem as habilidades técnicas exigidas nos esportes. Vejamos abaixo alguns depoimentos. “Às vezes não dava conta de algumas coisas”. (Aluno do 2º “A” Ensino Médio). “Enfrentei uma pequena dificuldade no esporte Handebol, pois nunca tinha jogado, mas foi pouca.” (Aluno do 3º “A” Ensino Médio). “Sim, mas considero essa dificuldade como um processo natural que todos que iniciam uma modalidade possuem como o manuseio da bola, a falta de preparo físico e o conhecimento das regras do jogo.” (Aluna do 3º “A” Ensino Médio). Categorias TOTAL 1-Não. Nenhuma 7 2- Dificuldade para realização de atividades técnicas 3 TOTAL 10 Quadro 04: Dificuldades apresentadas pelos alunos/alunas para participar nas atividades esportivas nos PST.. Fonte: Questionários Aplicados aos Alunos/alunas. Embora identifiquemos que a maioria dos alunos não enfrentava nenhuma dificuldade, ainda está presente nas falas dos alunos um discurso do esporte de rendimento que padroniza ações, que limita a criatividade e para Bruhns (1996) apud SCAGLIA (2004), no esporte performance, os jogadores são estimulados a vencer de qualquer maneira e avaliados por porcentagens de pontos, marcas, etc. A acumulação está presente para lembrar que tudo é aquisitivo, competitivo, com limitações e comparações.(p.163) Os alunos/alunas foram indagados sobre a concepção que possuíam de esporte, dentre os dez alunos quatro disseram que o esporte serve para manter uma boa saúde. Abaixo podemos ver alguns depoimentos para ilustrar essa afirmação. “Uma forma divertida,que além de estimular nosso corpo contribui para a nossa saúde. E envolve atividades onde utilizamos nossa força física e ao mesmo tempo nossa coordenação motora.”. (Aluno do 1º “A” Ensino Médio). “Esporte serve para termos uma vida melhor e com mais saúde”. (Aluno do 2º “A” Ensino Médio). Três evidenciaram em suas falas que o esporte é um meio de socialização, integração e formação do indivíduo. Outras duas alunas disseram que o esporte está relacionado a lazer. Vejamos algumas falas. 44 “Eu entendo que o esporte é muito bom para passar aquele momento se divertindo” (Aluno do 9º “A” Ensino Fundamental II Fase). “É uma atividade que praticamos na rua, clubes, escolas jogando”. (Aluno do 9º “B”. Ensino Fundamental II Fase.). Em uma das falas a aluna associou, em nosso entendimento, o esporte à competição ao afirmar que “... para mim o esporte é pegar uma bola de futebol e juntar 10 meninas e sai chutando a bola pra fazer gol” (Aluna do 2º “A” Ensino Médio). Outras falas apresentadas na analise dos questionários veremos no quadro abaixo. Categorias TOTAL 1-Manutenção da Saúde 4 2- Meio de integração, formação e socialização do indivíduo. 3 3- Forma de Lazer 2 4- Esporte enquanto competição. 1 TOTAL 10 Quadro 05: Concepções de esporte dos alunos Fonte: Questionários Aplicados aos Alunos/alunas. Observamos que esta predominância pela relação entre esporte e bem estar, “saúde”, pode se dar pela influência da mídia sobre o esporte, inculcando valores mercadológicos trazendo o discurso tão difundido do “Esporte é Saúde”. Segundo Faria (2000) as transformações econômicas e a globalização que afetam diferentes sociedades levam ao aumento no consumo, a comercialização de bens e serviços, inclusive os esportivos, com forte tendência para a padronização de suas formas de uso. Assim, o esporte de rendimento entra em campo por suas possibilidades de inserção nas diversas culturas e mobilização social, atendendo com facilidade a interesses externos, de mercados etc. Entendemos, assim como está presente em algumas falas dos alunos, que o esporte pode ser inclusivo desde que não estabeleça relações com o esporte de rendimento, mas que vise oferecer oportunidades iguais nas atividades a todos os alunos, e o mesmo pode ser importante na formação do indivíduo. Diante disso o profissional de Educação Física deve procurar não reproduzir e enfatizar nas aulas os movimentos técnicos das modalidades esportivas, mas constituir-se mediador de um conhecimento amplo e crítico sobre o esporte, 45 incluído aí aqueles reproduzidos pela mídia. (AZEVEDO, SUASSUNA, DAOLIO, 2004, p. 83). Observamos ainda dois momentos importantes nas concepções de esporte nas falas dos alunos, “o esporte como forma de expressão corporal” e oportunizando “conhecer outras culturas”, observamos assim que os alunos demonstram um entendimento elevado do assunto, entendendo diversas manifestações do esporte. Ao solicitarmos que os alunos expusessem que ao vivenciar o conteúdo esporte no PST, o que eles buscaram alcançar, obtivemos as seguintes respostas: a) alcançar, aprimorar a convivência com outras pessoas e também melhorar os conhecimentos sobre Handebol; b) praticar esporte porque faz bem para saúde; c) aprender e aperfeiçoar as habilidades esportivas; d) forma de levar o conteúdo teórico do esporte para a atividade prática fora da escola; e) forma de lazer e trabalho em equipe; f) alcançar os objetivos do projeto. Podemos observar que os alunos reconhecem o esporte como um instrumento capaz de propiciar um melhor relacionamento entre as pessoas, desde que seja transmitido o entendimento do esporte como um fator cultural (por conseqüência humano), estimulando sentimentos de solidariedade, cooperação, autonomia e criatividade. (MINISTÉRIO DOS ESPORTES, 2004) Os alunos ao serem indagados sobre a concepção de inclusão que possuíam quatro relacionaram a inclusão às atividades esportivas. “É a pessoa ser incluída em alguma coisa em algum esporte”. (Aluno do 9º “A” Ensino Fundamental II Fase) “Eu entendo que é uma coisa que procura trazer mais pessoas para dentro do esporte para fazer mais amizades.” (Aluno do 9º “B” Ensino Fundamental II Fase) “É incluir pessoas que não praticam esporte no PST.”(Aluna do 1º “A” Ensino Médio) Outros quatro apresentaram um entendimento de inclusão relacionado a integração dos indivíduos nos meio social, numa vida em grupo. Abaixo alguns depoimentos que ilustram essa afirmação. “Um processo onde todas as pessoas estão incluídas sem restrição”. (Aluno do 1º “A” Ensino Médio). “Inclusão foi à forma que o programa utilizou para mostrar aos alunos que se sentiam excluídos ou que nunca tinham praticado esporte, a grande importância dele na nossa vida. E como o próprio diz: inclusão tem o objetivo de incluir; e no 46 caso do esporte incluir pessoas para que aprendam viver em equipe”. (Aluna 3º “A” Ensino Médio). Chamamos atenção para a/o aluno/a que apresentou uma visão, em nosso entendimento, mais amplo da inclusão relacionando-a ao acesso à educação, à saúde, à cultura e um nível de vida digno. Como podemos analisar na fala seguinte. “Uma das preocupações das sociedades democráticas, todos os benefícios que o desenvolvimento dessa sociedade é capaz: acesso a educação, à saúde, à cultura, a um nível de vida digno”. (Aluno do 3º “A” Ensino Médio). As outras concepções presentes nas falas dos alunos sobre a inclusão podem ser visualizadas no Quadro 06 a seguir: Categorias TOTAL 1- Incluir no esporte. 4 2- Incluir no meio social. 4 3- Ter acesso a todos os benefícios que o desenvolvimento da sociedade oferece: acesso à educação, à saúde, à cultura. 1 8-È trazer quem está fora para dentro. 1 TOTAL 10 Quadro: 06 Concepções de inclusão Fonte: Questionários Aplicados aos Alunos/alunas. Entendemos que os alunos apresentam respostas diversificadas e visões fragmentadas do termo inclusão e em alguns momentos não tem a noção do termo de uma forma mais global o relacionando várias vezes ao esporte somente. Como sabemos a inclusão engloba todas as formas de existência humana. No que diz respeito a como os alunos percebiam a questão da inclusão/exclusão no ambiente escolar e em especifico no PST, quatro alunos disseram que a escola é mais excludente do que o PST. Como podemos ver em algumas falas abaixo. “No ambientes escolares muitas pessoas são mais excluídas do que incluídos, já no Programa Segundo Tempo não tinha toda essa diferença em inclusão e exclusão tinha mais pessoas incluídas.” (Aluna do 1º “A” Ensino Médio). 47 “Na escola nem todos os alunos são favorecidos igualmente por falta de oportunidades. No programa as oportunidades eram iguais a todos em minha opinião”. (Aluno do 2º “A”. Ensino Médio). Esse grupo de alunos relata em suas falas que há diferenças no trato das atividades dentro da escola referentes ao esporte e referentes ao PST no momento em que eles dizem à escola ser mais excludente que o PST, observa nas falas desses alunos implicitamente que no ambiente escolar a tolerância com as diferenças é menor, busca uma homogeneização de comportamentos, a metodologia do PST que oferece condições a todos os alunos iguais sem privilegiar nem distinguir ninguém por habilidade técnicas, favorecendo no nosso entendimento o processo de inclusão. Do grupo de alunos questionados, três disseram não ter havido nenhum tipo de exclusão e conseqüentemente julgavam que todos estavam incluídos. Abaixo temos algumas falas para ilustrar essa afirmação. “Na escola e no Programa Segundo Tempo não houve nenhum tipo discriminação, pois cada um respeita a maneira de ser do outro, o jeito de jogar e ninguém criticam ou faz comentários maldosos.” (Aluna do 9º “B” Ensino Fundamental II Fase). “Não. O Programa foi ótimo para o meio social e para o bom relacionamento entre os alunos.” (Aluna do 3º “A” Ensino Médio). “Não teve nenhum tipo de discriminação”. (Aluna do 9º “A”. Ensino Fundamental II Fase). Outras respostas surgiram como: a) Temos exclusão no racismo, pobreza, mais tem poucas. Inclusão teve muitas onde integra um elemento a um todo; b) Nem todo mundo tem oportunidades; c)Eu avalio que devem ser respeitados todos que querem participar independente se sabem ou não jogar. Os alunos quando indagados se em algum momento de sua participação nas práticas esportivas se sentiram excluídos oito responderam que não. Podemos ver logo abaixo falas para exemplificar a afirmação. “Não em nenhum momento eu me senti excluído, pois cada um respeita a maneira de ser do outro”. (Aluna dos 9 º “B” Ensino Fundamental II Fase). “Não de maneira alguma, muito pelo contrario, todos me incentivavam, como os alunos e principalmente o professor”. (Aluna dos 2 º “A” Ensino Médio). “Nunca. Por que isso só me trouxe mais amigos”. (Aluno dos 9 “B” Ensino Médio). 48 Dois alunos disseram que em alguns momentos se sentiram excluídos nas atividades, o que nos faz entender que o PST pode ter contribuído para oportunizar atividades diferenciadas que enfatizassem a participação de todos de forma igualitária. Ao serem solicitados a relatar situações de exclusão vivenciadas nas aulas do PST e como estas foram solucionadas, sete alunos disseram não ter presenciado nenhum tipo de exclusão, outros três alunos disseram que presenciaram. Podemos visualizar alguns depoimentos abaixo que exemplificam essa afirmação. “Algumas pessoas por não saberem jogar muito bem, o professor parava a aula e falava que o programa era pra todos.” (Aluna do 1º “A” Ensino Médio). “Alguns alunos por se julgarem melhores que os outros, foi resolvido com dinâmicas do professor e dialogo com todos”. (Aluna do 3º “A” Ensino Médio). Observamos que ainda persiste na prática esportiva mesmo dentro do PST, uma valorização por parte de alguns alunos do desempenho, porém quando tratado com o devido rigor pelo professor isso pode ser superado, faz-se necessário mais uma vez colocarmos a importância do professor no comando das atividades seja na execução das mesmas e também na seleção e no planejamento dos conteúdos a serem trabalhados, assim como na definição de estratégias/dinâmicas que enfatizem a inclusão, o envolvimento de todos nas atividades independente de suas habilidades/conhecimentos. 4. A relação esporte-inclusão, na perspectiva dos monitores e direção, a partir da realização do Programa Segundo Tempo. A diretora do Colégio Estadual Maria Elias de Melo no período em que foi desenvolvido o PST, possuía habilitação legal em Pedagogia, com mais de 20 anos de atuação pedagógica.O monitor que devolveu o questionário concluiu seu curso de Licenciatura Plena em Educação Física no ano de 2001, no período do PST,o mesmo possuía vinculo com a Universidade Federal de Goiás pois estava cursando uma pós graduação em Educação Física Escolar. Tanto a diretora quanto o monitor apresentaram respostas parecidas quando questionados sobre o que entendiam por esporte e os benefícios do mesmo ao ser trabalhado com crianças e jovens na escola, assim nos responderam. 49 “Entendo que esporte é uma atividade física e que traz vários benefícios aos seres humanos. Se trabalhado com crianças e jovens nas escolas públicas ou privadas, o esporte proporciona a valorização e integração nas diferentes situações sociais, adotando no dia-a-dia, atitudes de solidariedade, cooperação e respeito mutuo.” (Diretora). “O esporte é uma atividade física e, portanto quando trabalhado de forma adequada com crianças e jovens pode gerar vários benefícios aos mesmos, mas se praticado de maneira inadequada a atividade esportiva poderá promover malefícios porque ao ser praticado devem ser respeitadas as individualidades de cada um”. (Monitor). Está presente nas falas de ambos um entendimento do esporte como uma ferramenta inclusiva, capaz de trazer benefícios aos alunos e também uma preocupação com a orientação para a realização de tais atividades estas devem ser planejas de maneira que fujam os princípios do esporte de rendimento, que segundo Coletivo de Autores (1993, p. 71) na escola é preciso resgatar os valores que privilegiam o coletivo sobre o individual, defendem o compromisso da solidariedade e respeito humano. Ambos os sujeitos da pesquisa foram questionados sobre quais devem ser os objetivos a serem alcançados com os alunos ao trabalharmos o esporte. Vejamos abaixo as falas dos sujeitos. “Ao se trabalhar esporte nas escolas o professor almeja alcançar a participação dos alunos nas atividades teóricas e práticas, de forma a utilizar diferentes fontes de informação e recursos tecnológicos para adquirir e construir conhecimentos”. (Diretora). “Quando o esporte é trabalhado nas escolas deve buscar desenvolver nos alunos a cooperação, respeito, solidariedade e não valorizar domínios técnicos.” (Monitor). Assim acreditamos que dentro das escolas, devemos possibilitar que a comunidade tenha acesso a práticas culturais e sociais que possibilitem à mesma interagir através do esporte. Como dito nas falas acima favorecendo as relações interpessoais dos sujeitos. (SADI, 2004, p. 34) No que se refere à concepção de inclusão da diretora e do monitor, analisando os dados observamos o primeiro trata o assunto de uma maneira mais simplista já o segundo vai além dos portadores de necessidades especiais e cita questões como respeito às diversidades. As falas abaixo explicitam essa afirmação. “Entendo que é a transformação, modificação da sociedade como pré-requisito para que as pessoas com necessidades especiais possam buscar seu desenvolvimento e exercer sua cidadania”. (Diretora). “Eu acredito que inclusão possa ser entendida como a participação ou a construção das condições de possibilidade para participar da construção cultural e assim 50 contribuir para a formação de cidadãos íntegros aptos a conviverem com a diversidade de uma maneira sólida e sem preconceito.” (Monitor). Os mesmo foram indagados ainda sobre como percebiam e avaliavam a questão da inclusão/exclusão no ambiente escolar. Vejamos as falas abaixo. “Percebo que a inclusão é um processo amplo com transformações pequenas e grandes, nos ambientes físicos e na mentalidade de todas as pessoas, inclusive da própria pessoa com necessidades especiais.” (Diretora). “Percebo que ainda existem profissionais despreparados para lidar com esta questão sendo assim, acredito que dentro do ambiente escolar todos os funcionários têm que estar preparados para aceitar os limites de cada um respeitando suas possibilidades evitando então que gere a exclusão de alguém em qualquer atividade proposta pela escola”. (Monitor). Assim conforme Gonçalves (1994) apud BRITO (2004) (p. 103) entendemos que é importante que o professor desmistifique para os alunos as relações de dominação de uma classe sobre a outra suas conseqüências na forma de ser e pensar de indivíduos e grupo, proporcionado vivências de organização comunitária objetivada segundo valores democráticos, assim o professor orienta conscientemente o processo educativo para esses objetivos, proporcionando formar o homem que seja capaz de gerar as transformações sociais. Visualizaremos abaixo questionamento feito à direção da escola, sobre se ocorreram mudanças nas relações entre os alunos a partir da vivência dos mesmos no PST. Segue abaixo sua fala. “Em nossa escola, percebi que durante o desenvolvimento desse programa os alunos alcançaram bom desempenho em outras áreas de conhecimento e modificações de comportamentos, disciplina, obediência e respeito com os outros, inclusive o envolvimento dos pais durante as atividades”. (Diretora). O monitor quando questionado sobre a inclusão no PST nos diz que “Aconteceu de maneira positiva porque quando se trata de esporte em geral sempre há o fator exclusão, e o PST, veio para suprir essa necessidade de inclusão dando oportunidades igualmente a todos os participantes e recriminando a exclusão.” (Monitor). Ainda questionado sobre as dificuldades enfrentadas, e as mudanças que ocorreram nas concepções de esporte dos alunos e nas relações entre os alunos o monitor respondeu que no início enfrentou dificuldades por estar trabalhando com um grupo heterogêneo, e que as relações entre os alunos melhoraram significativamente era notório nas aulas seguintes uma 51 tolerância maior com o colega, respeito e também eram relatadas pelos pais as melhoras dos filhos nas relações com os colegas tanto na escola quanto com as pessoas de seu convívio cotidiano. Analisando os dados observamos um fato importante, em vários momentos do questionário foram citados como fato negativo pelos alunos a questão do domínio de gestos técnicos, isso por parte de alguns alunos que trouxeram essas raízes de suas experiências das aulas de Educação Física, como sabemos o PST apresentava uma proposta totalmente contrária à essa, nos relatos dos alunos o professor/monitor conseguia solucionar esses casos quando os mesmos ocorriam. Observamos ao tratarmos do que é o esporte e inclusão os alunos se mostraram limitados com visões fragmentadas, assim como as resposta da diretora que por sua vez colocava uma visão simplista do que era inclusão, relacionando-a apenas a alguma deficiência.Entendemos que é necessário um entendimento da inclusão como um todo em todas as esferas da comunidade. Ficamos convictos que na realidade do Colégio Estadual Maria Elias de Melo o PST conseguiu alcançar seus objetivos, incluindo os alunos sem privilegiar nem discriminar ninguém por habilidade/nível técnico, favorecendo uma nova maneira de trabalhar o esporte, oportunizando a todos os alunos vivenciarem-no assim também no ambiente escolar. Nas falas dos alunos observamos que o programa era inclusivo, pois os mesmos citavam diversos momentos ocorridos durante as práticas esportivas no PST que ocorriam a inclusão de todos nas atividades, houve mudanças significativas nas ações dos alunos após arealização do referido programa, contribuindo para uma relação melhor do aluno com a escola. 52 Considerações Finais Buscamos neste trabalho procurar analisar como os alunos, monitores, professores e direção do Colégio Estadual Maria Elias de Melo compreendem a relação esporte-inclusão a partir da realização do Programa Segundo Tempo na cidade de Três Ranchos/Go. O esporte é uma produção cultural tecida ao longo da história, nas suas diferentes aparições, seja enquanto esporte de rendimento, educacional ou lazer. Entendemos ser importante que o professor detenha o conhecimento sobre cada uma dessas modalidades, esporte de rendimento, lazer ou educacional para dessa forma saber agir na sua prática pedagógica como manda cada modalidade. E como é o fruto deste trabalho o esporte na escola entendemos necessário que o profissional deva entender o que é a escola, ações inclusivas de uma escola inclusiva, entender a manifestações presente no ambiente escolar, o emaranhado de responsabilidades colocadas sobre escola. Sabemos que o esporte é um conteúdo privilegiado no ambiente escolar, tendo múltiplas possibilidades, porém há tempos atrás e até mesmo na atualidade existem indícios do esporte no âmbito escolar enquanto um modelo que reforça o gesto técnico, performance, recriação, incorpora valores, normas técnicas, busca por rendimento atlético, sendo assim em determinados momentos utilizados como aparelho ideológico de controle social. Nesse sentido o esporte como fator de inclusão na escola não deve ser tratado como um fato isolado, mas condicionado aos fatos históricos, a cultura local, deve respeitar as diferenças entre os indivíduos valorizar a criatividade a bagagem cultural que os alunos trazem consigo em sua trajetória. Dentro da escola o aluno não deve ser tratado enquanto um atleta e o professor não deve se posicionar como treinador, deve-se estabelecer uma relação de mão dupla entre professor/aluno, nessa visão o rendimento, performance são deixados de lado e se visa uma ação que respeite as limitações dos alunos sem os discriminar, assim e o aluno deve ter acesso ao esporte possibilitando vivenciar as práticas culturais e sociais. No nosso entendimento é necessário tratar o esporte escolar enquanto “da escola” e não o esporte “na escola”, respeitando assim as diversidades humanas e favorecendo o acesso às práticas corporais, sem segregar por cor, raça, gênero e domínio de gestos técnicos/habilidades técnicas. A partir da análise do Programa Segundo Tempo, sua realização na cidade de Três Ranchos na escola campo “Colégio Estadual Maria Elias de Melo”, entendemos que o referido programa contribuiu significativamente para a comunidade escolar, favorecendo o 53 desenvolvimento de cidadãos críticos e incluídos sim. Observamos isso nas análises dos questionários de todos, alunos, monitores e direção, bem como nas conversas e nas observações. Reforçamos essa afirmação não como uma visão simplista de inclusão meramente como dar acesso às práticas corporais, mais muito além, oportunizar o acesso e dentro dele propiciar condições de vivenciar o esporte educacional, que respeite as diversidades e busque superar as desigualdades. Concluímos que para todos os grupos que fizeram parte da coleta de dados, alunos, monitores e direção o Programa Segundo Tempo a partir de suas ações contribuiu para uma ação inclusiva nesta localidade, os propósitos inclusivos do PST foram alcançados com uma metodologia diferenciada nas aulas do programa, que não selecionava nem discriminava, muito menos se buscava homogeneizar as ações tornando os alunos meros repetidores, buscávamos nas ações estimular a criatividade, o respeito às diferenças procurando entendêlas e respeitá-las, os alunos demonstraram avanços significativos nas relações inter-pessoais, como dito pela diretora, como em conversas informais com pais e professores bem como em observações assistematicas. 54 Referências ALMEIDA, Maria Isabel de. Ações organizacionais e pedagógicas dos sistemas de ensino: políticas de inclusão?In: ROSA, Dalva E. Gonçalves; SOUZA, Vanilton Camilo de. (Orgs.). 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Para você, ao se trabalhar o conteúdo esporte quais devem ser os objetivos a serem alcançados com os alunos? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3. O que você entende por inclusão? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4. Como você percebe e avalia a questão da inclusão/exclusão no ambiente escolar. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 5. Como você avalia a relação esporte e inclusão nas aulas de Educação Física. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 6. Você avalia que ocorreram mudanças nas relações entre os alunos a partir da vivência dos mesmos no Programa Segundo Tempo? Justifique sua resposta. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 59 Anexo II QUESTIONÁRIO APLICADO AOS MONITORES 1. Fale o que você entende por ‘esporte’ e quais os benefícios do mesmo ao ser trabalhado com crianças e jovens. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 2. Para você, ao se trabalhar o conteúdo esporte quais devem ser os objetivos a serem alcançados com os alunos? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3. Ao trabalhar o esporte no Programa Segundo Tempo, quais foram os objetivos que você buscou alcançar com os alunos? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4. O que você entende por inclusão? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 5. Como você percebe e avalia a questão da inclusão/exclusão no ambiente escolar. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 6. Como você avalia a relação esporte e inclusão no Programa Segundo Tempo. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 60 7. Na sua avaliação a metodologia utilizada nas aulas do Programa Segundo Tempo favoreceram a inclusão de alunos? Justifique sua resposta e exemplifique com situações vivenciadas. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 8. A partir da sua vivência no Programa Segundo Tempo você avalia que ocorreram mudanças na concepção de esporte dos alunos e nas relações entre os alunos? Justifique sua resposta. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 9. No desenvolvimento do Programa Segundo Tempo, você avalia que enfrentou dificuldades? Justifique sua resposta. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 61 Anexo III QUESTIONÁRIO APLICADO AOS ALUNOS Idade: Série: 1. Fale o que você entende por ‘esporte’. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 2. Para você, ao vivenciar o conteúdo esporte no Programa Segundo Tempo o que você buscou alcançar? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 3. O que o motivou a participar do Programa Segundo Tempo? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 4. Você enfrentou dificuldades para participar do Programa Segundo Tempo? Quais? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 5. No desenvolvimento das práticas esportivas oferecidas pelo Programa Segundo Tempo você enfrentava alguma dificuldade? Quais? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 6. O que você entende por inclusão? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 62 10. Como você percebe e avalia a questão da inclusão/exclusão no ambiente escolar e em específico no Programa Segundo Tempo. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 7. Em algum momento de sua participação nas práticas esportivas oferecidas pelo Programa Segundo Tempo você se sentiu excluído? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 8. Relate situações de exclusão vivenciadas nas aulas do Programa Segundo Tempo e como estas foram solucionadas. ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 63 Foto da Cidade de Três Ranchos vista do Cristo Redentor 64 Foto do Colégio Estadual Maria Elias de Melo 65 Foto da Quadra de Esportes do Colégio 66 Foto do Ginásio Municipal