ENTREVISTA COM UM PROFESSOR DE FILOSOFIA DA REDE PÚBLICA DE ENSINO DO ESTADO DE ALAGOAS1 Ricardo Max Lima Cavalcante2 RESUMO: O presente artigo foi o resultado de uma pesquisa de campo desenvolvida com a parceria entre a disciplina de estágio supervisionado 2 do curso de Filosofia, o Programa Institucional com Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) e com o Programa Institucional com Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) na área de ensino de Filosofia e novas tecnologias de ensino. O objetivo foi entender a realidade de um professor da rede estadual de ensino que também desenvolve atividades com graduandos de Filosofia da Universidade Federal de Alagoas, o PIBID. Também a partir de uma entrevista semi-estruturada entender as relações: professoralunos, professor-escola, professor-Estado, professor-estagiário; relações que muitas vezes carregam contradições e a partir desta entrevista não tirar um resultado quantitativo, e sim qualitativo. Palavras-chave: Ensino de Filosofia. Entrevista. Educação no Estado de Alagoas. 1 INTRODUÇÃO: A entrevista ocorreu em uma escola pública da periferia de Maceió na qual o professor leciona e também local onde o entrevistador e o entrevistado desenvolvem 1 Agradecimentos à profª Ms. Elizabete Amorim de Almeida Melo lotada no Centro de Educação (CEDU) da Universidade Federal de Alagoas não somente pela orientação neste trabalho, mas também por se dedicar ao ensino de Filosofia. 2 Graduando em Filosofia pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) na área de Ensino de Filosofia e Novas Tecnologias de Ensino, sob a orientação do profº Dr. Walter Matias Lima– CEDU/UFAL e colaborador do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) sob a orientação da profª Ms. Ruslane Bião de Oliveira – ICHCA/UFAL. E-mail: [email protected] 1 um mesmo projeto, o Programa Institucional com Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID). O objetivo deste trabalho será entender como se dão as relações que este professor desenvolve no seu ambiente de trabalho e os motivos que o levou a seguir a carreira docente, sua experiência enquanto professor, como são trabalhados os conteúdos em sala de aula e os problemas a serem enfrentados no dia-a-dia. O professor é formado em Filosofia pela Universidade Federal de Alagoas desde 2004 e possui experiência na sala de aula há 08 anos em escolas públicas e particulares, tanto em Filosofia como em Sociologia e Religião. Atualmente está se especializando em psicopedagogia por uma universidade a distância. Além de docente, o nosso entrevistado é coordenador do turno noturno da escola estadual mencionada anteriormente. 2 CONTEÚDOS: O livro didático utilizado na escola estadual é o Fundamentos da Filosofia de Gilberto Cotrim e Mirna Fernandes. E durante a entrevista, foi perguntado se o professor possuía uma autonomia em escolher seus conteúdos e ferramentas a ser utilizadas em sala de aula ou se ele era obrigado ou se sentia limitado a seguir a ordem do livro didático. A sua resposta foi que possuía uma completa autonomia de trabalhar materiais para-além do livro didático ou utilizar textos de outros livros didáticos, ou seja, o livro didático é somente um auxiliador. Quando perguntado pela utilização de textos propriamente filosóficos no ensino médio, os chamados “clássicos”, disse ele que são utilizados, entretanto, não tão profundos e com linguagem muito erudita, pois poucos estudantes conseguem acompanhar o conteúdo e para suprir esta falta de contato com os textos da tradição filosófica, o professor utiliza questões do ENEM de anos anteriores. 3 METODOLOGIA E RECURSOS: 2 O entrevistado afirma que sempre que possível tenta fazer uma atividade diferenciada, mas problemas estruturais do ambiente escolar dificultam a realização das suas estratégias pedagógica, problemas como: Falta de computadores, projetor, impressora, auditório e até mesmo o espaço das próprias salas de aula que comportam na maioria das vezes 40 (quarenta) ou até 50 (cinquenta) alunos. A falta destes recursos físicos e até mesmo digitais dificultam a prática docente e limita os projetos desenvolvidos pelos bolsistas do PIBID na escola, como afirmei no artigo O ensino de Filosofia no contexto da cibercultura (CAVALCANTE,2014, p. 05): Foram introduzidos na escola, ferramentas midiáticas que influenciam e auxiliam na metodologia do professor e no aprendizado dos estudantes; dentre eles, os mais utilizados são: TV, DVDs, Notebooks, projetores de vídeos e slides, nos quais são passados filmes, vídeoaulas e músicas como materiais didáticos, o que amplia a possibilidade de compreensão dos estudantes e torna a aula mais significativa. Ou seja, na contemporaneidade, as tecnologias desenvolvem um importante papel na didática do docente e consequentemente no aprendizado do estudante, pois as tecnologias, denominadas tecnologias da inteligência3 (escrita, imprensa, informática) foram e continuam sendo importantes para o desenvolvimento epistemológico da sociedade, como afirma Lévy (1993, p. 154): Uma boa parte daquilo a que chamamos de “racionalidade”, no sentido mais estrito do termo, equivale ao uso de um certo número de tecnologias intelectuais, auxílios à memória, sistemas de codificação gráfica e processos de cálculo que recorrem a dispositivos exteriores ao sistema cognitivo humano. Isto é, Lévy pensa uma epistemologia não somente na subjetividade, mas também nos objetos e técnicas desenvolvidas pela humanidade ao longo do desenvolvimento histórico e que fazem parte do Ser social. Porém, a escola pública na qual nos referimos encontra sérios problemas no avanço da prática docente e materiais digitais que possam ser utilizados pelos seus 3 O conceito de tecnologias da inteligência foi desenvolvido pelo filósofo francês Pierre Lévy (1956 - ) e pode ser encontrado em praticamente em todas as suas obras. Sendo a mais importante sobre o tema: As tecnologias da inteligência (1993). Este conceito na área pedagógica contemporânea também pode ser considerado sinônimo de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). 3 docentes, em especial na disciplina de Filosofia, pois auxiliaria na compreensão de conceitos abstratos empregados pelos filósofos. Perguntado se já desenvolveu atividades práticas respondeu ele: “Sim, o PIBID está produzindo uma novela filosófica com os estudantes do 2° ano que irá abordar como tema a emancipação da mulher durante a história, utilizando textos filosóficos como base.” E no dia da entrevista (23/09/2014) ocorreu uma encenação com os estudantes do 3° ano sobre o tema que estava sendo estudado, o existencialismo, onde os grupos formados pelos estudantes criariam situações do cotidiano dando ênfase nas escolhas que as personagens deveriam tomar. Esta atividade foi bastante significativa e tivemos um bom feedback dos estudantes. 4 AVALIAÇÕES: Assim como o professor afirmou ter total autonomia para escolher seus conteúdos, também tem total autonomia de escolher os seus tipos de avaliação sem sofrer nenhum tipo de pressão da coordenação ou direção da escola. Perguntado se a avaliação é contínua e se a participação do aluno é um critério imprescindível para a avaliação, a resposta foi que somente em situações específicas, mas fica muito difícil quando se tem 50 alunos ou às vezes mais em cada sala. Quando nos referimos à política deliberada da secretaria do Estado em não reprovar os estudantes mesmo inaptos para seguirem, o entrevistado respondeu de forma curta e direta: “Não aprovo”. Esta atitude pode estar indo contra as deliberações do nosso Estado, mas está a favor da nossa educação. 5 RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO: Perguntei ao professor se na opinião dele haveria uma diferença entre autoridade e autoritarismo, e segundo ele existe sim: Autoridade é ter controle da situação, enquanto – segundo ele – autoritarismo é utilizar um poder excessivo e 4 querer exigir o que quiser do estudante sem levar em consideração os problemas dos indivíduos no cotidiano. Na pergunta: “É possível manter uma boa relação com os alunos numa turma de 40 ou 50 estudantes? Como?” O entrevistado disse que a situação é controlada. E de fato, a situação é controlada, como demonstrou a minha experiência como membro do PIBID, pois o professor prefere passar a personalidade do “professor chato”, isto é, uma certa distância entre o papel do professor e do educando, ao invés de querer ter um contato mais próximo com os estudantes e procurar saber como melhorar as suas próprias aulas, afinal de contas a aula deve ser pensada visando os alunos. Questionado se já vivenciou alguma situação que o fez pensar em desistir da docência, respondeu ele que sim, em uma instituição escolar que o ambiente era desagradável, pois o desrespeito vinha tanto da relação professor- direção/coordenação como da professor-aluno, e completou: “Se sentia uma parede na hora da aula”. 6 QUESTÕES PESSOAIS: Por que escolheu ser professor de Filosofia? Respondeu o professor que na época que escolheu o curso possuía interesses diferentes, seu objetivo era continuar os estudos em Teologia, todavia, com o passar do tempo seus interesses foram mudando. Perguntado sobre as dificuldades no exercício da profissão, ressaltou os problemas citados anteriormente como a limitação estrutural da escola pública e também a baixa aceitação dos alunos com a disciplina. Acerca da colaboração que o estagiário poderia exercer para melhorar o seu trabalho, o entrevistado respondeu que trazendo ideias e colaborando com críticas. Posteriormente, foi perguntado sobre as mudanças advindas pelo PIBID: “Trouxe estratégias novas, uma dinamização do ensino”. Algo importante que vale ressaltar é a nossa organização democrática em decidir o que será utilizado em sala de aula, ajudando ambas as partes: O professor que desenvolve novas formas de 5 ensino e com isso se atualiza, e os bolsistas que terão um contato com a prática pedagógica aprendendo como funciona a escola e as dificuldades em sala de aula. A pergunta mais importante desta seção: “O que você pensa a respeito do atual estado em que se encontra a educação pública no Estado de Alagoas?” Sua resposta inicial foi: “Preciso falar?” Demonstrando o seu descontentamento com o nosso sistema educacional e prosseguiu: “Caótica, porque a maioria dos professores são monitores e a falta de professores é muito grande”. Este problema da monitoria será discutido mais a fundo nas considerações finais deste artigo. Durante a pesquisa de campo para o relatório de estágio supervisionado 14, foram feitas perguntas semelhantes, no tópico das dificuldades encontradas pelo professor, a sua resposta foi: Uma hora/aula, salas lotadas, falta de incentivo da escola em atividades que vão além da sala de aula, falta de tecnologias que facilitem a didática, problemas da estrutura física escolar que depois de passar por uma “reforma” superfaturada no ano de 2012 que segundo o professor de Filosofia e coordenador do período noturno teve um valor gasto de 400 mil reais. No entanto, nos dias 05 e 06 de maio não houve aula, pois ocorreu uma enchente na escola que comprometeu a rede elétrica da escola. 7 CONSIDERAÇÕES FINAIS As conclusões a seguir foram tiradas pelo entrevistador após a entrevista que não teve respostas tão inesperadas, pois a realidade desta escola estadual e deste professor se repetem em outras escolas do nosso Estado e quiçá no nosso país já fazendo parte do imaginário coletivo o sucateamento da educação. Para um estudante de Filosofia, o trabalho de campo soa como um estranhamento, afinal de contas, o trabalho empírico de análise dos casos particulares da realidade, sejam casos naturais ou sociais sempre deixamos para a ciência moderna. Entretanto, é muito gratificante para futuros professores de Filosofia esta atividade para perceberem as nuances e contradições das relações 4 CAVALCANTE, Ricardo Max Lima. Plano de Estágio1: Conhecendo uma escola da rede pública de Alagoas. UFAL, 2014. Mimeo. 6 sociais dentro de uma escola e fora dela como é o caso da relação professorEstado, no entanto, não significa dizer que por ser um trabalho de campo não possamos utilizar referenciais teóricos (científicos ou filosóficos) e com isso ficar somente na apreensão sensível, muito pelo contrário, devemos sempre relacionar a teoria desenvolvida dentro da universidade e a prática docente (práxis). Os problemas citados no decorrer do texto como a falta de mídias digitais ou de estrutura não devem ser resumidos a um problema de gestão escolar, e com isso restringir à escola, sem levar em consideração o dever do Estado de solucionar estes problemas. Um outro problema citado pelo entrevistado foi a quantidade de monitores do Estado, ou seja, professores que muitas vezes ainda estão no processo de formação são contratados pelo Estado através de contratos temporários, ou seja, o estudante que está se graduando hoje em uma licenciatura e é contratado pelo Estado para ser monitor está tirando a sua própria vaga de professor efetivo no futuro. Além do mais, a quantidade de monitores dificulta a organização da classe docente, reduzindo a força política da classe organizada, pois os monitores não possuem os mesmos direitos que os professores efetivos. Como diagnostiquei no quadro abaixo do relatório de estágio supervisionado 15, a quantidade de monitores em 2014 é a metade do corpo docente da mesma escola estadual que estamos nos referindo neste artigo: PROFESSORES e SITUAÇÃO FUNCIONAL 5 MANHÃ TARDE NOITE TOTAL Efetivos e Monitores E M E M E M E M Filosofia 1 1 1 0 1 1 2 2 Língua Portuguesa 2 2 2 2 1 1 5 5 Matemática 1 2 1 3 1 1 3 6 Idem 7 Física 0 1 1 0 1 1 2 2 Química 0 0 0 0 0 0 0 0 História 1 1 2 1 2 0 5 2 Biologia 0 0 0 0 1 0 1 0 Geografia 1 2 1 1 0 2 2 5 Artes 0 1 0 1 1 0 1 2 Educação Física 1 0 1 0 1 0 3 0 TOTAL 7 10 9 8 8 6 24 24 Por estes motivos, podemos afirmar um paradoxo existente entre o Estado e a educação estatal, pois ao passo que o Estado é o responsável por manter as escolas em funcionamento, contrata professores e outros profissionais da educação ele está sendo um dos responsáveis do sucateamento da escola e da desvalorização da profissão docente. É claro que da mesma forma que não podemos analisar os problemas da escola levando em consideração somente a escola, pois cairíamos numa análise unilateral e pelos mesmos motivos não podemos analisar os problemas entre o Estado e a educação reduzindo a culpa somente ao Estado, sem levar em consideração a política econômico-social por trás e seus interesses. Voltando a escola, percebemos que o professor prefere uma relação com os estudantes controlada pela autoridade, mas sem cair em um autoritarismo, entretanto, esta autoridade pode se tornar uma relação hierárquica onde o que garanta o poder de um sobre o outro é o conhecimento e o diploma. Mas para aqueles que buscam uma educação emancipadora deve começar a desconstruir as relações de poder entre os agentes educativos. Isso não significa começar relações informais com os estudantes, e sim relações dialéticas, para exemplificar melhor, lembremos dos diálogos platônicos, onde Sócrates era um mediador do conhecimento, e não um dono da Verdade. 8 Todavia, não podemos somente elencar pontos negativos da pesquisa de campo, tivemos ótimos resultados em relação aos conteúdos trabalhados pelo professor, pois a sua formação em Filosofia garanta que ele não seja um prisioneiro do livro didático e tenha um domínio dos períodos históricos da Filosofia, suas temáticas e problemáticas, sabendo muito bem colocar a Filosofia como atividade reflexiva da vida cotidiana do aluno. Outro ponto positivo é a participação do PIBID nesta escola, criando os laços muitas vezes esquecidos entre a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e as escolas da rede pública de ensino, pois é papel dos pesquisadores da educação e futuros professores entender a realidade educacional do Estado de Alagoas, diagnosticar os problemas e buscar tentativas de solucioná-los. O PIBID do curso de Filosofia da Universidade Federal de Alagoas não funciona somente nesta escola no qual se referimos durante todo o artigo, mas também em outras três, exercendo assim um intercâmbio entre professoressupervisores, coordenadores de projeto e bolsistas, onde sempre são discutidos os problemas em que cada escola passa, como o PIBID pode se programar para solucionar, futuras atividades em conjunto entre as escolas e também formações sobre ensino de Filosofia ou Filosofia de ensino etc. Para concluir nosso trabalho que partiu inicialmente de uma análise de caso particular que envolvia muitas relações sociais: Professor-estagiário, professordireção/coordenação, professor-alunos, professor-Estado, sempre colocando no centro da discussão e ponto de partida o professor entrevistado, e a partir dele discutir o duplo papel do Estado de responsável pela manutenção do sistema educacional e de inimigo da educação quando prefere contratar monitores ao invés de efetivos, não investe em materiais didáticos para a escola e faz reformas superfaturadas; como também a importância da Universidade para a escola pública alagoana. REFERÊNCIAS: 9 CAVALCANTE, R. O ensino de Filosofia no contexto da cibercultura. In: VIII Colóquio Internacional, 2014, São Cristóvão-SE. Anais eletrônicos... São Cristóvão: UFS, 2014. Disponível em <http://educonse.com.br/viiicoloquio/trabalho.asp?id=687>. Acesso em: 24 set. 2014. CAVALCANTE, R. Plano de Estágio1: Conhecendo uma escola da rede pública de Alagoas. UFAL, 2014. Mimeo. CAVALCANTE, R. Plano de Estágio2: Entrevista com um professor de Filosofia da rede pública de ensino do Estado de Alagoas. UFAL, 2014. Mimeo. LÉVY, P. As tecnologias da inteligência: O futuro do pensamento na era da informática. 1 ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. 208 p. LUDKE, Menga; ANDRÉ, Marli E. D. A.. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas. São Paulo: EPU, 1986. 10