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luca mac doiss
Conto n.o 3 : O Espelho – Agosto 2011
“Difícil não é se olhar no espelho, difícil
é se olhar do espelho.”
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entil
ublicati havia acordado cedo. O dia esperado havia
chegado. A opção melhor, fugir, por vezes foi utilizada, fugiu, mas um
dia o rato cai na ratoeira, caiu, de rato a pato, de assim a assado, da noite
para o dia, “sim; fazer o quê?”, o queijo era de um cheiro irresistível; bacalhau, não, ele gostava da danada na língua, desejo, cheiro e sabor; gorgonzola, não, nada de mofo, aí só dedo, e, mesmo assim, “arre”, sabão a
valer, esfregão sem dó; ingá, “sim, ingá”, da fruta ele gostava, sempre
gostou, “ingá-do-paraíso, existe?”, sei não, mas Gentil dizia que havia
encontrado, sim, disse sim, gostava de vários, de diversificados tipos de
queijo, e da fruta, várias e sortidas, “ou elas ou eu, escolhe, depois de apanhar, só eu, e até o caroço”, ou sem elas ou sem ela, sem o ingá-doparaíso, o mais doce dos ingás, não, disse sim. O dia esperado, não por
ele, por ela, havia chegado. Enfrentaria a igreja, com certezas e incertezas. Sim, havia encontrado a companheira ideal, sonho de qualquer sujeito, sujeito de sorte, ele. Não, aproveitaria a ausência de testemunhas no
casarão, estava sozinho em casa, e partia sem destino por este Brasilzão
afora. “Ó cruel gelatina”, adotava a monogamia ou fugia de bicicleta? O
que aconteceria, Gentil sabia, deixaria as horas do dia passar, deixaria o
tempo o levar até a igreja. Enfrentaria a cerimônia tão desejada pela noiva, de meio-fraque por inteiro, gravata-borboleta até, presa, segurando o
pescoço voltado para uma só direção, a dela, da borboleta que bateu asas
só para ele, que bateria asas só para ele.
árbara
utterfly conheceu Gentil na Universidade, um dia
se trombaram na piscina do centro de recreação, ela em folga da Arquitetura, ele em forca da Economia, ela por confiar no destino, então já era
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hora de se enrabichar, enamorou-se do atraente moço, ela não precisou
nem de respiração boca a boca, ele soltou a língua no primeiro beijo, então já acostumado às conquistas universitárias, afogou-a, mas puxado,
deixou-se no princípio ser levado, depois acostumado foi deixando se
puxar. Oito anos, ela apaixonada, “ele, só ele”, ele relaxado, “ela e outras”; ela ali na massagem relaxante da manhã lembrou-se do primeiro
encontro, do primeiro beijo, lembrou-se de que nunca se esquecera de
nenhum detalhe do vigoroso amor que aumentou a cada dia que se sucedeu e que, sentia, aumentaria a cada dia que se sucederia. Dali a algumas
horas estaria casada, estariam casados. Apenas um detalhe a preocupava,
a igreja ficaria com um lado mais pesado que o outro, a contagem dos
convidados dele enchiam uma única mão: a mãe, simpática, almoçara um
dia com ela; um tio materno, a esposa e dois primos viriam do interior,
Timburi; o pai, sumiu, não deixou nem o maço de cigarros; Gentil, ainda
criança, três anos, não falava do assunto, mas era dia de sol, nuvens negras o abatiam ao assunto à tona, era dia de sol, Gentil tinha qualidades
de encher um cesto de algodão, começando com a que com o nome se
confundia, era dia de sol, a maquiagem aguardava-a, um almoço leve, folhas, legumes, frutas, pepino?, não. A mãe e a sogra fariam companhia a
ela. A sogra, enigmática, de pouca fala, simpática na mudez perderia um
filho, no sorriso de aceitação não ganharia uma filha.
afira
astos voltou ao nome de solteira, Bastos, família
abastada de Timburi, ficou com o Dublicati uns mais três anos, o sumido
ficou na fumaça, a esperança de nova vez vê-lo sumiu com a garoa de
São Paulo; não vendeu, deixou com um empregado a cuidar o casarão de
Santana, na Zuquim, foi viver uns tempos com o irmão; voltou para o casarão com o filho na faculdade, sofreu para criar o filho órfão de pai, órfão de dinheiro novo; após gastar o dinheiro da herança, passou a viver
com o salário sofrido de professora primária de interior; homem, homem
teve alguns, lá e aqui, mas sem querer para mais do que a necessidade fi-
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siológica, sempre a esconder do filho, nunca em casa; quem sabe então
com o casamento do filho não poderia fixar-se com um novo companheiro, pensava dona Safira, “dona, desde quando me chamam assim?”, cabelos brancos após quinze dias de tinta vencida, rugas à direita e à esquerda
e varizes, varizes que não a deixavam dormir; sim, dona estava de bom
tamanho! “Onde está meu marido, meu eterno amado?” Pergunta que vinha quase com todo sol, na lembrança dos dias felizes, na dúvida de o
que teria acontecido com o marido: vivia, enterrado como indigente, fugiu por própria vontade, fugiram com ele, verme, vítima, testemunha?
Dias de chuva desde então; Gentil se mudaria para um ap na Paulista,
“pequeno assim, até para dois”, o casarão era grande para sozinha viver,
sim, um companheiro viria a calhar, preencheria os buracos em falta,
“mas, e o quarto do espelho?”, o quarto mantido fechado desde o sumiço
do primeiro, do marido que virou fumaça, “o que faço do espelho dele?”.
étalo
ublicati herdou o casarão de Santana do pai,
fazendeiro, produtor de café; o pai barão ajudou a fazer a planta símbolo
deste país, ajudou a criar riqueza para nosso país – ai!, escrevi, mas já me
arrependi –; trocou o casarão da Paulista por esse da Zuquim, depois da
queda do grão no mercado mundial. O ouro negro! enquanto durou, durou, da riqueza escoada e filtrada repartida com outros sete meio-irmãos
coube ao Pétalo, filho preferido, “ai!, digo eu”, o casarão, o casarão e o
espelho. Mágico? não, a resposta à pergunta, a ele a resposta da mãe, a
qual também não durou muito após o barão ter partido deste para além.
Poderoso! sempre a ela afirmava o barão, que o trancou, sem mais nenhum outro objeto a dividir o espaço, no mais amplo quarto do casarão.
A chave do quarto do espelho viu, pegou Pétalo somente após a mãe ter
ido se reunir com o barão; dizia ela que seria preciso uma mesa das grandes para o almoço com todas. As palavras do pai, várias vezes ditas, ressoavam na cabeça de Pétalo sem parar, “o espelho fez minha fortuna,
mas também minha desgraça”. Assim, postergou, evitou até quando pô-
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de, quando somente a curiosidade o empurrava, até o dia em que completou trinta anos de idade, quando a incerteza de quem se tornara, do que
fizera da vida, do que abria mão, o jogou para dentro do quarto. Pétalo
vestiu-se como sabia que o pai fazia, “o poder do espelho somente se revela quando o dono se apresenta sozinho e vestido a caráter, no mínimo
com paletó e gravata”, deu um beijo no filho, um beijo na mulher, afastou-se com passos medidos, e, entrou no quarto do espelho, fechando a
porta à chave por trás das costas. Ela não compreendeu o inusitado ritual,
mas também, a custo, é verdade, não caiu na risada ao vê-lo com calças
jeans, o paletó do casamento, único paletó, e a gravata-borboleta, única
também; simplesmente deu de ombros e continuou a fazer o que fazia.
Foi essa a última vez em que ela o viu. Foi essa a última vez em que do
pai Gentil ouviu. Foi aquele o último beijo do amado.
afira
astos tinha o almoço pronto, o filho à vista atirava
pedras em uma das árvores do quintal do casarão; o pássaro, provável alvo, despreocupado, acostumado com a cena, cantava, “bem-te-vi, bembem-te-vi, bem-te-vi”; do beijo de duas horas atrás do marido então já
nem se lembrava; à mesa posta, gritou, “Pétalo, vem comer”; não perdeu
tempo gritando, buscou pela orelha o filho; “Pétalo, o almoço tá na mesa!”, aí, lembrou-se do marido vestido a caráter entrando e fechando a
porta do quarto do espelho, “não vai ouvir”; verdade, ele não a ouviria
mesmo se berrasse com toda a força das entranhas; da cozinha avistou a
porta ainda fechada do quarto, foi até lá; trancada à chave, bateu na porta
por vezes, uma, dois toques leves, nada, duas, três toques pesados, nada,
três, quatro batidas fortes, nada; o almoço esfriou, nada, o jantar michou,
nada; o sol não tornou a aparecer, nem o marido. No dia seguinte, aberta
a porta por um oficial de chaves, entrou no quarto, nada, nem fumaça,
nem bituca de cigarro, nada; somente o espelho, enorme, capaz de refletir
de corpo inteiro dois metros de pessoa, disposto de lado, no lado esquerdo do quarto, reinava, reinava as paredes; a janela ao fundo, diametral-
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mente oposta à porta, fechada, trancada por dentro; apenas como único
sinal de que ali alguém esteve, o lençol que cobria o espelho amontoado
aos pés da moldura de pinho dourado esbranquiçado pelo longo tempo de
vida. A nova amiga escutava calada, a nora amiga, que pouco comia do
almoço no Noiva Spazio, ouvia sem real interesse.
árbara
utterfly tinha decidido não se preocupar com o pai
ou com a falta do pai do noivo, afinal ele mesmo nunca quis conversar
sobre o assunto, e dava a entender haver superado o passado, trauma nem
de longe parecia ser o caso, “passado passado”, e, pronto, “não se fala
mais no assunto”. A sogra, à pergunta da mãe à mesa, acrescentou que
Gentil, então, estava com a mesma idade que tinha o pai quando este desapareceu, trinta anos, e nesses anos sem o pai, nas raras vezes em que
tocavam no assunto, afirmava que repudiava o ato do pai, “Pai? a senhora
é minha mãe e o meu pai!”, abandonar o filho à sorte da infância, da adolescência, da maturidade não assistida, e, abandonar a mulher amada, ou
a pessoa que o ama, sem explicação, “sem um bilhete que fosse”; não, ele
não abandonaria uma pessoa com quem tivesse convivido com amor,
com quem tivesse repartido juras de amor. Bárbara sorriu; e tremeu ao
olhar para o relógio, quatro horas de solteira restavam-lhe, com o almoço
acabado, seguiria: maquiagem, montar no vestido, e, dali direto para a igreja; ela e as duas acompanhantes. Em quatro horas estaria fazendo
charme em frente à igreja, fazendo o noivo aguardar um pouco mais um
pouco por ela no altar.
entil
ublicati olhou para o relógio da sala do casarão,
havia almoçado no habitual restaurante do bairro, emendado com um cochilo de uma hora e com um bom banho; então com o meio-fraque montado, gravata-borboleta aprumada, tinha ainda uma hora antes de um dos
amigos do trabalho, o Augusto, “gente boa!”, tocar a campainha e levá-lo
à igreja. Uma hora, sessenta minutos, “mono ou bi, game or key”, ainda
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pensou; aí pensou, “é a última vez, estou pronto para partir à igreja”, partido, sim, pronto, sim. “As abotoaduras!”, as abotoaduras da família Bastos, “a mãe pediu que eu as usasse”, abotoaduras e algemas, puro simbolismo, ele sabia; a mãe nunca dissera, nunca pusera em palavras, mas para bom entendedor... nunca na família Bastos um homem abandonara a
mulher, nunca um homem pulara fora – atido aqui ao sentido único de
manter o compromisso –, “onde estão?”; ele não acreditava, “algemas
não segura nem condenado”, mas não custava contentar a mãe, seguir a
tradição dos Bastos, família abastada de Timburi, “na gaveta da cômoda
da mamãe!”, achou as abotoaduras, mas, talvez pela ansiedade, puxou
com tal exagerada força a gaveta que a atirou ao chão, derrubando tudo
que nela havia; até um fundo falso se mostrou, denunciando uma foto e
uma chave. A foto, até se sentou Gentil, era dele mesmo, recente, dele
mesmo de então, daqueles dias, concluiu, pela aparência, pelos traços do
modelo; o local da foto, a varanda da entrada do casarão; mas não se
lembrava de ter posado para ela, nunca fora dele tirada uma foto na varanda, “e em preto e branco?”, não, não era ele; se não era, quem então?
óbvio, o pai dele, da época em que vivia naquela casa. E a chave, obviamente do quarto em que ele ainda não pusera o pé, por pedido da mãe,
por medo plantado na infância pela mãe, por trauma, por respeito; por tudo junto!; sim, era a chave do quarto do espelho, então ali na mão dele,
naquele dia, naquela hora, naquela encruzilhada, quase gritando a ele para ser usada, quase implorando para que Gentil fosse ao quarto, fosse olhar para o espelho, fosse descobrir o que havia de especial no reflexo do
espelho, tirar a limpo o que havia acontecido ao pai, se é que havia o que
lá descobrir. E, tinha ainda quarenta minutos, e estava pronto, com o
meio-fraque e a gravata, estava a caráter. Resoluto, chave em mão, abriu
a porta do quarto do espelho, localizou o espelho, lado esquerdo do quarto, de lado, janela ao fundo fechada, acendeu a luz; um lençol cobria por
inteiro o espelho; fechou a porta e caminhou até o espelho, tirou o lençol,
deu dois passos para trás, levantou os olhos, os quais mantivera abaixa-
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dos por intermináveis, suados minutos, e mirou a imagem dele refletida,
a imagem dele reproduzida com perfeição, com todos os contornos e linhas, a imagem refletida por inteiro, a imagem dele mesmo.
étalo
ublicati sentiu o sol bater forte no rosto, sentiu os
solares raios incidirem diretamente nos olhos; teve até de pô-los à meiafresta para ver os poucos degraus da varanda da entrada do casarão. Augusto, o amigo de Gentil, não entendeu quando saindo pelo portão em
vez do amigo, em vez do cabelo tombado à testa, uma testa avançada sobre o outrora couro cabeludo, em vez dos castanhos, uma maioria de
brancos cabelos, em vez do propagado meio-fraque, uma despojada calça
jeans e um paletó surrado; de perto, concluiu, “meu amigo envelheceu
para lá de vinte, quem sabe uns trinta anos; não, não é ele, mas é a cara
do safado”. Após umas poucas trocadas frases, assertivas e quebradas,
entraram no carro. Não disseram mais nenhuma palavra até a igreja. Após descerem em frente à igreja, aguardaram separados por metros, o jovem na escada e o de idade avançada em posição sem destaque, ao lado
da entrada, oculto de olhares sem intenção de companhia. Ao chegar o
carro com as mães, Augusto foi conversar com elas. Ao chegar o carro
com a noiva, a mãe dela entrou; uns cinco minutos depois, o carro partiu
sem ninguém descer.
étalo
ublicati caminhou até
afira
astos. Ofereceu-lhe
o braço direito. Ela apoiou nele o braço esquerdo. Ele fez um sinal ao
Augusto, agradecendo a oferecida carona, e partiram a pé em direção ao
casarão, em direção à casa deles.
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Nota do Narrador (Augusto, gente boa!l): eu sempre achei que esta história tinha muito simbolismo, o que é a cara de meu amigo Gentil, um
cara de metáforas, daí conclui que talvez eu devesse entender que o
quarto do espelho fosse, de verdade, o quarto do casal, o quarto dos pais
do Gentil, e o espelho, o pai dele, o Pétalo. Sei não, seria metafórico demais, nenhum leitor vai pensar nessa possibilidade, deve existir uma explicação melhor para “o espelho”. Um dia, quem sabe, eu descubro, enquanto isso, penso em contar uma outra história sobre esse espelho do
quarto.
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