CERIMONIAIS ESCOLARES EM PIRACICABA NA
REPÚBLICA VELHA: ESPAÇO DAS ELITES, FOCO DA IMPRENSA
José Luis Simões
Centro de Educação
Universidade Federal de Pernambuco
Introdução
Na República Velha, a cidade de Piracicaba ocupava importante espaço no cenário
político nacional, pois teve como um de seus principais cidadãos Prudente de Moraes
Barros, que ocuparia o cargo de presidente da República no período de 1894-1898. Além
disso, foi o primeiro presidente da República de origem civil e representante das elites
cafezistas de São Paulo.
Mergulhada num contexto social e político onde o coronelismo e a falta de
oportunidades de acesso à escola para os segmentos pobres da população eram algumas das
características marcantes da República Velha, a cidade de Piracicaba destacava-se como um
dos principais pólos de educação do Estado de São Paulo. A emergência da Escola Agrícola
Prática Luiz de Queiroz logo no aclarar de 1901, a constante presença de autoridades do
campo educacional na cidade e a opulência dos prédios dos principais colégios da cidade
são indícios de que Piracicaba despontava como uma das principais cidades do Estado
também no âmbito educacional. Alguns memorialistas lembram com nostalgia que
Piracicaba figurava como “Atenas Paulista”.
Analisando as reportagens jornalísticas desse período, percebemos que a escola era
um espaço de congraçamento e encontro das elites da cidade. A imprensa local exaltava os
cerimoniais escolares, identificava-os como momentos de elevada importância no
desenvolvimento da urbe , entendia a educação como elemento central para o progresso e
modernização da cidade e do país, missão colocada para as elites. Quanto aos pobres,
negros, vadios e imigrantes pobres, as escolas eram prédios estranhos. Além de atrair os
holofotes das boas notícias, os canais de acesso às escolas se encontravam cerrados para
grande maioria da população. Em suma, escola era sinônimo de distinção social, de
2
conhecimento elitizado, riqueza científica e cultural, prerrogativa das elites que
governavam a cidade.
As elites se congraçam nos cerimoniais escolares
Um aspecto comum que observamos nas notícias sobre educação durante a Primeira
República trata-se da transcrição detalhada dos cerimoniais que aconteciam nas instituições
de ensino, quer fosse por ocasião das datas cívicas, formaturas, início do ano letivo ou
homenagem a alguma autoridade da cidade. Em todo período pesquisado, a descrição dos
cerimoniais no interior das escolas colocava-se como matéria obrigatória no noticiário da
imprensa. A partir da década de 20, apesar da significativa ampliação da quantidade de
anúncios comerciais, contudo, os cerimoniais escolares não tiveram prejuízo 1.
A análise dos cerimoniais escolares certamente serviria de objeto de estudo para
muitas teses. É espantoso o quanto encontramos de matérias que reproduziam esses
cerimoniais. A divulgação dos cerimoniais se concentrava nos finais de semestre, mas com
maior efusão nos meses de novembro e dezembro, período em que se comemorava o
encerramento das atividades de ensino e celebravam as formaturas.
Encontramos uma gama informações, com detalhes, nas reportagens que descreviam
os cerimoniais escolares. As reportagens davam foco às autoridades que compareciam a
esses eventos, à direção das instituições, ao desempenho dos alunos quando realizavam
algum tipo de apresentação artística, ao ritual de canto do hino nacional, entrega de
homenagens etc. Há matérias que ocupam toda primeira página do jornal, e algumas delas
continuam a reproduzir determinados cerimoniais por vários dias. Os cerimoniais escolares
recebiam tratamento prestigioso por parte da imprensa, não apenas pelo espaço e destaque
recebido, mas principalmente pela forma, pela linguagem utilizada para qualificar e tornar
1
A questão do espaço dedicado aos anúncios comerciais é um tema que precisa ser pesquisado
apropriadamente. Todos os órgãos da imprensa piracicabana dedicavam significativo espaço para esses
anúncios. Em julho de 1895, cerca de 50% da Gazeta de Piracicaba dedicava-se à venda de fazendas,
equipamentos agrícolas e serviços prestados por profissionais liberais. O que marca a década de 20 é o
surgimento de outros produtos no mercado e a ampliação exacerbada de anúncios com fins comerciais em
algumas edições, como a Gazeta, 01/11/1923, que tem toda primeira página ocupada com a propaganda dos
“automóveis Fiat”, e a de 28/04/1921 onde toda primeira página se dedica a anunciar as variedades da “Casa
Paulistana”.
3
público esses momentos. Os cerimoniais que aconteciam no interior das escolas serviam
para ressaltar o prestígio de alguns atores sociais, especialmente aqueles que atuavam na
direção das instituições de ensino, indivíduos reverenciados pela imprensa. Ademais, os
cerimoniais destacavam e exaltavam a presença de membros que compunham a elite da
cidade.
As reportagens pesquisadas revelam substantiva presença da Escola Agrícola
Prática Luiz de Queiroz, Escola Normal, Escola Complementar e Colégio Piracicabano nas
notas que divulgavam os cerimoniais escolares. A presença da Escola Agrícola é a mais
freqüente. Às vésperas do cerimonial de formatura da turma de 1910, a reportagem ganhou
destaque de capa, sendo ilustrada com a foto do diretor da escola (Dr. Clinton Smith), e
outra mostrando o prédio principal da instituição. Efusivamente, e ao mesmo tempo
destacando a relevância do ensino agrícola para o país, a reportagem iniciou da seguinte
forma:
ESCOLA AGRÍCOLA ‘LUIZ DE QUEIROZ’- As Festas de
Formatura dos Agronomandos - Pelos relevantes serviços que, não só
ao Estado de S. Paulo como a todo Brasil, vem prestando nestes últimos
anos, a Escola Agrícola ‘Luiz de Queiroz’ granjeou uma posição de
destaque entre as demais escolas profissionais brasileiras, porque se pode
verdadeiramente asseverar que, no seu gênero, por enquanto nenhuma
existe entre nós que possa satisfazer, com tanta precisão, aos elevados fins
a que ela se destina...2
Na continuidade da reportagem, o jornal enfatizou a característica agrícola do país,
justificando a importância da “Luiz de Queiroz”, afinal, “nunca seria possível descortinar
horizontes mais amplos para a agricultura nem assegurar um destino elevado e afortunado
para a classe agrícola, enquanto essa apatia enervante empolgasse, entre seus delgados de
ferro, a força suprema de nossa vitalidade (...)” 3.
Nessa perspectiva, a Escola Agrícola surgira como salvaguarda do desenvolvimento
da agricultura nacional. De qualquer forma, a notícia seguiu dando destaque ao cerimonial
2
3
Jornal de Piracicaba, 10/11/1910.
Idem.
4
que estava para ser realizado. O trecho final da reportagem reproduz o formato que se daria
o encerramento do cerimonial:
(...) em seguida, será dada a palavra ao talentoso moço, sr. Arthur Torres
Filho, orador oficial da turma, para produzir o discurso de despedida.
Após este discurso, falará o paraninfo dr. Dias Martins, ex-diretor e lente
da escola e que atualmente dirige, com brilhantismo, o Serviço Nacional
de inspeção. Estatística e Defesa Agrícolas, do Ministério da Agricultura.
Findo o discurso, o dr. Smith pronunciará algumas palavras, encerrando,
em seguida, a sessão.4
A reprodução dos cerimoniais escolares na imprensa da época pode servir de
diagnóstico da dimensão que a esfera escolar tinha para essa sociedade. Se nos apoiamos
nas reportagens jornalísticas da República Velha perceberemos que a escola era um dos
principais eixos do centro de poder e representação social durante esse período e
provavelmente o principal local de encontro das elites. A reprodução dos cerimoniais que
aconteciam nas escolas por meio da imprensa revela que a instituição escolar simbolizava
espaço de poder e prestígio social. Estar presente no cerimonial escolar, especialmente se
na condição de protagonista dirigindo os trabalhos ou sendo homenageado, significava
fazer parte da “boa sociedade”.
Essas matérias lembram o que Norbert Elias mostrou no livro La Sociedad
Cortesana. Os membros da corte francesa dos séculos XVII e XVIII se auto representavam
por meio dos cerimoniais de corte, que os envolviam em rituais penosos, porém,
necessários à preservação da nobreza enquanto segmento social distinto da burguesia,
embora esta se encontrasse em ascensão no jogo de poder social 5. Na sociedade de corte
descortinada por Norbert Elias, os cerimoniais serviam para legitimar o poder do Rei e sua
nobreza; da mesma maneira, os cerimoniais escolares na República Velha glorificavam a
presença das elites estabelecidas, os poderosos da cidade.
4
Idem.
Este trabalho de Norbert ELIAS, 1996, op. cit., também é uma análise minuciosa e profunda acerca dos
cerimoniais que ocorriam na sociedade cortesã de Luiz XIV. ELIAS atesta que os cerimoniais e os rituais da
sociedade cortesã asseguravam um distanciamento em relação à burguesia, que, embora fosse um segmento
social em ascensão no período, buscava o acesso à nobreza, seja comprando um título nobre ou tentando
imitar o comportamento e os hábitos da corte.
5
5
Os cerimoniais escolares envolviam rituais que exaltavam o trabalho de autoridades
ou membros das elites. Ademais, o espaço que ganhavam nas páginas da imprensa dava o
tom da importância desses momentos não apenas para as escolas como também para a
cidade. As elites da cidade valorizavam os cerimoniais, quer seja prestigiando as
festividades pela presença física ou oferecendo e recebendo algum tipo de homenagem das
autoridades que administravam as instituições de ensino.
Destaque-se, por exemplo, a solenidade de diplomação dos alunos da Escola
Complementar, turma de 1901, momento em que a imprensa enfatizou a presença das
autoridades, em especial a participação de Prudente de Moraes, ex-presidente da República,
líder da dissidência perrepista e morador da cidade. Prudente de Moraes presidia a
solenidade.
Escola Complementar – ontem, ao meio dia, realizou-se nesta Escola a
cerimônia da entrega de diplomas aos professorandos deste ano e de
boletins de promoções aos alunos, cujos nomes publicamos no nosso
numero anterior. Achavam-se ali muitas famílias, cavalheiros e
representantes da imprensa local. O ilustre sr. dr. Prudente de Moraes foi
convidado para presidir a cerimônia e fazer a entrega dos diplomas e
boletins. S. Excia. ocupou a cadeira da presidência, tendo à sua direita os
representantes da imprensa e o diretor da Escola, e à esquerda os srs.
Antonio Martins Duarte de Mello e o major José Pinto Novaes...6
Após a saída da Presidência da República e enquanto vivia na cidade, a presença de
Prudente de Moraes em cerimoniais escolares era bastante destacada e festejada pela
imprensa. Há evidências para identificar Prudente de Moraes como um dos membros da
elite piracicabana mais influentes e representativos da época. Este personagem incorporou a
imagem das elites da época. Advogado de profissão e com ascensão política, Prudente de
Moraes constituía-se representante das elites piracicabanas no poder político central,
portanto, sua glorificação por meio de cerimoniais escolares passaria a ser, de certa forma,
a glorificação das elites. Prudente de Moraes fazia parte da “minoria dos melhores” do seu
grupo social.
6
Jornal de Piracicaba, 01/12/1901.
6
Peremptoriamente, a família “Moraes Barros” compunha a elite piracicabana. As
comemorações e solenidades no Grupo Escolar Moraes Barros também serviam de ponto
de encontro das elites da cidade sob o teto do edifício que imortalizara o clã “Moraes
Barros”. A imprensa despendia generoso esforço para registrar as solenidades nesse Grupo
Escolar 7.
É festa no colégio, a imprensa e as elites estão lá
Agora pensemos o destaque dado aos cerimoniais escolares no interior do Colégio
Piracicabano, primeira instituição escolar privada a se instalar na cidade, valorizado pela
imprensa e, ao mesmo tempo, valorizava e investia no trabalho da imprensa, afinal, o
“Piracicabano” era um dos mais assíduos anunciantes. O Colégio Piracicabano construiu a
tradição de fomentar e patrocinar concertos musicais, fossem seus alunos os protagonistas
ou simples espectadores. Reportagem de capa do Jornal de Piracicaba reproduziu a carta de
um “distinto colaborador” valorizando a iniciativa do colégio:
COLLEGIO PIRACICABANO – De um nosso distinto colaborador
recebemos a seguinte noticia sobre o concerto realizado anteontem
naquele estabelecimento de ensino:
‘Amai-a, irmãos com delírio
Quem das artes é a Princesa
Tem por berço a natureza
E Deus a quer no Império.’
Tal a estrofe final no Hino Orphilino, que o Dr. Francisco da Costa
Carvalho escreveu, em 1862, dedicando a uma sociedade musical de
moços piracicabanos, que então só inaugurava, nesta poética cidade.
Quanto mais velozes passam os dias e os anos, quanto mais perto se nos
depara o marco terminal da existência, mais se nos aninha no coração a
verdade do velho conceito que aquela estrophe encerra – que a música é a
consoladora dos trabalhos da vida e que tendo por berço a natureza é uma
prece perene que se evolua da terra ao céu! O homem mau não canta diz o
provérbio alemão. Quem canta seus males espanta, diz ainda com muita
ciência o nosso caipira paulista...8
7
Dentre as inúmeras edições da Gazeta e do Jornal de Piracicaba que se ocupavam em registrar as
solenidades no Grupo Escolar Moraes Barros, destaque-se a Gazeta de 28/11/1907, onde 30% de toda edição
dedicou-se à divulgação da festa de encerramento do ano letivo nessa escola. A edição de 30/11/1909 da
Gazeta, destinou-se quase toda ao registro das solenidades de encerramento do ano letivo nas seguintes
escolas: Grupo Escolar Moraes Barros, Grupo Escolar Barão do Rio Branco, Escola Complementar e Colégio
Piracicabano.
8
Jornal de Piracicaba, 23/06/1901.
7
Algumas solenidades de encerramento do ano letivo no Colégio Piracicabano
chegavam a destacar-se de maneira tão expressiva nas páginas dos jornais que poderiam
gerar desconfiança no leitor. Havia matérias sobre as solenidades no “Piracicabano” que
chegavam a superar a divulgação dos mesmos eventos nas instituições públicas 9. As
festividades por ocasião do aniversário de fundação do Colégio Piracicabano aparecem em
todos os anos pesquisados. Numa dessas oportunidades, a Gazeta publicou editorial
enaltecendo a existência dessa escola:
Colégio Piracicabano – comemorou ontem o 48o aniversário de sua
fundação nesta cidade o conceituado estabelecimento de ensino Colégio
Piracicabano. Durante esse quase meio século de proveitosa existência,
esse estabelecimento prestou incontáveis serviços à causa da
instrução(...)10.
Mas além do Colégio Piracicabano, o Colégio Assunção também tinha as
solenidades divulgadas com certa freqüência. A solenidade de encerramento do ano letivo
de 1910, por exemplo, teve toda programação divulgada pela Gazeta e pelo JP 11. O mesmo
tratamento era dispensado à Escola de Comercio Cristóvão Colombo e à Escola de
Contabilidade Moraes Barros 12.
Festas de formatura pautavam a imprensa local, especialmente nos meses de
novembro, dezembro e janeiro. Esses cerimoniais promoviam o encontro das elites da
cidade. A Festa de formatura da turma de 1920 na Escola Normal, comandada pelo diretor
Honorato Faustino, foi tema central da imprensa em 25/11/1920
9
13
. A Gazeta transcreveu
É o caso da formatura de professorandos em junho de 1928, momento em que a Gazeta de Piracicaba
divulgou detalhes desse acontecimento, exasperando a imagem do Colégio Piracicabano por meio de suas
páginas. Cf. especialmente a edição de 22/06/1928.
10
Cf. Gazeta de Piracicaba, 14/09/1929.
11
Cf. Jornal de Piracicaba e Gazeta de Piracicaba, 20/12/1910.
12
Em janeiro de 1924, a festa de formatura na Escola de Contabilidade Moraes Barros foi divulgada
intensamente pelo Jornal de Piracicaba, sendo que a edição de 08/01/1924 dedicou editorial e quase toda
primeira página para destacar a solenidade. As edições da Gazeta de Piracicaba, 25 e 26/01/1927, tiveram
como principal notícia a festa de formatura na Escola de Comércio Cristóvão Colombo que, nessa
oportunidade, superou a divulgação dada aos acontecimentos no interior da Escola Agrícola Prática Luiz de
Queiroz. Durante todas as edições do Jornal de Piracicaba no mês de junho de 1928, as festas de formatura na
Escola de Comércio Cristóvão Colombo e na Escola de Contabilidade Moraes Barros apareceram com
destaque e como tema de editoriais. Na mesma direção, as edições da Gazeta de Piracicaba, 22 e 24/01/1928,
dedicaram toda primeira página para divulgação da festa de formatura na Escola de Comércio.
13
Cf. Jornal de Piracicaba e Gazeta de Piracicaba, 25/11/1920.
8
integralmente os discursos do prefeito Fernando Febeliano da Costa e do diretor geral de
instrução pública, Sampaio Dória. O Jornal de Piracicaba também é assaz exemplo do quão
valorizado eram os cerimoniais escolares. Essa mesma formatura na Escola Normal ocupou
toda primeira página do JP, edição de 25/11/1920. Nesta edição, o JP iniciou a matéria
fazendo alusão ao dia anterior, data do evento, registrando que às 20:00 horas o teatro
Santo Estevam encontrava-se lotado por uma platéia que prestigiaria o ato. Numa descrição
minuciosa da solenidade, assim registrou-se a composição da mesa:
Escola Normal – As Festas de Formatura – Sessão solene no Teatro
Santo Estevam – Conferência do sr. dr. Sampaio Doria – Outras
Notas – ... No palco, à mesa, ao lado do sr. dr. Honorato Faustino de
Oliveira, diretor da Escola Normal, tomaram lugar o sr. dr. A . de
Sampaio Doria, Diretor Geral de instrução Pública e o sr. coronel
Fernando Febeliano da Costa, governador da cidade, que paraninfou a
turma, e corpo docente da Escola Normal...14
Na seqüência da matéria o JP informara que Honorato Faustino abriu a sessão e, em
seguida, passou a palavra ao “Dr. Sampaio Dória”, conferencista convidado. A seguir, há
transcrição de praticamente todo discurso de Sampaio Dória, que na ocasião exercia o
importante cargo de “Diretor Geral de Instrução Pública”. A reprodução do discurso dessa
autoridade ocupou mais de duas colunas inteiras da primeira capa. O discurso do
conferencista enfatizou sua disposição em reorganizar a inspetoria escolar, fazendo um
balanço do trabalho do departamento a seu cargo durante o ano letivo de 1920,
reconhecendo que a presença da inspetoria através de visitas às unidades escolares havia
sido exígua durante aquele ano – menos de duas visitas por unidade escolar, sendo que
“260 escolas, com o sistema atual não tiveram, nem sequer, uma visita do inspetor”
15
.
Durante o discurso, Sampaio Dória prometera que para o ano letivo de 1920 buscaria
ampliar a presença da inspetoria ao patamar de cerca de oito visitas durante o ano em cada
unidade do sistema escolar.
14
15
Jornal de Piracicaba, 25/11/1920.
Idem.
9
Ao término do discurso de Sampaio Dória o jornal registrou que “o orador foi muito
aplaudido” 16. Em seguida, a matéria continuou reproduzindo a programação da solenidade,
revelando o nome de todos os formandos que receberiam o diploma: ”logo após procedeuse à entrega de diplomas aos novos professores(...)” 17. Após nomear todos os formandos, a
matéria informou que a palavra seria dada ao professor Fernando Costa, que teve seu
discurso reproduzido da mesma forma que o de Sampaio Dória.
Uma semana depois da presença da Direção Geral de Instrução Pública na
solenidade de formatura na Escola Normal, editorial publicado na Gazeta revelou o fascínio
gerado pelos cerimoniais escolares: “Festa de Formatura – um fim de ano em Piracicaba, a
cidade salve, é sempre repleto de festas de formatura. Umas seguem-se às outras,
realizando todas, pela graça, pelo brilho, pelo inesperado...” 18.
Os cerimoniais escolares eram marcados por um ritual que contemplava espaço para
manifestações artísticas, especialmente artístico-musicais, afinal, as aulas de música e canto
compunham a grade curricular de muitas dessas instituições. O canto e a poesia eram
considerados atividades nobres. Editoriais e matérias da imprensa reforçavam a importância
da música e das artes na formação de indivíduos “cultos” e “civilizados”.
Anote-se outro indicador interessante: os membros da elite dão nome às escolas da
cidade. Honorato Faustino, então diretor da Escola Normal nos idos de 1920, hoje, dá nome
a uma das escolas públicas da cidade. E o mesmo acontece com Prudente de Moraes,
Catharina Mendes Thame, Pedro Moraes Cavalcanti, Olívia Bianco, João Sampaio, Barão
do Rio Branco, Luiz Vicente de Souza Queiroz, Manuel de Moraes Barros etc., todos,
membros da elite piracicabana que, quando vivos participavam ativamente dos cerimoniais
escolares e, posteriormente, se tornariam lembrados e glorificados, servindo de nome às
instituições de ensino.
16
Idem.
Idem.
18
Cf. Gazeta de Piracicaba, 01/12/1920.
17
10
Nesse ponto encontramos assaz conexão se refletirmos a respeito da relação
estabelecidos-outsiders. Os outsiders não são “eternizados” do mesmo modo que as elites.
A educação formal, de maneira planejada ou não, tornara-se espaço grandioso de
representação e valorização das elites da cidade. Particularmente os cerimoniais escolares
constituíam-se momentos privilegiados de glorificação das elites.
Não encontramos sequer uma instituição de ensino que, até a derrocada da
República Velha, recebesse o nome de um negro ou qualquer outro indivíduo que não fosse
membro da elite estabelecida. Ainda que sutilmente, a educação formal em Piracicaba era
assumidamente “não inclusiva”, pois não incorporava o contingente dos outsiders em seu
espaço de atuação, e além disto não os valorizava durante os cerimoniais escolares; os
outsiders não compunham a mesa, não faziam discursos, não recebiam homenagens e nem
diplomas.
Ter o nome imortalizado no portão de entrada de uma escola, ponte ou avenida
importante da cidade se constituía prerrogativa inerente às elites; em geral, algum médico,
advogado, militar de elevada patente, engenheiro, fazendeiro, político ou professor. A
mesma regra não serve para os outsiders, especialmente aqueles que protagonizavam
manifestações de violência, afinal, não temos conhecimento de alguma Casa de Detenção
ou manicômio que houvesse recebido a denominação de alguém condenado por ato
criminoso ou estivesse debilitado em suas faculdades mentais.
Outra evidência do substancial espaço que os cerimoniais escolares ocupavam na
imprensa da época encontra-se na edição de 01/12/1910, onde toda primeira página do
Jornal de Piracicaba é preenchida com o registro das festas ocorridas no dia anterior, nas
dependências da Escola Complementar. O formato dessa matéria, que divulgou o
cerimonial apresentando toda programação, é muito similar aos demais e compõe-se
basicamente das seguintes etapas: a) composição de uma mesa diretora dos trabalhos; b)
execução de algum hino (geralmente o Hino Nacional ou o hino da própria instituição
escolar); c) entrega dos certificados; d) por fim, os discursos da Direção, professores
homenageados e formandos. Em geral, essas etapas das solenidades podiam ser
11
entrecortadas pela execução de hinos que traziam alguma identificação ao grupo de alunos
ou professores, ou qualquer outra apresentação artística – claro, desde que apropriada ao
momento e local.
Essa matéria iniciou registrando a opulência, a sofisticação na qual estava
ornamentado o salão nobre da referida escola, e o expressivo número de pessoas que
participavam da comemoração:
Escola Complementar – As Festas de Ontem – No salão nobre da
Escola Complementar, o qual se achava lindamente ornamentado com
flores artificiais, naturais e folhagens, realizou-se ontem, ao meio dia, na
presença de muitas exmas. senhoras e senhoritas, que ostentavam ricas
toaletes da moda, e de muitos cavalheiros, a sessão solene da formatura
dos professorandos deste ano...19
Na continuidade da matéria são apresentadas as autoridades que compuseram a
mesa, sendo que cada uma delas foi identificada, e, inclusive, o espaço que ocupavam na
mesa principal que dirigia os trabalhos. Posteriormente, houve o discurso do presidente da
mesa abrindo a sessão, a palavra do paraninfo e apresentação de uma orquestra. Em
seguida, os formandos recebiam seus respectivos diplomas e, então, se iniciavam os
discursos, na seguinte ordem: Dilia Ribeiro, representando as professorandas na entrega do
quadro da turma, Irene Zanotta, representando as professorandas; enfim, Elias de Mello
Ayres (que, décadas depois, emprestaria seu nome a uma das instituições de ensino da
cidade), representando os professorandos. O discurso do formando Elias de Mello Ayres foi
transcrito:
Quis a nímia generosidade de meus colegas professorandos que eu –p o
mais humilde da turma – fosse o escolhido pra traduzir o sentimento que
vos anima e encoraja, ao desvendarmos, neste instante, o horizonte
intérmino e indeciso de nossa vida futura. Cônscio da benevolência do
seleto auditório, já em outras ocasiões bastante indulgente para comigo, e,
certo, também, de qualquer indicio de recusa de minha parte viria magoar
em extremo a magnanimidade de meus bons camaradas, aceitei a honrosa
incumbência (...) 20.
19
20
Jornal de Piracicaba, 01/12/1910.
Idem.
12
Essa matéria em particular não identificou todos os formandos, certamente por
causa da extensão ocupada pela transcrição dos discursos. De qualquer forma, ela é assaz
ilustrativa e reveladora daquilo que identificamos na imprensa piracicabana durante toda
República Velha: os cerimoniais escolares serviam de espaço para a glorificação e o
prestígio social das elites.
Considerações Finais
O destaque dado pela imprensa aos cerimoniais escolares é elemento constante em
todo período pesquisado. Além desses cerimoniais, identificamos ainda a divulgação do
calendário escolar, prioritariamente a lembrança do período de provas finais, matrículas e
inscrições para testes de admissão. O registro de nomeações, exonerações e transferências
de professores, particularmente aqueles que atuavam nas instituições públicas, também
seria uma prática corriqueira por parte da imprensa. Lançando uma idéia que se alimenta
das páginas dos jornais da época, é possível inferir que as rotinas nas instituições de ensino
recebiam expressivo espaço jornalístico.
Outro aspecto interessante que se sobreleva a partir da leitura desses noticiários
descrevendo os cerimoniais escolares, diz respeito à forma e ao conteúdo dos discursos
produzidos pelas autoridades, alunos e professores que participavam desses encontros.
Quanto à forma, os discursos abarcavam uma linguagem rebuscada, com contornos formais
e uso freqüente de uma retórica ornamentando e exaltando o que estava sendo dito, além de
sobrepujar a importância da solenidade. Quanto ao conteúdo, os oradores exaltavam a
presença das autoridades e a importância da educação para o progresso e o futuro do país.
No conteúdo dos discursos há freqüente referência às palavras “progresso” e “civilidade”,
latente associação com a idéia de que o investimento em educação seria mecanismo
indispensável para o progresso e desenvolvimento da nação. O conteúdo desses discursos
confere a dimensão aproximada do quão importante era a educação para os avanços
científicos e tecnológicos do país, traduzidos na defesa da palavra “progresso”.
A transcrição e a publicação desses discursos nas páginas principais da imprensa é,
por si só, revelador da importância dos cerimoniais escolares não apenas para a imprensa,
13
mas certamente para toda cidade, ou melhor, para todos que faziam parte dos segmentos
mais abastados da cidade.
O derradeiro exemplo, a seguir, é assaz evidência da importância dos cerimoniais
escolares para as elites que controlavam a imprensa da cidade. Trata-se do encerramento do
calendário letivo de uma das escolas recém criadas no limiar do século XX. Essa cerimônia
valorizou um momento que nos dias hodiernos não tem a mesma significação que tinha no
início do século XX. O começo da matéria anunciava as autoridades presentes que, na
ocasião, formavam a banca examinadora das provas finais:
Festa Escolar – Xarqueada – Realizou-se solenemente no dia 10 de
corrente o encerramento das aulas da escola ultimamente criada no bairro
da Xarqueada. Com a presença dos srs. Dr. José Ferreira da Silva, inspetor
municipal, Eloy Febeliano da Costa, presidente da Igualitária Instrutiva,
vigário Alarico Zacharias, capitão Messias Franco, os quais fizeram parte
da mesa examinadora, tiveram lugar os exames, demonstrando os alunos
bastante aproveitamento...21
Após a realização desses exames, a matéria registrou que os alunos entoaram hinos
escolares, recitaram poesias e homenagearam os examinadores. Em seguida, os alunos
receberam prêmios e o inspetor municipal fez uma oração, exaltando a dedicação da
diretora da escola, “sra. d. Carolina Cintra”. Ocupando uma coluna inteira da primeira
página do jornal, a matéria fez menção à fidalguia de um dos moradores daquele bairro por
ter acolhido visitantes e oferecido um almoço de confraternização: “(...) sr. Antonio Furlan
abastado industrial ali residente, hospedou fidalgamente as pessoas que daqui seguiram a
tomar parte do encerramento das aulas, oferecendo-lhes no dia das solenidades um
opíparo almoço” 22.
Os cerimoniais escolares, divulgados com entusiasmo e substancial espaço na
imprensa da época, eram oportunidades de encontro e glorificação das elites da cidade. Era
próprio da estrutura psicológica desse grupo social ser glorificado, ter o nome lembrado nas
páginas dos jornais participando desses eventos porque o ritual escolar comportava
21
22
Jornal de Piracicaba, 14/12/1901.
Idem.
14
características de apreço e exaltação não apenas pela idéia de progresso e desenvolvimento
nacional, mas, sobretudo, pelo reconhecimento do valor da educação como instrumento de
diferenciação social e, conseqüentemente, distinção daqueles que não apareciam nesses
noticiários, fosse porque não tinham acesso às escolas ou porque seus nomes eram
lembrados pela imprensa em outro espaço, aquele destinado à execração dos vadios e
desordeiros que habitavam a cidade.
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Periódicos
Gazeta de Piracicaba (1882-1930)
Jornal de Piracicaba (1900-1930)
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CERIMONIAIS ESCOLARES EM PIRACICABA NA
REPÚBLICA VELHA: ESPAÇO DAS ELITES, FOCO DA IMPRENSA
José Luis Simões
Centro de Educação
Universidade Federal de Pernambuco
Resumo
Este trabalho é parte de uma pesquisa maior, desenvolvida no período de 2002 a
2005, momento em que investigamos a História da Educação na cidade de Piracicaba a
partir da imprensa escrita. O recorte histórico pesquisado compreende toda República
Velha, período no qual Piracicaba ocupou importante espaço na esfera política nacional. A
partir do levantamento de editoriais e reportagens dos principais órgãos de imprensa que
circulavam nessa época (Jornal de Piracicaba e Gazeta de Piracicaba) destacando os
acontecimentos no interior das instituições de ensino desse período, empreendemos análise
do contexto social e identificamos a escola como espaço de congraçamento das elites da
cidade, espaço de convívio dos “eleitos”, dos grupos que governavam e se destacavam na
urbe. A idéia de que havia grupos estabelecidos e outsiders convivendo na mesma cidade,
ou seja, elites de um lado, e, de outro, pobres, negros e vadios, emerge a partir dos estudos
da Sociologia Configuracional, cujo principal pensador é Norbert Elias. Nessa perspectiva
sociológica, a cidade de Piracicaba perfazia uma configuração peculiar, eivada de grupos
humanos que se engalfinhavam em disputas sociais, quer fosse por oportunidades de
sobrevivência, ou na busca do reconhecimento e prestígio social. E a escola sobreleva-se
como espaço específico para congraçamento dos grupos poderosos, das elites que tinham
acesso ao saber científico. O acesso às escolas e a presença nos cerimoniais escolares eram
prerrogativas das elites “educadas”, que eram bem quistas pelas reportagens jornalísticas,
afinal, a imprensa local apegava-se à idéia de que o progresso e o desenvolvimento da
cidade associava-se à educação formal, ao crescimento do comércio e da indústria e a
melhoria das condições de infra-estrutura da urbe; no cumprimento dessa missão as elites
estavam escaladas. A imprensa local mostrava ainda que os ex-escravos e imigrantes
pobres ocupavam espaço no noticiário policial, protagonizando práticas de vadiagem e
violências.
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José Luis Simões