"Apresentação e Análise dos Programas de Tratamento dos Residuos Sólidos do Municipio de Curitiba" Por: Mila Azevedo / Dezembro 2001 Resumo Este relatório é resultado da experiência do estágio realizado no município de Curitiba, nos meses de julho e agosto de 2001 nas Secretarias Municipais de Recursos Humanos e do Meio Ambiente, além de visitas realizadas em locais de realização de programas ou referentes ao assunto. Na primeira secretaria foi possível conhecer melhor os programas em geral do município. Na segunda, mais especificamente nos departamentos de Limpeza Pública – MALP e na Educação Ambiental, o foco que foi dado e o que originou o relatório foi a coleta seletiva, destinação final e reciclagem de resíduos sólidos. O tema do estágio e, conseqüentemente, do relatório foi escolhido devido ao fato de ser um assunto bastante atual e que vem despertando o interesse de muitos, como cidadãos, Poder Público, ONG’s, empresas privadas. Assim, neste presente relatório foi possível mostrar e discutir os principais resultados colhidos durante o estágio, bem como apresentar políticas de tratamento de resíduos sólidos inovadoras, e conseqüentemente, o estudo sobre o tema. O que mais se destacou foram os programas de coleta seletiva, no qual o município de Curitiba desponta em nível nacional e mundial como modelo. Dessa forma, foram elencados no referido trabalho os diversos programas implementados pela administração local curitibana: Câmbio Verde, Compra do Lixo, Lixo que não é Lixo, Coleta Especial de Resíduos Domiciliares, Coleta de Resíduos Sólidos de Serviço de Saúde, entre outros. Buscando sempre ressaltar a interatividade necessária entre Poder Público e sociedade civil, ou seja, a efetivação de políticas de educação ambiental. 2 ÍNDICE I. INTRODUÇÃO ..................................................................................................................4 1.1. APRESENTAÇÃO ....................................................................................................4 1.2. PROBLEMA DE PESQUISA, OBJETIVOS E JUSTIFICATIVA ..........................................4 1.3. METODOLOGIA E CRONOGRAMA ...........................................................................5 1.4. ESTRUTURA DO RELATÓRIO ..................................................................................5 II. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA......................................................................................7 2.1. AS GRANDES MUDANÇAS ......................................................................................7 2.2. DISPARIDADES ENTRE NORTE, SUL E LESTE ...........................................................9 2.3. MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO ...............................................................11 2.4. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL .....................................................................13 2.5. LIXO...................................................................................................................14 2.5.1. Lixo Doméstico.......................................................................................15 2.5.2. Lixo Comercial e Industrial....................................................................15 2.5.3. Lixo Público ...........................................................................................16 2.5.4. Lixo Hospitalar ......................................................................................16 2.5.5. Lixo Radiativo ........................................................................................16 2.5.6. Lixo Tóxico ............................................................................................16 2.6. COLETA SELETIVA ..............................................................................................16 2.6.1. Usina de Triagem ...................................................................................18 2.7. DESTINAÇÃO FINAL DOS RESÍDUOS SÓLIDOS ........................................................18 2.7.1. Aterro Sanitário .....................................................................................18 2.7.2. Aterro Controlado ..................................................................................18 2.7.3. Lixão ......................................................................................................19 2.7.4. Incineração ............................................................................................19 2.7.5. Compostagem.........................................................................................19 2.7.6. Comparação entre aterros sanitários, incineração e compostagem ........19 2.8. O PRINCÍPIO DOS TRÊS R’S ..................................................................................20 2.8.1. Reduzir...................................................................................................20 2.8.2. Reutilizar................................................................................................20 2.8.3. Reciclar..................................................................................................20 III. A EXPERIÊNCIA NA POLÍTICA AMBIENTAL DO MUNICÍPIO DE CURITIBA: APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS PROGRAMAS MUNICIPAIS.................................22 3.1. BREVE COMENTÁRIO SOBRE O MUNICÍPIO DE CURITIBA ........................................22 3.2. RESÍDUOS SÓLIDOS DE SERVIÇO DE SAÚDE..........................................................24 3.2.1. Programa de Gerenciamento de Resíduos Sólidos de Saúde ...................24 3.3. PROGRAMA COMPRA DO LIXO .............................................................................25 3.4. PROGRAMA LIXO QUE NÃO É LIXO.......................................................................27 3.4.1. Programa Lixo que não é Lixo em Condomínios.....................................28 3.4.2. Programa Lixo que não é Lixo em Shopping Centers..............................28 3 3.5. ATERRO DA CACHIMBA.......................................................................................29 3.6. PROGRAMA CÂMBIO VERDE................................................................................30 3.6.1. Câmbios Especiais .................................................................................31 3.7. UNIDADE DE VALORIZAÇÃO DE REJEITOS (UVR) ................................................32 3.8. PROGRAMA DE COLETA ESPECIAL DE RESÍDUOS DOMICILIARES ...........................34 3.9. COOPERATIVA DE COLETORES DE MATERIAL RECICLÁVEL ..................................35 IV. CONCLUSÃO ...............................................................................................................36 BIBLIOGRAFIA..................................................................................................................38 4 Capítulo I Introdução 1.1. Apresentação Este relatório foi elaborado com base nas atividades da disciplina Estágio Supervisionado, realizado na cidade de Curitiba durante o mês de julho e agosto de 2001, sob supervisão de Suzete Sampaio Silva (chefe de supervisão dos Núcleos de Recursos Humanos), tendo como professor orientador Sérgio Azevedo Fonseca. Inicialmente pude conhecer os programas em geral do município através da Secretaria Municipal de Recursos Humanos (SMRH) e depois focar na Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMMA). Também foi possível a visitação de, por ordem cronológica: Departamento de Qualidade de Vida do Trabalhador (QVT: ligado a SMRH); apresentação do grupo de teatro dos servidores da prefeitura do QVT, com a peça “Pérfuros Cortantes”; MALP (Meio Ambiente – Limpeza Pública: órgão da SMMA); visita a bairros onde é feita a troca do Programa Câmbio Verde; Departamento de Educação Ambiental (ligado a SMMA); Unidade de Valorização e Rejeitos (UVR: local onde é feita a triagem do lixo coletado na cidade); UNILIVRE (Universidade Livre do Meio Ambiente) para pesquisar livros a respeito do assunto; visita a empresa privada Gerdau que compra sucata de alumínio e realiza a própria reciclagem. 1.2. Problema de Pesquisa, Objetivos e Justificativa É no contexto do meio ambiente em que se insere o problema a ser investigado nesse relatório: quais as principais características dos programas de coleta seletiva de resíduos sólidos e especiais (como resíduos de saúde ou tóxicos) do município de Curitiba? A partir da política de limpeza pública existente no município foi possível estabelecer o objetivo principal: mostrar e descrever alguns programas da coleta seletiva, destinação final e reciclagem do lixo, envolvendo o Poder Público e a população. Alguns objetivos específicos estão definidos a seguir: ü Mostrar quando foram implantados cada programa da coleta seletiva de resíduos sólidos na cidade de Curitiba visando a melhoria de qualidade de vida dos cidadãos; ü Descrever o processo de coleta seletiva na cidade; ü Definir o que são programas do município, como “Compra do Lixo”, “Lixo que não é Lixo”, “Câmbio Verde”, entre outros; ü Mostrar a Educação Ambiental numa cidade com mais de 1,5 milhão de habitantes; ü Demonstrar o tratamento e destino dos materiais recicláveis; ü Mostrar o local para onde vão os resíduos sólidos recicláveis coletados; ü Verificar se as pessoas envolvidas nessa questão estão instaladas em lugares adequados; ü Comparar dados estatísticos dos programas da coleta seletiva do município para ver se realmente são eficazes; 5 A proposta apresentada busca analisar os segmentos envolvidos no processo de coleta seletiva e reciclagem de resíduos sólidos. Com o intuito de mostrar a importância desse tema para a melhoria de vida da população e sua respectiva participação. Através de alguns programas estudados foi possível perceber a preocupação com a população mais carente residente na cidade, além, principalmente, da gestão aplicada focando sempre o meio ambiente. O relatório em questão irá mostrar a realidade de uma sociedade que se reeducou e hoje é consciente de problemas urbanos e ambientais. 1.3. Metodologia e Cronograma O estudo realizado foi meramente exploratório, pois houve aproximação e envolvimento do pesquisador ao campo de estudo, além de formular proposições teóricas para ajudar na compreensão do mesmo, isto é, representa o princípio da subjetividade. A pesquisa foi realizada de forma qualitativa, já que foi possível vivenciar experiências reais e também compará-las entre si; as características dos dados coletados são de profundidade, complexidade e detalhamento, e foram adquiridos através da observação direta, análise documental e entrevistas não estruturadas; o estudo foi realizado como caso único, pois possui foco na Secretaria Municipal de Meio Ambiente. O relatório resultou-se de acordo com o seguinte cronograma, seguindo as etapas descritas abaixo: 1. Elaboração do projeto de estágio; 2. Realização do estágio supervisionado e coleta de dados; 3. Análise dos dados; 4. Elaboração do relatório; 5. Revisão final e impressão. Etapas Jun/01 Jul/01 Ago/01 Set/01 Out/01 Nov/01 Dez/01 1 2 X X 3 4 5 X X X X X 1.4. Estrutura do Relatório O relatório apresenta, além deste introdutório, mais três capítulos. O segundo capítulo é a Fundamentação Teórica que trata de alguns temas e conceitos importantes, como o processo de industrialização, desenvolvimento sustentável, coleta seletiva, modos de destinação final do lixo, reciclagem, entre outros que serão tratados mais adiante, além de dados relevantes de alguns autores. O terceiro, relata a Experiência de Curitiba, abordando os programas existentes e os principais tópicos relacionados com meio ambiente existentes no município, especialmente o lixo. O quarto e último capítulo contém as conclusões e algumas considerações finais, dificuldades encontradas, propostas, etc. 7 Capítulo II Fundamentação Teórica 2.1. As grandes mudanças Houve um tempo em que se acreditava que recursos naturais, como a água e o ar, eram infinitos e que a natureza sempre conseguiria absorver todo o lixo produzido. A possibilidade de esgotamento dos recursos naturais não era motivo de preocupação para a humanidade quando, no século XIX, a Revolução Industrial iniciada na Inglaterra, se espalhou pela Europa e pela América do Norte. Naquele tempo, o crescimento econômico estava totalmente ligado a setores produtivos altamente poluentes, como por exemplo, a mineração. Após a II Guerra Mundial, segundo Franco (1999), com a intensificação das atividades econômicas e o crescimento populacional urbano, o modelo de desenvolvimento econômico não era mais adequado para as condições do mundo. Um exemplo disso é a demanda mundial por diferentes fontes de energia: em 1990, era quatro vezes maior do que em 1950 e 20 vezes maior do que em 1850. De acordo com a Prefeitura Municipal de Curitiba, a população mundial, especialmente urbana, cresceu – e ainda cresce – de maneira assustadora. Nos primeiros 1750 anos da era cristã, os habitantes da Terra passaram de 200 milhões a um bilhão. Nos últimos 245 anos, esse número chegou a seis bilhões e a previsão é de que nos próximos 300 anos a população do planeta seja de nove bilhões de seres humanos. Esse crescimento explosivo e a urbanização acelerada1 após a II Guerra Mundial, resultaram na utilização inadequada e intensa de recursos naturais e na degradação do meio ambiente. O processo de urbanização gerou nas cidades o grave problema que é o espaço ou o ambiente urbano. Para Franco (1999) elas não estavam preparadas para tantos alimentos sendo gerados, o lixo se acumulando e sendo produzido cada vez em maior quantidade, o aumento de esgoto2, a enorme quantidade de automóveis, ônibus, caminhões, a indústrias e o comércio se expandindo a cada dia, num espaço que continua o mesmo, mas com mais e mais, poluição, odores e consumidores. Além da urbanização ocorrida nesse período, o modo de desenvolvimento econômico também prejudicou tanto o meio ambiente quanto o urbano, ou seja, o meio comum que todos vivemos. Os anos 70 e 80 foram marcados pela aceleração da riqueza material sem se preocupar com o desperdício, degradação e exploração do meio ambiente. Era o início do fortalecimento do modelo neoliberal preocupado com a economia de escala, isto é, o que interessava era o tamanho, o porte, a força das organizações dada a sua capacidade produtiva: quanto maior seu tamanho, maior o poder de negociação, de pressionar os fornecedores a gerar a redução do preço e os clientes eram obrigados a pagar mais, totalmente sem saída, isto é, quanto maior a escala produtiva, maior a capacidade de produzir a baixos custos. 1 Entre 1950 e 1970, 74,3% da população brasileira passou a viver em zonas urbanas. Devido a mudanças desse tipo, a partir de 60, o Brasil passou a provocar impactos ambientais notáveis. 2 Que na maioria das vezes não é tratado e é despejado “in natura” em rios e mares. 8 O que é acrescido aos anos 80, é a empresa focada em produzir algum produto essencial e o aumento de empresas satélites espalhadas pelos países, formando parcerias com fornecedores confiantes. Outro fator importante dessa década é a inovação: fonte fundamental da competitividade com menor número de produção e maior número de produtos inovados. O Japão realizou, nas duas últimas décadas, investimentos em P&D – Pesquisa e Desenvolvimento – superior a 6% do PIB; Estados Unidos e Europa, 3%; enquanto o Brasil investia inferiormente a 0,6% do PIB3. Um meio de revelar a capacidade de inovação tecnológica era a extração de recursos naturais pelas indústrias, que era – e na grande maioria dos casos ainda é – incontrolável e excessiva. Sem esquecer no descarte de produtos ou mesmo resíduos que ainda poderiam ser utilizados e reaproveitados que eram, e são, depositados no mesmo local onde são extraídos, ou seja, o importante era produzir sem pensar na montante ou na jusante do meio ambiente. Esse paradigma de produção busca a incessante criação de itens personalizados que leva o descarte prematuro de produtos que ainda têm vida útil. A população criou a expectativa de adquirir os novos produtos a cada lançamento. O que é preciso ter em mente é que os recursos não são infinitos ou facilmente substituíveis. Um exemplo disso é o rápido descarte existente no Japão de produtos que ainda possuem vida útil. Quando algum modelo novo é lançado no mercado nesse país, as pessoas colocam aqueles que estavam sendo utilizados na rua, sem preocupar-se se ainda é possível usá-lo ou não, para adquirir o lançamento. O modo de vida urbano combinado a um pesado marketing (Grimberg & Blauth, 1998), gera um alto e intenso consumo. Novos objetos, lançamento de produtos com novos acessórios ou sofisticações tecnológicas são acrescidos no mercado infinitamente, tornando os outros modelos obsoletos. Em muitos casos, empresas produtoras de máquinas de lavar roupas, torradeiras, automóveis, entre outros, substituem materiais antes usados por aqueles mais leves, o que os torna mais frágeis, passando a ter um tempo de vida mais curto, somando-se a isso o fato de muitos produtos não serem reparáveis ou recondicionáveis, aumentando o consumo. Também o excesso de embalagens descartáveis é outro causador do aumento de resíduos, somando-se a isso, o desperdício de energia e recursos naturais. Ainda como os autores Grimberg & Blauth (1998), “entre os desperdícios mais notórios encontramse o não aproveitamento dos resíduos sólidos e a quase absoluta inexistência de iniciativas de redução de resíduos na sua origem, as indústrias”. Isso mostra a necessidade de mudança do modelo de produção das empresas, buscando a redução de danos ao meio ambiente e promovendo um desenvolvimento socialmente responsável. O atual padrão de desenvolvimento, como afirmam Grimberg & Blauth (1998), caracteriza-se pela exploração cada vez mais intensa e constante dos recursos naturais do planeta, pela grande produção de resíduos, pela crescente exclusão social. Significa dizer, estamos vivendo em um enorme desequilíbrio entre o meio ambiente e o desenvolvimento, 3 A grande diferença é que o PIB do Japão é 3 trilhões de dólares, enquanto o do Brasil, 900 milhões de dólares. 9 sem limites de produção e consumo, além de condições básicas para qualidade de vida da população. A preocupação em preservar o meio ambiente iniciou-se na década de 80 e, principalmente tornou-se mais visível nos anos 90, seja porque realmente houve a conscientização na preservação, seja pelo marketing ecológico que muitas empresas passaram a realizar para ganhar credibilidade de seus clientes. Nos anos 80 (Andrade, Tachizawa & Carvalho, 2000), começaram a serem vistos os primeiros gastos com a proteção ambiental, feitos por empresas líderes, principalmente como investimentos no futuro e vantagem competitiva: “a atitude passou de defensiva e reativa para ativa e criativa”. Segundo Souza (1993), foi a partir dessa década, que se ouviu falar do marketing ecológico e de “produtos verdes”, mostrando o início da preocupação com o meio ambiente e é quando algumas empresas ganham vantagens competitivas no mercado. Os critérios utilizados para a verificação desses produtos são: embalagens, biodegradabilidade, eficiência energética, uso de recursos sustentáveis e, ainda, aspectos do ciclo de vida dos produtos. Reforçando, o mesmo autor afirma que os “consumidores verdes” nos EUA representam 37% da população, enquanto que na Europa, em países como a Suíça, Alemanha, Inglaterra, já atingem 50%. Com isso, as empresas melhoram a sua imagem por meio da criação dos “produtos verdes” e de ações voltadas para a proteção ambiental. Souza (1993) comprova esse fato dizendo que desde a década de 70, grupos de empresários criaram instituições internacionais4, visando definir programas de gestão e/ou certificação ambiental na perspectiva de promover mudanças na estrutura industrial. Porém, “normas, padrões e regras, visando maior harmonização entre desenvolvimento econômico e preservação do ambiente, têm servido mais para garantir a credibilidade das empresas perante o consumidor do que para mudar significativamente os patamares de desperdícios e degradação do ambiente provocados pelas atividades industriais” (Grimberg & Blauth, 1998: 8), ou seja, algumas empresas buscam soluções para alcançar o desenvolvimento sustentável mas, principalmente, sua própria lucratividade. 2.2. Disparidades entre Norte, Sul e Leste Neste tópico serão demonstrados os diferentes impactos regionais do processo de crescimento econômico e populacional das últimas décadas que têm sido marcados por desigualdades. Embora os países do Hemisfério Norte possuam apenas um quinto da população e 24% da área terrestre do planeta, eles detêm quatro quintos dos rendimentos mundiais, 73% do comércio internacional, consomem 70% da energia, 75% dos metais e 85% da produção de madeira mundial (WWF, 2001), concentram 78% de todos os automóveis, respondem por 45% das emissões totais de óxido de carbono, 40% das de óxido sulfúrico, 4 Algumas dessas instituições internacionais são: International Chamber of Commerce (ICC), The Coalization for Environmental Responsible Economies (CERES), Forest Stewardship Council, International Network for Environmental Management (INEM), Global Environmental Management Initiative (GEMI), Responsible Care, British Standard Institution (BSI), International Organization for Standardization (ISO), entre outras (Grimberg & Blauth, 1998). 10 50% das de óxido de nitrogênio e 60% da emissão de resíduos industriais (OCDE, 1991, cit. Sachs, 1993). Sachs conclui, então, que “em geral, os problemas ambientais dos países desenvolvidos são associados à riqueza econômica, ao exagerado nível de consumo e à industrialização. Nos países em desenvolvimento, os maiores problemas ambientais estão normalmente associados à pobreza, aos altos índices de crescimento populacional e à desertificação” (Sachs, 1993). As economias do Sul, vítimas e não beneficiárias da globalização, tornaram-se notavelmente vulneráveis a mudanças nas condições econômicas do mundo. Para Maurice Strong, prefaciando Sachs (1993), os países do Norte deveriam diminuir seu consumo de recursos e os do Sul escapar da pobreza, isto é, “a economia mundial deve ser reestruturada (...) com uma transferência adequada de técnicas e recursos do Norte para o Sul”. Dessa forma, “o desenvolvimento e o meio ambiente estão indissoluvelmente vinculados e devem ser tratados mediante a mudança do conteúdo, das modalidades e das utilizações do crescimento”, seguindo três critérios seguidamente: “eqüidade social, prudência ecológica e eficiência econômica”. O Hemisfério Norte (Sachs, 1993), embora tendo ciência da ligação entre meio ambiente e desenvolvimento, ainda insiste na “idéia de riscos ambientais globais e na responsabilidade compartilhada de enfrentá-los” (Sachs, 1993: 17), com padrões de vida ambientalmente inviáveis. Já o Sul e também o Leste – que hoje apresenta muitas semelhanças com o Sul –, “prioriza a agenda de desenvolvimento, alertando para o perigo de imposições descabidas, sob o pretexto da degradação ambiental, de novas condicionalidades sobre as economias altamente endividadas e depauperadas do Sul” (Sachs, idem, ibidem). Um ponto em que vários autores concordam é a necessidade de conter o consumo excessivo, especialmente nos países desenvolvidos e às minorias ricas do Sul e Leste. Isso porque os atuais padrões de utilização de recursos serão insustentáveis a longo prazo (Sachs, idem). Pronk resume a opinião de muitos social-democratas da Europa: “Se o patrimônio ecológico mundial é limitado – na verdade escasso – e se o Terceiro Mundo dele detém apenas uma pequena parcela, isso significa que a maior parte desse patrimônio nos pertence. Em outras palavras, para proporcionar a todos do Terceiro Mundo o mesmo padrão de vida material que o da rica minoria a que pertencemos, deve-se extrair uma quantidade dez vezes maior que a atual de combustível fóssil e ampliar a extração de riquezas minerais em cerca de duzentas vezes. Isso é impossível: o único caminho é retroceder. (...) Escassez, poder e desigualdade só podem ser combatidas por meios da redistribuição, de uma divisão diferente não apenas da prosperidade, mas também das fontes dessa prosperidade e, conseqüentemente, divisão do poder de dispor sobre ela. Esta é uma mensagem socialista, tão verdadeira ao final do século XX quanto há um século, na década de 1890” (Pronk, 1991, cit. Sachs, 1993: 16). Esse trecho revela que não adianta querer exportar o estilo de vida ocidental dos países ricos para o Sul e o Leste, mas sim as sociedades industriais deveriam repensar e 11 reconquistar o desperdício que caracteriza seus próprios padrões de consumo. Sachs afirma, ainda, que: “Dado o caráter finito da Espaçonave Terra e a fragilidade da biosfera, exposta à emissão dos gases estufa, o crescimento quantitativo ilimitado da produção material não pode, é óbvio, se sustentar eternamente. Se quisermos deter a exaustão irreversível do ‘capital da natureza’, tanto como fonte de matérias-primas quanto como depósito para os resíduos, o fluxo de energia e de materiais deve ser contido” (Sachs, 1993: 22). O desenvolvimento econômico é vital para os países mais pobres, mas o caminho a seguir não pode ser o mesmo adotado pelos países industrializados. Mesmo porque isso não seria possível, pois é cada vez mais evidente que a Terra não seria capaz de agüentar a população humana se todos adotassem os altos padrões de consumo dos países do Primeiro Mundo. A Organização Mundial para Proteção da Vida Selvagem – WWF – lembra uma citação de Mahatma Gandhi que, ao ser perguntado se a Índia seguiria o estilo de vida britânico após a independência, este indaga que “... a Grã-Bretanha precisou de metade dos recursos do planeta para alcançar sua prosperidade; quantos planetas não seriam necessários para que um país como a Índia alcançasse o mesmo patamar?”. A mesma WWF mostra, então, que “a sabedoria de Gandhi indicava que os modelos de desenvolvimento precisam mudar. Os estilos de vida das nações ricas e a economia mundial têm de ser reestruturados para levar em consideração o meio ambiente” (WWF, 2001). Afinal, nenhuma decisão econômica pode ser feita sem afetar o meio ambiente, do mesmo modo que, nenhuma alteração ambiental pode ocorrer sem provocar impactos econômicos, por menores que sejam. 2.3. Meio ambiente e Desenvolvimento Paralelamente ao desenvolvimento econômico desordenado que estava ocorrendo no mundo desde a década de 70, começaram a surgir algumas preocupações com tamanha degradação do meio ambiente. Foi quando começaram a ser realizadas conferências sobre o meio ambiente e o desenvolvimento econômico. A primeira conferência que se tem notícia sobre a Biosfera foi realizada em Paris em 1968 e conseguiu reunir representantes de governos para discutir meios para controlar a degradação ambiental. A escassez de informações sobre a conferência revela a pouca importância que era atribuída ao tema em questão. Sachs (1993) informa que, precedendo a grande Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento – CNUMAD – de Estocolmo na Suécia, em 1972, foi realizado o Encontro de Founex em junho de 1971 para discutir a relação meio ambiente e desenvolvimento, onde foi elaborado um relatório com dois pontos de vista: aqueles que afirmavam que o planeta já está determinado ao desastre – seja pela super extração de recursos naturais não-renováveis, seja pela grande quantidade de poluentes despejados na Terra; e outros, confiantes na substituição do capital “natural” pelo capital “construído pelo homem” através de ajustes tecnológicos (Sachs, 1993). Esse foi o marco para se 12 implantar e construir o “ecodesenvolvimento”5. Em Estocolmo, a discussão ficou em torno da ligação indissolúvel entre o meio ambiente e o desenvolvimento, estabelecendo o tripé: desenvolvimento econômico, preservação ambiental e eqüidade social. Com isso, nos países do Sul não era preciso reduzir o desenvolvimento, mas sim orientá-lo, preservando o meio ambiente e os recursos não renováveis. Dessa forma, Sachs afirma que: “Embora reconhecendo a complexidade e a gravidade dos desafios sociais e ambientais enfrentados pela humanidade, o Relatório de Founex, a Declaração de Estocolmo e a Declaração de Cocoyoc (resultante do Simpósio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA – e da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, realizado no México em 1974) continham uma mensagem de esperança com respeito ao planejamento e à implementação de estratégias ambientalmente viáveis para promover um desenvolvimento socioeconômico eqüitativo, ou para o ‘ecodesenvolvimento’”.(Sachs, 1993:12) Antecedendo a Conferência do Rio de Janeiro em 1992, o PNUMA com o apoio das Comissões Econômicas Regionais das Nações Unidas realizou, em 1979 e 1980, seminários sobre estilos diferentes de desenvolvimento que deram origem ao Relatório de Brundtland (1987). Somando-se a esse relatório, o simpósio preliminar ocorrido em Haia na Holanda (1991) que tinha como tema “Desenvolvimento Sustentável: do Conceito à Ação”, ficou estabelecida a convocação da Conferência do Rio de Janeiro. A Conferência do Rio de Janeiro, Eco-92, ou ainda o que Strong chamou de “o Grande Encontro da Terra”, provavelmente, será para os historiadores do futuro “um momento decisivo na busca de uma nova ordem internacional, baseada do desenvolvimento eqüitativo e na segurança ambiental” (Strong, 1993, cit. Sachs, 1993). Para Sachs, a própria conferência do Rio de Janeiro reconhece “em seu próprio título (...) meio ambiente e desenvolvimento como dois lados da mesma moeda” (Sachs, 1993). Isso porque, no Rio, foi possível ampliar a consciência de todos os agentes sociais envolvidos no processo de desenvolvimento, como por exemplo: líderes políticos, representantes de movimentos civis, comunidade científica, meios de comunicação e opinião pública em geral. Além de estabelecido e definido o “desenvolvimento sustentável”, também foi no Rio de Janeiro que se originou a “Agenda 21” que tem por objetivo “colocar em prática, programas para frear o processo de degradação ambiental” (Andrade, Tachizawa & Carvalho, 2000). Programas esses que estejam ligados a “atmosfera, recursos naturais, agricultura sustentável, desertificação, florestas, biotecnologia, mudanças climáticas, oceanos, meio ambiente marinho, água potável, resíduos sólidos, resíduo tóxicos, rejeitos perigosos, entre outros”. Todos estes temas discutidos e conscientizados poderão construir o desenvolvimento sustentável que apenas seria cabível a uma sociedade sustentável. 5 “Ecodesenvolvimento” é o termo usado por Ignacy Sachs, que posteriormente foi chamado pelos anglo-saxões de “desenvolvimento sustentável”. 13 2.4. Desenvolvimento Sustentável A partir da década de 70 (como já mencionado) começou a preocupação mundial que buscava unir duas frentes: a econômica e a ambiental. Muitos conceitos foram surgindo: ü “ecodesenvolvimento” (Sachs): “respeito ao planejamento e à implementação de estratégias ambientalmente viáveis para promover um desenvolvimento socioeconômico eqüitativo”; ü “ecodesenvolvimento urbano” (Sachs): “a reciclagem de resíduos, a conservação de energia e da água e a manutenção do estoque de equipamentos e das infra-estruturas são intensivas em mão-de-obra, criando empregos autofinanciados pelas economias realizadas na utilização de matérias-primas (...) que é um campo ainda inexplorado de oportunidades de empregos, onde considerações sociais, econômicas e ambientais seguem juntas, e que oferece um ponto de partida conveniente para o planejamento de estratégias de ecodesenvolvimento urbano”; ü “desenvolvimento qualitativo” (Daly, cit. Sachs): “inclui o crescimento material baseado em uso mais eficiente e na reciclagem da energia e dos recursos naturais, e também na redução de resíduos e poluentes, na medida em que admite ser possível, dentro de certos limites, aumentar a produtividade do capital da natureza, sobretudo pelo incremento da eficiência nos usos finais do produto”; ü “economia ecológica” (Costanza, cit. Sachs): “ramo de Economia que foi introduzido o conceito de ‘capital natural’ provocando importantes avanços conceituais”; ü “desenvolvimento socioeconômico ambientalmente” (Sachs): “quanto mais corajosos forem os passos dados no futuro próximo, menor será o intervalo de tempo a nos separar de um estado estável, no Norte, e de um desenvolvimento socioeconômico ambientalmente viável, no Sul e no Leste”; ü “sustentabilidade ecológica” (Costanza, cit. Sachs): “sustentabilidade é um relacionamento entre sistemas econômicos dinâmicos e sistemas ecológicos maiores e também dinâmicos, embora de mudança mais lenta, em que: a) a vida humana pode continuar indefinidamente; b) os indivíduos devem prosperar; c) as culturas humanas podem desenvolver-se; mas em que d) os resultados das atividades humanas obedecem a limites para não destruir a diversidade, a complexidade e a função do sistema ecológico de apoio à vida”. Todos esses termos estão focados ou se referindo a um único ponto: o desenvolvimento sustentável, isto é, o processo que melhora a qualidade e condições de vida da população, respeitando o volume de recursos extraídos e quais e como os rejeitos são despejados no meio em que vivemos, ou seja, respeitando “os limites da capacidade de carga dos ecossistemas” (IUNC – União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, 1991, cit. Sachs, 1993 ) englobando o meio social, econômico ecológico. Para ser alcançado, depende de planejamento a longo prazo e do reconhecimento de que os recursos naturais da Terra são finitos, representando uma nova forma de ver o desenvolvimento econômico, que deve levar em conta o meio ambiente. É de suma importância realizar uma distinção entre o desenvolvimento sustentável 14 e o crescimento econômico. Esse último, dissociado de prioridades sociais, leva ao esgotamento de recursos naturais dos quais a humanidade depende, isto é, tende a ser insustentável. Desses recursos depende não só a existência humana e a diversidade biológica como o próprio crescimento econômico. Já o desenvolvimento sustentável sugere qualidade em vez de quantidade, com a redução do uso de matérias-primas e produtos e o aumento da reutilização e da reciclagem. Apenas é possível pensar em desenvolvimento sustentável com uma mudança de paradigma da sociedade. É preciso, como Rattner (2001) defende, uma sociedade mais estável, racional e harmoniosa, baseada no princípio de igualdade e justiça nas relações entre os indivíduos em um nível global, tendo, com isso, uma melhoria na qualidade de vidas das pessoas, pois o desenvolvimento sustentável envolve o Poder Público, a Sociedade Civil Organizada, Empresas e Organizações Não Governamentais buscando a proteção da sobrevivência dos recursos naturais utilizados pela sociedade. Essa qualidade de vida através do desenvolvimento sustentável envolveria diversos setores da administração pública. Por exemplo, a educação e mobilização dos cidadãos, buscando conscientizá-los do problema em questão e tentar uma mudança de cultura que existe em relação ao meio ambiente, como foi exposto no texto de Vaz & Cabral (2001). Um dos meios de se chegar a essa mudança seria através da coleta seletiva e reciclagem do lixo, onde os maiores beneficiados são o meio ambiente e a saúde da população. 2.5. Lixo Segundo dados da Prefeitura Municipal de Curitiba, do total de lixo gerado nos centros urbanos, calcula-se que algo entre 35 e 45 % do que vai para nos aterros sanitários, lixões controlados ou lixos a céu aberto, são compostos por materiais não degradáveis que podem ser reaproveitados. São resíduos que ocupam grandes espaços, enquanto que as áreas destinadas aos aterros estão cada vez mais escassas. A continuar nesse ritmo acelerado de geração de resíduos, a montanha de lixo sobre a Terra em 2.050 deverá chegar a 1,5 trilhão de toneladas. A questão do lixo é uma problemática mundial. De acordo com o Environmental Protection Agency, EPA (órgão de controle ambiental federal dos EUA), citado em estudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT, 1995), os EUA são os maiores produtores de lixo do mundo: cada norte americano produz 1,63 kg/dia, sendo geradas 200 milhões de toneladas de lixo por ano. Desse total, 2/3 vão para os aterros, 16% é incinerado e o restante é separado e vai para a reciclagem. Dados da Prefeitura Municipal de Curitiba informam que em 2.665 cidades brasileiras – mais de 50% dos municípios brasileiros – o lixo é depositado a céu aberto. No Brasil, são produzidas 241.614 toneladas de lixo diariamente. Desse total, 76% vão para os lixões, espalhados pelo país; 24% recebem tratamento mais adequado. A tabela abaixo mostra como é a disposição final do lixo no Brasil: 15 Tabela I Disposição final do lixo no Brasil Lixão 76% Aterro controlado 13% Aterro sanitário 10% Usina de compostagem 0,9% Usina de incineração 0,1% Fonte: IBGE, 1991 Abordando essa mesma questão, Franco (1999) afirma que os municípios6 devem preocupar-se, principalmente, em quatro principais segmentos, em relação ao lixo urbano: 1 – Destinação final dos resíduos sólidos: localização adequada de aterros sanitários e tratamento de resíduos: usinas de compostagem, incineração ou reciclagem; 2 – Operação de limpeza urbana: equipamentos, trajetos e pessoal adequado; 3 – Operação da destinação final dos resíduos no que diz respeito a aterros e áreas apropriadas, controlando efluentes e emissões. 4 – Educação e conscientização ambiental para a população, focando a diminuição da geração de lixo e sua disposição. A educação e conscientização ambiental ficam ligadas diretamente a qualquer programa a ser implantado ou para seu monitoramento para que seja possível sua infiltração na sociedade. É importante conhecer os diferentes tipos de lixo para que seja possível saber como lidar com cada tipo especificamente, portanto, segue abaixo a diferenciação. 2.5.1. Lixo Doméstico É aquele produzido nas residências. Contem jornal, revistas, papéis, embalagens de plástico, metais, vidros, trapos, restos de alimentos, lixo de banheiro, poeira e outros. 2.5.2. Lixo Comercial e Industrial É aquele produzido em estabelecimentos comerciais e industriais e sua composição varia conforme a natureza da instituição. Hotéis, restaurantes e bares produzem, principalmente, restos de comida. Lojas e supermercados descartam muitas embalagens. Bancos e escritórios, bastante papel. Os resíduos das industrias compõem-se de restos de processamento, cuja composição depende das matérias-primas e as técnicas industriais utilizadas. O lixo industrial, por sua vez, é coletado em 1.505 municípios dos 4.425 pesquisados pelo IBGE. Desse total, 66% não tem coleta especial e também se misturam ao lixo comum. Em síntese, o brasileiro convive com a maioria do lixo que produz. Montanhas cada vez maiores de resíduos sólidos representam uma séria ameaça à saúde e a qualidade de vida e o potencial de desenvolvimento é afetado por políticas com manejo inadequado das “sobras” sólidas. 6 Dos mais de 5.500 municípios, mais de 5.000 sofrem problemas com seus lixões, que são operados de formas inadequadas. 16 2.5.3. Lixo Público São os resíduos provenientes da limpeza de logradouros públicos. Compreende os restos das capinas, das podas e da atividade de varrição – poeira, folhas, galhos e lixo jogado pela população. Também contém animais mortos e entulhos – móveis velhos, eletrodomésticos quebrados, restos de materiais de construção etc – que são indevidamente deixados nas ruas pelos cidadãos. 2.5.4. Lixo Hospitalar É a porção denominada infectante (ou potencialmente contaminada) com material patogênico – que é cerca de 20% do total produzido – que merece tratamento especial. O restante desse tipo de lixo é semelhante ao de outra comunidade qualquer. O lixo hospitalar, responsável por vários tipos de doenças, é recolhido diariamente somente em 2.442 município brasileiros. Do total coletado, 42,3% são despejados em vazadouros a céu aberto, 6% são jogados em aterros, 0,4% fica em aterros de resíduos especiais, e, 45 % do lixo não têm coleta especial, sendo misturados ao lixo e depositados em vazadouros e aterros que não possuem tratamento. 2.5.5. Lixo Radiativo É constituído de resíduos – restos de cápsulas e pastilhas de césio, urânio, irídio – e objetos – botas, luvas, roupas, pinças, frascos – utilizados nas usinas nucleares, em equipamentos de laboratórios e m medicamentos nas clinicas e hospitais para o tratamento de algumas doenças. Esse tipo de lixo precisa ser mantido em caixas de chumbo e concreto para que a radiatividade não afete os seres vivos. 2.5.6. Lixo Tóxico São aqueles que contém substancias tóxicas capazes de causar danos à saúde e ao meio ambiente se depositados em locais inadequados. Por exemplo: pilhas, lâmpadas fluorescentes, baterias, frascos de aerossóis, embalagens de agrotóxicos etc. Devem ser encaminhados aos fabricantes através de pontos de coleta especiais. 2.6. Coleta Seletiva O sistema mais moderno de recolhimento de resíduos e que se tem difundido mundialmente através de diversas experiência é o da coleta seletiva. A coleta seletiva de lixo “é um sistema de recolhimento de materiais recicláveis, tais como papéis, plásticos, vidros, metais e ‘orgânicos’, previamente separados na fonte geradora. Estes materiais são vendidos às industrias recicladoras ou aos sucateiros” (CEMPRE, 1999, cit. IPT, 2000). Inicialmente, para ser implantado o processo de coleta seletiva do lixo e a reciclagem é preciso realizar um estudo para analisar as condições do município e o perfil dos resíduos sólidos gerados. Após este levantamento, será preciso definir a modalidade de coleta seletiva que são basicamente quatro, segundo definição do estudo realizado pelo IPT (2000): ü Porta-a-porta ou domiciliar: semelhante ao procedimento da coleta normal, os veículos coletores recolhem o lixo em dias e horários específicos e que não coincidam com a coleta normal. Assim, os moradores colocam o lixo – separado em orgânico e reciclável – 17 na calçada de sua residência; ü Ponto de Entrega Voluntária (PEV): são utilizados contêineres ou pequenos depósitos, colocados em pontos fixos do município, onde o cidadão, espontaneamente, deposita o lixo reciclável em recipientes específicos. Os contêineres possuem a cor determinada para cada tipo de material: verde para vidro, azul para papel, vermelho para plástico e amarelo para metais; ü Postos de Troca: o material entregue é trocado por algum bem ou benefício, podendo ser alimento, vale-transporte, vale-refeição, descontos etc; ü Catadores: muitas vezes confundidos com mendigos, os catadores são de suma importância para a coleta seletiva. Eles coletam os materiais recicláveis antes do caminhão da Prefeitura passar, reduzindo os gastos com a limpeza pública e abastecendo o mercado de materiais recicláveis. Segundo o CEMPRE (1999), no Brasil até 1999 havia cerca de 200 mil catadores de rua responsáveis pela coleta de vários tipos de materiais. A implantação de coleta seletiva de resíduos é um fator que muito contribui para aumentar a quantidade de materiais recicláveis. A vantagem da coleta seletiva do lixo e a destinação final adequada é principalmente ambiental e econômica. Abaixo, estão os aspectos positivos da coleta seletiva descritas no estudo do IPT (2000): ü Proporciona boa qualidade dos materiais recuperados, uma vez que estes estão menos contaminados pelos outros materiais; ü Estimula a cidadania, pois a participação popular reforça o espírito comunitário; ü Permite maior flexibilidade, uma vez que pode ser feita em pequena escala e ampliada gradativamente; ü Permite articulações com catadores, empresas, associações ecológicas, escolas, sucateiros etc; ü Reduz o volume do lixo que deve ser disposto. Por outro lado, também há pontos negativos em um processo de coleta seletiva, de acordo com o mesmo estudo do IPT (2000), que estão descritos abaixo: ü Necessita esquemas especiais, levando a um aumento dos gastos com coleta. Por exemplo, no caso de coleta porta-a-porta, utiliza caminhões especiais que passam em dias diferentes dos da coleta convencional; ü Necessita, mesmo com a segregação na fonte, de um centro de triagem, onde os recicláveis são separados por tipo. É importante destacar que o objetivo da coleta seletiva não é gerar recursos, mas sim reduzir o volume do lixo, gerando ganhos ambientais, isto é, investir na qualidade de vida e no meio ambiente. Isso explica o fato de a coleta seletiva no Brasil não se sustentar apenas com a receita vinda da venda de materiais recicláveis, apesar do custo médio para mantê-la ter diminuído ns últimos tempos: em 1994 era de US$ 240.00/t e em 1999 caiu para US$ 157.00/t (CEMPRE, 1999, cit. IPT, 2000). 18 2.6.1. Usina de Triagem Usina de Triagem é o local onde é feita a separação dos materiais recicláveis do lixo proveniente da coleta e transporte usual. Isso faz com que se reduza em grande quantidade o volume de resíduos enviados para o aterro, atingindo taxas de 50 a 70% quando bem gerenciadas, além da redução de custos de aterramento por quantidade coletada e aumento da vida útil destinada a sua disposição. Juntamente com a Usina de Triagem é comum haver no mesmo local a compostagem da fração orgânica do lixo. 2.7. Destinação final dos resíduos sólidos Há basicamente cinco formas de destinação final de resíduos sólidos: aterro sanitário, aterro controlado, lixão, incineração e usina de reciclagem. A seguir, será explicado cada um dos tipos. 2.7.1. Aterro Sanitário Aterro Sanitário é um processo utilizado para a destinação final no solo, especialmente o lixo domiciliar em critérios de engenharia e normas operacionais específicas que permite a afirmação segura em termos de controle de poluição ambiental e proteção á saúde pública. Nessa forma de aterro, existe adequada impermeabilização do solo antes do início da disposição dos resíduos, sistema de drenagem do chorume (ver item 2.7.1.1), captação do gás produzido e correta compactação e cobertura das camadas com terra. 2.7.1.1.Chorume Chorume é o líquido escuro gerado pela degradação da matéria orgânica presente no lixo que contém alta carga poluidora, por isso deve ser tratado adequadamente. Nos aterros sanitários, o chorume é captado através de drenos e conduzido ao tanque de equalização que tem a função de reter os metais pesados e homogeneizar os afluentes. Em seguida, é conduzido a uma lagoa anaeróbica onde as bactérias vão atacar a parte orgânica, provocando a biodegradação. Para complementar a biodegradação, o chorume é conduzido para a lagoa facultativa, que irá tratá-lo por processo aeróbico e anaeróbico. Os efluentes após passarem por esse sistema de tratamento e com a redução de sua carga orgânica em torno de 86 a 92% são lançados nos rios, pois já não causarão mais danos ao meio ambiente. 2.7.2. Aterro Controlado O aterro controlado é uma técnica de disposição de resíduos sólidos urbanos, sem causar danos ou riscos á saúde pública e sua segurança, minimizando os impactos ambientais. Esse método exige que haja uma camada de material inerte cobrindo o lixo, na conclusão de cada jornada de trabalho. Em geral, há uma poluição localizada, pois similarmente ao aterro sanitário, a extensão da área disponível é minimizada. Porém, normalmente, não é feita a impermeabilização de base (comprometendo a qualidade das águas subterrâneas), num sistema de tratamento de chorume ou de dispersão dos gases gerados. 19 2.7.3. Lixão Diferentemente das formas citadas acima, “lixão”, segundo a Associação Brasileira de Normas Técnicas, é uma forma inadequada de disposição final de resíduos sólidos, que se caracteriza pela simples descarga sobre o solo, a céu aberto, sem medidas de proteção ao meio ambiente ou à saúde pública, que pode causar a proliferação de vetores de doenças, geração de maus odores e, principalmente, a poluição do solo e das águas superficiais e subterrâneas através do chorume comprometendo os recursos hídricos. Em lixões, não é possível o controle dos tipos de resíduos despejados, há o risco de explosões devido a gases provenientes da decomposição, causa mau cheiro, além de ser um sério risco a vida de catadores que vivem nos lixões. 2.7.4. Incineração Para alguns lixos de fontes especiais, como alimentos contaminados, materiais patogênicos e medicamentos fora do prazo de validade, o melhor tratamento é a incineração. Segundo Fellenberg (1980), na incineração todo o lixo é triturado e levado à fornalha, onde funde pelo menos uma parte dos materiais não combustíveis, realizando a máxima redução de volume dos componentes não-combustíveis. O lixo é levado, por partes, sobre uma grelha até a região de temperatura máxima. Após secar o lixo os gases inflamáveis escapam e na região mais quente (1.200oC) são queimados os resíduos carbonizados. O calor obtido com a queima pode ser aproveitado para aquecimento ou em geradores elétricos. No Brasil, não há disposição de sistemas de reaproveitamento do calor gerado na combustão do lixo. A redução do volume de lixo chega a 80 ou 90%, e há a esterilização total dos resíduos. Se durante a etapa final a temperatura for elevada a 1.200oC, o lixo funde completamente e poderá ser removido em estado líquido, reduzindo o volume em 95%. 2.7.5. Compostagem A compostagem do lixo consiste no processo biológico de degradação oxidativa dos resíduos orgânicos por conta de microorganismos, como no tratamento de esgotos. Esse composto gerado é usado na agricultura, embora não possa ser utilizado de forma generalizada devido à quantidade elevada de sais e o valor do pH alcalino. 2.7.6. Comparação entre aterros sanitários, incineração e compostagem A destinação final dada ao lixo depende, primeiramente, das características locais. O método mais barato é a deposição do lixo em aterro sanitário e o mais caro, é a incineração; a obtenção de adubo encontra-se entre os dois métodos. Conforme a quantidade aumenta, os custos diminuem, principalmente na queima do lixo. Quanto à diminuição do volume do lixo, é a incineração que apresenta melhores resultados e, menos favorável, o aterro sanitário. Quanto à poluição ambiental, através da compostagem se obtém um produto descontaminado, já durante o processo de decomposição. O gás emitido durante a incineração constitui um fator poluente, apesar do comprometimento do ar, ser de apenas 3% da poluição total da atmosfera. Um depósito de lixo apenas não compromete a área que foi utilizada 20 depois da mesma ter sido fechada e recoberta por vegetação. Esta área apenas poderá ser utilizada, e cultivada, 25 anos depois de recoberta. O que depende da destinação final do lixo, não é apenas o método a ser usado, mas sim as condições locais, a composição do lixo, o espaço disponível para depósitos, a densidade da população, a possibilidade de aproveitamento do composto de lixo na agricultura e da energia obtida pela combustão, entre outros. 2.8. O Princípio dos três R’s O Princípio dos três R’s é uma sugestão para a problemática do lixo urbano: reduzir a produção do lixo, reutilizar os materiais e, por fim, reciclar. 2.8.1. Reduzir Seria preciso haver mudanças no paradigma da sociedade consumista no sentido de pensar antes de comprar, pois metade do que se compra (Grupo do lixo, 1999) é apenas embalagem que, na maioria das vezes, vai diretamente para o lixo; deve-se evitar produtos em balados com papel plastificado, parafinado ou metalizado – como os sacos de salgadinho, por exemplo – pois não são recicláveis, significa dizer, escolher produtos embalados em material reciclável; reduzir o consumo de materiais que resultam em lixo tóxico, como é o caso das pilhas e de outros produtos. 2.8.2. Reutilizar O outro R refere-se a reutilizar ao máximo o material antes de descartá-lo, preferir embalagens retornáveis etc. É preciso não descartar o produto enquanto ainda tiver alguma utilidade como, por exemplo, racionalizar o uso de papel, doar livros para bibliotecas públicas ou levar roupas e móveis usados para instituições. 2.8.3. Reciclar Reciclar é fazer voltar ao processo de produção os materiais – papel, vidro, plástico e metal – que foram usados e descartados. Significa preservar o meio ambiente e poupar energia, pois a reindustrialização reduz a extração dos recursos naturais. As principais vantagens da reciclagem de resíduos sólidos são: ü Diminuição da quantidade de lixo a ser aterrado, aumentando, assim, a vida útil dos aterros sanitários; ü Preservação dos recursos naturais; ü Redução do consumo de energia; ü Diminui a poluição do ar e das águas; ü Auxilia na conscientização da comunidade sobre a esgotabilidade dos bens, da relação homem/meio ambiente, dos atuais sistemas de produção; ü Diminuição dos custos de produção, devido ao aproveitamento de materiais recicláveis pelas indústrias de transformação; ü Geração de empregos e intensificação da economia local, através da criação de empresas recicladoras e a conseqüente concorrência; ü Economia para o país na importação de matérias-primas e na exploração de recursos naturais não-renováveis. 21 Porém, apesar das vantagens citadas acima, a reciclagem sozinha não gera lucro financeiro nem resolve todo o problema do lixo. Tanto o mercado formal quanto o informal já trabalham há anos no que diz respeito à indústrias recicladoras. Como exemplo disso, o CEMPRE cita as indústrias de papel que produzem a partir de aparas de papéis que já foram utilizados. Esse ciclo de reaproveitamento geralmente começa com o trabalhador informal: o catador de rua (ou carrinheiro como também é chamado). Seu trabalho é o recolhimento de papéis e papelão para vender ou revendê-los a depósitos até chegar aos grandes aparistas e indústrias recicladoras. Os maiores beneficiários do sistema de reciclagem são o meio ambiente e a população. A reciclagem de papéis, vidros, plásticos e metais – que representam em torno de 40% do lixo doméstico – reduz a utilização dos aterros sanitários, prolongando sua vida útil. Se o programa de reciclagem contar também com uma usina de compostagem, os benefícios são ainda maiores. Cada material reciclável é representado com uma cor. São elas: azul para papel, amarelo para metal, verde para vidro e vermelho para plástico. As experiências de reciclagem (CEMPRE, 1993) nos municípios não são tão recentes e vêm sendo implantadas por companhias municipais, órgãos do Poder Executivo local ou mesmo por empresas privadas prestadoras de serviços. A Prefeitura Municipal de Pindamonhangaba, interior de São Paulo, foi a pioneira no assunto, implantando o serviço em 1978 quando a coleta era feita por charretes à tração animal. 22 Capítulo III A experiência na política ambiental do município de Curitiba: apresentação e análise dos programas municipais Quando se discute questões que envolvem a formulação de políticas para a melhoria de vida, dois temas acabam ganhando relevo: o controle ambiental e a educação. É, principalmente, por essa razão que o município de Curitiba parte do princípio de que a educação ambiental é um dos caminhos para promover a gestão compartilhada entre o poder público e a população, buscando propiciar um ambiente equilibrado para viver. 3.1. Breve comentário sobre o município de Curitiba O município de Curitiba, capital do estado do Paraná, região sul do país, é uma cidade com 308 anos e com 1.584.232 habitantes descendes de imigrantes italianos, poloneses, alemães, ucranianos, japoneses, sírios e libaneses. Com PIB de US$ 12,1 bilhões/ano, tem renda per capita de aproximadamente US$ 8 mil/ano, contra uma média nacional de US$ 5 mil/ano. Possui um índice de 55 m2 de área verde por habitante, o que a faz ser considerada a Capital Ecológica do Brasil. A administração municipal, quando da realização do estágio, defendia três diretrizes básicas: geração de empregos, gestão compartilhada e integração metropolitana. Essa última, levando a experiência curitibana aos 26 municípios da região metropolitana. Assim como inúmeras outras cidades, nas últimas décadas o município tem apresentado alguns problemas com a intensa urbanização. Por isso, desenvolveu projetos e programas voltados à solução desses problemas, como por exemplo: melhoria na infraestrutura do transporte coletivo, aumento do número de oportunidades para geração de trabalho e renda, implementação de ações para redução do analfabetismo, democratização do acesso aos recursos tecnológicos, otimização dos recursos públicos e comunitários com ações intersetoriais, proteção dos recursos naturais, despoluição dos rios, preservação de nascentes, melhoria das condições urbanas e ambientais, entre outros. A cidade parte do princípio de que a educação ambiental é um dos meios para melhor interagir o desenvolvimento urbano e a conservação do meio ambiente. O que depende, principalmente da parceria do poder público e da população. Desde 1989, a educação ambiental foi inserida no currículo escolar municipal, não esquecendo do restante da comunidade, atingindo cidadãos de todas as idades, níveis sociais e econômicos, com diferentes interesses. Em março de 2001, uma pesquisa patrocinada pela ONU aponta Curitiba como a melhor capital do Brasil pelo Índice de Condições de Vida (ICV). É através da Secretaria Municipal de Meio Ambiente que a cidade vem trabalhando no sentido de estimular uma análise crítica junto à população frente a diversas questões ambientais tais como o consumo exagerado, as tecnologias utilizadas, formas de utilização racional dos recursos naturais, disposição final do lixo e o desenvolvimento de valores que privilegiam o espírito coletivo, procurando sensibilizar e mobilizar os cidadãos para uma atuação diferenciada no seu cotidiano. A Secretaria tem a responsabilidade de proposição 23 e execução da Política Ambiental da cidade, buscando alternativas para manter o equilíbrio do ambiente urbano e seus projetos fundamentam-se a partir da visão global da cidade que visam conciliar o potencial de crescimento urbano à conservação ambiental. Atualmente, dentro da necessidade de se encontrar ações de cunho ambiental que visem minimizar a problemática do lixo, os programas desenvolvidos tornam-se uma ação extremamente importante por fortalecer a limpeza do ambiente urbano e realizar práticas ambientalmente corretas pela população enquanto processo educativo. Além disso, conciliar o desenvolvimento das cidades com alternativas de solução para as questões ambientais é o grande desafio para os administradores de hoje. Desenvolver a consciência do cidadão sobre o ambiente total e os problemas a que se associam, para que tenha o conhecimento, modifique suas atitudes, cultive o desejo de envolvimento, potencialize suas habilidades para trabalhar individual e coletivamente em busca de soluções e prevenção para as questões atuais e futuras, requer que a educação ambiental se enraíze pelo conjunto da sociedade. Por essa razão, a educação ambiental sai das salas de aula para abarcar também as comunidades urbanas por meio de programas de conscientização e mobilização sobre a destinação final do lixo e sua reciclagem. Depois de mais de dez anos de programas sobre a coleta seletiva, os números mostram que em 2000, o índice de reciclagem em Curitiba correspondia a 19.73%. Foram coletadas, por exemplo, nos programas “Lixo que não é lixo” e “Câmbio Verde” 34.443 toneladas de aparas, representando uma economia de 1.005.804 m3 de água, evitando o corte de 974 mil árvores. O que mostra a grandiosa importância de programas sobre a coleta seletiva e reciclagem de resíduos sólidos que os municípios deveriam implantar. No que diz respeito aos resíduos sólidos, a Prefeitura Municipal de Curitiba oferece à população: ü Coleta de Resíduos Sólidos Domiciliares; ü Coleta de Resíduos Sólidos Recicláveis; ü Coleta de Resíduos Vegetais; ü Coleta de Resíduos de Serviço de Saúde; ü Programa Compra do Lixo; ü Programa Câmbio Verde; ü Varrição Manual; ü Varrição Mecânica; ü Limpeza de feiras-livres; Quanto à disposição final desses resíduos: ü Resíduo Domiciliar – Aterro Sanitário da Cachimba; ü Resíduo Reciclável – Usina de Valorização de Rejeitos; ü Resíduo Vegetal – Parque Náutico Iguaçu; ü Resíduo de Serviço de Saúde – Vala Séptica/Incineração; A seguir, os tópicos 3.2 a 3.9 são apresentados, por ordem cronológica de implantação, alguns dos programas mencionados relacionados aos resíduos sólidos. 24 3.2. Resíduos Sólidos de Serviço de Saúde Em dezembro de 1988, foi implantada em Curitiba a coleta diferenciada para resíduos hospitalares, banco de sangue e postos de saúde, clínicas odontológicas, clínicas veterinárias e farmácias. Juntamente com esse tipo de coleta também foi construída a Vala Séptica, localizada na Cidade Industrial do município, com área de 92.200 m2 . 3.2.1. Programa de Gerenciamento de Resíduos Sólidos de Saúde Com a finalidade de melhorar a coleta de resíduos de saúde, foi iniciado o “Programa de Gerenciamento de Resíduos Sólidos de Saúde” em 1994 cujos principais objetivos foram reduzir os resíduos infectantes gerados através da separação dos resíduos na fonte geradora; separar os tipos de resíduos sólidos em comum, recicláveis e infectantes; implantação da incineração dos resíduos infectantes como um método de disposição final para esse tipo de material. O Programa classifica os resíduos infectantes baseado no tipo de tratamento e destinação final a ser executado: ü Incineração: § Pérfuro cortante: agulhas, ampolas, pipetas, lâminas; § Sangue e Hemoderivados: bolsas de sangue após transfusão, bolsa com prazo de validade vencido ou sorologia positiva, amostras para análise, soro, plasma, sub-produtos; § Cirúrgico, anatomopatológico e exsudado: resultados de biópsia, fios de sutura, materiais descartáveis com secreções, excreções e demais líquidos orgânicos; § Biológico: inoculo, meio de cultura inoculados, vacinas (exceto quando em vidro), filtro de gases aspirados de áreas contaminadas, qualquer material contaminado por esses produtos; § Assistência ao paciente: curativos, esparadrapo, algodão, drenos, bolsas coletoras, material de sutura. ü Vala Séptica: § Restos alimentares de pacientes; § Fetos e peças anatômicas; § Gesso, talas e ataduras; § Fraldas descartáveis, absorventes em geral, papel higiênico, papel toalha de pacientes; § Lençóis e fronhas descartáveis; § Uniformes, máscaras e gorro descartável. As etapas do gerenciamento dos resíduos sólidos de saúde encontram-se descritas no fluxograma a seguir: 25 Fluxograma I Etapas do Gerenciamento dos Resíduos Sólidos de Saúde Resíduos Sólidos de Serviço de Saúde Grandes geradores 76 pontos de coleta Pequenos geradores 798 pontos de coleta Segregação Reciclável Comum Infectante Especiais Incineração Cinza Programa “Lixo que não é Lixo” Vala Séptica Retorno ao fabricante, CTRI ou alternativa. 3.3. Programa Compra do Lixo Esse programa foi implantado em janeiro de 1989 com a finalidade, de forma alternativa, de coletar o lixo domiciliar das camadas menos favorecidas da população, evitando sérios problemas ambientais devido às áreas serem desurbanizadas e de difícil acesso aos caminhões da coleta por se tratarem de encostas de morros, fundos de vale e ruas muito estreitas e, na maioria das vezes, não asfaltadas. O programa funciona da seguinte maneira: a Prefeitura instala uma caçamba estacionária com capacidade de 7m3 em local previamente determinado e entrega a Associação – que administra o programa nos pontos de troca – saco de lixo com capacidade de 60 litros para acondicionamento dos resíduos orgânicos e inorgânicos. Para cada saco de lixo contendo de 8 a 10 Kg de resíduos depositados na caçamba, o participante recebia 26 um vale-transporte. Mas a partir de julho de 1991, a prefeitura, visando auxiliar os pequenos produtores da Região Metropolitana de Curitiba e Litoral, passou a comprar o excedente das safras através do convênio firmado com a FEPAR - Federação Paranaense das Associações dos Produtores Rurais. Assim, foi substituído o vale-transporte por produtos hortifrutigranjeiros da época. Hoje em dia, quem deposita de 1 a 4 sacos de lixo na caçamba recebe uma sacola de alimentos simples (ovos, maçã, banana, repolho etc); ou, aqueles que depositarem acima de 5 sacos recebem outro tipo de sacola (arroz, feijão, mel, batata, cenoura, cebola, alho, doce em pasta etc). Os produtos são escolhidos de acordo com a demanda de mercado e leva-se em conta o valor nutritivo e energético dos alimentos. A Associação de Moradores recebe 10% do valor pago por cada saco de lixo depositado na caçamba, devido a parceria com a prefeitura. Este dinheiro é depositado em conta corrente bancária em nome da Associação, que utiliza o recurso em obras ou serviços definidos pela própria comunidade. Participam do programa 42 comunidades por ano, representadas por associações de moradores legalmente constituídas e integradas a um programa específico de educação ambiental, beneficiando, assim, 21.584 pessoas por mês de diferentes formas: ü Limpeza total das áreas diminuindo a incidência de doenças causadas por vetores; ü Nos locais onde havia depósitos de lixo a céu aberto, as comunidades utilizaram esse espaço para execução de hortas comunitárias; ü Possibilitou o manejo correto de resíduos e seu devido acondicionamento, evitando a exposição do lixo, mesmo durante os intervalos da coleta; ü Auxílio no escoamento da safra dos hortigranjeiros na região metropolitana de Curitiba e litoral; ü Enriquecimento da alimentação das famílias mais carentes. No início do programa, em 1990, foram coletados 2.269 toneladas de lixo no ano, como pode ser verificado no gráfico abaixo. Em 2000, esse número passou para 6.709 toneladas. Os dados de 2001 ainda não foram divulgados. 27 Gráfico I Demonstração da quantidade de lixo coletado por ano do Programa “Compra do Lixo” 8.000 7.185 6.709 6.610 7.000 Toneladas 7.502 5.866 6.000 5.000 5.369 5.427 5.768 6.155 4.146 4.000 3.000 2.269 2.000 1.000 0 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 Ano 3.4. Programa Lixo que não é Lixo O programa foi implantado em outubro de 1989, primeiramente com trabalhos de educação ambiental através de escolas da rede pública municipal de ensino, em seguida com objetivo de conscientizar os cidadãos curitibanos sobre os benefícios ao meio ambiente e à população da separação do lixo orgânico do inorgânico. Para isso foram utilizadas cartilhas, folder, imprensa – jornal, rádio, TV etc. – onde eram enfatizadas importantes questões, por exemplo: um terço dos resíduos sólidos produzidos na cidade poderiam ser reciclados; a cada 50 Kg de papel usado, transformado em papel novo evita que uma árvore seja cortada; a cada mil Kg de alumínio reciclado evita que 5 mil Kg de minério seja extraído do solo; para fazer 1 Kg de vidro é preciso 1,3 Kg de sílica ou 1Kg de vidro quebrado. O programa utiliza 23 caminhões baú – que trabalham em dois turnos – 30 motoristas e 90 coletores. Os dados de maio de 99 mostram que eram coletados 55 toneladas por dia de resíduos recicláveis. Uma parte é vendida aos depósitos de iniciativa privada e a outra é destinada a Unidade de Valorização de Rejeitos. Veja, a seguir, o gráfico referente ao programa de 1990 a 2000. 28 Gráfico II Demonstração da quantidade de lixo coletado por ano do Programa “Lixo que não é Lixo” 17.504 17.102 18.000 14.973 16.000 13.619 14.000 Toneladas 12.079 12.000 8.852 10.000 6.852 6.325 8.000 6.000 7.278 7.479 5.163 4.000 2.000 0 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 Ano Fonte: SMMA – Departamento de Limpeza Pública Esse programa além de ampliar a vida útil do aterro sanitário, economizar energia e matérias-primas e gerar empregos, representa um esforço visando a melhoria da qualidade de vida e um combate à degradação da natureza. Dados da Secretaria Municipal de Meio Ambiente compravam isso: a coleta seletiva vem poupando um volume de 1.221 m3 por dia do aterro sanitário. 3.4.1. Programa Lixo que não é Lixo em Condomínios Esse Programa existe desde julho de 1997 e tem por objetivo realizar a educação ambiental referente a resíduos sólidos domiciliares gerados em condomínios residenciais e comerciais. A prefeitura tem consolidado parcerias com instituições privadas como administradoras de imóveis, sindicatos e similares para disseminação, implementação ou ampliação do Programa juntamente com os condomínios. Hoje, já são 8 mil condomínios na cidade. São realizadas palestras com os condôminos para enfatizar a importância da separação do lixo e sua entrega para a coleta. Para o cadastro do condomínio, é feita uma reunião onde os formulários de cadastro são preenchidos, o material educativo é entregue, é feita a orientação quanto aos tipos de coleta e horários que os caminhões passam, e, a partir daí, realizada a tabulação dos dados do formulário e a elaboração de um relatório mensal. 3.4.2. Programa Lixo que não é Lixo em Shopping Centers Outro derivado do Programa Lixo que não é Lixo é o trabalho educativo ligado a 29 shopping centers. Existe desde 1998 e seu objetivo é fazer com que os lojistas realizem uma melhor separação prévia dos resíduos recicláveis. Com o intuito de não atrapalhar os catadores (ou carrinheiros), a entrega do material pode ser feita diretamente para a RECOOPERE (ver item 3.9) ou para os coletores de papel, conforme normas estipuladas pela administração do shopping. A reunião é feita da mesma forma que no Programa em condomínios, com o objetivo de incentivar a participação dos clientes e lojistas. Na praça de alimentação dos shoppings são colocadas lixeiras diferenciadas para a separação. 3.5. Aterro da Cachimba Até 20 de novembro de 1989, quando se iniciou a operação do Aterro Sanitário da Cachimba, o município de Curitiba não possuía um local adequado para depositar o lixo da cidade. Eram, para isso, utilizados depósitos de lixo (lixões) de municípios vizinhos (Lamenha Pequena e São José dos Pinhais), que tiveram uma vida útil de apenas seis meses. Esses locais foram desativados e, hoje, foram recuperados e estão na condição de aterros controlados. Localizado ao sul do município, sua área total é de 410.000 m2, sendo que a área destinada à disposição de lixo propriamente dito é de 237.000 m2. Esse aterro tem por finalidade receber resíduos de características domiciliares e industriais. Além da cidade de Curitiba, é autorizado a receber resíduos de municípios da região metropolitana de Curitiba (como: Almirante Tamandaré, Colombo, São José dos Pinhais, Piraquara, Campina Grande do Sul, Mandirituba, Pinhais, Fazenda Rio Grande e Quatro Barras). Para a escolha do local a ser feito o aterro, a prefeitura municipal de Curitiba realizou estudos e normas operacionais para estar certa de que haveria segurança no que diz respeito ao controle de poluição ambiental e proteção ambiental. Para cálculo da área e tempo de vida do aterro, foi adotada a produção per capta média de lixo de 0,55 Kg/hab/dia, e uma abrangência variável do sistema de coleta de 75 a 90%, nos anos de 1988 a 2010. Levando em conta o cálculo aproximado da capacidade do aterro de 3.239.500 toneladas, e a projeção populacional para o município de Curitiba, estimou-se uma vida útil aproximada de 11 anos e 5 meses. Entre o período de 1989 e 2000, o aterro recebeu aproximadamente 5.015.206,41 toneladas de resíduos domiciliares. Pelos cálculos iniciais realizados pela prefeitura, o aterro já teria acabado, mas, graças aos incentivos à reciclagem dos Programas da cidade, a prefeitura conseguiu ampliar em pelo menos dois anos sua vida útil. 30 Gráfico III Demonstração em toneladas de Resíduos Depositados no Aterro Sanitário da Cachimba 800.000 704.167 656.012 700.000 629.696 548.390 Toneladas 600.000 500.589 500.000 400.000 295.665 306.954 300.000 256.425 327.756 412.977 348.949 200.000 100.000 0 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 Ano Fonte: SMMA – Departamento de Limpeza Pública 3.6. Programa Câmbio Verde Esse programa teve início em junho de 1991, de uma derivação dos programas “Compra do Lixo” e “Lixo que não é lixo” e consiste na troca de materiais recicláveis por produtos hortigranjeiros de época. Iniciou através da ocorrência de uma super safra de repolho comprada pela Prefeitura de Curitiba para ser utilizada na troca por lixo reciclável coletado pela população. Em 1996, foi classificado como um dos semifinalistas do Concurso de Projetos de Gestão Pública e Cidadania, realizada pela Fundação Getúlio Vargas e Fundação Ford. Os pontos de troca estão localizados em pátios de supermercados, órgãos municipais, associações de moradores, ruas de determinados bairros, destinando-se a famílias com renda de até 3 salários mínimos. Ficam dois caminhões estacionados: um com uma balança para pesar o lixo reciclável e o outro com os alimentos que serão entregues. A cada 4 kg de lixo a pessoa recebe uma senha que dá o direito a uma porção contendo verduras e frutas da época (ver foto I e II). O material recolhido nestes pontos é enviado para a Unidade de Valorização de Rejeitos ou a Depósitos credenciados para ser separado, estocado ou vendido. Atualmente existem 61 pontos de troca, sendo beneficiadas aproximadamente 18.203 pessoas mensalmente. 31 A Secretaria de Meio Ambiente compra os alimentos que são trocados través de um convênio entre a Prefeitura Municipal e a Federação Paranaense das Associações de Produtores Rurais – FEPAR e Associação Recreativa de Usuários do CEAS – ARUC. Essa forma de aquisição agiliza a compra de hortifrutigranjeiros, contornando o problema de perecibilidade. A importância do programa é uma melhoria da limpeza pública do ambiente urbano, promover a educação da população em questões ambientais, prolongar a vida do aterro sanitário, facilitar o escoamento da safra de hortifrutigranjeiros produzida pelo cinturão verde Curitiba, além de racionalizar a exploração dos recursos naturais renováveis e não renováveis. Abaixo está a tabela mostrando os números desse programa. Gráfico IV Demonstração da quantidade de lixo coletado por ano do Programa “Câmbio Verde” 4.358 4500 4.076 4000 4.209 3.567 Toneladas 3500 2.795 3000 2.278 2500 1.723 2000 2.257 1.893 1500 1000 427 500 0 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 Ano Fonte: SMMA – Departamento de Limpeza Pública 3.6.1. Câmbios Especiais Os Câmbios Especiais são aqueles em que a Secretaria Municipal do Meio Ambiente participa com a infraestrutura da coleta, mas a troca é patrocinada por outras Secretarias não envolvidas normalmente no programa. A Secretaria Municipal da Educação promove a troca do lixo por cadernos no início do ano letivo; as Secretarias da Criança, da Educação e a Fundação de Ação Social – FAS, realizam trocas de lixo reciclável por chocolates, panetones, brinquedos em comemoração de algumas datas festivas como a Páscoa, Natal, Dia das Crianças, etc. Na maioria das vezes, o produto alimentício trocado, como por exemplo, 32 panetones ou ovos de Páscoa, é fabricado pelos próprios integrantes de entidades mantidas pela FAS. 3.7. Unidade de Valorização de Rejeitos (UVR) A Unidade de Valorização de Rejeitos (UVR) está situada no município de Campo Magro a 30 km de Curitiba. A UVR é gerenciada pela Fundação de Ação Social – FAS e Instituto Pró-Cidadania e tem por finalidade receber o material coletado nos programas “Lixo que não é lixo” e “Câmbio Verde”. Recebe em média 400 toneladas por mês de lixo reciclável através de caminhões da prefeitura do programa “Lixo que não é lixo” e possui 74 funcionários. Os caminhões operam apenas três vezes por semana e cada um chega com aproximadamente 800 a 1.700 kg somente de lixo reciclável, o restante do lixo que não é reciclável – rejeitos – vai para o aterro localizado em Cachimba. Os materiais recicláveis triados transformam-se em insumos que são vendidos às industrias para produção de novas embalagens. Os recursos provenientes da venda são aplicados pela FAS em obras assistenciais. A separação ocorre da seguinte maneira: 1. O lixo chega, ainda em sacos plásticos de lixo que a população colocou, nos caminhões que é descarregado em um pátio de recepção. Veja, a seguir, foto III. 2. Um trator com uma pá carregadeira empurra o lixo até a boca de dois cilos. 3. Do cilo, o lixo cai em duas esteiras mecânicas, onde funcionários da prefeitura estão postos lateralmente para separar os tipos de material em tambores. Cada funcionário está responsável em pegar 3 tipos de material (por exemplo: plástico, alumínio e vidro) e colocá-los em tambores distintos. Segue abaixo foto IV. 4. Os tambores são levados a outro local onde é feita a separação por especificidade do material. Por exemplo, o plástico: PET verde, PET branco, garrafa de óleo de cozinha, pote plástico de margarina, etc7. 5. Depois de separados dessa forma, são processados em fardos prensados em máquinas especiais e depois vendidos para empresas que irão reciclá-los. O rejeito não reciclável é conduzido diariamente ao Aterro Sanitário da Cachimba. A seguir foto V. O preço dos materiais recicláveis varia de acordo com a época do ano e tipo de material. O PET branco ou colorido está sendo vendido a R$ 400,00 a tonelada e no verão esse preço abaixa para R$ 300,00/ton devido ao aumento de consumo de refrigerantes embalados em PETs. Cada fardo de PET tem 200 Kg, ou seja, é vendido a R$ 80,00 ou R$ 60,00 o fardo no verão. As latas de alumínio também sofrem variações sazonais de preço, são vendidas, em média, a R$ 200,00/ton. Os vidros são separados em brancos e coloridos e hoje em dia a UVR não mói, tritura nem tira as tampas, são empresas compradoras de vidro que realizam esse serviço. O valor do vidro é de R$ 40,00/ton o branco e R$ 170,00/ton o colorido e é o único material que pode ser esterilizado. Muitos artesãos vão até a UVR para comprar os 7 Como já foi mencionado no capítulo anterior, o plástico na UVR é vendido sob a forma de “plástico separado”, ou seja, há separação por tipo de plástico através da catação manual. Depois disso, são prensados em uma fardadeira para a venda. 33 potes de vidro que estão inteiros para colocar alimentos em conserva, doces. O papel é dividido em dois tipos: o misto (todos os papéis de cores, por exemplo, revistas) que é vendido a R$30,00/ton e o branco (caderno, papéis de escritório), vendido a R$220,00/ton. O EPS (isopor)8 é reutilizado de duas formas: em construção civil para fazer concreto leve o qual é misturado flocos de EPS com adesivo e cimento/areia ou na agricultura que favorece a aeração do solo para plantio. Tabela II Preço médio dos materiais recicláveis vendidos a empresas compradoras de sucata Tipo de material Preço em R$/ton PET (branco ou colorido) 400,00 Alumínio 200,00 Vidro branco 40,00 Vidro colorido 170,00 Papel misto 30,00 Papel branco 220,00 Fonte: Unidade de Valorização de Rejeitos. 13/set/2001 Na área onde ficam os funcionários há uma placa com a meta diária de produção de separação. É preciso alcançar 17.000 Kg de lixo separado e no máximo 5.000 Kg de rejeitos. Ao final de cada dia é feita uma planilha onde cada responsável anota o peso e o tipo de cada fardo para depois se tabular o resultado. Com a grande quantidade de livros em ótimos estados encontrados no lixo que vai para a UVR, houve a necessidade de formar-se uma biblioteca no próprio local para o uso de funcionários e seus familiares que foi inaugurada em setembro deste ano. Também há na UVR desde 1995, o Museu do Lixo, onde são colocados os interessantes e surpreendentes objetos encontrados pelos funcionários no lixo. Esses objetos variam de quadros, relógios de parede, rádios antigos, dinheiro, peles de animais, mapas, louças, móveis, enfeites, fotografias... até uma réplica de uma estatueta do Museu do Louvre em Paris no valor de 5 mil reais. A UVR recebe em média 17 mil pessoas por ano do mundo inteiro para conhecê-la e para visitar o museu. A seguir está o gráfico representando o percentual de tipo de matérias coletados na Unidade. 8 EPS é a sigla internacional do Polistireno Expandido, de acordo com a norma DIN ISSO-1043/78. No Brasil é conhecido como Isopor, que é marca registrada da Knauf. 34 Gráfico V Caracterização dos resíduos sólidos depositados na Unidade de Valorização de Rejeitos 29,39 Percentual (%) 30 25 20 15 10 5 0 Papel 21,8 Alumínio 15,35 11,42 5,22 1,55 15,27 Vidro Plástico Rígido Plástico Flexível Tetra Pak Rejeitos Fonte: Unidade de Valorização de Resíduos Recicláveis Uma Usina de Triagem e Compostagem, em geral, acarreta uma diminuição de até 70%, em média, da tonelagem de lixo destinada ao aterro, com a conseqüente redução de custos de aterramento por quantidade coletada e aumento da vida útil destinada à sua disposição. 3.8. Programa de Coleta Especial de Resíduos Domiciliares Em setembro de 1998, Curitiba lançou esse programa para materiais que merecem cuidados especiais quanto a sua disposição final. São eles: pilhas, solventes, embalagens de inseticidas, lâmpadas fluorescentes e medicamentos, tintas, toner9. O caminhão da coleta especial possui tambores diferenciados para cada tipo de resíduo tóxico e segue escala pré-determinada. Uma vez por mês, o caminhão estaciona em cada um dos 24 terminais de ônibus da cidade, das 7 da manha às 15 horas. O lixo de composição química coletado é encaminhado à Central de Tratamento de Resíduos Industriais – CTRI, localizado na Cidade Industrial de Curitiba. A unidade de tratamento é administrada pela empresa terceirizada CAVO, encarregada pela destinação final dos resíduos. As baterias de telefones celulares, lâmpadas fluorescentes e toner já podem ser reciclados, desse modo, são encaminhados a seus fabricantes. Lâmpadas fluorescentes, se quebradas, emitem o gás mercúrio que exige muito tempo para sua decomposição e, em grande quantidade, causa poluição do ar. As pilhas contem níquel e chumbo, isto é, metais pesados que em contato como solo poluem o lençol freático. Os medicamentos vencidos, restos de tinta, de verniz e embalagens de inseticidas que ainda não são recicláveis, ficam armazenados adequadamente na CTRI para evitar a contaminação do meio ambiente. A tabela abaixo mostra o percentual de resíduos tóxicos recolhidos: 9 Toner: corante orgânico. 35 Gráfico VI Caracterização dos resíduos Tóxicos Domiciliares Período: setembro/98 a dezembro/2000 25 23,74 21,85 21,72 Percentual (%) Lâmpadas 20 Tinta Medicamento Vencido Produto Químico 15 Bateria 9,63 10 Pilha 7,54 6,84 Toner 4,46 5 Inseticida 2,22 2,01 Embalagem de Agrotóxico 0 Fonte: SMMA – Departamento de Limpeza Pública 3.9. Cooperativa de Coletores de Material Reciclável Fundada em setembro de 1998, a Cooperativa de Coletores de Material Reciclável – RECOOPERE – possui 240 cooperados e é responsável por aproximadamente 70% da coleta de resíduos sólidos recicláveis (os 30% restante é coletado pelos Programas “Lixo que não é Lixo” e “Câmbio Verde”) que são vendidos a depósitos de iniciativa privada. O valor da coleta é estimado em 225 toneladas por dia, envolvendo 1.500 coletores na rua por dia. A RECOOPERE possui um tipo de treinamento para os coletores realizado por uma equipe técnica da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Fundação de Ação Social e Serviço Nacional do Comércio, visando uma melhoria da qualidade de vida das pessoas que trabalham com isso contribuindo para sua autogestão. Existia já em 1997 um trabalho de educação ambiental para os coletores para esclarecer a importância da separação do lixo e da reciclagem e a contribuição do trabalho deles para a qualidade ambiental. A cooperativa possui duas balanças, uma prensa e uma empilhadeira. Também há trabalhando lá um gerente, um motorista, seis classificadores de materiais – no departamento de recursos humanos – além de um caminhão que recolhe material dos coletores nos bairros mais distantes e de doações. 36 Capítulo IV Conclusão A partir do estágio realizado, estudos feitos sobre o assunto e elaboração deste relatório, algumas conclusões, críticas e sugestões foram elaboradas sobre o tema explorado. Antes da implantação de qualquer programa é preciso que a população, de forma em geral, tome consciência de suas próprias ações no que diz respeito ao consumo, a extração exacerbada de recursos naturais do planeta – principalmente aqueles finitos –, o modo como os rejeitos são devolvidos ou jogados no meio ambiente, e até mesmo pensar antes de jogar um papel na rua. A mudança de atitude de toda a coletividade deve necessariamente se reportar e desenvolver o princípio dos três R’s: reduzir, reutilizar e reciclar o lixo gerado. Reduzir no sentido de pensar antes de comprar, ser menos consumista, não descartar o produto que ainda tem vida útil apenas para comprar algum lançamento no mercado, e ainda, combater o desperdício. Reutilizar ao máximo o material ou produto antes de descartá-lo, preferir embalagens retornáveis ou utilizar o lado avesso das folhas de papel como rascunho. Reciclar como forma de reduzir a quantidade de recursos naturais extraídos, além da redução de lixo que deve ser aterrado ou mesmo jogado nos lixões. Certamente alcançar esse patamar de conscientização da população em geral não é tarefa simples, pois envolve uma mudança no modo de agir dos cidadãos de todos os níveis sociais, econômicos e culturais. Por isso, primordial é a educação e reeducação ambiental e a intensa divulgação com folhetos explicativos que deve se dar no início de qualquer implantação de programa relacionado à coleta seletiva para que a população seja incentivada e informada dos inúmeros benefícios do programa. A divulgação deve ser perene, constante e enfática, principalmente no início. Devemos atentar que embora os resultados apresentados pelos programas sejam positivos há ainda muito a ser explorado, a Prefeitura não deve se dar por satisfeita com os valores acima apresentados, a mudança do costume deve ser de tal relutância que crie uma nova cultura assentada na redução, reutilização e reciclagem dos resíduos sólidos. O município de Curitiba nos anos de 1999 e 2000 apresentou uma redução da quantidade coletada de resíduos sólidos recicláveis (ver gráfico II), enquanto que houve um aumento neste mesmo período de lixo despejado no Aterro Sanitário da Cachimba (ver gráfico III), o que demonstra claramente uma perda de eficácia dos programas destinados a coleta seletiva. Essa perda se deu, como pude observar, pelo relaxamento na divulgação, ou seja, é primordial a retomada de uma divulgação intensa, buscando maximizar o envolvimento da sociedade curitibana. Uma maneira de iniciar a coleta seletiva, mesmo não sendo de iniciativa do Poder Público, pode ser através da união dos cidadãos através de associação de moradores de bairros, condomínios ou escolas, sendo possível a venda ou doação do material reciclável arrecadado a catadores ou instituições. A cidade de Curitiba já existe exemplo de programa como este, o Lixo que não é Lixo em Condomínios, que é desenvolvido pela Prefeitura 37 Municipal. Cada família, cada casa, cada departamento de empresa ou organização poderia funcionar como uma usina de reciclagem, ressaltando a conscientização das pessoas e o envolvimento destas com os problemas ambientais e a busca do desenvolvimento sustentável. Mesmo não sendo de baixo custo, a implantação da coleta seletiva pode ser barateada através dos consórcios intermunicipais, isto é, a união de municípios vizinhos de menor porte na compra de equipamentos, caminhões, ou mesmo na divulgação. Isso faz com que seja implantada a coleta seletiva em mais de um local, e ainda, com o custo reduzido. Outro ponto muito relevante que pude notar, tanto em Curitiba quanto em outros lugares estudados e observados é o fato de dar esperança a vários catadores de materiais recicláveis que trabalham na rua e depois abandoná-los, sem ter feito o mínimo para ajudálos. Em Curitiba, no momento do estágio, eles estavam mais estabilizados, com apoio da Prefeitura Municipal que cedia uniformes, carrinhos especiais entre outros, mas há algum tempo, reuniões e promessas eram feitas a eles e por intrigas políticas eram deixados de lado, causando uma enorme descrença nos mesmos, pois quando acham que podem dar início a seus projetos o que recebem é a total ignorância. Muito inovadores, em minha concepção, são os programas “Compra do Lixo” e “Câmbio Verde”, implementados pela Prefeitura Municipal de Curitiba. Ao comprar produtos hortifrutigranjeiros de pequenos produtores da região metropolitana, há um incentivo à produção, gerando empregos e evitando o êxodo rural. Assim, beneficia os pequenos produtores e também a própria cidade, evitando um “inchaço urbano”. Por outro lado, para aqueles que recebem os alimentos, estes programas também são importantíssimos, já que é um complemento na alimentação – ou, em muitos casos, a própria alimentação –, utilizando o dinheiro que seria gasto com alimentos, em outras compras, como roupas ou remédios. Enfim, através de programas como estes implantados no município foi possível gerar empregos, melhorar a alimentação, a qualidade de vida da população carente e também o ambiente da cidade, entre outros. Além de todas essas iniciativas de âmbito local, são necessárias também atitudes mais abrangentes a nível estadual e federal, como a aplicação de sanções para os causadores de degradação e poluição do meio ambiente, de incidentes ambientais e também àqueles que depositam resíduos tóxicos e perigosos em lugares indevidos. As poucas infrações ou multas que existem são de baixa credibilidade por serem aplicadas em pouquíssimos casos ou também por serem de baixo valor, face ao tamanho do problema ambiental causado. A estratégia de políticas públicas ambientais torna-se ineficientes, pois, como afirma Maglio (1999), os governos ainda não incluíram em seus governos temas como: “ação ambiental do município, gestão compartilhada, educação ambiental, redução da geração de resíduos no interior do processo produtivo industrial, redução do consumo, maior responsabilização do gerador de resíduos, minimização dos impactos do processo de produção, entre outros” (Maglio, 1999). 38 Bibliografia ANRADE, Rui Otávio Bernardes de; TACHIZAWA, Takeshy & CARVALHO, Ana Barreiros de. Gestão Ambiental – Enfoque estratégico aplicado do Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Makron Books, 2000. CEMPRE – Compromisso Empresarial para a Reciclagem. Disponível em: www.cempre.org.br. Acesso em: 17 de setembro de 2001. D’ALMEIDA, Maria Luíza Otero & VILHENA, André (Coord). Lixo Municipal: Manual de Gerenciamento Integrado. São Paulo: IPT/CEMPRE, 2a edição, 2000. FELLENBERG, Günter. Introdução aos problemas da poluição ambiental. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1980. GRIMBERG, Elisabeth (org.), BLAUTH, Patrícia (org). Coleta Seletiva: Reciclando materiais, reciclando valores. São Paulo, Polis, 1998. GRUPO DO LIXO. Considerando mais o lixo. Florianópolis : Insular, 1999. PHILIPPI, Jr., A., MAGLIO, I. C., COIMBRA, J.A.A. & FRANCO, R.M. Municípios e Meio Ambiente: perspectivas para a municipalização da gestão ambiental no Brasil. São Paulo: Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente, 1999. RATTNER, Henrique. Tecnologia e Desenvolvimento Sustentável. www.uesb.br/fito/Texto/artigos.html. Acesso em: 10 de julho de 2001. Disponível em: SACHS, Ignacy. Estratégias de transição para o século XXI: desenvolvimento e meio ambiente. São Paulo, FUNDAP, 1993. SOUZA, Maria T. S. 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