IX ENCONTRO NACIONAL DA ECOECO Outubro de 2011 Brasília - DF - Brasil SISTEMA DE CONTAS NACIONAIS E O MEIO AMBIENTE: UMA ABORDAGEM TEÓRICA DAS CONTAS AMBIENTAIS SOB A ÓTICA NEOCLÁSSICA E DA ECONOMIA ECOLÓGICA Erika de França Paashaus (UFCG) - [email protected] Economista, estudante de pós-graduação em economia política regional - UFCG e professora auxiliar por dois anos em regime T-40 da referida instituição. 1 Sistema de Contas Nacionais e o Meio Ambiente: Uma Abordagem Teórica das Contas Ambientais sob a Ótica Neoclássica e da Economia Ecológica. Erika de França Paashaus1 RESUMO O modelo no qual se apóia os primeiros Sistemas de Contas Nacionais trataram a economia como um sistema isolado - autocontido - descartando integralmente a natureza e todos os serviços ambientais que também são fundamentais para a produção material. No entanto, na década de 70, com os dois choques do petróleo, emerge a percepção da dependência cada vez maior dos recursos naturais no processo de produção bem como os problemas ambientais originários da escala que a economia contemporânea vinha assumindo. Nesse sentido, as críticas quanto ao modelo do SCN-68 foram surgindo ao não levar em consideração as interrelações do sistema econômico com os recursos naturais, dentre outras. Com isso, houve uma revisão e uma nova versão do sistema de contas nacionais divulgado pelas Nações Unidas foi apresentada em 1993. Nesse contexto, o presente artigo traz como objetivo sistematizar a origem e evolução do SCN. Em seguida são descritos as principais formulações da criação de um Sistema de Contas Ambientais e os entraves que cada uma possui e, por fim, são feitas algumas considerações finais quanto a estes aspectos. Palavras-chave: Sistema de Contas Nacionais, Meio Ambiente e Contas Ambientais. ABSTRACT The model on which rests the former Systems of National Accounts treated the economy as an isolated system - self-contained – fully disconsidering the environment and all environmental services that are also critical to production. However, in the 70's, with the two Oil Crisis, the perception of an increasing dependence on natural resources in the production process has emerged, as well as environmental problems originated from the level that contemporary economy was assuming. In this sense, criticisms on the SNA-68 model arose because it did not take into account the interrelationships of the economic system to natural resources, among others. Thus, a review and a new version of the system of national accounts was published by the United Nations and presented in 1993. In this context, the present article aims to systematize the origin and evolution of the SNA. Then, it is described the main formulations of creating a National System of Environmental Accounts and the barriers that each one of them have and, finally, some concluding remarks are made about those aspects. Keywords: 1 System of National Accounts, Environment and Environmental Accounts. Graduada em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Campina Grande, integrante do Grupo de Acompanhamento e Avaliação da Conjuntura Econômica – GAACE e estudante do Curso de Especialização em Economia Política Regional. 2 1. INTRODUÇÃO O Sistema de Contas Nacionais, desde sua origem, foi desenvolvido com o propósito de apresentar indicadores que demonstrassem o nível de atividade econômica dos países, de modo que auxiliassem os governos na tomada de decisões necessárias à construção de um planejamento econômico. Essa percepção, fundamentada no modelo macroeconômico Keynesiano, traz a idéia que a economia é um sistema isolado que não intercambia com o seu meio externo – o meio ambiente. Ou seja, até a última reforma do SCN, apresentada antes de 1993, os indicadores econômicos tradicionais mascaravam o esgotamento dos recursos naturais e apresentavam um quadro incompleto das despesas impostas pelos poluentes oriundos da atividade econômica. Então, à medida que os problemas ambientais foram tomando maiores proporções, diante da escala de produção que a economia global foi assumindo, houve uma maior necessidade em mensurar os custos de degradação ambiental tornando “verdes” as contas nacionais. Desse modo, juntamente com a revisão do SCN-93, foram desenvolvidos modelos com base nos fundamentos da economia ambiental neoclássica e da economia ecológica que passaram a avaliar, sob suas perspectivas, aspectos relevantes da dimensão ambiental dos processos econômicos. Sendo assim, a finalidade deste artigo é analisar as propostas de ambas as correntes no que concerne a construção das Contas Ambientais, bem como apresentar os entraves que elas apresentam. No entanto, antes dessas análises será feito uma contextualização histórica da origem e evolução dos Sistemas de Contas Nacionais; em seguida, serão apresentados os estudos que deram origem as bases metodológicas que interligaram o meio ambiente com as Contas Nacionais; na próxima parte, trataremos do objetivo proposto pelo trabalho e por fim, são efetuadas algumas considerações finais a cerca do tema seguido das referências bibliográficas. 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 Sistemas de Contas Nacionais: Origem e Evolução. A preocupação com o desenvolvimento de instrumentos que permitissem quantificar o nível de renda e riqueza das nações é muito antigo entre os economistas. Rossetti (1995) 3 explicita que as primeiras experiências de cálculo econômico agregativo foram realizadas por William Petty e Gregory King durante os anos 60 do século XVII, na Grã-Bretanha; e por Pierre Boisguilbert, na França, também neste mesmo período. Os motivos que levaram estes teóricos a se interessarem por esta área foi compreender o mundo em que viviam como também subsidiar os governantes com informações úteis e atuais para a tomada de decisões de política econômica, como ocorre hoje. Sendo assim, desenvolveram estimativas econômicas de renda e fortuna nacional a partir do valor dos rendimentos pagos, a cada ano, à mão-deobra abarcando ainda valores globais de arrendamentos, juros e lucros. Já nos séculos XVIII e XIX, os avanços para a construção de um Sistema de Contas Nacionais foi menos significativo porque eles centralizaram seus esforços para explicar o conceito de produção, fonte de valor e os mecanismos de apropriação da renda. Nesse sentido, a teoria fisiocrata de François Quesnay tinha como objetivo primordial mostrar que a terra era a principal fonte geradora de valor, ou seja, a agricultura era a única atividade produtiva capaz de gerar renda e produto, enquanto as outras eram estéreis. Para Adam Smith somente o trabalho dedicado às atividades de produção de bens materiais (agricultura e indústria) deveriam ser computados como trabalho produtivo ou gerador de renda, excluindo, deste modo, o setor de serviços. Então, por considerar que apenas as atividades agrícolas e industriais eram as únicas fontes geradoras de renda foi que o arcabouço teórico sofreu revisões e refinamentos elaborados por Karl Marx que contribuiu ao reconhecer os valores agregados da produção, renda e dispêndio e ainda, entendeu que deveria fazer parte da renda nacional todas as remunerações pagas aos agentes envolvidos nas atividades sociais de produção. No entanto, falhou em não reconhecer como socialmente produtiva as funções desempenhadas pelos empresários e proprietários do fator capital já que a função destes era se apropriar da maisvalia. A lacuna desta percepção supracitada foi preenchida por Alfred Marshall ao apresentar os principais conceitos que serviram de base para a Sistematização da Contabilidade Social. Ele colaborou ao considerar que todos os bens e serviços finais da economia faziam parte da renda nacional, ou seja, todas as remunerações geradas no processamento da produção nacional deveriam ser integradas a renda do país. Alguns anos depois, já no século XX, Irving Fisher acrescentou ao aparato teórico obtido até então a distinção entre os conceitos de 4 estoque e fluxo, e ainda, diferenciou fluxo real e monetário, em que tal percepção era fundamental no que se refere à concepção teórica dos circuitos de produção e renda nacionais. Porém foi apenas na década de 1930, diante de uma era de incertezas - os efeitos das guerras e a Grande Depressão -, que houve um estímulo aos estudos econômicos agregativos cujo objetivo era traçar linhas-mestras das políticas anti-depressão. Ou seja, naquele momento era preciso encontrar soluções para os problemas da recessão e do desemprego já que faltavam estratégias para o ataque a essas dificuldades econômicas diante da percepção que a teoria dominante, na época, impunha ao mostrar que o capitalismo tenderia ao equilíbrio com pleno emprego. Nesse sentido, “os trabalhos práticos no campo da Contabilidade Social passaram a ser exigidos para a mais adequada orientação da política econômica da época”. (ROSSETTI, 1995, P. 30). Com isso, os Sistemas de Contas Nacionais passaram a se basear na análise econômica agregativa elaborada por John Maynard Keynes na “Teoria Geral do Emprego, Juros e da Moeda”, publicada em 1936, onde a microeconomia perde espaço para a macroeconomia cujo objeto de estudo, a demanda agregada, passou a exigir a constituição de um sistema capaz de mensurar a evolução dos agregados que determinam a atividade econômica de um país. Contudo, apenas no período entre 1939 e 1945 foi que os trabalhos de estimativa das Contas Nacionais passaram a ser elaborados diante da crescente importância de se ter um instrumento estatístico capaz de gerar informações relevantes para o planejamento econômico. Diante disto foram criadas as bases metodológicas dos primeiros Sistemas de Contabilidade Social com destaque aos pesquisadores de países como a Noruega, Suécia e Inglaterra. Embora elaborados através de distintas orientações, a contribuição que o sistema norueguês trouxe foi apresentar todo o processo de produção, circulação, consumo e acumulação a partir de um conjunto de contas nacionais interligadas – conta de produção, apropriação, dispêndios e formação de capital. E ainda apontou que a renda apropriada pelos agentes da atividade de produção destinava-se ao consumo e acumulação onde a partir deste último poderiam ser realizados os investimentos seja mediante o aumento de bens de capital ou dos estoques. A colaboração sueca foi mais de ordem conceitual, pois os sistemas de equações não se adequaram aos dados estatísticos do seu país. Desse modo, Lindahl definiu as funções de cada agente econômico bem como suas inter-relações e inseriu em seu sistema de Contas Nacionais uma conta para registrar as transações com o resto do mundo. 5 No entanto, o trabalho mais consolidado foi desenvolvido por Richard Stone, na Inglaterra. Sob o apoio das Nações Unidas, suas principais contribuições conceituais deram origem a primeira versão do Sistema de Contas Nacionais Modernas das Nações Unidas concluída em 1952 e editada em 1953 com o seguinte título: A System of National Accounts and Supporting Tables. Este era o modelo básico dos padrões internacionais e estava baseado na divisão do sistema econômico em três agentes - unidades familiares, empresas e governo – onde para cada um haveria quatro contas: produção; apropriação; formação de capital e transações com o exterior. Contudo, houve uma necessidade de revisar o Manual de 1953 porque alguns países passaram a introduzir e desenvolver novos procedimentos metodológicos que estavam fora da padronização do SCN-53. Então, como forma de homogeneizar os métodos de construção das contas nacionais, a Organização das Nações Unidas decidiu que era necessário incorporar esses avanços que estavam acontecendo e com isso, elaboraram uma nova versão do SNA em 1968 que além de englobar informações macroeconômicas, reais e financeiras incluiu também os quadros de relações inter-industriais (matriz insumo-produto), os fluxos de geração, apropriação e uso da renda, os fluxos financeiros e os balanços nacionais. Desse modo, diante das novas contribuições, houve uma universalização da metodologia básica do cálculo agregativo. Apesar disto é preciso ressaltar que a versão do SNA de 1968 foi publicada em um momento pela qual a economia mundial estava passando por grandes transformações, dentre as quais podemos destacar as crises do petróleo em 1973 e 1979 que, além de provocar grandes mudanças nas estruturas produtivas das economias capitalistas dificultando a implementação das contas nacionais, fez emergir a necessidade de se estimar o capital natural já que o sistema convencional excluía o meio ambiente das suas operações tratando “... a economia como se fosse um sistema autocontido, isolado”. (MUELLER, 2002, p.02). Esse fato, dentre outros, fez surgir a necessidade de mais uma revisão do SNA, na qual foi concluída e, em seguida, lançada em 1993 passando a incluir um sistema de Contabilidade Ambiental no qual o objetivo era “modificar as Contas Nacionais convencionais e seus principais macro-indicadores econômicos, para incorporar a exaustão e degradação dos recursos naturais utilizados ao processo econômico”. (UNITED NATIONS, 1993; IUCN, 1996 apud MUELLER, 2002, p. 15, grifo próprio). Ou seja, passaram a ser elaborados sistemas que pudessem integrar as estatísticas econômicas com as ambientais. 6 Consoante May et al. (2003) surgiram duas formulações principais: a primeira tem um arcabouço teórico de cunho neoclássico e corresponde ao Sistema Integrado de Contas Econômicas e Ambientais (Sicea) elaborado pelo Escritório de Estatísticas das Nações Unidas – UNSO; e o outro é uma proposta elaborada pelos economistas ecológicos e corresponde a Matriz de Contas Nacionais Incluindo Contas Ambientais (Namea), a preparação deste teve início no Instituto de Estatísticas holandês e em seguida, foi aderido pelo Escritório da União Européia (Eurostat). Dessa forma, passaremos a analisar cada uma dessas propostas, nos próximos tópicos, apontando seus respectivos entraves, porém antes será necessário compreender a base metodológica na qual foram constituídos esses sistemas de Contabilidade Ambiental. 2.2 Base Metodológica para Experiências Práticas de Mensuração: A base metodológica para a construção de um sistema econômico que estivesse integrado com o meio ambiente surgiu a partir da experiência de vários países em Contas Ambientais. Conforme Diaz e Amin (2003), a primeira tentativa de elaborar um Sistema de Contabilidade de Recursos Naturais ocorreu na Noruega, em meados da década de 1970, onde os cálculos para essas estimativas eram medidos a partir dos estoques físicos dos setores mais relevantes desta economia - petróleo, minerais, pesca, silvicultura e energia hidrelétrica - e agrupados em recursos materiais e recursos ambientais. Nesse mesmo período a França desenvolveu um Sistema de Contabilidade Patrimonial que abarcou elementos mais abrangentes - recursos não-renováveis, ambiente físico, organismos vivos, entre outros - diante do objetivo no qual se propôs, ou seja, “examinar quantitativamente e qualitativamente o estado e o desenvolvimento do patrimônio natural, como também as causas e efeitos de sua evolução”. (DIAZ e AMIN, 2003, p. 16). Para isso, os aspectos ambientais seriam mensurados em unidades físicas, presumindo-se estimativas em termos monetários de estoques e fluxos que são transacionados no mercado ou então, àqueles que contribuem de forma direta para a produção. Neste sistema as contas de recursos naturais seriam autônomas das contas nacionais, contudo, acopladas a estas por várias ligações, pois era necessário demonstrar os “... tradeoffs entre as funções econômicas, ecológicas e sociais dos recursos naturais”. (THEYS, 1989 apud DIAZ e AMIN, 2003, p. 16). Porém, essas primeiras sugestões para um sistema de contabilidade ambiental mensurado em unidades físicas, sem que valores monetários estejam associados, apresentam limitações porque os fluxos e os estoques de cada recurso natural não possuem um 7 denominador comum incapacitando a agregação dos resultados entre as contas dos diferentes recursos ou relacioná-las com as contas convencionais. Com isso, no final da década de 80, com o apoio do Banco Mundial, das Nações Unidas e do World Resources Institute – WRI, alguns estudos de Contabilidade Ambiental, mensurada em unidades monetárias, passaram a ser elaboradas em países subdesenvolvidos, como por exemplo: a Indonésia, Costa Rica, Papua-Guiné e México. Dessa forma, a metodologia adotada para estimar a exaustão e a degradação do capital natural desses países seria através do cálculo do preço líquido ou custo de uso. A metodologia do Preço Líquido foi a princípio desenvolvida por Repetto et al. (1989) apud Diaz e Amin (2003) para valorar a perda de recursos naturais exauríveis na Indonésia vinculando estes valores as estimativas ao PIB. Essa abordagem considera que a variação do valor do recurso natural em um determinado período contábil é obtida multiplicando-se “... a avaliação física do estoque não-renovável pelo preço de mercado do recurso líquido de custos de produção, quando se acresce um fator de correção relativo às variações dos preços e dos estoques durante o período observado”. (FURTADO, 2005, p. 24, grifo próprio). Cabe destacar que de igual modo Solórzano et al. (1991) apud Diaz e Amin (2003) desenvolveu um estudo na Costa Rica abrangendo outros depleção de outros recursos: florestais, de reservas pesqueiras e solos. Já os estudos desenvolvidos por Bartelmus, Lutz e Scheweinfest (1992) apud Diaz e Amin (2003), em Papua - Nova Guiné, e Van Tongeren et al. (1991) apud Diaz e Amin (2003), no México, além de incorporar o mecanismo supracitado incluiu também o método do Custo de Uso que é calculado a partir do valor presente da série de resultados que se pretende obter da extração futura, ou seja, a base desta metodologia reside no fato de que “...parte da receita de exploração de recuso natural seja reinvestida, para garantia de rendimentos eternos, quando do esgotamento desses recursos referidos, beneficiando assim gerações futuro, compensatório do uso das reservas do recurso natural pelas gerações atuais”. (FURTADO, 2005, p. 24, grifo próprio). Paralelamente a essas metodologias, os Estados Unidos e o Japão desenvolveram seus estudos em estatísticas ambientais sobre a qualidade e degradação do ambiente natural através da poluição. Nos EUA esta proposta foi trabalhada por Daly e Cobb (1990) apud Young (2003) e tinha como objetivo coletar dados a cerca dos dispêndios com o controle da emissão de poluentes. Enquanto no Japão foi adotado, por Uno (1988) apud Young (2003), um modelo denominado Social, Economics and Environmental Data Set – SEEDS, sendo este uma nova 8 versão da sugestão apresentada por Tobin e Nordhaus em 19722. O ponto de partida deste estudo está fundamentado no conceito convencional do Produto Interno Bruto sendo, em seguida, ajustado ao bem-estar nacional líquido, ou seja, o “... objetivo principal é procurar a relação entre a qualidade de vida e a economia. Este modelo está articulado à estrutura estatística básica do SCN e à matriz insumo-produto da economia”. (CLAUDE, 1997 apud DIAZ e AMIN, 2003, p. 19). Desse modo, com base no aperfeiçoamento de alguns desses estudos foram iniciados trabalhos com o propósito de padronizar os conceitos e métodos que interligam o ambiente com as Contas Nacionais reconhecendo o papel exercido pelo ambiente natural. Neste contexto surgiram duas propostas quanto a elaboração das Contas Ambientais, uma baseada na visão econômica e a outra, em uma perspectiva ecológica. 2.3 SICEA (SEEA): O Sistema Integrado de Contas Econômicas e Ambientais – SICEA é também reconhecido pela sigla, em inglês, SEEA - System of Integrated Environmental and Economic Accounting - e surgiu juntamente com a última revisão do Sistema de Contas Nacionais, em 1993, apresentando-se em uma estrutura de Contas Satélites cuja função é “... expandir a capacidade analítica e os limites do SCN, sem pretender sobrecarregar ou interferir nos seus princípios gerais; elas suplementam em vez de substituir as contas existentes”. (DIAZ e AMIN, 2003, p. 21, grifo próprio). Ou seja, elaborar uma estrutura contábil compatível com diversas formas de valorar os recursos integrando o conjunto de dados ambientais com as informações existentes nas contas nacionais de modo a manter, na medida do possível, os conceitos e princípios do SNA. Todavia essa tentativa de “esverdear” as contas nacionais esbarrou, de acordo com Muller (2003), nas dificuldades do próprio caráter preliminar e provisório do manual do SICEA lançado neste período e ainda nos altos custos e dificuldades em se obter as informações estatísticas dos recursos naturais necessárias para a formulação das Contas Ambientais. Com isso, como forma de superar esses obstáculos e aperfeiçoar o manual operacional do SICEA, a Divisão de Estatísticas das Nações Unidas reviu e concluiu uma nova versão em 1999, com a seguinte estrutura – Ver figura 1: 2 Para maiores informações quanto aos principais ajustes consultar a obra de HAMILTON, K. e LUTZ, E. Disponível em: <http://www.landecon.cam.ac.uk/up211/EP04/readings/EADP_WB.pdf>. Acesso em: 01 jun. 2011. 9 Figura 1: Sistema Integrado de Contas Econômico-Ambiental – SICEA Sistema de Contas Nacionais (SCN) Sistema contas-satélite (I) (III) Desagregação das atividades ambientais no SCN Esquema para o desenvolvimento de Estatísticas do Meio Esquema para o desenvolvimento de Estatísticas sobre o Meio Ambiente Ambiente (EEMA) (II) Descrição das atividades econômicas Dados físicos sobre as inter-relações entre o meio ambiente e economia (IV) Expansão dos limites es da fronteira do SCN Descrição do meio ambiente e sua integração com as atividades sócioeconômicas e demográficas Fonte: CARVALHO, P. G. M. E BARCELLOS, F. C. (2009) apud Nações Unidas (1994). Esta nova estrutura passou a ser composta por quatro tipos de contas, no sistema satélite, que, para melhor compreensão, caracterizaremos por quadrantes. No primeiro são apresentadas as transações econômicas que são relevantes ambientalmente. Em seguida, temse a mensuração em unidades físicas ou monetárias dos fluxos de energia ou materiais, ou como explicita melhor Dias e Amin (2003) traz a combinação de “... conceitos de balanços de matéria/energia e contabilidade de recursos, para apresentar a contrapartida física da versão monetária do SEEA”. (DIAZ e AMIN, 2003, p. 22). Na seqüência, o próximo quadrante trata dos ativos ambientais cujos valores dos recursos naturais e os custos pelo seu uso são calculados a partir de mecanismos de valoração do meio ambiente – valoração de mercado, manutenção e contingente. E por fim, a extensão da fronteira de produção do SCN que passa a representar a conta do Produto Interno Bruto ajustado onde a depleção dos recursos naturais, os gastos defensivos e a degradação ambiental deverão ser deduzidos dos indicadores da atividade econômica de forma a tornar possível que seja feita uma avaliação precisa do crescimento econômico de uma nação. Entretanto, segundo Dias e Amin (2003), a aplicação deste último quadrante, valendo ressaltar ser o mais importante, não tem sido colocado em prática devido a problemas de metodologia e informação. 10 Em suma, Young (2003), cita que os objetivos do SICEA são: Identificar as transações econômicas relacionadas com os recursos naturais que já estão presentes na estrutura convencional das contas nacionais, em particular despesas defensivas; relacionar as variáveis ambientais, expressas em unidades físicas, com as variáveis econômicas, expressas em valores monetários; apresentar indicadores de produto, renda e riqueza que contabilizem as perdas resultantes da degradação ou exaustão dos recursos naturais, a partir da valoração monetária desses recursos. (YOUNG, 2003, p. 113). Porém, apesar do sistema de contas satélites representar um avanço no que diz respeito à mensuração dos impactos ambientais ele tem sido alvo de críticas por haver uma série de questões pendentes quanto a aspectos conceituais e empíricos. Dessa forma, Muller (2002) destaca que um dos problemas se refere a orientação adequada para a operacionalização desse mecanismo e ainda, enfatiza que não existem incentivos que estimulem o investimento em sistemas de informações básicas para a aplicação deste método. Quanto às técnicas de atribuir valores monetários ao meio ambiente, Young (2003) expõe que um dos limites desses métodos - aqui estamos tratando da valoração contingente - é atribuir valores aos danos ambientais a partir de uma simulação de mercado que é realizado através de uma pesquisa com os indivíduos apontando quanto eles estariam dispostos a pagar para preservar aquele meio ambiente e quanto eles desejariam receber pela perda ambiental. Além de subestimar e sobreestimar o capital natural, respectivamente, existem os desvios operacionais na hora da avaliação e ainda, é uma técnica que está condicionada pela renda da população. Nesta mesma linha Costa e Lustosa (2007) assinalam que não é correto atribuir valores econômicos a todos os elementos da natureza porque muitas vezes estes não representam seus valores inteiramente3 uma vez que “... dependem de valores esperados para certas variáveis que só podem ser determinados subjetivamente e que, portanto, não se realizam necessariamente”. (YOUNG, 2003 apud COSTA E LUSTOSA, 2007, p. 08). Ademais, existem valores que não podem e nem devem ser mensurado em unidades monetárias, como por exemplo, os valores sociais, históricos, culturais, biológicos, dentre outros. Outro tipo de crítica mais contundente é feita por El Serafy (2006) apud Carvalho e Barcellos (2009) ao afirmar que o Sistema de Contabilidade Satélite não assegura uma 3 Um exemplo é o capital natural crítico que se caracteriza por ser insubstituível e é definido como “um subconjunto do capital natural que deve ser preservado em termos físicos para que suas funções permaneçam intactas”. (NEUMAYER E DIETZ, 2006 apud CARVALHO e BARCELLOS, 2009, p. 13). 11 integração genuína entre o sistema econômico e o meio ambiente. Ou seja, “... a decisão de considerar as Contas Ambientais como contas satélites foi tomada para que permaneçam inalteradas as estimativas convencionais de renda e gastos que, curiosamente, são descritas como “econômicas” enquanto qualquer ajuste, caso seja feito, será considerado ambiental”. (EL SERAFY, 2006 apud CARVALHO e BARCELLOS, 2009, p. 12, grifo próprio). Assim, diante destes entraves alguns países não adotaram a esta metodologia passando a utilizar uma abordagem alternativa considerada também, por alguns autores como complementar, pois, segundo Carvalho e Barcellos (2009), o SICEA seria somente um dos mecanismos possíveis de se mensurar os recursos naturais e não o único modelo. Portanto, passaremos a analisar, no tópico seguinte, esta outra opção. 2.4 NAMEA: O sistema de Matriz de Contas Nacionais Incluindo Contas Ambientais, conhecido como NAMEA - National Accounting Matrix Including Environmental Accounts -, é definido como “... um sistema que integra informações estatísticas de recursos ambientais, associando fluxos de emissões e outros impactos ambientais com as atividades econômicas que os geram”. (YOUNG, 2003, p. 110). Ele foi criado paralelamente ao SICEA, em 1993, a partir de um trabalho-piloto desenvolvido pelo órgão estatístico oficial holandês4 - Centraal Bureau voor de Statistiek - com o propósito de ser um instrumento na análise das relações entre economia e meio ambiente. Em seguida, o modelo NAMEA se inseriu no programa europeu de Contabilidade Ambiental, sendo promovido pelo Escritório Estatístico da União Européia EUROSTAT -, que passou a agregar dados estatísticos econômicos e ambientais para a construção de um modelo harmonizado que possibilitasse a realização de análises nacionais, bem como comparações internacionais. Dessa forma foi desenvolvida uma estrutura, em torno da matriz de recursos e usos5 da economia, que passou a agregar uma matriz geral de fluxos de matéria e de energia tendo 4 Carvalho e Barcellos (2009) descrevem que na Holanda foi considerada a depleção de três tipos de recursos naturais importantes para o país - petróleo, gás natural e madeira – além de cinco formas de degradação ambiental - efeito estufa, depleção da camada de ozônio, acidificação, eutroficação e o lixo. 5 A matriz de Recursos e Usos trata-se de um sistema que fornece informações das relações entre os agregados e a performance de cada setor/atividade, além da atuação do governo desagregada por nível (federal, estadual e municipal) e a relação da economia com o resto do mundo. Para maiores detalhes ver PAULANI, L. M. e BRAGA, M. B. A Nova Contabilidade Social: Uma introdução à macroeconomia. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. 12 Nicholas Georgescu-Roegen como um dos precursores na sua formulação. Ele estabeleceu, nas novas contas, elementos que não estavam inseridos nas propostas anteriores ao considerar o meio ambiente como o sistema global. Assim, Mueller (2002) expõe que ele passa a inserir neste modelo “a extração de recursos do meio-ambiente – essencialmente, a energia bruta e a matéria bruta; a devolução pelo sistema econômico ao meio-ambiente de energia dissipada, matéria dissipada e resíduos não aproveitados (não reciclados). (MUELLER, 2002, p. 12, grifo do autor). Isso porque, consoante Mueller (2002), a economia não é um sistema auto-contido. Por isso, para que os processos de produção e consumo ocorram é necessário a utilização de energia e matéria oferecidas pelo meio ambiente. Sendo que, em seguida, estas retornarão para ele na forma de resíduos e emanações. A sistematização dessas relações pode ser visualizada, segundo Mueller (2002), a partir da figura abaixo: Figura 2: Um Esboço de Matriz Geral de Fluxos de Matéria e Energia Fonte: MUELLER, Charles. Contas Nacionais e o Meio-Ambiente: Reflexões em Torno de uma Abordagem para o Brasil. Brasília, 2002, p. 11. Então a integração do esboço apresentado acima com a matriz de recursos e usos do sistema de contas convencional resultaria no NAMEA – ver figura 3: 13 Figura 3: Esquema Geral do NAMEA Fonte: MUELLER, Charles. Contas Nacionais e o Meio-Ambiente: Reflexões em Torno de uma Abordagem para o Brasil. Brasília, 2002, p. 12. A partir deste esquema é possível descrever o funcionamento do sistema econômico como um sistema aberto através das matrizes de produção e de consumo onde os componentes ambientais correspondem às matrizes de recursos - fornecedoras de insumos (inputs) ambientais - e de rejeitos (outputs). Analisando isoladamente a cada uma destas, a matriz de recursos se decompõe naquela que utiliza recursos naturais diretamente no processo produtivo para gerar mercadorias; e a outra indica o uso que os consumidores fazem dos 14 variados tipos de elementos da natureza, cabendo ressaltar que, na matriz serão apresentadas as quantidades físicas utilizadas. Em seguida têm-se duas matrizes de emissão de diversos tipos de rejeitos, sejam eles sólidos, líquidos ou gasosos. A primeira demonstra àqueles que são produzidos por todos os segmentos das atividades produtivas e a segunda, apresenta os que são gerados pelos consumidores privados e pelo setor público. Cabe destacar que este sistema também considera as alterações nos estoques ou patrimônio dos recursos naturais apresentando a sua disponibilidade de uso, ou não, no futuro. É perceptível que este se refere a um modelo mais abrangente por incluir o meio externo no sistema econômico. Porém, Mueller (2002), indica há pelo menos três obstáculos que impedem a completa operacionalização desse sistema: A primeira está em determinar o que de fato deve ser introduzido e o que deve ficar de fora da matriz; A próxima refere-se ao fato de obter dados e informações que apresentem a interligação do sistema econômico com o meio ambiente para que assim, se possa construir o sistema proposto; e, por fim; Outra dificuldade está em expressar em unidades monetárias as informações ambientais, pois existem impactos ambientais que não poderão ser valorados. 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste momento do trabalho é possível perceber, diante da complexidade que existe nas relações entre crescimento econômico e pressões ambientais, a necessidade do estabelecimento de um sistema de contas nacionais “verdes” nos países, sejam eles desenvolvidos ou não, porque a cada dia que se passa o meio ambiente tem sido afetado, de forma grandiosa, pela magnitude que a escala da economia mundial vem assumindo diante da dinâmica das estruturas produtivas, pelos padrões de consumo insustentáveis da sociedade, pelas mudanças tecnológicas, dentre outros fatores. E isso tem gerado não apenas problemas ambientais pontuais, mas também, globais, nos deixando distantes do alcance de um desenvolvimento sustentável. No entanto, a implementação de um sistema de Contas Ambientais não é tarefa fácil, como vimos, porque existe uma série de questões de ordem conceitual e metodológicas em aberto. Uma delas esbarra diante das dificuldades que surgem no que concerne à 15 quantificação dos recursos naturais e ainda, cabe ressaltar que, os dados que existem são, na sua maioria, incompletos e de difícil avaliação. Todavia, mesmo diante das dificuldades, ela se faz imprescindível porque esta seria uma forma de se avaliar, de modo preciso, o uso do capital natural e os impactos que o processo produtivo gera ao meio ambiente, mesmo sabendo que existem perdas nos ecossistemas que são irreversíveis e por isso, não são mensurados. Dessa forma, a partir da adoção de um sistema complexo e integrado de estatísticas econômico-ambientais seria possível avaliar os custos ambientais assim como, elaborar políticas de modo coerente ao problema. 4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COSTA, M. J. P.; LUSTOSA, M. C. J. Mensuração do Desenvolvimento Socioeconômico e Ambiental. In: VII Encontro Nacional da ECOECO, Fortaleza, 2007. Disponível em: <http://www.ecoeco.org.br/conteudo/publicacoes/encontros/vii_en/mesa2/trabalhos/mens uracao_do_desenvolvimento.pdf >. Acesso em: 30 mai. 2011. DE CARVALHO, P. G. M.; BARCELLOS, F. C. Algumas Questões sobre a Contabilidade Ambiental. In: VIII Encontro da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica, Cuiabá, 5-7 ago. 2009. Disponível em: < http://www.ecoeco.org.br/conteudo/publicacoes/encontros/VIII/GT4-1-12820090617004231.pdf >. Acesso em: 25 mai. 2011. DIAZ, Maria Del Carmen; AMIN, Mário M. Sistemas de Contas Ambientais (SCN): A Inclusão da Exaustão e Degradação dos Recursos Naturais nas Estimativas Econômicas. In: V Encontro Nacional da ECOECO, Caxias do Sul, 2003. Disponível em: < http://www.ecoeco.org.br/conteudo/publicacoes/encontros/v_en/Mesa1/9.pdf >. Acesso em: 16 mai. 2011. FURTADO, Stella Maris Ortiz. O Meio Ambiente e a Contabilidade. 2005. 52 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização)-Universidade Cândido Mendes, Niterói, 2005. Disponível em: < http://www.avm.edu.br/monopdf/30/STELLA%20MARIS%20ORTIZ%20FURTADO.pd f >. Acesso em: 30 mai. 2011. MULLER, Charles. Contas Nacionais e o Meio-Ambiente: Reflexões em Torno de uma Abordagem para o Brasil. Brasília, 2002. Disponível em: < http://vsites.unb.br/face/eco/cpe/TD/233August2002CMueller.pdf >. Acesso em: 10 mai. 2011. ROSSETTI, José Paschoal. Contabilidade Social. 7.ed. São Paulo: Atlas S.A., 1995. YOUNG, Carlos Eduardo Frickmann. Contabilidade Ambiental Nacional: Fundamentos Teóricos e Aplicação Empírica no Brasil. In: MAY, P.; LUSTOSA, Maria Cecília; VINHA, V. Economia do Meio Ambiente: Teoria e Prática . 6. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. p. 101-132.