OS JOVENS NO ENSINO MÉDIO E SUAS TRAJETÓRIAS ESCOLARES Cristina Ferreira Assis1 Rosa Maria da Exaltação Coutrim2 Universidade Federal de Ouro Preto RESUMO A pesquisa ora apresentada refere-se ao ser jovem na sociedade contemporânea e a relação dos adolescentes com a instituição escolar. Com o objetivo de compreender os espaços de socialização e os fatores que influenciam na irregularidade da trajetória escolar de muitos jovens, buscou-se por meio de pesquisa bibliográfica compreender os processos de evasão e desencanto com a escola vivenciada por parte da juventude brasileira de 15 a 18 anos durante sua trajetória escolar. Com isso, este trabalho constitui-se em uma reflexão à respeito das desigualdades que permeiam essa faixa etária e que tornam a idéia de educação para todos uma questão contraditória. Os resultados apontam para uma relação deficitária devido às fragmentações e divisões sociais que a escola tem refletido ao longo dos anos, mesmo após a universalização do acesso à escola. Palavras-chaves: juventude, escola, trajetórias. Introdução A juventude tem sido uma fase pouco estudada pelas ciências sociais e humanas. Contudo, devido à relevância do tema em diversas áreas do conhecimento, vem crescendo o número de estudos sobre os processos de socialização escolar no contexto atual da educação brasileira. De acordo com Eliane Ribeiro de Andrade e Miguel Farah Neto o sistema educacional atual não está preparado adequadamente para as novas configurações, desigualdades e demandas apresentadas pela juventude no Brasil. Assim, o processo de escolarização constitui hoje, sem duvida, um espaço importante de sentido, que explicita, de forma incisiva, desigualdades e oportunidades limitadas que marcam expressivos grupos de jovens brasileiros. Ao mesmo tempo, é um espaço fundamental de reflexão e luta por direitos (ANDRADE e FARAH, 2007, p.55). Por mais que se comprove a demanda elevada de alunos matriculados no ensino básico a convivência entre os diversos sujeitos que compõem a estrutura escolar e mesmo a evasão nas escolas demonstra as constantes desigualdades de oportunidade. LAHIRE 1 2 Graduanda em História - UFOP Orientadora. Departamento de Educação - UFOP (2004) aponta, com base em Bourdieu, que tal desigualdade não surge na escola, mas é perpetuada por ela. Assim, as trajetórias escolares dos indivíduos, bem como suas formas de socialização baseiam-se em diversas disposições como: estruturas familiares e sociais, condições econômicas e ambientes de socialização, por exemplo. Logo, a idéia que se instituiu de uma educação para todos torna-se questionável e inaplicável, em diversos casos. Com base nos projetos de universalização da escola instituídos na década de noventa no Brasil e considerando-se que o processo escolar não foi projetado para atender a todas as dificuldades apresentadas pelos jovens estudantes, a inserção no ensino vem se tornando homogeneizadora. Conforme Bernard Lahire (op.cit.), tal descompasso tem levado o estudante ao fracasso escolar. Durkheim (1977) também investiga o fracasso escolar, porém compreende-o como conseqüência da homogeneização do ensino, onde todo o grupo social recebe uma espécie de modelo ideal de educação para todos. Segundo o autor, tal situação é oriunda de um contexto em que a educação oferecida pelas escolas apresenta um caráter pragmático e utilitarista, o que tem levado especialistas e pesquisadores a refletir sobre qual a real finalidade da educação se a mesma não atende às necessidades da maioria. Fruto de uma pesquisa empírica a respeito das disposições, expectativas e frustrações dos jovens do ensino médio, o artigo ora apresentado origina-se de uma reflexão teórica baseada em pesquisas de autores como Bernard Lahire, Èmile Durkheim, Andrade e Farah Neto, Mannheim entre outros. O objetivo principal desse estudo é levantar alguns pontos para a reflexão sobre as dificuldades enfrentadas por jovens no seu processo de inserção e permanência na escola. Para isso investigou-se os espaços de socialização dos jovens, contribuindo assim para a reflexão a respeito da finalidade do processo educacional brasileiro. Fundamentação Teórica Primeiramente, para investigar algumas pistas sobre as dificuldades enfrentadas pelos jovens brasileiros em seu processo de escolarização, foram analisados os principais autores que abordam o tema em questão. Andrade e Farah Neto (op.cit.) seguem por uma perspectiva detalhada, uma abordagem qualitativa a respeito das diferenças básicas entre os jovens brasileiros, como: idade, sexo, situação econômica e localidade onde vivem. Por meio de dados comparados tornou-se possível apresentar os principais aspectos que caracterizam a vida destes estudantes. Em contrapartida, Bernard Lahire baseia-se em relatos e testemunhos oriundos de diversos lugares do mundo e de diferentes situações e vivências, mas que apresentam-se em contextos semelhantes aos dos estudantes brasileiros atualmente: o sistema educacional utilitarista, ao qual as instituições educacionais tem se adequado, e a homogeneização do ensino, onde as especificidades de cada situação dos jovens não é refletida. Seguindo-se também por uma análise bourdiana Maria Alice Nogueira acrescenta que a educação não cria por si só desigualdades sociais, mas legitima as desigualdades já pré-existentes conforme a preponderância das classes dominantes. Assim, “A legitimação das desigualdades sociais ocorreria, por sua vez, indiretamente, pela negação do privilégio cultural oferecido – camufladamente - aos filhos das classes dominantes” (NOGUEIRA, 2004, p 88). Durkheim (op.cit.) e Mannheim (1977) seguem por outro viés teórico, baseandose na comparação entre gerações e a relação destas com a educação. Ambos vêem a educação como processo socializador. Contudo, enquanto o primeiro trabalha questões como a homogeneização do ensino e os possíveis prejuízos desse modelo para os jovens, o segundo trás uma abordagem mais aberta para as possíveis transformações sociais protagonizadas pela juventude. Para Mannheim (op.cit.) os jovens são mais abertos às mudanças sociais e políticas do que as gerações anteriores. Assim, ao construir e integrar os espaços de socialização, a juventude está potencialmente pronta para protagonizar qualquer mudança a ser efetivada na sociedade moderna, diferentemente de outros grupos etários. Segundo o autor ... “A juventude não se apresenta progressista nem conservadora por natureza, mas é uma potencialidade que está pronta para qualquer nova orientação da sociedade” (MANNHEIM, 1977, p. 95). Diógenes (2003) faz uma leitura sobre aspectos que atualmente fazem parte da cultura e dos espaços socializadores como instrumentos atuantes como signos, intermediários entre juventude e sociedade. Dessa forma, a autora justifica que os jovens tem encontrado por intermédio destes espaços sua maior forma de expressão, fazendo-se assim presente na sociedade. É nos bailes funk e nas torcidas organizadas de futebol ou seja, no jogo e na festa, que torna-se possível a expressão de referentes juvenis que transcendem o âmbito do controle e do disciplinamento da esfera do trabalho e das redes de sociabilidade tecidas no mundo moderno. Os jovens parecem re-editar nas grandes metrópoles a dinâmica do espetáculo, do cortejo, do desfile, da cor, da música e da fantasia como forma de acionar uma comunicação urbana, um modo de ser e de se fazer cidade (DIÓGENES, 2003, p67-68). Émile Durkheim ao refletir sobre o pragmatismo e utilitarismo em que a escola tem adotado como práticas, diz que a instituição tem buscado satisfazer as necessidades da sociedade, formando assim indivíduos de acordo com seus interesses ou sua precisão. O que há é um tipo ideal, um modelo escolar para todos os homens sem esforço de distinção, mas que varia conforme determinado tempo ou época. Assim, para o autor... “Há, pois, a cada momento, um tipo regulador de educação do qual nos podemos separar sem vivas resistências, e que restringem as veleidades dos dissidentes (DURKHEIM, 1977, p 38)”. Infelizmente, o que se pode notar, de acordo com a bibliografia utilizada é que a escola, instituída formalmente na sociedade não obedece mais ao deveres iniciais, ou seja, já não se pode falar em educação para todos ou mesmo afirmar a objeção do termo. O modelo de ensino tornou-se, aos poucos, segmentado de acordo, principalmente, como o quesito socioeconômico e dessa forma cada vez mais a escola diminui seu ciclo social restringindo assim o ensino a públicos específicos. Se por um lado o índice de crianças de 7 a 14 anos matriculadas no ensino básico tem sido elevado, por outro, o número de estudantes que permanecem na escola ou continuam seus estudos após essa idade é significativamente menor. De acordo com as análises de Eliane Ribeiro de Andrade e Miguel Farah Neto, devido a essa grande demanda de estudantes que não continuam seus estudos é que o país cria tantas estratégias de como lhe dar com o estudante após os 15 anos. Segundo a pesquisa, foi possível concluir que o fator mais agravante desse problema remete-se ao fato de que o atual modelo escolar não está pronto para atender a diversidades e o modelo de igualdade já não é mais viável, com base nas trajetórias diferenciadas em que vivem os alunos. Por mais que haja a publicização da escola a tendência é de que, independentemente de situações econômicas, a escola exija um tipo ideal de cultura em que nem todas as classes se inserem, obedecendo a um determinado modelo curricular. Assim, por meio de notas, formas de comportamento e avaliações é definido o melhor ou o pior aluno por parte dos principais professores, atualmente. É essa a avaliação que tem sido presente no meio escolar. Conclusão Nesse artigo buscou-se levantar alguns aspectos sobre os diversos meios de socialização vivenciados pelo jovem brasileiro, seja a relação com a família, situação econômica e consequentemente sua relação com a escola. Assim, objetivou-se conhecer um pouco mais das trajetórias do jovem brasileiro e das mudanças atuais que têm influenciado na sua formação, principalmente relevando-se o contexto educacional atual. Atuais pesquisas sociológicas insistem na idéia de se atentar para especificidades presentes em um mesmo grupo social, nesse sentido, diversos autores apresentados nesse texto apontam para as evidentes desigualdades que dificultam o acesso ao capital escolar e aos demais espaços socializadores. Diante do que foi exposto pode-se perceber que não existe um consenso a respeito de uma influência predominante dos diversos agentes socializadores presentes na vida do jovem que prejudique sua trajetória escolar. Sendo esta uma pesquisa bibliográfica inicial sobre o tema, os resultados são ainda prévios e são apontadas pistas teóricas para a reflexão e debate a respeito do tema. Dessa forma, para esse estudo utilizou-se de pesquisas de autores de diferentes correntes teóricas a fim de se conhecer um pouco a respeito da vivência e das causas de irregularidades das trajetórias escolares. Tais reflexões permitem que sejam levantadas hipóteses quanto a atual situação dos jovens brasileiros, suas dificuldades e suas respectivas relações com a instituição escolar, a família e demais espaços socializadores, buscando compreender melhor como essa juventude vive, suas características e sua trajetória social. Referências bibliográficas LAHIRE, B. Sucesso Escolar nos meios populares. São Paulo: Editora Ática, 2004. MANNHEIM, K. Funções das gerações novas. In: Educação e Sociedade: Leituras de Sociologia da Educação. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977. DURKHEIM, É. A Educação como processo socializador: função homogeneizadora e função diferenciadora. In: Educação e Sociedade (Leituras de Sociologia da Educação). São Paulo. Companhia Editora Nacional, 1977. ANDRADE, E.R. e NETO, M.F. Juventudes e Trajetórias Escolares: conquistando o direito à educação. In: Juventude: outros olhares sobre a diversidade. São Paulo. Câmara brasileira do livro, 2007. NOGUEIRA, M.A. A escola e o processo de reprodução das desigualdades sociais. In: Bourdieu e a Educação. Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2004. DIÓGENES, G. Juventude: uma vitrine ambulante de signos. In: Itinerários de corpos juvenis. São Paulo: Editora Annablume, 2003.