Ano 22 • N° 5
janeiro/junho 2014
O papel
das reservas
privadas na
preservação da
Mata Atlântica
ISSN 2238-6807
Logística reversa:
do consumidor ao produtor
Semiárido: é preciso
saber conviver
Etnoclimatologia: outro olhar sobre
as mudanças climáticas
capa: foto de L. C. Marigo
Senac – Serviço Nacional
de Aprendizagem Comercial
Departamento Nacional
Av. Ayrton Senna, 5.555, Barra da Tijuca
Rio de Janeiro - RJ - Brasil - 22775-004
www.senac.br
Conselho Nacional
Antonio Oliveira Santos
Presidente
Departamento Nacional
Sidney Cunha
Diretor-geral
A revista Senac Ambiental é uma publicação semestral
produzida pelo Gerência de Marketing e Comunicação
do Senac Nacional. Os artigos assinados são de inteira
responsabilidade de seus autores. Sua reprodução em
qualquer outro veículo de comunicação só deve ser feita após
consulta aos editores.
Contato: [email protected]
E xpediente
Editor
Fausto Rêgo
Colaboraram nesta edição
Ana Mendes, Francisco Luiz Noel,
João Roberto Ripper, Lena Trindade
e Luiz Claudio Marigo
Editoração
Gerência de Marketing e Comunicação
Projeto gráfico e diagramação
Cynthia Carvalho
Produção gráfica
Sandra Amaral
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
Senac ambiental / Senac, Departamento Nacional. – n. 1 (1992)- . – Rio de Janeiro :
Senac/Departamento Nacional/Gerência de Marketing e Comunicação, 1992- .
v. : il. color ; 26 cm.
Semestral.
Absorveu: Senac e educação ambiental.
ISSN 2238-6807.
1. Educação ambiental – Periódicos. 2. Ecologia – Periódicos. 3. Meio ambiente –
Periódicos. I. Senac. Departamento Nacional.
CDD 574.505
Ficha elaborada pela Gerência de Documentação Técnica do Senac/DN.
E ditorial
Sente o
clima
No último ano, o
desmatamento voltou a
aumentar nas regiões de
Mata Atlântica, o que reforça
a importância de iniciativas
de preservação como as
Reservas Particulares do
Patrimônio Natural. Mantidas
por abnegados ou mesmo por
empresas, essas unidades de
conservação cresceram 80%
nos últimos dez anos. É um
trabalho que você vai conhecer
melhor nesta edição.
Também falamos do semiárido
brasileiro, onde algumas
comunidades têm buscado
alternativas para conviver com
os longos períodos de seca.
Elas mostram que é possível
permanecer na região e
assegurar um desenvolvimento
sustentável.
Trazemos ainda um tema
novo, a etnoclimatologia, que
investiga como os povos da
floresta percebem as mudanças
climáticas. E também
abordamos, em entrevista com
o físico Heitor Scalambrini,
a importância das energias
renováveis diante dos desafios
impostos por essas mudanças.
Aproveitando: vamos mudar de
página e começar?
janeiro/junho 2014
3
S umário
8
18
Capa
Entrevista
Nova consciência
Energias renováveis:
hora de inovar
Reservas particulares, mantidas
por cidadãos comuns ou empresas,
têm prestado um enorme serviço à
manutenção da ameaçada
Mata Atlântica.
Para o físico Heitor Scalambrini
Costa, os gestores do setor elétrico
não podem responder aos desafios
do século 21 com as mesmas
soluções dadas aos problemas do
século 20.
28
36
Do consumidor ao produtor
Semiárido: onde o povo resiste
e acha bonito viver
Logística Reversa
Destinação adequada de resíduos
sólidos pós-consumo é o desafio
que se impõe para a eliminação de
200 mil toneladas de lixo
diárias no país.
48
Notas
Seca
Unidas na rede de organizações
sociais Articulação do Semiárido,
populações buscam alternativas de
convivência com a terra e o clima.
50
Mudanças Climáticas
Um outro olhar sobre o clima
56
Bioma
A observação das mudanças
climáticas pela ótica dos povos
da floresta: é o que propõe a
etnoclimatologia.
Aves notáveis
Único bioma exclusivamente
brasileiro abriga quase 700
espécies, muitas delas ameaçadas
de extinção.
62
Estante Ambiental
Flo r a
Primavera
pantaneira
Espetáculo
rar
apenas algun o e que dura
s
da piúva é dias, floração
espetaculare uma das mais
s manifesta
da natureza ções
Texto e fot
Luiz Claud os:
io Marigo
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O Pantanal
Ma
dialmente con to-grossense é munfaunística, quehecido por sua riqueza
o mundo. Ess atrai turistas de tod
o
dável de 160 a grande planície inunmil quilômetro
dos abriga
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mamíferos, ca de 130 espécies de
550
teis e 50 de de aves, 180 de rép
anfíbios. Dev
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boa visibilid rtas, que permitem
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dade de ind , e à grande quantiivíd
essa profus uos de cada espécie
,
ão
mente observ de animais é faci
ldia. Mesmo ada a qualquer hora do
à
cagens” – exc noite, durante as “foabertos par ursões em caminhões
a
noturna –, observação da fauna
é
animais. Um possível avistar vários
a
a Poconé pel viagem de Porto Jofr
e
neira durant a rodovia Transpantae
a estrada est a madrugada, quando
pode propor á praticamente deserta
,
cio
uma onça-p nar a observação de
inta
ros-do-mato, da, alguns cachor
tapiti (o coe um mão-pelada, um
leiro) ou um lhinho selvagem brasia
fama do Pan anta, por exemplo.
A
tan
vilegiado par al como um lugar prié merecida, a observação de fauna
ma
suas paisag s parcial, injusta com
ens
subestimadas e sua flora, que são
e relegadas
no menor.
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e ducaÇÃo a mbiental
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A arte da
observação
de aves
Texto e fotos:
Luiz Claudio Marigo
Passatempo antes restrito a
poucos, hoje, com as novas
máquinas digitais, a prática
da observação de aves
experimenta um enorme
crescimento no Brasil,
contribuindo para o bemestar físico e mental dos seus
adeptos e servindo como
uma valiosa ferramenta de
educação ambiental.
Luiz Carlos
Ribenboim
fotografando no
Parque Nacional
de Itatiaia
e,
As aves são símbolos de liberdad seres livres e selvagens, e represen
astam o anseio do homem por voar,
seus
der
transcen
cender às alturas,
l.
limites. O apelo é quase espiritua
diverSão também belas, coloridas,
ema,
sificadas: sua aparência vai da
mestras
que não voa, às andorinhas,
m modo ar e do espaço; da plumage
exubenástica do sabiá-laranjeira à
obserrância das saíras. Podem ser
do
vadas em todos os ecossistemas, s
Ártico à Antártica ou nos deserto
cia
mais inóspitos, e com abundân ,
em todos os ambientes tropicais
onde temos a sorte de viver. Habitams
também as cidades, onde podemo
junho/dezembro 2012
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Senac ambiental
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E cotur ismo
Bonito de ver
no Pantanal. Segundo biólogo,
eros impulsiona o ecoturismo
Observação de grandes mamíf
s de reais de renda bruta até 2020
atividade deve gerar 200 milhõe
Marigo
Texto e fotos: Luiz Claudio
No Pantanal, a onça-pintada sempre
el prefoi considerada uma execráv
aos
dadora de gado, uma ameaça
a ser
seres humanos e uma peste
os
erradicada. Quando os vaqueir
encontravam uma vaca ou novilha
a era,
morta por onça, sua respost
cauma
ar
organiz
,
inevitavelmente
çada para matar a culpada. Jogavam
seseus onceiros no rastro da onça,
felino
guiam-na a cavalo e, quando o
r, proestava encurralado, o caçado
tiro de
tegido pelo zagaieiro, dava o
misericórdia.
s
própria
s
palavra
Essa tradição criou
uma
para definir os participantes de
treicaçada de onça: onceiros – cães
faro
nados para rastrear a onça pelo
um ine encurralá-la – e zagaieiro –
ou
divíduo armado com uma lança,
r, se
caçado
o
r
defende
para
zagaia,
a
houvesse um enfrentamento corpo
para
vezes,
Às
corpo com o felino.
o
mostrar bravura, o próprio zagaieir
dava o
empalava a onça quando ela
bote sobre os caçadores.
proteFelizmente, em 1967 a lei de
esta
ção à fauna proibiu a caça, mas
ilegalcontinuou em segredo, então
mente. Na década de 80, os depósiidas
apreend
animais
de
peles
de
tos
pelo Instituto Brasileiro de Desen-o
volvimento Florestal – hoje Institut
dos
e
te
Brasileiro de Meio Ambien
(IbaRecursos Naturais Renováveis
peles
ma) – guardavam ainda muitas
janeiro/junho 2013
23
L uiz C laudio M arigo
Viva!
foto: Cecília Banhara Marigo
Era sempre assim: bastava fecharmos uma edição para chegar um
e-mail do Luiz Claudio Marigo com
duas, três, às vezes quatro sugestões
de pauta para a revista seguinte. Invariavelmente, ideias boas, voltadas
para a valorização da biodiversidade
brasileira, da fauna e da flora mais
ameaçadas ou para as iniciativas de
preservação e educação ambiental.
Não foi diferente da última vez.
Das sugestões que enviou, escolhemos a que abordava o papel das reservas particulares para a conservação da Mata Atlântica. Mas poderia
ter sido qualquer outra. A certeza era
de que viria um texto bem apurado
e bem escrito, com fotos extraordinariamente belas. Como veio, e você
vai poder conferir a partir da próxima página.
Vai ser difícil não contar, daqui pra
frente, com esse talento, o seu envolvimento profundo com a natureza
e a causa ambiental. A morte de Luiz
Claudio Marigo, no dia 2 de junho,
surpreendeu a todos e nos deixou
órfãos.
Esta edição é dedicada a ele.
“Quando, sorrateiramente, sigo quase sem poder respirar os
macacos, os tucanos ou as pequenas aves nas matas, naquele
momento entro em contato com o essencial significado da vida. Isso
realimenta o meu espírito e dá sentido à minha existência. Tenho
também plena consciência de que o meu amor à natureza transparece
em cada uma de minhas fotos, tornando o meu trabalho missionário
na luta pela conservação da natureza e sobrevivência dos
seres que tanto amo e respeito”
Luiz Claudio Marigo
www.lcmarigo.com.br
C apa
Nova
consciência
Reservas particulares, mantidas
por cidadãos comuns ou empresas,
têm prestado um enorme serviço à
manutenção da ameaçada
Mata Atlântica.
Texto e fotos:
Luiz Claudio Marigo
Ao analisar a cobertura vegetal do
litoral brasileiro entre o Ceará e o
Rio Grande do Sul no Google Earth
ou em um mapa de vegetação, o observador vai perceber a devastação
sofrida pela Mata Atlântica desde o
Descobrimento e ao longo dos ciclos
do pau-brasil, da cana-de-açúcar, do
garimpo de ouro, do café, da retirada de madeira e de outros produtos
econômicos até nossos dias, quando
a exploração da floresta diminuiu de
intensidade. Diminuiu, mas não cessou. Ainda há desmatamento e, pouco a pouco, posseiros, fazendeiros e
empreendedores vão, em um “trabalho de formiguinha”, cortando a mata
pela orla para aumentar um pasto,
uma lavoura ou abrir espaço para algum empreendimento imobiliário.
Ao examinar o mapa, comparando
as manchas verdes da floresta amazônica e as da floresta da costa brasileira, é evidente a destruição desse
bioma. Enquanto na Amazônia a
floresta é contínua, na Mata Atlântica vê-se uma colcha de retalhos,
com apenas 7% de sua área original contendo fragmentos acima de
100 hectares – o equivalente a 100
Reserva de Guapiaçu
campos de futebol. No Nordeste,
restaram somente pequeníssimos
fragmentos, cercados de plantações
de cana ou pastos, e de onde até já
foram extintas algumas espécies de
animais e vegetais. Aves como o mutum-do-Nordeste e, provavelmente,
também o limpa-folhas-do-Nordeste não são mais avistadas pelos
observadores de aves e ornitólogos.
Mais ao sul, na Bahia e no Espírito
Santo, a mata foi também reduzida
a fragmentos isolados, relativamente
pequenos, insuficientes para preservar em longo prazo animais com
grandes necessidades territoriais,
como a onça-pintada, o gavião-real
(Harpia harpyja) e outros predadores
de topo de cadeia alimentar.
No Rio de Janeiro, as florestas das
montanhas altas e de difícil acesso
das serras do Mar e da Mantiqueira
ficaram razoavelmente protegidas,
exatamente por essa razão. Nessas
terras altas, foram criados, na Serra
da Mantiqueira, a primeira unidade
de conservação do país, o Parque
Nacional de Itatiaia, em 1937, e logo
depois, em 1939, na Serra do Mar,
o Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Nas terras baixas, a floresta foi
praticamente devastada.
No sul de São Paulo e ao norte do
Paraná, próximo ao litoral e na Serra do Mar, estão as maiores extensões contínuas de Mata Atlântica.
Em Santa Catarina e no norte do
Rio Grande do Sul, subsistem outros
fragmentos isolados, também precariamente protegidos por unidades
públicas de conservação que em
todo o Brasil sofrem com a falta de
demarcação, regularização fundiária, plano de manejo, infraestrutura
e vigilância.
“Matas atlânticas”
Por Mata Atlântica entende-se uma
grande área florestal que na época
da chegada das caravelas portuguesas cobria cerca de um milhão
10
Senac Ambiental
e trezentos mil quilômetros quadrados, o equivalente à área do Peru
e maior que a de qualquer país da
Europa Ocidental. Entretanto uma
análise mais detalhada desse grande
bioma vai revelar diversas florestas
de características muito diferentes,
com espécies de plantas e animais
com distribuição geográfica limitada. Por exemplo: na Mata Atlântica ocorrem, em regiões diferentes,
quatro espécies de macacos-prego
e seis espécies de micos, isoladas
pelos grandes rios que separam as
florestas e por outros fatores ecológicos. Entre as aves, alguns gêneros
são mais diversificados ainda, como
as saíras, e outros têm espécies de
distribuição muito restrita, como algumas insetívoras de mata fechada,
o que demonstra uma realidade de
diversas “matas atlânticas”. Ao longo
de milhões de anos, a evolução da
floresta, por meio de diversos processos, resultou em grande biodiversidade e muitos endemismos, pois
há espécies que só ocorrem na Mata
Atlântica e algumas apenas em áreas
restritas desse bioma.
Das plantas, cerca de 8 mil espécies só ocorrem na Mata Atlântica.
Os números são realmente impressionantes: 55% das árvores, 40%
das plantas não-arbóreas, 70% das
bromélias e 74% das palmeiras são
endêmicas. O palmito da juçara, que
o brasileiro morador do litoral consumia em sua alimentação diária, é
hoje uma espécie ameaçada de extinção. Industrialmente, foi substituído por uma palmeira amazônica, a
pupunha (Bactris gasipaes).
Um estudo realizado pelo Jardim Botânico de Nova York e pela Comissão
Executiva da Lavoura Cacaueira encontrou 458 espécies arbóreas em
apenas um hectare da floresta sul
-baiana, perto de Uma – um recorde
de biodiversidade. O número total
de espécies vegetais do bioma é estimado em aproximadamente 20 mil.
A Mata Atlântica abriga em torno de
7% das espécies do planeta.
É claro que essa biodiversidade exuberante e tal riqueza de endemismos, combinadas com o extremo
desmatamento e a fragmentação da
mata, conduziram a uma delicada
situação para a conservação da floresta e dos seres que a habitam. Na
região onde crescia a Mata Atlântica
vivem hoje 120 milhões de brasileiros, e é de onde vem 70% do nosso
Produto Interno Bruto. O resultado é
que o remanescente dessa floresta
sofre grande pressão devido à ocupação humana, correndo sérios riscos de empobrecimento biológico e
genético, com mais de 10% de suas
espécies de aves e cerca de 14% de
espécies de mamíferos ameaçadas
de extinção – algumas criticamente. O problema se agrava porque as
espécies não estão uniformemente
distribuídas por toda a floresta. Há
algumas que sofrem processos de
aniquilamento em áreas de ocorrência pequenas e, por isso, estão em
perigo de extinção. Todo esforço de
preservação é essencial para sua sobrevivência, e muito bem-vindo. A
responsabilidade é nossa, para benefício de todos.
Reservas particulares
crescem
Serra Bonita: à esquerda,
uma fêmea de aracari-poca
Para estimular a criação de reservas
em terras particulares, o governo
federal criou uma legislação específica, permitindo ao proprietário rural
manter a propriedade de suas terras
e protegê-las com uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).
Trata-se de uma unidade de conservação criada em área particular, em
caráter perpétuo, por ato voluntário
do proprietário da terra. Quando o
proprietário rural registra suas terras como RPPN, ele se compromete
vitaliciamente com a conservação
da natureza. RPPN é para sempre.
O Brasil tem hoje cerca de 500 mil
hectares em RPPNs, em todos os
biomas. Essa categoria de unidade
de conservação criada pela vontade
de particulares cresceu 80% em dez
anos, e continua crescendo.
Foi esse sentimento de responsabilidade e amor pela natureza que levou
o biólogo Vitor Becker e sua esposa
Clemira, a empregarem as economias de toda a vida para comprar
terras na Bahia, na Serra Bonita, a
130 quilômetros de Ilhéus, nos mujaneiro/junho 2014
11
parte baixa da Serra Bonita, Becker
comprou também matas de cabruca
– matas onde se plantava cacau –,
as quais terão seu sub-bosque recuperado com a proteção e o tempo.
É importante notar que só a RPPN
Serra Bonita, de 1.800 hectares, e o
Parque Nacional da Serra das Lontras protegem as Matas Atlânticas
baianas de altitude, tão raras e peculiares.
Nessas duas áreas ocorre o acrobata, uma pequena ave rara e ameaçada de extinção, descoberta e
descrita para a ciência em 1996.
Entretanto, é apenas na Serra Bonita que o acrobata pode ser avistado facilmente, em frente à casa da
Dona Zica, na subida da serra, antes
de chegar à sede das RPPNs. É para
esse ponto que convergem os observadores de aves que visitam a serra,
às vezes com a única finalidade de
observar o acrobata.
Serra Bonita: macaco-pregode-peito-amarelo pode ser
visto em bandos pela reserva
12
Senac Ambiental
nicípios de Camacan e Pau-brasil,
transformá-las num complexo de
RPPNs e fundar o Instituto Uiraçu,
para realizar pesquisas na floresta
e implementar medidas para sua
conservação. Na época da criação
do instituto, Becker e outros associados perceberam que a riquíssima
Mata Atlântica sul-baiana só possuía
unidades de conservação perto do
litoral e que na Serra Bonita ainda crescia uma mata exuberante,
de altíssima biodiversidade, com
grande gradação altitudinal, de 200
a 950 metros sobre o nível do mar,
com suas cotas mais altas frequentemente envoltas em nevoeiros. Na
Na Serra Bonita vivem ainda quatro
espécies de primatas, todas endêmicas, das quais três estão ameaçadas de extinção. Bandos grandes
de macaco-prego-de-peito-amarelo,
tão raro em toda sua área de distribuição, vagueiam pela Serra Bonita.
Grupos de sagui-de-wied, endêmicos da mata sul-baiana, são comuns.
Já o guigó e o mico-leão-de-caradourada são mais difíceis de serem
avistados. O muriqui-do-norte foi
extinto na serra, assim como um
dos 25 primatas mais ameaçados do
mundo, o guariba-marrom-do-norte
(Alouatta guariba guariba), com sua
população estimada em menos de
350 indivíduos. Todas as populações
estão isoladas e em fragmentos pequenos, em áreas particulares não
protegidas, e são inviáveis a longo
prazo. No entanto há planos para a
translocação de indivíduos desta espécie de guariba para a Serra Bonita,
para reintroduzi-los numa área protegida e viabilizar sua sobrevivência.
Há um ano, um macho quase adulto,
o Pelé, anda nas proximidades do
centro de pesquisas e está aproximando-se de Xuxa, uma fêmea
que, em 7 fevereiro de 2014, chegou
para tentar o acasalamento. No dia
18 de fevereiro deste ano, o Ibama
de Porto Seguro e o Instituto Uiraçu
firmaram uma parceria para a Serra
Bonita receber outros exemplares de
guariba e também outras espécies
que já habitaram aquele local.
Becker ressalta que menos de 2% do
Corredor Central da Mata Atlântica é
protegido de forma integral. “Essas
áreas protegidas, além de pequenas – quase a metade tem menos
de 2.500 hectares –, são também
altamente isoladas e distribuídas de
forma inadequada, tanto geográfica
como ecologicamente. Tais fatores,
combinados com severas limitações
no manejo e graves problemas fundiários, fazem que o sistema público
de Unidades de Conservação não
tenha, sozinho, condições suficientes de manter populações viáveis
de espécies endêmicas ameaçadas
nem de conservar a biodiversidade
a longo prazo”. E conclui: “As RPPNs
podem ser consideradas como as
melhores aliadas das áreas públicas
protegidas. Elas ampliam as áreas
sob proteção, preenchem lacunas,
conservam habitats únicos e formam
corredores ecológicos que melhoram significativamente a conectividade das florestas, servindo também
de abrigo e ponto de passagem para
animais silvestres. Esses corredores
permitem a circulação da fauna, impedindo que grupos de organismos
fiquem isolados entre si, o que geraria problemas de consanguinidade e
aumentaria os riscos de extinção.”
A RPPN Estação Veracel, considerada pela Unesco como Sítio do
Patrimônio Mundial Natural por sua
importância para a conservação da
biodiversidade, nos municípios de
Porto Seguro e Santa Cruz de Cabrália, dista apenas 125 quilômetros
em linha reta da Serra Bonita, mas
o contraste entre as duas reservas é
marcante. A RPPN Estação Veracel
está quase no nível do mar, entre 4
e 70 metros, numa região da formação geológica chamada de “tabuleiro do terciário”, de solo arenoso. É
separada da RPPN Serra Bonita pelo
rio Jequitinhonha. O sagui e o macaco-prego da Estação Veracel são
o sagui-de-cara-branca e o macaco
-prego-robusto, espécies diferentes
dos da Serra Bonita, e ambas estão
ameaçadas de extinção. O acrobata não ocorre na Estação Veracel,
que abriga outras espécies de aves
ameaçadas, como o raríssimo beijaflor balança-rabo-canela, o crejoá,
o anambé-de-asa-branca, a tiribagrande e o papagaio-chauá. A avifauna e a composição florística de
sua floresta são diferentes da Serra
Bonita. Na Estação Veracel, há árvores monumentais como o pequi-preto, o jacarandá e o pau-brasil, claro.
A mata de baixada abriga espécies
ameaçadas na Mata Atlântica, como
a anta, e ameaçadas globalmente,
como o guigó, o ouriço-cacheiro-preto, a preguiça-de-coleira, a
lontra e quatro espécies de gato-do
-mato.
Com 6.069 hectares, a RPPN Estação Veracel faz parte de um bloco de
aproximadamente 8.000 hectares,
composto por duas RPPNs, algumas
reservas legais e a Estação Ecológica Pau-Brasil. É uma unidade de
conservação importante para o corredor central da Mata Atlântica, mas
seu apoio às pesquisas e à educação
ambiental e sua atenção à vigilância
contra caçadores e incêndios fazem
um diferencial. Uma equipe treinada
percorre semanalmente a Reserva,
desmontando armadilhas de caçadores, monitorando possíveis focos
de incêndio e também visitando as
propriedades vizinhas para prevenir
incêndios que os proprietários vizinhos provocam para “limpar” os
campos. A equipe da Estação Veracel faz um trabalho de educação
ambiental informando os lavradores
Estação Veracel abriga árvores
monumentais, como a jueirana
janeiro/junho 2014
13
Reserva Natural Vale, em Linhares
(ES): acima, paisagem de campo
nativo na beira do rio Barra Seca.
No centro, um jequitibá-rosa
de que essa técnica é prejudicial
para suas terras e para a floresta. Na
RPPN são desenvolvidos também
projetos de educação ambiental
com as escolas da região. Anualmente, a reserva recebe a visita de
cerca de 5 mil pessoas interessadas
na natureza.
No norte do Espírito Santo, no município de Linhares, na mesma formação geológica de tabuleiro e com
fauna e flora muito parecidas com as
da Estação Veracel, a Reserva Natural Vale, de 23 mil hectares, compõe
uma área contínua de 47.000 ha com
a Reserva Biológica de Sooretama. É
a mais extensa área de Mata Atlântica de tabuleiro e sua importância
levou a Unesco a dar-lhe o título de
Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Em estudo
sobre o valor econômico da reserva,
por sua relevância para a conservação da Mata Atlântica, seu valor de
existência (não uso) chegou à cifra
de 1 bilhão de dólares. O estudo foi
desenvolvido pela Vale, em parceria
com a Lawrence Berkeley Laboratory
(Universidade da Califórnia), Quest
Inteligência de Mercado Ltda. e especialistas em economia ambiental.
O valor de existência reflete o benefício econômico de um recurso ambiental, ou seja: embora as pessoas
não o conheçam pessoalmente,
14
Senac Ambiental
entendem a importância de sua preservação. Os valores de uso direto
e indireto incluem aspectos como
recreação, geração de conhecimento, polinização, estoque de carbono,
tanto na vegetação como na produção de mudas para a recuperação de
áreas, regulação do solo, do ar e da
água, além da provisão de água.
Novas espécies
Luiz Felipe Campos, gerente de
Biodiversidade e Florestas da companhia Vale, explica que “a Reserva Natural Vale não é uma área de
conservação”, isto é, não é uma
RPPN – única categoria existente de
reserva privada –, “mas atua como
tal, seguindo as melhores práticas e
recomendações para a conservação
da diversidade biológica. Ele ressalta sua importância para pesquisas
da Mata Atlântica de tabuleiro. Sem
esses estudos, todo esforço de conservação seria uma atividade cega:
“Atualmente, mais de 150 pesquisas
estão em andamento na Reserva Natural Vale, entre as próprias e as realizadas em colaboração com outras
instituições de ensino e pesquisa
do Brasil e do exterior. Destacam-se
estudos relacionados à ecologia e à
conservação de espécies vegetais e
animais, manejo florestal, restauração ecológica, formação de florestas
de uso múltiplo, estocagem de carbono e mudanças climáticas, entre
outros temas”. Nos últimos cinco
anos, 20 espécies botânicas novas
foram descritas para a ciência na Reserva Natural Vale e, recentemente,
pesquisadores da Universidade de
São Paulo descobriram uma nova
árvore que recebeu o nome vulgar
de pindaíba-preta (Ephedranthus
dimerus). É a única do gênero Ephedranthus registrada para esse bioma.
a Estação Veracel – é a disponibilidade de recursos para geri-la com
eficiência. Luiz Felipe Campos aponta que “por gerenciarmos orçamento
próprio, conseguimos colocar em
prática diversas ações necessárias à
implantação da Reserva como área
efetivamente protegida. O grande
destaque é a extensão do território e
a existência de recursos necessários
para desenvolver plenamente nossos objetivos”.
A equipe de fiscalização da Reserva Natural Vale auxilia o ICMBio na
fiscalização da Reserva Biológica de
Sooretama, beneficiando a fauna e a
flora de ambas. Como as duas reservas formam uma área tão extensa,
é a única floresta no Espírito Santo
onde ainda ocorrem a onça-pintada
e o gavião-real, predadores de topo
de cadeia alimentar que precisam de
grandes áreas para sua sobrevivência. Na Reserva ainda subsistem o
tatu-canastra, espécie raríssima na
Mata Atlântica, e o mutum-do-sudeste ou mutum-de-bico-vermelho
(Crax blumenbachii). A Reserva Natural Vale e a Reserva Biológica Sooretama protegem a mais importante
população desta ave.
Na Serra do Mar do Rio de Janeiro, a
Reserva Ecológica Guapiaçu (Regua)
é administrada pelo casal Nicholas e
Raquel Locke. A Regua abrange uma
área total de 7.500 hectares e seu
objetivo é, nas palavras de Nicholas,
“a conservação da alta bacia do rio
Guapiaçu, uma bacia hidrográfica
de 300 quilômetros quadrados localizada no município de Cachoeiras
de Macacu, a cem quilômetros da
cidade do Rio de Janeiro”. A Regua
é contígua ao Parque Estadual Três
Picos e situa-se no centro do Corredor Ecológico Sul da Mata Atlântica,
aumentando a conectividade da Reserva Biológica do Tinguá, do Parque
Nacional do Serra dos Órgãos, da
APA de Macaé de Cima e do Parque
Estadual do Desengano. Segundo
Nicholas, “a Regua está localizada
no centro desse longo corredor verde, mas, acima de tudo, vai permitir
A vantagem de uma reserva com
recursos próprios, propriedade de
uma grande indústria – assim como
Trabalhadores capinano em volta de
árvores plantadas para reflorestamento
na Reserva Ecológica Guapiaçu, em
Cachoeiras de Macacu (RJ)
janeiro/junho 2014
15
que essas áreas preservadas altas
tenham conexão com as áreas de
matas de baixada, mostrando que a
área sob a administração da Regua
é importantíssima para as espécies
que dependem da integridade florestal desses gradientes altitudinais”.
Cachoeira descoberta
recentemente pela família Locke,
em Guapiaçu
O nome do município é significativo:
Cachoeiras de Macacu abriga inúmeras nascentes e a água, hoje, cada
vez mais escassa, é o mais importante recurso natural. Recentemente, esse município viu a extração de
água mineral tornar-se uma das atividades econômicas importantes da
região. Vizinha à Regua, a cervejaria
Schincariol, agora Kirim, conserva
suas florestas para preservar seus
mananciais. A Regua também protege do desmatamento, da caça e da
exploração predatória de recursos
naturais um importante remanescente florestal de mata atlântica de
baixada. Além de proteger, a Reserva
de Guapiaçu vem restaurando habitats nativos, através de um esforço
de reflorestamento e de reintrodução de espécies extintas localmente.
Segundo Nicholas, “a maior parte
das terras baixas e pantanosas em
frente à sede da Regua era coberta
com caxeta (Tabebuia cassinoides),
da família dos ipês. Há muitos anos,
esses alagados foram drenados e as
árvores cortadas para extração da
madeira. Os tocos remanescentes
foram queimados e a área transformada em pastagem. Há muito minha
vontade era restaurar os antigos alagados e, ao adquirir a fazenda São
José em 2003, esse sonho se tornou
possível. Em 2005, após a construção de barragens, uma grande área
foi inundada, resultando num alagado de 12 hectares, que maturou rapidamente e atraiu aves e uma fauna
diversa. Levarão alguns anos para
que a caxeta, orquídeas e bromélias
possam ser reintroduzidas, mas o
passo inicial foi dado, para restaurar
esse habitat extremamente raro e
especial”.
Na área de baixada onde cresciam
florestas, a Regua já plantou cerca
de 150 mil árvores de espécies nativas, com sobrevivência de 95% das
mudas, provenientes de seus próprios viveiros e sementes coletadas
em suas matas. O objetivo é também
aumentar a conectividade com as
áreas protegidas nas serras.
A avifauna da Regua é riquíssima,
com 460 espécies registradas. A
Reserva atrai muitos observadores
de aves e também de lepidópteros
(borboletas e mariposas). Entre as
espécies ameaçadas de extinção
protegidas pela Regua estão 13 espécies de aves, o muriqui-do-sul
(Brachyteles arachnoides), a lontra e
três espécies de gatos selvagens. É
interessante notar que a Regua está
ao sul do rio Doce, e o macaco-prego da Regua é outra espécie, o macaco-prego-preto (Sapajus nigritus),
diferente da que ocorre na Reserva
Natural Vale e da Veracel. Com o sagui acontece o mesmo. Nas áreas
mais altas da região onde fica a Regua ocorre o sagui-da-serra-escuro
16
Senac Ambiental
(Callithrix aurita). Insetos ameaçados
também são protegidos na reserva,
como a libélula helicóptero-amália
(Mecistogaster amalia) e a borboleta-da-restinga (Parides ascanius),
endêmica do Rio de Janeiro.
Educação ambiental
No litoral norte do Paraná, no município de Guaraqueçaba, a RPPN Salto Morato, propriedade da Fundação
Grupo Boticário, protege 2.253 hectares de Mata Atlântica úmida, exuberante, riquíssima em bromélias e
outras plantas epífitas (que crescem
sobre outras e não são parasitas). A
área inclui ainda a cachoeira Salto
Morato e a grande figueira do rio do
Engenho, símbolos da reserva. Entre
as espécies protegidas, ameaçadas
de extinção, estão quatro espécies
de gatos selvagens, o cachorro-do
-mato-vinagre, o muriqui, o macuco,
a maria-leque-do-sudeste, a cigarraverdadeira (uma ave!), a choca-da-taquara e outras.
Esta RPPN destaca-se por seu trabalho inovador sobre sinalização de
áreas protegidas e interpretação de
trilhas, isto é, educação ambiental.
Com sua boa infraestrutura para
visitação, a Salto Morato hospedou
mais de cem cursos e capacitou mais
de 2 mil alunos em diversas matérias, como administração e manejo
de unidades de conservação, biologia da conservação, avaliação de
biodiversidade, condutores de visitantes em unidades de conservação,
educação ambiental e interpretação
da natureza em unidades de conservação, além de outras relacionadas à
proteção da natureza. A Salto Morato entendeu que o conhecimento e a
sua difusão são ferramentas eficazes
para a conservação da natureza. Saber é poder.
Educação talvez seja o ingrediente
essencial que ainda falta para salvar
a Mata Atlântica. O Brasil carece de
um processo civilizatório que leve
em conta a natureza
e os processos ambientais que sustentam a prosperidade
de um país. Houve
um tempo em que a
mata era derrubada
apenas para dar lugar
aos ciclos econômicos e nem a madeira
de lei era aproveitada. Era simplesmente
queimada para “limpar” os campos. Tempos de abundância e
descuido. Hoje, até
a água que a floresta
mantém – e regula
por meio de sofisticados processos hidrológicos que apenas
começamos a compreender – é escassa
e motivo de disputa
entre os estados de
São Paulo e Rio de
Janeiro.
A atitude dos proprietários de reservas particulares reflete uma
mudança de consciência dos brasileiros
em relação à grande
floresta. São homens,
mulheres e empresas preocupados em
“fazer a sua parte”.
E assim contribuem
imensamente para a
conservação do bioma que praticamente
sustentou sozinho,
com altos custos, o
desenvolvimento da
nação brasileira.
Estadista, filósofo e teórico político
do século XVIII, Edmund Burke dizia
que “ninguém comete erro maior do
que não fazer nada porque só pode
fazer um pouco”. As reservas particulares não incidem neste erro. Fazem muito!
Salto Morato, no município de
Guaraqueçaba (PR)
janeiro/junho 2014
17
E ntrevista
Energias
renováveis:
hora de
inovar
Heitor Scalambrini Costa,
físico, mestre em Energia Solar
pelo Departamento de Energia
Nuclear da Universidade
Federal de Pernambuco,
estudioso das energias
renováveis e membro da Rede
Brasileira de Justiça
Ambiental.
Fausto Rêgo
janeiro/junho 2014
19
“Se há um país no mundo que goza
das melhores oportunidades ecológicas e geopolíticas para ajudar a
formular outro modelo energético
para toda a humanidade, este país
é o Brasil”. Quem afirma é o físico
Heitor Scalambrini Costa, mestre em
Energia Solar pelo Departamento
de Energia Nuclear da Universidade
Federal de Pernambuco, estudioso
das energias renováveis e membro
da Rede Brasileira de Justiça Ambiental. Segundo ele, o mundo não
está pronto para enfrentar as piores
consequências de um aquecimento
global – e a ameaça é real, conforme
vem alertando o Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças
Climáticas. Para conter o impacto
humano sobre o clima, é fundamental buscar uma matriz energética que
não se baseie no uso de combustíveis fósseis. E o Brasil tem condições
para isso.
Sistema de painéis fotovoltaicos
em Thüngen, Alemanha. País é
responsável por 30% do uso mundial
de energia solar
20
Senac Ambiental
Heitor observa que o uso predominante da energia gerada por hidroelétricas nos torna muito vulneráveis às mudanças do clima, como
ocorreu no último verão, quando as
chuvas foram escassas em boa parte
do território nacional. Diversificar é
a solução. A opção nuclear, pondera, não é boa – “temos alternativas
mais seguras e baratas”. Mas a ener-
gia solar poderia ser mais explorada
– “recebemos os maiores índices de
radiação solar, em particular no Nordeste, mas a capacidade fotovoltaica
instalada é insignificante”.
O potencial das energias renováveis
e as ameaças provocadas pelas mudanças climáticas são os temas desta entrevista que o professor Heitor
Scalambrini Costa nos concedeu por
e-mail. Nela, ele adverte: “Os que decidem no setor elétrico não podem
continuar a dar respostas aos grandes desafios do século 21 com as
mesmas soluções dadas aos problemas do século 20. A hora é de inovar”.
Senac Ambiental – O rigor do último verão brasileiro, com poucas
chuvas em boa parte do território
nacional, deixou os reservatórios das
hidroelétricas em níveis preocupantes. E não foi a primeira vez que isso
aconteceu. Com as mudanças climáticas potencializando os extremos, o
risco de uma crise de abastecimento
nos próximos anos é iminente?
Heitor Scalambrini Costa – Obviamente, o fato de a matriz elétrica
brasileira ter nas hidroelétricas uma
contribuição de mais de 80% da energia elétrica ofertada no país nos torna
extremamente dependentes dessa
fonte energética. E nos deixa vulnerável às mudanças no clima que já estão ocorrendo, implicando períodos
mais frequentes de falta de chuvas.
Sem dúvida, esse problema irá se
agravar, e necessitamos urgentemente de políticas públicas que incentivem a diversificação da matriz
elétrica. Não somente baseada em
um modelo hidrotérmico (hidroelétricas + usinas térmicas), mas que
assegure uma maior participação
da energia solar, da energia eólica
e de outras fontes renováveis, além
de programas sérios e consistentes
de uso eficiente e racional de energia, na indústria (principalmente), no
comercio e nas residências. Também
economizando energia nós a ofertamos para o sistema elétrico. Portanto a energia elétrica de que precisamos não virá somente da construção
de grandes usinas, mas da economia
em setores perdulários ou que utilizem tecnologias ultrapassadas.
As palavras-chave para uma matriz
elétrica (e mesmo energética) segura,
menos suja, seriam a diversificação
das fontes produtoras e a complementaridade das fontes energéticas,
associada ao uso racional da energia.
Senac Ambiental – A matriz energética brasileira é baseada em hidroelétricas. Uma energia limpa, mas de forte impacto ambiental. A construção
de usinas como Belo Monte é polêmica dos pontos de vista ambiental e
do impacto sobre as populações tradicionais. Podemos mencionar também as cheias do rio Madeira, que
quase isolaram o Acre no início deste
ano e causaram inúmeros transtornos, pois há quem atribua esses efeitos à construção das usinas de Jirau e
Santo Antônio. Qual a sua percepção
das vantagens e desvantagens desse
modelo energético?
Heitor Scalambrini Costa – Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico, mais de 80% da oferta
de energia elétrica é proveniente das
Construção da Usina de Santo Antônio,
no rio Madeira, pode ter contribuído para
as cheias deste ano na região
hidroelétricas. Uma dependência
que, sem dúvida alguma, tem provocado muitas incertezas quanto à
segurança energética do país.
As hidroelétricas, que até então
eram consideradas “limpas” por
não produzirem os chamados gases
de efeito estufa – como dióxido de
carbono, óxidos nitrosos e metano, entre outros –, têm hoje, com
a evolução tecnológica e científica,
essa premissa colocada em xeque
por vários cientistas. Medidas realizadas, em particular, nos reservatórios das grandes hidroelétricas têm
detectado a emissão de quantidades
consideráveis de metano, devido à
decomposição da matéria orgânica
encontrada nos reservatórios. Logo,
virou “lenda” falar hoje que as grandes hidroelétricas são “limpas”.
O rigor científico mostra que não
existe fonte energética “limpa”, pois
todo processo de transformação de
energia emite resíduos e gases poluentes. O que podemos é chamar
essas fontes de “menos sujas”, pois
aquelas chamadas de “sujas” são as
fontes não renováveis (petróleo, gás
natural, carvão mineral e as provenientes dos minérios radioativos).
Considero um grande erro a construção de mega-hidroelétricas na região
janeiro/junho 2014
21
nas nucleares devam ser levadas em
conta para a matriz elétrica/energética de um país. No Brasil, então, seria
e é, no mínimo, um grande equivoco a construção dessas usinas, pelo
simples fato de que não precisamos.
Temos alternativas mais seguras, baratas e menos perigosas para o meio
ambiente e a saúde das pessoas.
Usina nuclear de Angra dos
Reis: para Scalambrini, os
riscos não compensam
Amazônica. A meu ver, desnecessárias para o suprimento de energia
do país. Vejo com preocupação os
impactos ambientais e sociais causados por estses empreendimentos,
que não levam em conta os interesses das populações ribeirinhas, dos
índios da região. As decisões tomadas para a construção dessas usinas
foram autoritárias, não levando em
conta, também, estudos independentes daqueles realizados pelos
maiores interessados (governo, empreiteiras, construtores de equipamentos e políticos com interesses
escusos no empreendimento), que
mostraram impactos socioambientais enormes.
Senac Ambiental – Patrick Moore,
que fundou a organização ambientalista Greenpeace, é hoje um entusiasta da energia nuclear. Em entrevista, ele disse que “a única forma de
reduzir o consumo de combustíveis
fósseis de maneira significativa é fazer isso com um programa agressivo
de energias renováveis combinado à
energia nuclear”. É de fato uma opção viável para o Brasil, apesar dos
riscos de contaminação e do problema da geração de resíduos?
Heitor Scalambrini Costa – Discordo da afirmativa de que as usi-
22
Senac Ambiental
Como em engenharia não existe
risco zero, a liberação de material
radioativo é o que de pior pode
acontecer em uma usina nuclear,
acarretando a contaminação das
pessoas, dos animais, da água, do
solo e do ar, geralmente proveniente de isótopos como urânio-235,
césio-137, cobalto-60, iodo-131, estrôncio-90, tório-232 e plutônio. Tais
isótopos liberam energia por meio
de ondas eletromagnéticas. É o que
chamamos de radiação. O contato
da radiação com seres vivos não é
o que podemos chamar de uma boa
relação.
Contaminantes altamente tóxicos
chegam aos seres humanos pela ingestão de água e alimentos ou pelo
próprio ar respirado. Esta é a grande
e maior preocupação com relação às
vidas das pessoas e dos seres vivos
de uma maneira geral, que podem
ser atingidas até onde os elementos
químicos que foram liberados para o
meio ambiente podem chegar.
Os efeitos da radiação podem ser em
longo prazo, curto prazo ou apresentar problemas aos descendentes
da pessoa infectada (filhos, netos).
O indivíduo que recebe a radiação
em dose elevada sofre alterações
genéticas, que podem ser transmitidas na gestação. A radiação afeta
os átomos que estão presentes nas
células, provocando alterações em
sua estrutura. O resultado? Graves
problemas de saúde, como a perda
das propriedades características dos
músculos e da capacidade de efetuar
as sínteses necessárias à sobrevivência. Muitos desses elementos quími-
cos acabam se instalando nos ossos, afetando a medula óssea, e na
tiroide, entre outras partes do organismo humano. Daí que, geralmente,
em acidentes em usinas nucleares, o
numero de mortes imediatas após o
acidente é relativamente pequeno
em relação a outros tipos de acidentes. Todavia as mortes ocorrerão ao
longo de décadas.
Outros impactos de projetos que
utilizam a energia nuclear para fins
energéticos ocorrem em toda cadeia
produtiva, chamada ciclo do combustível nuclear, desde a mineração
até a fabricação do elemento combustível que é usado nas usinas. São
atividades industriais em que podem
ocorrer acidentes.
A proliferação e a militarização
nuclear, consequência de um programa que prevê construção de
usinas, são altamente indesejáveis,
principalmente para o Brasil e seus
vizinhos, que são países pacíficos.
A cada usina que construímos, aumentaremos o volume de urânio
produzido, aumentando assim o
perigo que ronda a humanidade.
Portanto os riscos são muito maiores que os benefícios que se deseja
atribuir a esta tecnologia.
Senac Ambiental – Em discurso
recente, o presidente dos Estados
Unidos disse que em seu país, a
cada quatro minutos, uma casa ou
empresa adota a energia solar. Por
que esse impulso não ocorre também no Brasil, onde a incidência de
raios solares é tão generosa, em especial no Nordeste? É apenas questão de reduzir impostos como ICMS,
PIS e Cofins, já que ainda é uma
energia cara?
A usina solar Gemasolar, na
Espanha, armazena energia
por até 15 horas e pode fornecer
eletricidade 24 horas por dia.
No Brasil, porém, o investimento
nessa modalidade é ainda tímido
Heitor Scalambrini Costa – Sem
dúvida, os preços da tecnologia
solar no Brasil são bem mais caros
que os encontrados em países que
apostam nessa tecnologia, o que lamentavelmente dificulta uma maior
difusão. Mas não é somente esta
questão que atravanca a energia solar em nosso país.
A conversão em calor da energia solar para obtenção de baixas temperaturas (água quente para o banho,
pré-cozimento de alimentos, higienização) tem tido uma trajetória mais
consistente do que a produção de
energia elétrica. E é a esta que me
refiro.
O Brasil recebe os maiores índices
de radiação solar do planeta, em
janeiro/junho 2014
23
Devido à atual situação econômica
no continente europeu, o relatório
da Worldwatch destaca que a posição europeia com relação à produção elétrica solar está ameaçada,
pois a Itália e a Espanha recentemente alteraram suas políticas de incentivo às fontes renováveis de energia, o que sem dúvida vai prejudicar
a expansão do setor solar na região.
Parque eólico de
Osório, no RS
particular sua região Nordeste. Segundo o Ministério de Minas e Energia, em dezembro de 2012, a capacidade fotovoltaica (geração elétrica a
partir da incidência da radiação solar
em semicondutores chamados células solares) instalada no país era de
insignificantes oito megawatts.
De acordo com o Worldwatch Institute, a capacidade instalada da energia solar no mundo cresceu 41% em
2012, atingindo a marca de cem mil
megawatts instalados. Dados apontam que no final de 2013 chegou
próximo de 150 mil megawatts. Em
2007, eram menos de 10 mil.
A Europa é ainda a principal consumidora de energia solar, respondendo por 76% em 2012. O grande
destaque é a Alemanha, que sozinha
é responsável por 30% do uso mundial. Segundo a Solar Industry Association, cerca de 8,5 milhões de pessoas já estão usando a energia solar
para gerar eletricidade ou calor. Ou
seja: de cada dez alemães, um utiliza
energia solar.
A energia solar fotovoltaica já atende 5% da demanda de eletricidade
naquele país. As indústrias do setor
têm como meta aumentar esta oferta
para 10% em 2020 e cerca de 20% até
2030, mesmo com as taxas adicionais
pagas pelo consumidor para subsidiar as fontes energéticas renováveis.
24
Senac Ambiental
Os Estados Unidos e a China são os
atuais mercados mais promissores à
tecnologia fotovoltaica. A China divulgou recentemente a decisão do
seu Conselho de Estado em aumentar em 10 mil megawatts a cada ano,
chegando em 2015 com uma potência instalada de 35 mil megawatts.
Apenas em 2012, foram instalados
8 mil megawatts. Já o EUA esperam,
até o fim de 2013, suplantar a marca
dos 13 mil megawatts instalados.
Portanto, se existem esse crescimento e o crédito dessa tecnologia
junto aos tomadores de decisão de
vários países, por que no Brasil ela
não emplaca?
Uma das causas dessa pífia utilização da fonte solar para produzir
eletricidade é a completa falta de
interesse dos formuladores e gestores da política energética brasileira.
Esta afirmativa é corroborada nas
políticas públicas planejadas para o
país. Segundo a Empresa de Planejamento Energético, o Plano Decenal
de Energia 2013-2022 prevê a geração de irrisórios 1,4 mil megawatts
de geração distribuída via fonte solar
em 2022.
O preço dessa energia é o maior empecilho apontado pelo Ministério de
Minas e Energia para sua ampla difusão. Segundo estimativas do próprio
Ministério, o custo da energia fotovoltaica estaria estimado em R$ 280
a R$ 300 por megawatt/hora e poderia cair para R$ 165 por megawatt/
hora em cinco anos. O que é um
disparate total, sem lastro na realidade atual, que acaba inibindo sua
utilização. Por outro lado, não existe
uma política consistente de apoio e/
ou incentivo dessa fonte energética.
Existem arremedos, com ações unicamente midiáticas.
Senac Ambiental – Diante do
novo alerta divulgado pelo Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU em relação
ao aquecimento global, torna-se
imperativo reduzir drasticamente o
uso de combustíveis fósseis em todo
o mundo? Quais as chances de um
pacto internacional em torno do uso
de energias renováveis?
Heitor Scalambrini Costa – A
principal mensagem do relatório
“Impactos da Mudança Climática,
Adaptação e Vulnerabilidade”, apresentado em 31 de março pelo Painel
Intergovernamental de Mudanças
Climáticas (IPCC), entidade que reúne milhares de cientistas de mais de
uma centena de países, foi de que
os impactos das mudanças climáticas já afetam agricultura, ecossistemas, recursos hídricos, oceanos,
setores econômicos e a saúde hu-
mana. Felizmente, ainda há tempo
para ações de mitigação e adaptação que reduzam os prejuízos desses efeitos. Porém, atualmente, não
estamos prontos para enfrentar as
piores consequências do aquecimento global.
Vivemos na era das mudanças climáticas produzidas pelo homem. Em
muitos casos, não estamos preparados para os riscos que já enfrentamos. Investimentos em uma melhor
preparação podem render benefícios no presente e no futuro.
Uma das conclusões do trabalho
é que, apesar de as mudanças climáticas afetarem a todos, serão os
pobres os mais impactados. A alteração do clima está agindo como
um multiplicador de outras ameaças,
como a dificuldade em conseguir alimentos e moradia.
O relatório do IPCC destaca que
quanto mais demorarmos para adotar medidas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, piores
elas serão. Sem dúvida, é a cadeia
A palha do arroz pode
ser queimada para a
obtenção de energia
janeiro/junho 2014
25
produtiva da energia a maior responsável pelas emissões. Cabe, portanto, incentivar as fontes renováveis
em substituição aos derivados de
petróleo, carvão mineral, gás natural
e minérios radioativos.
Desgraçadamente, o lobby do petróleo e gás é muito poderoso, agindo
nos governos que ainda oferecem
subsídios astronômicos a essas
fontes em detrimento das fontes
renováveis. Vejo ainda distante este
pacto internacional em torno do uso
de energias renováveis. A aceleração
para redução do uso dos combustíveis fósseis se dará com a pressão
popular, e isto necessita de conscientização.
Veja, por exemplo, a contradição que
vivemos hoje no Brasil. Reconhecemos que o maior vilão das mudanças
climáticas é o petróleo. Ao mesmo
tempo, o petróleo descoberto no
pré-sal é entusiasticamente apontado como solução que irá gerar os
recursos econômicos para combater
inúmeros problemas existentes na
educação, na saúde etc.
Senac Ambiental – A Resolução
Normativa nº 482/2012 da Agência Nacional de Energia Elétrica diz
que o consumidor residencial que
investir na geração de energia de
fonte própria, como a solar, pode
trocar o excedente produzido por
créditos para descontar da conta de
luz elétrica. Este tipo de incentivo é
suficiente? De que outras formas os
governos poderiam fomentar o uso
de energias naturais?
Heitor Scalambrini Costa – Em
2013, havia muita esperança de que
a energia solar fotovoltaica de uso
residencial pudesse deslanchar no
Brasil após a edição da Resolução
Normativa da Agência Nacional de
Energia Elétrica. Ledo engano.
Segundo estudo realizado pelo
Greenpeace em parceria com a Market Analysis (“Os brasileiros diante
da microgeração de energia renová26
Senac Ambiental
vel”), os resultados decorrentes da
Resolução foram pífios. De onde se
conclui que a Resolução Normativa
482, que deveria reduzir as barreiras
e estimular a instalação de geração
distribuída de pequeno porte conectada à rede elétrica, principalmente
nas residências, tornou-se um grande fiasco.
Segundo a pesquisa, somente 131
sistemas domiciliares de geração fotovoltaica foram instalados em todo
o Brasil. Foi em São Paulo onde se
concentrou o maior numero de instalações, 22, vindo a seguir o Ceará,
com 14. Em Pernambuco, apenas
quatro instalações foram realizadas.
Esse número é irrisório diante das
possibilidades que o país possui,
principalmente devido à alta incidência de radiação solar em praticamente todo seu território. Em contraste,
a Alemanha, líder no mercado global
de geração de energia solar em 2012,
contava com cerca de 1,5 milhão de
produtores individuais de energia, a
partir de sistemas de painéis solares
fotovoltaicos.
Então, se temos sol em abundância, por que não aproveitá-lo mais
para gerar eletricidade? Bem, a
causa principal é a falta de interesse dos gestores da área energética
em relação a esta importante fonte
de energia.
Em outros países que hoje utilizam
consideravelmente o potencial solar, o Estado teve uma participação
fundamental alavancando a cadeia
produtiva fotovoltaica. Os incentivos foram para os dois extremos
da cadeia: para quem produz os
equipamentos e para quem os
compra, reduzindo imposto, dando
subsídios, criando linhas de crédito, informando à população sobre
os benefícios e comprando grandes quantidades para instalar nos
equipamentos públicos (escolas,
hospitais, escritórios dos órgãos
públicos etc). Foram ações que
resultaram no desenvolvimento
do mercado, o que levou a preços
mais acessíveis.
Outros aspectos interessantes
da pesquisa Greenpeace/Market
Analysis foram o baixo nível de
conhecimento da população sobre a Resolução da Aneel (75% dos
entrevistados não sabem nada ou
pouco sabem). Mesmo com o desconhecimento, 90% dos entrevistados mostraram interesse em saber
mais e, caso houvesse linhas de
crédito com juros baixos, optariam
por produzir sua própria energia,
adotando os sistemas fotovoltaicos em suas residências. Fica claro
que o Governo Federal e as distribuidoras responsáveis pelas instalações nada fizeram para divulgar a
Resolução e as enormes possibilidades que tem a energia solar em
nosso país.
Senac Ambiental – O que falta,
enfim, para que o Brasil passe a
investir de forma decisiva em energias naturais renováveis?
Heitor Scalambrini Costa – Em
duas palavras: vontade política.
No Brasil, estamos distantes de
aproveitar esse enorme potencial,
principalmente na região Nordeste,
onde, ao longo do ano, o Sol brilha durante mais de três mil horas.
Verificam-se atualmente iniciativas
pontuais de geração centralizada
fotovoltaica, como as instalações
nas recém-construídas arenas para
a Copa de 2014, ou mesmo a experiência bem-sucedida do governo de Pernambuco, que realizou
um leilão exclusivo para esta fonte
energética, acabando por selecionar seis projetos, totalizando 122,8
megawatts-pico de potência instalada, a um preço médio de R$ 228
por megawatt/hora. Serão projetos
industriais de geração e não para
microgeração descentralizada, o
que acredito serem os mais interessantes para o país.
Ainda é muito pequena a
contribuição da eletricidade solar na matriz elétrica
brasileira, pois a falta de
interesse do Governo Federal acaba criando obstáculos a uma maior disseminação dessa tecnologia
madura e promissora.
É completamente sem cabimento a resistência à
eletricidade solar. A justificativa de ser mais cara
esbarra no simples fato de
que a experiência mundial
tem mostrado que é necessário o apoio do Estado para abrir o mercado.
A energia de que precisamos é aquela gerada
pelas novas fontes renováveis, por meio de um
modelo descentralizado
de geração. Pois se há um país
no mundo que goza das melhores
oportunidades ecológicas e geopolíticas para ajudar a formular
outro modelo energético para toda
a humanidade, este país é o Brasil.
Ele é a potência das águas, tem a
maior biodiversidade do planeta e
as maiores florestas tropicais – e,
com isso, a possibilidade de possuirmos uma matriz energética menos agressiva ao meio ambiente,
à base de água, vento, sol, marés,
ondas do mar e biomassa.
Produção de biodiesel:
Scalambrini acha que o
Brasil tem potencial para
formular outro modelo
energético para o mundo
Entretanto o Brasil ainda não
“acordou” para esta realidade. Não
despertou para as suas imensas
possibilidades e para a sua responsabilidade na preservação do
planeta e da vida. Os que decidem
no setor elétrico não podem continuar a dar respostas aos grandes
desafios do século 21 com as mesmas soluções dadas aos problemas
do século 20. A hora é de inovar,
ousar, pensar mais no país e não
nos próprios interesses econômicos que representam.
janeiro/junho 2014
27
L ogística R eversa
Do
consumidor
ao
produtor
Destinação adequada de resíduos
sólidos pós-consumo é o desafio
que se impõe para a eliminação
de 200 mil toneladas de lixo
diárias no país
Francisco Luiz Noel
A contagem regressiva para a erradicação dos lixões no Brasil, prevista para 3 de agosto, promete render
ainda muita polêmica. Mas uma
coisa é certa: o destino correto dos
resíduos sólidos – um volume de
quase 200 mil toneladas diárias em
todo o país – passa pela logística
reversa. Bandeira ambiental cada
vez mais difundida, a expressão
resume a série de ações dedicadas
à coleta e à devolução de materiais
pós-consumo à indústria, para reutilização ou destinação adequada.
A definição é da Política Nacional
de Resíduos Sólidos (PNRS), a Lei
12.305, de 2010 – a mesma que deu
prazo para o fim dos lixões.
Ao mesmo tempo em que instituiu
a PNRS, a lei prescreveu, no artigo
54, que somente rejeitos poderão
ser depostos nos aterros sanitários
(substitutos dos lixões) a partir de
3 de agosto, quatro anos depois da
janeiro/junho 2014
29
Por lei, lixões devem ser substituídos
por aterros sanitários e o prazo
termina em agosto
30
Senac Ambiental
A corrida contra o tempo é acompanhada no MMA pela diretora do
Departamento de Ambiente Urbano,
Zilda Veloso. “Para encaminharmos
apenas os rejeitos aos aterros, o sistema de logística reversa precisa estar funcionando como instrumento
de implantação da Política Nacional
de Resíduos Sólidos”, salienta. Outros princípios e práticas também
são caros ao tema, como a coleta
seletiva dos resíduos domiciliares e
a responsabilidade compartilhada,
que, no caso da logística reversa,
distribui atribuições a todos os que
participam do ciclo de vida dos produtos, incluídos os consumidores.
O reaproveitamento dos resíduos
sólidos tem triplo benefício. No
plano ambiental, a reinserção dos
materiais pós-consumo na cadeia
produtiva da indústria atenua a pressão sobre os recursos naturais não
renováveis – entre eles o petróleo,
matéria-prima dos plásticos – e aumenta o tempo de vida útil dos aterros sanitários, já que reduz a quantidade de lixo remetido a esses locais.
Outra vantagem está no campo social, com a geração de trabalho nas
várias fases da logística reversa, com
destaque para a inclusão socioeconômica dos catadores de materiais
recicláveis e a formalização de sua
atividade.
Setores prioritários
O Brasil possui iniciativas de coleta e
reciclagem em quatro ramos da economia – óleos lubrificantes, defensivos agrícolas, pneus e pilhas/baterias portáteis –, regulamentadas por
resoluções baixadas pelo Conselho
Nacional do Meio Ambiente (Conama) desde os anos 1990. Com a sanção da PNRS, a oficialização desses
foto: Leslie/CC 3.0
publicação da 12.305. Rejeito, explica
a legislação, são os resíduos inservíveis, esgotadas todas as chances de
tratamento e recuperação. Apesar
dos esforços do Ministério do Meio
Ambiente (MMA), de governos estaduais e organizações ambientais, é
remota a hipótese de o país chegar a
agosto em dia com a lei. Mas, apesar
do atraso, alguns setores da indústria já têm o que mostrar em matéria
de logística reversa.
Como esses setores já desenvolviam
sistemas de coleta e reaproveitamento de materiais quando a Lei
12.305 entrou em vigor, o Ministério
do Meio Ambiente optou pela aposta na adesão de outros segmentos à
logística reversa. “Houve o entendimento de que essas cadeias existentes seriam revistas posteriormente”,
conta Zilda Veloso. Em fevereiro
de 2011, o governo criou o Comitê
Orientador para Implementação de
Sistemas de Logística Reversa (Cori),
formado pelas seguintes pastas:
Meio Ambiente; Saúde; Agricultura,
Pecuária e Abastecimento; Fazenda;
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Responsável pelas regras de devolução dos resíduos à indústria, para
reutilização ou destinação adequada, o Cori toma decisões com base
em estudos especializados de seu
Grupo Técnico de Assessoramento.
Este conta com cinco grupos temáticos, que se dedicam à modelagem
dos sistemas de logística reversa
em cinco setores da indústria priorizados pela Lei 12.305: (1) medicamentos; (2) embalagens de bebidas,
alimentos e outros produtos; (3)
lâmpadas fluorescentes, de vapor
de sódio, mercúrio e luz mista; (4)
eletroeletrônicos; (5) embalagens de
lubrificantes e seus resíduos.
No rastro do acordo setorial em torno da coleta e reciclagem dos frascos de lubrificantes, o Ministério do
Meio Ambiente lançou editais para
a apresentação de sugestões voltadas para acordos semelhantes nos
outros quatro setores prioritários.
O chamamento, realizado sucessi-
vamente ao longo de 2012 e 2013,
foi atendido por vários agentes das
cadeias de produção e comercialização desses ramos da economia, por
meio de entidades representativas
de fabricantes e importadores, distribuidores e revendedores.
foto: Asdrubal/CC 3.0
sistemas de logística ganhou mais
duas formas – termo de compromisso ou acordo setorial com o Ministério do Meio Ambiente. O primeiro
setor a firmar um acordo do gênero
foi o de lubrificantes, em 2012, ratificando o recolhimento e a reciclagem
de embalagens, feitos desde 2005.
Propostas em debate
Um dos maiores geradores de resíduos sólidos descartados de maneira incorreta no país, o setor de
embalagens entregou suas proposta
em março, como resultado de parceria entre a Associação Brasileira de
Embalagem (Abre), outras entidades
do ramo e o Movimento Nacional de
Catadores de Materiais Recicláveis
(MNCR). No caso desses resíduos,
os catadores têm papel central a
desempenhar na logística reversa,
cabendo a eles, organizados em
cooperativas, efetuar a coleta e a separação das embalagens por tipo de
material, a exemplo do que já é feito
de forma não oficializada em muitas
cidades do país.
A proposta será submetida a consulta pública após a análise do Cori,
para que o acordo setorial possa ser
assinado ainda neste ano. Simultaneamente ao debate da proposição,
o setor vem aumentando o número
de produtos que passam a exibir nas
embalagens o símbolo técnico do
descarte seletivo. Ao todo, mais de
dois mil artigos, de mais de 30 indústrias, já apresentam essas imagens.
Padronizadas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT),
elas reforçam ante os consumidores
a importância da destinação ambientalmente correta das embalagens, para reciclagem posterior.
Em abril, com vistas ao acordo no
setor de medicamentos, entidades
de laboratórios, distribuidores e revendedores também apresentaram
suas propostas ao Ministério do
Meio Ambiente. A logística reversa
do setor deverá abranger tanto os
janeiro/junho 2014
31
foto: Agência Brasil
Resíduos devem ter destinações
conforme suas características.
Descarte inadequado de
medicamentos, lubrificantes e
lâmpadas pode contaminar lençõis
freáticos
resíduos gerados por consumidores e estabelecimentos hospitalares quanto as embalagens. No foco
das preocupações ambientais estão os riscos de efeitos colaterais
em rios, nos casos em que os resíduos são descartados em pias e
vasos sanitários, pois, na falta de
tratamento adequado, parte considerável dos esgotos no país deságua em cursos d’água.
A diretora do Departamento de
Ambiente Urbano do MMA assinala que a modelagem dos sistemas
de logística trilha vários caminhos,
dependendo das peculiaridades
de cada tipo de produto. Mundo
afora, três formas de recolhimento tornaram-se usuais – de porta
em porta, em postos de entrega
voluntária e pelo trabalho dos catadores. “Cada cadeia, por suas características específicas, vai ter um
sistema diferenciado”, diz Zilda Veloso. “Não se espera, por exemplo,
que lâmpadas, eletroeletrônicos e
medicamentos tenham coleta porta a porta, mas sim que o consumidor leve esses materiais aos postos
de recebimento”.
32
Senac Ambiental
Setores pioneiros
A história da logística reversa no país
credita à indústria de lubrificantes o
pioneirismo na iniciativa, nos anos
1960, com a coleta do óleo retirado
de motores, em postos de serviço
e oficinas, para reaproveitamento
por meio do rerrefino. Submetido a
processos químicos, o lubrificante
usado ou contaminado (Oluc) é convertido em óleo básico, semelhante
ao produzido nas refinarias, e utilizado na formulação de produtos
acabados. A reinserção do Oluc na
cadeia produtiva, feita por algumas
empresas, passaria a ter determinação legal em agosto de 1993, graças
a uma resolução do Conama.
Em caso de destinação incorreta,
os lubrificantes usados são resíduos
de alta periculosidade para o solo,
os cursos d’água e o lençol freático.
De acordo com o Ministério do Meio
Ambiente, um litro de Oluc descartado na natureza pode contaminar
ate um milhão de litros de água,
assim como a combustão do produto gera gases nocivos aos seres
humanos e ao ambiente. Em 2005,
ao aperfeiçoar as regras para a logística reversa do Oluc, pela Resolução
362, o Conama teve entre seus alvos
uma danosa prática de olarias e pequenas indústrias, que queimavam
lubrificantes usados para alimentar
fornos e caldeiras.
Meio século depois das primeiras
coletas de Oluc, o setor azeitou
uma engrenagem de logística reversa que produz resultados melhores
a cada ano. Em 2013, fabricantes e
distribuidores recolheram 473,6 milhões de litros de lubrificantes uados, com acréscimo de 13,7% sobre
a quantidade do ano anterior, de
acordo com números da Agência
Nacional do Petróleo, Gás Natural e
Biocombustíveis (ANP). Do volume
recolhido, superior à meta nacional
pactuada com o Ministério do Meio
Ambiente, 423 milhões de litros fo-
Pelo caminho da logística reversa,
as embalagens de defensivos agrícolas vêm sendo reaproveitadas
desde o fim dos anos 1990. A coleta
e a reciclagem, iniciadas por alguns
fabricantes em conjunto com distribuidoras e revendedores em meio ao
debate sobre os riscos ambientais
do descarte inadequado, foram tornadas obrigatórias pela Lei Federal
9.974, de junho de 2000. Dois anos
depois, regulamentada a lei, o setor
começou o recolhimento em larga
escala, efetuada pelo recém-criado
Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (InpEV),
formado por empresas e associações ligadas à agricultura.
No caso das embalagens de defensivos, o êxito da coleta tem relação
direta com o engajamento das grandes empresas agrícolas e, sobretudo, dos pequenos agricultores – uma
legião de mais de cinco milhões de
famílias em todo o país. A eles cabe
o compromisso, previsto da legislação, de levar os invólucros usados a
pontos de recebimento nas suas regiões ou, em lugares remotos, a unidades volantes a serviço do InpEV.
A participação dos lavradores vem
produzindo números promissores:
em 2013, de acordo com o instituto,
foram coletadas 40,4 mil toneladas
de embalagens.
De 2002 a 2013, ao custo de R$ 700
milhões, o volume de embalagens
de defensivos recolhido pelo sistema de logística reversa, denominado Campo Limpo, superou 280 mil
toneladas – o que corresponde ao
volume de resíduos sólidos de uma
cidade de 500 mil moradores ao longo de uma década. No ano passado,
a coleta abrangeu 94% dos invólucros de plástico e 80% dos de me-
foto: Sponge/CC 3.0
Lubrificantes,
pneus e pilhas
Em paralelo à coleta e ao rerrefino
do Oluc, o segmento de lubrificantes lançou-se à logística reversa
das embalagens de seus produtos
em 2005, em postos e outros pontos de venda no Rio Grande do Sul.
A iniciativa, liderada pelo Sindicato
Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes
e batizada de Jogue Limpo, utiliza
caminhões com alta tecnologia de
controle e comunicação a bordo,
que percorrem os pontos de recolhimento e convergem para centrais
de recebimento das embalagens, direcionadas em seguida a empresas
recicladoras de plástico.
Em oito anos de existência, o Jogue
Limpo opera a logística reversa de
embalagens em 15 estados nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste e no
Distrito Federal, tendo coletado e
encaminhado à reciclagem mais de
270 milhões de embalagens (12,7
mil toneladas). Foi graças à eficácia
e aos resultados do programa que
a indústria de lubrificantes foi a primeira a firmar com o Ministério do
Meio Ambiente um acordo setorial
pelas regras da PNRS. Com metas de
recolhimento e reciclagem até 2016,
o programa deverá chegar nesse ano
a estados do Norte e Centro-Oeste.
foto: Dvortygirl/CC 3.0
Limpando o campo
tal e papelão gerados pelo setor. Na
reciclagem, as embalagens plásticas
têm servido de insumo para artefatos como caixas de descarga e de
bateria automotiva, conduíte corrugado e invólucros para defensivos e
lubrificantes.
foto: Thinkstock
ram encaminhados ao rerrefino, o
que gerou 268,8 milhões de litros
de óleos básicos.
Outros dois setores a recolher e
reutilizar seus produtos de maneira ambientalmente correta após o
consumo via logística reversa foram
o de pneus e o de pilhas e baterias.
No caso dos pneumáticos inservíveis, a determinação legal remonta a
dezembro de 2009, com a edição da
janeiro/junho 2014
33
foto: Andrevruas/CC 3.0
Lixômetro em Belo Horizonte (MG):
Brasil ainda tem muito a progredir em
recolhimento pós-consumo
Resolução 416 do Conama, mas iniciativas de coleta e destinação adequada já eram desenvolvidas desde
1999, com a chancela da Associação
Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), que congrega os fabricantes de pneus novos. A entidade
criaria em 2007 a Reciclap, que passaria a recolher 65% da produção de
pneus no país.
Com 819 pontos de coleta, instalados em parcerias com prefeituras, e
70 caminhões, a Reciclap coleta cerca de 200 mil pneus por dia, correspondentes a mil toneladas. Os pneumáticos são reaproveitados como
matéria-prima de uma gama de artefatos – tapetes para carro, solas de
sapatos, dutos pluviais, pisos para
quadras poliesportivas e indústrias
– e como combustível em fábricas
de cimento. De 1999 ao fim de 2013,
de acordo com a Anip, foram coletados mais de 536 milhões de pneus
(equivalente a 2,7 milhões de toneladas), ao custo de R$ 551 milhões
aplicados na logística reversa pelos
fabricantes nacionais.
No setor de pilhas e baterias, a
logística reversa foi iniciada em
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Senac Ambiental
novembro de 2010 por fabricantes
nacionais e importadores, liderados pela Associação Brasileira
da Indústria Elétrica e Eletrônica,
em atendimento à Resolução 401
do Conama, de 2008. O programa
Abinee Recebe Pilhas já recolheu
mais de 420 toneladas desses materiais. O desempenho da iniciativa
depende, a exemplo da logística
reversa dos agrotóxicos, da participação dos consumidores, que
devem entregar pilhas e baterias
inservíveis em lojas, serviços de
assistência técnica e outros locais
de uma rede com mais de 1,1 mil
pontos em todo o país.
As pilhas e baterias usadas, que são
retiradas por transportadora certificada nos pontos de coleta, são
encaminhadas a uma recicladora
na região metropolitana da Grande
São Paulo e separadas por marcas.
As que foram comercializadas pelas
16 empresas participantes do Abinee Recebe Pilhas seguem os caminhos normais; no caso das demais,
fora dos padrões da legislação, a
Abinne notifica a Polícia, a Receita
Federal, o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama, para que tomem
as medidas cabíveis.
Muito a reciclar
Apesar do funcionamento de vários sistemas de logística reversa,
o país ainda tem muito a fazer. “O
Brasil é novato em recolhimento
pós-consumo”, observa a diretora
de Ambiente Urbano do Ministério
do Meio Ambiente. Nesse panorama, crescendo de forma espontânea, o segmento com maiores
resultados em reciclagem é o das
latas de alumínio do mercado de
bebidas, mais por motivos sociais do que ambientais. Do total
de latas usadas, mais de 60% são
recolhidas e reencaminhadas à indústria. “As latas de alumínio têm
números altos porque, como somos um país pobre, as pessoas as
Nas negociações com vistas à celebração de acordos setoriais de
logística reversa, os representantes
da indústria e o Ministério do Meio
Ambiente vêm discutindo em torno de metas bem mais modestas,
dependentes de estudos de viabilidade da coleta e da reciclagem dos
resíduos sólidos. Para o setor de
embalagens em geral, por exemplo,
a ideia é o recolhimento de 22% até
2015 e de 28% até 2019. Mesmo em
países europeus, a coleta e reciclagem de materiais pós-consumo
fica distante do volume levado ao
mercado, alcançando em média
40% do total.
foto\; Pixabay
descobrem em todos os lugares”,
diz Zilda Veloso.
Fator relevante nas discussões
entre a indústria e o Ministério
do Meio Ambiente é a conta das
operações de logística reversa. “A
tendência é que isso se estabilize
e passe a fazer parte do custo final do produto”, diz Zilda Veloso.
Entidades como o Compromisso Empresarial para Reciclagem
(Cempre), que congrega mais de
40 grandes empresas, defendem
a concessão de incentivos fiscais
para o desenvolvimento de ações
de coleta e reciclagem como forma de reduzir no bolso do consumidor o peso de sua cota de
responsabilidade pela defesa do
meio ambiente.
janeiro/junho 2014
35
S eca
Semiárido:
onde o povo
resiste
e acha bonito
viver
Unidas na rede de
organizações sociais
Articulação do Semiárido,
populações buscam
alternativas de convivência
com a terra
Texto e fotos:
João Roberto Ripper
“É no semiárido que o povo vive, é
no semiárido que o povo resiste, é
no semiárido que o povo produz”.
São palavras de ordem cantadas no
Nordeste, no Norte de Minas, no
Vale do Jequitinhonha e no Espírito
Santo. Mais do que isso: denotam
a alegria e a esperança de um povo
aproveitar a água da chuva.
Para isso contam com o apoio da
Articulação do Semiárido (ASA),
uma rede que reúne mais de mil organizações da sociedade civil que
trabalham na gestão e no desenvolvimento de políticas de convivência
com a região semiárida. O objetivo
é fortalecer processos participativos
para o desenvolvimento sustentável,
com base em valores culturais e justiça social.
O semiárido brasileiro abrange uma
área de 969.589,4 quilômetros quadrados e compreende 1.133 municípios de nove estados: Alagoas,
Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraíba,
Pernambuco, Piauí, Rio Grande do
Norte e Sergipe, segundo dados oficiais do Ministério da Integração. A
ASA atua em todos eles. Vinte e dois
milhões de pessoas vivem nessa
região, correspondendo a 11,8% da
população brasileira, de acordo com
o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE).
Segundo a ASA, a Caatinga, único
bioma exclusivamente brasileiro,
ocupa a maior parte do semiárido
em nosso país. Sua fauna e sua flora
contam com várias espécies que só
existem no Brasil. O bioma tem uma
flora diversificada, que muda conforme a região, pois a Caatinga dispõe
de uma variedade de paisagens, espécies animais e vegetais, nativas e
adaptadas. Essa variedade é fundamental para a sobrevivência da sua
população. que pretende mostrar que suas histórias e suas imagens não se limitam
apenas a gado morto e pessoas com
sede e fome.
As populações que convivem com a
seca sofrem, mas vêm assegurando
grandes conquistas movidas a força
de trabalho, sonhos e esperanças.
Trocam experiências, conhecimentos e usam muita criatividade para
38
Senac Ambiental
A jornalista e diretora de Comunicação da ASA Nacional, Fernanda Cruz,
explica que “essa heterogeneidade
tem levado alguns autores a utilizar
a expressão ‘as Caatingas’”. Na sua
pluralidade, diz ela, pode-se falar em
pelo menos 12 tipos de Caatingas,
que chamam atenção especial por
sua capacidade de adaptação ao
hábitat. Para Fernanda, isso significa que as famílias precisam se preparar para a chegada da chuva. “Ter
reservatórios para captar e armazenar água é fundamental para garantir segurança hídrica no período de
estiagem, a exemplo das cisternas
domésticas, das cisternas-calçadão,
das barragens subterrâneas e dos
tanques de pedra”. ços em emissoras oficiais de vários
municípios, bem como em rádios
populares de inúmeras comunidades. Também contribuem para a
mudança de mentalidade gravações
de vídeos, fotografias e o jornal O
Candeeiro, produção independente
Famílias têm conseguido viver daquilo
que plantam e vendem, de porta em
porta, em suas comunidades
Apesar do enorme potencial da natureza e do seu povo, o semiárido é
marcado por grandes desigualdades
sociais. Segundo o Ministério da Integração Nacional, mais da metade
(58%) da população pobre do país
vive na região. Estudos do Fundo
das Nações Unidas para a Infância
(Unicef) demonstram que 67,4% das
crianças e dos adolescentes do semiárido são afetados pela pobreza.
São quase nove milhões de crianças
e adolescentes desprovidos dos direitos humanos e sociais mais básicos e dos elementos indispensáveis ao seu desenvolvimento pleno.
Conforme informação da ASA, o Índice de Desenvolvimento Humano
(IDH) no semiárido é considerado
baixo para aproximadamente 82%
dos municípios, que possuem IDH
até 0,65 (o índice varia de 0 a 1). Isso
significa um déficit em relação aos
indicadores de renda, educação e
longevidade para 62% da população
do semiárido. Apesar de todas essas
dificuldades, as histórias de vida e as
imagens da região vão muito além
do estereótipo de bois morrendo
e pessoas passando sede e fome.
Essa história de imagens tristes foi,
por muito tempo, a única contada
sobre essas populações, a história
única da seca. Assim, durante décadas, o estereótipo favoreceu a repetição de falsas promessas e do discurso de acabar com a seca do qual
se beneficiavam políticos, “coronéis”
e outros líderes inescrupulosos.
Hoje, o trabalho de comunicação
das organizações que compõem a
ASA vem conseguindo mudar essa
visão por meio de programas de rádio, ocupando alguns poucos espa-
que circula em inúmeros municípios
do semiárido. Por meio desses veículos alternativos, outras histórias
são contadas. São histórias de superação, experiências positivas como a
de produção de sementes crioulas,
troca de conhecimentos entre agricultores de diferentes regiões; criatividade e inventividade na produção,
além de inúmeros relatos de aproveitamento da água da chuva e de
enfrentamento, por pequenos agrijaneiro/junho 2014
39
cultores, de uma das maiores secas
de todos os tempos.
trabalhar com aquilo que o sertão
pode nos oferecer”, diz Noé.
Com isso, a dignidade do povo da
Caatinga, do Cerrado e do Sertão
está sendo recuperada.
Outra história contada por O Candeeiro é a do agricultor Sebastião
de Souza, da cidade de Flores, em
Pernambuco. Ele aponta a construção de um silo e o armazenamento
de forragem como outra estratégia.
“É o primeiro ano em que armazeno, e acho que acertei. Você pode
pegar capim, milho ou sorgo, passar
na forragem e cobrir com terra. Pode
até guardar por um ano, que não
tem problema. Eu fiz em fevereiro,
comecei a abrir em setembro e está
da mesma forma que coloquei. Deu
certo, e é com isso que estou mantendo os animais”.
Estratégia contra
estiagem
Ao longo de 2012, a agricultura familiar de base agroecológica foi uma
das estratégias apontadas por trabalhadores e trabalhadoras rurais para
enfrentar a estiagem. O Candeeiro
contou algumas dessas histórias,
como a do agricultor Noé Ursulino,
da comunidade de Quebrado, no município de Triunfo (PE). Segundo ele,
o sistema agroecológico em que trabalha teve perdas, mas também vantagens ao longo do período de seca.
Nem desertificação, nem animais
morrendo: com criatividade e bom
aproveitamento da água da chuva, as
histórias de vida e as imagens da região
têm superado os estereótipos
“Eu produzo bastante acerola, e até
com pouca chuva dá uma safra. O
Nordeste é rico e a pessoa não valoriza. Temos as plantas nativas, como
o umbu. O caju, por exemplo, é do
Sertão, e produz nesse período. Eu
acredito que a agroecologia é um
caminho para esse momento de estiagem. Ainda não temos o hábito de
O pequeno jornal, feito em várias
comunidades, conta ainda a história
da agricultora Alaíde Martins, da comunidade de Sítio Souto, de Triunfo.
Ela sabe a importância de os trabalhadores rurais se prepararem para
o futuro. “Mesmo que tenhamos um
bom inverno, temos de preparar alimentação para os animais para um
ano, dois ou três. Eu já passei dos
50 anos de idade e nunca vi um ano
tão seco como este. A dificuldade é
grande para todo mundo, então temos mais é que armazenar, porque
aí vamos ter segurança de, ao final
de um ano ou dois, ter alimentação
para os nossos animais”. Como contar histórias não exclui a
denúncia nem maquia a realidade,
a ASA alerta que “as contradições
e injustiças que permeiam a região
podem ser percebidas até mesmo no
acesso à renda, que reflete também
uma forte desigualdade de gênero”.
Metade da população no semiárido,
o que representa mais de dez milhões de pessoas, não possui renda
ou tem como única fonte de rendimento os benefícios governamentais. A maioria (59,5%) são mulheres.
Ainda no site da ASA, o público tem
acesso às seguintes informações: os
que dispõem de até um salário mí-
40
Senac Ambiental
nimo mensal somam mais de cinco
milhões de pessoas (31,4%), sendo
47% mulheres. Enquanto isso, apenas 5,5% dispõem de uma renda entre dois a cinco salários mínimos, a
maioria (67%) homens; de 0,15% com
renda acima de três salários mínimos, apenas 18% são mulheres.
O índice de Gini, que mede o nível de
desigualdade a partir da renda, está
acima de 0,60 para mais de 32% dos
municípios do semiárido, demonstrativo de uma elevada concentração
da renda na região. Quanto mais próximo de 1, maior é a desigualdade.
Essa realidade reflete a luta de milhões de seres humanos que trabalham cotidianamente sem acesso a
direitos sociais e humanos elementares, entre os quais o direito à água.
Essa realidade provoca as organizações que fazem parte da Articulação
do Semiárido a serem protagonistas
de mudanças fundamentais. Essas
mudanças são feitas pela própria
população, que aos poucos vai mostrando que é possível ser feliz, produzir e captar água nas regiões de seca.
Naidison Baptista, coordenador da
ASA da Bahia, avalia que o que favorece a ASA no cenário nacional e
internacional é o impacto de suas
ações no semiárido. Para ele, “numa
estiagem prolongada como a que
enfrentamos, nos defrontamos com
famílias que possuem cisternas ou
água de produção, famílias que já
entraram em processos de transição
agroecológica e que participam de
outras dimensões da ação da ASA,
e vemos que elas resistiram ou conviveram, embora com dificuldades,
com a perspectiva da estiagem. Não
foram expulsas, não passaram fome.
Mantiveram, até certo modo, seus
plantéis. Permaneceram no semiárido baiano. Isso fez o governo olhar
com mais atenção e mais carinho as
ações e as perspectivas recomendadas pela ASA e pelos movimentos
na dimensão da convivência com o
semiárido”, diz ele.
janeiro/junho 2014
41
segundo o coordenador, a própria
presidente teria recomendado, bem
como o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), que boa parte
dessas ações fosse feita em parceria
com a ASA. “Das 70 mil, mais de 50
mil estão com a ASA: 20 mil com o
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e
a Fundação Banco do Brasil; 20 mil
com a Petrobras e 10 mil, mais ou
menos, com o MDS, além das cerca
de 10 mil que teremos implementado
até julho deste ano, que fazem parte
do novo convênio que a ASA está renovando com o MDS”, explica. Nova legislação
Produções de sementes na região
do médio Jequitinhonha, em
Minas Gerais
Acesso à água
A universalização do acesso à água
para consumo humano, que o Governo Federal assegura desde 2012,
é outro elemento importante, avalia
o coordenador da ASA. Ele afirma
que, na busca dessa universalização,
“aqueles que eram considerados os
parceiros mais especiais do governo,
como os consórcios, os estados e
o próprio Ministério da Integração,
não ofereceram a resposta de que
o governo precisava, em termos da
eficácia e eficiência, enquanto a ASA
se projetou na perspectiva da boa
gestão e de uma boa ação”, diz.
Segundo ele, porém, o desempenho
da rede às vezes era prejudicado
pela burocracia, porque os termos
de parceria eram encerrados e levavam de três a quatro meses para
recomeçar.
“Passamos de uma organização que
era suportada, mas não muito desejada, no início da relação do Governo Dilma, para uma organização
que hoje é citada em vários espaços,
inclusive pela presidente da República, que nos coloca como parceiros
exemplares, fundamentais”. Ainda
42
Senac Ambiental
Outro fato importante em 2013, na
avaliação de Naidison Batista, devese à nova legislação para implantação do processo de água e cisternas
no Brasil – “afinada com muitas das
nossas propostas e exigências”, diz.
Segundo ele, conforme o novo texto
legal, a prestação de contas se dá
por contrato e apresenta um conjunto de novidades e perspectivas que
facilita a implantação dos processos,
mas, ao mesmo tempo, oferece desafios e riscos para a ASA.
“Certamente esta nova fase vai
nos trazer muitos ganhos e alguns
problemas, mas estamos nos organizando para fazer frente e não
sermos pegos de surpresa. Temos
certeza de que esta nova legislação
é um ganho político, operacional e
estratégico para o governo, para a
ASA e para o semiárido, e vai nos
trazer bons resultados”, aposta. Para
Naidison Baptista, os desafios da
ASA estão em descobrir e atuar na
consolidação de novos processos de
convivência com o Semiárido. “Hoje
estamos começando o debate das
sementes, os bancos de sementes
comunitários, familiares. É uma dimensão nova, porque o debate sobre a convivência não se faz apenas
a partir da água, se faz a partir da
terra, do banco de sementes, de
criação de animais, da silagem, da
fenação. Então o desafio da ASA é
ver como ela vai entrando, gradativamente, em outros componentes da
convivência com o semiárido”.
Um milhão de
cisternas
Em 2003, a ASA criou o Programa
Um Milhão de Cisternas (P1MC), que
já beneficiou mais de dois milhões
de pessoas com a construção de
mais de 525 mil cisternas de captação de água para consumo humano
(até 30 de março de 2014). Somase ainda outra iniciativa, chamada
Uma Terra e Duas Águas (P1+2),
que é uma das ações do Programa
de Formação e Mobilização Social
para Convivência com o Semiárido
da ASA. Pelo P1+2, a ASA já utilizou
mais de 46 mil tecnologias sociais de
captação da água para produção de
alimentos.
O objetivo do P1+2 é fomentar a
construção de processos participativos de desenvolvimento rural no
semiárido brasileiro e promover a
soberania, a segurança alimentar e
nutricional e a geração de emprego
e renda às famílias agricultoras por
meio de acesso e manejo sustentáveis da terra e da água para produção de alimentos. O algarismo 1
significa terra para produção. O 2
corresponde a dois tipos de água –
a potável, para consumo humano, e
a que é utilizada para produção de
alimentos.
As tecnologias adotadas pelo P1+2
são simples, baratas e de domínio dos agricultores e agricultoras.
Existem vários tipos de processos
para captar água para produção de
alimentos. Atualmente, o P1+2 trabalha com sete tipos: cisterna-calçadão, cisterna-enxurrada, barragem
subterrânea, barreiro-trincheira, barraginha, tanque de pedra e bomba
d’água popular.
O intercâmbio entre trabalhadores
tem como filosofia e prática a formação do conhecimento a partir
de experiências. O P1+2 promove
intercâmbios entre agricultores e
deles com os técnicos. Esses momentos de partilha ocorrem entre
comunidades, municípios, estados e
territórios. O intercâmbio, segundo a
direção da ASA, acaba promovendo
uma identidade camponesa regional, sertaneja e catingueira, fazendo
Mutirão para construção de
cisternas em Tacaratu (PE)
janeiro/junho 2014
43
Apesar de todas as dificuldades,
povos da Caatinga, do Cerrado
e do Sertão têm conseguido
recuperar sua dignidade
circular o conhecimento produzido
nos diversos lugares de todo o semiárido. A união entre o saber popular e o
conhecimento técnico produzido
pelas organizações, universidades e
centros de pesquisas gera soluções
inovadoras com impactos positivos
na vida das famílias. O trabalho de
comunicação é intenso no intercâmbio e os boletins que são criados informam sobre a troca de experiências em todo o semiárido brasileiro.
O P1MC, por sua vez, foca na formação e mobilização social para a
convivência com o semiárido. Essa
convivência é sustentável e se utiliza
do próprio ecossistema. O objetivo
é beneficiar cerca de cinco milhões
de pessoas em toda a região semiárida com água potável para beber e
cozinhar, por meio das cisternas de
placas. Juntas, elas formam uma infraestrutura de abastecimento com
capacidade para 16 bilhões de litros
de água.
44
Senac Ambiental
O programa é destinado às famílias
com renda até meio salário mínimo
por membro da família, incluídas
no Cadastro Único do Governo Federal e que contenham o Número
de Identificação Social (NIS). Além
disso, é preciso residir permanentemente na área rural e não ter acesso
ao sistema público de abastecimento de água.
A cisterna é uma tecnologia simples,
de baixo custo e adaptável a qualquer
região. A água é captada das chuvas
por calhas instaladas nos telhados
das casas. Cada cisterna tem capacidade para armazenar 16 mil litros de
água, quantidade suficiente para uma
família de cinco pessoas beber e cozinhar por um período de seis a oito
meses – época da estiagem na região. As placas da cisterna são construídas com cimento pré-moldado pela
própria comunidade. A construção
é feita por pedreiros de cada localidade, formados e capacitados pelo
P1MC. A contribuição das famílias no
processo de construção se caracteriza como a contrapartida.
senvolvimento Regional e Turismo,
no Senado.
A cisterna promove a independência
e a autonomia das famílias, dando
liberdade de cada uma escolher seus
próprios gestores públicos, buscar
e conhecer outras técnicas de convivência com o semiárido e proporciona mais saúde e mais tempo para
cuidar das crianças, dos estudos e
da vida em geral.
Estão em construção canais, aquedutos e barragens naquela que vem
sem classificada pelo governo como
a “maior obra de infraestrutura hídrica do país”. Prevê a retirada de
26,4m³/s de água (1,4% da vazão da
barragem de Sobradinho), que será
destinada ao consumo urbano.
Transposição gera
polêmica
A busca por soluções para a questão
da seca no semiárido brasileiro sempre gerou grandes discussões. Uma
delas é a proposta de transposição
do rio São Francisco, levada a efeito
pelo Governo Federal e cujo objetivo
principal seria garantir água para 12
milhões de pessoas em 390 municípios do Ceará, Pernambuco, Paraíba
e Rio Grande do Norte.
Segundo informações do portal de
notícias do Senado Federal, obtidas
em 11 de abril deste ano, 75% das
obras do projeto de transposição
do rio São Francisco serão concluídas até dezembro. A expectativa é
que todas as obras, que integram o
Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), sejam encerradas até
dezembro de 2015. Os dados foram
apresentados pelo ministro da Integração, Francisco Teixeira, em audiência pública da Comissão de De-
O projeto surgiu com a proposta
de resolver a deficiência hídrica na
região do semiárido com a transferência de água do rio para abastecimento de açudes e rios menores na
região Nordeste, diminuindo a seca
no período de estiagem.
Atualmente, as obras, que incluem
recuperação de 23 açudes, construção de 27 reservatórios, além de
nove estações de bombeamento, 14
aquedutos e quatro túneis exclusivos
para a passagem de água, empregam
mais de 9.200 trabalhadores.
Contudo é considerado polêmico e
tem gerado crítica de estudiosos e
ambientalistas, muitos deles integrantes da Rede de Articulação do
São Francisco. Orçado em cerca de
R$ 8 bilhões, o projeto, que contempla 477 quilômetros de canais
(mais do que a distância entre Rio
de Janeiro e São Paulo), é considerado de custo extremamente elevado,
segundo seus críticos. Segundo eles,
a transposição do São Francisco é
uma obra muito cara e incapaz de
Obra de transposição do rio
São Francisco no município
de Floresta (PE)
janeiro/junho 2014
45
atender às necessidades da população da região, pois o problema não
seria de déficit hídrico, mas de má
administração de recursos.
Eles alegam que o Nordeste do
Brasil é a região com mais açudes
no mundo. São 70 mil, nos quais são
armazenados 37 bilhões de metros
cúbicos de água. Desta forma, observam, o problema da seca poderia
ser resolvido apenas com a conclusão das 23 obras de distribuição que
estão paradas nos municípios a serem beneficiados pela transposição.
Os críticos consideram que concluir
as obras de distribuição implicaria
um custo muito menor e seria mais
viável do que executar a transposição do único grande rio inteiramente
brasileiro.
Esses estudiosos propõem também
a inversão da lógica de pensamento,
trocando o discurso de acabar com
a seca pelo discurso de conviver
com o semiárido.
Em depoimento ao jornal Santuário
de Aparecida, Roberto Malvezzi, da
Comissão Pastoral da Terra (CPT) e
especialista em estudos sobre o Rio
São Francisco, declarou que o foco
central da Igreja Católica no Brasil no
que diz respeito à questão da água é
o acesso das populações à água potável. Por isso defende o projeto de
captação de água da chuva por meio
de cisternas desenvolvido pela ASA.
Malvezzi diz que a Campanha da
Fraternidade de 2004 já ressaltava
a defesa da água como um direito
humano, um bem público que não
está sujeito a qualquer tipo de privatização. A água, lembra, é um patrimônio de todos os seres vivos. “Essa
questão é um nó da política em todo
o mundo. Nas pastorais e nos movimentos sociais, chamamos essa
política de hidronegócio, um filão
de ouro para as empresas”, analisa.
“Afinal”, conclui, “quem pode viver
sem água?”.
46
Senac Ambiental
Ele denuncia o que alguns estudiosos chamam de “oligarquia internacional da água”, pela qual “um restrito número de empresas, apoiadas
por organismos como o Banco Mundial e o FMI, além de contar com o
apoio de governos locais, iniciou um
processo mundial de privatização
da água”. No mundo inteiro também
ocorrem reações a esse processo,
diz, citando como exemplo a guerra
da água em Cochabamba, na Bolívia,
onde a população resistiu para garantir a desprivatização do setor.
Dimensão política
Malvezzi explica que a distribuição
da água no Brasil é desigual naturalmente, mas esclarece que mesmo a
região mais pobre de água no país,
o sertão de Pernambuco, conta com
uma média de água suficiente para
abastecer toda a população da região com tranquilidade. “O desafio
é a distribuição dessa água para a
população”, diz.
“Hoje, com o Atlas Brasil de Águas,
da Agência Nacional de Águas
(ANA), podemos mapear região por
região, município por município de
todo o Brasil e averiguar a situação
hídrica, o que precisa ser feito, o
custo do que deve ser feito. É um
trabalho fantástico, jamais feito no
Brasil em outras épocas”.
Para ele, trata-se de uma decisão política. “O governo brasileiro poderia
ter optado pelas adutoras do Atlas
do Nordeste para abastecer toda a
população nordestina urbana, mas
preferiu fazer a transposição do São
Francisco, que tem finalidade econômica. Portanto o acesso à água
passa por uma dimensão política, de
quem está no poder, de fazer o que
é recomendado por estudiosos do
assunto e pela experiência das populações locais. As soluções técnicas estão em nossas mãos, mas falta
decisão política”, conclui.
Algumas histórias: a visão do sertanejo
• Paulo Feitosa nasceu em 1945 e vive só, no sertão pernambucano:
“Trabalhei na roça, quebrei pedra, ajudei a construir casa. Fiz
de tudo um pouco e agora estou aqui, em Itacuruba. De obra
entendo um pouco, mas nunca vi nada igual a essa transposição. Anda, para, volta pra trás, estraga o que já fez, depois caminha um pouco novamente. Acho que isso só fica pronto em
2015. Já ouvi falar que vão asfaltar essas estradas vicinais que
ficam perto do canal da transposição do São Francisco. Falam
que vão gradear tudo pra gente não pegar água. Então vai ter
muito emprego pra vigilante. Eu moro a 200 metros do canal e
já fui avisado de que a água não vai pra minha casa, vai direto
pra fazendeiro grande. Vivo de aposentadoria, já lutei muito
nessa vida. Fiz várias cirurgias. Agora tenho uma casinha confortável, só não tem televisão, pois o dinheiro não deu ainda.
Tenho 20 cabeças de cabras presas e umas tantas soltas. Sou
que nem essas cabras: gosto de viver solto e ter o meu canto
de sombra pra descansar.”
• Manoel Tenório dos Santos, conhecido como Caboclo Biró,
mora na Agrovila 6, Bloco 4, no município de Floresta (PE). Tem
72 anos e é indígena da nação Papipanaí, de Serra Negra, na
mesma região:
“Primeiro veio essa empreiteira. Logo depois, o Exército. Fizeram muita poeira, que entrava na nossa casa e os carros
passavam correndo. Conseguimos fazer os quebra-molas e
melhorou um pouco. Mas agora está quase tudo parado. Não
sei dizer se essa obra sai ou não sai.”
• João Pereira Soares tem 82 anos e é casado com Lumerinda
Francisco Soares, de 71 anos. Estão juntos há 54, vivem em Cabeceira da Boa Vista, na Comunidade Vereda Funda, município
de Rio Pardo de Minas. João e Lumerinda cultivam uma grande
diversidade de produtos, como alho, cebola, feijão, mandioca, quiabo, abóbora, café, couve, brócolis, repolho, abóbora,
cheiro-verde, erva-doce, hortelã, capim-santo, cenoura, batata-doce e batatinha. Entre os frutos, plantam e colhem manga,
laranja, abacate, pequi, pêssego, mexerica, coquinho, caigaite,
abacaxi e jabuticaba.
É uma produção típica dos povos que moram nas Gerais, região
mais verde que a Caatinga. Nessa região do semiárido, planta-se
mais e há bastante fruta durante todo o ano. “Acaba a época de
uma, chega outra” conta Lumerinda. Mas a roça é a atividade
principal, e o que mais produzem é mandioca, guandu e café,
explica João. “Aqui nós só compramos sal, açúcar, carne e óleo.
Não temos mais criações como antigamente porque já estamos
idosos, então cuidamos apenas de galinhas”, diz.
Ele narra também a luta dos pequenos agricultores locais contra o cultivo predatório do eucalipto:
“Aqui enfrentamos uma luta medonha contra o eucalipto. Foi
duro, eles arrasaram com a gente, secaram as águas. Tudo em
volta virou eucalipto. A gente plantava em volta do córrego e
nem precisava regar. O eucalipto secou tudo, só deram prejuízo. Às vezes passamos por grandes estiagens, mas esses dois
anos foram as piores, e aí o que nos salva é a troca de conhecimentos, são as cisternas e o aproveitamento das águas.
Vi o progresso chegar. Nos anos 1960 e 1970, eu levava farinha e café no lombo do burro desde Vereda Funda ate Salinas.
Demorava um dia e meio pra ir e um dia e meio pra voltar,
dormia na estrada. Mas o melhor é que cada vez estamos mais
unidos. Nós nunca brigamos nem de bate boca e criamos no
amor nossos 12 filhos. Hoje estão grandes, estão no mundo, e
nós continuamos aqui”.
• Geraldo Gomes Barbosa nasceu na comunidade de Barra do
Touro, munícipio de Serranópolis de Minas (MG) e ganhou este
ano o prêmio Trip Transformadores por causa do seu trabalho
com sementes crioulas. Criado pela revista Trip, o prêmio tem
o objetivo de reconhecer as pessoas que, com seu trabalho,
ideias e iniciativas de grande impacto ou originalidade, ajudam
a promover o avanço da coletividade. É o caso de Geraldo,
que trabalha com sementes de feijão, milho, abóbora e soja
adaptadas pelos trabalhadores rurais para o bioma de cada
região brasileira, fazendo assim uma alternativa sustentável
aos transgênicos.
Geraldo luta contra o sumiço de várias espécies e contribui de
forma significativa para manter a diversidade de nossas sementes mais comuns, tradicionais, mantendo viva uma tradição
dos produtores rurais: a troca de sementes crioulas.
A família de Geraldo come apenas o que produz e cria. Produz
alimentos, licores e também trabalha com artesanato. O que é
produzido além da necessidade de consumo vai para a cooperativa Grande Sertão.
Além do seu trabalho como agricultor e guardião da biodiversidade, Geraldo é artista e divulga suas experiências na rádio
de sua cidade, além de registrar em vídeo as experiências dos
produtores rurais de sua região.
“Falam que somos os guardiãos da biodiversidade, mas só
tratamos com carinho o meio ambiente. Sem agredir aquilo
que vai alimentar as sementes e sem agredir aquilo que vai ser
alimento”, afirmou em entrevista ao site da Trip.
A vida de Geraldo é diversa e intensa como são as cores das
suas garrafas de sementes crioulas, que ele e diversos produtores do semiárido vão espalhando por inúmeras regiões do
Brasil.
janeiro/junho 2014
47
foto: John Cummings, sob licença CC BY-AS 3.0
N otas
Um plano para o tatu-bola
Terminada a Copa do Mundo, não dá pra fingir que o tatu-bola não existe.
Aliás, é preciso cuidar para que ele, mascote do Mundial do Brasil, continue
existindo, já que é um dos animais que fazem parte da Lista Oficial das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção. Por esse motivo, o Instituto
Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) desenvolveu um
plano de ação nacional para conservação do tatu-bola. Vítima da caça-predatória e da destruição do seu habitat natural, nas regiões da Caatinga e do
Cerrado, a espécie é tipicamente brasileira.
O ICMBio pretende que, em um prazo de cinco anos, o tatu-bola saia da
categoria de espécie ameaçada para a de espécie vulnerável. Um grupo de
assessoramento estratégico foi criado para fazer o acompanhamento do plano, que prevê 38 ações e tem uma série de objetivos, entre os quais estão os
seguintes: mapear as áreas de ocorrência das espécies de tatu-bola e suas
principais ameaças; sensibilizar a sociedade para a importância da sua proteção; ampliar o conhecimento sobre a biologia e a ecologia para desenvolver
melhores estratégias de conservação; ampliar, qualificar e integrar a fiscalização para coibir a caça e reduzir a perda do habitat natural da espécie.
O plano de ação nacional para o tatu-bola foi anunciado no dia 22 de maio,
juntamente com outras medidas empreendidas pelo Ministério do Meio Ambiente em benefício da preservação de espécies ameaçadas.
Mata Atlântica: desmatamento cresce
O desmatamento da Mata Atlântica voltou a subir entre 2012 e 2013, chegando a quase 24 mil hectares. A informação foi divulgada pelo Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais e pela Fundação SOS Mata Atlântica, no final de maio,
registrando um aumento de 9% em relação ao período anterior. É a maior taxa
desde 2008.
Ao apresentarem os novos dados do Atlas dos Remanescentes Florestais da
Mata Atlântica, as duas instituições registraram que a área desmatada passou
de 21.977 hectares no período 2011-2012 para 23.948 em 2012-2013. Nos últimos 28 anos, o bioma perdeu o equivalente a 12 vezes o tamanho da cidade
de São Paulo. Para mais informações, acesse bit.ly/desmata.
48
Senac Ambiental
Combate à
desertificação tem
reconhecimento
Dezesseis instituições que desenvolvem projetos de combate à desertificação e à degradação do solo
no semiárido receberam da ministra
do Meio Ambiente, Izabella Teixeira,
o certificado Dryland Champions,
concedido por iniciativa da Convenção das Nações Unidas de Combate
à Desertificação, que trabalha pela
melhoria das condições de vida das
populações que vivem em regiões
afetadas pela seca.
A entrega dos certificados ocorreu
em 17 de junho, quando é comemorado o Dia Internacional de Combate
à Desertificação. Em seu pronunciamento, a ministra valorizou a importância do trabalho integrado do
poder público com as organizações
da sociedade civil e destacou iniciativas de construção de cisternas e
dessalinização da água. De acordo
com dados do próprio ministério, as
regiões vulneráveis à seca abrangem
um total de 1.400 municípios de 11
estados, o que corresponde a cerca
de 20% do território nacional.
foto: Caroline Bicocchi/Palácio Piratini
fotos: Fausto Rêgo
N otas
Espécies ameaçadas
no Pará
Sul terá maior complexo eólico
da América Latina
Tema da conversa que tivemos
com o professor Heitor Scalambrini (veja na seção Entrevista, nesta edição), a geração de energia a
partir de fontes renováveis é uma
alternativa da maior importância,
especialmente considerando o
potencial brasileiro e o imperativo
das mudanças climáticas.
O Complexo Eólico Campos Neutrais, apresentado como o maior
da América Latina e formado pelos
parques eólicos Geribatu, Chuí e
do Hermenegildo, nas cidades de
Santa Vitória do Palmar e Chuí,
ambas no Rio Grande do Sul, tem
inauguração prevista para este segundo semestre. A capacidade de
geração de energia é de 550 megawatts – suficiente para atender uma
cidade com quase 3,5 milhões de
habitantes. Toda a energia produzida será interligada ao Sistema Integrado Nacional, que atende quase
a totalidade do território brasileiro,
por meio de 500 quilômetros de
linhas de transmissão que estão
sendo construídos.
A obra é viabilizada pelo Programa de Aceleração do Crescimento
2, cuja meta é entregar 218 usinas
eólicas até o fim do próximo ano
– a maior parte delas na região
Nordeste, onde se verifica a maior
incidência de ventos, seguida da
região Sul.
Estudo publicado pela revista norte-americana Conservation Biology
alerta para a possível extinção de 47
espécies de aves características da
região metropolitana de Belém (PA).
Entre elas figuram a ararajuba e o gavião-real (fotos).
O desaparecimento dessas espécies
pode ser atribuído ao desmatamento ocorrido nos últimos duzentos
anos. Esses animais, no entanto, podem ser encontrados no estado, em
regiões onde as florestas ainda se
mantêm razoavelmente preservadas.
O estudo foi desenvolvido por cientistas de aproximadamente 20 instituições brasileiras – como o Museu
Emílio Goeldi, no próprio Pará – e
estrangeiras – como o Instituto Ambiental de Estocolmo.
janeiro/junho 2014
49
Criança da tribo dos
Ashaninkas. Para eles, o Sol
criou o mundo e está voltando
à Terra, trazendo mais calor
foto: Talita Oliveira
M udanças C limáticas
Um
outro
olhar
sobre o
clima
A observação das mudanças
climáticas pela ótica dos
povos da floresta: é o que
propõe a etnoclimatologia
Ana Mendes
Os aspectos geográficos e espaciais
foram os maiores empecilhos para o
avanço civilizatório sobre a Amazônia nos séculos passados. Relatos de
expedicionários narram dificuldades
no enfrentamento da malária, das
formigas venenosas e da fome. As
barreiras naturais colocavam em xeque a vida dos trabalhadores e, para
avançar na mata, o engajamento
compulsório de indígenas foi usual
nesses grupos de trabalho. Eram
eles os guardiões de um saber prático que, em última instância, para os
“homens brancos”, significava sobrevivência. Atuavam, portanto, como
remadores, peões, seringueiros,
guias e intérpretes. Doando mão de
obra e conhecimento, etnias inteiras
janeiro/junho 2014
51
foto: Nayanna Marques
foram escravizadas ou dizimadas naquele território dito inóspito.
A antropóloga Érika Mesquita
estuda a percepção que os
povos da floresta têm sobre as
mudanças do clima
52
Senac Ambiental
O conhecimento enciclopédico que
as populações originárias e tradicionais têm da floresta parece estar
sendo gradativamente incorporado
pela ciência. É o que afirma a antropóloga Érika Mesquita, doutora pela
Universidade Federal de Campinas
(Unicamp). “Nos grandes polos de
conhecimento do Brasil, a etnociência está ganhando força, até por
conta do fim da biodiversidade da
Amazônia. Eles [os índios] têm um
conhecimento muito grande que até
então não era valorizado, mas agora
a coisa está mudando. Como dizem
nas manifestações Brasil afora, ‘o gigante acordou’, e acordou para muita coisa mesmo. Não só tardiamente, em manifestações, mas também
na ciência, com relação ao conhecimento indígena. Só está faltando
virar política pública”.
Este ano, Mesquita lança um livro,
pela editora Mercado das Letras,
com o resultado de sua tese intitulada “Ver de perto pra contar de certo: as mudanças climáticas sob os
olhares dos moradores da floresta”.
Este é um trabalho pioneiro no país,
baseado em uma linha de pesquisa
denominada etnoclimatologia, que
aborda os fenômenos climáticos a
partir do olhar da antropologia. Significa entender como são sentidas as
mudanças climáticas nas situações
corriqueiras do cotidiano dessas populações, tais como plantar, pescar e
observar os animais e vegetais. Para
pesquisar estes fenômenos, Mesquita acompanhou durante cinco anos
dois grupos étnicos – os Ashaninka
e os Kaxinawá – e três comunidades
extrativistas situadas na Reserva Extrativista Alto Juruá, todas no estado
do Acre. Sua pesquisa traz informações importantes para entender a
visão indígena sobre as mudanças
climáticas e notar, com exemplos
concretos, qual a contribuição dessas populações para a manutenção
da biodiversidade e da vida.
Bichos, plantas e humanos pertencem a uma mesma categoria. São seres vivos e facilmente se relacionam.
Os bichos vivem em estruturas sociais e são dotados de intencionalidade análoga à humana. Falam outra
língua, o “sotaque” é diferente, mas
a decodificação do comportamento
deles é feita por qualquer Ashaninka.
O pássaro martim-pescador avisa
que é tempo de pesca; a saracura
canta alto, dizendo que vem chuva;
no período anterior às alagações, a
cotia está gorda; o tracajá põe sua
última ninhada na primeira chuva
do ano (é o inicio do verão); o Cauã,
quando canta em cima de pau seco,
está anunciando o verão; se for em
cima de pau verde, o inverno.
“Os ‘animais professores’ são como
‘animais mestres’. Porque eles conhecem muito mais a natureza do que os
homens. Na verdade, o índio também
conhece, ele sabe escutar e perceber
o que acontece ao seu redor”, afirma
a antropóloga. Essa meteorologia popular inclui ainda a interpretação das
plantas em seus aspectos de floração
e abundância de frutos; a observação
da posição dos astros e estrelas; a direção dos ventos e a quantidade de
nuvens no céu.
O problema é que, em consequência
das mudanças climáticas, todo esse
repertório de condutas está completamente mudado. Os ciclos de chuva
e seca, que representam o verão e
o inverno, estão desregulados. Por
conta disso, as crianças estão ficando mais gripadas, a produção de alimento está menor e as inundações e
tempestades são menos previsíveis
do que antes. Entre os Ashaninka há
relatos de que os ventos não coincidem mais com a época de floração
de certas espécies nativas. Sendo
assim, eles cumprem o papel de
polinizadores e, como rajadas de ar,
dispersam sementes com as mãos.
A baixa diversidade é prejudicial ao
foto: Talita Oliveira
sistema ecológico como um todo. É
por isso, também, que os moradores
da Reserva Extrativista Alto Juruá
adotaram o cultivo agroflorestal para
o seu roçado. Eles conservam árvores nativas entre pés-de-feijão e banana. Mantendo o solo mais úmido
e fértil, a colheita é mais garantida e
a população de animais nativos permanece estável.
A natureza está confusa e os deuses,
furiosos. O Sol é a entidade suprema dos Ashaninka. Por sua posição
de superioridade, vive sempre acima
da cabeça dos homens, observando
o que eles fazem. No tempo antigo,
ele criou as montanhas e os seres.
E, mais recentemente, está voltando
à Terra. “A mitologia explica que o
mundo é cíclico, e uma hora ele vai
acabar mesmo. Então eles entendem
isso como o Sol que está abaixando, por isso esse calor. É por conta
da chegada dessa divindade que, no
entendimento deles, está havendo
mudança climática”, descreve a antropóloga.
Parece que inquietudes cosmológicas antigas e contemporâneas estão se encontrando. Os cientistas
também andam especulando sobre
o fim do mundo e divergem muito ao discorrer sobre quais são as
reais consequências do aquecimento global. Recentemente, o cientista
britânico, James Lovelock, criador
da Teoria Gaia, afirmou que não há
mais necessidade de tentar reverter
o processo de calamidade no qual
nos encontramos, simplesmente
porque não há mais tempo. Outros,
como o físico Paulo Artaxo, brasileiro e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas
(IPCC), acreditam que não há motivo
para pânico, as mudanças globais
não são apocalípticas e, no caso do
Brasil, contamos com vantagens no
setor energético, pois temos grande
potencial de exploração de energia
eólica e solar.
Ashaninkas: Aldeia
Alto Bonito
Para as populações ameríndias, não
é difícil conceber o fim dos tempos,
isso já está expresso na sua tradição
janeiro/junho 2014
53
54
Senac Ambiental
fotos: Ana Mendes
oral. Para eles, há ciclos sucessivos
de criação e destruição da humanidade. Já aconteceu, tempos atrás, e
irá acontecer novamente, em breve.
Claro que a partir de novos fatos eles
reconfiguram a lógica do cosmos,
dando dinâmica aos mitos. A interferência do homem branco, por exemplo, é que está acelerando o processo de exterminação. Com extração
de minerais, perfurações e outras
interferências na superfície terrestre,
estamos abalando as fundações do
planeta. São os xamãs, com as pajelanças e os rituais para agradar aos
deuses, que mantêm ainda nossa
frágil estabilidade. “Os próprios indígenas estão tentando entender o que está
acontecendo, estamos em
um processo. Enquanto os
antigos viam tudo e sabiam
de tudo, os de hoje estão
perdidos. Mas é porque
está tudo mudado mesmo.
Antes, a constelação das
Plêiades era bem iluminada
e cheia de estrelinhas ao
redor. Hoje, não. Eles estão
passando por uma mudança de paradigma. Mas os
cientistas do IPCC também
estão tentando entender
por que os oceanos estão
subindo, se perguntam se
isso já aconteceu no passado ou não, se tem a ver
com uma era glacial ou o
quê. Ninguém sabe”, explica
Mesquita.
Entretanto não restam dúvidas de
que há uma inversão de escalas no
mundo atual: fenômenos geológicos
estão acontecendo mais rapidamente do que fenômenos sociais.
O penúltimo relatório do painel do
IPCC sobre este assunto apontou
que desde a Revolução Industrial a
temperatura média do planeta aumentou um grau centígrado. E em
termos de prognósticos afirma que
sentiremos o aumento entre quatro
e sete graus centígrados até 2100.
No Brasil, o que mais contribui para
a emissão de gases do efeito estufa são o desmatamento e as queimadas na Amazônia. Estes eventos
estão diretamente ligados à abertura de espaço para agropecuária
e monoculturas. Por causa de uma
legislação frágil, vide a atual flexibilização do Código Florestal, e uma
fiscalização inglória em terras muito
extensas e de difícil acesso, reinam
no norte do país a grilagem e a “Lei
do Homem”. Além disso, incentivos
federais e programas de desenvolvimento e expansão da fronteira
A pesquisa de Érika Mesquita traz
informações importantes para a
compreensão das peculiaridades da visão
indígena sobre os fenômenos da natureza
e suas transformações
agrícola e energética colocam em
aceleração esses processos. O modelo de desenvolvimento do Sul e
do Sudeste aplicado na região põe
em risco um ecossistema riquíssimo
e ainda praticamente desconhecido. Lá deveriam investir alternativas
sustentáveis, tais como extração de
óleos, sementes, castanha e cacau,
em vez de cana e pecuária. Porque
é a floresta em pé que vai manter o
clima da região e quiçá do mundo –
um certo mundo, pelo menos.
janeiro/junho 2014
55
Raso da Catarina, Bahia: apesar do clima semiárido que predomina
na região, a paisagem na Caatinga é variada e abriga uma grande
diversidade tanto na flora como na fauna
Arara-azul-de-lear: embora
ameaçada, a espécie está
protegida na Estação Biológica
de Canudos
B ioma
Aves
notáveis
Único bioma exclusivamente
brasileiro abriga quase
700 espécies, muitas delas
ameaçadas de extinção
Texto e fotos:
Lena Trindade
A Caatinga é feita de solo árido, espinhoso, coberto de pedras, onde o
vento transporta muita poeira, que
cobre a vegetação arbustiva e rala,
deixando-a branca. Caatinga quer
dizer mata (caa) branca (tinga).
Nesta paisagem por vezes desoladora, o que vemos são pequenos
arbustos, muitas bromélias e cactos, que aprenderam, através dos
anos, a guardar a água de que precisam para viver.
Durante muito tempo, a Caatinga foi
considerada pobre em biodiversidade. No entanto, apesar de ser um
bioma frágil, tem paisagem variada
e abriga uma grande variedade de
espécies, além de ser o único exclusivamente brasileiro. Cobre 12%
do país (840 mil quilômetros quadrados), passando pelos estados
da Bahia, Sergipe, Rio Grande do
Norte, Paraíba, Pernambuco, Piauí
e Ceará, bem como parte do norte
de Minas Gerais e do noroeste do
Espírito Santo. Na Caatinga vivem
aproximadamente 510 espécies
de aves – mais do que no Pantajaneiro/junho 2014
57
João-chique-chique (Gyalophylax
hellmayri): de porte grande, é
encontrado apenas no bioma Caatinga.
Leva este nome pelo fato de utilizar
espinhos do cacto chique-chique na
construção dos seus ninhos
58
Senac Ambiental
nal (463) e do que no Pampa (476).
Muitas delas (por volta de 25) são
endêmicas (só existem na região) e
algumas (por volta de dez) estão na
lista oficial da avifauna ameaçada
de extinção. É o caso da arara-azulde-lear (Anodohrynchus leari), do
tiriba-de-peito-cinzento (Pyrrhura
griseipectus) e do soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni). Po-
rém muitas outras estão correndo
risco e, conforme a listagem oficial,
já se encontram em perigo.
A lista oficial – ou lista vermelha – é
elaborada pela União Internacional
para Conservação da Natureza (conhecida pela sigla em inglês IUCN),
que divide as espécies em categorias: Ex (extinta), CR (criticamente
ameaçada), EN (em perigo) NT (quase ameaçada) e LC (pouco preocupante). Este órgão avalia o real estado de conservação das espécies,
com o objetivo de saber quais estão
sob risco e desenvolver programas
de conservação.
As principais ameaças são o uso não
sustentável do solo pela extração
mineral, os desmatamentos para a
agricultura mecanizada (cultura da
soja, feijão e algodão), incêndios
(devido a longas estiagens, como
atualmente), turismo desordenado
e a captura e o tráfico de animais –
bastante comum na região, seja por
questões culturais ou econômicas
–, além dos projetos de construção
de barragens, que mudam o curso
de rios e inundam paisagens.
Bico-virado-da-caatinga
(Megaxenops parnaguae): vive
na copa das árvores da Caatinga
e chama atenção pelo bico forte e
arrebitado
janeiro/junho 2014
59
Falar em falta de diversidade no
Nordeste é adotar um conceito préconcebido e distante da realidade.
Quem acompanha o ornitólogo e
grande conhecedor da região Ciro
Albano pode constatar essa enorme riqueza, vendo e ouvindo muitas
vezes, ainda de madrugada, os belos cantos das aves.
A Caatinga, mesmo com toda essa
riqueza de endemismos e diversidade, é ainda pouco estudada.
Dessa forma, ainda se conhece
pouco da evolução e da ecologia
da avifauna da região, o que se reflete na existência de poucas ações
de conservação. Em 2011 criou-se
Soldadinho-do-araripe (Antilochia boukermanni), ave símbolo de Barbalha (CE): descoberto
apenas em 1996, vive somente nas nascentes da Chapada do Araripe. Apesar disso, já é
ameaçado de extinção
Bacurauzinho-dacaatinga (Caprimulgus
hirundinaceus): encontrada
apenas no Nordeste do
Brasil, esta ave se confunde
com as pedras onde
costuma caçar insetos
Belíssimas formações rochosas compõem o cenário do
Raso da Catarina, região mais seca do estado da Bahia,
território de difícil acesso que Lampião e seu bando
conheciam bem e onde se sentiam seguros
60
Senac Ambiental
um Plano de Ação para a Natureza
(PAN) voltado para as aves da Caatinga, com o objetivo de reduzir essas ameaças.
O ornitólogo Fernando Pacheco
lembra que em 2000 o Ministério
do Meio Ambiente organizou um
inédito Workshop de Prioridades de
Conservação da Caatinga. Um grupo de pesquisadores selecionou 35
áreas como prioritárias para a conservação das aves deste bioma. A
presença das aves endêmicas exibidas nesta reportagem, em ambientes bem conservados, foi o motivo
maior para a escolha dessas áreas
especiais.
Papa-formiga-de-sincorá (Formicivora grantsaui): tem este nome porque segue as trilhas das
formigas de correição. Vive na Serra de Sincorá, parte da Chapada Diamantina
Beija-flor-de-gravatavermelha (Augastes
lumachella): é um dos mais
raros beija-flores do Brasil
e vive nas montanhas da
Chapada Diamantina,
no coração da Bahia.
De voo muito rápido e
veloz, é espécie rara e
endêmica. Por sua restrita
distribuição geográfica,
encontra-se em perigo
janeiro/junho 2014
61
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turismólogos, pois o Brasil dispõe de uma diversidade de
paisagens a beneficiar as atividades desses profissionais.
Este livro procura apresentar uma abordagem ampla e
integradora das ciências sociais e ambientais a partir de
uma perspectiva interdisciplinar, evidenciando a aplicabilidade da climatologia, da geologia, da geomorfologia,
da biogeografia, da cartografia, da geopolítica e da cultura no turismo.
Sustentabilidade e emancipação:
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Senac SP, 2014
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“identidade verde”, um modelo de conduta vinculado à
reprodução de comportamentos ecologicamente corretos, mas questiona sua efetividade. Os atuais esforços
pela sustentabilidade são capazes de levar o indivíduo
a refletir sobre seus hábitos de consumo ou apenas propõem uma lista de tarefas que só serão cumpridas caso
não prejudiquem seus hábitos?
Curso de gestão ambiental
(2ª edição, atualizada e ampliada)
Arlindo Philippi Jr., Marcelo de Andrade Roméro
e Gilda Collet Bruna
Editora Manole, 2014
Tel.: (11) 4196-6000 www.manole.com.br 1.250 pags
A publicação trata da gestão ambiental sob uma perspectiva multidisciplinar, voltada para o uso sustentável
dos recursos naturais no atendimento às necessidades
e conveniências da sociedade. Nesta segunda edição,
a obra incorpora novos capítulos, que contribuem para
ampliar a visão de conjunto daqueles que têm responsabilidade e interesse na melhoria das condições ambientais e de vida das nossas cidades e da população.
62
Senac Ambiental
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O papel das reservas privadas na preservação da Mata