Jesus nasceu para que todos
«tenham vida e a tenham em
abundância». Há os que estão
nas periferias da humanidade
que precisam de uma mão para
voltarem ao centro da vida.
A FAMÍLIA CRISTÃ foi saber
como é sentido e vivido o Natal
dos mais pobres. Há histórias
que não são bonitas de contar,
mas interpelam à caridade – não
aquela que apenas é praticada
no Natal.
texto Sílvia Júlio
E
stamos no centro da capital – mas
na periferia da vida de um país.
A noite começa a cair. Não tarda
nada as luzes de Natal vão iluminar as montras da cidade. Os transeuntes
passam pelas ruas da cidade e olham para
o lado para não verem outra realidade nos
confins dos passeios que é bem menos
iluminada e colorida.
Há vidas sem cor. Vidas periféricas. Vidas
pobres. Que lembram as de alguém que
nasceu há 2000 anos no estábulo da vida,
sem auréola. Quero falar sobre o Natal com
estas pessoas que são sem-abrigo, mas
que precisam de seres que sejam abrigo
para eles durante o ano inteiro. Que lhes
deem o Natal todos os dias do ano.
Junto do Refeitório dos Anjos, mais
conhecido pela Sopa dos Pobres, alguns
tentam trocar-me as voltas e querem apenas contar as razões de queixa da Santa
Casa da Misericórdia, a quem chamam de
Santa Casa da Miséria, ou das assistentes
SOCIEDADE
O Natal
dos simples
sociais que não lhes resolvem a situação.
E insultam com todos os nomes alguns
governantes e ex-governantes e até as
mães deles. Um faz questão de me dar
umas folhas soltas de um jornal velho
para me sentar ao lado deles e não sujar as
calças. Sento-me no meio deles e aqueles
homens continuam sem vontade de falar
de como são as suas vidas na rua e como
é viver o Natal ao deus-dará. Insistem em
falar apenas naquilo que lhes apetece. Já
criaram as suas defesas e também tentam
levar a água ao seu moinho. Um deles,
aquele que me quis ir buscar as folhas do
jornal velho para me sentar no meio deles,
leva-me até outro sem-abrigo que está a
arrumar carros, num sítio mais tranquilo.
Talvez a conversa por outros lados seja
mais sossegada.
Rui dos Santos – que ironia de nome,
sem santos que o valham – está a viver há
quatro anos na rua. Por trás da Igreja dos
Anjos, à porta de uma estação de correios
desativada – o espelho de um Portugal
que parece estar a fechar –, está o seu
porto de abrigo. «Aqui a única coisa que
está ativada sou eu e os meus dois companheiros que dormem também aqui»,
ironiza este homem com pregas no rosto
que denunciam uma vida dura e os dedos
amarelos pelos muitos cigarros de enrolar
que fuma por dia. Pergunto-lhe a idade. «Sei
lá», hesita. Mas logo acrescenta: «Sou um
puto novo, tenho 53 ou 54 anos…»
Os anos passam e a memória tem destas
coisas quando se vivem os dias sempre
iguais. Há quatro anos que vai deambulando
pelas ruas dos Anjos. Por vezes cruza-se
com alguns anjos que lhe dão comida ou
outras coisas que vai precisando. Como
aquele rapaz que um dia lhe deu um saco
cama para poder dormir e sonhar com os
anjos. Com mais conforto.
Rui foi mecânico durante 22 anos e tra­balhou posteriormente nas obras até
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SOCIEDADE
Histórias para contar
Rui Santos está na rua há quatro anos.
O Natal, sem a mulher, que já faleceu, é um dia «como os outros».
Entretanto vai permanecendo na rua, na
liberdade que só aquela vida permite, até
porque «sempre foi vadio». Vai continuar
a arrumar carros: «É o meu trabalhinho
para ganhar uns tostões, beber um copinho,
comer algumas coisas…»
É para estas pessoas que existem algumas
organizações no terreno que levam comida,
dois dedos de conversa e uma proposta de
vida diferente. «A ceia que lhes levamos
todas as noites funciona como uma estratégia para abrir a porta da relação. A nossa
função e missão é criar uma relação que permita cativar a pessoa para ela se deixar ajudar», explica Henrique Joaquim, presidente
da Comunidade Vida e Paz (CVP). Todos os
dias do ano, a CVP procura ser abrigo para
os sem-abrigo. O dia de Natal não é exceção
e não falta procura da parte dos voluntários
para aquela noite (e também para as restantes do ano). No Natal os sem-abrigo
veem os mesmos voluntários que os
procuram nos outros dias.
Como o Natal é uma quadra
festiva por excelência, merece
uma celebração especial.
A CVP organiza uma festa
na cantina da Cidade Universitária. A reitoria da
Universidade de Lisboa
disponibiliza o espaço e
os equipamentos para
esta causa. Aquela
festa, que dura três dias (este ano realiza-se
a 20, 21 e 22 de dezembro), junta cerca de
1200 voluntários para acolher 3000 pessoas.
Ali satisfazem-se as necessidades básicas,
distribui-se roupa, fazem-se rastreios de
saúde e proporcionam-se espaços para a
higiene pessoal e mudanças de imagem.
Trata-se dos dentes dos sem-abrigo com a
parceria da Faculdade de Medicina Dentária.
Naquele lugar é possível também restituir a
cidadania aos homens e mulheres há muito
fora do centro do mundo. O Instituto dos
Registos e Notariado transporta para ali
equipamentos que permitem emitir cartões de cidadão na hora. Renasce-se para
a cidadania. Mais: há também um espaço
dedicado à espiritualidade, à oração e ao
recolhimento com um grupo de voluntários
que motiva estas pessoas a conjugarem o
verbo ser: ser pessoas. Há técnicos que lhes
propõem um projeto de vida diferente, uma
transformação. E não pode faltar também a
componente de festa com artistas que não
querem faltar de ano para ano.
«Criamos um ambiente de confiança,
carinho e amor. Temos de encontrar antídotos para a resistência à mudança e nada
melhor que a pessoa se sentir afetivamente
querida, amada, acolhida, para depois dar o
passo para o projeto que lhes estamos a propor», conta Henrique Joaquim. Este ano a
festa vai ser ainda mais especial. Celebram-se os 25 anos da CVP. Uma exposição de
fotografias tiradas pelas pessoas que estão
em processo de inserção vai estar patente
na festa. É um ano para se falar mais do que
nunca de esperança: «Queremos continuar
a ser abrigo na esperança, um abrigo para a
acolher a pessoa e depois autonomizá-la»,
diz o presidente da CVP.
No domingo da festa está previsto que o
Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente,
presida à celebração eucarística. Como a
Eucaristia é uma festa, é mesmo ali naquele
lugar de festa que se vai ouvir falar de um
pobre que também nasceu para as pessoas
sem-abrigo. Nasceu para todos.
«Estas pessoas humanizam-nos, fazem-nos tomar consciência de que aquilo que
SOCIEDADE
Assim estava sossegado e longe de tudo…»
Queria trabalhar, mas dispara a pergunta:
«Onde é que há trabalho?» Fala com este
e aquele para ver se lhe arranjam qualquer
coisa para trabalhar, porque «nada lhe mete
medo». «Eu até já fui limpa-chaminés, mas
já nem isso há… Já falei também aqui com
empreiteiros e dizem-me “aguenta-te, porque também estou a despachar outros”».
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SOCIEDADE
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o dispensarem. Vivia numa barraca com
a companheira, que já faleceu. Tem dois
filhos, um de cada companheira, mas não
quer ter muito contacto com eles «para
não fazerem muitas perguntas». A vida não
voltou a ser a mesma depois de ter perdido
a mãe da sua filha. Limpa os olhos quando
se recorda dela. «É triste não ter a minha
mulher comigo.» Se ainda a tivesse, podia
passar «um Natal mais bacano». Agora o
Natal é «um dia como os outros». «Sabe»,
acrescenta, «só sinto que é Natal porque as
pessoas aqui dos prédios ajudam mais uma
pessoa. Dão bolos, dão tudo…» Não tem
razão de queixa da vizinhança dos prédios
circundantes que lhe dão um prato de sopa
numa tijela de plástico sempre que lhes
pede qualquer coisa.
No Natal, também arrecada mais uns
trocos a arrumar carros. Em dias normais
recebe sete, oito ou nove euros por ajudar a
fazer as manobras de estacionamento. No
Natal pode receber quatro ou cinco vezes
mais. Gostava de viver uma vida diferente,
mas para isso «precisava de ter papel».
«Eu gostava era de estar
numa casa e dentro de uma
cama que fosse minha.
Henrique Joaquim realça que os sem-abrigo nos ajudam a
tomar consciência dos dons que recebemos gratuitamente.
nos separa delas é muito ténue. Os sem-abrigo recordam-nos que a simplicidade
e a pobreza são uma condição comum a
todos. Estas pessoas fazem-nos um grande
ato de caridade de nos ajudarem a tomar
consciência dos muitos dons que recebemos
gratuitamente», remata Henrique Joaquim.
Nas condições mais simples a austeras
pode nascer vida, se as pessoas forem ajudadas a transformarem os seus mundos.
Rose, 34 anos, também viu a sua vida ser
transformada quando lhe mostraram outros
caminhos longe da prostituição.
Chegou do Brasil pela ambição de ter
uma vida melhor. Para si e para a mãe.
«A minha mãe trabalhava de sol a sol,
de domingo a domingo», recorda com
Rose aprendeu a ser uma mulher
inteira com as Irmãs Oblatas.
tão arrependida do passado: «Havia outros
meios. Eu é que nos primeiros tempos não
sabia… Tinha 22 anos. Se soubesse o que
sei hoje não me tinha prostituído, porque
essa marca a gente leva para o fim da vida.
É como um animal marcado com um ferro.
Podem passar muitos anos e um dia a gente
vai encontrar alguém que vai apontar o
dedo.»
No Centro de Acolhimento e Orientação
da Mulher – Irmãs Oblatas (CAOMIO)
nunca lhe apontaram o dedo. Foi ali que
aprendeu que «há outras saídas». «A gente
pergunta, as irmãs indicam, acompanham
na procura de trabalho… Eu passei fome,
mas se tivesse conhecido o CAOMIO não
tinha passado fome nem tinha ido para a
prostituição.» Ali também ouviu falar que
«Jesus nasceu para todos… Se existia Maria
Madalena, então nasceu para todos.»
Sente-se perdoada por Deus mas confessa que ela é que ainda tem dificuldades
em se perdoar a si própria. Lembra-se de
alguns Natais em que ficou furiosa com
Deus: «É Natal e estou aqui... O que é que
eu fiz?» Fez escolhas na vida – umas mais
acertadas que outras – mas agora quer
olhar para a frente. Pela sua dignidade.
E pela dos filhos, «que frequentam a escola,
andam sempre limpinhos e não faltam às
vacinas». Por mais dificuldades que esteja
a passar, desabafa: «Peço a Deus que me
mostre sempre outros caminhos.»
A Ir. Maria Angeles Gorena Zabalza, diretora da Obra Social das Oblatas, conta que
«estas senhoras são religiosas; não são
praticantes, mas são religiosas por dentro». Podem não ir à missa, mas sentem,
no seu íntimo, a presença de um Deus que
as ama e acolhe.
É naquele cantinho, no Intendente, que
está o CAOMIO. À entrada estão flores de
A Ir. Maria Angeles diz que muitas mulheres que se
prostituem «são religiosas por dentro».
várias cores para receberem aquelas mulheres, como que a dizer-lhes que também
elas podem florir para uma vida diferente,
adquirindo novas competências pessoais
e sociais. Em primeiro lugar são acolhidas
por um homem, para perceberam que há
outros sujeitos de barba rija que não lhes
pedem nada em troca. Naquele centro há
ações de formação que as ensinam a ser
agentes da sua própria vida: «O CAOMIO
ajuda as mulheres a viver o momento presente com valores, carinho, acolhimento,
partilha, esperança – valores do Evangelho
que vão interiorizando aos poucos.»
A festa de Natal no CAOMIO é sempre
um momento preparado com estas mulheres. Cada festa é diferente de ano para
ano: «Com estas senhoras temos de ser
criativas», conta a Ir. Maria Angeles. Umas
vezes fazem teatro, outras fazem postais
de Natal, cantam, dançam. O prior dos
Anjos vem sempre apresentar-lhes o Natal
cristão em powerpoint. «É um momento
de partilha muito bonito.» Conversa-se
muito sobre o que elas sentem e quais
SOCIEDADE
Nunca tinha conhecido aquela vida até
atravessar o Atlântico. Do outro lado do
oceano, no Brasil, fez múltiplas coisas para
não passar fome: vendeu gelados, cosméticos e foi doméstica. Chegou cá, vendeu
o corpo. Teve três filhos, todos do mesmo
companheiro português que estava desempregado. Até ao final das duas primeiras
gravidezes prostituiu-se. Passou inúmeros
Natais com clientes. «É muito deprimente
prostituir-me no Natal, mas também é
um consolo. A gente conhece pessoas
boas, que não têm família. A gente acaba
por fazer companhia um ao outro», conta.
Nesses dias os clientes eram sobretudo
imigrantes, em especial africanos. Deixou
essa vida no quarto mês de gravidez do
terceiro filho.
Todos os dias do ano, Rose lembrava-se de Deus e não se esquecia de fazer as
suas orações. Esperava que um dia tudo
pudesse mudar. «A fé é essencial a todo
o ser humano, principalmente para uma
mulher que trabalha na rua. Fé em Deus
e esperança são as últimas coisas que
morrem.»
Para Rose, «o dia de Natal simboliza
o nascimento de Cristo, o ser maior que
nós, maior que tudo». Esta mulher conta
que o mais importante no Natal «não é a
comida nem a bebida, mas o pensar no
próximo». Diz que aproveita sempre o dia de
Natal, em que está mais introspetiva sem
a mãe por perto, naquilo que fez de bom e
mau durante o ano: «Não é na passagem
de ano que reflito sobre isso, é mesmo
no dia de Natal.»
Hoje vive numa casa
com os filhos e o companheiro, que entretanto já
encontrou trabalho. Há
três anos que depende
financeiramente do companheiro e não se prostitui.
Não ganhar o seu dinheiro
ainda a incomoda, mas
tem falado com muita gente para arranjar
um trabalho como doméstica. Enquanto
não aparece trabalho, vai fazer um curso
de jardinagem. Voltar para a rua e vender
o corpo está fora de questão. Sente-se
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SOCIEDADE
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a emoção a despontar nos olhos. Uma
amiga pagou-lhe a passagem de avião para
vir para o Eldorado português no início dos
anos 2000. Começou por trabalhar num
café a receber 300 euros, mas isso quase
não chegava para pagar o quarto na pensão,
a alimentação e o bilhete de avião à amiga.
Entrou na prostituição um ano depois de
aterrar em Portugal. Chegou a receber 400
euros em 24 horas de “trabalho” nos anos
bons. Habituou-se à liberdade de ter o seu
dinheiro, gerir as notas que recebia, por
dez ou quinze minutos com cada cliente.
As irmãs oblatas oferecem sempre
a estas mulheres um miminho de Natal:
casacos quentinhos, luvas e cachecóis
para suportarem a vida fria na rua. Recebem ainda um cabaz com bacalhau e
outras iguarias natalícias para saciar as
barrigas. As delas e a dos filhos. A Ir. Maria
Angeles fica sempre muito comovida
quando ouve histórias de mulheres que
vão passar o Natal com
os filhos depois de
anos de institucionalização.
“André” é um menino que costuma passar
o Natal num dos lares da Casa Pia.
A educadora Isilda Jerónimo já levou os meninos do lar
para sua casa, no Natal.
mos pobreza económica junto de pobreza
moral. Chegam-nos miúdos de famílias
muito desestruturadas, desorganizadas
moralmente.»
A educadora tem passado alguns Natais
com estas crianças. Deixa o marido e filhos
em nome do seu trabalho. «Custa-me
quando saio de casa, mas quando chego
aqui já me passou, porque vimos por uma
boa causa, para estar com os miúdos com
quem estamos o ano inteiro. Estamos
aqui para os educar e lhes dar um pouco
daquilo que não têm em casa.»
Isilda já chegou a levar meninos para
passarem o Natal consigo em casa. Como
aqueles dois irmãos que pensavam que
o pai os ia buscar na noite de Natal e não
chegou a aparecer.
Tenta-se, quando é possível, que a
criança passe o Natal com alguma referência familiar – mas isso nem sempre
acontece. Há sempre três ou quatro crianças que acabam por ficar no lar – restrições do tribunal para não terem contacto
com a família que os negligenciou. Os que
vivem o Natal no lar veem os outros partir
e «ficam magoados».
Há sempre uma festa de Natal para
todos os meninos dos lares assim que termina o primeiro período das aulas. Nesse
momento festivo recebem uma cheque-prenda para depois comprarem o que
quiserem. A verba atribuída pela Casa Pia
é de 25 euros. Muitos deles compram CD e
jogos que gostam. Os que ficam no lar na
véspera de Natal já não têm direito a mais
presentes, mas os educadores acabam
sempre por comprar algo simbólico para
marcar a diferença naquela data especial
para as crianças. Nem que seja um chocolate, carrinhos ou peões. Comem todas
as iguarias de Natal a que têm direito,
mas preferem bacalhau com natas em
vez de cozido.
Por vezes, a educadora Isilda leva-os
à missa do galo. É mais fácil falar de Jesus
aos mais pequenos do que aos mais crescidos. Um dia, uma dessas crianças mais
velhas perguntou-lhe: «A Isilda fala tanto
em Deus mas Ele esqueceu-se de mim porque vim aqui parar e a minha mãe abandonou-me.» Não raras vezes interrogam-se
porque foram abandonados e violentados.
A vida é dura e crua. Há respostas que
ficam incompletas…
Incompleta está também a vida dos
filhos ainda pequenos de Sofia (nome fictício), de 34 anos. Separada do marido por
sofrer maus-tratos, Sofia sente desgosto
por os seus dois rapazes não poderem ter
uma «família completa». Afinal, «ele é o
pai dos meus filhos. Eles têm a noção de
que estão a passar o Natal sem o pai.»
Esta jovem mulher está neste momento
desempregada e a tirar um curso de pastelaria e cozinha. Sem rendimentos, depende
agora da ajuda da família. No passado foi
SOCIEDADE
Quem está institucionalizado e passa
o Natal sem a família é o André (nome
fictício). Vive sem a família desde bebé.
Hoje tem nove anos, frequenta o terceiro
ano, «chumbei só uma vez», justifica-se, e está num dos lares da Casa Pia.
Tem problemas de comportamento, talvez pela falta de referências familiares,
e não consegue estar quieto a conversar.
Está quase deitado na mesa a falar comigo,
é difícil para ele estar sentado numa
cadeira. Conta que passa sempre ali o Natal
e já está habituado. O pai está emigrado
e a mãe está no norte do país. Os irmãos
estão «noutro lado». Diz que o Natal no lar
«é divertido, porque se come muito».
O que comes tu no Natal? – pergunto-lhe.
«Mousse, chocolates, gelatina, pudim…
muitas coisas.» Quero saber mais coisas sobre a noite de Natal ali no lar e
ele responde assim: «Brincamos à luta,
às escondidas e não sei mais.» Do que
representa o Natal, talvez saiba o essencial: «Jesus é um bebé. Já me disseram
que o Menino Jesus era uma pessoa que
quando morria voltava a renascer.» Estas
palavras simples proferidas pelo André,
misturando o Natal com a Páscoa, falam
da essência das coisas: nascer, morrer
e ressuscitar para outra vida.
Isilda Jerónimo é educadora social há
25 anos no Centro de Educação e Desenvolvimento de Santa Catarina (CED), perto
do Cais do Sodré. Ali estão os lares Clemente José dos Santos e o Joaquim José
Branco. Um e outro têm no total 30
educandos com idades compreendidas
entre os 6 e os 16 anos. A grande maioria das crianças que habita nestes
lares tem problemas relacionados
com negligência familiar: «Antes
recebíamos muita pobreza
económica; hoje recebe-
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SOCIEDADE
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as suas opiniões sobre a festa do consumo
e a festa do nascimento de Jesus Cristo entre
pastores e pobres. Confronta-se a oferta
comercial com as suas realidades. Estas
mulheres decoram o espaço, fazem enfeites
com material reciclado para a árvore e o
presépio. Na árvore de Natal não há bolas
mas molas da roupa com uma palavra que
toca no coração de cada uma delas: paz,
solidariedade, esmola, partilha, perdão, solidão… e tantas outras palavras que cabem
no vocabulário. Fazem-se viagens interiores
pelo significado das palavras. O importante
para estas religiosas que trabalham com
prostitutas é transmitir-lhes que «podem
ser felizes mais um bocadinho a cada dia».
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A “Sofia”, que está desempregada, gostaria de receber
como presente de Natal um trabalho.
ela que ajudou a mãe a cuidar dos irmãos
mais novos. Hoje é ela que precisa de apoio.
A família não tem faltado à chamada.
«O meu maior presente de Natal era ter
trabalho», desabafa. Sofia, que já recebeu
o apoio da Cáritas Diocesana de Setúbal,
é considerada pelos técnicos uma mulher
INICIATIVAS DA CÁRITAS PARA O NATAL
Cada Cáritas Diocesana tem o seu programa específico que passa pela distribuição
de géneros alimentares com as iguarias típicas desta quadra; realização de ceias
nos dias próximos ou mesmo na véspera de Natal para pessoas sós, idosas ou
sem-abrigo; distribuição de brinquedos e outras prendas a crianças; promoção de
festas e convívios para diferentes públicos. Comum a todas é a Operação 10 Milhões
de Estrelas – um gesto pela paz que «pretende levar cada cidadão a adquirir uma
pequena vela para ser acesa nas janelas de cada casa na noite de 24 de dezembro
para que se saiba que os seus habitantes querem uma sociedade mais pacífica,
pelo que lutam pela justiça e pela solidariedade. 65% da verba angariada com a
aquisição das velas ficará em cada diocese para responder aos variados problemas
sociais e os restantes 35% destinam-se às crianças e jovens refugiados da Síria»,
informa Eugénio Fonseca, que adianta ainda que «será editado um livro para que
as crianças possam viver, com maior profundidade, o tempo de Advento».
A Cáritas estima que neste Natal sejam
apoiadas, pelo menos em média, 5 mil famílias. Mas o número pode pecar por defeito.
«Só conseguimos ter informações das
20 Cáritas Diocesanas e de 65 paróquias
e nem sempre com a regularidade desejável. Se das 4350 paróquias existentes,
metade tiverem serviços de atendimento,
os números que dispomos estão muito
longe da realidade. Mesmo assim, são
já significativos: durante o ano de 2012,
foram atendidas 158 329 pessoas, que
correspondem a 56 235 famílias», informa
Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas.
Este responsável não tem dúvidas de
que este Natal vai ser mais difícil para
os pobres portugueses: «Basta analisarmos a relação existente entre desemprego,
trabalho precário, redução de salários e de
prestações sociais com vulnerabilidades
socioeconómicas, a juntar às consequências resultantes das várias medidas de
austeridade e compreende-se bem como
o país está mais empobrecido. Objetivamente, temos as imparáveis procuras
SOCIEDADE
Para subir uns degraus na vida, sente-se grata à Cáritas por tudo e tanto que
aconteceu de bom na sua vida: «Quando
estava no fundo do poço e quando não
havia nenhuma luz, a Cáritas foi a única
esperança e luz.» Tinha cinco meses de
renda atrasada. Por pagar estavam também as contas da água, luz e gás. Foi-lhe
entregue comida e roupa para as crianças
e até eletrodomésticos para recomeçar
a vida. No Natal veio um mimo especial
que as crianças adoraram: «Um cabaz bom
que, para além dos bens essenciais, tinha
também sobremesas de chocolate para os
miúdos.» Este ano ainda não sabe como
vai viver o seu Natal mas está convicta
de que vai ser melhor: «Tenho esperança
de passar o Natal a trabalhar, com o meu
curso já feito e muito feliz ao lado dos
meus filhos.» O dinheiro não abunda, «mas
basta uma canja de galinha ou um caldo
verde mais um bolo-rei» para viver um
Natal bonito em família, apesar das muitas
perdas que foi sofrendo pelo caminho. «No
Natal não é preciso ter uma mesa farta.
Muitas vezes tem-se uma mesa farta e as
pessoas estão ali com uma cara, parece
que o mundo lhes caiu em cima. Nem
que eu tenha só uma sopa para comer
no Natal, mas se estiver com a minha
família, fico feliz.»
Eugénio Fonseca alerta para o risco de se tornar o espírito
de Natal numa ilusão.
nos muitíssimos atendimentos sociais
existentes em todo o território nacional.»
No Natal, a Cáritas apenas reforça o
apoio concedido ao longo do ano, acrescentando-lhe o que é, em termos tradicionais, específico dessa quadra. Este reforço
verifica-se, sobretudo, em géneros alimentares que, nesta ocasião, assumem a
designação de “cabazes de Natal”. «Dentro
do espírito natalício, o que se acrescenta
são as lembranças a crianças. O que é
mesmo diferente são as quantidades dos
apoios, porque são muitas as iniciativas
de solidariedade, pessoais e coletivas,
cujos proveitos nos são confiados para
distribuirmos. Porque muitos dos bens
são perecíveis têm de ser entregues, de
imediato, fazendo aumentar as quantidades por família. No Natal “enriquecemos”
os pobres para os voltarmos a deixar na
pobreza a partir do dia 26. Assim corre-se o risco de tornar o espírito do Natal
numa ilusão.» E é nesta ilusão que vale
a pena refletir… π
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SOCIEDADE
lutadora, proativa na procura de trabalho e agarra-se a qualquer coisa para
levar dinheiro para casa. «Há só duas
coisas que não fiz na minha vida: roubar
e prostituir-me. Até cocó de pombo já
lavei num telhado com uma mangueira
de pressão. Ninguém queria fazer esse
trabalho, mas eu subi um escadote para
o fazer», conta.
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O Natal dos simples