Realidades além DOS NÚMEROS É a partir da história de vida de duas pessoas que habitam os extremos da realidade social do Recife que se pode ir um pouco mais além do significado de todas essas estatísticas. Duas mulheres. Duas mães. Duas pessoas que sempre fizeram o possível para conseguir viver em condições ideais, evoluir, construir uma família, educar os filhos e realizar alguns sonhos. Rita Gonçalves e Ana Isabel da Rosa Borges. Elas não se conhecem. Possivelmente, nunca se viram. Mesmo morando a cinco quilômetros de distância uma da outra. Rita vive sozinha em um quarto de seis metros quadrados no segundo andar de um prédio abandonado na rua Marquês de Olinda, no Bairro do Recife. Isabel mora com o marido e quatro filhos em um apartamento de 200 metros quadrados, na Jaqueira. Uma cidade. Duas pessoas. Dois mundos. Duas realidades. E, sobretudo, duas verdades. A vida, o mundo, o passado, o presente e o futuro. Jamais existirá uma única forma de se falar sobre o Recife. Depende dos olhos de quem as vê. Dos meus. Dos seus. Dos de Rita Gonçalves. E dos de Ana Isabel da Rosa Borges. Vida difícil em um cortiço no velho Recife “Isso é a vida”, lamentou Rita Gonçalves, depois de tomar um pouco de fôlego, encher o peito de ar, procurar forças sabe-se lá onde e tentar conter as lágrimas que já haviam deixado seus olhos pesados, vermelhos, e que já começavam a lhe tomar a voz, a firmeza das palavras e a certeza se isso realmente pode ser chamado de vida. Até aquele instante, Rita mostrava-se uma mulher forte, apesar de tudo. E, ao não resistir às lágrimas, é que pôde se ver — na verdade — o quanto aquela mulher realmente era forte. O motivo para as lágrimas dela é comum a qualquer mãe: saudade dos filhos. Rita teve três. Dois meninos e uma menina. Sem a menor condição de criá-los, ela permitiu que os pais deles os levassem embora. O único que ela continua sendo responsável é justamente o mais velho, que tem 29 anos e é portador de deficiência mental. “Minha sobrinha toma conta dele. E eu ajudo com R$ 80,00 para pagar o aluguel da casa onde eles vivem, no Coque”, conta Rita. Os outros dois acabaram crescendo longe dela, construíram novas famílias e hoje praticamente ignoram a existência da mãe. “Eu até ligo, mas eles não me atendem”, conta, chorando, e completa: “eu sei que o único motivo pra isso é porque eu sou muito pobre”. A dor ela tenta superar com um conformismo social que a realidade lhe impôs como lição fundamental de sobrevivência: “Eles vivem muito bem. Eu nunca poderia dar aquilo pra eles. Então, que seja. Eu rezo por eles todas as noites e agradeço por estarem bem e podendo ter uma vida melhor do que a que eu tive”, disse Rita, abrindo um elo como seu próprio passado, que a fez encontrar e entender o início da sua gradual decadência humana e social. O início do seu fim. Do fim dos seus sonhos. Da suas chances. Do seu futuro. Da Rita que, um dia, a Rita queria ser. E é nesse retorno ao passado que a história dela resume a essência da profunda desigualdade social do Recife. Rita Gonçalves nasceu em 1947 e cresceu no Córrego do Euclides. A mãe era empregada doméstica. O pai, ela nunca conheceu. Sem nunca ter ido à escola, Rita começou a trabalhar aos 11 anos, para ajudar na cada vez mais desesperadora situação financeira da sua mãe, agora, com três filhos pra criar. O primeiro emprego foi como doméstica de uma família em Casa Forte. Tudo o que ganhava, entregava a sua mãe. “Eu era uma boa filha, sempre fiz tudo para ajudar a minha mãe”, desabafa Rita, numa clara relação à sua condição atual, de abandono. Então, aos 16 anos, Rita cedeu às tentações, às promessas de dinheiro fácil no próspero Bairro do Recife dos anos 60. Tornou-se prostituta. “Não existe nada pior. Nada mais humilhante. Jamais eu deveria ter caído aqui nesse bairro. Nessa vida. Perdi a minha mocidade toda. Nada fiz. Nada tenho”, conclui a garota que envelheceu nas ruas do Velho Recife, que viu a decadência do bairro de perto — ou melhor, na própria pele. Há 42 anos no Bairro do Recife e há 25 dentro de um apertado cubículo de seis metros quadrados, onde ela encaixa uma cama de casal, um armário penso, um ventilador, uma pequena e velha tv, um refrigerador, um fogão, uma mesa e algumas imagens e pôsters de santos católicos.O lugar é escuro, extremamente úmido e mofado. Uma lona armada nas paredes, protege dos pedaços que caem do teto e das goteiras, de qualquer dia de chuva. Também não há água encanada e existe apenas um banheiro para os sete quartos do andar. Não há fotos, nem dela, nem de ninguém. Não há espelho. Não há relógio — assim, é como se não houvesse passado, presente ou futuro. No bairro mais pobre e no bairro mais rico da capital, a história de duas mulheres ajuda a traduzir a frieza dos indicadores sociais. A mãe pára diante de um depósito de lixo na rua e começa a vasculhar os sacos plásticos em busca de algo que ainda possa ser aproveitado. Enquanto isso, a filha ainda bem pequena, apenas de calcinha, engatinha pela calçada e até brinca com o lixo desprezado. Essa é uma cena que não faz parte de nenhum capítulo da história da engenheira química Ana Isabel da Rosa Borges, mas que inevitavelmente, está inserida na sua vida. Na dela e na de qualquer outra pessoa que viva no Recife, independentemente do bairro ou da classe social. Solidariedade e preocupação com segurança Manter a tradição da qualidade de vida da família é a principal preocupação de Ana Isabel e de toda classe média A mãe pára diante de um depósito de lixo na rua e começa a vasculhar os sacos plásticos em busca de algo que ainda possa ser aproveitado. Enquanto isso, a filha ainda bem pequena, apenas de calcinha, engatinha pela calçada e até brinca com o lixo desprezado. Essa é uma cena que não faz parte de nenhum capítulo da história da engenheira química Ana Isabel da Rosa Borges, mas que inevitavelmente, está inserida na sua vida. Na dela e na de qualquer outra pessoa que viva no Recife, independentemente do bairro ou da classe social. A cena descrita acima aconteceu debaixo da janela do apartamento de Ana Isabel, na Jaqueira — o bairro com os melhores índices de desenvolvimento humano do Recife. E, ao contar em detalhes o que viu, Isabel deixa transparecer dois sentimentos extremamente comuns a todos aqueles que conseguiram fazer parte de uma minoria que vive acima das condições básicas: o alívio (por ter conseguido dar à sua família uma vida digna) e a impotência diante de uma desigualdade social tão brutal, que cria abismos quase sempre instransponíveis. No Recife não existe distância física entre as áreas nobres e as zonas de pobreza e isso acaba criando um trágico elo entre as duas realidades: a violência e a sensação constante de medo, de não se sentir protegido em nenhuma rua da cidade. Isabel já teve o marido assaltado e baleado (escapou ileso) e não deixa de lado o celular quando algum dos filhos está fora de casa. Enquanto isso, no seu edifício, existe uma proposta recente para se fazer uma reforma completa nos acessos ao prédio, investindo mais de R$ 80 mil na construção de um novo sistema de segurança. Ana Isabel é casada e tem quatro filhos — três meninas (já universitárias) e um menino. Nenhum deles precisa trabalhar para ajudar no orçamento da família — podendo assim se dedicar integralmente aos estudos e a uma linear formação profissional. “Mas isso só é possível porque as três estudam em universidades públicas. Quando estavam no colégio, cheguei a pedir bolsa de estudos para alguns deles”, justifica Isabel, revelando um lado que talvez muitos também desconheçam: mesmo aqueles que vivem nos bairros nobres e com renda média acima dos índices máximos revelados pela pesquisa, também enfrentam — em outra proporção, obviamente — sérias restrições financeiras. “Um dia, eu pude comprar esse apartamento. Hoje em dia tenho dificuldades para pagar o condomínio”, revela Romero, marido de Ana Isabel. “Antes, quando as meninas viajavam para competir (todos os filhos do casal são atletas), nós íamos juntos. Não importava em que país fosse. De uns cinco anos pra cá, nós já não podemos mais fazer isso”, completa Isabel, sem demonstrar nenhum constrangimento. Isabel e Romero se conheceram ainda adolescentes e tiveram vidas parecidas. Os dois moravam em um bairro nobre, estudavam em colégios tradicionais, praticaram esportes, cursaram universidades públicas, começaram a trabalhar pouco antes dos vinte anos, nunca precisaram ajudar financeiramente os pais, mas tiveram que trabalhar muito para dar aos filhos uma vida, e, sobretudo, uma possibilidade de futuro igual a que tiveram. Uma chance extremamente rara de viver uma história com começo, meio e final feliz. (F.F.)