UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO FACULDADE DE ENFERMAGEM PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM MESTRADO EM ENFERMAGEM ANGELICA PEREIRA BORGES O USO DE TECNOLOGIAS DO CUIDADO EM VISTA A HUMANIZAÇÃO DO PARTO Cuiabá-MT 2014 ANGELICA PEREIRA BORGES O USO DE TECNOLOGIAS DO CUIDADO EM VISTA A HUMANIZAÇÃO DO PARTO Dissertação apresentada à banca avaliadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, da UFMT, como requisito para obtenção do título de mestre em Enfermagem. Área de Concentração: Enfermagem e o Cuidado à Saúde Regional Linha de Pesquisa: Estudos do cuidado à saúde Orientadora: Profa Dra Janete Tamami Tomiyoshi Nakagawa Cuiabá-MT 2014 ANGELICA PEREIRA BORGES O USO DE TECNOLOGIAS DO CUIDADO EM VISTA A HUMANIZAÇÃO DO PARTO Esta dissertação foi submetida ao processo de avaliação pela Banca Examinadora para obtenção do título de: Mestre em Enfermagem. E aprovada na sua versão final em 13 de fevereiro de 2014, atendendo às normas da legislação vigente da UFMT, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, área de concentração Enfermagem e o Cuidado à Saúde Regional. ___________________________________________ Profa.Drª. Rosemeiry Capriata de Souza Azevedo Coordenadora do Programa BANCA EXAMINADORA: ____________________________________________ Profa.Drª. Janete Tamami Tomiyoshi Nakagawa Orientadora - Presidente da Banca ____________________________________________ Profa.Drª. Marcia Barbieri Membro Efetivo Externo ____________________________________________ Profa.Drª. Áurea Christina de Paula Corrêa Membro Efetivo Interno _____________________________________ Prof. Dr. Ageo Mário Candido da Silva Membro Suplente Interno ____________________________________________ Profa.Drª. Janine Schirmer Membro Suplente Externo Cuiabá-MT 2014 Dedico este trabalho à minha avó (Gracélia Borges) que faleceu durante meu processo do mestrado, deixando saudades. A ti, minha querida vó. AGRADECIMENTOS ESPECIAIS Agradeço imensamente aos meus pais, Nete e Edenir, que são os meus maiores incentivadores. Por tudo que fizeram e fazem por mim, por sempre me ensinarem que o estudo e a produção do conhecimento é o que temos de mais valioso na vida. A eles agradeço por todo o cuidado, amor, dedicação e paciência que tiveram comigo. À minha irmã Gisele que é a minha melhor amiga, companheira, confidente. A minha vida não teria a mesma graça se não fosse pela presença da minha irmã, sua companhia e suas palavras de conforto fazem a diferença na minha vida. A melhor amiga que Deus me deu foi a minha irmã. Aos demais membros da minha querida família, por quem tenho um apreço enorme. Por sempre me apoiarem e por sempre estarem ao meu lado com palavras amigas e amorosas. Agradeço também as minhas “irmãs-postiças” Adriany, Genilza e Majô que Deus colocou na minha vida há dez anos e que desde então se tornaram as minhas grandes amigas. Pessoas que me apoiam, me divertem, me dão conselhos, que brigam comigo, mas que querem somente o meu bem. Muito obrigada por serem as minhas “super amigas”. Amo muito vocês. À minha “família do mestrado” Eliziani, Jackeline, Grasiele, Heidy, Hellen, Ingrid, Débora, Glaucia, Nayara e Luciana, pois foi na presença delas que consegui vencer os diversos obstáculos desses dois anos de estudo e dedicação. Vocês fizeram a diferença nos diversos momentos de diversão e risadas, tristeza e desespero, portanto agradeço pela presença na minha vida e pela amizade firmada. À minha orientadora, Janete. Por toda a paciência que teve comigo, por todos os ensinamentos, dedicação e companheirismo. A quem tenho uma admiração enorme. Muito obrigada por facilitar o meu processo de ensino-aprendizagem e assim, poder crescer como profissional e pesquisadora. As demais colegas de faculdade e do mestrado, ao meu grupo de pesquisa, pois sempre estivemos juntas, vencendo os obstáculos da vida. Por toda a dedicação, companheirismo e amizade, obrigada! Às minhas grandes incentivadoras e culpadas por eu me inserir neste programa de mestrado, Áurea e Eveline. Agradeço imensamente a vocês duas por todas as palavras de conforto, conselhos, e apoio incondicional. Agradeço pela amizade construída ao longo da graduação e que se fortalece a cada dia. RESUMO BORGES, A. P. O uso de tecnologias do cuidado em vista a humanização do parto. 2014. 111 f. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) - Curso de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2014. Orientadora: Drª. Janete Tamami Tomiyoshi Nakagawa O movimento da humanização da assistência ao parto tem se apresentado como uma proposta de mudança para as práticas assistenciais vigentes, pois o parto realizado sob o prisma da humanização reconhece a ideia da promoção de ações que visem uma atenção obstétrica mais efetiva e de qualidade através da redução do uso inadequado de tecnologias e da medicalização excessiva. Para tanto, acredita-se que a prática de atividade física durante a gestação possa se constituir como estratégia desta mudança, caracterizando-se em um tipo de tecnologia do cuidado obstétrico, pois a prática sistemática de atividade física durante o período gestacional tem apresentado efeitos positivos sobre a gestação, parto e nascimento. Este estudo teve como objetivo analisar as condições de parto e nascimento de um grupo de gestantes que participaram de um programa de atividade física, a fim de integrá-lo como uma tecnologia do cuidado obstétrico. As participantes do estudo foram 160 gestantes inscritas no pré-natal de Unidades de Estratégia Saúde da Família do município de Cuiabá- MT. O grupo de exposição foi composto por 40 gestantes que praticaram exercícios físicos em 16 seções, e o grupo de não expostos compreendeu 120 gestantes que não participaram das atividades propostas. O período do estudo ocorreu entre os meses de dezembro de 2012 a maio de 2013 e a coleta de dados referente ao parto e nascimento ocorreu nos prontuários clínicos de três maternidades conveniadas ao SUS. Os resultados são apresentados na forma de dois manuscritos. O primeiro analisou as práticas obstétricas e os resultados maternos e fetais da assistência prestada no contexto do SUS no município e constatou que as taxas de parto cesáreo e de práticas obstétricas são elevadas, contatando o predomínio do modelo tecnicista de atenção ao parto. O segundo manuscrito analisou o impacto da atividade física realizada durante a gestação sobre as condições de parto e nascimento e demonstrou que houve associação da prática de atividade física com o tipo de parto e com a prática de amniotomia, ocitocina e episiotomia, revelando ainda que o risco para a ocorrência dessas práticas é maior nas gestantes que não participaram do programa de exercícios físicos com RR > 1. Quanto às condições de nascimento, a atividade física mostrou associação apenas com o peso de nascimento. Conclui-se que a prática de atividade física durante o período gestacional apresentou resultados satisfatórios sobre as condiçoes materno-fetais destacando-se como uma tecnologia de cuidado obstétrico. Palavras-chave: Atividade física; Humanização; Parto; Enfermagem Obstétrica. ABSTRACT BORGES, A. P. O uso de tecnologias do cuidado em vista a humanização do parto. 2014. 111 f. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) - Curso de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2014. Orientadora: Drª. Janete Tamami Tomiyoshi Nakagawa The movement for humanization in childbirth has been anoption to change the current healthcare practices,when the delivery is done from the humanization perspective itacknowledge the idea of promoting actions that aims more effective and qualified obstetric care through reducing the inappropriate use of technology and the excessive medicalization. It is believed that the practice of physical exercises during pregnancy may be considered a strategy to this change in procedures, due to its positive effects during the pregnancy period, labor and birth it is characterized as a type of obstetric care technology. This study aimed to analyze the labor and birth conditions of a group of women who participated in a program of physical exercises in order to integrate it as a technology obstetric care. There were 160 pregnant women enrolled in prenatal of the Family Strategy Health Units in Cuiabá - MT. The exposed group consisted of 40 women who participated of16 sectionsof physical exercises, and 120 pregnant women were part of the non-exposed group who did not participate in the proposed activities. The study period occurred from December 2012 to May 2013 and the data related to labor and birth were collectedfrom the clinical records of three public hospitals part of the SUS system. The results are presented in two manuscripts. The first examined the obstetric practice and the maternal and fetal outcomes of care provided by SUS and it was found high rates of caesarean sections and obstetric practices and the predominance of the technical model of childbirth care. The second manuscript examined the impact of physical exercises during pregnancy on the conditions of labor and birth and showed that there was an association of physical activity with the type of delivery and the practice of amniotomy, oxytocin and episiotomy, revealing further that the risk for the occurrence of these practices is higher among those who did not participate in the exercise with RR > 1 program. Regarding the conditions of birth, physical exerciseswere associated only with the birth weight. As a conclusion physical exercises during pregnancy has produced satisfactory results on maternal and fetal conditions standing out as an obstetric caretechnology. Keywords: physical activity; Humanization; Childbirth; ObstetricalNursing. RESUMEN BORGES, A. P. O uso de tecnologias do cuidado em vista a humanização do parto. 2014. 111 f. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) - Curso de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2014. Orientadora: Drª. Janete Tamami Tomiyoshi Nakagawa El movimiento de lahumanizacióndel parto se ha presentado una propuesta para cambiar lasprácticas de saludactuales, puesto que eltrabajo de parto hecho desde la perspectiva de lahumanizaciónreconocelaidea de facilitar acciones dirigidas para una atención obstétrica más eficaz y de calidad por medio de lareduccióndel uso inadecuado de latecnología y lamedicalizaciónexcesiva. Para ello se cree que lapráctica de laactividad física mientraselembarazopuedeconvertirseenestrategia para este cambio y caracterizarse como una tecnología para laatención obstétrica, una vez que lapráctica sistematizada de actividad física mientraselembarazopresentóefectos positivos para elembarazoeltrabajo de parto y elnacimiento. Este trabajo académico tuvo como objetivo analizarlas condiciones de trabajo de parto y nacimiento de un grupo de mujeresembarazadas que participaronenun programa de actividad física conlafinalidad de integrarlo como una tecnología para laatención obstétrica. Las participantes de este trabajofueron 160 mujeresembarazadas participantes de laatenciónprenatal de Unidades de Estrategia de da Salud Familiar de Cuiabá -MT. El grupo de exposiciónconsistióen 40 mujeres que realizanejercicios físicos en 16 secciones y el grupo de no expuestas consta de 120 mujeres que no participaronenlasactividadespropuestas. El período de estudio se produjo entre los meses de diciembre de 2012 y mayo de 2013 y larecogida de datosdeltrabajo de parto fue por medio de loshistoriales médicos de treshospitales para lamaternidadsuscritos al Sistema Único de Salud (SUS). Los resultados se dividenen dos. El primeroexaminólapráctica obstétrica y los resultados maternos y fetales de laatención prestada y relativas al SUS enelmunicipio y se encontró que lastasas de parto por cesárea y lasprácticas obstétricas son altos, donde se veelpredominiodel modelo técnico de laatencióndel parto. El segundo examinóel impacto de laactividad física practicadamientrasel período delembarazoenlas condiciones del parto y elnacimiento y demostró que huboasociación de laactividad física conel tipo de trabajo de parto y conlapráctica de laamniotomía, ocitocina y laepisiotomía, que ademásreveló que elriesgo para laocurrencia de estas prácticas es mayor entre aquellas que no participarondel programa de ejercicios físicos, con RR > 1. Encuanto a las condiciones de nacimientolaactividad física mostróasociaciónsóloconel peso al nacer. Se concluye que lapráctica de actividad física mientrasel período de embarazo se produjo resultados satisfactoriosenlas condiciones maternas y fetales y que se destacan como una tecnología de laatención obstétrica. Palabras clave: Actividad física; Humanización; El Parto; Enfermería Obstétrica. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 - Exercícios físicos em solo para fortalecimento muscular................ 100 Figura 2 - Exercícios aquáticos para trabalho cardiorrespiratório.................... 100 Figura 3 - Exercícicios aquáticos recreativos.................................................. 101 Figura 4 - Exercícicios aquáticos para fortalecimento muscular...................... 101 Figura 5 - Técnica de massagem Shantalla........................................................... 102 Figura 6 - Customização do enxoval..................................................................... 102 Figura 7 - Atividade educativa prática sobre o parto............................................ 103 Figura 8 - Atividade educativa sobre parto e cuidados com o RN................... 103 Figura 9 - Avaliação física da flexibilidade articular........................................ 104 Figura 10 - Avaliação física da composição corporal......................................... 104 Figura 11 - Interação com as gestantes............................................................... 105 LISTA DE TABELAS MANUSCRITO 1 Tabela 1 - Aspectos sócio-demográficos e obstétricos das parturientes segundo o tipo de parto, Cuiabá, MT, 2012/2013, n=160...................................................... Tabela 2 - Intervenções obstétricas realizadas na assistência ao parto normal. Cuiabá, MT, 2012/2013, n=99.................................................................................... Tabela 3 - 45 Frequência das indicações de cesarianas em primigestas*. Cuiabá, MT, 2012/2013, n=61............................................................................................ Tabela 4 - 43 46 Complicações/intercorrências obstétricas e fetais segundo o tipo de parto. Cuiabá, MT, 2012/2013, n=160..................................................................... 46 MANUSCRITO 2 Tabela 1 - Características sócio-demográficas das parturientes, Cuiabá, MT, 2012/2013, n=160.......................................................................................... Tabela 2 - Prática de exercícios físicos durante a gestação associado ao tipo de parto, Cuiabá, MT, 2012/2013, n=160..................................................................... Tabela 3 - 65 Prática de exercícios físicos durante a gestação associada à realização de intervenções durante o trabalho de parto, Cuiabá, MT, 2012/2013, n=99..... Tabela 4 - 65 66 Prática de exercícios físicos durante a gestação associada às condições de nascimento, Cuiabá, MT, 2012/2013, n=160................................................. 68 LISTA DE ABREVIATURA E SIGLA ACS Agente Comunitário de Saúde CC Composição Corporal DCP Despreporção cefálo-pélvica EST Estatura ESF Estatégia Saúde da Familia FA Flexibilidade Articular FC Frequencia Cardíaca IMC Indice de Massa Corporal PA Pressão Arterial RN Recém- Nascido OMS Organização Mundial da Saúde UFMT Universidade Federal de Mato Grosso SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 16 2. OBJETIVOS ............................................................................................................... 25 2.1 GERAL ................................................................................................................. 25 2.2 ESPECÍFICOS ...................................................................................................... 25 3. REVISÃO DE LITERATURA .................................................................................. 26 3.1 O cuidado e as tecnologias em saúde para a sua concretização ............................ 26 3.2 Os benefícios da atividade física no período gestacional ..................................... 29 3.3 A atividade física no período gestacional: uma nova tecnologia de cuidado ....... 32 4. METODOLOGIA....................................................................................................... 35 4.1 Desenho do estudo ................................................................................................ 35 4.2 Local do estudo ..................................................................................................... 35 4.3 Amostra populacional ........................................................................................... 36 4.4 Passos metodológicos para a coleta de dados ....................................................... 37 4.4.1 Momento 1 – Procedimento de coleta de dados na busca pelos participantes da pesquisa .............................................................................................................. 38 4.4.2 Momento 2 – Projeto de pesquisa: Oficina do corpo ..................................... 38 4.4.3 Momento 3 – Procedimento de coleta de dados do parto e nascimento ........ 42 4.5 Variáveis do estudo ............................................................................................... 42 4.6 Tratamento e análise dos dados ............................................................................ 42 4.7 Fonte financiadora ................................................................................................ 43 4.8 Teste piloto ........................................................................................................... 43 4.9Aspectos Éticos ...................................................................................................... 43 5. RESULTADOS E DISCUSSÃO ............................................................................... 44 5.1 CARACTERIZAÇÃO DAS CONDIÇÕES DE PARTO E NASCIMENTO DE GESTANTES PRIMIGESTAS NO MUNICIPIO DE CUIABÁ-MT ....................... 45 5.2 A ATIVIDADE FÍSICA COMO TECNOLOGIA DE CUIDADO NA QUALIFICAÇÃO DA ATENÇÃO OBSTÉTRICA .................................................. 65 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................... 82 7. REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 85 APÊNDICES .................................................................................................................. 94 APÊNDICE A – Instrumento de coleta de dados ....................................................... 95 APÊNDICE B – Ficha de dados físicos .................................................................... 102 APÊNDICE C – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido .............................. 104 APÊNDICE D – Registro fotográfico das atividades da oficina do corpo ............... 105 ANEXOS ...................................................................................................................... 111 ANEXO 1 – Termo de Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa ....................... 112 16 1. INTRODUÇÃO Durante a gravidez, a mulher necessita de cuidados e de acompanhamento prénatal, cuja finalidade é acolhê-la desde o princípio da gestação, certificando o nascimento de uma criança saudável e a garantia do bem-estar de ambas (BRASIL, 2006). A assistência pré-natal possibilita a identificação precoce de sinais e sintomas preveníveis e de fatores de risco para morbidade e mortalidade materna e neonatal (PEIXOTO et al., 2011). As políticas de atenção à saúde reprodutiva vêm se consolidado nas últimas décadas, cujo início se deu no ano de 2000, com o lançamento do Programa de Humanização do Parto e Nascimento (PHPN) como importante estratégia para assegurar a melhoria do acesso, da cobertura e da qualidade do acompanhamento pré-natal, da assistência ao parto e puerpério às gestantes e ao recém-nascido, na perspectiva dos direitos de cidadania (BRASIL, 2002). O lançamento de políticas nos anos posteriores, como o Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal em 2004, a Política Nacional de Atenção Obstétrica e Neonatal (PNAON) em 2005, e a Rede Cegonha em 2011 trouxe novos elementos fundamentais para a consolidação dos direitos no campo da saúde reprodutiva e na qualificação da atenção obstétrica no país. No Brasil, durante os primeiros anos de implantação do PHPN, foi possível verificar o aumento da cobertura da assistência pré-natal e dos exames básicos recomendados pelo programa. No ano de 2006, elevou-se para 88% o percentual de gestantes com filhos nascidos vivos que realizaram 4 consultas. No município de Cuiabá, seguindo a tendência nacional, houve um aumento significativo da cobertura do pré-natal. Em 2009, o percentual de gestantes com filhos nascidos vivos que fizeram de 4 a 6 consultas pré-natal foi de 30,7% e com 7 ou mais consultas foi de 64,2%, totalizando 94,9% das mesmas com 4 ou mais consultas (BRASIL, 2012). Apesar do considerável aumento do número de consultas durante a assistência pré-natal, observa-se que a gestante necessita de cuidados que vão além das ações preconizadas pelo Ministério da Saúde, que poderiam ser incorporadas e desenvolvidas durante a gestação. Desse modo, vislumbra-se o preparo corporal para o aumento do condicionamento físico da mulher durante o período gestacional, a fim de encorajá-la para o parto normal e promover um nascimento saudável. 17 O momento do parto é um acontecimento de grande importância na vida da mulher, apresentando-se como um evento único e caracterizado por um misto de sentimentos, denotando uma etapa bastante significativa para a parturiente e seus familiares. Gravidez e nascimento representam mais do que simples eventos biológicos. Embora a fisiologia do parto seja a mesma universalmente, a parturição é realizada de modos extremamente diferentes pelos grupos de pessoas. O parto nunca é tratado de forma apenas fisiológica, pois é um evento biossocial, ou seja, uma função biológica universal inserida numa matriz social específica de cada cultura (JORDAN, 1993). Por um longo período, as atividades relacionadas ao parto e nascimento foram desvalorizadas, cuja responsabilidade se limitou às mulheres parteiras ou curandeiras. No entanto, a partir da valorização da obstetrícia instaurou-se a ideia de que o nascimento era um momento perigoso e necessitava da presença de um médico, fazendo com que o discurso preponderante elevasse este profissional à figura principal dentro do processo do parto (NAGAHAMA; SANTIAGO, 2005). Segundo as mesmas autoras, o movimento que caracteriza a figura do homem dentro do processo parturitivo, representada pelo médico, simboliza a transformação do parto em um momento racionalizado e público, culminando com a defesa da hospitalização e criação de maternidades para assisti-lo. O processo de hospitalização do parto tornou-se realidade em diversos países do mundo, a partir da metade do século XX, tomando grandes proporções e dominando a assistência ao parto sem que houvesse concretas evidências científicas quanto a sua seguridade em relação ao parto domiciliar ou aqueles realizados em casas de parto (DINIZ, 2005). A hospitalização passa a dominar o cenário parturitivo e, consequentemente, a hegemonia médica assume uma posição concreta sobre o corpo feminino, culminando na medicalização e institucionalização do parto e caracterizando a mulher como um ser manipulável e objeto deste processo. A partir disso, a atenção obstétrica passou por muitas transformações, recebendo de forma consubstancial diversas ações de caráter intervencionista sobre a evolução fisiológica do parto, caracterizando-o como patológico e consequentemente caminhando para a sua medicalização (SEIBRT et al., 2005). Nesse ínterim, o cuidado de enfermagem também recebeu forte influência do processo intervencionista culminando no desenvolvimento de práticas obstétricas consideradas, atualmente, desnecessárias. 18 Os elevados índices de partos cirúrgicos, episiotomias, amniotomias e uso rotineiro de ocitocinas são alguns exemplos dessas práticas utilizadas de forma indiscriminada pelos profissionais de saúde, podendo gerar riscos e desconfortos físicos à mulher, suscitando um aumento significativo de partos prematuros devido a interrupção eletiva e falta de indicação clínica precisa no caso do uso abusivo de cesarianas como via de parto (SILVEIRA et al., 2008). As taxas de cesarianas estão se elevando em grande parte dos países do mundo. No Brasil, foram registrados elevados níveis de partos cirúrgicos, alcançando uma média de 53,7 % entre os serviços públicos e privados no ano de 2011. Em Mato Grosso, esse procedimento alcançou a taxa de 57,5% (BRASIL, 2013). Tais dados superam a recomendação da OMS (1985), que preconiza, no máximo, 15% do total de partos. O uso indiscriminado da tecnologia no parto que por um lado surgiu com a intenção de qualificar a assistência suscitou a desvalorização das relações humanas empobrecendo e desqualificando o sofrimento físico e emocional. Nesse contexto, há cerca de 30 anos, surgiu um movimento internacional com vistas a qualificar a interação entre profissional e parturiente através do uso racional de tecnologia apropriada, conhecido no Brasil como humanização do parto (DINIZ, 2005). A humanização da assistência surge a partir de diversas reflexões acerca das práticas clínicas de atendimento e como uma crítica ao modelo médico dominante (DESLANDES, 2005). Na assistência ao parto, o corpo feminino ganha destaque ao ser redescrito como apto para o processo de nascimento, na maioria das vezes, sem intervenções e sequelas previsíveis. O parto deixa de ser um evento perigoso e ganha uma nova face onde são permitidos elementos antes considerados indesejáveis como dores, gemidos, contato corporal (DINIZ, 2005). A discussão em torno da humanização é uma versão brasileira para o movimento denominado “gentlebirth” nos países de língua inglesa, caracterizando o sentido de cuidado nas relações pessoais (DINIZ, 2001). Para a autora, os primeiros movimentos por um parto humanizado traduzia, de certa forma, uma reflexão acerca das práticas vigentes de assistência ao parto seguida de uma proposta de mudança que valorizasse a mulher e sua autonomia no processo de nascimento. Neste aspecto, o parto foi adquirindo novas abordagens e, a partir de 1950, surgia na Europa os primeiros movimentos pelo parto sem dor, através do método DickRead (parto sem medo); Lemaze e Leboyer (parto sem violência) seguindo 19 posteriormente para a vertente do parto natural defendido pelo movimento hippie. Nas décadas seguintes, com o advento do feminismo, outros modelos de parto foram redesenhados a partir dos direitos reprodutivos e sexuais femininos propondo uma abordagem psicossexual do parto defendido por ScheilaKitzinger, em 1985, e a redescrição da fisiologia do parto de Michel Odent, em 2000 (DINIZ, 2005). A proposta de parto ativo de Janet Balaskas, em 1996, propunha um foco ativo sob os aspectos físicos e emocionais da mulher, reintegrando-a ao processo parturitivo através de ações educativas que a fizessem assumir seu papel protagonista durante o parto e nascimento (DINIZ, 2001). Todas essas abordagens denotam um novo sentido para a organização da assistência ao parto convergindo em uma crítica ao acentuado uso de tecnologias que sinalizam a desvalorização e passividade da mulher no processo de parto e nascimento. O modelo de humanização propõe analisar criticamente a racionalidade do modelo atual que se apresenta para a assistência à saúde, destacando as ações relacionais, a centralidade do diálogo e a valorização dos sujeitos inseridos no processo de cuidados à saúde (AYRES; DESLANDES, 2005). Este novo modelo permite que os profissionais de saúde possam atuar de forma integrada e de acordo com as reais necessidades da mulher, superando a fragmentação da assistência tão presente no modelo atual de atenção ao parto, a fim de que as ações dos profissionais médicos e não médicos possam contribuir para um cuidado mais efetivo (DIAS; DOMINGUES, 2005). O conceito de humanização do parto valoriza a intersubjetividade e prima pelo estabelecimento de relações democráticas entre os sujeitos inseridos neste processo, convidando-os a refletir sobre a melhoria da comunicação e respeito às diferenças. Nesta perspectiva, a humanização da assistência se efetiva a partir de uma atuação concreta dos profissionais de saúde em estimular uma participação mais ativa da mulher, priorizando o uso de tecnologias de cuidado apropriadas na assistência obstétrica (DIAS; DOMINGUES, 2005). Vários estudos que se propuseram a estudar as tecnologias de cuidado utilizadas pela enfermagem evidenciaram que seu uso caracteriza-se pelas práticas que a enfermagem vem realizando para assistir ao trabalho de parto e parto, configurando-se em estratégias alternativas ao modelo vigente que favorece o uso da técnica em detrimento das relações humanas (KOERICH et al., 2006). O uso de tecnologias de cuidado para atender a parturiente abrange práticas específicas para o momento de trabalho de parto e parto e envolve ações não 20 farmacológicas para alívio da dor, práticas de conforto, movimentos que facilitem a passagem do feto pelos trajetos duro e mole, melhor dilatação do colo uterino e diminuição do tempo de trabalho de parto com boa evolução dos períodos de descida e expulsão (GOMES, 2010). Concordando com Progianti, Lopes e Gomes (2003) que o uso de tecnologias de cuidado na atenção obstétrica possibilita a experiência do parto como um momento mais íntimo para a mãe e filho, além de reconhecer a individualidade e suas necessidades específicas, acredita-se que essas práticas poderiam ser criadas como recursos do cuidado em enfermagem obstétrica. O uso de tecnologias do cuidado voltadas para a humanização do parto é consenso na literatura e, conforme as recomendações da OMS (1985), o suporte durante o parto é tido como uma prática de fortes evidências científicas sobre seus benefícios constituindo-se de: suporte emocional tais como encorajamento e motivação, medidas de conforto físico como toque, massagens e banhos, informações sobre a progressão do trabalho de parto, comunicação com a equipe e apoio familiar expresso pela presença de acompanhante no momento do parto (BRASIL, 2008). No contexto desta discussão, considera-se que o cuidado corporal seja uma forma de oferecer um suporte para o momento do parto, partindo da ideia de que a atividade física durante a gestação conforma-se como uma tecnologia de cuidado obstétrico. Entendemos que o preparo corporal deve acontecer durante todo o período gestacional a fim de promover um cuidado mais amplo à gestante, pois a prática regular de exercícios físicos, nesta fase, tem a finalidade de promover melhores condições cardiorrespiratórias, prevenção e redução de lombalgias, relaxamento, fortalecimento da musculatura pélvica, maior flexibilidade e tolerância à dor do parto (BATISTA et al., 2003). Partindo-se desta perspectiva surgiu o interesse em pesquisar sobre tecnologias inovadoras de cuidado que favoreçam a humanização do parto. Assim, buscou-se experimentar um programa de atividades físicas voltado para o fortalecimento dos tecidos abdominais e perineais envolvidos no parto com o objetivo de que o nascimento transcorra de forma saudável. A atividade física tem sido uma prática bastante divulgada como um elemento responsável por estimular a inserção e o fortalecimento de ações que visem respostas satisfatórias ao movimento de melhorias das condições de vida refletindo na adoção de 21 um estilo de vida saudável. O estilo de vida pode ser entendido como uma “forma de vida que se baseia em padrões de comportamentos identificáveis, determinados pela interação entre as características pessoais individuais, interações sociais e as condições socioeconômicas e ambientais” (OMS, 1998). Ainda de acordo com a OMS, a prática de atividade física é observada como um comportamento identificável no sentido de potencializar a qualidade de vida da população mediante práticas rotineiras de cuidado com o corpo, presumindo um estilo de vida ativo. Dessa representação deriva a formulação de que a atividade física se comporta como um meio de fortalecer a autoestima, de desenvolver mecanismos de autoajuda e de cuidados com o corpo. Diversos estudos epidemiológicos apontam para a ideia de adoção de um estilo de vida ativo como forma de compor melhor qualidade de vida à população (AMERICAN ASSOCIATION, COLLEGE 2007; OF SPORTS ANDREWS, MEDICINE/AMERICAN 1990; CASPERSEN, HEART POWELL, CHRISTENSON, 1985; CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION, 1997). Uma forma de vida mais ativa é fator de proteção e prevenção do surgimento de algumas doenças como diabetes, hipertensão, estresse, obesidade e doenças cardiovasculares. Desde a antiguidade, escritos gregos, romanos e orientais já traduziam uma associação positiva entre a prática de exercícios e a saúde procurando associá-la com os movimentos de recuperação, manutenção e promoção da saúde (MATSUDO et al., 2002). Embora, somente com pesquisas mais recentes tenha sido possível estabelecer tal relação. De forma consensual, a literatura aponta que a prática regular de atividade física influi diretamente sobre o desempenho pessoal do indivíduo causando, de maneira geral, uma melhoria substancial das condições de saúde física e mental. Caspersen, Powell e Christenson (1985) definem a atividade física como qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulte em gasto de energia, agrupando movimentos amplos como andar, subir escadas, atividades de lazer, esportivas e laborais. Já o exercício é definido como uma atividade física a ser realizada de forma planejada e sistematizada, ou seja, há uma regularidade quanto à frequência, duração e intensidade da atividade, objetivando aumento ou manutenção da aptidão física. 22 Relacionando a atividade física com o campo obstétrico, estudos apontam que a sua prática regular é altamente recomendada às gestantes por afetar, de forma positiva, diversos segmentos corporais. Todas as gestantes que não apresentam contraindicações devem ser estimuladas a realizar exercícios durante a gravidez a fim de contemplar o desenvolvimento cardiorrespiratório, de resistência muscular e alongamento (ARTAL; O’TOOLE, 2003). As evidências atuais mais fortes vêm demonstrando que a prática de atividade física realizada de forma sistemática durante o período gravídico resulta em efeitos seguros e benéficos para mãe e filho (MATIJASEVICH, DOMINGUES, 2010; TAKITO, BENICIO, 2010; TAKITO, BENICIO, NERI, 2009; CLAPP et al., 2002; BATISTA et al., 2003; SCHLÜSSEL et al., 2008; HAAKSTAD, BØ, 2011, NASCIMENTO et al., 2011). Estudo realizado no município de Rio Grande – RS, em 2007, sobre a prevalência de atividade física na população gestante constatou que 32,8% da amostra investigada relatou praticar alguma atividade física durante a gestação e ao associar esta prática com os desfechos maternos- infantis, verificou-se menor prevalência de cesárias e natimortos entre as mulheres que faziam exercícios na gestação (DUMITH, et al., 2012). Em todas as mudanças que ocorrem no corpo durante a gestação, os exercícios têm a função de auxiliar no alívio de dores comuns a esse período e no preparo dos músculos do assoalho pélvico para o nascimento, pois exercitando esses músculos com antecedência tem-se melhor controle sobre eles durante o trabalho de parto a fim de garantir boas condições durante o período expulsivo (KATZ, 1999). As novas diretrizes de atividade física, divulgadas em 2008, dedicam uma seção às gestantes e puérperas, garantindo que a prática regular de atividade física aumenta a aptidão cardiorrespiratória e metabólica sem aumentar os riscos para baixo peso ao nascer, prematuridade ou perda de gravidez precoce (DEPARTMENT OF HEALTH AND HUMAN SERVICES, 2008). Alguns estudos têm apontado que a prática sistemática de atividade física apresenta-se como fator de proteção para peso inadequado ao nascer (CLAPP et al., 2002; TAKITO, BENICIO, NERI, 2009; TAKITO, BENICIO, LATORRE, 2005), e prematuridade (DOMINGUES; BARROS; MATIJASEVICH, 2008), além da redução de dores lombares com aumento da flexibilidade (GARSHASBI; ZADEH, 2004), ampliando assim o consenso de que a prática regular de atividade física em diversos 23 momentos do período gestacional contribui positivamente para a saúde materna e desfechos ao recém-nascido. Observa-se assim que a prática de atividade física durante a gestação se mostra como um fator benéfico para mãe e filho e se integra como uma tecnologia do cuidado obstétrico, pois estabelece uma relação terapêutica entre os sujeitos, possibilitando um olhar diferenciado e especializado para a atenção à gestante. Nesta perspectiva, entende-se que as práticas em saúde mais atuais se alicerçam nos princípios do movimento humanístico que consiste em uma corrente de pensamento que faz uso de condutas não convencionais para caracterizar a assistência obstétrica, refutando o modelo médico-intervencionista (SEIBERT et al., 2005). Acredita-se que a prática de atividade física durante a gestação possa se caracterizar como uma ação de mudança das práticas no âmbito da humanização do parto, baseando-se em efeitos esperados sobre o parto e nascimento a fim de atender às necessidades individuais das parturientes. A utilização desses efeitos pretende garantir, portanto, uma assistência individualizada, segura e eficaz, significando a atividade física uma forma de cuidado prestado à mulher durante o ciclo gravídico-puerperal. Considera-se que a grande importância deste estudo reside no fato de que os seus resultados possam contribuir com a redução do número de partos operatórios e no encorajamento da mulher para o parto normal, uma vez que a divulgação de seus resultados pode estimular os sujeitos do processo – mulher e profissional – a atuarem de forma ativa na busca por mudanças na assistência obstétrica. Ressalta-se que a promoção da atividade física como uma proposta de inserção no campo de domínio das práticas obstétricas como oferta de cuidado integral à gestante/parturiente, configurando-se como um tipo de tecnologia de cuidado é uma ideia nova e que ainda não foi difundida através dos meios científicos. Sendo assim, esta pesquisa pretende ser um instrumento de apoio aos profissionais do cuidado obstétrico, capaz de aprimorar os cuidados ofertados incentivando a prática do parto normal com o mínimo de intervenção no processo. As perguntas que nortearam este estudo foram: a prática de exercícios físicos durante a gestação favorece o parto normal e repercute sobre as condições de parto e nascimento? O preparo corporal, através da prática de exercícios físicos, pode se constituir como uma tecnologia do cuidado na assistência à gestante? 24 Nesse sentido, este estudo se propõe a estudar os efeitos do exercício físico realizado durante a gestação sobre o parto e nascimento, a fim de contribuir para a qualificação da assistência obstétrica e humanização do parto e nascimento. 25 2. OBJETIVOS 2.1 GERAL Analisar as condições de parto e nascimento de um grupo de gestantes que participou de um programa de atividade física, a fim de integrá-lo como uma tecnologia do cuidado obstétrico. 2.2 ESPECÍFICOS Analisar a condução do trabalho de parto e do parto, as intercorrências e os cuidados obstétricos dispensados às parturientes a partir da internação hospitalar e após o nascimento; Analisar as condições de nascimento, peso ao nascer, idade gestacional ao nascer, escores de Apgar e principais complicações no nascimento; Analisar a associação entre a prática de atividade física e as vias de parto, condições maternas e de nascimento. 26 3. REVISÃO DE LITERATURA Apresentaremos a seguir os conceitos que embasam o corpo teórico deste estudo a fim de instigar uma reflexão acerca da relação entre a prática de atividade física realizada durante a gestação e as tecnologias do cuidado em enfermagem obstétrica. 3.1 O cuidado e as tecnologias em saúde para a sua concretização A palavra cuidado deriva do latim cura que, em sua forma mais antiga, expressava a atitude de cuidar da pessoa amada usualmente utilizada num contexto relacional de amor e amizade (BOFF,1999). Para este autor, o cuidar engloba o desenvolvimento de atitudes, que por sua vez geram muitos atos expressos através de comportamentos e exteriorização de um propósito. Segundo Ferreira (2004), cuidado significa responsabilidade, desvelo, cautela. Entretanto, o cuidado representa algo maior que um ato ou uma responsabilização pelo outro, pois faz parte da existência humana como afirma o filósofo alemão Martin Heidegger (1899-1976) conhecido como o filósofo do cuidado. A partir de Heidegger, Boff (1999) considera, de acordo com a argumentação do filósofo, que o cuidado deve ser observado do “ponto de vista existencial”, pois a priori em qualquer atitude o homem detém o cuidado, uma vez que faz parte do seu existir. Nessa perspectiva, o cuidado revela-se como uma atitude fundamental da natureza humana, significando um modo de ser, isto é, exprime a maneira pela qual o homem se estrutura com os outros e com todas as coisas existentes no mundo. O cuidado é inerente ao ser humano e, portanto, todas as suas ações estão imbuídas de cuidado. Waldow (2007) também compartilha da concepção de que o homem se expressa através do cuidado. A capacidade de cuidar encontra-se enraizada na natureza do humano e implica colocar-se no lugar do outro de maneira responsiva, capaz de desenvolver habilidades para exercitar e expressar o interesse por momentos específicos da vida do outro. O cuidado visto e entendido a partir de um modo de ser representa uma atividade de ajuda, em prol de algo ou alguém em situação de desfavorecimento, promovendo autorrealização e crescimento pessoal para aquele que exerce o cuidado (WALDOW, 27 2007). Nesse sentido, quando remetemos ao cuidado em saúde, essas características são expressas através do campo relacional estabelecido entre o profissional e o indivíduo. Segundo Koerichet al. (2006), para que o cuidado se estabeleça de forma efetiva, é preciso nos responsabilizar pela qualidade dos serviços prestados, usufruindo de toda a tecnologia possível em termos de estruturação de saberes e conhecimento em prol do usuário. A introdução do termo tecnologia no campo da saúde designou uma ampliação de seu significado sendo classificadas por Merhy (2000) em: tecnologias leves que compreendem as inter-relações humanas, tais como o acolhimento, a responsabilização e o vínculo; tecnologias leve-duras que englobam a estruturação do conhecimento e que permeiam os processos de trabalho em saúde, como a clínica médica e epidemiológica; e tecnologias duras constituídas por máquinas, equipamentos, exames que se expressam através de um trabalho sistematizado. O termo tecnologia tem sido relacionado, ultimamente, com a organização e sistematização de atividades, como é observado no processo de trabalho de enfermagem não sendo indicado somente para o desígnio de máquinas e equipamentos, pois conforme Meier (2004), a tecnologia de enfermagem reúne os conhecimentos científicos e empíricos na concretização do cuidado humano, pois é nesse momento que o enfermeiro expressa em seu processo de trabalho a reflexão analítica e ética de suas ações efetivadas no ato de cuidar. Para Koerichet al. (2006), produzir tecnologia é produzir objetos que podem ser tanto materiais quanto de ordem simbólica, a fim de satisfazer necessidades diversas. Considerando o trabalho de enfermagem, os materiais e equipamentos utilizados demandam um conjunto de conhecimentos para sua utilização, sendo considerados então tecnologias de enfermagem (MEIER, 2004). Assim, entende-se que o emprego da tecnologia no campo da saúde, especialmente na enfermagem é saber utilizar de forma coesa os saberes próprios desenvolvidos pela profissão a fim de ofertar um cuidado adequado às reais necessidades humanas, pois a tecnologia do cuidado em enfermagem se refere à produção e organização das ações humanas a fim de aprimorar o modelo de assistência vigente. Para tanto, as práticas em saúde não devem se respaldar somente em equipamentos e saberes estruturados, mas também na utilização das tecnologias de relação e subjetividade que se fundamentam e delimitam os modos de cuidar em saúde . 28 Sendo assim, a tecnologia pode ser entendida como uma mediadora entre a racionalidade e a subjetividade, configurando-se como uma estratégia intrinsicamente valiosa na operacionalização qualificada do cuidado. As tecnologias de cuidado são usadas para expressar a dimensão tecnológica do cuidado (SEIBERT, 2010) atravessando as práticas em saúde e colaborando com a construção e estruturação do conhecimento. A expressão tecnologias de cuidado é apresentada por Neves e Vargens (2003) apud Seibert (2010) como sendo “todas as técnicas, procedimentos e conhecimentos utilizados pelo enfermeiro durante o processo de cuidado do paciente”. Nessa compreensão, entende-se que o profissional deve usufruir de todos os meios para proporcionar ao usuário a melhor assistência disponível. Em se tratando da assistência de enfermagem, Rocha et al. (2008) discorrem que sua interligação com a tecnologia acontece pois a enfermagem está intimamente relacionada com princípios, leis, teorias e produzindo conhecimento científico que por sua vez é expresso através da tecnologia. Os conhecimentos de enfermagem são úteis na elaboração e aplicação de um modelo de cuidado que tal como a tecnologia segue um modo de fazer. Assim, podemos classificar o modelo de cuidado como tecnologia leve-dura, pois aglomera o saber estruturado com as normas que permeiam a realização do cuidado (ROCHA et al., 2008). Segundo as mesmas autoras, os modelos de cuidado são norteados por ações que garantem as necessidades do cuidador e do ser cuidado conferindo-lhe maior especificidade e qualificação, e desta forma, pode ser visto também como uma tecnologia leve. Portanto, entende-se que um modelo de cuidado é permeado por vários tipos de tecnologias cujo fim específico é garantir a excelência da exequibilidade do cuidado. No campo obstétrico, o cuidado revela-se de forma plural, pois se expressa através de uma variedade de ações não se limitando às questões de ordem puramente fisiológica relacionadas ao período gravídico-puerperal (TORRES; SANTOS; VARGENS, 2008). As tecnologias de cuidado operam de forma a incorporar ações através de práticas produzidas pelo conhecimento da enfermagem, com isso, a tecnologia permite a construção de um cuidado obstétrico menos reducionista e centrado na mulher como sujeito do processo de parturição. O uso de tecnologias de cuidado na atenção obstétrica presume estimular a criticidade da mulher para revelar-se como protagonista na vivência do seu parto e 29 nascimento. Tais condutas resgatam sua autonomia e afloram sua parturição como um momento mágico realizado através de práticas humanistas que respeitam a configuração fisiológica do parto e do universo feminino (PROGIANTI; LOPES; GOMES, 2003). Ao refletir sobre o uso de tecnologias no cotidiano das práticas de enfermagem, pode-se observar que o cuidado associa-se aos vários tipos de tecnologias existentes, com ênfase sobretudo nas tecnologias leves que permitem o desencadeamento de atitudes relacionais entre o cuidador e o ser cuidado, possibilitando maior vínculo, acolhimento, responsabilização e comprometimento para com o outro. Tais características conferem ao cuidado de enfermagem uma dimensão virtuosa, pois agrega nos planos pessoal e social os valores identificadores da profissão (SOUZA et al., 2005). Ao relacionar tecnologia com cuidado é importante considerar que à tecnologia é atribuído um significado para que possa operar no contexto de vida das pessoas de modo que não seja rotulada como algo que despersonaliza o cuidado de enfermagem, mas que intervenha de modo a potencializar seus objetivos (MARTINS; DAL SASSO, 2008). Desta forma, entende-se que as tecnologias de cuidado estão disponíveis para a qualificação do cuidado em saúde, considerando que depende dos conhecimentos científicos dos profissionais e atitudes intencionais de mudança possibilitando repensar nas intervenções realizadas no campo da saúde. 3.2 Os benefícios da atividade física no período gestacional A prática de exercícios físicos como ação benéfica sobre as condições de vida da população é descrita na literatura através de diversas evidências científicas, acentuandose a partir da década de 1990, quando esta relação começou a ser evidenciada também durante o período gestacional. Os estudos que têm contemplado os resultados sobre as condições de saúde maternas e fetais associados à prática de atividade física durante a gestação apresentaram um leve aumento nas publicações nos últimos anos, com uma concentração de estudos advindos de países desenvolvidos, especialmente dos Estados Unidos da América (SCHLÜSSEL ET AL, 2008). Em janeiro de 2002, o American College ofObstetriciansandGynecologists (ACOG) publicou as novas recomendações e diretrizes para a prática regular de 30 atividade física durante a gestação e puerpério, sendo reconhecidas como momentos propícios para a mudança de comportamentos e não vistos mais como períodos de confinamento (ACOG, 2002). As recomendações sugerem a realização do exercício físico como componente importante na prevenção e tratamento do diabetes gestacional e promove o estímulo para o desenvolvimento de atividades que incluam mulheres sedentárias e com algumas complicações clínico-obstétricas, com a ressalva de uma avaliação médica anterior à prática física. De acordo com o ACOG (2002), a realização de exercício regular durante o período gravídico é contra-indicado em mulheres com algumas complicações tais como: doença miocárdica, doença pulmonar restritiva, trabalho de parto prematuro, sangramento persistente no segundo ou terceiro trimestre, hipertensão induzida pela gravidez, arritmia cardíaca materna, diabetes mellitus descompensado, hipertensão essencial e histórico de sedentarismo extremo. Assim, todas as mulheres que não apresentam contraindicações devem ser estimuladas a realizar exercícios que contemplem o desenvolvimento cardiorrespiratório, de resistência muscular e alongamento (ACOG, 2002). A prática regular de atividades físicas é altamente recomendada às gestantes por afetar de forma positiva diversos segmentos corporais. Durante a gestação, o útero vai se modificando e aumentando seu tamanho e sua forma, provocando, consequentemente, um desvio do centro de gravidade e promovendo a hiperlordose da coluna favorecendo, assim, o aparecimento de dores lombares. A prática de exercícios físicos aliada à orientação correta da postura materna promoverá a adoção de uma nova postura, reduzindo e melhorando as lombalgias, além de aumentar a flexibilidade da coluna (GARSHASBI; ZADEH, 2004). A atividade física pode atuar de forma positiva também sobre as gestantes que apresentam diabetes gestacional, contribuindo para a estabilização da glicemia a níveis sanguíneos normais (BATISTA, et al., 2003). Em um estudo de revisão sistemática, estes autores encontraram dados que comprovam a eficácia da atividade física na prevenção do diabetes gestacional, quando controlado o efeito do Índice de Massa Corporal (IMC) nas mulheres estudadas. As vantagens da atividade física se ampliam ainda para o campo psicológico, pois através da prática corporal a gestante pode desenvolver sua autoestima, 31 autoimagem e aperfeiçoar a convivência social de maneira cooperativa e satisfatória (HARTMANN; BUNG, 1999). Em outros tempos, predominava o pensamento de que a atividade física durante a gestação pudesse estimular as contrações uterinas acelerando o processo do parto, no entanto, atualmente, parece ser consenso na literatura o efeito protetor da atividade física sobre a prematuridade (MATIJASEVICH; DOMINGUES, 2010, OMS, 1998). Matijasevich e Domingues (2010) argumentam que o exercício físico tem se comportado como um fator benéfico para evitar a prematuridade e, quando realizado no terceiro trimestre de gestação, sua proteção é aumentada, apesar dos níveis de atividade física decaírem com o passar dos trimestres, justificados por limitações biomecânicas e falta de informação para a reorientação das práticas. Os benefícios sobre o parto e sua facilitação que ocorrem pela prática de atividade física durante a gestação são explicados por Gallup (1999) ao dizer que a liberação de estrogênio na corrente sanguínea promove o relaxamento muscular e o afrouxamento de tendões e ligamentos que, em concomitância com exercícios físicos, promovem melhor flexibilidade articular facilitando a passagem do feto pelos trajetos duro e mole. Quanto à redução das dores durante o parto, deve-se considerar que as mulheres que se exercitam regularmente no período gestacional obtêm maior tolerância à dor quando comparadas àquelas que não possuem um volume de atividade física recomendado (HARTMANN; BUNG,1999). Todos esses resultados que apontam para uma interferência positiva da atividade física sobre o desenvolvimento da gestação e parto permitem uma reflexão sobre o estímulo e manutenção de estilos de vida ativos para as mulheres, durante o período gravídico, uma vez que as evidências apontam para benefícios maternos e fetais. De forma geral, a atividade física na gestação amplia seus benefícios para além do corpo materno e resultados intraparto sugerindo benefícios que se estendam também para o feto. Estudos não relatam associação prejudicial entre a realização de atividade física no período gestacional com ganho inadequado de peso fetal ou prematuridade, salientando, porém, que as atividades de sobrecarga ou trabalho prolongado em posição ortostática podem comprometer as condições de nascimento. Takito, Benicio e Neri (2009) descrevem os resultados fetais para mulheres que realizavam atividades laborais durante a gestação, atestando que para as variáveis baixo peso ao nascer e prematuridade havia associação positiva quando esta mulher 32 permanecia mais de 6 horas ininterruptas na posição ortostática e/ou realizava tarefas de maior sobrecarga física. Diversas evidências também sugerem que a participação de mulheres em atividades físicas de intensidade moderada, durante a gravidez pode aumentar o peso do recém-nascido, enquanto que exercícios de intensidade vigorosa podem resultar em bebês com peso menor que o adequado para a idade gestacional (SPORT MEDICINE AUSTRALIA, 2002). Tambem há evidências de associações positivas entre realização de atividade física pela gestante com bons escores de Apgar. Estudo realizado por Clapp (1990) analisou a continuação de um programa aeróbico, durante a segunda metade da gravidez, com 131 mulheres que se exercitaram antes e durante a gestação, e concluiu que o grupo de gestantes que manteve o regime de treino indicado obteve nascimentos com índice de Apgar > 7 (50%) em comparação ao grupo que não manteve o mesmo ritmo de exercícios (26%). De forma geral percebe-se que os estudos empenhados em tratar das associações entre a prática de atividade física, durante o período gestacional, e as condições materno-fetais apresentam, em sua maioria, resultados satisfatórios atestando que manter um estilo de vida ativo é importante para qualquer pessoa, em qualquer faixa etária e em qualquer fase da vida, inclusive durante a gestação. 3.3 A atividade física no período gestacional: uma nova tecnologia de cuidado A produção tecnológica e sua relação com a enfermagem tem possibilitado um avanço nas práticas em saúde, pois estimula o profissional a utilizar todos os meios possíveis para suprir as necessidades dos indivíduos e superar as dificuldades peculiares da profissão. O cuidado de enfermagem, apesar de seu caráter humanista, sofreu grandes transformações com o advento da tecnologia que moldou suas práticas e, sobretudo aperfeiçoou suas técnicas caracterizando-se em um elemento capaz de contemplar as demandas sociais. O uso da tecnologia para o cuidado tornou-se uma alternativa criativa a fim de suplantar as circunstâncias atreladas às precariedades das condições de trabalho ou a situações de exigência de uso de técnicas convencionais para solução de problemas e possibilitar a ampliação e qualificação do cuidado prestado (KOERICH et al., 2006). 33 Na atenção ao parto, dentre as práticas realizadas pela enfermagem para assistir a mulher e seu bebê destacam-se: orientações, estímulo à deambulação, mudança de posição durante os estágios clínicos do parto, massagens, relaxamento, banho de aspersão, imersão em banheira, suporte psicológico e nutricional, uso de compressas geladas ou mornas, etc (GOMES, 2010). Tais práticas têm sido estimuladas na atenção obstétrica por proporcionar satisfação à mulher e seu acompanhante e caracterizam-se como estratégias alternativas ao modelo tecnocrático vigente, e possibilitam a experiência do parto como um momento íntimo, podendo ser vivenciado pela mulher e sua família como parte de um processo que marca o início de uma nova etapa da vida, sendo importante proporcionar um ambiente calmo, seguro e confortável onde os cuidados realizados possam harmonizar as relações estabelecidas entre a parturiente e o profissional (BRASIL, 2008). As tecnologias inovadoras para atender a parturiente geralmente são utilizadas somente no momento do trabalho de parto e parto. Acreditamos que o cuidado corporal deve ser exercido durante todo o período gestacional e não apenas em uma parte dele, pois ao retomar a ideia de que os exercícios físicos praticados durante a gestação possibilitam um preparo mais adequado para o parto conclui-se que as condições de parto e nascimento serão mais favoráveis a resultados benéficos. Então, sugere-se a inclusão desta prática durante a atenção pré-natal com a intenção de qualificar a assistência e ofertar um cuidado integral à gestante. Acredita-se que a atividade física realizada durante o período gestacional possa configurar-se como uma tecnologia envolvida no trabalho em saúde, pois através de suas ações podem ser expressos a utilização de equipamentos próprios (tecnologia dura) e saberes tecnológicos estruturados (tecnologia leve-dura) que operam através de tecnologias de relação, encontros e subjetividades (tecnologia leve) a fim de proporcionar um cuidado integral à mulher durante o período gravídico-puerperal. Segundo Koerichet al. (2006), no processo de trabalho em saúde o encontro entre profissional e usuário apresenta um objetivo, uma intencionalidade, ou seja, projeta-se no outro as expectativas, conhecimentos e representações como um modo de elaborar as necessidades em saúde, desta forma, entende-se que a atividade física voltada para o cuidado obstétrico pode ser utilizada como uma tecnologia capaz de proporcionar tais elementos ao processo de cuidado. 34 Acredita-se que a prática de atividade física pelas gestantes configure-se como uma nova abordagem do cuidado obstétrico ao utilizar seus conhecimentos para estimular uma participação mais ativa da mulher e sua família onde a presença do profissional seja constante a fim de preconizar um suporte físico e emocional adequado. Esta abordagem contempla a integralidade da assistência e garante à mulher maior seguridade no momento do parto corroborando os princípios do parto humanizado e proporcionando um cuidado de forma integral. 35 4. METODOLOGIA 4.1 Desenho do estudo Para melhor atingir os objetivos propostos, optou-se por um estudo longitudinal, do tipo intervenção quase- experimental, que acompanhou um grupo de gestantes desde o pré-natal até o parto, sendo que parte delas participou de um programa de exercícios físicos durante o período gravídico. O termo “estudo de intervenção” é utilizado quando o pesquisador modifica intencionalmente o fator de exposição que intervém sobre o estado de saúde do indivíduo, utilizando-se de algum esquema profilático ou terapêutico. Estes estudos podem ter ou não grupo controle e serem caracterizados como quase-experimentais que se referem a uma condição em que o pesquisador não tem controle total sobre a alocação dos indivíduos e/ou a utilização da intervenção, porém conduz o estudo como um experimento verdadeiro (ESCOSTEGUY, 2002). Deste modo, o objetivo deste estudo foi analisar a relação causal entre uma variável exposição, representada pela prática de exercícios físicos, com as variáveis desfecho que envolvem as condições de parto e nascimento através da realização de um programa de exercícios físicos. 4.2 Local do estudo Foram delimitadas Unidades de Saúde circunvizinhas ao local onde seria realizada a prática corporal, considerando a limitação de recursos humanos, materiais/equipamentos e financeiros para a execução da mesma. Sendo assim, foram selecionados quatro cenários diferentes para o desenvolvimento do estudo que envolveu unidades de Estratégia Saúde da Família (ESF), uma instituição social do município de Cuiabá, um parque aquático e por último, hospitais conveniados com o Sistema Único de Saúde (SUS) que realizam partos no município. Conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá, existem 65 unidades de ESF no município, destas, 62 são urbanas e 3 são rurais. Essas unidades são localizadas em 4 regiões: região norte, sul, leste e oeste (SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DE CUIABÁ, 2013). Foram escolhidas 18 unidades de saúde de acordo 36 com a localização geográfica dos locais de aplicação do projeto de intervenção e que compreendem as regiões leste e sul. A instituição social, com qual foi firmada parceria, foi criada no ano de 2012 pela Prefeitura de Cuiabá (gestão 2010-2012) com a finalidade de implementar vários projetos a fim de contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população mais vulnerável. Oferecia a realização de diversas atividades dentre elas: capoeira, grafitagem, corte e costura, panificação, atividade física, dentre outras. Sua escolha deveu-se ao fato de realizar projetos sociais com as parcelas mais carentes da comunidade, pelo interesse em realizar atividades educativas com o público desejado e por deter de um espaço físico adequado para a realização das atividades propostas pela pesquisa. Para a realização dos exercícios físicos na água foi disponibilizado o parque aquático da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) cedido pela Faculdade de Educação Física (FEF) pertencente a esta instituição. A estrutura existe há 35 anos dispondo de 3.052.340 m3 de litros d’água e oferece diariamente atividades aquáticas como natação e hidroginástica. Seu acesso é restrito a alunos, funcionários e comunidade mediante apresentação de documento que comprove a participação nas atividades. No ano de 2012, seu espaço físico passou por adequações estruturais para melhor atender a população. Para finalizar o seguimento desta pesquisa e compor mais um local de obtenção de dados, foram selecionadas 3 instituições hospitalares classificadas como Serviços de Referência da rede SUS que disponibilizam os leitos obstétricos no momento do parto para todas as gestantes que necessitam. Assim, fizeram parte desta pesquisa 1 hospital público e 2 particulares conveniados à rede SUS sendo que 2 são hospitais universitários. 4.3 Amostra populacional A população amostral desta pesquisa foi composta de 173 gestantes em acompanhamento pré-natal nas unidades de ESF do município, durante o período de julho de 2012 a maio de 2013. Para a determinação do valor numérico da amostra, optou-se por utilizar a amostragem não-probabilística, quando não se conhece a probabilidade de cada unidade 37 amostral pertencer à amostra, sendo neste caso escolhido o tipo por conveniência. A amostragem por conveniência é quando o pesquisador seleciona membros da população mais acessíveis por alguma conveniência (CALLEGARI-JACQUES, 2003) que no caso do presente estudo foi a determinação das unidades de ESF. Quanto à formação dos grupos de comparação (grupo expostos e não expostos), a seleção das participantes foi pareada uma a uma, segundo as características sócio demográficas, gestacionais e clínicas. Assim, foi realizada primeiramente a identificação dos membros do grupo exposto e, posteriormente, a seleção das gestantes não expostas ao fator para servir de grupo controle. As interessadas em participar do programa de exercícios físicos compuseram o grupo dos expostos totalizando 50 gestantes e aquelas que não demostraram interesse em participar formaram o grupo dos não expostos registrando 123 mulheres. As gestantes selecionadas atenderam aos seguintes critérios de inclusão: ser adolescente, primigesta, nulípara, realizar pré-natal, não apresentar risco gestacional, manifestar desejo em participar de todas as atividades propostas e assinar o termo de consentimento livre e esclarecido subscrito por um responsável com maioridade civil (Apêndice C). O fato da nuliparidade e da primeira gestação serem critérios de inclusão do estudo justificam-se para diminuir os elementos que pudessem se comportar como fatores de confundimento no momento da análise dos dados, uma vez que a evolução do parto em multigestas e multíparas ocorre de forma mais breve (GOMES, 2010). A escolha por gestantes adolescentes ocorreu para homogeneizar as características anátomo-fisiológicas e psicológicas do grupo de primigestas. Foram consideradas perdas as gestantes que tiveram seus partos em hospitais particulares ou em outro município. 4.4 Passos metodológicos para a coleta de dados A coleta de dados foi realizada em várias etapas: 1º momento – busca pelos participantes da pesquisa; 2º momento – realização do projeto de intervenção; 3º momento – informações do parto e nascimento. Todas as fases que nortearam a coleta de dados desta pesquisa estão descritas a seguir. 38 4.4.1 Momento 1 – Procedimento de coleta de dados na busca pelos participantes da pesquisa Os trabalhos em campo iniciaram-se no mês de julho de 2012 e o ponto de partida para a seleção das gestantes foi estas estarem inscritas no programa de pré-natal na rede SUS. Para isso, foram realizadas visitas diárias às unidades de ESF escolhidas a fim de identificar, contatar e conhecer as gestantes que se enquadravam na proposta do estudo. Primeiramente, houve uma visita às unidades de ESF a fim de buscar apoio na procura pelas gestantes. Inicialmente, foi realizado um contato com a enfermeira da unidade e após identificação e explanação dos objetivos da pesquisa, foi solicitada ajuda para obtenção dos registros das gestantes adolescentes pertencentes àquela área, por meio do livro de acompanhamento do pré-natal. A seguir foi requerido também que as Agentes Comunitárias de Saúde (ACS) entrassem em contato com as gestantes selecionadas e marcassem um encontro posterior para explicação do projeto. Em um segundo momento, foi realizado em cada unidade de ESF um encontro com estas gestantes e a proposta do estudo foi apresentada. Neste momento, foi aplicado parte de um questionário (Apêndice A) contendo perguntas abertas e fechadas. Quanto à estrutura do mesmo, as perguntas foram divididas em 3 sessões denominadas dados pessoais, dados de acompanhamento individual de consultas de pré-natal e dados do parto e nascimento, respectivamente. Os dados de identificação das participantes foram preenchidos neste questionário pela pesquisadora e por duas alunas de iniciação científica que colaboraram com a pesquisa. 4.4.2 Momento 2 – Projeto de pesquisa: Oficina do corpo Para a realização desta pesquisa foi proposto inicialmente um projeto de intervenção a realizar-se com gestantes em acompanhamento de pré-natal no município de Cuiabá. O projeto abrangeu a criação de um grupo de gestantes que pudesse participar integralmente de atividades relacionadas ao preparo físico para o momento do parto, além de contemplar ações educativas com instruções acerca de cuidados durante o parto e puerpério intitulada de Oficina do Corpo. Durante a realização das atividades propostas, as gestantes também realizaram atividades manuais tais como a confecção de 39 algumas peças para seus próprios enxovais e a técnica de massagem Shantala como um recurso de cuidado ao recém-nascido. Todas as atividades realizadas pelas gestantes durante a operacionalização da oficina do corpo foram fotografadas (Apêndice D). Este projeto foi registrado como uma atividade de extensão na coordenação de extensão (CODEX) da UFMT intitulado: “Gestante movi-mente-se” que obteve a colaboração de 8 alunos voluntários do curso de graduação em enfermagem da UFMT, 2 alunas de enfermagem bolsistas de iniciação científica, 1 nutricionista, 3 enfermeiras e 2 educadoras física. As atividades propostas pela oficina do corpo foram realizadas no salão de uma instituição social do município, no parque aquático e no laboratório de práticas interativas da Faculdade de Ciências Médicas da UFMT. Foram disponibilizadas 50 vagas para o desenvolvimento da oficina. A delimitação do número de vagas ocorreu conforme a disponibilidade do recurso financeiro e humano e a execução das atividades foi conduzida por profissionais da educação física e da enfermagem. As atividades referentes à oficina iniciaram-se em julho de 2012 e finalizaram em dezembro de 2013. Quanto ao preparo físico para o momento do parto, foi elaborado um programa de exercícios físicos que objetivava ganho de flexibilidade e fortalecimento dos músculos do assoalho pélvico, com consequente melhora da coordenação motora, do equilíbrio e da função cardiorrespiratória através de exercícios em solo e em imersão até o apêndice xifoide. O programa de treinamento físico teve 16 sessões que foram aplicadas durante 8 semanas consecutivas. As atividades referentes às ações educativas contemplaram instruções sobre os sinais de trabalho de parto e parto, posições para o parto, importância da atividade física durante a gravidez e no parto, cuidados com o recém-nascido, aleitamento materno e cuidados no puerpério. O grupo que participou da oficina do corpo foi composto inicialmente por 50 gestantes. Os exercícios eram intercalados, ou seja, em uma semana eram realizados em solo e em outra eram realizados em meio líquido com profundidade que variava de 90 cm a 1.10 m, de acordo com a altura dos indivíduos. As sessões foram realizadas individualmente e em duplas e tinham duração de 60 minutos, sendo os primeiros 15 minutos destinados a exercícios de alongamento e aquecimento, 30 minutos para o treinamento de atividades motoras e os 15 minutos finais de volta à calma e alongamento da musculatura sendo realizados com frequência 40 de 2 vezes por semana e totalizando 120 minutos semanais, com intensidade leve a moderada. Essas recomendações seguem as normas do ACOG para exercícios durante a gravidez e puerpério publicadas em 2002. Os exercícios físicos foram elaborados e aplicados pela própria pesquisadora. Para o controle do ritmo dos exercícios realizados em solo optou-se pela regulação através do número de repetições. Já na água, como a velocidade variava de acordo com a inserção de flutuadores como mecanismos de resistência e aumento do grau de dificuldade, optou-se por realizar a contagem por períodos de tempo e não por repetições. Durante a fase de desenvolvimento da oficina do corpo foi realizada uma avaliação física com todas as gestantes antes da sessão inicial e após a última sessão de exercícios. Os dados que compõem as mensurações antropométricas, grau de flexibilidade articular e composição corporal foram anotados na ficha de dados físicos (Apêndice B). O procedimento de avaliação física dos indivíduos está descrito a seguir. 4.4.2.1 Procedimento para avaliação física: A avaliação física foi realizada em dois momentos: antes da primeira sessão de exercícios e após a última sessão, com a finalidade de avaliar a evolução do peso, do Índice de Massa Corporal (IMC), do grau de flexibilidade articular e da composição corporal dos sujeitos. Para compor a avaliação física foram realizadas as seguintes medições: Peso (P): medido através de balança digital da marca Ironman InnerScanBodyComposition Monitor (Model: BC-558); Estatura (Est): realizada com fita métrica; Índice de Massa Corporal (IMC): relação do peso/estatura2 Frequência Cardíaca (FC): mensurada na artéria radial em um minuto Pressão Arterial (PA): através de esfigmomanômetroaneróide e um estetoscópio. Composição Corporal (CC): foi utilizado um analisador de composição corporal da marca Maltron-BodyCompositionAnalyser BF-907 Operating Manual e eletrodos adesivos descartáveis ME 4000. 41 Flexibilidade Articular (FA): medida através do flexímetro (sistema para mensuração da amplitude do movimento articular) da marca Sanny. As participantes foram orientadas a comparecerem no local portando vestimentas leves e confortáveis. Para o início da coleta, cada gestante permanecia sentada em situação de repouso por dois minutos, com o braço estendido e apoiado na altura do coração. Neste momento era realizada aferição da FC e da PA sistólica e diastólica. Logo após, a gestante era conduzida até a balança para aferição de seu peso e posteriormente a sua estatura. Em seguida, era posicionada em decúbito dorsal em um colchonete e quatro eletrodos eram dispostos em um lado do seu corpo, determinou-se nesta pesquisa o lado direito. Dois eletrodos eram colocados no dorso do pé e os outros dois eram colocados próximos à articulação do punho, e a eles eram conectados quatro fios, respectivamente, e assim uma corrente elétrica imperceptível passava sob o corpo da gestante com a leitura da quantidade de gordura corporal, massa livre de gordura e água corporal. Por último, era avaliado o grau de flexibilidade angular das articulações do ombro e do quadril. Para a avaliação da articulação do ombro, a gestante acomodava-se em uma cadeira, com o tronco ereto e com a postura estabilizada, o flexímetro era então posicionado no braço, acima do cotovelo (posição meso-umeral) com o mostrador voltado para o avaliador e ajustado no ponto zero. O movimento inicia-se na posição anatômica com o braço ao longo do corpo e com a realização da amplitude máxima. Para a mensuração da flexibilidade da articulação do quadril, as gestantes eram orientadas na posição inicial em pé com os membros inferiores unidos e estendidos e apoiadas sobre a cadeira para auxiliar na estabilização da postura. Quanto à avaliação do movimento de abdução, o flexímetro foi colocado na face posterior da coxa da avaliada com o mostrador voltado para o avaliador e ajustado no ponto zero. Então era solicitado que a gestante fosse deslizando os membros lateralmente para abrir um espacate. Os joelhos deveriam estar estendidos e os pés paralelos, o alinhamento do tronco deveria ser mantido para evitar a projeção do quadril para trás. Para a avaliação do movimento de adução, a gestante continuava na posição inicial com o flexímetro posicionado na face anterior da coxa e com o mostrador voltado para o avaliador no ponto zero. O tronco e o quadril eram estabilizados para a execução do movimento que consistia no deslocamento de um dos membros inferiores em direção à linha média do corpo. Ambos os movimentos deveriam ser realizados com amplitude máxima e eram demonstrados 42 previamente pelo avaliador. Todos estes dados foram anotados na ficha de dados físicos (Apêndice B). 4.4.3 Momento 3 – Procedimento de coleta de dados do parto e nascimento A coleta de dados referentes aos partos dos sujeitos do estudo foi realizada nos prontuários dos hospitais selecionados através de análise documental. De acordo com a identificação dos sujeitos, foi solicitada aos hospitais a disponibilidade dos registros. Todos os dados foram anotados na seção 3 do questionário (Apêndice A) que contém dados referentes ao parto e nascimento. Esta coleta se deu no período de dezembro de 2012 a maio de 2013. 4.5 Variáveis do estudo As variáveis estudadas foram divididas em variáveis de exposição e desfecho. De acordo com os objetivos do estudo, a variável de exposição foi a atividade física realizada durante o período gestacional e as variáveis de desfecho englobaram as características clínico-obstétricas e de nascimento. As características sóciodemográficas foram coletadas e apresentadas de forma descritiva e compreenderam: idade, raça/cor, situação conjugal, escolaridade e ocupação. Em relação às clínico-obstétricas, referem-se ao tipo de parto, duração do trabalho de parto e do período expulsivo, uso de episiotomias, ocitocina, indicações de cesarianas, tipo de ruptura de membrana amniótica e momento que a ruptura ocorreu, presença de comorbidades, intercorrências durante o trabalho de parto, parto e puerpério. As características do nascimento englobam os dados do boletim de Apgar, peso ao nascimento, idade gestacional e intercorrências no nascimento. 4.6 Tratamento e análise dos dados Os dados foram processados pelo programa Epiinfo versão 3.5.2 e para a análise dos dados foram utilizadas técnicas estatísticas descritivas e inferenciais. Na parte descritiva foram utilizadas medidas de posição (média, mediana, moda) e de dispersão (variância, desvio padrão). A distribuição dos dados foi apresentada 43 segundo a frequência absoluta e relativa de cada dado, representados por meio de tabelas. Para a inferência estatística sobre os dados, as variáveis de exposição e desfecho foram analisadas individualmente e conjuntamente. A fim de estimar o risco de cada variável sobre o desfecho a ser estudado foi utilizada medida de risco através do risco relativo (RR). Foi considerado um Intervalo de Confiança (IC) de 95%, erro de amostragem de 5,00% e a proporção a ser estimada de 0,5 (p < 0,5), por ser a de maior variabilidade e a que leva à obtenção de tamanhos de amostras conservadores. 4.7 Fonte financiadora A pesquisa foi subsidiada com recursos provenientes de bolsa de mestrado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES. 4.8 Teste piloto Antes do início da coleta dos dados nos prontuários, foi realizado um teste piloto a fim de testar o instrumento. Os prontuários que fizeram parte do teste piloto foram descartados da pesquisa. Depois disso, os instrumentos foram reformulados de acordo com o que se detectou como necessidade de mudança no momento das coletas. 4.9 Aspectos Éticos Para atender aos aspectos éticos, os pesquisadores se propuseram assegurarassistência integral àsgestantesdurante o desenvolvimento da pesquisa, atendendodúvidas e esclarecimentosdurante a gestação e diagnósticosobre o parto. O projeto de pesquisa foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Júlio Müller, atendendo à Resolução nº 466 de 12 de dezembro de 2012 do Ministério da Saúde para pesquisa envolvendo seres humanos, obtendo aprovação para o seu desenvolvimento através do Parecer nº 112.146. 44 5. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os resultados deste estudo serão apresentados a seguir sob a forma de dois manuscritos científicos buscando responder aos objetivos propostos. O primeiro deles utiliza os dados levantados através de análise documental nos prontuários clínicos e visa analisar as práticas obstétricas e os resultados maternos e fetais da assistência prestada no contexto do SUS no município de Cuiabá- MT. O segundo manuscrito, baseado na intervenção através da prática de um programa de exercícios físicos com um grupo de gestantes, tem como objetivo analisar o impacto da atividade física realizada durante a gestação sobre as condições de parto e nascimento, a fim de integrá-la como uma tecnologia do cuidado obstétrico. 45 5.1 CARACTERIZAÇÃO DAS CONDIÇÕES DE PARTO E NASCIMENTO DE GESTANTES PRIMIGESTAS NO MUNICIPIO DE CUIABÁ-MT Labor and delivery conditions characterization of the first time pregnant women in Cuiabá - MT Caracterización de las condiciones del parto y nacimiento para mujeresembarazadas primigestas enelmunicipio de Cuiabá- MT RESUMO O objetivo foi analisar as práticas obstétricas e os resultados maternos e fetais da assistência prestada no contexto do SUS no município de Cuiabá- MT. Estudo descritivo, de abordagem quantitativa com coleta de dados realizada através da análise documental dos prontuários de 160 gestantes selecionadas por amostragem nãoprobabiliística. As variáveis estudadas foram: dados sóciodemográficos, as práticas obstétricas e as intercorrências maternas e fetais. Os resultados indicaram que o parto cesáreo apresentou taxa de 38,1%, a amniotomia foi adotada em 62,6%, a ocitocina em 59,6% e a episiotomia em 81,8%. Adesproporção céfalo-pélvica representou 27,9% das indicações de cesariana e dentre as complicações maternas, a hemorragia destacou-se em ambos os tipos de parto. Conclui-se que um bom nascimento não depende de um número abusivo de intervenções durante o parto e que ações educativas e de reflexão sobre o processo de trabalho possam contribuir para as transformações necessárias da prática profissional. Palavras chave: Parto humanizado; Enfermagem; Saúde da mulher. ABSTRACT The purpose of this is to analyze the obstetric practice and maternal and fetal results of the assistance provided by the brazillian public health care service provided by SUS (Sistema Único de Saúde) in Cuiabá - MT . Descriptive study and its quantitative approach, the data collection was accomplished through the analysis of the medical records of 160 women selected by sampling. The variables approached were: sociodemographicdata , obstetric practice and maternal and fetal outcome . The results showed that the Cesarean section rate is 38.1 % , the amniotomy was used in 62.6 % , oxytocin in 59.6 % and episiotomy in 81.8 % . The cephalo - pelvic disproportion is responsible for 27.9% of the indications for cesarean section, hemorrhage stood out in both types of delivery . The final result is: a good birth is not dependent on an abusive number of interventions during labor and education and reflection on the work process actions can contribute to the necessary transformation of professional practice. Key words: Humanizingdelivery; Nursing; Woman’shealth. RESUMEN El objetivo fueanalizarlasprácticas obstétricas y los resultados maternos-fetales de laasistencia dada relacionada al SUS en Cuiabá-MT. Estudiodescriptivo, con enfoque cuantitativo y conrecogida de datos por análisis documental de los expedientes médicos de 160 embarazadas por selecciónal azar no probabilística. Lasvariablesestudiadasfueron: datossocio demográficos, lasprácticas obstétricas y lascomplicaciones materno fetales. Los resultados indicaron que los partos por cesáreas 46 presentarontasa de 38,1%, laamniotomíafue adoptada en 62,6%, la oxitocina en 59,6% y laepisiotomíaen 81,8%. La desproporcióncéfalo pélvica representóel 27,9% de lasindicaciones para la cesárea y entre lascomplicaciones maternas la hemorragia se destacóen ambos tipos de partos. Se concluye que unbuennacimiento no depende de un número abusivo de intervenciones durante el parto y que lasacciones educativas y de lareflexión acerca delproceso de trabajopuedan aportar a lastransformacionesnecesarias de laprácticaprofesional. Palabras clave: Parto humanizado; Enfermería; Salud de lamujer INTRODUÇÃO O modelo vigente de atenção ao parto no Brasil tem caracterizado a assistência obstétrica como altamente tecnicista, cujo emprego demasiado de intervenções no processo do trabalho de parto tem proporcionado efeitos danosos para a saúde materna e fetal (DINIZ, 2009). Neste modelo, os elevados índices de partos cirúrgicos e uso rotineiro de ocitocina, episiotomia e amniotomia durante o trabalho de parto associamse ao aumento de riscos e desconfortos físicos à mulher, além de contribuir com o aumento significativo de partos prematuros devido à interrupção eletiva e sem indicação clínica precisa para sua resolução (SILVEIRA et al., 2008). Dados do Ministério da Saúde demonstram que a taxa de cesarianas, considerada um importante indicador relativo ao modelo assistencial, alcançou 53,7% dos partos realizados nos serviços públicos e privados brasileiros (BRASIL, 2013). Ainda em relação às tecnologias usadas no trabalho de parto e parto, estudo realizado em um Hospital geral de Itapecerica da Serra, em 2001, demonstra que, o uso de ocitocina, outro indicador importante do modelo de parto vigente, registrou uma taxa de 58,8% enquanto que a amniotomia representou 36,5% das práticas intervencionistas realizadas com mulheres submetidas à cesariana sem indicação prévia (FOGAÇA, SCHNECK, RIESCO, 2007). Diante disso, o Ministério da Saúde lançou em 2000 o Programa de Humanização do Parto e Nascimento (PHPN) com ações que promovem a integralidade, a promoção da saúde e a humanização da assistência ao parto, priorizando a mudança de conduta e de procedimentos que reduzem a ocorrência de intervenções desnecessárias e valorizem o parto vaginal (BRASIL, 2002). Apesar do aumento da cobertura de prénatal e parto, no país, observa-se que na condução da assistência obstétrica, as mulheres e os recém-nascidos morrem, tanto pela falta como pelo excesso de tecnologia inapropriada no parto (DINIZ, 2009). 47 Com a introdução do modelo humanizado do parto, baseado na readequação das práticas vigentes, as ações em saúde passaram a reconhecer critérios para qualificar as consultas e promover o vínculo entre a assistência ambulatorial e o momento do parto, a realizar-se de forma integrada e com intervenções que tivessem fortes evidências de que são efetivas (SERRUYA; LAGO; CECATTI, 2004). No entanto, existem fortes indícios de que o modelo tecnicista ainda é predominante sob as práticas obstétricas realizadas nas instituições de saúde do país. Assim, buscou-se realizar um estudo que possibilite refletir sobre a prática obstétrica realizada à mulher e ao recém-nascido durante o parto, considerando as especificidades da primiparidade, uma vez que, nesta condição, a mulher apresenta particularidades fisiológicas e emocionais que influenciam o transcurso do parto. Nessa perspectiva, justifica-se a relevância do presente estudo, pois o direcionamento das práticas obstétricas de acordo com a perspectiva da humanização do parto compreende um atendimento centrado na mulher de forma individualizada e respeitando a fisiologia natural do parto, resultando em condições maternas e fetais satisfatórias e culminando na qualificação da atenção obstétrica. Em face disso, desenvolveu-se um estudo que teve como objetivo analisar as práticas obstétricas e os resultados maternos e fetais da assistência prestada no contexto do SUS no município de Cuiabá- MT. METODOLOGIA Estudo transversal, descritivo com abordagem quantitativa. É um recorte da pesquisa maior intitulada “O uso de tecnologias inovadoras de cuidado na humanização do parto”. Os dados foram coletados a partir da análise documental dos prontuários de 160 gestantes. Foram incluídas as gestantes em acompanhamento pré-natal nas unidades de ESF previamente selecionadas para o estudo por pertencerem a área de atuação da Universidade Federal de Mato Grosso através de amostragem não probabilística do tipo por conveniência. O instrumento de coleta de dados consistiu em um questionário estruturado contendo dados da gestante a dados sobre o parto e nascimento. A coleta foi realizada em 3 instituições hospitalares conveniadas ao SUS do município de CuiabáMT, no período de dezembro de 2012 a maio de 2013. As variáveis estudadas foram: dados sóciodemográficos, as práticas obstétricas e as intercorrências maternas e fetais. 48 Adotaram-se como critérios de inclusão os partos ocorridos em mulheres adolescentes, primigestas e que realizaram pré-natal nas unidades selecionadas. Foram excluídos aqueles realizados em hospitais não conveniados ao SUS ou em outro município, bem como prontuários incompletos e com letras ilegíveis. O fato da nuliparidade e da primeira gestação serem critérios de inclusão do estudo justificam-se por diminuir os elementos que pudessem se comportar como fatores de confundimento no momento da análise dos dados, uma vez que a evolução do parto em multigestas e multíparas ocorre de forma mais breve (GOMES, 2010). A escolha por gestantes adolescentes ocorreu para homogeneizar as características anátomo-fisiológicas do grupo de primigestas. Os dados foram processados pelo programa Epiinfo versão 3.5.2 e para a sua análise foi utilizada estatística descritiva. A distribuição dos dados foi apresentada utilizando-se frequência absoluta, relativa e medidas de tendência central. A pesquisa matricial foi submetida à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Júlio Müller, atendendo à Resolução CNS 196/96 e obtendo aprovação para o seu desenvolvimento através do Parecer nº 112.146. RESULTADOS Os dados foram agrupados em características sóciodemográficas e obstétricas, condução do trabalho de parto, vias de nascimento, indicações de cesariana, complicações/intercorrências mais frequentes e condições de nascimento do recémnascido, sendo apresentados através de tabelas. A Tabela 1 mostra os dados sóciodemográficos e os aspectos obstétricos da amostra de acordo com as vias de nascimento. Identificou-se que a idade das parturientes correspondeu entre 13 e 19 anos (média de 16,8 anos) e prevalência da raça/cor parda (80%). Quanto à escolaridade, 67,5% tinham 8 ou mais anos de estudo sendo que a maioria era casada ou com união estável (71,9%) e não exercia atividade remunerada (95,%). Tabela 1 - Aspectos sócio-demográficos e obstétricos das parturientes segundo o tipo de parto, Cuiabá, MT, 2012/2013, n=160 Variáveis Normal n (%) Cesárea n (%) Total n (%) 49 Faixa etária 10 a 15 anos 16 a 19 anos Raça/ Cor Branca Negra Parda Escolaridade Menos que 08 anos Mais que 08 anos Estado civil Casada/União Estável Solteira Ocupação Com remuneração Sem remuneração Dilatação cervical no momento da admissão hospitalar <3 cm ≥3 cm Não informado Membranas amnióticas no momento da admissão hospitalar Rotas Íntegras Não informado 22 (62,9) 77 (61,6) 13 (37,1) 48 (38,4) 35 (21,9) 125 (78,1) 14 (77,8) 5 (35,7) 80 (62,5) 4 (22,2) 9 (64,3) 48 (37,5) 18 (11,2) 14 (8,8) 128 (80,0) 26 (50,0) 73 (67,6) 26 (50,0) 35 (32,4) 52 (32,5) 108 (67,5) 72 (62,6) 27 (60,0) 43 (37,4) 18 (40,0) 115 (71,9) 45 (28,1) 4 (50,0) 95 (62,5) 4 (50,0) 57 (37,5) 8 (5,0) 152 (95,0) 14 (32,6) 85 (75,2) 0 29 (67,4) 28 (24,8) 4 (100,0) 43 (26,9) 113 (70,6) 4 (2,5) 31 (73,8) 68 (61,8) 0 11 (26,2) 42 (32,8) 8 (100,0) 42 (26,3) 110 (68,7) 8 (5,0) Considerando as variáveis obstétricas estudadas, a Tabela 1 identificou ainda que dentre as 43 mulheres admitidas na fase latente do trabalho de parto, 14 (32,6%) evoluíram para parto vaginal e 29 (67,4%) para parto cesáreo. Dentre aquelas admitidas durante a fase ativa do trabalho de parto, 85 (75,2%) tiveram parto normal e 28 (24,8%) parto cesáreo. Quanto à integridade das membranas no momento da admissão hospitalar, 110 parturientes apresentavam membranas amnióticas íntegras, sendo que 68 (61,8%) evoluíram para parto normal e 42 (32,8%) para parto cesáreo. Dentre aquelas com membranas rotas, 31 (73,8%) tiveram seus partos via vaginal e 11 (26,2%) via cirúrgica.Observou-se ainda que 4 prontuários não constaram registros quanto à dilatação cervical no momento da internação e em 8 não houve informações quanto a integridade das membranas amnióticas. Quanto ao tipo de parto, 99 (61,9%) foram vaginais e 61(38,1%) foram cesarianas. Vale ressaltar que dentre as 43 parturientes que foram hospitalizadas precocemente, a taxa de parto normal foi de 32,6% (14) e a de cesárea foi de 67,4% 50 (29). A taxa de infusão de ocitocina nas primigestas admitidas na fase latente do trabalho de parto registrou 60,5% enquanto que a amniotomia registrou 62,8%. De acordo com as práticas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde é possível observar que aquelas frequentemente utilizadas de forma inadequada na assistência ao parto normal como a infusão venosa de ocitócitos e utilização de amniotomia se fizeram presentes neste estudo. Dentre os 99 partos normais realizados, o uso de ocitocina ocorreu em 59,6% deles. A amniotomia ocorreu em 62,6%, sendo que 61,6% foram realizadas em momento oportuno pelos profissionais que prestaram assistência. Somente em um dos partos a amniotomia ocorreu de forma prematura, ressaltando que essa conduta não é recomendada pelo risco de infecção. Dentre as práticas que podem prejudicar as parturientes, a utilização de episiotomia apresentou incidência de 81,8%, evidenciando que são altas as intervenções durante o período do trabalho de parto e parto (Tabela 2). Tabela 2- Intervenções obstétricas realizadas na assistência ao parto normal. Cuiabá, MT, 2012/2013, n=99 Intervenções Amniotomia Não Sim Ocitocina Não Sim Episiotomia Não Sim n % 37 62 37,4 62,6 40 59 40,4 59,6 18 81 18,2 81,8 A Tabela 3 aponta as indicações de cesariana ocorridas nas mulheres estudadas. Observou-se que algumas são devido às complicações gestacionais e de trabalho de parto e outras correspondem à situação clínica da mulher e do feto. Os casos de desproporção céfalo-pélvica representaram 27,9% das indicações de cesariana, seguidos pela parada de progressão (23,0%) e sofrimento fetal (13,1%). Ressalta-se que duas cesarianas ocorreram sem indicação ou sem justificativa, pois não havia registros nos prontuários que demonstrassem a necessidade real deste procedimento. 51 Dentre as situações obstétricas identificadas no estudo, constatou-se que as mulheres com indicação de desproporção céfalo-pélvica foram submetidas em maior proporção à infusão de ocitocina (62,5%) quando comparadas com outras indicações. Tabela 3- Frequência das indicações de cesarianas em primigestas*. Cuiabá, MT, 2012/2013, n=61 Indicações n % Desproporção céfalo-pélvica 17 Parada de progressão 14 Sofrimento fetal agudo 8 DHEG grave 5 Falha na indução por ocitocina 3 Apresentação pélvica 3 Oligoâmnio 3 Doença inflamatória pélvica 2 Trabalho de parto prematuro 1 Amniorrexe prematura 1 Pós-datismo 1 Ascite volumosa 1 Falso trabalho de parto 1 Nada consta 1 Total 61 *Dados anotados conforme o registro no prontuário. 27,9 23,0 13,1 8,2 4,9 4,9 4,9 3,3 1,6 1,6 1,6 1,6 1,6 1,6 100 A Tabela 4 mostra as complicações/intercorrências obstétricas e fetais registradas neste estudo. Durante a evolução do parto normal, a complicação/intercorrência identificada foi uma rotura de 4º grau. Vale ressaltar que a prática de episiotomia foi empregada durante este parto, não evitando, contudo, a extensa lesão da região perineal. Dentre as lacerações de primeiro e segundo graus ocorridas em 9 parturientes, em apenas uma registou a realização de episiotomia. Tabela 4- Complicações/intercorrências obstétricas e fetais segundo o tipo de parto. Cuiabá, MT, 2012/2013, n=160 Normal n % Cesárea n % Complicação/ intercorrência no parto Rotura de 4º grau do canal de parto 1 1,0 _* _* Complicação/ intercorrência no pós-parto Hemorragia 1 1,0 1 1,6 Complicação/ intercorrência no nascimento Desconforto respiratório 1 1,0 3 4,8 Variáveis 52 Líquido meconial presente 2 2,0 *Complicação/intercorrência não pertinente ao tipo de parto 2 3,2 Em relação às complicações do pós- parto, merecem destaque as hemorragias ocorridas em decorrência de hipotonia uterina. Durante o puerpério, as complicações hemorrágicas ocorreram nos dois tipos de parto, no entanto a complicação maior foi no parto cesárea que necessitou de histerectomia para conter a hemorragia. As complicações/intercorrências registradas com o recém-nascido foram evidenciadas pelo desconforto respiratório e pela presença de líquido meconial nos dois tipos de parto. A Tabela 5 mostra os valores de Apgar de primeiro e quinto minuto, prematuridade e peso inferior a 2500g de acordo com o tipo de parto. Quanto à vitalidade ao nascer 7 (4,4%) recém-nascidos tiveram índice de Apgar abaixo de sete no primeiro minuto de vida e, portanto, sofreram algum grau de anóxia intraparto. Dentre o total, 1 (14,2%) permaneceu com índice inferior no quinto minuto. Observou-se ainda que todos os recém-nascidos que evoluíram para a cesariana com valores baixos de Apgar no primeiro minuto apresentaram indicações relacionadas ao mecanismo do parto, condições de saúde materna e fetal. Dentre o total de recém-nascidos com anóxia, 3 necessitaram de cuidados especiais na UTI neonatal. A prematuridade foi identificada em 1,9% dos nascimentos com proporção maior no parto normal. O caso de prematuridade registrada no parto cesáreo teve como indicação o trabalho de parto prematuro resultando em um recém-nascido com baixo peso, porém como escores de Apgar acima de 7 nos primeiros minutos de vida. Dentre os resultados perinatais, o peso de nascimento é um importante determinante do risco de morrer no período neonatal. Neste estudo identificou-se que 3,7% dos recém-nascidos registraram pesos inferiores a 2500g com proporção homogênea em relação aos tipos de parto. No entanto, aqueles com nascimento por via cirúrgica tiveram indicações devido à identificação de oligodramnia, desproporção céfalo-pélvica e trabalho de parto prematuro. Tabela 5- Condições de nascimento dos recém-nascidos segundo o tipo de parto. Cuiabá, MT, 2012/2013, n=160 Variáveis Apgar de 1º min <7 ≥7 Normal n 3 98 % Cesárea n % Total n % 3,0 97,0 4 57 7 153 4,4 95,6 6,6 93,4 53 Apgar de 5º min <7 ≥7 Prematuridade Sim Não Peso < 2500 g Sim Não 0 99 0,0 100,0 1 60 1,6 98,4 1 159 0,6 99,4 2 97 2,0 98,0 1 60 1,6 98,4 3 157 1,9 98,1 3 96 3,0 97,0 3 58 4,9 95,1 6 154 3,7 96,3 DISCUSSÃO Neste estudo observou-se a ocorrência de internação precoce entre as primigestas, deixando-as vulneráveis à prática de intervenções desnecessárias sobre a evolução do trabalho de parto. A avaliação sobre a dilatação cervical e o estado das membranas ovulares englobam alguns dos fatores que interferem na decisão pela internação hospitalar da mulher, refletindo diretamente sobre as condutas adotadas durante o trabalho de parto e se mostrando preponderantes à realização de intervenções desnecessárias e parto cirúrgico (SAKAE; FREITAS; D’ORSI, 2009). De acordo com a abordagem do parto humanizado, durante a fase latente, o acompanhamento deve ocorrer em domicílio ou em ambulatório a partir de uma conduta expectante, desde que a vitalidade do feto esteja assegurada (BRASIL, 2001). No entanto, no modelo tecnocrático de assistência obstétrica, a mulher, quando hospitalizada precocemente, é mais suscetível à realização de procedimentos rotinizados, causando uma interferência sistemática na evolução do parto e caracterizando-o como intervencionista. Identificou-se na análise da condução do trabalho de parto deste estudo que mais da metade (60,5%) das hospitalizações precoces foram submetidas à infusão endovenosa de ocitocina. A admissão precoce também foi identificada no estudo de Vogt et al. (2011) que analisaram a condução do trabalho de parto em três modelos assistenciais na cidade de Uberlândia- MG, e constataram que dentre as parturientes admitidas na fase latente do trabalho de parto, houve uma frequência maior do uso de ocitocina em todos os serviços de saúde investigados, fato que demonstra a importância de uma rigorosa avaliação obstétrica no momento da internação a fim de evitar intervenções desnecessárias na assistência ao trabalho de parto. A partir deste estudo, entende-se que informações durante o pré-natal referentes à identificação dos sinais de trabalho de parto e referenciamento de serviços próximos ao domicílio significam um 54 direcionamento para a redução da demanda precoce em busca de vaga e, consequentemente das intervenções para acelerar o trabalho de parto. O uso da ocitocina tem apresentado índices consideravelmente elevados em diversos serviços de atenção obstétrica do país. Osavaet al. (2011), ao analisarem os fatores associados à realização de cesarianas em um centro de parto normal no município de São Paulo, identificaram um índice de 41,4% de utilização deste fármaco na população estudada, concordando com as elevadas taxas observadas no presente estudo. A ocitocina isolada ou associada com amniotomia é um método de indução ao trabalho de parto frequentemente utilizado no modelo vigente de assistência obstétrica, embora algumas revisões apontem para a necessidade de outros estudos que comprovem a efetividade e segurança de sua indicação clínica. Revisão sistemática realizada por Howarth e Botha (2001) identificou que a utilização de ocitocina em associação com amniotomia resultou na diminuição de partos vaginais e grande quantidade de hemorragia pós-parto em comparação ao uso de prostaglandinas vaginais (RR=5,5) concluindo que essas práticas são dois métodos de indução ao parto realizados na prática clínica sem acurácia suficiente para a sua adoção. Outra prática rotineira nos serviços investigados é a amniotomia que, no modelo tecnicista, é caracterizada pela ruptura artificial da bolsa amniótica e deve ocorrer em momento oportuno, ou seja, a técnica deve ser empregada de maneira segura e com vistas à correção da dinâmica uterina ou mediante a suspeita de líquido meconial (CUNNINGHAN et al., 2001). Uma meta-análise que visou analisar os efeitos da amniotomia precoce de rotina na taxa de cesárea identificou que essa prática associa-se com a redução da duração do trabalho de parto e por outro lado apresenta risco aumentado de cesarianas. No entanto, concluiu que não há evidências suficientes que apoiem a hipótese de que a amniotomia precoce de rotina reduza os índices de parto cesáreo, salientando que esta prática deve ocorrer prioritariamente em mulheres com trabalho de parto distócico (FRASER et al., 2000). Em relação à episiotomia, observou-se, no presente estudo, que a alta incidência aponta para o uso rotineiro desta prática. Vale ressaltar que conforme as recomendações da OMS (1996) sua realização constante e sem indicações precisas não apresenta benefícios devendo ocorrer de forma seletiva em cerca de 10 a 15% dos casos. Uma revisão sistemática, publicada pela biblioteca Cochrane em 2009, concluiu que quando 55 comparada com o uso rotineiro, a episiotomia seletiva apresenta um índice menor de trauma de períneo posterior, menor realização de sutura e complicações durante o processo de cicatrização (CARROLI; MIGNINI, 2009). No contexto da humanização do parto, a adoção de práticas alternativas como a posição lateral durante o período expulsivo, puxo espontâneo e massagem perineal no final da gestação poderiam evitar o predomínio de utilização de episiotomias durante o trabalho de parto (OLIVEIRA; MIQUILINI, 2005) e corroborar os benefícios de uma prática seletiva. Segundo Osava e Tanaka (1995), a episiotomia tem sido realizada de forma rotineira em primíparas sob a alegação de prevenção de laceração perineal, relaxamento do assoalho pélvico e redução de trauma contra a cabeça fetal. Revisão sistemática realizada por Hueston (1996) nos Estados Unidos, com 8.647 pacientes revelou uma frequência de episiotomias em 50% das primíparas. Os principais fatores que se relacionam com a realização de episiotomias em primíparas são os mesmos para as adolescentes, os quais se relacionam com a imaturidade biológica e com o fato de a musculatura perineal ser mais tensa que de mulheres adultas, o que pode levar ao aumento do período de delivramento do polo cefálico (CARVALHO; SOUZA; FILHO, 2010). A questão da elasticidade do períneo e a antiga recomendação de episiotomia rotineira em primíparas, realizada por obstetras, constituem-se nos principais fatores que desencadeiam a prática excessiva deste procedimento (FEBRASGO, 2002). Muitos estudos têm afirmado sobre o grande número de intervenções durante o parto e suas consequências para a saúde materna e fetal. Diante disso, pressupõe-se que o desconhecimento das mulheres e sua exclusão pertinente às decisões obstétricas imprimem algumas das características do modelo atual de assistência ao parto e tornam as parturientes vulneráveis a uma imposição autoritária por parte dos profissionais reiterando seu poder sobre o corpo feminino. Nesse sentido, é importante ressaltar que de acordo com o modelo de humanização da assistência ao parto, as intervenções obstétricas são consideradas, muitas vezes, desnecessárias e prejudiciais à mulher (BRASIL, 2001), logo, os profissionais devem conscientizar-se de que tais práticas não devem ser realizadas de forma costumeira e mecanizada, procurando alternativas que resguardem a individualidade da mulher e a coloque no centro do processo parturitivo, a fim de estabelecer uma assistência democrática e efetiva na direção do cuidado humanizado. 56 O predomínio de um modelo de atenção ao parto voltado exclusivamente para o excesso de intervenções tem contribuído para o aumento das taxas de cesarianas e de morbimortalidade materna e fetal em todo o mundo. Dentre os países da América Latina, o Brasil apresenta níveis elevados de parto cesáreo, apresentando-se como o segundo colocado em realização de cesarianas do mundo (ZORZETO, 2006). No município de Cuiabá, A análise dos tipos de parto revelou um aumento das taxas de cesarianas, atingindo níveis em torno de 63,0%, em 2012 (SECRETARIA ESTADUAL DE SAÚDE, 2013). Esses dados são muito superiores ao índice de 15% aceito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a realização deste tipo de parto. A cesariana, como qualquer procedimento cirúrgico, pressupõe riscos e está frequentemente associada com maiores taxas de morbimortalidade materna e seus benefícios conferidos ao feto são pequenos (BARBOSA et al., 2003). As taxas de cesárea superiores a 20% aumentam as complicações maternas significando maior probabilidade de morte durante o parto, complicações hemorrágicas graves e risco de infecção. Para o bebê, os riscos de nascer prematuro por erro de cálculo da idade gestacional e morrer durante o nascimento ou na primeira semana de vida também são altos (ZORZETO, 2006). Além das repercussões sobre a saúde materna-fetal, a cesariana também acarreta custos aos serviços de saúde por demandar mais cuidados durante e após o parto, tempo de internação aumentado e possíveis complicações anestésicas e infecciosas (PRISZKULNIK; MAIA, 2009). O aumento dos gastos públicos decorrentes de uma cesariana repercute de forma inexorável sobre as contas do setor saúde e, de acordo com Zorzeto (2006), o aumento de 1% sobre as taxas de cesarianas, gera um custo extra no valor de 9,5 milhões de dólares, nos países desenvolvidos. Dessa forma, é importante ressaltar que a realização de um parto cesáreo deve ocorrer somente após a prova de trabalho de parto, com indicação precisa e racionalizada. Uma revisão de literatura realizada por Amorim, Souza e Porto (2010) identificou que as principais indicações de cesariana devem-se à distócia ou falha na progressão no parto, desproporção cefalopélvica (DCP), máposição fetal, apresentação pélvica, de face e córmica, cesárea anterior, frequência cardíaca fetal nãotranquilizadora, presença de mecônio e centralização fetal. Dentre as indicações de parto cesáreo em primigestas, a desproporção céfalopélvica, como complicação do trabalho de parto está associada ao maior risco de operação cesariana. Com o objetivo de analisar as principais indicações em primigestas, 57 Oliveira e Cruz (2010) realizaram um estudo que identificou a DCP como a mais frequente, com índice de 33,6%, seguida pela Doença Hipertensiva Específica da Gravidez (DHEG) que correspondeu a 22,2% da amostra. Quanto às demais indicações de cesariana, como amniorrexe prematura, trabalho de parto prematuro, oligoâmnio e DHEG, a justificativa para a realização de parto cesáreo seria plausível se outros fatores estivessem contribuindo para o risco de vida materna ou fetal, pois tais indicações correspondem a situações que per se não necessitam de parto cirúrgico, podendo ser corrigido e realizado via vaginal (SOUZA; AMORIM; PORTO, 2010). A cesárea demonstra sua importância e utilidade como uma tecnologia apropriada em diversas situações obstétricas que necessitam da interrupção para resguardar a vida da mãe ou do feto. Neste estudo, o número elevado de cesarianas não se relacionou com algumas indicações apresentadas como justificativa para a realização deste procedimento, por não significar uma indicação absoluta ou por não apresentar uma necessidade de resolução por via alta, o que pode caracterizar uma interferência médica no processo do parto, induzindo a parturiente a concordar com ações que visam aos interesses da classe profissional em detrimento das reais necessidades da mulher. A análise crítica sobre o modelo hegemônico de atenção à saúde evidencia o real significado da humanização, que visa ampliar e potencializar as novas propostas de cuidado que segundo Ayres e Deslandes (2005) compreendem o respeito à diferença, a valorização do sujeito e a centralidade do diálogo. Realidade esta, não contemplada na atenção obstétrica vigente que exprime um aspecto diferente do proposto pela humanização, pois se pauta na utilização de tecnologias para garantir a sua qualidade, promovendo um alto índice de intervenções, durante o trabalho de parto, e caracterizando a assistência obstétrica como altamente tecnicista e pouco relacional. De acordo com problemas pré-existentes, o desenvolvimento da gestação e/ou da evolução do trabalho de parto podem apresentar complicações que interferem na qualidade de vida materna e fetal. Os achados relacionados às complicações/intercorrências demonstraram que a sua distribuição foi uniforme entre as vias de parto, no entanto, o parto cesáreo resultou em um caso de hemorragia mais grave por haver necessidade de realização de histerectomia em decorrência de um choque hipovolêmico. Dentre as complicações hemorrágicas, a histerectomia compromete a reprodução da mulher definitivamente e caracteriza-se por apresentar elevado risco de mortalidade materna (NOMURA, ALVES; ZUGAIB, 2004). 58 Quanto às complicações que podem afetar a vitalidade do recém-nascido, destaca-se o desconforto respiratório e a presença de líquido meconial como fatores preponderantes para desencadear resultados negativos ao feto, podendo ocasionar um sofrimento fetal por hipóxia intraútero. Neste estudo, a limitação no bem-estar do feto foi detectada em 11% dos nascimentos de parto normal e de cesárea. Diante disso, a prática clínica sugere uma avaliação criteriosa do aspecto do líquido amniótico, grau de dilatação, altura da apresentação e variedade de posição, a fim de poder diagnosticar possíveis situações de comprometimento fetal intraútero e realizar conduta pertinente a cada caso (AMORIM; SOUZA; PORTO, 2010). A vitalidade do recém-nascido prediz sobre a atenção recebida pela mulher durante o período pré-natal e durante o parto, refletindo em condições adequadas de nascimento. No presente estudo, a prematuridade e o baixo peso apresentaram baixa incidência em ambos os tipos de parto. O peso ao nascer e a ocorrência de prematuridade representam indicadores de qualidade de vida da criança, sendo que o baixo peso revela-se como um fator que contribui para as taxas de mortalidade infantil (MARIOTONI; BARROS FILHO, 2000). Em relação ao índice de Apgar registrado, foram evidenciados baixos escores nos dois tipos de parto, condição esta que determina a sobrevida dos recém-nascidos. A asfixia perinatal tem relação próxima com índices de Apgar que variam até 3 por mais de cinco minutos ocasionando sequelas neurológicas, algumas vezes, irreversíveis (CUNNINGHAN et al., 2001). Nesse sentido, o prognóstico do feto depende de uma boa avaliação médica e uma intervenção através da cesariana que apresenta indicação absoluta em casos de sofrimento fetal, apresentando-se como um fator de proteção para a asfixia perinatal (CUNHA et al., 2004). CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo identificou os principais resultados maternos e neonatais da assistência obstétrica prestada às primigestas adolescentesindicando uma forte influência do modelo tecnicista. Embora o estudo tenha sido realizado em instituições de saúde que estão se adequando à humanização da assistência ao parto, os dados revelam uma interferência de ações pautadas na supremacia médico-intervencionista que se distanciam das propostas de humanização. 59 O predomínio do parto cesáreo e da utilização de práticas obstétricas desnecessárias está relacionado a vários determinantes, como a dificuldade de participação ativa da mulher no processo decisório sobre a via de nascimento, pois no modelo vigente de atenção ao parto, o médico figura como o protagonista do processo parturitivo imprimindo um caráter autoritário e intervencionista. Dessa forma, os altos índices de intervenções no parto revelam uma contrariedade em relação aos preceitos do parto humanizado, que reitera a importância e os benefícios do parto normal e proporciona à mulher o restabelecimento da sua confiança, permitindo-lhe tornar-se mais segura e pró-ativa durante o parto e no cuidado com seu filho. De acordo com os critérios preconizados pela humanização do parto, vale reiterar sobre a importância de incentivar a adoção de procedimentos que tenham fortes evidências científicas a fim de comprovar sua efetividade e segurança, bem como regatar e valorizar os aspectos subjetivos do sujeito. Cabe ressaltar que um limite do estudo seja o fato de a coleta de dados ter sido de fonte secundária (prontuários) com possibilidade de influência de alguns fatores como a ausência de um protocolo para indicação de cesariana, a falta de registros precisos no partograma e letras ilegíveis, ocasionando interferência na interpretação do pesquisador. No entanto, estes resultados podem servir como subsídios na fomentação de práticas assistenciais humanizadas. Diante do exposto, pressupõe-se que um bom nascimento não depende de um número maior de intervenções e que, de acordo com os princípios da humanização do parto se configura nas relações entre os sujeitos envolvidos no processo parturitivo, permitindo a compreensão da realidade através de um olhar multidimensional que ajuda a intervir e propor soluções para os problemas encontrados no cotidiano da assistência obstétrica. Acredita-se que o estudo tem muito a contribuir como um instrumento mediador de transformações das práticas profissionais do cuidado obstétrico, especialmente para o enfermeiro que, diante da intensa incorporação de novos conhecimentos, o aprofundamento sobre a temática poderá fornecer subsídios importantes na atuação profissional. REFERÊNCIAS AMORIM, M. M. R., SOUZA, A. S. R.,PORTO, A. M. F. Indicações de cesariana baseadas em evidências: parte I. FEMINA, v. 38, n. 8, 2010. 60 AYRES, J. R. C. M., DESLANDES, S. F. Humanização e cuidado em saúde. Ciênc. 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Pesquisa FAPESP 124, p. 40-44, 2006. 64 65 5.2 A ATIVIDADE FÍSICA COMO TECNOLOGIA DE CUIDADO NA QUALIFICAÇÃO DA ATENÇÃO OBSTÉTRICA Physical activity as technology of care in the qualification of obstetrical attention La actividad física como tecnología de atenciónenlacualificacióndelatedimiento obstétrico RESUMO O objetivo foi analisar o impacto da atividade física realizada durante a gestação sobre as condições de parto e nascimento. Estudo de intervenção quase experimental realizado com 160 gestantes em acompanhamento pré-natal. A coleta de dados ocorreu nos prontuários de três maternidades conveniadas ao SUS. Os resultados indicaram associação da prática de atividade física com o tipo de parto e com a prática de amniotomia, ocitocina e episiotomia, o estudo revelou que o risco para a ocorrência dessas práticas é maior nas gestantes que não participaram do programa de exercícios físicos com RR > 1. Quanto às condições de nascimento, a atividade física mostrou associação apenas com o peso de nascimento. Conclui-se que a prática de atividade física durante o período gestacional apresentou resultados satisfatórios sobre as condiçoes materno-fetais, destacando-se como uma tecnologia de cuidado obstétrico. Palavras-chave: Atividade física; Humanização; Parto. ABSTRACT The purpose is to analyze the impact of physical activity during pregnancy on the labor and delivery conditions. Semi experimental intervention study of 160 pregnant women in prenatal care. The data collection took place in three charts of hospital associated to SUS (Sistema Único de Saúde). The results indicated the association of physical activities, delivery type and the practice of amniotomy, oxytocin and episiotomy, the study showed that the risk for the occurrence of these practices is higher among those who did not participate in the exercise program with RR > 1. Regarding the conditions of birth, physical activity was associated only with the birth weight. It is concluded that physical activity during pregnancy presents satisfactory results on the maternal-fetal conditions despite its correlation with the term technology obstetric care becomes a challenge to the care service qualification. Key words: Physical activity; Humanization; Parturition. RESUMEN El objetivo fueanalizarel impacto de laactividad física enlas condiciones del parto y nacimientomientraselembarazo. Estudio de intervencióncasi experimental realizado con 160 mujeresembarazadasenelcontrolprenatal. La recogida de losdatosocurrióenlos expedientes médicos de treshospitales maternidades amparados por el SUS. Los resultados apuntaronlaasociación de laactividad física conel tipo de parto y conlasprácticas de laamniotomía, oxitocina y episiotomía. El estudioreveló que elriesgo para laocurrencia de estas prácticas es mayor entre lasembarazadas que no participaronenel programa de ejercicio físico con RR > 1. Encuanto a las condiciones delnacimiento, laactividad física presentóasociaciónsóloconel peso al nacer. Se concluye que lapráctica de laactividad física mientraselembarazopresentó resultados 66 satisfactoriosenlas condiciones materno-fetales a pesar de sucorrelaciónconel término tecnología de atención obstétrica mostrarse como undesafío a lacalificación de laatención. Palabras clave: Actividad física; Humanización; Parto. INTRODUÇÃO O parto sempre foi percebido socialmente como um evento natural e fisiológico do corpo feminino. No entanto, a partir da valorização da obstetrícia como especialização médica, o parto foi reiterado como um momento perigoso necessitando da presença de um profissional capacitado e um local apropriado para garantir a saúde materna e fetal. Este movimento caracterizou o modelo de atenção ao parto centrado na figura do médico como detentor do poder sobre o corpo da mulher, simbolizando a racionalização do parto e incentivando um excesso de medicalização desse processo (NAGAHAMA; SANTIAGO, 2005). Com o advento da tecnologia, a assistência obstétrica incorporou de forma consubstancial diversos elementos que contribuíram para a sua transformação e aperfeiçoamento, com a influência de um modelo assistencial orientado por um paradigma humanístico, que cede espaço à realização de um cuidado desmedicalizado (NUNES; VARGENS, 2007) e que permite a reorganização das práticas em torno do resgate da valorização da mulher como sujeito do seu processo parturitivo, utilizando-se de novas tecnologias a fim de qualificar o cuidado obstétrico. Conforme Torres, Santos e Vargens (2008), essas tecnologias são utilizadas pela enfermagem obstétrica como técnicas consideradas propulsoras da evolução fisiológica do parto, a fim de proporcionar maior conforto e segurança para a mulher, sendo denominadas de tecnologias de cuidado de enfermagem obstétrica. O uso destas tecnologias no cuidado ao parto é incentivado por favorecer o reconhecimento das necessidades individuais da mulher possibilitando a vivência do parto como um momento íntimo para a mãe e o filho, sobretudo por acreditar que essas práticas interferem no processo parturitivo e possibilita a criação de novos recursos para a sua utilização e o incremento do cuidado em enfermagem obstétrica (PROGIANTI; LOPES; GOMES, 2003). Partindo-se desta perspectiva surgiu o interesse em pesquisar sobre tecnologias inovadoras no cuidado obstétrico a partir do preparo corporal realizado durante a gestação, experimentando um programa de exercícios físicos voltados para o 67 fortalecimento da musculatura envolvida no processo do parto com o objetivo de que o nascimento transcorra de forma saudável. A prática de atividade física realizada de forma regular e sistemática é altamente recomendada para as gestantes, afetando de forma positiva diversos segmentos corporais e garantindo efeitos seguros e benéficos para mãe e filho. Estudo prospectivo realizado com 66 gestantes primíparas da cidade de São Sebastião, SP, a fim de verificar se o exercício físico realizado durante a gestação influenciou na via de parto, concluiu que o grupo que participou do programa de exercícios mostrou predominância de parto normal, enquanto que no grupo que não participou das atividades predominou o parto cesáreo (SILVEIRA; SEGRE, 2012). Sabe-se que a realização de atividade física de forma sistemática e regular proporciona melhor condicionamento cardio-respiratório ao indivíduo e estimula o fortalecimento dos músculos trabalhados, proporcionam um preparo físico capaz de tornar as contrações mais eficientes para exercer a força motora necessária para a expulsão do feto, reduzindo, assim as taxas de intervenções no parto. Diante do exposto, acredita-se que os efeitos desejáveis da prática de atividade física durante a gestação, possam caracterizar a transformação das práticas no âmbito da humanização, significando a atividade física uma forma de cuidado prestado à mulher durante o ciclo gravídico-puerperal e constituindo-se em tecnologia inovadora do cuidado obstétrico. Todavia, a promoção da atividade física como uma proposta do campo de domínio das práticas obstétricas, como oferta de cuidado integral à gestante/parturiente, potencialmente pode configurar-se como um tipo de tecnologia de cuidado, pois é uma ideia nova e que ainda não foi difundida através dos meios científicos. Sendo assim, esta pesquisa pretende ser um instrumento de apoio aos profissionais do cuidado obstétrico, capaz de aprimorar os cuidados ofertados incentivando a prática do parto normal com o mínimo de intervenção no processo. Tendo em vista a ausência de trabalhos que abordam essa temática, a relevância do presente estudo reside no fato de que os seus resultados possam contribuir para o redirecionamento das práticas de cuidado, incentivando ações que respondam às expectativas de uma atenção pautada no modelo de humanização da assistência obstétrica. Mediante isso, desenvolveu-se um estudo que teve como objetivo analisar o impacto da atividade física realizada durante a gestação sobre as condições de parto e nascimento a fim de integrá-la como uma tecnologia do cuidado obstétrico. 68 METODOLOGIA Para a realização desta pesquisa propôs-se inicialmente um projeto de intervenção intitulado “Gestante Movi-mente-se” que abrangeu a criação de um grupo de gestantes para participar ativamente de atividades relacionadas ao preparo físico para o momento do parto, além de contemplar ações educativas com instruções acerca de cuidados durante o parto e puerpério. O estudo foi do tipo longitudinal, de intervenção quase experimental que incluiu 173 gestantes selecionadas por meio de amostragem não probabilística do tipo por conveniência. As participantes foram divididas em dois grupos de comparação (grupo expostos e não expostos) e a seleção foi pareada uma a uma, segundo as características sócio demográficas, gestacionais e clínicas. As interessadas em participar do programa de exercícios físicos compuseram o grupo dos expostos, totalizando 50 gestantes. Aquelas que não demostraram interesse em participar formaram o grupo dos não expostos registrando 123 mulheres. Adotou-se como critérios de inclusão: ser primigesta, realizar pré-natal em unidades de ESF, não apresentar risco gestacional e manifestar desejo em participar de todas as atividades propostas. Foram consideradas perdas as gestantes com abortamento e que tiveram seus partos em hospitais particulares ou em outro município. A coleta de dados foi realizada em 3 momentos: busca pelas participantes da pesquisa; realização do projeto de intervenção e registro de informações do parto e nascimento. A busca pelas gestantes iniciou-se pelos livros de acompanhamento do prénatal das ESF selecionadas e, posteriormente, ocorreu um encontro com todas aquelas que se enquadravam nos critérios do estudo para apresentação da proposta da pesquisa. Neste momento foi aplicado um questionário que abordava características sóciodemográficas, obstétricas e clínicas. O programa de exercícios físicos, conduzido por profissional de Educação Física, foi oferecido em duas sessões semanais com duração de 60 min./sessão totalizando 120 minutos semanais com intensidade leve a moderada e com duração total de8 semanas. As 4 primeiras sessões foram utilizadas como meio de adaptação aos exercícios e 12 sessões foram usadas objetivando ganho de flexibilidadee fortalecimento dos músculos do assoalho pélvico. As gestantes realizaram as atividades seguindo o protocolo A – realizado com alongamento e aquecimento articular (15 minutos), resistência muscular localizada (30 minutos de treinamento com halteres e 69 tornozeleiras) e volta à calma com alongamento da musculatura (15 minutos) e Protocolo B – realizado com alongamento e aquecimento articular (10 minutos), hidroginástica (40 minutos de treinamento com flutuadores) e relaxamento (10 minutos). A coleta de dados referentes aos partos foi realizada nos prontuários dos hospitais selecionados. De acordo com a identificação das parturientes, foi solicitado aos hospitais a disponibilidade dos registros que contemplavam informações sobre a evolução do trabalho de parto, vias de parto e condições de nascimento dos recémnascidos. O período do estudo compreendeu os meses de dezembro de 2012 a maio de 2013. A variável de exposição foi a prática de atividade física e como variáveis de desfecho foram estabelecidas as práticas obstétricas como uso de ocitocina, amniotomia e episiotomia por desempenharem importante papel da “cascata de intervenções” durante a assistência ao parto. Os tipos de parto e os resultados neonatais como peso ao nascer, escores de Apgar de 5º minuto e idade gestacional também se comportaram como variáveis de desfecho. Os dados foram processados pelo programa estatístico Epiinfo versão 3.5.2 e para sua análise foram utilizadas técnicas estatísticas descritivas e inferenciais, admitindo-se um nível de significância de 5%. Para a inferência estatística sobre os dados, as variáveis de exposição e desfecho foram analisadas individualmente e conjuntamente. Para estimar o risco de cada variável sobre o desfecho a ser estudado foi utilizada medida de risco através do risco relativo (RR). Esta pesquisa foi submetida à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Júlio Müller, atendendo à Resolução nº 466/12 e obtendo aprovação para o seu desenvolvimento através do Parecer nº 112.146. Todas as participantes desta pesquisa assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. RESULTADOS Do total de 173 gestantes que participaram da pesquisa, houve 13 perdas durante o seguimento do estudo sendo duas devido a abortamento e onze por hospitalização em instituição privada não conveniada ao SUS. As características sóciodemográficas estão relacionadas na Tabela 1. A população do estudo foi composta por gestantes com idade entre 13 e 19 anos (média de 16,8), com prevalência da raça/cor parda (80%), com formação escolar de 8 anos ou 70 mais de estudo (67,5%) sendo a maioria casada ou com união estável (71,9%) e que atua em profissões sem remuneração (95,%). Tabela 1 - Características sócio-demográficas das parturientes, Cuiabá, MT, 2012/2013, n=160 Variáveis Faixa etária 10 a 15 anos 16 a 19 anos Raça/ Cor Branca Negra Parda Escolaridade Menos que 08 anos Mais que 08 anos Estado civil Casada/União Estável Solteira Ocupação Com remuneração Sem remuneração n Total % 35 125 21,8 78,2 18 14 128 11,3 8,7 80,0 52 108 32,5 67,5 115 45 71,9 28,1 8 152 5,0 95,0 160 100,0 Em relação aos tipos de parto, a distribuição está apresentada na Tabela 2, na qual foi observada grande incidência de parto cesárea em ambos os grupos, com proporção de 40% no grupo que se manteve sedentário e 32,5% dentre aquelas que participaram do programa de exercícios físicos. Observou-se ainda que os grupos apresentaram riscos diferentes (RR=1,23). Esse resultado indica que as gestantes que se mantiveram sedentárias durante a gestação apresentaram um risco maior para a ocorrência de parto cesáreo em relação ao grupo que participou do programa de exercícios físicos. Tabela 2 - Prática de exercícios físicos durante a gestação associado ao tipo de parto, Cuiabá, MT, 2012/2013, n=160 Cesárea Normal Exercícios físicos Total n % n % RR (IC 95%) 71 Não 48 40,0 72 60,0 120 Sim 13 32,5 27 67,5 40 Total 61 38,1 99 61,9 160 1,23 (0,7-2,0) Com relação às práticas obstétricas comumente realizadas durante a assistência ao parto nas instituições hospitalares, as análises foram realizadas a fim de constatar se o grupo que praticou exercícios físicos sofreu um número menor de intervenções durante o parto. A infusão endovenosa de ocitocina associada ou não à prática de amniotomia são métodos utilizados para estimular o trabalho de parto, em condição favorável da cérvice, podendo retardar o processo em casos de insucesso. Os resultados apresentados na Tabela 3 indicam uma taxa de 59,6% do uso de ocitocina na maioria das parturientes do estudo, sendo que o uso deste fármaco se deu em 68% das que não praticaram exercícios físicos durante a gestação e 37,3% nas que praticaram exercício, ou seja, o uso foi de quase 2 vezes mais no grupo que se manteve sedentário. Dentre o total de partos, a prática de amniotomia apresentou incidência alta nos dois grupos de gestantes, sendo que a análise do risco indicou que as sedentárias tiveram um risco de 1,17 vezes maior de serem submetidas a esse procedimento. Tabela 3 - Prática de exercícios físicos durante a gestação associada à realização de intervenções durante o trabalho de parto, Cuiabá, MT, 2012/2013, n=99 Ocitocina Exercícios físicos Sim Total Não n % n % Não 49 68,0 23 32,0 72 Sim 10 37,3 17 62,7 27 Total 59 59,6 40 40,4 99 RR (IC 95%) 1,84 (1,1-3,0) Amniotomia Exercícios físicos Não Sim Total Não n % n % 47 65,2 25 34,8 72 RR (IC 95%) 72 Sim 15 55,5 12 44,5 27 Total 62 62,5 37 37,4 99 1,17 (0,8-1,7) Episiotomia Exercícios físicos Sim Total Não n % n % Não 60 83,3 12 16,7 72 Sim 21 77,7 6 22,3 27 Total 81 81,8 18 18,2 99 RR (IC 95%) 1,07 (0,8-1,3) A episiotomia, caracterizada como uma lesão cirúrgica na região perineal, é um procedimento que causa maiores desconfortos para a mulher durante o pós-parto. No presente estudo foi identificada a ocorrência de 83,3% de casos no grupo não participante do programa de exercícios físicos e 77,7% no grupo que participou do programa. A incidência acumulada revelou que a prática de episiotomia atingiu 81 (81,8%) primigestas. A análise do risco revelou que não houve diferença estatisticamente significativa entre as gestantes sedentárias durante o período do estudo e aquelas participantes dos exercícios físicos. A vitalidade do recém-nascido prediz sobre a atenção recebida pela mulher durante o período pré-natal e durante o parto, refletindo em condições adequadas de nascimento. Os dados do estudo mostraram que a prática de exercícios físicos não teve relação com nascimentos prematuros e com escores baixos de Apgar de 5º minuto. Dentre os 3 nascimentos prematuros, 2 ocorreram provenientes de gestantes que não realizaram exercícios físicos e 1 de gestante que participou dos exercícios. Já em relação ao índice de Apgar de 5º minuto, os dados revelaram que 1 recém-nascido teve o escore abaixo de 7 no grupo amostral, indicando boas condições de nascimento. Quanto a tais variáveis, este estudo revelou uma incidência acumulada de 1,9% de nascimentos prematuros e de 0,6% de recém-nascidos com escores de Apgar de 5º minuto abaixo de 7. O risco relativo para estas variáveis não se mostrou significativo (resultados não apresentados). Dentre os resultados perinatais, o peso de nascimento é um importante determinante do risco de morrer no período neonatal. Neste estudo, evidenciou-se que dentre os 6 recém-nascidos com peso inferior a 2500g, 5 foram de gestantes que não 73 realizaram os exercícios físicos e 1 foi de gestante que participou dos exercícios. A Tabela 4 descreve o peso ao nascer estratificado pela atividade física e revela que o risco de nascer com peso inferior a 2500 g é de 1,67 vezes maior no grupo que não praticou exercícios físicos durante o período gravídico. Tabela 4 - Prática de exercícios físicos durante a gestação associada às condições de nascimento, Cuiabá, MT, 2012/2013, n=160 Peso <2500 g Exercícios Sim físicos Total Não n % n % Não 5 4,1 115 95,9 120 Sim 1 2,5 39 97,5 40 Total 6 3,7 154 96,3 160 RR (IC 95%) 1,67 (0,2- 13,8) DISCUSSÃO A gravidez é uma condição natural do corpo feminino e, na ausência de complicações, a realização de atividade física é altamente recomendada ao longo da gestação (SPORT MEDICINE AUSTRALIA, 2002). Além da sua influência sobre o ganho ponderal materno e resultados satisfatórios quanto à evolução gestacional, os benefícios da atividade física também se estendem aos desfechos do parto e nascimento. Estudo conduzido em Rio Grande/RS sobre a prevalência de atividade física na população gestante constatou que 32,8% da amostra investigada relatou praticar alguma atividade física durante a gestação e, ao associar esta prática com os desfechos maternos- infantis, verificou-se uma menor prevalência de cesárias e natimortos entre as mulheres que faziam exercícios na gestação (DUMITH, et al., 2012). Os resultados do presente estudo apontam para a existência de associação entre o exercício físico durante a gestação e a via de parto normal. Sabe-se que durante o trabalho de parto, há liberação de estrogênio na corrente sanguínea que promove o relaxamento muscular e o afrouxamento de tendões e ligamentos, promovendo melhor flexibilidade articular (GALLUP, 1999). Este benefício associado à prática de exercícios físicos pode contribuir para uma melhor preparação dos músculos abdominais, tornando-os mais fortes e eficientes para o trabalho de parto, facilitando a 74 passagem do feto pelos trajetos duro e mole e, consequentemente reduzindo a incidência dedistócias e partos prolongados. Revisão de literatura realizada com o objetivo de verificar os efeitos da prática de atividade física regular durante a gestação com enfoque na saúde da gestante e no crescimento fetal destaca como resultados principais a diminuição de riscos de parto prematuro, facilidade do trabalho de parto e redução do número de cesáreas (BATISTA, et al., 2003). A menor ocorrência de partos cirúrgicos entre mulheres praticantes de atividade física durante a gestação também foi um dos achados do presente estudo, ampliando os efeitos dessa prática para além dos resultados gestacionais como controle ponderal materno e contribuindo para a redução das altas taxas de intervenções durante a evolução do parto. O predomínio de um modelo de atenção ao parto voltado exclusivamente para o excesso de intervenções tem contribuído para o aumento das taxas de cesarianas e de morbimortalidade materna e fetal em todo o mundo. Dentre os países da América Latina, o Brasil apresenta níveis elevados de parto cesáreo, apresentando-se como o segundo colocado em realização de cesarianas do mundo (ZORZETO, 2006). A análise do estudo destacou ainda que as prevalências das intervenções obstétricas são altas, tanto no grupo que praticou exercícios físicos quanto no grupo que não praticou. Este fato suscita a reflexão de que as condutas médicas imprimem um caráter monopolizante sobre a assistência prestada e que, convergem para um monitoramento contínuo do corpo da mulher ao possibilitar a utilização de intervenções desnecessárias. Para a OMS (1985) o parto vaginal é um processo normal e natural do corpo da mulher, devendo acontecer com o mínimo de intervenções. No entanto, na obstetrícia tradicional, os procedimentos rotinizados e repetitivos criam homogeneidade reduzindo as incertezas sobre os resultados do parto e os profissionais tendem a ter uma visão positiva da tecnologia. Para eles o sucesso do resultado final só ocorre através de procedimentos médicos, deflagrando uma cultura altamente tecnicista e dificultando o abandono de práticas padronizadas (BRASIL, 2008). De acordo com os resultados desta pesquisa, pode-se observar que a atividade física apresentou-se como um fator benéfico na diminuição dos índices de intervenções sobre o trabalho de parto e parto. Nesta perspectiva, a prática de atividade física durante a gestação demonstra uma nova dimensão para a assistência obstétrica que pode utilizar-se desta prática para consolidar um cuidado integral à mulher no período 75 gravídico-puerperal. Esta faceta, que a atividade física assume caracteriza-se como uma nova tecnologia de cuidado obstétrico, pois além de estabelecer uma relação terapêutica entre os sujeitos, possibilita um olhar diferenciado e especializado na atenção à gestante. O termo tecnologias de cuidado é usado para expressar a dimensão tecnológica do cuidado (SEIBERT, 2010) e reúne habilidades inerentes ao profissional enfermeiro capaz de atravessar as práticas em saúde e colaborar com a construção e estruturação do conhecimento. Desta forma, o profissional deve dispor de recursos e usufruir de todos os meios para proporcionar ao usuário a melhor assistência disponível. A tecnologia de enfermagem reúne diversos conhecimentos científicos e empíricos na concretização do cuidado humano, pois é neste momento que o enfermeiro expressa em seu processo de trabalho, a reflexão crítica-analítica de suas ações efetivadas no ato de cuidar (MEIER, 2004). No campo obstétrico, o cuidado se expressa através de uma variedade de ações não se limitando às questões de ordem puramente fisiológica relacionadas ao período gravídico-puerperal (TORRES; SANTOS; VARGENS, 2008). As tecnologias de cuidado operam de forma a incorporar ações através de práticas produzidas pelo conhecimento da enfermagem, com isso, a tecnologia permite a construção de um cuidado obstétrico menos reducionista e centrado na mulher como sujeito do processo de parturição. Diante do exposto entende-se que, produzir tecnologia significa produzir objetos que podem ser tanto materiais quanto de ordem simbólica, a fim de satisfazer necessidades diversas (KOERICH et al., 2006). Considerando o trabalho de enfermagem, o emprego da tecnologia no campo da saúde requera utilização de forma coesa dos saberes próprios desenvolvidos pela profissão a fim de ofertar um cuidado adequado às reais necessidades humanas, pois a tecnologia do cuidado em enfermagem se refere à produção e organização das ações humanas, a fim de aprimorar o modelo de assistência vigente. Assim, ao refletir sobre o uso de tecnologias no cotidiano das práticas profissionais, observa-se que a atividade física apresenta-se como uma dimensão do universo tecnológico do cuidado pertinente à assistência prestada às gestantes, pois engloba um conjunto de saberes estruturados capaz de respaldar as práticas assistenciais durante a evolução gestacional e parto, estendendo-se ainda para resultados fetais satisfatórios. Embora no presente estudo a prática de atividade física durante a gestação não tenha mostrado associação com parto prematuro, o menor risco de prematuridade 76 decorrente desta prática é apontando por Matijasevich e Domingues (2010) ao argumentarem sobre o efeito protetor do exercício físico sobre a prematuridade e destacando o aumento do seu efeito positivo, quando realizado no terceiro trimestre de gestação, apesar dos níveis de atividade física decaírem com o passar dos trimestres, justificados por limitações biomecânicas e falta de informação para a reorientação das práticas. Com relação às taxas de anóxia fetal expressas por escores baixos de Apgar, as evidências sugerem associações positivas entre realização de atividade física pela gestante com maiores escores de Apgar no nascimento. Embora neste estudo nao tenha sido observada tal associação, a vitalidade do recém-nascido foi analisada por Clapp (1990) através de um estudo de intervenção realizado por meio de um programa aeróbico, durante a segunda metade da gravidez, com 131 mulheres que se exercitaram antes e durante a gestação e concluiu que o grupo de gestantes que manteve o regime de treino indicado obteve em torno de 50% de nascimentos com índice de Apgar maior que 7 quando comparado ao grupo que não manteve o mesmo ritmo de exercícios, apresentando nascimentos com escores superiores a 7 em torno de 26%. Os resultados da prática de atividade física sobre o peso ao nascer também foram registrados neste estudo.Diversas evidências sugerem que a participação de mulheres em atividades físicas de intensidade moderada durante a gravidez pode contribuir para o aumento do peso ao nascer, enquanto que exercícios de intensidade vigorosa podem resultar em bebês com peso menor que o adequado para a idade gestacional (SMA, 2002). Estudo realizado porTakito, Benicio e Neri (2009) detectou o aumento de peso fetal da ordem de 97 g para mulheres que se exercitavam com intensidade baixa, 124 g para exercícios de intensidade moderada e 276 g para aquelas que se exercitavam com intensidade vigorosa. Dessa forma, é imprescindível que a prática de atividade física seja realizada de forma orientada e sistematizada, a fim de evitar efeitos negativos sobre desfechos maternos e fetais. Os estudos citados são unânimes em afirmar a existência deresultados satisfatórios da prática da atividade física durante a gestação para mãe e filho, atestando que manter um estilo de vida ativo é importante para qualquer pessoa, em qualquer faixa etária e em qualquer fase da vida, inclusive durante a gestação. Diante disso, a prática de atividade física integra-se como um cuidado inerente ao processo gestacional a fim de qualificar a assistência e ofertar um cuidado integral à gestante. 77 CONSIDERAÇÕES FINAIS Mediante uma abordagem quantitativa, o presente estudo identificou o efeito protetor da prática de atividade física sobre alguns resultados maternos e fetais, como via de parto, intervenções obstétricas durante o trabalho de parto e peso do recémnascido, demonstrando a necessidade de incentivar ainda mais a adoção de um estilo de vida saudável com a inclusão de exercícios físicos orientados e regulares. É importante ressaltar que para algumas variáveis estudadas, o tamanho amostral pode ter contribuído para a falta de significância estatística. A análise das práticas desenvolvidas na atenção ao parto de primigestas constatou um modelo assistencial que prioriza ações intervencionistas sobre a evolução do parto, desconsiderando seu caráter holístico e agregando aspectos pouco valorativos ao processo parturitivo. Evidenciou-se ainda que a propagação do poder médico sobre o corpo feminino, além do desconhecimento das mulheres e sua exclusão acerca das decisões obstétricas são fatores que contribuem para a perpetuação do modelo atual de assistência ao parto e apresentam-se como um entrave para a transformação das práticas profissionais na direção do parto humanizado. Nesse sentido, é importante ressaltar que, de acordo com o modelo de humanização da assistência ao parto, as intervenções obstétricas são consideradas, muitas vezes, desnecessárias e prejudiciais à mulher, logo, os profissionais devem conscientizar-se de que tais práticas não devem ser realizadas de forma costumeira e mecanizada, procurando alternativas que resguardem a individualidade da mulher e a coloque no centro do processo parturitivo, a fim de estabelecer uma assistência democrática e efetiva na direção do cuidado humanizado. Frente a este contexto, entende-se que realizar atividade física durante a gestação é uma forma de promover um cuidado desmedicalizado e que atenda ao propósito da humanização do parto, centrado nas necessidades individuais da mulher, garantindo sua segurança, conforto e considerando suas peculiaridades. Como limitação enfrentada para a realização deste estudo, destacam-se os registros deficientes nos prontuários clínicos referentes ao parto e nascimento. Muitas vezes, os mesmos não apresentavam dados relativos à avaliação obstétrica da parturiente no momento da hospitalização e/ ou não especificavam as indicações de cesarianas. Outra limitação do estudo foi o próprio modelo de parto vigente, que não 78 reconhece a potencialidade da gestante em conduzir o parto, limitando-a ao poder de decisões arbitrárias dos profissionais. A indicação da prática de atividade física durante a gestação já é considerada uma prática segura, devendo ser de conhecimento de toda a equipe profissional. No entanto, ao estabelecer correlação com o termo tecnologia de cuidado obstétrico, evidenciou-se que a implementação desta proposta é um desafio, sobretudo pela ausência de trabalhos que abordem esta temática no contexto do cuidado ao parto. Vale ressaltar que o período da gestação é oportuno para a introdução de mudanças comportamentais, especialmente porque os efeitos da atividade física repercutem de forma positiva sobre a saúde materna e fetal. Assim, o presente estudo destaca-se no campo obstétrico por contribuir para a reflexão da práxis, subsidiando a transformação das práticas assistenciais e valorizando o preparo corporal para o parto como um tipo de tecnologia de cuidado que busca reunir e incorporar conhecimentos necessários para garantir a excelência do cuidado. REFERÊNCIAS BATISTA, D. C.; et al. Atividade física e gestação: saúde da gestante não atleta e crescimento fetal.Rev. Bras. Saúde Matern. Infant, v 3, n.2, p. 151-158, 2003. BRASIL. Agência Nacional de Saúde Suplementar. O Modelo de Atenção Obstétrica no Setor de Saúde Suplementar no Brasil: cenários e perspectivas. Brasília; 2008. CLAPP, J. F. The course of labor after endurance exercise during pregnancy.Am J ObstetGynecol,v.163, p.1799-1805, 1990. DUMITH, S. C. et al. Atividade física durante a gestação e associação com indicadores de saúde materno-infantil. Rev. Saúde Pública, v. 46, n. 2, p. 327-33, 2012. GALLUP, E. Aspectos legais da prescrição de exercícios para a gravidez. Seção III: Aplicações práticas. In: Artal, R.,Wiswell, A. R., Drinkwater, L. R. O exercício na gravidez. São Paulo: Manole; p. 293-8, 1999. 79 KOERICH, M. S.; et al. Tecnologias de cuidado em saúde e enfermagem e suas perspectivas filosóficas.Texto Contexto Enferm, Florianópolis, v. 15, p. 178-85, 2006. MATIJASEVICH, A.; DOMINGUES, M. R. Exercício físico e nascimentos pré-termo. Rev. Bras de Ginecol e Obstet, v.32, n.9, p.415-9, 2010. MEIER, M. J. Tecnologia em enfermagem: o desenvolvimento de um conceito. Tese (Doutorado em Enfermagem) - Pós Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de Santa Catarina, 2004. NAGAHAMA, E. E. I.; SANTIAGO, S. M. A institucionalização médica do parto no Brasil. Ciência e Saúde Coletiva, v. 10, n. 3, p. 651-657, 2005. NUNES, S. VARGENS, O. A crioterapia como estratégia para alívio da dor no trabalho de parto: um estudo exploratório. Rev.Enferm UERJ, v.15, n.3, p. 337-42, 2007. PROGIANTI, J. 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A humanização do parto se configura nas relações entre os sujeitos do processo parturitivo e vem de maneira muito particular promovendo a reforma do pensamento tradicional na obstetrícia, pois permite compreender a realidade através de um olhar multidimensional que ajuda a intervir e propor soluções para os problemas encontrados no cotidiano da assistência obstétrica. Esses apontamentos são coerentes com os resultados da análise da prática de atividade física realizada durante a gestação sobre as condições de parto e nascimento, em que foi constatado que, apesar da atividade física se mostrar como um fator de proteção para alguns elementos do desenvolvimento do parto e nascimento, as taxas das práticas obstétricas apresentaram-se elevadas, o que nos permite afirmar que as ações pautadas no modelo tecnicista ainda se fazem presentes na assistência dispensada às parturientes do município. Nessa perspectiva, faz-se necessário analisar as práticas que estão sendo desenvolvidas na atenção ao parto de primigestas, a fim de propor soluções que estabeleçam uma relação direta com as propostas da política de humanização do parto, pois é um fator primordial para o estabelecimento de mudanças no processo de trabalho dos profissionais inseridos neste processo. Este componente transformador da humanização do parto permite o reconhecimento de novas possibilidades para o cuidado obstétrico, especialmente, no que se refere a prática de atividade física pela gestante que caracteriza-se em um elemento da integralidade de ações em prol da qualificação da atenção obstétrica. A pesquisa revelou ainda que os efeitos da prática de atividade física sistematizada, durante o período gestacional, são capazes de proporcionar mudanças das 83 práticas no âmbito da humanização do parto, pois revelaram-se como uma dimensão do cuidado obstétrico altamente eficaz na redução de intervenções desnecessárias. Esta característica conferida à atividade física permite estabelecer correlação com as tecnologias de cuidado, assegurando uma assistência digna, segura e individualizada à mulher durante o período gravídico-puerperal. Como limitação enfrentada para a realização deste estudo, destacam-se os registros deficientes nos prontuários clínicos referentes ao parto e nascimento. Muitas vezes, os mesmos não apresentavam dados relativos à avaliação obstétrica da parturiente no momento da hospitalização, letras ilegíveis e/ ou não especificavam as indicações de cesarianas. No entanto, isto não comprometeu a fidedignidade dos resultados, apontando para problemas que poderão suscitar novas pesquisas. A proposta de realização de atividade física com um grupo de gestantes apresentou-se como um dos grandes desafios para o desenvolvimento desta pesquisa, pois os benefícios da prática de uma vida ativa e saudável ainda não são totalmente difundidos entre a população, especialmente entre as gestantes que se encontram imbuídas de mitos e preconceitos em relação à prática de atividade física durante o período gravídico-puerperal. No caso específico desta pesquisa, o grupo de gestantes era composto por adolescentes advindas de áreas periféricas da cidade, configurando-se em uma constituição especial e cada vez mais frequente em nosso país: crianças gerando crianças. Como pesquisadora, vivenciei e compartilhei vários momentos com estas meninas que, aos poucos, tornavam-se mulheres, mães, esposas e donas de casa. Ao longo dos nossos encontros, fiz novas amizades e aprendi com a realidade cotidiana de cada uma delas. As reflexões advindas do desenvolvimento desta pesquisa me proporcionaram uma maior sensibilidade enquanto enfermeira, pois percebi que o estabelecimento de vínculos entre profissional e paciente/cliente possibilita a realização de um cuidado mais efetivo e centrado nas reais necessidades do indivíduo. Diante do exposto, acredita-se que o estudo tem muito a contribuir como um instrumento mediador de transformações das práticas profissionais do cuidado obstétrico, especialmente para o enfermeiro que, diante da intensa incorporação de novos conhecimentos, o aprofundamento sobre a temática poderá fornecer subsídios importantes na atuação profissional. Especificamente sobre o comportamento da atividade física como uma tecnologia de cuidado obstétrico, percebe-se que essa relação pode contribuir, significativamente, com a melhoria do atendimento direcionado às 84 gestantes e puérperas na garantia de uma atenção mais qualificada prestada no município. 85 7. REFERÊNCIAS AMORIM, M. M. R., SOUZA, A. S. R.,PORTO, A. M. F. Indicações de cesariana baseadas em evidências: parte I. FEMINA, v. 38, n. 8, 2010. AYRES, J. R. C. M., DESLANDES, S. F. Humanização e cuidado em saúde. Ciênc. Saúde coletiva, Rio de Janeiro, v.10, n.3, 2005. BARBOSA, G, P. et al. Parto cesáreo: Quem o deseja? Em quais circunstancias. Cad. Saúde Pública, v. 19, n.6, p.1611-1620, 2003. ARTAL, R.; O’TOOLE, M. Guidelines of the American College of Obstetricians and Gynecologists for exercise during pregnancy and the postpartum period. Br J Sports Med; 37:6-12 doi:10.1136/bjsm.37.1.6, 2003. ACOG Committee. Opinion no. 267: Exercise during pregnancy and the postpartum period. 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Procedência (cidade e estado):_________________________________ 5. Estado conjugal: ( ) União Estável ( ) Solteira ( ) Viúva ( )Casada 6. Escolaridade ( ) Analfabeto ( ) Sabe ler e escrever ( ) Ensino Fundamental Incompleto ( ) Ensino Fundamental Completo ( )Ensino Médio Incompleto ( )Ensino Médio Completo ( )Ensino Superior 7. Ocupação: ________________________________________ 8. Renda Familiar: _________________________ 9. Renda per capita (quantas pessoas vivem com essa renda): _________________ 96 Seção 2. Dados de acompanhamento individual das consultas de pré-natal II – GESTAÇÃO ATUAL/EM ESTUDO 1. Início das consultas:______sem. 2. Data das consultas: 1ª. Consulta: _ _ / _ _ / _ _ _ _ 2ª. Consulta: _ _ / _ _ / _ _ _ _ 3ª. Consulta: _ _ / _ _ / _ _ _ _ 4ª. Consulta: _ _ / _ _ / _ _ _ _ 5ª. Consulta: _ _ / _ _ / _ _ _ _ 6ª. Consulta: _ _ / _ _ / _ _ _ _ 7ª. Consulta: _ _ / _ _ / _ _ _ _ 8ª. Consulta: _ _ / _ _ / _ _ _ _ 9ª. Consulta: _ _ / _ _ / _ _ _ _ 10ª. Consulta: _ _ / _ _ / _ _ _ _ Consulta puerperal: _ _ / _ _ / _ _ _ _ Outras consultas: _ _ / _ _ / _ _ _ _ 12. Exames realizados no início do PN – data de realização, acesso aos resultados e resultados marcados no cartão: ( ) ABO-Rh _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _ Resultado: _____________ ( ) VDRL _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _Resultado: _____________ ( ) glicemia de jejum _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _ Resultado: _____________ ( ) Hb/Ht _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _Resultado: _____________ ( ) anti-HIV _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _Resultado: _____________ ( ) urina tipo I _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _Resultado: _____________ ( ) sorologia para toxoplasmose _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _Resultado: ____ ( ) EPF _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _Resultado: _____________ ( ) outros, quais_____________________ _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _ 4. Exames repetidos na 30ª semana – data de realização, acesso aos resultados e resultados marcados no cartão: ( ) VDRL _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _Resultado: _____________ ( ) glicemia de jejum _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _Resultado: _____________ ( ) anti-HIV _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _Resultado: _____________ ( ) urina tipo I _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _Resultado: _____________ 5. Exames Complementares – data de realização, acesso aos resultados e resultados marcados no cartão: ( ) USG _ _ / _ _ / _ _ _ _ _ _ / _ _ / _ _ _ _ Resultado: _____________ 6. Registro de vacina antitetânica no pré-natal 97 ( ) 1ª dose ( ) 2ª dose ( ) 3ª dose ( ) Imunizada ( ) Não 7. Intercorrências durante o pré-natal (DHEG, Diabetes e outros agravos): ( ) Sim ( ) Não Quais? ___________________________ 8. Procedimentos realizados por consulta Peso – 1ª. Consulta ( ) sim ( ) não 2ª. Consulta ( ) sim ( ) não 3ª. Consulta ( ) sim ( ) não 4ª. Consulta ( ) sim ( ) não 5ª. Consulta ( ) sim ( ) não 6ª. Consulta ( ) sim ( ) não Altura1ª. Consulta ( ) sim ( ) não Cálculo IMC – 1ª. Consulta ( ) sim ( ) não 2ª. Consulta ( ) sim ( ) não 3ª. Consulta ( ) sim ( ) não 4ª. Consulta ( ) sim ( ) não 5ª. Consulta ( ) sim ( ) não 6ª. Consulta ( ) sim ( ) não Cálculo da IG – 1ª. Consulta ( ) sim ( ) não 2ª. Consulta ( ) sim ( ) não 3ª. Consulta ( ) sim ( ) não 4ª. Consulta ( ) sim ( ) não 5ª. Consulta ( ) sim ( ) não 6ª. Consulta ( ) sim ( ) não Aferição PA – 1ª. Consulta ( ) sim ( ) não 2ª. Consulta ( ) sim ( ) não 3ª. Consulta ( ) sim ( ) não 4ª. Consulta ( ) sim ( ) não 5ª. Consulta ( ) sim ( ) não 6ª. Consulta ( ) sim ( ) não Ausculta fetal (BCF) 1ª. Consulta ( ) sim ( ) não 2ª. Consulta ( ) sim ( ) não 3ª. Consulta ( ) sim ( ) não 4ª. Consulta ( ) sim ( ) não 5ª. Consulta ( ) sim ( ) não 6ª. Consulta ( ) sim ( ) não 98 Movimento fetal 1ª. Consulta ( ) sim ( ) não 2ª. Consulta ( ) sim ( ) não 3ª. Consulta ( ) sim ( ) não 4ª. Consulta ( ) sim ( ) não 5ª. Consulta ( ) sim ( ) não 6ª. Consulta ( ) sim ( ) não 9. Foi encaminhada para a maternidade de referência? ( ) sim ( ) não Qual ? _____________________ 10. Recebeu sulfato ferroso e acido fólico na gravidez? ( ) sim ( ) não 11. Apresentou intercorrências? ( ) sim ( ) Quais? ________________________ 12. Recebeu tratamento para as intercorrências?( ) sim ( ) não Onde? ________ 13. Fuma ( ) sim ( ) não Há quanto tempo? _____ Quantos cigarros/dia? ____ 14. Ex tabagista ( ) sim ( ) não Quantos cigarros/dia? ______ 15. Etilista( ) sim ( ) não Quantas doses? ________ 16. Consome droga ilícita ( ) sim ( ) não Qual? __________________________ 17. Possui alguma doença? ( ) sim ( ) não Qual? ___________________ 18. Faz uso de alguma medicação ( ) sim ( ) não Qual? ___________________ Seção 3. Dados do parto e nascimento 1. Maternidade:_______________________________________________ 2. Data e horário da internação: _________________________ 3. Dilatação do colo uterino no momento da internação:_________ 4. Ruptura de membranas: ( ) prematura (antes do início das contrações) ( ) precoce (início das contrações até 5 cm) ( ) oportuna (6 cm até 10 cm/dilatação total) ( ) tardia (após expulsão do feto) 5. Tipo de ruptura de membranas: ( ) espontânea ( ) aminiotomia ( ) amniorrexe 6. Início da fase ativa do parto (data/hora):__________________________________ 7. Início período de dilatação (data/hora): ...../...../...... hora_________________ 99 8. Final do período de dilatação (data/hora): ...../...../...... hora_________________ 9. Início período expulsivo (data/hora): ...../...../...... hora_________________ 10. Final do período expulsivo (data/hora): ...../...../...... hora_________________ 11.Duração do período expulsivo (minutos):___________________________________ 12.Hora do nascimento (data/hora):__________________________________ 13.Duração do trabalho de parto(total de horas/período de dilatação e expulsivo):_____ 14.Uso de medicação: ( ) Sim ( ) Não ( ) Quais:_________________________ 15. Intercorrências durante o trabalho de parto: ( ) sim ( ) não Quais: ___________ 16. Data do parto:_______________________________________________ 17. Tipo de parto:________________________________________________ Se cesárea qual indicação? _____________________________________ Se parto fórceps qual indicação? ________________________________ Se parto via vaginal teve episiotomia( ) sim ( ) não 18. Complicações no parto: ( ) Sim ( ) Não Quais: _______________________ 19. Complicações pós-parto: ( ) Sim ( ) Não Quais: _______________________ 20. Condições da mãe na primeira hora de nascimento: _________________________ 100 DATA/HORA PLANOS DE LEE DILATAÇÃO CERVICAL DINÂMICA 10 -5 9 -4 8 -3 7 -2 6 -1 5 0 4 1 3 2 2 3 1 4 0 5 VARIEDADEPOSIÇÃO BOLSA/ LA EXAMINADOR OBS DADOS DO RECÉM-NASCIDO: 1. Sexo: ( ) feminino ( ) masculino 2. Idade gestacional ao nascer:_________________ 3. Idade gestacional ao nascer (método Capurro):_________________ 4. Peso ao nascer __________________ 5. Comprimento _________ 6. Apgar no 1º minuto:______________ 7. Apgar no 5º minuto:______________ 8. Apgar no 10° minuto:______________ 9. Complicações no nascimento: ( ) Sim ( ) Não Quais: _______________________ 101 10. Anomalia congênita: ( ) Sim ( ) Não Quais: ___________________________ 11. Encaminhado para: ( ) Enfermaria ( ) UTI Neonatal 12. Condições do RN na primeira hora de nascimento: _________________________ 102 APÊNDICE B – Ficha de dados físicos Data (início práticas corporais) Nome: Peso: Altura: IMC: Composição corporal: % Gordura % Massa livre de gordura % Água corporal FC: PA: FLEXIBILIDADE ESPECÍFICA Data (início práticas corporais) Ombro Flexão Ombro Extensão Lado direito: Lado direito: Lado esquerdo: Lado esquerdo: Quadril Abdução Quadril Adução Coluna lombar Flexão Coluna lombar Extensão 103 Data (término práticas corporais) Nome: Peso: Altura: IMC: Composição corporal: % Gordura % Massa livre de gordura % Água corporal FC: PA: FLEXIBILIDADE ESPECÍFICA Data (término práticas corporais) Ombro Flexão Ombro Extensão Lado direito: Lado direito: Lado esquerdo: Lado esquerdo: Quadril Abdução Quadril Adução Coluna lombar Flexão Coluna lombar Extensão 104 APÊNDICE C – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Eu, Janete T. TomiyoshiNakagawa, portadora do RG RG1105431-0 SJ/MT, junto com a Angélica Pereira Borges, portadora do RG 1519860-0, solicito a sua participação na pesquisa “ESTUDO SOBRE AS CONDIÇOES DE PARTO E NASCIMENTO A PARTIR DO USO DE TECNOLOGIAS ASSISTENCIAIS INOVADORAS NO MUNICÍPIO DE CUIABÁ- MT”, no subprojeto “INFLUÊNCIA DE UM PROGRAMA DE EXERCÍCIOS FÍSICOS SOBRE AS CONDIÇÕES DE PARTO E NASCIMENTO NO MUNICÍPIO DE CUIABÁ- MT”, cujo objetivo é avaliar os resultados das práticas de saúde complementares sobre a evolução da gravidez, e condições de parto e nascimento de gestantes inscritas no programa prénatal das Unidades Básicas de Saúde no município de Cuiabá. Solicito que ao final participe da entrevista para fins de avaliação do cuidado prestado. A pesquisa lhe trará benefícios diretos, como informações e cuidados acerca do processo de gravidez, parto e pós-parto e aumento da capacidade e resistência física para melhor enfrentar o trabalho de parto e o período expulsivo. Não lhe oferecerá nenhum risco ou prejuízo pessoal, e quando na presença de risco a saúde ou do bebê, poderá requere o seu desligamento imediatamente. A sua participação é livre e sua suspensão poderá ser solicitada a qualquer momento. Comprometo-me a não revelar os nomes de qualquer participante na pesquisa. As informações serão apresentadas no trabalho sem qualquer possibilidade de sua identificação. Ao assinar este documento você autoriza a sua participação, julgando-se adequadamente informada (o) e concordando em participar da mesma. Cuiabá, ____________de _______________ de 2012. Participante:________________________________________ Responsável: ________________________________________ Pesquisadora: _______________________________________ Qualquer dúvida entrar em contato com a pesquisadora através do endereço: Av Fernando Corrêa da Costa, s/n. Coxipó. Universidade Federal de Mato Grosso. Fone: 3615-8805 E-mail: [email protected] Maiores informações sobre as questões éticas entrar em contato com o Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário Júlio Muller, fone: 3615-7254. Cuiabá, _______________________ (data) 105 APÊNDICE D – Registro fotográfico das atividades da oficina do corpo Figura 1 – Exercícios físicos em solo para fortalecimento muscular Figura 2 – Exercícios aquáticos para trabalho cardiorrespiratório 106 Figura 3 – Exercícicios aquáticos recreativos Figura 4 – Exercícios aquáticos para fortalecimento muscular 107 Figura 5 – Técnica de massagem Shantalla Figura 6 – Customização do enxoval 108 Figura 7 - Atividade educativa prática sobre o parto Figura 8 – Atividade educativa sobre parto e cuidados com o RN 109 Figura 9 – Avaliação física da flexibilidade articular Figura 10 – Avaliação física da composição corporal 110 Figura 11 – Interação com as gestantes 111 ANEXOS 112 ANEXO 1 – Termo de Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa