“Achados ao primeiro cantar dos galos”: os subterfúgios do abandono de crianças na vila de Itu, capitania de São Paulo, 1698-1798* Carlos de Almeida Prado Bacellar** Palavras-chave: expostos; registros paroquiais; família. Esta comunicação pretende analisar a prática do abandono de crianças na vila de Itu, capitania de São Paulo, no intervalo entre 1698 e 1798. Contando com registros vitais bastante bem preservados, tem-se a oportunidade de acompanhar a prática do enjeitamento ao longo de um século de profundas transformações econômicas, graças à introdução da lavoura canavieira. Para além dos dados estatísticos, contudo, pretendemos analisar a excepcional riqueza qualitativa dos registros de batismos dessas crianças para o intervalo específico entre 1732 e 1778, em que detalhes preciosos sobre os personagens que achavam ou acolhiam, bem como horários e locais do abandono, foram minuciosamente anotados pelos párocos, possibilitando melhor conhecer está prática costumeira da sociedade colonial brasileira. * Trabalho apresentado no XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, realizado em CaxambuMG – Brasil, de 29 de setembro a 03 de outubro de 2008. ** Professor da Universidade de São Paulo, e Coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo. 1 “Achados ao primeiro cantar dos galos”: os subterfúgios do abandono de crianças na vila de Itu, capitania de São Paulo, 1698-1798* Carlos de Almeida Prado Bacellar** O fenômeno do abandono de crianças ao longo da história brasileira vem sendo objeto de diversas análises ao longo das últimas décadas1. De uma maneira geral, verificou-se que a exposição de crianças não se manifestou de maneira uniforme no tempo e no espaço. Estudos longitudinais indicaram, assim, que uma mesma localidade passava por conjunturas muito distintas na prática do abandono, ora insignificantes, ora bastante expressivas. Permanece, no entanto, difícil entender as razões dessas variações, embora possamos, com certa segurança, relacionar tais eventos à pobreza, à ilegitimidade e à preocupação em ocultar nascimentos indesejados. Também não resta dúvida de que a exposição de crianças era muito mais significativa nos principais centros urbanos, ou nas vilas mineiras, em função da densidade populacional mais elevada e da conseqüente situação de vida mais precária. Nas pequenas vilas e povoados esparramadas pela América portuguesa, pelo contrário, as crianças abandonadas tendiam a ser menos usuais, embora sempre presentes2. A reação a esta situação social não é exclusiva da colônia, tendo sido, na realidade, trazida da Europa, onde o fenômeno já ocorria nas sociedades católicas3. Em território brasileiro, as práticas metropolitanas de amparo à infância abandonada foram ensaiadas, mas em condições diversas. Se em Portugal a ação das Santas Casas de * Trabalho apresentado no XVI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, realizado em CaxambuMG – Brasil, de 29 de setembro a 03 de outubro de 2008. ** Professor da Universidade de São Paulo e Coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo. 1 Para citar apenas duas das principais obras: Marcílio, Maria Luiza. História social da criança abandonada. São Paulo: Hucitec, 1998; Venâncio, Renato Pinto. Famílias abandonadas: assistência à criança de camadas populares no Rio de Janeiro e em Salvador, séculos XVIII e XIX. Campinas: Papirus, 1999. 2 O enjeitamento de crianças apresentava, assim, diferenças notáveis, tal como podemos verificar entre os 0,6% de batismos de expostos na pequena vila litorânea paulista de Ubatuba (1786-1830) e os 21,9% encontrados para a Sé de São Paulo (1771-1785). Cf. Marcílio, Maria Luiza. Caiçara: terra e população. Estudo de demografia histórica e da história social de Ubatuba. São Paulo: Paulinas/Cedhal, 1986, p. 201, e Marcílio, Maria Luiza, História social da criança abandonada. São Paulo: Hucitec, 1998, p. 233. 3 Cf. Boswell, John. The kindness of strangers: the abandonment of children in Western Europe, from late Antiquity to the Renaissance. London: Penguin Books, 1991. 2 Misericórdia e das Câmaras Municipais teve certo relevo, do outro lado do Atlântico os resultados foram mais restritos4. As Misericórdias implantadas em território da colônia quase que se restringiram às maiores cidades até o final do século XIX. Já as Câmaras Municipais, que por determinação régia deveriam atender às crianças em tal situação, em sua esmagadora maioria nada promoveram pela indisponibilidade de recursos5. Desta maneira, até finais do século XIX o abandono restringiu-se, na maioria das vilas no Brasil, e de maneira bastante evidente, a ser um assunto quase que inteiramente de foro doméstico. Enjeitar uma criança não era, portanto, questão de entregá-la a uma roda de expostos, a uma instituição hipoteticamente preparada para recolhê-la, mas sim de escolher um domicílio que, por algum critério, pudesse ser visto como apto a cuidar daquela alma inocente e desamparada. Já tivemos oportunidade de analisar o abandono exclusivamente domiciliar em uma grande vila paulista, Sorocaba, com sua economia voltada para o tropeirismo e o cultivo de gêneros alimentares6. As constatações então efetuadas foram de que estas crianças não eram preferencialmente deixadas às portas de famílias de posses, mas, pelo contrário, em famílias de todas as condições sociais. Portanto, foi possível concluir, nesse sentido, que abandonar era muito mais uma questão de confiar naqueles que recebiam, ou de julgar que naquela casa havia condições de manutenção daquele rebento, condições essas melhores do que as reinantes no fogo onde nascera. Restam, todavia, dúvidas sobre como ocorriam tais abandonos, e como eram vistos pela comunidade. Os testemunhos coevos são raros. Nos casos de expostos através das Misericórdias ou Câmaras, era comum encontrarem-se bilhetes junto ao bebê, onde a mãe deixava instruções e informações sobre suas motivações. Documentos muitas vezes trágicos, ao permitir entrever as situações de miséria e de dor maternal no momento de promover à separação física entre mães e filhos7. Porém, tais relatos nos deixam restritos a perceber as condições de miséria e doença, e os sentimentos da mãe, 4 Para uma história das Misericórdias no império português, vide Sá, Isabel dos Guimarães. Quando o rico se faz pobre: Misericórdias, caridade e poder no império português, 1500-1800. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997. 5 Cf. Venâncio, Op. cit. 6 Bacellar, Carlos A. P. Viver e sobreviver em uma vila colonial: Sorocaba, séculos XVIII e XIX. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2001. Vide também Bacellar, Carlos A. P. “Abandonados nas soleiras das portas: a exposição de crianças nos domicílios de Sorocaba, séculos XVIII e XIX”. In: Fukui, Lia (org.). Segredos de família. São Paulo: Annablume/Nemge-USP/Fapesp, 2002, p. l15-41. 7 Para uma análise dos bilhetes de expostos na roda da Santa Casa de São Paulo, vide, por exemplo, Carvalho, Vera Maria de. Girando em torno da roda: a Misericórdia de São Paulo e o atendimento às crianças expostas, 1897-1951. São Paulo: Dissertação de Mestrado pela FFLCH/USP, 1996. 3 mas não ajudam a entender como a sociedade e os demais atores envolvidos – moradores do domicílio do abandono, padrinhos, párocos – percebiam o acontecimento. Nesta comunicação, propomo-nos justamente avançar um pouco mais além na compreensão de como tais abandonos ocorriam. As fontes para nossa análise são de caráter teoricamente corriqueiro e repetitivo, os atos de batismos de enjeitados, redigidos pelos párocos. De uma maneira geral, tais registros limitam-se a indicar a data e o local de ocorrência do fato, o nome da pessoa que chefiava o domicílio onde fora encontrada e acolhida a criança, e o nome dos padrinhos. Aqui, contudo, analisaremos um conjunto documental excepcionalmente mais rico. Trata-se dos registros paroquiais de batismo de expostos para a vila de Itu, capitania de São Paulo, ao longo do século XVIII. Nesta preciosa série, uma seqüência de párocos preocupou-se em anotar informações mais detalhadas, e reveladoras, do ocorrido, deixando transparecer conhecimentos muito mais profundos do abandono em si, e que via de regra eram propositalmente ocultados ou despreocupadamente não anotados, por julgados não relevantes8. Em Itu, os expostos surgem batizados desde os primeiros registros da paróquia, ainda em finais do século XVII9. As ocorrências progressivamente aumentam em números absolutos, chegando ao final do século XVIII em contingentes dez vezes mais elevados do que cem anos antes. Esta expansão é fruto do elevado crescimento populacional da vila, principalmente durante a segunda metade do século, em função de seu papel proeminente no processo de implantação e fortalecimento da lavoura açucareira no Oeste Paulista. Mas, ao mesmo tempo, detecta-se também um grande incremento na participação proporcional dos registros de expostos no total de batismos de livres, o que aponta para um sugestivo aumento na representatividade do fenômeno. Podemos notar, também, de acordo com a tabela 1, que esse crescimento nas exposições foi mais forte na primeira metade do XVIII, com um intervalo de certa estabilização entre as décadas de 1730 e 1770, e uma retomada de impulso de 8 A indicação de filiação dos expostos deveria, na realidade, seguir as mesmas preocupações observadas para com os ilegítimos: “E quando o batizado não for havido de legítimo matrimônio, também se declarará no mesmo assento do livro o nome de seus pais, se for coisa notória, e sabida, e não houver escândalo; porém havendo escândalo em se declarar o nome do pai, só se declarará o nome da mãe, se também não houver escândalo, nem perigo de o haver. E havendo algum enjeitado, que se haja de batizar, a que se não saiba pai, ou mãe, também se fará no assento a dita declaração, e do lugar, e por quem foi achado...” (Constituiçoens Primeyras do Arcebispado da Bahia, feitas & ordenadas pelo Illustrissimo, e Reverendissimo Senhor D. Sebastião Monteyro da Vide. Coimbra: No Real Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1720, Título 20, artigo 73). 9 A primeira exposição documentada em Itu data de 26 de abril de 1699, quando a criança batizada como Antonio foi deixada no fogo do capitão Antônio Ferreira Soares. 4 crescimento a partir da década de 1780. Este perfil do abandono tem similitudes com a da vizinha vila de Sorocaba, que também apresenta uma tendência de acomodação nos índices de abandono em meados do século XVIII – embora em patamares inferiores. Da mesma maneira, o final do século, em ambas as vilas, registra súbita elevação no abandono, que ronda os 10% de expostos sobre o total de batismos. Explicar esses ritmos e variações ao longo das décadas resta difícil, principalmente se considerarmos que não coincidem com as observações realizadas para outras vilas coloniais10. Os autores costumam relacionar a freqüência dos abandonos à evolução da economia e dos níveis de pobreza, que afetariam a ocorrência de crianças ilegítimas e expostas. Mas como explicar, por exemplo, que Itu e Sorocaba, vilas vizinhas e assemelhadas, apresentem momentos de volumes de exposições tão distintos? Tabela 1. Batismos de expostos em duas paróquias paulistas: Itu e Sorocaba, 1701-1800. Itu Sorocaba Batismos totais de livres Batismos de expostos Expostos (%) Expostos (%) Datas 1701-1710 763 11 1,4 0 1711-1720 875 15 1,7 0,5 1721-1730 814 19 2,3 - 1731-1740 913 60 6,6 7,1 1741-1750 962 62 6,4 4,0 1751-1760 860 65 7,6 3,6 1761-1770 1485 115 7,7 5,3 1771-1780 1682 120 7,1 - 1781-1790 2051 193 9,4 - 1791-1795 1061 101 9,5 - 1791-1800 - - - 10,4 Total 11466 761 - - Fontes: Registros batismo da paróquia de Nossa Senhora da Candelária de Itu. Arquivo da Cúria Diocesana de Jundiaí; Bacellar, Viver e sobreviver..., p. 194. 10 Cf. Bacellar, Viver e sobreviver..., p. 197 e segs. 5 Outra hipótese poderia ser levantada para explicar esses ritmos e freqüências locais diferenciados, no caso da comparação com a vizinha vila de Sorocaba. O enjeitamento de crianças poderia contar – ou não – com o incentivo, ou ao menos com a complacência, dos párocos. Como veremos, há indícios bastante contundentes de que muitas dessas crianças eram de origem biológica pública e notória. Mesmo assim, eram batizadas como expostas, com a confirmação oficial do pároco local, numa cumplicidade bastante clara para com a prática. Ora, não seria cabível, nesta linha de raciocínio, imaginar que as variações para mais ou para menos na freqüência dos abandonos estariam, além do mais, atrelada à posição pessoal do vigário local, a aceitar ou desaprovar as práticas da comunidade? Esta é uma das questões que pretendemos analisar no futuro, através do relacionamento da freqüência dos enjeitamentos com a pessoa dos párocos, buscando identificar políticas e práticas personalizadas, por estes desenvolvidas11. Sem entrar em maiores detalhes sobre a representatividade desta nossa amostra12, propomos aqui um rápido ensaio sobre o rico conteúdo qualitativo dos registros em questão. Embora com variações ao longo dos anos, a análise centra-se sobretudo nos batismos de expostos realizados entre 1732 e 1794, dentre os quais mais 11 Afinal de contas, podemos perceber, com toda a clareza, qualidades distintas e cambiantes nas informações fornecidas em cada registro de batismo. Estas variações pessoais muitas vezes eram contrárias às regras preconizadas pelas Constituições Primeiras, e resultavam em advertências – duras, inclusive – por parte dos visitadores diocesanos. 12 Dado o estado do tratamento das informações neste momento de início da pesquisa, não temos condições de propor maiores análises estatísticas dos registros considerados. O que ora apresentamos são algumas considerações preliminares sobre estes abandonos, à luz das informações bastante interessantes que os acompanham. 6 de uma centena traz, em seu bojo, descrições mais ou menos detalhadas do evento do abandono, qualificando os personagens, o momento e local em que ocorreu, o e o que chamamos a “biografia” da criança, isto é, o conhecimento de sua eventual origem. Tal qualidade informacional nos era desconhecida até então, visto que normalmente apenas o caráter de abandonado, curto e lacônico, foi encontrado em séries de registros paroquiais de outras vilas paulistas e mesmo da América portuguesa. Dentre as primeiras considerações possíveis sobre esta série de batismos, está a indicação de onde o abandono ocorreu. Dos 90 registros que trazem alguma informação, 34 situam o local de encontro das crianças no meio urbano, ao passo que 56 teriam sido achadas em algum ambiente rural13. Conquanto os casos sejam poucos em relação ao total de batismos de expostos (761 casos), parecem confirmar tendência já verificada em Sorocaba, em que a exposição em área rural predominava, atestando seu caráter domiciliar – e não institucional14. Também interessante é a declaração do horário de encontro das crianças. Prática concretizada às escondidas, buscava-se a escuridão da noite, em que a maioria dos moradores se recolhia e o abandono se fazia bem mais discreto. E mais seguro, pois a criança escapava das horas de maior calor. De um total de 147 registros com indicação de horário, apenas 17 foram encontrados à luz do dia, contra 130 após o pôr do sol. Essa preferência noturna concentrava-se, curiosamente, em dois horários nomeados de maneira precisa: oito da noite (27 casos) e meia noite (24 casos), e apenas 22 casos descritos como ocorridos após meia-noite e antes do alvorecer – em plena madrugada, portanto. Tais indícios parecem sugerir que os abandonos se multiplicavam após o por do sol, na expectativa de evitar as altas horas e o sono profundo dos moradores receptores. Os últimos raios de sol sinalizavam que era chegada a hora de se proceder ao enjeitamento. 13 Considerados como referentes a área rural as indicações de ocorrências em bairros rurais, em sítios e propriedades diversas, ou em espaços específicos: no caminho para Sorocaba, no curral, na encruzilhada. 14 Cf. Bacellar, Viver e sobreviver..., p. 209 a 213. Instituições de recolhimento ampliavam a percentagem de expostos na área urbana, exercendo atração sobre as amplas áreas cobertas pela paróquia e mesmo nas paróquias vizinhas. 7 As descrições pormenorizadas ainda mostram que os indivíduos que localizavam o abandonado eram em sua maioria mulheres (55 casos), frente aos homens (28 casos). Alguns eram cativos, 3 escravos e 14 escravas. Mais do que indicar uma maior circulação noturna das mulheres, tais dados parecem sugerir que, muitas vezes, ao inevitável choro de uma criança, correspondia o pronto socorro de hábeis mãos femininas: “puzeram na porta de José Martins [...], recolheo hua mulata do dito chamada Joana...” (batismo de João, 7 de outubro de 1732) “achada por húa escrava sua por nome Sebastiana sem cédula algúa...” (batismo de Teresa, 21 de dezembro de 1743). Mas tal fato não era regra. A descoberta da criança enjeitada se dava a partir de um universo bastante distinto de pessoas, como que a atestar que fora achada, de fato, em meio público, onde qualquer um, não importando sua qualidade, podia ouvir um choro ou encontrar o bebê acomodado em panos ou cestas: “a qual viúva [Clara da Assunção] achou a dita criança...” (batismo de Francisco, 27 de novembro de 1732). “achado no Sitio do dito João Martins por sua molher Maria de Goes” (batismo de Januário, 12 de agosto de 1736). 8 “exposta no Sitio de Izabel de Sampayo beata de nossa Senhora do Carmo [...] achada [...] na mesma noite por húa preta mina chamada Anna, escrava da mesma caza...” (batismo de Gertrudes, 29 de agosto de 1743). “exposto em Casa de Antonio Luis Freitas, e achado por elle de madrugada ao Romper da alva...” (batismo de Manuel, 10 de julho de 1744). “achada Sem Cedula algua por João Luis Ramalho hospede do dito...” (batismo de Gertrudes, 5 de agosto de 1747). Alguns detalhes sutis indicam aspectos das estratégias que compunham o universo dos procedimentos de abandono: “ao primeiro cantar dos galos se bateu a porta de Francisco Porto, abrindo achou húa Criança...” (batismo de Gertrudes, 8 de novembro de 1747). “as onze horas da noite foy exposto em Casa do Doutor Juiz de fora Theotonio da Sylva Gusmão (...) achada pellos Seus escravos ao fechar da porta principal...” (batismo de Feliciana, 3 de novembro de 1748). “acharam na Porta na banda de dentro...” (batismo de Maria, 30 de outubro de 1749). “exposta no Caminho de Estevão Cardoso de Negreiros pendurada em húa cestinha...” (batismo de Raquel, 24 de novembro de 1770). A preocupação de abandonar em locais específicos fazia parte de uma série de cuidados da mãe ao deixar seu rebento. Repetem-se descrições que já são clássicas na historiografia do abandono. A indicação de existência ou não da famosa “cédula”, bilhete que podia acompanhar o bebê e explicar as razões do abandono e se a criança já havia sido batizada, era recorrente15. Há, contudo, muitos casos (ainda não quantificados) em que o bilhete não era encontrado. Muito provavelmente isso se dava não pelo desinteresse de quem abandonava em passar as informações, mas pura e simplesmente pelo analfabetismo das gentes, que impedia a anotação de qualquer coisa. 15 A preocupação em não se repetir a cerimônia de batismo é bastante frisada nas Constituições: “Mandamos outrossim, que as crianças, que se acharem enjeitadas nesta Cidade, e Arcebispado, sejam condicionalmente batizadas, posto que com elas se achem escritos, em que se declare, que foram batizadas, porque se não sabe de certo, se a tal criança foi validamente batizada; salvo sendo dos escritos de Párocos, ou de outros Sacerdotes conhecidos, ou de pessoa fidedigna, ou por outra via conste legitimamente com certeza moral, que foram reta, e validamente batizadas...”. Constituições Primeyras..., título 15, artigo 60. 9 Neste ponto os párocos eram bastante conscienciosos, registrando a existência ou a ausência dos bilhetes, de maneira quase sistemática. Se esses papeizinhos não informavam o essencial – se a criança já fora batizada – buscava-se “sinais” que o indicassem, mas em nenhum momento são indicados que sinais seriam esses. Sabemos, no entanto, que alguns “sinais” poderiam ser pequenos adornos, colares, medalhas ou fitas, mas que serviriam apenas como indicadores para quando os pais decidissem recuperar a criança, e não para confirmar o batismo eventualmente já realizado. Alguns párocos preocupavam-se, ainda, em registrar a roupa da criança, mas são casos bastante pontuais, e rarefeitos nas atas de batismo ituanas. Não havia – ao contrário do que ocorria nas Misericórdias – preocupação sistemática, ao menos até fins do século XVIII, em anotar tal tipo de informação: “enfaxada em húa baeta...” (batismo de Sebastião, 9 de janeiro de 1743). “trazido em um balaio e enfaxado em húa baeta vermelha...” (batismo de Jose, 9 de abril de 1743). “involta em hum pedaço de algodão e húa camiza de panículo...” (batismo de Jose, 14 de abril de 1743). Mas certamente o aspecto mais importante dos registros de abandono ituanos reside na qualificação da filiação mais ou menos conhecida. De uma maneira geral, o grande problema dos estudos sobre a exposição é justamente estabelecer a origem social dessas crianças, fossem elas abandonadas às portas dos domicílios, ou nas Santas Casas, ou mesmo entregues aos cuidados de uma câmara municipal. Em qualquer das situações, o máximo que se pode adentrar nas origens do fenômeno resume-se aos raros momentos, especialmente no Brasil, em que a mãe ou pais biológicos retornavam para buscar a criança anteriormente deixada16. Nas Santas Casas, eram justamente os bilhetinhos, as roupas ou algum objeto que serviam de identificador para a comprovação da filiação. Os expostos de Itu, pelo contrário, foram por diversas vezes objeto de registros detalhados, para além do usual, indicando, fundamentalmente, que os pais não eram tão 16 Em Sorocaba, para um universo de 1052 batismos de expostos realizados entre 1684 e 1845, houve somente cinco casos em que os pais reapareceram, para recuperar e reconhecer seus filhos. Cf. Bacellar, Viver e sobreviver..., p. 203. 10 desconhecidos como se poderia imaginar. O grau de conhecimento, ou de vontade de relatá-lo, variou de caso a caso, e de pároco a pároco, e muito provavelmente ao longo do tempo. Mas, em Itu, foram praticamente sessenta anos de continuidade, comprovando que as crianças abandonadas não eram personagens surgidos do nada. E que, ao que tudo indica, não havia preocupação em ocultar essas prováveis situações de “escândalo”, como advertiam as Constituições Primeiras. Em alguns casos, temos a nítida sensação de que a informação era disponível, porém ocultada de maneira deliberada, de acordo com a regra: “exposta em caza de João de Godoy / por haver tradição de que fora baptizado, e não se conhecer quem fora o baptizante...” (batismo de José, 13 de agosto de 1752). “exposta em Caza de Isabel Pires por dois escravos de Domingas Leme, cujos nomes Senão Sabe, os quais negros (...) declararão não estar baptizada...” (batismo de Ana, 25 de novembro de 1770). Dizer que havia “tradição de que fora batizado” é no mínimo curioso, pois sugere que outras pessoas, próximas ao local do abandono, conheciam o pequeno José suficientemente para fornecer tal informação17. E permite imaginar, também, que esse batismo ocorrera em outra paróquia, e não na própria Itu, daí a dúvida em confirmar a primeira cerimônia. No caso da pequena Ana, conhecia-se quem a expusera, “dois escravos de Domingas Leme”, e que não fora batizada, sinal inequívoco de que se sabia quem era a mãe – provavelmente, alguém do domicílio da mesma Domingas Leme. Para além desse conhecimento mais disfarçado, outros registros indicam conhecimentos bem mais efetivos, ou ao menos suspeitados, comentados de boca em boca. Crianças cujo enjeitamento era alvo do falatório das pessoas, pois era o resultado muito sabido daquilo que se definia como “fragilidade humana”. De há muito a historiografia da infância aponta para essa verdadeira “válvula de escape” representada pelo abandono. Crianças tidas em condições socialmente embaraçosas, “escandalosas” – filhos naturais, filhos adulterinos, filhos cuja justificativa se tornava incômoda, tinham no enjeitamento, ou no “dar a criar”, uma solução razoavelmente aceitável. Aceitável, mas feito de preferência à noite, para disfarçar as aparências. 17 Mas que, de qualquer maneira, não impediu o pároco de efetuar o batismo condicionalmente, conforme previsto nas Constituições, pois não tinha como confiar em referências assim obtidas. 11 O que questionamos é pressupor que a operação de transportar, na calada da noite, um bebê, e deixá-lo em local previamente estudado, para ser “achado” por acaso ou intencionalmente por pessoas previamente escolhidas, podia resultar numa operação de absoluto sigilo, em que o ocultamento da origem tinha completo sucesso. Como imaginar que comunidades de diminutos contingentes, esparsos por bairros rurais ou reunidos em pequenas vilas – tal como Itu – poderiam ignorar não somente quem estava grávida – situação de difícil ocultação aos olhares e aos sentidos -, mas, pior ainda, ignorar o eventual sumiço do rebento, sem deixar traços? Por certo, e principalmente diante dos registros aqui apresentados, podemos dizer que o ocultamento era, em muitos casos, impossível, e, por que não, sem preocupações nesse sentido. Não somente eram conhecidos os pais, mas também tal conhecimento não impedia a consecução do abandono. Portanto, abandonar era um ato socialmente reconhecido, e que não previa a “devolução” da criança. Algumas das crianças eram declaradas como fruto de uma maternidade natural, isto é, os pais eram solteiros: “e perguntado Se Sabião quem erão os Pais me informarão Ser filho natural de Manoel João Solteiro, e Maria Pais Solteira...” (batismo de Reginaldo, 11 de outubro de 1769). “que Se dis Ser filha de Pedro Pinto Pereira, e de Maria de Mattos, ambos Solteiros...” (batismo de Maria, 15 de setembro de 1771). “pais incógnitos, mas ficou certeza (...) em como era filho de Madalena de Oliveira, e filho de João Fernandes...” (batismo de Felis, 5 de junho de 1739). Podemos imaginar, nestes três exemplos, que, o casamento poderia vir a ocorrer posteriormente, como se declara mais explicitamente no seguinte registro: “que se diz Ser filha natural de Miguel de Sousa da Sylva e de Luzia de Abreu Moreira, com quem está contractado para casar...” (batismo de Francisca, 3 de dezembro de 1747). Imediatamente podemos indagar das razões para estes abandonos: se os pais eram solteiros, e mesmo se o casal Miguel e Luzia estava contratado para casar, não 12 haveria, a princípio, motivos para entregar a criança a outrem. Teria havido tempo suficiente para providenciar o casamento antes do parto, ou mesmo logo a seguir, e não haveria razão para se abandonar, exceto, provavelmente, as precárias condições de vida. Ou, mais certamente, uma concepção natural não desejada ou vetada pelos familiares, mas consumada e resultando em criança rejeitada. Nestes casos, as memórias familiares são repletas de história de jovens “raptadas” ou que “fugiam” de casa para casar, resolvendo à força as negativas familiares para a união conjugal. É o caso, bastante sugestivo, a seguir: “filha de pais incógnitos, supposto diz o dito Vitorino Ponce que se dis ser filha natural de Antonio Machado e de [Estefania] Ramires moça Solteira Raptada pelo dito Antonio Machado que a trouxe da Villa de Jundiahy...” (batismo de João, 26 de abril de 1732). Aqui, o acolhedor do pequeno João, Vitorino Ponce, informa que “se diz” que a criança nasceu de mãe “raptada” em Jundiaí, e muito provavelmente instalada nas proximidades, a ponto de os nomes dele e de seu “raptor” serem perfeitamente conhecidos. Certamente esta criança nasceu afastada dos familiares de sua mãe, que, sem amparo e vivendo talvez em condições bastante precárias, viu-se obrigada a abandoná-lo. “filho que se dis Ser de Francisco Garcia Borba, e de Rita de Almeida Ribeira solteira, e o dito pay, que se dis Ser Cazado, a dita Rita hé fregueza de Araritaguava, e filha de Pedro Homem Albernaz, e de sua mulher Rosa (...) de Almeida, naçeu a dita criança em Caza de Amador Gomes Correa, e Vindo de (fuga) dos Seus parentes, na dita (casa) se pertende criar...” (batismo de João, 15 de setembro de 1748). A fuga em situação de risco ficou registrada quando do abandono de João, em 1748. No caso, havia um complicador: dizia-se que seu pai, Francisco, era casado. A crer nas informações, deve ter iniciado relações com a jovem Rita, solteira, e esta acabou engravidando. A situação deve ter se tornado insustentável diante dos pais dela, resultando na fuga desde Araritaguaba (atual Porto Feliz) para a casa de Amador Gomes Correa. O pequeno João ali nasceu, e ali foi deixado para criar. A mãe era notória, pois 13 ali estivera; o pai era uma desconfiança, muito provavelmente conhecido através de informação da própria Rita. Ou talvez ele também estive ali presente, no momento do parto, mas, pela situação de adultério, restou precavidamente oculto no jogo de palavras: “filho que se diz ser...”. Em outra ocorrência semelhante, porém sem menção a fuga, encontramos a jovem Catarina de Siqueira, solteira, entregando para criar sua filha Maria. A exposição, aqui, ganha contornos de um trato às claras, e não oculto na calada da noite. A certeza de que não alcançaria o matrimônio com homem já comprometido, aliada às dificuldades de toda ordem, devem ter impelido Catarina a procurar melhor destino para sua menina: “filha adulterina que Se dis Ser de Gaspar Machado homem casado, e de Catherina de Siqueira Solteira filha de Manuel de Siqueira já defunto, e de Sua mulher Izabel do Prado, a qual innocente Maria foi exposta em Casa de João Leme de Mattos, a quem a mesma may entregou para criar...” (batismo de Maria, 13 de janeiro de 1746). Se os dois casos acima dizem respeito ao adultério masculino, encontramos um caso em que adúltera era a mulher, e o pai da criança não é identificado. Estas situações de adultério podiam ocorrer em domicílios em que o marido se ausentava por longas temporadas, fosse como tropeiro, fosse viajando para comerciar. Essas ausências prolongadas podiam dar ensejo ao adultério, e a criança resultante, neste caso, teve que ser abandonada: “me declarou a Madrinha dita Clara da Assumpção que sabe certamente que o dito Francisco hé filho adulterino de Isabel Dinis Pedrosa mulher de João Leme...” (batismo de Francisco, 27 de novembro de 1732). Possibilidade muito próxima, da mulher solitária que engravida, era vivida pelas viúvas. Desamparadas, e talvez sem poder explicar a gravidez em função da situação do companheiro – eventualmente um homem casado -, podiam ter no abandono uma opção atraente. Mesmo assim, não conseguiam escapar dos comentários públicos, como fica bem evidente em alguns registros: 14 “filha que a dita Leonor Leme disse Ser de Margarida Leme viúva que ficou de João de Oliveira...” (batismo de Rosa, 3 de agosto de 1736). No caso da viúva Maria Barbosa, a exposição de seus filhos gêmeos foi, curiosamente, na casa de outra viúva, Maria de Lima: “gemeos que Se dis Serem filhos de Maria Barboza viúva e Pai incógnito, expostos no citio de Maria de Lima viúva...” (batismo de Antonio e Maria, 15 de novembro de 1771). Em condição semelhante, a viúva Paula Barbosa também tratou de expor “com todo segredo” seus também gêmeos aos cuidados de outra viúva, Maria Furquim. Aqui, mais uma vez, declara-se que a mãe “entregara” os filhos, não restando qualquer conotação de efetivação do ato às escondidas, apesar da afirmação do cuidado em manter segredo: “expostos com todo o segredo em caza de Dona Maria Furquim viúva de João Paes Roiz a quem a dita mãe [Paula Barbosa, viúva, filha natural de José Barbosa de Abreu] entregara os filhos...” (batismo de Salvador e Maria, gêmeos, 19 de abril de 1739). O problema, aparentemente, era a discrição em entregar os filhos, mas o desfecho parece mais fruto de um acordo entre ambas as viúvas, sem qualquer surpresa. Não foram, portanto, abandonados ao relento, para serem “achados”, mas provavelmente entregues em mãos. Outras mulheres, na condição de filhas solteiras, parecem ter recorrido à exposição para se livrar do escândalo. Todavia, o tom dos registros que encontramos podia variar. Em certos casos, a atribuição da maternidade se dava em termos de “ouvir dizer”: uma jovem grávida, cujo filho sumia, podia ser rapidamente relacionada ao aparecimento de um exposto: “que se dis Ser filha natural de Paula Fernandes moça solteira filha de Andre Fernandes já defunto, a qual criança foi exposta em Casa de Izabel 15 dos Reis Soares, mulher de João da Riveira Caresma ausente...” (batismo de Rosa, 26 de novembro de 1745). “filha que se diz Ser natural de Jose Bicudo e de Vicencia Cardosa, solteira filha de Salvador de Quadros...” (batismo de Salvador, 16 de agosto de 1747). “Se dis Ser filho de Maria filha Solteira desta dita viúva [Maria Ribeira]...” (batismo de Luciano, 13 de maio de 1770). Se nos exemplos acima há uma alegação não confirmada, em outros a linguagem era mais incisiva, em tom de não pairarem dúvidas sobre a origem da criança: “Hieronimo inocente filho de Teresa sobrinha de Antonio Nogueira, a criança foi engeitada a Marianna Ribeyra nesta Villa...” (batismo de Geronimo, 5 de outubro de 1739). “exposta em Casa de João Cardozo e filha de Maria Leme moça solteira filha de Domingos Leme já defunto...” (batismo de Antonia, 3 de julho de 1746). A série de registros apresentada sugere, portanto, que o abandono não era necessariamente um procedimento anônimo. Se a grande maioria dos atos se cala em dar maiores detalhes sobre o ocorrido, resta a dúvida de saber o quão representativas eram as citações encontradas frente ao universo muito mais amplo de situações onde impera o silêncio. A rarefação de registros dessa qualidade em outras paróquias indicaria, supomos, a omissão de detalhes do evento, e não apenas a falta de notícias. Claro, porém, que não pretendemos dizer que todos os abandonos eram identificáveis pelos contemporâneos, mas tão somente advogar que diversos eram de história pública, frutos de relacionamentos complicados, porém notórios, e que assim eram solucionados, com o conhecimento de vizinhos, parentes, padrinhos e do próprio pároco. Semelhante constatação vem somar conhecimentos mais profundos sobre a realidade da exposição de crianças em nosso passado colonial. Realidade fugidia, difícil de rastrear, pela exigüidade e pobreza das fontes. Já tivermos oportunidade de tentar rastrear longitudinalmente estes expostos, no esforço de acompanhar suas trajetórias de 16 vida18. A “rentabilidade” dessa busca de detalhes esbarra, principalmente, na dificuldade de encontrar essas quase anônimas Marias, Anas, Josés e Manuéis, que não tinham nomes de família, e que se perdiam na infinidade de indivíduos e nas fontes documentais nominativas. Aparentemente, expostos teriam uma elevada mortalidade, talvez acima da média da época, pela simples constatação de que essas crianças, após batizadas, quase nunca eram encontradas no domicílio correspondente, quando da confecção da lista nominativa consecutiva. Embora não ousemos negar os efeitos brutais da mortalidade infantil, os registros aqui comentados trazem informações que permitem um novo olhar sobre os enjeitamentos, pois deixam claro que a criança não obrigatoriamente permanecia no fogo onde fora abandonada e encontrada. Os exemplos evidenciam tal realidade, a ocorrer em realidades sociais radicalmente diferenciadas: “exposta em caza do Doutor João Nobre Pereira e criada em caza do Coronel Joseph Martins de Arahujo...” (batismo de Felícia, 11 de março de 1741). “exposto aos sette do mesmo mês á porta de Joanna de Jesus Beata, cuja criança tomou para criar Romana forra...” (batismo de José, 13 de março de 1757). “exposto nesta Villa a porta de Joanna de Jesus, e achado por Sua escrava Ignacia (...), e criado em Caza de Branca de Almeida, viúva...” (batismo de Reginaldo, 3 de novembro de 1765). Dois dos exemplos citam uma mesma mulher, a beata do Carmo Joana de Jesus. Personagem a ser melhor identificada, foi indicada por seis vezes como receptora de expostos, entre 1737 e 176719. Seria talvez seu papel de beata na comunidade oportuno para que atuasse como ponto de referência para receber e encaminhar as crianças abandonadas? Embora apenas nos dois casos mencionados essa possibilidade encontrase explicitada, o elevado contingente deixado diante de sua porta pode ser um indício nesse sentido. 18 Vive Bacellar, Viver e sobreviver..., principalmente p. 237 a 251. Sãos os registros de Maria (14 de dezembro de 1737), José (23 de abril de 1748), Gerônimo (1º de outubro de 1748), Ana Maria (30 de maio de 1761), Joaquim (23 de maio de 1767) e Maria (22 de novembro de 1767). 19 17 De qualquer maneira, fica patente que as crianças em questão foram levadas para criar em outro domicílio, talvez mais preparado para cuidar do frágil bebê. Portanto, a busca de sua existência, nos documentos em geral, e nas listas nominativas de habitantes, em particular, deve ser promovida de maneira mais detalhada, levando em conta que o exposto de mesmo nome, em outro fogo, pode na realidade ser a mesma criança, transferida depois de encontrada e batizada. Estes novos elementos, a confirmar suspeitas, indicam que a compreensão do fenômeno do abandono ainda é incompleto e deficiente. A realização de novas investigações nas incontáveis paróquias brasileiras, ainda não alcançadas pelos pesquisadores, certamente permitirá o descortinar de maiores detalhes sobre os mecanismos do abandono infantil20. Como, por exemplo, sua relação com a escravidão e as possíveis tentativas de mães cativas de livrar seus filhos, como parece ter sido tentado na exposição da jovem Ana, depois identificada como cativa: “exposta nesta Villa as nove horas da noite em Caza de Margarida da Silva viúva e achada por Ella Sem cédula. [Nota à margem] este assento por ser feito de malicia por ser baptismo de escrava...” (batismo de Ana, 10 de janeiro de 1773). Na realidade, o que podemos constatar é que o “desconhecimento” dos pais biológicos, ou da razão para o abandono, é na verdade um fenômeno socialmente dado. Tudo indica, como procuramos demonstrar, que o conhecimento da origem de diversas dessas crianças era público e notório, e o que havia, de concreto, era a preocupação em não deixar registrada essa informação, ou a falta de interesse em registrar tantos detalhes. O temor do “escândalo” havia criado suas barreiras para impedir o detalhamento dos casos. Talvez os livros tombo da paróquia de Nossa Senhora da Candelária de Itu registrem a motivação para, a partir de dado momento, os párocos terem se preocupado em detalhar, por diversas vezes, tais registros. Ou, pelo contrário, encontremos orientações para suspender tal prática, advertidos por visitadores diocesanos que ali chegavam de tempos em tempos. Seja como for, graças ao 20 É nesse sentido que o Grupo de Pesquisa CNPq “Demografia e História”, do qual participamos, propõe o desenvolvimento de um grande projeto de levantamento de registros paroquiais por toda a América portuguesa, com vistas a aprofundar o conhecimento dos comportamentos demográficos da população brasileira no passado. O referido projeto, financiado pelo CNPQ, intitula-se “Além do Centro-Sul: por uma história da população colonial nos extremos dos domínios portugueses na América“. 18 preciosismo de alguns párocos, ao longo de algumas décadas, conseguimos entrever detalhes preciosos dessa realidade a envolver tantas crianças em nosso passado colonial. Oxalá encontremos, em outras paróquias, casos semelhantes, que ampliem nosso conhecimento sobre fenômeno ao mesmo tempo tão generalizado, e tão fugidio. 19