UNIVERSIDADE DO EXTREMO SUL CATARINENSE - UNESC
CURSO DE ARTES VISUAIS
KÁTIA URBANO GONÇALVES
CIDADE-RELATO-RETRATO: olhares sobre
Forquilhinha/SC
CRICIÚMA, JUNHO DE 2010
KÁTIA URBANO GONÇALVES
CIDADE-RELATO-RETRATO: olhares sobre
Forquilhinha/SC
Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado
para obtenção do grau de Bacharelado no
curso de Artes Visuais da Universidade do
Extremo Sul Catarinense - UNESC.
Orientador(a):
Prof. (ª) MSc. Helene Gomes Sacco Carbone
CRICIÚMA, JUNHO DE 2010
2
KÁTIA URBANO GONÇALVES
CIDADE-RELATO-RETRATO: olhares sobre
Forquilhinha/SC
Trabalho de Conclusão de Curso aprovado pela
Banca Examinadora para obtenção do Grau de
Bacharelado no Curso de Artes Visuais da
Universidade do Extremo Sul Catarinense, UNESC, com Linha de Pesquisa em Processos
e Poéticas Visuais.
Criciúma, 01 de Julho de 2010. (data da defesa)
BANCA EXAMINADORA
Prof. Helene Gomes Sacco Carbone – Mestre em Poéticas Visuais - (UFRGS) Orientador
Davi Frederico Denardini –Especialista em Design Gráfico - (SATC)
Guilherme de Quadra Esmeraldino - Especialista em Ensino da Arte - (UNESC)
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Dedico à todos aqueles que acreditaram em
mim e que me deram forças para chegar até
aqui.
4
AGRADECIMENTOS
Em primeiro lugar, devo agradecer a Deus, que me deu a vida e que
esteve ao meu lado todos os dias da minha vida para que enfim pudesse chegar a
este grande momento, depois de Deus, agradeço um familiares amigos e colegas
que estiveram juntos comigo nesta longa caminha, e quando eu mais precisei
estavam prontos para me ajudar.
Agradeço principalmente minha grande Mestra que é Helene Gomes
Sacco Carbone, que mesmo vendo que o tempo a mim reservado para que eu
pudesse concluir esse TCC fosse apertado, acreditou que eu seria capaz e não
desistiu de me acompanhar. Agradeço do fundo do meu coração a minha sabia
mestra porque se não fosse você Helene, eu não teria conseguido concluir o TCC.
Obrigada você me deu coragem e forças para continuar e sem desistir.
Bom, por fim agradeço a todos os professores que repassaram seus
conhecimentos a nós acadêmicos e que com certeza os levarei comigo com muito
carinho em meu coração e serei eternamente grata por me proporcionar
conhecimento e mais importante de tudo, por serem amigos antes de serem
professores.
Muito obrigada, e que Deus sempre os abençoe e iluminem a todos!
5
“Por esses portos eu não saberia traçar a rota
nos mapas, nem fixar a data da atracação. Às
vezes, basta-me uma partícula que se abre no
meio de uma paisagem incongruente, um
aflorar de luzes na neblina, o diálogo de dois
passantes que se encontram no vaivém, para
pensar que partindo dali construirei pedaço por
pedaço a cidade perfeita, feita de fragmentos
misturados com o resto, de instantes separados
por intervalos, de sinais que alguém envia e
não sabe quem capta. Se digo que a cidade
para qual tende a minha viagem é descontínua
no espaço e no tempo, ora mais rala, ora mais
densa, você não deve crer que pode parar de
procurá-la. Pode ser que enquanto falamos ela
esteja aflorando dispersa dentro dos confins do
seu império; é possível encontrá-la, mas da
maneira que eu disse.”
Ítalo Calvino
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RESUMO
A presente pesquisa propõe refletir as possibilidades de aproximação que a arte
pode construir com a cidade. Para isso tomo como território de criação poética a
cidade onde vivo: Forquilhinha. Nesta tentativa de encontrar uma forma de olhar a
cidade rompendo a banalização do cotidiano, apoio-me em autores que refletem a
questão do olhar, da globalização, e da arte como criação de lugares de experiência
com a cidade e com o público. Para a realização da obra detive-me no trabalho de
alguns artistas e autores que balizaram as experiências que desenvolvi.
A pesquisa ainda retoma um pouco da história da fotografia, sendo que para este
trabalho ela foi fundamental por seu poder de registro, documento, portanto exponho
também o viés da fotografia que se dirige a memória. A questão da memória esteve
presente do início ao fim da pesquisa, desde a parte teórica onde procurei
compreender o sentido de meus gestos poéticos até mesmo na realização da obra
onde ela inicia em visitas aos moradores onde realizei entrevistas e falas que
abordavam bagagens de vida, experiências construídas ano a ano na cidade.
Palavras-chave: Cidade, memória, retrato, relato, experiência.
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LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1: Forca entre o Rio Mãe Luzia e o Rio São Bento ...................................10
Figura 3: Câmara Municipal de Vereadores ..........................................................11
Figura 4: Marepe. Muro: "Comercial São Luiz".“Tudo no mesmo lugar, pelo
menor preço". Bienal de São Paulo, em 2002.......................................................21
Figura 5: Marepe. Sem título, nanquim sobre papel, 2005...................................22
Figura 6: Robert Smithson. Um tour por Passaic, 1967. Série de fotografias. ..22
Figura 7: Robert Smithson. A nonsite, Franklin, New Jersey, 1968....................23
Figura 8: Av. 25 de Julho ........................................................................................25
Figura 9: Mapa. Perímetro Urbano de Forquilhinha/SC .......................................26
Figura 10: Idair Minatto/Pastoral da Criança – 2010.............................................31
Figura 12: Mª Helena Pereira Michels/Colégio Sagrada Família – 2010..............32
Figura 16: Joseph Kosuth: One and ThreeCchairs, 1965-66 (Uma e Três
Cadeiras) ..................................................................................................................35
Figura 17: Obra: Cidade-Relato-Retrato – 09/06/2010 ..........................................36
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SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................9
2 FOTOGRAFIA........................................................................................................14
2.1 Fotografia e arte ................................................................................................15
2.2 Fotografia e memória ........................................................................................16
3 O GLOCAL E O LOCAL ........................................................................................20
3.1 Proposições contemporâneas na cidade........................................................21
4 RELATOS E MEMÓRIA DA CIDADE....................................................................24
5 CIDADE-RELATO-RETRATO: PROCESSO CRIATIVO.......................................30
6 METODOLOGIA ....................................................................................................37
7 CONCLUSÃO ........................................................................................................38
REFERÊNCIAS.........................................................................................................39
APÊNDICE................................................................................................................41
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1. INTRODUÇÃO
Sou natural de Forquilhinha, vivi minha infância, adolescência nesta
cidade, e por isso que ao procurar ver a cidade, vejo surgir muitas delas, uma para
cada ponto de origem da lembrança. Hoje já casada e residente desta, dirijo meu
olhar de artista e pesquisadora num ensaio sobre a forma como olhamos nossa
cidade. Falar da cidade onde vivo é tão prazeroso quanto morar nela, aqui passei
bons e maus momentos da minha vida, então meu olhar possui mil histórias que
povoam as ruas e lugares que hoje percorro.
O desafio desta pesquisa foi encontrar uma forma de transformar a
relação pessoal com a cidade, numa pesquisa poética, numa experiência estética,
pois é muito fácil cair numa leitura mais histórica, geográfica, sociológica,
antropológica, todas fundamentais e importantes, mas não para uma pesquisa na
área das artes visuais. Aqui é necessário se perguntar, como falar de uma cidade
através da arte? Como se aproximar de uma cidade através da arte? Como fazer
dessa experiência de aproximação uma experiência de pesquisa e ao mesmo tempo
poética?
O nome da cidade surgiu de um encontro de dois rios, rio São Bento e
Mãe Luzia, que formam uma forca, uma generosa ação da natureza. O nome
Forquilhinha é o diminutivo de forquilha, primeiro nome da cidade denominado pelos
cablocos que já viviam na região.
A vinda dos imigrantes iniciou em 1912, mas já havia ocupação humana
antes da chegada dos primeiros colonos alemães. Antes dos imigrantes alemães
ocuparem estas terras, já havia a ocupação de açorianos, italianos além da
presença de índios.
Forquilhinha pertencia ao distrito de Nova Veneza e em 1959 se
transformou em distrito de Criciúma e com o crescimento da cidade, em 1975 iniciou
com o desligamento da cidade de Criciúma onde em Assembléia Legislativa foi
aprovado pelo governador o projeto que sancionou a lei. Em 26 de abril de 1989,
com a lei nº 7587, foi criado o Município de Forquilhinha.
Com a emancipação realizou-se a 1ª eleição a Prefeito da cidade em
novembro de 1989.
10
A cidade está situada às margens do rio Mãe Luzia, na planície do Sul do
Estado de Santa Catarina, com uma superfície de 184Km2, com cerca de 21.611
habitantes, em um clima subtropical úmido.
Figura 1: Forca entre o Rio Mãe Luzia e o Rio São Bento
Figura 2: Prefeitura Municipal de Forquilhinha/SC
11
Figura 3: Câmara Municipal de Vereadores
A cada ano que passa ela cresce economicamente, populacionalmente e
principalmente no ramo empregatício, essa é uma das coisas boas que vejo e me
orgulho. Antigamente os moradores de Forquilhinha tinham que ir em busca de
emprego em outras cidades vizinhas, pois não havia indústrias grandes para
empregar tanta gente. Hoje pessoas de outras cidades vêem morar aqui pelo fato de
ter mais oportunidades de emprego que na sua cidade de origem.
Em Forquilhinha todas as pessoas independente de sua raça e cor, são
tratadas com igualdade e é por isso que não troco esta cidade por nenhuma outra.
Aqui me sinto segura dos absurdos que andam acontecendo no mundo, pois aqui
tudo é calmo e tranqüilo, posso sair à noite sem me preocupar tanto com minha casa
e com a minha vida, pois sei que está tudo seguro, ao contrário de tantos outros
lugares que temos que ter quatro olhos e ainda é pouco.
A minha idéia com essa pesquisa é mostrar através da arte fotográfica e
de entrevistas com alguns moradores um pouco de Forquilhinha. Esta é uma cidade
com tantas histórias a nos contar. São tantas pessoas diferentes, cada qual com
suas experiências próprias, histórias singulares, que enriqueceram meu olhar sobre
a cidade, ao mesmo tempo em que também contribuíram no desenvolvimento da
minha obra de arte.
A pesquisa tenta tornar visível, consciente a nossa dificuldade de ver hoje
em dia, comprovando que o mundo hoje anda tão rápido que muitas vezes não
paramos para olhar com mais cuidado e carinho da nossa própria cidade. Pessoas
vêm e vão e às vezes não as conhecemos. Coisas acontecem e nem paramos para
perceber, vivemos escravos do trabalho, do horário, da rotina frenética de nosso
cotidiano. Ao irmos ao trabalho passamos sempre pelo mesmo caminho, mas muitas
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vezes não nos damos conta do que existem no percurso da ida e da volta ao
trabalho, às coisas se modificam e nem percebemos, pois não prestamos atenção
nas coisas mais simples que tornam nossa cidade mais linda e mais real.
Isso tudo se deve ao mundo contemporâneo em que vivemos, tudo cresce
com muita velocidade, que não temos tempo o suficiente de olharmos para nossa
cidade e ver como ela era e como ela é atualmente. tudo passa tão depressa que
não paramos para ver os detalhes de uma arquitetura de um prédio antigo que faz
parte da cidade, andamos nas ruas sempre com muita pressa, quando ainda
andamos a pé, pois na maioria das vezes andamos de carro onde tudo que vemos
passa mais rápido produzindo mais distância da cidade.
Vivemos num mundo 1“onde tudo é produzido para ser visto, onde tudo se
mostra ao olhar,” diz Nelson Brissac Peixoto. Segundo o autor, “vivemos no universo
de sobreposição e da obscenidade, saturado de clichês, onde a banalização e a
descartabilidade das coisas e imagens foi levada ao extremo.” (PEIXOTO, 2000,
p.361) Tal problema coloca o ver como questão, ou seja, como olhar para o mundo
hoje sem a interferência do excesso e da banalização. Não sabemos mais aproveitar
as coisas, o sentido de experiências como vivência direta, parece ter desaparecido.
Tudo é descartado com muita rapidez e facilidade, podemos levar essa reflexão
também ao olhar humano sobre nossa cidade, pois não sabemos aproveitar e
admirar o que ela nos proporciona no mundo de hoje, nem temos “tempo” para nós
mesmos, quem dirá para uma relação direta com a nossa cidade.
Com minha obra exposta, quero fazer com que as pessoas parem e
olhem sua cidade, e através da obra elas possam refletir o que estão perdendo com
suas vidas corriqueiras, e com um olhar fechado, como se vissem apenas em linha
reta, sem poder olhar os novos horizontes que lhe são proporcionados.
Hoje o mundo gira em torno dos signos, nas cidades não identificamos
mais uma loja pela sua arquitetura e sim pelo signo que há em sua fachada. As
pessoas não querem perder tempo admirando as coisas e sim fazer o que tem a
fazer o mais rápido que podem.
Muitas vezes só percebemos as coisas através de fotografias, pois em um
simples pedaço de papel é congelada uma parte do tempo e dos acontecimentos.
Na maioria das vezes percebemos nossa cidade através de retratos feitos por nós
1
PEIXOTO, Nelson Brissac. O olhar do estrangeiro. São Paulo: Schwarz ltda, 2000, p.361
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mesmos, e nos perguntamos se aquele objeto ou aquela casa sempre esteve ali
naquele local ou algo parecido.
É por esse simples fato de as pessoas não perceberem sua cidade como ela é que
abordei o assunto fotografia com um olhar para a cidade de Forquilhinha/SC.
Busquei conversar com pessoas de duas gerações diferentes, tirando um
depoimento a respeito do olhar delas sobre a cidade, e através desses depoimentos
fiz minha obra de arte, que são retratos dos depoentes em um local da cidade que
têm algum significado em suas vidas. Para contextualizar com minha obra esta
pesquisa abordará alguns assuntos como: a história da fotografia, como surgiu a
primeira idéia de uma câmera e suas evoluções; o que a fotografia contribui para a
arte, se podemos considerá-la uma arte ou não, a fotografia como memória, como
está sendo importante o uso da foto para a construção ou melhor dizendo,
reconstrução de uma memória. Mostrarei um pouco do global e do local nas artes e
algumas de suas proposições contemporâneas. Como hoje o mundo anda tão
evoluído que a cada dia temos que quebrar paradigmas e encontrar novas formas
de se fazer arte. Apresentarei também relatos e memórias da cidade, busquei
primeiramente ver o que realmente é uma cidade, o que é um território, mostrarei um
pouco desses assuntos antes de falar das memórias de uma cidade. Como minha
pesquisa é direcionada a uma cidade específica que é Forquilhinha, e em alguns
pontos desta, farei uma comparação com uma outra cidade maior. E por fim, no
ultimo capítulo estarei relatando os processos criativos da minha obra: CidadeRelato-Retrato.
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2 FOTOGRAFIA
A descoberta da fotografia começou com o processo da câmara escura,
através de estudos feitos por Arquimedes que com o tempo foi esquecida e
redescoberta pelo grande estudioso Da Vinci.
Uma pessoa encontra-se dentro de um quarto completamente escuro,
provido apenas de um pequeno orifício na parte dianteira e uma tela na
parte traseira. Forma-se nesta última uma imagem dos objetos situados fora
do quarto. A imagem é menor do que a original, e invertida, isto é, de
2
cabeça para baixo.
A descoberta da fotografia colaborou para que o mundo fosse visto de
uma forma e horizontes diferentes. O que costumamos ver a olho nu, depois da
fotografia passou a ser visto com mais beleza e até mesmo, passamos a enxergar
melhor a realidade.
No século passado o fotógrafo profissional se restringia a retratar apenas
pessoas da alta sociedade. Fotos com custo muito alto. Com o passar dos anos ou
até mesmo séculos foi descoberto que a fotografia seria uma ótima técnica de
reprodução para uso na imprensa. A partir desta descoberta teve inicio a
fotojornalismo, um fato que revolucionou a visão do mundo. Através da imprensa, ou
melhor, fotojornalismo, conhecimentos foram aprimorados com todos e aproximou as
pessoas, suprindo a distância e as necessidades.
Hoje a fotografia proporciona um vasto mercado de trabalho, pois todas
as áreas econômicas utilizam a mesma para a divulgação de uma indústria ou para
acervo artístico o caso de museus ou para acompanhamento de um tratamento no
caso de um consultório médico e assim por diante.
Como a imagem se transforma em um meio mais sensual, o mercado de
trabalho de um fotógrafo se tornou ilimitado. A fotografia é uma atividade divertida. É
feita para registrar lembranças e comunicar nossas idéias e pensamentos, e é única
em sua capacidade de congelar para sempre um determinado instante do tempo. É
por este fato que nos encantamos tanto com a fotografia, mesmo numa época em
que as facilidades em relação à imagem se tornaram acessíveis a muitas pessoas, e
que imagens em movimento estão pelas ruas, captar o instante fugidio, estender a
imagem no tempo ainda é capaz de encantar.
2
FOTOGRAFAR, Arte e técnica. São Paulo: Agência Editora Íris, 1948, p.7.
15
2.1 Fotografia e arte
A fotografia tem ganhado muito espaço entre a arte, pois como cita
Janson, “que a invenção da fotografia foi uma resposta às necessidades artísticas e
às forças históricas que subjazem ao romantismo”. (JANSON, 2001, p. 882) Mas
houve muitos questionamentos quanto a fotografia ser uma arte ou não, Janson
ainda diz que “a fotografia em si é um “meio”, como o óleo ou o pastel, usado para
criar arte, não podendo por si só, reclamar-se como tal.” (JANSON, 2001, p.878)
Isso quer dizer que não basta apenas apertar o botão da câmera, mas sim
existe um olhar por trás da câmera, é isso que irá distinguir se a fotografia é uma
arte, e para responder melhor essa questão, Janson fala que: “o que se distingue a
arte de uma técnica á a razão por que ela é produzida e não o modo de
produção.”(JANSON, 2001, p.878)
3
Newton César responde esta questão de outro ponto de vista, dizendo
que em primeiro lugar, é preciso compreender o que é arte, e que manifestações
artísticas são inquestionáveis desde os primitivos homens, passando por índios,
tribos e povos das mais diversas culturas e raças até os tempos atuais... Arte,
portanto, nada mais é do que a capacidade do homem de expressar em matériapedra, tecido, papel ou outras formas - as interiorizações, criações e retratações do
mundo em que vive.
Há apenas uma diferença muito importante entre a arte fotográfica e a
arte em pintura entre outros meios, que é a reprodutividade.
A arte guarda para si o privilégio da liberdade de expressão, enquanto a
fotografia foi e ainda é entendida por alguns como uma arte somente
reprodutiva. Pertence a uma forma de reprodução em série e, por isso, não
é encarada como uma obra única, diferenciando-se da arte. Bobagem. É ou
foi vista assim porque apareceu no mundo das artes plásticas causando
medo. (CESAR, 2007,p.23)
Não é tão simples transformar uma fotografia em arte, pois não é qualquer
foto que tiramos que devemos considerá-la como uma arte, pois as imagens feitas
em baladas ou qualquer outro evento ou momento não são registradas com um
3
CESAR, Newton; PIOVAN, Marco. Making of: revelações sobre o dia-a-dia da fotografia.
Brasília: Senac-DF, 2007, p.23.
16
olhar artístico e sim apenas para guardar aquele momento para tê-las como
lembrança.
John Hedgecoe diz que
[...] a fotografia significa desenhar com a luz, e pode ser apreciada do
mesmo modo que se aprecia a habilidade de um pintor em comunicar a
atmosfera de uma cena, qualquer seja o seu tema, e significa também fazer
escolhas conscientes; não há um modo único de se tirar uma fotografia. (
HEDGECOE, 1996, p.6)
Newton César diz que podemos afirmar seja ela qual for, que a fotografia
amadora, profissional, jornalística, publicitária ou de moda, exige do fotógrafo, antes
e mais importante do que o conhecimento, a criatividade; a sensibilidade e o talento
de ver o mundo e expressá-lo de maneira que nossos olhos não são capazes de ver.
(CESAR, 2007, p.24) Neste sentido, Newton também nos revela que além dos
pintores, os fotógrafos também precisam estudar e conhecer sobre cores, luzes,
composições, perspectivas.
Assim podendo citar também Janson que diz: “que a fotografia tal como
arte, implica criatividade, porque, pela sua própria natureza, recorre à imaginação.”
(JANSON, 2001, p.878)
Segundo o autor,
[...] a fotografia e a pintura têm uma reação paralela à sua época e
transmitem geralmente a mesma visão do mundo, e que as duas diferem de
forma crucial na sua abordagem e temperamento: o pintor comunica sua
visão através de técnicas que representam uma reação cumulativa ao longo
do tempo; o fotógrafo “apanha” o momento em que o objeto à sua frente
corresponde à imagem que dele tinha formado.(JANSON,2001, p.879)
2.2 Fotografia e memória
A fotografia é uma forma que podemos recordar o passado, uma memória
irrefutável.
[...] o tempo que altera as pessoas não modifica a imagem que guardamos
delas [...] pois a memória, ao introduzir o passado no presente, suprime
exatamente essa grande dimensão do tempo, de acordo com a qual a vida
se realiza, segundo Marcel Proust. Ao o que Bachelard acrescenta: a
memória e a imaginação não admitem dissociação. Uma e outra trabalham
17
para seu aprofundamento mútuo. Uma e outra constituem, na ordem dos
valores, a comunhão da lembrança e da imagem. (LEITE, 1998, p.38)
A fotografia surgiu para nos proporcionar uma nova vivência da realidade
já passada, onde podemos registrar alguns momentos de nossas vidas e guardá-los
como uma boa recordação de um momento feliz.
4
Silveira Bueno coloca no minidicionário da língua portuguesa que
memória é :
Faculdade de reter as idéias adquiridas anteriormente; lembranças,
_
reminiscência;
s; narrações históricas, escritas por testemunhas
presenciais; escritos em que alguém descreve sua própria vida;
autobiografia; (Inform.) dispositivo que armazena e manipula informações
em processamento ou em trânsito por dispositivos e programas.
Já Manguel nos diz que “a memória torna-se concreta em pedras e
cunhagem: algo que sirva como lembrete e advertência, e algo que sirva como um
ponto de partida para pensamentos ou ação.” (MANGUEL, 2001, p.273)
É através da fotografia que recordamos ou que tomamos conhecimento do
passado, de como as pessoas viviam ou se vestiam. Para entendermos melhor Boris
Kossoy diz que: “Se observamos atentamente os trajes dos retratados que desfilam
diante das câmeras vemos que todos se vestiam de acordo com a moda européia do
momento”. (KOSSOY, 2002, p.72)
Isso quer dizer que muitas vezes é através de retratos que percebemos como
era a vivencia e cultura da época. No retrato vemos os detalhes minuciosos que sem
ela não poderíamos tomar conhecimento.
Exercício fascinante é o de devolver aos rostos e cenários perdidos sua
identidade, sua localização, sua referência, resgatando assim a substância
documental às representações fotográficas daqueles que um dia viveram,
amaram e sofreram ou das coisas que foram criadas, pensadas, construídas
e que se perderam ou desapareceram. Exercício fascinante é o de regatar
os nomes, hábitos e o dia-a-dia dos moradores que habitaram determinada
casa que vemos nas antigas fotos das cidades; detalhes sobre a arquitetura
das edificações, o traçado das ruas, a vegetação ornamental;[...] (KOSSOY,
2002, p. 129)
4
BUENO, Francisco Silveira. Minidicionário da Lnígua Portuguesa. Ed. FTD S.A./ Ed. Lisa S.A.
p.425.
18
É incrível a maneira como Kossoy coloca a fotografia e a memória. A
citação que ele faz é muito importante, pois é exatamente dessa maneira que
retomamos o passado. Através de retratos antigos relembramos rostos de pessoas
que foram importantes, que conhecíamos ou não, principalmente quando se trata de
retratos de família quanto a de uma cidade, onde nos damos conta de quantas
pessoas fizeram parte da nossa história, como pessoa ou como moradores, como no
caso da minha pesquisa. Kossoy ainda diz: “É o espetáculo da cidade, identificável
pela aparência gravada na imagem fotográfica: precioso documento, que preserva a
memória histórica”. (KOSSOY, 2002, p.130)
Kossoy diz que “na imagem da fotografia existem inúmeras faces e
realidades, e que a primeira delas é o que é visível. É o que vemos na imagem que
está imóvel, na sua realidade exterior e as demais faces não aquelas que não
podemos identificar, ficam ocultas, invisíveis, não fica explicito, mas que podemos
imaginar e intuir.” (KOSSOY, 2002, p.131-132)
Para melhor contextualizar a fotografia e a memória e transcrever
exatamente o que é verídico ao meu olhar quanto à cidade de Forquilhinha, trago
também uma citação de Aidê Campello Dill que diz:
Através dela e da fala dos colaboradores teve-se informações de objetos,
indumentária, desenvolvimento urbano, habitação, transporte, costumes
domésticos e mecanismos de difusão cultural da moda. [...] Através da
fotografia, o imaginário se desloca para determinada época e recria um
momento histórico daquela cultura que poderia ser mediadora das relações
humanas com a sociedade, expressa pelas roupas que vestem os
personagens fotografados. (DILL, 2009, p.11)
Ao ler esse parágrafo do livro de Dill, entendi o quanto as pessoas que
colaboram para melhor entendimento do retrato visualizado são importantes. Os
relatos desses colaborados nos levam a reviver o passado de tal maneira que
parece que presenciamos tal fato registrado. Fazemos uma montagem imaginária de
como tudo era em nossas mentes.
A finalidade desses registros fotográficos é trazer lembranças antigas e
despertar em outras pessoas o assunto revivido na fotografia, para que nenhuma
memória se perca no tempo sem que ninguém as conheça.
Aqueles que contemplam a fotografia têm esperança de descobrirem
verdades. Outro aspecto da fotografia, além de despertar o imaginário, é o
de mudar o sentido de um texto ou vice-versa. O texto pode conduzir o
observador a alterar seu significado. O que se quer dizer é que as imagens
19
mudam os textos; os textos, por sua vez, mudam as imagens. (DILL, 2009,
p.22-23)
Podemos perceber o quanto uma imagem tem sua força quanto um texto,
às vezes precisamos dos dois para melhor captarmos os desejos e objetivos da
época.
A fotografia chegou substituindo de certa forma a pintura, pois
representava a cópia exata da imagem que se desejava. Para Kossoy:
O fragmento da realidade gravada na fotografia representa o congelamento
do gesto, da paisagem e da perpetuação de um momento, isto é, a memória
do indivíduo, da comunidade, dos costumes, do fato social, da paisagem
urbana da natureza. (KOSSOY, 1989, p.101)
A fotografia tem como principal função esse congelamento da imagem,
para a recordação de um momento vivido, uma lembrança, ou melhor, para uma
futura memória. Ela recupera a presença de pessoas que amamos e que não estão
mais presentes entre nós, mas deixam sua marca através de retratos. Ela tem o
mérito de podermos ver a evolução, isso no caso de uma cidade, de uma cultura.
A fotografia funciona em nossas mentes como uma espécie de passado
preservado, lembrança imutável de um certo momento e situação, de uma
certa luz, de um determinado tema, absolutamente congelado contra a
marcha do tempo. Certas imagens carregam em si um forte conteúdo
simbólico, como algumas de nossas próprias fotos pessoais ou familiares.
Quando nos vemos nos velhos retratos dos álbuns, temos a constatação
concreta de que o tempo passou; a fotografia é espelho diabólico que nos
acena do passado. (KOSSOY, 2002, p.137)
Procuramos a todo momento preservar uma lembrança de nós mesmos e
de nossos familiares. Às vezes sem perceber, e mesmo não gostando de fazer
comparações a anos passados, mas fazemos mesmo assim, e com isso
percebemos como o tempo passa depressa e as mudanças são múltiplas.
Kossoy diz que: “Toda fotografia que apreciamos se refere ao passado.”
(KOSSOY, 2002, p.137) Engraçado pensar desta forma, mas ele tem razão, o que
vivemos ontem já faz parte do passado, e todo momento que passamos é
irreversível não tem como viver o mesmo dia, o mesmo fato na mesma hora e assim
por diante, então tudo se torna passado e vira memória.
20
3 O GLOCAL E O LOCAL
O global está cada vez mais modificando a identidade de um local e com
ela surge os paradigmas a serem quebrados por nós.
Moacir dos Anjos diz que:
[...] a globalização, de fato, demonstra é a inadequadação da noção usual
de pertencimento a um lugar – baseada que está em uma idéia de territórios
apartados – para a compreensão da dinâmica do mundo contemporâneo.
Ela sugere o rompimento da associação imediata e exclusiva entre lugar,
cultura e identidade e força o surgimento de paradigmas explicativos que
sejam relacionais e centrados, portanto, em idéias de contato e
interconexão. (ANJOS, 2006, p.44)
Essa relação entre o global e o local está vindo à nós artistas como uma
forma de paradigmas para que possamos encontrar novas formas de explorar a arte
contemporânea.
“Paradigma que são explicitados não só na produção ensaística e
acadêmica realizada desde então, mas, com igual veemência, em trabalhos de
diversos artistas contemporâneos.” (ANJOS, 2006, p.44)
A arte vem quebrando vários paradigmas que até então era impossível de
serem quebrados. Com isso o local, a cultura, a identidade de uma cidade vem
sendo resgatado através da arte contemporânea de diversas formas, cores e olhares
diferenciados.
Moacir diz que: “esses contatos constantes entre o que é diferente que
produzem, por fim, o caráter multicultural das sociedades contemporâneas.”
(ANJOS, 2009, p.44) Segundo ele,
[...] os encontros promovidos pela globalização é o termo de
transculturação, que invoca a contaminação mútua, em um mesmo tempo e
lugar, de expressões culturais antes apartadas por injunções históricas e
geográficas. (ANJOS, 2009, p.46)
Marepe é um exemplo de artista que busca trazer em uma outra
linguagem, objetos que são encontrados em nosso cotidiano, utilizando da cultura
global e as coloca de forma que demonstre o seu território, que conte e demarque a
suas vivencias e os seus pensamentos.
21
3.1 Proposições contemporâneas na cidade
Figura 4: Marepe. Muro: "Comercial São Luiz".“Tudo no mesmo lugar, pelo menor preço". Bienal de
São Paulo, em 2002.
Marepe nasceu em Santo Antônio de Jesus em 1970, no Recôncavo
baiano. Formou-se em artes plásticas pela Universidade Federal da Bahia - UFBA,
em Salvador em 1988.
Atualmente é um dos principais artistas brasileiros da
geração que se consolidou nos anos 90. Sua produção se caracteriza pela
aproximação extrema entre o seu cotidiano e as coisas simples que o circundam,
seu traço particular, a singularidade que o trabalho consegue conservar em meio a
tantos modismos, tecnologia e globalização. No trabalho do muro, que foi exposto na
Bienal de São Paulo de 2002, expõe os deslocamentos do mundo contemporâneo,
mas valorizando a memória local. Expõe através deste trabalho a memória de
criança, e conta que seu pai trabalhava na Comercial São Luiz, a principal loja da
cidade da época e que todo dia, quando ia visitar o pai na loja, Marepe passava pelo
muro. Foi essa ligação entre o mundano (o muro de propaganda) e o afetivo (a
memória que tinha do pai), que marcou sua vida.
O artista também realiza desenhos e objetos que se originam de um
contato direto com a cidade e seus costumes. Vemos nos seus trabalhos o olhar de
quem mora no lugar, de quem se relaciona com as pessoas, de quem se envolve
nos costumes e tradições locais.
22
Figura 5: Marepe. Sem título, nanquim sobre papel, 2005.
Meu interesse pela produção do artista vem pelas formas de transformar
uma experiência com a cidade, numa experiência poética que resulta na
materialização em forma de obra.
Outro artista que vejo como fundamental sua participação nesta pesquisa
é Robert Smithson, e seu trabalho na cidadezinha de Passaic no interior do EUA em
1967.
Figura 6: Robert Smithson. Um tour por Passaic, 1967. Série de fotografias.
Robert Smithson, foi um importante artista dos anos 60 e 70 nos EUA,
ligado aos minimalistas, e que é o responsável por retomar na arte a questão do
deslocamento por um local, fazendo deste uma experiência poética e estética. Seus
trabalhos aconteciam na sua maioria em espaços externos e necessitavam ser
23
narrados, expostos, relatados. Foi com este propósito que criou o termo non site.
Non site5, são montagens realizadas em espaços de galerias que incorporam toda a
produção externa, são uma forma de compartilhar uma experiência que foi apenas
pessoal, vivenciada pelo artista.
Figura 7: Robert Smithson. A nonsite, Franklin, New Jersey, 1968
5
Arte e cidade - acesso dia 07/06/2010
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.pucsp.br/artecidade/novo/images/sm_nonsite02.jpg&imgr
efurl=http://www.pucsp.br/artecidade/novo/urbanismo04.htm&h=308&w=280&sz=17&tbnid=z7K_09J1c_fQ4
24
4 RELATOS E MEMÓRIA DA CIDADE
- A arte contemporânea e a ligação com a memória e cidade
Para melhor entendermos sobre a cidade vou buscar compreender o
princípio, que é o território. Encontrei em um minidicionário da Língua Portuguesa o
seguinte significado para território:
6
“Extensão de terra; área de um país, província,
cidade, etc.”
Mesquita diz que: “o território da vida cotidiana começa no interior da
casa, são objetos, as coisas, as pessoas, são os outros.” (MESQUITA, 1995, p.80)
Então território é tudo que nos cerca, o que está dentro do nosso pedaço de terra,
pois fazem parte de nosso território. 7Segundo a autora no pensamento de Lefèbvre,
o território surge a partir das transformações realizadas no espaço físico. O espaço
vem portanto primeiro, ele é preexistente a toda ação. . “Lugar” de possíveis ele é a
realidade material preexistente a todo o conhecimento e a toda a prática da qual ele
será objeto quando um ator, manifestar uma visão intencional sobre ele. O território
é uma produção a partir do espaço.
Então podemos dizer que não existe território sem espaço e nem espaço
sem território, os dois andam juntos, mas para transformar-se numa experiência, em
uma ação que transforma o meu olhar sobre a cidade é que me aproprio deste
conceito.
Quando falamos de cidade muitas vezes nos vem em mente uma
impressão ruim, pois a cidade parece ser algo tão grande e revolto que não há como
não se expressar por uma imagem de caos. Anne Cauquelin, explica muito bem
isso:
Num primeiro momento, a cidade se torna um objeto ruim: grande demais,
engarrafadas, poluídas, invivíveis... não convival, etc... mas, como no caso
da arte contemporânea, a aceitamos como tal ou procuramos melhorá-la.
(CAUQUELIN, 1996, p.34)
Forquilhinha é diferente, uma cidade com características contrárias da
que observamos na citação a cima, é uma cidade pacata, tranqüila, sem
6
BUENO,Francisco Silveira. Minidicionário da Língua Portuguesa. Ed. FTD S.A./ Ed. Lisa S.A.
p.638.
7
MESQUITA, Zilá; BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Territórios do cotidiano: uma introdução a
novos olhares e experiências. Porto Alegre: Editora da UFRGS, Editora da UNISC. 1995, p.82.
25
engarrafamentos mais graves, sem muita poluição. As pessoas tem uma convivência
mais aproximada umas com as outras, um lugar com características germânica com
comidas típicas. A cidade está ficando cada vez mais desenvolvida. Então essa
visão de que cidade é algo grande e ruim não é o caso de Forquilhinha e assim fica
provado que cidade não é exatamente e somente algo grande, mas pode ser
pequena também.
Pode se dizer que Forquilhinha caminha com as próprias “pernas”, está
evoluindo sem precisar de ajuda de outras cidades, apenas com a luta e trabalho
dos moradores, que tem orgulho de serem forquilhinhenses. Mas Cauquelin nos
alerta em relação as cidades, nos dizendo que a forma como nos relacionamos com
ela é que fará dela uma boa ou má cidade no futuro. Nosso convívio com o lugar e
pessoas, muda a “forma” física da cidade. Se formos pensar, como é que nós seres
humanos dessa virada de milênio estamos nos relacionando cada vez mais uns com
os outros?
Figura 8: Av. 25 de Julho
A autora nos alerta através de um exemplo:
A Datar (Direction de I’aménagemet du territoire/ Direção da organização do
território) fez um estudo que visava redefinir território: partindo do principio
de que um território existe apenas para a função de sua capacidade de
ligações, e conexões. Os pesquisadores elaboraram mapas paisagísticos:
estes são desenhados com base nas ligações telefônicas: quando uma
aglomeração urbana (um ponto do mapa topográfico) efetua x comutações
telefônicas em direção a tal ou tal outro ponto, ela existe. Se não, não figura
26
no mapa. Além disso, este segundo mapa, paisagístico, muda de acordo
como numero de freqüência das comunicações. Obtém-se assim um mapa
topológico, que se forma e se deforma e onde as cidades são mais ou
menos próximas uma das outras em função do número de comunicações
que as ligam. (...) Assim, as cidades antigas, de história secular,
desapareceram da superfície do território, ao proveito de tecnopoles, que
podem muito bem ser apenas um conjunto de postes, antenas e satélites.
(CAUQUELIN, 1996, p.34)
Uma das formas de marcar território era mapeada por linhas telefônicas
para que assim pudessem existir as tais cidades no mapa, uma forma de encontrar
pontos com existência da sociedade. Cauquelin ainda diz que a cidade seria definida
como sendo um local de comutações.
Observando a cidade dessa forma, a autora entende que: “Como para a
arte contemporânea, as categorias se dissolveram. O objeto estável cedeu o lugar a
um processo de construção permanente. A cidade não é mais fixa.” (CAUQUELIN,
1996, p.34)
A cidade está em constante mudança diminui-se ruas, acrescenta-se
ruas, casas, comércios, indústrias e assim por diante, a tendência é crescer cada
vez mais.
Está esboçando um movimento de retorno para um espaço indefinido, sem
determinações, a que todo o esforço da filosofia e da ciência ocidental havia
procurado escapar. A coisa, ou o caos, substitui o objeto delimitado,
destacado. A arte e a cidade renunciam ao local que é invólucro estável que
identifica corpos. Passa-se para um regime de navegação costeira, onde as
fronteiras são diferentes em cada caso. O objeto é então o resultado,
efêmero, que pode tanto dissolver-se como demorar-se um momento, de
um encontro aleatório entre intervenientes numa rede. (CAUQUELIN, 1996,
p.35)
Figura 9: Mapa. Perímetro Urbano de Forquilhinha/SC
27
Será que tanta produção atual em arte urbana não é na verdade uma
tentativa de chamar a atenção para esse espaço que é nosso, é de todos e que
ninguém percebe? Será que não é um alerta para nos aproximarmos dos nossos
lugares antes que eles se modifiquem e percam sua essência original?
Muitos artistas produziram a partir das cidades e muitos fazem da cidade
o local ou suporte de suas ações. Podemos voltar no tempo e identificar as primeiras
deambulações urbanas a partir dos surrealistas e dadaístas, mas teve um grupo
chamado se situacionistas que fizeram do encontro com as cidades uma situação,
uma criação de um momento único. 8Henri Lefebvre, filósofo ligado ao grupo definiu
a cidade como a:
"Projeção da sociedade sobre um dado território". Essa afirmação parece
bastante elementar e, ao mesmo tempo, um ponto de partida indispensável,
porque se é necessário ultrapassar o empirismo da descrição geográfica,
corre-se o risco de imaginar o espaço como uma "página em branco" sobre
a qual se inscreve a ação dos personagens sociais e das instituições, sem
encontrar obstáculos, a não ser o "desenho" das gerações anteriores. Isso
corresponderia a conceber a natureza como totalmente moldada pela
cultura e, assim, que toda problemática social tem origem na união destes
dois termos, através do processo dialético pelo qual "uma espécie biológica
particular (dividida em classes)", o homem, se transforma e transforma o
seu desenvolvimento na luta pela vida e pela apropriação diferencial do
produto de seu trabalho.
A cidade vem sendo palco de grandes obras artísticas, Fernando
Pedro da Silva9 diz que:
As discussões sobre a idéia do público na arte têm adquirido
relevância a partir dos anos ’60, trazendo questionamentos sobre
o papel e a atuação social de instituições artísticas como museus e
galerias. Nos anos ’80 e ’90, essas discussões ganharam novos
contornos, com o grande desenvolvimento do mercado de arte,
como decorrência da mercantilização da cultura de uma maneira
geral, sendo que tudo isso tem gerado um processo de
privatização da arte. Por outro lado, a arte pública tem-se
encaminhado no sentido de discutir as próprias noções de arte, de
público, de história e memória. Ao valorizar aspectos sociais, tem
renovado suas práticas, atuando num nível estético e político,
numa tentativa de renovação e reapropriação dos espaços públicos
pelas comunidades.
Com o passar dos anos o papel da arte vem ganhando espaço e trazendo
questionamentos ao público das cidades, a arte passou a ser indispensável na
8
9
http://www.aguaforte.com/antropologia/cidade.htm - Acesso: 24/05/2010.
Resumo baseado na obra Arte Pública: diálogos com as comunidades, de Fernando Pedro da
Silva. (Belo Horizonte: C/Arte, 2005)
28
formação de opiniões das pessoas, passou a ser valorizada, e valoriza a cultura e
aspectos sociais de uma determinada cidade. A arte pública vem quebrando
fronteiras, e trazendo de novas formas a identidade, história e a memória de uma
cidade.
Para Argan,
[...] a cidade não se limita às edificações, mas envolve o imaginário, as
relações sociais, culturais e o cotidiano de seus habitantes. Silva cita Argan:
São [parte do] espaço urbano os ambientes das casas particulares, o
retábulo sobre o altar da igreja, a decoração do quarto de dormir e da sala
de jantar, até o tipo de roupa e adornos com que as pessoas andam,
representam seu papel na dimensão cênica da cidade. Também são espaço
urbano, e não menos visual por serem mnemônico-imaginárias, [...] as
influências da cidade além dos seus limites: a zona rural, de onde chegam
os mantimentos para o mercado da praça e onde o citadino tem suas
propriedade; os bosques onde ele vai caçar, os rios onde vai pescar; onde
os religiosos têm seus mosteiros e os militares, suas guarnições. O espaço
figurativo, como demonstrou Francastel, não é feito apenas daquilo que se
vê, mas de infinitas coisas que se sabem e que se lembram, de notícias. Até
mesmo quando pinta uma paisagem [...] o pintor está pintando, na
realidade, um espaço complementar do próprio espaço urbano. (ARGAN,
1992, p.43, citado por: SILVA, 2005)
Em tudo o que fazemos estamos representando de certa forma a cidade
onde vivemos, nossa maneira de se vestir, o jeito que construímos nossas casas,
sua arquitetura, decoração, mostra a outras pessoas nossa cultura, e faz uma
representação de nossa cidade.
Arte específica do lugar ou site specific, é uma expressão originada entre
os artistas ambientais dos anos ’70, como um tipo de arte que valoriza mais a
experiência do que a informação, numa época dominada pelos meios de
comunicação. (SILVA, 1992, p.22) Esses artistas não se detêm apenas na criação
de objetos artísticos, mas (...) criação de um ambiente total, que interage com as
pessoas. Segundo Nelson Brissac Peixoto10:
[...] a obra para sítio específico evidencia que o local está em permanente
mutação, é um lugar de passagem. O escultor não busca lugares
particularmente dotados de significado histórico ou imaginário [...] Converte
esses locais de trânsito, espaços típicos da dinâmica urbana moderna, em
lugares de experiência.
Vera Pallamin11 pesquisadora sobre arte urbana define as ações artísticas
em espaços públicos como:
10
11
Paisagens Urbanas. São Paulo: SENAC, Marca d’Água, 1999.
Arte Urbana. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2000, pág 32.
29
[...] as obras de arte urbanas e sua concretização no domínio público dãose em meio a espaços permeados de interdições, contradições e conflitos.
Sua efetivação porta relações de força, exercidas entre grupos sociais,
entre grupos e espaços, entre interpretações do cotidiano, da memória e da
história dos lugares urbanos. Potencialmente (sobretudo para as obras de
caráter temporário) pode configurar-se num terreno privilegiado para efeitos
de cheque de sentidos (negação, subversão ou questionamento de
valores)”.
A cidade se expõe desta forma como um campo aberto e ampliado para
proposições artísticas e especificamente para aquelas que procuram o
questionamento de sistemas instituídos ou ao menos chegar mais perto do que mais
simples, porém particular e singular, o cidadão e seu lugar, seu território e sua
memória.
Foi a partir desta autonomia dos espaços privados e desta abertura para
espaços públicos que a arte deixou de ser apenas apreciadas por pessoas da alta
sociedade, e surgiu como um grito de liberdade ao público de diferentes classes
sociais. E com a arte pública todos puderam colocar o que realmente viam e sentiam
em relação o mundo contemporâneo sem discriminação.
30
5 CIDADE-RELATO-RETRATO: PROCESSO CRIATIVO
Busquei em toda a pesquisa conhecer melhor sobre o assunto escolhido, me
aprofundar um pouco mais sobre a arte contemporânea na cidade, vivenciar
histórias e fatos da cidade onde vivo, para encontrar um meio de retratá-la
artisticamente e não apenas historicamente, ou seja, utilizei dos dois instrumentos
para chegar em minha obra final.
Para enfim chegar a produzir a minha obra, entrevistei seis pessoas que
moram na cidade. Todas elas me relataram fatos e acontecimentos diferentes sobre
a cidade de Forquilhinha. Procurei entrevistar pessoas de duas gerações, uma
geração mais velha, que conhecesse a cidade há mais tempo e outra mais nova,
para que eu pudesse sentir e ver o desenvolvimento da cidade de olhares e formas
diferentes e também buscar com que as pessoas parassem e lembrassem de
memórias que com o tempo foram esquecidas ou que as vezes não fazemos
questão de lembrá-las, para fazer com que os Forquilhinhenses apreciem mais sua
própria cidade, e fazer com que outras cidades tomem como exemplo, e que cada
pessoa passe a olhar com mais carinho e atenção onde vivem e não apenas lugares
diferentes.
Antes de qualquer passo para fazer a obra, fui conversar com algumas
pessoas para ver quem eu poderia entrevistar que pudesse me ajudar com essa
pesquisa. Com isso fui vendo que pessoas que me cercavam poderiam muito bem
me ajudar sendo meus entrevistados e a também fazer parte de minha obra. Três
pessoas entrevistadas são minhas colegas de trabalho, duas são natural de
Forquilhinha e uma de Porto Alegre. Em uma conversa entre nós mesmas, elas me
indicaram mais duas pessoas, outras filhos de imigrantes vindos para colonizar
Forquilhinha. A ultima pessoa que vi que poderia me ajudar muito foi meu pai.
Conversei com cada um deles e expliquei do que se tratava minha pesquisa e
minha obra. Alguns dos meus entrevistados ficaram meio receosos pelo fato de não
serem estudados e de não falarem bem, a língua portuguesa, mas depois de uma
conversa amigável e de tranqüiliza-los, e dizê-los que não precisava ser estudado ou
falarem bem para contar um pouco de suas vivencias na cidade e que a arte traz
várias formas de expressão sem precisar falar bem ou até mesmo de ser estudado e
o que importava naquele momento era a participação, a boa intenção de ajudar
31
relembrando de memórias sobre Forquilhinha. Depois de explicar a cada uma
dessas pessoas recebi com grande entusiasmo um sim de cada uma delas.
Fiz o questionário pensando já no que poderia ser de grande utilidade para a
pesquisa em relação à cidade de Forquilhinha e as memórias que cada um teria
sobre a mesma e por fim um local da cidade que tivesse um significado forte para
cada uma dessas pessoas. Dos locais citados eu levaria o entrevistado para tirar um
retrato que seria a parte fundamental da minha obra. Fiz todas as perguntas a cada
uma delas separadamente para que soubessem do que se tratava e para que já
fossem pensando em cada uma antes de gravar o áudio das respostas, depois disso
fui perguntando e gravando cada uma das perguntas do questionário.
A entrevista foi feita em um dia e o retrato do local em outro. Foi feito vários
retratos para que uma delas fizesse parte da obra.
Figura 10: Idair Minatto/Pastoral da Criança – 2010
Foto de: Kátia Urbano Gonçalves
32
Figura 11: Ir. Marines Gambin Rech/Igreja Sagrado Coração de Jesus - 2010
Foto de: Kátia Urbano Gonçalves
Figura 12: Mª Helena Pereira Michels/Colégio Sagrada Família – 2010
Foto de: Kátia Urbano Gonçalves
33
Figura 13: Iraci Kulkamp Westrup/Igreja Sagrado Coração de Jesus – 2010
Foto de: Kátia Urbano Gonçalves
Figura 14: Alfredo Tiscoski/Igreja Sagrado Coração de Jesus – 2010
Foto de: Kátia Urbano Gonçalves
34
Figura 15: José Antonio Urbano/Bairro Vila Lourdes – 2010
Foto de: Kátia Urbano Gonçalves
Os retratos foram tirados da pessoa entrevistada, no local escolhido por ela
mesma. Na hora de escolher o local preferi não interferir muito quanto à escolha do
lugar e muito menos na pose que cada uma poderia fazer. Me preocupei em colocar
a pessoa no ângulo que abarcasse a cidade e o retratado. Cuidei para captar melhor
a luz natural do ambiente sem utilização do flash da câmera fotográfica, e também
colocar a pessoa em primeiro plano no registro fotográfico, por ela resgatar e relatar
a memória da cidade e do local escolhido. Optei por deixar as imagens em tons de
cinza (preto e branco), para ficar mais homogêneo, dando mais unidade uma das
outras, para isso também criei módulos onde se repete o tamanho das imagens
24x30cm que enfatiza o caráter modular da composição. Cada módulo foi pensado
para expor imagens e pensamentos, numa caixa de madeira com uma repartição
onde de um lado fica o retrato em primeiro plano e do outro um trecho da entrevista
em segundo plano, busquei unir imagens e palavras e entre cada módulo utilizei um
mapa da cidade, onde localizei o bairro que cada pessoa retratada mora, com um
alfinete vermelho onde.
Essa experiência de fazer o resgate da memória da cidade com relato de
pessoas diferentes no seu modo de pensar, foi muito gratificante para mim artista da
35
cidade retratada. Entre as conversas com as pessoas que participaram da minha
pesquisa, revivi muito da minha infância, da minha vivencia aqui na cidade de
Forquilhinha. Tempos que já mais esquecerei que nunca mais voltarão. Essa
pesquisa se tornou importante pra mim, como retomada das minhas origens, assim
lembrei-me de todas as fases da minha vida, dos momentos bons, das conquistas e
das lutas para continuar a caminhar aos meus objetivos de vida.
Minha obra se encaixa na
12
arte conceitual, onde os conceitos são a
matéria da arte, e que portanto a execução da obra fica em segundo plano, podendo
ser executada por outras pessoas, pois o que importa é a idéia do artista, o conceito
que ele pôs nela. Um exemplo é o Artista
13
Joseph Kosuth que foi considerado um
dos inauguradores da arte conceitual, uma de suas obras importantes é: Uma e Três
Cadeiras, ele apresenta o objeto cadeira, uma fotografia da mesma e uma definição
de cadeira impressa em papel, ele utilizou não apenas de imagem, mas também
texto. Foi esse o conceito, ou melhor, o método que eu utilizei na execução e na
apresentação da minha obra de arte.
Figura 16: Joseph Kosuth: One and ThreeCchairs, 1965-66 (Uma e Três Cadeiras)
12
Arte Contemporânea - ParteII
<http://galeriadearte.vilabol.uol.com.br/HistoriadaArte/11/Sala11.htm> Acesso em: 16/06/2010
13
Revista: MODO DE USAR & CO <http://revistamododeusar.blogspot.com/2008/09/josephkosuth.html> Acesso em: 16/06/2010.
36
Então o que seria minha obra? Seria essas caixas compostas pelo retrato
e pela entrevista e expostas uma próxima da outra dando ficando em forma de uma
pirâmide, começo de construção, ou seja, a construção e resgate da memória e do
olhar para a cidade de Forquilhinha.
Figura 17: Obra: Cidade-Relato-Retrato – 09/06/2010
Kátia Urbano Gonçalves
Esta obra é muito importante para a cidade de Forquilhinha, para que não
se percam as origens da mesma. Proponho que seja exposta não apenas na cidade
de Forquilhinha, mas sim em outras cidades com a intenção de fazer com que as
pessoas saibam valorizar também as memórias e importância da sua origem quanto
à cidade onde vivem, para que nada em suas memórias vividas se percam com
tanta facilidade. Estou expondo a minha vivencia com a minha cidade para que sirva
de motivação a outras pessoas para que façam o mesmo.
37
6 METODOLOGIA
A pesquisa foi realizada na Cidade de Forquilhinha/SC, no que se refere à
fotografia como memória histórica da cidade em forma de arte poética. Utilizei como
instrumentos de pesquisa: livros, revistas, artigos e dissertações, que discorram de
assuntos que foram abordados nesta pesquisa, entre eles uma breve história da
fotografia, fotografia como memória e como arte, o global e o local e algumas
preposições contemporâneas na cidade, relatos e memórias da cidade. Descrevi o
processo criativo da minha obra de arte, além de descrever um pouco sobre a
formação da cidade de Forquilhinha.
Foi necessário utilizar alguns métodos para o desenvolvimento da
mesma. Estabeleci alguns critérios para se tornar mais fácil abordagem do
problema.
Consiste em uma pesquisa de natureza básica, e como não há
necessidade de ser vista uma quantidade em números e ou porcentagem, mas sim a
qualidade da mesma, Minayo cita que a pesquisa qualitativa: “[...]trabalha o universo
dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças dos valores e das
atitudes.” (MINAYO, 2007, p.21), pois no campo das artes não há como ser feito
uma quantificação.
Para que o método estipulado fosse aplicado usei um procedimento técnico
bibliográfico, pois minha pesquisa foi feita através de livros, relatos de pessoas da
cidade, através de um questionário (ver apêndice p.44) e captura de imagens
fotográficas.
38
7 CONCLUSÃO
Esse mundo globalizado nos afeta diretamente, sem que percebamos
suas interferências, e estas nos fazem procurar nossas essências. Sentimos
necessidade de compreender o que de fato somos. Antes de tornar esta pesquisa
uma reflexão filosófica, a arte nos oferece a oportunidade de auto-conhecimento, e
mais, ela nos propõe na experiência poética a possibilidade de pensar a realidade.
Se o mundo anda tão apressado, tão superficial, ela nos propõe a oportunidade de
dilatação do tempo exatamente nessa experiência poética ela propõe essa
reaproximação daquilo que esquecemos, não percebemos de nossas origens.
A fotografia foi o modo que encontrei para buscar respostas dessas
memórias esquecidas ou não contadas. A fotografia é um meio de comunicação e de
arte, que gradativamente foi se tornando quase indispensável na vida de cada ser
humano. Vimos que através dela podemos resgatar memórias, ela são realmente
suporte de memórias, conseguem abarcar nossas experiências e nos remeter a
momentos já vividos, aqueles que nem mesmo lembrávamos mais. No caso da
pesquisa foi instrumento de registro da experiência de criação, e que facilitou a
reconstituição desta experiência, ao mesmo tempo em que colaborava na
redescoberta da cidade.
Essa experiência poética me fez não só compreender o mundo atual, mas
também perceber a importância de nos aproximarmos dele, de darmos sentido a ele.
Eu que no início da pesquisa imaginava já saber e compreender tudo sobre
Forquilhinha, vi a cidade surgir sempre renovada e diferente nos relatos de cada um
dos entrevistados e hoje posso dizer que ela para mim parece bem maior , mais
complexa, mais rica e muito mais singular.
Vendo o resultado da minha pesquisa e obra, concluo dizendo que é
possível sim, falar de uma cidade através da arte de forma poética sem ser apenas
em abordagem quantitativas, numéricas e cronológicas. A experiência de criação da
obra parece comprovar que para aproximar de uma cidade é necessário realizar
métodos através da memória, história e experiência direta, mas quando ela se soma
a experiência poética, dinamiza, singulariza ainda mais a imagem que temos da
cidade.
39
REFERÊNCIAS
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Porto Alegre: Santander Cultural, 2006.
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nossos antepassados. Forquilhinha: Alpha, 2003.
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Ed. Lisa S.A.
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Martins Livreiro, 2009.
HEDGECOE, John. Guia completo de fotografia. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
JANSON, H. W. História geral da arte: o mundo moderno. 2ª ed. São Paulo:
Martins Fontes, 2001.
KOSSOY, Boris. Fotografia e memória: reconstituição por meio da fotografia.
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KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. 3ª ed. São Paulo:
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passado e no presente. In: SAMAIN, Etienne (org.). O fotográfico. São Paulo:
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introdução a novos olhares e experiências. Porto Alegre: Editora da UFRGS,
Editora da UNISC, 1995.
40
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Romeu. Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 26. ed. Petrópolis, RJ: Vozes,
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PALLAMIN, Vera. Arte Urbana. São Paulo: Annablume, FAPESP, 2000.
PEIXOTO, Nelson Brissac. O olhar do estrangeiro. São Paulo: Schwartz Ltda.,
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PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens Urbanas. São Paulo: Senac, Marca d’Água,
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SITES:
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<http://revistamododeusar.blogspot.com/2008/09/joseph-kosuth.html> Acesso em:
16/06/2010.
41
APÊNDICE
42
QUESTIONÁRIO DE PESQUISA:
ASSUNTO: RESGATE DE MEMÓRIA DA CIDADE DE FORQUILHINHA/SC
1- Nome completo?
2- Quanto tempo mora na cidade?
3- Qual é sua memória mais antiga sobre a cidade?
4- O que você pode dizer da cidade hoje? (comparar)
5- Qual é o fato mais importante que você presenciou durante esses
anos?
6- O que a cidade significa para você?
7- Aqui na cidade existe algum local com significado forte para você?
Onde e por quê?
43
RESPOSTAS:
DATA DA ENTREVISTA: 11/05/2010
HORA: 11:25 hs
LOCAL DA PESQUISA: BAIRRO SANTA ANA – EM SUA RESIDÊNCIA
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Iraci Kulkamp Westrup
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Desde que eu nasci, 62 anos.
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Desde que eu comecei a ir pra aula que a gente vê que era tudo tão
simples naquele tempo, não tinha asfalto, nada, era tudo estrada de
chão, e o que marcou muito naquele tempo de escola é que os gado
serrano vinha tudo pela serra, os boiadero tocando na praça, bem na
praça passava esse gado serrano agente tinha que se esconde atrás
das casas porque o gado era bravo, ai os boiadero vinham dizendo
assim: saiam da frente que o gado é bravo, a gente tinha que se
esconde, isso me marcou muito naquele tempo.
•
Pra mim ta um máximo, o jeito que eu conheci quando ia pra aula, hoje
por mim ela não precisa de mais nada, ela está muito bonita hoje, bem
cuidada, que nem essa passarela que foi feita ali na ponte antiga onde
eu passei por cima desde criança, então hoje foi feita essa passarela
ali, então isso modificou muito, ta muito pra melhor isso, do que uma
vez era.
•
Foi quando começou a Frisulca, aquela vez hoje em dia é a Seara,
com isso veio muita gente pra cá, deram muitos empregos pra todo
mundo aqui, uma vez tinha que fica tudo na roça, então depois disso
começo vim os empregos pra Forquilhinha, então e também comecei
na Seara aquela vez, também veio muita gente de fora.
•
É meu lar, onde tenho minha família, e to muito feliz em pode mora
aqui em Forquilhinha.
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A própria igreja, é que a gente todo domingo, hoje a gente já não vai
todo domingo a missa, naquele tempo todo domingo todo povo saia de
casa de carro de boi ou de charrete, todo mundo ia pra missa, as
casas ficava aberta porque não tinha roubo como tem hoje e todo
mundo se encontrava na frente da igreja, e lá depois da missa se
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conversavam, a tantos... haaa já é dez horas, hora de faze almoço, ai
então todo mundo... tchau, tchau e ia pra casa. A antiga igreja, hoje ta
mudada é nova né... a igreja era bem pequena, ninguém tinha carro
na Forquilhinha, uma outra família, duas tinha carro, o resto era de
charrete ou carro de boi, amarrava bem perto da igreja, amarrava lá os
cavalo pra pode i na missa e depois retornava.
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DATA DA ENTREVISTA: 11/05/2010
HORA: 14:00 hs
LOCAL DA PESQUISA: BAIRRO CENTRO – PASTORAL DA CRIANÇA
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Maria Helena Pereira Michels
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Desde quando eu nasci, 17 anos.
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Da minha despedida daqui do Sagrada, no colégio, ai eu fui morar em
Itajaí depois voltei depois de seis meses, eu não tenho muita
lembrança da cidade assim... eu sei que a cidade era bem... não era
tão evoluída quanto é hoje, tinha... era bem menos construções que
hoje tem.
•
É muito mais evoluída que antigamente, ela é uma cidade mais bonita
do que era antes, antes tinha bastante construções velhas, mesmo
aqui no Centro onde eu morava, lá na Santa Isabel quando eu morava
quando era criança.
•
Eu acho que foi a inclusão da Heimatfest, foi uma... a festa que
chamou mais a atenção do povo de fora pra Forquilhinha e também a
morte de Zilda Arns também, chamou a atenção do mundo inteiro por
Forquilhinha.
•
Significa a minha infância né, porque toda ela eu vivi aqui. Pra mim
tudo quanto é lembrança eu tenho daqui.
•
O Colégio. Eu conheci praticamente todos os meus amigos ali dentro.
Meus amigos de infância, eu tenho amigos que a gente começou no
jardim, ali junto, agente é amigo até hoje, a gente convive diariamente,
não se perdeu, sabe... então eu tenho muita lembrança ali do Colégio,
então o Colégio é um lugar onde eu sempre vou guardar, é muito
importante.
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DATA DA ENTREVISTA: 11/05/2010
HORA: 14:30 hs
LOCAL DA PESQUISA: BAIRRO CENTRO – PASTORAL DA CRIANÇA
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Idair minatto Warmling
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60 anos, dede que eu nasci.
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Minha memória é da igrejinha velha que tinha antigamente.
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Hoje a cidade ta linda, ta bem organizada, bastante jardim.
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A Pastoral da Criança, que eu comecei, já é 25 anos, é o lugar que eu
me dediquei e gosto muito.
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Pra mim é uma coisa muito especial, é muito bom, a gente mora aqui é
uma cidade limpa, uma cidade bonita, aqui eu conheci a Pastoral as
Irmãs, eu gosto muito daqui.
•
A Pastoral da Criança. Haaa... porque eu trabalho com as crianças,
com as gestantes e é muito bom, desde que eu comecei eu sempre
adorei, tem as Irmãs eu gosto muito delas.
47
DATA DA ENTREVISTA: 11/05/2010
HORA: 15:30 hs
LOCAL DA PESQUISA: BAIRRO CENTRO – EM SUA RESIDÊNCIA
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Alfredo Tiscoski
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Haaa... desde que eu nasci... 77anos
•
Mais antiga... quando a gente ia pra aula com 7, 8 anos, a gente
lembra bem da igreja da escola, das primeiras professoras e outras
coisas... mais... aquelas famílias que sempre trabalhavam junto, tudo
em beneficio comum né... para o bem da comunidade, isso realmente
é uma coisa que me chama a atenção né, ver aquelas famílias de
modo muito simples... havia aquela união, hoje já muda um pouco.
•
Hoje eu acho que... como eu falei que eu nasci e morei sempre aqui, a
gente lutou bastante já... e vendo os outros dos nossos antepassados
que lutaram... eu vejo assim... eu diria que... eu me sinto bem ou até
orgulhoso de morar em Forquilhinha hoje... com o desenvolvimento e
a... não citar nomes dos nossos... autoridades e prefeitos, mas todos
trabalharam com muita dedicação e seriedade e levaro o município
nesses 21 anos né... levaro o município a algum tema, que hoje que
ele... nós pudiamos dizer que ele é um pequeno grande município né...
município já muito divulgado pelo Brasil a fora.
•
Pensando assim no no... progresso do bem da comunidade... penso...
são várias né, mas uma delas, uma conquista foi quando conseguimos
trazer a energia elétrica na Forquilhinha, começou tudo devagar, mas
desde 1959 temos energia, que é uma coisa hoje indispensável, que
foi uma luta... entre outras coisas mais tarde com a... emancipação
política... e aí são vários os fatores dos... quando construímos em
1950... quando construímos a primeira ponte aqui que dava acesso
por exemplo da... de todo veículo, carro de boi, caminhão... você
imagina até então como era difícil né, o rio enchia então tchau.
•
O que significa... eu vou dize quase a mesma pergunta que já disse...
o que significa a cidade, é muito... é muito gratificante, diria muito
bom... eu particularmente me sinto... me sinto até orgulhoso morar em
Forquilhinha... por causa do progresso e... as pessoas que a gente
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convive e conhece já há muitos anos então... é muito bom morar
aqui... que nem quem não gosta, o caminho está aberto para procurar
outro lugar.
•
Se pode ser uma coisa mais pessoal eu diria é realmente a minha
casa... a minha família... a minha casa, minha morada aqui... eu
considero ela... eu fiquei vendo no jornal a poucos dias, que a gente
deve faze... procura faze da casa da gente uma pequena igreja, eu já
iria mais longe... eu diria um pedacinho do céu... então isso pra min
pessoalmente... falando esse é o local mais... que eu mais gosto
assim... que mais me chama atenção, que mais bem me faz... a minha
família, a minha casa.
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DATA DA ENTREVISTA: 11/05/2010
HORA: 17:00 hs
LOCAL DA PESQUISA: BAIRRO VILA LOURDES – EM SUA RESIDÊNCIA
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José Antonio Urbano
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27 anos
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Memória mais antiga... eu acho que foi... a chegada ao município.
•
A cidade hoje... ta... bem desenvolvida né.
•
O fato mais importante foi... talvez seja a emancipação do município.
•
Significa... tudo ou quase tudo né... aaa... eu sou oriundo do município
vizinho... oriundo da... agricultura do êxito rural e... parte das raízes
hoje já são aqui do município.
•
Acho e penso eu com... eu acho com certeza... um dos bairros do
município que qual eu vivo hoje né... eu moro aqui no bairro de Vila
Lourdes onde exerci função de voluntariado há 25 anos... então tem
vários pontos, várias conquistas aqui dentro desse bairro.
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DATA DA ENTREVISTA: 11/05/2010
HORA: 13:30 hs
LOCAL DA PESQUISA: BAIRRO CENTRO – PASTORAL DA CRIANÇA
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Ir. Marines Gambim Rech
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Desde 2004, 6 anos.
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O colégio Sagrada Família.
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Graças ao trabalho das famílias de origem alemã, italiana, japonesa,
polonesa e luso-brasileira, Forquilhinha continua crescendo. É linda de
se viver. O povo é hospitaleiro, criativo e solidário. O que considero
relevante: a população 21.611 habitantes no município, as escolas
públicas 22, uma escola particular, a igreja católica, os 35 clube de
mães, totalizando 900 mães. Os mesmos tem como objetivo promover
o desenvolvimento de atividades culturais, esportivos, sociais,
religiosos e recreativos. Datas festivas: a tradicional festa das origens
ou Heimatfest a cada dois anos onde acontecem desfiles étnicos;
aniversário da cidade; festa do colono, a organização do grupo da
terceira idade. Possui um Parque Ecológico. As primeiras atividades
econômicas: agricultura, destacando-se o cultivo do arroz, indústrias:
Seara, Cargill, Coopera, Arroz Rampinelli, Pasovos, cerâmicas,
agroindústrias e extração de carvão. Vejo o povo forquilhinhense
marcado pela fé trazida pelos antepassados, pelos padres francês,
Cosmos e pelas Irmãs Escolares de Nossa Senhora. Em Forquilhinha
percebo espírito de fraternidade e de solidariedade, virtudes que
fazem as pessoas serem grandes no amor a Deus e aos irmãos.
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A festa das origens, ou seja, a Heimatfest.
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Inovação, entra em palco, conquistas e vitórias no aspecto
educacional, cultural, religioso, social e econômico.
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A igreja católica assim denominada: Paróquia Sagrado Coração de
Jesus.
Porque é o lugar de encontros, celebrações, animação,
fortalecimento da fé, atualização e oração. O povo se reúne para
celebrar o dom da vida, dom da palavra e o dom da graça de Deus
através da Comunhão Fraterna.
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