ARQUIVO
DOMINI,CANO
HISTÓRICO
PORTUGUt:S
REGISTO/lNFORMACAo/ESTUDOS
• VOL.II-1979
ACTAS do I Encontro
sobre História D10minicana
Separata:
AS AULAS DE FREI BARTOLOMEU
NO CONTEXTO ESCOLAR DA ÉPOCA (*)
por
MANUEL AUGUSTO RODRIGUES
Prof. da Fac. Letras da Univ. de Coimbra
DOMINICANOS/Praça D. Afonso V/4100 PORTO-Portugal
,
ARQUIVO
DOMINICANO
-
HISTORI'CO
=
PORTUGUÊS
Regisío/lnformação/Estudos
Volume
1,1
1979
• ACTAS do I Encontro sobre História Dominicana
Sumário:
1. Crónica do I Encontro e prospectiva do 11
La PARTE: HISTóRIA E HISTORIOGRAFIA NOS DOMINICANOS
2. Do estudo da história na Ordem Dominicana
3. Méritos e deméritos da História Dominicana em Portugal
4. Para a história dos primórdios do mosteiro de S. Domingos
de Vila Real
5. O Cronista Fr. Luís de Sousa em documentos [I]
1-12
13-17
19-28
29·38
39·168
2.a PARTE: DA ESCOLA TEOLóGICA DA BATALHA
Do Mosteiro da Vitória à vila da Batalha
As aulas de Fr. Bartolomeu no contexto escolar da época
Um aluno-mestre de D. Fr. Bartolomeu
"Theologica Scripta» de D. Fr. Bartolomeu dos Mártires
A Família de D. Fr. Bartolomeu dos Mártires
A primeira visitação de D. Fr. Bartolomeu dos Mártires
e as origens de Esposende
12. Onze sentenças da Inquisição, sete em diocesanos de
D. Fr. Bartolomeu dos Mártires
6.
7.
8.
9.
10.
11.
169·175
177-192
193-195
197·217
219-220
221-250
251-276
3. PARTE: O PÓS-EXTINÇAO DE 1834
3
13. Um quadro sócio-político [a sair em prOXlmo volume]
14. Quadro eclesial-<:ongreganista após a extinção de 1834
15. Presença dominicana em Portugal 1834·1910
277
279·283
285-297
I . Colégio e Convento do Corpo Santo
11 - Convento de Nossa Senhora do Bom Sucesso
285-289
290·297
16. Reflorir dominicano
Apêndices/I:
/2:
/3:
/4:
em Ir. Teresa de Saldanha, O.P.
Elementos de Bibliografia
Teresa de Saldanha - Pintora
Teresa de Saldanha - Escritora
Teresa de Saldanha no 1.° Livro das
Actas da sua Congregação
/5: Catálogo das Superioras Gerais das
Dominicanas Portuguesas
17. Cem anos de bem·fazer
18. Para a história do Tomismo em Portugal
I - Escola Tomista de Fátima
11 - Três poemas do Neo-Tomismo
299·308
309-311
311-312
312·313
313·325
325-327
329·336
337·394
337·366
367-394
Volume editado graças ao subsídio
da FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN
N.B. - O I vol. contém lndices do Cartório Dominicano Português e ainda está
em publicação.
AS AULAS DE FREI BARTOLOMEU
NO CONTEXTO ESCOLAR DA ÉPOCA (*)
por
MANUEL AUGUSTO RODRIGUES
Prof. da Fac. Letras da Univ. de Coimbra
o extraordinário desenvolvimento da
Teologia em fins do soc. XV e princípios
do séc. XVI foi determinado essencialmente
por três factores: a descoberta da imprensa,
o humanismo com o renascimento dos estu
dos clássicos e um contacto mais estreito
com a Patrística, e a polémica evangélica
contra todo o estado histórico da Igreja.
Devido a esses factores passou a cul
tivar-se de uma maneira nova o ângulo his
tórico-bíblico da Teologia e, por outro lado,
começou a abordar-se a teologia especulativa
segundo moldes diferentes.
As ciências escolásticas conheceram
como centro principal da sua irradiação
a Península Ibérica. Salamanca, Alcalá,
Bvora e Coimbra foram focos notáveis de
estudo e de divulgação do saber escolástico.
Algumas razões que se podem apontar para
esse facto são estas: o nominalismo não se
tinha propagado bastante na Península e,
por outro lado, o humanismo não sofreu aí
tanta contestação como além-Pirenéus.
Uma figura cimeira que muito contribuiu
para a renovação dos estudos teológicos
neste período é Luís Vives <t 1540) que na
sua obra De veritate lidei ,christianae libri V
apresenta uma visão dogmático-apologética
da doutrina católica; escreveu ainda um
comentário ao De civitate Dei de S. Agos
tinho e no seu tratado De disciplinis ofe
rece uma pedagogia segundo o espírito do
humanismo cristão.
Para a reforma das ciências eclesiásticas
em Espanha desempenhou um papel impor
tantíssimo o cardo Francisco Ximénez <t
1517, como arcebispo de Toledo), o qual
fundou a Universidade de Alcalá (1500)
e mandou editar a famosa Poliglota «Com
plutense».
Como escreve M. Grabmann: «Die spa
nische Theologie des 16. Jahrhunderts, die
aus dem Bunde der Scholastik mit dem
christlichem Humanismus hervorgegangen
ist, kann aIs das Wiederaufleben und aIs die
Fortsetzung der Blütezeit der mittelaIterli
chen Scho'lastik betrachtet werden, zumal
sit' sich auf die Erklarung der «Summa
Theologica» des hl. Thomas in einer den
kirchUchen und theologischen Zeitbedürf
nissen angepassten Form konzentriert
hat» (1).
Foi devido especialmente a teólogos es
panhóis que se verificou a promoção e res
tauração da escolástica. Alguns deles, como
Domingos de Soto, Pedro de Soto e André
Vega evidenciaram-se como brilhantes teó
logos no Concílio de Trento; outros, como
Maldonado, Toledo e Gregório de Va'lência,
revelaram-se excelentes mestres de Teologia
em Universidades estrangeiras, respectiva
mente em Paris, na Itália e na Alemanha.
Aí contribuíram em larga medida para o
de~envolvimento e promoção da ciência teo
lógica.
(*) Trabalho apresentado no Mosteiro da Ba
talha, a 1 de Outubro de 1977, na L' parte do
I EncO'l1-tro sobre História Dominicana.
(1) M. GRABMANN - Die Geschichte der
katholischen Theologie seit dem Ausgang der Viiter
zeit, 2.' ed., Dannstadt, 1961, p. 145.- Vid. tam
bém a obra recente de MELQUIA<DES ANDRES
- La Teol'ogia espaiíola en el sigló XVI, 2 vols.,
Madrid, 1976-1977.
ARQUIVO HISTúRICO DOMINICANO PORTUGU:f:S /177
12
I
I
II
I
I
A Universidade de Lovaina, fundada em
1426, também se ocupou desde muito cedo
com a «Summa» de S. Tomás. Mais tarde,
juntamente com a de Colónia, havia de tor
nar-se um forte bastião de oposição à pene
tração das ideias dos reformadores evangé
licos. Lembre-se, por exemplo, a Condemna
tio doctrioolis librol1lAm Lutheri, de 7 de
Novembro de 1519. E depois seria um im
portante centro de polémica entre a teologia
católica e o jansenismo.
Na Holanda, a Universidade de Douai
criada por Filipe 11 em 1559 veio a ser
outro reduto famoso de luta anti-protestante.
A Universidade de Douai teve influência
muito marcante na Inglaterra.
Na Universidade de Paris assistiu-se a
uma enorme reorganização dos estudos em
1452 dirigida pelo legado papal cardo d'Es
touteville. De interesse incalculável se reves
tiu o decreto de Luís XI, de 1474, pelo
qual o nominalismo era condenado, sendo
proscritos todos os livros dos seus fautores.
A Universidade manifestou-se disposta a
obedecer ao rei e ao senado, de maneira
que o nominalismo não mais voltasse a ser
defendido nem pública nem privadamente.
Evidentemente que a condenação de
Luís XI não resolveu logo o problema, pois
o número de aderentes era muito significa
tivo e as suas raízes bastante profundas.
Mas, como aos nominalistas da última fase
fa'1tava aquela força criadora que caracteri
zara Ookam (t 1349), Durando (t 1334),
Gregório de Rimini (t 1358), João Buri
diano (t ca. 1358), Alberto de Saxónia
(t 1390), Marcílio de Inghen (t 1396),
Henrique de Langensterin (t 1397), Pedro
d'Ailly (1350-1420), J. Gerson (1363
-1429) , etc., os seus dias estavam contados.
Os sécs. XIV-XV ficaram na história
da filosofia e da teologia como séculos de
enorme decadência. Baixara consideravel
mente a capacidade criativa que se verifi
cara antes e notava-se nos intelectuais desse
período uma grande falta de originalidade,
limitando-se quase sempre a repetir o que já
fora dito por outros.
O estudo dos Santos Padres e da Sagrada
Escritura era cada vez mais descurado, en
quanto se dava um lugar de primazia à
lógica e à dialéctica. Os autores filósofos e
teólogos perdiam-se em distinções subtis e
áridas, perdendo de vista a análise séria dos
autênticos problemas que se levantavam à
inteligência e o estudo objectivo e literal dos
textos sagrados.
Até a forma literária dos escritos nomi
nalistas acusava sintomas de uma decência
profunda.
O nominalismo já em estado bastante
agonizante irá perdurar até à Reforma. En
tre as suas teses e as dos evangélicos havia
certos pontos de afinidade.
O humanismo, que estava a surgir cheio
de juventude e de energia, submeteu os sis
temas escolásticos já enormemente fossili
zados a uma crítica severa e impiedosa.
Erasmo no Moriae encomilAm e noutras
obras, e Luís Vives no In pseudodialecticos
(ca. 1530) e no De causis corruptarum aJ'
tium atacaram o nominalismo de forma im
placável.
f: certo que mesmo em plenos sécs. XIV
-XV se assistiu a uma reacção forte contra
os nominalistas por parte dos chamados
realistas. Capréolo (t 1444), S. António
(t 1459), a Universidade de Colónia, Dio
nísio de Ryckel (t 1471), Caetano (1469
-1534), Egídio Romano (t 1316), etc. con
tam-se entre os autores mais representa
tivos.
Voltando à Universidade de Paris, é de
salientar que no reinado de Luís XII (1498
-1515) penetrava ali o humanismo. Embora
sem o nível da Idade Média, mesmo
assim pode' considerar-se famoso o nível
atingido pelos seus mestres de Teologia, par
ticularmente desde fins do séc. XVII.
As Ordens religiosas deram igualmente
o seu precioso contributo para a renovação
da escolástica, em especial a dominicana
agora de l}ovo rejuvenescida com a reforma
de muitas das suas províncias. Os seus mem
bros iriam continuar as brilhantes tradições
teológicas do passado. Seria um período flo
rescente este em que nos situamos para os
discípulos de S. Domingos.
Também os franciscanos e a nova Or
dem dos Carmelitas Descalços com a re
forma de S. João da Cruz e de Santa Te
resa de Ávila. A promoção da teologia
tomista contou em alguns dos seus membros
óptimos expoentes e divulgadores.
A Companhia de Jesus na linha das
bases estabelecidas na «Ratio studiorum»
viria a ser no séc. XVI um dos factores
essenciais de renovação da teologia em todos
os seus domínios, nomeadamente na exe
gese bíblica e na teologia histórica; e soube
dar à teologia especulativa da Idade Média
uma forma eclética especial de acordo com
a evolução dos tempos.
A esse propósito, escreve M. Grabmann:
«Die Verbindung mit der theologischen
Entwicklng des Mittelalters wurde besonders
178/ ACTAS DO I ENCONTRO SOBRE HISTóRIA DOMINICANA
dadurch unterhalten, dass an die Stelle der
Sentenzen des Lombarden fortan die reifste
Frucht der Theologie des 13. Jahrhunderts,
die «Summa Theologiae» des hl. Thomas von
Aquin, aIs Text zu Grunde gelegt wurde,
nachdem sie auf dem Konzil von Trient
neben der Heiligen Schrift und dem «Cor
pus iuris canonici» ais bewiihrtester Aus
druck des theologischen Bewusstseins der
Kirche gedient hatte».
O Convento de San Esteban de SaIa
manca com a sua escola dominicana viria a
tornar-se o foco principal da escolástica
espanhola nos sécs. XV e XVI. O pai da
renovação escolástica em San Esteban foi
Francisco de Vitória, O.P. (t 1546). O sig
nificado da obra científica realizada e das
suas actividades pedagógicas foi trazido à
luz do dia através da investigação dos seus
manuscritos pelo cardo Ehrle e por Beltrán
de Heredia.
Vitória foi em Paris discípulo do domi
nicano Petrus Crodk.aert (Petrus Bruxellen
sis (t 1514), o qual, além de comentários
a Aristóteles, escreveu também um comentá
rio à obra De ente et essentia de S. Tomás
e à Secunda secundae (ed. por Vitória).
Desde 1526 professor em Salamanca,
Vitória desenvolveu uma actividade notável
a todos os títulos e introduziu com as suas
prelecções a «Summa» como livro de texto
e de ensino de teologia em substituição das
Sentenças de Pedro Lombardo.
Os escritos de Vitória (muitos ainda em
manuscrito) caracterizam-se por uma admi
rável simbiose de profundidade teológica e
elegância humanística e revelam uma ex
traordinária gama de conhecimentos das
fontes positivas da teologia, da Sagrada
Escritura, dos Concílios e dos Santos Pa
dres (2) .
Entre os discípulos de Vitória, destaca
ram-se Domingos Soto, O.P. (t 1560), que
estudou em Paris e foi professor em Sala
manca e teólogo em Trento. A sua activi
dade teológica foi muito considerável. As
suas obras Libri tres de natura et gratia
ad Synodum Tridentinum, Libri decem de
iustitia et iure e um comentário ao 4.° livro
das Sentenças e à Epístola aos Romanos
manifestam à saciedade a sua vasta cultura
teoIógica.
Pedro de Soto, que foi professor em Ox
ford e em Dillingen, evidenciou-se também
como teólogo afamado na aula conciliar de
Trento.
(2)
Ibid., pp. 151-152.
A Escola de Salamanca, em que Vitória
procurou manter o equilíbrio entre a teolo
gia positiva e a especulativa com grande
cautela, pode ser também considerada como
o ponto de partida da teologia histórica.
A obra clássica neste campo são os Loci
theologici de Melchior Cano, O.P., discípulo
de Vitória e teólogo em Trento, que veio a
falecer como bispo das Canárias (t 1560).
A obra de M. Cano que sofreu grande in
fluência de Rudolfo Agrícola <t 1485), au
tor da De inventione dialectica, trata das
fontes (loci) da discussão teológica com
grande acento nos pontos de vista históricos.
Trata-se da primeira metodologia teológica
e da primeira teologia fundamental, e traduz
a desejada fusão tentada por Vitória do hu
manismo com a escolástica, nomeadamente
também no aspecto formal linguístico (8) .
Outros autores notáveis da Escola domi
nicana de Salamanca que escreveram comen
tários à «Summa» foram: Bartolomeu Car
ranza (t 1576), ilustre teólogo tridentino,
do qual possuímos uma «Summa concilio
rum et pontificum» que foi impressa várias
vezes; Mâncio de Corpore Christi (t 1576),
mestre do grande teólogo jesuíta Gregório
de Valência; e Pedro de Sotomaior (t
1564). De referir também Luís de Ponce
de León (t 1591), agostinho, insigne
poeta, que também pertenceu à Escola de
Salamanca como aluno e mestre.
Na Itália predomina a figura eminente
do cardo Tomás de Vio Caetano (t 1534)
que nos primeiros decénios do séc. XVI
se impôs como tomista de grande craveira e
pioneiro dos comentadores da «Summa» de
S. Tomás. Notabilizou-se já no 5.° concílio
de Latrão e depois como legado pontifício
na Alemanha no caso de Lutero e da Re
forma. Caetano sobressaiu como profundo
conhecedor de Aristóteles, como exegeta,
como moralista e como metafísico (4). A
sua obra clássica é sem dúvida o comen
tário à «Summa Theologiae» que, por desejo
expresso do papa Leão XIII, acompanha a
«edição leonina».
Quase do mesmo período é o domini
cano Crisóstomo Javellus (1470?-1538?)
que na doutrina da predestinação abandonou
a tese tomista. Escreveu um comentário à
«Prima».
Francisco Si'lvestre de Ferrara (t 1528)
escreveu o clássico comentário à «Summa
(8)
(4)
Ibid., p. 153.
Ibid., pp. 153-154.
ARQUIVO HISTÓRICO DOMINICANO PORTUGUíõ.S /179
ébntra gentiies», que também foi Impresso
ao lado da «edição leonina».
Na Alemanha destacou-se Konrad Koel
lin (t 1536) que nos deixou um comentário
à «Prima Secundae». Além disso, compôs
vários tratados polémicos contra Lutero e
«Quodlibeta» geralmente na forma de diálo
gos sobre questões de Moral e de Direito
Natural e Eclesiástico.
Como escreve Fr. Raul Rolo: «Na Penín
sula Ibérica o «realismo», quer tomista
quer escotista, era a doutrina oficial, pois a
Faculdade de Teologia, até bastante tarde,
não era concedida às universidades por ser
ensinada nos Estudos dominicanos e fran
ciscanos, e o galicanismo e o antipapismo,
patrocinado pelos corifeus nominais, com
Ockam à frente, política e religiosamente
atraíam pouca simpatia para o sistema» (5).
Mas, seja como for, o tomismo é conhe
cido na Península desde bastante cedo. As
referências do médico visionário Arnaldo
de ViUanova, do Infante D. Pedro no seu
Trauctado da Virtuosa benjectoria e de João
Torquemada são a esse respeito muito elu
cidativas.
Em 1500, João Winkel de Hallis, de
Colónia, fala da grande veneração em que
S. Tomás era tido nos centros de estudo
de Espanha.
Na Universidade de Salamanca, na Fa
culdade de Teologia criada em 1416, foi
instituída a cátedra de S. Tomás no con
vento dominicado ao lado das cátedras sen
tenciárias. Na referida Universidade ensina
ram sempre os padres dominicanos desde os
inícios do séc. XV. Essa tradição só veio a
ser interrompida por Pedro de Osma que
seria condenado e privado da sua cátedra
em 1477. O seu substituto, Diego de Deza,
escreveu uma obra em defesa de S. Tomás
e outra de comentário às Sentenças.
Vejamos agora o que se passou em Por
tugal.
Pelos Estatutos Manuelinos de 1503, a
Faculdade de Teologia da Universidade de
Lisboa passou a ter as cadeiras de Prima
(esta já existente desde o tempo do Infante
D. Henrique) e de Véspera. Como escreve
(~)
In BARTHOLOMAEHUS DE MAR
TYRIBUS, O.P. - Opera Omnia, II - Theolo
gica Scripta, t. I, Braga, 1977, p. 101*. A Fr. Raul
Rolo se deve a va.Iiosa publicação dos Theologica
Scripra, em 6 vols. (Braga, 1973-1977).
o Frof. Silva DIas: «A Teologia parece ter
gravitado, fundamentalmente, em torno das
Sentenças nesta época». Quanto ao ensino
da Sagrada Escritura, as coisas não ficaram
bem definidas. Desde as reformas de 1431
que a Exegese Bíblica fazia parte do ensino
cursatório, como cadeira anexa. Só funcio
nava quando houvesse leitor cursante. Mas
com a legislação do rei venturoso, passou-se
a exigir dois anos de Bíblia, sempre que a
matéria fosse dada no transcurso dos cinco
de frequência das Sentenças para o bacha
relato. Assim se criava «uma situação nova,
tornando curricular, e por isso mesmo de
frequência obrigatória, a cadeira de exe
gese». E prossegue o Prof. Silva Dias: «Essa
iniciativa e, ao lado dela, a instituição e
dotação da cadeira de Véspera - consti
tuem progressos importantes em relação
ao condicionalismo da época henriquina,
e aproximam o esquema da nossa Faculdade
do que vigorava em Salamanca desde as
constituições de 1422» (C).
Quanto aos autores comentados, o Pro f.
Silva Dias inclina-se para Durando e Gre
gório de Rimini nas duas cadeiras referidas,
de Prima e de Véspera. Como diz: «Os
sistemas de S. Tomás e Duns Escoto afigu
ram-se de leitura menos verosímil, em face
dos esforços de franciscanos e dominicanos
para subtraírem os seus confrades à influên
cia pedagógica dos gerais universitários» (1).
Quando a Universidade é transferida de
finitivamente para Coimbra, em 1537, fun
cionavam na Faculdade de Teologia três
cadeiras: Prima, Véspera e Sagrada Escri
tura, confiadas respectivamente a Afonso
do Prado, Francisco de Monzón e Juan
Pedraza, por sinal todos espanhóis. A disci
plina de Sagrada Escritura, que em Lisboa
não tivera carácter estável, passou na cidade
do Mondego a cadeira de propriedade, o
que é muito significativo. Como escreve o
Prof. Silva Dias: «E o facto deve ser subli
nhado, porque constitui uma verdadeira
mudança de plano de estudos. ao mesmo
tempo que um sintoma revelador dos novos
caminhos doutrinais que as «divinitates»
iam trilhar no nosso país» (8).
(0) Prof. J. S. DA SILVA DIAS-A polí
tica cultural da época de D. 'João lll, vaI. I, t. 2,
Coimbra, 1969, p. 438.
(1) Ibid.
(8) Ibid., p. 670. - Sobre o ensino de Exe·
gese Bíblíca, vid. o nosso trabalho A' Cátedra de
Sagrada Escritura na Universidade de Coimbra
Primeiro Século (1537-1640), Coimbra, 1974.
180/ ACTAS DO I ENCONTRO SOBRE HISTóRIA DOMINICANA
Os lentes de Prima e de Véspera comen
tavam as Sentenças de Pedro Lombardo, ao
passo que o professor de Sagrada Escritura
«introduzia os alunos nas técnicas e conhe
cimentos da exegese bíblica».
Mas este esquema estava longe dos de
Paris, de Alcalá e de Salamanca, não corres
pondendo, por conseguinte, aos objectivos
que o Estado se propusera com a mudança
da Escola para Coimbra. Daí que algumas
modificações viessem a surgir com o tempo,
a fim de elevar o nível científico e colocar
o ensino naquele grau de elevação que lá
fora já se alcançara.
A chegada de Fr. Martinho de Ledesma,
que em Salamanca fora discípulo de Fran
cisco de Vitória, abria novas perspectivas
na docência da teologia. Depois de ter lec
cionado Sagrada Escritura, em substituição
de Pedraza, em 1540, o monarca houve por
bem passá-lo a reger Véspera, em 1541, por
permuta com Monzón. Depois da introdução
da cadeira de Sagrada Escritura, era este
agora o segundo grande passo do avanço dos
estudos teológicos. Diz o Prof. Silva Dias:
«Pusemo-nos em dia, desse modo, com a prá
tiva já triunfante noutras Universidades euro
peias - mas não sem reacções nascidas dos
hábitos criados e dos interesses ofendi
dos» (9).
A ideia partira de Fr. Bernardo da Cruz,
O.P., então reitor da Universidade, cujas
relações com os superiores de Santa Cruz,
onde então funcionava a Faculdade de Teo
logia, não eram as melhores. Fr. Bernardo
seguiu, em Salamanca, quase com certeza,
os cursos revolucionários de Vitória inicia
dos em 1526. Pode dizer-se, pois, que foi
dos primeiros portugueses que estiveram em
contacto com a renovação escolástica e a
restauração tomista realizadas por Vitória.
Durante a sua passagem pela Itália pôde
acompanhar de perto o conflito existente
entre luteranos e católicos, entre progressis
tas e integristas. Viu de perto os esforços
que por lá se faziam em ordem à revali
dação do sistema tomista, devido à acção
de Caetano e de outros, e contactou com
elementos do movimento irenista presidido
pelo cardo Contarini e apadrinhado por
Bembo e Sado'leto.
Ao mesmo tempo que se convencia da
validade do tomismo, ouvindo Vitória e
Caetano, não ficava de certo indiferente às
conquistas do humanismo e suas exigên
cias (lO).
(9)
(10)
Ibid.
Ibid.
Segundo a carta régia de 4 de Julho de
1541, Monzón e Ledesma ficavam a ler,
respectivamente, Sagrada Escritura e Vés
pera. Assim se pretendia implantar o es
quema e o método tomistas na Faculdade
de Teologia. Mas, como no alvará de 19 de
Julho do mesmo ano se dizia apenas que
Fr. Martinho devia passar a ler a partir de
1 de Outubro «a cadeira de teologia que ora
lia Mestre Monzón», as autoridades acadé·
micas deram-lhe precisamente a interpreta
ção de que se tratava do comentário de
Durando às Sentenças de Pedro Lombardo.
Mas em carta de 26 de Outubro o
monarca desfazia para sempre o equívoco,
se é que ele existia: «Por alguns justos res
peitos que me a isto movem, hei por bem
que o Doutor Mestre Martinho, que tenho
provido da cadeira de teologia que lia Mon
zón, leia a lição de S. Tomás e não a (de)
Durando como lia o dito Monzón. Mandar
-lhe-eis logo, de minha parte, que leia a
dita lição de S. Tomás, e escrever-me-eis o
que nisso fizer» (11).
Por outras notícias chegadas até nós,
vê-se claramente que a medida régia desa
gradara profundamente ao sector que de
fendia o ensino sentenciário no quadro geral
do ensino.
Em 1541-1542 o mapa da distribuição
de serviço ficou assim estabelecido: Sen
tenças (Prima) - Afonso do Prado; Sen
tenças - Francisco de Monzon; Summa
Theologíca (Véspera) - Fr. Martinho de
Ledesma; Sagrada Escritura (Tertia) - Fr.
Gaspar do Casal.
Mas, pelo que parece, tal esquema não
era do agrado do Governo. Monzón e Casal
afastam-se do ensino, e pelo que se de
preende tal afastamento foi querido pela
Corte.
E em 11 de Novembro de 1542 foi cria
da, como catedrilha, mais uma lição de
S. Tomás. Como escreve o Prof. Silva Dias:
«Que a instituição da catedrilha não resul
tou de uma atitude provocada por influên
cias de momento, mas da política progra
mática de revisão do plano de estudos, que
D. Bernardo da Cruz já viera possivelmente
incumbido de executar, bem o convence o
que logo a seguir se passou com o ensino
da Sagrada Escritura» (l2).
Quer dizer, o ensino de Exegese Bíblica
que desde o início decorria em m~s condi
(11) Prof. MÁRIO BRANDÃO - Documen
tos de D. 'João IlI, Coimbra, vol. lI, p. 71.
(12) A
política cultural da época de
D. 'João UI, vol. I, t. 2, p. 674.
ARQUIVO HISTóRICO DOMINICANO PORTUGU1õ.S / 181
ções -lembre-se que Pedraza deixara de
leccionar por razões de discip'1ina religiosa,
Ledesma não era exegeta de carreira, Mon
zón e Casal igualmente o não eram - aguar
dava a sua hora. Pensou o rei na nomeação
de Fr. António da Fonseca que em Paris
alcançara o doutoramento em Teologia e
grangeara grande fama como exegeta. Mas
assim não sucedeu. O magistério de Fon
seca foi efémero devido ao conflito surgido,
entretanto, por uma questão de horário.
Foi então que Er. Díogo de Murça, em
fins de 1544-1545, resolveu fazer o desdo
bramento da disciplina de Sagrada Escri
tura em duas: uma, para o Antigo Testa
mento, que foi confiada a Marcos Romeiro,
e outra para o Novo, confiada a Paio Rodri
gues de Vilarinho. O primeiro viera do Co
légio da Costa, com boa reputação de ele
vada competência e excelente formação;
Vilarinho chegara de Paris com a auréola
de teólogo distinto. «Com a subida deles à
cátedra, o ensino da exegese bíblica perdeu
o carácter de problema na Universidade por
largos anos - e viu-se organizado em bases
mais amplas que na vizinha escola do Tor
mes» ("13). Efectivamente, pelos estatutos de
1538, a Sagrada Escritura seria leccionada
numa única cadeira, professando o mestre,
alternadamente, num ano o Antigo Testa
mento e no outro o Novo.
Temos, pois, que em 1545 o plano de
estudos abrangia as seguintes disciplinas:
Prima, para a leccionação das Sentenças;
Véspera, para a «Summa Theologica»; Ter
tia, para o Novo Testamento; Noa, para
o Antigo Testamento; e, ainda, a catedrilha
de S. Tomás.
Como se vê, faltava o ensino de Teologia
Moral na Faculdade de Teologia. O oCaso
foi resolvido com a introdução das regências
de vacações, o que, apesar de tudo, traduz
um interesse muito reduzido quanto ao estu
do da Moral em Coimbra. Como diz o Prof.
Silva Dias: «O facto não deve passar sem
reparo, pela reserva do humanismo contra a
especulação divorciada da praxe» (14).
Tiveram início os cursos de férias no
verão de 1547 e o diploma da sua instituição
data de 11 de Outubro de 1546. Os pri
meiros lentes foram Pedro de Figueiredo e
Fr. Díogo de Teixeda. «A sua frequência não
tinha carácter facultativo e servia para os
(15)
(14)
Ibid., p. 675.
Ibid., p. 676.
alunos completarem o mínimo anual de esco
laridade obrigatória, quando se matriculassem
tardiamente, ou para anteciparem o direito
de apresentação a exame, perfazendo com
quatro cursos de férias um de assistência às
aulas» e~).
De notar que as catedrilhas passaram a
leitura de todo o ano em 1548 e em 1554,
respectivamente. Duravam doze meses.
Entretanto, a catedrilha de S. Tomás
deixou de funcionar com a partida de Álvaro
Gomes em 1546, ou mesmo até já com a de
Fr. Guilherme Gomeri. E a primeira cate
drilha de vacações não foi além de 1550.
Até 1556 funcionaram regularmente os
cursos de férias, vindo a ser extintos em
Junho de 1557. E nos estatutos de 1559 são
mesmo proibidos.
Pode, pois, dizer-se que depois de 1545,
a alteração mais significativa no plano de
estudos da Faculdade de Teologia foi a cria
ção dos cursos de férias que viriam a anular
em grande parte o papel tradicional das
lições extraordinárias. Quando se fala de
leitores cursantes, trata-se de lentes substi
tutos ou de vacaçôes. Isto indica-nos que
se processou em Coimbra uma evolução
idêntica à operada em Lovaina e em Paris,
«no sentido da concentração do ensino nas
mãos de mestres aprovados» (1.6). Os esta
tutos de 1559 já não fazem qualquer alusão
às regências de tirocinantes.
A ordem tridentina que se estava a im
por nas principais universidades europeias
não encontrou eco nos estatutos de 1559.
Notava-se, por outro lado, sempre cada vez
mais, o prestígio da renovação escolástica
entre aqueles que mais responsabilidade sen
tiam quanto à defesa ideológica do país (17).
O facto de esse prestígio se fazer sentir com
maior insistência, aliado ao facto de se
terem suprimido os cursos de férias e das
lições de bacharéis, contribuiu para que se
viesse a alterar o esquema das leituras ordi
nárias adoptado em 1545. Enquanto umas
disciplinas eram criadas, outras eram supri
midas.
Assim aconteceu com a restauração da
catedrilha auxiliar pelo diploma de 22 de
Outubro de 1560, a qual tivera um funcio
namento irregular desde 1543. E em 1562
encerrava-se uma das cadeiras de Sagrada
(15)
(16)
(17)
Ibid.
Ibid., p. 678.
Ibid.
1821 ACTAS DO I ENCONTRO SOBRE HISTóRIA DOMINICANA
..
Escritura, que ficou a ser substituída por
uma de Escoto ('18).
A catedrilha foi regida pelo Dr. Ant6nio
Leitão, por Fr. Francisco de Cristo e por
Inácio Dias ('9).
A cadeira de Escoto justifica-se na me
dida em que se procurava dar mais impor
tância à teologia escolástica sacrificando
embora a teologia positiva. Já em 1558 e
1559 se tentara isso quando Marcos Ro
meiro passou a reger uma cadeira de teolo
gia especulativa. Quer isto dizer que, a
partir de 1562, passou a haver uma cátedra
para a leitura de teologia positiva e de
quatro para a leitura de teologia escolástica.
Como facilmente se compreende, isto
refere-se apenas aos alunos que não faziam
parte de Ordens religiosas ou de colégios
incorporados ou aprovados pela Universi
dade. Os que faziam parte dos referidos ins
titutos podiam, segundo os estatutos de
1544, completar ou até substituir as leituras
feitas na Universidade por cursos ouvidos
nas suas casas de residência. Mais tarde,
pela legislação de D. Sebastião, essa liber
dade veio a ser restringida. Os religiosos
ficaram obrigados ao mínimo de quatro
cursos, na Faculdade, em duas cadeiras
maiores ,de entre as de Prima, Véspera e
Sagrada Escritura.
De notar que não havia qualquer ordem
de precedência na frequência das cadeiras,
nem se estabelecia uma hierarquia de maté
rias ou de técnicas de análise dentro da
mesma cadeira.
Melhor dito, o Conselho da Faculdade
limitava-se a recomendar uma distribuição
de matérias, como era costume, aliás, fazer
-se noutras academias teol6gicas da época.
Pretendia-se com isso tão s6 evitar dupli
cações ou desvios formais do ensino.
Os estatutos de 1559 mandam fixar s6
pelo Conselho a matéria das cadeiras pe
quenas e pelo Conselho, depois de ouvido
Ibid., pp. 678-679.
Ibid., p. 679. - Fr. Francisco de Cristo
era religioso agostinho. Sobre ele e seus confrades,
Fr. Agostinho da Trindade e Fr. Egídio da Apre
sentação, publicámos recentemente um estudo inti
tulado Padres agostinhos do séc. XVI lentes de
teologia da Universidade de Coimbra. Separata do
«Repertorio de Historia de las Ciendas EoIesiasticas
en Espana», vol. 6 (Salamanca, 1977), pp. 441
-516. Nesse trabalho, a pp. 477-484, apresentamos
uma tabela com as leituras de Teologia entre 1546
-1547 e 1607-1608, a que se faz referência mais
adiante.
(18)
(19)
o parecer dos alunos, a das cadeiras gran
des. Mas é possível que isso já estivesse em
vigor desde os estatutos de 1544.
A Ordem Dominicana manteve na Fa
culdade de Teologia ao longo do séc. XVI
uma posição de primeiro plano. Além dos
já referidos Fr. Martinho de Ledesma e de
Fr. Ant6nio da Fonseca, há ainda a incluir
Fr. António de S. Domingos, Fr. João Pi
nheiro e Fr. Diogo de Morais, que foram
lentes de Teologia entre 1557-1562 e 1562
-1565 respectivamente, na cadeira de Vés
pera.
Na cátedra de Sagrada Escritura brilhou
Fr. Luís de Sotomaior autor de excelentes
comentários bíblicos ao Cântico dos Cân
ticos e às Epístolas de S. Paulo a Timóteo
e a Tito.
No séc. XVII, são de salientar os nomes
de Fr. Vicente Pereira e de Fr. Ant6nio da
Ressurreição na cadeira de Prima, respec
tivamente entre 1616-1621 e 1622-1635; e
Fr. Pedro Mártir e Fr. João Aranha, o pri
meiro na de Véspera e o segundo na de
Exegese Bíblica, entre 1612-1615 e 1615
-1620, respectivamente.
*
Braga parece ter sido a primeira cidade
onde primeiramente se tentou levar a cabo
uma reforma escolar portuguesa no séc. XVI.
Ainda no reinado de D. Manuel, pensou
D. Diogo de Sousa fundar ali um «Colégio
de Artes e Teologia».
Devido a razões de vária ordem, a ideia
não se concretizou.
Foi depois o Infante D. Henrique quem
conseguiu implantar na cidade primacial um
instituto segundo as directrizes da Renas
cença. Passou por três fases a sua concreti
zação. Na terceira, em 1539, erigiu o colégio
em estudo geral, com novas cadeiras de Re
tórica, Filosofia, Cânones e Teologia.
Tratava-se de um instituto com todas
as características de modernidade, em que
«as humanidades aparecem (... ) não como
um puro conhecimento instrumental, mas
como um factor imprescindível de cultura
e formação humana» ColO). Clenardo, Vaseu
e Marcial Gouveia foram dos mestres mais
insignes do Colégio de S. Paulo de Braga.
Mas a iniciativa bracarense não se ajus
tava bem à política de D. João IH que tinha
(20) A
política cultural da época de
D. João IlI, vol. I, t. 2, p. 451- Vid. ainda do
mesmo autor Braga e a Cultura portuguesa do
Renasdmemo, Coimbra, 1972.
ARQUIVO HISTóRICO DOMINICANO
PORl'UGU~S
/ 183
as suas atenções postas em Coimbra. «o
objectivo da Corte era simplesmente impe
dir que a iniciativa do Norte viesse afectar
as instituições do Mondego, que deviam ser
as únicas de carácter superior, tanto nas
Artes como na Teologia e no Direito» C.n).
Outros bispos que se preocuparam bas
tante com o êxito do Colégio de S. Paulo
foram D. Diogo da Silva e D. Baltasar
Limpo.
D. Fr. Bartolomeu dos Mártires entregou
o Colégio à Companhia de Jesus em 29-30
de Agosto de 1559-60, com o encargo de
serem lidas três disciplinas de Humanidades,
uma de Artes, uma de Teologia Moral (Ca
sos de Consciência) e uma de Teologia
Especulativa para S. Tomás, esta não sendo
da iniciativa nem da vontade dos padres
jesuítas que, com o apoio de D. Henrique,
tinham as suas preferências na Universidade
de Evora. E assim em 1565 era anulada a
cadeira de Teologia Especulativa.
Também Evora desde o reinado de
D. Manuel já se preparava para a criação
de estudos de nível preparatório.
Ficou a dever-se a D. Henrique a fun
dação da Universidade de Evora (1559).
Embora a ideia já viesse de longe, o que é
certo é que devido ao plano de D. João IH
de concentrar em Coimbra todos os estudos
superiores, o caso foi-se arrastando e só
após a morte do rei piedoso pôde avançar
e concretizar-se.
Aliás, já em 1551 ali funcionava um
curso de teologia para que D. António,
futuro prior do Crato, aí pudesse continuar
os seus estudos. Com ele outros estudantes
frequentaram esse curso, entre os quais al
guns jesuítas.
Entre os docentes, destacaram-se Pedro
Margalho, João Olmedo, Luís Álvares, Fran
cisco Artacho e Fr. Bartolomeu dos Mártires.
Em 1559, com a criação da Universidade
confiada aos jesuítas, convertia-se em situa
ção de direito aquilo que já era verdadeira
mente uma situação de facto.
Mas, como diz o Prof. Silva Dias, «não
foi só em Braga, Porto, Evora e Olivença
que a transformação ideológica e social do
país, expressa nas aspirações de uma opinião
pública dinamizada pelos reflexos do hu
manismo europeu, se projectou em inicia
tivas e reformas pedagógicas» (22) .
(21)
(22)
Ibid., p. 45.
Ibid., p. 467.
Vejamos o que se passou com os mon
ges de S. Jerónimo. Com o regresso de
Fr. Diogo de Murça da Universidade de
Lovaina assistiu-se a uma renovação pedagó
gica muito profunda entre os jeronimitas se
gundo os moldes renascentistas.
A apoiar Fr. Diogo de Murça estiveram
Fr. António de Lisboa e, sobretudo, Fr. Brás
de Barros, seu companheiro e amigo desde
os tempos de Lovaina.
Durante a sua permanência no estran
geiro, Murça esteve em contacto com os
novos rumos traçados pelo humanismo.
A primeira academia jeronimita insta
lou-se em Belém e na Penha Longa. Mas
em 1537 ou 1538 transferiu-se para o mos
teiro da Costa em Guimarães, onde se man
teve até 1547. Inácio de Morais, António
Caiado e Gaspar Bordalo foram os mestres
de humanidades mais insignes.
O ensino da teologia na Costa começou
em 1539-1540. Marcos Romeiro chegou ali
em 23 de Fevereiro de 1540, tendo-se afir
mado como um dos seus professores mais
notáveis.
O plano de estudos, em seis anos como
em Paris, incidia na teologia escolástica e
na exegese bíblica e não nas Sentenças de
Pedro Lombardo. Comenta o Prof. Silva
Dias: «E é notável que no campo da teolo
gia escolástica elegessem para guia, não os
escotistas, tão desacreditados pelo juízo de
Erasmo e sua escola, nem os nominalistas
e ecléticos parisienses, com quem os amantes
das «litterae humaniores» andavam envol
vidos em áspera luta, mas sim aquele doutor
e luminar da Igreja, S. Tomás de Aquino,
que os humanistas ainda respeitavam pela
sua moderação no uso do processo dialéc
tico e pelo recurso frequente à Escritura e
à Patrística» (~3).
A aná'1ise da biblioteca de Fr. Diogo
de Murça confirma isso precisamente. Jun
tamente com os textos de S. Tomás, apare
cem os exegetas, os Santos Padres e até os
erasmianos e outros da mesma orienta
ção 4 ) .
e
Ibid., p. 478.
Vid. Prof. J. S. DA SILVA DIAS
CorrlNltes de sentimento religioso, t. I, vol. 2.°,
pp. 499, 504-505, 579-583; e Prof. JOAQUIM
DE CARVALHO - Estudos sobre a cultura por
tuguesa do séc. XVI, vol. 11, Coimbra, 1948,
pp. 111~ 119. - O exame" da sua biblioteca parece in
dicar que o monge de S. J erónimo se inclinava no
sentido do irenismo, se é que não aderia francamente
(23)
(24)
184/ ACTAS DO I ENCONTRO SOBRE HISTóRIA DOMINICANA
No mosteiro da Costa penetraram pro
fusamente os ideais do humanismo ideoló
gico. Além do que já fica dito, está aí a
confirmá-lo a oração de sapiência recitada
por D. Duarte - talvez da autoria de Mar
cos Romeiro, segundo pensa o Prof. Silva
dias - , na qual aparecem a teologia e a eru
dição humana intimamente ligadas, segundo
o pensamento de Petrarca, de Ficino e de
Pico della Mirandola. As humanidadescons
,
às suas directrizes. Com efeito, exceptuando S. To
más, as espécies dos autores escolásticos são muito
escassas na sua livraria, sendo muito duvidosa a
existência de algum texto de Ockam e de Biel, e não
há nenhum de Durando. Representantes da escolás
tica da decadência só encontramos ]ohn Mair e
Pedro d'Ai'lly (talvez); nada existe de Tartareto
nem de Pedro de Bruxelas. Nota-se ainda a carência
de comentadores arábíco-escotistas de Aristóteles
e uma abundância relativa de intérpretes, nomeada
mente clássicos e renascentistas, como Ale
xandre de Afrodisia e Rudolfo Agrícola. Verifi
ca-se também a sua grande riqueza em exegese bí
blica, mas sem autores medievais. Ausentes estão os
polemistas anti-erasmianos, excepto os livros de
Noel Beda. Constata-se uma certa profusão dos
arautos do evangelismo: Lefevre, Budée, Vives e,
sobretudo, Erasmo. Também abundam as obras da
Patrística. Escreve o Prof. Silva Dias: «O
menos que se pode dizer a respeito de FI'. Diogo
de Murça, é que as fontes do seu pensa
mento não coincidem com as dos doutores sorbó
nicos; aproximam-se, contudo, das que gozavam de
preferência entre os irenistas.. Mas a conclusão pode
ampliar-se à vista de outros elementos. Antes de
mais nada, os que resultam da análise da sua livra
ría. Mostra ela que os estudos sobre os Salmos,
os Evangelhos e as Epístolas de S. Paulo tinham
um predomínio nítido na esfera dos seus interesses
exegéticos (e possivelmente nos do lente de Escritura
Sagrada no Colégio da Costa, em Guimarães.. Mar
cos Romeiros), como era corrente nas fileiras do
irenisrno, e que os dados histórkos, filológicos e
patrísticos deviam desempenhar um papel mais im
portante que o processo dialéctico no seu método
de elaboração teológica. Além disso, patenteia-se-nos
a posse de obras representativas da tese irenista de
uma conciliação entre católicos a protestantes. A
menção do De sarcienda Ecclesiae concordia de
Erasmo combina muito bem, nesta ordem de ideias,
com as citações repetidas do nome de Sadoleto e a
referência à apologia do Cardeal Contarini em prol
da sua teoria da dupla justificação. Por outro lado,
cai dentro do reitorado de Murça em Coimbra
(1543-1555) uma série de iniciativas académicas a
que o espírito irenista não é estranho: a reorga
nização do ensino da Sagrada Escritura, o reforço
tituíam O pedagogo do espírito para as in
vestigações teológicas 5 ) .
O mesmo se diga da oração proferida
por Fr. Jorge de Bvora, na qual o autor
fala das disciplinas de que se deve servir
o cristão e futuro teólogo, que tempo nelas
se deve demorar e qual a finalidade a que
deve submeter os seus estudos. O fim dos
estudos é conhecer Cristo, o Cristo vivo da
Sagrada Escritura. Como Erasmo, que escre
vera que Cristo era o «totius eruditionis et
eloquentiae scopus». Corno diz Cândido dos
Santos, existe um certo paralelismo ideoló
gico entre a «oratio» e algumas obras de
Erasmo, a Ratio e a Paraclesis, por exemplo.
Entre as semelhanças existentes, notam-se
as seguintes: o regresso às fontes primitivas
do Cristianismo - Sagrada Escritura e
Santos, «existe um certo paralelismo ideoló
do recurso à sabedoria dos antigos, repú
dio do fonnalismo religioso farisaico e sen
tido de uma vivência religiosa em espí
rito» (2-G).
A terminar, convém aduzir que as orien
tações ideológicas de Inácio de Morais e de
Marcos Romeiro eram as do humanismo
ideo'lógico. Em lugar da preparação dialéc
tica, servia de disciplina básica do espírito
a preparação humanística. As humanidades
são o princípio de todas as doutrinas, por
e
da influência tomista, a reforma do ensino huma
nístico e artístico, e o alheamento do esquema
sorbónico» (Correntes de sentimento religioso em
Portugal, t. I, vol. 2.·, p. 580). E termina assim:
«Será demais articular tudo isto e ligar-lhe um
sentido - precisamente o sentido de urna mentali
dade irenista? Cremos que não foi outra coisa o
que quis exprimir o cronista dos jerónimos no
seguinte passo: «... propagou entre nós (monges
belemitas) o conhecimento das línguas orientais;
(foi) o primeiro que nos leu dentro no claustro as
Artes, escolhendo da filosofia de Aristóteles o que
nos podia ser útil para Os estudos sagrados, ensi
nando-nos a buscar a inteligência daquele filósofo
nas suas mesmas obras escritas na sua lingua pri
mitiva, e dirigindo a nossa aplicação à boa teologia,
pelas suas legítimas e puras fontes, indicadas por
S. Tomás, que propunha como norte das conclu
sões cristãs» (Memórias dos Estudos em que se
criarão os Mcmges de S. 'lerónimo, p. 233).
(25) Vid. D. ANTóNIO CAETANO DE
SOUSA - Provas da História Genealógica, t. lII,
}.a parte, Coimbra, 1948, pp. 50-67.
('l6) CÂNDIDO DOS SANTOS -Huma
>lism.o e Teo-li>gia nos meados do século XVI, in
«Arquivo Cultural Português», vol. IX, Paris,
1975, pp. 514-515.
ARQUIVO HISTóRICO DOMINICANO PORTUGUf.S / 185
No mosteiro da Costa penetraram pro
fusamente os ideais do humanismo ideoló
gico. Além do que já fica dito, está aí a
confirmá-lo a oração de sapiência recitada
por D. Duarte - talvez da autoria de Mar
cos Romeiro, segundo pensa o Prof. Silva
dias - , na qual aparecem a teologia e a eru
dição humana intimamente ligadas, segundo
o pensamento de Petrarca, de Ficino e de
Pico della Mirandola. As humanidades <:ons
li
às suas directrizes. Com efeito, exceptuando S. To
más, as espécies dos autores escolásticos são muito
escassas na sua livraria, sendo muito duvidosa a
existência de algum texto de Ockam e de Biel, e não
há nenhum de Durando. Representantes da escolás
tica da decadência só encontramos John Mair e
Pedro d'ArJ.ly (talvez); nada existe de Tartareto
nem de Pedro de Bruxelas. Nota-se ainda a carência
de comentadores arábico-escotistas de Aristóteles
e uma abundância relativa de intérpretes, nomeada
mente clássicos e renascentistas, como Ale
xandre de Afrodísia e Rudolfo Agrícola. Verifi
ca-se também a sua grande riqueza em exegese bí
blica, mas sem autores medievais. Ausentes estão os
polemistas anti-erasmianos, excepto os livros de
Noel Beda. Constata-se uma certa profusão dos
arautos do evangelismo: Lefevre, Budée, Vives e,
sobretudo, Erasmo. Também abundam as obras da
Patrística. Escreve o Prof. Silva Dias: «O
menos que se pode dizer a re&peito de Fr. Diogo
de Murça, é que as fontes do seu pensa
mento não coincidem com as dos doutores sorbó
nicos; aproximam-se, contudo, das que gozavam de
preferência entre os irenistas.. Mas a conclusão pode
ampliar-se à vista de outros elementos. Antes de
mais nada, os que resultam da análise da sua livra
ria. Mostra ela que os estudos sobre os Salmos,
os Evangelhos e as Epístolas de S. Paulo tinham
um predomínio nítido na esfera dos seus interesses
exegéticos (e possivelmente nos do lente de Escritura
Sagrada no Colégio da Costa, em Guimarães, Mar
cos Romeiros), como era corrente nas fileiras do
irenismo, e que os dados históricos, filológicos e
patrísticos deviam desempenhar um papel mais im
portante que o processo dialéctico no seu método
de elaboração teológica. Além disso, patenteia-se-nos
a posse de obras representativas da tese irenista de
uma conciliação entre católicos a protestantes. A
menção do De sarcienda Ecclesiae concordia de
Erasmo combina muito bem, nesta ordem de ideias,
com as citações repetidas do nome de Sadoleto e a
referência à apologia do Cardeal Contarini em prol
da sua teoria da dupla justificação. Por outro lado,
cai dentro do reitorado de Murça em Coimbra
(1543-1555) uma série de iniciativas académicas a
que o espírito irenista não é estranho: a reorga
nização do ensino da Sagrada Escrítura, o reforço
tituíam O pedagogo do espírito para as in
vestigações teológicas (.15).
O mesmo se diga da oração proferida
por Fr. Jorge de Bvora, na qual o autor
fala das disciplinas de que se deve servir
o cristão e futuro teólogo, que tempo nelas
se deve demorar e qual a finalidade a que
deve submeter os seus estudos. O fim dos
estudos é conhecer Cristo, o Cristo vivo da
Sagrada Escritura. Como Erasmo, que escre
vera que Cristo era o «totius eruditionis et
eloquentiae scopus». Como diz Cândido dos
Santos, existe um certo paralelismo ideoló
gico entre a «oratio» e algumas obras de
Erasmo, a Ratio e a Paraclesis, por exemplo.
Entre as semelhanças existentes, notam-se
as ·seguintes: o regresso às fontes primitivas
do Cristianismo - Sagrada Escritura e
Santos, «existe um certo paralelismo ideoló
do recurso à sabedoria dos antigos, repú
dio do formalismo religioso farisaico e sen
tido de uma vivência religiosa em espí
rito» eO).
A terminar, convém aduzir que as orien
tações ideológicas de Inácio de Morais e de
Marcos Romeiro eram as do humanismo
ideológico. Em lugar da preparação dialéc
tica, servia de disciplina básica do espírito
a preparação humanística. As humanidades
são o princípio de todas as doutrinas, por
da influência tomista, a reforma do ensino huma
nístico e artístico, e o alheamento do esquema
sorbónico» (Correntes de sentimtmto religioso em
Portugal, t. I, vol. 2.·, p. 580). E termina assim:
«Será demais articular tudo isto e ligar-lhe um
sentido - precisamente o sentido de urna mentali
dade irenista? Cremos que não foi outra coisa o
que qlÚS exprimir o cronista dos jerónimos no
seguinte passo: «... propagou entre nós (monges
belemitas) o conhecimento das línguas orientais;
(foi) o primeiro que nos leu dentro no claustro as
Artes, escolhendo da filosofia de Aristóteles o que
nos podia ser útil para os estudos sagrados, ensi
nando-nos a buscar a inteligência daquele filósofo
nas suas mesmas obras escritas na sua língua pri
mitiva, e dirigindo a nossa aplicação à boa teologia,
pelas suas legítimas e puras fontes, indicadas por
S. Tomás, que propunha como norte das conclu
sões cristãs» (Memórias dos Estudos em que se
criarão os Monges de S. Jerónimo, p. 233).
(25) Vid. D. ANTóNIO CAETANO DE
SOUSA - Provas da História Genealógica, t. 111,
L" parte, Coimbra, 1948, pp. 50-67.
(20) CÂNDIDO DOS SANTOS - Huma
nismo e Teologia nos meados do século XVI, in
«Arquivo Cultural Português», vol. IX, Paris,
1975, pp. 514-515.
ARQUIVO HISTúRICO DOMINICANO PORTUGU:tS /185
conseguinte a porta de entrada da teologia;
e é com o seu exercício que a inteligência
se afina para melhor jUlgar nelas. Marcos
Romeiro era grande admirador de S. Tomás
como se pode ver, por exemplo, de uma
carta de Fr. Pedro Barbudo a Fr. Diogo de
Murça, de 5 de Março de 1540. Romeiro
chegara ao colégio da Costa em 23 de Fe
vereiro desse ano regressado de Paris onde
fizera os seus estudos teológicos.
Mas como diz o Prof. Silva Dias: «As
infiltrações de humanismo ideológico que se
notam na escola vimaranense não fizeram
dela uma sucursal do humanismo fabro
-erasmiano e nem mesmo a'lgo de parecido
com o Colégio Trilingue de Lovaina ou o
Colégio de França. Temperaram apenas com
elementos formais e doutrinas de moderni
dade a inspiração tradicional e conservadora
das escolas europeias» (27).
Quer o curso de humanidades quer o
de teologia regiam-se pelos cânones de Pa
ris, o que não significa que fosse tão com
pleto .como os de lá.
As aulas de teologia e de exegese dura
vam, respectivamente, hora e meia a duas
horas por lição, e uma hora a hora e meia.
Havia ainda os exercícios dialécticos, a con
ferência da matéria e as disputas, as repe
tições, etc.
Desde 1539 começaram a ser conferidos
graus em Artes e em Teologia.
Mas, devido a factores de vária ordem,
foi efémera a vida do Colégio da Costa e
não parece ter sido muito brilhante. Escas
seavam os professores e os alunos. Com a
morte de D. Duarte, em Agosto de 1543, e
a partida de Fr. Diogo de Murça em No
vembro imediato para dirigir a Universi
dade de Coimbra, avizinhava-se o seu termo.
! também em Coimbra que se vai então
instalar o novo Colégio dos Padres Jeroni
mitas. Os seus professores passam também
para a cidade do Mondego: Gaspar Bordalo,
em 1543, Marcos Romeiro, em 1545, e Iná
cio de Morais, em 1546. Em 1547-1548 já
frequentam ali os estudos de Artes D. Antó
nio e Fr. Heitor Pinto. A anexação defini
tiva do Colégio de Guimarães teve lugar em
1550.
Comenta desta forma o desaparecimento
do 'Colégio da Costa o Prof. Silva Dias:
«Teve, assim, o remate lógico que seria de
prever, a política oficial de concentrar no
burgo do Mondego todos os estudos de grau
universitário, e de fazer da «alma mater»
conimbricense, .com o apoio de um sistema
colegia'1, um estabelecimento universitário
susceptível de rivalizar com Alcalá e Sala
manca, pelo número dos estudantes e o
nível da cultura» ÇZ"8).
E acerca das tentativas de ensaios peda
gógicos efectuados no nosso país: «Nem os
ensaios do monacato de S. Jerónimo, nem
os do clero de Braga e de Evora, se saldaram
com resultados pedagógicos ou culturais de
monta. São gestos de boa-vontade, anseios
de reforma e, pelo que respeita ao Colégio
da Costa, a busca de uma combinação dos
contextos parisinos com os esquemas do hu
manismo. Tudo, porém, em estado de inci
piência, sem visão de conjunto nem atitudes
de ruptura com o 'legado escolar da Idade
Média. Mesmo em Guimarães, onde as
opções de modernidade ideológica já aflo
ram, a recusa do medieval não é pro
funda» (29).
E escreve a terminar: «Por dignas de
aplauso que fossem, como iniciativas, não
conduziam, por si, à europeização intelec
tual da nossa gente. A história regista-as
apenas como sintomas de politização dos
problemas culturais e pedagógicos» (50).
Digno de interesse se reveste também
uma análise ainda que sumária das Consti
t.uições dos Colégios do Mosteiro de Santa
Cruz .de Coimbra, de 1536, que se ficaram
devendo às preocupações ideológicas de
Fr. Brás de Barros, que, em Santa Cruz de
Coimbra, se empenhava seriamente na reno
vação dos estudos teológicos, como faria
depois precisamente Fr. Diogo de Murça no
Colégio da Costa.
Logo no início diz-se que nos ditos colé
gios se 'lerá Teologia e Artes e as três línguas
eruditas.
Na constituição 4 fala-se do modo como
devem ser lidas as lições. Aí se refere que
há um professor de teologia grave e outro
de teologia escolástica e definem-se as suas
obrigações.
Na constituição 3 fala-se da reac
ção «não contra todos os Doutores medie
vais, mas, sim, contra certos processos desa
creditados e gastos do Escolaticismo da de
cadência», ao dizer-se que se não deve ler
nem ouvir nos referidos colégios sofistaria.
(28)
A
D. 'João 111,
("27)
política cultural da
V{)l. I, t. 2.0, p. 482.
época
de
("211)
(80)
Ibid., p. 486.
Ibid., p. 487.
Ibid.
186/ ACTAS DO I ENCONTRO SOBRE HISTóRIA DOMINICANA
[
estabelecendo-se penas para quem nisso pre
varicasse (81).
Acerca dos cursos dos bacharéis em Teo
logia (constituição 17), diz-se que quem
quiser alcançar esse grau deve «ouvir toda
a theologia escolastica - a saber - da dou
trina do mestre das sentenças e de santo
Thomas, e toda a grave do velho e novo
testamento que se lee per os Regentes da
mesma faculdade em o curso dos tres
annos»; e prosseguem as Constituições: «e
per dous annos desses tres ou mayor parte
deles ouçam as lyções dos bachareis que
cursam do texto da biblia e mestre das sen
tenças, pero o reitor e consiliarios poderam
en esto despensar com os mestres em artes».
*
Com a passagem da Universidade para
Coimbra, D. João IH procurou remodelá-la
profundamente, preparou-lhe um novo plano
de estudos e uma nova alma científica. Além
disso, «integrou-a no quadro de uma reorga
nização geral dos serviços de ensino, fazendo
dela a alavanca decisiva das estruturas ideo
iógicas do país. Com a transferência da
Universidade, operou-se uma viragem na
cultura nacional, cujos efeitos perduraram
até à reforma pombalina» (82).
À maneira do que acontecia em Paris
e em Oxford, quis o rei piedoso completar
a Escola coimbrã com uma rede de colégios.
Como escreve o ProL Silva Dias: «As
instituições colegiais visavam a dar uma
assistência intelectual e moral aos seus bene
ficiários, fazendo deles personalidade de
escol, pela e1evação da cultura e pela auste
ridade dos costumes. A sua função corres
pondia assim aos desígnios ideol6gicos e po
líticos da época da reforma cat6lica. No seu
conjunto, pela concentração do ensino ecle
siástico e congreganista em redor da Univer
sidade ou dentro dela própria, faziam de
Coimbra o cérebro do país e contribuíam
para a formação de uma mentalidade uni
forme no escol dirigente da nação, nos seus
diversos escalões» (&8).
Referindo-nos em concreto ao Colégio
de S. Tomás, sabemos que ele passou da
Batalha para Coimbra em 1539. Viera de
Lisboa para a Batalha em 1538. Em 1557
(31) Vid. Prof. J. S. DA SILVA DIAS
Regimento escolar de Santa Cruz de C<JÍ1nbra
(1537), Coimbra, 1974.
(82) A
política oultural da época de
D. João 111, vol. I, t. 2, p. 589.
(33) Ibid., p. 595.
foi incorporado na Universidade, o que signi
fica que se tornava uma espécie de Univer
sidade, «sendo-lhe por isso aplicáveis os
privilégios desta em matéria de representa
ção nos actos oficiais do corpo académico,
de preferências e vantagens nas relações de
tipo civil, económico e judicial, etc.»
Nos colégios ministrava-se o ensino tanto
dos preparat6rios como das ciências maio
res. O de S. Tomás era frequentado por
dominicanos e jeronimitas, mas depois de
1544 s6 os primeiros o povoavam. Segundo
os estatutos de 1550, cada convento devia
mandar para o Colégio de S. Tomás um
frade, com execepção dos de Lisboa, Bata
lha e Coimbra, que mandavam dois. Era
uma espécie de academia de elites (84).
Além de residência, o colégio era igual
mente uma escola complementar do ensino
ministrado na Universidade. Os estatutos
outorgados pelo Bobadi'lha falam de uma
aula matinal e de outra vesperal de teologia
nas suas dependências. Nele fizeram parte
das suas frequências teol6gicas Fr. Paulo
de Sá, de 1545 a 1549, e Fr. Ant6nio de
S. Domingos e Fr. Diogo Trigueiro, de 1550
a 155-5.
Fr. Martinho de Ledesma leccionou ali
em 1541, e Fr. Paulo de Sá em 1553-1554.
Mas o principal centro dominicano do
ensino teológico, antes de 1550, não foi o
Colégio de S. Tomás mas o convento de
S. Domingos de Lisboa.
Parece poder concluir-se que os alunos
que frequentavam teologia na Universidade
e no Colégio de S. Tomás deviam fazer
na Faculdade de Teologia duas das cadeiras
grandes. Isto pelos estatutos de 1559, pois
pelos de 1544 fica-se com a impressão de
que bastava uma. O que não causará admi
ração se se pensar que os estudantes domi
nicanos de Paris e de Salamanca podiam
apresentar-se ao acto de tentativa sem terem
ouvido sequer mestres de fora ou, ao menos,
fora do seu colégio (85).
Além do ensino de teologia, o instituto
dominicano ministrava também o ensino de
Artes e tinha ainda os exercícios de fixação
e treino, habituais na época, por exemplo o
uso do «círcu'lo» e a prática das «questões»,
disputas diárias e mensais, etc.
E podíamos falar também de outros colé
gios. como o do Carmo, o da Graça, o de
S. Jer6nimo, o de Jesus, o de S. Pedro, o
(34)
(35)
Ibid., p. 599.
Ibid., pp. 601-602.
ARQUIVO HISTóRICO DOMINICANO PORl'UGUf:S /187
(
estabelecendo-se penas para quem nisso pre
varicasse (5~).
Acerca dos cursos dos bacharéis em Teo
logia (constituição 17), diz-se que quem
quiser alcançar esse -grau deve «ouvir toda
a theologia escolastica - a saber - da dou
trina do mestre das sentenças e de santo
Thomas, e toda a grave do velho e novo
testamento que se lee per os Regentes da
mesma faculdade em o curso dos tres
annos»; e prosseguem as Constituições: «e
per dous annos desses tres ou mayor parte
deles ouçam as lyções dos bachareis que
cursam do texto da biblia e mestre das sen
tenças, pero o reitor e consiliarios poderam
en esto despensar com os mestres em artes».
*
Com a passagem da Universidade para
Coimbra, D. João IH procurou remodelá-la
profundamente, preparou-lhe um novo plano
de estudos e uma nova alma científica. Além
disso, «integrou-a no quadro de uma reorga
nização geral dos serviços de ensino, fazendo
dela a alavanca decisiva das estruturas ideo
'lógicas do país. Com a transferência da
Universidade, operou-se uma viragem na
cultura nacional, cujos efeitos perduraram
até à reforma pombalina» (82).
À maneira do que acontecia em Paris
e em Oxford, quis o rei piedoso completar
a Escola coimbrã com uma rede de colégios.
Como escreve o Prof. Silva Dias: «As
instituições colegiais visavam a dar uma
assistência intelectual e moral aos seus bene
ficiários, fazendo deles personalidade de
escol, pela e1evação da cultura e pela auste
ridade dos costumes. A sua função corres
pondia assim aos desígnios ideológicos e po
líticos da época da reforma católica. No seu
conjunto, pela concentração do ensino ecle
siástico e congreganista em redor da Univer
sidade ou dentro dela própria, faziam de
Coimbra o cérebro do país e contribuíam
para a formação de uma mentalidade uni
forme no escol dirigente da nação, nos seus
diversos escalões» (58).
Referindo-nos em ,concreto ao Colégio
de S. Tomás, sabemos que ele passou da
Batalha para Coimbra em 1539. Viera de
Lisboa para a Batalha em 1538. Em 1557
(111) Vid. Prof. J. S. DA SILVA DIAS
Regimento escolaI' de Santa Cruz de Coim'bm
(1537), Coimbra, 1974.
(8~)
A política cultural da época de
D. João llI, vol. I, t. 2, p. 589.
(88) Ibid., p. 595.
foi incorporado na Universidade, o que signi
fica que se tomava uma espécie de Univer
sidade, «sendo-lhe por isso aplicáveis os
privilégios desta em matéria de representa
ção nos actos oficiais do corpo académico,
de preferências e vantagens nas relações de
tipo civil, económico e judicial, etc.»
Nos colégios ministrava-se o ensino tanto
dos preparatórios como das ciências maio
res. O de S. Tomás era frequentado por
dominicanos e jeronimitas, mas depois de
1544 só os primeiros o povoavam. Segundo
os estatutos de 1550, cada convento devia
mandar para o Colégio de S. Tomás um
frade, com execepção dos de Lisboa, Bata
lha e Coimbra, que mandavam dois. Era
uma espécie de academia de elites (54).
Além de residência, o colégio era igual
mente uma escola complementar do ensino
ministrado na Universidade. Os estatutos
outorgados pelo Bobadi'lha falam de uma
aula matinal e de outra vesperal de teologia
nas suas dependências. Nele fizeram parte
das suas frequências teológicas Fr. Paulo
de Sá, de 1545 a 1549, e Fr. António de
S. Domingos e Fr. Diogo Trigueiro, de 1550
a 1555.
Fr. Martinho de Ledesma leccionou ali
em 1541, e Fr. Paulo de Sá em 1553-1554.
Mas o principal centro dominicano do
ensino teológico, antes de 1550, não foi o
Colégio de S. Tomás mas o convento de
S. Domingos de Lisboa.
Parece poder concluir-se que os alunos
que frequentavam teologia na Universidade
e no Colégio de S. Tomás deviam fazer
na Faculdade de Teologia duas das cadeiras
grandes. Isto pelos estatutos de 1559, pois
pelos de 1544 fica-se com a impressão de
que bastava uma. O que não causará admi
ração se se pensar que os estudantes domi
nicanos de Paris e de SaIamanca podiam
apresentar-se ao acto de tentativa sem terem
ouvido sequer mestres de fora ou, ao menos,
fora do seu colégio (M).
Além do ensino de teologia, o instituto
dominicano ministrava também o ensino de
Artes e tinha ainda os exercícios de fixação
e treino, habituais na época, por exemplo o
uso do «círcu'lo» e a prática das «questões»,
disputas diárias e mensais, etc.
E podíamos falar também de outros colé
gios. como o do Carmo, o da Graça, o de
S. Jerónimo, o de Jesus, o de S. Pedro, o
(84)
(88)
Ibid., p. 599.
Ibid., pp. 601-602.
ARQUIVO HISTóRICO DOMINICANO PORTUGU:eS / 187
de S. Paulo, etc., onde quase sempre o
ensino das humanidades era ministrado ao
lado da teologia.
*
D. Fr. Bartolomeu dos Mártires começou
a leccionar no Mosteiro da Batalha em 1542
quando contava apenas 28 anos de idade.
É ele mesmo quem no-lo relata ao abrir o
comentário à La parte da «Summa»: «Incepi
lecturam 1ae partis anno Domini 1542, 17
Aprilis, feria 2a post dominicam in Albis.
Incepi autem non in principio partis, sed
in principio materiae De Anima, videlicet
q. 75».
E na Batalha se manteve até 1552 quan·
do passou para Évora onde foi preceptor
de D. António até 1555.
Além da referida leitura sobre o De
Anima temos ainda conhecimento de que
comentou mais as seguintes partes da «Sum
ma»: as Annotationes in 4 um Sententiarum
que datam muito provavelmente de 1543
-1545; as Annotationes in j"m 2a• de 1545
-1546 e de 1546-1547; e as Annotationes in
2= 2 M de 1548-1553.
Estas leituras foram repetidas depois
mais do que uma vez e o seu texto bastante
retocado até chegar à sua fase final. O que
significa que é hoje difícil saber com exac
tidão como leu nas suas aulas D. Fr. Barto
lomeu dos Mártires em primeira mão.
Em 8 de Fevereiro de 1545 D. João IH
ordenou ao reitor da Universidade, Fr. Dio
go de Murça, que se reconhecessem a Fr.
Bartolomeu os cursos dados no Colégio de
S. Tomás, em Lisboa e na Batalha, para
efeitos de obtenção do bacharelato, como se
tivessem sido dados na Universidade. Esta
disposição do monarca é muito significa
tiva, revelando claramente o apreço em que
era tido o ilustre frade dominicano.
De notar, pois, que Fr. Martinho de Le
desma inaugurou o ensino de S. Tomás em
1541-1542, quando era lente de Véspera, ou
seja, só um ano antes de Fr. Bartolomeu dos
Mártires iniciar a sua docência no Mosteiro
da Batalha com a leitura do tratado De
Anima da La parte da «Summa».
Em 1557 Ledesma passaria a professor
de Prima, em que foi seguido por Fr. An
tónio de S. Domingos que regeu essa cadeira
de 1574 a 1596. Juntamente com Suárez,
foram eles os expoentes máximos do ensino
de S. Tomás na Faculdade de Teologia da
Universidade de Coimbra no séc. XVI.
Pelas informações registadas nos Livros
dos Conselhos da Universidade, a partir de
1547-1548, sabemos que as leituras das ca·
deiras de Prima e de Véspera de Teologia
incidiam bastante na «Summa» de S. Tomás.
Outro índice sintomático do interesse
que a «Summa» mereceu aos mestres teólo
gos do séc. XVI é-nos fornecido pelas obras
e apostilas de Teologia e de Exegese Bíblica
dos autores mais representativos da época.
Basta passar os olhos sobre os escritos de'
Fr. Francisco de Cristo, de Francisco Rodri
gues Fróis, de Fr. Egídio da Apresentação,
de Paulo de Palácios e Salazar, de Fr. Luís
de Sotomaior, de Fr. Heitor Pinto, etc., para
imediatamente nos apercebermos da forte
influência que o aquinense exerceu então na
Faculdade de Teologia.
E o mesmo se pode dizer dos teólogos,
exegetas, místicos, moralistas e canonistas,
que não leccionaram ali, como é o caso de
Fr. Jerónimo de Azambuja, de Fr. Francisco
Foreiro, de D. Pedro de Figueiró, de Ma
nuel de Sá, de Diogo de Paiva de Andrade,
de Fr. Tomé de Jesus, etc.
Se consultarmos os estatutos universitá
rios, chegamos à mesma conclusão. Os de
1559 prescrevem a existência de uma cáte
dra para a leitura das Partes da «Summa
Theologica»; os de 1591 e de 1653 falam de
uma catedrilha de S. Tomás que se lerá
depois da cadeira de Véspera, e impõem que
o reitor proceda contra os estudantes que
não possuam a Bíblia, o Mestre das Sen
tenças e a «Summa», «e ainda que depois
de serem achados sem os ditos livros, os
hajam ou aleguem que os tinham fora de
casa e peçam ao reitor que os admita à
Universidade, não serão admitidos».
Um catálogo dos livros da Universidade,
elaborado em 1536 talvez em relação com
a transferência daquela para Coimbra, re
gista seis volumes com textos de S. Tomás.
A filosofia ensinada no Colégio das Ar
tes, o Curso dos Conimbricenses, as obras
filosóficas e teológicas, quer impressas quer
manuscritas dos professores da Universidade
de Évora e dos diversos colégios e conven
tos do país elucidam-nos bem do extraordi
nário interesse que a explanação e a apren
dizagem das doutrinas tomistas mereciam
por esse tempo.
Acerca da sintonização do espírito de
Fr. Bartolomeu dos Mártires com a teologia
de cariz tomista então em franca aceitação
e divulgação, escreve Fr. Raul Rolo: «Bar
tolomeu já não beneficiou desta escalada de
renovação teológica verificada na Universi
dade Portuguesa mas, tendo deixado Lisboa
quase ao mesmo tempo que ela, foi encon
trar nos claustros dominicanos do Convento
da Bata'lha as mesmas fontes de inspiração
188/ ACTAS DO I ENCONTRO SOBRE HISTóRIA DOMINICANA
renovadora e, com o seu talento e entusias
mo, foi capaz de fazer sozinho a caminhada
íngreme e árdua que a Faculdade de Teolo
gia fez em Coimbra. Desta forma, Fr. Bar
tolomeu dos Mártires, não sendo nem aluno
nem lente universitário, é, no entanto, uma
nobre figura e exemplo brilhante da restau
ração da teologia em Portugal no sé
culo XVI» (36).
A ligação com os mestres de Saiamanca
é manifesta nas Annotationes que escreveu.
Trata-se de uma aproximação indiscutível,
embora nem sempre concorde com os mes
tres da cidade do Tormes. Demos de novo
a palavra ao insigne investigador da obra
barto'lomeana: «Desta forma, Bartolomeu
dos Mártires, nos escritos teológicos que dele
se conservam e que felizmente representam
todo o seu magistério de teologia, das pri
meiras às últimas lições, deixou-nos o mais
completo e eloquente documento do pro
cesso da restauração da teologia portuguesa
no séc. XVI» (37).
Verifica-se que ele procurava estar ao
par das últimas produções saídas dos prelos
e até das postilas inéditas dos mestres sal
manticenses. Ele soube aproveitar do melhor
modo as mais recentes conquistas da ciência
teológica do seu tempo.
Por tudo o que fica dito, é caso para
dizermos que foi pena não ter prosseguido
a carreira docente. Se o tivesse feito, a sua
obra atingiria certamente proporções muito
maiores do que aquelas obtidas, já de si tão
relevantes e, a título de exemplo, lembre-se
que só nos Scripta super 4 um Sententiarum
refere mais de 500 obras, o que manifesta
à saciedade a sua profunda erudição teoló
gica, patrística, bíblica, filosófica e cultural.
Recorde-se a maneira fácil e o à vontade
com que se situa dentro do pensamento de
S. Tomás, de Vitória, de Capréolo, de Do
mingos Soto, de Melchior Cano, de Caetano,
de Francisco Silvestre de Ferrara, etc. Estes
e tantos outros autores são citados amiúde.
Com eles nem sempre manifesta a sua con
cordância, mostrando sempre que isso sucede
a razão porque não os segue. E isto, eviden
temente, s6 valoriza o seu trabalho.
Também a título de curiosidade, é de
sublinhar que os humanistas mais famosos
dos sécs. XV-XVI lhe não merecem muita
aceitação. Cita-os pouquíssimo e quando o
(~6)
Fr. RAUL ROLO in BARTHOLO
MAEUS DE MARTYRIBUS, O.P. - Opera
Omnia, II - Theologica Scripta, vaI. I, p. 634*.
(37) Ibid., vaI. 11, p. XXVII.
taz, quase sempre discorda e tala deles com
alguma displicência. O mesmo se diga quan
to às referências raras que faz a autores
portugueses.
Pico della Mirandola é referido com
certo desprimor ao aludir à sua opinião
sobre a descida de Cristo aos infernos 8 ).
Noutro passo alega o seu ponto de vista
juntamente com o de S. Tomás acerca da
força das constelações e dos astros e sua
relação corp as nossas inclinações para o
bem e para o mal (39).
Erasmo é citado cinco vezes. Na pri
meira, lê-se assim: «Erasmus scripsit contra
eum (Lutherum) sed frigi de, dicens quod
probabilius est dicere sit liberum arbi
trium» (40). Trata-se de uma passagem sobre
a liberdade que Fr. Bartolomeu gostaria de
ver defendida com mais vigor pelo roter
damês.
No tratado De Fide cita Erasmo acerca
da passagem de Hebr. 11,1 (41).
No tratado sobre a Eucaristia refere-se
ao célebre humanista três vezes, sempre em
oposição às suas ideias. Acerca de 1 Cor.
11,1, diz que Erasmo «satis periculosa verba
posuit» (42) .
Ao explanar o sacramento da Penitência,
escreve a certa altura que «circa poeniten
tiae vocabulum, Lutherus, imo Erasmus, in
annotationibus super Matthaei tertium, di
centes quod doctores aliter utuntur hoc no
mine quam Scriptura, nam, ubi, Evangelium
dicit poenitentiam agite, apud graecos est
vocabulum metanoia, quod non significat
dolorem aut displicentiam seu poenitentiam
aliquam, sed solummodo resispiscentiam seu
transmentationem, ut sic loquar, id est, men
tis mutationem»; e daí passa para Lutero:
«Et hic fundavit Lutherus errorem quod
poenitentiam nihil aliud est quam nova vita,
quoniam (inquit) in Scriptura poenitentia
non significat dolorem quempiam, sed so
lummodo mutationem consi1ii seu men
tis» (43).
No mesmo tratado, acerca da instituição
e da necessidade da confissão, refere-se a
Erasmo ao lado dos Jacobitas, de Wiclef
e dos luteranos: «Hos sequuntur nunc 'luthe
rani dicentes eam esse novitiam ac institu
tionem Ecclesiae, quibus favet Erasmus in
e
(38)
(119)
(40)
(41)
(42)
(43)
Ibid.,
Ibid.)
Ibid.,
Ibid.,
Ibid.,
Ibid.,
vaI. I, p. 326.
vaI. 11, p. 118.
p. 270.
vaI. III, p. 138.
vaI. V, p. 295.
p. 371.
ARQUIVO HISTóRICO DOMINICANO PORTUGU:f:S 1189
libro De ratione verae theologiae, circa fi
nem, et in Coloquio, cui index «Pietas pue
rilis» (44).
Como se viu pelos exemplos aduzidos
e por muitos outros que poderíamos apresen
tar, a polémica anti-protestante ocupa na
obra de Fr. Bartolomeu dos Mártires um
lugar capital.
Os escritos bartolomeanos prestam-se a
análises interessantíssimas sob vários aspec
tos. I! extremamente rica e vasta a obra
que nos deixou nos domínios da Dogmá
tica, da Moral, da Exegese Bíblica, etc. Um
ponto que merece ser devidamente aprofun
dado é a relação entre as Annatatianes do
frade dominicano e os comentários escritos
por outros teólogos do seu tempo quanto
aos temas de Deus, da Moral, dos Sacra
mentos, das Virtudes, etc.
Certas ideias mais em voga no seu tem
po, como o poder temporal de Cristo, a
jurisdição universal dos Papas, a sua auto
ridade sobre os concílios universais, a cons
tituição divina da Igreja, o direito dos povos
em sentido vitoriano e o seu reflexo nos
títulos do legítimo domínio e da justa guerra
entre os descobridores e as novas gentes, os
requisitos do direito de evangelização das
gentes nunca antes sujeitas à Igreja - eis
alguns temas candentes da época em que
viveu Fr. Bartolomeu, que ele tratou com
profundidade e bastante precisão (45).
Os Thealogica Scripta do grande Arce
bispo de Braga oferecem inúmeras pistas
para uma investigação séria e muito pro
veitosa.
Podemos dizer em suma, servindo-nos
das palavras de Fr. Raul Rolo: «Fr. Barto
lomeu dos Mártires de ânimo perscrutador,
de infatigável persistência no trabalho e de
uma abertura extraordinária a todos os valo
res autênticos, fez por si próprio uma longa
caminhada na evolução e no progresso da
teologia dentro da escola dominicana portu
guesa. Graças a esse espírito aberto e atento
a todas as inovações válidas, criteriosamente
adoptadas, o obscuro Studium Particulare
do Convento da Batalha alcançou os centros
intelectuais mais actualizados do seu tempo,
no campo da teologia. Por mérito de Bar
tolomeu, o modesto Studium da Batalha,
foi promovido, no Capítulo Geral de Sala
manca, a Studium Generale, apto a preparar
para todos os graus académicos, como uma
universidade» (46).
(44)
(45)
(46)
Ibid., p. 598.
Ibid., vol. I, p. 241*.
Ibid.
*
Podemos considerar a introdução da
«Summa» de S. Tomás na Universidade de
Coimbra e a renovação da escolástica em
Portugal dentro do contexto da política cul
tural de D. João IH que, desde o início do
seu reinado (1521), se manifestou clara
mente aberto às correntes do humanis
mo (47).
E esse critério manteve-se aproximada
mente até 1550, data em que a linha de
pensamento e de acção defendida em Trento
começou a levantar dúvidas quanto à vali
dade dessa abertura aos ideais humanísticos
e aos desejos de renovação da Igreja e da
Teologia.
A transferência da Universidade para
Coimbra teve como objectivo pôr termo à
situação retardatária da intelectualidade por
tuguesa, a qual estava carecendo de uma
revitalização profunda.
Aqui em Portugal, como lá fora, travou
-se dura luta entre aqueles que teimavam
em manter o «status quo» vigente e aqueles
que se empenhavam em ultrapassar os es
quemas da cultura tradicionaL
Tratava-se, entre outras coisas, de atacar
a fundo a própria escolástica e o seu mé
todo de investigação e de aquisição de co
nhecimentos.
André de Resende na Gratia pro rastris
(1534) e Jerónimo Cardoso são exemplos
notáveis dessa tentativa de renovação e de
«aggiornamento» (48).
Alguns estrangeiros, como Luís Vives,
em 1531, na epístola De tradendis discipli
nis, elogiava D. João IH pelo seu espírito
de abertura e de renovação.
A sua Corte manifestou simpatia por
tudo aquilo que pudesse servir o desenvol
vimento cultural do país. Tanto se apro
(47) Sobre esta última parte do nosso estudo,
vid. a obra já várias vezes citada do Prof. J. S.
DA SILVA DIAS - A política cultural da época
de D. 'João lII, vol. I, t. 2.°, pp. 485 ss.
(48) André de Resende insurge-se contra
«estes estúpidos diaIectas, que sempre com seus cla
mores parecem querer provar que os homens são
alimárias; que com voz estent6rea, com vicidíssimos
silogismos, com vocábulos ambíguos e monstruosos)
por toda a parte, importunos, molestos e barulhen
tos, inabilmente levantam discussões. A tal ponto
desceram, que desfeiaram a mais nobre das artes
com alguns delírios e ridicularias de velhas» (AN
DRÉ DE RESENDE - Oração de sapiência, Trad.
de M. PINTO DE MENESES, introd. e notas de
A. MOREIRA DE SA, Lisboa, 1956, pp. 41 e 43).
190/ ACTAS DO I ENCONTRO SOBRE HISTóRIA DOMINICANA
veitou de elementos tradicionalistas, como
Díogo de Gouveia Sénior, Pedro Margalho
e Bernardo da Cruz, como, a partir de 1535,
de pessoas integradas nas novas directrizes
da inteligêncía europeia.
A simpatia por Erasmo, que chegou a
ser convidado para leccionar em Portugal,
e o acolhimento favorável a André de Re
sende e Damião de Góis, a Clenardo, Vaseu,
Petit, Juan Fernandez, Vicente Fabrício e
Sigeu são sintomas evidentes dessa política
de aceitação das novas ideias renovadoras.
Outro sinal do desejo de integração de
Portugal na cultura europeia da época en
contramo-lo na vinda de mestre's de Teo
logia e de Direito para leccionarem na Uni
versidade de Coimbra. Recordem-se, por
exemplo, os nomes de Afonso do Prado e
de Francisco de Monzón.
A criação do Colégio das Artes em 1547
e a sua entrega à direcção dos mestres bor
daleses, que eram detestados pela ala con
servadora, é outro sinal entre tantos que
podíamos apresentar da ânsia de dar ao país
novos rumos no sector do ensino e da
cultura.
Até 1545 nem a Coroa nem o Conselho
se preocuparam com o perigo luterano. O
que interessava era a todo o custo levar a
cabo a obra de renovação literária e cientí
fica de que o país estava tão necessitado.
Perante a ideologia e a política da Con
tra-Reforma, o humanismo tornou-se apenas
uma cultura ao serviço de uma causa reli
giosa e política.
Com a passagem do irenismo para a Con
tra-Reforma, o estudo das línguas, das lite
raturas e até da própria filosofia tornaram-se
saber meramente preparatório, sem autono
mia e sem aquela dignidade própria das
ciências maiores, como são a Teologia, a
Medicina e o Direito.
O humanismo cristão passou a ser visto
como uma contaminação herética, aliado do
luteranismo e, por isso, perigoso para a
cultura e a prática religiosas.
A ,condenação dos pontos de vista hu
mano-evangelistas e a sua assimilação às
militâncias e teses luteranas tornaram-se vul
gares. ~ certo que não poucos teólogos reve
lam uma formação humanística superior na
inteligência das línguas e das técnicas filo
lógicas. Isso nos exegetas, então, é flagrante.
Lembre-se por exemplo a obra de Heitor
Pinto, de Sebastião Barradas, de Luís de
Sotomaior, de Pedro de Figueiró, de Fran
cisco Foreiro, de Jerónimo de Azambuja. etc.
Em todos eles se nota uma erudição
extraordinária no relativo à cultura clássica
que ainda hoje causa ao leitor profunda
admiração.
~ certo que nalguns autores teólogos,
como FI'. Martinho de Ledesma e FI'. Gaspar
do Casal, a citação dos escritores greco-ro
manos é bastante parca. Basta pensar nos
comentários à Summa (Coimbra 1555-1560)
do primeiro e nos Axiomata Christiana
(Coimbra 1550) do segundo.
Mas outros, logo a seguir, como Pedro
de Perpinhão, Francisco de Cristo e Sebas
tião Barradas já recorrem com grande fre
quência à autoridade dos clássicos.
Pode dizer-se que foi com Jerónimo
Osório e com a influência dos Padres da
Companhia de Jesus que se instalou, final
mente, em Portugal uma maneinra nova de
encarar o humanismo de acordo e ao serviço
da defesa e da reforma católica.
Foi vagarosa a transição do irenismo em
vigor no tempo de D. João 111 para o inte
grismo em franca aceitação na época de
D. Sebastião. Mas convém dizer que até
aqueles que sabiam bem o que fora a reac
ção da Sorbonne, de Lovaina, de Salamanca
e de Alcalá às novas perspectivas do huma
nismo não desistiam das suas preocupações
renovadoras. Brás de Barros, Díogo de Mur
ça e tantos outros não se deixaram atingir
pelas campanhas e pelas críticas que os gru
pos de tipo conservador desencadeavam
contra tudo aquilo que tivesse sabor a re
forma e a humanismo cristão.
Alguns casos em contrário, como o de
Díogo de Gouveia Sénior, são apenas excep
ções que só confirmam a regra.
Nos anos que vão de 1540 a 1550 nota
-se que o rei piedoso se impôs fortemente ao
integrismo, ,resistiu-lhe de forma implacável
e procurou travar a sua marcha, precisa
mente no período em que se verificavam
entre nós marcadas infiltrações do evange·
lismo e do luteranismo, e em que a reno
vação da escolástica e a implantação do
tomismo se iniciavam e atingiam mesmo,
logo a seguir, um grau de alto nível.
Mas também se deve registar que a polí
tica cultural de D. João 111 se processava
dentro dum certo enquadramento que pode
mos classificar de ambivalente. Enquanto,
por um lado, não hesitava em favorecer o
mais que podia todas e quaisquer iniciativas
de renovação que o atraso intelectual do
país exigia, e dava o melhor acolhimento
e protecção aos portadores dos novos ideais
culturais, por outro lado, a pouco e pouco,
começava a ceder em matéria de denún-
ARQUIVO HISTÓRICO DOMINICANO PORTUGU:t:S / 191
cias aos mesmos ideais, não reprimindo su
ficientemente aqueles que as provocavam
e conduziam.
A marcha do Estado em direcção política
da Contra-Reforma, verificou-se, de um mo
do particular, depois de 1557, com a morte
de D. João 111.
Nesas altura já a Universidade, o Santo
Ofício e a Corte se encontravam invadidos,
digamos assim, por intelectuais de forma
ção conservadora.
E os fautores do irenismo, da renovação
do ensino e da reforma da Igreja iam pas
sando a pouco e pouco ao esquecimento.
Falando de integrismo, convém, contudo,
distinguir entre integrismo fechado e inte
grismo aberto. Neste último filiam-se nomes
como Diogo de Paiva de Andrade e Barto
lomeu dos Mártires que, ainda que não ade
rissem de modo nenhum ao luteranismo na
sua sistemática e metodologia teológicas, não
deixavam de acompanhar e de promover a
abertura dos espíritos às inquietações e crí
ticas formuladas pelos fautores da renovação
e da reforma da Igreja.
Mas depois de 1570-1580 era já só a
facção conservadora aquela que, pouco ou
nada, se preocupava com a transformação
das ideias e da cultura que se mantinha
em campo. Nos diversos quadrantes da vida
do país impusera-se o monismo ideológico e
cultural.
A corrente anti-humanista e anti-refor
mista passava a ser um exclusivo do poder
ideológico e político, o qual nem estava
interessado nem se preocupava com a modi
ficação das mentalidades.
«A inteligência portuguesa da época da
Contra-Reforma inbuiu-se rapidamente de
um estado de espírito em que as motivações
de índole negativa e política levam a palma
dos elementos espirituais e vitais. Na ânsia de
preservarem a unidade doutrinaI do país, os
intelectuais e governantes acabaram por im
por em todos os campos uma uniformidade
de ideias e de processos que estiolou em
poucos anos as energias profundas da inquie
tação religiosa. Não foram bastante com
preensivos para a razão de ser de certas
atitudes nem para a sinceridade católica de
certas aspirações. Com o joio, algum trigo
foi arrancado ao mesmo tempo» (49).
('19) Escreve a certa altura Jerónimo Car
doso: «Passa pelas humanidades o único caminhe'
que leva às disciplinas mais nobres e muito mai>
felizes. Eis por que não devem dar-se ouvidos a
certos sellÚ-sábios e, por assim dizer, gramaticões
verrugosos, que gostam mais de cheirar ortigas que
mangeronas, e não sabem distinguir a farinha do
farelo; os quais (para me servir das palavras de
Fábio) zombam desta arte, como de coisa frívola, e
estéril, e desdenham dela, como árida e menos pro
dutiva, embora (para dizer a verdade) eles sejam,
realmente, reputados muito mais estéreis e ár.idos,
e lhe imputem a falta genuína de que sofrem já
desde a adolescência. Por ísso, muito vos exorto
e peço, brilhantíssimos mestres desta Universidade,
que não deíxeis definhar, por incúria e inércia, esta
nobre disciplina, que vos trouxe de pequenos e
alçou à maior condíção. Refutai a incapacidade des
ses ignorantes, que dizem inconsideradamente coisas
tão vãs e fúteis; esforçai-vos para que as humani
dades (humanilalis sludia) desprezadas por estes
petulantes, floresçam com a vossa diligente aplica
ção. Se assim fizerdes, favorecereis a Gramática
com grande louvor e cu.mprireis o vosso dever de
bem servir e amar a Pátria» (JERõNlMO CARDO
SO- Oração de Sapiência. Trad. por JUSTINO
MENDES DE ALMEIDA, pp. 105 e 107). E pros
segue o grande humanista: «Mas - Santo Deus!
- quanto degeneraram os nossos dos antigos dia
lécticos! Estes não anelavam atingir a Dialéctica e
as outras ciências senão depois de estarem exerci
tadíssimos nos preceitos da Retórica e da Poética,
ao passo que os nossos - que tristeza! - sem ao
menos terem saudado as musas do limiar da porta,
jactanciosos com uma pitada de gramática que mal
chegaram a cheirar_ logo julgam abrir-se-lhes um
caminho facílimo para todas as Artes, e afirmam-se
falsamente sequazes da Dialéctica, sem outra cre
dencial senão a de vociferarem arrebatadamente,
numa linguagem ruidosa e tumultuária, numa desa
gradável e mais forte do que a do Estentor homé
rico, teoremas frívolos e comentários pueris de
isagoges, e, lançando-se aos olhos dos ouvintes uma
poeira de palavras e argúcias, soltarem de três em
três palavras quinhentos carros carregados de men
tiras» (Ibid. pp. 107 e 109). Acerca destas palavras
de Jerónimo Cardoso, escreve o Prof. Silva Dias
que «esta crítica da escolástica e do seu método é
uma das constantes do pensamento português saído
da forja do humanismo e das Descobertas» (A po
lítica cultural da época de D. 'João UI, vol. I, t. 2,
p. 865, nota 2).
('50) Correntes de sentimento religioso em Por
tugal, t. I, vol. 1.0, p. 434.
192/ ACTAS DO I ENCONTRO SOBRE HISTóRIA DOMINICANA
Colaboradores :
Colégio e Convento do Corpo Santo, Lisboa,
285-289
Onze sentenças da Iuquisição, sete em dioce
sanos de D. Frei Bartolomeu dos Mártires,
Cinco apêndices ao artigo «Reflorir Domini
cano ... », 309-327
251-276
Escola Tomista de Fátima, 1952-1967, 337-366
MEA, Elvira Cunha Azevedo
MONTEIRO, Ant6nio de Castro Xavier
(Carta), 10
PERDIGAO, José de Azeredo
(Voto), 9
RUAS, Henrique BarrHaro
(Reportagem), 10
S. C.
(Reportagem), 10
PONTES, José Maria da Cruz
(Brinde), 7
(Debate), 8-9
SA, A. Moreira de
(Cartas), 9
PONTES, Maria de Lurdes Belchior
(Telegrama), 9
SACRAMENTO, Maria Rosa Monchique do
RATIO STUDIORUM GENERALIS O.P.
Do estudo da história na Ordem Dominicana,
13-17
SANTOS, Domingos Maurício Gomes dos
(Carta), 9
REMA, Henrique Pinto
Quadro eclesial·congreganista após a extinção
de 1834, 279-283
RODRIGUES, Manuel Augusto
As aulas de Frei Bartolomeu no contexto
escolar da época, 177-192
ROLO, Raul de Almeida
(Cr6nica), 1-12
Breve apresentação, 5-6
«Theologica Scripta» de D. Frei Bartolomeu
dos Mártires, 197-217
ROSÁRIO, Ant6nio do
(Cr6nica), 1-12
(Brinde), 7
Cinco apêndices ao artigo «Reflorir Domini
cano ... », 309-327
SERRAO, Joaquim Veríssimo
Do mosteiro da Vitória à vila da Batalha
(1388-1540), 169-175
SIQUEIRA, Maria Cecília da Câmara de
(Apresentação do canto), 4
SOARES, Ant6nio Franquelim S. de Neiva
A primeira visitação de D. Frei Bartolomeu
dos Mártires e as origens de Esposende,
221-250
SOUSA, José Pedro de Saldanha e Sousa
Reflorir Dominicano em Irmã Teresa de Sal
danha, O.P., 299-308
TERRA, José da Silva
(Telegrama e Carta), 10
Colaboradores :
ALMEIDA, M. Lopes de
. (Um voto), 6
Méritos e deméritos da história Dominicana
em Portugal, 19-28
ANDRADE, A. Banha de
(Debate), 9
CASTRO, Aníbal Pinto de
(Debate), 9
(Em Estado de S. Paulo), 11
FREITAS, Eugénio de Andrêa Cunha e
A família de D. Frei Bartolomeu dos Mártires,
219-220
GOMES, J. Pinharanda
Três poemas do Neo-Tomismo, 367-371
GONÇALVES, António Manuel
Um aluno-mestre de D. Frei Bartolomeu,
193-195
GRIFFIN, Hilário
CASTRO, Eugénio de
Santo Tomás de Aqumo, 390-392
Colégio e Convento do Corpo Santo, Lisboa,
285-289
Colégio do Corpo Santo, 1834-1852, 339-343
COATES, Mary Aedris
O Convento de Nossa Senhora do Bom Sucesso,
Lisboa, 290-297
CORAL, Grupo de Dominicanas, 4
COSTA, Avelino de Jesus da
(Debate), 9
COSTA, Maria Clara Pereira da
O Cronista Fr. Luís de Sousa em Documentos [I), 39-168
LOPES, António da Costa
Cem anos de bem-fazer, 329-336
MACEDO, Jorge Borges de
(Debate), 9
Quadro sócio-político após a extinção de 1834.
277
MADUREIRA, Bernardo
O Sol d'Aquino, 372-390
MARQUES, José
COUTINHO, Bernardo Xavier
(Carta), 9
Para a história dos primórdios do mosteiro
de S. Domingos de Vila Real, 29-38
CRESPO, Rui
(Saudação), 6
MARTINS, MArio
(Carta), 10
CRUZ, Manuel Ivo da
(Selecção musical), 6
MATOS, José Guilherme de
O Sol d'Aquino, 393-394
DIAS, José Sebastião da Silva
(Debate), 9
MATOS, Luís de
(Carta), 10