1 CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO CEARÁ FACULDADE CEARENSE CURSO DE SERVIÇO SOCIAL ANTÔNIO ANDRÉ MENDONÇA DE ARAÚJO DEPENDÊNCIA QUÍMICA E POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA NO MUNICÍPIO DE FORTALEZA: PERSPECTIVAS DE UMA POPULAÇÃO DUPLAMENTE EXCLUÍDA E MARGINALIZADA. FORTALEZA 2012 2 ANTÔNIO ANDRÉ MENDONÇA DE ARAÚJO DEPENDÊNCIA QUÍMICA E POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA NO MUNICÍPIO DE FORTALEZA: PERSPECTIVAS DE UMA POPULAÇÃO DUPLAMENTE EXCLUÍDA E MARGINALIZADA. Monografia submetida à aprovação Coordenação do curso de Serviço Social do Centro de Ensino Superior do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de Graduação. FORTALEZA 2012 3 A663d Araújo, Antônio André Mendonça de. Dependência química e população em situação de rua no município de Fortaleza: perspectivas de uma população duplamente excluída e marginalizada / Antônio André Mendonça de Araújo. – 2012. 68 f. Orientador: Prof. Ms. Igor Monteiro Silva. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Faculdade Cearense, Curso de Serviço Social, 2012. 1. Dependência química. 2. Drogas. 3. População em situação de rua. I. Silva, Igor Monteiro. II. Título. CDU 364.692:615.2:615.015.6 Bibliotecária Maria Albaniza de OliveiraCDU CRB-3/867 614.21:657.471 CDU 347.922.6 4 ANTÔNIO ANDRÉ MENDONÇA DE ARAÚJO DEPENDÊNCIA QUÍMICA E POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA NO MUNICÍPIO DE FORTALEZA: PERSPECTIVAS DE UMA POPULAÇÃO DUPLAMENTE EXCLUÍDA E MARGINALIZADA. Monografia como pré-requisito para obtenção do título de Bacharelado em Serviço Social, outorgado pela Faculdade Cearense – FaC, tendo sido aprovada pela banca examinadora composta pelos professores. Data de aprovação:____/____/____ BANCA EXAMINADORA Professor Ms. Igor Monteiro Silva Orientador Professora Ms. Denise Furtado Alencar Lima 1ª Examinadora Professora Ms. Priscila Nottingham 2ª Examinadora 5 Á minha família e amigos pelo apoio e carinho em todos os momentos de minha vida. 6 AGRADECIMENTOS A Marta e Luiz, minha mãe e meu pai, por parte da minha formação e criação. Aos meus irmãos, que mais que irmãos, são amigos. Aos meus amigos, que mais que amigos, são irmãos. A Adriana Oliveira, Dalvanice Sant’ana e Marcelo Martins pelo apoio, carinho e acima de tudo amor, em todos os momentos. Aos amigos Francisco Diógenes Jr, Ana Carolina Marangoni, Diogo Batista, Camila Cavalcante e Érika Cavalcante pelo apoio e carinho. Ao meu orientador, Mestre Igor Monteiro, pela disponibilidade, paciência e inestimável ajuda. A Whitney Houston, uma pessoa muito especial que, de maneira indireta me impulsionou e ajudou a chegar aqui. Por último, mas não menos importante, a Deus, por permitir que tudo isso fosse possível. 7 "Não faças do amanhã o sinônimo de nunca, nem o ontem te seja o mesmo que nunca mais. Teus passos ficaram. Olhes para trás...mas vá em frente pois há muitos que precisam que chegues para poderem seguirte." (Charles Chaplin) 8 RESUMO Este trabalho busca conhecer a realidade dos Dependentes Químicos em Situação de Rua no Município de Fortaleza, bem como suas relações com as condições socioculturais em que estão inseridos. O consumo de substâncias psicoativas advêm de civilizações antigas, que com o passar dos tempos e a modernização veio o isolamento do princípio ativo de algumas dessas substâncias, ocasionando os primeiros casos de dependência química. No Brasil, os estudos sobre População em Situação de Rua vem crescendo desde os anos de 1990, por conta da grande transformação que o avanço do capitalismo trouxe. Em Fortaleza, os primeiros casos de pessoas vagando pelas ruas foram em decorrência das grandes secas que assolavam o Estado. Atualmente há uma estreita ligação entre Dependência Química e População em Situação de Rua, caracterizando umas das principais expressões da questão social. A metodologia utilizada foi a “Perspectiva Etnossociológica” ou “História de Vida”, proposta aliada ao discurso e à memória. As histórias de vida contadas apontaram as diferenças e semelhanças no âmbito social e familiar e também sua frágil relação com as Políticas Públicas existentes como dificultadores para sua reinserção social. Palavras-chaves: Dependência Química; População em Situação de Rua; História de Vida. 9 ABSTRACT This paper seeks to know the reality of the Drug Situation in the Street in the city of Fortaleza, as well as its relations with the socio-cultural conditions in which they live. The consumption of psychoactive substances come from ancient civilizations, with the passing of time and modernization came the isolation of the active principle of some of these substances, causing the first cases of addiction. In Brazil, studies in Homeless Population has been growing since the 1990s, due to the great transformation that brought the advance of capitalism. In Fortaleza, the first cases of people wandering the streets were the result of severe drought that plagued the state. Currently there is a close connection between Addiction and Population Status Street, featuring one of the main expressions of social issues. The methodology used was to "Perspective Etnossociológica" or "History of Life", together with the proposed speech and memory. The life stories told pointed out the similarities and differences in the social and family and also his fragile relationship with existing public policies as hindering for their social reintegration. Keywords: Chemical Dependency; Homeless Population; Life History. 10 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS APA: Associação Americana de Psiquiatria CAPS – AD: Centro de Atenção Psicossocial / Álcool e Drogas CAPS: Centro de Atenção Psicossocial CENTRO – POP: Centro Especializado de Assistência Social para População de Rua CONGEMAS: Gestores Municipais da Assistência Social EAN: Espaço de Acolhimento Noturno FIPE: Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas MDS: Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome MNPR: Movimento Nacional de População de Rua OMS: Organização Mundial de Saúde PNAS: Política Nacional de Assistência Social PSE: Política Social Especial SEMAS: Secretaria Municipal de Assistência Social SENAD: Secretaria Nacional Antidrogas SER –II: Secretaria Executiva Regional II SISNAD: Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas SNC: Sistema Nervoso Central 11 SUMÁRIO INTRODUÇÃO.............................................................................................................. 12 CAPÍTULO I DROGAS E DEPENDÊNCIA QUÍMICA 1.1 Origem das drogas no mundo e no Brasil.................................................... 15 1.2 Tipos de Drogas e seus efeitos.................................................................... 19 1.3 Dependência Química como problema social.............................................. 22 CAPÍTULO II POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA 2.1 População em Situação de Rua: uma expressão da questão social no Brasil.................................................................................................................. 31 2.2 Origem e características atuais da população que vive em situação de rua...................................................................................................................... 35 2.3 População em Situação de Rua no Município de Fortaleza........................ 39 CAPÍTULO III PERSPECTIVAS DE VIDA DE UMA POPULAÇÃO DUPLAMENTE EXCLUÍDA E MARGINALIZADA 3.1 – Dependência Química e População em Situação de Rua no Município de Fortaleza....................................................................................................... 46 3.2 – Histórias de Vida: Percepções de uma parcela da população que tem seus direitos violados ou negados e sua dignidade desrespeitada................... 49 3.3 – Relações e reflexões sobre as histórias de vida desses indivíduos que representam uma parcela da população cearense............................................ 62 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................... 65 REFERÊNCIAS.................................................................................................. 67 12 INTRODUÇÃO Inicio este trabalho acadêmico lembrando que ele é resultado de muito esforço e dedicação. Esforço este que me consumiu várias noites e dias, algumas boas horas de concentração e até desespero quando quase tudo contribuía para a sua não realização em tempo hábil. Dedicação que me permitiu concretizar não apenas este trabalho, mas também um novo ciclo em minha vida. Esta concretização veio por meio da ajuda de muitos que contribuíram para que eu não desistisse dos meus sujeitos e nem do objetivo de estudo. O estudo acadêmico acerca da Dependência Química relatada no primeiro capítulo há muito é considerada fonte inesgotável de debates, discussões e reflexão por se tratar de um assunto que gera posições divergentes. Sua origem no mundo e no Brasil, bem como, sua importância no que diz respeito a uma das expressões da questão social no cenário atual. Os estudos de Mota (2009) sobre Dependência Química mostram as várias nuances sobre as vidas desses indivíduos, suas relações com o restante do mundo que os cerca, no que diz respeito às relações sociais. Para Matos (2000) essa dependência passa a assustar a sociedade que, por sua vez começa a tomar atitudes enérgicas de combate a esta prática, buscando proibir e condenar este hábito. Bem como, o estudo sobre População em Situação de Rua, discorrido no segundo capítulo, que vem se ampliando desde o início dos anos de 1990, buscando compreender as relações entre a sociedade capitalista e esta parcela da população excluída e marginalizada socialmente. Para Silva (2009) sobre População em Situação de Rua esta situação se deve muito à falta de emprego, a incessante busca do capitalismo em manter sua hegemonia e lucro, que substitui o trabalho humano pelo trabalho morto (máquina). Os estudos de Escorel (1999) mostram a “exclusão social” como um fato a que estes indivíduos são submetidos constantemente, ao serem marginalizados e descartados socialmente por não configurarem parte da lógica capitalista. Caracterizando a População em Situação de Rua como uma das principais representações da “questão social”. 13 Esses dois aspectos quando reunidos em um só tema, nos leva a fazer considerações sobre a existência de uma relação entre essas duas parcelas da população. O que leva uma pessoa a fazer uso de uma ou mais substâncias psicoativas? Quais fatores desencadeiam a dependência? Quais os fatores que levam alguém a estar em Situação de Rua? Existe uma relação concreta entre Dependência Química e População em Situação de Rua? Existem políticas públicas que visem atender com dignidade esses indivíduos? Quais respostas o poder público tem dado para resolver essa dupla face da questão social? Muitas são as indagações, as dúvidas, bem como, também muitas são as respostas e representações do tema abordado. Sendo assim, é exatamente sob estes aspectos que foi construído meu terceiro e último capítulo, buscando conhecer e compreender as histórias de vida desses sujeitos, bem como, suas relações socioculturais e familiares. Esta pesquisa foi realizada concretamente durante o oitavo semestre do Curso de Serviço Social da Faculdade Cearense, no ano de 2012.2, mas teve seu início já no meu período de estágio no Espaço de Acolhimento Noturno – EAN, que é um equipamento da prefeitura do Município de Fortaleza, orientado pela Política de Proteção Social Especial – PSE, no ano de 2011.1, quando tive acesso a esta parcela da população socialmente marginalizada e excluída. Atualmente, não se tem um número exato de quantos dependentes químicos estejam em situação de rua, ou de quantas pessoas em situação de rua sejam dependentes químicos. Inicialmente, pelo fato da não adesão ao tratamento, quando em situação de rua, por questões de falta de estrutura na manutenção dessas pessoas longe da situação de vulnerabilidade quando acolhidas. E também, pela não aceitação da condição de doente, de dependente químico. Mas é sabido que grande parte dessa população faz uso de algum tipo de substância psicoativa. Dados verificados no EAN apontam uma estimativa de aproximadamente sete pessoas em um grupo de dez, que fazem uso de substâncias psicoativas ou são dependentes químicos. Diante dessa problemática, o presente trabalho tem como objetivo principal conhecer como se dá essa relação entre Dependência Química e População em 14 Situação de Rua no Município de Fortaleza, buscando analisar por meio das histórias de vida relatadas, as condições subjetivas e objetivas dos sujeitos envolvidos nessa expressão da questão social. Os objetivos específicos são: refletir sobre os motivos que levam uma pessoa a fazer uso de substâncias psicoativas; conhecer as relações entre dependência química e situação de rua; perceber a relação e a visão desses indivíduos com as Políticas Públicas voltadas para este seguimento no município de Fortaleza; relatar as estratégias de sobrevivência utilizadas por esses indivíduos e sua relação com o restante da sociedade. Este tema teve seu início e foi amadurecendo, tomando forma e corpo ao longo do meu período de estágio, ao me deparar com uma situação mais comum do que imaginava, embora seja inegável a presença cada vez maior de pessoas nessas condições subumanas nas ruas e calçadas do Município de Fortaleza e, também devido ao meu Projeto de Intervenção que, em parceria com minha colega de estágio Érika Cavalcante, teve como tema ‘Sensibilização dos usuários do Espaço de Acolhimento Noturno para realizar acompanhamento junto ao Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS / AD)’, ao constatar a grande demanda e não acompanhamento e adesão ao tratamento por parte da população acolhida no EAN, em relação ao uso de substâncias psicoativas. Com o aprofundamento dos estudos sobre População em Situação de Rua fui percebendo e conhecendo melhor as condições em que vivem essas pessoas, bem como as adversidades enfrentadas por cada um deles independente de sua origem, ocupação profissional, religião, etnia etc. A metodologia utilizada foi a pesquisa quanti-qualitativa possibilitando um melhor contato com os sujeitos e a “perspectiva etnossociológica” ou “narrativa de vida”, essa expressão foi introduzida na França há vinte anos, até então, o termo utilizado era ‘história de vida’ que advêm do termo life history, método este aprimorado por Daniel Bertaux e escolhido por permitir uma análise completa da história de vida dos meus sujeitos, possibilitando uma compreensão maior acerca do objetivo da minha pesquisa. 15 I DROGAS E DEPENDÊNCIA QUÍMICA 1.1 - Origem das drogas no mundo e no Brasil O uso de substâncias psicoativas por parte dos seres humanos não é um fato novo, ao contrário, remonta a civilizações antigas. No entanto, como conta a história, eram primordialmente utilizadas em rituais, com características de comemoração, recreativas e religiosas, a fim de se conseguir por meio de seu uso alcançar estágios de “embriaguez” e êxtase, e até mesmo sendo utilizadas para fins medicinais, não existindo a compreensão deste uso como um hábito, ou com finalidade de esconder ou fugir do tédio ou de sentimentos negativos, como se tem a utilização de várias substancias nos dias atuais. A relação estreita entre os homens e algumas plantas vai para além de sua importância para alimentação e medicação, ao descobrir sua capacidade de produzir estados alterados de consciência. Consta-se que o uso de uma planta conhecida como dormideira (ópio), iniciou-se por volta de 3.000 anos antes de Cristo, na região da Mesopotâmia. Chamada de ‘planta da felicidade’ foi utilizada também na Roma Antiga como calmante e analgésico. O ópio é extraído da papoula papaver somniferum, seu nome provem do grego ôpion que significa suco ou sumo de uma planta, que tem como principio o alívio da dor e ansiedade, sensação de bem estar, entre outros (MOTA, 2009, p. 38). Assim, praticamente todas as civilizações, independente de seu tempo ou época, têm relação com algum tipo de substância psicoativa 1. No Brasil, os índios Waiká, localizados no extremo norte do país, tinham por hábito inalar um pó chamado epená, com seu poder altamente intoxicante era armazenado em tubos de bambu e utilizado em ocasiões especiais (rituais). Sua utilização tinha por finalidade transcender o estado natural do espírito, que por meio de seu uso, aliados a dança e aos cânticos, alcançavam o êxtase. Deve-se ressaltar que o uso dessa substância não era feito de maneira indiscriminada e/ou aleatória, além do fato de não ser uma substância refinada, o que não permitia o isolamento 1 Entende-se por substância psicoativa, toda e qualquer substância orgânica ou sintética capaz de alterar o Sistema Nervoso Central – SNC (BUCHER, 1994). 16 de seu princípio ativo, causando a potencialização de seus efeitos alucinógenos (MOTA, 2009, p. 38). Ainda sobre o ‘uso cultural’ de determinadas substâncias no Brasil, outra substância popular é a ayahuasca, que é um chá preparado a partir de duas plantas originarias da floresta amazônica: o cipó caapi (Banisteriopis caapi) e folhas da chacrona (Psychotria viridis), bastante utilizada por religiões como o Santo Daime2 e Barquinha3 em seus rituais. Nesse sentido, poderíamos pensar de outra forma sobre o que a define como droga, pois segundo a Organização Mundial de Saúde – OMS, “droga é toda substância que, introduzida em um organismo vivo, pode modificar uma ou mais de suas funções.” .A OMS compreende que essas substâncias psicoativas atuam diretamente no Sistema Nervoso Central - SNC, sua origem pode ser natural ou sintética, alterando o comportamento da pessoa por meio de suas funções fisiológicas. O conceito de droga varia bastante. De acordo com a OMS, seus significados podem incluir tudo que se ingere e que não constitui alimento, embora alguns alimentos também possam ser designados como drogas, exemplos destes são: bebidas alcoólicas, tabaco, açúcar, chá, chocolate, guaraná etc. Essas drogas podem, de maneiras variadas, agirem como remédios ou venenos, alimentos ou 2 Culto Eclético da Fluente Luz Universal é um trabalho espiritual, que tem como objetivo alcançar o autoconhecimento e a experiência de Deus ou do Eu Superior Interno. O culto litúrgico se resume em comungar, em datas apropriadas, a bebida à guiza de sacramento, se denomina Eclético, porque suas raízes estão impregnadas de um forte sincretismo entre vários elementos culturais, folclóricos e religiosos. O Santo Daime é realizado nas datas do seu calendário festivo, obedecendo às regras dos rituais que foram estabelecidas pelo Mestre Irineu e pelo Padrinho Sebastião (Santo Daime – A doutrina da floresta). 3 Fundada em 1945, em Rio Branco, é uma igreja que mistura elementos da religião afro-brasileira Umbanda e a do Santo Daime. O nome refere-se ao barco que o fundador, Frei Daniel Pereira de Mattos, viu numa visão. Na sua mente a barquinha representava a viagem espiritual. A Barquinha tem mais rituais que o Santo Daime, aparentemente servindo uma poção também mais forte. Durante algumas sessões baseadas nos rituais da Umbanda, vestidos de marinheiros, entram em transe, ‘incorporam’ espíritos e dança-se a gira, uma dança em círculos. Três vezes por ano há uma peregrinação, ou romaria, durante um período que pode durar trinta sessões noturnas com consumo de chá. As sessões não-festivas, ou salmos, são cantadas por um cantor, e o restante das pessoas cantam sentadas os refrões. Estes hinos são normalmente muito mais longos que os do Santo Daime (Rituais e Cerimônias – Introdução ao mundo da ayahuasca). 17 bebidas, analgésicos ou anestésicos. Podendo ser também classificadas quanto a sua legalidade, como drogas lícitas (comercializadas legalmente) e ilícitas, quando sua comercialização é proibida em determinada sociedade, em que isto normalmente está relacionado a questões econômicas e socioculturais, que se modificam de país para país. O uso de substâncias psicoativas nas “civilizações antigas” tinha caráter cultural e ritualístico, por isso, sua produção era feita em pequenas quantidades sem a intenção de produzir para comercializar, mesmo certas substâncias de origem vegetal existindo em abundância nas florestas tropicais. No entanto, de acordo com as mudanças históricas, há o avanço na produção das drogas através do isolamento do princípio ativo como, por exemplo, a morfina, um importante alcalóide encontrado no ópio, que no inicio do século XIX, mais precisamente em 1804, isolada pelo químico alemão Friedrich Serturner e o francês Armand Séguin, foi considerada uma “bênção” por parte dos soldados feridos na Guerra Civil Americana. Sendo utilizada como analgésico, esta substância passou a ser produzida em larga escala pelos laboratórios Merck. Em seguida, ainda no mesmo século, surge a cocaína4 (1859) e a heroína (1898) também desenvolvidas pelos laboratórios alemães (MOTA, 2009, p. 44). É exatamente neste período que começam a surgir os primeiros casos de dependentes químicos, pois, os padrões de consumo de substâncias psicoativas começam a apresentar significativa mudança. A partir da necessidade de superar as conseqüências do incremento dos meios de produção, a modernidade fomentou guerras, exploração, fadiga, mal-estar, que ocasionariam conseqüências sociais de grandes proporções. Então, para minimizar esses efeitos colaterais do “progresso”, era necessário desenvolver drogas cada vez mais eficazes. Ideologias universalizantes como o liberalismo ou seriam os “remédios sociais”. Mas, no que tange ao corpo, era necessário desenvolver novas drogas que pudessem ser comercializadas sob a mesma lógica de desenvolvimento das forças produtivas. Mesmo as bebidas alcoólicas, já tradicionais há milênios, deveriam ser mais fortes e disponíveis em larga escala (MOTA, 2009, p. 4445). 4 A produção da cocaína envolve vários estágios até chegar à forma do sal (cloridrato de cocaína), sua forma intermediária é a pasta de coca. Esta substância em pó é aspirada (volátil). Junto ao Cloridrato é obtido o Crack que é fumado. Devido sua rápida absorção, seus efeitos são sentidos em segundos e esta sensação pode durar entre 5 a 10 minutos, apresentando alto potencial de abuso. 18 É inegável que a Revolução Industrial permitiu a produção em larga escala de substâncias psicoativas, assim como a indústria química, por meio do isolamento do princípio ativo, ocasionou a potencialização de algumas dessas substâncias causando um efeito ambíguo na sociedade, pois ao mesmo tempo em que permite e vê com “bons olhos” a possibilidade da criação de novas perspectivas de alivio das adversidades da sociedade moderna, promovendo um ideal de homem moderno, capaz de ser rígido, racional e produtivo, ao contrário do homem que faz uso demasiado de drogas que é considerado improdutivo, relaxado e incapaz de cuidar de sua higiene física e mental, recriminando e descriminando o uso abusivo e a dependência. Assim, com o surgimento desses casos de dependência que passam a “assustar” e incomodar a sociedade, começam também a serem criadas ligas e associações antialcoólicas de caráter religioso, filantrópico e oficial com a finalidade de combate o uso dessas substâncias. Buscando proteger a moral e os bons costumes da sociedade brasileira como: a Liga Paulista de Higiene Mental, Liga Militar Antialcoólica, Liga Antialcoólica Infantil, dentre outras. Nenhuma conseguiu o almejado proibicionismo, desaparecendo ao longo dos anos 1930, mas institucionalizou políticas públicas para o problema do alcoolismo, como podemos observar nos dias atuais (MATOS, 2000). Desta maneira, a lógica capitalista estabelece um padrão de produção e de consumo, não importando qual o produto ou substância a ser comercializada. De acordo com Velho (1997, p. 67), No momento em que a maconha, a cocaína, ou seja lá o que for entram no mercado e passam a ser objeto de especulação, essa situação de relativa estabilidade de grupos inseridos na sociedade moderna contemporânea – que antes consumiam dentro de certas regras, de certas convenções – se altera, porque passa a ser um bem de mercado, e um bem escasso, ligado à situação de perigo, risco. A substância tornada ilegal, clandestina, vale cada vez mais e é fonte de disputa, de enormes lucros e da possibilidade de algumas das maiores jogadas de capital que se possa imaginar no mundo contemporâneo; passa a ser um produto valiosíssimo e, em função disso, o consumo se altera. Aquele consumo que era mais localizado em certos grupos culturais, em certas minorias, em certas faixas da sociedade, passa a ser ditado não mais pela lógica dessas tradições ou pela lógica desses grupos, mas pela lógica do mercado, do capital. Embora o uso de drogas exista desde muito tempo, o abuso ou uso exagerado dessas substâncias nunca foi bem visto pela sociedade independente da 19 sua época. A partir daí, deu-se início ao proibicionismo e a marginalização dos usuários de drogas. É importante salientar as diferenças entre padrão de uso, de abuso e dependência química, para isto, torna-se necessário compreender essas nuances para se evitar “diagnósticos” equivocados ou atitudes preconceituosas. Analisando o contexto sócio-cultural no qual os indivíduos consumidores estão inseridos, embora saibamos que o uso de substâncias psicoativas independe de classe social, cor, etnia, religião e até mesmo idade, tendo em vista que cada vez mais crianças estão fazendo uso de drogas, pode-se compreender melhor essas diferenças. Assim, para a OMS, padrão de uso é quando o indivíduo faz uso dessas substâncias, no entanto, este uso não lhe traz danos ao meio sócio-cultural, nem mesmo prejuízos biológicos (físicos). Quanto ao abuso de drogas, este consiste em uma relação que por sua vez traz prejuízos físicos, psíquicos e até mesmo sociais para si e as pessoas que o rodeia. A dependência química por si só é um fenômeno complexo e delicado, que exige uma atenção maior e mais específica por parte da sociedade, pois se caracteriza por um conjunto de sinais e sintomas dentro de um contexto e não apenas pelo “simples” uso de uma determinada droga. 1.2 - Tipos de Drogas e seus efeitos As drogas podem ser classificadas de várias maneiras, podendo também ser avaliadas conforme seu efeito no Sistema Nervoso Central - (SNC). Desse modo, existem as Drogas Depressoras, Estimulantes e Perturbadoras. Seu uso frequente ou crônico traz consequências físicas, psíquicas, familiares e sociais, não importando sua categorização como lícitas ou ilícitas. As tabelas abaixo mostram um panorama sobre estas drogas, seus produtos e efeitos, bem como os maiores e mais frequentes distúrbios ocasionados pelo uso constante e abusivo de cada droga, apontando para uma acentuada busca de satisfação e/ou fuga pessoal e social. TABELA I – Drogas Depressoras Drogas Depressoras Produtos Efeitos Efeitos Crônico do uso 20 Álcool Cachaça, Uísque, Vodca, Perda do equilíbrio Pode causar cirrose Cerveja, e da coordenação hepática, pancreatite motora, crônica, impotência de relaxamento e sexual, demência desinibição, alcoólica, sonolência. dificuldades Vinho etc. sensação familiares e sociais. Benzodiazepínicos: Tranquilizantes ou Ansiolíticos Diazepan (Valium), Diminuição da Bromezapan atividade do SNC: memória de fixação, (Lexotan), redução redução da Clonazepan ansiedade, indução capacidade de (Rivotril)... do julgamento e da sono, Alterações da relaxamento raciocínio, muscular. comportamentos agressivos etc. Inalantes: Solventes. Aerosóis, Tintas, Vernizes, Cola, Esmaltes... Irritação das Déficit de memória, mucosas do nariz e cansaço, da dos boca, tosse, fotofobia, diplopia. paralisia membros inferiores, pode causar lesão irreversível do SNC com tremor grosseiro. Opiáceos ou Opiódes: Morfina e Codeína Todos diminuem a Intoxicações Substância Extraída da (Opiáceos atividade do SNC. altas Papoula. Naturais), Heroína Diminuição contaminações: (Opiáceos Semi- da por dosagens; freqüência cardíaca, infecções Sintéticos), respiratória pulmonares, Meperidina, pressão sanguínea, hepatites virais, sífilis Metadona, fechamento etc. Propoxifeno, pupila, Tramadol (Opiáceos rápida e intensa de Sintéticos). prazer, seguida de bem e da da sensação estar e sonolência, alteração de humor etc. TABELA II – Drogas Depressoras 21 Drogas Produtos Efeitos Efeitos Estimulantes do Uso Crônico Anfetaminas: Dietilpropriona, Taquicardia, pupilas Síndrome Substâncias Fenoproporex, dilatadas, dependência, Metanfetamina. hipotermia, degeneração convulsões, derrame irreversível cerebral etc. determinadas células sintéticas aumentam que a atividade do SNC de de do cérebro. Após a interrupção pode-se um do uso apresentar quadro de ansiedade, desânimo e forte convulsão. Tabaco: Nicotina. Cigarros, Charutos, Cachimbos, Fumo de Rolo. Aumento da Pode causar câncer freqüência cardíaca, de na faringe, esôfago. pressão sanguínea e pulmão, laringe, na freqüência respiratória, náuseas, vômitos, diarréias, No SCN apresenta estado de alerta e sensação de calma. Cocaína ² Cocaína em Pó, Taquicardia, Síndrome Crack, aumento da pressão Dependência Melado, Pasta Base. arterial Estados Psicóticos. (Pode ser Aspirada, temperatura, euforia, Injetada ou fumada da fome e do sono, Merla, e da de e paranóia etc. TABELA III – Drogas Perturbadoras Drogas Produtos Efeitos Efeitos Perturbadoras Crônico Alucinógenos: Naturais “Boa Drogas Psicodélicas (Cogumelos, Sensação Mescalina, prazerosa, Ayahuasca), alterações Sintéticas Artane, (LSD, Estasy, percepção; Viagem” Viagem” da “Má visões do Uso 22 Akitenon). terrificantes, sensações de deformações do próprio corpo, delírios persecutórios, sensação de morte etc. Maconha: Cannabis Maconha, conhecida Provoca taquicardia, Pode Sativa. como olhos bronquite erva, beck, vermelhos, causar crônica, baseado; o haxixe, o boca seca, tremores infecção Skank e a sensimilia nas mãos, prejuízos pulmonares, (mais potentes). à pulmonar, diminuição coordenação das vias câncer motora, da fertilidade relaxamento, euforia masculina, déficit da etc. memória de fixação e pode induzir estados de desmotivação. Estas tabelas foram criadas e desenvolvidas utilizando informações fornecidas pelo ‘Plano Fortaleza de Prevenção e Atenção Integral aos Usuários de Crack e Outras Drogas (2011 – 2012), plano este implementado pela prefeitura do Município de Fortaleza. Foram utilizadas com a finalidade de colaborar para a ampliação do conhecimento da ação de dos efeitos ocasionados pelo uso dessas Drogas. Embora discorra nas tabelas acima sobre os variados tipos de drogas e seus efeitos, é importante informar e esclarecer que dentre estas substâncias psicoativas (drogas) apresentadas, as drogas que foram relatadas pelos sujeitos desta pesquisa como as mais utilizadas tanto devido à frequência quanto a quantidade foram: o álcool, a maconha, o crack e a cocaína, não seguindo uma sequencia “lógica”, mas apontando para a bebida alcoólica como a principal substância sendo utilizada por todos os sujeitos desta pesquisa, possivelmente desencadeando o uso de outras substâncias. 1.3 – Dependência Química como problema social 23 A dependência química é um dos males que assolam a sociedade desde muito tempo. Fato este que por várias vezes leva-nos a pensar sobre sua origem e que, de acordo com o autor e sociólogo Leonardo Mota, sua origem se deve à relação dos homens com as plantas, ao longo da história: Além da alimentação, do abrigo e dos remédios, os primeiros hominídeos descobriram que algumas plantas possuíam a capacidade de produzir estados alterados de consciência desejáveis. Enquanto alguns deles buscavam tonificantes capazes de mantê-los em alerta, outros preferiam estados de relaxamento ou alucinatórios (MOTA, 2009, p. 25). A partir de então, se têm notícia da utilização de algumas dessas substâncias psicoativas. Assim, com o passar do tempo, o uso dessas substâncias alucinógenas passa de fins ritualísticos ou até mesmo medicinais, para o uso constante e/ou abusivo para fins meramente recreativos. Desta maneira, os malefícios adquiridos ao longo do tempo tornam-se quase que imprevisíveis, tendo em vista que, como pode-se acompanhar em noticiários da TV, jornais, revistas etc., algumas dessas pessoas parecem não ser capazes de fazer o uso controlado dessas drogas, ou seja, tornando-se usuários abusivos e/ou dependentes químicos, que por sua vez afetam suas relações pessoais e sociais. Esses malefícios, na sociedade contemporânea, não fazem distinções de classe social, gênero, credo religioso e nem mesmo etnia. Com isso os dependentes químicos normalmente são marginalizados e excluídos socialmente, sendo tratados como “fracos” e incapazes de refletir sobre os males que o uso abusivo traz e, desta maneira, refazer-se deste mal. Daí a necessidade e importância de saber e desmistificar as noções que a sociedade em geral tem sobre a dependência química. A abordagem das relações entre o uso de drogas com a religião, crime e doença pode desconstruir, ou no mínimo, fragilizar essas relações existentes, já que essas características dependem muito do contexto social em que se está inserido. No campo da religião, a Igreja Católica, devido seu combate histórico as práticas pagãs por parte dos povos indígenas ao utilizarem em seus rituais plantas alucinógenas, deu início ao proibicionismo do uso de substâncias psicoativas por considerarem este “tipo” de fuga da dor, ou busca pela transcendência espiritual, como mecanismo de consolo que deveria ser buscado somente junto a Deus. A Igreja, usualmente, destaca uma 24 ligação entre drogas e demônios, em que estes seres malignos usam algumas pessoas para suas práticas maléficas. Na própria Bíblia Sagrada existem passagens relacionadas ao uso de determinadas substâncias como o álcool, por exemplo, que ora incentiva o uso e ora recrimina o abuso: Todos os anos juntem uma décima parte de todas as colheitas e levem até o lugar que o Senhor, nosso Deus, tiver escolhido para nele ser adorado. Ali, na presença do Senhor, nosso Deus, comam aquela décima parte dos cereais, do vinho e do azeite e também a primeira cria das vacas e das ovelhas. Façam isso para aprender a temer a Deus para sempre. Mas, se o lugar de adoração ficar muito longe, e for impossível levar até a décima parte das colheitas com que Deus os abençoou, então façam isto: vendam aquela parte das colheitas, levem seu dinheiro até o lugar de adoração que o Senhor tiver escolhido e ali comprem tudo o que quiserem comer: carne de vaca ou de carneiro, vinho, cerveja ou qualquer outra coisa que desejarem. E ali, na presença do Senhor, nosso Deus, vocês e as suas famílias comam essas coisas e se divirtam à vontade (DEUTERONÔMIO, 14, 22 - 26). Em outra passagem da Bíblia, há o registro da condenação aos atos de abuso dessas bebidas. Quem é que grita de dor? Para quem são as tristezas? Quem é que vive brigando e se queixando? Quem é que tem os olhos vermelhos e ferimentos que podiam ter sido evitados? É aquele que bebe demais e anda procurando bebidas misturadas. Não fique olhando para o vinho que brilha no copo, com sua cor vermelha, desce suavemente. Pois no fim ele morde como uma cobra venenosa. Você verá coisas esquisitas e falará tolices. Você se sentirá como se estivesse no meio do mar, enjoado, balançando no alto do mastro de um navio. Então você dirá: “Alguém deve ter batido em mim; acho que levei uma surra, mas não lembro. Por que não consigo levantar? Preciso de mais um gole.” (PROVÉRBIOS, 23, 29 – 35). Mesmo que as Igrejas historicamente venham desaprovando o abuso de substâncias psicoativas e a Dependência Química, atualmente, tem-se visto que o maior adversário dos traficantes nos morros cariocas, por exemplo, não é mais a polícia ou o exército com suas ações interventivas e repressoras, e sim assas mesmas igrejas, evangélicas ou católicas, que por meio da conversão religiosa e espiritual, conseguem transformar os “trabalhadores do tráfico” em “crentes”, enfraquecendo essas redes. Isso ocorre porque os traficantes, na maioria dos casos, respeitam o afastamento dessas pessoas pela conversão, não oferecendo grande resistência ou até mesmo nenhum tipo de represália. 25 De acordo com o pensamento de muitos, ou da maioria, há uma linha tênue entre o uso de drogas e o crime, o que por diversas vezes faz com que esses indivíduos sejam vistos como possíveis “transgressores da ordem”, pessoas incapazes de se relacionar pacificamente e com tendência para ações criminosas. Embora certos componentes socioculturais influenciem a vida de cada indivíduo, não se pode negar que a esfera do Direito deva ser levada em consideração. No início do século XX, no Brasil, o Dr. Afrânio Peixoto, então membro da Academia Brasileira de Letras, e Diretor da Escola Normal do Rio de Janeiro, se fazendo valer da reforma constitucional de 1925-26, tenta implementar projetos de regulamentação ou proibição do uso de álcool no país, inspirando-se no modelo norte-americano – embora este em decorrência dessas leis proibicionistas tenham desencadeado o crime organizado, por meio do tráfico de bebidas alcoólicas, transformando as cidades de Nova Iorque e Chicago em espaços de extrema violência – a chamada de Lei Seca nos Estados Unidos, vigente entre os anos de 1919 e 1933. Porém, o Dr. Afrânio Peixoto conseguiu apenas a regulamentação da venda de bebidas alcoólicas e não sua proibição (MOTA, 2009, p. 67). Mas, o que poucos sabem é que existem interesses econômicos por trás da proibição de determinadas substâncias psicoativas. A Convenção Única de Viena (ONU), de 1961, permitiu aos Estados industrializados (EUA e países da Europa Ocidental) a exigência de maior rigidez no controle de opiáceos, maconha e cocaína, substâncias produzidas por países menos desenvolvidos e menor regulação para as substâncias sintéticas produzidas por estas grandes potências econômicas. Desde então, a política proibicionista mundial liderada pelos EUA, busca sempre aumentar seu campo de influência e ação, permitindo a indústria farmacêutica maiores lucros com a substituição de drogas ilícitas por drogas lícitas (RODRIGUES, 2003, p. 37 apud MOTA). No Brasil, os usuários de drogas são marginalizados e excluídos historicamente. Esta situação se conserva por meio da má prestação de serviços como: falta de ensino de qualidade, espaços de lazer, poucas oportunidades de empregos e insuficiência de políticas públicas de enfrentamento e combate as drogas. Assim, esses indivíduos ficam expostos a situações de riscos, ao terem sempre por perto traficantes que disponibilizam seus pontos de venda em bairros pobres. Mas, também não significa que esses pontos de venda de drogas ocorram 26 apenas nesses bairros pobres e que seus moradores por sua vez estejam destinados à criminalidade e as drogas, mesmo porque, de acordo com pesquisa realizada por Alba Zaluar (2004, p. 71): Nos bairros carentes do Rio de Janeiro e de São Paulo, constatou-se que o percentual de pessoas pobres que se engajam na carreira criminosa corresponde a apenas 1% da população das áreas mais carentes. A dependência química é caracterizada por um conjunto de sinais e sintomas inseridos em um contexto social, que a designam como um fenômeno complexo, não podendo sucumbir ao simples pensamento ou denominação de uso de uma determinada substância. Para uma melhor compreensão da dependência química, é necessário conhecer suas características, a fim de obter o maior número de informações sobre os sintomas e o comportamento “padrão” de um dependente. Para isto, de acordo com a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) é preciso que esta pessoa apresente certos tipos de comportamentos como: uma compulsão para usar a substância desenvolvendo um desejo intenso e persistente de consumir a substância; grande dificuldade de controlar o consumo aliada a dificuldades de controlar quanto ao inicio, término e níveis de consumo, o uso em grandes quantidades por período maior que o intencionado; com o uso constante e abusivo ocorre a evidência de tolerância que é quando há a necessidade de quantidades aumentadas de substância para atingir intoxicação ou o efeito desejado. Outra característica é o estado de abstinência, quando a mesma substância (ou outra parecida) é usada para aliviar ou evitar os sintomas indesejáveis devidos a diminuição ou interrupção do uso da substância, que por sua vez pode despontar para o estreitamento do repertório, ou seja, o abandono progressivo dos prazeres ou interesses alternativos em favor do uso da substância, aumentando a quantidade de tempo necessário para obter ou usar a substância ou para se recuperar de seus efeitos. Um dado importante a ser ressaltado é quando há também a persistência do uso da substância, mesmo havendo o conhecimento e a evidência clara das consequências nocivas dessas substâncias psicoativas. 27 É necessário também levar em consideração quais as características relacionadas aos aspectos psíquicos, biológicos e sociais, a fim de buscar evitar reproduzir estigmas e preconceitos já relacionados às pessoas que fazem uso de drogas. Duas das mais importantes e influentes instituições médicas do mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Americana de Psiquiatria (APA) afirmam em seus estudos que a dependência química é uma doença e tem lugar como classificação médica “Classificação Internacional das Doenças” (CID 10). No que diz respeito a tratamentos, é interessante observar que o “sucesso” ou “fracasso” deve-se a vários fatores e estes, por sua vez, tornam-se improváveis, como o autor mesmo fala: Afinal, como sugerir um tratamento médico ou psicológico para um problema visto como eminentemente moral? (...) Neste sentido, os terapeutas que trabalham nesta área estão cientes de que nunca poderão exercer seu ofício com “eficácia”. Eles apenas se esforçam para administrar precariamente uma zona cinzenta repleta de sentimentos, afetos, crises e emoções que se apresentam permanentemente fora de controle. (MOTA, 2009, p.28-29). Pode-se, assim, constatar que a visão da sociedade sobre esses indivíduos reforça suas fragilidades e contradições, haja vista sua busca por tratamentos, mecanismos de combates e prevenções, ao mesmo tempo em que afastam essas pessoas dos seus direitos enquanto cidadãos. Conforme Mota, (2009) um dependente químico é um indivíduo que, em virtude de sua dependência de álcool e outras drogas prejudica sua interação social e, por não conseguir utilizar de forma moderada essas substâncias, compromete sua vida como um todo. Sinceramente, não creio que exista nada de errado com as drogas em si, tampouco com as pessoas que fazem uso de algumas delas de forma moderada, sem comprometer sua vida social. O maior problema é que ninguém sabe ao certo quem conseguirá usá-las com inteligência e ainda, caso os problemas surjam, se serão capazes de parar (MOTA, 2009, p.1213). 28 Assim sendo, as dificuldades enfrentadas por esses usuários de drogas lícitas ou ilícitas é grande, já que sua luta maior além de ser com eles mesmos é também com boa parte da sociedade que os julga e discrimina, através de seus preconceitos e desconfianças. Há também uma ambiguidade em torno dos dependentes químicos, ao se pensar que misturam prazer e dor. Prazer ao encontrar “refúgio”, “fuga” no uso dessas substâncias, uma maneira de escapar ou até de se desvincular da realidade mesmo que momentaneamente. Isso se levarmos em conta os aspectos sociais contemporâneos como individualismo, competitividade etc. E dor, quando, após passar o efeito, deparam-se com frustrações, sensação de impotência e fragilidade, que muitas vezes pode motivá-los a fazer uso logo em seguida. O uso abusivo de drogas traz conseqüências desastrosas para o dependente. Algumas dessas conseqüências são conhecidas por comorbidades, que associadas ao uso de substâncias psicoativas trazem alterações no funcionamento mental. Aumentando ou agravando o risco de surgimento de transtornos mentais. Existem casos, por exemplo, em que é difícil identificar o que é causa e o que é consequência. São chamados de comorbidades os quadros que ocorrem ao mesmo tempo, co-ocorrendo de duas ou mais enfermidades ou transtornos, em uma mesma pessoa, em um determinado espaço de tempo, podendo gerar maior vulnerabilidade e agressividade, o que dificulta o tratamento ou a adesão ao tratamento, quando disponibilizado. Estes dependentes químicos, normalmente, são estigmatizados e estereotipados, ao serem definidas marcas físicas ou sociais, de conotação negativa, levando-os a serem excluídos em algumas situações sociais. Estes rótulos e estereótipos podem trazer conseqüências diversas e inclusive contribuir para o agravamento da situação. Nem tudo está fatalmente perdido ou divinamente resolvido, mas existem casos em que, mesmo com todas as dificuldades consegue-se obter a reabilitação social, no entanto, para isso, é necessária uma compreensão maior do “problema” a ser enfrentado, pois a dependência pode ser biológica, psicológica, química e pode ser agravada devido ao contexto social em que aquele indivíduo está inserido. 29 Existem clínicas de recuperação, comunidades terapêuticas etc., mas devido ao sistema capitalista vigente, constata-se a realidade em muitas instituições de ‘se fazer mais com menos’, ou seja: atender um número “x” de indivíduos com o menor custo possível, e isto torna o processo de reabilitação não somente lento, mas muitas vezes ineficiente. Em 23 de agosto de 2006, foi sancionada a Lei Nº 11.343, que institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas – SISNAD, que prescreve: Art. 1º medida de prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas de repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas e define crimes. Parágrafo único. Para fins desta Lei, consideram-se com drogas as substâncias ou os produtos capazes de causar dependência, assim especificados em lei ou relacionados em listas atualizadas periodicamente pelo Poder Executivo e a União. De acordo com os princípios e objetivos do SISNAD, serão levados em consideração o respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana, principalmente quanto à sua autonomia e à sua liberdade; E quanto à reinserção social dos usuários e dependentes de drogas, serão adotadas estratégias preventivas diferenciadas e adequadas às especificidades socioculturais das camadas da população etc. O trabalho de combate a dependência química deve ser pensado, assim, a partir de algumas estratégias de prevenção, por serem capazes de oferecer à sociedade a oportunidade de evitar o surgimento de problemas de saúde. Em Fortaleza, as instituições que lidam com a prevenção têm como estratégias a realização de palestras, oficinas, visitas, atividades artísticas e desportivas. Porém, existe uma carência de profissionais capacitados, o que impede o aumento do acompanhamento dos usuários de drogas, mesmo sendo acompanhados por programas governamentais. No Estado do Ceará, atualmente, existem algumas instituições públicas como os Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (CAPS – AD), auxiliados pelos CAPS I e II, mas o único serviço de referência do Estado é o Hospital de Saúde Mental de Messejana, por possuir uma unidade de 30 desintoxicação e acompanhamento ambulatorial, que por motivos citados anteriormente não consegue atender às demandas existentes. Os CAPS – AD oferecem, em regime ambulatorial, cuidados especializados através de equipes com profissionais de formações variadas, disponibilizando poucos leitos de observação para o cuidado com os usuários, em síndrome de abstinência, mas que não precisem ser hospitalizados. Atualmente existe o ‘Plano Fortaleza de Prevenção e Atenção Integral aos Usuários de Crack e Outras Drogas: Liberdade é Viver sem Crack’. Este plano é realizado pela Prefeitura do Município de Fortaleza e faz parte das atividades do atual governo e busca promover a reflexão sobre as temáticas referentes ao uso do crack e outras drogas, oferecendo embasamento teórico-prático para a elaboração metodológica para prevenção, promoção da saúde e qualidade de vida. Intenciona promover inclusão e cidadania para pessoas que estão em situação de vulnerabilidade social, com destaque para crianças e adolescentes, juventude, mulheres, idosos e população em situação de rua, público este que utilizo como sujeito e fonte de minha pesquisa. No capítulo a seguir será discorrido sobre outra característica dessa população que cresce cada vez mais, assumindo grande visibilidade social, não somente por causa dos seus perfis sociais, mas também por meio de suas atitudes, comportamentos e mobilização social. 31 II POPULAÇÃO EM SITUAÇÃO DE RUA 2.1 - População em Situação de Rua: uma expressão da questão social no Brasil. Nas sociedades capitalistas, existe um fenômeno social conhecido como população em situação de rua, que se constitui de múltiplas determinações, com variações históricas que compõem uma camada cada vez maior da sociedade. Sua origem vem das cidades pré-industriais da Europa, a partir de então foram se alastrando por vários outros lugares. Com o desenvolvimento do capitalismo passaram a figurar nos espaços urbanos, devido à apropriação e privatização de terras até então ocupadas também por essas pessoas. Por não deterem outros recursos para garantir sua sobrevivência, começam a vender de forma barata sua mão de obra (SILVA, 2009). O capitalismo é um sistema cíclico de crises e expansão, essas alterações acontecem de acordo com o momento em que a economia capitalista se encontra, pois quando está em crise há o aumento do número da população em situação de rua, assim como o agravamento da pobreza e da questão social. Quando o sistema vigente está em expansão econômica, há a retração desta população por ter à sua disposição muitas vezes políticas públicas e outros mecanismos de auxílio. Para Marx (apud SILVA 2009, p 95). O roubo dos bens da Igreja, a alienação fraudulenta dos domínios do Estado, a ladroeira das terras comuns e a transformação da propriedade feudal e do clã em propriedade moderna, levada a cabo com terrorismo implacável, figuram entre os métodos idílicos da acumulação primitiva. Conquistaram o campo para a agricultura capitalista, incorporaram as terras ao capital e proporcionaram à indústria das cidades a oferta necessária de proletários sem direitos. É certo que este fenômeno não surgiu nas sociedades capitalistas, no entanto, sua intensificação se deve a este sistema, pois é cada vez maior a parcela da classe trabalhadora que vai sendo substituída por máquinas, desta maneira postos de trabalho vão consequentemente diminuindo ou até mesmo deixando de existir. Além desse, outros pontos tornam-se relevantes para formação desta 32 população, como por exemplo: fatores estruturais (ausência de moradia, mudanças econômicas e institucionais de forte impacto social), fatores biográficos, ligados à história de vida de cada indivíduo como: rompimento dos laços familiares e sociais, doenças mentais, consumo frequente de álcool e outras drogas, perda de todos os parentes, roubo de todos os bens e até mesmo fatos da natureza como: inundações ou incêndios. Atualmente se tem evidenciado mais a questão dos rompimentos dos laços familiares e sociais, a diminuição de trabalhos regulares, bem como a insuficiência de renda capaz de possibilitar uma moradia digna com o mínimo de conforto que qualquer ser humano precisa para viver como um cidadão, e também a relação do uso abusivo de álcool e outras drogas. A população em situação de rua é decorrente da desigualdade social e esta desigualdade provém muitas vezes da má distribuição de renda, que se mostra inerente a todo tipo de sociedade, seja ela tradicional ou contemporânea, hierárquica ou democrática, feudal ou capitalista (embora seu agravamento se dê no sistema vigente - capitalista). Um dos processos pelo qual passa a população em situação de rua é o processo da exclusão social, que se expressa não somente pela falta de trabalho, pois se faz necessário verificar também como estão configurados os vínculos sociais, que para Escorel, (apud BURSZTYN et al, 2003, p. 213 – 214). No Brasil, esses vínculos podem ser até mesmo mais relevantes para a compreensão social. Isso porque seu estudo mostrou que os vínculos que os moradores de rua estabelecem com o mundo do trabalho sempre foram frágeis. Assim, no Brasil, a desvinculação da esfera familiar significaria a perda da última proteção possível. No Brasil, onde contingentes populacionais numerosos encontraram, ao longo do período republicano, grandes obstáculos de inserção na esfera produtiva, nunca alcançaram um estatuto de cidadania plena e a estrutura familiar se manteve como principal suporte das relações sociais, limitar o conceito de exclusão social à esfera do trabalho é, do meu ponto de vista, reduzir as possibilidades de compreensão do fenômeno. As estratégias de sobrevivência utilizadas por esta parcela da população diferem de caso para caso. Alguns pedem esmolas nas portas de igrejas, em praças ou em supermercados. Outros, por sua vez trabalham em atividades informais, como: flanelinhas, guardadores de carros ou até mesmo na coleta de materiais recicláveis, dentre outras funções. Os catadores de lixo buscam garantir seu 33 sustento, bem como do seu vício quando o têm algumas vezes o vício do cigarro, outras do álcool e outras drogas. De acordo com pesquisa feita pela Política Nacional para Inclusão Social da População em Situação de Rua (2008), é predominante a presença masculina na população em situação de rua, seja por motivos de rompimento dos laços familiares em decorrência do uso de álcool e outras drogas que interferem diretamente na unidade familiar, causando conflitos violentos ou não, que podem causar um desequilíbrio no orçamento doméstico devido esse consumo compulsivo de drogas. Este conjunto de situações de fragilização e até ruptura de vínculos familiares, ocorrem com maior incidência nas classes trabalhadoras pobres. O fenômeno população em situação de rua tem sua origem e sua continuidade referente à acumulação do capital, sendo uma caracterização da expressão radical da questão social. Esses indivíduos são deixados de lado pelo capitalismo, que em busca de garantir seus lucros, criam exércitos de reservas, exércitos de sobrantes, ou seja, pessoas que mesmo estando em idade ativa, com condições para o exercício de atividades laborativas, são descartadas e marginalizadas por este sistema excludente. No Brasil contemporâneo, a população em situação de rua apresenta inúmeras variáveis em relação à sua composição, sendo predominante a presença de homens, entre 25 e 55 anos de idade e com nível de escolaridade cada vez maior (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas – Fipe, 2000). Para Iamamoto, a questão social é uma expressão da sociedade capitalista que intensifica cada vez mais as divergências entre as classes sociais existentes A gênese da questão social encontra-se enraizada na contradição fundamental que demarca esta sociedade, assumindo roupagem distinta em cada época [...]; assim, dar conta da questão social, hoje, é decifrar as desigualdades sociais – classes- em seus recortes de gênero, raça, etnia, religião, nacionalidade, meio ambiente etc. Mas decifrar, também, as formas de resistência e rebeldia com que são vivenciadas pelos sujeitos sociais (IAMAMOTO,2004:114 apud SILVA) Nos últimos anos, se tem notado estudos e debates mais aprofundados no que se refere ao termo “exclusão social” de que são vítimas essas pessoas em 34 questão (população em situação de rua), que se caracteriza por uma nova categoria social mesmo não sendo uma nova situação, pois esteve presente em sociedades antigas que se valiam da exploração e escravidão. Para Escorel (1999, p. 23) “exclusão social” pode designar toda situação ou condição social de carência, dificuldade de acesso, segregação, discriminação, vulnerabilidade e precariedade em qualquer âmbito. Isto significa dizer que a População em Situação de Rua realmente é excluída socialmente por inúmeros fatores. No mundo globalizado em que vivemos, devido à constante e crescente exploração do homem pelo homem e a má distribuição de renda, cada vez mais o ser humano se torna um ser “descartável”. Com o crescimento do êxodo rural, as metrópoles não conseguem empregar todas essas pessoas, o Brasil então em tempos de globalização entrou em crise, com um lento processo de transformações sociais e fragilizações nos contratos de trabalho. Assim, esses excluídos dos empregos formais produzem e reproduzem estratégias que possam garantir ou possibilitar sua sobrevivência. Com a precarização do trabalho formal e a busca pela sobrevivência, há o crescimento do trabalho informal: as ruas ganham novos trabalhadores, criando novos sistemas de comercio. São camelôs, artistas de rua, pedintes, mendigos e assim aparece a população de rua, dormindo embaixo de marquises e viadutos, perto de fontes de água pública, que vêem nos grandes centros urbanos a possibilidade de manterem vivas. Constantemente essas pessoas são responsabilizadas pela situação em que se encontram, sendo vítimas de discriminação, massacres e até mesmo perseguições policiais. Embora tenha havido um grande empenho e discussão por setores organizados em torno dos interesses dessa população nos últimos anos, articulados também a outros sujeitos sociais para um melhor e maior acesso às políticas sociais, quando se busca conhecer as estratégias do Estado para o enfrentamento desse fenômeno, nas esferas dos três poderes do governo, são encontradas apenas ou primordialmente políticas sociais seletivas e residuais como albergues e abrigos (SILVA, 2009, p. 120). Iamamoto destaca itens de extrema importância para o enfrentamento da então “questão social”, que permitam ou facilitem o acesso a melhores condições de vida e uma perspectiva de cidadania 35 O chamamento à responsabilidade do Estado, a “prevalência da coletividade dos trabalhadores” e a “afirmação de políticas sociais de caráter universais, voltadas, aos interesses das grandes maiorias” (IAMAMOTO, apud SILVA, 2009, p 114). As condições postas e impostas pelo regime capitalista ocasionam o fenômeno em questão, que aprofundadas pelas desigualdades sociais na contemporaneidade, de acordo com a reestruturação produtiva elevam os índices de pobreza e vulnerabilidade da classe trabalhadora, expandindo a classe população em situação de rua como parte integrante da pobreza e da superpopulação relativa, desnecessária ao capitalismo, embora este mesmo, se faça valer dessa massa sobrante como forma de “controlar” os níveis de salários, tendo em vista que a demanda normalmente seja superior a oferta de empregos, fragilizando as condições de trabalho. 2.2 - Origem e características atuais da população que vive em situação de rua Como dito antes, os grandes centros urbanos concentram um maior número de pessoas em situação de rua, primeiramente por se tratar de um lugar com maiores possibilidades de garantir algum tipo de renda e assim, sua sobrevivência. A circulação do capital acontece com maior fluxo nestes grandes centros urbanos, assim, as alternativas de trabalho ampliam-se favorecendo alternativas - mesmo que precárias – de sustento. Estes centros também disponibilizam geração de trabalho e renda, por meio de grupos organizados, cooperativas, associações e outras organizações não governamentais. Boa parte da população em situação de rua trabalha com materiais recicláveis que diariamente são jogados fora, como lixo urbano, sendo reaproveitado pelos catadores possibilitando mesmo que maneira insalubre e informal a manutenção de algumas necessidades básicas, como alimentação. Esses profissionais da reciclagem se concentram em áreas com grandes atividades econômicas comerciais, bancarias ou até mesmo atividades religiosas e de lazer. Uma pesquisa financiada pelo Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome – MDS e realizada pelo Movimento Nacional de Catadores de Materiais 36 Recicláveis, sobre a análise do custo de geração de postos de trabalho na economia urbana, indicou que no ano de 2005, ano de realização da pesquisa, existiam 244 unidades básicas de cooperativas de catadores, distribuídas em 199 municípios, em 22 estados, contando com a colaboração de cerca de 35.000 cooperados5. Parte dessa população também é encontrada próximo, ou em frente a supermercados, lojas, bancos, igrejas, praias, centros culturais, por se tratarem de locais que atraem muita gente e isto favorece a obtenção de doações e rendimentos por meio de serviços de engraxates, guardarem carros, flanelinhas etc. E nestes mesmos centros urbanos esta população consegue de alguma maneira proporcionar acesso a algum tipo de renda, além de vincular-se a outras estratégias que facilite o atendimento às suas necessidades básicas. Um bom exemplo são os albergues, abrigos, instituições públicas, filantrópicas etc., que fornecem alimentação, abrigo, higiene pessoal, saúde, entre outros serviços. Outra estratégia utilizada por esta população é recorrer aos locais chamados de bocas de rango, locais de distribuição gratuita de comida, feita quase que exclusivamente em espaços públicos como: praças, viadutos e parques que se encontram no centro da cidade. Algumas prefeituras oferecem por meio das Casas de Convivência, serviços de banho, barba e lavagem de roupas. No entanto, são utilizados também para estes fins, bicas, chafarizes, represas ou postos de gasolina. Tudo isto entre outras coisas caracterizam os centros urbanos como os espaços preferidos para estas pessoas. Outro aspecto importante a se ressaltar é o preconceito sofrido por estas pessoas. Valores atribuídos a eles pela sociedade que normalmente os caracterizam como: mendigos, bandidos, preguiçosos, drogados, doentes mentais, dentre tantas outras denominações pejorativas. Estas pessoas comumente são responsabilizadas pela situação em que se encontram, por suas dificuldades e falhas, chegando a causar medo e nojo. Embora tenham muitas características em comum, se configuram em uma população heterogênea, por possuírem origens, interesses, vinculações sociais, experiências e posições socioeconômicas diferentes. 5 Para maiores informações ver Brasil, 2006, p. 09, 120 e 131. 37 Marcel Bursztyn (2003), ao estudar este fenômeno em Brasília, consegue identificar e criar uma tipologia, na qual são localizados 12 grupos distintos, sendo estes: A população de rua de Brasília pode ser tipificada segundo diferentes categorias. São grupos característicos, que podem ser encontrados em outras cidades, ainda que em proporções diferenciadas. Cada uma das categorias analisadas tem traços bem particulares, diferenciando-se pela sua relação com o trabalho, estratégias de subsistência, vinculações sociais, expectativas e visões de mundo. As pesquisas permitem [...] a diferenciação de 12 grupos: catadores de lixo seco [...], trabalhadores de rua [...], albergados [...], catadores nômades [...], sem-lixo e sem-teto, mais ou menos sedentários [...], sem-lixo e sem-teto errantes [...], catadores complementares [...], andarilhos [...], pivetes [...], foras da lei [...], hippies [...], pedintes de natal (BURSZTYN, apud SILVA 2009, p 123). Estar em situação de rua pode ter pelo menos dois sentidos, no qual um deles seria o de se constituir num abrigo para aqueles que sem recursos, dormem eventualmente sob viadutos, marquises ou praças etc., e aqueles que têm seus vínculos estabelecidos nas ruas, onde encontra naquele ambiente seu habitat. Desta maneira o que caracteriza essas pessoas seria a utilização desses espaços por meio das estratégias de sobrevivência. Outra constatação se refere ao tempo de moradia nas ruas, pois quanto mais tempo nas ruas, mais estável se torna sua situação. Isto significa dizer que, seus laços ficam cada vez mais fortes e estabelecidos, ocorrendo uma ruptura com os vínculos sociais considerados normais, ou aceitáveis. Isto pode dificultar sua reinserção social, quando estes indivíduos devido sua longa permanência nas ruas tem uma maior dificuldade ao não conseguirem se readequar aos padrões sociais estabelecidos. Em decorrência disso, existe também uma diferença entre o que se chama de “moradores de rua” e “população em situação de rua”. A primeira designa as pessoas que estão estabelecidas de maneira mais permanente nos espaços urbanos, de onde tiram seu sustendo do espaço público urbano e assim, garantem sua sobrevivência. A segunda caracteriza as pessoas que estão nas ruas de maneira mais circunstancial e temporária, ou seja, que estão em “situação de rua”, situação esta, considerada provisória e mais próximo ou possível de se reverter. 38 Os espaços ocupados por esta parcela da população são de variados tipos, sendo situados sob pontes, viadutos, marquises, em frente de prédios privados ou públicos, em frente de comércios, praças, calçadas, praias, embarcações, estações de trem, rodoviárias, as margens de rodovias, dentro de galerias subterrâneas, construções abandonadas ou qualquer outro local que possibilite certa proteção e abrigo do frio e da violência, situações regularmente enfrentadas por esta população. Esses indivíduos normalmente estão nesta situação e sob estas condições, em decorrência dos constantes processos de exclusão social, que diz respeito as mais diversificadas vertentes da vida, fazendo com que essas pessoas ao longo da vida percam suas referências institucionais como a escola, o trabalho, a família, o estado. Esta população está presente no contexto social brasileiro desde o início do processo de urbanização, ocorrido em meados do século XIX. No entanto, passou a ser “vista” sob um ângulo diferenciado (como parcela possuidora de direitos) pelo Estado a partir da década de 1990, ao se iniciar uma série de estudos sobre sua existência e suas características, por se tornar uma das mais gritantes expressões da pobreza nos grandes centros urbanos, uma expressão da questão social. A desigualdade social e a pobreza tem sido duas das características predominantes no desenvolvimento histórico do Brasil, permitindo uma análise sobre as condições que fundaram a sociedade brasileira. De acordo com Escorel (1999, p 24) Os âmbitos regionais e rurais da desigualdade social nunca foram superados e o desenvolvimento industrial concentrador não conseguiu relegá-la a um passado (...) ao longo das últimas décadas sempre foram as camadas mais pobres as que viram seu futuro de renda e consumo cada vez mais longínquo. A situação agravou-se enormemente a partir das crises econômicas dos anos de 1970 e 80 e, na década de 90, o Brasil foi classificado por organismos das Nações Unidas como um dos países de maior desigualdade social. A autora também cita em seu livro “Vidas ao Léu – trajetórias de exclusão social, as condições em que vivem essas pessoas, esses indivíduos, são resultados da fragilização da sua existência por não participarem da esfera pública como se espera da maioria dos cidadãos, e estes, (os excluídos) por sua vez vivem nas sombras, as margens da sociedade. 39 Com isso, deu-se inicio à inclusão da “população em situação de rua” como público alvo da Política Nacional de Assistência Social – PNAS, com a finalidade de promover ações integradas a esta população, objetivando garantir atendimento especializado que possibilite favorecer esta camada da população brasileira. A PNAS – 2004 foi criada a partir da decisão do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome – MDS e por intermédio da Secretaria Nacional de Assistência Social – SNAS e do Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS, demonstrando a intenção de construir coletivamente o redesenho desta política, na perspectiva de implementação do Sistema Único de Assistência Social – SUAS. E de acordo com a própria PNAS, esta iniciativa, traduz o cumprimento das deliberações da IV Conferência Nacional de Assistência Social, realizada em Brasília, em dezembro de 2003, e denota o compromisso do MDS/SNAS e do CNAS em materializar as diretrizes da Lei Orgânica da Assistência Social – LOAS. (PNAS, 2004). No Brasil, este tipo de proteção social como política da Assistência Social é uma situação nova, uma realidade recente, isto significa dizer não ter de imediato uma análise formulada e já elaborada, mas que permite dispor ou pensar nas diversas dificuldades vividas por brasileiros que tem seus direitos negados ou subtraídos. 2.3 - População em situação de rua no município de Fortaleza A população em situação de rua no município de Fortaleza, não muito diferente das de outros estados brasileiros, sofre com a discriminação, políticas públicas seletivas e residuais que pouco impacto tem na vida dessas pessoas que tiram seu sustento das ruas. Atualmente não existe um número exato de quantas pessoas vivem em situação de rua na capital cearense, talvez em decorrência da pouca quantidade de pesquisas censitárias para essa população, ou então porque as instituições atualmente existentes neste Município não consigam atender a demanda. Seu surgimento na capital cearense remonta do século XIX no período das grandes secas, que faziam com que os sertanejos saíssem de suas cidades em busca de melhores condições de vida. Durante muitos anos, boa parte dessas pessoas que se refugiavam das secas na capital ou em outras cidades que 40 ofereciam melhores condições de vida, logo após o período de estiagem estas pessoas retornavam ao seu lugar de origem, no entanto, com o passar dos tempos e com os sercamentos de grandes fazendas para o cultivo do algodão, essas pessoas já não mais encontrando possibilidades de reorganizar suas vidas, instalavam-se como podiam. Algumas famílias que conseguiam chegar à capital procuravam se estabelecer trabalhando nas construções de ruas, nas vias férreas. Outras ficavam pelo caminho ao morrerem de fome ou até mesmo trabalhando na construção de açudes e outros serviços. Neste período foram criadas políticas que visavam fixar o homem no campo, que nem sempre surtiam um efeito positivo. Na capital cearense, a presença dos primeiros sertanejos refugiados foi registrada durante a seca de 1877/89, quando o município de Fortaleza chega a receber apenas no ano de 1878 mais que o triplo da população residente, somando um total de mais de 160 mil pessoas sendo que desse montante, apenas 40 mil já residiam em Fortaleza. Em diversos pontos da cidade se viam aglomerações de indivíduos erguendo seus casebres de palha e transitando sem rumo nas ruas da cidade que tinha em seus planos, seu constante e permanente aformoseamento. Sem mencionar os milhares de sertanejos que não conseguiam chegar a esta capital ou aos seus destinos de interesse devido às longas caminhadas sob o sol escaldante, das condições já precárias em que se encontravam no decorrer dos períodos de estiagem. Por não terem onde ficar, nem a quem recorrer boa parte dessas pessoas ficavam nas ruas pedindo esmolas, ou até mesmo roubavam os comércios em decorrência da fome e miséria que os rodeavam. Isso por sua vez fazia com que os comerciantes e a classe burguesa exigissem que o governo tomasse providências, não só para os flagelados e refugiados da seca, mas também para “livrar” a “loira desposada do sol” como era conhecida a capital cearense (RIOS, 2001, p. 20). Estas pessoas chegavam a Fortaleza por meio de trens, que vinham sempre abarrotados, chegando ao ponto de serem suspensas as passagens que o Governo liberava para que estes chegassem á capital, ou até mesmo seguiam a pé pelas estradas e caminhos de terra, onde muitos destes perdiam suas vidas, vencidos pelo cansaço e pela fome. Algumas das famílias não conseguiam chegar aos seus destinos, ou quando conseguiam não chegavam completas, deixando do meio do caminho os corpos empoeirados seus entes queridos. 41 A luz irradiada pelo sol durante quase todo o ano, era significado de beleza e deslumbre para alguns, e dor e sofrimento para aqueles que sofriam e fugiam da seca e do sofrimento que lhes trazia o calor do “astro rei” (NEY apud RIOS, 2001, p. 21). Para a historiadora e autora Kênia Rios, de acordo com sua obra intitulada “Campos de Concentração no Ceará – Isolamento e poder na Seca de 1932” a imagem que o sol representava tinha vários significados, podendo ser de beleza ou anuncio de grande sofrimento. Para aqueles que viviam na capital e se beneficiavam com o turismo era sinônimo de lucros, mas para os sertanejos, essa imagem era bem diferente Contudo, para o sertanejo, a imagem do sol pode significar o anúncio da morte. Nos anos de seca, o sol do Sertão simboliza tristeza e dor. O sol dos poetas bucólicos – que põe Fortaleza em mística harmonia com a natureza e o sol dos empresários e jornalistas associados à valorização do turismo que colocava Fortaleza em sintonia com o progresso – não deixam espaço para o sol do flagelo. Na iluminada Fortaleza, o raio do sol mortificador – traduzido no corpo sofrido do retirante – não é bem-vindo (RIOS, 2001, p.22). As notícias sobre a seca, os números de flagelados e a situação em que se encontravam sempre foram amplamente divulgadas pelos jornais locais, bem como a então situação da capital que não possuía estrutura para receber aqueles indivíduos, enfatizando em seus noticiários o que ocorria nas ruas de Fortaleza. Os jornais O Povo, O Nordeste e Correio do Ceará veiculavam informações sobre os migrantes e sua situação na capital cearense. Numerosas famílias a mendigar de porta em porta e num estado de inspirar compaixão. Essa gente não tem o abrigo de tecto, não têm assistência e vive a toa nas artérias da cidade, abandonada a sua própria sorte. Julgaríamos necessário que a interventoria estudasse um meio de localizar essas famílias e dar-lhes assistência (O Nordeste em 20 de fevereiro de 1932). Estas matérias jornalísticas mostravam quase sempre um discurso pautado na preocupação com esses infelizes, solicitando do governo medidas que atendessem a esta camada da população que ameaçava o desenvolvimento urbano de Fortaleza, mas que ao ler com um pouco mais de atenção se subentendia uma preocupação da classe dominante e dos comerciantes ao se deflagrarem com o 42 constante medo de ações mais enérgicas dessas pessoas que vagavam pelas ruas em busca saciar sua fome, podendo a qualquer momento invadirem os comércios locais. Vários períodos de secas ficaram registrados por se configurarem verdadeiras catástrofes na história do Ceará, sendo seus principais períodos, as secas de 1887 que perdurou até o ano de 1889; a seca de 1915, que por sua vez foi tema de livros como: O Quinze – da cearense Raquel de Queiroz; e a seca de 1932 que como citado anteriormente foi utilizado como palco para o livro de Kênia Rios sobre os Campos de Concentração. Estes campos de concentração por sua vez foram criados pelo Governo da época como forma de controlar a vinda dos sertanejos fugitivos das secas, na tentativa de impedir que esses indivíduos chegassem à capital. Numa atitude higienista do governo, são criados os primeiros Campos de Concentração durante a seca de 1915, que nesse período, as linhas ferroviárias já se estendiam até o Sertão, no entanto boa parte da população concentrada foi exterminada pela varíola. O projeto dos campos tinha em certo sentido a intenção de mostrar um alto grau de civilidade e modernidade, pois temiam deixar os retirantes soltos, dispersos, o que dificultaria qualquer tipo de ação ou assistência para com estes refugiados. Para attender com eficiencia os serviços de socorro aos flagellados, e evitar o deslocamento deveras temível para a saúde e a traquilidade publicas das populações sertanejas que emigravam para diversos pontos, principalmente para a capital, a interventoria tomou urgentes providências... Tratouo governo de concentrar os flagellados em pontos diversos, a fim de socorrelos com efficiencia e no tempo opportuno. Foram criadas, sob a fiscalização do Departamento das Secas, sete concentrações: Burity, no Município do Crato; Quixeramobim, no Município do mesmo nome; Patu, no Município de Senador Pompeu; Cariús, no Município de São Mateus; Ipú, no município de mesmo nome; Urubu e Otávio Bonfim, no Município de Fortaleza (Relatório Oficial, apud RIOS, 2001, p. 46). Essas concentrações mostravam-se como projetos baseados em um controle humanitário, apoiando suas ações no controle e na disciplina que representava um benefício para os sertanejos famintos da seca. Com amplo apoio da população e de membros da alta sociedade fortalezense, reconhecendo que as ruas da cidade estavam mais tranquilas, pois os retirantes estavam naquele 43 momento em local seguro, alimentados, higienizados e tratados com relativo carinho e conforto pelo governo. Homens, mulheres e crianças eram amontoados nesses locais insalubres, de onde uma vez ali dentro não podiam mais sair. Chamados de curral do governo, esses locais serviam como verdadeiros depósitos humanos funcionavam como prisões, tudo isso construído com o intuito de manter os flagelados longe das ruas da capital e contribuindo para que os turistas tivessem uma boa impressão das ações do governo para com os refugiados, turismo esse que naquela época já se expandia. Os campos de concentração tiveram seu auge durante a seca de 1932, quando foram criados os sete campos mencionados anteriormente, sendo dois destes em Fortaleza. Mesmo prendendo essas pessoas, isso não os impedia de se rebelarem ou lutarem contra esse tipo sistema de isolamento e repressão. E assim como nos dias atuais, muitas pessoas se beneficiam das secas, dando continuidade a conhecida “Indústria da Seca”. A história foi mudando, embora ainda hoje se tenha noticia de pessoas, ou famílias inteiras buscando fugir de situações adversas que estes períodos de estiagem promovem, se “refugiam” na capital ou partem para outros estados, em busca de melhores condições de vida e que quando aqui chegam se deparam com uma realidade tão cruel quanto a que viviam. Atualmente, a população em situação de rua que vive neste município provém de várias cidades do interior, de outros estados e também da própria capital, no caso destes últimos, normalmente são pessoas que tem seus laços familiares fragilizados ou rompidos, pessoas que já vivem há bastante tempo nas e das ruas, pessoas institucionalizadas, usuários de álcool e outras drogas, entre outros. Quando se fala em viver nas ruas, se fala das pessoas que por meio de suas estratégias de sobrevivência, criam nas próprias ruas laços afetivos, vínculos com o que o mundo que os cercam, ou até mesmo ao contrário disso, se fecham para o mundo, para outras possibilidades ao terem sua autoestima dilacerada pelas dificuldades e pela exclusão social em que se encontram. E vivem das ruas quando se utilizam das ruas e logradouros públicos para garantir seu sustendo, fazendo bicos como pintores, marceneiros, flanelinhas, guardadores de carros, pedintes etc. 44 No ano de 2008, há a criação da Política Nacional par Inclusão Social da População em Situação de Rua, como forma de orientar a construção e execução de políticas públicas voltadas a este seguimento da sociedade, historicamente à margem das prioridades dos poderes públicos. Esta Política torna-se então fruto das reflexões e debates do Grupo de Trabalho Interministerial, composta pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Ministério das Cidades, Ministério da Educação, Ministério da Cultura, Ministério da Saúde, Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério da Justiça, Secretaria Especial de Direitos Humanos e Defensoria pública da União, além da fundamental participação de representantes do Movimento Nacional de População de Rua (MNPR), da Pastoral do Povo de Rua e do Colegiado Nacional dos Gestores Municipais da Assistência Social (CONGEMAS) representando a sociedade civil organizada (Política Nacional de Inclusão Social para População em Situação de Rua, 2008). Para esta população, existem políticas públicas de apoio ofertadas pela Prefeitura, como o Espaço de Acolhimento Noturno – EAN, que disponibiliza abrigamento, alimentação, lavagem de roupas, encaminhamentos para postos de saúde quando necessário, encaminhamentos para retirada de documentos, entre outros serviços que possibilitam a reorganização dessas pessoas. Este serviço é mantido pela Secretaria Municipal de Assistência Social – SEMAS, que também disponibiliza para pessoas que vem de outras cidades fazer exames, os serviços da Casa de Passagem, Centro de Referência Especializada para População em Situação de Rua - Centro POP e outras instituições filantrópicas que fornecem serviços gratuitos de alimentação, higiene pessoal, abrigamento dentre outros serviços como: A Comunidade Shalom, Toca de Assis. Existe também o Serviço de Abordagem de Rua que visa sensibilizar estas pessoas em situação de rua para a criação de um novo projeto de vida que possa auxiliá-los para retomadas dos vínculos familiares e assim a reinserção social, a partir dessa abordagem é que é feito o encaminhamento para o equipamento competente. Mas esses serviços são seletivos, mesmo fazendo parte da Política Nacional de Assistência Social, que se coloca como um serviço universal não consegue atender a demanda existente na capital cearense. 45 Outra característica alarmante dessa população é o constante uso de álcool e outras drogas, sendo este um dos motivos que levam essas pessoas a situação de rua (conforme observação). Para este público, existem algumas alternativas (pouco eficientes) de prevenção e combate ao uso dessas substâncias, como por exemplo, o acompanhamento dessas pessoas pelo Centro de Apoio Psicossocial - Álcool e Drogas - CAPS- AD, mas que por se tratar de um tipo de serviço que requer tempo e comprometimento dessa população, este serviço acaba não sendo ineficiente, pois boa parte dessa população trabalha com reciclagem e “não podem deixar de trabalhar” mesmo estando em risco sua saúde física e mental. Algumas dessas pessoas não assumem que fazem uso e nem mesmo que são dependentes químicos, o que dificulta ainda mais a possibilidade de sensibilização para o tratamento. No próximo e último capítulo, há uma apreciação sobre esta parcela da população cearense que vive a mercê das desigualdades sociais e também das dificuldades e relações entre o estado de Dependência Química e População em Situação de Rua na Capital cearense. 46 III PERSPECTIVAS DE VIDA DE UMA POPULAÇÃO DUPLAMENTE EXCLUÍDA E MARGINALIZADA 3.1 – Dependência Química e População em Situação de Rua no Município de Fortaleza Vários são os motivos que levam um indivíduo a estar em situação de rua. Podem acontecer a partir de uma briga entre familiares que moram em um mesmo local, problemas decorrentes de doenças mentais, fragilização e/ ou rompimentos dos laços familiares, desemprego etc., como apresentados nos capítulos anteriores, no entanto, muitos são os casos de pessoas que estão em situação de rua por fazerem uso de substâncias psicoativas. Esses casos são mais comuns do que se imagina. Existem, também, casos em que algumas pessoas passam à situação de rua por causa do uso de substâncias psicoativas e outros casos em que pessoas em situação de rua passam a fazer uso de substâncias psicoativas por estarem nessa situação, potencializando as vulnerabilidades enfrentadas por esses indivíduos. O presente capítulo busca mostrar a relação entre Dependência Química e População em Situação de Rua, bem como suas características, adversidades, dificuldades e perspectivas. Assim, os perfis dessas pessoas serão apresentados a partir do relato de vida de três indivíduos. O perfil socioeconômico dessas pessoas, como citado no capítulo anterior, é bem amplo e heterogêneo, há uma grande variação de dados, como: idade, escolaridade, formação profissional, lugar de origem e perspectivas de vida, bem como de experiências de vida. O que os leva a iniciar o uso de substâncias psicoativas pode variar muito, os motivos podem ser “apenas” curiosidade, por influências ou até mesmo vontade de mostrar que é forte, que pode entrar e sair quando quiser, ou seja, iniciar o uso e não se viciar, não se tornar um dependente químico embora muitos saibam que é uma situação muito mais delicada e complexa do que se possa imaginar. 47 A relação entre dependência química e situação de rua é bastante recorrente, apontando para um fenômeno social visto a olhos nus, que neste caso são caracterizados como por essas pessoas duplamente excluídas socialmente. Essa exclusão, por sua vez, fragiliza as ações de instituições e entidades voltadas para esta população, principalmente no que diz respeito a sua dependência, sendo esta dependência de álcool e/ou outras drogas. Muitas vezes essas pessoas estão apenas em um desses lados, ou seja, estão em situação de rua, mas não fazem uso de substâncias psicoativas ou então, fazem uso de substâncias psicoativas, mas não estão em situação de rua, porém, não deixam de viver as adversidades que estas situações lhes atribuem, sendo discriminadas e rotuladas de vagabundas, preguiçosas e drogadas, sendo estigmatizadas e excluídas socialmente. Como se já não fosse bastante difícil a relação desta parcela da população com o restante da sociedade por suas divergências e dificuldades, sua relação com as políticas sociais mostram outra questão relevante que é o acesso a programas e benefícios da assistência social. Trabalho e assistência assim, mesmo quando reconhecidos como direitos sociais, vivem uma contraditória relação de tensão e atração. Tensão porque aqueles que têm o dever de trabalhar, mesmo quando não conseguem trabalho, precisam da assistência social, mas não têm direito a ela. O trabalho, assim, obsta a assistência social. E atração porque a ausência de um deles impele o indivíduo para o outro, mesmo que não possa, não deva, ou não tenha direito. Em uma sociedade em que o direito à assistência é limitado e restritivo (...) e o trabalho, embora reconhecido como direito, não assegurado a todos, esta relação se torna excludente e provocadora de iniqüidades sociais (BOSCHETTI apud SILVA, 2009, p 185). Essas pessoas normalmente são ignoradas por boa parte da população, sendo destratadas e transformadas em seres invisíveis, ficando a parte dos direitos sociais assegurados pela Constituição. Outro viés das políticas sociais é seu caráter seletivo, caracterizados pela escassez de recursos e burocracia que transformam “exigências ou critérios” para o acesso, em mecanismos de discriminação e distanciamento de acesso aos direitos de todo e qualquer cidadão, já que se pretende um serviço universal. Desta maneira, este duplo preconceito sofrido por esses indivíduos caracterizam umas das formas mais frequentes e comuns de discriminação, o que 48 dificulta a busca por seus direitos no âmbito da saída da situação de rua e/ou o tratamento para dependência química dificultando ou impossibilitando sua reinserção social. Por se configurarem um grupo de risco devido sua vulnerabilidade social, a partir do ‘Plano Fortaleza de Prevenção e Atenção Integral aos Usuários de Crack e Outras drogas’. pode-se dividir este grupo em dois, sendo um em Fatores de Risco: quando esses fatores tornam essas pessoas mais vulneráveis a ter comportamentos que podem levá-las ao uso ou abuso de drogas (esta situação é muito comum para população em situação de rua por estar constantemente em situação de vulnerabilidade). E o outro em Fatores de Proteção, quando esses fatores por sua vez, consegue contrabalancear as vulnerabilidades que possam encaminhar esses sujeitos ao uso ou abuso de drogas (diminuindo as possibilidades ou situações que possam levá-las a fazer uso de drogas). É exatamente neste momento e neste sentido que entram em ação algumas instituições filantrópicas com ações religiosas, comunidades terapêuticas, abrigos, albergues, CAPS - AD e até mesmo hospitais. Objetivando a redução de danos que facilitem ou favoreçam a busca pela superação das adversidades encontradas a fim de buscar possibilitar sua reinserção tanto no âmbito familiar quando viável quanto no âmbito profissional, foram criados no município de Fortaleza três serviços específicos para esta população, sendo estes: Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua – CENTRO – POP, o Espaço de Acolhimento Noturno – EAN e o Serviço Especializado de Abordagem de Rua que juntos buscam assegurar atendimento e atividades direcionadas para o desenvolvimento da sociabilidade, objetivando o fortalecimento de vínculos interpessoais e familiares, por meio da articulação dessa rede de serviços para população de rua. Muitos desses indivíduos que estão às margens da sociedade, tanto por causa de sua doença como por estarem nas ruas não se sentem capazes de reconstruir suas vidas, seus objetivos e sonhos. Diante dessas adversidades e necessidades aqui apresentadas, atualmente o conceito de prevenção se ampliou ao ponto de estar atrelado à “Promoção de Saúde”. 49 3.2 – Histórias de vida: Percepções de uma parcela da população que tem seus direitos violados ou negados e sua dignidade desrespeitada As histórias de vida a serem relatadas a seguir mostram bem esta realidade, nos levam a pensar sobre as características e condições em que se dão estas realidades de discriminação e exclusão. Essas histórias se dão a partir situações consideradas comuns, como por exemplo, caracterizadas pelo desemprego, ou ao contrário, a partir de situações limite, de extrema fragilidade ao se sentirem abandonados, deixados de lado ou para trás. Estas considerações se dão a partir de relatos e vivências dessa parcela da população que muitas vezes vêem nessas instituições de apoio e “promoção” de direitos, uma estratégia de sobrevivência o que não significa necessariamente a busca da superação desta situação. Não se pode negar também as fragilidades e lacunas dessas instituições, que se tornam paliativos no que diz respeito ao enfretamento e combate a esta expressão da questão social: Para SILVA, 2006, esta questão é reproduzida por meio do sistema em que vivemos: Pode-se dizer que o fenômeno população em situação de rua vincula-se à estrutura da sociedade capitalista e possui uma multiplicidade de fatores de natureza imediata que o determinam. Na contemporaneidade, constitui uma expressão radical da questão social, localiza-se nos grandes centros urbanos, sendo que as pessoas por ele atingidas são estigmatizadas e enfrentam o preconceito como marca do grau de dignidade e valor moral atribuído pela sociedade. É um fenômeno que tem características gerais, porém possui particularidades vinculadas ao território em que se manifesta. No Brasil, essas particularidades são bem definidas. Há uma tendência a naturalização do fenômeno, que no país se faz acompanhada da quase inexistência de políticas públicas para enfrentá-lo (SILVA, 2006, p.95). Para compor este último capítulo serão utilizadas “narrativas de vida” ou “histórias de vida” a fim de contar a realidade de três pessoas que são dependentes químicos e estão em situação de rua no Município de Fortaleza, buscando esclarecer a relação existente ou não entre ambas situações, bem como, conhecer as dificuldades enfrentadas por essas pessoas. Sua relação com as políticas públicas existentes que foram desenvolvidas para amparar e buscar promover a 50 reinserção social para esses indivíduos historicamente discriminados por suas condições marginais e fragilidades. Este tipo de narrativa (histórias de vida) mostra sua importância ao buscar compreender, apreender e apresentar alguns tipos diversos de formas de vida, sua dinamicidade e realidades que em dado momento condiz com as experiências de boa parte dessa parcela da população, sua relação com suas famílias e o meio social em que estão inseridos. Para Daniel Bertaux (2010, p 12). Em Ciências Sociais, a narrativa de vida resulta de uma forma particular de entrevista, a “entrevista narrativa”, durante a qual um “pesquisador” (que pode ser estudante) pede a uma pessoa, então denominada “sujeito”, que lhe conte toda ou uma parte de sua experiência vivida. Mas, essa abundancia contrasta fortemente com a escassez de métodos propostos para observar empiricamente a ‘a ação’: isto é, não só comportamentos pontuais como os comportamentos de voto ou de compra de uma numerosa população (para isso, as sondagens são o instrumento adequado), mas percursos de ação situada, executados por ‘atores’ ou ‘sujeitos’ dotados de determinada densidade humana (...) O interesse das narrativas de vida, quando as coletamos nessa perspectiva, é que elas constituem um método que permite estudar a ação durante seu curso. A primeira história de vida fala de um indivíduo de apenas vinte e nove anos de idade, que muito embora tenha pouca idade relata já ter vivido muito, chegando ao ponto de se sentir velho. Nasceu na cidade de Fortaleza onde vive até os dias atuais, tem quatro irmãos sendo este o segundo mais novo, órfão de pai desde os doze anos, mantêm contato esporádico com a família por não querer que estes saibam de seu paradeiro e menos ainda de sua situação. Com sua mãe, estabeleceu relativo distanciamento por não se sentir a vontade ao saber que o conhecimento de sua situação certamente causaria muita dor e tristeza a todos. História I J.B está há vários anos em situação de rua e por diversas vezes esteve acolhido no EAN. Sempre que se sente apto para seguir sua vida e buscar realizar seus planos, caminhando com suas próprias pernas decide sair da instituição em que se encontra e vai tentar a vida. Outras tantas vezes, esteve em comunidades terapêuticas e também quando se sentia preparado e em condições de seguir sua vida fora da instituição, decidia sair. Quando saía, conseguia manter-se em 51 abstinência durante certo período, mas como ele mesmo diz: “tinha a sensação de que vários caminhos e portas se fechavam, menos uma, que era sempre o caminho das drogas” e por não conseguir enxergar outras alternativas acabava recaindo e voltando não ao ponto de partida, “ao fundo do poço” que era o uso de drogas e a situação de rua. De acordo com J.B, tudo começou quando ele tinha quatorze anos de idade e jogava em um time de futebol do seu bairro. Certo dia, após o final de uma das inúmeras partidas, o então responsável pelo time, reuniu o time e outras pessoas envolvidas e saíram para comemorar, esta comemoração foi regada a cerveja e cachaça. Esta acabou sendo sua primeira experiência com substância psicoativa. Isso ocorreu durante um longo período até que seus pais perceberam que o filho fazia uso de bebida alcoólica e o chamaram para conversar, foi aí que ele contou como tudo começou. Sua mãe ficou muito chateada com o “responsável” pelo time, aquele que se propunha a cuidar da educação e formação daqueles adolescentes. Sua mãe decidiu então tirar (J.B) do time, mas tanto tempo envolvido com bebidas e “diversão” e sentido a necessidade de conhecer novas formas de prazer ele acaba experimentando outros tipos de drogas “Usei quase todos os tipos de drogas, maconha, mesclado, cocaína, crack e tudo o mais que pudesse me proporcionar qualquer tipo de prazer, só não fiz uso de drogas injetáveis porque não tive oportunidade, porque as pessoas que faziam parte do meu grupo não faziam esse tipo de uso das drogas”. Durante este período de sua vida, para manter seu vício, conseguia dinheiro com seus familiares por meio de mentiras, inventando histórias e situações para comovê-los. Durante a conversa, ele diz orgulhar-se de nunca ter roubado nada de nenhum familiar e nem objetos de sua casa por ainda conseguir manter alguns valores morais. Com o tempo, J.B foi se dando conta do que estava fazendo, ao enganar sua mãe e família (seu pai faleceu quando este tinha apenas doze anos de idade) e por pensar que não mereciam passar por aquela situação resolveu sair de casa. Fazendo parte de uma família composta por quatro filhos, em que J.B é o segundo mais novo. 52 “Passei por algumas comunidades terapêuticas, fiquei acolhido e sendo assistido por meses, mas sempre quando saía eu recaía, e tudo isso, essas recaídas era por falta de “inteligência”, porque depois percebo que após fazer uso dessas substâncias, me arrependo, sinto que tudo o que foi conquistado desaparece e assim volto à estaca zero”. Comenta que sempre ao sair das comunidades terapêuticas nas quais se internava, não procurava ninguém de sua família por não querer causar expectativas e/ou transtornos para aqueles que o ajudaram, apoiaram que mesmo assim foram “traídos” por J.B. Ele conta uma de suas experiências nas comunidades, pois por possuir o hábito da leitura, se comunica muito bem e sempre que tinha uma oportunidade se dirigia ao púlpito e expunha suas experiências, suas opiniões, suas fraquezas, sua relação com as drogas, criticando algumas atitudes de seus colegas que usavam a dependência química como “desculpa” para cometerem pequenos delitos e se fazerem de vítimas. Por meio de suas colocações no púlpito ou em reuniões e discussões, ele relata que conseguia que algumas dessas pessoas revissem suas atitudes, auxiliando-os no enfrentamento à dependência química. No entanto, quando saia da comunidade voltava a fazer uso de drogas. “Algumas vezes, ‘largado’ nas ruas, cheguei a encontrar alguns de meus excolegas de tratamento e quando era reconhecido por eles, ficavam em estado de choque, porque muitos deles contavam que haviam conseguido parar de fazer uso de drogas por causa dos meus incentivos, apoio e experiências que eu relatava” J.B diz que a convivência entre eles faz com sinta vergonha de si mesmo. Por não querer voltar para casa, passou a viver em situação de rua e para que sua família não soubesse, inventava histórias, como por exemplo: estar trabalhando, ou até mesmo desempregado e assim pedindo dinheiro á sua mãe para se manter. Não trabalha porque diz que os únicos empregos que encontra não o agradam. Ele conta que certa vez, um colega seu havia deixado o próprio filho empenhado com um traficante por causa de dívidas de drogas e que a criança só havia voltado para casa porque a então esposa do seu colega conseguiu pagar a dívida. 53 Ele conta também que além das comunidades terapêuticas, sempre que era acolhido pelo EAN era também encaminhado para ser acompanhado pelo CAPS, mas que sempre largava o tratamento logo no início porque não considerava um método eficiente e que pudesse ajudá-lo a se desvincular ou ter força para lutar contra seu vício e como justificativa para sua não aderência ao tratamento utilizava o argumento de que tinha que trabalhar para se sustentar e poder custear seu próprio aluguel e assim sair de vez da situação na qual se encontrava. “Quero sair desse tipo de vida, sempre que volto a fazer uso de drogas eu perco o controle, recaio de vez, uso tudo o que eu puder e como puder. Aí quando o efeito começa a passar e eu me dou conta da besteira que fiz eu fico deprimido. Às vezes eu passo mais de uma semana para voltar ao meu estado normal, fico desnorteado, com a mente toda bagunçada. Fico sem saber o que faço, quem sou e o que quero”. J.B sempre julgou essas políticas de enfrentamento e combate as drogas como uma forma de enganar a si próprio, porque sabia que se fizesse o tratamento estaria cedendo aos desejos de uma sociedade doente e hipócrita. E não ajudava as pessoas em situação de rua a conseguirem mudar de vida, porque os que trabalhavam durante o dia com reciclagem ou outros tipos de trabalhos tinham que faltar e deixar de ganhar dinheiro para poder participar das oficinas, das reuniões e rodas de conversas, por isso alguns colegas seus preferiam faltar a deixar de ganhar dinheiro, mesmo porque as instituições às vezes não dão nem vale transporte e eles têm que atravessar a cidade andando para chegar até os locais de destino. Ele cita o exemplo de um colega seu que tinha que ir do EAN até o CAPS para participar dos eventos e de lá ir para o CENTRO – POP ou então ir às consultas nos postos de saúde tudo isso a pé5. Mencionando também a questão da alimentação servida que era precária. Às vezes eram apenas biscoitos com um pouco de café e isso não era o suficiente para conseguirem ficar o restante do dia sem comer, pois se não conseguissem dinheiro para almoçar só iriam se alimentar à noite no próprio EAN. À época, J.B encontrava-se acolhido no EAN, mais uma vez dando início a busca de sua reinserção social e continuidade ao tratamento para dependência química no CAPS – AD da SER II. Diz que dessa vez está mais aberto para ouvir e buscar seguir o que os profissionais orientam e dessa maneira respeitar e 5 EAN – Rua Limoeiro do Norte, Nº 418, Joaquim Távora; CAPS – AD – Rua Manoel Firmino Sampaio, Nº 311, Cocó; CENTRO - POP – Rua São José, 01, Centro. 54 compreender o trabalho desses profissionais, a importância deles para o sucesso de seu tratamento e de sua jornada. J.B cita também a capacitação e o comprometimento desses profissionais com o que se propõem a fazer. O segundo relato conta um pouco da história de vida de um homem, algumas de suas experiências, sua relação com a família e a sociedade. Fatos estes que tem grande relevância para a compreensão de como se deram sua inserção nos caminhos do mundo das drogas que resultou ou facilitou sua ida para as ruas, passando a situação de rua. História II C.L é um adulto de quarenta e cinco anos de idade, nasceu no município de Juazeiro do Norte, mas mora nesta capital há mais de vinte anos. Veio parar nesta cidade por causa de uma oferta de emprego que havia conseguido por meio de um amigo de seu pai. C.L tem por profissão a arte de pintar paredes, mas conta que quando mais moço queria mesmo era ser médico, professor ou qualquer outra profissão que lhe ajudasse a proporcionar a família uma vida melhor, com melhores condições. Relata que ao chegar aqui, nesta capital, foi morar durante um período com este amigo de seu pai. “Ainda morei com ele por uns seis meses, mas por causa de um pequeno desentendimento eu decidi não mais continuar naquela casa. Aconteceu que eu fui pego na cama com a mulher do Zé. Mas a culpa não foi só minha não, porque assim que eu cheguei naquela casa ela ficava só me olhando e como a carne é fraca eu não resisti e ficamos desse jeito por algumas semanas”. Emocionado, relembra os momentos bons que teve, quando morava com os pais tudo era bom. Passavam por certas dificuldades, mas eram felizes. Em tempos de “vacas magras” comiam apenas feijão com farinha, mas em tempos de “vacas gordas” a situação se invertia e sua família conseguia até mesmo ajudar outras famílias mais carentes. Ele conta que é o mais velho de sete filhos, fora os outros três que morreram logo após nascerem. Seus pais hoje, ainda vivos, não têm muito contato com o filho que atualmente vive em situação de rua há pelo menos dez meses. Diz que é melhor assim, acha melhor pensarem que ele morreu ao saber que está nesta situação desumana. 55 Em nosso primeiro contato, C.L não falou muito, talvez por causa do receio e até vergonha de se expor, mas depois de nosso segundo encontro começou a desabafar suas desventuras, mágoas e desilusões. Logo após sair da casa do seu Zé como chamava o senhor que o acolheu em sua casa, saiu também da empresa onde trabalhava e passou a viver numa pequena casa no bairro Vila Manoel Sátiro. Conseguia pagar o aluguel com o dinheiro que recebia dos pequenos trabalhos que fazia em marcenarias ou pintando casas, profissões estas aprendidas durante a adolescência. Passou por momentos difíceis ao não conseguir pagar seu aluguel, nem mesmo se alimentar, chegando ao ponto de ser despejado. Durante o tempo em que esteve sem emprego fixo e sem ter como pagar o aluguel de uma casa, ele ficou na casa de amigos e colegas. C.L Contou que desde muito novo bebia cachaça e que tinha adquirido este hábito com seu pai que dizia: “cabra macho bebe cachaça desde pequeno”. A partir desses acontecimentos passou então a fazer uso de álcool com mais frequência, mas nada que comprometesse sua vida. Certo dia, em decorrência de indicações, devido seu bom trabalho enquanto pintor, arte adquirida e aprimorada com o tempo, conseguiu um novo emprego, “mas este agora era com carteira assinada, tudo direitinho”. Alugou novamente uma nova casa, dessa vez bem maior e no mesmo bairro, ele conta que ficava sempre naquele bairro porque gostava da vizinhança e também porque lá morava uma moça muito bonita e que de vez em quando olhava e sorria para ele. Depois de quase um ano começou a namorar a tal moça e meses depois se casaram e com ela teve três filhos. Quando fala de seus filhos, C.L se emociona e chora, dizendo que já fazem cinco meses que não os vê. Ao questioná-lo sobre o porquê desse longo tempo sem contato com seus filhos ele se cala. Levantei e fui pegar um pouco de água para acalmá-lo e procurando restabelecer o vínculo que tinha conseguido criar. Disse que compreendia sua dificuldade em relembrar fatos tristes de sua vida e que ele estava livre para continuar ou não sua história. Após se refazer da emoção, perguntei novamente por que não via os filhos há tanto tempo e ele começou a contar. Disse que seus três filhos têm dez, sete e cinco anos, sendo os dois mais velhos meninos e a mais nova uma menina, que moravam atualmente com a mãe. Disse também que durante muito tempo viveu com sua esposa e seus filhos harmoniosamente, sem problemas ou confusão. 56 Quando o primeiro filho veio, foi uma festa só. Depois veio o segundo e outra alegria, tudo correndo bem. Sem esperar, vem mais um filho, dessa vez uma menina e assim se sentia realizado. Trabalhava muito, sempre buscando prover o sustento de sua família, cuidando de todos com muito carinho e amor, mas sempre fazendo uso de álcool, porém tudo corria sempre muito bem. Conforme o tempo foi passando, o uso do álcool passou a ser mais freqüente. Seu rendimento no trabalho começou a ser comprometido, de maneira que algumas dessas vezes ouvia reclamações dos seus chefes, o que o deixava mais irritado e sem paciência. Pedi então que me explicasse essas mudanças de humor. Quais eram os motivos para essa alteração de humor e o que acontecia quando ele perdia a paciência? Contou-me então que passou a beber mais por causa dos problemas no trabalho, as cobranças que sofria por parte de seus chefes e também das cobranças da esposa com seus horários. Outro motivo eram as crianças que brigavam muito e conforme o tempo foi passando, tudo isso fazia com que ele procurasse chegar mais tarde em sua casa e assim evitar brigas e aborrecimentos com os filhos e com a esposa. Com esses acontecimentos e aborrecimentos, passou a beber mais e até a experimentar outras drogas (citou fazer também uso da maconha e da cocaína). Em decorrência desse uso desenfreado e da posterior dependência química, perdeu o emprego por não conseguir mais entregar seus trabalhos no prazo estabelecido e seus serviços não apresentavam mais a qualidade e o capricho de antes. Quis saber quais motivos o tinham feito sair de casa? Ele prontamente responde dizendo que foi por causa de uma “briga feia” com a esposa, que resultou em agressão física por parte dele e com receio de acontecer algo pior resolveu sair de casa. Após sua saída, ficou três meses num quarto alugado próximo onde morava. “Nesse tempo eu passei a usar essas substâncias psicoativas todos os dias e fez com que o meu rendimento no meu trabalho diminuísse e por isso eu fui demitido. Mas recebi os meus direitos trabalhistas todinhos e dei boa parte do dinheiro pra minha esposa, para ela cuidar dos meninos, dos nossos filhos”. 57 Recebeu seguro desemprego durante alguns meses e isso o permitiu pagar o aluguel do quarto onde dormia e continuar ajudando sua esposa no que fosse possível. Quando o seguro acabou, com ele veio o desespero por saber que no momento não havia outra fonte de renda e que suas dificuldades iriam aumentar. Do quarto mês em diante, não conseguiu mais auxiliar a esposa no cuidado dos filhos e embora sua esposa trabalhasse, C. L não se sentia bem ao não poder prover o sustento de sua família. Relata que após perder o emprego, não conseguia mais encontrar outro trabalho e por isso bebia quase todos os dias, o dia inteiro. Foi despejado do quarto em que dormia. Tentou se reconciliar com sua esposa, mas não obteve êxito. Sentia-se fracassado por não conseguir “sustentar” os próprios filhos, daí então passou a dormir numa oficina de um conhecido, mas que depois de algumas semanas foi “morar” de vez nas ruas. Passou por situações ruins como: fome, humilhação e o pior foi o distanciamento dos filhos. Sempre que pensa nos filhos fica triste e logo procura beber para esquecer. Atualmente vive em praças de vários bairros da cidade, prefere não ficar em um lugar fixo e sempre distante de onde sua esposa e seus filhos moram ou possam estar. Questionado sobre como faz para sobreviver, ele afirma que sempre procura dar um jeito. Normalmente quando se aproxima da hora do almoço, ele fica perto de restaurantes e lanchonetes, pedindo um “prato de comida”. Orgulha-se de nunca ter precisado roubar para comer, mas diz que já se envolveu em uma briga por causa de uma refeição. Nem sempre a gente encontra uma alma caridosa que consiga nos ajudar a matar a muita fome: “Quando tô muito triste e quero ‘esquecer’ os problemas eu procuro conseguir dinheiro me oferecendo para cuidar de carros e assim compro qualquer bagulho que alivie minha dor, mesmo que o efeito passe, mas pelo menos eu saio de mim, da realidade”. Durante nossas conversas, disse várias vezes que se sentia um lixo e já havia tentado tirar a própria vida porque se sentia sozinho no mundo, mesmo sabendo que não estava, não mantinha contato com os pais há muito tempo e agora estava acontecendo o mesmo com seus filhos. 58 Questionado se conhecia alguma política pública na capital para população em situação de rua ou até mesmo tratamento para dependentes químicos, ele disse que sim, mas que no momento não queria porque não acreditava que pudesse ter sucesso, mesmo porque afirma que o uso de drogas não é o causador de suas infelicidades. Às vezes, o sentimento de impotência que esses indivíduos possuem, os impedem de querer ou procurar superar as adversidades da vida. Outro fator importante é o não reconhecimento da dependência química como causador de desestruturação emocional e social, naturalizando as dificuldades decorrentes deste uso desenfreado. Esta história é sobre um indivíduo que como muitos outros tiveram sua infância marcada pela violência, pela pobreza e acima de tudo pelo uso abusivo de drogas, motivos esses que resultaram na negligência de direitos por parte da família e do Estado que primeiramente deveriam garantir e assegurar sua integridade física, moral e social. História III E.M nasceu no município de Fortaleza no ano de 1975 e há quatro anos está em situação de rua. Atualmente, aos trinta e sete anos, é acompanhado pelo Centro – Pop e pelo CAPS – AD, mas conta que não vai com frequência aos equipamentos há pouco citados. E.M tem cinco irmãos, sendo que três deles ele acha que moram com a mãe. Seu pai abandonou a família quando ele tinha apenas quinze anos de idade e por ser o filho mais velho, começou a trabalhar para ajudar a mãe com as despesas da casa. “Quando eu era criança a minha família passava muitas necessidades financeiras. A gente morava lá no Bom Jardim em uma casa bem simples e ainda tinha o fato de meu pai beber muito e sempre que bebia ele batia na minha mãe, em mim e até nos meus irmãos pequenos” De acordo com suas falas, as agressões eram tanto psicológicas como físicas e isso fazia com que todos tivessem medo do pai, principalmente quando chegava em casa falando alto. Ele conta que após anos de sofrimento, seu pai havia 59 conhecido uma mulher e ido morar com ela numa cidade do interior do Estado, a partir de então nunca mais o viu. Este acontecimento ao mesmo tempo que trouxe alívio, também trouxe desespero para a família, porque embora seu pai fosse uma pessoa difícil de lidar, era ele quem sustentava a casa e com sua saída a situação financeira havia ficado mais delicada. Foi a partir daí que E.M começou a trabalhar fazendo pequenos serviços de jardinagem e em um mercadinho. Depois passou a trabalhar como ajudante de pedreiro, mas disse que por ser um trabalho muito pesado, ele desistiu. “Depois de um tempo eu comecei a trabalhar num bar de um vizinho e por lá fiquei durante um bom tempo, acho que por dois anos. Nesse tempo, não deixei de frequentar a escola, mas as minhas faltas eram toda semana e isso fazia com que não conseguisse acompanhar o restante da turma”. Aos dezoito anos já era o responsável pelo sustendo de sua família. Relata não gostar muito de ter trabalhado no bar porque “via” a imagem de seu pai naqueles homens que freqüentavam aquele ambiente. A lembrança do pai não o agradava, pois tanto sua mãe quanto ele e seus irmãos sofriam com os maus tratos e ter que ver aqueles homens o dia todo, era ruim e o angustiava muito. Conta que às vezes aos finais de semana saía com alguns amigos para festas a fim de esquecer os “problemas da vida” e foi aí que começou a fazer uso de maconha. Ele afirma que no início sofria pressão dos amigos e para não ficar para trás, já que seus amigos usavam, resolveu experimentar. Conforme o tempo foi passando, o hábito foi se transformando em vício e as curtições não eram mais apenas durante os finais de semana e sim em alguns outros dias também. Relata que normalmente, antes de sair para as festas, eles se reuniam para fumar um baseado para entrar na “vibe” da noite. No entanto, essas experiências não eram mais suficientes para garantir uma noite de curtição e foi aí que E.M começou a usar o crack: “Era muito boa a sensação, parecia que estava em outro mundo, fora de mim, mas assim que o efeito passava, eu me sentia mal por pensar que não teria um futuro bom se eu continuasse, mas sempre que tinha oportunidade eu usava novamente”. 60 Aos vinte e dois anos foi morar sozinho, queria cuidar se sua própria vida sem ninguém para lhe perturbar ou fazer cobranças. Mesmo porque, após sua mãe descobrir sobre seu vício, começaram as brigas e os desentendimentos. Sua mãe exigia que parasse de usar as drogas e retomasse sua vida, pois não queria que seguisse o mesmo caminho do pai que vivia sempre bêbado e por isso batia em todos eles. Mas não parou, ao contrário, começou a fazer uso do crack com mais frequência e isso acarretou a perda de seu emprego. Sem poder pagar o aluguel sozinho e por não querer voltar para casa, começou a ficar vagando pelas ruas de Fortaleza. Relata que durante dois meses ficou em um prédio abandonado no centro da cidade e que por ali mesmo passou a ficar o dia inteiro, pois conseguia com maior facilidade alguns trocados que usava para comprar mais drogas. Ele afirma que muitas vezes usava uma grande quantidade de crack e isso o deixava impossibilitado de sair, andar ou comer e que por isso, em pouco tempo perdeu peso e ficou com a aparência debilitada. “Durante o dia eu ficava nas praças, nos restaurantes ou então em frente aos bancos, principalmente no meio e final de cada mês porque eram dias de pagamentos e sempre tinha alguém que me ajudava. Algumas senhoras às vezes me davam dinheiro ou pagavam meu almoço”. Certa vez, ficou durante dois meses internado em uma comunidade terapêutica em Iparana, mas não conseguiu lembrar o nome da comunidade. Durante o tempo em que ficou por lá, recuperou a autoestima, o peso perdido e até mesmo o contato com sua família, que há muito estava fragilizado, quase rompido. Conseguiu entrar nessa comunidade por meio de uma pessoa que havia conhecido durante seu trabalho como jardineiro de uma casa. Ele relata que durante o período em que ficou por lá (na comunidade) tudo no início era muito difícil, controlado e chato. Às vezes ficava se perguntando por que estava ali? Já que quando quisesse parar de usar aquelas substâncias ele conseguiria parar. Houve desentendimentos, brigas e confusões causados por ele dentro e fora daquele “centro” de recuperação. “Durante o dia e a noite era muita oração, reuniões, às vezes tinham palestras, não agüentava mais!”. Mas, conforme o tempo foi passando, ele foi se adaptando aquela nova realidade. Dois meses depois 61 decidiu sair, pois já estava com saudades da vida lá fora e queria trabalhar, namorar, viver. Lembra que saiu numa segunda-feira e foi direto para casa da sua mãe e seus irmãos. Disse que no começo foi bom, sua mãe e seus irmãos o tratavam bem, ele ficava a maior parte do tempo dentro de casa. Mas uns cinco ou seis dias depois, ouviu um de seus irmãos irritado falando para sua mãe que não achava legal “ele ficar o dia inteiro só em casa”, tinha que trabalhar para ajudar nas despesas. “Quando ouvi aquilo fiquei triste, me senti um inútil, um imprestável. Minha vontade naquele momento era de sumir, mas mesmo assim eu ainda esperei mais um dia fingindo que nada havia acontecido. No outro dia eu saí de casa novamente e disse pra minha mãe que estava indo procurar um emprego, mas nunca mais voltei e nem pretendo voltar. Não preciso deles”. Ficou vagando pelas ruas durante o dia triste e não parava de pensar nas duras palavras do seu irmão. Sua tristeza maior era saber que durante muito tempo trabalhou duro para ajudar a mãe a sustentar os irmãos e naquele momento que tanto precisava de apoio e incentivo não os tinha. Então à noite foi para um dos lugares que freqüentava quando comprava drogas e voltou a fazer uso, só que dessa vez com uma vontade de usar até morrer porque não era ninguém. A partir de então, não tem mais contato com seus familiares e diz não querer vê-los nem “pintados de ouro”. Conclui dizendo que a vida é assim mesmo, você só vale o que têm. As pessoas só te valorizam quando você tem alguma coisa para oferecer, mas quando está por baixo, passando necessidade, nem mesmo seus parentes te tratam como gente. Hoje em dia assume seu vício, sua dependência, sua doença. Mas, mesmo assim, diz que não quer saber de sua família, que seus amigos são aquelas pessoas “que distribuem comida à noite em alguns pontos da cidade porque vão ali, distribuem a comida, às vezes roupas também, perguntam como você está e pronto, vão embora, não ficam no seu pé, dizendo o que pode ou não fazer”. Ainda segundo ele, “desde quando comecei a frequentar o CAPS / AD, eu fiquei mais animado, lá tem atividades, reuniões, futebol, aulas de violão e tudo mais. Só que às vezes quando eu sinto vontade de usar ‘alguma coisa’, eu não vou. Passo um, dois, três dias sem aparecer. Já fiquei até dois meses sem aparecer por lá. Quando faço uso [referindo-se às drogas] fico sem paciência, sem ‘saco’ e nem 62 apareço. É sempre assim, quando alguém some é porque está fazendo uso nas bocadas”. “Já perdi meus documentos umas três vezes e com eles perdi minha dignidade, minha força de vontade, tudo junto. Já tentei me matar várias vezes, mas ainda não chegou minha hora”, ressalta ele, ambiguamente, em meio a risos. Diz em tom de promessa “um dia eu vou dar a volta por cima, vou recuperar minha vida e meu orgulho. Não adianta eu ficar só passando pela vida, sem planos, sem objetivos, já tenho trinta e sete anos não sou mais nenhuma criança. Ainda quero ter uma casa, conhecer uma mulher bem bonita, me casar e ter filhos, uns quatro filhos e reconstruir minha vida. Quero morar no interior, qualquer cidade do interior, porque assim vai ficar mais fácil para eu ficar longe de confusão na minha vida. Para isso preciso só diminuir ou parar de fazer uso dessas coisas do ‘cão’, isso não é de Deus. Quando estou fazendo o acompanhamento e o tratamento bem certinho eu me sinto mais forte. Tomo banho com mais freqüência, cuido mais da minha aparência e fico mais alegre. Me sinto mais humano, me sinto mais gente”. 3.3 – Relações e reflexões sobre as histórias de vida desses indivíduos que representam uma parcela da população cearense As histórias acima contadas mostram situações e histórias de vida de três cearenses que vivem no Município de Fortaleza que são dependentes químicos e estão em situação de rua, bem como suas semelhanças e diferenças que apontam para um fenômeno cada vez mais presente na sociedade cearense, principalmente nesta capital que nada mais é do que o resultado da questão social de uma sociedade capitalista que prega o individualismo, o egoísmo, e uma busca desenfreada por um ideal de vida e de felicidade contraditória no que diz respeito as necessidades reais e básicas de um ser humano. Na vida, vários são os fatores que induzem ou contribuem para um futuro possivelmente promissor ou não. Estes três casos revelam as dificuldades enfrentadas por pessoas que tem suas vidas dilaceradas ou divididas pela pobreza e suas conseqüências. Essa vulnerabilidade que afasta, marginaliza e exclui aqueles que são considerados fora de um padrão ideal estabelecido. 63 Nessas três histórias percebe-se a estreita relação existente entre pobreza e exclusão social, bem como dependência química e situação de rua. No entanto, a dependência química necessariamente não resulta em situação de rua ou vice e versa. Em comum, essas histórias mostram que o uso abusivo de substâncias psicoativas para se obter de alguma maneira a satisfação de prazeres ou a busca do alívio de situações extremas de estresse advindas das sociedades contemporâneas elevam a classe trabalhadora ao patamar de uma população socialmente excluída. Esses indivíduos oriundos da classe proletária mostram que as relações sociais cada vez mais fragilizadas e superficiais, estão deixando os seres humanos cada vez mais vulneráveis e propensos a desenvolverem hábitos e costumes que de certa maneira expõem essa parcela da população a situações de risco social. Antes, na capital cearense um dos principais motivos que levavam uma pessoa a estar em situação de rua era a imigração de sertanejos refugiados da seca em busca de melhores condições de vida, no entanto, atualmente o que se tem como principal motivo de ida para as ruas é a dependência química. A partir da analise das histórias de vida desses indivíduos, se tem a visão de uma expressão da questão social estabelecida e intensificada pelo sistema capitalista contemporâneo que cada vez mais desestrutura e desestabiliza o homem. As políticas públicas por sua vez, incapazes de suprir as necessidades básicas de uma população cada vez mais carente de serviços públicos de qualidade, se vêem as margens da sociedade. De acordo com os relatos, suas vidas sofreram grande influência de uma sociedade conservadora, manipuladora e paternalista, contribuindo para que tivessem uma vida repleta de desafios e contrastes. Uma sociedade que não respeita os direitos da criança e do adolescente, que os colocam como se fosses “objetos” pertencentes aos adultos e não como cidadãos. Outra situação recorrente é o uso frequente e abusivo de álcool e outras drogas ocasionado por influências exercidas pelos pais, por “amigos” e até mesmo pela sociedade em geral quando prega a busca pela satisfação pessoal e que vem se caracterizando como uma das grandes preocupações e problemas sociais de que se tem notícia. Nesses três casos específicos, foi exatamente não apenas o uso, mas a dependência de substâncias psicoativas que resultaram no fenômeno denominado como população em situação de rua, caracterizando a relação existente entre essas 64 duas situações. Outro fato importante entre as histórias relatadas é a fragilização e até mesmo rompimento dos laços familiares, que mais uma vez mostra a necessidade do ser humano em se relacionar socialmente e que quando essa relação é rompida, há normalmente uma desestruturação da vida social. A dependência química na história dessas pessoas mostrou-se como o grande causador de boa parte das dificuldades enfrentadas desde suas infâncias e adolescência atingindo a fase adulta e isso traz a tona uma grande preocupação, pois como é de conhecimento de grande parte da população e como citado no primeiro capítulo, a dependência química é uma doença reconhecida pela OMS e que adoece não apenas quem faz uso dessas substâncias, mas também toda sua família e até mesmo aqueles que se relacionam com esses dependentes. As políticas públicas criadas e voltadas para a prevenção e combate ao uso de drogas em território nacional, assim como boa parte das políticas públicas, normalmente não conseguem atender a grande demanda existente tornando os serviços prestados insuficientes. Dessa maneira os serviços tornam-se seletivos. Somando-se a esta difícil realidade há também a relação mencionada anteriormente entre dependência química e situação de rua, configurando assim uma dupla fragilização de indivíduos historicamente excluídos e desprotegidos socialmente. De acordo com suas falas o que o governo nacional e municipal disponibiliza não é suficiente, não contempla as necessidades mais básicas de um dependente químico, nem mesmo de uma pessoa em situação de rua e pior ainda é a situação de um indivíduo que esteja inserido nesses dois grupos pessoas. 65 CONSIDERAÇÕES FINAIS O uso de substâncias psicoativas advêm de civilizações antigas, por meio da utilização de algumas plantas, na constante busca da transcendência espiritual. Inicialmente utilizadas basicamente em rituais religiosos, no entanto, com o passar dos tempos, com o surgimento de técnicas avançadas de conservação e isolamento do princípio ativo de certas substâncias, ocorrem os primeiros casos de dependência química, tornando-se uma grande preocupação social, sendo que atualmente é uma das principais expressões da questão social de que se tem notícia. Algumas dessas drogas têm efeitos devastadores na vida de uma pessoa, acarretando distúrbios e/ou transtornos mentais, podendo ocasionar o distanciamento da realidade e até sua “morte social”. Uma das consequências do capitalismo é a intensificação das desigualdades sociais já existentes, exemplo disso é o fenômeno População em Situação de Rua, que por sua vez tem seus direitos negados enquanto cidadãos. Essa população vive basicamente em grandes centros urbanos, por proporcionar maiores condições para sua sobrevivência. Em sua maioria, vivem na informalidade por não conseguirem se encaixar no mercado de trabalho formal, tornando-se marginalizados socialmente. No Ceará, o surgimento da população em situação de rua se deu por meio das grandes secas que obrigavam os sertanejos a procurarem melhores condições de vida em outras cidades, principalmente na capital Fortaleza. Atualmente, um dos principais motivos que levam alguém a estar em situação de rua é a dependência química, que por sua vez agrava ainda mais as dificuldades historicamente enfrentadas por esta parcela da população, por se tratar de uma dupla marginalização e exclusão social. Diante das três histórias de vidas relatadas, o estudo mostrou a recorrente relação entre dependência química e população em situação de rua. Esta relação apresentou-se normalmente atrelada a fatores como a pobreza e dificuldades sociais relacionadas a ela, ou até mesmo atitudes conservadoras que impulsionam essas pessoas para uma vida regada de restrições. 66 Os direitos dessas pessoas enquanto cidadãos são deixados de lado ou até mesmo negados desde cedo, perpassando suas infâncias e adolescências acarretando grandes dificuldades familiares e sociais relacionadas à suas vidas chegando até a fase adulta. Contribuindo desta maneira para uma vida cheia de adversidades, dificuldades e contradições ocasionadas muitas vezes por aqueles que deveriam ser os seus verdadeiros guardiões. As relações sociais estabelecidas entre os sujeitos entrevistados e as pessoas que os rodeavam (famílias e amigos) mostraram-se muitas vezes inconstantes e causadoras de boa parte das dificuldades sofridas por eles. As histórias apresentadas apontam o uso de álcool como um hábito hereditário e conservador, e até de inclusão social quando utilizado como meio de inserção ou reconhecimento de determinado grupo, mas que resultaram em dependência química ocasionado por uma devastadora busca de satisfação pessoal disseminada pelo sistema econômico vigente. Outra constatação por parte dessa pesquisa é a frágil relação entre estas pessoas e as Políticas Públicas voltadas para este seguimento da população, caracterizada pela falta de credibilidade dessas autoridades em buscar ampará-los por meio de instituições e equipamentos que lhes garantam os mínimos necessários para superação da situação na qual se encontram. A dependência química nas três histórias de vidas foi o grande causador da desestruturação social que por sua vez resultou na fragilização e rompimento dos laços familiares, levando os sujeitos desta pesquisa a um estágio de vulnerabilidade social ainda maior, a situação de rua. O estudo mostrou que a dependência química acompanhada do estado de situação de rua, é encarada por estas pessoas como um estado subumano de vida, o ‘fundo do poço’ fazendo com que elas se sintam cada vez mais excluídas socialmente e até mesmo se excluam do mundo considerado “normal” e que um dia fizeram parte. Por fim, mas não menos importante compreendi a real e imprescindível importância da efetivação das Políticas Públicas já existentes para esta população, a fim de colaborar para superação dessa situação e possibilitar sua reinserção social. 67 REFERÊNCIAS AGUIAR, Pinto de. Nordeste e o drama das secas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. ARAÙJO, Maria Neyára de Oliveira. A miséria e os dias: história social da mendicância no Ceará. São Paulo: Hucitec, 2000. BRASIL, Presidência da República. Lei Orgânica da Assistência Social, Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993, publicada no DOU de 8 dezembro de 1993. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: 1988 – texto constitucional de 5 de outubro de 1988 com as alterações adotadas pelas Emendas Constitucionais de n. 1, de 1992, a 32, de 2001, e pelas Emendas Constitucionais de Revisão de n. 1 a 6, de 1994, - 17. Ed. – Brasília: 405 p. (Série textos básicos, n. 25). BERTAUX, Daniel. 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