A importância de um Porto Seco em São José dos Pinhais/PR como
proposta para o desenvolvimento econômico local
Flavio Numata Junior, Mestre em Tecnologia (Estácio Radial Curitiba)
[email protected]
Tânia Lopes Anselmo, Acadêmica (Estácio Radial Curitiba)
[email protected]
Resumo
Empresas que atuam em global sourcing enxergam a Logística como importante estratégica
organizacional. As variáveis que podem interferir nas operações de importação de
componentes ou produtos possuem diferentes naturezas: de manuseio, de movimentação, de
estoques, de controle de informações, de tarifas alfandegárias ou de tempo de desembaraço.
Por essas dificuldades ou entraves que as empresas enfrentam, o artigo tem por objetivo
realizar a simulação de operação de importação em Porto Seco como uma estratégica logística
para reduzir os impactos operacionais e financeiros na cadeia de suprimentos da empresa, e,
por sua vez, nas organizações ou instituições que compõem a rede de negócios. Para tanto, a
pesquisa seguiu um delineamento metodológico baseado na revisão da literatura e estudo de
caso em um Operador Logístico situado em São José dos Pinhais/PR. Como resultado o
estudo apresenta a viabilidade técnica-econômica de um Porto Seco em uma região
caracterizada pela internacionalização de empresas.
Palavras-Chave: Estratégia Logística, Porto Seco, Desenvolvimento local.
Abstract
Companies that operate in global sourcing to see as an important strategic organizational
logistics. The variables that can interfere with the operations of imported components or
products have different natures: Handling, operating, inventory, management of information,
wharfage or clearance time. For these difficulties or barriers faced by companies, the paper
aims to perform the simulation of operating import Dry Port as a strategic logistics to reduce
the impacts on operational and financial supply chain company, and, in turn, in organizations
or institutions that make up the business network. To this end, the study followed a design
methodology based on literature review and case study in a Logistic Operator located in São
José dos Pinhais/PR. As a result the study presents the technical and economic feasibility of a
Dry Port in a region characterized by the internationalization of companies.
Keywords: Logistic Estrategy, Dry Ports, Local development.
Introdução
A globalização da economia ultrapassa as fronteiras nacionais. Distintamente do nível
econômico dos países do mundo, o intercâmbio comercial é uma prática incessante. Na
América Latina não é diferente, com a economia “dependente de demanda externa” (SWART,
2007, p.30), e, o Brasil, ingressou por mesmos caminhos por consequência dos investimentos
estrangeiros e do seu próprio crescimento (LOUZADA, 2005).
Nesse sentido, os países estão intensificando seus negócios por diferentes direções e locais.
Os interesses comerciais estão concentrados na potencialidade do mercado de consumo e,
contudo, podem estar associados a outras variáveis. De fato, o sistema que envolve as
empresas consideram os órgãos institucionais, a política macroeconômica e a insfraestrutura
logística, e “essas dimensões não são isoladas, tem relações entre si, e as empresas precisam
lidar com todas elas” (WONGTSCHOWSKI, 2010, p.69).
A área de Logística, por exemplo, é responsável por gastos que impactam cerca de 5 a 35% do
valor das vendas (BOWERSOX; CLOSS, 2001). Remetendo a atuação global dos negócios
com a Logística, nota-se a importância dessa área do conhecimento para competitividade das
organizações. Nesse sentido, as operações que envolvem a logística empresarial precisam ser
enxutas, flexíveis, precisas e integradas com os atores envolvidos nos processos.
Considerando ainda os negócios na esfera internacional, as empresas brasileiras que atuam no
comércio mundial estão sujeitas ao sistema alfandegário nacional. Por isso, as aquisições, o
despacho, o transporte ou o desembaraço aduaneiro podem se tornar possíveis obstáculos
nessa forma de economia.
Com esse entendimento, o estudo envolve as questões da economia local com as operações
logísticas, que direcionam a pesquisa sobre uma estratégia logística facilitadora para o
comércio internacional. Com esse delineamento, o objetivo do artigo é apresentar uma
simulação de operação de Porto Seco em São José dos Pinhais, no Paraná. Para tanto, a
pesquisa está organizada em quatro seções, incluindo essa introdução. A segunda seção
apresenta metodologia da pesquisa, e a terceira seção explora a fundamentação teórica sobre a
Economia paranaense, a Logística Internacional e Portos Secos, e o conceito de Redes como
catalisador de desenvolvimento local. Na seção seguinte é explorado um estudo de caso sobre
um operador logístico que opera com cargas de uma indústria multinacional da linha branca.
A última seção abriga as considerações finais e as conclusões do estudo.
Metodologia da pesquisa
Considerando a metodologia proposta por Vergara (2000), essa pesquisa pode ser classificada
quanto aos meios e quanto aos fins:
•
Quanto aos meios: a pesquisa faz uma investigação exploratória e bibliográfica sobre a
Economia paranaense e a Logística Internacional, fundamentos âncoras do trabalho;
•
Quanto aos fins: o estudo se apoiou sobre um estudo de caso para realizar uma
simulação prática e verificar o “contexto real do fenômeno estudado” (YIN, 1994,
p.132).
Outro procedimento utilizado foi a técnica quantitativa para estruturar as informações e uma
exposição qualitativa de dados para concluir o estudo de caso.
Fundamentos Teóricos
O Paraná e a importância da cidade de São José dos Pinhais para a economia do Estado
O estado do Paraná apresenta características marcantes. Seu Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH) é de 0,82 e seu Produto Interno Bruto (PIB) é o quinto maior do país,
correspondendo a 6,0% do PIB nacional (IPARDES, 2010). A trajetória de crescimento
paranaense foi de 8,3%, considerado o melhor índice na séria histórica a partir do ano de 1995
(KURESKI, 2011). A economia do Estado está concentrada em primeiro lugar em Comércio e
Serviços (63,9%) seguido do setor industrial com participação de 26,4% (IPARDES, 2010).
Quanto aos municípios, a capital Curitiba é a cidade que mais contribui no PIB do estado,
seguida de Araucária (6,1%) e São José dos Pinhais (5,8%). As atividades que mais
contribuem às receitas do município é o ramo industrial com mais de 50% (IPARDES, 2011),
e que envolve grandes transações internacionais por empresas do segmento informático,
automotivo, bebidas, alimentos, dentre outras.
Mantendo o viés internacional, o Paraná ocupa a 5ª posição nacional entre os estados
brasileiros que mais exportam (IPARDES, 2010). Esse fato reforça a importância da
infraestrutura logística para o Estado e para a cidade de São José dos Pinhais, que é a cidade
mais próxima do maior porto do sul do país, a 85 quilômetros do Porto de Paranaguá. Na
cidade está situado o Aeroporto Internacional Afonso Pena, recinto de linhas aéreas com
maior capacidade de cargas do Paraná. Essa vocação pela internacionalização foi destacada no
estudo de (FIRKOWSKY, 2004).
Por esse notável desempenho econômico citadino e sua infraestrutura logística, a pesquisa
concentrou seu estudo na região da cidade de São José dos Pinhais.
Logística, Comércio Internacional e os Portos Secos
Segundo Novaes (2007, p.35) Logística é:
“o processo de planejar, implementar e controlar de maneira eficiente
o fluxo e a armazenagem de produtos, bem como os serviços e
informações associados, cobrindo desde o ponto de origem até o ponto
de consumo, com o objetivo de atender aos requisitos do consumidor”.
Dornier et al (2000, p.29) apresentam uma ideia mais sucinta afirmando que a Logística é a
“gestão de fluxos entre marketing e produção”. Nesse sentido, a Logística está intrinsicamente
relacionada aos processos que envolvem o ambiente empresarial, e, por sua vez, ao trânsito de
cargas e serviços entre os atores e suas localidades. Como os negócios seguem cada vez mais
circuitos globais, floresce a importância estratégica da Logística dentro das empresas.
Portanto, o comércio internacional e a logística são elementos conectados, objetivando
o desaparecimento de “burocracia, demoras, insegurança, falhas, erros, defeitos, retrabalho e
todas as demais tarefas desnecessárias” (RODRIGUES, 2000, p.98). Segundo Maluf (2000, p.
23), o comércio internacional representa “o intercâmbio de bens e serviços entre países,
resultante das especializações na divisão internacional do trabalho e das vantagens
competitivas dos países”.
As empresas que convivem no mercado mundial estão sujeitas a diferentes
dificuldades nas suas operações internacionais. Se considerar, por exemplo, um processo de
pedido e chegada de materiais importados pode haver interferência das seguintes variáveis
(DORNIER ET AL, 2000):
•
Tempo de entrega;
•
Inconsistência de informações entre o fornecedor e cliente;
•
Operações de armazenagem;
•
Burocracia nas atividades de desembaraço;
Os fatores apontados representam apenas uma fração dos possíveis problemas que podem ser
enfrentados em um processo aduaneiro de nacionalização. Esse panorama pode ser
considerado instável e que muitas vezes gera dificuldades na convivência e “aprendizado do
novo ambiente” (WONGTSCHOWSKI, 2010, p.68). Por outro lado, esses processos podem
ser rotineiros, pois determinadas operações logísticas necessitam que os recursos sejam
disponíveis próximos dos mercados consumidores (CORRÊA, 2001).
Portos Secos
A Seção II do Decreto 6.759 intitulada “Dos Portos Secos” define Portos Secos (PS) como:
“recintos alfandegados de uso público nos quais são executadas operações de movimentação,
armazenagem e despacho aduaneiro de mercadorias e de bagagem, sob controle aduaneiro”
(ROCHA, 2010, p.30). Esses locais são extensões de atividades da Receita Federal cujo
objetivo é processar despacho aduaneiro de importação ou de exportação, para que as cargas
possam dar entrada regular no país.
Segundo dados do Ministério da Fazenda (2011) existem sessenta PS em funcionamento no
Brasil. O Paraná conta com cinco deles, criados para atender demandas específicas segundo
cada localidade. Em Curitiba estão localizados duas unidades, e em Cascavel, Foz do Iguaçu e
Maringá existe um Porto Seco em cada cidade.
Em relação às operações logísticas, nos PS são realizados atividades de movimentação e
armazenagem de materiais. Os PS representam sistemas logísticos que auxiliam as
organizações nos processos aduaneiros, simplificando trâmite documental e operacional, por
estarem situadas em áreas próximas das regiões de produção e consumo. Essa estratégia pode
ser visualizada na figura 1 que relaciona a localização dos PS com os Arranjos Produtivos
Locais (APL) do estado:
Foz do Iguaçu Porto Seco Figura 1: Portos Secos e APLs do Paraná.
Fonte: IPARDES, 2010, adaptado.
Além da localização adjacente aos APL, sinteticamente, os PS otimizam atividades logísticas
que basicamente estão associados a duas dimensões (BALLOU, 2006; BOWERSOX;
CLOSS, 2001; CHRISTOPHER, 2001; DORNIER ET AL, 2000, ROCHA, 2010)
apresentadas no quadro 1:
Dimensões de atuação
Benefícios proporcionados
Centralização de serviços, simplificação de procedimentos documentais,
integração informacional, formação de redes organizacionais, regimes
Empresarial
aduaneiros específicos, serviços portuários com maior valor agregado,
redução do custo portuário (Total Handling Charge – THC), domínio da
carga no local do comprador
Economia em custos na movimentação e armazenagem, segurança
Logística
patrimonial, flexibilidade operacional, melhoria do nível de serviço logístico
internacional, proximidade do recinto entre exportadores e importadores,
integração inter e multimodal de transporte
Quadro 1: Benefícios proporcionados por operações em Porto Seco.
As informações apresentam um breve resumo dos fatores positivos que os PS oferecem. Com
um olhar mais sistêmico, observa-se o importante papel exercido dos PS junto a Gestão da
Cadeia de Suprimentos, Supply Chain Management (SCM) (LEE; WHANG, 2002). A Gestão
da Cadeia de Suprimentos integra os fluxos de materiais, de informações e de recursos
financeiros em uma rede de empresas ou organizações da zona de origem até o destino
(MORINI; PIRES, 2005). O conceito busca melhorar o desempenho dos atores presentes na
cadeia, maximizando as sinergias entre os nós da rede.
Redes
Segundo Casarotto Filho e Pires (2001) as redes empresariais ou organizacionais são
importantes agentes para o desenvolvimento econômico local. Para Do Nascimento (2004)
apud Swan e Watson (1998) as redes são caracterizadas por atores interconectados, por um
fluxo de trocas, e por objetivos de operação e controle que formalizam o perímetro de atuação
sistêmico e estável entre as entidades ou atores da rede. Então, nas redes existem
compartilhamentos de trocas materiais e imateriais que podem alavancar a economia de uma
localidade com “suporte pluridimensional, multinível, onde a competência é fruto de diálogo
e tomada de decisões conjuntas pelos grupos de atores envolvidos” (ROSSETO, 2000, p.9).
Em uma atividade de comércio internacional, por exemplo, existe uma rede composta de
relações entre:
•
Governo e operador portuário;
•
Empresas exportadoras e importadoras;
•
Empresas prestadoras de serviços gerais (hospedagem, alimentação, etc.)
•
Instituições ambientais;
•
Armadores portuários, seguradoras e demais empresas de operações.
Por esse aspecto, as redes são ambientes de intensas de relações entre atores e organizações
que desfrutam do compartilhamento de recursos e informações. As redes abrigam
relacionamentos de dimensões socioeconômicas, legais e técnicas, de planejamento e de
conhecimento (DO NASCIMENTO, 2009). Para Wongtschowski (2010) essas relações
constituem importantes pilares para o desenvolvimento local com uma integração entre
empresas, instituições e força de trabalho, formando um sistema cooperativo que denotam um
retrato diferenciado para cada região.
Estudo de caso: Simulação de operação de Porto Seco em São José dos Pinhais/PR
O estudo foi realizado em um Operador Logístico situado em São José dos Pinhais que opera
com cargas de uma indústria multinacional da linha branca. Com sólida infraestrutura de
armazenagem e especialização funcional, seu portfólio concentra mais de 40% de operações
logísticas em cargas importadas.
Considerando a experiência empresarial do operador e a vocação local pelo setor de serviços e
oportunidades de negócios (observado na revisão da literatura); o estudo propõe uma
simulação de operação de Porto Seco.
Inicialmente apresenta-se o escopo de condições físico-financeiras de armazenagem de cargas
na tabela 1 abaixo:
Tabela 1: Dados para simulação de operações de Porto Seco.
Operações de Porto Seco – Operador Logístico: Mastercargas
Operações: Recebimento, Estocagem, Separação e Expedição de Eletrodomésticos
Operação
Unidade
Valor (R$ ou %)
1. Armazenagem
m³
6,50
2. Movimentação mecânica
m³
6,00
3. Movimentação manual
m³
9,00
4. Unitização
Pallet
2,20
5. Seguro “ad valorem”
Período quinzenal
0,12%
6. Estoque de contâiner
Diária⁄Volume
3,75
7. Trâmite documental
Nota Fiscal
9,75
Obs.: especificações básicas para simulação.
A partir dos parâmetros especificados acima, a simulação da operação de armazenagem de
importação é representada na tabela 2:
Tabela 2: Tabela de simulação de operação de Porto Seco.
Simulação - Operação de Porto Seco (processo de armazenagem)
Produto: Microondas (Padrão Inox Importado) – Modelo: MEC 41 220V.
Pallet: 24 caixas (lastro c/6 camadas); Capacidade por container = 544 caixas.
Operação atual
Por pallet
Operação de porto seco
Por pallet
Armazenagem do pallet
R$29,25
Armazenagem do pallet
R$29,25
Movimentação mecânica
R$14,62
Movimentação mecânica
R$14,62
Movimentação manual
R$4,50
Movimentação manual
R$4,50
Palletização com filme strech
R$2,20
Palletização com filme strech
R$2,20
Seguro ad valorem
R$3,77
Seguro ad valorem
R$3,77
*Armazenagem do container - Canal Verde
por 3 dias
R$35,43
*Liberação dos documentos por container
0,16% do CIF (Mercadoria + Frete + seguro)
R$5,25
Faturamento total por
pallet/quinzena
R$54,34
Faturamento total por pallet / quinzena
R$95,02
Operação de 300 pallets
R$16.302,93
Operação de 300 pallets
R$ 28.506,93
Diferenças por períodos
Diferença por quinzena
R$12.204,00
Diferença / mês
R$24.408,00
Diferença / Anual
R$292.896,00
Aumento do faturamento por carga
unitizada (pallet)
57,18%
A simulação apresentou um notável ganho financeiro sobre um processo de importação. Além
do fator econômico, outras vantagens podem ser apontadas como: recolhimento de imposto
somente quando a carga for realmente vendida, possibilidade de receber e consolidar cargas
de forma escalonada, redução do transit time de entrega devido à armazenagem próxima do
local de produção ou de consumo, agilidade no processo de desembaraço aduaneiro,
possibilidade de transformar o ativo material (estoque) em uma estratégica imaterial (táticacomercial), além de potencializar a sinergia entre empresas, governo e mercado que são nós
primordiais nesse tipo de rede. Grande parte desses fatores qualitativos se alinham com o
modelo de consignação de materiais importados em Porto Seco, na pesquisa realizada por
Morini e Pires (2005).
Considerações finais
O estudo percorreu caminhos de diferentes áreas do conhecimento, de conceitos técnicos de
Logística ao campo do Desenvolvimento Regional. Essa interdisciplinariedade ficou
demonstrada no estudo de caso que associou práticas de processos logísticos com ativos
imateriais que compõe a importação de produtos como a rede de atores envolvidos e o reflexo
na economia local.
A simulação de operação coloca em evidência a viabilidade técnica e operacional de um Porto
Seco para a otimização das atividades logísticas internacionais. Concomitantemente, essa
estratégica logística incrementa o desenvolvimento local com os negócios, pois o “comércio é
importante não apenas pelo acesso a bens, como também a tecnologias, e é assim, um dos
mecanismos mais importantes na estrutura internacional, por colocar os diversos países em
um sistema de mútua dependência” (SWART, 2007, p.10). Como sugestão de trabalhos
futuros, entende-se que se poderia potencializar essa estratégia logística como um ativo
voltado à “logística enxuta” das empresas em sua gestão da cadeia de suprimentos.
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