De Sertão Santana a Nova York
SOZINHA EM SÃO PAULO
Um apartamento para muitas promessas
Na sala, reunião de gaúchas:
Aline Thielke, de Condor,
Patrícia Rosa, de Campo
Novo, Simone Vargas,
de Panambi, e Carline
Hamerski, de Cerro Largo,
papeando com Luana.
São Paulo, 9 de julho
Há brigadeiros do tamanho de uma
bola de pingue-pongue, mas Luana
não vê enquanto circula pelas gôndolas. Passa reto pelo balcão dos doces. É
seu primeiro dia sozinha em São Paulo,
e a vida de adulta pedia, antes de mais
nada, comida na geladeira. A primeira
coisa a entrar no carrinho é queijo, seguido de um pé de alface. Tomate ela
pega, olha e deixa de lado. Hesita entre um corte de filé mignon e a carne
etiquetada “bife milanesa embalagem
familiar”.
Normalmente, ligaria para a mãe.
Dessa vez, não. Faria tudo sozinha. A
carne fica para outra vez. Massa, papel higiênico, amaciante, silicone para
os cabelos e base para as unhas. Vai e
volta até encontrar a caixa de caldo de
galinha.
Seguem ainda café solúvel e pão (“O
que eu devo eliminar, mas tem ferro e
cálcio, só coisa boa”). No caixa, lembra
do leite e do cereal, pelo qual já havia
passado duas vezes. Então, surge algo
que lhe parece ainda mais inédito do
que a carne fatiada em pacotes ou o
hambúrguer de microondas:
– Não tem fila na minha cidade
– compara Luana, acostumada a fazer
compras no mercado Drechsler ou no
supermercado Woltmann, em Sertão
Santana.
Em menos de 10 minutos, deixa o
supermercado do shopping, atravessa a
passarela sobre a Avenida Eusébio Matoso e chega ao prédio onde mora. Ao
abrir a porta do apartamento, encontra
14 DONNA ZH 30 DE SETEMBRO DE 2007
mais uma moradora, a gaúcha Aline
Thielke, 17 anos, de Condor.
– Prazer, sou a Luana.
Em frente à geladeira, pergunta:
– Posso pegar um espacinho para
colocar as minhas coisas?
Ao fechar a geladeira, aparecem as
regras dali em diante. Em um papel,
preso com um imã:
– Lavar louça e secá-la.
– Pôr nome na comida.
– Não roubar.
– Colaborar com a limpeza do apê.
– Tirar os lixos.
– Não gritar
– Fechar a porta.
Anoitece em São Paulo. As outras
cinco moradoras estão no apartamento – até porque a agência determina
que ninguém chegue em casa depois
das 22h.
Já é quase hora do pijama, e Luana
ainda não desfez a mala nem sabe ao
certo onde vai dormir. Acaba dividindo
o quarto menor com Carline Hamerski, de Cerro Largo, acomodando-se
no beliche de cima, que estava vago.
Mas quase não dorme. Medo de cair
das alturas.
São Paulo, 10 de julho
São 8h15min, e Luana espera sentada em frente à porta do apartamento. Levanta, abre a porta e espia
o elevador. Dali a instantes encontrará
a modelo de dois andares acima para
Depois de nove horas de trabalho,
Luana retorna ao apartamento. Quando abre a porta, encontra a casa cheia
e mais uma moradora. Recém-chegada de Ribeirão Preto, Michelle Cauchick, 16 anos, havia ido a São Paulo
para fazer seu primeiro book. Parada
no meio da cozinha, com um saco de
verduras fechado a vácuo numa mão e
um pequeno pote na outra, pergunta:
– É sal?
Carline a socorre: sim, é sal. É ela
quem cuida das plantas do apartamento, lembra de dizer que deixem a
janela aberta para arejar a casa ou que
evitem de colocar o pão direto na mesa por causa dos micróbios. Aproximase de Michelle e explica:
– E tem um jogo americano aqui.
As garotas têm visita, a modelo Gracie Winck, 19 anos, gaúcha de Santo
Augusto, veterana com cinco anos de
profissão. O papo corre animado na sala, mas Luana quase não participa. Está quieta, com cara de sono. Mais tarde, toca o telefone: alguém da agência
noticia um casting na manhã seguinte. Luana anota o endereço. Não sabe
onde é, e começa a ficar nervosa. Em
São Paulo o idioma não é problema,
mas os caminhos parecem mais complicados de achar do que no Japão.
Sente falta daquelas placas grandes
indicando a direção certa, mesmo que
em inglês. A vontade de chorar cresce
quando lê o recado que a amiga Raíssa, de Sertão Santana, havia deixado
no Orkut. Luana liga para os pais:
– Tem um casting amanhã, e não
sei onde fica.
– Calma, Luana – diz Sergio. – Nesses primeiros dias, vai sempre de táxi.
Não se preocupa com o dinheiro.
O choro não pára. Patrícia vai até o
quarto onde está Luana e se dispõe a
ajudar. Quem pode dá colo para a outra, essa é uma regra não escrita do
apartamento. Mesmo a novata Michelle faz sua parte: conta coisas engraçadas até Luana começar a rir.
irem juntas para um trabalho.
Luiza Windberg, gaúcha de Estrela,
17 anos, aparece no horário combinado, às 8h30min, com o endereço da
loja onde farão as fotos anotado em
um papel. No táxi, conta que estava
de partida para uma temporada de
dois meses no Japão e outros três em
Paris, onde sua mãe iria encontrá-la.
– Que legal! – anima-se Luana.
– Minha mãe ainda não tem passaporte.
Às 9h05min, elas são as primeiras a
chegar à loja, quase na esquina com a
badalada Oscar Freire, mas esse detalhe
Luana só notará na hora de ir embora.
Dão início ao ritual que toda modelo
aprende rápido: esperar sem reclamar.
A dupla de cabeleireiros e maquiadores chega para fazer companhia na
espera. Luana lixa as unhas, enquanto Luiza abre o romance A Distância
entre Nós, de Thrity Umrigar. Um dos
funcionários da loja oferece revistas, e as duas dispensam exemplares
de Vogue e Elle. Preferem Caras. Às
10h41min chega o resto da equipe e
a função começa. Às 11h25min, com
um rabo-de-cavalo bem puxado e
maquiagem leve, equilibrando-se em
sapatos de salto um número menor
que o dela, Luana posa para a primeira foto. Até as 18h, ela e Luiza repetirão pelo menos 40 vezes o percurso
do vestiário ao estúdio.
Do cachê, serão descontadas a porcentagem da agência e as despesas
pendentes. Na dúvida, Luana conta
sempre com a metade do valor para A primeira incursão por conta
própria ao supermercado
não gastar mais do que deve.
ZERO HORA
A bolha no calcanhar esquerdo começa a incomodar Luana. Caminhou
do apartamento à agência, depois ao
restaurante, seguindo para o casting.
Na volta para casa, parada para conferir as liquidações das lojas da 34th
Street. Enquanto Nathi e Patrícia
conferem as promoções, Luana caminha meio a esmo.
– O que você quer comprar, Lu?
– pergunta Michael.
– Nada. Quero economizar ao máximo – ela responde. – Se eu precisar de alguma coisa, depois vocês me
ajudam a escolher.
Todo mundo havia explicado para
Luana que uma novata pode fazer
dinheiro no Japão, mas que, em Nova York, o grande objetivo é ganhar
experiência, participar da semana de
moda e ficar mais conhecida. Provavelmente vai sair de lá com dívidas.
Quer poupar. Inclusive a semanada
de US$ 100 que a agência fornece
– e credita na conta da modelo.
Nathalie deixa a loja com uma blusa e um vestido. Luana apenas namorou uma bolsa preta.
Luana procura no dicionário de bolso como se diz “estranho” em inglês.
Conheceu as companheiras de apartamento, a canadense Simona McIntyre
e a americana Elaine Kenny. Simona
é vegetariana e só come alimentos
naturais, Luana quer perguntar se ela
não se sente estranha nos almoços de
família. Também usa o dicionário para
ler a Vogue, seguindo o conselho de
Patrícia: é bom ler sobre moda e os
profissionais com quem ela pode vir a
trabalhar.
Abre o laptop, conversa com os pais,
sente o choro chegar. Conta do contrato, chama Patrícia para explicar melhor. Desliga o computador, certa de
que eles não notaram que ela chorava.
Agradece o convite de Patrícia e Nathi para jantar fora, prefere comer um
miojo em casa. Não pára de chorar.
Simona fala com ela, mas Luana nem
pega o dicionário:
– Sorry, I don´t speak English.
Chora ao deitar na cama. É muita
coisa para aprender em pouco tempo:
inglês, como usar o metrô, se localizar
nas ruas... Mas agora só faltam 59 dias.
Pausa para um
lanche rápido na
equipada cozinha do
apartamento. Luana
se encantou com a
beleza dos talheres
ZERO HORA
30 DE SETEMBRO DE 2007 DONNA ZH 19
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